<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>sf_fantasy</genre><author><first-name>Robert</first-name><last-name>Jordan</last-name></author><book-title>O senhor do caos</book-title><date>2018</date><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><src-lang>en</src-lang><translator><first-name>Mariana</first-name><last-name>Serpa</last-name></translator><translator><first-name>Rafael</first-name><middle-name>Miranda</middle-name><last-name>Rodrigues</last-name></translator><sequence name="A Roda do Tempo" number="6"/></title-info><src-title-info><genre>sf_fantasy</genre><author><first-name>Robert</first-name><last-name>Jordan</last-name></author><book-title>Lord of Chaos</book-title><date>1994</date><lang>en</lang></src-title-info><document-info><author><first-name/><last-name/></author><program-used>FictionBook Editor Release 2.6, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>2018</date><id>a2e29ff6-161d-4e76-aebe-7f291b29f979</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><publisher>Intr�nseca</publisher><year>2018</year></publish-info></description><body><title><p>Robert Jordan</p><p>O senhor do caos</p></title><epigraph><p>Para Betsy</p></epigraph><epigraph><poem><stanza><v>Cantam os le�es, os montes fogem em rol.</v><v>De dia brilha a lua, de noite vem o sol.</v><v>Mulher cega, homem surdo, corvo atroz.</v><v>Vem, Senhor do Caos, reinar sobre n�s.</v></stanza></poem><text-author>(cantiga infantil ouvida na Grande Arvalon, da Quarta Era)</text-author></epigraph><section><image l:href="#16"/><empty-line/></section><section><title><p>PR�LOGO</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A primeira mensagem</p></title><p>Demandred saiu para as encostas negras de Shayol Ghul, e a passagem, um buraco na trama da realidade, tremeluziu e desapareceu. Nuvens cinzentas se revolviam acima, encobrindo o c�u como um mar invertido de ondas cinzentas morosas que arrebentavam em volta do pico oculto da montanha. Abaixo, estranhas luzes lampejavam pelo vale �rido, em tons azuis e vermelhos desbotados que n�o eram suficientes para afastar as trevas sombrias encobrindo sua fonte feito uma mortalha. Rel�mpagos subiam pelas nuvens, e trov�es lentos ribombavam. Ao longo da encosta, vapor e fuma�a se elevavam por vulc�es isolados, alguns t�o pequenos quanto a m�o de um homem, outros enormes o bastante para engolir dez camaradas.</p><p>Na mesma hora, soltou o Poder �nico � e com a mesma delicadeza que o Poder sumiu, esvaneceu-se tamb�m a agudez de sentidos que tornava tudo mais claro, mais penetrante. A aus�ncia de <emphasis>saidin</emphasis> deixava um vazio, por�m, naquele lugar, apenas um tolo se arriscaria a sequer parecer disposto a canalizar. Al�m do mais, apenas um tolo desejaria ver, farejar ou sentir com clareza as coisas daquele lugar.</p><p>No tempo que era agora conhecido como Era das Lendas, aquele lugar fora uma ilha id�lica em um mar tranquilo, lugar predileto dos apreciadores de paisagens r�sticas. Apesar do vapor, o frio era cortante. Demandred n�o se permitia senti-lo, mas o instinto o fazia apertar contra o corpo o manto de veludo forrado de pele. Uma leve bruma revelava sua respira��o, quase invis�vel antes de ser tragada pelo ar. Poucas l�guas a norte dali o mundo era puro gelo, mas Thakan�dar era sempre seca como um deserto, por mais que vivesse em um permanente inverno.</p><p>Havia �gua, por assim dizer, um arroio de �guas negras que corria pela encosta rochosa ao lado de uma ferraria de teto cinza. Martelos retiniam l� dentro, e luz branca cintilava pelas janelas estreitas a cada repique. Uma mulher vestida em andrajos estava agachada, encostada na parede de pedras brutas da ferraria, parecendo desesperan�osa, com um beb� aninhado nos bra�os e uma menina comprida afundando o rosto em suas saias. Prisioneiros capturados em uma invas�o �s Terras da Fronteira, sem d�vida. Mas eram muito poucos; os Myrddraal deviam estar rangendo os dentes, incomodados. Suas espadas sempre falhavam depois de algum tempo e tinham que ser substitu�das, apesar de as incurs�es �s Terras da Fronteira terem sido reduzidas.</p><p>Um dos forjadores apareceu, um homem robusto e de movimentos lentos que parecia ter sido esculpido de uma montanha. Os forjadores n�o estavam exatamente vivos: caso se afastassem de Shayol Ghul, transformavam-se em pedra ou p�. Tamb�m n�o eram exatamente ferreiros; n�o faziam nada al�m das espadas. Com as duas m�os, o sujeito segurava uma l�mina de espada presa em pin�as compridas � a l�mina j� estava temperada, p�lida feito neve sob a lua. Vivo ou n�o, o forjador tomou cuidado ao mergulhar o metal reluzente no arroio escuro. Qualquer fragmento de vida que possu�a poderia desaparecer ao encostar naquela �gua. Quando o metal emergiu outra vez, estava negro feito a morte. Por�m, o trabalho ainda n�o havia sido terminado. O forjador voltou para dentro arrastando os p�s, e de s�bito uma voz masculina soltou um grito desesperado.</p><p>� N�o? N�o! N�O!</p><p>Ouviu-se um ganido, e o som foi definhando sem perder a intensidade, como se o sujeito que gritara fosse arrastado a uma dist�ncia inimagin�vel. A espada estava pronta.</p><p>Outro forjador apareceu � talvez o mesmo, talvez outro � e ergueu a mulher com um pux�o. Mulher, beb� e crian�a come�aram a choramingar, mas o beb� foi arrancado do colo da m�e e enfiado nos bra�os da menininha. Por fim, a mulher encontrou um resqu�cio de resist�ncia. Aos solu�os, come�ou a chutar e arranhar desesperadamente. O forjador parecia se abalar tanto quanto uma pedra. Os berros da mulher cessaram assim que ela entrou. Os martelos recome�aram a retinir, abafando os solu�os das crian�as.</p><p>Uma espada pronta, e duas por vir. Demandred nunca tinha visto menos de cinquenta prisioneiros aguardando para entregar as crias ao Grande Senhor das Trevas. Os Myrddraal deviam estar mesmo rangendo os dentes, incomodados.</p><p>� Voc� est� remanchando depois de ser convocado pelo Grande Senhor? � A voz era �spera feito couro podre.</p><p>Demandred virou-se devagar � como � que um Meio-homem se atrevia a dirigir-se a ele naquele tom? �, por�m as palavras de repreens�o morreram na boca. N�o por causa do olhar sem olhos da criatura de rosto p�lido � o olhar de um Myrddraal metia medo em qualquer homem, mas ele extirpara seu medo havia muito tempo. Foi pela pr�pria criatura coberta de negro. Todos os Myrddraal tinham a altura de um homem alto, eram uma c�pia serpeante de um homem, e todos pareciam ter sa�do do mesmo molde. Aquele era cerca de uma cabe�a mais alto que o usual.</p><p>� Vou lev�-lo ao Grande Senhor � anunciou o Myrddraal. � Sou Shaidar Haran.</p><p>A criatura deu meia-volta e come�ou a subir a montanha com seu caminhar fluido, feito uma serpente. A capa retinta permanecia estranhamente im�vel, sem a menor ondula��o.</p><p>Demandred hesitou antes de segui-lo. Os Meios-homens sempre tinham nomes na l�ngua enrolada dos Trollocs. �Shaidar Haran� vinha do idioma que o povo agora denominava L�ngua Antiga. Significava �M�o das Trevas�. Outra surpresa, e Demandred n�o gostava de surpresas, sobretudo em Shayol Ghul.</p><p>A entrada para a montanha poderia ser confundida com um dos vulc�es, � diferen�a de que n�o emitia vapor ou fuma�a. A abertura era ampla o bastante para a passagem de dois homens lado a lado, mas o Myrddraal manteve-se � frente. Logo na entrada, o caminho j� formava um declive � um t�nel de piso gasto e liso feito azulejos polidos. O frio foi diminuindo conforme Demandred seguia as largas costas de Shaidar Haran, cada vez mais para baixo, aos poucos substitu�do por um calor crescente. Demandred o percebia, mas n�o se deixava atingir. Uma luz p�lida emanava da pedra e inundava o t�nel, mais brilhante que o crep�sculo incessante l� fora. Do teto despontavam protuber�ncias pontudas e serrilhadas, dentes de pedra prontos para se fecharem, os dentes do Grande Senhor para dilacerar os traidores e infi�is. Sem d�vida, n�o eram forma��es naturais, por�m eram eficazes.</p><p>De s�bito, Demandred notou algo. Todas as vezes que percorrera esse trajeto, os aguilh�es quase ro�avam o topo da cabe�a. Daquela vez, havia um espa�o de pelo menos duas m�os entre eles e a cabe�a do Myrddraal. Aquilo o surpreendeu. N�o o fato de a altura do t�nel estar diferente � o estranho era costumeiro, por ali �, e sim de ter sido dado um espa�o a mais ao Meio-homem. O Grande Senhor emitia avisos tanto aos homens quanto aos Myrddraal. Aquele espa�o extra era um lembrete.</p><p>O t�nel de repente se abria em uma ampla sali�ncia que dava para um lago de pedras fundidas, vermelhas rajadas de preto, onde chamas da altura de um homem dan�avam, se extinguiam e nasciam outra vez. N�o havia teto, apenas um buraco imenso se erguendo montanha acima at� um c�u que n�o era o c�u de Thakan�dar. Aquele c�u fazia o de Thakan�dar parecer normal, com as nuvens estranhamente estriadas correndo feito raios, como se conduzidas pelos piores ventos que o mundo j� vira. Os homens chamavam aquele lugar de Po�o da Perdi��o, e poucos tinham no��o de como o nome era apropriado.</p><p>Mesmo depois de tantas visitas � e a primeira fora em um passado de bem mais de tr�s mil anos �, Demandred sempre sentia um pavor reverente. Ali, conseguia sentir a Fenda � o antiqu�ssimo buraco perfurado na pris�o onde o Grande Senhor jazia desde o momento da Cria��o. Ali, a presen�a do Grande Senhor o inundava. Fisicamente, o lugar ficava t�o distante da Fenda quanto qualquer outro no mundo, mas ali o Padr�o parecia mais fino, o que permitia que fosse sentido.</p><p>Demandred viu-se perto de abrir um sorriso como nunca estivera antes. Como eram tolos os que haviam se oposto ao Grande Senhor. Sim, a Fenda ainda estava bloqueada, mesmo que de forma mais t�nue do que quando o Grande Senhor despertara de seu longo sono e se libertara de sua pris�o. Bloqueada, por�m maior do que quando ele despertara. Ainda n�o t�o grande quanto na �poca em que Demandred fora jogado l� com seus companheiros, no fim da Guerra do Poder, por�m um pouco maior a cada visita. Logo, o bloqueio seria desfeito, e o Grande Senhor estenderia a m�o outra vez por sobre a terra. Logo, chegaria o Dia do Retorno. E ele governaria o mundo pelo restante dos tempos. Abaixo do Grande Senhor, claro. E com os outros Escolhidos que sobrevivessem, certamente.</p><p>� Pode se retirar agora, Meio-homem.</p><p>N�o queria a criatura ali para ver o �xtase tomando conta dele. O �xtase e a dor.</p><p>Shaidar Haran n�o se mexeu.</p><p>Demandred abriu a boca� e uma voz explodiu em sua cabe�a.</p><p>DEMANDRED.</p><p>Chamar aquilo de voz era como chamar uma montanha de seixo. Aquilo quase esmagou o interior de seu pr�prio cr�nio, e ele foi completamente arrebatado. Tombou de joelhos. O Myrddraal continuava assistindo, impass�vel, mas apenas uma parte sua era capaz de notar a criatura, com aquela voz invadindo seu c�rebro.</p><p>DEMANDRED. COMO VAI ESTE MUNDO?</p><p>Nunca sabia ao certo quanto o Grande Senhor sabia do mundo. A ignor�ncia o surpreendia tanto quanto o conhecimento. Por�m n�o tinha d�vidas a respeito do que o Grande Senhor queria ouvir.</p><p>� Rahvin foi morto, Grande Senhor. Ontem. � Sentiu dor. Uma euforia t�o forte logo se tornava dor. Seus bra�os e pernas se contra�ram. Estava suando. � Lanfear desapareceu sem deixar rastros, assim como Asmodean. E Graendal avisou que Moghedien n�o foi encontr�-lo, como haviam combinado. Tamb�m ontem, Grande Senhor. N�o acredito em coincid�ncias.</p><p>OS ESCOLHIDOS EST�O DEFINHANDO, DEMANDRED. OS FRACOS SUCUMBEM. QUEM ME TRAIR, MORRER� A MORTE FINAL. ASMODEAN, ESMAGADO PELA PR�PRIA FRAQUEZA. RAHVIN, MORTO PELO PR�PRIO ORGULHO. ELE SERVIU BEM, MAS NEM MESMO EU POSSO SALV�-LO DO FOGO DEVASTADOR. NEM MESMO EU POSSO CAMINHAR FORA DO TEMPO. Por um instante, uma ira terr�vel apossou-se daquela voz assustadora, e� seria frustra��o? Um instante apenas. MORTO POR MEU ANTIGO INIMIGO, O QUE CHAMAM DRAG�O. VOC� USARIA O FOGO DEVASTADOR A MEU SERVI�O, DEMANDRED?</p><p>Demandred hesitou. Uma gota de suor deslizou meia polegada por seu rosto; pareceu ter levado uma hora para escorrer. Durante a Guerra do Poder, ambos os lados passaram um ano usando fogo devastador. At� descobrirem as consequ�ncias. Sem acordo nem tr�gua � jamais houvera tr�gua, muito menos clem�ncia �, os dois lados simplesmente pararam. Naquele ano, cidades inteiras pereceram sob o fogo devastador, centenas de milhares de tramas do Padr�o foram queimadas, a pr�pria realidade quase desfiou, mundo e universo evaporando em cerra��o. Se o fogo devastador fosse usado outra vez, poderia n�o restar um mundo para governar.</p><p>Outra coisa o deixou incomodado. O Grande Senhor j� sabia como Rahvin morrera. E parecia saber mais sobre Asmodean do que ele.</p><p>� Como ordenar, Grande Senhor, assim ser�. � Seus m�sculos podiam estar tr�mulos, mas sua voz estava firme. A pedra quente come�ava a formar bolhas em seus joelhos, mas a carne poderia muito bem ser de outra pessoa.</p><p>ASSIM SER�.</p><p>� Grande Senhor, � poss�vel destruir o Drag�o. � Um homem morto n�o conseguiria manejar o fogo devastador, e talvez ent�o o Grande Senhor n�o visse mais necessidade disso. � Ele � fraco e ignorante, e sua aten��o vive dispersa em dezenas de dire��es. Rahvin era um imbecil vaidoso. Eu�</p><p>VOC� SERIA NAE�BLIS?</p><p>A l�ngua de Demandred congelou. Nae�blis. Aquele que se postava apenas um degrau abaixo do Grande Senhor, comandando todos os outros.</p><p>� Eu desejo apenas servi-lo, Grande Senhor, da forma que puder. � Nae�blis.</p><p>ENT�O ESCUTE E SIRVA. OU�A QUEM VAI MORRER E QUEM VAI VIVER.</p><p>Demandred gritou quando a voz o atingiu. L�grimas de alegria correram por seu rosto.</p><p>Im�vel, o Myrddraal o observava.</p><empty-line/><p>� Fiquem quietas. � Nynaeve sacudiu a longa tran�a por cima do ombro. � N�o vai dar certo se voc�s ficarem se remexendo feito crian�as com coceira.</p><p>Do outro lado da mesa inst�vel, nenhuma das mulheres parecia muito mais velha do que ela, embora tivessem cerca de vinte anos a mais, e nenhuma estava de fato se remexendo, mas o calor deixava Nynaeve nervosa. O quartinho sem janelas estava abafado. Ela pingava de suor, enquanto as outras pareciam frescas e secas. Leane, com um vestido doman�s de seda azul excessivamente fina, apenas deu de ombros � a mulher alta e de pele acobreada possu�a um estoque aparentemente infind�vel de paci�ncia. Quase sempre. J� Siuan, serena e robusta, quase nunca tinha paci�ncia para oferecer.</p><p>Siuan grunhiu e ajeitou as saias outra vez, irritada. Em geral usava roupas lisas, por�m esta manh� vestia um delicado linho amarelo com bordado taireno labir�ntico envolvendo o decote que por pouco n�o era cavado demais. Os olhos azuis eram frios feito a �gua do fundo de um po�o. Frios como seria a �gua no fundo de um po�o, se o tempo n�o estivesse completamente doido. Os vestidos podiam ser diferentes, mas os olhos n�o.</p><p>� N�o vai funcionar mesmo � vociferou ela. Seu modo de falar tamb�m permanecia o mesmo. � N�o d� para remendar um casco com o barco todo queimado. Bom, � perda de tempo, mas eu prometi que tentaria, ent�o vamos logo com isso. Leane e eu temos trabalho a fazer.</p><p>As duas comandavam a rede de olhos-e-ouvidos para as Aes Sedai ali em Salidar, as agentes que divulgavam os informes e rumores a respeito do que acontecia no mundo.</p><p>Nynaeve alisou as pr�prias saias para se acalmar. Seu vestido era de l� branca lisa com sete faixas coloridas na bainha, uma para cada Ajah. Um vestido de Aceita. Aquilo a incomodava mais do que poderia ter imaginado. Preferia estar usando o vestido de seda verde que guardara na bolsa. Estava disposta a admitir, pelo menos para si mesma, que tomara gosto por roupas refinadas, mas a escolha daquele vestido em particular fora apenas pelo conforto � era fino e leve �, e n�o porque verde era uma das cores preferidas de Lan. N�o mesmo. Devaneios do pior tipo. Uma Aceita que usasse qualquer coisa que n�o o vestido branco com faixas logo descobriria que estava <emphasis>muito</emphasis> abaixo das Aes Sedai. Decidida, afastou todos aqueles pensamentos. N�o estava ali para se preocupar com roupinhas frescas. Ele tamb�m gostava de azul. N�o!</p><p>Sutilmente, usou o Poder �nico para sondar as duas mulheres, primeiro Siuan, depois Leane. De certa forma, n�o estava canalizando. N�o conseguia canalizar nem um fiapo se n�o estivesse irritada, sequer sentia a Fonte Verdadeira. No fim das contas, dava no mesmo. Finos filamentos de <emphasis>saidar</emphasis>, a metade feminina da Fonte Verdadeira, perpassavam as duas mulheres conforme Nynaeve tecia, s� que n�o se originavam dela.</p><p>No pulso esquerdo, Nynaeve usava um bracelete fino, uma tira simples de prata segmentada. Quase toda de prata, de qualquer forma, e de origem especial, embora isso n�o fizesse diferen�a. Era a �nica joia que usava al�m do anel da Grande Serpente. As Aceitas eram desencorajadas a usar muitos adornos. Um colar do mesmo material envolvia o pesco�o da quarta mulher, sentada em um banquinho encostado na parede de reboco grosseiro, as m�os cruzadas no colo. Usava l� grossa de fazendeiro e tinha o rosto rechonchudo e cansado das pessoas do campo, mas sequer suava. Tamb�m n�o movia um s� m�sculo, mas seus olhos escuros observavam tudo. Nynaeve via o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> que envolvia a mulher, mas era ela pr�pria quem conduzia a canaliza��o. Bracelete e colar criavam um elo bastante similar � forma como as Aes Sedai se conectavam para unir poderes. Segundo Elayne, a explica��o envolvia �matrizes completamente id�nticas�, mas a partir dali a explica��o se tornava incompreens�vel. A verdade era que Nynaeve achava que Elayne n�o entendia nem a metade do que fingia entender. Ela mesma n�o entendia nada, a n�o ser o fato de que era capaz de sentir todas as emo��es da outra mulher � e tamb�m de sentir a pr�pria �, em um canto de sua mente, e ela detinha o controle de toda a <emphasis>saidar</emphasis> que a outra podia manipular. �s vezes, achava que teria sido melhor se aquela mulher no banquinho estivesse morta. Seria mais simples, sem d�vida. Menos complicado.</p><p>� Alguma coisa foi rasgada ou cortada � resmungou a Aceita, secando distraidamente o suor do rosto.</p><p>Era apenas uma vaga impress�o, quase impercept�vel, mas, por outro lado, era a primeira vez que sentia algo al�m de vazio. Poderia ser imagina��o, o desejo desesperado de encontrar alguma coisa, qualquer que fosse.</p><p>� Rompida � explicou a mulher no banquinho. � Esse era o nome do que voc�s hoje chamam de estancar, no caso das mulheres, e amansar, no dos homens.</p><p>Tr�s cabe�as se viraram na dire��o da mulher; tr�s pares de olhos a encararam cheios de f�ria. Siuan e Leane tinham sido Aes Sedai at� serem estancadas durante o golpe � Torre Branca, que pusera Elaida no Trono de Amyrlin. Estancadas. Uma palavra que provocava arrepios. Nunca mais poderiam canalizar. E sempre se lembrariam disso, teriam consci�ncia da perda. Sentiriam a Fonte Verdadeira eternamente, sabendo que jamais poderiam toc�-la outra vez. O estancamento era t�o incur�vel quanto a morte.</p><p>Isso era o que todos acreditavam, ao menos, mas, na opini�o de Nynaeve, o Poder �nico deveria ser capaz de Curar qualquer coisa, exceto a morte.</p><p>� S� fale se tiver algo �til a acrescentar, Marigan � retrucou Nynaeve, com rispidez. � Caso contr�rio, fique quieta.</p><p>Marigan encolheu-se outra vez contra a parede, os olhos faiscantes cravados em Nynaeve. Medo e �dio percorreram o bracelete, o que sempre acabava acontecendo. Os prisioneiros quase nunca gostavam de seus captores, nem mesmo � talvez sobretudo � quando sabiam que mereciam ser presos, e at� mais. O problema era que Marigan tamb�m dissera que o rompimento � o estancamento � n�o podia ser Curado. Ora, a mulher enchia a boca para dizer que na Era das Lendas havia Cura para tudo, a n�o ser para a morte, e que o que hoje a Ajah Amarela chamava de Cura nada mais era do que o trabalho grosseiro e apressado dos campos de batalha. No entanto, sempre que Nynaeve tentava arrancar informa��es mais espec�ficas ou at� um palpite a respeito de como eram os procedimentos, a mulher n�o abria a boca. Marigan sabia tanto sobre Cura quanto Nynaeve sobre o trabalho nas forjas � os ferreiros enfiavam metal no carv�o quente e batiam nele com um martelo. Decerto n�o era o bastante para fazer uma ferradura. Nem para Curar qualquer coisa al�m de um hematoma.</p><p>Remexendo-se na cadeira, Nynaeve observou Leane e Siuan. Passara dias assim, examinando-as sempre conseguia convenc�-las a deixar de lado seu outro trabalho, mas at� ent�o nada descobrira. De s�bito, deu-se conta de que girava o bracelete no pulso. Fosse qual fosse o ganho, odiava permanecer conectada � mulher. A intimidade lhe causava arrepios. <emphasis>Pelo menos posso tentar aprender alguma coisa</emphasis>, pensou. <emphasis>E n�o pode ser pior do que tudo o que j� aconteceu.</emphasis></p><p>Tomando cuidado, abriu o bracelete � era imposs�vel encontrar o fecho sem saber de antem�o onde ele ficava � e entregou-o a Siuan.</p><p>� Coloque isso aqui.</p><p>Perder o acesso ao Poder era ruim, mas precisava fazer isso. E perder as ondas de emo��o era como tomar um banho. Os olhos de Marigan acompanharam o fino aro de metal, hipnotizados.</p><p>� Por qu�? � inquiriu Siuan. � Voc� disse que essa coisa s� funciona�</p><p>� Anda logo, Siuan.</p><p>Siuan a encarou com teimosia � Luz, que mulher obstinada! � antes de fechar o bracelete no pr�prio pulso. Na mesma hora, foi tomada por uma express�o de espanto, depois estreitou os olhos para Marigan.</p><p>� Ela odeia a gente, mas disso eu j� sabia. E sente medo, e� surpresa. O rosto dela n�o revela o menor tra�o, mas a mulher est� chocada at� a raiz dos cabelos. Acho que n�o acreditava que eu tamb�m pudesse usar isto aqui.</p><p>Marigan se remexeu, incomodada. At� ent�o, apenas duas pessoas que sabiam a seu respeito podiam usar o bracelete. Quatro teriam mais chances de fazer perguntas. A mulher parecia cooperar, mas quanto estaria escondendo? O m�ximo poss�vel, Nynaeve tinha certeza.</p><p>Siuan balan�ou a cabe�a, com um suspiro.</p><p>� E eu n�o posso. Deveria conseguir tocar a Fonte a partir dela, n�o � mesmo? Pois �, n�o consigo. Mais f�cil um peixe subir em �rvores. Fui estancada e ponto final. Como � que se tira essa coisa? � A mulher sacudiu o bracelete. � Como � que se tira essa porcaria?</p><p>Com delicadeza, Nynaeve deitou a m�o sobre a de Siuan, por cima do bracelete.</p><p>� Voc� n�o consegue ver? O bracelete n�o funciona para uma mulher incapaz de canalizar, assim como o colar n�o funcionaria. Se eu pusesse um dos dois em uma das cozinheiras, ia ser s� uma joia bonita.</p><p>� Cozinheira ou n�o � retrucou Siuan, impass�vel �, eu n�o consigo canalizar. Fui estancada.</p><p>� Mas existe algo a� para ser Curado � insistiu Nynaeve �, sen�o voc� n�o receberia sensa��o nenhuma vinda do bracelete.</p><p>Siuan deu um pux�o para soltar o bra�o e estendeu o punho.</p><p>� Tire isso de mim.</p><p>Nynaeve aquiesceu, balan�ando a cabe�a. �s vezes Siuan conseguia ser t�o cabe�a-dura quanto qualquer homem!</p><p>Quando estendeu o bracelete para Leane, a domanesa ergueu o pulso com avidez. A antiga Curadora das Cr�nicas fingia aceitar o estancamento t�o bem quanto Siuan � quanto Siuan fingia �, mas nem sempre se sa�a bem nisso. Supostamente, a �nica forma de sobreviver por um longo tempo ap�s o estancamento era encontrar algo mais para preencher a vida, preencher o vazio deixado pelo Poder �nico. Para Leane e Siuan, esse algo era administrar a rede de agentes e, mais importante, tentar convencer as Aes Sedai em Salidar a apoiar Rand al�Thor como o Drag�o Renascido sem deix�-las saber o que estavam fazendo. A quest�o era se isso bastava. A amargura no rosto de Siuan, al�m do prazer no de Leane, quando o bracelete se fechou, denunciavam que talvez nada jamais fosse o bastante.</p><p>� Ah, sim. � Leane tinha um jeito direto de falar. Exceto quando se dirigia aos homens, pelo menos. Era domanesa, afinal, e vinha tentando tirar o atraso do tempo que passara na Torre. � �, ela est� mesmo at�nita, n�o est�? Mas est� come�ando a se controlar. � Por uns instantes, a mulher ficou sentada em sil�ncio, avaliando a figura no banquinho. Marigan a encarava de volta, receosa. Por fim, Leane deu de ombros. � Tamb�m n�o consigo tocar a Fonte. Tentei fazer com que ela sentisse uma picada de pulga no tornozelo. Se tivesse funcionado, ela teria dado algum sinal.</p><p>Este era outro truque do bracelete: provocar sensa��es f�sicas na mulher que portava o colar. Apenas sensa��es, pois o ato n�o gerava qualquer marca ou dano real. Ainda assim, a sensa��o de duas chicotadas bem dadas tinha bastado para convencer Marigan de que era melhor cooperar. A alternativa seria um julgamento r�pido seguido de execu��o.</p><p>Apesar do fracasso, Leane n�o tirou os olhos do bracelete quando Nynaeve o abriu e o fechou outra vez no pr�prio punho. Parecia que ela, ao menos, n�o desistira completamente de algum dia canalizar outra vez.</p><p>Recuperar o acesso ao Poder parecia maravilhoso. N�o tanto quanto abra�ar e ser preenchida por <emphasis>saidar</emphasis>, por�m at� mesmo tocar a Fonte a partir de outra mulher era como duplicar a vida que corria em suas veias. Conter <emphasis>saidar</emphasis> dentro de si despertava a vontade de rir e dan�ar de pura alegria. Supunha que um dia se acostumaria com isso � imaginava que as Aes Sedai plenas com o tempo se acostumassem. Considerando o prazer que lhe trazia, a conex�o com Marigan era um pre�o pequeno a se pagar.</p><p>� Agora que a gente sabe que existe uma chance � anunciou �, acho�</p><p>A porta se abriu com um estrondo, e Nynaeve viu-se de p� antes mesmo de pensar em reagir. Nem tinha cogitado usar o Poder, e teria gritado, se a garganta n�o estivesse completamente travada. N�o foi a �nica, por�m mal percebeu que Siuan e Leane tamb�m se levantaram de um salto. O medo cascateando pelo bracelete pareceu um eco do que ela pr�pria sentia.</p><p>A jovem que fechou a porta de madeira irregular n�o percebeu a como��o que causara. Alta e empertigada em seu vestido de Aceita, os cachos dourados por sobre os ombros, parecia cuspir fogo, de t�o irritada. No entanto, mesmo com o rosto r�gido de raiva e pingando de suor, a jovem conseguia permanecer bonita � era uma das habilidades de Elayne.</p><p>� Voc�s sabem o que elas est�o fazendo? Est�o enviando uma miss�o diplom�tica para� para Caemlyn! E se recusam a me deixar ir! Sheriam me <emphasis>proibiu</emphasis> de tocar outra vez nesse assunto. Me proibiu de sequer <emphasis>falar</emphasis> a respeito!</p><p>� Nunca ensinaram voc� a bater antes de entrar, Elayne? � Nynaeve endireitou a cadeira e sentou-se outra vez. Desabou, na realidade: os joelhos estavam bambos de al�vio. � Achei que <emphasis>voc�</emphasis> fosse Sheriam. � A simples ideia de ser descoberta dilacerava suas entranhas.</p><p>Elayne teve a dec�ncia de corar e pedir desculpas na mesma hora. Ent�o estragou tudo, acrescentando:</p><p>� Mas n�o entendo por que ficaram t�o nervosinhas. Birgitte ainda est� l� fora, e voc�s <emphasis>sabem</emphasis> que ela avisaria caso algu�m se aproximasse. Nynaeve, elas <emphasis>precisam</emphasis> me deixar ir.</p><p>� Elas n�o <emphasis>precisam</emphasis> fazer nada disso � retrucou Siuan com rispidez.</p><p>Ela e Leane tamb�m haviam se sentado de novo. Siuan mantinha as costas eretas, como sempre, mas Leane estava curvada para tr�s, meio bamba, feito os joelhos de Nynaeve. Marigan estava encostada na parede, ofegante, os olhos fechados, as m�os pressionadas com for�a no reboco da parede. Al�vio e o mais completo terror jorravam pelo bracelete em solavancos alternados.</p><p>� Mas�</p><p>Siuan n�o permitiu que Elayne dissesse outra palavra.</p><p>� Voc� acha que Sheriam, ou qualquer uma das outras, vai deixar a Filha-herdeira de Andor cair nas m�os do Drag�o Renascido? Ainda mais depois que sua m�e morreu�</p><p>� Eu n�o acredito nisso! � vociferou Elayne.</p><p>� Voc� n�o acredita que Rand a tenha matado � prosseguiu Siuan, inflex�vel �, e isso � outra coisa. Eu tamb�m n�o. No entanto, se Morgase estivesse viva, teria aparecido e reconhecido Rand como o Drag�o Renascido. Ou, se acreditasse que ele era um falso Drag�o, apesar das provas, estaria organizando a resist�ncia. Nenhuma de minhas informantes ouviu um sussurro sequer a respeito de uma coisa ou outra. Nem em Andor, nem aqui em Altara, nem em Murandy.</p><p>� Ouviram, <emphasis>sim</emphasis> � retrucou Elayne. � Tem uma rebeli�o no oeste.</p><p>� Contra Morgase. Contra. Isso se tamb�m n�o for boato. � A voz de Siuan demonstrava tanta flexibilidade quanto um tronco de carvalho. � Sua m�e est� morta, garota. � melhor admitir e acabar logo com esse per�odo de luto.</p><p>Elayne ergueu a cabe�a, um h�bito muito irritante que tinha � era a imagem da arrog�ncia fria, embora a maioria dos homens, sabe-se l� por qu�, considerasse aquilo atraente.</p><p>� Voc� reclama o tempo todo sobre como demora para entrar em contato com as suas agentes � declarou a garota, muito calma �, mas vou deixar de lado o fato de que pode n�o ter ouvido tudo o que h� para ouvir. Esteja minha m�e viva ou n�o, <emphasis>meu</emphasis> lugar agora � em Caemlyn. <emphasis>Eu </emphasis>sou a Filha-herdeira.</p><p>O bufo alto de desd�m de Siuan fez Nynaeve dar um salto.</p><p>� Voc� j� � Aceita h� tempo o bastante para n�o se perder nessas besteiras.</p><p>Elayne possu�a um potencial que n�o era visto em mil anos. N�o tanto quanto Nynaeve, se a mulher aprendesse a canalizar por vontade pr�pria, mas mesmo assim suficiente para fazer os olhos de qualquer Aes Sedai brilharem. A Filha-herdeira torceu o nariz. Sabia muito bem que, mesmo que j� tivesse tomado posse do Trono do Le�o, as Aes Sedai ainda a manteriam presa no treinamento � pedindo, se fosse poss�vel, ou enfiando-a em um barril, caso necess�rio. Abriu a boca, mas Siuan continuou, sem sequer pausar para respirar:</p><p>� � verdade, ningu�m vai se incomodar se voc� subir logo ao trono. H� muito n�o se v� uma Rainha abertamente declarada Aes Sedai. Mas n�o v�o deixar voc� ir para l� at� ser uma irm� completa, ou mesmo depois. Justamente porque voc� � a Filha-herdeira, em breve ser� a Rainha, n�o v�o deixar que se aproxime do maldito Drag�o Renascido at� saberem quanto podem confiar nele. Sobretudo desde essa� <emphasis>anistia </emphasis>dele. � A boca da mulher se contorceu ao pronunciar a palavra, e Leane fez uma careta.</p><p>Nynaeve tamb�m conteve a l�ngua. Fora criada para temer qualquer homem capaz de canalizar, todos destinados a enlouquecer e aterrorizar quem estivesse � sua volta antes que a metade masculina da Fonte, maculada pela Sombra, lhe trouxesse uma morte terr�vel. Rand, por�m, um sujeito que vira crescer, era o Drag�o Renascido � sua vinda era um sinal de que a �ltima Batalha estava pr�xima, uma batalha na qual ele deveria enfrentar o Tenebroso. O Drag�o Renascido, a �nica esperan�a da humanidade � um homem capaz de canalizar. E pior: os informes revelavam que estava tentando reunir outros como ele. Naturalmente, n�o era poss�vel que houvesse muitos. Qualquer Aes Sedai ca�aria homens assim � a Ajah Vermelha tinha poucas fun��es al�m dessa. Ainda assim, segundo os relat�rios, haviam encontrado alguns, embora bem menos do que antes houvera em outros tempos.</p><p>Elayne, no entanto, n�o estava disposta a desistir. Era uma de suas caracter�sticas admir�veis: n�o desistia nem com a cabe�a no cadafalso e o machado j� descendo. Permaneceu parada de cabe�a erguida, enfrentando o olhar de Siuan, o que Nynaeve considerava muito dif�cil.</p><p>� Existem duas raz�es muito claras pelas quais eu devo ir. Primeiro: seja l� o que tenha acontecido com minha m�e, ela <emphasis>est�</emphasis> desaparecida, e eu, como Filha-herdeira, posso acalmar o povo e assegurar que a sucess�o continua intacta. Segundo: posso me aproximar de Rand. Ele confia em mim. Eu seria <emphasis>de longe</emphasis> melhor do que qualquer outra escolhida pelo Sal�o.</p><p>As Aes Sedai em Salidar tinham escolhido seu pr�prio Sal�o da Torre, um novo Sal�o no Ex�lio, por assim dizer. Sua suposta tarefa era considerar a escolha de um novo Trono de Amyrlin, uma Amyrlin leg�tima para clamar o t�tulo e a Torre de volta de Elaida, mas Nynaeve n�o vira muito sinal disso.</p><p>� � muita gentileza sua se oferecer para sacrif�cio, crian�a � retrucou Leane secamente.</p><p>A express�o de Elayne n�o se alterou, mas a jovem enrubesceu de f�ria. Poucas pessoas fora daquele quarto sabiam, e nenhuma delas era Aes Sedai, mas Nynaeve n�o tinha d�vidas de que a primeira atitude de Elayne em Caemlyn seria ficar a s�s com Rand e quase mat�-lo de beijos. Leane continuou:</p><p>� Com sua m�e� desaparecida� se Rand al�Thor tiver voc� e Caemlyn, ter� Andor, e o Sal�o n�o permitir� que ele possua Andor por mais do que o necess�rio, ou qualquer outro lugar, se for poss�vel impedir. Ele carrega Tear e Cairhien no bolso, e os Aiel tamb�m, ao que parece. Se acrescentarmos Andor, Murandy e Altara desabariam a um espirro dele, e com a gente dentro. Rand est� ficando cada vez mais poderoso, e muito depressa. Pode vir a decidir que n�o precisa de n�s. Com Moiraine morta, n�o tem mais ningu�m perto dele em quem possamos confiar.</p><p>Nynaeve estremeceu. Moiraine fora a Aes Sedai que a tirara de Dois Rios com Rand e mudara a vida deles. A dela e a de Rand, Egwene, Mat e Perrin. Passara tanto tempo desejando fazer Moiraine pagar pelo que fizera a eles que perd�-la era como perder um peda�o de si mesma. Mas a Aes Sedai morrera em Cairhien e levara Lanfear consigo. Estava rapidamente se tornando uma lenda entre as Aes Sedai, a �nica da Torre a ter matado n�o apenas um, mas dois dos Abandonados. A �nica coisa boa que Nynaeve via nisso, por mais que se envergonhasse de ver qualquer coisa boa, era que Lan agora estava livre de seu elo de Guardi�o. Se pelo menos conseguisse encontr�-lo.</p><p>Siuan prosseguiu, no ponto exato onde Leane parara:</p><p>� N�o podemos nos dar ao luxo de deixar o garoto sair navegando sem ningu�m para conduzir o tim�o. Quem � que sabe o que ele pode fazer? Sim, sim, sei que voc� fica aflita para defend�-lo, mas n�o quero nem ouvir. Estou tentando equilibrar um l�cio vivo no nariz, garota. N�o podemos deixar que Rand se fortale�a demais antes de nos aceitar, mas tamb�m n�o ousamos refre�-lo muito. E estou tentando manter Sheriam e as outras convencidas de que <emphasis>devem</emphasis> apoiar Rand, mesmo com metade do Sal�o considerando, com seus bot�es, que n�o quer ter nada a ver com ele e a outra metade acreditando de todo o cora��o que ele deva ser amansado, Drag�o Renascido ou n�o. Em todo caso, sejam quais forem seus argumentos, sugiro que aceite o que Sheriam diz. Voc� n�o vai fazer a cabe�a de ningu�m, e Tiana n�o tem novi�as o suficiente para se ocupar, por aqui.</p><p>O rosto de Elayne se contraiu de raiva. Tiana Noselle, irm� Cinza, era Mestra das Novi�as em Salidar. Uma Aceita precisava sair muito mais da linha do que uma novi�a para ser mandada para Tiana, mas justamente por isso a visita era sempre muito mais dolorosa e vexat�ria. A Cinza podia demonstrar um pouco de bondade para com uma novi�a, ainda que n�o muita, mas sentia que as Aceitas j� n�o deviam cair em esparrelas e costumava faz�-las pensar o mesmo muito antes de deixarem o pequeno cub�culo onde ficava seu gabinete.</p><p>Nynaeve andara observando Siuan, e um pensamento lhe veio � mente.</p><p>� Voc�s sabem tudo a respeito dessa� miss�o diplom�tica, ou seja l� o que isso for� n�o sabem? Voc�s duas sempre t�m as ideias alinhadas com Sheriam e o circulozinho dela. � O Sal�o poderia muito bem ter toda a autoridade at� que fosse escolhida uma nova Amyrlin, mas quem de fato controlava tudo era Sheriam e o grupinho de Aes Sedai que organizaram as primeiras chegadas em Salidar. � Quantas est�o sendo enviadas, Siuan?</p><p>Elayne prendeu a respira��o: estava claro que n�o havia pensado nisso. Era um sinal de como estava transtornada. Em geral era ela que notava os detalhes que Nynaeve deixava passar.</p><p>Siuan n�o negou a acusa��o. Desde o estancamento, conseguia mentir feito um mercador de l�, mas, quando decidia ser franca, era franca como um tapa na cara.</p><p>� Nove. �O bastante para honrar o Drag�o Renascido�, elas disseram, afinal, costumamos mandar tr�s para um <emphasis>rei</emphasis>, �mas n�o o suficiente para intimid�-lo�. Isso se ele tiver ficado s�bio o suficiente para perceber que deveria ficar intimidado.</p><p>� � melhor torcer para que sim � retrucou Elayne, com frieza. � Sen�o nove podem ser oito a mais do que o necess�rio.</p><p>O n�mero perigoso era treze. Rand era forte, talvez mais do que qualquer homem desde a Ruptura, por�m treze Aes Sedai ligadas eram capazes de domin�-lo, blind�-lo de <emphasis>saidin</emphasis> e lev�-lo prisioneiro. Treze era o n�mero necess�rio para amansar um homem, embora Nynaeve j� come�asse a achar que se tratasse mais de costume do que de necessidade. As Aes Sedai faziam muitas coisas apenas por for�a do h�bito.</p><p>Siuan abriu um sorriso longe de parecer de agrado.</p><p>� Eu fico imaginando� por que � que ningu�m mais pensou nisso? Pense, garota! Sheriam pensa, o Sal�o tamb�m. A princ�pio s� uma vai se aproximar dele, depois disso ningu�m vai chegar perto, s� se ele estiver � vontade. Mas Rand vai saber que tem nove das nossas l�, e sem d�vida algu�m vai explicar a ele como isso � uma honra.</p><p>� Entendi � respondeu Elayne, com uma vozinha baixa. � Eu devia ter imaginado que uma de voc�s pensaria nisso. Desculpe. � Era outra de suas qualidades. Podia ser teimosa feito uma mula vesga, mas, quando conclu�a que estava errada, admitia, t�o mansa quanto uma camponesa. Muito raro para uma nobre.</p><p>� Min tamb�m vai � completou Leane. � Os� talentos dela podem ser �teis para Rand. As irm�s n�o saber�o disso, � claro. Ela consegue guardar segredos. � Como se essa fosse a parte importante.</p><p>� Entendi � repetiu Elayne, desta vez de maneira inexpressiva. Fez esfor�o para avivar o tom, mas foi um fracasso. � Bom, estou vendo que est�o ocupadas com� com Marigan. N�o quis incomodar. Por favor, n�o me deixem interromp�-las.</p><p>Antes que Nynaeve pudesse abrir a boca, a Filha-herdeira se retirou e bateu a porta. Cheia de raiva, Nynaeve virou-se para Leane:</p><p>� Pensei que Siuan fosse a malvada das duas, mas isso foi cruel!</p><p>Foi Siuan quem respondeu.</p><p>� Sempre h� problemas quando duas mulheres amam o mesmo homem, e quando o homem em quest�o � Rand al�Thor� sabe a Luz quanta lucidez ele ainda tem, ou em que dire��o mandar�o que ele siga. Se arranh�es e pux�es de cabelo estiverem por vir, que aconte�am aqui e agora.</p><p>Sem pensar, a m�o de Nynaeve agarrou a tran�a e deu um pux�o por cima do ombro.</p><p>� Eu tenho que� � O problema era que havia pouco que pudesse fazer, e nada que fizesse muita diferen�a. � Vamos retomar de onde paramos quando Elayne entrou. Mas vou avisando, Siuan: se voc� fizer outra coisa dessas com ela � <emphasis>ou comigo</emphasis>, pensou �, farei voc� se arrepender por� aonde � que pensam que est�o indo?</p><p>Siuan arrastara a cadeira para tr�s e se levantara, e, depois de uma olhadela, Leane fez o mesmo.</p><p>� Temos que trabalhar � respondeu a mulher, com aspereza, rumando para a porta.</p><p>� Voc� prometeu ficar dispon�vel, Siuan. Sheriam mandou. � N�o que Sheriam considerasse aquilo uma perda de tempo menos que Siuan, mas Nynaeve e Elayne haviam conquistado recompensas, al�m de certa quantidade de indulg�ncias. Uma delas era ter Marigan servindo de criada, o que lhes deixava mais tempo para os estudos de Aceitas.</p><p>Siuan disparou um olhar bem-humorado pela porta.</p><p>� Talvez voc� deva reclamar com ela? E explicar como est�o conduzindo essa pesquisa? Eu quero um tempo com <emphasis>Marigan</emphasis> hoje � noite; tenho mais umas perguntas.</p><p>Quando a antiga Amyrlin saiu, Leane anunciou, pesarosa:</p><p>� Seria �timo, Nynaeve, mas n�s temos que fazer o que<emphasis> podemos</emphasis>. Voc� podia tentar com Logain. � E tamb�m saiu.</p><p>A Aceita fechou a cara. Analisar Logain ajudara menos do que analisar as duas mulheres. J� n�o sabia ao certo se poderia descobrir qualquer coisa com ele. De todo modo, a �ltima coisa que desejava era Curar um homem amansado. Ele a deixava muito nervosa.</p><p>� Voc�s ficam se mordendo feito ratos presos em uma caixa � comentou Marigan. � Diante das evid�ncias, suas chances n�o s�o muito boas. Talvez voc� devesse considerar� outras op��es.</p><p>� Engula essa sua l�ngua imunda! � Nynaeve cravou os olhos na mulher. � Engula, que a Luz a queime! � O medo ainda corria pelo bracelete, por�m tamb�m algo mais, algo quase fraco demais para existir. Uma lev�ssima centelha de esperan�a, talvez. � Que a luz a queime � murmurou.</p><p>O nome verdadeiro da mulher n�o era Marigan, e sim Moghedien. Uma Abandonada, presa pelo pr�prio orgulho e arrog�ncia, prisioneira entre as Aes Sedai. Apenas cinco mulheres no mundo sabiam disso, nenhuma delas Aes Sedai, mas manter Moghedien em segredo era a mais pura necessidade. Os crimes dos Abandonados a levariam � execu��o com a mesma certeza de que o sol nasceria. Siuan concordava: para cada Aes Sedai que preferisse aguardar, se houvesse alguma, dez exigiriam justi�a imediata. Em sua sepultura sem l�pide, tamb�m seria enterrado todo o conhecimento a respeito da Era das Lendas, �poca em que, com o Poder, se operavam feitos inimagin�veis nos dias atuais. Nynaeve n�o sabia ao certo se acreditava em metade do que a mulher contava sobre aquela Era. Mas era certo que compreendia menos da metade.</p><p>Arrancar informa��es de Moghedien n�o era f�cil. �s vezes era como Curar: Moghedien nunca se interessara por muita coisa que n�o fosse capaz de elev�-la, de prefer�ncia por atalhos. Era bastante improv�vel que revelasse a verdade, mas Nynaeve suspeitava de que a mulher tivesse sido uma esp�cie de vigarista antes de jurar a alma ao Tenebroso. �s vezes, ela e Elayne simplesmente n�o sabiam que perguntas fazer. Tinham apenas a certeza de que Moghedien quase nunca falava por vontade pr�pria. Ainda assim, descobriram boas informa��es e repassaram a maior parte �s Aes Sedai. Como se fossem resultado das pesquisas e dos estudos como Aceitas, claro. E ganharam bastante reconhecimento por isso.</p><p>Se fosse poss�vel, ela e Elayne teriam guardado segredo a respeito da mulher, mas Birgitte soubera desde o in�cio, e Siuan e Leane precisavam ser informadas. Siuan sabia o bastante sobre as circunst�ncias que haviam levado � captura de Moghedien para exigir uma explica��o detalhada, al�m de possuir poder de barganha para obt�-la. Nynaeve e Elayne sabiam alguns segredos de Siuan e Leane; j� as duas pareciam saber tudo a respeito dela e de Elayne, exceto pela verdade em rela��o a Birgitte. Era um equil�brio prec�rio, com vantagem para a antiga Amyrlin e sua Curadora. Al�m do mais, alguns fragmentos das revela��es de Moghedien faziam men��o a supostas tramas de Amigos das Trevas e palpites a respeito do que os outros Abandonados poderiam estar tramando. A �nica maneira de passar essas informa��es adiante era fazer com que parecessem ter vindo das agentes de Siuan e Leane. Nada sobre a Ajah Negra � muit�ssimo bem escondida e negada havia muito �, ainda que isso fosse o que mais interessava a Siuan. Sentia nojo dos Amigos das Trevas, mas a mera ideia de Aes Sedai prestando juramentos ao Tenebroso era suficiente para lev�-la a uma f�ria esmagadora. Moghedien alegava ter medo de chegar perto de <emphasis>qualquer</emphasis> Aes Sedai, e isso era perfeitamente cr�vel. O medo era uma sensa��o permanente naquela mulher. N�o era de se admirar que tivesse se escondido por tanto tempo nas sombras, a ponto de receber a alcunha de Aranha. Em suma, era um tesouro valioso demais para ser entregue ao carrasco, embora a maioria das Aes Sedai n�o a visse dessa forma. A maioria das Aes Sedai poderia se recusar a tocar ou confiar em qualquer coisa revelada por ela.</p><p>Culpa e repugn�ncia a�oitavam Nynaeve, e n�o era a primeira vez. Que montante de conhecimento poderia justificar manter uma Abandonada livre da justi�a? Entreg�-la acarretaria puni��o, decerto extrema, a todos os envolvidos, n�o apenas a ela pr�pria, mas tamb�m a Elayne, Siuan e Leane. Entreg�-la acarretaria a revela��o do segredo de Birgitte. E a perda de todo aquele conhecimento. Moghedien podia n�o saber muito sobre Cura, mas dera a Nynaeve uma dezena de dicas a respeito do que era poss�vel fazer, e sem d�vida tinha mais informa��es guardadas. Com tudo aquilo a conduzi-la, o que poderia vir a descobrir?</p><p>Nynaeve queria um banho, e n�o tinha nada a ver com o calor.</p><p>� Vamos conversar sobre o tempo � resmungou, em um tom amargo.</p><p>� Voc� sabe mais do que eu sobre controlar o tempo. � Moghedien soava exausta, e a sensa��o ecoou pelo bracelete. Muitas perguntas haviam sido feitas a respeito do assunto. � Tudo o que sei � que o que est� acontecendo � obra do Grande� do Tenebroso. � Depois do ato falho, a mulher teve a coragem de abrir um sorriso insinuante. � Seres humanos comuns n�o t�m for�a suficiente para mudar isso.</p><p>Nynaeve teve que se esfor�ar para n�o ranger os dentes. Elayne sabia mais sobre alterar o tempo do que qualquer outra em Salidar, e dissera o mesmo. Incluindo a parte do Tenebroso, embora bastasse n�o ser idiota para saber disso, com o calor�o que fazia em uma �poca em que a neve deveria estar quase chegando, com a chuva escassa e a umidade evaporando.</p><p>� Ent�o vamos falar sobre usar tramas diferentes para Curar doen�as diferentes. � A mulher tinha contado que antigamente levava-se mais tempo do que nas Curas da atualidade, mas que toda a for�a provinha do Poder, n�o do paciente ou da mulher que canalizava. E, claro, que os <emphasis>homens</emphasis> de fato se sa�am melhor em determinados tipos de Cura, mas Nynaeve n�o acreditaria numa coisa dessas. � Voc� deve ter visto algu�m fazer isso pelo menos uma vez.</p><p>P�s-se a escavar em busca de pepitas. Alguns conhecimentos valiam muito a pena. S� desejava n�o ter a sensa��o de que estava escavando lodo.</p><empty-line/><p>Elayne n�o hesitou ao sair, apenas acenou para Birgitte e prosseguiu. Com os cabelos dourados presos em uma tran�a intrincada que ia at� a cintura, Birgitte brincava com dois garotinhos enquanto vigiava a viela estreita, o arco apoiado em uma cerca tombada logo ao lado. Ou tentava brincar. Jaril e Seve encaravam a mulher de estranhas cal�as amarelas e casaco curto e escuro, mas n�o exibiam qualquer outra rea��o. Nunca exibiam e nunca falavam. Os dois supostamente eram os filhos de �Marigan�. Birgitte estava contente em brincar com eles, mas tamb�m um pouco triste: gostava de crian�as, sobretudo de meninos, e sempre se sentia assim quando brincava. Elayne sabia disso t�o bem quanto sabia de seus pr�prios sentimentos.</p><p>Se achasse que Moghedien tinha qualquer coisa a ver com o estado dos dois� mas a mulher alegava que eles j� estavam assim quando os apanhara em Ghealdan para o disfarce: �rf�os de rua. E algumas irm�s Amarelas disseram que era porque os dois haviam visto muita coisa nos motins em Samara. Elayne acreditava, pelo que ela pr�pria presenciara por l�. Segundo as irm�s Amarelas, os dois melhorariam com tempo e carinho. Elayne torcia que sim. Torcia para que n�o estivesse permitindo que a �nica respons�vel escapasse da justi�a.</p><p>N�o queria pensar em Moghedien. Em sua m�e. N�o, definitivamente n�o queria pensar na m�e. Min. E Rand. Tinha de haver algum jeito de lidar com isso. Quase sem ver o assentir de cabe�a que Birgitte dera em resposta, correu pela viela e emergiu na rua principal de Salidar sob o c�u aberto e escaldante do meio-dia.</p><p>Por anos, Salidar permanecera abandonada, antes que ali come�assem a se reunir as Aes Sedai em fuga ap�s o golpe de Elaida. Naquele momento, havia palha fresca no telhado das casas, que em sua maioria exibiam reparos e remendos consideravelmente novos, assim como nas tr�s grandes constru��es de pedra que antes eram estalagens. Uma, a maior delas, era chamada por alguns de Pequena Torre. Era l� que o Sal�o se reunia. S� haviam consertado o necess�rio, claro, e muitas janelas exibiam vidra�as quebradas, ou n�o tinham vidro nenhum. Havia quest�es mais importantes do que recobrir os tijolos de argamassa ou pintar as paredes. As ruas de terra estavam abarrotadas. N�o apenas de Aes Sedai, obviamente, mas tamb�m de Aceitas nos vestidos com listras e novi�as apressadas, todas de branco, al�m de Guardi�es, magros e corpulentos, movendo-se com a gra�a mortal de leopardos, de servi�ais que acompanhavam as Aes Sedai vindas da Torre, e at� de algumas crian�as. E soldados.</p><p>O Sal�o dali se preparava para fazer cumprir as alega��es contra Elaida � m�o armada, caso necess�rio, t�o logo escolhessem o verdadeiro Trono de Amyrlin. Vindo das forjas distantes nos arredores da Aldeia, o clangor distante de martelos entrecortava os murm�rios do povo, anunciando a ferra��o de cavalos e o conserto de armaduras. Um homem de rosto quadrado e cabelos escuros bem grisalhos cavalgava lentamente pela rua, vestindo um casaco meio amarelo e uma placa peitoral j� gasta. Abria caminho por entre a multid�o, observando os grupos de homens em marcha que levavam nos ombros lan�as compridas ou arcos. Gareth Bryne concordara em recrutar e liderar o ex�rcito do Sal�o de Salidar, embora Elayne desejasse saber exatamente como e por qu�. Tinha algo a ver com Siuan e Leane, mas n�o conseguia nem imaginar o qu�, posto que o sujeito deixava as duas esgotadas � especialmente Siuan � com o cumprimento de algum juramento que Elayne tamb�m n�o sabia bem qual era. S� sabia que Siuan reclamava, amargurada, por ter que manter limpos o quarto e as roupas daquele homem antes de cumprir qualquer outra obriga��o. Reclamava, mas fazia. O juramento devia ser mesmo poderoso.</p><p>Os olhos de Bryne passaram por Elayne quase sem hesitar. Desde que chegara a Salidar, o homem se comportara de modo educado, sempre frio e distante, embora a conhecesse desde o ber�o. At� menos de um ano antes, fora Capit�o-General da Guarda da Rainha em Andor. Elayne chegou a pensar que ele e sua m�e fossem se casar. N�o, n�o pensaria na m�e! Min. Precisava encontrar Min para conversar.</p><p>No entanto, assim que se p�s a andar por entre a multid�o pela rua de terra batida, duas Aes Sedai a encontraram. N�o havia escolha a n�o ser parar e lhes dispensar uma mesura enquanto o povo passava ao redor. As duas abriram sorrisos enormes. Nenhuma suava uma gota que fosse. Puxando um lencinho da manga para enxugar o rosto, Elayne desejou j� dominar um pouquinho desse conhecimento em especial das Aes Sedai.</p><p>� Bom dia, Anaiya Sedai, Janya Sedai.</p><p>� Bom dia, crian�a. Tem mais alguma descoberta para n�s? � Como sempre, Janya Frende falava como se n�o tivesse tempo para pronunciar as palavras. � Voc� e Nynaeve t�m feito um progresso impressionante, ainda mais para duas Aceitas. N�o sei como Nynaeve consegue, tendo tanta dificuldade com o Poder, mas devo dizer que estou muito satisfeita.</p><p>Ao contr�rio da maioria das irm�s Marrons, geralmente absortas em seus livros e estudos, Janya Sedai era bastante asseada: cada fio de cabelo escuro parecia muito arrumado, emoldurando o rosto et�reo que marcava as Aes Sedai depois de muito tempo manejando o Poder. Contudo, a apar�ncia da mulher esguia denunciava sua Ajah. Usava um vestido liso de l� cinza pesada � as Marrons quase nunca pensavam em roupas como algo al�m de uma cobertura decente para o corpo �, e, mesmo enquanto falava, parecia ter a testa levemente franzida, como se tivesse a mente tomada por qualquer outra coisa. Janya Sedai seria muito bonita sem a testa franzida. Ela continuou:</p><p>� Essa t�cnica de se enrolar na luz para ficar invis�vel� Extraordin�rio. Tenho certeza de que algu�m vai encontrar um meio de impedir as ondas, para que seja poss�vel caminhar e manter o efeito ao mesmo tempo. E Carenna est� bastante animada com aquele truquezinho de bisbilhotice da Nynaeve. Muito safado da parte dela, por�m �til. Carenna est� pensando em um jeito de adapt�-lo para <emphasis>conversarmos</emphasis> � dist�ncia. Pense s�. Falar com algu�m a uma milha de dist�ncia! Ou duas, ou at�</p><p>Anaiya tocou o bra�o da mulher, e ela parou de falar, olhando sem rea��o para a outra Aes Sedai.</p><p>� Voc�s est�o progredindo muito, Elayne � comentou Anaiya, com a voz calma. A mulher de rosto largo estava sempre calma. A melhor palavra para descrev�-la era �maternal�, �s vezes �reconfortante�, embora as fei��es de Aes Sedai tornassem imposs�vel atribuir-lhe qualquer idade. Al�m disso, ela pertencia ao pequeno c�rculo de Sheriam que detinha o verdadeiro poder em Salidar. � Muito mais que qualquer uma de n�s esperava, a bem da verdade, esper�vamos muito. A primeira a fazer um <emphasis>ter�angreal</emphasis> desde a Ruptura. Isso � extraordin�rio, crian�a, e quero que voc� saiba disso. Deveria estar muito orgulhosa de si mesma.</p><p>Elayne encarou o ch�o diante de seus p�s. Dois garotos da altura de sua cintura passaram �s gargalhadas, entrecortando a multid�o. Queria que n�o houvesse ningu�m por perto para ouvir aquilo. N�o que qualquer transeunte estivesse prestando aten��o. Com tantas Aes Sedai na aldeia, as pr�prias novi�as s� dispensavam mesuras �s que lhes dirigiam a palavra, e todas estavam sempre cheias de tarefas atrasadas.</p><p>N�o se sentia nem um pouco orgulhosa, j� que todas as �descobertas� provinham de Moghedien. Houvera muitas, a come�ar pela �invers�o� � fazer com que uma tessitura s� pudesse ser vista pela mulher que a urdira �, por�m n�o haviam passado todas as novas informa��es adiante. Como o talento de esconder a habilidade de canalizar, por exemplo. Sem ele, Moghedien teria sido desmascarada em quest�o de horas � qualquer Aes Sedai a dois ou tr�s passos de uma mulher era capaz de sentir se ela podia ou n�o canalizar. Se as outras aprendessem esse truque, poderiam aprender a transp�-lo. E isso tamb�m ajudava a criar disfarces: as tramas invertidas faziam com que �Marigan� n�o se parecesse nem um pouco com Moghedien.</p><p>Algumas coisas que a mulher sabia eram absolutamente repugnantes. A Compuls�o, por exemplo, uma forma de for�ar a vontade alheia e plantar instru��es de modo que o receptor executasse ordens que sequer se lembrava de ter recebido. Havia coisas piores. Repugnantes demais, talvez perigosas demais para confi�-las a qualquer pessoa. Nynaeve dizia que precisavam aprend�-las para poder contra-atac�-las, mas Elayne n�o queria. Guardavam tantos segredos, mentiam tanto para os amigos e as pessoas pr�ximas, que quase desejava poder fazer os Tr�s Juramentos no Bast�o dos Juramentos sem ter de esperar at� ser elevada a Aes Sedai. Um deles a limitaria a n�o dizer palavra que n�o fosse verdadeira como se esse fosse o limite de seu pr�prio corpo.</p><p>� N�o me sa� t�o bem quanto poderia com o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, Anaiya Sedai.</p><p>Aquilo, pelo menos, era feito dela e de mais ningu�m. Os primeiros haviam sido o bracelete e o colar. Um segredo bem guardado, desnecess�rio dizer, mas eram uma c�pia levemente alterada de uma inven��o s�rdida � o <emphasis>a�dam��</emphasis>�que os Seanchan haviam deixado para tr�s ao retornarem para o mar ap�s a invas�o de Falme. O disco verde liso que permitia que algu�m sem for�a suficiente ��ou seja, a maioria das Aes Sedai � conseguisse reproduzir o truque da invisibilidade fora ideia dela desde o in�cio. N�o possu�a qualquer <emphasis>angreal</emphasis> ou <emphasis>sa�angreal</emphasis> para estudar, portanto fora imposs�vel tentar constru�-los at� ent�o � e, mesmo tendo facilidade em reproduzir o artefato Seanchan, os <emphasis>ter�angreal</emphasis> se mostraram mais complicados do que ela imaginara. Esses objetos usavam o Poder �nico, em vez de intensific�-lo, para um prop�sito espec�fico, para fazer algo. Alguns podiam at� ser utilizados por quem fosse incapaz de canalizar, at� mesmo por homens. Deveria ter sido mais simples. Talvez as fun��es fossem simples, mas a fabrica��o n�o era.</p><p>A afirma��o modesta desencadeou uma torrente de Janya.</p><p>� Bobagem, crian�a. Pura bobagem. Ora, n�o tenho d�vidas de que assim que chegarmos de volta � Torre e pudermos testar voc� a contento e p�r o Bast�o dos Juramentos em suas m�os, voc� ser� elevada ao xale, bem como ao anel. N�o tenho d�vidas. Est� mesmo atingindo o potencial que vimos em voc�. E mais. Ningu�m poderia imaginar�</p><p>Anaiya tocou o bra�o dela outra vez. Parecia um c�digo entre as duas, pois mais uma vez Janya parou e ficou sem palavras.</p><p>� N�o h� necessidade de encher tanto assim a cabe�a dessa crian�a � comentou. � Elayne, n�o vou aturar essa sua mania de ficar amuada. Voc� j� deveria ter passado dessa fase h� muito tempo. � A m�e conseguia ser firme e gentil ao mesmo tempo. � N�o vou admitir que voc� fa�a bico por conta de uns poucos fracassos, n�o com um sucesso t�o incr�vel. � Elayne fizera cinco tentativas com o disco de pedra. Duas n�o tinham dado em nada, e outras duas deixavam a pessoa fora de foco e causavam embrulhos no est�mago. A tentativa bem-sucedida fora a terceira. Mais do que poucos fracassos, na opini�o de Elayne. � Tudo o que voc� fez � incr�vel. E Nynaeve tamb�m.</p><p>� Obrigada � respondeu Elayne. � Obrigada �s duas. Vou tentar n�o ficar amuada. � Quando uma Aes Sedai acusava algu�m de qualquer coisa, era melhor n�o tentar negar. � Podem me dar licen�a, por favor? Fiquei sabendo que a miss�o diplom�tica para Caemlyn est� partindo hoje e quero me despedir de Min.</p><p>As duas a dispensaram, claro, embora Janya talvez tivesse levado meia hora para fazer isso se n�o estivesse acompanhada de Anaiya, que encarou Elayne com um olhar cortante � decerto sabia tudo sobre a conversa com Sheriam �,�mas nada disse. �s vezes, o sil�ncio de uma Aes Sedai falava t�o alto quanto suas palavras.</p><p>Mexendo no anel no terceiro dedo da m�o esquerda, Elayne disparou, quase correndo, os olhos focados bem � frente para poder alegar n�o ter visto qualquer outra pessoa que tentasse par�-la para lhe parabenizar. Talvez funcionasse, talvez significasse uma visita a Tiana � indulg�ncias pelo bom trabalho tinham seus limites. Naquele exato instante, preferiria que fosse Tiana a lhe fazer elogios desmerecidos.</p><p>O anel de ouro era uma serpente mordendo a pr�pria cauda, a Grande Serpente, s�mbolo das Aes Sedai, mas tamb�m usado pelas Aceitas. Quando vestisse o xale com franjas nas cores da Ajah que escolhesse, usaria o anel no dedo que quisesse. Escolheria a Ajah Verde por necessidade � apenas as irm�s Verdes tinham mais de um Guardi�o, e ela queria Rand. Ou quanto dele fosse poss�vel, ao menos. A dificuldade era que j� fizera um elo com Birgitte, a primeira mulher a se tornar Guardi�. Por isso conseguia sentir as sensa��es de Birgitte � sabia que a mulher cortara a m�o naquela manh�. S� Nynaeve sabia sobre o elo. Guardi�es eram reservados para as Aes Sedai completas, e se uma Aceita desobedecesse essa proibi��o n�o haveria indulg�ncia no mundo que lhe salvasse a pele. Aquilo fora obra da necessidade, n�o um capricho � do contr�rio, Birgitte teria morrido �, mas Elayne n�o achava que faria diferen�a. Infringir uma regra com o Poder poderia ser fatal para si mesma e para os outros � para deixar isso bem claro, as Aes Sedai raramente deixavam algu�m escapar ao infringir uma regra, pelo motivo que fosse.</p><p>Havia tantos subterf�gios ali em Salidar. N�o apenas Birgitte e Moghedien. Um dos Juramentos proibia as Aes Sedai de mentir, mas as coisas n�o ditas n�o eram necessariamente mentiras. Moiraine aprendera a urdir um manto de invisibilidade, talvez o mesmo que haviam aprendido com Moghedien. Nynaeve vira Moiraine fazer isso uma vez, antes de aprender qualquer coisa sobre o Poder. No entanto, ningu�m mais em Salidar aprendera. Ou admitia ter aprendido, de todo modo. Birgitte confirmara o que Elayne come�ara a suspeitar: a maioria das Aes Sedai, talvez todas, guardava para si pelo menos parte do que aprendia, e a maioria possu�a seus truques secretos. Esses truques poderiam ser ensinados �s novi�as ou �s Aceitas e tornar-se de conhecimento geral, se fossem aprendidos por um n�mero suficiente de Aes Sedai� ou poderiam morrer com quem as descobrira. Por duas ou tr�s vezes, Elayne pensou ter visto um leve brilho nos olhos de uma das mulheres ao demonstrar algo que descobrira. Carenna aprendera o truque da bisbilhotagem com rapidez surpreendente. Mas esse n�o era bem o tipo de acusa��o que uma Aceita podia fazer contra uma Aes Sedai.</p><p>Esse conhecimento n�o deixava seus pr�prios fingimentos mais palat�veis, mas talvez ajudasse um pouco. Isso e tamb�m se lembrar da necessidade. Se pelo menos parassem de elogi�-la pelo que n�o tinha feito�</p><p>Tinha certeza de onde encontraria Min. O rio Eldar ficava menos de tr�s milhas a oeste de Salidar, e um pequeno c�rrego margeava a beirada da aldeia, abrindo caminho pela floresta at� o rio. A maioria das �rvores que crescera na cidade havia sido derrubada depois que as Aes Sedai come�aram a chegar, mas ainda havia um pequeno trecho na ribanceira atr�s de algumas casas, em um peda�o de terra estreito demais para ter qualquer utilidade. Min dizia gostar mais das cidades, por�m ainda assim tinha o costume de se sentar entre essas �rvores. Era uma forma de escapar da companhia de Aes Sedai e Guardi�es por um tempo, e para Min isso era quase essencial.</p><p>Como esperado, t�o logo Elayne virou a curva de uma casa de pedras em dire��o � estreita faixa de terra, avan�ando ao lado de um filete de �gua igualmente estreito, encontrou Min sentada, recostada em uma �rvore, observando o pequeno c�rrego borbulhar por sobre as pedras. Ou o que restava dele: o riacho gotejava por um leito de lama seca com o dobro de sua largura. As �rvores daquela �rea ainda tinham algumas folhas, mas a maior parte da floresta ao redor come�ava a desfolhar. At� os carvalhos.</p><p>Um galho seco se partiu sob a sand�lia de Elayne, e Min levantou-se de um salto. Como de costume, usava roupas masculinas � casaco cinza e cal�as��, mas tinha mandado bordar pequenas flores azuis nas lapelas e nas laterais das cal�as confort�veis. Por estranho que fosse para algu�m que dizia ter sido criada por tr�s tias costureiras, Min parecia n�o saber distinguir as duas pontas de uma agulha. A jovem encarou Elayne, fez uma careta e passou os dedos pelos cabelos escuros na altura do ombro.</p><p>� Voc� sabe. � Foi tudo o que disse.</p><p>� Achei que dev�amos conversar.</p><p>Min passou as m�os pelos cabelos outra vez.</p><p>� Siuan s� me contou hoje de manh�. Desde ent�o venho tentando criar coragem para contar a voc�. Ela quer que eu o espione, Elayne. Por causa da miss�o diplom�tica. E me deu nomes de pessoas em Caemlyn que podem mandar recados de volta para ela.</p><p>� Voc� n�o vai, claro � respondeu Elayne, sem o menor tom de pergunta, e Min lhe devolveu um olhar de gratid�o. � Por que estava com medo de vir falar comigo? N�s somos amigas, Min. Prometemos n�o deixar homem nenhum ficar entre n�s. Mesmo que seja amado pelas duas.</p><p>A risada de Min era um pouco rouca, e Elayne supunha que muitos homens achassem atraente. E a jovem era bonita, mas de uma forma meio travessa. Al�m de alguns anos mais velha � o que seria vantagem ou desvantagem?</p><p>� Ah, Elayne, dissemos isso quando est�vamos a salvo, com ele bem longe de n�s duas. Perder voc� seria como perder uma irm�, mas e se uma de n�s mudar de ideia?</p><p>Era melhor n�o perguntar qual das duas seria. Elayne tentava n�o pensar no fato de que se amarrasse e amorda�asse Min com o Poder e invertesse a trama, poderia escond�-la em um por�o at� que a miss�o diplom�tica estivesse bem distante.</p><p>� N�o vamos � respondeu, simplesmente. N�o, n�o poderia fazer isso com Min. Queria Rand todo para si, mas n�o podia magoar a amiga. Talvez pudesse s� pedir que a outra n�o fosse at� que ambas pudessem ir. Em vez disso, disse: � Gareth est� liberando voc� do juramento?</p><p>Desta vez a risada de Min foi curta, quase uma tosse.</p><p>� At� parece. Ele diz que vai me cobrar isso mais cedo ou mais tarde. Siuan � a �nica que realmente quer manter, sabe a Luz por qu�. � Uma leve tens�o em seu rosto fez Elayne pensar que havia alguma vis�o envolvida, mas ela n�o perguntou. Min nunca falava a respeito de suas vis�es, a n�o ser que envolvesse diretamente a pessoa.</p><p>A jovem tinha uma habilidade conhecida por poucas em Salidar. Elayne e Nynaeve, Siuan e Leane, s�. Birgitte n�o sabia, mas, por outro lado, Min n�o sabia a respeito de Birgitte. Ou Moghedien. Tantos segredos. Mas o de Min era s� dela. A jovem �s vezes via imagens ou auras ao redor dos outros, e �s vezes sabia o que significavam. Quando sabia, estava sempre certa � por exemplo, se dizia que um homem e uma mulher iriam se casar, ent�o cedo ou tarde eles se casavam, mesmo que os dois claramente se odiassem no momento. Leane chamava isso de �ler o Padr�o�, mas n�o tinha nada a ver com o Poder. A maioria das pessoas s� exibia imagens de vez em quando, mas Aes Sedai e Guardi�es, sempre. As fugas de Min para aquele lugar eram uma forma de escapar dessa torrente de informa��es.</p><p>� Voc� pode levar uma carta a Rand para mim?</p><p>� Claro. � A mulher aquiesceu t�o depressa, a express�o t�o sincera, que Elayne corou e prosseguiu depressa. N�o sabia se teria concordado caso fosse a situa��o inversa. � Voc� n�o pode deixar que ele saiba das suas vis�es, Min. Em rela��o � gente. � Uma coisa que a jovem vira a respeito de Rand era que tr�s mulheres se apaixonariam perdidamente por ele e se uniriam a ele para sempre, e que uma dessas mulheres seria ela pr�pria. A segunda ficou claro que seria Elayne. � Se ele souber de alguma coisa sobre a vis�o, pode decidir que n�o � o que queremos, apenas um capricho do Padr�o ou do fato de ele ser <emphasis>ta�veren</emphasis>. Rand poderia decidir agir com nobreza e nos salvar, impedindo que qualquer uma de n�s se aproxime dele.</p><p>� Talvez � concordou Min, meio em d�vida. � Os homens s�o estranhos. � mais prov�vel que, caso ele perceba que n�s duas vamos sair correndo quando ele estalar os dedos, fa�a exatamente isso. Rand n�o vai conseguir se conter. J� vi homens fazendo isso. Acho que tem a ver com o cabelo que cresce no queixo deles. � A jovem tinha uma express�o t�o pensativa que Elayne n�o soube dizer se era piada ou n�o. Min parecia saber muito sobre os homens. A jovem trabalhara basicamente em est�bulos, pois gostava de cavalos, mas chegou a mencionar ter servido mesas em uma taverna. � De todo modo, n�o vou contar. Voc� e eu vamos dividi-lo feito uma torta. Talvez deixemos a terceira ficar com alguma migalha, quando ela aparecer.</p><p>� O que � que vamos fazer, Min?</p><p>Elayne n�o pretendia dizer aquilo, decerto n�o em tom quase de choramingo. Parte dela queria declarar que n�o tinha a menor d�vida de que <emphasis>ela</emphasis> nunca iria correndo quando ele estalasse o dedo e outra parte desejava que ele estalasse. Parte queria dizer que <emphasis>n�o</emphasis> dividiria Rand de forma alguma, com <emphasis>ningu�m</emphasis>, nem mesmo com uma amiga, as vis�es de Min que fossem para o Po�o da Perdi��o. Mas a outra parte desejava dar um cascudo em Rand por fazer isso com ela e Min. Era tudo t�o infantil que sentia vontade de enterrar a cabe�a, mas era incapaz de separar a raiva dos outros sentimentos. Acalmando a voz, respondeu � pr�pria pergunta antes que Min o fizesse:</p><p>� O que vamos fazer � sentar aqui um pouco e conversar. � Dito e feito, escolheu um cantinho particularmente abundante de folhas mortas. Uma �rvore formava um �timo encosto. � N�o s� sobre Rand. Vou sentir a sua falta, Min. � t�o bom ter uma amiga em quem posso confiar.</p><p>Min sentou-se de pernas cruzadas ao lado dela e come�ou, distra�da, a catar seixos e atir�-los no c�rrego.</p><p>� Nynaeve � sua amiga. Voc� confia nela. E Birgitte sem d�vida parece uma amiga: voc� passa at� mais tempo com ela do que com Nynaeve. � Um leve franzido enrugou sua testa. � Ela acredita <emphasis>mesmo</emphasis> que � a Birgitte das lendas? Quer dizer, todas as hist�rias mencionam o arco e a tran�a, ainda que o dela n�o seja de prata. E n�o acredito que ela tenha nascido com esse nome.</p><p>� Ela nasceu com o nome � respondeu Elayne, receosa. Era verdade, de certo modo. Era melhor mudar o rumo da conversa. � Nynaeve ainda n�o decidiu se sou uma amiga ou algu�m que ela precisa intimidar para fazer o que ela considera correto. E passa mais tempo do que eu se lembrando de que sou filha da Rainha a quem ela serve. �s vezes acho que ela usa esse fato contra mim. Voc� nunca faz isso.</p><p>� Talvez eu n�o fique t�o impressionada. � Min exibia um sorriso largo, mas soava s�ria. � Eu nasci nas Montanhas da N�voa, Elayne, nas minas. O poder da sua m�e � bem enfraquecido l� para as bandas do oeste. � O sorriso desapareceu de seu rosto. � Me desculpe.</p><p>Sufocando um lampejo de indigna��o � Min era t�o s�dita do Trono do Le�o quanto Nynaeve! �, Elayne deixou a cabe�a pender para tr�s e encostar na �rvore.</p><p>� Vamos falar de coisas alegres.</p><p>O sol vertia por sobre os galhos das �rvores acima delas; o c�u era uma folha azul l�mpida, sem um tra�o sequer de nuvem no horizonte. Por impulso, ela se abriu para <emphasis>saidar</emphasis> e deixou-se preencher, como se todo o prazer da vida no mundo tivesse sido destilado e cada gota em suas veias tivesse sido substitu�da pela ess�ncia. Se conseguisse formar pelo menos uma nuvenzinha, seria um sinal de que tudo daria certo. A m�e estaria viva. Rand a amaria. E Moghedien� dariam um jeito nela. Arranjariam uma solu��o. Urdiu uma t�nue teia de Ar e �gua pelo c�u, o mais distante que p�de, buscando umidade para uma nuvem. Se ao menos conseguisse pux�-la com for�a suficiente� a do�ura logo se transformou quase em dor, o sinal de perigo � se recorresse a um tanto mais de Poder, poderia acabar estancando a si mesma. S� uma nuvenzinha.</p><p>� Coisas alegres? � indagou Min. � Bom, eu sei que voc� n�o quer falar sobre Rand, mas, al�m n�s duas, ele ainda � a coisa mais importante no mundo, no momento. E a mais alegre. Os Abandonados caem mortos quando ele aparece, e as na��es fazem fila para se curvar perante ele. As Aes Sedai aqui est�o prontas para apoi�-lo. Sei que est�o, Elayne: precisam estar. Ora, daqui a pouco Elaida vai p�r a Torre nas m�os dele. A �ltima Batalha ser� moleza. Ele est� vencendo, Elayne. N�s estamos vencendo.</p><p>A Aceita largou a Fonte e tombou para tr�s, encarando o c�u vazio como se tornara seu humor. N�o era preciso saber canalizar para ver a m�o do Tenebroso em a��o, e, se ele podia tocar o mundo dessa forma, se podia sequer tocar o mundo�</p><p>� Estamos mesmo? � indagou, por�m baixo demais para que Min ouvisse.</p><empty-line/><p>A casa do solar ainda n�o estava terminada, os compridos pain�is de madeira do sal�o principal continuavam opacos e sem cor, mas Faile ni Bashere t�Aybara ouvia as peti��es dos s�ditos todas as tardes, como era apropriado � mulher de um lorde. Ficava sentada em uma robusta cadeira de espaldar alto com entalhes de falc�es, bem diante de uma lareira de pedras nuas � havia uma lareira g�mea no outro extremo do aposento. A cadeira vazia a seu lado, com entalhes de lobos e uma grande cabe�a de lobo no topo, deveria estar ocupada por seu marido, Perrin t�Bashere Aybara, Perrin Olhos-Dourados, Lorde de Dois Rios.</p><p>Naturalmente, o solar n�o passava de uma casa de fazenda grande demais, e o sal�o se estendia por pouco mais de quinze passadas. Ah, como Perrin a olhara feio quando ela insistira que fosse t�o grande� Ele ainda pensava em si mesmo como ferreiro, ou at� ajudante de ferreiro. Al�m disso, na ocasi�o de seu nascimento, a mulher recebera o nome de Zarine, n�o Faile. Essas coisas n�o importavam. Zarine, nome de mulher l�nguida que suspirava tr�mula ao ouvir poemas compostos em homenagem a seu sorriso. Faile, o nome que escolhera quando fora jurada Ca�adora da Trombeta de Valere, significava falc�o na L�ngua Antiga. Ningu�m que olhasse com aten��o para seu rosto � com nariz acentuado, ma��s do rosto proeminentes e olhos escuros e obl�quos que lampejavam quando ela estava com raiva � poderia duvidar de qual dos dois nomes lhe era mais apropriado. Quanto ao restante, o que importava era a inten��o. E o que era correto e apropriado.</p><p>Naquele momento, seus olhos lampejavam. N�o tinha nada a ver com a teimosia de Perrin, e apenas um pouco com o calor fora de esta��o. Mesmo que, em verdade, ter que abanar inutilmente o leque de penas de fais�o para tentar secar o suor do rosto n�o melhorasse em nada seu humor.</p><p>�quela hora j� avan�ada da tarde, restava pouca gente da multid�o que fora v�-la julgar as contendas. A verdade � que o povo ia para ser ouvido por Perrin, mas ele ficava apavorado s� de pensar em julgar pessoas com quem crescera. A n�o ser que Faile o encurralasse, fugia feito lobo na neblina quando chegava a hora das audi�ncias di�rias. Por sorte, o povo n�o se incomodava quando Lady Faile os ouvia, em vez de Lorde Perrin. Ou ent�o poucos se incomodavam, de todo modo, e eram s�bios o bastante para disfar�ar.</p><p>� Voc�s trouxeram o assunto a mim � declarou, em um tom inexpressivo.</p><p>As duas mulheres suadas diante dela se remexiam, desconfort�veis, e encaravam o ch�o de pedras polidas.</p><p>Sharmad Zeffar, de pele acobreada, cobrira as curvas generosas, mas pouco as ocultava. Usava um vestido doman�s de gola alta bastante transparente, com as mangas e bainhas de seda dourada bem claras e pu�das, ainda com manchinhas da viagem que pareciam imposs�veis de limpar. De qualquer forma, seda era seda, algo raro de se encontrar na regi�o. Os patrulheiros que rondavam as Montanhas da N�voa em busca de vest�gios da invas�o dos Trollocs no �ltimo ver�o encontravam poucas das criaturas bestiais � e nenhum Myrddraal, pela gra�a da Luz �, mas resgatavam refugiados quase todos os dias: dez aqui, vinte ali, cinco acol�. A maioria vinha da Plan�cie de Almoth, mas um bom n�mero era de Tarabon e, como Sharmad, de Arad Doman � terras abandonadas, arruinadas pela anarquia, al�m da guerra civil. Faile n�o queria nem pensar em quantos haviam morrido naquelas montanhas. Com a falta de estradas ou mesmo de trilhas, a viagem n�o era f�cil, nem em �pocas melhores, e os dias atuais estavam longe de ser a melhor �poca.</p><p>Rhea Avin n�o era refugiada, apesar de usar uma imita��o de vestido taraboniano em l� de trama fina, com delicados pregueados cinza que moldavam e revelavam quase tanto quanto a vestimenta delgada de Sharmad. Os que sobreviviam � dura viagem traziam mais do que rumores preocupantes, habilidades nunca vistas em Dois Rios e bra�os para trabalhar nas fazendas despovoadas pelos Trollocs. Rhea era bonita, de rosto redondo e nascera a menos de duas milhas de onde ficava o solar. Usava os cabelos escuros em uma tran�a da grossura de um punho que descia at� a cintura. Em Dois Rios, as mo�as s� tran�avam os cabelos quando o C�rculo das Mulheres considerava que estavam em idade de se casar, fosse aos quinze anos ou aos trinta, embora poucas passassem dos vinte. Rhea era cerca de cinco anos mais velha que Faile e tran�ava os cabelos havia quatro anos, mas, naquele momento, parecia ainda us�-los soltos e ter acabado de reparar que a ideia espl�ndida de outrora era de fato a coisa mais burra que poderia ter feito. Ali�s, Sharmad parecia ainda mais envergonhada, pois tinha um ano ou dois a mais que Rhea. Para uma domanesa, deveria ser humilhante encontrar-se em tal situa��o. Faile queria estapear a cara das duas, mas uma lady n�o podia fazer tal coisa.</p><p>� Um homem � disse ela, no tom mais firme poss�vel � n�o � um cavalo nem um peda�o de terra. Nenhuma de voc�s pode t�-lo como propriedade. E vir aqui me perguntar qual das duas tem direito a ele� � Faile soltou um suspiro lento e profundo. � Se eu achasse que Wil al�Seen estivesse seduzindo as duas, poderia ter algo a dizer a respeito. � Wil tinha um fraco pelas mulheres, e elas, por ele, com suas panturrilhas bem torneadas. Mas o sujeito nunca fazia promessas. Sharmad parecia prestes a desabar. Afinal, as domanesas � que tinham reputa��o de levar os homens na l�bia, n�o o contr�rio. � Sendo assim, meu julgamento � o seguinte: voc�s duas ir�o at� a Sabedoria para explicar o assunto a ela, n�o deixem nenhum detalhe de fora. Daise vai cuidar disso. Espero que antes do cair da noite tenha not�cias de que j� estiveram com ela.</p><p>As duas se encolheram. Daise Congar, a Sabedoria de Campo de Emond, n�o toleraria esse tipo de bobagem. Faria at� muito mais do que apenas n�o tolerar. Contudo, as duas se curvaram em mesuras, murmurando �sim, milady� em um un�ssono desesperado. Se j� n�o estivessem, dentro em breve se arrependeriam amargamente por fazerem Daise perder tempo com elas.</p><p><emphasis>E eu</emphasis>, pensou Faile, com firmeza. Todos sabiam que era raro Perrin comparecer �s audi�ncias, ou as duas jamais teriam trazido um �problema� t�o idiota. Se ele estivesse ali, ocupando seu lugar, as mulheres teriam sa�do de fininho em vez de revelarem aquilo. Faile desejou que o calor tivesse deixado Daise bem irritadi�a. Era pena que n�o havia como faz�-la dar uma li��o em Perrin tamb�m.</p><p>Cenn Buie ocupou o lugar das mulheres quase antes que as duas sa�ssem do caminho, arrastando os p�s. Apesar de se apoiar bastante em um cajado quase t�o velho quanto ele pr�prio, o homem conseguiu se curvar em uma mesura floreada � ent�o estragou o movimento correndo os dedos ossudos pelos cabelos ralos e finos. Como de costume, parecia ter dormido com o casaco marrom grosseiro.</p><p>� Que a Luz brilhe sobre a senhora, Lady Faile, e sobre seu honrado marido, Lorde Perrin. � As palavras grandiosas soavam estranhas naquela voz esgani�ada. � Permita que eu acrescente meus votos de cont�nua felicidade a todos do Conselho. Sua beleza e intelig�ncia iluminam a vida de todos n�s, bem como a justi�a em seus pronunciamentos.</p><p>Faile tamborilou os dedos no bra�o da cadeira antes que pudesse se deter. Elogios e floreios, em vez dos resmungos azedos de sempre. A lembran�a, com o devido respeito, de que ele ocupava uma cadeira do Conselho da Aldeia de Campo de Emond e era um homem de influ�ncia. E aquele cajado para suscitar compaix�o� O telhador era �gil como qualquer um com metade da sua idade.</p><p>� O que o senhor me traz hoje, Mestre Buie?</p><p>Cenn se endireitou, sem se lembrar de escorar na bengala. E sem se lembrar de eliminar o tom mordaz da voz.</p><p>� S�o todos esses forasteiros chegando aos montes, trazendo uma por��o de coisa que a gente n�o quer por aqui. � O homem parecia ter esquecido que ela tamb�m era forasteira. A maior parte do povo de Dois Rios esquecera.�� Costumes estranhos, milady. Roupas indecentes. As mulheres v�o vir falar sobre as vestimentas dessas domanesas atiradas, isso se j� n�o tiverem vindo. � De fato, algumas j� tinham reclamado, embora uma centelha nos olhos de Cenn revelasse que ela se arrependeria caso cedesse �s demandas. � Estranhos roubando comida de nossas bocas, tomando nossos neg�cios. Aquele rapaz taraboniano e suas telhas idiotas, por exemplo. Ocupando m�os que poderiam estar fazendo algum trabalho �til. Ele n�o se importa com o povo de Dois Rios. Ora, ele�</p><p>Abanando-se, Faile parou de escutar, mas teve o cuidado de dar impress�o de que prestava muita aten��o � uma habilidade que o pai lhe ensinara, necess�ria em momentos como esse. Claro. As telhas de Mestre Hornval concorreriam com os telhados de palha de Cenn.</p><p>Nem todos se sentiam como Cenn em rela��o aos rec�m-chegados. Haral Luhhan, o ferreiro de Campo de Emond, fizera uma parceria com um cuteleiro doman�s e um polidor de metais da Plan�cie de Almoth, e Mestre Aydaer contratara tr�s homens e duas mulheres que entendiam de marcenaria, escultura e at� de douradura � embora decerto n�o houvesse ouro para tanto. As cadeiras dela e de Perrin eram trabalho desse grupo, t�o caprichadas quanto Faile encontrara em outras cortes. Ali�s, o pr�prio Cenn contratara cerca de meia d�zia de ajudantes, nem todos de Dois Rios, pois muitos telhados tinham pegado fogo no ataque dos Trollocs, e novas casas eram erguidas para todos os lados. Perrin n�o tinha o direito de faz�-la ouvir toda aquela bobagem sozinha.</p><p>O povo de Dois Rios podia at� t�-lo proclamado lorde � o que era o certo a se fazer, depois que Perrin os levou � vit�ria sobre os Trollocs �, e ele podia at� estar come�ando a perceber que n�o seria capaz de mudar esse fato � como decerto deveria ter tentado assim que come�aram a se curvar em rever�ncias e cham�-lo de Lorde Perrin, a despeito de ele pedir que n�o o fizessem �, mas ainda assim se recusava a aceitar as pompas que vinham com o t�tulo de lorde, tudo o que um povo <emphasis>esperava</emphasis> de seus lordes e ladies. Pior ainda: se recusava a cumprir os deveres de lorde. Faile sabia muito bem o que devia ser feito, j� que era a filha mais velha que restara de Davram t�Ghaline Bashere, Lorde de Bashere, Tyr e Sidona, Guardi�o da Fronteira da Praga, Defensor da Terra do Cora��o, Marechal-General da Rainha Tenobia de Saldaea. Era verdade que fugira para se tornar Ca�adora da Trombeta � e aberto m�o disso por um marido, o que �s vezes ainda a surpreendia �, mas ainda se lembrava. Perrin escutava quando ela tentava explicar, at� assentia nos momentos oportunos, mas obrig�-lo a de fato fazer qualquer coisa era como obrigar um cavalo a dan�ar a sa�sara.</p><p>Cenn enfim parou de balbuciar, finalmente lembrando-se de engolir a inj�ria que fervilhava entre seus dentes.</p><p>� Perrin e eu decidimos usar palha � comentou Faile, muito calma. Enquanto Cenn ainda assentia, satisfeito, acrescentou: � E o senhor ainda n�o terminou o trabalho. � O velho levou um susto. � Parece que aceitou fazer mais telhados do que � capaz de dar conta, Mestre Buie. Se n�o terminar o nosso logo, temo que precisaremos chamar o Mestre Hornval para colocar suas telhas. � Cenn contraiu os l�bios, quieto. Se Faile pusesse telhas na mans�o, outros fariam o mesmo. � Aprecio seu discurso, mas tenho certeza de que o senhor prefere terminar meu telhado do que perder tempo com conversa mole, apesar de agrad�vel.</p><p>De l�bios comprimidos, Cenn a encarou por um instante, furioso, depois curvou-se em uma mesura modesta. Murmurou algo inintelig�vel, exceto por um �milady� abafado no final, e saiu pisando duro pelo ch�o liso, segurando o cajado. As coisas que o povo inventava para tomar o tempo dela. Perrin teria de fazer sua parte, nem que ela tivesse de traz�-lo amarrado pelos bra�os e pernas.</p><p>As demais queixas n�o foram t�o exasperantes. Uma mulher outrora corpulenta, usando um vestido de retalhos de flores bordadas que ca�a no corpo feito um saco, vinda da distante Ponta de Toman, al�m da Plan�cie de Almoth, queria negociar ervas e medicamentos. O grandalh�o Jon Ayellin esfregando a careca, e o magricela Thad Torfinn, puxando as lapelas do casaco, ambos em uma disputa pelas fronteiras de suas terras. Dois mineiros domaneses de pele escura e barba bem rente, ambos em coletes de couro compridos, que acreditavam ter visto sinais de ouro e prata no caminho para as montanhas. E de ferro, embora o interesse fosse menor. E, por fim, uma taraboniana magra e musculosa com o rosto fino coberto por um v�u transparente e os cabelos claros presos em uma infinidade de trancinhas alegando ter trabalhado como tecel� e saber fazer tapetes no tear.</p><p>Faile encaminhou a mulher interessada em ervas ao C�rculo das Mulheres local � se Espara Soman tivesse talento para a coisa, as mulheres encontrariam um lugar para ela sob a supervis�o de uma das Sabedorias da regi�o. Com tanta gente nova chegando, muitos em p�ssimas condi��es por conta da viagem, todas as Sabedorias de Dois Rios passaram a ter uma ou duas aprendizes � e estavam sempre � procura de mais. Talvez n�o fosse exatamente o que a mulher queria, mas era onde teria de come�ar. Bastaram algumas perguntas para deixar claro que nem Thad nem Jon de fato se lembravam de onde ficava a fronteira � ao que parecia, a disputa come�ara antes mesmo de Faile nascer �, ent�o ela os orientou a tirarem uma m�dia da diferen�a entre o limite que cada um julgava ser o certo e dividir as terras nesse ponto, a mesma decis�o que os dois acreditavam que teria sido a do Conselho da Aldeia, motivo pelo qual haviam mantido a contenda entre si por tanto tempo.</p><p>Aos outros, concedeu a permiss�o que buscavam. Em verdade, ningu�m precisava de permiss�o, mas era melhor que soubessem desde o in�cio quem detinha a autoridade. Em troca de seu consentimento e prata suficiente para comprar provis�es, Faile convenceu os dois domaneses a darem a Perrin um d�cimo do que encontrassem, bem como a revelar a localiza��o do ferro encontrado no caminho. Perrin n�o gostaria, mas em Dois Rios n�o havia qualquer coisa que se assemelhasse a impostos, e era de se esperar que um lorde fizesse e fornecesse coisas que requeriam dinheiro. E ferro seria t�o �til quanto ouro. Quanto a Liale Mosrara, a empreitada da taraboniana n�o duraria muito se ela fosse menos habilidosa do que dizia. No entanto, se fosse t�o boa quanto se proclamava� tr�s tecel�s j� garantiam que os mercadores encontrariam mais do que apenas l� quando descessem de Baerlon no ano seguinte, e carpetes decentes seriam mais um produto para trazer dinheiro. Liale prometeu que os primeiros e melhores trabalhos de seu tear iriam para a mans�o, e Faile aceitou o presente com um gracioso meneio de cabe�a. Poderia dar mais se e quando os carpetes aparecessem. O ch�o estava mesmo precisando de alguma cobertura. No geral, todos pareciam bastante satisfeitos. At� Jon e Thad.</p><p>Enquanto a taraboniana se afastava, cheia de mesuras, Faile se levantou, feliz em ter terminado, mas parou ao ver quatro mulheres adentrarem por uma das portas que flanqueavam a lareira mais distante, todas suando em vestidos escuros de l� pesada de Dois Rios. Daise Congar, mais alta e larga que a maioria dos homens, destacava-se das outras Sabedorias, projetando-se para a frente para tomar a lideran�a nas cercanias de sua pr�pria aldeia. Edelle Gaelin, de Colina da Vig�lia, magra e de tran�as grisalhas, mantinha as costas retas e a express�o dura para deixar claro que considerava que deveria ocupar o lugar de Daise, se n�o por qualquer outra raz�o, em virtude da idade e do longo tempo no of�cio. Elwinn Taron, Sabedoria de Trilha de Deven, era a mais baixa: uma mulher redonda e com um agrad�vel sorriso maternal, que ela exibia mesmo quando estava obrigando os outros a fazer o que n�o queriam. A �ltima, Milla al�Azar, de Barca do Taren, vinha na retaguarda. Era a mais jovem, quase com idade para ser filha de Edelle, e sempre parecia insegura perto das outras.</p><p>Faile continuou de p�, abanando-se devagar. Desejava, de cora��o, que Perrin estivesse ali. De verdade. Aquelas mulheres tinham tanta autoridade na aldeia quanto o prefeito � �s vezes at� mais, sob alguns aspectos �, e era preciso muito cuidado ao lidar com elas, dedicando-lhes a dignidade e o respeito devidos. O que dificultava as coisas. Perto de Perrin, todas pareciam garotinhas t�midas, �vidas por agradar, mas com ela� fazia s�culos que Dois Rios n�o tinha nobres; havia sete gera��es que n�o se via sequer um representante da Rainha em Caemlyn. Todos ainda estavam aprendendo a se comportar diante de um lorde e uma lady, inclusive aquelas quatro. �s vezes esqueciam que estavam diante de Lady Faile, viam apenas uma jovem mulher cujo casamento Daise presidira poucos meses antes. �s vezes enchiam-na de rever�ncias e de �sim, claro, milady�, mas bem no meio da fala diziam exatamente o que ela devia fazer a respeito de alguma quest�o sem notar a menor incongru�ncia. <emphasis>Voc� n�o vai mais deixar isso na minha m�o, Perrin.</emphasis></p><p>As mulheres curvaram-se em mesuras, com graus variados de habilidade, e disseram �Que a Luz brilhe sobre a senhora, milady�, umas por cima das outras.</p><p>Cortesias findadas, Daise come�ou a falar antes mesmo de retornar a coluna � posi��o ereta.</p><p>� Mais tr�s garotos fugiram, milady. � As palavras estavam no meio do caminho entre o respeito e o tom de �agora escute aqui, mocinha� que ela �s vezes usava. � Dav Ayellin, Ewin Finngar e Elam Dowtry. Fugiram para ver o mundo, por conta das hist�rias de Lorde Perrin sobre as coisas l� fora.</p><p>Faile piscou, surpresa. Aqueles tr�s n�o eram garotos. Dav e Elam eram mais velhos que Perrin, e Ewin n�o era muito mais novo do que ela pr�pria. E as hist�rias de Perrin, que ele contava rara e relutantemente, n�o j� n�o eram a �nica forma pela qual a juventude de Dois Rios ficava sabendo a respeito do mundo l� fora.</p><p>� Posso pedir a Perrin para falar com voc�s, se desejarem.</p><p>As quatro se remexeram, inquietas, Daise procurando por ele ansiosa, Edelle e Milla alisando as saias sem nem perceber, Elwinn puxando a tran�a por cima do ombro e ajeitando-a com cuidado, tamb�m de modo inconsciente. De s�bito, notaram o que estavam fazendo e congelaram, sem olhar umas para as outras. Nem para ela. A �nica vantagem de Faile era que aquelas mulheres sabiam o efeito que seu marido exercia sobre elas. Tantas vezes vira uma ou outra recuperar a compostura depois de se encontrar com Perrin, jurando n�o deixar que aquilo acontecesse outra vez; tantas vezes vira a determina��o delas sair voando pela janela s� de olharem para seu marido. Nenhuma sabia ao certo se preferia tratar com Perrin ou com ela.</p><p>� Isso n�o ser� necess�rio � respondeu Edelle, depois de um instante. � A fuga dos garotos � um aborrecimento, mas nada mais do que isso. � Seu tom se tornou ainda menos respeitoso que o �milady� de Daise.</p><p>A roli�a Elwinn acrescentou um sorriso pr�prio de m�e para filha.</p><p>� J� que estamos aqui, querida, acho que vale a pena mencionar outra coisinha. �gua. Veja bem, algumas pessoas est�o preocupadas.</p><p>� J� faz meses que n�o chove � completou Edelle, e Daise assentiu.</p><p>Desta vez, Faile piscou de prop�sito. As mulheres eram inteligentes demais para achar que Perrin poderia fazer qualquer coisa a respeito disso.</p><p>� Os c�rregos ainda est�o fluindo, e Perrin ordenou que mais po�os sejam cavados. � Na verdade apenas tinha sugerido, mas felizmente dava no mesmo, no fim das contas. � E os canais de irriga��o da Floresta das �guas estar�o terminados muito antes do per�odo de plantio. � Aquilo era obra dela: metade dos campos em Saldaea eram irrigados, mas ali ningu�m ouvira falar nessa t�cnica. � De todo modo, mais cedo ou mais tarde as chuvas ter�o que cair. Os canais s�o s� por garantia.</p><p>Daise assentiu outra vez, sem muita confian�a, bem como Elwinn e Edelle. Mas todas sabiam daquilo t�o bem quanto ela.</p><p>� N�o � s� a chuva � murmurou Milla. � N�o exatamente, de todo modo. N�o � natural. Veja, nenhuma de n�s consegue escutar o vento. � Ela se encolheu diante das carrancas repentinas das outras. Ficou claro que estava falando demais e revelando segredos. Supostamente todas as Sabedorias eram capazes de prever o tempo escutando o vento. Pelo menos, todas afirmavam ser capazes. Mas a mulher prosseguiu, obstinada. � Bom, n�o conseguimos! Em vez disso, olhamos para as nuvens, avaliamos o comportamento dos p�ssaros, das formigas e das lagartas, e� � Ela respirou fundo e se endireitou, ainda evitando os olhares das outras Sabedorias.</p><p>Faile ponderou sobre como aquela mulher conseguia lidar com o C�rculo das Mulheres de Barca do Taren, ou ainda com o Conselho da Aldeia. Claro, todas as pessoas eram t�o inexperientes nessas posi��es quanto Milla � a aldeia fora totalmente despovoada com os ataques dos Trollocs, e todo mundo ali era novo.</p><p>� Isso n�o � natural, milady. As primeiras neves deviam ter ca�do semanas atr�s, mas estamos em clima de pleno ver�o. N�o estamos preocupadas, milady, estamos apavoradas! Se ningu�m mais quiser admitir, eu admito. Passo quase todas as noites acordada. Faz um m�s que n�o prego o olho, e� � A voz de Milla foi morrendo, e seu rosto enrubesceu quando percebeu que talvez tivesse ido longe demais. As Sabedorias tinham que manter o controle a todo momento, n�o sair por a� dizendo que estavam apavoradas.</p><p>Os olhos das outras iam de Milla para Faile. N�o diziam palavra, e suas fei��es inexpressivas eram dignas de Aes Sedai.</p><p>Faile finalmente compreendia. Milla dissera a mais pura verdade. O clima <emphasis>n�o</emphasis> era natural � era absolutamente o contr�rio disso. Ela mesma com frequ�ncia passava a noite sem dormir, rezando para que chovesse � ou melhor ainda, que nevasse �, tentando n�o pensar no que espreitava por detr�s do calor e da seca. Ainda assim, o papel de uma Sabedoria era tranquilizar o povo. A quem recorreriam quando precisasse ser tranquilizada?</p><p>Aquelas mulheres poderiam n�o saber o que estavam fazendo, mas tinham ido ao lugar certo. Parte do acordo entre nobres e plebeus, internalizado em Faile desde o nascimento, era que os nobres forneciam seguran�a e prote��o. E fornecer seguran�a tamb�m significava lembrar o povo que os tempos dif�ceis n�o duravam para sempre. Se hoje estava ruim, amanh� seria melhor � se n�o amanh�, depois de amanh�. Ela pr�pria desejava ter certeza disso, mas aprendera a ceder a pr�pria for�a a todos os que se encontravam em posi��o inferior, ainda que n�o lhe restasse for�a alguma para si. Apreendera a mitigar os medos do povo, e n�o infect�-los com seu pr�prio.</p><p>� Perrin j� me falava sobre o povo dele antes mesmo de eu p�r os p�s aqui � comentou. Seu marido n�o era homem de se gabar, mas as informa��es acabavam escapando. � Quando o granizo acaba com suas colheitas, quando o inverno mata metade do rebanho de ovelhas, voc�s se enchem de determina��o e seguem em frente. Quando os Trollocs assolaram Dois Rios, voc�s os enfrentaram e, assim que acabaram com eles, come�aram a reconstruir tudo sem nem pestanejar. � Faile n�o teria acreditado se n�o tivesse visto com os pr�prios olhos, n�o se tratando de um povo do sul. Aquela gente teria se sa�do muito bem em Saldaea, onde as incurs�es de Trollocs eram encaradas com naturalidade, pelo menos nos trechos mais ao norte. � N�o posso dizer que o tempo amanh� estar� ideal. Posso afirmar que Perrin e eu faremos o que for preciso, tudo o que for poss�vel. E n�o preciso dizer que voc�s enfrentar�o o que cada dia trouxer, seja o que for, e que v�o se preparar para enfrentar o dia seguinte. � esse o tipo de gente que Dois Rios produz. � o que voc�s s�o.</p><p>Aquelas eram mulheres inteligentes. Se ainda n�o tinham admitido para si pr�prias o motivo da visita, teriam de faz�-lo depois da resposta de Faile. Se fossem menos inteligentes, poderiam ter se ofendido. Mas mesmo as palavras que aquelas Sabedorias diziam a si mesmas s� surtiam o efeito desejado quando vinham de outra pessoa. Claro, isso em si j� era constrangedor. As mulheres ficaram bastante ruborizadas, cada uma de um tom de vermelho, desejando silenciosamente estar bem longe dali.</p><p>� Bem, � claro � respondeu Daise. Com os punhos robustos plantados nos quadris largos, a mulher encarou as outras Sabedorias, desafiando-as a dizerem o contr�rio. � Eu falei a mesma coisa, n�o falei? A garota � sensata. Falei o mesmo logo que ela chegou aqui. Essa garota tem a cabe�a no lugar, eu disse.</p><p>Edelle fungou com desd�m.</p><p>� E por acaso algu�m falou que ela n�o tem, Daise? Eu n�o ouvi ningu�m dizer isso. Ela tem, mesmo. � Para Faile, a mulher acrescentou: � Voc� tem mesmo a cabe�a no lugar.</p><p>Milla meneou a cabe�a em rever�ncia.</p><p>� Obrigada, Lady Faile. Sei que eu j� disse o mesmo a cinquenta pessoas, mas, vindo da senhora, de alguma forma� � Um pigarreio alto de Daise a interrompeu bem no meio da frase. Aquilo estava indo longe demais. O rosto de Milla ficou mais vermelho.</p><p>� Excelente trabalho de costura, milady. � Elwinn inclinou-se para a frente e tocou a saia de montaria preferida de Faile. � Mas sei de uma costureira taraboniana l� em Trilha de Deven que pode fazer uma ainda melhor para a senhora. Se me permite o coment�rio. Dei uma palavrinha com a mulher, e agora ela s� faz vestidos decentes, exceto para as mulheres casadas. � O sorriso maternal surgiu outra vez em seu rosto, ao mesmo tempo duro e indulgente. � Ou as que est�o sendo cortejadas. Ah, ela faz umas pe�as bonitas. Ora, aposto que consideraria um prazer trabalhar com seu tom de pele e sua cintura.</p><p>Antes que a outra terminasse, Daise foi abrindo um sorriso complacente.</p><p>� Therille Marza, bem aqui em Campo de Emond, j� est� fazendo meia d�zia de vestidos para Lady Faile. E o traje de gala mais bonito que j� vi.</p><p>Elwinn se endireitou, Edelle franziu os l�bios e at� Milla ficou pensativa.</p><p>Para Faile, a audi�ncia estava encerrada. A costureira domanesa requeria pulso firme e vigil�ncia constante para que n�o vestisse Faile para a corte de Bandar Eban. O traje de gala fora ideia de Daise, uma surpresa. E mesmo que fosse ao estilo de Saldaea, em vez de Arad Doman, Faile n�o sabia onde poderia us�-lo. Levaria um tempo at� Dois Rios come�ar a organizar bailes ou desfiles. Se dependesse das Sabedorias, logo todas estariam competindo para ver qual das aldeias a vestiria.</p><p>Ofereceu ch� �s mulheres, acrescentando um coment�rio displicente de que poderiam pensar em uma forma de encorajar o povo em rela��o ao clima. A fala logo surtiu o efeito desejado, e as mulheres sa�ram quase trope�ando umas nas outras, lamentando os deveres que as impediam de ficar mais.</p><p>Faile observou-as partirem. Milla na retaguarda, como de costume, feito uma crian�a correndo atr�s das irm�s mais velhas. Talvez fosse poss�vel trocar algumas palavras discretas com algumas integrantes do C�rculo das Mulheres de Barca do Taren. Cada aldeia precisava de um prefeito e uma Sabedoria firmes para defender os interesses do povo. Palavras discretas e cuidadosas. Quando Perrin descobrira que Faile andara conversando com os homens de Barca do Taren antes das elei��es para prefeito�. Ora, se havia um sujeito inteligente e entusiasmado com a presen�a dela e de Perrin, por que os eleitores n�o poderiam saber que ela e Perrin retribu�am aquele apoio? Mas quando ele descobrira� Perrin era um homem gentil, raramente se irritava, mas Faile se trancara no quarto dos dois s� por garantia, at� que ele se acalmasse. O que s� aconteceu depois da promessa de ela n�o �interferir� mais em nenhuma elei��o para prefeito, abertamente ou �s escondidas. O que fora muito injusto da parte dele. E muito inconveniente. Mas Perrin n�o mencionara as elei��es do C�rculo das Mulheres. Bem, o que os olhos dele n�o viam poderia lhe fazer muito bem. E tamb�m a Barca do Taren.</p><p>Pensar em Perrin fez Faile relembrar a promessa que fizera a si mesma. O leque de penas abanou mais depressa. Aquele n�o fora o dia das piores bobagens, nem o pior momento com as Sabedorias � ningu�m perguntara quando Lorde Perrin teria um herdeiro, gra�as � Luz! �, mas talvez o calor impiedoso tivesse sido a gota d��gua. Perrin <emphasis>cumpriria</emphasis> sua obriga��o, ou�</p><p>Um trov�o ressoou pela mans�o, e rel�mpagos iluminaram as janelas. Faile encheu-se de esperan�a. Se a chuva viesse�</p><p>Correu sem fazer barulho com os p�s cal�ados nas sand�lias, procurando pelo marido. Queria compartilhar a chuva com ele. E ainda pretendia dizer algumas palavrinhas duras. Mais do que algumas, se preciso.</p><p>Perrin estava onde ela tinha imaginado: bem l� em cima, no terceiro andar, no alpendre frontal � um homem de cabelos cacheados vestido em um casaco marrom liso, com ombros e bra�os robustos. Tinha as costas largas viradas para ela e se apoiava em uma das colunas de sustenta��o da cobertura. Encarava o ch�o de um dos lados do solar, n�o o c�u. Faile parou � porta.</p><p>Outro trov�o ressoou, e um raio azul rasgou o c�u. Um raio sem trov�o em um c�u sem nuvens. N�o era pren�ncio de chuva. Nada de chuva para aliviar o calor. Got�culas de suor brotavam em seu rosto, mas ela tremia.</p><p>� Acabou? � perguntou Perrin, e Faile se sobressaltou.</p><p>O marido n�o levantara a cabe�a. �s vezes era dif�cil lembrar-se de como sua audi��o era sens�vel. Ou ele poderia ter sentido o cheiro de Faile � torceu para que fosse o perfume, n�o o suor.</p><p>� Achei que voc� estaria com Gwil ou Hal.</p><p>Aquele era um dos maiores defeitos de Perrin. Faile tentava treinar servi�ais, mas ele os considerava companhia adequada para tomar uma caneca de cerveja e dar umas risadas. Pelo menos n�o ficava atr�s de qualquer rabo de saia, como tantos homens. Nunca sequer percebera que Calle Coplin come�ara a trabalhar na casa deles com o intuito de fazer mais do que arrumar a cama de Lorde Perrin. E nem mesmo notara quando Faile p�s Calle para fora com um punhado de gravetos.</p><p>Ao aproximar-se do marido, viu para o que ele estava olhando. Dois homens despidos at� a cintura praticavam esgrima com espadas de madeira, mais abaixo. Tam al�Thor era robusto e grisalho, e Aram, magro e jovem. Aram estava aprendendo depressa. Muito depressa. Tam j� fora soldado, al�m de mestre espadachim, mas Aram pareceria estar dando trabalho.</p><p>Sem nem pensar, ela baixou os olhos para as tendas agrupadas em um campo cercado de pedras a meia milha na dire��o da Floresta do Oeste. O restante dos latoeiros estava acampado entre carro��es � ainda n�o acabados � que pareciam casinhas sobre rodas. Naturalmente, j� n�o reconheciam a presen�a de Aram desde que ele empunhara a espada. Os Tuatha�an n�o praticavam viol�ncia, por qualquer motivo que fosse. Faile se perguntou se iriam embora quando os carro��es incendiados pelos Trollocs fossem substitu�dos, conforme o planejado. N�o somavam mais de cem, mesmo depois de reunidos todos os que estavam escondidos na mata. Decerto iriam, deixando Aram para tr�s, como ele pr�prio escolhera. Nunca ouvira falar de algum Tuatha�an fixando moradia em qualquer lugar que fosse.</p><p>Por outro lado, o povo de Dois Rios costumava dizer que, por ali, nada nunca mudava, ainda que muita coisa tivesse mudado desde os Trollocs. Campo de Emond, a algumas centenas de passadas da mans�o, aumentara em tamanho, e sua popula��o j� reconstru�ra todas as casas incendiadas, al�m de come�ar a erguer novas moradias. Algumas at� eram de tijolos, outra novidade. E algumas tinham telhados de telha. Na velocidade com que as novas habita��es estavam sendo erigidas, a mans�o logo estaria dentro da aldeia. Muito se falava a respeito de um muro, caso os Trollocs retornassem. Mudan�as. Um punhado de crian�as corria pelas ruas atr�s do gigantesco Loial. Poucos meses antes, a vis�o do Ogier, da altura de um homem e meio, com as orelhas peludas e o nariz t�o largo que quase ocupava o rosto inteiro, deixara todas as crian�as embasbacadas, e as m�es, desesperadas para proteg�-las. Mas as m�es j� haviam passado a mandar seus filhos para sess�es de leitura com o Ogier. Os estrangeiros que circulavam entre os habitantes de Campo de Emond, em seus casacos e vestidos de cortes ex�ticos, destacavam-se quase tanto quanto Loial, mas ningu�m lhes dispensava mais que uma olhadela, e o mesmo acontecia com os tr�s Aiel da aldeia � sujeitos estranhos, longil�neos, todos vestidos em tons de marrom e cinza. At� duas semanas antes, ainda havia duas Aes Sedai por l�, que tamb�m j� provocavam apenas mesuras e cumprimentos respeitosos. Mudan�as. Os dois mastros erguidos n�o muito longe do rio Fonte de Vinho, no Campo, eram vis�veis por sobre os telhados das casas, um ostentando a silhueta vermelha da cabe�a de lobo que se tornara s�mbolo de Perrin, o outro, a �guia carmesim s�mbolo de Manetheren, que desaparecera durante as Guerras dos Trollocs, cerca de dois mil anos antes, mas aquela terra fizera parte da na��o, e Dois Rios hasteava sua bandeira quase por aclama��o. Mudan�as � e eles n�o faziam ideia de como eram grandes, de como eram inexor�veis. Mas Perrin os apoiaria, n�o importava o que viesse pela frente. Com a ajuda de Faile, ele os apoiaria.</p><p>� Eu e Gwil ca��vamos coelhos juntos � comentou Perrin. � Ele � s� alguns anos mais velho, e �s vezes me levava para ca�ar.</p><p>Faile precisou de um momento para se lembrar do que ele estava falando.</p><p>� Gwil est� tentando aprender a ser lacaio. Voc� n�o o ajuda muito quando fica chamando o rapaz para fumar cachimbo e conversar sobre cavalos nos est�bulos. � Ela inspirou lenta e profundamente. A tarefa n�o seria f�cil. � Voc� tem um dever com essas pessoas, Perrin. Por mais dif�cil que seja, voc� precisa cumprir seu dever.</p><p>� Eu sei � respondeu ele, baixinho. � Consigo senti-lo me puxando.</p><p>A voz dele estava t�o estranha que Faile estendeu a m�o e deu um pux�o em sua barba curta, para que ele a encarasse. Os olhos dourados, estranhos e misteriosos como nunca, tinham um ar triste.</p><p>� Como assim? Voc� pode at� ter uma certa afei��o por Gwil, mas ele�</p><p>� � o Rand, Faile. Ele precisa de mim.</p><p>O n� em seu est�mago, que ela andara tentando ignorar, se apertou ainda mais. Faile convencera a si mesma de que esse perigo fora embora com as Aes Sedai. Bobagem. Ela era casada com um <emphasis>ta�veren</emphasis>, um homem destinado a desviar as vidas dos que o rodeavam conforme o Padr�o desejava, e crescera com dois outros <emphasis>ta�veren</emphasis>, um deles o pr�prio Drag�o Renascido. Era uma parte de Perrin que Faile era obrigada a dividir. N�o gostava de ter que dividir nem um fio de cabelo, mas aquilo n�o tinha jeito.</p><p>� E o que voc� vai fazer?</p><p>� Vou atr�s dele. � Perrin desviou o olhar por um instante, e os olhos de Faile acompanharam os seus. Recostados � parede estavam um pesado martelo de ferreiro e um machado com uma l�mina afiada em formato de meia-lua, com um cabo de meia passada de comprimento. � Eu n�o estava� � Sua voz era quase um sussurro. � N�o estava conseguindo encontrar uma forma de contar isso a voc�. Vou hoje � noite, quando todos estiverem dormindo. Acho que n�o tenho muito tempo, e a viagem pode ser longa. Mestre al�Thor e Mestre Cauthon v�o ajudar voc� com os prefeitos, se for preciso. Eu j� falei com eles. � Perrin tentou suavizar a voz, uma tentativa lament�vel. � De qualquer modo, voc� n�o deve ter problemas com as Sabedorias. Engra�ado� quando eu era garoto, as Sabedorias sempre pareciam t�o assustadoras, mas na verdade s�o bem tranquilas, basta ser firme.</p><p>Faile comprimiu os l�bios. Ent�o ele tinha falado com Tam al�Thor e Abell Cauthon, mas n�o com ela? E com as Sabedorias! S� queria que ele trocasse de lugar com ela por um dia, para ver como as Sabedorias eram tranquilas.</p><p>� N�o tem como a gente partir assim t�o r�pido. Precisaremos de tempo para organizar uma comitiva decente.</p><p>Perrin estreitou os olhos.</p><p>� A gente? Voc� n�o vai! Vai ser� � Ele tossiu, ent�o prosseguiu em um tom mais moderado. � Vai ser melhor se um de n�s ficar aqui. Quando o lorde viaja, a lady precisa ficar para cuidar das coisas. Faz sentido. Chegam mais refugiados a cada dia. Tem um monte de problemas para resolver. Se voc� tamb�m for, a situa��o por aqui vai ficar pior do que com a invas�o dos Trollocs.</p><p>Ele realmente acreditava que ela n�o repararia que ele tinha se corrigido no meio da frase? Perrin estava prestes a dizer que seria perigoso. Como ser� que essa mania dele de querer proteg�-la dos perigos a fazia se derreter por dentro e ao mesmo tempo a deixava t�o irritada?</p><p>� N�s vamos fazer o que voc� achar melhor � respondeu a jovem, em um tom brando, e Perrin piscou, desconfiado, ent�o co�ou a barba e assentiu.</p><p>S� restava faz�-lo enxergar o que realmente era melhor. Pelo menos ele n�o declarara logo de in�cio que ela <emphasis>n�o podia</emphasis> ir. Quando Perrin fincava a pata, era mais f�cil arredar um celeiro de gr�os, mas, tomando o devido cuidado, era poss�vel evitar uma situa��o dessas. Na maioria das vezes.</p><p>Faile o abra�ou de repente e enterrou o rosto em seu peito largo. As m�os fortes de Perrin acariciaram seus cabelos com suavidade � ele decerto pensava que Faile estava preocupada com sua partida iminente. Bem, de certa forma, ela estava. S� que n�o era por ele estar partindo sem ela. Perrin ainda n�o aprendera o que significava ter uma esposa de Saldaea. Os dois estavam t�o longe de Rand al�Thor� Por que � que o Drag�o Renascido precisava de Perrin justo naquele momento, e com tanta for�a que seu marido podia sentir a centenas de l�guas de dist�ncia? Por que havia t�o pouco tempo? Por qu�? A camisa de Perrin estava colada ao corpo suado, e o calor anormal tamb�m fazia Faile transpirar, mas ela tremia.</p><empty-line/><p>Com uma das m�os no punho da espada, Gawyn Trakand usava a m�o livre para jogar uma pedrinha para o alto e peg�-la em seguida enquanto circulava mais uma vez ao redor de seus homens, conferindo as posi��es nos entornos da colina encimada de �rvores. Um vento quente e seco levantava a terra pela pastagem marrom cheia de ondula��es e fazia drapejar o manto verde e simples pendurado �s suas costas. N�o se via nada al�m de grama morta, moitas isoladas e arbustos mirrados. Teria de cobrir muitas frentes com os homens que comandava, caso uma luta fosse travada ali. Ele os reunira em grupos de cinco espadachins a p�, com arqueiros cinquenta passadas atr�s, colina acima. Outros cinquenta homens aguardavam com lan�as e cavalos a postos, no cume, pr�ximos ao acampamento, prontos para avan�ar para onde fosse necess�rio. Gawyn torcia para que n�o fosse preciso.</p><p>No in�cio, havia menos rapazes da Jovem Guarda, mas sua reputa��o atraiu recrutas. O aumento dos n�meros seria de grande ajuda, e nenhum recruta tinha permiss�o para sair de Tar Valon antes de estar � altura de certos padr�es. N�o que ele esperasse que fosse haver luta naquele dia, n�o mais do que em qualquer outro, a quest�o � que aprendera que a hora da batalha muitas vezes vinha quando menos se esperava. S� as Aes Sedai esperariam at� o �ltimo minuto para revelar a um homem que algo t�o importante estava para acontecer.</p><p>� Tudo certo? � perguntou, parando junto a um grupo de espadachins. Apesar do calor, alguns usavam os mantos verdes, exibindo s�mbolo de Gawyn no peito, o javali branco em disparada.</p><p>Jisao Hamora era o mais jovem, ainda com sorriso de garoto, mas tamb�m o �nico dos cinco com uma pequena torre prateada na gola, enfeite que o marcava como veterano na batalha da Torre Branca. Foi ele quem respondeu.</p><p>� Tudo certo, milorde.</p><p>A Jovem Guarda fazia jus ao nome. O pr�prio Gawyn, com pouco mais de vinte anos, estava entre os mais velhos. Era regra n�o aceitar ningu�m que j� tivesse feito parte de algum ex�rcito, empunhado armas para um lorde ou lady ou mesmo trabalhado como guarda de mercadores. Os primeiros integrantes haviam chegado � Torre ainda meninos ou jovens para serem treinados pelos Guardi�es, os mais ex�mios espadachins e combatentes do mundo, e continuavam parte da tradi��o, embora os Guardi�es n�o os treinassem mais. A juventude n�o era uma falha. Apenas uma semana antes, o grupo conduzira uma pequena cerim�nia para os primeiros pelos de bigode que Benji Dalfor raspara, e em seu rosto havia uma cicatriz que ganhara na batalha da Torre. As Aes Sedai estavam ocupadas demais para Curar nos dias seguintes � deposi��o de Siuan Sanche. A mulher talvez ainda fosse Amyrlin, caso a Jovem Guarda n�o tivesse enfrentado e vencido muitos de seus antigos instrutores nos corredores da Torre.</p><p>� Isso tem algum prop�sito, milorde? � perguntou Hal Moir. O sujeito era dois anos mais velho que Jisao e, como muitos que n�o ostentavam a torre de prata, lamentava-se por n�o ter estado presente no conflito. Ele logo amadureceria. � N�o vejo o menor sinal de Aiel.</p><p>� Ah, n�o v�? � Sem qualquer indicativo, Gawyn arremessou a pedra com toda a for�a no �nico arbusto que havia por perto, uma moita irregular. O �nico som que se ouviu foi o farfalhar das folhas mortas, mas o arbusto se remexeu um tantinho mais do que o esperado, como se um homem escondido ali tivesse sido atingido em um ponto sens�vel. Os mais novos exclamaram, mas Jisao apenas afrouxou a espada na bainha. � Um Aiel, Hal, � capaz de se esconder at� em um buraco no ch�o onde voc� n�o teria nem trope�ado. � N�o que Gawyn soubesse sobre os Aiel muito al�m do que havia nos livros, mas lera cada volume que encontrara na biblioteca da Torre Branca, todos escritos pelos homens que de fato haviam enfrentado Aiel. Lera todos os livros que encontrara com relatos de soldados entendidos no assunto. Um homem precisava estar preparado para o futuro, e, ao que parecia, o futuro do mundo era a guerra. � Mas, se aprouver � Luz, n�o haver� luta hoje.</p><p>� Milorde! � gritou uma voz do alto da colina, quando o sentinela avistou o que ele acabara de ver: tr�s mulheres emergindo de uma moitinha algumas centenas de passadas a oeste, vindo em dire��o � colina. Oeste, que surpresa. Mas os Aiel gostavam de surpresas.</p><p>Lera a respeito das mulheres Aiel que lutavam ao lado dos homens, por�m aquelas n�o tinham a menor condi��o de lutar: usavam volumosas saias escuras e blusas brancas. Apesar do calor, tinham xales enrolados nos ombros. Por outro lado, como haviam chegado �quela moita sem serem notadas?</p><p>� Mantenham os olhos atentos, e n�o nelas � mandou, desobedecendo a pr�pria ordem e encarando com interesse as tr�s S�bias, emiss�rias dos Aiel Shaido. Ali, n�o poderiam ser outra coisa.</p><p>As mulheres avan�avam, imponentes, nem parecendo estar se aproximando de um grupo de homens armados. Os cabelos iam at� a cintura � Gawyn lera que os Aiel usavam cabelos curtos � e estavam presos por len�os dobrados. Usavam tantos braceletes e colares compridos de ouro, prata e marfim que o brilho as teria denunciado a uma milha de dist�ncia.</p><p>Empertigadas e com o semblante orgulhoso, as tr�s passaram pelos espadachins a passos firmes, sem olh�-los, e come�aram a subir a colina. A l�der era uma loura cuja blusa solta revelava a pele consideravelmente bronzeada sob o decote aberto. As outras duas eram grisalhas, de rostos bronzeados. A loura deveria ter menos da metade da idade das outras.</p><p>� N�o seria m� ideia chamar essa a� para uma dan�a � comentou um dos rapazes, admirado, depois que as mulheres passaram. Era pelo menos dez anos mais jovem do que a loura.</p><p>� Eu n�o faria isso se fosse voc�, Arwin � retrucou Gawyn, em um tom seco. � Pode ser que haja um mal-entendido. � Lera que os Aiel chamavam a batalha de �dan�a�. � Al�m do mais, ela comeria o seu f�gado no jantar. � Avistara de relance os olhos verde-claros da mulher, e nunca vira olhar mais duro.</p><p>Gawyn ficou olhando as S�bias at� chegarem ao topo da colina, onde meia d�zia de Aes Sedai aguardava com seus Guardi�es. As que os tinham: duas eram da Ajah Vermelha, portanto n�o tinham Guardi�es. Quando as Aiel desapareceram no interior de uma das compridas tendas brancas, com os cinco Guardi�es montando guarda em volta, ele retomou a ronda da colina.</p><p>A Jovem Guarda estava alerta desde que se espalhara a not�cia da chegada dos Aiel, o que desagradara Gawyn. Deveriam estar alertas assim desde antes. At� a maioria dos que n�o exibiam o s�mbolo da torre prateada haviam sido vistos lutando nos arredores de Tar Valon. Eamon Valda, o Senhor Capit�o dos Mantos-brancos em comando, arrastara quase todos os seus homens para o oeste mais de um m�s antes, mas o grupinho deixado para tr�s tentou se juntar aos bandidos e capangas que Valda reunira. Pelo menos esses a Jovem Guarda conseguira afugentar. Gawyn queria poder acreditar que tamb�m tinham afugentado Valda � a Torre decerto mantivera seus pr�prios soldados bem longe das escaramu�as, apesar de a �nica raz�o para a presen�a dos Mantos-brancos tivesse sido tentar causar problemas � Torre �, mas suspeitava de que o Senhor Capit�o tivesse suas pr�prias raz�es para bater em retirada. Provavelmente recebera ordens de Pedron Niall, e Gawyn daria tudo para saber quais eram. Luz, como odiava n�o saber. Era como tatear no escuro.</p><p>A verdade era que estava irritado. Admitia. N�o somente por conta dos Aiel, mas por s� ter sido informado sobre essa reuni�o durante a manh� daquele mesmo dia. E tamb�m n�o havia sido informado sobre aonde estavam indo at� ser chamado para uma conversa em particular com Coiren Sedai, a irm� Cinza que liderava as Aes Sedai. Elaida sempre fora reticente e arrogante quando conselheira de sua m�e em Caemlyn, mas depois de elevada ao Trono de Amyrlin, a nova Elaida fazia a antiga parecer aberta e afetuosa. Sem d�vida o pressionara para que ele organizasse aquela escolta com o intuito de afast�-lo de Tar Valon.</p><p>A Jovem Guarda aderira ao lado de Elaida durante a luta � a antiga Amyrlin fora destitu�da do Cajado e da Estola pelo Sal�o, e a tentativa subsequente de libert�-la havia sido pura e simplesmente uma rebeli�o contra a lei �, mas Gawyn j� tinha suas d�vidas em rela��o a todas as Aes Sedai muito antes de ouvir a leitura das acusa��es contra Siuan Sanche. De t�o frequentes que eram, ele j� nem prestava mais aten��o nas afirma��es de que elas manipulavam os tronos feito marionetes, mas foi s� ent�o que viu os cord�is sendo puxados. Viu as consequ�ncias, ao menos, e foi sua irm� Elayne quem dan�ou: saiu dan�ando para bem longe de seus olhos, dan�ou tanto que, at� onde ele sabia, cessou at� de existir. Ela e a outra. Lutara para manter Siuan presa, depois virou as costas e a deixou fugir. Se Elaida algum dia descobrisse isso, nem mesmo a coroa de sua m�e poderia salvar sua vida.</p><p>Ainda assim, Gawyn escolhera ficar porque sua m�e sempre apoiara a Torre, porque sua irm� queria ser Aes Sedai. E porque havia outra mulher que tamb�m queria aquele destino. Egwene al�Vere. N�o tinha sequer o direito de pensar nela, mas abandonar a Torre seria o mesmo que a abandonar. Como eram fr�volos os motivos por que um homem escolhia o pr�prio destino. No entanto, saber que eram fr�volos n�o mudava nada.</p><p>Encarava o gramado ressequido, fustigado pelo vento, enquanto avan�ava a passos largos de uma posi��o a outra. L� estava ele, esperando que os Aiel n�o decidissem atacar, apesar � ou por causa � da conversa que as S�bias dos Shaido estavam travando com Coiren e as outras. Suspeitava de que houvesse Aiel o suficiente para aniquil�-lo, por ali, mesmo com a ajuda das Aes Sedai. Estava a caminho de Cairhien e n�o sabia o que sentia a respeito. Coiren o fizera jurar que manteria a miss�o em segredo, e, mesmo assim, parecia temerosa de suas palavras. Era para estar. Era sempre bom examinar com muito cuidado as palavras de uma Aes Sedai � aquelas mulheres n�o podiam mentir, mas maleavam a verdade feito massa de p�o �, por�m nem assim ele encontrou significados obscuros. As seis Aes Sedai pediriam ao Drag�o Renascido que as acompanhasse at� a Torre, junto com a Jovem Guarda como escolta de honra liderada pelo filho da Rainha de Andor. S� poderia haver uma raz�o, t�o chocante para Coiren que a Cinza s� conseguira fazer vagas alus�es a ela. Gawyn tamb�m ficara chocado. Elaida pretendia anunciar ao mundo que a Torre Branca apoiava o Drag�o Renascido.</p><p>Era quase inacredit�vel. Elaida fora uma Vermelha antes de se tornar Amyrlin. As Vermelhas odiavam a mera ideia de um homem capaz de canalizar. Na verdade, elas em geral n�o pensavam muito nos homens. Mesmo assim, a queda da outrora invenc�vel Pedra de Tear, cumprindo a profecia, confirmava que Rand al�Thor era o Drag�o Renascido, e at� Elaida dizia que a �ltima Batalha estava pr�xima. Gawyn n�o conseguia associar o fazendeiro assustado e abatido que encontrara no Pal�cio Real em Caemlyn ao homem dos boatos que corriam do Rio Erinin at� Tar Valon. Dizia-se que ele enforcara Gr�o-lordes tairenos e permitira que os Aiel saqueassem a Pedra. Rand decerto trouxera os Aiel ao longo da Espinha do Mundo para assolar Cairhien pela segunda vez desde a Ruptura. Talvez fosse a loucura. Gawyn tinha gostado de Rand al�Thor e lamentava o que o homem havia se tornado.</p><p>Quando retornou ao grupo de Jisao, havia mais algu�m � vista: um mascate com um chap�u molengo se aproximava pelo oeste, conduzindo uma mula de carga alta e magrela. O sujeito seguiu direto para a colina: avistara o grupo.</p><p>Jisao se remexeu, mas ficou im�vel quando Gawyn tocou seu bra�o. Este sabia o que o rapaz mais jovem estava pensando, mas, se os Aiel decidissem matar o tal sujeito, n�o haveria o que pudessem fazer. Coiren n�o ficaria nem um pouco contente se ele desse in�cio a uma batalha com o povo com quem ela estava negociando.</p><p>O mascate prosseguiu, bamboleante, at� o arbusto onde Gawyn atirara a pedra. A mula come�ou a abocanhar a grama marrom sem muito crit�rio enquanto o homem tirava o chap�u, ensaiava uma mesura dirigida a todos e come�ava a secar o rosto grisalho com um lencinho encardido.</p><p>� Que a Luz brilhe sobre os senhores, milordes. Os senhores est�o muito bem instalados para viajantes nesses tempos escassos, mas, se houver qualquer coisinha de que precisem, o velho Mil Tesen com certeza traz em suas trouxas. E ningu�m faz pre�o melhor em dez milhas, milordes.</p><p>Gawyn duvidava de que houvesse uma fazenda sequer em um raio de dez milhas.</p><p>� Tempos escassos, de fato, Mestre Tesen. O senhor n�o tem medo dos Aiel?</p><p>� Aiel, milorde? Eles est�o todos l� para baixo, em Cairhien. O velho Mil fareja os Aiel, ah se n�o. Na verdade, queria at� que tivesse uns por aqui. � bom fazer neg�cio com os Aiel. Eles carregam um monte de ouro. De Cairhien. E n�o incomodam os mascates. Todo mundo sabe disso.</p><p>Gawyn absteve-se de perguntar por que o homem n�o estava rumando para o sul, se os Aiel em Cairhien rendiam t�o bons neg�cios.</p><p>� Que not�cias traz do mundo, Mestre Tesen? O senhor, vindo do sul, deve saber o que ainda n�o chegou at� n�s, no norte.</p><p>� Ah, muita coisa l� para o sul, milorde. Os senhores ouviram falar de Cairhien? Daquele sujeito que se diz Drag�o e tudo o mais? � Gawyn assentiu, e o mascate prosseguiu. � Bom, ele tomou Andor. Quase tudo, pelo menos. A rainha morreu. Tem gente dizendo que ele vai dominar o mundo inteiro antes de�</p><p>O sujeito soltou um ganido abafado e parou de falar antes que Gawyn pudesse perceber que o agarrara pelo colarinho.</p><p>� A Rainha Morgase morreu? Responda, homem! Depressa!</p><p>Tesen revirou os olhos em busca de ajuda, mas respondeu, e depressa:</p><p>� � o que dizem por a�, milorde. O velho Mil n�o sabe, mas acha que sim. Todo mundo est� dizendo, milorde. Todo mundo diz que foi obra desse Drag�o. Milorde? Cuidado com o pesco�o do velho Mil, milorde! Milorde!</p><p>Gawyn soltou as m�os com um movimento brusco, como se tivesse tocado em brasa. Queimava por dentro. Era outro pesco�o que queria agarrar.</p><p>� A Filha-herdeira. � Sua voz parecia muito distante. � Alguma not�cia de Elayne, a Filha-herdeira?</p><p>Tesen deu um longo passo atr�s assim que se viu livre.</p><p>� N�o que eu saiba, milorde. Uns dizem que ela tamb�m morreu. Alguns dizem que foi obra dele, mas n�o sei direito.</p><p>Gawyn assentiu, hesitante. Seus pensamentos pareciam vir subindo do fundo de um po�o. <emphasis>Meu sangue deve ser derramado antes do dela, minha vida deve ser entregue antes da dela.</emphasis></p><p>� Obrigado, Mestre Tesen. Eu� � <emphasis>Meu sangue deve ser derramado antes do dela�</emphasis> fora o juramento que fizera quando mal tinha tamanho para olhar por cima da borda do ber�o de Elayne. � O senhor pode fazer neg�cios com� alguns dos meus homens podem precisar� � Gareth Bryne tivera que explicar o significado daquelas palavras, mas, mesmo naquela �poca, Gawyn j� sabia que teria de honrar o juramento, mesmo que fracassasse em tudo o mais na vida. Jisao e os outros o encaravam, preocupados. � Cuidem do mascate ��disse a Jisao, um pouco rude, e deu meia volta.</p><p>Sua m�e estava morta, e Elayne tamb�m. Era s� um boato, mas �s vezes os boatos que corriam na boca do povo tinham um qu� de verdade. Gawyn deu meia d�zia de passos at� o acampamento das Aes Sedai antes de se dar conta do que fazia. Suas m�os do�am. Teve de encar�-las para perceber que a c�imbra que sentia era causada pela for�a com que apertara o punho da espada e teve de se obrigar a solt�-lo. Coiren e as outras pretendiam levar Rand al�Thor a Tar Valon, mas se a m�e dele estivesse morta� Elayne. Se as duas estivessem mortas, queria ver se o Drag�o Renascido sobreviveria a uma espada cravada no cora��o!</p><empty-line/><p>Ajeitando o xale de franjas vermelhas, Katerine Alruddin levantou-se das almofadas da tenda onde estava sentada com as outras mulheres. Quase bufou quando Coiren, roli�a e pomposa, entoou:</p><p>� Tal como foi acordado, assim ser� feito. � Que absurdo! Era uma reuni�o com selvagens, n�o um tratado entre a Torre e um governante, como as palavras sugeriam.</p><p>As Aiel n�o esbo�avam outra rea��o, nenhuma express�o diferente de quando tinham chegado. Era um tanto surpreendente: reis e rainhas sempre tra�am seus sentimentos mais �ntimos quando encarados por duas ou tr�s Aes Sedai, quem dir� meia d�zia, ent�o esses selvagens deveriam estar tremendo visivelmente. Talvez fosse melhor dizer que n�o esbo�aram <emphasis>quase</emphasis> nenhuma rea��o: a l�der � que se chamava Sevanna, mas apresentava-se com o nome seguido por alguma bobagem sobre �ramos�, �Aiel Shaido� e �s�bia� � declarou:</p><p>� Est� acordado, contanto que eu veja a cara dele. � A mulher era sisuda e usava a blusa com o cord�o desamarrado para atrair os olhares dos homens. O fato de os Aiel terem escolhido aquela mulher para lider�-la era uma medida de como eram brutos. � Quero v�-lo, e quero que ele me veja quando for derrotado. S� assim essa sua Torre ser� aliada dos Shaido.</p><p>O toque de ansiedade na voz da Aiel fez Katerine suprimir um sorriso. S�bia? Aquela Sevanna era uma imbecil, isso sim. A Torre Branca n�o tinha aliados: havia os que serviam aos seus des�gnios de bom grado e os que serviam de mau grado, nada mais.</p><p>Um leve franzido nos cantos da boca de Coiren denunciava sua irrita��o. A Cinza era boa negociadora, mas gostava das coisas em perfeita ordem, de que cada passo fosse dado exatamente como planejado.</p><p>� O seu servi�o sem d�vida merece o pre�o que voc� pede.</p><p>Uma das Aiel grisalhas � Tarva, ou algo assim � estreitou os olhos, mas Sevanna assentiu, ouvindo o que Coiren queria que ela ouvisse.</p><p>A Cinza se levantou para escoltar as Aiel at� o p� da colina, acompanhada de Erian, uma Verde, de Nesune, uma Marrom, e dos cinco Guardi�es que somavam no total. Katerine avan�ou at� a orla das �rvores para observar. Na chegada, as Aiel tinham recebido permiss�o para subir sozinhas, como as suplicantes que eram, mas na volta recebiam todas as honrarias poss�veis, para que acreditassem ser realmente amigas e aliadas. Katerine se perguntou se aquelas mulheres eram civilizadas o bastante para perceber as sutilezas.</p><p>Gawyn estava l� embaixo, sentado em uma pedra, encarando o gramado. O que aquele jovem pensaria se descobrisse que ele e seus garotos s� estavam ali para permanecerem afastados de Tar Valon? Nem Elaida nem o Sal�o gostavam de ter � volta um grupinho de lobos que se recusavam a ser encoleirados. Talvez fosse poss�vel persuadir os Shaido a eliminar o problema. Elaida sugerira a ideia. Dessa forma, a morte do rapaz n�o faria sua m�e se voltar contra a Torre.</p><p>� Se olhar por mais tempo para esse garoto, Katerine, vou come�ar a achar que voc� estaria melhor como Verde.</p><p>A Vermelha deixou entrever um breve lampejo de raiva e inclinou a cabe�a respeitosamente.</p><p>� Eu estava s� especulando sobre os pensamentos dele, Galina Sedai.</p><p>Era a demonstra��o m�xima de respeito adequada a um lugar p�blico como aquele, talvez at� um tantinho a mais. Galina Casban aparentava no m�ximo quarenta anos, mas a mulher de rosto redondo tinha pelo menos o dobro da idade real de Katerine e fora l�der da Ajah Vermelha por dezoito anos. Naturalmente, o fato n�o era conhecimento comum entre as irm�s de outras cores � tais coisas diziam respeito apenas � Ajah. Galina sequer integrava o grupo de Votantes das Vermelhas no Sal�o da Torre, embora, pelas suspeitas de Katerine, as l�deres da maioria das outras Ajahs integrassem. Elaida a teria nomeado l�der da expedi��o em vez da presun�osa Coiren, mas a pr�pria Galina apontara que uma Vermelha poderia despertar as suspeitas de Rand al�Thor. O Trono de Amyrlin deveria ser de todas as Ajahs e de nenhuma, renunciando � sua antiga lealdade, ainda assim, se Elaida prestava defer�ncia a algu�m � o que era discut�vel �, essa pessoa era Galina.</p><p>� Ser� que ele vir� por vontade pr�pria, como imagina Coiren? � indagou Katerine.</p><p>� Talvez � respondeu Galina, em um tom seco. � A honra que esta delega��o dispensa a ele deveria ser suficiente para fazer um rei carregar o pr�prio trono at� Tar Valon.</p><p>Katerine n�o se deu ao trabalho de assentir.</p><p>� Essa tal Sevanna vai mat�-lo, se tiver a chance.</p><p>� Ent�o ela n�o pode ter chance alguma. � A voz de Galina era fria, e a boca carnuda parecia r�gida. � O Trono de Amyrlin n�o ficar� satisfeito em ver seus planos interrompidos. E eu e voc� passaremos dias gritando no escuro, antes de morrer.</p><p>Endireitando o xale nos ombros, pensativa, Katerine estremeceu, pensativa. O ar estava empoeirado, era melhor levar o manto leve. O que as mataria n�o seria a raiva de Elaida, ainda que a f�ria da Amyrlin pudesse ser terr�vel. Katerine era Aes Sedai havia dezessete anos, mas at� a manh� da partida de Tar Valon n�o sabia que compartilhava com Galina mais do que a Ajah Vermelha. Integrava a Ajah Negra havia doze anos sem saber que Galina tamb�m fazia o mesmo, e havia muito mais tempo. Por necessidade, as irm�s Negras mantinham suas identidades em segredo, inclusive umas das outras. Os raros encontros ocorriam entre rostos encobertos e vozes disfar�adas. Antes de Galina, Katerine conhecera apenas tr�s que seria capaz de reconhecer. As ordens eram deixadas em seu travesseiro ou nos bolsos do manto, escritas com uma tinta que desaparecia caso o papel fosse tocado por outra m�o que n�o a sua. Havia um local secreto para entregar mensagens, com ordens expressas de n�o tentar ver quem vinha apanh�-las. Jamais desobedecera. Poderia haver irm�s Negras entre as que seguiriam no dia seguinte, mas ela n�o tinha como saber.</p><p>� Por qu�? � perguntou.</p><p>As ordens de poupar o Drag�o Renascido n�o faziam sentido, mesmo que ele fosse entregue nas m�os de Elaida.</p><p>� Perguntar � perigoso para algu�m que jurou obedecer sem questionar.</p><p>Katerine estremeceu outra vez e quase n�o conseguiu conter uma mesura.</p><p>� Sim, Galina Sedai.</p><p>Mas n�o conseguia impedir a mente de repetir a pergunta. Por qu�?</p><empty-line/><p>� Elas n�o demonstram respeito nem honra � resmungou Therava. � Nos deixam entrar em seu acampamento como se f�ssemos c�es desdentados, depois nos levam embora sob escolta, feito suspeitas de ladroagem.</p><p>Sevanna n�o olhava em volta. N�o olharia at� estar outra vez entre as �rvores, em seguran�a. As Aes Sedai estariam atentas a sinais de nervosismo.</p><p>� Elas concordaram, Therava � respondeu. � Por ora, isso basta.</p><p>Por ora. Um dia, todas aquelas terras seriam saqueadas pelos Shaido. Incluindo a Torre Branca.</p><p>� Isso tudo est� muito mal engendrado � interveio a terceira mulher, com a voz r�gida. � As S�bias evitam as Aes Sedai, sempre foi assim. Talvez n�o haja problemas para voc�, Sevanna. Como vi�va de Couladin e de Suladric, voc� fala como chefe de cl� at� mandarmos outro homem a Rhuidean. Mas o restante de n�s n�o deveria tomar parte disso.</p><p>Sevanna mal conseguia se for�ar a continuar avan�ando. Desaine fora contra sua eleva��o a S�bia, bradando em alto e bom som que ela n�o passara por nenhum aprendizado nem fora a Rhuidean uma �nica vez, clamando que seu posto como chefe de cl� a tornava inapta. Al�m do mais, como vi�va de n�o apenas um, mas dois chefes j� mortos, talvez ela trouxesse mau agouro. Felizmente, um bom n�mero das S�bias Shaido dera ouvidos a Sevanna, n�o a Desaine. Por�m, <emphasis>infelizmente</emphasis>, havia gente demais dando ouvidos a Desaine para que fosse seguro faz�-la desaparecer. As S�bias supostamente eram inviol�veis � at� circulavam livres entre os Shaido e os imbecis traidores, l� em Cairhien �, mas Sevanna encontraria um jeito.</p><p>Como se infectada pelas d�vidas de Desaine, Therava come�ou a resmungar, em parte para si mesma:</p><p>� Mal engendrado � ficar contra as Aes Sedai. N�s as serv�amos antes da Ruptura e falhamos. � por isso que fomos enviados � Terra da Trindade. Se falharmos outra vez, seremos destru�dos.</p><p>Era nisso que todos acreditavam: era parte das hist�rias antigas, quase parte dos costumes. Sevanna n�o tinha tanta certeza. Aquelas Aes Sedai pareciam fracas e tolas aos seus olhos, viajando sob a escolta de umas poucas centenas de homens por terras onde os verdadeiros Aiel, os Shaido, poderiam atac�-los com milhares.</p><p>� Vejo o raiar de um novo dia � retrucou, r�spida, repetindo parte de um de seus discursos �s S�bias. � N�o estamos mais atados � Terra da Trindade. Qualquer olho pode ver que o que foi j� mudou. Temos de mudar, ou acabaremos como se nunca tiv�ssemos sido. � Nunca revelara quanto pretendia mudar, claro. Se conseguisse o que queria, as S�bias dos Shaido jamais enviariam um homem a Rhuidean.</p><p>� Dia novo ou antigo � resmungou Desaine �, o que � que vamos fazer com Rand al�Thor se conseguirmos tom�-lo das Aes Sedai? � melhor, e mais f�cil, cravar uma faca em suas costelas durante a escolta delas para o norte.</p><p>Sevanna n�o respondeu. Ela n�o sabia o que responder. N�o ainda. S� tinha a certeza de que, quando o chamado <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, o chefe dos chefes de todos os Aiel, estivesse acorrentado diante de sua tenda feito um c�o raivoso, aquela terra de fato pertenceria aos Shaido. E a ela. Tinha essa certeza antes mesmo de aquele estranho dar um jeito de encontr�-la nas montanhas que os aguacentos chamavam de Adaga do Fratricida. O sujeito lhe entregara um pequeno cubo feito de alguma pedra dura, com entalhes intrincados formando desenhos estranhos, e lhe dissera o que fazer com aquilo quando al�Thor ca�sse em suas m�os. Precisaria da ajuda de uma S�bia capaz de canalizar. Carregava o objeto no bolso do cinto o tempo todo, mas ainda n�o decidira o que fazer com aquilo. Apesar disso, ainda n�o contara a ningu�m sobre o aguacento ou o cubo. Seguiu em frente de cabe�a erguida, avan�ando sob do sol escaldante em um c�u de outono.</p><empty-line/><p>O jardim do pal�cio poderia ter um resqu�cio de frescor se houvesse qualquer �rvore, mas a �nica sombra vinha das topiarias ex�ticas, em formatos de cavalos cavalgando, ursos acrobatas e coisas do tipo. Jardineiros em camisas de manga corriam apressados com baldes de �gua debaixo do sol escaldante da tarde, tentando salvar suas cria��es. Tinham desistido das flores, limpando todos os canteiros e padronizando-os com gramados tamb�m decadentes.</p><p>� Uma pena que o calor esteja t�o forte � comentou Ailron. Ele puxou um len�o de renda da manga rendada do casaco de seda amarela e deu tapinhas delicados no rosto, depois jogou o len�o de lado. Um servi�al de uniforme vermelho e dourado logo apanhou o len�o do ch�o de cascalhos e desapareceu de volta no cen�rio. Outro homem uniformizado depositou um len�o limpo na m�o do Rei, para que este o enfiasse na manga. Ailron n�o agradeceu, claro, sequer pareceu notar. � Esses camaradas em geral conseguem preservar tudo vivo at� a primavera, mas talvez eu tenha algumas perdas neste inverno, j� que est� parecendo que n�o teremos inverno nenhum. As plantas toleram melhor o frio do que a estiagem. Voc� n�o acha que est�o �timas, minha querida?</p><p>Ailron, Ungido pela Luz, Rei e Defensor de Amad�cia, Guardi�o do Port�o Sul, n�o era t�o bonito quanto diziam os rumores, por�m logo que o conhecera, anos antes, Morgase suspeitara de que ele pr�prio talvez fosse a fonte de tais rumores. A cabeleira escura era farta e ondulada � e, mesmo assim, as entradas na testa j� eram percept�veis. O nariz era um pouco comprido demais, as orelhas um tantinho grandes. Todo o rosto sugeria uma vaga brandura. Um dia ela teria de perguntar: esse Port�o Sul dava para onde?</p><p>Abanando o leque de marfim entalhado, ela examinou uma das� composi��es dos jardineiros. Pareciam tr�s mulheres nuas imensas em uma luta desesperada contra serpentes gigantes.</p><p>� S�o mesmo extraordin�rias � respondeu. Uma pedinte dizia o que era necess�rio.</p><p>� Sim. Sim, n�o s�o? Ah, parece que os assuntos de Estado me chamam. Assuntos urgentes, eu receio. � Uma d�zia de homens, de casacos t�o coloridos quanto as flores que j� n�o cresciam naquele jardim, tinham despontado na escadinha de m�rmore no extremo oposto da cal�ada e aguardavam diante de uma dezena de colunas caneluradas que n�o serviam para sustentar coisa alguma. � At� a noite, minha querida. Conversaremos mais sobre os seus terr�veis problemas e o que posso fazer a respeito.</p><p>Ele curvou-se diante da m�o dela, parando a um passo de beij�-la, e Morgase respondeu com uma mesura suave, murmurando as frivolidades costumeiras. O homem foi embora depressa, seguido por todos, exceto um, do grupinho de servi�ais que o acompanhava por toda parte.</p><p>Quando se viu sozinha, Morgase abanou o leque com mais for�a do que podia na presen�a daquele homem � Ailron fingia n�o ser afetado pelo calor, mesmo com o rosto empapado de suor � e seguiu de volta para seus aposentos. Seus por resigna��o mais que concord�ncia, assim como o vestido azul-claro que tivera que aceitar como presente. Insistira na gola alta, apesar do calor: tinha uma opini�o muito firme a respeito de decotes baixos.</p><p>O servi�al que ficara seguia atr�s dela, a curta dist�ncia. E Tallanvor, claro, seguindo-a feito uma sombra, ainda insistindo em usar o grosseiro casaco verde que vestira na viagem at� l�, de espada na cintura como se esperasse que ela fosse ser atacada no Pal�cio de Seranda, a menos de duas milhas de Amador. Morgase tentava ignorar o rapaz alto, mas, como de costume, ele se recusava a ser ignorado.</p><p>� Dever�amos ter ido para Ghealdan, Morgase. Para Jehannah.</p><p>Adiara certas coisas por tempo demais. Suas saias farfalharam quando ela deu meia-volta para confront�-lo, e seus olhos se inflamaram.</p><p>� Na jornada, certas discri��es se faziam necess�rias, mas as pessoas � nossa volta sabem quem eu sou. Lembre-se disso voc� tamb�m e demonstre o devido respeito pela sua Rainha. De joelhos!</p><p>Para seu espanto, ele n�o se moveu.</p><p>� Voc� � a minha Rainha, Morgase? � Pelo menos Tallanvor teve a dec�ncia de baixar a voz para que o servi�al n�o ouvisse e espalhasse a fofoca, mas seus olhos� Morgase por pouco n�o recuou ao ver o desejo n�tido contido neles. E a raiva. � N�o vou deix�-la � pr�pria sorte, Morgase, mas voc� deixou muita coisa para tr�s ao largar Andor nas m�os de Gaebril. Quando resolver isso, vou me ajoelhar aos seus p�s, e pode at� mandarem cortar minha cabe�a, se for sua vontade, mas at� l� Dever�amos ter ido para Ghealdan.</p><p>Aquele jovem tolo se mostrava disposto a morrer lutando contra o usurpador mesmo depois de Morgase perceber que nenhuma Casa em Andor a apoiaria, e dia ap�s dia, semana ap�s semana desde que ela conclu�ra que sua �nica escolha era procurar ajuda no exterior, ele vinha ficando cada vez mais insolente e insubordinado. Poderia pedir a cabe�a de Tallanvor a Ailron e receb�-la sem qualquer questionamento. No entanto, a aus�ncia de questionamentos n�o significava aus�ncia de pensamentos. Ela realmente era apenas uma suplicante ali e n�o podia se dar ao luxo de pedir um favor que n�o fosse absolutamente necess�rio. Al�m do mais, n�o estaria ali sem Tallanvor. Seria prisioneira � pior que prisioneira � de Lorde Gaebril. Eram os �nicos motivos pelos quais a cabe�a de Tallanvor continuaria em seu pesco�o.</p><p>Seu ex�rcito guardava as portas ornamentadas de seus aposentos. Basel Gill era um homem de bochechas rosadas, vaidoso, que usava os cabelos grisalhos penteados para tr�s para disfar�ar a careca parcial. Seu colete de couro, cerzido com discos de a�o, apertava com dificuldade a barriga, e ele levava uma espada que permanecera intocada por vinte anos at� prend�-la no cinto para seguir sua rainha. Lamgwin era dur�o e corpulento, mas seus olhos de p�lpebras pesadas lhe conferiam um aspecto sonolento. Ele tamb�m portava uma espada, mas as cicatrizes em seu rosto e no nariz, quebrado mais de uma vez, eram sinal de que estava mais acostumado a usar os punhos, ou um porrete. Um estalajadeiro e um brig�o de rua. Fora Tallanvor, esse era o �nico ex�rcito de que dispunha at� ent�o para resgatar Andor e seu trono das m�os de Gaebril.</p><p>Os homens se curvaram em mesuras desajeitadas, mas ela passou direto por entre os dois e bateu a porta na cara de Tallanvor.</p><p>� O mundo � declarou, em um rosnado � seria muito melhor sem os homens.</p><p>� E mais vazio, sem d�vida � completou a antiga ama de Morgase, na antessala, sentada em sua cadeira ao lado de uma janela coberta com cortinas de veludo. O coque grisalho de Lini se balan�ava de um lado a outro enquanto ela mantinha a cabe�a inclinada por sobre o aro de bordado. Uma mulher muito magra, mas nem de longe t�o fr�gil quanto aparentava. � Imagino que Ailron esteja igualmente pouco acess�vel hoje? Ou foi Tallanvor, minha crian�a? Voc� precisa aprender a n�o deixar os homens estragarem o seu humor. Essa irrita��o deixa seu rosto todo manchado.</p><p>Lini ainda n�o admitia que n�o era mais ama, apesar de j� ter sido ama da filha de Morgase.</p><p>� Ailron foi fant�stico � respondeu Morgase, com prud�ncia. A terceira mulher no recinto fungou alto. Estivera ajoelhada, apanhando roupas de cama dobradas de dentro de um ba�, e Morgase teve que fazer um esfor�o para n�o olhar feito para ela. Breane era� companheira de Lamgwin. A baixinha bronzeada de sol estava sempre atr�s dele, mas era cairhiena e deixava bem claro que Morgase n�o era sua rainha. � Mais um ou dois dias � prosseguiu �, e acho que consigo que ele se comprometa. Hoje ele finalmente admitiu que preciso de soldados de fora para recuperar Caemlyn. Quando Gaebril for expulso de l�, os nobres vir�o outra vez a mim.</p><p>Esperava que sim: estava em Amad�cia por ter se deixado cegar por Gaebril, por ter destratado at� seus amigos mais antigos entre as Casas s� para seguir ordens dele.</p><p>� �Um cavalo lento nem sempre chega ao fim da viagem� � citou Lini, ainda concentrada no bordado. Gostava muito de ditados antigos, e Morgase suspeitava de que ela inventasse alguns conforme a demanda.</p><p>� Este vai � insistiu. Tallanvor estava errado em rela��o a Ghealdan: segundo Ailron, a na��o estava � beira da anarquia por conta do Profeta a respeito de quem todos os servi�ais andavam cochichando, o sujeito que pregava o Renascimento do Drag�o. � Gostaria de um pouco de ponche, Breane. � A mulher s� a encarou, e ela acrescentou: � Por gentileza.</p><p>Ainda assim, o copo foi servido com uma cara emburrada.</p><p>A mistura de vinho e sucos de frutas estava gelada e refrescante naquele calor, e Morgase apreciou o toque do c�lice de prata contra a pr�pria testa. Ailron mandara trazer neve e gelo das Montanhas da N�voa, embora fosse necess�rio um fluxo quase incessante de carro��es a fim de prover o suficiente para o pal�cio.</p><p>Lini tamb�m apanhou um c�lice.</p><p>� Quanto a Tallanvor � come�ou, depois de um golinho.</p><p>� Deixe quieto, Lini! � vociferou Morgase.</p><p>� E da� que ele � mais novo? � come�ou Breane. Tamb�m servira ponche para si. Tamanha afronta! A fun��o dela era de servi�al, fosse l� o que tivesse sido em Cairhien. � Se quer o homem, agarre-o de uma vez. Lamgwin diz que o sujeito est� jurado a voc�, e j� vi o jeito como ele a olha. � Ela soltou uma risada rouca. � Duvido que recuse. � Os cairhienos eram nojentos, mas pelo menos a maioria encobria os costumes libertinos apropriadamente.</p><p>Morgase estava prestes a expulsar a mulher do quarto quando ouviu uma batida na porta. Sem aguardar permiss�o, um homem de cabelos brancos, todo magro e musculoso, adentrou o recinto. Seu manto branco como a neve trazia o bras�o de um sol dourado e flamejante no peitoral. Torcera para conseguir evitar os Mantos-brancos at� selar um acordo s�lido com Ailron. O vinho fresco de s�bito congelou seus ossos. Onde estavam Tallanvor e os outros? Como tinham permitido que o homem adentrasse seus aposentos daquele jeito?</p><p>Com os olhos escuros cravados nela, o sujeito dispensou uma mesura �nfima. Tinha o rosto envelhecido e a pele repuxada, mas era fraco como um martelo sem dono.</p><p>� Morgase de Andor? � perguntou, com a voz firme e profunda. � Sou Pedron Niall. � N�o era um Manto-branco qualquer, mas o Senhor Capit�o Comandante dos Filhos da Luz em pessoa. � N�o tema. N�o vim para prender a senhora.</p><p>Morgase se aprumou.</p><p>� Me prender? Sob que acusa��o? Eu n�o sei canalizar.</p><p>Assim que as palavras sa�ram de sua boca, ela quase estalou a l�ngua, de t�o exasperada. N�o deveria ter mencionado a canaliza��o. O fato de ter se colocado na defensiva era prova de como estava nervosa. O que dissera era verdade, pelo menos em grande medida. Cinquenta tentativas de sentir a Fonte Verdadeira resultaram em apenas um sucesso, e precisara de mais vinte tentativas de se abrir a <emphasis>saidar</emphasis> at� conseguir um �nico fiozinho. Uma irm� Marrom chamada Verin lhe dissera que havia pouqu�ssima necessidade de ela permanecer na Torre at� aprender a manejar a habilidade �nfima com seguran�a. Mesmo assim, naturalmente, a Torre a fez ficar. Mas at� aquela capacidade de canalizar diminuta era proibida em Amad�cia, sujeita a pena de morte. O anel da Grande Serpente em sua m�o, joia que tanto fascinara Ailron, agora reluzia de t�o quente.</p><p>� Mas foi treinada na Torre � murmurou Niall. � Isso tamb�m � proibido. Por�m, como eu disse, n�o vim para prend�-la, mas para ajud�-la. Dispense suas mulheres para podermos conversar. � Ele ficou � vontade, ocupando uma poltrona alta acolchoada e dobrando o manto no encosto. � Mas, antes que elas saiam, vou querer um pouco desse ponche. � Para desgosto de Morgase, Breane imediatamente levou um c�lice ao homem, mantendo os olhos baixos e o rosto inexpressivo feito uma t�bua.</p><p>Ela se esfor�ou para recobrar o controle.</p><p>� Elas ficam, Mestre Niall. � N�o daria ao homem a satisfa��o de cham�-lo pelo t�tulo. A desfeita n�o parecia intimid�-lo. � O que aconteceu com os meus homens ali fora? N�o vou deixar passar se estiverem feridos. E o que o faz pensar que eu preciso da sua ajuda?</p><p>� Seus homens n�o est�o feridos � respondeu Niall, desdenhoso, ainda bebendo. � Acha que Ailron vai dar o que a senhora precisa? A senhora � uma bela mulher, Morgase, e Ailron aprecia as damas de cabelos da cor do sol. A cada dia, vai se aproximar mais desse acordo que a senhora busca, mas sem nunca fech�-lo, at� a senhora concluir que, talvez, com� algum sacrif�cio, ele acabe cedendo. Mas isso n�o vai acontecer, n�o importa o que d� a ele. A turba desse suposto Profeta est� devastando o norte de Amad�cia. A oeste est� Tarabon, com uma guerra civil de muitos lados, mercen�rios jurados ao tal Drag�o Renascido e rumores de Aes Sedai e do pr�prio falso Drag�o apavorando Ailron. Fornecer soldados � senhora? Se ele conseguisse dez homens para cada um que tem de prontid�o agora, ou at� para cada dois, venderia a pr�pria alma. Mas eu posso enviar cinco mil Filhos montados a Caemlyn, com a senhora no comando. Basta pedir.</p><p>Dizer que Morgase estava at�nita teria sido pouco. Ela foi at� uma cadeira oposta ao sujeito, mantendo a impon�ncia apropriada, e sentou-se antes que as pernas cedessem.</p><p>� Por que o senhor iria querer me ajudar a expulsar Gaebril? � inquiriu. O sujeito obviamente sabia de tudo, sem d�vida possu�a espi�es entre os servi�ais de Ailron. � Nunca dei aos Mantos-brancos a liberdade que desejavam em Andor.</p><p>Dessa vez, Niall fez uma careta. Os Mantos-brancos n�o gostavam dessa alcunha.</p><p>� Gaebril? Seu amante est� morto, Morgase. O falso Drag�o Rand al�Thor somou Caemlyn �s suas conquistas.</p><p>Lini emitiu um gemido fraco, como se tivesse se furado, mas o homem manteve os olhos em Morgase.</p><p>A rainha, por sua vez, precisou agarrar o bra�o da cadeira para n�o apertar a m�o no est�mago. Se a outra m�o n�o tivesse apoiado o c�lice no bra�o da cadeira, ela teria derrubado ponche no carpete. Gaebril, morto? O sujeito tirara vantagem dela, fizera dela sua amante, usurpara sua autoridade, oprimira a na��o em seu nome e, por fim, nomeara a si mesmo Rei de Andor, que nunca tivera um rei. Como, depois de tudo isso, ela poderia lamentar por jamais poder sentir suas m�os outra vez? Era loucura. Se n�o soubesse que era imposs�vel, pensaria que ele tinha dado um jeito de usar o Poder �nico nela.</p><p>Mas al�Thor estava de posse de Caemlyn? Isso podia mudar tudo. Ela o encontrara uma vez, um jovem campon�s assustado, vindo do oeste, tentando de tudo para dispensar o respeito adequado � sua rainha. Mas era um jovem portando a espada de um mestre, com a marca da gar�a. E Elaida o tratara com cautela.</p><p>� Por que o chama de falso Drag�o, Niall? � Se o sujeito pretendia cham�-la pelo nome, poderia passar at� mesmo sem a alcunha de �mestre� destinada aos camponeses. � A Pedra de Tear caiu, como afirmavam as Profecias do Drag�o. Os pr�prios Gr�o-senhores de Tear o proclamaram Drag�o Renascido.</p><p>Niall estampava um sorriso debochado.</p><p>� Em todos os lugares onde ele apareceu havia Aes Sedai. Elas canalizam para ele, pode apostar. O garoto � s� uma marionete da Torre. Tenho amigos em muitos lugares � eram espi�es, a bem da verdade �, e eles me informaram que h� provas de que a Torre fez a mesma arma��o com Logain, o �ltimo falso Drag�o. Talvez ele tenha ficado muito cheio de si, e as Aes Sedai tenham precisado dar um fim nele.</p><p>� N�o h� prova disso. � Morgase ficou satisfeita com a firmeza da pr�pria voz. Ouvira os rumores sobre Logain a caminho de Amador. Mas eram s� rumores.</p><p>O homem deu de ombros.</p><p>� Acredite no que quiser, mas eu prefiro a verdade a fantasias bobas. Ser� que o verdadeiro Drag�o Renascido faria o que ele fez? Os Gr�o-senhores o proclamaram, n�o foi o que a senhora disse? Quantos ele enforcou antes de os outros se curvarem? Ele deixou os Aiel saquearem a Pedra e toda a Cairhien. Afirma que Cairhien deve ter um novo governante, nomeado por ele, mas o �nico poder de verdade por l� � ele mesmo. E, al�m do mais, diz que haver� um novo governante em Caemlyn. A senhora est� morta, sabia disso? Acho que est�o falando em Lady Dyelin. Ele se sentou no Trono do Le�o e realizou audi�ncias, mas imagino que o assento seja muito pequeno, por ser destinado a mulheres. Ele o ergueu como trof�u de sua conquista no Grande Sal�o do seu Pal�cio Real e o substituiu por um trono pr�prio. Mas nem tudo foram flores para ele, claro. Algumas Casas andorianas acham que ele matou a senhora. Agora que a senhora est� morta, come�ou a despertar compaix�o. S� que ele controla tudo em Andor com punhos de ferro, com uma horda de Aiel e um ex�rcito de rufi�es das Terras da Fronteira recrutados pela pr�pria Torre. Mas, se a senhora est� pensando que ele vai receb�-la de volta em Caemlyn e lhe devolver o trono�</p><p>Niall foi baixando a voz, mas a torrente de palavras atingira Morgase feito pedras. Dyelin s� seria a pr�xima na sucess�o se Elayne morresse sem ter filhos. Ah, Luz, Elayne! Ser� que ela ainda estava segura na Torre? Era estranho pensar na antipatia que nutrira pelas Aes Sedai � em grande parte por terem perdido Elayne durante um tempo � e que ela exigira o retorno da filha, sendo que ningu�m <emphasis>exigia</emphasis> nada da Torre, por�m agora esperava que estivessem mantendo sua filha na r�dea curta. Lembrou-se de uma carta enviada por Elayne depois de retornar a Tar Valon. Teria havido outras? Muitos acontecimentos do per�odo em que Gaebril a mantivera cativa eram vagos. Sem d�vida Elayne estava segura. Ela tamb�m deveria estar preocupada com Gawyn e Galad � sabia l� a Luz onde os dois estavam �, mas Elayne era sua herdeira. A paz em Andor dependia de uma sucess�o tranquila.</p><p>Precisava pensar bem no assunto. Tudo fazia sentido, mas as mentiras bem engendradas sempre faziam sentido, e aquele homem era um mestre nessa arte. Precisava de fatos. N�o era surpresa que Andor acreditasse em sua morte: tivera de sair do pr�prio reino �s escondidas, para evitar Gaebril e os que poderiam entreg�-la a ele ou faz�-la pagar pelas injusti�as que ele cometera. Se disso restasse alguma compaix�o, poderia aproveit�-la quando se reerguesse dos mortos. Fatos.</p><p>� Precisarei de tempo para pensar � declarou.</p><p>� Mas � claro. � Niall levantou-se devagar. A pr�pria Morgase teria se levantado, para que ele n�o ficasse mais alto, mas n�o sabia se as pernas aguentariam. � Volto daqui a um ou dois dias. Enquanto isso, quero garantir sua seguran�a. Ailron est� t�o ocupado com os pr�prios problemas que n�o h� como afirmar quem poderia entrar sorrateiro, talvez com m�s inten��es. Tomei a liberdade de postar alguns dos Filhos de vigia aqui. Com o consentimento de Ailron.</p><p>Morgase sempre ouvira dizer que os Mantos-brancos eram o verdadeiro poder em Amad�cia e tinha certeza de que acabara de comprovar isso.</p><p>Niall foi um tantinho mais formal na partida do que na chegada, fazendo uma mesura que serviria a um de seus iguais. De um jeito ou de outro, deixava entrever que ela n�o tinha escolha.</p><p>Morgase se levantou assim que o sujeito foi embora, mas Breane disparou em dire��o �s portas ainda mais depressa. Por�m, antes que as duas conseguissem dar tr�s passos, uma das portas se abriu, e Tallanvor e os outros dois irromperam no aposento.</p><p>� Morgase � chamou ele, em um arquejo, tentando sorv�-la com os olhos. � Achei que�</p><p>� Achou? � indagou a rainha, com desd�m. Era demais! Ele n�o aprendia. � � assim que voc� me protege? Um garoto faria melhor! Pensando bem, isso foi mesmo obra de um garoto.</p><p>Tallanvor sustentou aquele olhar abrasador por mais um instante, ent�o deu meia-volta e saiu, abrindo caminho por Basel e Lamgwin.</p><p>O estalajadeiro permaneceu parado, apertando as m�os nervosamente.</p><p>� Eram pelo menos trinta, minha Rainha. Tallanvor teria lutado� Ele tentou gritar, avisar a senhora, mas deram nele com o cabo de uma espada. O mais velho disse que n�o pretendiam machucar a senhora, mas que queriam tratar unicamente com a senhora, e se fosse necess�rio nos matar� � Olhou para Lini, depois Breane, que estudava Lamgwin de cima a baixo em busca de ferimentos. O sujeito tamb�m parecia bastante preocupado com a esposa. � Minha Rainha, se eu imaginasse que ser�amos de alguma serventia� eu sinto muito. Decepcionei a senhora.</p><p>� �O rem�dio que cura � sempre amargo� � murmurou Lini. � Ainda mais para uma crian�a com ataques de birra.</p><p>Pelo menos desta vez a mulher n�o usara um tom que todo o c�modo fosse capaz de ouvir. E estava certa. Morgase sabia bem disso. Menos em rela��o ao ataque, claro. Basel, de t�o arrasado, j� parecia a ponto de aceitar de bom grado a decapita��o.</p><p>� O senhor n�o me decepcionou, Mestre Gill. Pode ser que um dia eu venha a pedir que o senhor morra por mim, mas s� quando sua morte resultar em um bem maior. Niall s� queria conversar. � Basel se aprumou no mesmo instante, mas Morgase sentiu o peso do olhar de Lini sobre si. Muito amargo. � O senhor pe�a a Tallanvor que venha aqui. Eu� quero me desculpar pelas palavras impetuosas.</p><p>� A melhor maneira de se desculpar com um homem � interveio Breane � � lev�-lo para um canto isolado do jardim.</p><p>Morgase teve um estalo. Antes de se dar conta do que fazia, j� tinha arremessado o c�lice na mulher, espalhando ponche pelo carpete.</p><p>� Saia daqui! � ganiu. � Todos voc�s, saiam! O senhor pode levar o meu pedido de desculpas a Tallanvor, Mestre Gill.</p><p>Breane limpou o ponche do vestido com toda a calma, depois andou devagar at� Lamgwin e deu o bra�o a ele. Basel saiu quase trope�ando ao tentar conduzi-los para fora.</p><p>Para surpresa de Morgase, Lini tamb�m saiu. N�o era de seu feitio, o mais prov�vel era que a antiga ama ficasse e lhe passasse o velho serm�o, como se Morgase ainda tivesse dez anos. N�o sabia por que aguentava aquilo. No entanto, quase pediu que a mulher ficasse. Mas logo todos sa�ram, a porta foi fechada� e ela tinha quest�es mais importantes com que se preocupar do que os sentimentos feridos de Lini.</p><p>Andou em c�rculos pelo carpete, tentando pensar. Ailron exigiria concess�es nos neg�cios � e talvez o �sacrif�cio� de Niall � pela ajuda. Estava disposta a fazer as concess�es, mas temia que Niall estivesse certo em rela��o � quantidade de soldados que o outro dispensaria. De certa forma, seria mais f�cil ceder �s demandas do Senhor Capit�o Comandante. O homem decerto pediria livre acesso a Andor a todos os Mantos-brancos. E autonomia para eliminar os Amigos das Trevas que encontrassem em cada desv�o, para incitar motins contra mulheres desamparadas acusadas de serem Aes Sedai, para matar as verdadeiras Aes Sedai. Niall poderia at� exigir uma lei contra a canaliza��o, contra a ida de mulheres � Torre Branca.</p><p>Seria poss�vel � ainda que dif�cil e sangrento � expulsar os Mantos-brancos quando eles j� tivessem estabelecidos, mas havia mesmo a necessidade de abrir as portas para eles, para come�o de conversa? Rand al�Thor era o Drag�o Renascido, tinha certeza disso, independentemente do que Niall dissesse. Tinha quase certeza. Por�m, pelo que sabia, governar na��es n�o era parte das Profecias do Drag�o. Drag�o Renascido ou falso Drag�o, ele n�o poderia ter posse de Andor. Mas como ela poderia saber?</p><p>Um t�mido ro�ar na porta a trouxe de volta a si.</p><p>� Entre � declarou, com rispidez.</p><p>A porta se abriu lentamente, e entrou um jovem de sorriso largo, vestido em um uniforme vermelho e dourado e trazendo uma bandeja com uma jarra de prata cheia de ponche gelado, j� com got�culas formadas pela umidade. Estava esperando Tallanvor. Lamgwin montava guarda sozinho no corredor, pelo que ela podia ver. Ou pelo menos descansava, recostado na parede feito um seguran�a de taverna. Ela gesticulou, indicando ao jovem onde deixar a bandeja.</p><p>Irritada � Tallanvor deveria ter vindo, ah se deveria! �, voltou a andar em c�rculos. Basel e Lamgwin podiam partir para a aldeia mais pr�xima em busca de boatos, mas seriam apenas boatos, e talvez plantados por Niall. O mesmo valia para os servi�ais do pal�cio.</p><p>� Minha Rainha. Posso falar, minha Rainha?</p><p>Morgase se virou, estupefata. O sotaque era de Andor. O jovem estava ajoelhado, o sorriso largo oscilando entre a d�vida e a arrog�ncia. Talvez tivesse sido belo, mas o nariz quebrado fora mal corrigido. Em Lamgwin o tra�o parecia r�stico, ainda que grosseiro, j� naquele camarada� parecia que o sujeito tinha trope�ado e ca�do de cara no ch�o.</p><p>� Quem � voc�? � inquiriu. � Como entrou aqui?</p><p>� Sou Paitr Conel, minha Rainha. Venho de Mercado de Sheran. Em Andor � acrescentou, como se ela pudesse n�o se dar conta disso.</p><p>Impaciente, Morgase fez um gesto para que o rapaz prosseguisse.</p><p>� Vim para Amador com meu tio, Jen � explicou o rec�m-chegado. Ele � mercador em Quatro Reis, e veio atr�s de tinturas tarabonianas. Elas est�o caras, com todos esses problemas em Tarabon, mas ele achou que pudesse encontrar um pre�o melhor� � Morgase estreitou os l�bios, e o sujeito logo continuou: � Ouvimos falar da senhora, minha Rainha, que a senhora estava aqui no pal�cio. E tem essa lei aqui de Amad�cia, e com a senhora tendo sido treinada na Torre Branca e tudo o mais� Pensamos que poder�amos ajudar� � O rapaz engoliu em seco e concluiu, com uma vozinha fraca: � Ajudar a senhora a fugir.</p><p>� E voc�s est�o preparados para me ajudar� a fugir?</p><p>N�o era o melhor plano, mas ela poderia cavalgar rumo ao norte at� Ghealdan. Tallanvor ficaria exultante. N�o, n�o ficaria, e isso seria pior.</p><p>Paitr, por�m, balan�ou a cabe�a cheio de pesar.</p><p>� Tio Jen tinha um plano, mas agora h� Mantos-brancos em todo o pal�cio. Eu n�o sabia o que fazer al�m de vir falar com a senhora, que foi o que ele mandou. Tio Jen vai pensar em outra coisa, minha Rainha. Ele � esperto.</p><p>� Eu tenho certeza disso � murmurou Morgase. Ent�o a ideia de ir a Ghealdan voltou a esmaecer. � H� quanto tempo voc� saiu de Andor? Um m�s? Dois? � O rapaz aquiesceu. � Ent�o n�o sabe o que est� acontecendo em Caemlyn. � Ela deu um suspiro.</p><p>O jovem lambeu os l�bios.</p><p>� Eu� estamos hospedados em Amador, com um homem que tem pombos. Um mercador. Ele recebe mensagens de todos os cantos. De Caemlyn tamb�m. Mas s� ou�o m�s not�cias, minha Rainha. Pode levar um dia ou dois, mas o tio vai achar outra sa�da. S� queria que a senhora soubesse que tem ajuda por perto.</p><p>Bem, as coisas seriam desse jeito, afinal. Uma disputa entre Pedron Niall e esse tal de Jen, tio de Paitr. Desejou n�o ter tanta certeza quanto em quem apostar.</p><p>� Enquanto isso, pode me contar quanto as coisas est�o ruins em Caemlyn.</p><p>� Minha Rainha, eu fui mandado aqui apenas para informar a senhora a respeito da ajuda. Meu tio vai ficar brabo se eu ficar�</p><p>� Eu <emphasis>sou</emphasis> a sua Rainha, Paitr � retrucou Morgase, com firmeza �, e tamb�m do seu tio Jen. Ele n�o vai se incomodar se voc� responder �s minhas perguntas. � Paitr parecia prestes a sair em disparada, mas ela se acomodou em uma cadeira e se preparou para esgravatar a verdade.</p><empty-line/><p>Pedron Niall sentia-se bastante satisfeito ao descer de sua montaria no p�tio principal da Fortaleza da Luz e jogar as r�deas para um cavalari�o. Morgase estava sob controle, e ele n�o precisara mentir nenhuma vez. N�o gostava de mentir. Criara sua pr�pria interpreta��o dos acontecimentos, mas tinha certeza de tudo. Rand al�Thor era um falso Drag�o, um instrumento da Torre. O mundo estava cheio de idiotas incapazes de pensar. A �ltima Batalha n�o seria um duelo tit�nico entre o Tenebroso e um Drag�o Renascido, um homem comum. O Criador abandonara a humanidade � pr�pria sorte havia muito tempo. N�o� quando Tarmon Gai�don chegasse, seria como nas Guerras dos Trollocs, mais de dois mil anos antes, quando hordas de Trollocs e outras Crias da Sombra emergiram da Grande Praga, arruinaram as Terras da Fronteira e quase afogaram toda a humanidade em um mar de sangue. N�o pretendia deixar a humanidade enfrentar isso cindida e despreparada.</p><p>Uma onda de mesuras de Filhos vestidos em mantos brancos o acompanhou pelos corredores de paredes de pedra da Fortaleza ao longo de todo o trajeto at� sua sala de audi�ncias particular. Na antessala, Balwer, o secret�rio de rosto r�gido, p�s-se de p� de um salto e come�ou a enumerar os pap�is que aguardavam a assinatura do Senhor Capit�o, mas Niall focou a aten��o no homem alto que se levantava, sossegado, de uma das cadeiras encostadas na parede � tinha um cajado carmesim de pastor por tr�s do sol dourado no manto e tr�s n�s dourados de gradua��o abaixo do bordado.</p><p>Jaichim Carridin, Inquisidor da M�o da Luz, tinha o aspecto severo de sempre, por�m com mais cabelos grisalhos nas t�mporas do que da �ltima vez que Niall o vira. Os olhos escuros e fundos guardavam um toque de preocupa��o, e n�o era de se admirar. As duas �ltimas miss�es que lhe foram outorgadas terminaram em desastres, o que era nada auspicioso para um homem com aspira��es de tornar-se Gr�o-inquisidor, talvez at� Senhor Capit�o Comandante.</p><p>Niall largou o manto com Balwer e fez um gesto para que Carridin o acompanhasse at� a sala de audi�ncias propriamente dita, onde as paredes de madeira escura exibiam estandartes de batalha capturados de antigos inimigos como trof�us, e o ch�o era adornado por um sol imenso feito com uma quantidade de ouro capaz de embasbacar a maioria dos homens. No mais, era um aposento simples e estoico, reflexo do pr�prio Niall. O Senhor Capit�o Comandante sentou-se em uma cadeira de espaldar alto bem trabalhada, mas sem ornamentos. As duas compridas lareiras id�nticas, uma em cada extremo do aposento, jaziam frias e limpas naquela �poca do ano em que deveriam abrigar fogueiras. Prova suficiente de que a �ltima Batalha estava pr�xima. Carridin dispensou uma mesura profunda e ajoelhou-se sobre o raio de sol, j� gasto por tantos s�culos de receber p�s e joelhos.</p><p>� Voc� se perguntou por que mandei busc�-lo, Carridin?</p><p>Depois dos acontecimentos na Plan�cie de Almoth e Falme, depois de Tanchico, n�o haveria como recriminar o homem se ele estivesse pensando que seria preso. Por�m, se suspeitava da possibilidade, n�o deixava entrever na voz. Como de costume, n�o se absteve de mostrar que sabia mais do que qualquer um. Decerto mais do que deveria.</p><p>� As Aes Sedai em Altara, meu Senhor Capit�o Comandante. A chance de eliminar metade das bruxas de Tar Valon, bem aqui em nossa porta.</p><p>Um exagero. Havia um ter�o delas em Salidar, se tanto, por�m n�o mais do que isso.</p><p>� E por acaso se perguntou em voz alta, com seus amigos?</p><p>Niall duvidava de que Carridin tivesse algum amigo, mas havia uns sujeitos com quem ele bebia. Com quem se embebedava, nos �ltimos tempos. O homem era dotado de algumas habilidades, no entanto. Habilidades �teis.</p><p>� N�o, meu Senhor Capit�o Comandante. Eu n�o cairia em tamanha esparrela.</p><p>� Bom � respondeu Niall. � Porque voc� n�o vai chegar nem perto dessa Salidar, e nem qualquer outro Filho.</p><p>N�o soube dizer se foi um lampejo de al�vio que o rosto de Carridin estampou por uns instantes. Se foi, era um comportamento destoante: o homem jamais demonstrara falta de coragem. E al�vio, sem d�vida, n�o era a rea��o mais adequada.</p><p>� Mas elas est�o ali pedindo para ser atacadas. Essa � a prova de que os boatos s�o verdadeiros, de que a Torre est� dividida. Conseguiremos destruir esse bando sem que as outras ergam a m�o. A Torre vai se enfraquecer a ponto de sucumbir.</p><p>� Acha mesmo? � perguntou Niall, secamente. Entrela�ou os dedos diante do corpo e manteve o tom de voz suave. Os Questionadores� a M�o desprezava essa alcunha, mas at� ele a empregava. Os Questionadores nunca viam o que n�o estivesse bem diante do pr�prio nariz. � Nem a Torre pode apoiar abertamente esse falso Drag�o al�Thor. E se ele se rebelar, como Logain? Agora� um grupo de insurgentes? Elas sim podem apoi�-lo, e haja o que houver a Torre Branca n�o sujar� as saias. � Tinha certeza de que era isso que estava acontecendo. Caso n�o fosse, havia meios de usar qualquer desuni�o real para enfraquecer mais a Torre. Ainda assim, acreditava estar certo. � Em todo caso, o que o mundo v� � o que importa. N�o deixarei que vejam apenas uma luta entre os Filhos e a Torre. � Precisava que o mundo enxergasse a verdadeira face da Torre: um antro de Amigas das Trevas se metendo com for�as que deveriam se manter intocadas pela humanidade, as respons�veis pela Ruptura do Mundo. � Esta � uma luta do mundo contra o falso Drag�o al�Thor.</p><p>� Ent�o, se n�o vou para Altara, meu Senhor Capit�o Comandante, que ordens tem para mim?</p><p>Niall jogou a cabe�a para tr�s com um suspiro. Sentia um cansa�o s�bito. Sentia todo o peso de sua idade, e ainda mais.</p><p>� Ah, Carridin, voc� vai para Altara.</p><p>Niall conhecia o nome e o rosto de Rand al�Thor desde pouco depois da suposta invas�o mar�tima de Falme, uma conspira��o das Aes Sedai que custara mil homens aos Filhos e espalhara o caos e os Devotos do Drag�o por Tarabon e Arad Doman. Na �poca, ficara sabendo quem era al�Thor e acreditara poder us�-lo para for�ar a uni�o das na��es. Depois de unidas, com o Falso Drag�o sob sua lideran�a, teria sido poss�vel eliminar al�Thor e preparar-se para as hordas de Trollocs. Enviara emiss�rios a cada governante de cada terra para alert�-los do perigo. Mas al�Thor conseguia ser ainda mais ligeiro do que ele imaginara, ainda era dif�cil acreditar. A ideia era deixar o le�o raivoso rugindo pelas ruas por tempo o bastante para assustar todos, mas o le�o se agigantara e ficara mais veloz do que um raio.</p><p>No entanto, nem tudo estava perdido, precisava sempre se lembrar disso. Mais de mil anos antes, Guaire Amalasan se declarara Drag�o Renascido, um falso Drag�o capaz de canalizar. Amalasan conquistara mais terras do que al�Thor possu�a no momento, at� que um jovem rei de nome Artur Paendrag Tanreall enfrentou-o em uma batalha e deu in�cio � escalada de seu pr�prio imp�rio. Niall n�o se considerava um novo Artur Asa-de-gavi�o, mas era o que o mundo dispunha. E, enquanto estivesse vivo, n�o desistiria.</p><p>J� iniciara o contra-ataque � crescente for�a de al�Thor. Al�m dos emiss�rios aos governantes, enviara homens a Tarabon e Arad Doman. Poucos, mas com a miss�o de encontrar as pessoas certas e sussurrar em seus ouvidos que todos os seus problemas eram culpa dos Devotos do Drag�o, os tolos e Amigos das Trevas que haviam declarado apoio a al�Thor. E da Torre Branca. J� chegavam bastantes rumores de Tarabon a respeito do envolvimento de Aes Sedai na briga, rumores que serviam de prepara��o para a verdade. Era hora de dar o pr�ximo passo naquele novo plano, para indicar que lado escolher aos que se mantinham em cima do muro. Tempo. Tinha t�o pouco tempo. Mesmo assim, era imposs�vel n�o sorrir. Certos homens, j� mortos, um dia haviam declarado: �Quando Niall abre um sorriso, est� mirando sua jugular.�</p><p>� Altara e Murandy est�o prestes a ser assolados por uma praga de Devotos do Drag�o � disse a Carridin.</p><empty-line/><p>O aposento parecia o sal�o de estar de um pal�cio � teto abobadado em reboco trabalhado, carpetes com tramas delicadas no piso de azulejos brancos, pain�is com entalhes elaborados nas paredes �, embora estivesse longe de ser um pal�cio. Na verdade, estava longe de qualquer lugar capaz de ser compreendido pela mente humana. O vestido de seda bronze de Mesaana farfalhava enquanto ela circundava uma mesa marchetada de l�pis-laz�li, entretida na montagem de uma complexa torre de domin�s de marfim, na qual cada n�vel era maior que o inferior. Orgulhava-se de realizar o feito unicamente com seus conhecimentos de tens�o e alavancagem, sem usar um fio sequer de Poder. A torre j� tinha nove andares.</p><p>A verdade era que, mais do que entretida, Mesaana estava evitando conversar com sua companhia. Semirhage costurava, sentada em uma cadeira de espaldar alto revestida em tape�aria vermelha, os dedos compridos e magros trabalhando com destreza os pontos min�sculos do padr�o intrincado de flores diminutas. Era sempre surpreendente lembrar que a outra mulher apreciava uma atividade t�o� comum. O vestido preto criava um forte contraste com a cadeira. Nem Demandred tinha a ousadia de insinuar a Semirhage que ela s� usava preto com tanta frequ�ncia porque Lanfear usava branco.</p><p>Pela mil�sima vez, Mesaana tentou analisar a raz�o do desconforto que sentia perto da outra. Conhecia as pr�prias for�as e fraquezas, tanto em rela��o ao Poder �nico quanto em outros aspectos. Igualava-se a Semirhage na maioria dos pontos, e, nos que n�o se igualava, tinha outras for�as para contrapor �s fraquezas da mulher de preto. N�o era isso. Semirhage se deleitava com a crueldade, tinha prazer em causar sofrimento, mas decerto n�o era essa a quest�o. Mesaana sabia ser cruel quando necess�rio, al�m de n�o se importar com o que Semirhage fazia com os outros. Tinha de haver uma raz�o, mas n�o conseguia descobrir qual.</p><p>Irritada, posicionou outra pe�a de domin�, e a torre desmoronou com um estrondo, despejando os quadradinhos de marfim pelo ch�o. Estalando a l�ngua, Mesaana deu as costas para a mesa e cruzou os bra�os.</p><p>� Onde est� Demandred? Faz dezessete dias que ele foi para Shayol Ghul, mas esperou at� agora para nos informar de uma mensagem e ainda por cima n�o apareceu. � Durante aquele per�odo, ela mesma fora duas vezes ao Po�o da Perdi��o e fizera aquela caminhada inquietante, com os dentes de pedra a lhe ro�ar os cabelos. E s� encontrou um Myrddraal estranho, alto demais e que se recusava a falar. Encontrara a Fenda l�, claro, mas o Grande Senhor n�o respondera. N�o permaneceu por muito tempo nenhuma das vezes. Sempre acreditara ser imune ao medo, pelo menos ao suscitado pelo olhar de um Meio-homem, mas, nas duas vezes, o olhar sem olhos do Myrddraal a mandara embora a passos ligeiros, e apenas seu forte autocontrole evitou que sa�sse em disparada. Se a canaliza��o naquele local n�o fosse uma via de morte certa, teria destru�do o Meio-homem ou Viajado para fora do Po�o. � Onde � que ele est�?</p><p>Semirhage desviou a aten��o da costura, erguendo sem piscar os olhos escuros cravados no rosto escuro e pl�cido, ent�o deixou o trabalho de lado e levantou-se com gra�a.</p><p>� Ele vai chegar quando chegar � respondeu, calma. Era sempre calma e sempre graciosa. � Se n�o quiser esperar, v� embora.</p><p>Sem perceber, Mesaana ergueu-se um tantinho nas pontas dos p�s, mas ainda assim precisou olhar para cima. Semirhage era mais alta que a maioria dos homens, mas tinha propor��es t�o perfeitas que s� se podia notar sua altura quando a mulher se erguia, encarando os outros de cima.</p><p>� Embora? Eu <emphasis>vou</emphasis> embora. E ele pode�</p><p>N�o houve qualquer aviso, naturalmente. Nunca havia aviso quando um homem canalizava. Uma linha brilhante e vertical surgiu no ar, depois se expandiu e girou para o lado, formando um port�o com largura suficiente para permitir a entrada de Demandred. Ao chegar, ele dispensou a cada mulher uma pequena mesura. Trajava vestes cinza-escuro, com uma renda clara no pesco�o. Demandred tinha facilidade para acompanhar a moda e os tecidos daquela Era.</p><p>Seu perfil de nariz aquilino era bastante bonito, embora n�o fosse propriamente o tipo que fazia disparar o cora��o de uma mulher. De certa forma, �quase� e �n�o propriamente� eram palavras que haviam permeado a vida de Demandred. O Abandonado tivera a infelicidade de nascer no dia seguinte a Lews Therin Telamon, que se tornaria o Drag�o, enquanto Barid Bel Medar, seu nome da �poca, passaria anos quase conseguindo realizar os feitos de Lews Therin, mas sem propriamente conquistar a mesma fama. Se Lews Therin n�o existisse, Barid teria sido o homem mais aclamado de sua Era. Ser� que estaria ali naquele momento, caso tivesse sido conclamado l�der no lugar daquele homem, que ele considerava intelectualmente inferior, al�m de um idiota demasiado cauteloso e provido de muita sorte? Bem, <emphasis>isso</emphasis> era especula��o, embora Mesaana j� tivesse especulado antes. N�o, o importante era que Demandred desprezava o Drag�o e, depois que o Drag�o Renascera, esse desprezo fora transferido para o novo Drag�o.</p><p>� Por qu�?</p><p>Demandred ergueu uma das m�os.</p><p>� Vamos aguardar a presen�a de todos, Mesaana, para eu n�o ter que me repetir.</p><p>Mesaana sentiu uma pontada min�scula de <emphasis>saidar</emphasis> um instante antes de surgir uma linha cintilante que se abriu em um port�o. Graendal adentrou, pela primeira vez sem a companhia de seus servi�ais seminus, e deixou a passagem desaparecer t�o depressa como a de Demandred. Era uma mulher curvil�nea, com cabelo louro-acobreado e cheio de cachos. E de fato conseguira dar um jeito de encontrar estraite para o vestido de gola alta. E embora fosse de gola alta, a roupa refletia seu humor: o tecido era uma bruma di�fana. �s vezes, Mesaana se perguntava se Graendal pensava em qualquer coisa al�m de seus prazeres sensuais.</p><p>� Fiquei imaginando se estariam aqui � comentou a rec�m-chegada, em um tom jovial. � Voc�s tr�s t�m andado t�o misteriosos.</p><p>A mulher soltou uma risada alegre, meio boba. N�o� julgar Graendal pela apar�ncia seria um erro terr�vel. Quase todos que a tomaram por idiota tinham morrido havia muito, v�timas da mulher a quem trataram com desd�m.</p><p>� Sammael vem? � perguntou Demandred.</p><p>Indiferente, Graendal abanou uma das m�os, que ostentava um anel.</p><p>� Ah, ele n�o confia em voc�. Acho que j� n�o confia nem em si mesmo. � O estraite escureceu, tornando-se uma bruma menos reveladora. � Ele est� liderando ex�rcitos em Illian, lamentando n�o ser capaz de arm�-los com lan�as de choque. Quando n�o � isso, fica procurando algum <emphasis>angreal</emphasis> ou <emphasis>sa�angreal</emphasis> que possa ser usado. Algo com uma for�a decente, claro.</p><p>Todos os olhos se voltaram para Mesaana, que respirou fundo. Qualquer um deles teria dado� bem, quase tudo por um <emphasis>angreal</emphasis> ou <emphasis>sa�angreal</emphasis> �til. Todos tinham mais for�a do que aquelas crian�as mal treinadas que se diziam as Aes Sedai daqueles tempos. Ainda assim, um elo com um n�mero suficiente de crian�as mal treinadas poderia destru�-los. Exceto, claro, pelo fato de que elas n�o sabiam mais como fazer isso, e nem mesmo possu�am recursos para tanto. Era necess�ria a presen�a de um homem para mais de treze mulheres se unirem, e de mais de um homem caso o n�mero total de pessoas ultrapassasse vinte e sete. A verdade era que aquelas garotas � at� as mais velhas pareciam garotas para Mesaana, que vivera mais de trezentos anos, sem contar o tempo que passara presa na Fenda, e era considerada rec�m-chegada � meia-idade � n�o representavam perigo real, mas isso n�o diminu�a o desejo dos presentes por um <emphasis>angreal</emphasis>, ou, melhor ainda, por um <emphasis>sa�angreal</emphasis>, mais poderoso. Com esses objetos remanescentes de seu pr�prio tempo, eles seriam capazes de canalizar uma quantidade de Poder que os transformaria em cinzas caso tentassem sem ajuda. Qualquer um arriscaria muita coisa por uma recompensa dessas, por�m nem tudo. N�o sem uma necessidade real. Mas a falta de necessidade real n�o aplacava o desejo.</p><p>Na mesma hora, Mesaana assumiu um tom de bronca.</p><p>� A Torre Branca agora tem guardas <emphasis>e</emphasis> vigias em suas c�maras blindadas, do lado de dentro e de fora, e ainda por cima contam <emphasis>tudo</emphasis> quatro vezes por dia. A Grande Posse da Pedra de Tear tamb�m est� sob prote��o, com uma trama hedionda que me prenderia com toda for�a se eu tentasse passar por ela ou desat�-la. Acho que s� pode ser desatada por quem atou, e, at� isso acontecer, aquilo ali � uma armadilha para qualquer mulher capaz de canalizar.</p><p>� Um monte de entulhos in�teis, todos empoeirados, pelo que ouvi falar � retrucou Demandred, com desprezo. � Os tairenos reuniram tudo de que tivessem a menor suspeita de liga��o com o Poder.</p><p>Mesaana suspeitava de que o homem n�o falava apenas baseado em rumores. Assim como desconfiava que a Grande Posse tamb�m estivesse protegida com uma armadilha contra homens. Do contr�rio, Demandred j� teria capturado seu <emphasis>sa�angreal</emphasis> e partido atr�s de Rand al�Thor.</p><p>� N�o h� d�vida de que existem alguns em Cairhien e Rhuidean. Mas, mesmo que voc� n�o d� de cara com al�Thor, as duas cidades est�o abarrotadas de mulheres capazes de canalizar.</p><p>� Garotas ignorantes. � Graendal fungou com desd�m.</p><p>� Existe alguma diferen�a � retrucou Semirhage, com frieza � entre morrer nas m�os de uma cozinheira, com uma faca cravada nas costas, ou de perder um duelo sha�je em Qal?</p><p>Mesaana aquiesceu.</p><p>� Ent�o s� sobra o que quer que esteja soterrado em antigas ru�nas ou esquecido em algum s�t�o. Se querem contar com a sorte de encontrar alguma coisa, v�o em frente. Eu n�o vou. A n�o ser que algu�m saiba a localiza��o de uma caixa de estase? � Havia certa aspereza na pergunta. Era poss�vel que as caixas de estase tivessem sobrevivido � Ruptura do Mundo, mas, depois de todos os abalos, decerto estariam no fundo de algum oceano ou nas profundezas das montanhas. Restava muito pouco do mundo que tinham conhecido, al�m de alguns nomes e lendas.</p><p>O sorriso de Graendal era s� do�ura.</p><p>� Sempre achei que voc� devia ser professora. Ah. Desculpe. Esqueci.</p><p>O rosto de Mesaana assumiu uma express�o sombria. Sua trajet�ria at� o Grande Senhor come�ara quando, todos aqueles anos antes, lhe fora negado um lugar em Collam Daan. Haviam-na declarado inadequada para a pesquisa, por�m disseram que ainda poderia ensinar. Bem, e ela ensinara � at� que descobriu como dar uma li��o nos que a haviam desprezado!</p><p>� Ainda estou esperando para ouvir o que o Grande Senhor disse � murmurou Semirhage.</p><p>� Sim. Vamos matar al�Thor? � Mesaana percebeu que agarrava a saia com as duas m�os, ent�o a soltou. Estranho. Nunca se deixava provocar. � Se tudo correr bem, em dois meses, no m�ximo tr�s, ele estar� em um lugar onde eu possa alcan��-lo sem problemas, al�m de indefeso.</p><p>� Onde � que voc� pode alcan��-lo sem problemas? � Graendal arqueou uma sobrancelha, intrigada. � Onde foi que voc� montou o seu covil? Pouco importa. Por mais simples que seja esse plano, � t�o bom quanto os que eu tenho ouvido.</p><p>Demandred continuou em sil�ncio, analisando-as. N�o, n�o analisava Graendal, e sim ela e Semirhage. E, quando enfim falou, meio que para si mesmo, dirigiu-se �s duas.</p><p>� Quando penso em onde voc�s duas se meteram, eu me pergunto� quanto ser� que o Grande Senhor sabe, e h� quanto tempo? Quantos dos acontecimentos ocorreram por des�gnio dele, todo esse tempo? � N�o havia resposta. Por fim, ele completou: � Voc�s querem saber o que o Grande Senhor me falou? Pois bem. Mas fica entre n�s, e bem guardado. J� que Sammael escolheu se afastar, n�o vai saber de nada. Nem os outros, vivos ou mortos. A primeira parte da mensagem do Grande Senhor foi simples: �Deixe o Senhor do Caos reinar.� S�o as palavras exatas. � Os cantos de sua boca se contorceram no mais pr�ximo de um sorriso que Mesaana j� vira em seu rosto. Ent�o, ele contou o resto.</p><p>Mesaana percebeu que tremia, mas n�o soube se de empolga��o ou de medo. O plano poderia funcionar: eles poderiam ganhar tudo. Mas precisariam de sorte, e ela n�o gostava de apostas. Demandred � que era o jogador. Mas ele tinha raz�o a respeito de uma coisa: Lews Therin cunhara a pr�pria sorte com a mesma imperiosidade que se cunha uma moeda. Ao que parecia, Rand al�Thor vinha fazendo o mesmo.</p><p>A menos� a menos que o Grande Senhor tivesse um plano maior do que o que fora revelado. E essa possibilidade a assustava mais do que qualquer outra.</p><empty-line/><p>O espelho de moldura dourada refletia o sal�o, as paredes repletas de mosaicos perturbadores, mob�lia dourada e carpetes refinados, al�m dos outros espelhos e das tape�arias. Um sal�o de um pal�cio, mas sem janelas � nem portas. O espelho refletia uma mulher de vestido vermelho-sangue, bem escuro, andando de um lado a outro, o belo rosto contorcido em um misto de ira e incredulidade. Principalmente incredulidade. Refletia tamb�m o rosto dele, que lhe era muit�ssimo mais interessante do que a mulher. N�o conseguiu resistir a tocar o pr�prio nariz, boca e bochechas para certificar-se de que eram reais. N�o era jovem, por�m era mais jovem do que da primeira vez em que despertara do longo sono, com os infinitos pesadelos. Um rosto comum, e ele sempre odiara ser comum. Sentiu na garganta o princ�pio de uma gargalhada, uma risadinha, e a abafou. N�o estava louco. Apesar de tudo, n�o estava.</p><p>Um nome lhe fora concedido durante o segundo sono, de longe muito mais terr�vel, antes que ele acordasse naquele rosto e corpo. Osan�gar. Um nome dado por uma voz que ele conhecia e n�o ousava desobedecer. Seu antigo nome, concedido com esc�rnio e adotado com orgulho, deixara de existir. A voz de seu mestre assim declarara, e assim foi. A mulher era Aran�gar. E j� n�o era mais quem tinha sido.</p><p>Escolhas interessantes, esses nomes. <emphasis>Osan�gar</emphasis> e <emphasis>aran�gar</emphasis>: as adagas das m�os esquerda e direita em uma forma de duelo bastante popular durante um breve per�odo logo no princ�pio daquele longo processo, desde o dia da cria��o da Fenda at� o verdadeiro in�cio da Guerra do Poder. Suas lembran�as eram meio turvas � muito fora perdido no longo sono, assim como no curto �, mas disso ele recordava. A luta s� fora popular por um breve per�odo porque quase sempre culminava na morte dos dois duelistas. As l�minas das adagas eram revestidas com um veneno de efeito lento.</p><p>Algo formou um borr�o no espelho, e ele se virou, mas n�o muito depressa. Tinha de se lembrar de quem era e se certificar de que os outros se lembrassem. Ainda n�o havia porta, mas um Myrddraal passara a dividir o recinto com ele. Nada daquilo era estranho no lugar onde estava, apesar de o Myrddraal ser mais alto que todos os que Osan�gar j� vira.</p><p>Ele se demorou um pouco, deixando que o Meio-homem esperasse para ter sua presen�a reconhecida. Antes que pudesse abrir a boca, Aran�gar bradou:</p><p>� Por que fizeram isso comigo? Por que me colocaram neste corpo? Por qu�? � A �ltima pergunta saiu quase como um ganido.</p><p>Osan�gar pensou ter visto os l�bios sem sangue do Myrddraal se contorcerem em um sorriso � algo imposs�vel, ali ou em qualquer outro lugar. At� os Trollocs tinham senso de humor, ainda que vil e violento, mas n�o os Myrddraal.</p><p>� Voc�s dois receberam o melhor que pudemos arranjar nas Terras da Fronteira. � Sua voz era um sibilo trai�oeiro em um relvado seco. � � um corpo excelente, forte e saud�vel. E melhor do que a outra op��o.</p><p>As duas afirma��es eram verdadeiras. Era um corpo excelente, adequado a uma dan�arina <emphasis>daien</emphasis> dos tempos passados: bem-desenhado e longil�neo, com um rosto oval cor de marfim que combinava muito bem e olhos verdes, emoldurado por cabelos negros e brilhantes. E qualquer coisa era melhor do que a outra op��o.</p><p>Talvez Aran�gar n�o fosse da mesma opini�o. A ira manchava seu belo rosto. Acabaria se descontrolando. Osan�gar sabia: isso sempre fora um problema de Aran�gar. Lanfear, em contraste, sempre parecia cautelosa. Tentou tocar <emphasis>saidin</emphasis>. Canalizar ali seria perigoso, por�m menos do que deixar que Aran�gar cometesse alguma estupidez. Se abriu para <emphasis>saidin</emphasis>� e nada encontrou. N�o tinha sido blindado � teria sentido isso, e saberia como contornar a situa��o ou romper a blindagem, se n�o fosse muito forte. Parecia que tinha sido apartado. O choque o deixou petrificado.</p><p>O que n�o aconteceu com Aran�gar, que talvez tivesse feito a mesma descoberta, mas tivera uma rea��o diferente. Com um guincho alto, feito um gato, partiu para cima do Myrddraal, as m�os em garra.</p><p>Um ataque in�til, sem d�vida. O Myrddraal sequer se moveu. Em um movimento displicente, a criatura agarrou a mulher pela garganta, estendeu os bra�os e a suspendeu at� os p�s sa�rem do ch�o. O guincho tornou-se um murm�rio, e Aran�gar agarrou o punho do Meio-homem com ambas as m�os. Sustentando o corpo da mulher dependurado, ele voltou o olhar sem olhos para Osan�gar.</p><p>� Voc� n�o foi apartado, mas s� vai canalizar quando receber permiss�o. E nunca vai me atacar. Eu sou Shaidar Haran.</p><p>Osan�gar tentou engolir em seco, mas sua boca parecia um deserto. N�o era poss�vel que a criatura tivesse alguma coisa a ver com o que fora feito a ele. Myrddraal tinham certos poderes, mas nada desse tipo. Ainda assim, o Meio-homem sabia. Nunca gostara dos Myrddraal. Havia ajudado na cria��o dos Trollocs, combinando ra�as humanas e animais � e se orgulhava disso, das habilidades necess�rias, da dificuldade envolvida �, mas aquelas crias acidentais o deixavam incomodado, para dizer o m�nimo.</p><p>Shaidar Haran voltou a aten��o ao corpo que se contorcia, preso por seu punho. O belo rosto come�ava a ficar roxo, mas os p�s continuavam se sacudindo, sem for�as.</p><p>� Voc� vai se adaptar. O corpo se curva � alma, mas a mente se curva ao corpo. J� est� se adaptando. Daqui a pouco vai parecer que nunca esteve em outra carne. Ou pode se recusar� Ent�o outro tomar� o seu lugar, e voc� ser� entregue� aos meus irm�os. E ainda com o bloqueio. � Os l�bios finos se contorceram outra vez. � Eles est�o sentindo falta de um pouco de divers�o aqui nas Terras da Fronteira.</p><p>� Ela n�o consegue falar � interveio Osan�gar. � Voc� vai mat�-la! N�o sabe quem somos? Ponha-a no ch�o, Meio-homem! Obede�a!</p><p>Aquela coisa tinha que ser obrigada a obedecer a um Escolhido. No entanto, o Myrddraal continuou impass�vel, analisando o rosto escurecido de Aran�gar por um longo instante antes de pous�-la de volta no ch�o e abrir o punho.</p><p>� Eu obede�o ao Grande Senhor. A ningu�m mais. � Aran�gar ficou ali, cambaleante, tossindo e engolindo o ar. Se ele retirasse a m�o, a mulher cairia. � Vai se submeter � vontade do Grande Senhor? � A voz rascante n�o fez uma exig�ncia, apenas uma pergunta superficial.</p><p>� Eu� eu vou � conseguiu responder a mulher, rouca, e Shaidar Haran a soltou.</p><p>Aran�gar cambaleou, massageando a garganta, e Osan�gar fez men��o de ajud�-la, mas antes que a tocasse ela o amea�ou com um olhar cortante e o punho cerrado. Ele recusou de m�os erguidas. N�o precisava dessa inimizade. Mas era mesmo um belo corpo, al�m de uma piada maravilhosa. Sempre se orgulhara do pr�prio senso de humor, mas aquilo era muito superior.</p><p>� Voc�s n�o se sentem gratos? � questionou o Myrddraal. � Estavam mortos, agora est�o vivos. Pensem em Rahvin, cuja alma j� n�o tem salva��o, j� n�o pertence ao tempo. Voc�s t�m mais uma chance de servir ao Grande Senhor e se absolver de seus erros.</p><p>Osan�gar se apressou em assegurar � criatura de que era grato, que n�o desejava nada al�m de servir e ganhar absolvi��o. Rahvin estava morto? O que acontecera? N�o importava: um Escolhido a menos era uma chance a mais de conquistar o verdadeiro poder quando o Grande Senhor fosse libertado. Era desgastante se humilhar diante de um ser que ele pr�prio criara, exatamente como os Trollocs, mas se recordava muito bem da morte. E rastejaria at� diante de um verme para evit�-la outra vez. Aran�gar respondeu com a mesma rapidez, pelo que ele p�de perceber, apesar da raiva no olhar. Decerto tamb�m se lembrava.</p><p>� Ent�o est� na hora de voc�s partirem outra vez para o mundo a servi�o do Grande Senhor � declarou Shaidar Haran. � Ningu�m al�m de mim e do Grande Senhor sabe que voc�s est�o vivos. Se forem bem-sucedidos, viver�o para sempre e ocupar�o um lugar acima de todos os outros. Se falharem� Mas voc�s n�o v�o falhar, n�o � mesmo?</p><p>O Meio-homem sorriu. Era como ver a morte sorrindo.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 1</p><p><image l:href="#11"/></p><p>Le�o na colina</p></title><p>A Roda do Tempo gira, e as Eras v�m e v�o, deixando mem�rias que se transformam em lendas. As lendas se desvanecem em mitos, e at� o mito j� est� h� muito esquecido quando a Era que o viu nascer retorna. Em uma Era, chamada por alguns de a Terceira Era, uma Era ainda por vir, uma Era h� muito passada, um vento se ergueu por entre as florestas de �rvores secas das colinas de Cairhien. O vento n�o era o in�cio. O girar da Roda do Tempo n�o tem in�cios nem fins. Mas era <emphasis>um</emphasis> in�cio.</p><p>O vento soprava na dire��o oeste, por aldeias e fazendas abandonadas, muitas reduzidas a amontoados de madeira carbonizada. A guerra devastara Cairhien, tanto a guerra contra os outros pa�ses quanto a civil, ambas trazendo invas�o e caos, e, mesmo depois de terminado � se � que <emphasis>de fato</emphasis> terminara �, poucas pessoas tinham se aventurado a retornar a suas casas. O vento n�o trazia umidade, e o sol se esfor�ava para ressequir a pouca que restava no solo. Na fronteira entre a pequena cidade de Maerone com a grande Aringill, do outro lado do Rio Erinin, o vento adentrava Andor. As duas cidades pareciam fornos, e, ainda que em Aringill houvesse mais ora��es pedindo chuva � pois os refugiados de Cairhien se acotovelavam no interior das muralhas feito sardinhas em um barril �, at� os soldados aglomerados nos arredores de Maerone ofereciam suas preces ao Criador, as palavras �s vezes embriagadas, �s vezes s�fregas. O inverno j� deveria ter come�ado a despontar na relva, a primeira neve deveria ter ca�do havia muito tempo, e o povo suado temia a raz�o para o frio ainda n�o ter chegado, embora poucos ousassem dar voz a esse temor.</p><p>O vento soprava na dire��o oeste, remexendo as folhas ressecadas das �rvores, fazendo ondear a superf�cie dos c�rregos minguados margeados pela lama dura e seca. N�o havia destro�os de inc�ndios em Andor, mas os alde�es encaravam o sol escaldante com apreens�o, e os fazendeiros tentavam n�o olhar para os campos que, no outono, n�o haviam produzido colheita. O vento seguia para oeste, cruzando Caemlyn, onde dois estandartes tremulavam no alto do Pal�cio Real, no cora��o da Cidade Interna, erguida pelos Ogier. Um dos estandartes tinha o fundo vermelho como sangue e ostentava um disco dividido por uma linha sinuosa, metade de um branco reluzente, metade de um negro profundo. O outro, de um pano branco feito neve, tremulava contra o c�u. A figura ostentada parecia cavalgar ao vento, uma estranha serpente de juba dourada e quatro p�s, os olhos cor de sol e as escamas em tons de ouro e escarlate. Era dif�cil saber qual dos estandartes provocava mais temor. �s vezes, o mesmo seio que acalentava medo trazia esperan�a. Esperan�a de salva��o e medo de destrui��o, ambos vindos da mesma fonte.</p><p>Muitos diziam que Caemlyn era a segunda cidade mais bela do mundo � e n�o s� os andorianos, que costumavam coloc�-la em primeiro lugar, � frente at� da pr�pria Tar Valon. Enormes torres redondas estendiam-se pela imensa muralha externa de pedras cinzentas rajadas de branco e prata, enquanto no interior erguiam-se torres ainda mais altas, seus domos brancos e dourados reluzindo ao sol impiedoso. A cidade se estendia colina acima, e, no centro, ficava a antiqu�ssima Cidade Interna, circundada por uma muralha pr�pria, branca e reluzente, contendo seus pr�prios domos e pin�culos ��um mosaico de azulejos roxos, brancos, dourados e cintilantes que encaravam com arrog�ncia a Cidade Nova, l� embaixo, com seus bem menos de dois mil anos.</p><p>Assim como a Cidade Interna era o cora��o de Caemlyn, e n�o apenas por ocupar o centro, o Pal�cio Real era o cora��o da Cidade Interna. Parecia sa�do de um conto de menestrel, com pin�culos brancos como a neve, domos dourados e trabalhos de cantaria que lembravam rendas. Um cora��o que pulsava sob a sombra daqueles dois estandartes.</p><p>Despido at� a cintura, equilibrando-se sem dificuldade nas pontas dos p�s, Rand estava t�o alheio ao fato de estar no p�tio de azulejos brancos de um pal�cio quanto � presen�a de observadores entre as colunas � volta. O suor colava os cabelos � cabe�a e escorria pelo peito. A ferida arredondada na lateral do corpo, ainda meio cicatrizada, do�a demais, mas ele se recusava a reconhecer a dor. Havia duas figuras iguais �s do estandarte branco acima entrela�adas em seus antebra�os, refletindo um brilho met�lico vermelho e dourado. Drag�es, como os Aiel chamavam, e outros j� adotavam o nome. Rand tinha vaga ci�ncia das marcas de gar�a n�tidas em cada uma de suas palmas, mas s� porque podia senti-las contra o longo cabo da espada de madeira que usava para praticar.</p><p>Ele era um com a espada, fluindo de postura em postura sem nem pensar, as botas ro�ando de leve os azulejos claros. Le�o na Colina virou Arco da Lua, que virou Torre da Manh�. Sem pensar. Cinco homens suados e sem camisa o rodeavam, passando nervosamente de postura em postura, manejando as espadas de pr�tica. Eram tudo o que Rand percebia. Com os rostos r�gidos e confiantes, eram os melhores que encontrara at� ent�o. Os melhores desde que Lan partira. Sem pensar, como Lan lhe ensinara. Ele era um com a espada, um com os outros cinco homens.</p><p>De s�bito, avan�ou, e os homens � sua volta logo se deslocaram para mant�-lo no centro. No exato instante em que esse equil�brio amea�ou se romper, quando pelo menos dois dos cinco sujeitos j� faziam men��o de romp�-lo, Rand deu um giro ligeiro na metade de um passo e come�ou a correr no sentido oposto. Os outros tentaram reagir, mas era tarde demais. Com um estr�pito, Rand aparou um golpe da espada de pr�tica com a pr�pria l�mina feita de ripas de madeira amarradas. Ao mesmo tempo, seu p� direito acertou a barriga do homem de cabelos grisalhos, ao seu lado. O sujeito se encolheu, gemendo. L�mina contra l�mina, Rand for�ou o oponente de nariz quebrado a se virar, chutando outra vez o homem grisalho encolhido enquanto girava. O grisalho caiu, arquejante, tentando respirar. O oponente de Rand tentou recuar para usar a espada, mas o movimento liberou Rand, que desferiu um golpe em espiral � As Tran�as da Videira �, acertando em cheio no peitoral do sujeito, com for�a suficiente para derrub�-lo no ch�o.</p><p>Apenas alguns instantes haviam se passado, t�o poucos que foi nesse momento que os outros homens come�aram a se aproximar. O primeiro, um sujeitinho ligeiro, muito baixo e desproporcionalmente robusto, soltou um grito e, apesar da pr�pria estatura, saltou por cima do sujeito do nariz quebrado, enquanto este desabava para a frente. A espada de pr�tica de Rand o atingiu nas canelas, desestabilizando-o, depois outra vez nas costas, derrubando-o sobre as pedras do pavimento.</p><p>Com isso, restaram apenas dois, mas eram os melhores: um varapau, cuja espada serpenteava como a l�ngua de uma cobra e um sujeito enorme de cabe�a raspada, que n�o falhava nunca. No mesmo instante, os dois se separaram para atacar pelas laterais, mas Rand n�o esperou. Mais que depressa, aproximou-se do magrelo � tinha apenas um instante antes que o outro contornasse os sujeitos ca�dos no ch�o.</p><p>O magrelo era bom, al�m de ligeiro. Rand oferecera ouro em troca de pr�tica com os melhores, e eles tinham comparecido. O sujeito era alto para um andoriano, embora Rand fosse um palmo mais comprido, mas a altura influenciava pouco o manejo da espada. �s vezes, a for�a tamb�m. Rand partiu com tudo para atac�-lo. O homem franziu o rosto comprido e recuou. O Javali Dispara Montanha Abaixo rompeu Cortando a Seda, desarmou Raio de Tr�s Pontas, e as ripas de madeira atadas atingiram com for�a a lateral do pesco�o do homem. Com um grito abafado, o quarto oponente caiu.</p><p>No mesmo instante, Rand se jogou para baixo e para a direita, fez um rolamento por sobre as pedras do pavimento e ergueu-se de joelhos, a espada j� tra�ando O Rio Erode a Margem. O homem de cabe�a raspada n�o era ligeiro, mas tinha conseguido se antecipar ao golpe. Ao mesmo tempo que a espada de madeira de Rand varreu o largo torso do sujeito, as ripas da l�mina do homem acertaram a cabe�a do Drag�o Renascido.</p><p>Por um momento, Rand vacilou, pontos negros borrando a vis�o. Sacudindo a cabe�a com esfor�o, tentando clarear a vis�o, usou a espada de pr�tica como apoio para se levantar. O sujeito da cabe�a raspada o observava, ofegante e receoso.</p><p>� Pague a ele � declarou, e o receio sumiu do rosto do sujeito de cabe�a raspada. � O receio era desnecess�rio. Como se Rand n�o tivesse prometido uma moeda extra por dia a qualquer um que conseguisse acert�-lo. E o triplo para quem o derrotasse sozinho. Era uma forma de garantir que ningu�m recuasse para bajular o Drag�o Renascido. Rand nunca perguntava seus nomes � se o interpretassem mal e lutassem com mais afinco, melhor. Queria oponentes para test�-lo, n�o amigos. Os amigos que j� tinha um dia amaldi�oariam a hora em que o conheceram, isso se j� n�o estivessem amaldi�oando. Os outros sujeitos j� come�avam a se mover � os �mortos� tinham de permanecer im�veis at� o fim da luta, obstruindo a passagem como corpos de verdade, mas o baixinho atarracado teve que ajudar o grisalho a se levantar, al�m de enfrentar a dificuldade de erguer a si pr�prio sem aux�lio. O sujeito �gil remexia a cabe�a, fazendo careta. N�o haveria mais treinamento naquele dia. � Pague a todos.</p><p>Uma onda de aplausos e vivas percorreu as estreitas colunas caneluradas. Vinha dos observadores: lordes e ladies vestidos em sedas coloridas, cheias de bordados e tran�ados elaborados. Rand franziu o cenho e jogou a espada de lado. Aquelas pessoas lambiam as botas de Lorde Gaebril quando a Rainha Morgase � a rainha <emphasis>deles</emphasis> � era pouco mais de uma prisioneira dentro do pal�cio. O pal�cio <emphasis>dela</emphasis>. Mas Rand precisava deles. Por ora. <emphasis>Se agarrar o espinho, vai sair espetado</emphasis>, pensou. Esperava que, ao menos, fosse seu pr�prio pensamento.</p><p>Sulin, uma Aiel esguia e grisalha, l�der da escolta de Donzelas da Lan�a que o acompanhava deste lado da Espinha do Mundo, tirou um marco de ouro de Tar Valon da bolsa do cinto e atirou-o, fazendo uma careta que repuxava a cicatriz hedionda na lateral de seu rosto. As Donzelas n�o gostavam de ver Rand manejando espadas, mesmo de pr�tica. N�o aprovavam o uso de espada nenhuma. Assim como todos os Aiel.</p><p>O homem da cabe�a raspada apanhou a moeda e dispensou uma mesura cautelosa em resposta ao olhar azul fixo de Sulin. Todos agiam com cautela perto das Donzelas, com seus casacos, suas cal�as e botas macias com cadar�os marrons e cinza, a roupa inteira feita para se mesclar � desolada paisagem do Deserto. Algumas haviam come�ado a acrescentar tons de verde ao vestu�rio, para se adequarem ao que chamavam de terras aguacentas � apesar da seca. Em compara��o ao Deserto, eram terras �midas. Poucos Aiel tinham se deparado com �guas intranspon�veis antes de deixar o Deserto e j� tinham disputado rixas amargas pelo controle de laguinhos de duas ou tr�s passadas de largura.</p><p>Como qualquer guerreiro Aiel � como as outras vinte Donzelas de olhos claros espalhadas pelo p�tio �, Sulin tinha cabelos curtos, a n�o ser por um rabo de cavalo na nuca. Portava tr�s lan�as curtas e um broquel redondo de couro de touro na m�o esquerda, al�m de uma faca de l�mina robusta e pontuda no cinto. Como qualquer guerreiro Aiel � at� os da idade de Jalani, com seus dezesseis anos e rosto redondo infantil �, Sulin sabia fazer excelente uso daquelas armas � e o faria � menor provoca��o, pelo menos do ponto de vista do povo daquele lado da Muralha do Drag�o. As Donzelas, exceto Sulin, observavam todos os presentes, cada janela coberta de pain�is vazados em desenhos intrincados, cada balc�o de pedras claras, cada sombra. Algumas portavam arcos curtos e curvos feitos de chifres, com flechas j� encaixadas, e mais flechas preparadas nas aljavas peludas da cintura. <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, as Donzelas da Lan�a, carregavam a honra do profetizado <emphasis>Car�a�carn��</emphasis>�ainda que �s vezes de forma bem peculiar �, e nenhuma hesitaria em morrer para preservar a vida de Rand. A ideia fez o est�mago dele se revirar.</p><p>Sulin arremessou mais moedas com um ar de desprezo � Rand gostava de usar ouro de Tar Valon para quitar esta d�vida �, uma extra para o de cabe�a raspada e uma para cada um dos outros. Os Aiel gostavam tanto dos aguacentos quanto de espadas, uma reprova��o que se estendia a qualquer um que n�o fosse nascido e criado no Deserto. Para a maioria dos Aiel, esse sentimento pouco amistoso tamb�m incluiria Rand, apesar do sangue Aiel, mas ele ostentava os Drag�es em seus bra�os. Um o marcava como chefe de cl� por ter arriscado a vida com sua pr�pria for�a de vontade, o segundo o marcava como <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, chefe dos chefes, Aquele Que Vem Com a Aurora. E as Donzelas tinham outros motivos para aprov�-lo.</p><p>Os homens recolheram as espadas de pr�tica, camisas e casacos, curvaram-se em mesuras e partiram.</p><p>� Amanh� � gritou Rand, para eles. � Cedo.</p><p>Mesuras mais profundas mostraram que tinham ouvido a ordem.</p><p>Antes que os homens sem camisa abandonassem o p�tio, as nobres andorianas emergiram de tr�s da colunata, um arco-�ris de sedas se amontoando ao redor de Rand, dando batidinhas nos rostos suados com len�os de bordas rendadas. Aquilo deixava um gosto amargo na boca do rapaz de Dois Rios. <emphasis>Fa�a uso do que precisar, ou a Sombra acabar� cobrindo a terra.</emphasis> Moiraine lhe dissera isso. Ele quase preferia a oposi��o genu�na dos cairhienos e tairenos � adula��o daquele bando de andorianos. Por pouco n�o soltou uma risada: era engra�ado chamar as atitudes dos outros nobres de genu�nas.</p><p>� O senhor foi espl�ndido � soltou Arymilla, com um suspiro, tocando delicadamente seu bra�o. � T�o �gil, t�o forte.</p><p>Os grandes olhos castanhos da mulher pareciam ainda mais derretidos que de costume. Ao que parecia, ela era tola a ponto de consider�-lo impression�vel. O vestido verde, coberto de vinhas de prata, tinha um decote profundo para os padr�es andorianos � ou seja: sugeria um leve decote. Ela era bonita, mas parecia ter idade para ser m�e de Rand. Nenhuma das outras era mais jovem, algumas at� mais velhas, mas todas competiam entre si para lamber suas botas.</p><p>� Foi magn�fico, milorde Drag�o. � Elenia quase acotovelou Arymilla para que sa�sse do caminho. O sorriso ficava estranho na mulher de rosto ardiloso, que tinha a reputa��o de ser uma megera. Exceto quando estava perto de Rand, claro. � Nunca houve espadachim como o senhor em toda a hist�ria de Andor. Nem mesmo Souran Maravaile, o maior general de Artur Asa-de-gavi�o, marido de Ishara, primeira a se sentar no Trono do Le�o� nem mesmo ele sobreviveu ao ser enfrentado por apenas quatro espadachins. Quatro assassinos, no vig�simo terceiro ano da Guerra dos Cem Anos. Ainda assim, ele matou todos os quatro. � Elenia quase nunca perdia a chance de exibir seus conhecimentos acerca da hist�ria de Andor, sobretudo das partes obscuras, como a guerra que desmembrara o imp�rio de Asa-de-gavi�o depois de sua morte. Pelo menos daquela vez n�o tinha acrescentado justificativas �s pr�prias reivindica��es ao Trono do Le�o.</p><p>� S� teve um pouco de azar no fim da luta � acrescentou Jarid, marido de Elenia, em um tom jovial.</p><p>Era um homem robusto, escuro para um andoriano. Os punhos e a comprida gola do casaco vermelho estavam cobertos de bordados de arabescos e javalis dourados, o s�mbolo da Casa Sarand; enquanto o vestido vermelho de Elenia, no mesmo tom, tinha as longas mangas e a gola alta cobertas de bordados dos Le�es Brancos de Andor. Rand se perguntou se a mulher pensava que ele n�o reconheceria os le�es. Jarid era Gr�o-trono da Casa, mas era sua esposa quem detinha toda for�a e ambi��o.</p><p>� Um feito extraordin�rio, milorde Drag�o � acrescentou Karind, sem rodeios. O vestido cinza brilhoso da mulher, de corte t�o severo quanto o rosto, mas ostentando uma infinidade de tran�as de prata nas mangas e na bainha, tinha quase o mesmo tom das mechas grisalhas espalhadas em seus cabelos negros. � O senhor decerto deve ser o melhor espadachim do mundo. � Apesar das palavras, a grandalhona exibia um olhar duro como um martelo. Caso sua intelig�ncia se equiparasse � obstina��o em seu olhar, seria uma mulher perigosa.</p><p>Naean era esguia, p�lida e bonita, com grandes olhos azuis e cabelos negros ondulados e brilhantes, mas o olhar de desprezo com que encarava os cinco homens que partiam era uma constante em seu rosto.</p><p>� Acredito que eles tenham planejado tudo de antem�o, para que um conseguisse acertar o senhor. V�o dividir a moeda extra entre o grupo. � Ao contr�rio de Elenia, Naean, em seu vestido azul cujas mangas longas ostentavam as Tr�s Chaves de prata da Casa Arawn, jamais mencionava suas pretens�es de subir ao trono, ao menos n�o perto de Rand. Fingia estar satisfeita como Gr�o-trono de uma Casa antiga, feito uma leoa fingindo estar satisfeita com o papel de gatinho domesticado.</p><p>� Ser� que posso esperar que meus inimigos nunca se ajudem? � murmurou Rand.</p><p>Naean ficou boquiaberta. A mulher n�o era nada burra, mas parecia crer que seus opositores deviam se p�r de joelhos t�o logo ela os confrontasse e tomava como uma afronta quando isso n�o acontecia.</p><p>Ignorando os nobres, Enaila, uma das Donzelas da Lan�a, entregou a Rand uma toalha branca para secar o suor. Era uma ruiva impetuosa, baixa para os padr�es Aiel, e ficava irritada por algumas daquelas aguacentas serem mais altas que ela. Quase todas as Donzelas eram capazes de encarar de frente a maioria dos homens. Os nobres andorianos tamb�m fizeram o poss�vel para ignorar a Aiel, mas desviaram o olhar com tamanho acinte que a tentativa resultou em evidente fracasso. Enaila se afastou, comportando-se como se todos os nobres fossem invis�veis.</p><p>O sil�ncio durou apenas uns instantes.</p><p>� Milorde Drag�o � s�bio � comentou Lorde Lir, com uma pequena mesura, o cenho franzido de leve. O Gr�o-trono da Casa Baryn era esguio e firme como uma l�mina, metido em um casaco amarelo adornado com tran�as de ouro, mas, no geral, era demasiado mel�fluo e delicado. Fora um franzir de cenho ocasional, que sempre parecia inconsciente, nada nunca maculava seu semblante, mas o sujeito estava longe de ser o �nico a lan�ar olhares estranhos a Rand. Todos aqueles nobres volta e meia miravam o Drag�o Renascido com um misto de descren�a e admira��o. � Cedo ou tarde, os inimigos acabam trabalhando juntos. � preciso identific�-los antes que tenham a oportunidade.</p><p>Mais elogios � sabedoria de Rand foram graciosamente proferidos por Lorde Henren, um sujeito atarracado, careca e de olhar duro, por Lady Carlys, com seus cachos grisalhos, express�o aberta e mente maquinadora, pela gorducha Daerilla, toda risonha, pelo nervoso Elegar, de l�bios finos, e tamb�m por quase dez outros que tinham segurado a l�ngua enquanto os mais poderosos se pronunciavam.</p><p>Assim que Elenia tornou a abrir a boca, um sil�ncio se abateu entre os lordes e ladies menores.</p><p>� � grande a dificuldade de identificarmos nossos inimigos antes que eles se fa�am conhecidos. Depois que isso acontece, as provid�ncias costumam vir tarde demais. � O marido dela assentiu com um ar s�bio.</p><p>� Como eu sempre digo � anunciou Naean �, quem n�o est� ao meu lado, est� contra mim. Considero uma boa regra. Os indecisos podem estar simplesmente aguardando a oportunidade de cravar uma adaga pelas costas.</p><p>N�o era nem de longe a primeira vez que aqueles nobres tentavam defender as pr�prias posi��es lan�ando suspeitas sobre qualquer lorde ou lady que n�o estivesse no recinto, mas Rand gostaria que parassem com aquilo sem que precisasse mand�-los parar. As tentativas andorianas de jogar o Jogo das Casas eram insignificantes se comparadas �s manobras dissimuladas dos cairhienos ou at� dos tairenos, al�m de irritantes, mas havia certos pensamentos que Rand preferia que n�o tivessem por enquanto. Surpreendentemente, a ajuda veio do grisalho Lorde Nasin, o Gr�o-trono da Casa Caeren.</p><p>� Ah, um novo Jearom! � exclamou o sujeito, abrindo um sorriso subserviente no rosto magro e encovado. Arrancou olhares exasperados dos outros, inclusive dos nobres menores, que n�o conseguiram se conter depressa o bastante. Nasin andara um pouco aturdido desde os acontecimentos envolvendo a vinda de Rand a Caemlyn. Em vez da Estrela e Espada, s�mbolo de sua Casa, as lapelas azul-claras exibiam uma padronagem incongruente de flores e folhagens pontilhada de n�s-de-amantes carmesins, e ele �s vezes usava uma flor presa aos cabelos ralos, feito um rapazote campon�s indo fazer a corte. Ainda assim, a Casa Caeren era t�o poderosa que nem mesmo Jarid ou Naean interromperiam Nasin. O homem meneou a cabe�a presa ao pesco�o magro. � Seu manejo da espada � espetacular, milorde Drag�o. O senhor � um novo Jearom.</p><p>� Por qu�? � irrompeu uma voz pelo p�tio, azedando a express�o dos andorianos.</p><p>Davram Bashere sem d�vida n�o era andoriano, com olhos obl�quos e quase negros, nariz adunco feito um bico e as pontas do bigode grisalho que se curvavam para baixo, feito dois chifres ladeando a boca larga. Era magro, um pouco mais alto que Enaila e usava um casaco curto cinza com bordados em prata nos punhos e nas lapelas, al�m de cal�as largas enfiadas em botas de cano dobrado na altura dos joelhos. Os andorianos se viraram para observar o local do p�tio onde o Marechal-General de Saldaea mandara deixar uma cadeira dourada, na qual estava esparramado, uma perna apoiada sobre um dos bra�os da cadeira, a espada com guarda-m�o anelado virada de modo a deix�-la bem acess�vel. O suor brilhava em seu rosto escuro, mas ele dispensava tanta aten��o a isso quanto aos andorianos.</p><p>� Por que o qu�? � inquiriu Rand.</p><p>� Esse treinamento todo com as espadas � explicou Bashere, tranquilo. � E ainda por cima com cinco homens. Ningu�m treina contra cinco. N�o faz sentido. Mais cedo ou mais tarde, seus miolos ser�o esparramados no ch�o durante uma balb�rdia dessas, mesmo com espadas de pr�tica. E tudo em v�o.</p><p>Rand contraiu a mand�bula.</p><p>� Jearom certa vez derrotou dez homens.</p><p>Remexendo-se na cadeira, Bashere soltou uma risada.</p><p>� Voc� acha que vai viver tempo suficiente para se igualar ao maior espadachim da hist�ria? � Um murm�rio irritado se ergueu entre os nobres andorianos. Rand tinha certeza de que a raiva era fingida. Bashere, por�m, ignorou a rea��o. � Afinal de contas, voc� � quem voc� �. � Ele fez um movimento s�bito, feito uma mola se expandindo. Uma adaga disparou em dire��o ao cora��o do Drag�o Renascido.</p><p>Rand n�o moveu um m�sculo. Em vez disso, agarrou <emphasis>saidin</emphasis>, a metade masculina da Fonte Verdadeira. N�o precisou pensar, foi como respirar. <emphasis>Saidin</emphasis> o preencheu, trazendo a m�cula do Tenebroso, uma avalanche de gelo turvo, uma torrente f�tida de metal fundido. <emphasis>Saidin</emphasis> tentava aniquil�-lo, varr�-lo, mas ele o conduziu como um homem se equilibrando sobre uma montanha em colapso. Canalizou uma simples onda de Ar, que envolveu a adaga e bloqueou-a a um bra�o de dist�ncia de seu peito. O Vazio o envolvia, Rand flutuava l� dentro, em meio ao nada, distante de pensamentos e emo��es.</p><p>� Morra! � gritou Jarid, empunhando a espada e avan�ando na dire��o de Bashere.</p><p>Lir, Henren, Elegar e todos os lordes andorianos desembainharam suas espadas, inclusive Nasin, que parecia prestes a larg�-la. As Donzelas j� tinham as <emphasis>shoufas</emphasis> enroladas na cabe�a, e seus v�us negros cobriam os rostos de olhos verdes e azuis quando as mulheres ergueram as lan�as de pontas compridas. Os Aiel sempre erguiam os v�us antes de matar.</p><p>� Parem! � urrou Rand, e todos ficaram paralisados onde estavam, os andorianos piscando, confusos, as Donzelas suspensas nas pontas dos p�s. O �nico outro movimento de Bashere fora se acomodar outra vez, a perna ainda enganchada ao bra�o da cadeira.</p><p>Usando uma das m�os para puxar a adaga de cabo de chifre de sua pris�o de ar, Rand soltou a Fonte. Ainda que a m�cula lhe revirasse o est�mago � aquela m�cula que acabava por destruir os homens capazes de canalizar �, era dif�cil deixar o poder. Ao ser tomado por <emphasis>saidin,</emphasis> ele enxergava com mais clareza, ouvia com mais agudeza. Era um paradoxo que ele n�o compreendia, mas, quando flutuava naquele Vazio aparentemente infinito, de algum modo protegido de emo��es e sensa��es corp�reas, todos os sentidos ficavam amplificados. Sem o Vazio, Rand sentia-se menos vivo. E a m�cula sempre parecia deixar rastros nele, mas n�o a gl�ria mitigante de <emphasis>saidin</emphasis>. A gl�ria mortal, que o mataria se ele vacilasse uma polegada que fosse na luta para domin�-la.</p><p>Rand girou a adaga e avan�ou lentamente at� Bashere.</p><p>� Se eu tivesse demorado s� mais um segundo � murmurou �, estaria morto. Eu poderia matar voc� agora mesmo, e nenhuma lei de Andor ou de qualquer outro lugar deixaria de me dar raz�o. � Percebeu que estava prestes a fazer isso. <emphasis>Saidin</emphasis> fora substitu�do por uma raiva fria. Uma rela��o de poucas semanas n�o amaciava a atitude do sujeito.</p><p>Os olhos obl�quos do Marechal-General estavam calmos como se ele estivesse � vontade na pr�pria casa.</p><p>� Minha esposa n�o ia gostar. Nem voc�, ali�s. Deira provavelmente assumiria o comando e partiria outra vez � ca�a de Taim. Ela desaprova eu ter concordado em seguir o Lorde Drag�o.</p><p>Rand assentiu de leve, a raiva um pouco embotada pela compostura de seu interlocutor. E pelas palavras. Fora uma surpresa descobrir que, junto com os nove mil cavaleiros de Bashere, estavam as esposas de todos os nobres de Saldaea e da maioria dos oficiais. Rand n�o entendia como um homem podia levar a mulher para o meio do perigo, mas era tradi��o em Saldaea, exceto quando a campanha avan�ava para a Praga.</p><p>Evitou olhar para as Donzelas. Eram guerreiras at� a raiz dos cabelos, mas tamb�m eram mulheres. Rand prometera n�o as proteger do perigo ou da morte. No entanto, n�o prometera passar a gostar disso e sentia uma agonia interna sempre que precisava honrar o acordo, mas era um homem de palavra. Fazia o que tinha de fazer, mesmo odiando a si mesmo por isso.</p><p>Com um suspiro, ele jogou a adaga de lado.</p><p>� Sua pergunta � declarou, educadamente. � Por qu�?</p><p>� Porque voc� � quem � � respondeu Bashere, sem rodeios. � Porque voc� � o que � assim como esses homens que voc� est� reunindo, eu suponho. � Rand ouviu p�s se remexendo atr�s de si. Por mais que tentassem, os andorianos n�o conseguiam esconder seu horror ante a anistia que ele instaurara. � Voc� pode fazer o que fez com a adaga todas as vezes � prosseguiu o Marechal-General, baixando o p� apoiado no bra�o da cadeira e inclinando-se para a frente. � Mas qualquer assassino que queira chegar at� o Drag�o ter� de passar por cima dos seus Aiel. E dos meus cavaleiros, ali�s. Ora! Se algum inimigo se aproximar de voc�, n�o ser� humano. � Ele gesticulou com vigor e recostou-se outra vez. � Bom, se quer praticar com a espada, ent�o pratique. Os homens precisam de exerc�cio, e tamb�m de uma distra��o. S� n�o v� rachar esse cr�nio. Muita coisa depende de voc�, e n�o estou vendo nenhuma Aes Sedai por aqui para Cur�-lo. � O bigode quase encobriu o s�bito sorriso do sujeito. � Al�m do mais, acho que nossos amigos andorianos n�o v�o continuar acolhendo a mim e a meus homens de modo t�o afetuoso.</p><p>Os andorianos tinham embainhado as espadas, mas os olhares malignos permaneciam fixos em Bashere. Aquilo nada tinha a ver com quanto o sujeito chegara perto de matar Rand. Os nobres em geral mantinham o semblante suave perto de Bashere, apesar de ele ser um general estrangeiro comandando um ex�rcito estrangeiro em solo andoriano. O Drag�o Renascido queria Bashere ali, e aquelas pessoas teriam aberto sorrisos para um Myrddraal, se o Drag�o Renascido assim desejasse. Mas se Rand se voltasse contra o saldaeano� a� n�o seria preciso esconder mais nada. Eram abutres, estiveram a postos para devorar Morgase, antes de sua morte, e devorariam Bashere � menor chance. E Rand tamb�m. Mal podia esperar para se livrar deles.</p><p><emphasis>A �nica forma de viver � morrer.</emphasis> O pensamento lhe veio � cabe�a de repente. J� haviam lhe dito aquilo, e de um jeito que fora imposs�vel n�o acreditar, mas o pensamento n�o era seu. <emphasis>Preciso morrer. S� mere�o a morte.</emphasis> Levando a m�o � cabe�a, Rand deu as costas para Bashere.</p><p>O Marechal-General pulou da cadeira no mesmo instante, agarrando o ombro de Rand, que ficava uma cabe�a mais alto que ele.</p><p>� Qual � o problema? O golpe rachou mesmo a sua cabe�a?</p><p>� Est� tudo bem. � Rand baixou as m�os. N�o sentia dor, era s� o choque de ter os pensamentos de outro homem na mente. Bashere n�o era o �nico a observ�-lo. A maioria das Donzelas o encarava com a mesma aten��o que dispensavam ao restante do p�tio, sobretudo Enaila e Somara, de cabelos louros, a mais alta de todas. Aquelas duas decerto arranjariam algum ch� de ervas assim que terminassem suas tarefas e s� sossegariam depois que ele bebesse. Elenia, Naean e os outros andorianos estavam ofegantes, agarrando os casacos e as saias, analisando Rand de olhos arregalados, temendo estar vendo os primeiros sinais de sua loucura. � Eu estou bem � disse a todos no p�tio.</p><p>S� as Donzelas relaxaram � Enaila e Somara n�o muito.</p><p>Os Aiel n�o ligavam para o �Drag�o Renascido�. Para eles, Rand era o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, profetizado para uni-los e destru�-los. Eles n�o tiveram dificuldades para aceitar isso, embora tamb�m se preocupassem, e pareciam aceitar a canaliza��o e todos os seus poss�veis desdobramentos com a mesma tranquilidade. Os outros � <emphasis>os aguacentos</emphasis>, pensou, secamente � o chamavam de Drag�o Renascido e nunca especulavam a respeito do que aquilo significava. Acreditavam que ele era a reencarna��o de Lews Therin Telamon, o Drag�o, o homem que selara o buraco da pris�o do Tenebroso e dera fim � Guerra da Sombra, mais de tr�s mil anos antes. Tamb�m dera fim � Era das Lendas, quando o �ltimo contra-ataque do Tenebroso maculara <emphasis>saidin,</emphasis> levando todos os homens que canalizavam � loucura, come�ando pelo pr�prio Lews Therin e seus Cem Companheiros. Chamavam Rand de Drag�o Renascido sem jamais suspeitar que uma parte de Lews Therin Telamon pudesse estar dentro de sua cabe�a, t�o louco quanto no dia em que dera in�cio ao Tempo da Loucura e � Ruptura do Mundo, t�o louco quanto qualquer um dos Aes Sedai homens que modificaram a face do mundo at� deix�-la irreconhec�vel. Aquilo acontecera aos poucos, mas quanto mais Rand aprendia a respeito do Poder, mais forte ficava em rela��o a <emphasis>saidin</emphasis>, e mais forte ficava a voz de Lews Therin � e mais dif�cil se tornava a luta para evitar ser dominado pelos pensamentos de um homem morto. Era um dos motivos por que ele gostava de praticar com a espada: a aus�ncia de pensamentos era uma barreira que preservava sua identidade.</p><p>� Precisamos encontrar uma Aes Sedai � murmurou Bashere. � Se esses boatos forem verdade� que a Luz queime meus olhos, seria melhor se nunca tiv�ssemos deixado aquela ir embora.</p><p>Muita gente fugira de Caemlyn nos dias seguintes � ocupa��o de Rand e dos Aiel. O pr�prio Pal�cio ficara quase vazio da noite para o dia. Havia pessoas que Rand gostaria de ter encontrado, gente que o ajudara, mas todos tinham desaparecido. Alguns ainda fugiam. Uma das fugitivas desses primeiros dias fora uma jovem Aes Sedai � t�o jovem que seu rosto ainda n�o tinha aquele aspecto de idade indefinida t�pico das Aes Sedai. Os homens de Bashere mandaram um aviso assim que encontraram a mulher em uma estalagem, mas, quando ela descobriu quem Rand era, saiu correndo aos berros. Literalmente. Rand nunca descobriu seu nome ou sua Ajah. Havia rumores de que outra Aes Sedai estava em algum lugar da cidade, mas havia centenas de rumores espalhados por Caemlyn, milhares, cada um mais improv�vel que o outro. Era bem improv�vel que qualquer um daqueles boatos fosse levar a uma Aes Sedai. As patrulhas Aiel tinham avistado v�rias passando direto por Caemlyn, todas claramente apressadas para chegarem a algum lugar, nenhuma com inten��o de adentrar uma cidade ocupada pelo Drag�o Renascido.</p><p>� Ser� que eu posso confiar em alguma Aes Sedai? � perguntou Rand. � Foi s� uma dor de cabe�a. Minha cabe�a n�o � assim t�o dura a ponto de nem doer depois de uma pancada.</p><p>Bashere bufou com tanta for�a que o farto bigode se remexeu.</p><p>� Por mais dura que seja a sua cabe�a, cedo ou tarde voc� vai ter que confiar nas Aes Sedai. Sem elas, nunca vai obter o apoio de todas as na��es sem ter que apelar para a conquista. O povo espera esse tipo de coisa. Por mais que ou�am falar das Profecias que voc� j� cumpriu, muitos v�o esperar que as Aes Sedai marquem voc�.</p><p>� De todo modo, eu n�o vou evitar o conflito. Voc� sabe bem disso � respondeu Rand. � Duvido que os Mantos-brancos me recebam de bra�os abertos em Amad�cia, mesmo que Ailron concorde com a minha presen�a, e Sammael n�o vai abrir m�o de Illian sem luta.</p><p><emphasis>Sammael, Rahvin, Moghedien e�</emphasis> com esfor�o, expulsou o pensamento da mente. N�o era f�cil. Vinha sempre sem aviso, e nunca era f�cil.</p><p>Um baque surdo o fez virar a cabe�a. Arymilla estava ca�da no ch�o de pedras. Karind se ajoelhava para puxar as saias da mulher, cobrindo os tornozelos, e esfregar seus pulsos. Elegar cambaleava, como se fosse se juntar a Arymilla a qualquer momento, e Nasin e Elenia n�o pareciam muito melhor. A maioria dos outros parecia prestes a vomitar. Mencionar os Abandonados tinha esse efeito, ainda mais depois que Rand contara a eles que Lorde Gaebril na realidade era Rahvin. N�o sabia ao certo em quanto aqueles nobres acreditavam, mas considerar a possibilidade j� era suficiente para deixar quase todos tremendo. S� estavam vivos por se mostrarem t�o chocados. Se Rand tivesse suspeitado de que eles sabiam a quem estavam servindo� <emphasis>n�o</emphasis>, pensou. <emphasis>Se eles soubessem, se fossem todos Amigos das Trevas, voc� mesmo assim os usaria.</emphasis> �s vezes, se achava t�o repugnante que queria morrer de uma vez.</p><p>Ao menos estava dizendo a verdade. As Aes Sedai tentavam ao m�ximo manter segredo sobre os Abandonados estarem livres, temiam que a not�cia s� espalhasse mais caos e p�nico. Rand tentava disseminar a verdade. O povo poderia at� entrar em p�nico, mas teria tempo de se recuperar. Do jeito que as Aes Sedai queriam conduzir as coisas, a informa��o e o p�nico poderiam chegar tarde demais para serem remediados. Al�m do mais, o povo tinha o direito de saber o que estava enfrentando.</p><p>� Illian n�o vai aguentar por muito mais tempo � disse Bashere. Rand virou a cabe�a depressa de volta para ele, mas o sujeito era experiente demais para falar sobre o que n�o devia onde n�o devia. Estava apenas desviando o assunto dos Abandonados. Ainda que Rand nunca tivesse visto qualquer assunto que deixasse o Marechal-General inquieto, nem mesmo os Abandonados. � Illian vai se espatifar feito uma noz golpeada por um martelo.</p><p>� Voc� e Mat bolaram um bom plano. � A ideia principal fora de Rand, mas Mat e Bashere haviam fornecido os mil detalhes que fariam o plano dar certo. Mat mais do que Bashere.</p><p>� Um rapaz interessante, esse Mat Cauthon � refletiu o homem. � Espero um dia poder conversar com ele outra vez. O jovem n�o chegou a dizer quem o tutelou. Agelmar Jagad? Ouvi dizer que voc�s dois foram para Shienar. � Rand n�o disse uma palavra. Os segredos de Mat pertenciam ao pr�prio Mat, nem mesmo ele sabia muito bem quais eram. Bashere inclinou a cabe�a e esfregou o bigode. � Ele � jovem para ter estudado sob a tutela de algu�m. N�o parece mais velho do que voc�. Ser� que encontrou uma biblioteca? Gostaria de ver os livros que ele leu.</p><p>� Vai ter que perguntar a ele � respondeu Rand. � Eu n�o sei. � Supunha que Mat devia ter lido algum livro, em algum momento, em algum lugar, mas o amigo nunca fora muito interessado em leituras.</p><p>Bashere apenas assentiu. Quando Rand n�o queria falar sobre algum assunto, Bashere em geral o deixava quieto. Mas nem sempre.</p><p>� Da pr�xima vez que for para Cairhien, por que n�o traz de volta a irm� Verde que ficou por l�? Egwene Sedai? Ouvi os Aiel falando dela, dizem que tamb�m � da sua aldeia. Voc� confia nela, n�o confia?</p><p>� Egwene tem outras obriga��es. � Rand soltou uma risada. Irm� Verde. Ah, se Bashere soubesse.</p><p>Somara surgiu ao seu lado trazendo a camisa de linho e o casaco de uma bela l� vermelha cortada ao estilo andoriano, com drag�es na gola comprida e grossas folhas de loureiro nas lapelas, subindo pelas mangas. Somara era alta at� para uma Aiel, talvez nem uma m�o mais baixa do que ele. Tal qual as outras Donzelas, ela baixara o v�u, mas a <emphasis>shoufa</emphasis> marrom acinzentada ainda escondia quase todo o rosto.</p><p>� O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> vai acabar pegando um resfriado � murmurou ela.</p><p>Rand duvidava muito. Os Aiel podiam n�o achar aquele calor muito fora do comum, mas o suor j� escorria por seu corpo quase na mesma intensidade que durante o treino. Ainda assim, vestiu a camisa e enfiou-a por dentro da cal�a, deixando os la�os desfeitos, depois se meteu no casaco. N�o achava que Somara de fato fosse tentar vesti-lo � for�a, n�o na frente dos outros, mas assim evitaria o serm�o dela e de Enaila � e muito provavelmente de algumas das outras �, bem como o ch� de ervas.</p><p>Ele era o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> para a maioria dos Aiel, e isso valia para as Donzelas. Em p�blico. Quando estava sozinho com aquelas mulheres que haviam escolhido rejeitar o casamento e a fam�lia em favor da lan�a, as coisas ficavam mais complicadas. Supunha que � talvez � pudesse acabar com aquilo, mas tinha uma d�vida com as Donzelas. Algumas j� tinham morrido por ele, e outras morreriam � ele prometera, que a Luz o queimasse por isso! �, e, se podia permitir que se sacrificassem por ele, poderia permitir que fizessem qualquer outra coisa. Na mesma hora, o suor empapou a caminha e come�ou a deixar manchas escuras no casaco.</p><p>� Voc� precisa das Aes Sedai, al�Thor. � Rand torcia para que Bashere tivesse metade dessa tenacidade na batalha, o que era sua reputa��o. Mas s� podia se basear naquela reputa��o e em algumas poucas semanas de contato. � Voc� n�o pode se dar ao luxo de t�-las como inimigas, e se elas n�o acharem que t�m ao menos alguns cord�is atados a voc�, podem acabar debandando para o lado inimigo. Aes Sedai s�o trai�oeiras, homem nenhum tem como saber o que elas v�o fazer ou deixar de fazer, nem por qu�.</p><p>� E se eu lhe disser que existem centenas de Aes Sedai dispostas a me apoiar?</p><p>Rand estava ciente dos andorianos escutando a conversa. Precisava tomar cuidado para n�o falar demais. N�o que soubesse muita coisa. O que sabia provavelmente era fruto de exagero e esperan�a. E duvidava bastante das �centenas�, a despeito das insinua��es de Egwene.</p><p>Bashere estreitou os olhos.</p><p>� Se tivesse sa�do uma miss�o diplom�tica da Torre, eu saberia, ent�o� � Ele baixou a voz quase a um sussurro. � A cis�o? A Torre realmente se <emphasis>cindiu</emphasis>? � O Marechal-General parecia n�o conseguir acreditar nas palavras que sa�am da pr�pria boca. Todos sabiam que Siuan Sanche fora deposta e estancada. E executada, segundo os rumores. Ainda assim, para a maioria da popula��o, a cis�o da Torre era mera conjectura, e poucos acreditavam nisso. A Torre Branca permanecera intacta por tr�s mil anos, um mon�lito se assomando sobre os tronos. Mas o saldaeano considerava todas as possibilidades. Ele prosseguiu em um sussurro de fato, aproximando-se para que os andorianos n�o entreouvissem: � Devem ser as rebeldes que est�o dispostas a apoiar voc�. Talvez voc� conseguisse um acordo melhor com elas� Aquelas mulheres v�o precisar de voc� tanto quanto voc� delas, talvez at� mais. Mas rebeldes, mesmo sendo Aes Sedai, n�o chegam nem perto de ostentar o poder da Torre Branca, ao menos n�o com qualquer coroa. Os cidad�os comuns podem n�o ver a diferen�a, mas os reis e as rainhas v�o saber.</p><p>� Mesmo assim s�o Aes Sedai � respondeu Rand, tamb�m baixinho �, n�o importa quem sejam. � <emphasis>E onde quer que estejam</emphasis>, pensou secamente. <emphasis>Aes Sedai� servas de todos� o Sal�o dos Servos est� destru�do� destru�do para sempre� destru�do� Ilyena, meu amor�</emphasis> Impiedoso, ele esmagou os pensamentos de Lews Therin. �s vezes eles at� ajudavam, fornecendo informa��es necess�rias, mas estavam ficando fortes demais. Se tivesse uma Aes Sedai por ali� uma Amarela, as que mais sabiam sobre Cura. A� talvez ela� Ele encontrara uma Aes Sedai de confian�a, embora s� tivesse passado a confiar nela pouco antes de sua morte. Moiraine deixara um conselho em rela��o �s Aes Sedai, em rela��o a qualquer mulher que usasse o xale e o anel. � Eu nunca vou confiar em nenhuma Aes Sedai � declarou, em um tom baixo e rouco. � Vou us�-las, porque preciso delas. Mas, rebeldes ou da Torre, sei que elas v�o tentar me usar, porque � isso o que as Aes Sedai fazem. Nunca vou confiar nelas, Bashere.</p><p>O saldaeano assentiu, hesitante.</p><p>� Ent�o use-as, se puder. Mas n�o se esque�a. Ningu�m dura muito tempo seguindo o caminho das Aes Sedai. � Ele soltou uma risada curta de repente. � At� onde eu sei, Artur Asa-de-gavi�o foi o �ltimo. Que a Luz queime meus olhos, talvez voc� venha a ser o segundo.</p><p>O ru�do de botas anunciou movimento no p�tio: um dos homens de Bashere chegara, um sujeito jovem e corpulento, de nariz pronunciado, uma cabe�a mais alto que seu general, ostentando uma barba negra brilhosa e um bigode espesso. Caminhava feito um homem mais habituado a uma sela do que aos pr�prios p�s, mas manejou a espada na cintura com suavidade, ao se curvar em uma rever�ncia. Para Bashere mais do que para Rand. Bashere podia at� ser seguidor do Drag�o Renascido, mas Tumad � Rand achava que era esse o nome do homem: Tumad Ahzkan � era seguidor de Bashere. Enaila e tr�s outras Donzelas cravaram os olhos no saldaeano rec�m-chegado. Elas realmente n�o confiavam em nenhum aguacento perto do <emphasis>Car�a�carn</emphasis>.</p><p>� Um sujeito a� se apresentou aos port�es � declarou Tumad, desconfort�vel. � Ele diz� � Mazrim Taim, milorde Bashere.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 2</p><p><image l:href="#15"/></p><p>A visita</p></title><p>Mazrim Taim. Ao longo dos s�culos, antes de Rand, outros homens haviam alegado ser o Drag�o Renascido. Nos �ltimos anos, houvera uma epidemia de falsos Drag�es, alguns de fato capazes de canalizar. Um deles era Mazrim Taim, que reuniu um ex�rcito e destruiu Saldaea antes de ser capturado. A express�o de Bashere n�o se alterou, mas ele agarrou o cabo da espada com tanta for�a que os n�s de seus dedos ficaram brancos. Tumad o encarava, � espera de ordens. A fuga de Taim, a caminho de Tar Valon para ser amansado, era o principal motivo pelo qual Bashere fora at� Andor. Era essa a extens�o do medo e do �dio que Saldaea sentia por Mazrim Taim. A Rainha Tenobia mandara Bashere levar seu ex�rcito atr�s do homem aonde quer que ele fosse, pelo tempo que fosse, para garantir que Taim jamais atormentasse Saldaea outra vez.</p><p>As Donzelas permaneceram paradas e serenas, mas aquele nome se espalhou entre os andorianos como uma tocha atirada na grama seca. Arymilla estava sendo ajudada a se levantar, mas revirou os olhos outra vez e teria desabado de novo se Karind n�o a tivesse amparado a meio caminho do ch�o de pedras. Elegar cambaleou para tr�s por entre as colunas e se curvou, vomitando audivelmente. O restante arquejava, em p�nico, levando len�os � boca e agarrando os punhos das espadas. At� mesmo a impass�vel Karind umedecia os l�bios, em um tique nervoso.</p><p>Rand tirou a m�o do bolso do casaco.</p><p>� A anistia � lembrou, e os dois saldaeanos lhe lan�aram um olhar longo e inexpressivo.</p><p>� E se ele n�o tiver vindo pela sua anistia? � perguntou Bashere, depois de um instante. � E se ele ainda alegar que � o Drag�o Renascido?</p><p>Os andorianos se mexeram nervosamente. Ningu�m queria estar a milhas de dist�ncia de onde o Poder �nico poderia ser usado em um duelo.</p><p>� Se ele achar isso � respondeu Rand, com firmeza �, vou desiludi-lo.</p><p>Rand levava no bolso o tipo mais raro de <emphasis>angreal</emphasis>: um feito para homens. Era uma escultura de um homenzinho gordo portando uma espada. Por mais forte que Taim fosse, n�o tinha condi��es de enfrentar aquilo. � Mas, se ele tiver vindo pela anistia, eu a concedo, assim como a concedi aos outros. � Fosse l� o que Taim tivesse feito em Saldaea, Rand n�o poderia se dar ao luxo de rejeitar um homem capaz de canalizar, algu�m que n�o tivesse a necessidade de ser instru�do desde os primeiros passos. Precisava de um homem desses. E n�o rejeitaria ningu�m que n�o fosse um Abandonado, a n�o ser que fosse for�ado a isso. <emphasis>Demandred e Sammael, Semirhage e Mesaana, Asmodean e�</emphasis> Rand for�ou Lews Therin a recuar. N�o podia se dar ao luxo de se distrair.</p><p>Bashere fez outra pausa antes de falar, mas por fim assentiu e soltou a espada.</p><p>� A sua anistia persiste, � claro. Mas escute bem, al�Thor. Se Taim puser os p�s em Saldaea outra vez, n�o vai sair vivo. H� lembran�as demais. N�o h� ordem que eu possa dar, ou mesmo Tenobia em pessoa, que v� impedir isso.</p><p>� Vou mant�-lo longe de Saldaea. � Ou Taim fora at� l� para se submeter a ele, ou seria necess�rio mat�-lo. Em um gesto inconsciente, Rand tocou o bolso, comprimindo o homenzinho gordo por baixo da l�. � Vamos receb�-lo aqui.</p><p>Tumad encarou Bashere, mas o breve aceno de cabe�a do Marechal-General veio t�o ligeiro que a mesura do barbudo ficou parecendo resposta � ordem verbalizada. Um lampejo de irrita��o passou pelo rosto de Rand, mas ele nada disse, e Tumad se afastou depressa, naquele caminhar meio gingado. Bashere cruzou os bra�os diante do peito e permaneceu parado com um dos joelhos dobrado, a imagem de um homem � vontade. Aqueles olhos escuros e obl�quos, fixos na dire��o pela qual Tumad sa�ra, exibiam o retrato de um homem com o desejo de matar.</p><p>O ro�ar de p�s recome�ou entre os andorianos, meias passadas hesitantes se afastando, depois retornando. Pelo modo como respiravam, o grupo parecia ter corrido milhas.</p><p>� Voc�s podem partir � anunciou Rand.</p><p>� Eu, de minha parte, continuarei ao seu lado � come�ou Lir, ao mesmo tempo que Naean dizia, rispidamente:</p><p>� N�o vou fugir de�</p><p>Rand cortou os dois:</p><p>� V�o!</p><p>Os nobres queriam demonstrar que n�o tinham medo, ainda que estivessem prestes a borrar as cal�as. Queriam fugir, abandonando o que lhes restava de dignidade que ainda n�o haviam atirado aos p�s de Rand. Era uma escolha simples. Ele era o Drag�o Renascido, e ganhar sua aprova��o significava demonstrar obedi�ncia. E obedi�ncia, nesse caso, significava fazer o que eles realmente queriam. Com uma onda de mesuras profundas, rever�ncias com saias completamente estendidas e murm�rios apressados de �Com sua permiss�o, milorde Drag�o� e ��s suas ordens, milorde Drag�o�, os nobres sa�ram� n�o exatamente correndo, mas andando o mais depressa que podiam sem parecer que estavam correndo. E na dire��o oposta � de Tumad: sem d�vida n�o queriam arriscar um encontro fortuito com Mazrim Taim, que se dirigia para o p�tio.</p><p>A espera alongou-se no calor � demorava para conduzir um homem pelos amplos corredores desde os port�es do Pal�cio �, mas, assim que os andorianos sa�ram, ningu�m se mexeu. Bashere manteve o olhar fixo no ponto onde Taim surgiria. As Donzelas vigiavam tudo, mas era sempre assim; e, ainda que parecessem prontas para velar o rosto em um instante, tamb�m era sempre assim. Exceto pelos olhos, aquelas mulheres poderiam muito bem ser est�tuas.</p><p>Enfim o som de botas ecoou pelo p�tio. Rand quase tentou agarrar <emphasis>saidin</emphasis>, mas se conteve. O homem perceberia que ele estava de posse do Poder no instante em que adentrasse o recinto, e Rand n�o podia se permitir parecer tem�-lo.</p><p>Tumad emergiu primeiro sob a luz do sol que invadia o ambiente, logo seguido de um homem de cabelos pretos e altura bem acima da m�dia ostentando o rosto escuro, os olhos obl�quos, o nariz adunco e as ma��s do rosto proeminentes bem caracter�sticos do povo de Saldaea, embora estivesse de barba feita e se vestisse como um mercador andoriano que j� fora pr�spero, mas estivesse enfrentando dificuldades. O casaco azul-escuro era de l� fina urdida com veludo mais escuro, mas o uso deixara os punhos pu�dos. As cal�as estavam esgar�adas nos joelhos e as botas rachadas exibiam uma camada de poeira. Ainda assim, o sujeito caminhava empertigado, um feito impressionante considerando os quatro homens do ex�rcito de Bashere atr�s de si, empunhando as l�minas quase retas, mas levemente curvas, as pontas a pouqu�ssima dist�ncia de suas costelas. O calor n�o parecia incomod�-lo. Os olhos das Donzelas acompanhavam seus passos.</p><p>Rand observou Taim enquanto o homem e sua escolta cruzavam o p�tio. O sujeito era pelo menos quinze anos mais velho do que ele, devia ter trinta e cinco, no m�ximo alguns a mais. Pouco se sabia e menos ainda se encontrava nos livros a respeito de homens capazes de canalizar � era um assunto evitado por grande parte das pessoas com um pingo de dec�ncia �, mas Rand aprendera tudo o que pudera. Eram relativamente poucos os que de fato procuravam saber mais sobre o assunto, e este era um dos problemas. Desde a Ruptura, a maioria dos homens que canalizavam nascia com a habilidade, com potencial para ativ�-la ao chegar � idade adulta. Alguns conseguiam controlar a loucura durante anos antes de serem encontrados e amansados por Aes Sedai; outros j� eram encontrados irremediavelmente loucos, por vezes menos de um ano depois de tocar <emphasis>saidin</emphasis> pela primeira vez. Rand se mantivera agarrado � sanidade � ao menos at� ent�o � por quase dois anos. Ainda assim, diante dele estava um homem que talvez tivesse conseguido manter esse feito durante dez ou quinze anos. S� isso j� valia de algo.</p><p>A um gesto de Tumad, o grupo parou a alguns passos de Rand. Ele abriu a boca, mas, antes que pudesse se pronunciar, Lews Therin irrompeu em sua mente em um frenesi. <emphasis>Sammael e Demandred me odiavam, por mais honrarias que eu lhes concedesse. Quanto mais honrarias, mais �dio, at� que venderam a alma e se afastaram. Principalmente Demandred. Eu deveria t�-lo matado! Deveria ter matado todos eles! Arrasado a terra para mat�-los! Arrase a terra!</emphasis></p><p>Com o rosto paralisado, Rand lutou para controlar a pr�pria mente. <emphasis>Eu sou Rand al�Thor. Rand al�Thor! Nunca conheci Sammael, Demandred ou nenhum deles! Que a Luz me queime, sou Rand al�Thor!</emphasis> Como um eco d�bil, outro pensamento surgiu, vindo de algum lugar. <emphasis>Que a luz me queime. </emphasis>Parecia uma s�plica. Ent�o Lews Therin desapareceu, de volta a fossem quais fossem as sombras onde vivia.</p><p>Bashere tirou vantagem do sil�ncio.</p><p>� Voc� alega ser Mazrim Taim? � Ele soou descrente, e Rand o encarou, confuso. Era ou n�o era Taim? S� um louco alegaria ser aquele falso Drag�o, se fosse mentira.</p><p>A boca do prisioneiro se contorceu no que poderia ser o esbo�o de um sorriso, e ele esfregou o queixo.</p><p>� Eu fiz a barba, Bashere. � A voz trazia mais do que um toque de deboche. � � meio quente aqui t�o ao sul, voc� n�o percebeu? Mais quente do que deveria estar, mesmo por aqui. Quer alguma prova? Devo canalizar para voc�? � Os olhos escuros do homem desviaram de relance para Rand, depois retornaram a Bashere, cujo rosto ficava mais sombrio a cada instante. � Talvez n�o, n�o agora. Eu me lembro de voc�. Eu o derrotei em Irinjavar, at� que aquelas vis�es surgiram no c�u. Mas todo mundo sabe disso. O que ningu�m sabe al�m de voc� e Mazrim Taim? � Com a aten��o voltada para Bashere, o homem parecia ignorar os guardas, todos ainda segurando as espadas perto de suas costelas. � Ouvi dizer que voc� abafou o que aconteceu com Musar, Hachari e suas esposas. � O deboche desaparecera. Ele simplesmente relatava o ocorrido. � Eles n�o deveriam ter tentado me matar debaixo de uma bandeira de negocia��o. Creio que voc� tenha arrumado boas posi��es para eles, como servi�ais? Tudo o que v�o querer agora � servir e obedecer, n�o conseguir�o ser felizes de outra forma. Eu poderia t�-los matado. Todos os quatro empunharam as adagas.</p><p>� Taim � rosnou Bashere, levando a m�o depressa ao cabo da espada �, seu�!</p><p>Rand se p�s entre os dois, agarrando o punho da m�o que tentava erguer a espada. As espadas dos guardas e a de Tumad j� estavam encostando em Taim, decerto tocando a carne, pela forma como estavam cravadas em seu casaco, mas ele n�o esbo�ou rea��o.</p><p>� Voc� veio me ver � inquiriu Rand � ou insultar Lorde Bashere? Se fizer isso de novo, vou deixar que ele o mate. Minha anistia perdoa o que voc� fez, mas n�o permite que fique se gabando de seus crimes.</p><p>Taim analisou Rand por um instante, antes de falar. Apesar do calor, o sujeito quase n�o suava.</p><p>� Vim ver voc�. Foi voc� que eu vi no c�u. Dizem que enfrentou o Tenebroso em pessoa.</p><p>� N�o era o Tenebroso � respondeu Rand. Bashere n�o estava exatamente lutando contra seu gesto de conten��o, mas sentia o bra�o tensionado do homem. Se o soltasse, aquela l�mina estaria cravada em Taim em um piscar de olhos. A menos que usasse o Poder. Ou que Taim usasse. Era preciso evitar isso, se poss�vel. Continuou segurando o punho de Bashere. � Ele se autodenominava Ba�alzamon, mas acho que era Ishamael. Eu o matei depois, na Pedra de Tear.</p><p>� Ouvi dizer que voc� matou v�rios Abandonados. Devo cham�-lo de Lorde Drag�o? Ouvi esse pessoal usando esse t�tulo. Pretende matar todos os Abandonados?</p><p>� Voc� tem outra ideia de como resolver essa quest�o? � perguntou Rand. � Ou eles morrem, ou o mundo morre. A n�o ser que voc� acredite que eles possam ser persuadidos a abandonar a Sombra da mesma forma que abandonaram a Luz.</p><p>Aquilo estava ficando rid�culo. L� estava ele, conversando com um sujeito espetado por cinco pontas de espadas que com certeza tiravam sangue por baixo do casaco enquanto ele pr�prio continha outro sujeito, �vido por cravar a sexta espada e arrancar mais do que um filete de sangue. Pelo menos os homens de Bashere eram disciplinados o bastante para n�o fazer mais sem ordens de seu general. Pelo menos Bashere estava mantendo a boca fechada. Admirado com a frieza de Taim, Rand prosseguiu o mais depressa que p�de, tentando n�o parecer precipitado:</p><p>� Sejam l� quais forem os seus crimes, Taim, n�o s�o nada perto dos crimes dos Abandonados. Voc� j� torturou uma cidade inteira, j� obrigou milhares de pessoas a ferirem umas �s outras lentamente, a ferirem seus entes queridos? Semirhage fez isso, e simplesmente porque podia faz�-lo, para provar que era capaz, por puro prazer. Voc� j� matou crian�as? Graendal matou. Dizia que era bondade de sua parte, que as matava para que n�o sofressem ao ver seus pais escravizados e levados embora por ela. � S� torcia para que os outros saldaeanos estivessem escutando com metade da aten��o de Taim, que estava at� um pouco inclinado para a frente, parecendo interessado. E torcia para que os outros n�o fizessem muitas perguntas a respeito de onde tinham vindo todas aquelas informa��es. � Voc� deu seres humanos para os Trollocs comerem? Todos os Abandonados fizeram isso. Os prisioneiros que n�o se curvavam a eles eram sempre dados aos Trollocs, isso se n�o fossem mortos na hora. Mas Demandred aprisionou duas cidades s� porque achava que o povo delas o menosprezara antes de ele se voltar para a Sombra. Cada homem, mulher e crian�a foi parar na barriga de um Trolloc. Mesaana construiu escolas no territ�rio que controlava, escolas onde crian�as e jovens eram instru�dos a respeito da <emphasis>gl�ria</emphasis> do Tenebroso, onde eram ensinados a matar os colegas que tinham dificuldade de aprender. Eu poderia continuar. Poderia nomear os treze, um a um, listando as centenas de crimes escabrosos atribu�dos a cada um deles. Seja l� o que voc� tenha feito, nem se compara. E agora voc� veio receber o meu perd�o, para caminhar pela Luz e se submeter a mim, para enfrentar o Tenebroso com uma for�a com a qual jamais enfrentou ningu�m. Os Abandonados est�o vacilantes. Pretendo ca�ar todos e erradic�-los. E voc� vai me ajudar. � por isso que merece o perd�o. E, para dizer a verdade, � prov�vel que voc� mere�a mais cem perd�es at� que a �ltima Batalha tenha terminado.</p><p>Enfim sentiu o bra�o de Bashere relaxar, a espada do homem deslizar de volta para dentro da bainha. Quase n�o conseguiu abafar um suspiro de al�vio.</p><p>� N�o vejo motivo para vigi�-lo t�o de perto. Guardem as espadas.</p><p>Hesitantes, Tumad e os outros come�aram a embainhar as espadas. Hesitantes, mas obedeceram. Taim, ent�o, se pronunciou.</p><p>� Me submeter? Eu tinha pensado mais em estabelecer uma esp�cie de alian�a entre n�s dois. � Os outros saldaeanos ficaram tensos. Bashere ainda estava atr�s de Rand, mas ele j� podia <emphasis>sentir</emphasis> que o homem ficara tenso. As Donzelas n�o moviam um s� m�sculo, exceto pela m�o de Jalani, que tremulou de leve em dire��o ao v�u. Taim inclinou a cabe�a, sem perceber. � Eu seria o parceiro inferior, � claro, apesar de j� ter tido muitos anos a mais do que voc� de estudo do Poder. H� tanto que eu posso lhe ensinar.</p><p>A ira se avultou dentro de Rand at� embotar a vis�o. Falara sobre coisas das quais n�o deveria saber, decerto dera origem a dezenas de rumores a respeito de si mesmo e dos Abandonados, tudo para suavizar o terror das a��es daquele sujeito, e o homem tinha a aud�cia de falar em <emphasis>uma alian�a</emphasis>? Dentro de sua mente, Lews Therin se enfurecia. <emphasis>Mate-o! Mate-o agora mesmo! Mate-o!</emphasis> Pela primeira vez, Rand n�o se deu ao trabalho de calar a voz.</p><p>� Nada de alian�as! � rosnou. � Nada de parcerias! Eu sou o Drag�o Renascido, Taim! Eu! Se voc� tiver algum conhecimento de que eu possa tirar proveito, vou us�-lo, mas voc� vai aonde eu mandar, fazer o que eu mandar e quando eu mandar.</p><p>Sem hesitar, Taim deslizou at� o ch�o, prostrando-se apoiado em um dos joelhos.</p><p>� Eu me submeto ao Drag�o Renascido. Vou servir e obedecer.</p><p>Os cantos de sua boca se contorceram outra vez naquele esbo�o de sorriso enquanto ele se levantava. Tumad o encarava, boquiaberto.</p><p>� R�pido assim? � murmurou Rand. A raiva n�o se dissipara, estava incandescente. Se cedesse, n�o sabia ao certo o que poderia acabar fazendo. Lews Therin ainda balbuciava nas profundezas de sua mente. <emphasis>Mate-o! Voc� tem que mat�-lo!</emphasis> Rand afastou Lews Therin, transformando-o em um murm�rio quase inaud�vel. Talvez n�o devesse se surpreender: coisas estranhas aconteciam perto dos <emphasis>ta�veren</emphasis>, ainda mais de um <emphasis>ta�veren </emphasis>t�o forte quanto ele. N�o deveria se surpreender ao ver um homem mudar de ideia t�o depressa, mesmo algu�m cujo destino parecia gravado na pedra. Por�m, a raiva o dominava, junto com uma forte desconfian�a. � Voc� se declarou o Drag�o Renascido, lutou batalhas por toda Saldaea, s� foi capturado porque ficou inconsciente, e agora desiste assim t�o f�cil? Por qu�?</p><p>Taim deu de ombros.</p><p>� Que escolha eu tenho? Vagar pelo mundo sozinho, sem amigos, perseguido, enquanto voc� conquista todas as gl�rias? Isso supondo que Bashere n�o d� um jeito de me matar antes que eu consiga sair da cidade, ou essas suas mulheres Aiel. Mesmo que n�o consigam, mais cedo ou mais tarde as Aes Sedai v�o me encurralar. Duvido que a Torre v� se esquecer de Mazrim Taim. Ou eu posso seguir voc�, e parte dessa gl�ria ser� minha. � Pela primeira vez, o sujeito olhou em volta, examinando os guardas e as Donzelas, e balan�ou a cabe�a como se n�o conseguisse acreditar. � Poderia ter sido eu. Como eu poderia saber, se n�o tentasse? Eu posso canalizar, sou forte nisso. Que indicativos eu tinha de que n�o era o Drag�o Renascido? S� precisava cumprir uma das Profecias.</p><p>� E como voc� daria um jeito de ter nascido nas encostas do Monte do Drag�o? � perguntou Rand, com frieza. � A primeira Profecia a ser cumprida.</p><p>Taim contorceu a boca outra vez. N�o era um sorriso de verdade: seus olhos denunciavam isso.</p><p>� Os vencedores escrevem a hist�ria. Se eu tivesse tomado a Pedra de Tear, a hist�ria teria demonstrado que nasci no Monte do Drag�o, de uma mulher jamais tocada por um homem, e que os c�us se abriram, radiantes, para anunciar a minha chegada. O tipo de coisa que dizem a seu respeito, agora. Mas foi voc� quem tomou a Pedra, com seus Aiel, e o mundo o aclama como o Drag�o Renascido. Eu n�o sou idiota de resistir a isso: voc� � o escolhido. Bem, j� que eu n�o posso comer o bolo inteiro, me contento com os farelos que ca�rem no meu prato.</p><p>� Voc� pode ter honras, Taim, ou pode n�o ter. Se vai come�ar a se atormentar por conta disso, pense no que aconteceu com os outros que fizeram o mesmo que voc�. Logain foi capturado e amansado, e h� rumores de que morreu na Torre. Um sujeito sem nome decapitado em Haddon Mirk pelos tairenos. Outro, queimado pelos murandianos. Queimado <emphasis>vivo</emphasis>, Taim! E tamb�m foi isso que os illianenses fizeram com Gorin Rogad, quatro anos atr�s.</p><p>� N�o � um destino que eu gostaria de ter � concluiu Taim, em voz calma.</p><p>� Ent�o esque�a as honras e lembre-se da �ltima Batalha. Tudo o que eu fa�o � pensando em Tarmon Gai�don. Tudo o que eu mandar voc� fazer ser� com isso em mente. <emphasis>Voc�</emphasis> deve pensar sempre em Tarmon Gai�don!</p><p>� � claro. � Taim estendeu as m�os. � Voc� � o Drag�o Renascido. N�o tenho d�vidas, reconhe�o isso publicamente. N�s marchamos para Tarmon Gai�don. E as Profecias afirmam que voc� sair� vitorioso. E as hist�rias v�o lembrar que Mazrim Taim foi seu bra�o direito.</p><p>� Talvez � respondeu Rand, em um tom rude. Vivera profecias demais para acreditar que qualquer uma delas se realizava exatamente do jeito que prometia. Ou que eram garantia de alguma coisa. Acreditava que as profecias estabeleciam as condi��es necess�rias para determinado acontecimento. S� que satisfazer as condi��es n�o era garantia de que tal coisa <emphasis>fosse</emphasis> ocorrer, apenas de que <emphasis>poderia</emphasis> ocorrer. Algumas condi��es fixadas pelas Profecias do Drag�o eram mais do que indicativos de que ele teria de morrer para ter qualquer chance de vit�ria. Pensar nisso n�o o ajudava a manter o temperamento sob controle. � Queira a Luz que essa sua oportunidade n�o chegue t�o cedo. Agora� que conhecimentos voc� tem de que eu possa fazer uso? Consegue ensinar homens a canalizar? Consegue testar um homem para saber se ele tem condi��es de aprender? � Ao contr�rio das mulheres, um homem capaz de canalizar n�o conseguia simplesmente sentir a habilidade de outro. As diferen�as entre homens e mulheres em rela��o ao Poder �nico eram quase tantas quanto as que havia entre homens e mulheres no geral. �s vezes, essas diferen�as eram sutis feito um fio de cabelo, outras, eram t�o opostas quanto pedra e seda.</p><p>� E a sua anistia? Quer dizer que realmente apareceram alguns imbecis querendo aprender a ser como eu e voc�?</p><p>Bashere apenas encarava Taim, cheio de desprezo, os bra�os cruzados e os p�s bem afastados, mas Tumad e os guardas se remexiam, incomodados. As Donzelas, n�o. Rand n�o fazia ideia de como as Donzelas se sentiam em rela��o ao n�mero de homens que havia respondido ao seu chamado, elas nunca demonstravam coisa alguma. Com a lembran�a de Taim como falso Drag�o ainda pulsando forte, poucos saldaeanos conseguiam esconder a inquieta��o.</p><p>� S� me responda, Taim. Se puder fazer o que eu quero, ent�o diga. Se n�o puder� � Era a raiva dentro dele que falava. N�o podia mandar o homem embora, n�o com uma nova luta a cada dia. Taim, no entanto, parecia crer que Rand faria isso.</p><p>� Consigo fazer as duas coisas � respondeu, mais do que depressa. � Encontrei cinco ao longo dos anos� n�o que eu estivesse procurando� mas apenas um teve coragem de prosseguir, depois de ser testado. � Ele hesitou, ent�o acrescentou: � Ele enlouqueceu dois anos depois. Tive que mat�-lo antes que ele me matasse.</p><p>Dois anos.</p><p>� Voc� consegue refrear a loucura h� muito mais tempo. Como?</p><p>� Est� preocupado? � murmurou Taim, ent�o deu de ombros. � N�o posso ajudar. N�o sei como, eu simplesmente consigo e pronto. Estou l�cido como� � Ele voltou os olhos na dire��o de Bashere, ignorando o olhar impass�vel do homem. � Como Lorde Bashere.</p><p>De repente, Rand foi tomado por d�vidas. Metade das Donzelas voltara a observar o p�tio. Elas nunca se mantinham t�o atentas a uma poss�vel amea�a a ponto de ignorar outras. A poss�vel amea�a era Taim, e a segunda metade das Donzelas ainda tinha os olhos cravados nele e em Rand, querendo captar o menor ind�cio de que a amea�a se tornasse real. Qualquer homem estaria atento �quilo, �quelas mulheres com uma amea�a de morte s�bita nos olhos, nas m�os. Rand estava ciente, e elas estavam ali para proteg�-lo. Tumad e os outros guardas ainda mantinham as m�os nos cabos das espadas, prontos para empunh�-las outra vez. Se os homens de Bashere e os Aiel decidissem matar Taim, seria bem dif�cil que ele escapasse daquele p�tio, por mais que canalizasse, a n�o ser que Rand o ajudasse. Ainda assim, Taim dispensava aos soldados e �s Donzelas a mesma aten��o que � colunata e �s pedras do pavimento. Seria coragem, genu�na ou fingida, ou algo mais? Uma esp�cie de loucura?</p><p>Depois de um instante de sil�ncio, Taim prosseguiu.</p><p>� Voc� ainda n�o confia em mim. N�o h� motivos para isso. Ainda. Com o tempo, voc� vai confiar. Em considera��o a essa futura confian�a, eu lhe trouxe um presente.</p><p>Ele puxou um embrulho surrado de debaixo do casaco, um pouco maior do que dois punhos de um homem.</p><p>Franzindo o cenho, Rand apanhou o embrulho e prendeu a respira��o ao sentir a forma r�gida envolta em pano. Puxou depressa os trapos multicoloridos, revelando um disco do tamanho de sua palma � um disco igual ao do estandarte escarlate pendurado no alto do pal�cio, metade branco e metade negro: o antigo s�mbolo dos Aes Sedai, de antes da Ruptura do Mundo. Passou os dedos pelas duas l�grimas g�meas.</p><p>Apenas sete daqueles haviam sido fabricados, todos de <emphasis>cuendillar</emphasis>. Selos da pris�o do Tenebroso, selos que mantinham o Senhor das Trevas apartado do mundo. Rand estava de posse de outros dois, ambos muito bem escondidos. Muito bem protegidos. Nada era capaz de destruir <emphasis>cuendillar</emphasis>, nem mesmo o Poder �nico � a borda de uma ta�a delicada feita de pedra-do-cora��o era capaz de riscar a�o e diamante �, mas tr�s dos sete <emphasis>tinham</emphasis> sido destru�dos. Ele os vira estilha�ados. E vira Moiraine arrancar uma lasca da borda de um deles. Os selos estavam se enfraquecendo, s� a Luz sabia como ou por qu�. O disco em suas m�os ainda apresentava a rigidez lustrosa de <emphasis>cuendillar</emphasis>, parecia uma mistura da mais fina porcelana com metal polido� mas ele tinha certeza de que se quebraria, se o deixasse cair nas pedras a seus p�s.</p><p>Tr�s quebrados. Estava de posse de outros tr�s. Onde estaria o s�timo? Restavam apenas quatro selos entre a humanidade e o Tenebroso. Quatro, se o �ltimo ainda estivesse inteiro. Apenas quatro separavam a humanidade da �ltima Batalha. Enfraquecidos como estavam, ser� que ainda continham bem a pris�o?</p><p>A voz de Lews Therin irrompeu como um trov�o. <emphasis>Quebre quebre todos voc� precisa quebrar todos precisa precisa precisa quebrar todos quebre e ataque voc� precisa atacar depressa precisa atacar agora quebre quebre quebre�</emphasis></p><p>Rand estremeceu com o esfor�o de lutar contra aquela voz, repelindo um nevoeiro que se grudava � sua mente feito teias de aranha. Seus m�sculos do�am, como se ele lutasse contra um gigante de carne e osso. Aos poucos, foi empurrando o nevoeiro de Lews Therin para as entranhas mais profundas, as sombras mais ocultas que podia encontrar dentro da pr�pria mente.</p><p>De s�bito, ouviu as palavras que murmurava, com a voz rouca.</p><p>� Precisa quebrar agora quebre tudo quebre quebre quebre.</p><p>Percebeu que segurava o selo acima da cabe�a, prestes a esmag�-lo no pavimento branco. A �nica coisa que o impedia era Bashere, nas pontas dos p�s, as m�os erguidas agarrando seus bra�os.</p><p>� Eu n�o sei o que � isso � murmurou o Marechal-General �, mas voc� n�o acha melhor esperar um pouco antes de quebrar?</p><p>Tumad e os outros j� n�o olhavam para Taim: encaravam Rand, embasbacados. At� as Donzelas o observavam, os olhos cheios de preocupa��o. Sulin fez men��o de dar um passo em dire��o aos homens, e Jalani, sem nem perceber, estendeu a m�o para Rand.</p><p>� Realmente. � Rand engoliu em seco. A garganta do�a. � � melhor n�o.</p><p>Bashere deu um passo atr�s, hesitante, e Rand baixou a m�o que segurava o selo, tamb�m hesitante. Se Rand considerara Taim imperturb�vel, agora tinha uma prova do contr�rio. O rosto do falso Drag�o estava tomado pelo choque.</p><p>� Voc� sabe o que � isso, Taim? � inquiriu. � Deve saber, ou n�o teria trazido para mim. Onde foi que encontrou isso? Tem outro? Sabe onde est�?</p><p>� N�o � respondeu Taim, a voz inst�vel. N�o exatamente de medo, parecia mais um homem que presenciara um despenhadeiro se desintegrar sob seus p�s e de repente, de alguma forma, se vira de volta em solo firme. � Esse � o �nico que eu� Ouvi toda sorte de rumores desde que fugi das Aes Sedai. Monstros surgindo do meio do nada. Feras estranhas. Homens falando com animais, e os animais respondendo. Aes Sedai enlouquecendo como deveria acontecer conosco. Aldeias inteiras enlouquecendo, matando umas �s outras. Alguns podem ser verdade. Metade do que eu sei ser verdade � igualmente doido. Ouvi dizer que alguns dos selos tinham sido destru�dos. Um martelo poderia quebrar esse a�.</p><p>Bashere franziu o cenho, encarou o selo nas m�os de Rand e arquejou. Agora, entendia.</p><p>� Onde foi que voc� encontrou isso? � repetiu Rand. Se conseguisse encontrar o �ltimo� ent�o o qu�? Lews Therin se revolvia em sua mente, inquieto, mas ele se recusava a escutar.</p><p>� No �ltimo lugar onde voc� poderia imaginar � disse Taim �, que eu creio ser o primeiro lugar onde dever�amos procurar pelos outros. Uma fazendinha decadente em Saldaea. Parei para pegar �gua e o fazendeiro me entregou o disco. Era velho, sem filhos ou netos para herdar o objeto, e achou que eu fosse o Drag�o Renascido. Contou que a fam�lia guardara o disco por mais de dois mil anos. Que foram reis e rainhas durante as Guerras dos Trollocs, nobres durante a �poca de Artur Asa-de-gavi�o. Talvez a hist�ria seja verdade. Seria t�o improv�vel quanto encontrar esse disco em uma choupana a poucos dias de viagem at� a Fronteira da Praga.</p><p>Rand assentiu, depois parou para recolher os trapos do embrulho. Estava acostumado a ver o improv�vel acontecer a seu redor, e por vezes tamb�m devia acontecer em outras terras. Reembrulhou o selo depressa e entregou-o a Bashere.</p><p>� Guarde isso com muito cuidado. � <emphasis>Quebre!</emphasis> Ele sufocou a voz. � Nada pode acontecer com este disco.</p><p>Bashere tomou o embrulho com as duas m�os, em um gesto reverente. Rand n�o soube ao certo se a mesura era para ele ou para o selo.</p><p>� Estar� seguro durante dez horas ou dez meses, at� que voc� o requeira.</p><p>Por um instante, Rand analisou o Marechal-General.</p><p>� Todos est�o esperando eu enlouquecer, est�o todos com medo, menos voc�. Agora h� pouco, voc� deve ter pensado que eu finalmente tinha ficado louco, mas mesmo assim n�o teve medo de mim.</p><p>Bashere deu de ombros, abrindo um sorriso por tr�s do bigode grisalho.</p><p>� Quando dormi pela primeira vez em cima de uma sela, Muad Cheade era Marechal-General. O homem era louco feito uma lebre no in�cio da primavera. Revistava o camareiro duas vezes por dia para ver se ele n�o estava escondendo veneno e s� bebia vinagre e �gua, que alegava terem o efeito de neutralizar o veneno com o qual o sujeito o alimentava. Mas, durante todo o tempo em que convivi com ele, o vi comer tudo o que seu camareiro preparava. Uma vez, mandou derrubar um bosque de carvalhos porque as �rvores estavam olhando feio para ele. Depois insistiu para que os troncos ca�dos tivessem funerais decentes, e ele pr�prio conduziu a ora��o. Voc� faz ideia do tempo que leva para cavar covas para vinte e tr�s carvalhos?</p><p>� Por que ningu�m fez nada? A fam�lia dele?</p><p>� Os que n�o eram t�o loucos quanto ele, ou mais, tinham medo de olh�-lo com desconfian�a. De todo modo, o pai de Tenobia n�o teria deixado ningu�m encostar um dedo em Cheade. Ele podia ser louco, mas comandava melhor que qualquer um que j� conheci. Nunca perdeu uma batalha. Sequer chegou perto disso.</p><p>Rand riu.</p><p>� Ent�o voc� me segue porque acha que eu posso superar o Tenebroso nas t�ticas de batalha?</p><p>� Eu o sigo porque voc� � quem � � respondeu Bashere, baixinho. � O mundo precisa seguir voc�, ou os que sobreviverem v�o desejar ter morrido.</p><p>Hesitante, Rand aquiesceu. As Profecias diziam que ele iria destruir na��es e reuni-las. N�o que ele desejasse fazer isso, mas as Profecias eram seu �nico guia para como lutar a �ltima Batalha, como venc�-la. E achava, mesmo sem elas, que unir as na��es era necess�rio. A �ltima Batalha n�o seria travada apenas entre ele e o Tenebroso. N�o podia acreditar nisso: por mais que pudesse estar enlouquecendo, ainda n�o chegara ao ponto de se julgar mais que um simples homem. Aquela tamb�m seria uma batalha da humanidade contra Trollocs e Myrddraal, contra todo tipo de Crias da Sombra que a Praga fosse capaz de regurgitar, e contra Amigos das Trevas emergindo de seus esconderijos. Haveria outros perigos na jornada at� Tarmon Gai�don, e, se o mundo n�o estivesse unido� <emphasis>Voc� faz o que tem de ser feito. </emphasis>N�o sabia dizer se a voz viera dele mesmo ou de Lews Therin, mas, at� onde sabia, era verdade.</p><p>Avan�ou depressa at� a coluna mais pr�xima, olhou para tr�s e disse para Bashere:</p><p>� Vou levar Taim para a fazenda. Quer vir junto?</p><p>� Fazenda? � perguntou Taim.</p><p>Bashere balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o, obrigado � respondeu, em um tom seco. O saldaeano podia n�o aparentar nervosismo, mas Rand e Taim juntos decerto era o m�ximo que ele era capaz de suportar. Ele claramente evitava a fazenda. � Meus homens est�o ficando moles em policiar as ruas para voc�. Pretendo dar uma dura em uns deles, durante algumas horas. Voc� ia inspecion�-los hoje � tarde. Mudou de ideia?</p><p>� Que fazenda? � perguntou Taim.</p><p>Rand soltou um suspiro, se sentindo cansado de repente.</p><p>� N�o, n�o mudei de ideia. Estarei na inspe��o, se poss�vel. � Aquilo era importante demais para mudar de ideia, embora ningu�m al�m de Bashere e Mat soubessem. N�o podia deixar que pensassem que era mais do que uma formalidade, uma cerim�nia in�til para um homem cada vez mais tomado pela pompa de sua posi��o, o Drag�o Renascido indo receber a sauda��o de seus soldados. Tamb�m tinha outra visita a fazer, naquele mesmo dia. Uma que todos pensariam estar sendo mantida em segredo. Poderia at� continuar em segredo para a maioria, mas Rand n�o tinha d�vidas de que as pessoas que ele queria que soubessem, saberiam.</p><p>Apanhou a espada, apoiada em uma das colunas estreitas, e afivelou-a por cima do casaco aberto. O cinto era de couro de javali, escuro e sem adornos, bem como a bainha e o cabo comprido. A fivela era ornamentada com um drag�o de a�o e ouro muito bem trabalhado. Precisava se livrar daquela fivela, encontrar algo mais simples. Mas n�o podia fazer isso. Fora presente de Aviendha. E justamente por isso deveria se livrar daquilo. N�o conseguia encontrar uma solu��o para aquele ciclo de pensamentos.</p><p>Algo mais o aguardava ali: uma lan�a de dois p�s de comprimento, com borla verde e branca abaixo da ponta afiada. Ao virar-se de volta para o p�tio, ergueu-a. Uma das Donzelas entalhara o cabo curto com Drag�es. Alguns j� chamavam aquilo de Cetro do Drag�o, sobretudo Elenia e seu grupo. Rand mantinha o objeto por perto para se lembrar de que talvez tivesse mais inimigos do que conseguia enxergar.</p><p>� Que fazenda � essa que voc� est� falando? � A voz de Taim ganhou firmeza. � Aonde � que pretende me levar?</p><p>Rand analisou o homem por um longo instante. N�o gostava de Taim. Alguma coisa nos modos dele. Ou talvez algo em si pr�prio. Passara tempo ele sendo o �nico que conseguia sequer pensar em canalizar sem medo das Aes Sedai. Bem, n�o fazia muito tempo, e pelo menos as Aes Sedai n�o tentariam amans�-lo, n�o agora que sabiam quem ele era. Poderia ser simplesmente isso? Ci�me por n�o ser mais o �nico? Achava que n�o. Apesar de tudo o mais, acolheria quantos homens capazes de canalizar tranquilos que pudesse encontrar no mundo. Enfim deixaria de ser uma aberra��o. N�o, n�o chegaria a tanto, n�o deste lado de Tarmon Gai�don. Ele era �nico, era o Drag�o Renascido. Quaisquer que fossem os motivos, ele simplesmente n�o gostava do sujeito.</p><p><emphasis>Mate esse homem!</emphasis> Ganiu Lews Therin. <emphasis>Mate todos eles!</emphasis> Rand abafou a voz. N�o era obrigado a gostar de Taim, s� precisava us�-lo. E confiar nele. O que era o mais dif�cil.</p><p>� Vou lev�-lo a um lugar onde voc� pode me servir � respondeu com frieza.</p><p>Taim n�o se encolheu nem franziu o rosto, apenas observou e aguardou, os cantos da boca por um breve instante se contorcendo naquele meio sorriso.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 3</p><p><image l:href="#20"/></p><p>Os olhos de uma mulher</p></title><p>Contendo a pr�pria irrita��o � e os murm�rios de Lews Therin �, Rand tentou tocar <emphasis>saidin</emphasis>, lan�ando-se � j� familiar batalha por controle e sobreviv�ncia em meio ao vazio. A m�cula vinha em uma torrente enquanto ele canalizava. Mesmo no vazio dava para senti-la se embrenhando em seus ossos, talvez at� em sua alma. N�o havia outra forma de descrever o que estava fazendo, al�m de dizer que era um vinco no Padr�o, um buraco. Aprendera isso sozinho, j� que seu professor n�o tivera muito �xito em explicar nem mesmo o que jazia por detr�s das coisas que ensinava. Uma linha vertical brilhante surgiu no ar, expandindo-se depressa at� virar uma abertura do tamanho de uma porta larga. O que se via atrav�s dela parecia distorcida, uma clareira iluminada pelo sol em meio a �rvores afetadas pela seca, tudo girando at� parar.</p><p>Enaila e mais duas Donzelas ergueram os v�us e saltaram pouco antes que a abertura se firmasse. Meia d�zia de outras as seguiram, algumas com os arcos de chifre a postos. Rand n�o esperava que houvesse nada ali contra o qual fosse preciso prote��o. Fizera com que o outro extremo da abertura � isso se <emphasis>houvesse</emphasis> outro extremo: Rand n�o entendia como funcionava, mas parecia existir apenas um lado da coisa � fosse no meio da clareira porque talvez abrir um portal entre as pessoas fosse perigoso, mas dizer �s Donzelas � ou a qualquer Aiel � que n�o era preciso manter-se alerta era como dizer a um peixe que n�o era preciso nadar.</p><p>� Isso � um port�o � explicou a Taim. � Posso mostrar a voc� como fazer, se n�o tiver entendido.</p><p>O homem o encarava. Se tivesse prestado aten��o, teria visto a tessitura de <emphasis>saidin </emphasis>sendo feita. Qualquer homem capaz de canalizar poderia v�-la.</p><p>Taim juntou-se a Rand para adentrar a clareira, com Sulin e as outras Donzelas tr�s. Algumas lan�aram um olhar de desd�m � espada na cintura de Rand, ao passar por ele em fila, gesticulando r�pida e silenciosamente na l�ngua de sinais das Donzelas. Indignadas, decerto. Enaila e a vigia � frente j� haviam se separado, cautelosas, por entre as �rvores esqu�lidas e sem cor. Seus casacos e cal�as, o <emphasis>cadin�sor</emphasis>, mesclavam seus corpos �s sombras, mesmo sem terem acrescentado verde ao cinza e marrom. Com o Poder dentro de si, Rand conseguia ver cada agulha dos pinheiros, a maioria morta. Sentia o odor azedo da seiva das folhas-de-couro. O pr�prio ar tinha um cheiro quente, seco e empoeirado. N�o havia perigo para ele ali.</p><p>� Espere, Rand al�Thor � chamou uma voz insistente de mulher, do outro lado da abertura. A voz de Aviendha.</p><p>Na mesma hora, Rand soltou <emphasis>saidin</emphasis> e a trama. A abertura fechou-se em um piscar de olhos, do mesmo modo que se abrira. Havia perigos e perigos. Taim o encarou, curioso. Algumas das Donzelas, veladas e desveladas, tamb�m lhe lan�aram olhares ligeiros. Olhares reprovadores. Gesticularam na linguagem das Donzelas. Contudo, tinham o bom senso de manter a boca fechada � Rand se fizera muito claro a respeito disso.</p><p>Ignorando tanto a curiosidade quanto a desaprova��o, Rand avan�ou pelas �rvores com Taim a seu lado, folhas e galhos mortos se partindo sob seus p�s. As Donzelas, avan�ando em um largo c�rculo ao redor deles, n�o emitiam qualquer som sob as botas macias e amarradas at� os joelhos. Algumas j� tinham feito essa jornada com Rand, sempre sem nenhum incidente, mas nada jamais as convenceria de que aquelas matas n�o eram um bom local para uma emboscada. Antes de Rand, a vida no Deserto amargara quase tr�s mil anos de ataques, escaramu�as, rixas e guerras que tempo nenhum poderia mitigar.</p><p>Sem d�vida havia coisas que ele poderia aprender com Taim � mesmo que n�o tantas quanto o sujeito pensara que poderia ensinar �, mas o aprendizado era uma via de m�o dupla, e estava na hora de ele come�ar a instruir o mais velho.</p><p>� Ao meu lado, cedo ou tarde voc� ter� que enfrentar os Abandonados. Talvez antes da �ltima Batalha. Provavelmente antes. Voc� n�o parece surpreso.</p><p>� Ouvi rumores. Alguma hora eles iam se libertar.</p><p>Ent�o as not�cias estavam se espalhando. Sem querer, Rand abriu um sorriso. As Aes Sedai n�o iam gostar. Al�m de tudo o mais, havia um certo prazer em lhes dar uma cutucada.</p><p>� Voc� precisa estar pronto para qualquer coisa, a qualquer momento. Trollocs, Myrddraal, Draghkar, Homens Cinza, <emphasis>gholam</emphasis>�</p><p>Ele hesitou, acariciando o longo punho da espada com a palma da m�o marcada pela gar�a. N�o fazia ideia do que era um <emphasis>gholam</emphasis>. Lews Therin n�o tinha se pronunciado, mas ele sabia que era de l� que vinha o nome. �s vezes alguns pensamentos fragmentados penetravam a fina barreira entre ele e aquela voz e se tornavam parte das lembran�as de Rand, em geral sem qualquer explica��o. Nos �ltimos tempos, vinha acontecendo com mais frequ�ncia. N�o era algo contra o qual ele pudesse lutar, como a voz. A hesita��o durou apenas um instante.</p><p>� N�o s� no norte, perto da Praga. Mas tamb�m aqui ou em qualquer lugar. Eles est�o usando os Caminhos.</p><p>Era outra coisa que precisava resolver. Mas como? Criados a partir de <emphasis>saidin</emphasis>, os Caminhos tinham se perdido nas trevas, t�o maculados quanto <emphasis>saidin</emphasis>. As Crias da Sombra n�o conseguiam evitar todos os perigos dos Caminhos � a maioria, na melhor das hip�teses, fatal para os homens �, mas, de alguma maneira, ainda eram capazes de viajar por eles. Mesmo que percorrer os Caminhos n�o fosse t�o r�pido quanto cruzar um port�o, era poss�vel avan�ar centenas de milhas em um s� dia viajando por eles. Esse problema teria que ficar para depois. Deixara muitos problemas para depois. Tinha muitos problemas para agora. Irritado, golpeou uma folha-de-couro com o Cetro do Drag�o; fragmentos de folhas largas e resistentes ca�ram pelo ch�o, quase todos marrons.</p><p>� Se a criatura j� foi mencionada em alguma lenda, pode ter certeza de que vir� nos atacar. At� mesmo C�es das Trevas, embora, nesse caso, se eles fazem mesmo parte da Ca�ada Selvagem, pelo menos o Tenebroso n�o est� livre para vir cavalgando atr�s deles. Os C�es sozinhos j� s�o bem ruins. Tem como matar algumas dessas Crias da Sombra do modo como as lendas instruem, mas outros s� morrem com fogo devastador, disso eu tenho certeza. Voc� conhece o fogo devastador? Se n�o, � uma coisa que n�o vou ensinar. Se conhece, n�o use em nada, s� nas Crias da Sombra. E n�o ensine a ningu�m.</p><p>�A origem de alguns desses rumores que voc� ouviu pode ser� n�o sei bem como cham�-las, uso a express�o �bolhas de mal�. S�o como aquelas bolhas que �s vezes despontam em algum p�ntano, s� que essas emergem do Tenebroso � medida que os selos se enfraquecem. Em vez de odores p�tridos, s�o cheias de� de mal. Ficam pairando pelo Padr�o at� estourar, ent�o, quando estouram, qualquer coisa pode acontecer. Qualquer coisa. Seu pr�prio reflexo pode pular para fora do espelho e tentar mat�-lo. Pode acreditar.�</p><p>Se a ladainha estava deixando Taim preocupado, ele n�o demonstrou. Apenas respondeu:</p><p>� Eu j� estive na Praga, j� matei Trollocs e Myrddraal. � Ele afastou um galho baixo do caminho e segurou-o para que Rand passasse. � Nunca ouvi falar nesse tal de fogo devastador, mas se um C�o das Trevas vier atr�s de mim, darei um jeito de mat�-lo.</p><p>� Bom � respondeu Rand, tanto sobre a ignor�ncia de Taim quanto � autoconfian�a. O fogo devastador era um fragmento de conhecimento que Rand n�o se importaria de ver desaparecer do mundo. � Com sorte, voc� n�o vai encontrar nada disso por aqui, mas nunca d� para ter certeza.</p><p>A mata de s�bito terminou e deu lugar a uma fazenda, com uma ampla casa de dois andares e telhado de palha, a constru��o desgastada pelo tempo, fuma�a subindo de uma das chamin�s e um grande celeiro meio inclinado. O dia ali n�o estava mais fresco do que na cidade a algumas milhas de dist�ncia, o sol, n�o menos escaldante. Galinhas ciscavam, duas vacas pardas ruminavam em um cercadinho de ripas, um rebanho de cabras pretas amarradas se ocupava em arrancar as folhas dos arbustos ao alcance e uma carro�a de rodas altas jazia � sombra do celeiro, mas o lugar n�o parecia uma fazenda. N�o havia campo � vista: o entorno era todo ocupado por florestas, cortadas apenas pelo sinuoso caminho de terra batida que se estendia para o norte, usado para as raras excurs�es at� a cidade. E havia gente demais.</p><p>Quatro mulheres, todas de meia-idade exceto por uma, penduravam roupas lavadas em um par de varais, e uma dezena de crian�as, nenhuma com mais de nove ou dez anos, brincava entre as galinhas. Tamb�m havia homens circulando por ali, a maioria parecendo ocupada. Vinte e sete, ainda que fosse exagero chamar alguns deles de homens. Eben Hopwil, o magrelo que puxava um balde de �gua de dentro do po�o, alegava ter vinte anos, mas devia ter quatro ou cinco a menos. O que mais se via no garoto eram o nariz e as orelhas. Fedwin Morr, um dos tr�s sujeitos suados que trocavam a palha velha do teto, era bem mais desenvolvido e tinha bem menos espinhas, mas sem d�vida n�o era mais velho. Mais da metade dos homens tinha apenas tr�s ou quatro anos a mais do que esses dois. Rand quase mandara alguns de volta para casa � pelo menos Eben e Fedwin, mesmo a Torre Branca aceitando novi�as t�o jovens quanto eles, �s vezes at� mais. Em algumas cabe�as j� dava para ver fios grisalhos entre os cabelos escuros, e Damer Flinn, de rosto enrugado, empunhando um galho descascado em frente ao celeiro para demonstrar a dois rapazes como se usava uma espada, mancava e exibia apenas uma franjinha fina de cabelos brancos. Damer integrara a Guarda da Rainha at� ser atingido na coxa por uma lan�a murandiana. N�o era um grande espadachim, mas parecia ter compet�ncia para ensinar os outros a n�o acertarem o pr�prio p�. A maioria dos homens era de Andor, alguns poucos cairhienos. Ainda n�o havia nenhum de Tear, embora a anistia tamb�m tivesse sido proclamada por l�. Levaria algum tempo para que chegasse gente de t�o longe.</p><p>Damer foi o primeiro a reparar nas Donzelas. Ele deitou o graveto e dirigiu a aten��o dos pupilos a Rand. Ent�o Eben soltou um berro e largou o balde, se molhando todo, e todos dispararam, atabalhoados, gritando avisos em dire��o � casa, e se amontoaram atr�s de Damer, ansiosos. Mais duas mulheres de avental sa�ram da casa, o rosto vermelho por conta dos fog�es, e ajudaram as outras a juntar as crian�as atr�s dos homens.</p><p>� L� est�o eles � explicou Rand. � Voc� tem quase metade de um dia. Quantos consegue testar? Quero saber quem tem condi��es de ser treinado quanto antes.</p><p>� Este bando foi tirado do fundo de um� � come�ou a dizer Taim, desdenhoso, ent�o parou no meio do p�tio da fazenda, encarando Rand. Galinhas ciscavam em volta de seus p�s. � Voc� n�o testou nenhum? Por qu�, em nome da�? Voc� n�o sabe, n�o �? Sabe Viajar, mas n�o sabe testar algu�m para detectar o talento.</p><p>� Alguns n�o querem canalizar. � Rand aliviou a for�a com que agarrava o punho da espada. Detestava admitir as lacunas em seu conhecimento �quele homem. � Alguns s� pensaram na chance de ter gl�ria, riqueza ou poder. Mas quero qualquer homem que tenha condi��es de aprender, sejam l� quais forem as motiva��es.</p><p>Os alunos � os homens que seriam alunos �, parados diante do celeiro, observavam Rand e Taim com o que quase poderia ser considerado calma. Afinal de contas, todos tinham ido a Caemlyn na esperan�a de aprender com o Drag�o Renascido ou crendo que aprenderiam. Eram as Donzelas, dispostas em c�rculo ao redor da fazenda e investigando a casa e o celeiro, que lhes atra�am a aten��o, em uma esp�cie de fasc�nio cauteloso e at� mesmo apreensivo. As mulheres agarravam as crian�as �s saias, o olhar fixo em Rand e Taim e uma variedade de express�es nos rostos, desde ar impass�vel at� mordidas ansiosas nos l�bios.</p><p>� Venha � declarou Rand. � Est� na hora de conhecer seus alunos.</p><p>Taim hesitou.</p><p>� � mesmo s� para isso que voc� me quer? Para tentar ensinar a essa esc�ria deprimente? Isso se for poss�vel ensinar a algum deles. Quantos voc� realmente acha que vai encontrar em um grupo que simplesmente veio vagando at� voc�?</p><p>� Isso � importante, Taim. Eu mesmo faria, se pudesse, se tivesse tempo. � O tempo era sempre crucial, estava sempre faltando. E ele mesmo admitira, por mais que lhe fosse penoso. Rand percebia que n�o gostava muito de Taim, mas n�o era obrigado a gostar. N�o ficou esperando e, depois de um instante, o outro o alcan�ou com passos compridos. � Voc� falou em confian�a. Estou confiando em voc� para isso. � <emphasis>N�o confie!,</emphasis> vociferou Lews Therin, de seu rec�ndito obscuro. <emphasis>Nunca confie em ningu�m! Confian�a traz a morte!</emphasis> � Teste os rapazes e comece as aulas assim que descobrir quem � capaz de aprender.</p><p>� Como o Lorde Drag�o desejar � murmurou Taim, ir�nico, quando chegaram ao grupo que os aguardava.</p><p>Foram saudados com mesuras e rever�ncias, nenhuma muito polida.</p><p>� Este � Mazrim Taim � anunciou Rand. Queixos ca�ram e olhos se arregalaram, naturalmente. Alguns dos mais jovens os encararam como se achassem que ele e Taim estavam ali para lutar, uns poucos pareciam ansiosos para assistir. � Apresentem-se a ele. A partir de hoje, ele ser� seu instrutor.</p><p>Taim lan�ou a Rand um olhar frio enquanto os alunos foram se agrupando devagar em torno dele e come�aram a se apresentar.</p><p>Na verdade, as rea��es foram variadas. Fedwin avan�ou com avidez, abrindo caminho at� a frente, logo ao lado de Damer, enquanto Eben permaneceu atr�s, com o rosto p�lido. Os outros estavam divididos, hesitantes, indecisos, mas por fim foram se pronunciando. A declara��o de Rand punha um ponto final em semanas de espera para alguns daqueles homens, talvez em anos de sonhos. Um novo paradigma come�ava naquele momento, um que lhes permitiria canalizar, fossem quais fossem as implica��es.</p><p>Um sujeito troncudo de olhos escuros, seis ou sete anos mais velho que Rand, ignorou Taim e afastou-se dos outros. Vestido em um casaco bruto de fazendeiro, Jur Grady parou diante de Rand, remexendo os p�s e retorcendo um quepe de tecido nas m�os �speras. Encarava o quepe e o ch�o sob as botas gastas, s� de vez em quando erguendo os olhos para Rand.</p><p>� Ʌ milorde Drag�o, eu andei pensando� � meu pai est� cuidando do meu terreno, um bom peda�o de terra, e se o c�rrego n�o secar ainda vai dar uma safra, isso se chover, e� e� � Ele esmagou o quepe, ent�o endireitou-o outra vez, com cuidado. � Estava pensando em voltar para casa.</p><p>As mulheres n�o estavam agrupadas em volta de Taim. Agarravam as crian�as e observavam, em uma fileira silenciosa de olhos angustiados. A mais jovem, uma mo�a roli�a de cabelos claros, com um garoto de quatro anos brincando com seus dedos, era Sora Grady. Aquelas mulheres estavam ali acompanhando os maridos, mas Rand suspeitava de que metade das conversas entre os casais eventualmente mencionasse a partida. Cinco homens j� tinham ido embora, todos casados, ainda que nenhum tivesse dado o casamento como justificativa. Que mulher ficaria tranquila vendo o marido esperar para aprender a canalizar? Deveria ser como v�-lo na fila para cometer suic�dio.</p><p>Alguns diriam que aquele n�o era um lugar para fam�lias, embora muito provavelmente esses mesmos diriam que os homens tamb�m n�o deveriam estar ali. Na opini�o de Rand, as Aes Sedai haviam cometido um erro se fechando para o mundo. Poucos adentravam a Torre Branca al�m das Aes Sedai, as mulheres que queriam ser Aes Sedai e as pessoas que as serviam. Apenas um punhado ia at� l� em busca de ajuda e s� fazia isso em circunst�ncias extremas. Quando as Aes Sedai sa�am da Torre, a maioria mantinha dist�ncia do povo � e algumas nunca sa�am. Para as Aes Sedai, as pessoas eram pe�as de um jogo e o mundo era o tabuleiro, n�o um lugar onde viver. Para elas, apenas a Torre Branca era real. Nenhum homem conseguiria esquecer o mundo e as pessoas comuns quando tinha a pr�pria fam�lia diante de si.</p><p>Aquilo s� precisava durar at� Tarmon Gai�don � quanto tempo? Um ano? Dois? �, mas a quest�o era se duraria at� l�. De alguma forma, duraria. Ele faria durar. As fam�lias eram, para os homens, uma lembran�a de por que lutavam.</p><p>Os olhos de Sora estavam cravados em Rand.</p><p>� V�, se quiser � respondeu a Jur. � Voc� pode ir embora a qualquer momento antes que comece a aprender a canalizar. Depois que der esse passo, ter� se tornado o mesmo que um soldado. Voc� sabe que vamos precisar de todos os soldados que pudermos encontrar antes da �ltima Batalha, Jur. A Sombra vai arrebanhar novos Senhores do Medo prontos para canalizar, pode contar com isso. Mas a escolha � sua. Talvez voc� consiga ficar de fora l� na sua fazenda, at� acabar. Deve haver alguns lugares no mundo que ficar�o a salvo do que est� por vir. Espero. De todo modo, o restante de n�s vai fazer o poss�vel para preservar o m�ximo de locais que der. Mas voc� podia ao menos dizer seu nome a Taim. Seria uma vergonha ir embora antes de descobrir se tem condi��es de aprender.</p><p>Evitando os olhos de Sora, Rand deu as costas para Jur, que parecia confuso. <emphasis>E voc� recrimina as Aes Sedai por manipular os outros</emphasis>, pensou com amargura. Fazia o que tinha de fazer.</p><p>Taim ainda ouvia os nomes do grupo, continuando a lan�ar olhares irritados mal contidos a Rand. De s�bito, a paci�ncia dele se esgotou.</p><p>� J� chega disso. Posso pegar os nomes depois, dos que ainda estiverem aqui amanh�. Quem � o primeiro a ser testado? � Na mesma rapidez, os homens congelaram a l�ngua. Alguns o encaravam sem nem piscar os olhos. Taim apontou para Damer. � � melhor j� tirar voc� do caminho. Venha c�.</p><p>Damer n�o se moveu at� Taim o agarrar pelo bra�o e o puxar, afastando-o um pouco dos outros.</p><p>Observando, Rand tamb�m se aproximou.</p><p>� Quanto mais Poder for usado � ia explicando Taim, a Damer �, mais f�cil detectar a resson�ncia. Por outro lado, uma resson�ncia grande demais pode lhe trazer um desconforto na cabe�a, ou talvez at� mat�-lo, ent�o vou come�ar de leve.</p><p>Damer piscou os olhos. N�o entendera quase nada, exceto talvez a parte sobre desconforto e morte. Rand, por�m, sabia que a explica��o tinha sido para ele. Taim estava escondendo sua ignor�ncia dos outros.</p><p>De s�bito, uma pequenina chama tremulante irrompeu no ar. Tinha uma polegada de altura e estava equidistante dos tr�s homens. Rand sentia o Poder em Taim, ainda que apenas um pouquinho, e via o fino fluxo de Fogo que o homem urdia. A chama trouxe um al�vio surpreendente, era prova de que Taim podia mesmo canalizar. As d�vidas iniciais de Bashere deviam ter ficado em sua mente.</p><p>� Concentre-se na chama � disse Taim. � Voc� � a chama. O mundo � a chama. N�o existe nada al�m da chama.</p><p>� Eu n�o sinto nada, s� um princ�pio de dor nos olhos � resmungou Damer, enxugando o suor do rosto com o dorso da m�o bruta e calejada.</p><p>� Concentre-se! � vociferou Taim. � N�o fale, n�o pense, n�o se mexa. Concentre-se.</p><p>Damer aquiesceu, depois piscou os olhos para a carranca de Taim e congelou, encarando a chama diminuta em sil�ncio.</p><p>Taim estava concentrado, mas Rand n�o sabia ao certo em qu�. Ele parecia escutar. Uma resson�ncia, ao que dissera. Rand manteve o foco, escutando, tentando sentir� alguma coisa.</p><p>Minutos se passaram sem que ningu�m movesse um s� m�sculo. Cinco, seis, sete minutos intermin�veis, e Damer praticamente sem piscar. O velho respirava com dificuldade, suando tanto que parecia que tinham derramado um balde de �gua em sua cabe�a. Dez minutos.</p><p>De repente, Rand sentiu. A resson�ncia. Uma coisa pequena, um eco do min�sculo fluxo de Poder que pulsava em Taim, mas parecia vir de Damer. S� podia ser a resson�ncia que Taim mencionara, mas ele n�o se mexeu. Talvez houvesse mais, ou talvez aquilo n�o fosse o que Rand imaginava.</p><p>Mais um ou dois minutos se passaram, e por fim Taim assentiu, liberando a chama e <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p>� Voc� � capaz de aprender� Damer, n�o �? � Ele parecia surpreso. Sem d�vida n�o imaginara que o primeir�ssimo homem passaria no teste, ainda mais um velho quase careca. Damer abriu um sorriso fraco, parecia prestes a vomitar. � Acho que eu n�o deveria me surpreender se todos esses simpl�rios passarem no teste � murmurou o homem de nariz de gavi�o, olhando para Rand. � Voc� parece ter a sorte de dez homens juntos.</p><p>Botas se remexeram, sem jeito, entre o restante dos �simpl�rios�. Sem d�vida alguns j� desejavam n�o passar. N�o podiam recuar agora, mas, se falhassem no teste, poderiam voltar para casa sabendo que tinham tentado, sem precisar encarar o que viesse caso passassem.</p><p>O pr�prio Rand ficou um pouco surpreso. N�o houvera nada al�m daquele eco, no fim das contas, e ele sentira antes de Taim, que sabia o que procurava.</p><p>� No devido tempo, vamos descobrir qual � a extens�o da sua for�a � explicou Taim, enquanto Damer retornava para perto dos outros. O grupo se afastou um pouco dele, sem encar�-lo. � Talvez voc� tenha tanta for�a quanto eu ou at� quanto o Lorde Drag�o aqui. � O v�o em torno de Damer se ampliou mais um pouco. � S� o tempo dir�. Preste aten��o enquanto eu testo os outros. Se for esperto, vai conseguir pescar o jeito daqui a mais quatro ou cinco testes. � Uma r�pida olhadela para Rand informou que o coment�rio tinha sido para ele. � Pois bem, quem � o pr�ximo? � Ningu�m se mexeu. O saldaeano alisou o queixo e apontou para um sujeito desajeitado com bem mais de trinta anos, um tecel�o de cabelos escuros chamado Kely Huldin � Voc�. � Na fileira de mulheres, a esposa de Kely soltou um gemido de lamento.</p><p>Vinte e seis outros testes tomariam o restante da tarde, talvez at� mais. Com ou sem calor, os dias estavam ficando cada vez mais curtos, como se o inverno de fato estivesse chegando, e um teste malsucedido levava alguns minutos a mais do que um bem-sucedido, s� por garantia. Bashere estava aguardando, e ainda havia Weiramon para visitar, e�</p><p>� Continue a� � disse Rand a Taim. � Volto amanh� para ver como foram as coisas. Lembre-se da confian�a que estou depositando em voc�. � <emphasis>N�o confie nele</emphasis>, ganiu Lews Therin. A voz parecia vir de alguma figura cabriolante nas profundezas de sua mente. <emphasis>N�o confie. Confian�a leva � morte. Mate o homem. Mate todos eles. Ah, morrer e acabar, acabar com tudo, dormir sem sonhos, sonhos de Ilyena, me perdoe, Ilyena, n�o h� perd�o, apenas a morte, mere�o morrer�</emphasis> Rand deu as costas para o grupo antes que seu rosto denunciasse a luta interna. � Amanh�. Se eu puder.</p><p>Taim o alcan�ou antes que ele e as Donzelas chegassem � metade do caminho de volta at� as �rvores.</p><p>� Se ficar mais um pouco, pode aprender a fazer o teste. � Havia um toque de exaspera��o em sua voz. � Isso se eu encontrar mais uns quatro ou cinco, de todo modo, o que n�o vai me surpreender. Voc� parece ter a sorte do pr�prio Tenebroso. Imagino que queira aprender. A n�o ser que esteja pretendendo largar tudo nas minhas costas. Estou lhe avisando, vai levar tempo. Por mais que eu pressione, esse Damer ainda vai levar dias, semanas, antes de sequer conseguir sentir <emphasis>saidin</emphasis>, que dir� toc�-lo. S� tocar, sem canalizar nem uma centelha.</p><p>� Eu j� entendi como funciona o teste � respondeu Rand. � N�o foi dif�cil. E de fato pretendo largar tudo nas suas costas, at� voc� conseguir encontrar outros e ensinar a eles o suficiente para que possam ajud�-lo a procurar mais outros. Lembre-se do que eu disse, Taim. Seja r�pido em ensinar a eles.</p><p>Havia perigos naquilo. Aprender a canalizar a metade feminina da Fonte Verdadeira era como aprender a aceit�-la, pelo que as mulheres tinham dito a Rand, aprender a submeter-se a algo que prestaria obedi�ncia a quem se entregasse. Era como guiar uma for�a colossal que s� faria mal a quem abusasse de seu uso. Elayne e Egwene viam aquilo como natural. Para Rand, era quase imposs�vel de acreditar. Canalizar a metade masculina era uma guerra constante por controle e sobreviv�ncia. Se avan�asse al�m da conta ou muito depressa, viraria um rapazinho atirado sem roupas em uma batalha intensa contra inimigos armados. Mesmo depois de aprender, era poss�vel acabar destru�do, morto ou com a mente obliterada por <emphasis>saidin��</emphasis>�isso se simplesmente n�o acabasse exaurindo a pr�pria habilidade de canalizar. O mesmo pre�o que as Aes Sedai cobravam de um homem capaz de canalizar que capturassem poderia ser cobrado do pr�prio canalizador em um instante de descuido, em um instante em que baixasse a guarda. N�o que alguns daqueles homens diante do celeiro n�o estivessem dispostos a pagar esse pre�o naquele exato minuto. A esposa de Kely Huldin, com seu rosto redondo, agarrava o marido pela gola da camisa, falando com urg�ncia. Kely balan�ava a cabe�a, indeciso, e os outros homens casados encaravam suas esposas, preocupados. Mas estavam diante de uma guerra, e as guerras eram feitas de baixas, mesmo entre os casados. Luz, Rand estava ficando calejado a ponto de dar nojo a uma cabra. Virou um pouco o corpo para n�o ter que ver os olhos de Sora Grady.</p><p>� V� avan�ando por onde der � disse a Taim. � Ensine o m�ximo poss�vel no menor tempo poss�vel.</p><p>Taim comprimiu os l�bios de leve ao ouvir as primeiras palavras de Rand.</p><p>� O m�ximo poss�vel � repetiu, impass�vel. � Mas o qu�? Coisas que possam ser usadas como armas, suponho.</p><p>� Armas � concordou Rand. Todos os homens tinham que ser armas, inclusive ele pr�prio. Ser� que uma arma poderia ter fam�lia? Poderia se permitir ser amada? Ora, <emphasis>de onde</emphasis> ele tirara aquela ideia? � O m�ximo que puderem aprender, mas principalmente isso.</p><p>Havia t�o poucos homens. Vinte e sete. E se houvesse pelo menos mais um al�m de Damer capaz de aprender, Rand agradeceria por ser <emphasis>ta�veren</emphasis> e ter atra�do o homem para si. As Aes Sedai apenas capturavam e amansavam homens de fato capazes de canalizar, mas tinham se aprimorado bastante ao longo dos �ltimos tr�s mil anos. Ao que parecia, algumas acreditavam estar tendo sucesso em algo que jamais pretenderam: apartar da humanidade a habilidade de canalizar atrav�s da sele��o. A Torre Branca fora constru�da para abrigar tr�s mil Aes Sedai constantemente � muito mais, se todas fossem convocadas de uma vez, com aposentos para abrigar centenas de meninas em treinamento. Contudo, antes da cis�o havia apenas quarenta e tantas novi�as na Torre, e menos de cinquenta Aceitas.</p><p>� Preciso de mais gente, Taim. D� um jeito de encontrar mais. Ensine a eles como fazer o teste, antes de qualquer outra coisa.</p><p>� Pretende chegar ao n�mero das Aes Sedai, �? � O sujeito parecia impass�vel, mesmo considerando que aquele poderia mesmo ser o plano de Rand. Seus olhos escuros e obl�quos mantiveram-se firmes.</p><p>� Quantas Aes Sedai existem ao todo? Mil?</p><p>� Menos que isso, acho � respondeu Taim, cauteloso.</p><p>Eliminaram os canalizadores da ra�a humana. Queimaram todos por serem quem eram, mesmo que com motivo.</p><p>� Bom, haver� inimigos suficientes, de todo modo. � O que n�o faltava eram inimigos. O Tenebroso, os Abandonados, Crias da Sombra, Amigos das Trevas. Os Mantos-brancos, sem d�vida, e muito provavelmente algumas Aes Sedai, as que pertenciam � Ajah Negra e as que queriam control�-lo. Essas �ltimas ele contava como inimigas, por mais que elas n�o se considerassem assim. Decerto haveria Senhores do Medo, bem como ele afirmara. E mais. Inimigos o bastante para destruir todos os seus planos, para destruir tudo. Apertou o cabo entalhado do Cetro do Drag�o. O tempo era o maior inimigo, o que ele tinha a menor chance de derrotar. � Eu vou derrot�-los, Taim. Todos eles. Eles acham que podem destruir tudo. � sempre destruindo, nunca construindo! Eu vou construir alguma coisa, vou deixar um legado. Seja l� o que aconte�a, isso eu farei! Vou derrotar o Tenebroso. E vou purificar <emphasis>saidin</emphasis>, para que os homens n�o tenham medo de enlouquecer, para que o mundo n�o precise temer a canaliza��o dos homens. Eu vou�</p><p>A borla verde e branca balan�ou quando ele sacudiu a lan�a, nervoso. Era imposs�vel. O calor e a terra zombavam dele. Algumas coisas precisavam ser feitas, mas era tudo imposs�vel. O m�ximo que qualquer um deles poderia esperar era ganhar e morrer antes de enlouquecer, e nem isso ele sabia como controlar. S� podia continuar tentando. Mas tinha que haver um meio. Se de fato existisse algo parecido com justi�a, tinha que haver um meio.</p><p>� Purificar <emphasis>saidin</emphasis> � murmurou Taim. � Acho que isso iria requerer mais poder do que voc� imagina. � Ele fechou os olhos, pensativo. � Ouvi falar de coisas chamadas <emphasis>sa�angreal</emphasis>. Voc� tem algum que acha que poderia�</p><p>� N�o importa o que eu tenho ou deixo de ter � retrucou Rand, com rudeza. � Ensine os que forem capazes de aprender, Taim. Depois encontre mais e os ensine tamb�m. O Tenebroso n�o vai esperar. Luz! N�o temos tempo, Taim, mas temos que dar um jeito. N�s temos!</p><p>� Vou fazer o poss�vel. S� n�o espere que Damer seja capaz de derrubar as muralhas de uma cidade amanh� de manh�.</p><p>Rand hesitou.</p><p>� Taim? Fique de olho em qualquer aluno que comece a aprender depressa demais. Me avise imediatamente. Um dos Abandonados pode tentar se infiltrar entre os estudantes.</p><p>� Um dos Abandonados! � Saiu quase como um sussurro. Pela segunda vez, Taim parecia abalado, agora de fato bastante surpreso. � Por que � que�?</p><p>� Qual � a extens�o da sua for�a? � interrompeu Rand. � Agarre <emphasis>saidin</emphasis>. Agora. O m�ximo que conseguir.</p><p>Por um instante, Taim simplesmente encarou Rand, inexpressivo. Ent�o o Poder fluiu por dentro dele. N�o havia brilho, tal como as mulheres viam umas em torno das outras, apenas uma sensa��o de for�a e amea�a, mas Rand conseguia senti-la muito bem e avali�-la. Taim continha o suficiente de <emphasis>saidin</emphasis> para destruir a fazenda e todos ali em quest�o de segundos, o suficiente para devastar tudo at� onde a vista alcan�asse. N�o era muito menos do que o pr�prio Rand era capaz de manejar sozinho. Por outro lado, o homem podia estar se contendo. N�o aparentava estar se esfor�ando. Ele talvez n�o quisesse exibir toda a sua for�a. Como poderia prever a rea��o de Rand?</p><p>A sensa��o de <emphasis>saidin</emphasis> se esvaneceu de Taim, e, pela primeira vez, Rand percebeu que ele pr�prio estava tomado pela metade masculina da Fonte, uma torrente indom�vel feita de todos os fios que ele conseguia puxar do <emphasis>angreal</emphasis> guardado em seu bolso. <emphasis>Mate-o</emphasis>, murmurou Lews Therin. <emphasis>Mate-o agora mesmo!</emphasis> Por um instante, o choque o arrebatou. O vazio que o rodeava cedeu um pouco, <emphasis>saidin</emphasis> se intensificou e avolumou, e ele quase n�o conseguiu soltar o Poder antes de ser esmagado junto com o Vazio. Quem agarrara a Fonte, ele ou Lews Therin? <emphasis>Mate-o! Mate-o!</emphasis></p><p>Em um assomo de f�ria, Rand deu um berro dentro da pr�pria cabe�a: <emphasis>Cale a boca!</emphasis> Para sua pr�pria surpresa, a outra voz desapareceu.</p><p>Suor escorria por seu rosto, e ele o limpou com a m�o quase tr�mula. Ele pr�prio agarrara a Fonte, s� podia ter sido isso. A voz de um homem morto n�o poderia ter feito uma coisa dessas. Inconscientemente, n�o confiava em Taim manejando tamanha quantidade de <emphasis>saidin</emphasis> enquanto ele permanecia indefeso. Era isso.</p><p>� S� fique de olho em quem aprender depressa demais � murmurou.</p><p>Talvez estivesse revelando demais a Taim, mas as pessoas tinham o direito de saber o que poderiam vir a enfrentar. Quanto precisassem saber. N�o ousava deixar que Taim ou qualquer um descobrisse onde ele aprendera a maior parte das coisas que sabia. Se algu�m descobrisse que ele mantivera um dos Abandonados prisioneiro e permitira que ele fugisse� os rumores jamais mencionariam a parte do <emphasis>prisioneiro</emphasis>. Os Mantos-brancos alegavam que ele era um falso Drag�o e muito provavelmente tamb�m Amigo das Trevas e diziam o mesmo de qualquer um que tocasse o Poder �nico. Se o mundo soubesse a respeito de Asmodean, muita gente mais poderia acreditar nisso. Pouco importava que Rand tivesse precisado de um homem para instru�-lo com <emphasis>saidin</emphasis>. Nenhuma mulher podia fazer isso, n�o mais do que podiam ver suas tessituras, ou ele as delas. <emphasis>Os homens sempre acreditam no pior, e as mulheres sempre acreditam que o pior esconde algo ainda mais terr�vel</emphasis>. Era um antigo ditado de Dois Rios. Se Asmodean aparecesse outra vez, Rand lidaria com o homem sozinho.</p><p>� S� fique de olho. Discretamente.</p><p>� Como milorde Drag�o desejar. � Taim chegou a fazer uma leve mesura antes de sair outra vez pela fazenda.</p><p>Rand percebeu que as Donzelas o encaravam. Enaila, Somara, Sulin, Jalani e todas as outras tinham o olhar cheio de preocupa��o. Elas aceitavam de pronto quase tudo o que ele fazia, at� as coisas que ele hesitava em fazer e as decis�es que deixavam os outros povos sobressaltados. Mas ficavam chocadas com coisas que ele nem compreendia. Elas aceitavam e <emphasis>se preocupavam</emphasis> com ele.</p><p>� Voc� n�o pode se cansar � murmurou Somara.</p><p>Rand a encarou e a mulher de cabelos louros enrubesceu. Aquele poderia at� n�o ser considerado um lugar p�blico, j� que Taim estava longe demais para ouvir, mas mesmo assim aquilo estava passando dos limites.</p><p>Enaila, contudo, puxou uma <emphasis>shoufa</emphasis> reserva do cinto e entregou-a a ele.</p><p>� N�o � bom para voc� pegar sol demais � murmurou a mulher.</p><p>� Ele precisa de uma esposa para vigi�-lo � resmungou uma das outras, Rand n�o soube dizer qual.</p><p>Nem mesmo Somara e Enaila diziam essas coisas na frente dele. E Rand sabia a quem se referiam: Aviendha. Quem melhor para se casar com o filho de uma Donzela do que uma Donzela que largara a lan�a para se tornar uma S�bia?</p><p>Suprimindo um lampejo de raiva, Rand enrolou a <emphasis>shoufa</emphasis> na cabe�a e se sentiu grato. O sol estava mesmo escaldante e o tecido marrom-acinzentado bloqueava uma quantidade surpreendente de calor. O suor empapou o peda�o de pano na mesma hora. Seria poss�vel que Taim conhecesse algum truque como o das Aes Sedai para n�o se deixar afetar pelo calor e pelo frio? Saldaea estava muito longe ao norte e, no entanto, tal qual os Aiel, o homem quase n�o transpirava. Apesar da gratid�o, o que Rand disse foi:</p><p>� O que eu n�o posso � ficar aqui parado perdendo tempo.</p><p>� Perdendo tempo? � indagou a jovem Jalani, em um tom inocente demais, desamarrando a <emphasis>shoufa</emphasis> e expondo momentaneamente os cabelos curtos, quase t�o ruivos quanto os de Enaila. � Como pode o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> estar perdendo tempo? Da �ltima vez que suei tanto quanto ele, tinha corrido do nascer ao cair do dia.</p><p>Sorrisos e gargalhadas irromperam entre as outras Donzelas. Maira, uma ruiva, pelo menos dez anos mais velha do que Rand, se acabava de rir, dando tapas na pr�pria coxa, enquanto Desora, uma loura, tentava esconder o riso com a m�o, como de costume. Liah, com sua cicatriz no rosto, pulava sem parar, enquanto Sulin quase se curvava de tanto rir. O humor Aiel era estranho, para dizer o m�nimo. Os her�is das hist�rias n�o tinham sofrido chacotas, nem mesmo estranhas como aquela e Rand duvidava de que coisa parecida acontecesse com reis. Parte da quest�o era que um chefe Aiel, mesmo o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, n�o era um rei. Sob muitos aspectos, ele at� podia ter a autoridade de um, mas qualquer Aiel podia ficar cara a cara com um chefe e dizer exatamente o que pensava. A maior parte da quest�o, no entanto, era outra.</p><p>Apesar de ter sido criado em Dois Rios, por Tam al�Thor e pela esposa de Tam, Kari, que morrera quando Rand tinha cinco anos, sua verdadeira m�e, fora uma Donzela da Lan�a que morrera dando � luz nas encostas do Monte do Drag�o. N�o uma Aiel, embora o pai tivesse sido, mas ainda assim uma Donzela. Dessa forma, Rand estava sujeito a costumes Aiel mais poderosos que a lei. N�o havia como resistir. Nenhuma Donzela podia se casar e continuar portando a lan�a, e, a menos que abrisse m�o da lan�a, qualquer crian�a que gestasse era entregue pelas S�bias a outra mulher, de modo que a Donzela jamais sabia que mulher era essa. Havia a cren�a de que o filho de uma Donzela trazia sorte, tanto ao nascer quanto a quem o criasse, embora ningu�m al�m da nova m�e e seu marido soubessem que o filho n�o era dela. Mais ia al�m disso: a Profecia Aiel de Rhuidean dizia que o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> seria gerado daquela forma, mas criado por aguacentos. Para as Donzelas, Rand representava o retorno de todas aquelas crian�as: o primeiro filho de uma Donzela a ser conhecido por todos.</p><p>A maioria, fossem mais velhas que Sulin ou mais jovens que Jalani, o acolhia como a um irm�o perdido por muitos anos. Em p�blico, dispensavam-lhe o mesmo respeito que a qualquer chefe, por menor que parecesse. Sozinho com elas, no entanto, Rand acabava sendo tratado como irm�o, ainda que a posi��o de irm�o mais novo ou mais velho n�o tivesse nada a ver com a idade de cada mulher. Ele se contentava em ver que poucas seguiam o mesmo caminho de Enaila e Somara: em p�blico ou n�o, era muito irritante ter uma mulher da idade dele se comportando como sua m�e.</p><p>� Ent�o temos que ir para um lugar onde eu n�o v� suar � respondeu, conseguindo abrir um sorriso.</p><p>Devia isso a elas. Algumas j� tinham morrido por ele e mais morreriam, antes que tudo terminasse. As Donzelas logo reprimiram as risadas, a postos para ir aonde o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> mandasse, a postos para defend�-lo.</p><p>A quest�o era: para onde ir? Bashere aguardava sua visita calculadamente fortuita, mas se Aviendha tivesse ouvido a respeito, poderia muito bem estar com o Marechal-General. Rand andava evitando a mulher o m�ximo que podia, sobretudo se houvesse o risco de ficarem a s�s. Porque queria ficar sozinho com ela. At� ent�o, conseguira esconder isso das Donzelas. Se elas tivessem a menor suspeita que fosse, o atormentariam pelo resto da vida. O fato era que ele <emphasis>precisava</emphasis> manter dist�ncia dela. Rand levava a morte consigo, feito uma doen�a contagiosa. Era um alvo e as pessoas que o cercavam acabavam morrendo. Precisara endurecer o cora��o para permitir que as Donzelas morressem � que a Luz o queimasse para sempre por aquela promessa! �, mas Aviendha abrira m�o da lan�a para estudar com as S�bias. Rand n�o sabia ao certo o que sentia por ela, s� sabia que se Aviendha morresse por sua causa algo dentro dele morreria tamb�m. Era uma sorte que ela n�o tivesse qualquer envolvimento emocional com ele. S� tentava ficar por perto porque as S�bias queriam que ela o vigiasse e porque queria vigi�-lo para Elayne. Nenhum dos motivos facilitava a situa��o para ele � era exatamente o oposto.</p><p>Na verdade, n�o era dif�cil decidir. Bashere teria que esperar, s� assim ele conseguiria evitar Aviendha. E a visita a Weiramon, planejada no Pal�cio para que parecesse uma tentativa de manter segredo, ocorreria primeiro. A vontade de fugir era um motivo tolo para tomar uma decis�o, mas o que podia fazer um homem diante da insensatez de uma mulher? Inverter as obriga��es poderia acabar sendo a melhor decis�o. As pessoas que ele queria que descobrissem sobre o encontro secreto descobririam de qualquer forma � e talvez fosse justamente pela invers�o que acabassem acreditando no que Rand queria que acreditassem, posto que tudo de fato seria feito �s escondidas. Talvez a vistoria com Bashere e os homens de Saldaea parecesse ainda mais despropositada, j� que ele deixaria para faz�-la no fim do dia. Isso. Manobras sobre manobras, um comportamento digno de qualquer cairhieno jogando o Jogo das Casas.</p><p>Agarrando <emphasis>saidin</emphasis>, Rand abriu um port�o � a nesga de luz em pleno ar foi se alargando, revelando o interior de uma grande tenda com listras verdes, vazia exceto por um carpete colorido bordado com uma padronagem tairena em forma de labirinto. N�o havia chance de sofrerem uma emboscada naquela tenda, menos ainda do que nos entornos da fazenda, mas Enaila, Maira e as outras se velaram e avan�aram com pressa. Rand fez uma pausa e olhou para tr�s.</p><p>Kely Huldin caminhava em dire��o � casa de fazenda, a cabe�a baixa, a esposa conduzindo os dois filhos a seu lado. A mulher afagava o ombro de Kely, como se tentando consol�-lo, mas mesmo do outro lado do terreno, Rand distinguia a express�o radiante dela. Estava claro que Kely falhara no teste. Taim estava diante de Jur Grady, ambos encarando uma min�scula chama que tremeluzia entre os dois. Sora Grady, com o filho agarrado junto ao seio, n�o olhava para o marido. Ainda mantinha os olhos cravados em Rand. <emphasis>Os olhos de uma mulher cortam mais que uma faca��</emphasis>�outro ditado de Dois Rios.</p><p>Ele adentrou a abertura, aguardou o restante das Donzelas fazerem a travessia e soltou a Fonte. Fazia o que tinha que fazer.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 4 </p><p><image l:href="#19"/></p><p>Senso de humor</p></title><p>O interior pouco iluminado da tenda estava quente o bastante para fazer Caemlyn, cerca de oitocentas milhas ao norte, parecer fresca e agrad�vel. Ao erguer a aba de tecido da entrada, Rand teve que piscar para acostumar os olhos. O sol o atingiu como um martelo e ele ficou feliz por estar usando a <emphasis>shoufa</emphasis>.</p><p>Uma r�plica do estandarte do Drag�o pendia no alto da tenda de listras verdes, bem ao lado de um estandarte carmesim que ostentava o antigo s�mbolo dos Aes Sedai. Outras tendas se estendiam pela plan�cie de eleva��es suaves, onde quase todos os tufos de grama dura tinham se incorporado � terra, depois de pisoteados por tantos cascos e botas. Havia tendas de topo pontudo e tendas de topo plano, al�m de muita cor. A maioria das tendas era inteiramente branca � ou pelo menos de um branco sujo �, mas muitas eram listradas ou completamente coloridas e tamb�m havia as cores dos estandartes dos lordes. Havia um ex�rcito reunido ali, na fronteira de Tear, �s margens da Plan�cie de Maredo � milhares e milhares de soldados vindos de Tear e Cairhien. Os Aiel haviam erguido os pr�prios acampamentos, bem longe dos aguacentos. Havia cinco Aiel para cada taireno e cairhieno e mais chegavam a cada dia. Um ex�rcito capaz de fazer Illian tremer na base, um bando j� com for�a suficiente para aniquilar qualquer coisa que cruzasse seu caminho.</p><p>Enaila e o restante da guarda dianteira j� estavam do lado de fora, os v�us baixados, reunidas com mais de dez homens Aiel. Os Aiel montavam guarda constante naquela tenda. Vestidos e armados feito as Donzelas, eram todos t�o altos quanto Rand ou ainda mais � le�es frente aos leopardos das Donzelas, homens de rosto duro, curtido pelo sol, com frios olhos azuis, verdes ou cinza. Naquele dia eram os <emphasis>Sha�mad Conde</emphasis>, Andarilhos do Trov�o, liderados pelo pr�prio Roidan, o chefe da sociedade daquele lado da Muralha do Drag�o. As Donzelas carregavam a honra do <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, mas cada uma das sociedades de guerreiros exigia fazer sua parte na guarda de Rand.</p><p>Um detalhe do traje de alguns dos homens diferia das roupas das Donzelas. Metade usava enrolado nas t�mporas um tecido carmesim ostentando o antigo s�mbolo Aes Sedai, o disco preto e branco logo acima das sobrancelhas. Era uma novidade, vista pela primeira vez apenas alguns meses antes. Os que usavam a faixa na cabe�a se consideravam <emphasis>siswai�aman</emphasis>, que na L�ngua Antiga queria dizer �As Lan�as do Drag�o�. As Lan�as que Pertencem ao Drag�o, em uma tradu��o mais literal. As faixas nas cabe�as e seu significado deixavam Rand incomodado, mas havia pouco que ele pudesse fazer, j� que os homens se recusavam at� mesmo a admitir que as usavam. Por que nenhuma Donzela as ostentava � pelo menos nenhuma que ele tivesse visto �, Rand n�o fazia ideia. Elas eram quase t�o relutantes em tocar no assunto quanto os homens.</p><p>� Vejo voc�, Rand al�Thor � declarou Roidan, muito s�rio. Os cabelos de Roidan eram consideravelmente mais grisalhos do que louros, mas o rosto do homem de ombros largos poderia servir de martelo ou bigorna a um ferreiro. A julgar pelas cicatrizes no nariz e nas bochechas, parecia prov�vel que tivesse sido mesmo usado, e mais de uma vez. Os frios olhos azuis faziam o rosto parecer suave. Ele evitava olhar para a espada de Rand. � Que o dia lhe traga boa sombra. � A frase n�o tinha rela��o com o sol escaldante ou o c�u sem nuvens. Roidan n�o parecia transpirar sequer uma gota. Era apenas uma sauda��o comum ao povo de uma terra onde o sol era sempre escaldante, e as �rvores, raras.</p><p>Com o mesmo n�vel de formalidade, Rand respondeu:</p><p>� Vejo voc�, Roidan. Que o dia lhe traga boa sombra. O Gr�o-lorde Weiramon est� por aqui?</p><p>Roidan indicou com a cabe�a um grande pavilh�o com as laterais listradas de vermelho e o teto carmesim, todo circundado por homens portando lan�as compridas apoiadas com precis�o, as placas peitorais reluzentes, os casacos de tecido preto e dourado dos Defensores da Pedra tairenos. Acima, tremulavam as Tr�s Luas Crescentes de Tear, brancas sobre um fundo vermelho e dourado, e o sol raiado de Cairhien, dourado sobre um fundo azul, ambos flanqueando o estandarte escarlate de Rand, os tr�s drapejando ao sabor de uma brisa que mais parecia o bafo de um forno.</p><p>� Os aguacentos est�o todos l�. � Encarando Rand direto nos olhos, Roidan acrescentou: � Faz tr�s dias que Bruan n�o � chamado �quela tenda, Rand al�Thor. � Bruan era o chefe de cl� dos Aiel Nakai, o cl� de Roidan. Ambos eram do ramo do Campo de Sal. � Nem Han, dos Tomanelle, ou Dhearic, dos Reyn. Ou qualquer outro chefe de cl�.</p><p>� Vou falar com eles � respondeu Rand. � Pode informar Bruan e os outros de que estou aqui?</p><p>Roidan aquiesceu, solene.</p><p>Olhando os homens de esguelha, Enaila inclinou-se para perto de Jalani e perguntou, em um sussurro que poderia ter sido ouvido claramente a dez passadas de dist�ncia:</p><p>� Sabe por que eles s�o chamados de Andarilhos do Trov�o? Porque, mesmo quando est�o parados, a gente fica olhando para o c�u procurando os raios.</p><p>As Donzelas explodiram em gargalhadas.</p><p>Um jovem Andarilho do Trov�o deu um salto, chutando a bota alta e macia mais alto do que a cabe�a de Rand. Era bonito, exceto pela cicatriz branca enrugada que ostentava abaixo da tira de pano preto que cobria o olho que faltava. Ele tamb�m usava a faixa vermelha na cabe�a.</p><p>� Sabe por que as Donzelas se comunicam por gestos? � gritou, quando atingiu o ponto mais alto do salto. Ao voltar ao ch�o, fez uma careta atordoada. N�o era direcionada �s Donzelas: o sujeito falava com seus companheiros, ignorando as mulheres. � Porque mesmo quando n�o est�o falando, elas n�o conseguem parar de falar.</p><p>Os <emphasis>Sha�mad Conde</emphasis> gargalharam t�o alto quanto as Donzelas tinham rido.</p><p>� S� mesmo os Andarilhos do Trov�o veriam honra em vigiar uma tenda vazia � comentou Enaila, com Jalani, em um tom desapontado, balan�ando a cabe�a. � Se os <emphasis>gai�shain</emphasis> trouxerem canecas vazias da pr�xima vez que eles pedirem vinho, com certeza v�o ficar mais b�bados do que a gente conseguiria se estivesse bebendo <emphasis>oosquai</emphasis>.</p><p>Parecia que os Andarilhos do Trov�o pensavam que Enaila tinha levado a melhor. O caolho e v�rios outros ergueram os broqu�is de couro de touro na dire��o dela e bateram neles com as lan�as. A Donzela apenas escutou por um instante, depois assentiu e foi atr�s das outras que seguiam Rand.</p><p>Refletindo a respeito do humor Aiel, Rand observava o vasto campo. Os aromas de comida emergiam de centenas de fogueiras espalhadas � p�o assando no carv�o, carne assando em espetos, sopa borbulhando em caldeir�es pendurados em trip�s. Soldados comiam bem e bastante sempre que podiam, pois as provis�es das campanhas costumavam ser limitadas. Cada fogueira exalava seus pr�prios aromas adocicados � havia mais estrume de boi seco do que lenha para queimar, na Plan�cie de Maredo.</p><p>Havia arqueiros, besteiros e lanceiros pelos arredores, vestidos em seus coletes de couro com discos de a�o costurados ou simplesmente em casacos acolchoados, mas tanto os nobres tairenos quanto os cairhienos desprezavam andar e enalteciam a cavalgada, portanto acabavam ficando em evid�ncia, j� que estavam montados. Os tairenos usavam capacetes bojudos com abas, ostentando placas peitorais sobre os casacos de mangas bufantes de tecido listrado nas cores de seus v�rios lordes. Os cairhienos estavam de casacos escuros, com placas peitorais surradas e capacetes em formato de sino com uma abertura que expunha o rosto. Pequenos estandartes chamados <emphasis>con</emphasis> ficavam presos em bast�es curtos �s costas de alguns dos homens, demarcando a nobreza inferior cairhiena, os filhos ca�ulas e �s vezes os baixos oficiais, embora poucos plebeus cairhienos fossem elevados � e poucos tairenos, tamb�m. As duas nacionalidades n�o se misturavam. Enquanto os tairenos costumavam sentar-se esparramados nas selas e sempre dirigir um olhar de desprezo a qualquer cairhieno que se aproximasse, os nobres cairhienos � de estatura mais baixa � se sentavam r�gidos nas selas, o mais empertigados que podiam, ignorando completamente a presen�a tairena. Os dois pa�ses haviam travado mais de uma guerra um contra o outro antes que Rand os obrigasse a cavalgar juntos.</p><p>Usando vestimentas r�sticas, velhos grisalhos e alguns rapazes rec�m-sa�dos da inf�ncia perambulavam em meio �s tendas cutucando o ch�o com varas robustas. Alguns perseguiam ratos, tentando golpe�-los com um porrete para acrescent�-los aos demais, j� mortos, pendurados no cintur�o. Um sujeito narigudo e sem camisa, usando um colete de couro manchado, com um arco na m�o e a aljava na cintura, se aproximou de uma mesa diante de uma das tendas e depositou no tampo uma comprida fileira de corvos e gralhas amarradas pelos p�s. Recebeu em troca uma bolsa, entregue pelo taireno sem capacete e aparentemente entediado que estava sentado do outro lado. Pouca gente t�o ao sul acreditava que Myrddraal de fato usassem ratos, corvos e afins como espi�es � Luz, exceto pelos que de fato os haviam visto, quase ningu�m t�o ao sul de fato acreditava em Myrddraal, ou mesmo Trollocs! �, mas se o Lorde Drag�o queria livrar o acampamento dessas criaturas, todos ficavam satisfeitos em obedecer. Ainda mais considerando que o Lorde Drag�o pagava em prata por cada cad�ver.</p><p>Muitos vivas se ergueram, claro. Ningu�m mais circularia pelo acampamento com uma escolta de Donzelas da Lan�a, ainda por cima portando o Cetro do Drag�o. �Que a Luz ilumine o Lorde Drag�o!�, �Que a Gra�a proteja o Lorde Drag�o!� e outras sauda��es similares foram ouvidas de todos os lados. Muitas, inclusive, pareciam sinceras, embora fosse dif�cil afirmar, com os homens gritando a plenos pulm�es. Alguns apenas encaravam a escolta com um olhar temeroso ou davam meia-volta e cavalgavam para longe, mas n�o muito depressa. Afinal, n�o havia como dizer quando Rand decidiria invocar raios ou partir o ch�o em dois. Os homens capazes de canalizar acabavam mesmo loucos e quem poderia saber o que um homem louco faria, ou quando? Aclamando-o ou n�o, todos observavam as Donzelas com desconfian�a. Poucos haviam se acostumado a ver mulheres portando armas feito homens. Al�m do mais, todos sabiam que os Aiel eram t�o imprevis�veis quanto os loucos.</p><p>O barulho n�o foi suficiente para evitar que Rand ouvisse o que as Donzelas cochichavam.</p><p>� Ele tem um �timo senso de humor. Quem �? � perguntou Enaila.</p><p>� Ele se chama Leiran � respondeu Somara. � Um Cosaida Chareen. Voc� s� gostou do senso de humor dele porque Leiran julgou sua piada melhor que a dele. Mas o homem parece mesmo ter m�os fortes. � V�rias Donzelas disfar�aram as risadinhas.</p><p>� N�o achou a piada de Enaila engra�ada, Rand al�Thor? � Sulin caminhava ao lado dele a passos largos. � Voc� n�o riu. Nunca ri. �s vezes acho que voc� n�o tem senso de humor.</p><p>Rand parou na mesma hora, virando-se para as Donzelas t�o de repente que v�rias agarraram os v�us e olharam em volta, tentando entender o que o assustara. Ele pigarreou.</p><p>� Certa manh�, um velho fazendeiro irritadi�o, chamado Hu, encontrou seu melhor galo no topo de uma �rvore muito alta ao lado do laguinho da fazenda e o bicho n�o queria descer. Ent�o ele foi pedir ajuda a seu vizinho, Wil. Os dois nunca tinham se dado bem, mas Wil por fim concordou em ajudar. Eles foram at� o laguinho e come�aram a subir a �rvore, Hu primeiro. Os dois pretendiam assustar o galo para faz�-lo descer, mas a ave simplesmente voava cada vez mais alto, subindo de galho em galho. Ent�o, quando Hu e o galo j� estavam quase no topo da �rvore, com Wil logo atr�s, os dois ouviram um estalo bem alto. O galho sob os p�s do velho fazendeiro tinha se partido e l� foi ele laguinho adentro, espalhando �gua e lama por todo lado. Wil desceu o mais depressa poss�vel, todo desajeitado. Da margem do laguinho, ele estendeu a m�o para Hu, mas o velho s� ficou ali, parado, deitado de barriga para cima, afundando cada vez mais na lama, at� s� se ver o nariz dele para fora da �gua. Um terceiro fazendeiro viu o que aconteceu, foi correndo e puxou Hu de dentro do laguinho. �Por que voc� n�o tomou a m�o de Wil?�, perguntou o sujeito. �Voc� podia ter se afogado.� Hu resmungou em resposta: �Por que eu deveria tomar a m�o dele? Acabamos de nos cruzar, em plena luz do dia, e ele n�o dirigiu uma palavra a mim.�</p><p>Rand aguardou, ansioso.</p><p>As Donzelas trocaram olhares inexpressivos. Por fim, Somara perguntou:</p><p>� O que aconteceu com o laguinho? O ponto principal da hist�ria � a �gua, n�o �?</p><p>Jogando as m�os para o alto em um gesto de frustra��o, Rand retomou a caminhada em dire��o ao pavilh�o de listras vermelhas. Atr�s dele, ouviu Liah dizer:</p><p>� Acho que era para ser uma piada.</p><p>� Como � que a gente vai rir se ele n�o sabe o que aconteceu com a �gua? � perguntou Maira.</p><p>� Foi o galo � concluiu Enaila. � O humor dos aguacentos � estranho. Acho que tem alguma coisa a ver com o galo.</p><p>Rand tentou parar de escutar.</p><p>Os Defensores se enrijeceram ainda mais com a aproxima��o dele, se isso era poss�vel, e os dois parados diante da entrada abriram caminho suavemente, afastando as duas abas de franjas douradas. Eles encaravam um ponto al�m das Aiel.</p><p>Rand j� havia liderado os Defensores da Pedra uma vez, em uma luta desesperada contra Myrddraal e Trollocs nos corredores da pr�pria Pedra de Tear. Os homens teriam seguido qualquer um que se pusesse na lideran�a, naquela noite, mas tinha sido ele.</p><p>� A Pedra resiste � murmurou. Aquele fora seu grito de batalha.</p><p>O lampejo de um sorriso estampou alguns daqueles rostos antes que retomassem as express�es r�gidas. Em Tear, plebeus n�o sorriam para o que um lorde dizia, a menos que estivessem absolutamente certos de que o lorde esperava um sorriso.</p><p>A maioria das Donzelas ficou de c�coras do lado de fora, as lan�as apoiadas nos joelhos � postura que aquelas mulheres poderiam manter durante horas sem mover um m�sculo sequer. Sulin seguiu Rand para dentro, junto com Liah, Enaila e Jalani. Mesmo que aqueles Defensores fossem todos amigos de inf�ncia de Rand, as Donzelas teriam sido igualmente cautelosas, mas de amigos os homens l� dentro n�o tinham nada.</p><p>Carpetes coloridos e com franjas cobriam o ch�o do pavilh�o, todos com padronagens de labirintos tairenos e arabescos elaborados. No centro jazia uma mesa colossal, repleta de entalhes e douraduras, excessivamente marchetada com marfim e turquesa. Com certeza fora necess�rio um carro��o particular para transportar algo t�o grande. A mesa, repleta de mapas, separava uma d�zia de tairenos de rosto suados de metade do mesmo n�mero de cairhienos, que sofriam ainda mais com o calor. Cada um segurava um c�lice dourado que servi�ais discretos em roupas de tecido preto e dourado mantinham sempre cheio de ponche. Todos os nobres usavam seda, mas os cairhienos de barba feita, mais baixos, esguios e p�lidos do que os homens do outro lado da mesa, trajavam casacos escuros e s�brios, exceto pelas cores de suas Casas em faixas horizontais brilhantes no peitoral, cujo n�mero indicava a gradua��o da Casa. Os tairenos, por sua vez, com a barba oleada e cuidadosamente aparada, usavam casacos acolchoados em uma profus�o de vermelhos, amarelos, verdes e azuis, de cetim e brocados, com bordados em fios de prata e de ouro. Os cairhienos eram formais, sombrios at�, a maioria de rosto encovado e com a frente da cabe�a raspada e coberta de p� de arroz � o que j� fora moda entre os soldados em Cairhien, mas n�o entre os lordes. Os tairenos sorriam e fungavam len�os e caixinhas perfumadas que inundavam o pavilh�o com seus aromas pesados. Al�m do ponche, a �nica coisa que pareciam ter em comum eram os olhares impass�veis que dirigiam �s Donzelas, al�m do costume de fingir que os Aiel eram invis�veis.</p><p>O Gr�o-lorde Weiramon, de barba oleada e mechas grisalhas nos cabelos, curvou-se em uma rever�ncia profunda. Era um dos quatro Gr�o-lordes no recinto, cal�ando botas com elaborados enfeites em prata. Os outros eram o gorduch�o untuoso chamado Sunamon; Tolmeran, cuja barba cinza como ferro lembrava a ponta de uma lan�a, o corpo magro servindo de cabo; e Torean, com o nariz de batata, que tinha mais cara de fazendeiro do que a maioria dos fazendeiros. No entanto, Rand deixara a lideran�a nas m�os de Weiramon. Por ora. Os outros oito eram lordes inferiores, alguns de barba feita, mas com n�o menos mechas grisalhas nos cabelos. Estavam ali por conta de seu juramento de fidelidade a um ou outro Gr�o-lorde, mas todos tinham alguma experi�ncia em batalhas.</p><p>Weiramon n�o era baixo para um taireno, embora Rand fosse uma cabe�a mais alto. O sujeito lembrava um galo de briga: todo empertigado e de peito estufado.</p><p>� Todos sa�dam o Lorde Drag�o � entoou ele, com uma mesura �, em breve Conquistador de Illian. Todos sa�dam o Senhor da Manh�. � Os outros pronunciavam a frase apenas um �timo depois, os tairenos com os bra�os estendidos, os cairhienos com a m�o no peito.</p><p>Rand fez uma careta. Senhor da Manh� fora um dos t�tulos de Lews Therin, pelo menos segundo os fragmentos de hist�rias. Grande parte das informa��es fora perdida com a Ruptura do Mundo, outra virara fuma�a durante as Guerras dos Trollocs e mais ainda se perdera depois, na Guerra dos Cem Anos. No entanto, surpreendentemente, alguns fragmentos �s vezes sobreviviam. Ficou surpreso por Lews Therin n�o ter come�ado a gritaria insana ao ouvir Weiramon pronunciar o t�tulo. Pensando bem, Rand n�o ouvia a voz desde que gritara com ela. At� onde se lembrava, aquela fora a primeira vez que ele de fato se dirigira � voz que coabitava sua mente. As possibilidades que isso encerrava provocavam calafrios.</p><p>� Milorde Drag�o? � Sunamon secou o suor das m�os gordas. Parecia tentar n�o encarar a <emphasis>shoufa</emphasis> enrolada na cabe�a de Rand. � O senhor est�? � Ele engoliu as palavras e abriu um sorriso obsequioso. Perguntar a um louco em potencial, para dizer o m�nimo, se ele estava bem talvez n�o fosse o mais apropriado. � O Lorde Drag�o gostaria de um pouco de ponche? Uma mistura de safra de Lodanaille com mel�o.</p><p>Um Senhor da Terra magricelo vassalo de Sunamon, um sujeito chamado Estevan, de rosto duro e olhos ainda mais duros, fez um gesto r�spido. Um servi�al correu para apanhar um c�lice dourado que jazia sobre uma mesinha lateral encostada � parede de lona, enquanto outro se apressava em ench�-lo.</p><p>� N�o � respondeu Rand. Ent�o repetiu, mais enf�tico: � N�o. � Dispensou o servi�al sem nem olh�-lo. Teria Lews Therin <emphasis>lhe dado ouvidos</emphasis>? De alguma forma, aquilo s� piorava a situa��o. N�o queria pensar nessa possibilidade agora, n�o queria pensar nela em momento algum. � Assim que Hearne e Simaan chegarem, vai estar quase tudo pronto. � Os dois Gr�o-lordes deveriam chegar em breve. Estavam conduzindo os maiores grupos de soldados tairenos que haviam sa�do de Cairhien, mais de um m�s antes. Havia grupos menores a caminho do sul, claro, e mais cairhienos. Al�m de mais Aiel. O fluxo de Aiel desencadearia as coisas. � Quero ver�</p><p>De s�bito, Rand percebeu que o pavilh�o ficara muito quieto, muito silencioso, exceto pelo movimento repentino de Torean, bebendo o restante do ponche na ta�a de um gole s�. O homem esfregou a m�o na boca e estendeu o c�lice pedindo mais, mas os servi�ais pareciam tentar se fundir �s paredes de listras vermelhas. Sulin e as outras tr�s Donzelas se levantaram depressa, prontas para velar os rostos.</p><p>� O que foi? � perguntou Rand, baixinho.</p><p>Weiramon hesitou.</p><p>� Simaan e Hearne foram� para Haddon Mirk. Eles n�o vir�o. � Torean agarrou um c�ntaro trabalhado a ouro da m�o de um dos servi�ais e encheu o pr�prio c�lice, espirrando ponche nos carpetes.</p><p>� E por que eles foram para l� em vez de virem para c�? � Rand n�o ergueu a voz. Tinha certeza da resposta. Aqueles dois, al�m de cinco outros Gr�o-lordes, haviam sido enviados a Cairhien basicamente para encontrar as mentes determinadas a conspirar contra o Drag�o Renascido.</p><p>Sorrisos maliciosos surgiram entre os cairhienos, a maioria meio escondida pelos c�lices erguidos mais do que depressa. Semaradrid, de posi��o mais alta, as faixas coloridas no casaco indo at� a cintura, sorria sem nem disfar�ar. Era um homem de rosto comprido, com mechas brancas nas t�mporas e olhos escuros que poderiam quebrar at� uma pedra. Ele se movia com dificuldade por causa das feridas causadas pela guerra civil de seu pa�s, mas a ferida que o fazia mancar viera em uma batalha contra Tear. Seu principal motivo para cooperar com os tairenos era o fato de eles n�o serem Aiel. Quanto aos tairenos, a principal raz�o pela qual cooperavam era o fato de os cairhienos tamb�m n�o serem.</p><p>Quem respondeu foi um dos vassalos de Semaradrid, um jovem lorde chamado Meneril que ostentava um casaco com metade das listras de seu senhor e um rosto com uma cicatriz da guerra civil que repuxava o canto esquerdo de sua boca em um eterno sorriso sard�nico.</p><p>� Trai��o, milorde Drag�o. Trai��o e rebeli�o.</p><p>Weiramon poderia ter hesitado em dizer essas palavras na cara de Rand, mas n�o deixaria um estrangeiro falar em seu lugar.</p><p>� Sim, rebeli�o � apressou-se em confirmar, cravando os olhos em Meneril, mas a afeta��o n�o demorou a retornar. � E n�o apenas eles, milorde Drag�o. Os Gr�o-lordes Darlin e Tedosian e a Gr�-lady Estanda tamb�m est�o envolvidos. Que a minha alma queime, mas eles todos confirmaram a oposi��o! Parece que vinte ou trinta nobres menores se juntaram a eles, e alguns n�o passam de fazendeiros arrogantes. Tolos queimados pela Luz!</p><p>Rand quase admirava Darlin. O homem se opusera abertamente a ele desde o in�cio, fugindo da Pedra depois da queda e tentando estruturar uma resist�ncia entre os nobres do campo. Tinha sido diferente com Tedosian e Estanda. Assim como Hearne e Simaan, os dois tinham se curvado em mesuras e sorrisos, chamado Rand de Lorde Drag�o e tramado pelas suas costas. A falta de uma atitude punitiva de Rand agora cobrava seu pre�o. N�o era de admirar que Torean derrubasse ponche pela barba grisalha: o sujeito estivera profundamente envolvido com Tedosian e tamb�m com Hearne e Simaan.</p><p>� Eles confirmaram mais do que oposi��o � completou Tolmeran, em um tom frio. � Afirmaram que o senhor � um falso Drag�o e que a queda da Pedra, bem como a empunhadura da Espada Que N�o � Espada, foram truques das Aes Sedai. � Sua voz tra�a uma ponta de d�vida. Ele n�o estivera na Pedra de Tear na noite em que ela sucumbira.</p><p>� No que voc� acredita, Tolmeran? � Era uma acusa��o tentadora para os habitantes de uma terra onde a canaliza��o fora ilegal antes de Rand mudar a lei; onde as Aes Sedai eram, na melhor das hip�teses, toleradas; onde a Pedra de Tear permanecera invenc�vel por quase tr�s mil anos antes que o Drag�o Renascido a conquistasse. E uma acusa��o familiar. Rand se perguntou se encontraria Mantos-brancos junto com os rebeldes, quando fossem derrotados. Achava que Pedron Niall talvez fosse inteligente demais para permitir que eles fossem pegos.</p><p>� Acho que o senhor empunhou <emphasis>Callandor</emphasis> � respondeu o homem esguio, depois de hesitar por um instante. � Acho que o senhor � o Drag�o Renascido. � Nas duas vezes, houve uma leve �nfase no �acho�. Tolmeran era audacioso.</p><p>Estevan assentiu. Hesitante, mas assentiu. Outro homem de coragem.</p><p>Mas nem mesmo eles fizeram a pergunta �bvia: se Rand queria que fossem atr�s dos rebeldes. Ele n�o se surpreendeu. Por um lado, Haddon Mirk n�o era um lugar f�cil para encontrar algu�m, era um imenso emaranhado de florestas sem nenhuma aldeia, estrada ou trilha. No terreno montanhoso encrespado que cortava a margem mais ao norte, um homem levaria, com sorte, um longo dia para cobrir um punhado de milhas, e ex�rcitos inteiros poderiam esgotar a ra��o percorrendo aquelas terras antes de se confrontarem. Al�m disso, havia talvez o aspecto mais importante: quem fizesse tal pergunta poderia ser suspeito de se voluntariar para liderar a expedi��o, e um volunt�rio poderia ser suspeito de querer se juntar a Darlin, n�o acorrent�-lo. Os tairenos podiam n�o jogar <emphasis>Daes Dae�mar</emphasis>, o Jogo das Casas, com a mesma profici�ncia que os cairhienos � que viam as mais secretas motiva��es em uma simples olhadela e ouviam em uma s� frase mais do que todas as entrelinhas que a pessoa poderia querer transmitir �, mas maquinavam e vigiavam uns aos outros, atentos a conspira��es, acreditando que todos faziam o mesmo.</p><p>Contudo, era melhor que, por ora, Rand deixasse os rebeldes em paz. Toda a sua aten��o tinha que estar em Illian � tinha que <emphasis>parecer</emphasis> estar em Illian. Mas tamb�m n�o podia ser visto como benevolente. Os homens presentes n�o se oporiam a ele, por�m, com ou sem �ltima Batalha, apenas duas coisas evitavam que tairenos e cairhienos se engalfinhassem. Ainda que mal e porcamente, eles preferiam estar acompanhados uns dos outros do que dos Aiel, al�m de temerem a ira do Drag�o Renascido. Se perdessem esse medo, come�ariam a tentar matar uns aos outros e os Aiel mais r�pido que Rand conseguia dizer �Jak da N�voa�.</p><p>� Algu�m se pronuncia em defesa deles? � indagou Rand. � Algu�m sabe de algum atenuante? � Se algu�m sabia, segurou a l�ngua. Contando os servi�ais, quase duas dezenas de pares de olhos o observavam, � espera. Talvez os servi�ais fossem os mais atentos. Sulin e as Donzelas olhavam <emphasis>tudo</emphasis>, menos ele. � Eles perder�o seus t�tulos e suas terras e propriedades ser�o confiscadas. Quero que sejam expedidos mandados de pris�o para todo homem cuja identidade seja conhecida. E toda mulher tamb�m. � Isso poderia se revelar um problema: em Tear, a pena para rebeli�o era a morte. Rand havia mudado algumas leis, mas n�o essa, e agora era tarde demais. � Leve a p�blico que quem matar um deles ser� absolvido, e quem os ajudar ser� acusado de trai��o. Qualquer um que se render ter� a vida poupada. � O que talvez pudesse solucionar a quest�o cr�tica de Estanda, caso desse para control�-la, pois Rand n�o ordenaria a execu��o de uma mulher. � Mas os que resistirem ir�o para a forca.</p><p>Os nobres mudaram de posi��o, incomodados, e se entreolharam � tanto os tairenos quanto os cairhienos. Seus rostos estavam l�vidos. Decerto esperavam senten�as de morte � era a puni��o m�nima para rebeli�es, ainda mais com a guerra iminente �, mas a perda dos t�tulos os deixou claramente chocados. Apesar de todas as leis que Rand mudara em ambas as terras, apesar dos lordes repreendidos diante dos magistrados, enforcados por assassinato ou multados por agress�o, eles ainda acreditavam haver alguma diferen�a marcada a ferro, alguma ordem natural que os tornava le�es por direito e os plebeus, ovelhas. Um Gr�o-lorde que fosse para a forca morria como Gr�o-lorde, mas Darlin e os outros morreriam como camponeses aos olhos daqueles homens � um destino muito pior do que a pr�pria morte. Os servi�ais continuaram parados, as jarras suspensas, aguardando para encherem qualquer c�lice vazio demais. Tinham as fei��es inexpressivas como sempre, mas alguns olhos exibiam uma satisfa��o que n�o estivera ali antes.</p><p>� Agora que resolvemos isso � come�ou Rand, puxando a <emphasis>shoufa</emphasis> enquanto caminhava at� a mesa �, vejamos os mapas. Sammael � mais importante do que um bando de idiotas apodrecendo em Haddon Mirk. � Esperava mesmo que apodrecessem. Que a Luz os queimasse!</p><p>Weiramon comprimiu os l�bios e Tolmeran se apressou em suavizar o cenho franzido. O rosto de Sunamon estava t�o impass�vel que podia muito bem ser uma m�scara. Os outros tairenos pareciam igualmente indecisos, os cairhienos tamb�m, embora Semaradrid disfar�asse bem. Alguns tinham visto Myrddraal e Trollocs durante aquele ataque na Pedra, e outros tinham presenciado o duelo de Rand com Sammael em Cairhien, mas, ainda assim, achavam que sua afirma��o de que os Abandonados estavam � solta fosse um sintoma da loucura. Rand ouvira boatos sussurrados sobre como causara sozinho a destrui��o em Cairhien, atacando amigos e inimigos feito um man�aco. Pela express�o p�trea de Liah, um deles acabaria espetado por uma lan�a de Donzela, se n�o controlassem os olhares.</p><p>De qualquer forma, todos se reuniram em torno da mesa. Rand jogou a <emphasis>shoufa</emphasis> no ch�o e come�ou a revirar os mapas espalhados uns por cima dos outros. Bashere estava certo: os homens seguiriam qualquer louco que vencesse. Contanto que vencesse. Assim que encontrou o mapa que queria, um desenho detalhado do extremo leste de Illian, os chefes Aiel chegaram.</p><p>Bruan, dos Aiel Nakai, foi o primeiro a entrar, seguido de perto por Jheran, dos Shaarad; Dhearic, dos Reyn; Han, dos Tomanelle e Erim, dos Chareen, cada um retribuindo os acenos de cabe�a de Sulin e das tr�s Donzelas. Bruan, um homem corpulento de olhos acinzentados e tristes, era quem realmente liderava os cinco cl�s que Rand mandara para o sul. Nenhum dos outros se opusera: o aspecto sereno de Bruan mascarava suas habilidades de luta. Usando o <emphasis>cadin�sor</emphasis>, a <emphasis>shoufa</emphasis> pendurada no pesco�o, os Aiel vinham desarmados, exceto pelas pesadas facas de cintura. No entanto, um Aiel nunca estaria desarmado enquanto tivesse bra�os e pernas.</p><p>Os cairhienos simplesmente fingiram que eles n�o estavam ali, mas os tairenos fizeram quest�o de olhar com desprezo e cheirar abertamente as caixinhas e os len�os perfumados. A �nica coisa que Tear perdera para os Aiel fora a Pedra e isso com a ajuda do Drag�o Renascido, acreditavam � ou das Aes Sedai �, mas Cairhien fora destru�da por eles duas vezes, duas vezes derrotada e humilhada.</p><p>Exceto por Han, os Aiel ignoravam todos. Han, de cabelos brancos e um rosto que parecia couro enrugado, encarava os nobres com um olhar assassino. Era um homem espinhoso, para dizer o m�nimo, e talvez n�o ajudasse o fato de que alguns dos tairenos tinham a mesma altura que ele. Han era baixo para um Aiel � o que significava ter uma altura bem acima da m�dia para um aguacento �, e t�o sens�vel quanto Enaila em rela��o a isso. E, claro, os Aiel desprezavam os tais �Assassinos da �rvore� � uma de suas alcunhas para os cairhienos � mais do que qualquer outro aguacento. E tamb�m os chamavam de �Quebradores de Juramentos�.</p><p>� Os illianenses � come�ou Rand, com firmeza, alisando o mapa. Usara o Cetro do Drag�o para manter aberto um dos lados e um tinteiro adornado em ouro e uma vasilha de areia combinando para segurar o outro. N�o precisava que aqueles homens come�assem a matar uns aos outros. N�o achava que fariam isso, pelo menos n�o enquanto ele estivesse l�. Nas hist�rias, os aliados eventualmente acabavam por confiar e gostar uns dos outros. Rand duvidava de que o mesmo algum dia fosse acontecer com aqueles homens.</p><p>A Plan�cie de Maredo, com sua sucess�o de colinas baixas, estendia-se a certa dist�ncia para o interior de Illian, a partir de onde dava lugar a montes cobertos de florestas at� bem perto do Manetherendrelle e de um de seus bra�os, o Rio Shal. Cinco marca��es em cruz, a cerca de dez milhas de dist�ncia uma da outra, assinalavam a extremidade leste dessas colinas. As Colinas de Doirlon.</p><p>Rand p�s o dedo na cruz bem do meio.</p><p>� Voc�s t�m certeza de que Sammael n�o acrescentou novos acampamentos? � Uma leve careta no rosto de Weiramon o fez completar, irritado: � Lorde Brend, se preferir. Ou ent�o o Conselho dos Nove, Mattin Stepaneos den Balgar, o rei em pessoa, o que quer que seja. Os acampamentos continuam assim?</p><p>� Nossos batedores informam que sim � respondeu Jheran, calmo. Esguio feito uma lan�a, de cabelos castanho-claros com muitas mechas grisalhas, ele estava sempre calmo agora que a rixa de sangue de quatrocentos anos dos Shaarad com os Goshien havia terminado, com a chegada de Rand. � <emphasis>Sovin Nai</emphasis> e <emphasis>Duadhe Mahdi�in</emphasis> est�o vigiando bem. � Ele assentiu de leve, satisfeito, e Dhearic tamb�m. Jheran fora <emphasis>Sovin Nai</emphasis>, um M�o de Faca, antes de se tornar chefe; e Dhearic fora <emphasis>Duadhe Mahdi�in</emphasis>, um Buscador das �guas. � Ficaremos sabendo de qualquer mudan�a em cinco dias, com os corredores.</p><p>� Meus batedores acreditam que sim � declarou Weiramon, como se Jheran n�o tivesse falado. � Envio uma nova tropa a cada semana. Leva um m�s inteiro para eles irem e voltarem, mas garanto a voc� que estou t�o atualizado quanto a dist�ncia permite.</p><p>Os rostos dos Aiel pareciam esculpidos em pedra.</p><p>Rand ignorou a intera��o. J� tentara estreitar � for�a a dist�ncia entre tairenos, cairhienos e Aiel, mas eles sempre se separavam assim que ele virava as costas. Era um desperd�cio de energia.</p><p>Quanto aos acampamentos� sabia que ainda havia apenas cinco. Ele os visitara, por assim dizer. Havia um� lugar� que sabia como adentrar, um reflexo do mundo real estranho e despovoado, e ele caminhara pelas muralhas de madeira dos imensos castros ali. Sabia as respostas a quase todas as perguntas que pretendia fazer, mas estava fazendo malabarismos com planos dentro de planos, feito um menestrel fazendo malabarismo com fogo.</p><p>� E Sammael ainda est� mandando mais homens para cima? � Desta vez, enfatizou o nome.</p><p>As express�es dos Aiel n�o se alteraram. Se os Abandonados estavam � solta, ent�o estavam. O mundo deveria ser encarado como era, n�o como eles gostariam que fosse. Os outros, no entanto, dispararam olhares ligeiros e preocupados para ele. Cedo ou tarde, se acostumariam. Cedo ou tarde, acreditariam.</p><p>� Cada homem de Illian capaz de segurar uma lan�a sem trope�ar, ao que parece � respondeu Tolmeran, l�gubre. Estava t�o ansioso para lutar contra os illianenses quanto qualquer taireno. As duas na��es se odiavam desde que tinham sido arrancadas � for�a dos escombros do imp�rio de Artur Asa-de-gavi�o, e sua hist�ria inclu�a guerras disputadas pelos motivos mais insignificantes. Contudo, Tolmeran parecia menos inclinado que os outros Gr�o-lordes a crer que uma batalha pudesse ser vencida com apenas uma boa investida. � Cada batedor que consegue voltar informa que os acampamentos est�o maiores, com defesas ainda mais descomunais.</p><p>� � melhor avan�armos agora, Lorde Drag�o � sugeriu Weiramon, com vigor. � Que a Luz queime a minha alma, posso pegar os illianenses de surpresa. Eles est�o cavando a pr�pria cova. Ora, quase n�o t�m nenhum cavalo! Vou esmag�-los e o caminho para a cidade ficar� livre. � Em Illian, bem como em Tear e Cairhien, �a cidade� era a cidade que originara o nome da na��o. � Que meus olhos queimem, vou cravar seu estandarte em Illian dentro de um m�s, milorde Drag�o. Dois, no m�ximo. � Olhando para os cairhienos, ele acrescentou, como se as palavras lhe fossem arrancadas da boca: � Semaradrid e eu. � Semaradrid dispensou-lhe uma discreta mesura. Muito sutil.</p><p>� N�o � respondeu Rand, com aspereza. O plano de Weiramon estava fadado ao fracasso. Boas duzentas e cinquenta milhas separavam o acampamento dos grandes castros de Sammael, do outro lado de uma plan�cie gramada onde um aclive de cinquenta p�s poderia ser considerado uma colina alta, e um amontoado de moitas, uma floresta. Sammael tamb�m tinha batedores: qualquer rato ou corvo poderia estar fazendo as vezes de vigia. Duzentas e cinquenta milhas. Com sorte, doze ou treze dias para os tairenos e cairhienos. Os Aiel talvez pudessem fazer em cinco, com esfor�o � um ou dois batedores sozinhos avan�avam mais depressa que um ex�rcito, mesmo entre os Aiel, mas eles n�o eram parte dos planos de Weiramon. Com tanto tempo at� os tairenos e cairhienos chegarem �s Colinas de Doirlon, Sammael estaria pronto para esmag�-los, n�o o contr�rio. Um plano tolo. At� mais do que o que Rand apresentara. � Eu j� lhes dei as ordens. Esperem aqui at� Mat chegar para assumir o comando, e mesmo assim ningu�m vai dar um passo at� eu considerar que est�o em n�mero suficiente. Temos mais homens a caminho, tairenos, cairhienos, Aiel. Eu quero destruir Sammael, Weiramon. Destru�-lo para sempre, colocar Illian sob o estandarte do Drag�o. � Tudo isso era verdade. � Eu s� queria poder estar com voc�s, mas Andor ainda necessita da minha aten��o.</p><p>O rosto de Weiramon virou uma pedra. A careta de Semaradrid, de t�o azeda, teria transformado o vinho do ponche em vinagre. Tolmeran estampava uma express�o impass�vel, demonstrando sua censura com a sutileza de um soco no nariz. No caso de Semaradrid, a preocupa��o era a demora. Mais de uma vez, ele apontara que, se a cada dia mais homens chegavam ao acampamento, o mesmo acontecia nos fortes em Illian. O plano de Weiramon com certeza era resultado de sua influ�ncia, embora o lorde cairhieno pudesse ter feito melhor. As d�vidas de Tolmeran estavam em Mat. A despeito do que ouvira dos cairhienos em rela��o �s habilidades de Mat para a batalha, Tolmeran acreditava ser mera bajula��o de idiotas em rela��o a um campon�s que, por acaso, era amigo do Drag�o Renascido. Eram obje��es sensatas, e a de Semaradrid inclusive tinha fundamento � se o plano que tinha chegado a eles fosse mais do que mero disfarce. Era improv�vel que Sammael dependesse inteiramente de ratos e corvos como espi�es. Rand imaginava que tamb�m houvesse espi�es humanos mandados pelos outros Abandonados, e provavelmente tamb�m pelas Aes Sedai.</p><p>� Ser� como o senhor quiser, milorde Drag�o � disse Weiramon, derrotado.</p><p>O homem era bastante corajoso em rela��o � batalha, mas um completo idiota, cego, incapaz de pensar al�m da gl�ria do ataque, de seu �dio pelos illianenses, seu desprezo pelos cairhienos e os �selvagens� Aiel. Rand tinha certeza de que Weiramon era exatamente o homem de quem precisava. Tolmeran e Semaradrid n�o se mexeriam t�o cedo, contanto que Weiramon permanecesse no comando.</p><p>Os nobres conversaram durante mais algum tempo e Rand escutou, fazendo perguntas de vez em quando. N�o havia mais oposi��o, nem sugest�es de que o ataque acontecesse imediatamente, nem mesmo discuss�es a respeito de como seria. As perguntas de Rand a Weiramon e aos demais eram relativas a carro��es � carro��es e o que havia neles. Plan�cie de Maredo possu�a poucas aldeias, bem distantes umas das outras, sem nenhuma cidade al�m de Far Madding, ao norte, e t�o poucas fazendas que era quase imposs�vel alimentar o povo que j� vivia por l�. Um ex�rcito gigantesco iria requerer um fluxo constante de carro��es vindos de Tear para trazer de tudo, desde farinha para p�es at� pregos para ferraduras. Exceto por Tolmeran, os Gr�o-lordes eram da opini�o de que o ex�rcito poderia carregar o que fosse preciso para cruzar a plan�cie, depois simplesmente viver �s custas de Illian. Parecia haver certo apre�o � ideia de assolar as terras de seu antigo inimigo feito um enxame de gafanhotos. Os cairhienos tinham uma opini�o diferente, sobretudo Semaradrid e Meneril. N�o eram s� os plebeus que haviam passado fome durante a guerra civil de Cairhien e o s�tio dos Shaido � sua capital: aqueles rostos encovados eram prova disso. Illian era uma terra abundante, e at� mesmo as Colinas de Doirlon possu�am fazendas e vinhas, mas Semaradrid e Meneril n�o queriam confiar os est�magos de seus soldados a forragens inconstantes, se houvesse op��o. Quanto a Rand, ele n�o queria Illian mais assolada do que o estritamente necess�rio.</p><p>Ele n�o pressionou ningu�m. Sunamon assegurou-lhe de que os carro��es estavam sendo montados, e o homem j� aprendera bem a li��o sobre dizer uma coisa a Rand e fazer outra. Estavam reunindo suprimentos em toda Tear, apesar das caretas de impaci�ncia de Weiramon diante da ideia e dos resmungos de Torean em rela��o aos custos. O importante, no entanto, era que o plano estava indo adiante � o que seria notado.</p><p>Sua partida envolveu mais baboseiras afetadas e mesuras elaboradas e ele enrolou a <emphasis>shoufa</emphasis> de volta na cabe�a e apanhou outra vez o Cetro do Drag�o, recebendo convites pouco animados para que ele ficasse para um festim e ofertas igualmente insinceras para acompanh�-lo na partida, caso ele n�o pudesse ficar para o banquete. Tairenos ou cairhienos, os nobres evitavam a companhia do Drag�o Renascido o m�ximo poss�vel sem perder sua boa gra�a enquanto fingiam estar fazendo o oposto. Acima de tudo, desejavam estar bem longe quando ele canalizasse. Os nobres o acompanharam at� a entrada, naturalmente, e alguns passos para o lado de fora, mas Sunamon soltou um suspiro aud�vel quando ele os deixou, e Rand ouviu Torean soltar uma risadinha de al�vio.</p><p>Os chefes Aiel acompanharam Rand em sil�ncio e as Donzelas do lado de fora juntaram-se a Sulin e �s outras tr�s, circundando os seis homens que partiam em dire��o � tenda de listras verdes. Dessa vez, houve apenas umas poucas sauda��es e os chefes n�o disseram uma palavra. Haviam falado igualmente pouco no pavilh�o. Quando Rand comentou a respeito, Dhearic disse:</p><p>� Esses aguacentos n�o querem nos ouvir. � Era um homem alto e forte, menos de um dedo mais alto que Rand, narigudo e com mechas brancas bem destacadas nos cabelos louros. Seus olhos azuis estavam repletos de desprezo. � Eles s� ouvem o vento.</p><p>� Eles falaram sobre os que se rebelam contra voc�? � perguntou Erim. Mais alto que Dhearic, ele tinha um rosto belicoso e quase tanto branco quanto vermelho nos cabelos.</p><p>� Falaram � respondeu Rand e Han franziu o cenho para ele.</p><p>� Se estiver mandando esses tairenos atr�s de sua pr�pria gente, est� cometendo um erro. Mesmo que pud�ssemos confiar neles, n�o acho que dariam conta. Mande as lan�as. Um cl� seria mais do que suficiente.</p><p>Rand balan�ou a cabe�a.</p><p>� Darlin e seus rebeldes podem esperar. Sammael � mais importante.</p><p>� Ent�o nos deixe ir para Illian agora � retrucou Jheran. � Esque�a esses aguacentos, Rand al�Thor. J� tem quase duzentas mil lan�as reunidas aqui. Podemos destruir os illianenses antes que Weiramon Saniago e Semaradrid Maravin cheguem � metade do caminho at� l�.</p><p>Por um instante, Rand fechou os olhos com for�a. Ser� que todo mundo discutiria com ele? Aqueles homens n�o se submeteriam a uma cara feia do Drag�o Renascido � o Drag�o Renascido era apenas uma profecia dos aguacentos. Os Aiel seguiam Aquele Que Vem Com a Aurora, o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, e, como ele estava mais do que cansado de ouvir, nem o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> era rei.</p><p>� Quero a sua palavra de que v�o ficar aqui at� Mat mandar voc�s se mexerem. Uma promessa, de cada um de voc�s.</p><p>� N�s vamos ficar, Rand al�Thor. � A voz enganadoramente mel�flua de Bruan guardava uma pontada de rigidez. Os outros concordaram em tons um pouco mais duros, mas concordaram.</p><p>� Mas � perda de tempo � acrescentou Han, contorcendo a boca. � Que eu jamais veja a sombra se n�o for.</p><p>Jheran e Erim assentiram. Rand n�o esperava que eles cedessem t�o depressa.</p><p>� De vez em quando, � preciso perder tempo para ganh�-lo � retrucou, e Han bufou.</p><p>De volta � tenda de listras verdes, os Andarilhos do Trov�o haviam erguido as laterais com estacas, deixando a brisa soprar pelo interior protegido pela sombra. Por mais quente e seca que estivesse, os Aiel pareciam ach�-la refrescante. Rand n�o parecia suar uma gota a menos do que quando estava exposto ao sol. Puxou a <emphasis>shoufa</emphasis> enquanto se ajeitava nos tapetes dispostos em camadas, com Bruan e os outros chefes diante de si. As Donzelas foram circundar a tenda com os Andarilhos do Trov�o � de vez em quando um deles soltava alguma gracinha e os outros riam. Dessa vez, Leiran parecia estar ganhando vantagem. Pelo menos, as Donzelas bateram as lan�as nos broqu�is duas vezes para ele. Rand n�o entendia quase nada.</p><p>Usando o polegar para apertar o tabaco que enchia o cachimbo de haste curta, ele passou a bolsa de pele de cabra entre os chefes, para que enchessem seus pr�prios cachimbos � encontrara um pequeno barril de boas folhas de Dois Rios em Caemlyn �, ent�o canalizou para acender seu fumo enquanto os outros mandavam um Andarilho do Trov�o pegar um galho em brasa de uma das fogueiras. Depois de todos os cachimbos serem acesos, os homens se acomodaram para conversar, baforando satisfeitos.</p><p>A conversa durou pelo menos o mesmo tempo que o debate com os lordes. N�o que houvesse tanto a conversar, mas porque Rand conversara sozinho com os aguacentos. Os Aiel eram muito sens�veis em rela��o � honra, suas vidas eram governadas pelo <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, honra e obriga��o, que tinha regras t�o complexas e estranhas quanto o senso de humor daquele povo do Deserto. Eles conversaram sobre os Aiel que ainda vinham de Cairhien, sobre quando Mat chegaria, sobre o que deveria ser feito em rela��o aos Shaido � e se algo devesse ser feito. Conversaram sobre ca�a, sobre mulheres, sobre conhaque ser t�o bom quanto <emphasis>oosquai</emphasis>, sobre piadas. At� o paciente Bruan jogou as m�os ao alto com impaci�ncia, desistindo de tentar explicar as piadas Aiel. O que, pela Luz, havia de engra�ado em uma mulher esfaquear o marido por acidente, fossem quais fossem as circunst�ncias, ou em um homem que acabava se casando com a irm� da mulher que desejava? Han grunhia, bufava e se recusava a acreditar que Rand n�o compreendia � o Aiel quase ca�ra para tr�s de tanto rir com a hist�ria do esfaqueamento. A �nica coisa sobre a qual n�o conversaram foi a guerra iminente contra Illian.</p><p>Quando os homens sa�ram, Rand estreitou os olhos na dire��o do sol, a meio caminho do horizonte. Han repetia a hist�ria do esfaqueamento, e os chefes que estavam de sa�da riram mais uma vez. Rand bateu o cachimbo na base da m�o para esvazi�-lo e esmagou o resto de fumo com o p�. Ainda havia tempo de retornar a Caemlyn e encontrar Bashere, mas voltou para a tenda, sentou-se e ficou observando o cair do sol. Quando a bola de fogo tocou o horizonte, tornando-se vermelha como sangue, Enaila e Somara trouxeram-lhe um prato de cozido de carneiro com comida suficiente para dois homens, uma fatia redonda de p�o e uma jarra de ch� de menta que fora posta para esfriar em um balde de �gua.</p><p>� Voc� n�o come o suficiente � reclamou Somara, tentando alisar seus cabelos antes que ele afastasse a cabe�a.</p><p>Enaila o encarou.</p><p>� Se n�o evitasse tanto Aviendha, ela faria voc� comer.</p><p>� Ele atrai o interesse dela, depois foge � resmungou Somara. � Voc� precisa atra�-la de novo. Por que n�o se oferece para lavar os cabelos dela?</p><p>� Ele n�o pode ser <emphasis>t�o</emphasis> ousado � retrucou Enaila, com firmeza. � Oferecer-se para pentear os cabelos dela vai ser mais do que suficiente. Rand n�o quer que ela pense que ele � atrevido.</p><p>Somara fungou alto.</p><p>� Ela n�o vai pensar que ele � atrevido se continuar fugindo desse jeito. Voc� pode ser modesto demais, Rand al�Thor.</p><p>� Voc�s sabem que nenhuma das duas � minha m�e, n�o sabem?</p><p>As duas mulheres de <emphasis>cadin�sor</emphasis> se entreolharam, confusas.</p><p>� Ser� que isso � outra piada de aguacentos? � perguntou Enaila.</p><p>Somara deu de ombros.</p><p>� N�o sei. Ele n�o parece estar achando gra�a. � Ela deu um tapinha nas costas de Rand. � Tenho certeza de que foi uma boa piada, mas precisa ser explicada.</p><p>Rand aturou aquilo, sofrendo em sil�ncio, rangendo os dentes enquanto elas o observavam comer. As mulheres vigiavam literalmente cada colherada. As coisas n�o melhoraram quando elas sa�ram com seu prato e Sulin juntou-se ao grupo. Sulin tinha conselhos objetivos e bastante impr�prios sobre como ele poderia atrair outra vez a aten��o de Aviendha. Entre os Aiel, era o tipo de coisa que uma irm�-primeira podia fazer por um irm�o-primeiro.</p><p>� Voc� precisa ser recatado aos olhos dela � explicou a Donzela de cabelos brancos �, mas n�o t�o recatado a ponto de ela consider�-lo um chato. Pe�a a ela que raspe suas costas na tenda de vapor, mas pe�a timidamente, olhando para o ch�o. Quando se despir para se deitar, permita-se dan�ar como se estivesse satisfeito com a vida. Da�, finja perceber que ela est� por perto, pe�a desculpas e se enfie nos cobertores. Voc� consegue enrubescer?</p><p>Um grande sofrimento e em sil�ncio. As Donzelas sabiam demais e, ao mesmo tempo, n�o o bastante.</p><p>Quando retornaram a Caemlyn, bem depois do p�r-do-sol, Rand seguiu para seus aposentos com as botas nas m�os, tateando sem jeito pela antessala at� o dormit�rio, no escuro. Mesmo que n�o soubesse que Aviendha estava l�, j� deitada em seu catre no ch�o perto da parede, teria sentido a presen�a dela. Na quietude da noite, podia ouvir sua respira��o. Pela primeira vez, parecia que conseguira esperar tempo bastante para que ela ca�sse no sono. Tinha tentado parar com aquilo, mas Aviendha n�o lhe dava aten��o, e as Donzelas riam de sua �timidez� e seu �recato�. Concordavam que eram boas caracter�sticas em um homem, individualmente, desde que n�o fossem muito exageradas.</p><p>Ele se deitou na cama com uma sensa��o de al�vio por Aviendha estar de fato dormindo, al�m de certo descontentamento por n�o ter ousado acender uma l�mpada para se lavar. Ent�o a mulher se virou em seu catre. Claro que estivera acordada o tempo todo.</p><p>� Durma bem e acorde amanh�. � Foi s� o que ela disse.</p><p>Pensando na idiotice que era sentir uma satisfa��o s�bita ao ouvir uma mulher que queria evitar lhe desejar boa-noite, Rand enfiou um travesseiro de penas de ganso debaixo da cabe�a. Aviendha decerto considerava aquilo a piada mais incr�vel � insultar era quase uma arte entre os Aiel, e quanto mais perto o insulto chegasse de arrancar sangue, melhor. O sono come�ou a vir, e seu �ltimo pensamento consciente foi de que ele tamb�m tinha uma grande piada na manga � uma que por enquanto apenas ele, Mat e Bashere conheciam. Sammael n�o tinha o menor senso de humor, mas aquele ex�rcito forte e enorme aguardando em Tear era a maior piada que o mundo veria. Com sorte, Sammael estaria morto antes de perceber a gra�a.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 5</p><p><image l:href="#21"/></p><p>Uma dan�a diferente</p></title><p>A estalagem Cervo Dourado fazia, em muitos aspectos, jus ao pr�prio nome. Mesas lustrosas e bancos de p�s com entalhes de rosas ocupavam o grande sal�o. Uma servi�al de avental branco tinha a �nica fun��o de varrer o ch�o de pedras brancas. Ornatos azuis e dourados formavam uma larga faixa pintada nas paredes caiadas, logo abaixo do teto de vigas altas. As lareiras eram de pedra bem adornada, seus pisos haviam sido decorados com galhos de �rvores perenes e sobre cada lintel havia um cervo esculpido, sustentando uma ta�a de vinho nos ramos dos chifres. Em cada cornija jazia um grande rel�gio com detalhes em douradura. Um grupo de m�sicos tocava sobre uma pequena plataforma nos fundos, dois homens suados em camisas de manga entoando flautas lamentosas, um par dedilhando sabiolas de nove cordas e uma mulher de rosto vermelho metida em um vestido de listras azuis tangendo pequeninos martelos de madeira em um salt�rio de p�s finos. Mais de uma dezena de servi�ais corria para cima e para baixo a passos r�pidos, usando aventais e vestidos azul-claros. A maioria era bonita, embora algumas tivessem quase a idade da Senhora Daelvin, a estalajadeira roli�a e pequenina de coque grisalho, ralo e baixo. Bem o tipo de lugar de que Mat gostava: exalava conforto e riqueza. Escolhera aquele local por ficar praticamente cravado no centro da cidade, mas os outros motivos tamb�m n�o eram nada maus.</p><p>Nem tudo era perfeito na segunda melhor estalagem de Maerone, claro. Os aromas da cozinha eram mais uma vez de carneiro, nabo e a inevit�vel sopa picante de cevada e se misturavam ao cheiro de terra e dos cavalos l� fora. Bem, comida era um problema em uma cidade abarrotada de refugiados e soldados, que se multiplicavam nos acampamentos ao redor. Roucas vozes masculinas entoavam marchas, indo e vindo pela rua, somando-se aos sons de botas, cascos de cavalos e homens maldizendo o calor. O sal�o tamb�m estava bem quente, sem uma m�sera brisa. Se algu�m abrisse as janelas, a poeira cobriria tudo l� dentro, e em nada minimizaria o calor. Maerone parecia uma assadeira.</p><p>Pelo que Mat podia ver, a droga do mundo inteiro estava secando, e ele n�o queria pensar no porqu�. Gostaria de poder esquecer o calor, esquecer o motivo pelo qual estava em Maerone, esquecer tudo. Seu bom casaco verde, com bordados de ouro na gola e nos punhos, estava desabotoado, a boa camisa de linho, aberta, mas mesmo assim ele suava feito um porco. Talvez ajudasse se soltasse o len�o de seda preta em torno do pesco�o, mas era raro ele fazer isso em p�blico. Tomou o �ltimo gole do vinho, deitou a caneca de estanho reluzente sobre a mesa, junto ao cotovelo e apanhou o chap�u de aba larga para se abanar. N�o importava o que ele bebesse: assim que descia pela goela, j� come�ava a sair pelo suor.</p><p>Quando escolheu se hospedar na Cervo Dourado, os lordes e os oficiais do Bando da M�o Vermelha o seguiram, o que significava que todos os outros guardaram dist�ncia. Normalmente a Senhora Daelvin n�o se incomodava. Ela podia ter alugado cada cama por cinco vezes mais s� entre os lordes e fidalgotes do Bando � e o pessoal pagava bem, brigava pouco e costumava resolver suas desaven�as na rua antes de derramar sangue. Naquela tarde, no entanto, apenas nove ou dez homens ocupavam as mesas, e ela volta e meia piscava para os bancos vazios, dava um tapinha no coque e suspirava � n�o venderia muito vinho at� a noite. Boa parte de seus lucros provinha do vinho. Os m�sicos, por�m, tocavam com vigor. Um punhado de lordes satisfeitos com a m�sica � qualquer um com ouro merecia ser tratado por �milorde�, na opini�o deles � podiam ser mais generosos do que um sal�o apinhado de soldados comuns.</p><p>Para infelicidade dos bolsos dos m�sicos, Mat era o �nico que escutava, estremecendo a cada tr�s notas. N�o era culpa dos m�sicos: a melodia era boa, se o ouvinte n�o conhecesse o que estava escutando. Mat conhecia � e ensinara aos sujeitos, batendo palmas no ritmo e cantarolando com os l�bios fechados �, mas ningu�m al�m dele ouvia aquela melodia havia mais de dois mil anos. Pelo menos podia dizer que eles tinham acertado o ritmo.</p><p>Um fragmento de conversa chegou a seus ouvidos. Deitando outra vez o chap�u, abanou a caneca para pedir mais vinho e inclinou-se por cima da mesa na dire��o dos tr�s homens que bebiam � mesa ao lado.</p><p>� Como � que �?</p><p>� Estamos tentando descobrir como recuperar uma parte do dinheiro que perdemos para voc� � respondeu Talmanes, o rosto s�rio por tr�s da caneca de vinho. N�o estava aborrecido. Com apenas alguns anos a mais que os vinte de Mat e uma cabe�a mais baixo, era raro Talmanes sorrir. Para Mat, o homem parecia uma mola encolhida. � Ningu�m ganha de voc� nas cartas. � Ele era comandante de metade da cavalaria do Bando e um lorde ali em Cairhien, mas tinha a frente da cabe�a raspada e coberta de p� de arroz, embora o suor de alguma forma tivesse removido um pouco da cobertura. Um bom n�mero de lordes cairhienos mais jovens assumira o estilo dos soldados. O casaco de Talmanes tamb�m era liso, sem as faixas coloridas dos nobres, embora ele tivesse direito a algumas.</p><p>� Nem tanto � protestou Mat. Verdade, quando a sorte estava com ele, era perfeito, mas a sorte vinha em ciclos, sobretudo ao tratar-se de algo t�o ordenado quanto um deque de cartas. � Sangue e cinzas! Voc�s arrancaram cinquenta coroas da minha bolsa, semana passada.</p><p>Cinquenta coroas. Cerca de um ano antes, teria dado cambalhotas ao ganhar uma coroa e chorado ao pensar em perd�-la. Um ano antes, ele n�o tinha nenhuma moeda para perder.</p><p>� E isso me deixa para tr�s em quantas centenas? � retrucou Talmanes, em um tom seco. � Quero ter a chance de recuperar algumas.</p><p>Se o nobre de fato come�asse a ganhar de Mat com alguma frequ�ncia, tamb�m come�aria a se preocupar. Bem como a maioria dos homens do Bando, Talmanes considerava a sorte de Mat um talism�.</p><p>� Os dados s�o uma bela porcaria � retrucou Daerid, o comandante da infantaria do Bando. Ele bebeu com avidez e ignorou a careta escondida por detr�s da barba oleada de Nalesean. A maioria dos nobres que Mat conhecera considerava dados um jogo comum, apropriado apenas aos camponeses. � Nunca vi voc� levar preju�zo nos dados. Tem que ser um jogo sobre o qual voc� n�o tenha controle, nenhuma m�ozinha, se � que me entende.</p><p>S� um pouco mais alto do que Talmanes, seu companheiro cairhieno, Daerid era cerca de quinze anos mais velho. J� quebrara o nariz mais de uma vez e ostentava tr�s cicatrizes brancas cruzando o rosto. Era o �nico dos tr�s que n�o tinha sangue nobre, mas tamb�m usava a frente da cabe�a raspada e coberta de p�. Daerid fora soldado a vida toda.</p><p>� Pensamos em cavalos � comentou Nalesean, gesticulando com a caneca de estanho. Era um sujeito grandalh�o, mais alto que os dois cairhienos e liderava a outra metade da cavalaria do Bando. Dado o calor, Mat com frequ�ncia se perguntava por que o homem cultivava aquela vi�osa barba negra, mas ele a aparava todas as manh�s para mant�-la pontuda. E, enquanto Daerid e Talmanes deixavam os casacos cinza lisos desabotoados, Nalesean mantinha o seu fechado at� o pesco�o. Era um casaco de seda verde com mangas tairenas, listradas e bufantes, e punhos de cetim dourado. Seu rosto reluzia de suor, o que ele ignorava. � Que minha alma queime, mas a sua sorte � p�reo duro na batalha e nas cartas. E nos dados � acrescentou, com outra careta para Daerid. � No entanto, nas corridas de cavalos, s� depende dos cavalos.</p><p>Mat sorriu e apoiou os cotovelos na mesa.</p><p>� Arrume um bom cavalo, ent�o veremos.</p><p>Sua sorte talvez n�o afetasse um cavalo de corrida. Al�m de dados, cartas e similares, ele nunca sabia muito bem o que poderia influenciar, ou quando. Por�m, Mat crescera vendo o pai negociar carne de cavalo e tamb�m tinha um bom olho para os animais.</p><p>� Vai querer o vinho ou n�o? N�o d� para servir se eu n�o alcan�ar a sua caneca.</p><p>Mat olhou por cima do ombro. A servi�al atr�s dele, carregando uma jarra de estanho polida, era baixa e magra, uma belezinha de olhos escuros, pele clara e cachos negros aninhados nos ombros. Aquele sotaque bem marcado e musical de Cairhien tornava sua voz melodiosa. Mat pusera os olhos em Betse Silvin desde o primeiro dia em que entrara na Cervo Dourado, mas essa era sua primeira chance de falar com ela � estava sempre ocupado com cinco coisas urgentes e mais dez que deveriam ter sido feitas no dia anterior. Os outros homens j� tinham enterrado a cara no vinho, deixando-o a s�s com a mulher � ou t�o a s�s quanto era poss�vel sem irem embora. Tinham bons modos, at� mesmo os dois nobres.</p><p>Escancarando um sorriso, Mat passou as pernas por cima do banco, virando-se para a mulher, e estendeu a caneca para que ela a enchesse.</p><p>� Obrigado, Betse � disse e ela balan�ou a cabe�a em uma mesura.</p><p>Contudo, quando Mat sugeriu que ela servisse uma caneca para si mesma e bebesse com ele, a mo�a deitou a jarra na mesa, cruzou os bra�os e inclinou a cabe�a para o lado, encarando-o de cima a baixo.</p><p>� Duvido de que a Senhora Daelvin fosse gostar disso. Ah, n�o, acho que ela n�o iria gostar. O senhor � lorde? Esses sujeitos ficam lambendo o ch�o que o senhor pisa, mas nenhum o chama de �milorde�. E quase n�o o cumprimentam com rever�ncias, s� os plebeus.</p><p>� N�o � respondeu Mat, mais r�spido do que gostaria, erguendo as sobrancelhas �, eu <emphasis>n�o</emphasis> sou um lorde. � Rand podia deixar o povo ficar para l� e para c� chamando-o de Lorde Drag�o e coisa e tal, mas isso n�o era para Matrim Cauthon. N�o, nada disso. Ele respirou fundo e voltou a abrir um sorriso. Algumas mulheres tentavam desestabilizar os homens, mas esse tipo de dan�a ele conhecia muito bem. � Me chame de Mat, Betse. Tenho certeza de que a Senhora Daelvin n�o vai se incomodar se voc� sentar um pouquinho aqui comigo.</p><p>� Ah, vai, sim. Mas acho que posso conversar um minutinho. O senhor deve ser quase lorde. Por que est� usando esse tro�o neste calor? � Inclinando-se para a frente, Betse puxou o len�o dele para baixo. Mat n�o estava muito atento e deixou que escorregasse um pouco. � O que � isso? � Betse passou o dedo pela sali�ncia grossa e clara que circundava o pesco�o dele. � Algu�m tentou enforc�-lo? Por qu�? O senhor � jovem demais para ser um cascudo fora-da-lei. � Mat afastou a cabe�a e amarrou depressa a seda negra de volta, escondendo a cicatriz, mas Betse nem piscou. Ela enfiou a m�o dentro da camisa aberta de Mat e puxou o medalh�o de prata com cabe�a de raposa que ele usava preso a uma tira de couro. � Foi por roubar isso aqui? Parece caro� � muito caro?</p><p>Mat agarrou o medalh�o e o guardou de volta no lugar. A mulher mal parava para respirar, de modo que ele n�o conseguia brecha para falar. Ouviu Nalesean e Daerid dando risadinhas mais atr�s e sua express�o pesou. �s vezes toda aquela sorte no jogo parecia trazer o oposto em rela��o �s mulheres, e eles sempre achavam gra�a.</p><p>� N�o, se o senhor tivesse roubado, n�o o teriam deixado ficar com ele, n�o � mesmo? � Betse prosseguiu com o falat�rio. � E, se o senhor � quase lorde, imagino que possa ter coisas feito essa. Talvez tenha sido porque sabia demais. O senhor parece um jovem que sabe bastante coisa. Ou que pensa que sabe. � Ela abriu um daqueles sorrisos astutos, t�picos de quando as mulheres queriam confundir um homem. Raramente isso queria dizer que elas sabem mesmo de alguma coisa, mas conseguiam fazer os homens acreditarem que sim. � Tentaram enforcar o senhor por achar que sabia demais? Ou foi por fingir ser lorde? Tem certeza de que n�o � um lorde?</p><p>Daerid e Nalesean j� gargalhavam alto, e at� Talmanes soltava risadinhas, mesmo tentando fingir que era por outra coisa. Daerid, j� sem ar, comentava alguma hist�ria sobre um homem caindo de um cavalo sempre que conseguia recuperar o f�lego, mas n�o parecia nem um pouco engra�ada, pelo menos as partes que Mat ouvia.</p><p>Ele, no entanto, manteve o sorriso largo. Nem que aquela mulher <emphasis>conseguisse</emphasis> falar mais depressa do que ele corria, Mat n�o se daria por vencido. Betse era muito bonita e ele passara as �ltimas semanas conversando com gente do naipe de Daerid para baixo � homens suados que �s vezes se esqueciam de fazer a barba e com frequ�ncia n�o tinham chance de tomar banho. Betse suava nas bochechas, mas exalava um leve perfume de sab�o de lavanda.</p><p>� Na verdade, arrumei esse arranh�o por saber de menos � comentou, em um tom suave. As mulheres sempre gostavam quando um homem fazia pouco de suas cicatrizes. S� a Luz sabia como ele estava arrumando cicatrizes demais. � Eu agora sei mais do que deveria, mas na �poca sabia menos. Pode-se dizer que fui enforcado por conhecimento.</p><p>Balan�ando a cabe�a, Betse fez um beicinho.</p><p>� Me parece que isso foi um gracejo, Mat. Os fidalgotes sempre soltam gracejos, mas ainda assim o senhor diz que n�o � lorde. Al�m do mais, eu sou uma mulher simples. Gracejos s�o complicados demais para mim. Acho que o melhor � ir direto ao ponto. J� que o senhor n�o � lorde, seria melhor se falasse simples, ou pode dar a entender que est� fingindo ser lorde. Nenhuma mulher gosta de um homem que finge ser o que n�o �. Talvez o senhor possa me explicar o que estava tentando dizer?</p><p>Era um esfor�o manter o sorriso. Aquele bate-e-volta n�o estava indo nada como ele queria. N�o sabia dizer se Betse era uma completa idiota ou se s� estava tentando faz�-lo trope�ar nos pr�prios p�s ao tentar se levantar. Fosse como fosse, ela era bonita e cheirava a lavanda, n�o a suor. Daerid e Nalesean pareciam prestes a morrer por falta de ar. Talmanes cantarolava �Um Sapo no Gelo�. O desgra�ado achava que Mat tinha trocado os p�s pelas m�os na hora de andar, �?</p><p>Mat pousou a caneca de vinho e se levantou, fazendo uma mesura e tomando a m�o de Betse.</p><p>� Eu sou quem sou e ningu�m mais, mas seu rosto me deixa sem palavras. � Aquilo a fez piscar, sem palavras. N�o importava o que as mulheres dissessem, elas sempre gostavam de floreios. � Me concede uma dan�a?</p><p>Sem esperar resposta, ele a conduziu at� um espa�o livre por entre as mesas do sal�o. Com sorte, a dan�a acalmaria um pouco aquela l�ngua, e, afinal de contas, ele era um sujeito de sorte. Al�m do mais, nunca tinha ouvido falar de uma mulher cujo cora��o n�o amolecesse com uma dan�a. <emphasis>Quem dan�a consegue que as mo�as perdoem muito; quem dan�a bem consegue que elas perdoem tudo.</emphasis> Era um ditado muito antigo. Muito antigo mesmo.</p><p>Betse hesitou, mordendo o l�bio e procurando a Senhora Daelvin com o olhar, mas a estalajadeira gordinha apenas sorriu e acenou para que ela fosse adiante, depois deu uma ajeitadinha pouco eficaz nos cachos que escapavam do coque e voltou a atormentar as outras servi�ais, como se as mesas estivessem cheias. A Senhora Daelvin ficava de olho atento em qualquer homem que ela acreditasse estar se comportando de maneira inadequada. Apesar da apar�ncia tranquila, a mulher carregava um pequeno porrete entre as saias, e �s vezes o botava em uso � Nalesean ainda a olhava com cautela quando ela se aproximava �, mas que mal havia se um cliente desejava uma dan�a? Mat segurou as m�os de Betse e esticou os bra�os para os lados. Haveria espa�o suficiente entre as mesas. Os m�sicos come�aram a tocar mais alto, mas n�o melhor.</p><p>� Deixa que eu conduzo � instruiu Mat a Betse. � O in�cio � f�cil. � Ele come�ou a dan�ar no compasso da m�sica, inclinando-se e deslizando a perna para a direita, o p� esquerdo vindo logo atr�s. Inclinando, deslizando e puxando o p�, os bra�os estendidos.</p><p>Betse pegou o jeito depressa e se movimentava com gra�a. Quando eles alcan�aram os m�sicos, Mat ergueu as m�os dela delicadamente acima da cabe�a e girou o pr�prio corpo e o da mo�a, costas contra costas. Ent�o inclinou e deslizou, girou de volta frente a frente, deslizou e girou, e de novo e de novo, de volta at� o ponto de partida. Betse engatou no passo com a mesma agilidade, sorrindo feliz para ele, quando os giros permitiam. Ela era mesmo bonita.</p><p>� Agora vai ficar um pouco mais complicado � anunciou Mat, virando-se de modo que os dois encarassem os m�sicos lado a lado, os punhos cruzados e as m�os unidas � frente.</p><p>Joelho direito para cima, um chutinho de leve para a esquerda, ent�o um deslize para a frente e para a direita. Joelho esquerdo para cima, chutinho para a direita, deslize para a frente e para a esquerda. Betse ria enquanto os dois avan�avam mais uma vez em dire��o aos m�sicos. Os movimentos ficavam mais complexos a cada passo, mas ela s� precisava de uma demonstra��o para conseguir acompanh�-lo, leve feito uma pluma em suas m�os a cada volta, giro e rodopio. E o melhor de tudo: estava completamente muda.</p><p>Ele foi envolvido pelo compasso da dan�a e pela m�sica, mesmo com as notas faltando, e as mem�rias tomaram sua mente enquanto os dois deslizavam pelo sal�o, indo e voltando. Nas mem�rias, Mat era uma cabe�a mais alto, tinha longos bigodes dourados e olhos azuis. Usava um casaco de seda cor de �mbar, atado � cintura com uma faixa vermelha, decorado com babados da mais fina renda barsinesa e bot�es de safira amarela de Aramaelle no peitoral. Estava dan�ando com uma bela emiss�ria de pele escura dos Atha�an Miere, o Povo do Mar. A fina corrente de ouro que unia o aro no nariz da mulher a uma das in�meras argolas na orelha sustentava pequeninos medalh�es que a identificavam como Mestra das Ondas do Cl� Shodin. Para Mat, n�o importava quanto aquela mulher era poderosa: isso era preocupa��o do rei, n�o de um lorde mediano. A mulher era bela e leve em seus bra�os, e os dois dan�avam sob o imenso domo de cristal da corte de Shaemal, quando o mundo inteiro invejava o esplendor e o poder de Coremanda. Outras mem�rias perpassavam as margens de sua consci�ncia, revelando pequenos fragmentos daquela dan�a que ele recordava. A manh� traria not�cias do aumento das investidas dos Trollocs fora da Grande Praga, e o m�s seguinte viria com a not�cia de que Barsine, das torres douradas, fora invadida e incendiada e de que as hordas de Trollocs rumavam para o sul. Ent�o come�aria o que mais tarde viria a ser chamado de Guerras dos Trollocs, embora ningu�m chamasse assim no in�cio � mais de trezentos anos de batalhas quase ininterruptas, sangue, fogo e ru�nas, at� que os Trollocs fossem expulsos de volta, e os Senhores do Medo, derrotados. Ent�o teria in�cio a queda de Coremanda, com toda sua riqueza e seu poder; de Essenia, com seus fil�sofos e c�lebres institui��es educacionais; de Manetheren, Eharon e todas as Dez Na��es, tudo reduzido a ru�nas, mesmo na vit�ria, a partir de onde outras terras se ergueriam, terras que s� tinham mem�ria das Dez Na��es como mera lenda de um tempo mais feliz. Mas isso tudo estava no futuro, e ele baniu as mem�rias em troca do prazer da lembran�a do momento. Naquela noite, dan�ava a dan�a do padr�o com�</p><p>Mat piscou, subitamente assustado com os raios de sol que inundavam as janelas e o formoso rosto sorrindo � sua frente, cintilante de suor. Quase trope�ou no emaranhado de seus p�s com os de Betse, com quem rodopiava pelo sal�o, mas conseguiu se recompor antes disso, relembrando os passos instintivamente. Essa dan�a pertencia a ele com a mesma certeza que aquelas mem�rias pertenciam � sua mente, emprestadas ou roubadas, mas t�o entranhadas no que ele de fato vivera que Mat j� n�o era capaz de distinguir a diferen�a. Tudo era parte dele agora, preenchendo as lacunas em suas pr�prias lembran�as. Mat podia muito bem ter vivido todas elas.</p><p>Ele dissera a verdade sobre a cicatriz em seu pesco�o. Fora enforcado por conhecimento e pela falta dele. Por duas vezes, adentrara um <emphasis>ter�angreal</emphasis> como se fosse um desmiolado, um campon�s tolo achando que seria um feito simples como uma caminhada no pasto. Bem, quase t�o simples. Os resultados s� refor�aram suas suspeitas sobre qualquer coisa relacionada com o Poder �nico. Da primeira vez, ouviu que iria morrer e nascer de novo, entre outras coisas que preferia n�o ter ouvido. Algumas dessas outras coisas o encaminharam para a segunda jornada atrav�s de um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, cuja consequ�ncia fora uma corda amarrada em seu pesco�o.</p><p>Uma s�rie de decis�es, todas regidas por bons motivos ou pura necessidade, todas parecendo muito sensatas no momento em que as tomara, todas com consequ�ncias que ele jamais imaginara. Mat sempre se via preso nesse tipo de dan�a. Estivera morto at� o momento em que Rand o soltara daquela forca e o ressuscitara. Pela cent�sima vez, fez uma promessa a si mesmo. Daquele momento em diante, prestaria aten��o onde pisava. Nada de se precipitar sem pensar nos desdobramentos.</p><p>Na verdade, ele ganhara mais do que a cicatriz naquele dia. O amuleto prateado de cabe�a de raposa, por exemplo, o �nico olho sombreado de forma a parecer o antigo s�mbolo dos Aes Sedai. �s vezes, Mat ria tanto por causa daquele medalh�o que suas costelas do�am. N�o confiava em nenhuma Aes Sedai, por isso chegava a dormir e a tomar banho com aquela coisa no pesco�o. O mundo era um lugar curioso, quase sempre curioso e esquisito.</p><p>Outra coisa que ganhara fora conhecimento, ainda que indesejado. Fragmentos das vidas de outros homens enchiam sua cabe�a, milhares e milhares, �s vezes algumas horas de mem�rias, �s vezes anos inteiros, mas em fragmentos, lembran�as de cortes e de combates, momentos vividos ao longo de bem mais de mil anos, desde muito antes das Guerras dos Trollocs at� a batalha final do imp�rio de Artur Asa-de-gavi�o. Todas essas lembran�as eram suas agora, ou era como se fossem.</p><p>Nalesean, Daerid e Talmanes batiam palmas ao ritmo da m�sica e os outros homens espalhados pelas mesas tamb�m. Homens do Bando da M�o Vermelha, estimulando seu comandante a dan�ar. Luz, o nome do grupo dava calafrios em Mat. Pertencera a um lend�rio bando de her�is que morrera tentando salvar Manetheren. N�o havia um s� homem cavalgando ou marchando atr�s do estandarte do Bando que n�o achasse que aquele grupo tamb�m acabaria fazendo parte das lendas. A Senhora Daelvin tamb�m batia palmas e o restante das servi�ais fizera uma pausa para assistir � dan�a.</p><p>Era por causa das lembran�as daqueles outros homens que o Bando seguia Mat, embora eles n�o soubessem. Sua cabe�a continha mem�rias de mais batalhas e campanhas do que cem homens poderiam ter vivido. Fosse do lado vencedor ou do derrotado, Mat se lembrava de como aquelas batalhas tinham sido ganhas ou perdidas, e bastava um pouco de sagacidade para traduzir tudo aquilo em vit�rias para o Bando. Isso quando n�o conseguia encontrar um jeito de evitar o confronto.</p><p>Mais de uma vez, desejara que aqueles fragmentos das vidas de outros homens sa�ssem de sua cabe�a. Sem eles, Mat n�o estaria onde estava, liderando um grupo de quase seis mil soldados que aumentava a cada dia, prestes a conduzi-los para o sul e assumir o comando de uma maldita invas�o a uma terra controlada por um dos malditos Abandonados. Ele n�o era nenhum her�i, nem queria ser. Her�is tinham o p�ssimo h�bito de acabar mortos. Um her�i recebia no m�ximo um tapinha nas costas � isso quando n�o havia apenas a promessa de um tapinha antes de ele ser mandado � ca�a outra vez. Ali�s, o mesmo valia para os soldados.</p><p>Por outro lado, sem essas lembran�as Mat n�o teria seis mil soldados com ele. Estaria sozinho, <emphasis>ta�veren</emphasis> e preso ao Drag�o Renascido, alvo f�cil e conhecido dos Abandonados. Ao que parecia, alguns sabiam muita coisa a respeito de Mat Cauthon. Moiraine alegara que ele era importante, que talvez Rand precisasse dele e de Perrin para vencer a �ltima Batalha. Se fosse verdade, ele faria o que fosse preciso � s� teria que se acostumar � ideia, mas faria �, mas n�o seria um maldito her�i. Se pelo menos conseguisse descobrir o que fazer a respeito da maldita Trombeta de Valere� Oferecendo uma pequena prece pela alma de Moiraine, desejou que ela estivesse errada.</p><p>Ele e Betse terminaram a �ltima sequ�ncia de passos, e a mulher desabou em cima dele, rindo, quando pararam.</p><p>� Ah, foi maravilhoso. Me senti em um pal�cio. Vamos de novo? Ah, vamos? Vamos?</p><p>A Senhora Daelvin aplaudiu os dois por um instante, mas assim que percebeu as outras servi�ais paradas ao redor do casal, sacudiu os bra�os com vigor e p�s todas para correr feito galinhas.</p><p>� �Filha das Nove Luas� significa alguma coisa para voc�?</p><p>As palavras simplesmente sa�ram. Era s� porque se lembrara daquele <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Onde quer que fosse encontrar a tal Filha das Nove Luas, quando isso acontecesse � <emphasis>Luz, espero que ainda falte muito tempo para isso!</emphasis>, pensou com fervor<emphasis>��</emphasis>,�com certeza n�o seria em um vilarejo, servindo mesas em uma estalagenzinha abarrotada de soldados e refugiados. Por outro lado, quem poderia saber, em se tratando de profecias? Fora uma profecia, de certo modo. Morrer e nascer outra vez. Casar-se com a Filha das Nove Luas. Abrir m�o de metade da luz do mundo para salvar o mundo, fosse l� o significado daquilo. Mat <emphasis>tinha</emphasis> morrido, afinal, pendurado naquela corda. Se essa parte era verdade, o resto tamb�m tinha que ser. N�o havia escapat�ria.</p><p>� Filha das Nove Luas? � repetiu Betse, ofegante. A falta de f�lego n�o diminu�a a tagarelice. � � uma estalagem? Uma taverna? N�o � aqui em Maerone, disso eu sei. Talvez seja do outro lado do rio, em Aringill? Nunca fui a�</p><p>Mat encostou um dos dedos nos l�bios dela.</p><p>� Deixe para l�. Vamos dan�ar mais uma dan�a. � Uma regional, dessa vez, algo atual, que n�o carregasse lembran�as de outros homens. O problema era que realmente precisava pensar para identificar em meio �s lembran�as qual dan�a era de seu tempo.</p><p>Um pigarreio o fez olhar para tr�s e ele suspirou ao ver Edorion parado na entrada, as manoplas com dorso de a�o enfiadas atr�s do cintur�o, o capacete debaixo do bra�o. O jovem lorde taireno era um homem roli�o e de bochechas rosadas quando apostara contra Mat, na Pedra de Tear. No entanto, desde que chegara ao norte adquirira um aspecto mais duro e curtido pelo sol. O capacete de abas agora n�o ostentava plumas, e a douradura um dia ornamentada de sua placa peitoral j� estava desfigurada por lascas e mossas. O casaco de mangas bufantes era azul com listras pretas, mas parecia bastante usado.</p><p>� Voc� me pediu para lembr�-lo de sua ronda a essa hora. � Edorion tossiu contra o punho cerrado. Fazia quest�o de n�o olhar para Betse. � Mas posso voltar mais tarde, se preferir.</p><p>� Vou agora � respondeu Mat.</p><p>Era importante fazer a ronda di�ria, buscar estranhezas todos os dias. As mem�rias daqueles outros homens lhe diziam isso e ele aprendera a confiar nas mem�rias quando se tratava desse tipo de coisa. J� que estava preso a essa fun��o, era melhor desempenh�-la direito. Fazer as coisas direito talvez pudesse preservar sua vida. Al�m do mais, Betse se afastara, tentando enxugar o suor do rosto com o avental e ajeitar os cabelos ao mesmo tempo. A euforia j� esvanecia de sua express�o. N�o importava. Ela se lembraria. <emphasis>Dance bem com uma mulher</emphasis>, pensou Mat, convencido, <emphasis>que j� ganha metade de seu cora��o.</emphasis></p><p>� Entregue isso aos m�sicos � pediu ele � servi�al, depositando tr�s marcos de ouro em sua m�o. Por mais que tivessem tocado mal, durante alguns momentos a melodia o transportara para longe de Maerone e do futuro imediato. De todo modo, as mulheres gostavam de generosidade. As coisas estavam indo muito bem. Com uma mesura, quase beijando a m�o dela, Mat acrescentou: � At� mais ver, Betse. Dan�aremos de novo quando eu voltar.</p><p>Para sua surpresa, ela abanou um dedo sob o nariz dele e balan�ou a cabe�a em reprimenda, como se lesse sua mente. Bem, ele jamais alegara entender as mulheres.</p><p>Ajeitando o chap�u na cabe�a, apanhou a lan�a de cabo preto que jazia ao lado da porta. Fora outro presente do lado de l� daquele <emphasis>ter�angreal</emphasis>, com a inscri��o em L�ngua Antiga no cabo e a ponta estranha, feito uma espada curta gravada com dois corvos.</p><p>� Vamos percorrer os bares hoje � disse a Edorion, e os dois sa�ram a passos firmes sob o calor intenso do meio-dia, adentrando a balb�rdia de Maerone.</p><p>Era uma cidade pequena e sem muros, por�m cinquenta vezes maior do que qualquer uma que Mat vira antes de sair de Dois Rios. Na verdade, era uma aldeia grande, cuja maior parte das constru��es de tijolos e pedras tinha um �nico andar de altura, e as estalagens, no m�ximo tr�s; al�m de apresentarem tantos telhados de ripas de madeira e de palha quanto de laje ou telha. �quela hora, as ruas, quase todas de terra batida, estavam abarrotadas. A cidade tinha gente de todo tipo, na maioria cairhienos e andorianos. Embora ficasse do lado cairhieno do Erinin, Maerone n�o fazia parte de na��o alguma: estava bem no meio do caminho, e a gente que ali vivia ou passava pertencia a uma meia d�zia de na��es diferentes. At� Aes Sedai � umas tr�s ou quatro � tinham aparecido por ali, desde que Mat chegara. Mesmo usando o medalh�o, sempre mantivera dist�ncia delas � n�o havia motivo para ca�ar problemas �, mas todas tinham ido embora t�o r�pido quanto haviam chegado. Ele de fato tinha sorte, quando importava. Pelo menos at� ent�o.</p><p>O povo da cidade estava imerso em seus afazeres, a maioria ignorando os muitos homens, mulheres e crian�as vestidos em andrajos que perambulavam a esmo. Esses �ltimos eram todos cairhienos e em geral chegavam at� o rio antes de retornarem aos acampamentos de refugiados ao redor da cidade. Poucos, no entanto, voltavam para casa. A guerra civil podia ter terminado em Cairhien, mas ainda havia as mil�cias, e eles temiam os Aiel. E, pelo que Mat sabia, tamb�m temiam topar com o Drag�o Renascido. A pura verdade era que haviam fugido para o mais longe poss�vel, e nenhum deles tinha energia para mais do que ir at� o rio e admirar Andor.</p><p>Os soldados do Bando se somavam � multid�o, grupos de um ou tr�s serpenteando por entre as lojas e tavernas, tropas em forma, besteiros e arqueiros com coletes cobertos de discos de metal, lanceiros usando placas peitorais surradas descartadas por seus superiores ou arrancadas dos mortos. Por toda parte se viam cavaleiros de armaduras, lanceiros tairenos em capacetes com abas, cairhienos de capacetes em formato de sino e at� alguns andorianos com seus capacetes c�nicos de elmos com barras horizontais. Rahvin expulsara um bom n�mero de homens da Guarda da Rainha, homens leais demais a Morgase e alguns haviam se juntado ao Bando. Mascates aos berros circulavam pela massa de gente com suas bandejas. Ofereciam agulhas e fios; unguentos bons para qualquer ferida e rem�dios para todo tipo de mal, desde bolhas at� diarreia e tifo; sab�o; panelas e canecas de estanho que prometiam jamais enferrujar; meias de l�; facas e adagas do mais fino a�o andoriano � eles davam sua palavra �, todo tipo de coisa indispens�vel a um soldado ou que os vendedores pudessem convenc�-los de que era indispens�vel. O burburinho era tamanho que os berros de qualquer mascate eram engolidos a mais de tr�s passos de dist�ncia.</p><p>Os soldados reconheceram Mat na mesma hora, claro, e muitos deram vivas, mesmo os que estavam longe demais para ver al�m de seu chap�u de aba larga e a estranha lan�a. O acess�rio e a arma o marcavam t�o claramente quanto a ins�gnia de qualquer nobre. Mat ouvira todo tipo de boatos em rela��o � sua recusa a usar armadura e capacete. Eram os mais diversos, desde coragem insana � suspeita de que apenas uma arma forjada pelo Tenebroso em pessoa poderia mat�-lo. Alguns diziam que ele ganhara o chap�u das Aes Sedai e que, enquanto o usasse, <emphasis>nada</emphasis> seria capaz de mat�-lo. A verdade era que se tratava de um chap�u comum, e ele o usava para garantir boa sombra. E porque o ajudava a se lembrar de n�o chegar perto de nenhum lugar onde fosse preciso usar armadura e capacete. As hist�rias que circulavam sobre sua lan�a, com aquela inscri��o que pouca gente entre os nobres era capaz de ler, eram ainda mais exageradas. No entanto, nenhuma se aproximava da estranheza da verdade. Aquela l�mina com inscri��o de corvo fora feita por Aes Sedai durante a Guerra da Sombra, antes da Ruptura. N�o era necess�rio afi�-la, nunca, e ele duvidava de que a l�mina pudesse ser quebrada.</p><p>Acenando para agradecer os berros de �Que a Luz ilumine Lorde Matrim!�, �Lorde Matrim e vit�ria!� e outras bobagens, ele cruzou a multid�o com Edorion. Pelo menos n�o precisava acotovelar ningu�m: o povo abria caminho logo que o via. Queria que n�o fossem tantos os refugiados que o encaravam como se ele escondesse a chave de sua esperan�a no bolso. Al�m de garantir que recebessem a comida vinda nas fileiras de carro��es que sa�am de Tear, Mat n�o sabia o que mais podia fazer. Muitos estavam sujos e vestidos em farrapos.</p><p>� O sab�o seguiu para os acampamentos? � perguntou.</p><p>Edorion ouviu, apesar da gritaria.</p><p>� Seguiu. A maioria acabou trocando o sab�o com os mascates por vinho barato. Eles n�o querem sab�o: querem ou cruzar o rio ou afogar as m�goas.</p><p>Mat soltou um grunhido amargo. Passagem para Aringill era algo que n�o podia dar �quelas pessoas.</p><p>At� a guerra civil destruir Cairhien, Maerone fora ponto de passagem entre Cairhien e Tear, o que significava que possu�a quase tantas estalagens e tavernas quanto casas. As primeiras cinco onde ele enfiara o nariz eram bem similares, desde A Raposa e O Ganso at� a Chicote do Carroceiro � constru��es de pedra com mesas abarrotadas e eventuais brigas, que Mat ignorava. Todavia, nunca encontrava ningu�m b�bado.</p><p>A Port�o do Rio, do outro lado da cidade, j� fora a melhor estalagem de Maerone, mas placas pesadas pregadas nas portas de madeira manchada pelo sol serviam de lembrete aos estalajadeiros e serventes para que n�o embebedassem os soldados do Bando. Ainda assim, mesmo os soldados s�brios entravam em brigas � tairenos com cairhienos com andorianos; homens a p� com cavaleiros; vassalos de um lorde lutavam contra os de outro; veteranos enfrentavam novatos e soldados brigavam com civis. Antes de sa�rem de controle, as lutas eram interrompidas por soldados de cassetetes e bra�adeiras vermelhas que iam do punho ao cotovelo. As unidades se revezavam no fornecimento de Bra�os Vermelhos, mandando homens diferentes a cada dia, e o grupo tinha que pagar por qualquer dano ocorrido em seus dias de servi�o. Isso aumentava o esfor�o para manter a paz.</p><p>Quando adentrou A Raposa e O Ganso, Mat viu um menestrel corpulento de meia idade equilibrando bast�es em chamas; enquanto na Estalagem do Erinin, um menestrel magrelo e j� meio careca, de harpa na m�o, declamava parte da <emphasis>Grande Ca�ada � Trombeta</emphasis>. Apesar do calor, ambos usavam a inconfund�vel capa, toda coberta de retalhos multicoloridos que se agitavam ao menor movimento. Um menestrel daria a pr�pria m�o para n�o perder aquela capa. Os dois tinham plateias bastante atentas � muitos espectadores vinham de aldeias que saudavam avidamente a visita de um menestrel �, mais at� do que a garota que cantava em cima de uma mesa, na taverna chamada As Tr�s Torres. A mo�a era bonita, com seus longos cachos escuros, mas uma can��o sobre amor verdadeiro decerto n�o seria muito interessante para os homens que bebiam e gargalhavam. Nos outros locais, a �nica divers�o vinha de um ou dois m�sicos, mas o burburinho era ainda mais alto e metade das mesas estava envolvida em jogos de dados que fizeram os dedos de Mat co�ar. Mas era verdade que ele quase sempre ganhava, pelo menos no dado, e n�o seria correto tomar moedas de seus pr�prios soldados. E a maioria dos homens �s mesas era do Bando, poucos refugiados tinham moedas para gastar em sal�es.</p><p>Algumas pessoas que n�o faziam parte do grupo circulavam por entre os integrantes do Bando. Um kandoriano esguio e de barba forcada ostentando uma pedra da lua do tamanho da unha do ded�o pendurada em uma orelha e correntes de prata cruzando o peitoral em seu casaco vermelho; uma domanesa de pele acobreada e olhos astutos, com an�is de pedras preciosas em todos os dedos, apesar do vestido azul modesto; um taraboniano com um quepe azul c�nico de ponta achatada, o bigode grosso escondido por tr�s de um v�u transparente. Homens gorduchos em casacos tairenos apertados na cintura; sujeitos magrelos usando casacos murandianos que iam at� o joelho; mulheres de olhar penetrante em vestidos de gola alta ou at� o tornozelo, mas sempre de l� bem cortada e cores s�brias. Todos mercadores, prontos para quando recome�assem as tiradas entre Andor e Cairhien. Em cada sal�o havia dois ou tr�s homens afastados dos outros, em geral sozinhos, a maioria sujeitos de olhar severo, alguns bem-vestidos, outros pouco mais ajeitados que os refugiados, mas todos com ar de quem sabia manejar a espada que traziam na cintura ou nas costas. Mat identificou duas mulheres com aquele grupo, embora nenhuma portasse armas � uma tinha um cajado comprido apoiado na mesa e sup�s que a outra levasse facas escondidas no vestido de montaria. Ele pr�prio escondia umas facas nas roupas. Tinha certeza de que sabia o que ela e os outros queriam, e a mulher seria tola de se meter naquilo desarmada.</p><p>Ao sair com Edorion da Chicote do Carroceiro, Mat parou para observar uma mulher grandalhona de saias marrons divididas abrindo caminho pela multid�o. A mulher nem piscava, os olhos observando tudo, desmentindo a aparente placidez do rosto redondo e ela ainda trazia no cinto um porrete cravejado de pregos e uma adaga de l�mina pesada o suficiente para dar conta de um Aiel. Ent�o havia uma terceira mulher no grupo. Eram Ca�adores da Trombeta, estavam atr�s da lend�ria Trombeta de Valere que convocaria os mortos de volta de seus t�mulos para lutar na �ltima Batalha. Quem a encontrasse teria lugar garantido nas hist�rias. <emphasis>Isso se sobrar algu�m para escrever alguma maldita hist�ria</emphasis>, pensou Mat, mordaz.</p><p>Alguns acreditavam que a Trombeta surgiria onde houvesse lutas e tumulto. Fazia quatrocentos anos desde que a �ltima Ca�ada � Trombeta fora convocada e o povo tinha surgido de tudo que era lugar para fazer os juramentos mais recentes. Mat vira bandos de Ca�adores nas ruas de Cairhien e esperava ver mais quando chegasse a Tear. Decerto tamb�m estariam avan�ando para Caemlyn. Queria que um deles tivesse encontrado a coisa. Pelo que sabia, a maldita Trombeta de Valere jazia em algum ponto das profundezas da Torre Branca � e, se ele conhecia minimamente as Aes Sedai, ficaria surpreso se dez delas estivessem cientes disso.</p><p>Uma tropa marchava atr�s de um oficial a cavalo de placa peitoral amassada e capacete cairhieno, entre Mat e a mulher corpulenta. Cerca de duzentos lanceiros com as armas para cima, um matagal de ponteiras, seguidos por mais de cinquenta arqueiros com aljavas na cintura e arcos presos aos ombros. N�o era o arco longo de Dois Rios que Mat crescera usando, mas era uma arma bastante digna. Precisava encontrar bestas para os homens, embora os arqueiros n�o estivessem muito dispostos a trocar de arma. O batalh�o cantava enquanto marchava e a massa de vozes se sobrepunha ao resto do barulho.</p><poem><stanza><v>� O almo�o vai ser feij�o e feno estragado,</v><v>no dia do nome ganha um casco quebrado.</v><v>Vai suar e sangrar at� envelhecer,</v><v>S� nos seus sonhos ouro vai ter.</v><v>� a vida de um soldado.</v><v>� a vida de um soldado.</v></stanza></poem><p>Uma multid�o de civis os seguia, cidad�os e refugiados juntos, todos homens jovens e curiosos, observando e escutando. Mat n�o deixava de se impressionar. Quanto mais a can��o maldizia o servi�o � e a pior parte ainda n�o chegara �, maior a multid�o. Certo como a �gua era molhada, alguns daqueles homens sairiam para falar com um porta-estandarte antes de o dia terminar, e a maioria assinaria seu nome ou deixaria uma marca. Decerto achavam que a m�sica era uma tentativa de assust�-los, de preservar a gl�ria e os ganhos il�citos. Pelo menos os lanceiros n�o estavam cantando �Dan�ando com Jak das Sombras�. Mat odiava aquela m�sica. Assim que os rapazes percebiam que Jak das Sombras era a morte, come�avam a ir atr�s de um porta-estandarte.</p><poem><stanza><v>� Sua garota com outro se casa.</v><v>Sua �nica terra � uma cova rasa.</v><v>Sua comida de verme, ningu�m vai chorar,</v><v>Seu pr�prio nascimento voc� vai amargar.</v><v>� a vida de um soldado.</v><v>� a vida de um soldado.</v></stanza></poem><p>� O pessoal n�o para de se perguntar quando � que vamos para o sul � comentou Edorion, com um ar despretensioso, enquanto a tropa avan�ava pela rua levando um rastro de imbecis � Est�o surgindo boatos. � Ele espiou Mat de soslaio, avaliando seu humor. � Percebi que os ferradores est�o conferindo as parelhas para os carro��es de suprimentos.</p><p>� A gente vai quando a gente for � respondeu Mat. � N�o precisamos informar Sammael de nossa partida.</p><p>Edorion lan�ou a ele um olhar firme. O taireno n�o era nem um pouco bronco. N�o que Nalesean fosse � s� era ansioso demais, �s vezes �, mas Edorion tinha uma mente perspicaz. Nalesean jamais teria percebido os ferradores. Era pena que a Casa Aldiaya fosse superior � Casa Selorna em import�ncia, ou Mat teria posto Edorion no lugar de Nalesean. Aqueles nobres idiotas, com sua fixa��o idiota nas gradua��es. N�o, Edorion n�o era nem um pouco burro � sabia que t�o logo o Bando rumasse para o sul, as not�cias desceriam o rio a toda a velocidade, talvez tamb�m voando com os pombos. Mat n�o teria apostado contra a possibilidade de haver espi�es em Maerone, nem se sentisse a sorte com for�a suficiente para lhe arrebentar o cr�nio.</p><p>� Tem tamb�m um boato de que o Lorde Drag�o estava na cidade, ontem � comentou Edorion, no volume mais baixo que o barulho da rua permitia.</p><p>� O m�ximo que aconteceu ontem � respondeu Mat, seco � foi que tomei o primeiro banho em uma semana. Vamos logo. Vai levar metade do tempo que nos resta de luz para acabar com isso.</p><p>Mat daria tudo para descobrir como aquele boato come�ara. Estava errado em apenas metade de um dia, e decerto n�o houvera ningu�m para ver. Nas primeiras horas da manh�, um raio de luz despontara de repente no quarto de Mat, l� na estalagem Cervo Dourado. Desesperado, ele se atirara do outro lado da cama de quatro pilares, uma bota cal�ada e a outra a meio caminho, puxando a faca que mantinha presa entre as omoplatas. Ent�o percebeu que era Rand, brotando de um daqueles malditos buracos no nada. Parecia estar saindo do pal�cio em Caemlyn, pelas colunas vis�veis antes de a abertura se esvair. Ficou um pouco espantado com a visita no meio da noite, sem escolta Aiel, irrompendo bem no quarto de Mat � coisa que ainda lhe dava calafrios. Aquela luz estranha poderia t�-lo fatiado em dois, se estivesse no lugar errado. Mat <emphasis>n�o gostava</emphasis> do Poder �nico. A situa��o toda fora muito estranha.</p><cite><p>� V� depressa e devagar, Mat � disse Rand, andando de um lado para o outro, sem olhar em sua dire��o. Mantinha a mand�bula tensa, o rosto empapado de suor. � Ele tem que estar avisado. Tudo depende disso.</p><p>Sentado na cama, Mat deu um solavanco com o p� para terminar de tirar a bota e largou-a no tapete que a Senhora Daelvin lhe cedera.</p><p>� Eu sei � respondeu, em um tom amargo, parando para esfregar o tornozelo que machucara em uma das colunas da cama. � Eu ajudei a bolar a porcaria do plano, lembra?</p><p>� Como � que a gente sabe quando est� apaixonado por uma mulher, Mat? � Rand n�o parava de andar e disparou a pergunta como se tivesse tudo a ver com o que estava dizendo antes.</p><p>Mat piscou.</p><p>� Pelo Po�o da Perdi��o, como eu vou saber? Nessa armadilha eu nunca pus o p�. Por qu�?</p><p>Rand apenas deu de ombros.</p><p>� Vou acabar com Sammael, Mat. Eu juro. Devo isso aos mortos. Mas onde est�o os outros? Preciso acabar com todos.</p><p>� Mas um de cada vez. � Ele quase n�o conseguiu evitar que a frase sa�sse como uma pergunta. Nos �ltimos tempos, n�o havia como saber com o que Rand ficaria obcecado.</p><p>� Tem Devotos do Drag�o em Murandy, Mat. Em Altara tamb�m. Homens devotos a mim. Quando Illian for minha, Altara e Murandy cair�o feito ameixas maduras. Vou iniciar contato com os Devotos do Drag�o em Tarabon. e em Arad Doman. E, se os Mantos-brancos tentarem me impedir de chegar a Amad�cia, vou acabar com eles. O Profeta j� deixou Ghealdan preparada e est� quase terminando com Amad�cia, pelo que eu ouvi dizer. Consegue imaginar Masema como Profeta? Saldaea vir� at� mim, Bashere tem certeza. Todas as Terras da Fronteira vir�o. T�m que vir! Eu vou conseguir, Mat. Todas as na��es unidas antes da �ltima Batalha. � A voz de Rand assumira um tom febril.</p><p>� Claro, Rand � respondeu Mat, hesitante, acomodando a outra bota ao lado da primeira. � Mas uma coisa de cada vez, certo?</p><p>� Nenhum homem deveria ter a voz de outro homem na pr�pria cabe�a � resmungou Rand e as m�os de Mat congelaram enquanto ele tirava uma das meias de l�.</p><p>Por mais estranho que fosse, pegou-se pensando se ainda poderia usar o par mais um dia. Rand sabia de parte do que acontecera dentro daquele ter�angreal em Rhuidean � pelo menos sabia que ele, de alguma forma, obtivera conhecimento a respeito das fun��es de um soldado. Mas n�o sabia de tudo� Mat achava que n�o. N�o sabia das lembran�as de outros homens. Rand n�o pareceu notar nada fora do comum. S� passou os dedos pelos cabelos e prosseguiu:</p><p>� Ele pode ser enganado, Mat� Sammael sempre pensa de maneira muito linear. Mas ser� que tem alguma brecha por onde ele possa se esgueirar? Se houver qualquer erro, milhares de pessoas v�o morrer. Dezenas de milhares. Centenas j� v�o morrer, de todo modo, mas n�o quero que sejam milhares.</p></cite><p>Mat contorceu o rosto em uma careta t�o intensa que o mascate de rosto suado que tentava lhe vender uma adaga com cabo de pedras �preciosas� de vidro colorido quase largou a mercadoria ao tentar se misturar � multid�o. Rand era sempre assim, trocando de assunto toda hora, indo da invas�o de Illian para os Abandonados e as mulheres � Luz, Rand sempre conseguia o que queria com as mulheres, que nem Perrin �, da �ltima Batalha �s Donzelas da Lan�a e coisas que Mat n�o compreendia. E quase nunca ouvia as respostas, �s vezes sequer esperava por elas. Ouvir Rand falar de Sammael como se conhecesse o homem era mais que apenas desconcertante. Sabia que Rand acabaria enlouquecendo, mas se a loucura j� estivesse � espreita�</p><p>E quanto aos outros, os coitados que <emphasis>desejavam</emphasis> canalizar, que Rand estava reunindo, e o tal sujeito Taim, que j� conseguia? Rand mencionara como se n�o fosse nada muito relevante. Mazrim Taim, o maldito falso Drag�o, ensinando aos malditos alunos de Rand � ou fosse l� o que fossem aqueles homens. Quando todos come�assem a enlouquecer, Mat n�o queria estar nem a mil milhas deles.</p><p>S� que tinha tanta op��o quanto uma folha em um redemoinho. Era <emphasis>ta�veren,</emphasis> por�m Rand era mais. Nada havia nas Profecias do Drag�o sobre Mat Cauthon, mas ele fora capturado e preso, feito um leit�ozinho. Luz, queria nunca ter posto os olhos na Trombeta de Valere.</p><p>Com a express�o sombria, avan�ou pelas tavernas e pelos sal�es, afastando-se dos entornos da Cervo Dourado. N�o eram diferentes da primeira que vistoriara: mesas abarrotadas de homens bebendo, jogando e brigando, os m�sicos sempre abafados pelo burburinho, Bra�os Vermelhos apartando as brigas assim que come�avam. Em uma, um menestrel recitava <emphasis>A Grande Ca�ada</emphasis> � popular mesmo sem Ca�adores por perto �, em outra, uma mulher branca e pequenina entoava uma can��o um tanto obscena, que ficava ainda mais escandalosa ao ser recitada por algu�m de rosto redondo e olhos t�o grandes e inocentes.</p><p>Ainda desanimado, abandonou a Trombeta de Prata � que nome idiota! � e sua cantora de rosto inocente. Talvez tenha sido por isso que saiu disparado em dire��o � gritaria que estourava na rua, logo na frente de outra estalagem. Se houvesse soldados envolvidos, os Bra�os Vermelhos cuidariam da situa��o, mas mesmo assim Mat foi se embrenhando pela multid�o. Rand estava enlouquecendo e largando-o no meio da tempestade, com Taim e aqueles outros idiotas prontos para adentrar a loucura com ele. Sammael aguardava em Illian e nem a Luz sabia onde estava o restante dos Abandonados � todos decerto � procura de uma chance de arrancar sua cabe�a pelo caminho. Isso sem levar em conta o que as Aes Sedai fariam se pusessem as m�os nele outra vez � pelo menos, as que sabiam demais. E todo mundo pensando que ele ia dar as caras e virar um maldito her�i! Em geral, tentava se safar das brigas na l�bia quando n�o conseguia passar longe delas, mas naquele momento queria uma desculpa para meter um soco bem no meio da cara de algu�m. O que encontrou n�o foi nada do que esperava.</p><p>Um grupo de cidad�os � cairhienos baixos usando roupas discretas e um punhado de andorianos mais altos vestidos em cores mais vivas � rodeava, inexpressivo, dois homens compridos e magros de bigodes curvos, que usavam casacos murandianos longos de seda brilhosa e portavam espadas ornamentadas de pomos e guarda-m�os dourados. O sujeito de casaco vermelho exibia um sorriso largo, divertindo-se ao observar o de amarelo agarrar a gola da camisa de um garoto pouco mais alto que a cintura de Mat, sacudindo-o como um cachorro sacode um rato.</p><p>Ele manteve a calma. Lembrou a si mesmo de que n�o sabia o motivo de tudo aquilo.</p><p>� V� com calma com o garoto � mandou, pousando a m�o no bra�o do casaco amarelo. � O que foi que ele fez para merecer�?</p><p>� Ele tocou o meu cavalo! � vociferou o sujeito com sotaque de Mindea, afastando a m�o de Mat com uma sacudida. Os mindeanos se gabavam de ter o pior temperamento de todos em Murandy. Se gabavam! � Vou torcer esse pescocinho de campon�s! Vou esmagar esse moleque magricela�!</p><p>Sem dizer outra palavra, Mat ergueu a base da lan�a e a enfiou direto no meio das pernas do sujeito. O murandiano abriu a boca, mas n�o emitiu som algum. Seus olhos se reviraram at� ficarem completamente brancos. O garoto disparou assim que o homem desabou de joelhos, as pernas moles e a cara no ch�o da rua.</p><p>� N�o vai, n�o � retrucou Mat.</p><p>Aquilo n�o foi o fim, claro. O homem de casaco vermelho agarrou a pr�pria espada. At� conseguiu desembainhar um pedacinho antes que Mat lhe acertasse o pulso com a base da lan�a. Grunhindo, o sujeito largou o cabo, mas esticou a outra m�o para agarrar a adaga de l�mina comprida pendurada em seu cinto. Mais que depressa, Mat o golpeou acima da orelha. N�o foi com for�a, mas o sujeito caiu em cima de seu companheiro. Que imbecil! Mat n�o soube ao certo se estava pensando no sujeito do casaco vermelho ou em si mesmo.</p><p>Finalmente chegaram alguns Bra�os Vermelhos, abrindo caminho por entre os observadores. Eram cavaleiros tairenos de costas largas, pareciam meio sem jeito andando a p� com as botas at� os joelhos, as mangas douradas espremidas embaixo das bra�adeiras. Edorion agarrara o garoto, um menino encovado e emburrado de cerca de seis anos, arrastando os dedos nus pela terra e de vez em quando tentando dar um tranco no bra�o de seu captor. Talvez fosse a crian�a mais feia que Mat j� vira, com nariz achatado, boca grande demais para o rosto e orelhas imensas despontando das laterais da cabe�a. Pelos rombos em seu casaco e cal�as, era um dos refugiados. Parecia imundo.</p><p>� D� um jeito nisso, Harnan � mandou Mat. Harnan era um Bra�o Vermelho de queixo comprido, um l�der de destacamento de express�o tolerante com uma tatuagem tosca de um gavi�o na bochecha esquerda. A moda parecia estar se difundindo pelo Bando, mas a maioria se limitava a marcar partes do corpo que costumavam ficar encobertas. � Descubra o motivo disso tudo, depois mande esses dois grosseir�es para fora da cidade. � Eles mereciam, fosse l� qual tivesse sido a provoca��o.</p><p>Um magricelo de casaco murandiano de l� escura serpenteou por entre o povo e caiu de joelhos ao lado dos dois, no ch�o. O de casaco amarelo come�ara a emitir grunhidos abafados e o de casaco vermelho j� agarrava a cabe�a, murmurando algo que pareciam xingamentos. O rec�m-chegado fez mais barulho que os dois juntos.</p><p>� Ah, milordes! Milorde Paers! Milorde Culen! Os senhores foram mortos? � Ele estendeu as m�os tr�mulas na dire��o de Mat. � Ah, mas n�o mate os dois, milorde! N�o assim, indefesos. Eles s�o Ca�adores da Trombeta, milorde. Eu sou Padry, servo deles. S�o her�is, milorde, s�o sim.</p><p>� Eu n�o vou matar ningu�m � interrompeu Mat, enojado. � Voc� fa�a esses her�is montarem em seus cavalos e caia fora de Maerone at� o anoitecer. N�o gosto de marmanjos que amea�am torcer o pesco�o de uma crian�a. Eles t�m at� o anoitecer!</p><p>� Mas, milorde, eles est�o machucados. Era � s� um camponesinho, e estava bulindo no cavalo de Lorde Paers.</p><p>� Eu s� sentei no cavalo � gritou o garoto. � Eu n�o estava� isso a� que o senhor disse.</p><p>Mat assentiu, de cara feia.</p><p>� N�o se quebra o pesco�o de uma crian�a por se sentar em um cavalo, Padry. Nem se for um <emphasis>camponesinho</emphasis>. Tire esses dois daqui, ou eu � que vou torcer o pesco�o <emphasis>deles</emphasis>. � Gesticulou para Harnan que assentiu depressa para os outros Bra�os Vermelhos. Os l�deres de destacamento nunca faziam nada sozinhos, assim como os porta-estandartes. O grupo ergueu Paers e Culen com viol�ncia e os atirou para longe, grunhindo. Padry foi atr�s, contorcendo as m�os e gritando, em protesto, que seus mestres n�o estavam em condi��es de cavalgar, que eram Ca�adores da Trombeta e her�is.</p><p>Mat percebeu que Edorion ainda agarrava o bra�o da causa de todo aquele problema. Os Bra�os Vermelhos tinham ido embora, os habitantes da cidade j� se dispersavam. Ningu�m prestava aten��o ao garoto, todos tinham suas pr�prias crian�as para cuidar, tarefa que j� era bastante dif�cil. Mat suspirou pesadamente.</p><p>� Voc� n�o entende que pode se machucar �s� sentando� em um cavalo estranho, garoto? O garanh�o que esse tipo de sujeito cavalga � capaz de pisotear um garotinho que nem voc� em sua baia e ningu�m nunca mais o encontraria.</p><p>� Cap�o. � O garoto deu outro pux�o para tentar se soltar de Edorion, e, ao perceber que n�o tinha conseguido, fechou um bico emburrado. � Era um cap�o e n�o ia me machucar. Os cavalos gostam de mim. Eu n�o sou um <emphasis>garotinho</emphasis>, tenho nove anos. E meu nome � Olver, n�o � <emphasis>garoto</emphasis>.</p><p>� Olver, �? � Nove anos? Podia ser. Mat era ruim em dizer a idade de crian�as, ainda mais sendo uma crian�a cairhiena. � Bom, Olver, onde est�o sua m�e e seu pai? � Ele olhou em volta, mas os refugiados ao redor passavam t�o ligeiros quanto os cidad�os. � Onde � que eles est�o, Olver? Tenho que devolver voc� a eles.</p><p>Em vez de responder, Olver mordeu o l�bio inferior. Uma l�grima se formou em um dos olhos e ele a esfregou, cheio de raiva.</p><p>� Os Aiel mataram o papai. Um desses� Shado. Mam�e disse que a gente estava indo para Andor. Ela disse que a gente ia morar em uma fazenda. Com cavalos.</p><p>� Onde � que ela est�? � perguntou Mat, baixinho.</p><p>� Ela ficou doente. Eu� eu a enterrei num lugar com umas flores. � De s�bito, Olver chutou Edorion e come�ou a se debater, preso a seu pulso. As l�grimas escorriam pelo rosto do menino. � Me solte. Eu consigo me cuidar sozinho. Me solte.</p><p>� Cuide dele at� encontrarmos algu�m � disse Mat a Edorion que o encarou embasbacado, tentando ao mesmo tempo afastar e segurar o garoto.</p><p>� Eu? E o que � que eu vou fazer com esse ratinho bravo como um leopardo?</p><p>� Para come�ar, d� a ele um prato de comida. � Mat torceu o nariz. Pelo cheiro, Olver passara pelo menos um tempinho no ch�o da baia do cap�o. � E um banho. Ele est� fedendo.</p><p>� Fale comigo � gritou Olver, esfregando o rosto. As l�grimas ajudaram a dar um jeito na imund�cie. � Fale comigo, n�o de mim!</p><p>Mat piscou, surpreso, depois se agachou.</p><p>� Me desculpe, Olver. Eu tamb�m sempre odiava quando faziam isso comigo. Agora, o neg�cio � o seguinte: voc� est� fedendo, ent�o Edorion vai levar voc� at� a Cervo Dourado, onde a Senhora Daelvin vai deixar voc� tomar um banho. � A irrita��o no rosto de Olver cresceu. � Se ela falar alguma coisa, diga que fui eu quem mandou. Ela n�o vai poder impedir. � Mat conteve um sorriso diante do olhar espantado do garoto, aquilo poderia p�r tudo a perder. Olver talvez n�o gostasse da ideia de tomar um banho, mas se algu�m tentasse proibi-lo� � Agora fa�a o que Edorion mandar. Ele � um verdadeiro lorde taireno e vai arranjar um prato de comida quentinha para voc� e umas roupas sem furos. E uns sapatos. � Era melhor n�o acrescentar �e algu�m para cuidar de voc�. A Senhora Daelvin poderia dar um jeito nisso. Um pouco de ouro daria conta de qualquer relut�ncia.</p><p>� Eu n�o gosto de tairenos � resmungou Olver, franzindo o cenho primeiro para Edorion, depois para Mat. Edorion fechara os olhos e murmurava sozinho. � Ele � lorde de verdade? O senhor tamb�m � lorde?</p><p>Antes que Mat pudesse responder, Estean veio correndo pela multid�o, o rosto grumoso todo vermelho e empapado de suor. A placa peitoral amassada conservava alguns fragmentos da antiga gl�ria dourada e as tiras de cetim vermelho nas mangas amarelas do casaco estavam bem pu�das. Ele n�o parecia nem um pouco o filho do lorde mais rico de Tear. Por outro lado, jamais parecera.</p><p>� Mat. � O homem ofegava, metendo os dedos pelos cabelos ralos que insistiam em cair por sobre a testa. � Mat� no rio, l� embaixo�</p><p>� O qu�? � interrompeu Mat, irritado. Come�aria a mandar bordar �N�o sou um maldito lorde� em seus casacos. � Sammael? Os Shaido? A Guarda da Rainha? Os malditos Le�es Brancos? O qu�?</p><p>� Um navio, Mat � respondeu Estean, ofegante, remexendo o cabelo. � Um navio imenso. Acho que � do Povo do Mar.</p><p>Era improv�vel. Os Atha�an Miere nunca levavam os navios al�m do porto mais pr�ximo do mar aberto. Por�m� n�o havia muitas aldeias ao sul do Erinin e os carregamentos que os carro��es conseguiam levar escasseariam antes que o Bando chegasse a Tear. Ele j� tinha contratado embarca��es fluviais para acompanhar a trilha da marcha, mas um navio maior seria bastante �til.</p><p>� Cuide de Olver, Edorion � mandou, ignorando a careta do homem. � Estean, me leve a esse navio.</p><p>Estean assentiu com vigor. Teria voltado a correr em disparada se Mat n�o tivesse agarrado a manga de seu casaco para obrig�-lo a caminhar. Estean estava sempre ansioso e demorava a aprender, combina��o respons�vel pelos cinco hematomas que ele ostentava no corpo, todos causados pelo porrete da Senhora Daelvin.</p><p>O fluxo de refugiados crescia � medida que Mat se aproximava do rio, ambos em lentos movimentos sinuosos. Meia d�zia de barcas de ripas largas estava atracada ao cais, feito de vigas de madeira revestidas de piche, mas os remos haviam sido levados para longe e n�o havia um �nico tripulante � vista em nenhum deles. Os �nicos barcos em atividade eram meia d�zia de balsas fluviais, embarca��es robustas de um ou dois mastros que haviam feito uma parada r�pida antes de seguir o rio. Os tripulantes descal�os mal se mexiam nos barcos que Mat contratara. Os por�es estavam abarrotados, e os capit�es garantiam ter condi��es de navegar assim que ele emitisse a ordem. Pelas �guas do Erinin corriam embarca��es de proa larga e velas quadradas, navios estreitos de velas triangulares, mas nada que fizesse a passagem entre Maerone e Aringill, toda murada, onde estava exposto o Le�o Branco de Andor.</p><p>O estandarte tamb�m ondeava em Maerone, e os soldados andorianos que guardavam a cidade n�o tinham ficado felizes em deixar o Bando da M�o Vermelha entrar na cidade. Rand podia at� controlar Caemlyn, mas seu comando n�o se estendia � Guarda da Rainha nem �s unidades erguidas por Gaebril, como os Le�es Brancos. Eles agora estavam em algum ponto a oeste � pelo menos era naquela dire��o que haviam fugido, e qualquer boato que mencionasse bandidos podia ser obra deles �, mas o restante cruzara o rio depois das escaramu�as com o Bando. Desde ent�o, ningu�m cruzara o Erinin.</p><p>Mas a �nica coisa que Mat realmente viu foi um navio ancorado bem no meio do imenso rio. Era mesmo uma embarca��o do Povo do Mar, maior e mais comprida do que qualquer das fluviais, por�m de aspecto bem suave, com dois mastros inclinados. Silhuetas escuras subiam pelos cordames, umas de peitoral desnudo e cal�as largas que � dist�ncia pareciam pretas, outras usando as blusas de cores vivas comum �s mulheres. Metade da tripula��o, ou quase isso, parecia de mulheres. As imensas velas quadradas tinham sido puxadas, mas ainda pendiam em dobras frouxas, prontas para serem soltas a qualquer instante.</p><p>� Arrume um barco para mim � pediu a Estean. � E uns remadores. � Precisava lembrar isso a Estean. O taireno apenas piscou, surpreso, passando a m�o pelos cabelos. � Corra, homem! � Estean assentiu de repente e p�s-se a correr.</p><p>Mat caminhou at� a ponta do desembarcadouro mais pr�ximo, apoiou a lan�a no ombro e puxou a luneta do bolso do casaco. Quando p�s o tubo revestido de lat�o diante do olho, o navio pulou mais para perto. O Povo do Mar parecia estar � espera de algo� mas do qu�? Alguns olhavam na dire��o de Maerone, mas a maioria observava o lado oposto, inclusive o pessoal no tombadilho superior � onde deviam estar a Senhora das Velas e as outras oficiais do navio. Ele girou a luneta para o outro extremo do rio e avistou um bote a remos comprido e estreito com homens escuros remando, avan�ando em dire��o ao navio.</p><p>Havia alguma confus�o em um dos compridos cais de Aringill, quase id�nticos aos de Maerone. Casacos vermelhos com golas brancas e reluzentes placas peitorais indicavam a presen�a da Guarda da Rainha, que claramente recebia um grupo de pessoas que chegava do navio. O que fez Mat assobiar baixinho foi o par de para-s�is vermelhos entre os rec�m-chegados, um deles com dois andares. �s vezes aquelas antigas lembran�as eram bastante �teis: o para-sol de dois andares indicava a Mestra das Ondas de um cl�, e o outro, seu Mestre da Espada.</p><p>� Arrumei um barco, Mat � anunciou Estean, ofegante, por cima de seu ombro. � E uns remadores.</p><p>Mat virou a luneta de volta para o navio. Pela atividade no conv�s, estavam subindo a pequena embarca��o, mas alguns homens no cabrestante j� puxavam a �ncora para cima, e as velas j� estavam sendo sacudidas.</p><p>� Parece que eu n�o vou precisar � murmurou.</p><p>Do outro lado do rio, a delega��o dos Atha�an Miere desapareceu no desembarcadouro com uma escolta de guardas. Nada daquilo fazia sentido. Pessoas do Povo do Mar a novecentas milhas do mar. Apenas a Senhora dos Navios era mais importante que uma Mestra das Ondas; apenas o Mestre das L�minas era mais importante que um Mestre da Espada. N�o fazia sentido, n�o pelas lembran�as que tinha daqueles outros homens em sua mente. Mas eles <emphasis>eram</emphasis> velhos � Mat �lembrava� que se conhecia menos sobre os Atha�an Miere do que sobre qualquer povo, exceto os Aiel. Sabia mais sobre os Aiel por experi�ncia pr�pria do que por lembran�as, e isso j� era bem pouco. Talvez algu�m que conhecesse o Povo do Mar de hoje em dia pudesse entender o que estava havendo ali.</p><p>As velas j� ondeavam ao alto do navio, a �ncora ainda sendo puxada, encharcada de �gua, para a proa. Fosse l� o que tanto os apressava, parecia que n�o os levaria de volta ao mar. A embarca��o deslizou rio acima a uma velocidade crescente, tra�ando uma curva em dire��o � foz pantanosa do Alguenya, poucas milhas a norte de Maerone.</p><p>Bem, n�o tinha nada a ver com ele. Com uma �ltima olhadela pesarosa para o navio � aquela coisa poderia transportar mais do que todas as embarca��es menores que ele conseguira juntas �, Mat enfiou a luneta de volta no bolso e deu as costas para o rio. Estean ainda andava de um lado a outro, encarando-o.</p><p>� Pode dispensar os remadores, Estean � disse Mat, com um suspiro, e o taireno saiu pisando firme, resmungando sozinho e esfregando as m�os no cabelo.</p><p>Havia mais lama vis�vel desde a �ltima vez que fora at� o rio, alguns dias antes. Era s� uma nesga viscosa de menos de uma m�o de largura entre a �gua e a tirinha estreita de lama seca da margem, mas era prova de que mesmo um rio como o Erinin estava secando aos poucos. Nada a ver com ele. Pelo menos, nada que pudesse fazer a respeito. Deu meia-volta e retomou as rondas nas tavernas e nos sal�es. Era importante que nada parecesse fora do normal, naquele dia.</p><p>Quando o sol caiu, Mat j� estava de volta � estalagem Cervo Dourado, dan�ando com Betse, agora sem o avental, enquanto os m�sicos tocavam o mais alto que podiam. Dan�as regionais, dessa vez. As mesas tinham sido afastadas para dar lugar a seis ou oito casais. A noite trouxe um pouco de frio, mas s� em compara��o com o dia. Homens bebendo �s gargalhadas apinhavam os bancos, e as serventes corriam para levar sopa de carneiro, nabo e cevada �s mesas e manter cheias as canecas de cerveja e as ta�as de vinho.</p><p>Por mais surpreendente que fosse, as mulheres pareciam considerar a dan�a um descanso da tarefa de circular pelo sal�o com as bandejas. Pelo menos, todas sorriam avidamente quando chegava sua vez de enxugar o suor da face e tirar o avental para uma dan�a, embora suassem na mesma intensidade depois que a m�sica come�ava. Talvez a Senhora Daelvin tivesse acertado algum tipo de revezamento. Nesse caso, Betse era exce��o. A bela jovem s� servia vinho para Mat, s� dan�ava com Mat e a estalajadeira abria sorrisos enormes para o casal, como uma m�e no casamento da filha, o que deixava Mat constrangido. Na verdade, Betse dan�ava com ele at� lhe deixar os p�s e as panturrilhas doloridas, mas jamais interrompia o sorriso, os olhos brilhando de puro prazer. Exceto quando paravam para recuperar o f�lego, claro. Ou melhor, para ele recuperar o f�lego � a mo�a n�o parecia precisar. Assim que seus p�s paravam, a l�ngua disparava a galope. O mesmo, inclusive, acontecia quando ele tentava beij�-la: Betse sempre virava a cabe�a e exclamava sobre uma coisa ou outra, de modo que ele acabava por lhe beijar a orelha ou os cabelos, em vez de os l�bios. E ela sempre parecia se surpreender. Mat ainda n�o conseguira concluir se a mulher era muito tonta ou esperta demais.</p><p>O rel�gio j� marcava quase duas da manh� quando ele enfim disse a Betse que ia parar pela noite. A decep��o se estampou no belo rosto, e um biquinho apareceu. A mo�a tinha �nimo para dan�ar at� amanhecer. N�o estava s�: uma das servas mais velhas massageava um dos p�s, apoiada em uma parede, mas as outras pareciam t�o animadas e alertas quanto Betse. A maioria dos homens parecia exausta e os que se deixavam arrastar para longe dos bancos estampavam sorrisos petrificados, mas a maior parte apenas recusava a dan�a. Mat n�o entendia. Concluiu que devia ser porque, na dan�a, quase todo o esfor�o ficava a cargo dos homens, tendo de conduzir tantas levantadas e rodopios. Al�m do mais, as mulheres eram leves, pular de um lado a outro simplesmente consumia menos de sua energia. Piscando para uma servente corpulenta que rodopiava Estean pelo sal�o, em vez do contr�rio � o homem sabia dan�ar, esse talento ele tinha �, Mat apertou uma moeda de ouro na m�o de Betse, uma coroa andoriana bem gorda, para que ela comprasse algo bonito.</p><p>A mulher analisou a coroa por um instante, ent�o se p�s nas pontas dos p�s e o beijou de leve na boca, feito o ro�ar de uma pluma.</p><p>� Eu nunca enforcaria voc�, n�o importa o que fizesse. Dan�a comigo amanh�? � Antes que ele pudesse responder, a mulher deu uma risadinha e saiu em disparada, olhando-o por cima do ombro at� come�ar a tentar puxar Edorion para a �rea da dan�a. A Senhora Daelvin interceptou o casal e enfiando um avental nas m�os de Betse, apontou o polegar na dire��o da cozinha.</p><p>Mat mancou de leve ao andar at� a mesa encostada na parede dos fundos, onde Talmanes, Daerid e Nalesean haviam se escondido. Talmanes encarava a ta�a de vinho como se ali fosse encontrar respostas a quest�es profundas. Daerid, com um sorriso de orelha a orelha, observava Nalesean tentando se desvencilhar de uma servente roli�a de olhos cinza e cabelos castanho-claros sem querer admitir para a mo�a que estava com os p�s doloridos. Mat apoiou os punhos na mesa.</p><p>� O Bando segue para o sul ao amanhecer. � melhor voc�s come�arem a se aprontar.</p><p>Os tr�s o encararam, boquiabertos.</p><p>� Mas isso � daqui a algumas horas � protestou Talmanes.</p><p>� Vai levar esse tempo s� para tirar esses homens dos sal�es � disse Nalesean, ao mesmo tempo.</p><p>Estremecendo, Daerid sacudiu a cabe�a.</p><p>� Ningu�m vai dormir hoje � noite.</p><p>� Eu vou � respondeu Mat. � Algum de voc�s me acorde daqui a duas horas. Assim que amanhecer, quero todo mundo em marcha.</p><p>E foi assim que se viu montado em Pips, seu robusto cap�o marrom, � cinzenta luz da aurora, levando a lan�a na sela e o arco longo sob a cilha. Estava com o sono atrasado e uma dor atr�s dos olhos, observando o Bando da M�o Vermelha deixar Maerone. Todos os seis mil homens. Metade a cavalo, metade a p�, fazendo barulho o bastante para acordar os mortos. Apesar da hora, o povo se enfileirava nas ruas e olhava, atordoado, por detr�s das janelas.</p><p>O estandarte quadrado de franjas vermelhas do Bando guiava o caminho, uma m�o vermelha sobre um fundo branco, o lema bordado em carmesim logo abaixo: <emphasis>Dovie�andi se tovya sagain. �� hora de rolar os dados.� </emphasis>Nalesean, Daerid e Talmanes seguiam com o estandarte, dez homens montados batiam em atabales de lat�o com panos escarlate amarrados, e o mesmo n�mero de trombeteiros somavam floreios aos sons. Atr�s vinha a cavalaria de Nalesean, composta por uma mistura de cavaleiros tairenos e Defensores da Pedra, fidalgotes cairhienos ostentando <emphasis>con</emphasis> nas costas � os pequeninos estandartes que identificavam os oficiais de Cairhien � e servi�ais em seu encal�o, e um punhado de andorianos. Cada esquadr�o e tropa tinha seu pr�prio estandarte comprido exibindo a M�o Vermelha, uma espada e um n�mero. Mat os fizera sortear quem ficaria com cada n�mero.</p><p>A mistura causara certa reclama��o, ou mais do que isso, verdade fosse dita. No in�cio, os cavalos cairhienos seguiam Talmanes, e os tairenos, Nalesean. Os homens a p� desde sempre se configuraram um grupo heterog�neo. Tamb�m houvera reclama��es para que cada unidade tivesse o mesmo n�mero de homens, al�m de protestos quanto aos n�meros nas fl�mulas. Os lordes e os capit�es sempre reuniram o m�ximo de homens capazes de segui-los, e os grupos ficavam conhecidos como homens de Edorion, Meresin ou Alhandrin. Eles ainda faziam isso um pouco � por exemplo, os quinhentos de Edorion chamavam a si mesmos de Martelos de Edorion, n�o de Primeiro Esquadr�o �, mas Mat lhes incutira a no��o de que todos os homens pertenciam ao Bando, n�o �s na��es onde por acaso tivessem nascido, e quem n�o gostasse de fazer as coisas do jeito dele, que se sentisse livre para ir embora. O mais impressionante era que ningu�m tinha ido.</p><p>Era dif�cil entender por que ficavam. Sob a lideran�a dele os homens venciam, claro, mas alguns morriam. Tinha dificuldade de aliment�-los e garantir que o pagamento chegasse mais ou menos na �poca certa, e era bom que esquecessem a fortuna que alardeavam que iriam saquear. Ningu�m at� ent�o vira uma s� moeda daquela fortuna e ele n�o via grandes chances de que um dia isso fosse acontecer. Era loucura.</p><p>O Primeiro Esquadr�o ergueu um viva, que logo se alastrou pelo Quarto e o Quinto. Os Leopardos de Carlomin e as �guias de Reimon, como chamavam a si mesmos.</p><p>� Lorde Matrim e vit�ria! Lorde Matrim e vit�ria!</p><p>Se Mat tivesse uma pedra � m�o, teria jogado neles.</p><p>A infantaria vinha em seguida, serpenteante, cada companhia sob a cad�ncia de batuques de tambor e uma fl�mula comprida, esta com uma lan�a cruzada diante da m�o, em vez de uma espada. Eram vinte fileiras encrespadas com pontas de lan�a, seguidas por cinco de arqueiros ou besteiros. Cada companhia tamb�m tinha uma ou duas flautas, e entoavam uma can��o seguindo a melodia.</p><poem><stanza><v>� A noite toda beber, o dia todo dan�ar,</v><v>e com as garotas moedas gastar.</v><v>E quando tudo acabar, � hora de bailar</v><v>com Jak das Sombras.</v></stanza></poem><p>Mat ficou ouvindo a m�sica at� o primeiro homem da cavalaria de Talmanes aparecer, ent�o cravou os calcanhares nos flancos de Pips. N�o precisava esperar os carro��es de mantimentos na outra ponta, nem as fileiras de remontas. Entre aquele ponto e Tear, os cavalos ficariam mancos ou sofreriam mortes que os ferradores n�o teriam condi��es de impedir, e um cavaleiro sem cavalo n�o adiantava de muita coisa. No rio, sete pequenos navios vinham descendo devagar, debaixo de velas triangulares, um pouco mais ligeiros que a correnteza. Cada um ostentava uma pequena bandeira com a M�o Vermelha. Outras embarca��es tamb�m come�avam a zarpar, algumas rumando ligeiras para o sul, debaixo de toda a lona que podiam sustentar.</p><p>Assim que alcan�ou a dianteira da coluna, o sol enfim despontou por detr�s do horizonte, enviando os primeiros raios pelas fileiras de colinas e os matagais isolados. Mat puxou o chap�u para baixo, para proteger os olhos do brilho daquela nesga de luz. Nalesean cobriu a boca com o punho envolto em uma manopla, abafando um bocejo impressionante, e Daerid permaneceu sentado em sua sela, corcunda, as p�lpebras pesadas, como se fosse cair no sono ali mesmo. Apenas Talmanes mantinha as costas eretas, os olhos bem abertos e alerta. Mat sentia-se mais como Daerid.</p><p>Ainda assim, ergueu a voz para ser ouvido por cima dos tambores e trombetas.</p><p>� Enviem os batedores assim que estivermos fora das vistas da cidade. � Tanto a floresta quanto o descampado ficavam bem mais longe ao sul, mas uma estrada bem estabelecida entrecortava os dois. A maior parte do tr�fego seguia pela �gua, mas ao longo dos anos haviam passado por ali andarilhos e carro��es suficientes para demarcar uma trilha. � E fechem a matraca, que droga.</p><p>� Batedores? � repetiu Nalesean, espantado. � Que a minha alma queime, n�o tem ningu�m nem com uma lan�a em um raio de dez milhas, a n�o ser que voc� ache que os Le�es Brancos tenham parado de correr. E, se tiverem parado, n�o v�o avan�ar mais de cinquenta milhas se souberem que estamos por perto.</p><p>Mat ignorou o homem.</p><p>� Quero cobrir trinta e cinco milhas hoje. Quando conseguirmos cobrir trinta e cinco todos os dias, veremos quantas mais conseguimos for�ar. � Eles o encararam boquiabertos. Os cavalos n�o conseguiam manter esse ritmo por muito tempo e qualquer pessoa al�m dos Aiel considerava vinte e cinco milhas uma dist�ncia boa at� demais para se percorrer a p�. Mas Mat precisava jogar com a m�o que recebera. � Comadrin escreveu: �Ataquem por terra, de onde o inimigo n�o imagina, de um canto inesperado, em um momento inesperado. Armem defesas onde o inimigo n�o imagina, quando acredita que ter�o fugido. A surpresa � a chave da vit�ria, e a rapidez � a chave da surpresa. Para o soldado, a velocidade � vida.�</p><p>� Quem � Comadrin? � perguntou Talmanes, depois de um instante, e Mat precisou se aprumar para responder.</p><p>� Um general. Morreu h� muito tempo. Eu li um livro dele.</p><p>Lembrava-se de ter lido, pelo menos, e mais de uma vez. Duvidava de que ainda existisse alguma c�pia. Lembrava-se at� de ter conhecido Comadrin depois de perder uma batalha para ele, por volta de seiscentos anos antes de Artur Asa-de-gavi�o. Essas lembran�as lhe vinham � mente sem qualquer aviso. Pelo menos n�o falara na L�ngua Antiga, j� estava conseguindo evitar esse tipo de coisa.</p><p>Observando os batedores montados se dispersarem pela plan�cie ondulante ao longo do rio, Mat relaxou. Sua parte naquilo tudo havia come�ado, e de acordo com o plano. Uma partida afobada sem aviso pr�vio, como se estivesse tentando fugir sorrateiro para o sul, mas pomposa o suficiente para garantir que seria notada. A coisa toda o faria parecer um idiota, o que tamb�m era bom. Era boa ideia ensinar o Bando a se deslocar mais depressa � a rapidez poderia evitar o confronto �, e o avan�o certamente seria notado ao longo do rio, mesmo que ningu�m mais reparasse. Esquadrinhou o c�u: nenhum corvo ou gralha, o que n�o significava muita coisa. Nenhum pombo, tamb�m, mas Mat comeria a pr�pria sela se nenhum pombo tivesse sa�do de Maerone aquela manh�.</p><p>Dentro de no m�ximo alguns dias, Sammael saberia que o Bando estava chegando depressa e a not�cia que Rand espalhara em Tear teria deixado claro que a chegada de Mat sinalizava a invas�o iminente de Illian. Mesmo no melhor ritmo que o Bando fosse capaz de imprimir, levariam mais de um m�s para chegar a Tear. Com sorte, Sammael ficaria preso feito um piolho entre duas pedras antes que Mat sequer precisasse chegar a cem milhas de dist�ncia do Abandonado. Sammael veria todo o ataque se aproximando � ou quase todo �, mas aquela seria uma dan�a diferente da que ele imaginava. Diferente da dan�a que qualquer um al�m de Rand, Mat e Bashere imaginavam. Esse era o verdadeiro plano. Mat se pegou assobiando. Pela primeira vez, tudo sairia do jeito que esperava.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 6</p><p><image l:href="#22"/></p><p>Tramas urdidas em sombras</p></title><p>Cauteloso, Sammael pisou nos carpetes de seda florida, deixando o port�o aberto para caso fosse preciso recuar, mantendo-se firmemente agarrado a <emphasis>saidin</emphasis>. Costumava recusar reuni�es fora de territ�rios neutros � ou de seu pr�prio �, mas j� era a segunda vez que pisava ali. Quest�o de necessidade. Nunca fora de confiar nos outros, ainda mais desde que ouvira fragmentos do que se passara entre Demandred e as tr�s mulheres � e Graendal sem d�vida contara apenas o suficiente para se beneficiar de alguma forma. Ele compreendia: tinha seus pr�prios planos, desconhecidos pelos outros Escolhidos. Haveria apenas um Nae�blis, um pr�mio t�o valioso quanto a pr�pria imortalidade.</p><p>Sammael ficou parado sobre um palanque largo com parapeito de m�rmore em uma das extremidades. Mesas e cadeiras com entalhes trabalhados em ouro e marfim, algumas com detalhes bastante repulsivos, tinham sido dispostas no alto do palanque de modo a fornecer ampla vis�o de todo o restante do sal�o comprido e cheio de colunas, dez p�s abaixo. Nenhuma escada levava at� � imensa e extravagante arena para apresenta��es de espet�culos. O sol reluzia atrav�s das janelas altas, cujo vidro colorido fora montado em padr�es intrincados. O calor escaldante n�o penetrava o aposento. O ar ali estava frio, mas Sammael s� o sentia de leve. Graendal, assim como ele, n�o tinha necessidade alguma de tamanho esfor�o, mas era claro que faria alguma coisa rebuscada. Era uma surpresa ela n�o ter estendido a trama ao pal�cio inteiro.</p><p>Havia algo de diferente na parte inferior do aposento, desde sua �ltima visita, mas ele n�o conseguia distinguir o qu�. Viu tr�s piscinas rasas no centro do sal�o, cada uma com uma fonte � silhuetas esguias feitas de pedra, dando a impress�o de movimento � jorravam �gua quase at� as vigas de m�rmore entalhado do teto abobadado. Homens e mulheres brincavam nas piscinas, vestindo retalhos diminutos de seda, enquanto outros um pouco mais cobertos se apresentavam nas �reas laterais: acrobatas, malabaristas, dan�arinos de diversos estilos, m�sicos de flautas, trombetas, tambores e todo tipo de instrumento de corda. Gente de todos os tamanhos, de todos os tons de pele, cabelos e olhos, cada um com o f�sico mais perfeito que o outro. Tudo organizado para entreter quem estivesse em cima do palanque. Era uma idiotice. Desperd�cio de tempo e energia. T�pico de Graendal.</p><p>Quando adentrou o local, o palanque estava vazio, mas, com <emphasis>saidin</emphasis> a preench�-lo, sentiu o doce perfume de Graendal, o sopro de um jardim florido, e ouviu o suave ro�ar de suas sand�lias nos carpetes bem antes que ela se pronunciasse, atr�s dele.</p><p>� Meus bichinhos n�o s�o lindos?</p><p>A mulher juntou-se a ele no parapeito, abrindo um sorriso para o cen�rio abaixo. Seu delicado vestido azul � moda domanesa era colado ao corpo e mais revelava do que sugeria. Como de costume, ela usava an�is de pedras diferentes em cada dedo, al�m de quatro ou cinco braceletes com pedras preciosas em cada pulso. Um largo colar de imensas safiras repousava ao redor da gola alta do vestido. Sammael n�o entendia dessas coisas, mas suspeitou de que a mulher tivesse passado horas ajeitando os cachos dourados que tocavam seus ombros e as pedrinhas em forma de lua salpicadas neles. Aquela apar�ncia displicente tra�a um certo toque de precis�o.</p><p>Sammael �s vezes se questionava a respeito da mulher. S� a conhecera depois de escolher abandonar uma causa perdida e juntar-se ao Grande Senhor, mas todos sabiam quem ela era � famosa, honrada, asceta dedicada, cuidando das pessoas de mente perturbada que a Cura era incapaz de tocar. Naquele primeiro encontro, quando Graendal aceitou o compromisso inicial de Sammael para com o Grande Senhor, cada tra�o da benfeitora comedida tinha sumido, como se ela passasse deliberadamente a ser o oposto de tudo o que fora. Ao que parecia, a mulher s� se dedicava ao pr�prio prazer, quase ocultando um desejo de humilhar qualquer um que possu�sse uma part�cula de poder. Isso, por sua vez, quase ocultava sua pr�pria sede de poder, que ela quase nunca demonstrava abertamente. Graendal sempre tivera muito talento para ocultar segredos � vista de todos. Sammael acreditava conhec�-la melhor do que todos os outros Escolhidos � a mulher o acompanhara at� Shayol Ghul para prestar sua homenagem ao Grande Senhor �, mas nem mesmo ele conhecia todas as suas nuances. Graendal tinha tantos lados obscuros quanto um <emphasis>jegal</emphasis> tinha escamas, e passava de um a outro com a rapidez de um raio. Naquela �poca, ela era a senhora � e ele, o ac�lito, apesar de todas as suas realiza��es como general. Agora era diferente.</p><p>Nenhum dos banhistas ou artistas olhava para cima, mas a chegada dela os deixou mais vivazes, mais graciosos � se � que tal coisa era poss�vel �, tentando exibir-se melhor. Aquelas pessoas viviam para agrad�-la. Graendal garantia que assim fosse.</p><p>Ela apontou para um grupo de quatro acrobatas, um homem de cabelo escuro sustentando tr�s mulheres esguias, as peles acobreadas besuntadas e brilhosas.</p><p>� Acho que esses s�o os meus preferidos. Ramsid � irm�o do rei doman�s. A mulher apoiada em seus ombros � esposa de Ramsid, as outras duas s�o a irm� mais nova e a filha mais velha do rei. Voc� n�o acha incr�vel o que se pode aprender com o est�mulo apropriado? Imagine a quantidade de talentos desperdi�ados.</p><p>Aquele era um dos conceitos preferidos da mulher. Um lugar para cada um e cada um em seu lugar, de acordo com os talentos pessoais e as necessidades da sociedade. Que pareciam sempre girar em torno dos desejos da pr�pria Graendal. Sammael achava aquilo entediante. Se essas regras tivessem sido aplicadas a ele, ainda estaria no mesmo posto.</p><p>O acrobata virou-se lentamente para que os dois vissem bem a cena. De bra�os abertos, o homem equilibrava uma mulher em cada m�o, enquanto as duas seguravam as m�os da terceira, que ele sustentava nos ombros. Graendal j� seguira para a atra��o seguinte, um homem de pele bem escura e uma mulher de cabelos cacheados, ambos muito bonitos. A bela dupla tocava harpas estranhas e alongadas, com sinos que ressoavam ecos cristalinos ao movimento das cordas.</p><p>� Minhas mais recentes aquisi��es, das terras al�m do Deserto Aiel. Deviam me agradecer por t�-los resgatado. Chiape era Sh�boan, uma esp�cie de imperatriz, rec�m-enviuvada, e Shaofan estava prestes a casar-se com ela e se tornar Sh�botay. Ela governaria absoluta durante sete anos, depois morreria. Ele, ent�o, escolheria uma nova Sh�boan e reinaria absoluto at� morrer, dali a mais sete anos. Esse ciclo durou quase tr�s mil anos ininterruptos. � Graendal soltou uma risadinha e balan�ou a cabe�a, pensativa. � Shaofan e Chiape insistem que as mortes s�o naturais. Vontade do Padr�o, como eles chamam. Para eles, tudo � a Vontade do Padr�o.</p><p>Sammael manteve os olhos nas pessoas abaixo. Graendal tagarelava feito uma tola, mas s� outro tolo para acreditar em sua ingenuidade. Tudo o que ela parecia deixar escapar sem querer no meio das baboseiras era plantado com o cuidado de uma agulha <emphasis>conje</emphasis>. O segredo era descobrir por que ela revelava aquelas coisas e o que pretendia ganhar com isso. Por que Graendal de repente resolvera buscar bichinhos de estima��o t�o longe? Ela quase nunca optava por fazer muito esfor�o. Estaria tentando faz�-lo pensar que tinha algum interesse pelas terras al�m do Deserto, s� para desviar a aten��o dele? O campo de batalha era ali. Ali seria o primeiro lugar a receber o toque do Grande Senhor, depois de liberto. O resto do mundo seria fustigado pelas rebarbas das tempestades, at� mesmo assolado, mas as tempestades teriam origem ali.</p><p>� J� que tanta gente da fam�lia do rei doman�s obteve sua aprova��o � come�ou ele, em um tom seco �, fico surpreso por n�o haver outros. � Se Graendal queria desviar a aten��o de Sammael, ela daria um jeito de retomar o assunto. A mulher nunca achava que algu�m pudesse conhecer seus truques a ponto de poder enxerg�-los.</p><p>Uma mulher esguia de cabelos escuros, n�o muito jovem, mas que ostentava o tipo de eleg�ncia e beleza que a acompanhariam por toda a vida, surgiu a seu lado com um c�lice de cristal cheio de ponche de vinho tinto nas m�os. Sammael apanhou o c�lice, embora n�o tivesse inten��o de beber. Novatos sempre cansavam os pr�prios olhos � espera de uma grande investida, mas acabavam por se deixarem surpreender pelo assassino solit�rio que atacava pelas costas. As alian�as, por mais que fossem tempor�rias, estavam indo muito bem, mas quanto menos Escolhidos continuassem vivos no Dia do Retorno, maiores as chances de um dos sobreviventes ser nomeado Nae�blis. O Grande Senhor sempre encorajara essa� competi��o. Apenas os mais aptos eram dignos de servir. �s vezes, Sammael acreditava que aquele que governaria o mundo para sempre seria o �ltimo dos Escolhidos a permanecer de p�.</p><p>A mulher se virou para um jovem musculoso que segurava uma bandeja dourada com outro c�lice, combinando com uma jarra comprida. Ambos usavam mantos brancos di�fanos, e nenhum deu aten��o para o port�o que levava aos aposentos de Sammael, em Illian. Quando a mulher serviu Graendal, seu rosto era um retrato de pura adora��o. Graendal nunca via problema em falar o que fosse na frente de seus servi�ais e bichinhos de estima��o, embora n�o houvesse um �nico Aliado das Trevas entre eles. A mulher n�o confiava em Aliados das Trevas, considerava-os muito vol�veis, mesmo que o n�vel de Compuls�o usado naqueles que a serviam pessoalmente deixasse pouco espa�o para qualquer coisa al�m de adora��o.</p><p>� Imagino que daqui a pouco verei o pr�prio rei aqui servindo vinho � comentou Sammael.</p><p>� Voc� sabe que eu s� seleciono os melhores. Alsalam n�o est� � altura do meu padr�o. � Graendal tomou o vinho da m�o da mulher sem nem olh�-la, e, n�o pela primeira vez, Sammael se perguntou se os bichinhos de estima��o n�o seriam uma defesa, assim como o falat�rio. Um pouco de est�mulo poderia faz�-la soltar alguma coisa.</p><p>� Cedo ou tarde voc� vai escorregar, Graendal. Um de seus visitantes vai reconhecer algu�m que lhe sirva vinho ou recuse dividir a sua cama. E vai ter o bom senso de segurar a l�ngua at� a hora de ir embora. O que voc� vai fazer se algu�m invadir este pal�cio com um ex�rcito para resgatar um marido ou uma irm�? Uma flecha pode n�o ser o mesmo que uma lan�a de choque, mas ainda pode ser letal.</p><p>A mulher jogou a cabe�a para tr�s e soltou uma risada alegre e bem-humorada, obviamente fr�vola demais para ter percebido o insulto. Ou � o que pareceria, se a pessoa n�o a conhecesse.</p><p>� Ah, Sammael, por que eu deixaria que vissem qualquer coisa al�m do que quero que vejam? � claro que n�o mando meus bichinhos servirem os outros. Os partid�rios de Alsalam, seus oponentes e at� os Devotos do Drag�o saem daqui pensando que apoio apenas eles e mais ningu�m. E n�o querem incomodar uma inv�lida.</p><p>Ele sentiu um leve arrepio na pele quando Graendal canalizou, e, por um instante, a imagem dela mudou. Sua pele ficou acobreada mas opaca, e seus olhos e cabelos ficaram escuros, por�m inexpressivos. A mulher parecia fr�gil e encovada, uma domanesa outrora bela, aos poucos perdendo uma batalha contra a doen�a. Sammael quase n�o p�de evitar fazer uma careta. Um toque comprovaria que os contornos ossudos daquele rosto n�o eram dela � apenas o emprego mais refinado de Ilus�o passaria ao teste. Por�m, Graendal n�o conseguia abandonar a exuber�ncia. No instante seguinte, voltou ao normal, exibindo um sorriso ir�nico.</p><p>� Voc� n�o acreditaria em como todos eles confiam em mim e levam em considera��o o que tenho a dizer.</p><p>Sammael nunca deixava de se espantar com a escolha dela em permanecer ali, em um pal�cio conhecido por toda Arad Doman, rodeada por guerra civil e anarquia. Claro que n�o pensava que ela tivesse revelado aos outros Escolhidos onde se estabelecera. E ficava receoso da confian�a que a mulher depositara nele ao inform�-lo. Graendal gostava de conforto, mas nunca queria ter muito trabalho para mant�-lo. Aquele pal�cio, no entanto, estava � vista das Montanhas da N�voa, e era necess�rio um esfor�o consider�vel para manter a desordem afastada, a fim de evitar que perguntassem aonde foram parar o antigo dono, sua fam�lia e seus servi�ais. Sammael n�o ficaria surpreso em descobrir que cada doman�s que visitasse o lugar sa�sse dali acreditando que aquela terra pertencia � fam�lia dela desde a Ruptura. A mulher usava a Compuls�o �s marteladas, e com tanta frequ�ncia que n�o era incomum esquecerem que ela podia manejar o Talento de formas mais brandas com grande maestria, enredando os caminhos de uma mente de forma t�o sutil que at� o exame mais atento deixaria de notar os vest�gios. Talvez Graendal fosse a pessoa mais competente no uso da Compuls�o que j� existira.</p><p>Deixou o port�o desaparecer, mas agarrou-se a <emphasis>saidin.</emphasis> Os truques dela n�o funcionariam em um homem envolto pela Fonte. E a verdade era que ele gostava de lutar pela sobreviv�ncia, embora j� nem reparasse mais. Apenas os mais fortes mereciam sobreviver, e ele comprovava a pr�pria aptid�o todos os dias naquela batalha. A mulher n�o tinha como saber que ele ainda se agarrava a <emphasis>saidin</emphasis>, mas sorriu de leve para o c�lice, como se soubesse. Sammael detestava quando as pessoas fingiam saber algo que desconheciam tanto quanto odiava quando elas sabiam algo que ele desconhecia.</p><p>� O que voc� tem para me contar? � perguntou, em um tom mais r�spido do que o pretendido.</p><p>� Sobre Lews Therin? Voc� parece n�o se interessar por mais nada. Ah, como ele daria um bom bichinho. Eu faria dele o centro de todas as exibi��es. N�o que seja bonito o suficiente, claro, mas vale a pena por ele ser quem �. � Ela sorriu outra vez para o c�lice e acrescentou, em um murm�rio que teria sido inaud�vel se ele n�o estivesse de posse de <emphasis>saidin</emphasis>: � E eu gosto dos altos.</p><p>Sammael se conteve para n�o se espichar o m�ximo poss�vel. N�o era um homem baixo, mas se ressentia por sua altura n�o se equiparar �s suas capacidades. Lews Therin tinha sido uma cabe�a mais alto que ele, assim como al�Thor. Era comum a presun��o de que os mais altos eram melhores. Teve que se conter ainda mais para n�o tocar a cicatriz enviesada que marcava seu rosto, da linha do cabelo at� a barba bem-aparada. Fora obra de Lews Therin, e Sammael a conservava como lembrete. Suspeitava de que a mulher tivesse confundido a pergunta dele de prop�sito, para atorment�-lo.</p><p>� Lews Therin morreu h� muito tempo � respondeu ele, em um tom duro. � Rand al�Thor � um fazendeiro arrogante, n�o passa de um roceiro que teve sorte na vida.</p><p>Graendal ficou sem rea��o, como se estivesse surpresa.</p><p>� Acha mesmo? N�o pode ser apenas obra da sorte. A sorte n�o o levaria t�o longe, t�o depressa.</p><p>Sammael n�o tinha ido at� l� para falar sobre al�Thor, mas sentiu um frio congelante na espinha. Pensamentos que se for�ara a abandonar retornaram em uma torrente. Al�Thor n�o era Lews Therin, mas al�Thor era a alma de Lews Therin renascida, assim como o pr�prio Lews Therin tinha sido o renascimento daquela alma. Sammael n�o era fil�sofo nem te�logo, mas Ishamael fora as duas coisas e afirmava haver segredos divinos escondidos naquele fato. Era verdade que Ishamael morrera louco, mas, mesmo enquanto ainda estava s�o, na �poca em que a derrota de Lews Therin Telamon parecia garantida, afirmava que aquela luta acontecia desde a Cria��o, uma guerra intermin�vel entre o Grande Senhor e o Criador, tudo por meio de representantes humanos. E mais: declarava abertamente que o Grande Senhor gostaria tanto de trazer Lews Therin para a Sombra quanto de se libertar. Talvez Ishamael j� estivesse meio louco na �poca, mas houvera esfor�os para trazer Lews Therin para a Sombra. E Ishamael dizia que o mesmo havia acontecido antes, que o campe�o do Criador passara a ser uma criatura da Sombra e fora erguido como campe�o da Sombra.</p><p>Havia implica��es perturbadoras naquelas alega��es, ramifica��es que Sammael n�o queria considerar. Mas o que martelava fundo em sua mente era a possibilidade de o Grande Senhor de fato querer tornar al�Thor Nae�blis. Algo que n�o poderia acontecer sozinho. Al�Thor precisaria de ajuda. Ajuda� isso poderia explicar sua suposta sorte at� ent�o.</p><p>� Voc� descobriu onde al�Thor est� escondendo Asmodean? Ou qualquer coisa sobre o paradeiro de Lanfear? Ou de Moghedien?</p><p>Naturalmente, Moghedien sempre permanecia escondida. A Aranha sempre dava as caras quando todos acreditavam que ela finalmente estava morta.</p><p>� Voc� sabe tanto quanto eu � respondeu Graendal, em um tom displicente, fazendo uma pausa para bebericar o ponche. � Na minha opini�o, Lews Therin matou todos. Ah, n�o me venha com caretas. Al�Thor, j� que insiste. � O pensamento n�o parecia incomod�-la, mas, por outro lado, ela jamais se veria em conflito aberto com al�Thor. Nunca fora esse o seu jeito de proceder. Se al�Thor algum dia a descobrisse, Graendal simplesmente abandonaria tudo e se estabeleceria em outro canto� ou se renderia antes que ele desferisse o primeiro golpe, depois tentaria convenc�-lo de que era indispens�vel. � H� rumores em Cairhien sobre Lanfear ter sido morta pelas m�os de Lews Therin no mesmo dia em que ele matou Rahvin.</p><p>� Rumores! Lanfear tem ajudado al�Thor desde o in�cio, se voc� quer saber. Eu o teria degolado na Pedra de Tear, mas algu�m enviou Myrddraal e Trollocs para salv�-lo! Foi Lanfear, tenho certeza. Estou farto dela. Da pr�xima vez que a vir, vou mat�-la! E por que ele mataria Asmodean? Eu mesmo faria isso, se o encontrasse, mas ele se bandeou para o lado de al�Thor. Estava instruindo al�Thor no uso do Poder!</p><p>� Voc� sempre tem uma desculpa para as suas falhas � comentou ela, a boca junto ao c�lice de ponche, outra vez em um tom baixo demais para que ele pudesse ter ouvido sem ajuda de <emphasis>saidin</emphasis>. Depois prosseguiu, mais alto: � Escolha suas pr�prias explica��es para o que aconteceu, se desejar. Voc� pode at� estar certo. S� sei que Lews Therin parece estar nos tirando do jogo, um a um.</p><p>A m�o de Sammael tremeu de raiva, quase derramando um pouco do ponche antes que conseguisse se controlar. Rand al�Thor <emphasis>n�o era </emphasis>Lews Therin. Ele pr�prio sobrevivera ao grande Lews Therin Telamon, espalhando louvores por vit�rias que n�o poderia ter conquistado sozinho e torcendo para que todos acreditassem. Seu �nico arrependimento era que o homem n�o tivesse deixado uma cova onde ele pudesse cuspir.</p><p>Balan�ando os dedos cheios de an�is no compasso de uma m�sica que vinha l� de baixo, Graendal comentou, distra�da, como se sua aten��o de fato estivesse na melodia.</p><p>� Tantos de n�s morremos ao confront�-lo. Aginor e Balthamel. Ishamael, Be�lal e Rahvin. E tamb�m Lanfear e Asmodean, n�o importa no que voc� acredite. E talvez at� Moghedien. Ela pode estar se esgueirando pelas sombras, esperando o restante de n�s cair� ela � idiota o bastante para tentar uma coisa dessas. Eu realmente espero que voc� tenha um lugar preparado para onde fugir. N�o resta d�vidas de que voc� � o pr�ximo na lista dele. E ele n�o vai demorar, eu diria. N�o vou enfrentar nenhum ex�rcito aqui, mas Lews Therin est� reunindo um bastante grande para mandar atr�s de voc�. � o pre�o que se paga por n�o se contentar em ter o poder, querendo tamb�m ser <emphasis>visto</emphasis> como poderoso.</p><p>Sammael, de fato, fizera alguns preparativos para o caso de ter que bater em retirada � era no m�nimo uma medida prudente �, mas ouvir Graendal professar em alto e bom som a certeza dessa necessidade o deixou enfurecido.</p><p>� Ent�o, se eu destruir <emphasis>al�Thor</emphasis>, n�o estarei violando nenhuma ordem do Grande Senhor. � Ele n�o entendia. Mas n�o era necess�rio entender o Grande Senhor, apenas obedecer a ele. � Pelo que voc� me contou. Se tiver encoberto algum detalhe�</p><p>Os olhos de Graendal se transformaram em duas pedras de gelo. Ela podia sempre querer evitar conflitos, mas n�o gostava de amea�as. No instante seguinte, j� era toda sorrisos vazios outra vez. Inst�vel como o tempo em M�jinn.</p><p>� Demandred me disse o que o Grande Senhor disse a ele, e � o que estou repassando a voc�, Sammael. Cada palavra. Duvido de que at� mesmo ele ousasse mentir em nome do Grande Senhor.</p><p>� Mas voc� me disse muito pouco sobre o que ele planeja fazer � retrucou Sammael, baixinho. � Ele, ou Semirhage, ou Mesaana. Praticamente nada.</p><p>� Eu disse o que sei. � Ela soltou um suspiro irritado. Talvez estivesse dizendo a verdade. Parecia desgostosa por n�o saber. Talvez. Com Graendal, tudo e qualquer coisa poderia ser encena��o. � Quanto ao resto� pense no passado, Sammael. Costum�vamos maquinar uns contra os outros quase com a mesma veem�ncia com que combat�amos Lews Therin, e ainda assim est�vamos levando a melhor, at� que ele nos apanhou reunidos em Shayol Ghul. � Ela estremeceu, e por um instante seu rosto pareceu abatido. Sammael tamb�m n�o queria se lembrar daquele dia, nem do que veio depois: um sono sem sonhos enquanto o mundo se transformava at� ficar irreconhec�vel, e tudo o que ele produzira desaparecia. � Agora despertamos em um mundo onde dever�amos estar t�o acima dos meros mortais quanto se f�ssemos de outra esp�cie� e estamos morrendo. Esque�a-se por um instante de quem vai ser o Nae�blis. Al�Thor, j� que voc� insiste em cham�-lo assim� al�Thor, quando despertamos, estava indefeso como um beb�.</p><p>� Ishamael n�o pensava assim � respondeu Sammael.</p><p>Claro, Ishamael <emphasis>estava</emphasis> louco naquela �poca� mas Graendal apenas continuou como se ele n�o tivesse retrucado:</p><p>� N�s agimos como se este fosse o mundo que conhecemos, s� que nada � o que conhecemos. Um a um, estamos morrendo, e al�Thor s� se fortalece. E vai arrebanhando povos e na��es. A imortalidade � minha. Eu n�o quero morrer.</p><p>� Se est� com medo dele, ent�o mate-o.</p><p>Se pudesse, Sammael teria engolido de volta as palavras antes que sa�ssem todas da boca.</p><p>O rosto de Graendal se contorceu em uma careta de desprezo e incredulidade.</p><p>� Eu sirvo ao Grande Senhor e obede�o, Sammael.</p><p>� Bem como eu. Bem como qualquer um de n�s.</p><p>� Que bondade a sua, dignar-se a ficar de joelhos diante de nosso Mestre. � A voz dela era g�lida como o sorriso, e a express�o dele se tornou sombria. � S� estou dizendo que Lews Therin � t�o perigoso agora quanto no tempo dele. Medo? Sim, estou com medo. Pretendo viver para sempre, e n�o ter o mesmo destino de Rahvin!</p><p>� <emphasis>Tsag!</emphasis> � A palavra de baixo cal�o a fez piscar, surpresa, e encar�-lo de verdade. � Al�Thor� al�Thor, Graendal! Um garoto ignorante, seja l� o que Asmodean consiga ensinar a ele! Um grosseir�o primitivo que provavelmente ainda considera imposs�veis nove em cada dez fatos que eu e voc� j� estamos cansados de saber! Al�Thor arranca rever�ncias de uns poucos lordes e acha que conquistou uma na��o. Ele n�o tem a determina��o para cerrar os punhos e conquist�-las de verdade. S� os Aiel� <emphasis>Bajad drovja!</emphasis> Quem iria imaginar que mudariam tanto? � Precisava se controlar. Nunca praguejava daquele jeito, considerava sinal de fraqueza. � Apenas eles o acompanham de verdade, e nem todos. Al�Thor est� por um fio, e, de um jeito ou de outro, vai acabar caindo.</p><p>� Ser�? E se ele�? � Ela hesitou, erguendo o c�lice t�o depressa que derrubou um pouco de ponche no pulso, ent�o bebeu quase tudo. A elegante servi�al veio correndo com a jarra de cristal. Graendal estendeu o c�lice para ser preenchido e prosseguiu, sem f�lego. � Quantos de n�s vamos morrer antes que isso acabe? Precisamos nos unir como nunca fizemos antes.</p><p>N�o era isso o que Graendal come�ara a dizer. Sammael ignorou o arrepio gelado que outra vez lhe percorreu a espinha. Al�Thor n�o seria escolhido como Nae�blis. N�o seria! Ent�o ela queria que eles se unissem, n�o era?</p><p>� Ent�o vamos fazer um elo. N�s dois unidos ser�amos mais do que p�reo para al�Thor. Que esse seja o in�cio de nossa nova parceria. � A cicatriz se esticou quando ele abriu um sorriso, notando a s�bita impassibilidade no rosto de Graendal. O elo teria de partir da mulher, mas, sendo apenas os dois, Graendal teria de confiar a ele o controle da situa��o e a decis�o de quando finalizar a conex�o. � Pois bem. Parece que vamos continuar como antes. � Verdade fosse dita, jamais houvera qualquer d�vida a respeito. Nenhum dos dois possu�a o dom da confian�a. � O que mais voc� tem a me dizer? � Essa era a raz�o pela qual ele fora at� l�, n�o para escutar baboseiras sobre Rand al�Thor. Dariam um jeito em al�Thor. Direta ou indiretamente.</p><p>A mulher o encarou, empertigada, os olhos cintilando de animosidade. Por fim, disse:</p><p>� Muito pouco. � Graendal n�o se esqueceria de que ele a vira perder o controle. Sua voz n�o revelava a menor raiva. O tom era suave, at� informal. � Semirhage perdeu a �ltima reuni�o. N�o sei por qu�, e n�o acho que Mesaana ou Demandred saibam. Mesaana ficou particularmente aborrecida, embora tenha tentado esconder. Ela acredita que logo Lews Therin estar� nas nossas m�os, mas, por outro lado, Mesaana sempre diz isso. Ela tinha certeza de que Be�lal iria mat�-lo ou captur�-lo em Tear, estava muito orgulhosa daquela armadilha. Demandred pede que voc� tenha cuidado.</p><p>� Ent�o Demandred sabe que eu e voc� nos encontramos � comentou Sammael, impass�vel. Por que esperara receber algo menos que migalhas, daquela mulher?</p><p>� � claro que sabe. N�o faz ideia de quanto eu lhe conto, mas sabe que conto uma parte. Estou tentando nos unir, Sammael, antes que seja�</p><p>Ele a interrompeu de repente.</p><p>� Entregue um recado meu a Demandred. Diga que eu sei o que ele est� tramando. � Os acontecimentos do sul traziam a marca de Demandred, que sempre gostara de agir por representantes. � Diga a <emphasis>ele</emphasis> que tome cuidado. N�o vou admitir que ele ou que seus <emphasis>amigos</emphasis> interfiram em meus planos. � Talvez pudesse direcionar a aten��o de al�Thor para l�. Isso decerto daria um fim nele. Se n�o fosse poss�vel por outros meios. � Contanto que fiquem longe de mim, os lacaios de Demandred podem escavar o que ele quiser, mas quero que mantenham dist�ncia, ou ele � quem vai responder por isso. � Houvera uma longa luta depois que a Fenda foi aberta na pris�o do Grande Senhor, muitos anos antes de ser reunida for�a suficiente para um movimento declarado. Desta vez, quando o �ltimo selo fosse destru�do, Sammael presentearia o Grande Senhor com na��es dispostas a segui-lo. Que diferen�a faria se n�o soubessem a quem estavam seguindo? Sammael n�o falharia, como Be�lal e Rahvin. O Grande Senhor veria quem o servia melhor. � Diga a ele!</p><p>� Se � o que voc� deseja � respondeu Graendal, dando um sorriso relutante. Um instante depois, aquele sorriso indolente retornou a seu rosto. Ela estava sempre mudando de express�o. � Essas amea�as me esgotam. Venha. Escute a m�sica e se acalme. � Sammael come�ou a dizer que n�o tinha interesse na m�sica, como ela sabia muito bem, mas a mulher se voltou para o parapeito de m�rmore. � L� est�o eles. Escute.</p><p>O homem de pele muito escura e a mulher tinham ido at� o p� do palanque com suas harpas peculiares. Sammael imaginou que os carrilh�es acrescentassem algo � melodia, mas n�o sabia dizer o qu�. Ao ver que Graendal os observava, os m�sicos abriram um sorriso reverente.</p><p>Apesar de t�-lo mandado escutar a m�sica, Graendal continuou falando.</p><p>� Eles v�m de um lugar bem peculiar. As mulheres capazes de canalizar s�o for�adas a se casarem com filhos de mulheres com a mesma capacidade, e todas as pessoas dessas linhagens s�o marcadas com tatuagens no rosto logo ao nascer. Ningu�m marcado tem permiss�o de se casar com algu�m n�o marcado, e qualquer crian�a que nas�a de tal uni�o � morta. Os homens tatuados s�o mortos no vig�simo primeiro ano de vida, sem exce��o, e passam a vida enclausurados, sem nem sequer aprender a ler.</p><p>Ent�o ela voltara ao assunto, afinal de contas. Devia mesmo consider�-lo um idiota. Sammael decidiu plantar sua pr�pria farpinha.</p><p>� Eles prendem uns aos outros feito criminosos?</p><p>Um lampejo de confus�o assomou o olhar de Graendal, mas foi logo suprimido. Era evidente que a mulher n�o pensara no assunto � n�o havia por que ter pensado naquela rela��o. Pouca gente da �poca deles cometera sequer um crime violento, muito menos uma quantidade maior de infra��es. Antes da Fenda, pelo menos. Mas claro que a mulher n�o admitia a pr�pria ignor�ncia. Em alguns momentos era melhor disfar�ar a falta de conhecimento, mas Graendal costumava n�o fazer exce��es � regra. Por isso Sammael fizera o coment�rio: sabia que aquilo a afetaria, e seria uma �tima puni��o pelas asneiras que ela n�o cansava de despejar em seus ouvidos.</p><p>� N�o � respondeu a mulher, como se tivesse entendido. � Os Ayyad, como se denominam, vivem em seus vilarejos, evitando todas as outras pessoas, e supostamente nunca canalizam sem permiss�o ou por ordem dos Sh�botay ou Sh�boan. Na verdade, eles s�o o verdadeiro poder, s�o a raz�o pela qual os Sh�botay e Sh�boan s� governam durante sete anos. � Graendal irrompeu em uma sonora gargalhada. Ela pr�pria sempre acreditara que o melhor era ser o poder por tr�s do poder. � Pois sim, uma terra fascinante. Longe demais do centro para ser de alguma valia durante muitos anos, � claro. � A mulher fez um gesto sutil de dispensa, abanando os dedos cheios de an�is. � Teremos muito tempo para ver o que pode ser feito de l�, depois do Dia do Retorno.</p><p>Sim, Graendal obviamente queria induzi-lo a pensar que tinha algum interesse naquele lugar. Se de fato tivesse, nunca o teria mencionado. Sammael p�s o c�lice intocado na bandeja que o sujeito musculoso estendeu para ele antes mesmo que movesse a m�o. Graendal treinava muito bem os servi�ais.</p><p>� Tenho certeza de que a m�sica deles � fascinante. � Para quem se interessava por esse tipo de coisa. � Mas tenho uns preparativos para coordenar.</p><p>Graendal pousou a m�o no bra�o dele.</p><p>� Preparativos meticulosos, eu creio? O Grande Senhor n�o vai gostar nem um pouco se voc� atrapalhar os planos dele.</p><p>Sammael comprimiu os l�bios.</p><p>� Eu fiz tudo para convencer al�Thor de que n�o represento amea�a alguma, s� faltou me render, mas o homem est� obcecado.</p><p>� Voc� poderia abandonar Illian, recome�ar em algum outro lugar.</p><p>� N�o! � Ele nunca fugira de Lews Therin, e n�o fugiria daquele buf�o provinciano. O Grande Senhor n�o podia estar pretendendo colocar um sujeito daquele naipe acima dos Escolhidos. Acima dele! � Voc� me passou as ordens do Grande Senhor?</p><p>� N�o gosto de ficar me repetindo, Sammael. � Sua voz guardava um toque de exaspera��o, e os olhos, certa raiva. � Se n�o acreditou em mim da primeira vez, n�o vai acreditar agora.</p><p>Ele a encarou por mais um instante, depois assentiu em um gesto brusco. Era muito prov�vel que a mulher tivesse dito a verdade � mentir a respeito do Grande Senhor poderia causar um contra-ataque fatal.</p><p>� N�o vejo motivo para nos encontrarmos outra vez at� que voc� tenha algo a me contar, al�m da aus�ncia de Semirhage. � Um breve olhar intrigado para os harpistas devia ser suficiente para faz�-la crer que a tentativa de desviar o foco do assunto fora bem-sucedida. Para n�o ficar muito �bvio, Sammael transformou o olhar em uma express�o de desaprova��o para as pessoas que brincavam nas piscinas, os acrobatas e os outros. Todo aquele esfor�o despendido, toda aquela exibi��o de carne� tudo aquilo o enojava. � Da pr�xima vez, voc� pode ir a Illian.</p><p>Graendal deu de ombros, como se aquilo n�o importasse, mas moveu os l�bios bem de leve � a audi��o dele, intensificada por <emphasis>saidin</emphasis>, captou �isso se voc� ainda estiver l�.</p><p>Com frieza, Sammael abriu um port�o de volta a Illian. O jovem musculoso n�o conseguiu se mover r�pido o bastante � sequer teve tempo de gritar antes de morrer fatiado em dois, bem no meio, junto com a bandeja e a jarra de cristal. A borda de um port�o fazia uma navalha parecer uma l�mina cega. Graendal franziu os l�bios em um biquinho rabugento pela perda de um de seus bichinhos.</p><p>� Se quiser nos ajudar a permanecer vivos � disse Sammael �, descubra como Demandred e os outros pretendem levar adiante as instru��es do Grande Senhor. � Sem desviar o olhar, ele adentrou o port�o.</p><empty-line/><p>Graendal manteve a express�o contrariada at� que o port�o se fechasse atr�s de Sammael, depois permitiu-se tamborilar com as unhas no parapeito de m�rmore. Sammael, com seus cabelos dourados, poderia ser belo o suficiente para figurar entre seus bichinhos, se deixasse Semirhage � a �nica que restava com a habilidade para fazer o que outrora fora uma tarefa simples � remover o sulco calcinado naquele rosto. Era in�til pensar naquilo. Melhor ponderar se seu esfor�o valeria a pena.</p><p>Shaofan e Chiape tocavam sua estranha m�sica atonal, muito bonita, repleta de harmonias complexas e disson�ncias estranhas. Seus rostos refletiam a alegria de estar agradando Graendal. Ela assentiu, e o deleite da dupla foi quase palp�vel. Eles eram muito mais felizes agora do que se ela n�o os tivesse capturado. Tivera muito trabalho para obt�-los, e s� o fizera para aqueles poucos minutos que passara com Sammael. Claro que poderia ter se preocupado menos � qualquer um daquelas terras teria servido �, mas tinha seus crit�rios, mesmo para preparar um subterf�gio moment�neo. Muito tempo antes, escolhera ir atr�s de todos os prazeres, permitir-se tudo o que n�o a diminu�sse aos olhos do Grande Senhor.</p><p>Seus olhos repousaram nas entranhas que sujavam seu tapete, e Graendal torceu o nariz, irritada. Daria para salvar a trama, mas ficou irritada por ter de ser ela a remover o sangue. Dispensou ordens ligeiras, e Osana correu para coordenar a remo��o do tapete. E para mandar descartarem os restos de Rashan.</p><p>Sammael era um completo idiota. N�o, n�o idiota. Representava um perigo mortal quando travava lutas diretas, quando enfrentava algo que compreendia com clareza, mas parecia um cego em se tratando de sutilezas. Era muito prov�vel que acreditasse que a inten��o dos artif�cios de Graendal fosse mascarar o que ela e os outros estavam tramando. Jamais imaginaria que ela conhecesse cada curva de sua mente, cada volteio de suas ideias. Afinal de contas, Graendal passara quase quatro mil anos estudando o trabalho de mentes muito mais convolutas que a dele. Sammael era muito transparente, ah, como era. Por mais que tentasse encobrir, estava desesperado. Aprisionado na caixa-forte de suas pr�prias maquina��es � em uma caixa-forte que ele, em vez de abandonar, defenderia at� a morte, e dentro da qual acabaria por morrer.</p><p>Ela bebericou o ponche, franzindo a testa de leve. Era poss�vel que j� tivesse atingido seu objetivo com o homem, embora tivesse pensado que levaria quatro ou cinco visitas. Teria de encontrar um motivo para ir v�-lo em Illian � era melhor observar o paciente, mesmo depois de j� ter tomado as provid�ncias desejadas.</p><p>Fosse o rapaz um mero fazendeiro ou o Lews Therin em pessoa retornado do t�mulo � ela n�o conseguia se decidir a respeito �, ele havia se provado perigoso at� demais. Graendal servia ao Grande Senhor das Trevas, mas n�o pretendia morrer � nem mesmo pelo Grande Senhor. Viveria para sempre. Claro que s� contrariava o Grande Senhor, mesmo que no menor de seus caprichos, quem desejasse passar uma eternidade morrendo e outra desejando agonias mais suaves do que a longa morte. Ainda assim, Rand al�Thor precisava ser eliminado, mas seria Sammael quem levaria a culpa. Seria uma grande surpresa se o homem percebesse que ela o botara no rastro de Rand al�Thor tal qual um <emphasis>dornat</emphasis> mandado � ca�a. N�o, ele n�o era o tipo de homem que reconhecia sutilezas.</p><p>No entanto, estava longe de ser burro. Seria interessante saber como ele descobrira a respeito do elo. Ela pr�pria jamais teria descoberto se Mesaana n�o tivesse cometido um raro deslize ao despejar sua ira pela aus�ncia de Semirhage. Estava t�o furiosa que n�o percebera quanto havia revelado. Por quanto tempo Mesaana ficara enfiada dentro da Torre Branca? Esse simples fato j� abria caminhos bem interessantes. Se houvesse algum meio de descobrir onde Demandred e Semirhage haviam se metido, talvez fosse poss�vel desvendar o que estavam tramando. O grupo n�o havia confiado a informa��o a ela. Ah, n�o. Aqueles tr�s trabalhavam juntos desde antes da Guerra do Poder. Nas apar�ncias, pelo menos. Graendal tinha certeza de que tramavam uns contra os outros com a mesma frequ�ncia com que todos os outros Escolhidos. No entanto � fosse porque Mesaana minasse os planos de Semirhage, ou Semirhage quem sabotasse Demandred �, Graendal ainda n�o descobrira uma ranhura entre o grupo por onde pudesse for�ar a entrada.</p><p>O som de botas anunciou uma chegada, mas n�o eram os homens para trocar o carpete e recolher Rashan. Ebram era um doman�s alto e bem-apessoado, usando cal�as vermelhas justas e uma camisa branca larga. Poderia figurar entre seus bichinhos, n�o fosse apenas filho de um mercador. Ebram manteve os olhos fixos nela enquanto se ajoelhou, escuro e lustroso.</p><p>� O Lorde Ituralde chegou, Grande Senhora.</p><p>Graendal pousou o c�lice sobre uma mesa que parecia marchetada com dan�arinos de marfim.</p><p>� Ent�o ele falar� com a Lady Basene.</p><p>Ebram levantou-se devagar e estendeu o bra�o para a fr�gil domanesa que agora via diante de si. Ele sabia quem estava por tr�s da trama da Ilus�o, mas mesmo assim sua express�o de rever�ncia diminuiu um pouco. A mulher sabia que era Graendal, e n�o Basene, quem Ebram venerava. Naquele momento, ela n�o se importava. Sammael estava encaminhado na dire��o de Rand al�Thor, para dizer o m�nimo, e talvez j� tivesse disparado. Quanto a Demandred, Semirhage e Mesaana� Apenas Graendal sabia que fizera sua pr�pria viagem para Shayol Ghul e cruzado o lago de fogo. S� ela sabia que o Grande Senhor praticamente prometera nome�-la Nae�blis, uma promessa garantida com al�Thor fora do caminho. Graendal seria a mais obediente dos servos do Grande Senhor. Semearia o caos e usaria a colheita para explodir os pulm�es de Demandred.</p><empty-line/><p>Semirhage deixou a porta com vigas de ferro se fechar atr�s de si. Uma das esferas de luz, resgatada sabia l� o Grande Senhor de onde, bruxuleava espasmodicamente, mas esses objetos ainda forneciam mais luz do que as velas e os lampi�es a �leo com que ela tinha que viver naquela nova Era. Exceto pela luminosidade, o lugar tinha o aspecto intimidador de uma pris�o, com paredes de pedra bruta, ch�o sem revestimento e uma mesinha de madeira crua em um canto. N�o era de seu estilo � gostaria de tudo feito do mais branco e reluzente <emphasis>cueran</emphasis>, lustroso e est�ril. O lugar fora preparado antes que ela encontrasse uma finalidade para ele. Uma mulher de cabelos claros, vestida em seda, estava pendurada no ar, no meio do aposento, os bra�os e as pernas abertos, os olhos desafiadores cravados nela. Uma Aes Sedai. Semirhage odiava Aes Sedai.</p><p>� Quem � voc�? � inquiriu a paciente. � Uma Amiga das Trevas? Uma irm� Negra?</p><p>Ignorando o barulho, Semirhage conferiu depressa o escudo entre a mulher e <emphasis>saidar</emphasis>. Caso a barreira falhasse, conseguiria envolver a infeliz de novo sem a menor dificuldade � era uma medida da fraqueza da mulher que ela pudesse se dar ao luxo de deixar a trama do escudo sem vigil�ncia �, mas era de sua natureza ser cautelosa, dar cada passo exatamente no momento certo. Agora, as roupas. Quando vestida, a pessoa sentia-se mais segura do que quando despida. Delicadamente, Semirhage urdiu Fogo e Vento e dilacerou vestido, roupa de baixo e qualquer tecido que houvesse da cabe�a aos p�s da paciente. Juntou tudo em um montinho � sua frente e canalizou outra vez Fogo e Terra � um fino p� se espalhou pelo ch�o de pedra.</p><p>Os olhos azuis da mulher se arregalaram. Semirhage duvidava de que ela pudesse reproduzir essas simples a��es, ainda que tivesse sido capaz de entend�-las.</p><p>� Quem � voc�? � Desta vez havia certa aspereza na pergunta, uma exig�ncia. Medo, talvez. Era sempre bom quando o medo vinha logo.</p><p>Semirhage localizou com precis�o no c�rebro da mulher os centros receptores das mensagens de dor enviadas pelo corpo, e, com a mesma min�cia, come�ou a estimul�-los com Esp�rito e Fogo. A princ�pio, s� um pouquinho, em um trabalho vagaroso. Um est�mulo forte demais poderia matar em instantes, mas era impressionante ver quanto o sistema poderia ser for�ado com incrementos graduais. Era dif�cil trabalhar em algo invis�vel, mesmo t�o de perto, mas ela conhecia o corpo humano melhor que ningu�m.</p><p>A paciente esparramada sacudiu a cabe�a, como se pudesse espantar a dor. Ao perceber que n�o podia, cravou os olhos em Semirhage, que simplesmente assistia a cena se desenrolar, sustentando a rede. Mesmo com toda a pressa que aquilo requeria, podia se dar ao luxo de um pouquinho de paci�ncia.</p><p>Como odiava qualquer pessoa que se intitulasse Aes Sedai. Ela pr�pria fora uma � e uma Aes Sedai de verdade, n�o uma idiota ignorante feito aquela simpl�ria pendurada � sua frente. Fora famosa, c�lebre, enviada aos quatro cantos do mundo por sua habilidade de reparar qualquer ferida, de resgatar do abismo pessoas por quem j� n�o havia nada a se fazer. Ent�o, uma delega��o do Sal�o dos Servos lhe ofereceu uma escolha na qual n�o havia o que escolher: ser atada � promessa de que nunca mais voltasse a viver seus prazeres, assistindo ao fim da pr�pria vida se aproximar por causa da atadura, ou ser apartada do Poder e banida dos Aes Sedai. E esperavam que ela aceitasse ser atada � era a coisa mais racional e sensata a se fazer, e eles eram homens e mulheres racionais e sensatos. Jamais imaginaram que ela iria fugir. Fora uma das primeiras pessoas a ir at� Shayol Ghul.</p><p>Gotas densas de suor brotavam no rosto p�lido da paciente. A mand�bula estava contra�da, e as narinas se abriam quando ela puxava o ar. De vez em quando, a mulher soltava um pequeno grunhido. Paci�ncia. Faltava pouco.</p><p>Tinham inveja dela. Os que n�o podiam fazer o que ela podia. Alguma das pessoas que ela resgatara das garras da morte j� dissera que preferia ter morrido a sofrer o tantinho a mais que ela infligia? E os outros? Sempre havia quem merecesse sofrer. E da� se ela sentia prazer em lhes dar a puni��o que mereciam? Ah, o Sal�o e suas lam�rias hip�critas sobre direitos e legalidades. Semirhage tinha o direito de fazer o que fizera � conquistara o direito. Fora mais importante para o mundo do que todos aqueles que a entretinham com seus gritos. E, por inveja e despeito, o Sal�o tentara <emphasis>derrub�-la</emphasis>!</p><p>Bem, alguns deles tinham ca�do diante dela, durante a guerra. Tendo tempo, ela podia destruir mesmo o homem mais forte, a mulher mais orgulhosa, mold�-los da forma exata que desejasse. O processo at� podia ser mais lento do que a Compuls�o, mas era infinitamente mais prazeroso, e ela acreditava que nem mesmo Graendal conseguiria desfazer o resultado. A Compuls�o podia ser revertida. No entanto, seus pacientes� De joelhos, eles imploravam para que suas almas fossem entregues � Sombra, ent�o serviam com obedi�ncia at� o dia de sua morte. Demandred sempre se demonstrava impressionado com o tamanho daquele golpe, mais um Conselheiro do Sal�o proclamando sua alian�a com o Grande Senhor, mas a parte favorita de Semirhage era observar os rostos empalidecerem ao v�-la, mesmo anos depois, e sua urg�ncia em garantir que permaneciam fi�is ao que ela os tornara.</p><p>Um primeiro solu�o escapou da mulher pendurada no ar, mas foi abafado. Semirhage aguardou, impass�vel. O momento podia at� requerer pressa, mas pressa demais poderia p�r tudo a perder. Outros solu�os escaparam, sobrepujando os esfor�os da paciente para control�-los, cada vez mais altos, mais altos, at� se transformarem em um uivo. Semirhage aguardou. A mulher brilhava com uma camada lustrosa de suor, a cabe�a se virava de um lado a outro, e ela se debatia inutilmente sob as amarras invis�veis, em espasmos convulsivos. Os berros, intensos e agud�ssimos, s� acabavam ao usar todo o estoque de ar em seus pulm�es, ent�o ela os enchia outra vez e recome�ava. Aqueles olhos azuis completamente arregalados nada enxergavam � estavam vidrados. Tinha come�ado.</p><p>Semirhage cortou os fluxos de <emphasis>saidar</emphasis> de repente, mas minutos se passaram at� que os berros cessassem e dessem lugar a arquejos.</p><p>� Qual � o seu nome? � perguntou, em um tom gentil.</p><p>N�o importava qual seria a pergunta, contanto que a mulher respondesse. Poderia ter sido �Ainda quer me desafiar?�. Era sempre um prazer continuar perguntando at� que come�assem a suplicar para provar que n�o a desafiariam. Mas, daquela vez, precisava tirar o m�ximo de cada pergunta.</p><p>Tremores involunt�rios percorreram a mulher pendurada. Lan�ando um olhar cauteloso a Semirhage, os olhos semicerrados, ela lambeu os l�bios, tossiu, e por fim disse, em um murm�rio rouco:</p><p>� Cabriana Mecandes.</p><p>Semirhage abriu um sorriso.</p><p>� � bom me dizer a verdade. � No c�rebro havia centros de dor e de prazer. Enquanto se aproximava, ela estimulou um dos �ltimos, apenas por alguns instantes, por�m com for�a. O est�mulo fez Cabriana arregalar os olhos ao m�ximo, ofegante e tr�mula. Puxando um lencinho da manga, Semirhage ergueu o rosto espantado da mulher e secou o suor com delicadeza. � Eu sei que isso � muito dif�cil para voc�, Cabriana � declarou, com do�ura. � Tente n�o dificultar ainda mais. � Com um gesto suave, afastou os cabelos molhados do rosto da mulher. � Quer alguma coisa para beber? � Canalizou sem esperar resposta, fazendo um cantil de metal surrado flutuar de cima da mesinha no canto at� sua m�o. A Aes Sedai n�o tirava os olhos de Semirhage, mas bebeu com avidez. Depois de alguns goles, Semirhage tomou de volta o cantil e devolveu-o � mesa. � Pois bem, assim � melhor, n�o �? Lembre-se, tente n�o dificultar ainda mais as coisas.</p><p>Quando ela se virou, a mulher falou, �cida:</p><p>� Eu cuspo no leite da sua m�e, Amiga das Trevas! Est� me ouvindo? Eu�</p><p>Semirhage parou de escutar. Em qualquer outra �poca, ficaria coruscante de prazer pelo fato de a rebeldia da paciente persistir. Sentia a mais pura alegria em reduzir a rebeldia e a dignidade a lascas diminutas, observando o paciente enfim se dar conta de que estava se esvaindo e come�ar a lutar � em v�o � para agarrar-se ao que restava. Daquela vez, n�o havia tempo para aquilo. Com cuidado, urdiu outra vez a teia entrela�ando os centros de dor do c�rebro de Cabriana. Preferia estar pessoalmente no controle, mas era necess�rio um pouco de pressa. Impulsionou a rede, canalizou para apagar as luzes e saiu, fechando a porta atr�s de si. A escurid�o tamb�m faria sua parte. Sozinha, no escuro, com dor.</p><p>Sem querer, Semirhage emitiu um gemido frustrado. N�o havia <emphasis>finesse</emphasis> naquilo. N�o gostava de ter que se apressar. Muito menos de se afastar de suas responsabilidades. A garota era dura e voluntariosa, e as circunst�ncias, dif�ceis.</p><p>O corredor era quase t�o desolado quanto o aposento, um largo t�nel cruzando a pedra, com passagens transversais que ela n�o tinha o menor desejo de explorar quase perdidas na escurid�o. Havia apenas duas outras portas � vista, e uma levava a seus aposentos. Eram bastante confort�veis, j� que precisava estar ali, mas Semirhage n�o seguiu naquela dire��o. Shaidar Haran estava parado diante da porta, todo de preto, envolto em uma escurid�o que parecia fuma�a, t�o im�vel que foi quase um choque quando ele se pronunciou, em um som que era quase o triturar de ossos:</p><p>� O que voc� descobriu?</p><p>As invoca��es a Shayol Ghul tinham trazido em uma advert�ncia do Grande Senhor. <emphasis>QUANDO OBEDECE SHAIDAR HARAN, VOC� OBEDECE A MIM. QUANDO DESOBEDECE SHAIDAR HARAN�</emphasis> Por mais exasperante que tivesse sido a advert�ncia, n�o havia necessidade de mais.</p><p>� O nome dela. Cabriana Mecandes. N�o consegui descobrir mais nada em t�o pouco tempo.</p><p>A criatura deslizou pelo corredor daquela maneira angustiante aos olhos, a capa cor de �bano suspensa, sem ser afetada pelo movimento. Em um instante, parecia uma est�tua a dez passos de dist�ncia, no momento seguinte, se avultava por cima dela, for�ando-a a escolher entre recuar e esticar o pesco�o para olhar para cima, encarando aquele rosto sem olhos e totalmente branco. Recuar estava fora de cogita��o.</p><p>� Voc� vai exauri-la, Semirhage. Vai apert�-la at� secar, sem demora, e me contar todos os detalhes do que descobrir.</p><p>� Prometi ao Grande Senhor que faria isso � respondeu a mulher, com frieza.</p><p>Os l�bios sem sangue se contorceram em um sorriso. Foi a �nica resposta. A criatura se virou depressa, avan�ou a passos firmes por entre as sombras� e desapareceu.</p><p>Semirhage queria saber como os Myrddraal faziam aquilo. N�o tinha nada a ver com o Poder. Nos umbrais da sombra, onde a luz se enfraquecia, um Myrddraal podia surgir subitamente em outro ponto, em outra sombra bem distante. Muito tempo antes, Aginor fizera testes com centenas deles, at� destru�-los, em um esfor�o v�o para aprender como aquilo era feito. Os pr�prios Myrddraal n�o sabiam � ela mesma provara isso.</p><p>De repente, percebeu que suas m�os comprimiam com for�a o pr�prio est�mago, que lembrava uma bola de gelo. Fazia muitos anos que n�o sentia medo em qualquer situa��o que n�o envolvesse encarar o Grande Senhor no Po�o da Perdi��o. O n� congelante come�ou a derreter assim que se deslocou at� a outra porta de pris�o. Mais tarde analisaria a emo��o de maneira desapaixonada. Shaidar Haran podia ser diferente de qualquer Myrddraal que ela j� vira, mas ainda era um Myrddraal.</p><p>Seu segundo paciente, suspenso no ar feito a primeira, era um homem atarracado de rosto quadrado, usando casaco e cal�as de um verde pr�prio para se camuflar nas matas. Metade dos bulbos-candentes estava bruxuleante, quase se apagando � era um milagre que tivessem durado todo aquele tempo �, mas a verdade era que o Guardi�o de Cabriana era de pouca import�ncia. O necess�rio, pelo prop�sito que fosse, jazia na mente da Aes Sedai. Parecia que os Myrddraal tinham recebido a ordem de capturar uma Aes Sedai, e, por algum motivo, acreditavam que Aes Sedai e Guardi�es fossem insepar�veis. O que n�o era exatamente ruim. Semirhage ainda n�o tivera a oportunidade de destruir um desses lutadores c�lebres.</p><p>Os olhos escuros do homem tentavam penetrar a mente de Semirhage enquanto ela lhe removia as roupas e botas e as destru�a, da mesma forma que fizera com as de Cabriana. Ele era peludo, uma massa de m�sculos grandes e rijos e cicatrizes. N�o tremeu. Nada disse. Possu�a uma rebeldia diferente. A da mulher era audaciosa, escancarada, a dele era uma recusa silenciosa a se dobrar. Talvez fosse mais dif�cil de destruir do que sua senhora. Em geral lidar com ele teria sido muito mais interessante.</p><p>Semirhage fez uma pausa, analisando-o. Havia algo� uma rigidez ao redor da boca e dos olhos. Como se ele j� tivesse lutado contra a dor. Claro. Havia aquele elo entre Aes Sedai e Guardi�es. Era estranho que esses primitivos tivessem concebido algo que nenhum dos Escolhidos compreendesse, mas era assim. Pelo pouco que sabia, era muito prov�vel que este sujeito tivesse sentido ao menos um pouco do que se passava com a outra paciente. Em outra ocasi�o, isso apresentaria possibilidades interessantes. Naquele momento, significava apenas que o homem pensava saber o que o aguardava.</p><p>� Sua dona n�o cuida muito bem de voc� � comentou Semirhage. � Se a mulher n�o fosse uma selvagem, voc� n�o estaria desfigurado por tantas cicatrizes. � O homem alterou a express�o apenas um tantinho. A um lev�ssimo desprezo. � Pois sim.</p><p>Desta vez, urdiu a teia nos centros de prazer e come�ou a estimula��o lenta e gradual. O homem era inteligente. Franziu o cenho, balan�ou a cabe�a e estreitou os olhos, cravados nela feito lascas de gelo negro. Sabia que n�o deveria estar sentindo aquele �xtase crescente e, embora n�o pudesse enxergar a rede, sabia que s� podia ser obra dela, ent�o resistiu. Semirhage quase abriu um sorriso. Ele decerto considerava mais f�cil lutar contra o prazer do que contra a dor. Em raras ocasi�es, destru�ra as vontades de pacientes apenas com isso. Essa maneira era menos satisfat�ria, e, depois que ela acabava, eles ficavam incapazes de formar pensamentos coerentes � simplesmente queriam mais do �xtase que aflorava em suas mentes. Por�m era r�pido, e eles faziam qualquer coisa para ter mais. Aquela falta de coer�ncia era a raz�o pela qual Semirhage n�o procedera dessa maneira com a outra paciente: precisava arrancar respostas. No entanto, aquele sujeito logo saberia a diferen�a.</p><p>Diferen�a. Ela levou um dos dedos aos l�bios, pensativa. Por que Shaidar Haran era diferente de todos os outros Myrddraal? N�o gostou de detectar uma estranheza logo quando tudo parecia estar indo a favor deles, e um Myrddraal acima dos Escolhidos, mesmo que apenas em algumas situa��es, ia al�m de mera estranheza. Al�Thor estava cego, com toda a aten��o voltada para Sammael, e Graendal s� permitia que Sammael soubesse o bastante para evitar que arruinasse tudo por orgulho. E era �bvio que Graendal e Sammael estavam tramando para levar vantagens, fosse juntos ou separados. Sammael era um <emphasis>so-far</emphasis> superaquecido com manete empenado, e Graendal n�o era muito menos imprevis�vel. Os dois nunca tinham entendido que o poder provinha apenas do Grande Senhor, distribu�do conforme sua escolha, por suas pr�prias raz�es. De acordo com seus caprichos � na seguran�a de sua mente, podia pensar aquilo.</p><p>O maior problema eram os Escolhidos que tinham desaparecido. Demandred insistia que deviam estar mortos, mas ela e Mesaana n�o tinham tanta certeza. Lanfear. Se houvesse alguma justi�a, o tempo lhe entregaria Lanfear. A mulher sempre aparecia quando menos se esperava, sempre se comportava como se tivesse o direito de meter o bedelho nos planos alheios, sempre fugia para se proteger quando suas intromiss�es causavam problemas. Moghedien. Aquela l� sempre ficava escondida, mas nunca conseguia passar muito tempo sem dar as caras, s� para lembrar ao restante que tamb�m era uma Escolhida. Asmodean. Um traidor, e j� condenado. Mas tinha mesmo desaparecido. E a exist�ncia de Shaidar Haran e as ordens que ela pr�pria recebera serviam para lembr�-la de que o Grande Senhor tinha os pr�prios meios e objetivos.</p><p>Os Escolhidos eram meras pe�as no tabuleiro; podiam ser Conselheiros e Pin�culos, mas ainda assim n�o passavam de pe�as. Se o Grande Senhor a deslocara at� ali em segredo, talvez tamb�m estivesse deslocando Moghedien, Lanfear ou at� Asmodean. Shaidar Haran talvez tivesse sido mandado para dar ordens secretas a Graendal ou Sammael. Ou, talvez at�, a Demandred ou Mesaana. Aquela perturbadora alian�a � se � que podia ser chamada por um nome t�o forte � entre os tr�s j� durava muito tempo, mas nenhum dos dois lhe contaria se recebesse ordens secretas do Grande Senhor, bem como ela jamais os deixaria saber das ordens que a levaram at� ali ou das que a fizeram enviar Myrddraal e Trollocs at� a Pedra de Tear para lutar contra os enviados por Sammael.</p><p>Se o Grande Senhor pretendia transformar al�Thor em Nae�blis, ela pr�pria se ajoelharia diante dele � e ficaria esperando por um deslize que o pusesse em suas m�os. A imortalidade lhe concedia tempo de espera infinito. Enquanto isso, sempre haveria outros pacientes para entret�-la. O que a preocupava era Shaidar Haran. Ela sempre fora uma jogadora de <emphasis>tcheran</emphasis> med�ocre, mas Shaidar Haran era uma nova pe�a do tabuleiro, cuja for�a e prop�sito eram desconhecidos. E uma das jogadas ousadas para capturar o Gr�o-conselheiro do oponente e lev�-lo para seu lado do tabuleiro era sacrificar os Pin�culos em um falso ataque. Semirhage se ajoelharia, se fosse preciso, por quanto tempo fosse preciso, mas n�o seria sacrificada.</p><p>Uma estranha sensa��o na teia a desviou de seus pensamentos. Ela olhou para o paciente e estalou a l�ngua, exasperada. A cabe�a dele pendia para o lado, o queixo estava escuro, sujo do sangue da pr�pria l�ngua, que ele mastigara. Os olhos estavam vidrados e opacos. Por falta de aten��o, intensificara a estimula��o depressa demais. Com uma raiva que n�o chegou a transparecer em seu rosto, Semirhage parou de canalizar. N�o havia por que tentar estimular o c�rebro de um cad�ver.</p><p>Um s�bito pensamento lhe ocorreu. Se o Guardi�o podia sentir o que a Aes Sedai sentia, ser� que o oposto tamb�m aconteceria? Analisando as cicatrizes que adornavam o corpo do homem, teve certeza de que era imposs�vel. At� aquelas imbecis teriam alterado o elo, se compartilhassem a sensa��o <emphasis>daquilo</emphasis>. Ainda assim, deixou o corpo de lado e saiu pelo corredor, um pouco apressada.</p><p>Antes de abrir a porta de vigas de ferro para adentrar a escurid�o, ouviu berros que lhe trouxeram um profundo suspiro de al�vio. Matar a mulher antes de arrancar tudo o que ela sabia decerto a faria permanecer ali at� a captura de outra Aes Sedai. No m�nimo.</p><p>Por entre os uivos guturais, Semirhage ouviu palavras quase inintelig�veis, palavras que pareciam carregar toda a for�a da alma da paciente.</p><p>� Por favooooooorrrrrr! Ah, Luz, POR FAVOOOORRR!</p><p>Semirhage abriu um sorriso discreto. Era divertido, afinal.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 7</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Uma quest�o de opini�o</p></title><p>Sentada em seu colch�o, Elayne terminou de dar as cem escovadas com a m�o esquerda, depois guardou a escova de cabelo na bolsinha de viagem de couro e a empurrou de volta para baixo da cama estreita. Sentia um latejar fraco atr�s dos olhos depois de passar o dia canalizando para fabricar <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Na maior parte do tempo <emphasis>tentando</emphasis> fabric�-los. Nynaeve, equilibrada no banquinho de p�s soltos, terminara muito antes de escovar os cabelos at� a cintura e j� tinha quase acabado de refazer a tran�a frouxa para ir dormir. O suor brilhava em seu rosto.</p><p>Mesmo com uma das janelas abertas, o quartinho estava abafado. A lua cheia pairava em um c�u negro repleto de estrelas. Um toco de vela fornecia luz fraca. As velas e os lampi�es a �leo eram escassos em Salidar, e ningu�m conseguia mais que uma nesga de luz � noite, a n�o ser que precisasse trabalhar com pena e tinta. O quarto era bem apertado, com pouco espa�o para circula��o entre as duas camas pequenas. A maior parte dos pertences das duas estava guardada em um par de ba�s surrados com dobradi�as de lat�o. Dos ganchos nas paredes pendiam os vestidos de Aceitas e capas desnecess�rias naquele calor, e buracos no reboco amarelado revelavam a madeira da funda��o. Espremida entre as camas havia uma min�scula mesa meio torta, e o lavat�rio bambo no canto do quarto sustentava uma jarra e uma bacia brancas cheias de lascas. Nem mesmo as Aceitas mais elogiadas recebiam luxos ou mimos.</p><p>Um ma�o de flores silvestres meio amassadas, brancas e azuis � iludidas pelo clima a florescerem mais tarde, e sem muito primor � despontava de um vaso amarelo com gargalo quebrado em cima da mesa, entre um par de canecas de cer�mica marrom. O outro �nico ponto de cor era o pardal preso em uma gaiola de palha. Elayne cuidava do bichinho, que estava com uma asa quebrada. Testara suas poucas habilidades de Cura em outro p�ssaro, mas os pardais eram pequenos demais para sobreviver ao choque.</p><p><emphasis>Nada de reclamar</emphasis>, disse a si mesma com firmeza. As Aes Sedai viviam um pouco melhor; as novi�as e servi�ais, um pouco pior; e os soldados de Gareth Bryne quase sempre dormiam no ch�o. � preciso suportar o<emphasis> que n�o se pode mudar.</emphasis> Lini dizia isso o tempo todo. Bem, Salidar oferecia pouco conforto e nada de luxo. E tamb�m nada de frescor.</p><p>Afastando o tecido da camisola do corpo, ela assoprou contra os seios.</p><p>� � melhor chegarmos l� antes delas, Nynaeve. Voc� sabe como elas ficam quando t�m que esperar.</p><p>N�o soprava sequer a menor brisa, e o ar seco parecia extrair transpira��o de todos os poros. Devia haver algo que pudesse ser feito a respeito do clima. Se houvesse, as Chamadoras de Ventos do Povo do Mar decerto j� teriam feito, naturalmente. Mas Elayne talvez conseguisse pensar em uma solu��o, se pelo menos as Aes Sedai a liberassem dos <emphasis>ter�angreal</emphasis> por tempo suficiente. Como Aceita, era de se pensar que pudesse estudar o que quisesse, mas� <emphasis>Se elas achassem que eu conseguiria comer e ensin�-las a fazer </emphasis>ter�angreal <emphasis>ao mesmo tempo, eu n�o teria um minuto de sossego.</emphasis> Pelo menos no dia seguinte tiraria um descanso disso.</p><p>Nynaeve se remexia na cama com o <emphasis>a�dam</emphasis> no pulso, fazendo caretas e ajustando o bracelete. A mulher sempre insistia para que uma delas o usasse durante o sono, embora isso provocasse sonhos estranhos e desagrad�veis. N�o havia a menor necessidade, pois o <emphasis>a�dam</emphasis> tamb�m manteria Moghedien sob controle se estivesse pendurado em um gancho na parede. Al�m disso, a Abandonada dividia um cub�culo realmente min�sculo com Birgitte. A arqueira era uma excelente vigia, e Moghedien quase chorava sempre que a via sequer franzir o cenho. A mulher tinha poucos motivos para manter Moghedien viva, mas muitos para quer�-la morta, o que a Abandonada sabia muito bem. Naquela noite, o bracelete seria de menos utilidade que o habitual.</p><p>� Nynaeve, elas devem estar <emphasis>esperando.</emphasis></p><p>A mulher fungou alto � n�o lidava bem com ter que estar � disposi��o de algu�m �, mas apanhou um dos dois an�is de pedra chata que jaziam sobre a mesa entre as camas. Ambos eram largos demais para usar nos dedos, um era rajado e pontilhado de azul e marrom, o outro era azul e vermelho. Os dois eram retorcidos de modo a ter apenas uma borda. Nynaeve desamarrou a tira de couro que pendia de seu pesco�o, enfiando o anel azul e marrom junto a outro, pesado e dourado. O anel de sinete de Lan. Tocou com carinho o aro robusto e dourado antes de enfiar os dois an�is debaixo da roupa.</p><p>Elayne, de testa franzida, apanhou o anel azul e vermelho.</p><p>Os an�is eram <emphasis>ter�angreal</emphasis> que ela fabricara como imita��o de outro, que estava de posse de Siuan. Apesar da apar�ncia simples, eram incrivelmente complexos. Dormir com um deles em contato com a pele levava a pessoa a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, o Mundo dos Sonhos, um reflexo do mundo real � talvez de todos os mundos. Algumas Aes Sedai afirmavam que havia muitos mundos, como se todas as varia��es do Padr�o de fato existissem, e que todos esses mundos juntos formavam um Padr�o ainda maior. O fato era que <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> refletia o mundo onde ela vivia e tinha certas propriedades extremamente �teis. Ainda mais porque a Torre n�o fazia ideia de como adentr�-lo, pelo que as duas sabiam.</p><p>Os an�is funcionavam, embora nenhum t�o bem quanto os originais. Elayne estava se aprimorando aos poucos: das quatro tentativas de produzir uma c�pia, fracassara em apenas uma. Uma m�dia <emphasis>muito</emphasis> melhor do que a dos objetos que fabricava do zero. Mas e se uma das tentativas acabasse produzindo resultados piores do que apenas n�o funcionar, ou n�o funcionar muito bem? Aes Sedai tinham sido estancadas ao estudar <emphasis>ter�angreal</emphasis>. �Exauridas� era o nome que se dava quando acontecia por acidente, mas o resultado era igualmente irrevers�vel. Nynaeve, naturalmente, n�o considerava que fosse irrevers�vel, por�m n�o se daria por satisfeita at� que conseguisse Curar uma pessoa morta h� tr�s dias.</p><p>Elayne girou o anel nos dedos. O que ele fazia era f�cil de compreender, era o �como� que lhe escapava. �Como� e �por qu� � essas eram as quest�es. Acreditava que o padr�o de cores dos an�is tinha tanta influ�ncia quanto a forma � qualquer forma que n�o um aro retorcido n�o tinha serventia, e o anel que acabara saindo todo azul provocava pesadelos terr�veis �, mas n�o sabia ao certo como reproduzir o vermelho, o azul e o marrom originais. Ainda assim, suas c�pias tinham a mesma estrutura delicada, a mesma disposi��o dos pequeninos fragmentos, imposs�vel de ser vista ou detectada sem o Poder �nico. Por que as <emphasis>cores</emphasis> seriam importantes? Parecia haver uma trama comum na estrutura diminuta dos <emphasis>ter�angreal</emphasis> que s� funcionavam com canaliza��o, e outra na dos que apenas se utilizavam do Poder latente � descobrir isso foi o que permitiu suas tentativas de fabricar <emphasis>ter�angreal</emphasis> originais. Mas havia tanto que ela n�o sabia, tanto que s� fazia na base da adivinha��o.</p><p>� Vai ficar a� sentada a noite inteira? � perguntou Nynaeve em um tom seco, e Elayne se sobressaltou. Apoiando uma das canecas de cer�mica de volta na mesa, a mulher se ajeitou na cama, as m�os cruzadas sobre o colo. � Foi <emphasis>voc�</emphasis> quem disse para n�o as deixarmos esperando. No que depende de mim, n�o pretendo dar �quelas patas-chocas nenhuma desculpa para virem abocanhar minhas plumas.</p><p>Mais que depressa, Elayne deslizou o anel rajado � j� n�o era de pedra, ainda que ela tivesse usado pedra para faz�-lo � por um cord�o, que ent�o amarrou no pr�prio pesco�o. A segunda caneca de cer�mica tamb�m continha uma tintura de ervas que Nynaeve preparara, levemente ado�ada com mel para suavizar o amargor. Elayne bebeu quase a metade, o que, por suas experi�ncias anteriores, seria suficiente para ajud�-la a dormir, mesmo com a dor de cabe�a. Era uma daquelas noites em que n�o podia se dar ao luxo de perder tempo.</p><p>Estirada na cama apertada, canalizou um fluxo r�pido para apagar a vela, depois abanou a camisola em busca de um pouco de frescor. Uma brisa, pelo menos.</p><p>� Queria que Egwene melhorasse. Estou cansada das migalhas que Sheriam e as outras jogam para a gente. Quero saber o que est� acontecendo!</p><p>Percebeu que tocara em um assunto perigoso. Egwene fora ferida um m�s e meio antes, em Cairhien, no dia em que Moiraine e Lanfear morreram. No dia em que Lan desaparecera.</p><p>� As S�bias dizem que ela <emphasis>est�</emphasis> melhorando � murmurou Nynaeve, sonolenta, no escuro do quarto. Pela primeira vez, n�o pareceu querer desviar o assunto para Lan. � � isso o que Sheriam e a panelinha dela dizem, e elas n�o t�m motivo para mentir, mesmo que possam faz�-lo.</p><p>� Bom, queria conseguir descobrir o que Sheriam est� aprontando para amanh� � noite.</p><p>� Se vai ficar desejando coisas imposs�veis� � Nynaeve parou para bocejar. � Pode come�ar a torcer para o Sal�o escolher voc� como Amyrlin. Acho que voc� at� tem chance. Quando elas finalmente escolherem algu�m, n�s duas estaremos grisalhas o bastante para a fun��o.</p><p>Elayne abriu a boca para retrucar, mas, a exemplo da outra, acabou emendando um bocejo. Nynaeve come�ou a roncar � n�o alto, mas com persist�ncia. Elayne deixou os olhos se fecharem, mas seus pensamentos continuavam a toda, mesmo contra sua vontade.</p><p>O Sal�o estava mesmo sendo dilat�rio. Havia dias em que as Votantes se encontravam durante menos de uma hora, e com frequ�ncia sequer se reuniam. Ao falar com uma delas, n�o se via a menor urg�ncia, embora as Votantes das seis Ajahs � n�o havia Vermelhas em Salidar, �bvio � n�o revelassem �s outras Aes Sedai o que discutiam durante as sess�es, muito menos a uma Aceita. Definitivamente havia motivo para a pressa em decidir. Ainda que suas inten��es permanecessem em segredo, a exist�ncia do grupo de Salidar j� n�o era. Elaida e a Torre n�o as ignorariam para sempre. Al�m disso, os Mantos-brancos ainda estavam a poucas milhas de dist�ncia, em Amad�cia, e j� havia rumores sobre Devotos do Drag�o bem ali em Altara. S� a Luz sabia o que os Devotos do Drag�o poderiam tramar, se Rand n�o os controlasse. O Profeta era bom exemplo � ou talvez um exemplo p�ssimo. Motins, casas e fazendas incendiadas, gente morta por n�o demonstrar fervor suficiente no apoio ao Drag�o Renascido.</p><p>O ronco de Nynaeve parecia um tecido sendo rasgado, mas bem ao longe. Elayne abriu outro bocejo, estalando o maxilar, virou-se de lado e abra�ou o travesseiro fino. Havia motivo para se apressarem. Sammael estava em Illian, e Salidar ficava a poucas centenas de milhas da fronteira illianense, perto demais de um dos Abandonados. S� a Luz saberia onde os outros estavam ou o que estariam tramando. E Rand. As Votantes deviam estar preocupadas com Rand. Ele n�o representava perigo, claro. N�o poderia. Mas <emphasis>era</emphasis> a chave de tudo � o mundo de fato se curvava � volta dele. Elayne <emphasis>daria um jeito</emphasis> de criar um elo com ele. Min. Ela e a miss�o diplom�tica j� deviam ter percorrido mais da metade do trajeto at� Caemlyn. N�o havia neve para atrasar o passo. Chegariam dali a mais um m�s. N�o que estivesse preocupada com a aproxima��o entre Min e Rand. No que a garota estava pensando? Min. O sono veio chegando, ela foi entrando em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>�</p><p>� e se viu parada na rua principal de Salidar, em um sil�ncio noturno sepulcral, a lua quase cheia no c�u. Via tudo com bastante clareza, mais do que o mero luar permitiria. Sempre havia essa sensa��o de claridade, no Mundo dos Sonhos, vinda de todos os lados e de lado nenhum, como se a pr�pria escurid�o emanasse um brilho sombrio. Por outro lado, os sonhos eram assim mesmo, e aquilo era um sonho � por mais que n�o fosse um dos comuns.</p><p>Aquela aldeia refletia a verdadeira Salidar, mas como um estranho fac-s�mile, mais quieta do que a verdadeira vila estaria com o cair da noite. Todas as janelas estavam escuras, e um ar de vazio se abatia sobre o local, como se nenhuma das constru��es estivesse ocupada. Ali, naturalmente, n�o estavam. O silvo agudo de um p�ssaro noturno foi seguido por outro, depois por um terceiro, e algo produziu um fraco farfalhar, como se escapulindo em meio � indefin�vel meia-luz. Mas os est�bulos estariam vazios, e tamb�m as cercas de estacas do lado de fora da cidade, e as clareiras onde o gado e as ovelhas ficavam reunidos. Criaturas selvagens apareciam aos montes por ali, mas nenhuma domesticada. Os detalhes mudavam a cada olhadela: as constru��es de telhados de palha permaneciam iguais, mas um barril de �gua podia estar em uma posi��o ligeiramente diferente ou ter desaparecido, uma porta antes fechada estaria aberta ao se voltar o rosto outra vez para a mesma dire��o. Quanto mais ef�mero fosse um objeto no mundo real, mais inconstante era sua posi��o ou condi��o ali, e menos concreto era seu reflexo.</p><p>De vez em quando via-se um movimento bruxuleante na rua escura: algu�m surgia, dava uns passos e ia embora, ou flutuava pelo ch�o, como se voasse. Muita gente podia adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em sonhos, por�m apenas por um breve instante. O que era uma grande sorte. Outra caracter�stica do Mundo dos Sonhos era que tudo o que ocorresse ali afetava a realidade do mundo desperto. Se algu�m morresse ali, n�o acordava. Um estranho reflexo. Mas o calor era id�ntico.</p><p>Nynaeve estava ali, parada, usando um vestido branco de Aceita com faixas na bainha, impaciente ao lado de Siuan e Leane. Tamb�m usava o bracelete de prata, embora ele n�o se conectasse dali com o mundo desperto. O bracelete ainda controlava Moghedien, mas Nynaeve, fora do corpo, n�o sentiria nada atrav�s dele. Leane ostentava uma apar�ncia esbelta e majestosa, mas, na opini�o de Elayne, o vestido doman�s de seda fina, pouqu�ssimo opaco, prejudicava um pouco a eleg�ncia. As cores tamb�m n�o paravam de mudar � o tipo de coisa que acontecia at� que a pessoa aprendesse a se virar por ali. Siuan estava melhor. Usava um vestido simples de seda azul, com decote baixo o suficiente para exibir o anel retorcido preso em um colar. Vez por outra, no entanto, brotavam enfeites de renda pelo vestido, e o colar passava de uma simples corrente de prata a uma elaborada pe�a com rubis, gotas de fogo ou esmeraldas cravejadas em ouro, com os brincos combinando, logo em seguida retornando � corrente simples.</p><p>O anel que pendia do pesco�o de Siuan era o original, e ela tinha a mesma concretude de qualquer um dos edif�cios. Elayne, a seus pr�prios olhos, parecia igualmente concreta, mas sabia que seu aspecto aos olhos das outras era um pouco indistinto, tal qual o de Nynaeve e Leane. Parecia poss�vel ver o luar atrav�s de seus corpos. Era o resultado de usar uma das c�pias. Dava para sentir a Fonte Verdadeira, mas daquele jeito <emphasis>saidar</emphasis> era t�nue � se tentasse canalizar, a canaliza��o tamb�m seria fraca. Com o anel de Siuan, n�o. Mas era o pre�o que se pagava por ter seus segredos mais irrevel�veis expostos a terceiros. Siuan confiava mais no original do que nas c�pias de Elayne, ent�o o usava � ou �s vezes Leane usava �, enquanto Elayne e Nynaeve, que tinham acesso a <emphasis>saidar</emphasis>, precisavam se contentar com os outros.</p><p>� Onde elas est�o? � inquiriu Siuan. Seu decote subia e descia. O vestido estava verde, com uma imensa fileira de pedras-da-lua no decote. � J� � p�ssimo que queiram meter o remo no meu barco e remar do jeito que bem entenderem, agora ainda por cima me deixam esperando.</p><p>� N�o sei por que voc� se incomoda tanto em esper�-las chegar � retrucou Leane. � Voc� gosta de ver as garotas errarem. Elas n�o sabem metade do que acham que sabem. � Por um instante, o vestido dela ficou quase transparente. Um pesado colar de p�rolas grandes surgiu ao redor de seu pesco�o e desapareceu. A mulher n�o percebeu. Tinha ainda menos experi�ncia com aquele lugar do que Siuan.</p><p>� Preciso dormir de verdade � resmungou Siuan. � Bryne tenta me matar de trabalhar. Mas preciso esperar de boa vontade duas mulheres que v�o passar metade da noite lembrando como se anda. Sem falar nessas duas me estorvando. � Ao avistar Elayne e Nynaeve, franziu o cenho e revirou os olhos.</p><p>Nynaeve agarrou a tran�a com firmeza, indica��o precisa de que estava ficando irritada. Pela primeira vez, Elayne concordou plenamente com a irrita��o. Era muito dif�cil ensinar a alunas que acreditavam saber mais do que de fato sabiam e que se achavam no direito de repreender a professora quando n�o aceitavam o contr�rio. Claro, as outras eram muito piores do que Siuan ou Leane. <emphasis>Onde </emphasis>estavam as outras?</p><p>Um movimento surgiu na rua. Seis mulheres envoltas no brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>, que n�o desapareceram. Como de costume, Sheriam e o restante do conselho tinham se transportado em sonho a seus pr�prios aposentos e ido para a rua. Elayne n�o sabia ao certo quanto elas j� compreendiam acerca dos atributos de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. De todo modo, as mulheres com frequ�ncia insistiam em fazer coisas do pr�prio jeito, mesmo quando havia um modo melhor de faz�-las. Quem poderia saber mais que uma Aes Sedai?</p><p>As seis mulheres rec�m-chegadas de fato eram novatas em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, e a cada vez que Elayne as olhava seus vestidos tinham mudado. De in�cio, uma delas usava o xale bordado de Aes Sedai, com franjas na cor de sua Ajah e a Chama de Tar Valon � uma robusta l�grima branca � bordada na parte de tr�s. Depois quatro delas vestiam o xale. Depois nenhuma. Por vezes, alguma usava uma capa leve de viagem daquelas que s� servem para impedir a poeira da estrada de sujar as roupas, sempre com a Chama atr�s e do lado esquerdo do peito. Suas fei��es et�reas n�o se mostravam afetadas pelo calor, claro � as Aes Sedai nunca demonstravam sentir calor �, nem que estavam cientes das altera��es em suas vestimentas.</p><p>As mulheres pareciam t�o indistintas quanto Nynaeve ou Leane. Sheriam e as outras confiavam mais nos <emphasis>ter�angreal</emphasis> que requeriam canaliza��o para adentrar os sonhos do que nos an�is. Simplesmente n�o pareciam querer crer que <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> n�o tinha rela��o alguma com o Poder �nico. Pelo menos Elayne n�o podia dizer quais delas estavam usando as c�pias. Dentre as mulheres, haveria tr�s com um disquinho feito de um material que um dia fora ferro, gravado dos dois lados com uma espiral compacta e acionado por um fluxo de Esp�rito, o �nico dos Cinco Poderes capaz de ser canalizado durante o sono � com exce��o de onde estavam, � claro. As outras tr�s estariam portando pequenas placas que um dia foram de �mbar, com uma mulher dormindo gravada dentro de cada uma. Ainda que tivesse diante de si todos os seis <emphasis>ter�angreal</emphasis>, Elayne n�o seria capaz de distinguir os tr�s originais. As c�pias tinham sa�do muito boas. Mesmo assim, eram c�pias.</p><p>P�de ouvir o fim da conversa enquanto as Aes Sedai vinham descendo a rua de terra batida, mas n�o entendeu nada.</p><p>� � v�o desdenhar da nossa escolha, Carlinya � dizia Sheriam, com seus cabelos de fogo �, mas v�o desprezar qualquer escolha que fa�amos. N�s podemos muito bem manter a nossa decis�o. Voc� n�o precisa que eu liste os motivos outra vez.</p><p>Morvrin, uma corpulenta irm� Marrom com mechas grisalhas nos cabelos, riu com desd�m.</p><p>� Depois de todo o nosso trabalho com o Sal�o, ter�amos um trabalh�o para faz�-las mudar de ideia.</p><p>� Desde que nenhum governante nos ridicularize, de que isso nos importa? � indagou Myrelle, em um tom acalorado. A mais jovem das seis, Aes Sedai havia poucos anos, ela parecia bastante irritada.</p><p>� Que governante ousaria? � perguntou Anaiya, parecendo uma dona de casa inquirindo que crian�a ousaria pisar em seus carpetes com os sapatos sujos de lama. � De todo modo, nenhum rei ou rainha sabe o bastante do que se passa entre as Aes Sedai para entender. S� a opini�o das irm�s deve ser motivo de preocupa��o, n�o a deles.</p><p>� O que me preocupa � retrucou Carlinya, impass�vel � � que, se tivermos facilidade em manipul�-la, outros tamb�m podem ter. � A irm� Branca, de pele p�lida e olhos quase negros, estava sempre impass�vel, alguns diriam g�lida.</p><p>Fosse qual fosse o assunto, n�o era nada que quisessem debater na frente de Elayne e das outras. Logo antes de encontr�-las, as mulheres se calaram.</p><p>Siuan e Leane reagiram �s rec�m-chegadas dando subitamente as costas uma para a outra, como se sua conversa tivesse sido interrompida pelas Aes Sedai. Elayne, por sua vez, na mesma hora baixou a cabe�a para conferir o vestido. Era o correto, branco com as listras. N�o sabia como se sentia a respeito de ter surgido, sem nem pensar, j� com o vestido certo � podia apostar que Nynaeve tivera de trocar a roupa depois de chegar. Por outro lado, Nynaeve era muito mais intr�pida do que ela, desafiando limites aos quais ela mesma se sujeitara. Como conseguiria governar Andor? Isso se sua m�e estivesse morta. Se.</p><p>Sheriam, meio gorducha e com as ma��s do rosto proeminentes, voltou os olhos verdes e obl�quos para Siuan e Leane. Por um momento, usava um xale de franjas azuis.</p><p>� Se voc�s duas n�o aprenderem a se dar bem, juro que as mandarei para Tiana. � Parecia algo dito com tanta frequ�ncia que j� perdera o tom de amea�a.</p><p>� Voc�s trabalharam juntas por bastante tempo � interveio Beonin, com seu sotaque taraboniano carregado. Era uma bela irm� Cinza, com cabelos cor de mel em uma infinidade de tran�as e olhos azuis acinzentados que pareciam sempre sobressaltados. No entanto, nada surpreendia Beonin. A cada novo dia, ela s� acreditava no nascer do sol se o visse com os pr�prios olhos, e Elayne achava que, se alguma manh� n�o visse o sol nascer, Beonin n�o arrepiaria um s� fio de cabelo. S� se consideraria vingada por sempre ter exigido provas. � Ent�o podem e devem trabalhar juntas outra vez.</p><p>Beonin soava como se tivesse dito aquilo tantas vezes que mal tinha que pensar para repetir a frase. Todas as Aes Sedai estavam acostumadas com Siuan e Leane. Tinham come�ado a trat�-las da mesma forma que tratariam garotinhas incapazes de parar de brigar. As Aes Sedai de fato tendiam a ver qualquer adulto como crian�a. At� aquelas duas, que um dia haviam sido suas irm�s.</p><p>� Voc� pode mandar as duas para Tiana ou n�o � vociferou Myrelle �, mas pare de falar nisso. � Elayne n�o achava que a mulher de beleza soturna estivesse irritada com Siuan ou Leane. Talvez n�o fosse nada ou ningu�m em particular. Seu temperamento dif�cil era famoso at� entre as Verdes. O vestido de seda amarelo-ouro passou a ostentar uma gola alta, mas com um recorte oval que expunha o topo dos seios. Ela tamb�m usava um colar curioso, uma larga gargantilha de prata sustentando tr�s pequenas adagas cujos punhos repousavam sobre o decote. Uma quarta adaga apareceu e desapareceu t�o depressa que poderia ter sido imagina��o. Ela olhou Nynaeve de cima a baixo, como se buscasse alguma imperfei��o. � Estamos indo para a Torre ou n�o? Se temos que fazer isso, podemos muito bem aproveitar o tempo gasto para fazer algo de �til.</p><p>Elayne ent�o entendeu o motivo da irrita��o de Myrelle. Logo que ela e Nynaeve chegaram a Salidar, tinham encontros com Egwene em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> a cada sete dias para compartilhar suas descobertas. O que nem sempre era f�cil, j� que Egwene era acompanhada de pelo menos uma das Andarilhas do Sonho Aiel com quem estava estudando. Encontrar-se sem uma ou duas das S�bias fora um tanto dif�cil. De todo modo, tudo aquilo acabou quando elas chegaram a Salidar. Aquelas seis Aes Sedai do conselho de Sheriam tinham assumido o controle dos encontros, mas tinham apenas os tr�s <emphasis>ter�angreal</emphasis> originais e pouco conhecimento acerca de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> al�m de como adentr�-lo. Tinha sido exatamente na �poca em que Egwene fora ferida, de forma que as Aes Sedai tinham que lidar sozinhas com as S�bias. Eram encontros de dois grupos de mulheres orgulhosas e resolutas, cada um desconfiado do que o outro queria, nenhum disposto a ceder ou baixar a cabe�a um tantinho que fosse.</p><p>Claro que Elayne n�o sabia o que se passava nessas reuni�es, mas tomava por base as pr�prias experi�ncias e os fragmentos de informa��o que Sheriam e as outras deixavam escapar aqui e ali.</p><p>As Aes Sedai estavam convencidas de que eram capazes de aprender qualquer coisa que pudesse ser aprendida, al�m de em geral sempre exigirem o respeito dispensado �s rainhas e sempre esperarem que tudo lhes fosse revelado sem protestos nem delongas. Ao que parecia, as mulheres da Torre tinham exigido resposta para tudo: os planos de Rand, quando Egwene estaria em condi��es de retornar ao Mundo dos Sonhos e at� se havia a possibilidade de espionar sonhos alheios em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, de adentrar fisicamente o Mundo dos Sonhos ou de levar algu�m para o sonho � revelia. Tinham at� perguntado mais de uma vez se era poss�vel afetar o mundo real a partir do que se fazia no sonho, impossibilidade da qual pareciam duvidar. Morvrin j� estudara um pouco alguns escritos sobre <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, o suficiente para ter um sem-fim de d�vidas, embora Elayne desconfiasse de que Siuan fosse respons�vel por uma parte. Achava que Siuan estava tramando algum ardil para participar das reuni�es, mas as Aes Sedai pareciam crer que j� era o bastante dar a ela salvo-conduto para usar o anel a fim de auxiliar no trabalho com os olhos-e-ouvidos. A antiga Amyrlin s� se incomodava realmente com a interfer�ncia de Aes Sedai em seu trabalho.</p><p>Quanto �s Aiel� as S�bias � ao menos as Andarilhas dos Sonhos �, pelo que Elayne percebera a partir dos pr�prios encontros, elas n�o apenas sabiam praticamente tudo o que havia para se saber a respeito do Mundo dos Sonhos, como tamb�m o consideravam quase uma propriedade particular. N�o gostavam que ningu�m fosse at� l� na ignor�ncia e lidavam de forma muito rigorosa com qualquer atitude que julgassem tola. Al�m do mais, eram um grupo reticente e, ao que parecia, extremamente leal a Rand e que n�o estava disposto a revelar muito mais do que o fato de ele estar vivo ou de que Egwene retornaria a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> quando estivesse em condi��es. Tamb�m n�o mostravam a menor disposi��o a responder �s perguntas que consideravam inapropriadas � o que podia significar tanto que n�o confiavam que os conhecimentos do inquiridor fossem suficientes para a resposta, ou que a pergunta, a resposta ou ambas de alguma forma violavam sua estranha filosofia de honra e obriga��o. Elayne sabia pouco sobre o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> � tudo o que sabia era que aquilo existia e que gerava comportamentos bastante peculiares e delicados.</p><p>De todo modo, era a receita para o desastre, e Elayne achava muito prov�vel que esse prato fosse servido fresco a cada sete dias, pelo menos do ponto de vista das Aes Sedai.</p><p>A princ�pio, Sheriam e as outras cinco tinham requisitado aulas todas as noites, mas agora as solicitavam em apenas duas ocasi�es: na v�spera da reuni�o com as S�bias, como se para apurar as habilidades antes do dia da competi��o, e na noite seguinte, quando em geral estavam mais quietas, como se para processar o que dera errado e como contra-atacar. Myrelle decerto j� fervilhava de agita��o por conta do desastre da noite que viria em seguida. Era certo que haveria algum.</p><p>Morvrin virou-se para Myrelle e abriu a boca, mas outra mulher surgiu de repente entre elas. Elayne levou um instante para reconhecer as fei��es sem idade de Gera, uma das cozinheiras. Vestida com o xale de franjas verdes com a Chama de Tar Valon e pesando menos da metade de seu peso verdadeiro, Gera ergueu um dedo admonit�rio para as Aes Sedai� e desapareceu.</p><p>� Quer dizer ent�o que � com isso que ela sonha? � perguntou Carlinya, com frieza. Mangas pontudas cresceram em seu vestido de seda alv�ssima, cobrindo as m�os, e uma gola alta e justa se projetou sob o queixo. � Algu�m devia ter uma conversa com ela.</p><p>� Deixe para l�, Carlinya � retrucou Anaiya, com uma risadinha. � Gera � uma boa cozinheira. Eu at� entendo o atrativo desses pensamentos. � Ela de repente ficou mais magra e alta. Suas fei��es em si n�o se alteraram: era o mesmo rosto inexpressivo e maternal de sempre. Com uma risada, a mulher mudou de volta. � Ser� que voc� nunca v� divers�o em nada, Carlinya?</p><p>At� a fungada desdenhosa de Carlinya em resposta foi fria.</p><p>� Gera com certeza nos viu � interveio Morvrin. � Mas ser� que vai se lembrar? � Seus duros olhos escuros estavam pensativos. O vestido de l� escura e lisa era o mais est�vel dos seis. Alguns detalhes mudavam, mas era uma mudan�a t�o sutil que Elayne n�o conseguia de fato dizer o que havia de diferente.</p><p>� � claro que vai � respondeu Nynaeve, em um tom amargo. J� explicara isso. Seis Aes Sedai a encararam com as sobrancelhas erguidas, e ela moderou o tom. Um pouco. Tamb�m odiava esfregar panelas. � Se ela se lembrar do sonho, vai se lembrar. Mas s� como sonho.</p><p>Morvrin franziu o cenho. Queria uma prova, quase como Beonin. A express�o extremamente aborrecida de Nynaeve traria problemas, fosse qual fosse seu tom. Antes que Elayne pudesse dizer algo que desviasse o foco das Aes Sedai da amiga, Leane abriu a boca, exibindo no rosto um sorrisinho quase afetado:</p><p>� Voc�s n�o acham que a gente deveria ir agora?</p><p>Siuan bufou de desd�m em resposta � timidez da mulher, e Leane cravou os olhos penetrantes nela.</p><p>� Pois sim, voc� com certeza quer passar o m�ximo de tempo poss�vel na Torre � retrucou Siuan, num tom acanhado, e Leane fungou.</p><p>Elas realmente atuavam muito bem. Sheriam e as outras sequer suspeitavam de que Siuan e Leane fossem mais do que duas mulheres estancadas agarrando-se a um prop�sito que preservasse sua vida, agarrando-se �s rebarbas do que um dia haviam sido. Duas mulheres infantis tentando o tempo inteiro irritar uma � outra. As Aes Sedai n�o deveriam ter se esquecido da fama de manipuladora voluntariosa de Siuan, sempre cheia de artimanhas � assim como Leane, ainda que em menor grau. Se aquelas duas tivessem demonstrado uni�o ou revelado suas verdadeiras faces, as seis Aes Sedai teriam se lembrado disso e considerariam com muita aten��o todas as declara��es da dupla. Por�m, divididas e destilando rancor uma para cima da outra, quase sem perceber que praticamente rastejavam aos p�s das Aes Sedai� nesse caso, quando uma era for�ada a concordar com o que a outra dizia, a sugest�o vinha com maior peso. Quando uma se opunha com base em argumentos claramente fr�volos, tamb�m. Elayne sabia que o objetivo do fingimento era levar Sheriam e as outras a apoiarem Rand. S� desejava saber os outros prop�sitos para os quais empregavam o ardil.</p><p>� Elas t�m raz�o � interveio Nynaeve, com firmeza, lan�ando um olhar enojado para Siuan e Leane. Aquele disfarce a aborrecia ao extremo: Nynaeve jamais se rebaixaria, nem que a pr�pria vida dependesse disso. � A essa altura, voc�s j� devem saber que quanto mais tempo passam aqui, menos descansam de verdade. O sono enquanto se est� em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> n�o � reparador feito o sono comum. Agora, lembrem-se de tomar cuidado caso vejam qualquer coisa fora do normal. � Ela de fato odiava ter que se repetir, e seu tom de voz deixava isso bem claro. E Elayne precisava admitir que, em se tratando daquelas mulheres, se repetir era muitas vezes necess�rio. Se pelo menos Nynaeve n�o parecesse estar falando com crian�as desmioladas� � Quando algu�m adentra <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em sonho, feito Gera, mas est� tendo um pesadelo, �s vezes o pesadelo persiste. E eles s�o muito perigosos. Evitem tudo o que parecer incomum. E tentem controlar os pensamentos, desta vez. O que voc�s pensam aqui pode se tornar real. Aquele Myrddraal que apareceu do nada da �ltima vez pode at� ter sido resqu�cio de um pesadelo, mas acho que foi uma de voc�s que deixou a mente vagar. Voc�s estavam falando sobre Ajah Negra, se n�o se lembram, debatendo se elas estariam permitindo a entrada de Crias da Sombra na Torre. � Como se tudo aquilo j� n�o fosse p�ssimo, Nynaeve ainda acrescentou: � Voc�s n�o v�o impressionar as S�bias amanh� � noite se chamarem um Myrddraal.</p><p>Elayne estremeceu.</p><p>� Crian�a � retrucou Anaiya, com gentileza, ajustando o xale de franjas azuis que de s�bito surgiu sobre seus bra�os �, voc� tem feito um excelente trabalho, mas isso n�o � desculpa para falar com tamanha irrita��o.</p><p>� Voc� ganhou muitos privil�gios � concordou Myrelle, sem o mesmo tom gentil �, mas parece estar se esquecendo de que s�o <emphasis>privil�gios</emphasis>. � Sua carranca devia ter sido suficiente para fazer at� Nynaeve estremecer. Myrelle, nas semanas anteriores, agira de maneira cada vez mais dura com a Aceita. E agora tamb�m usava o xale. Todas usavam. P�ssimo sinal.</p><p>Morvrin bufou audivelmente.</p><p>� Quando eu era Aceita, qualquer garota que falasse com uma Aes Sedai dessa maneira teria passado o m�s esfregando o ch�o, mesmo que estivesse para ser elevada no dia seguinte.</p><p>Elayne mais que depressa se pronunciou, torcendo para conseguir se antecipar ao desastre. Nynaeve pusera no rosto o que ela acreditava ser uma express�o de complac�ncia, por�m estava mais para uma careta emburrada e teimosa.</p><p>� Tenho certeza de que ela n�o teve a menor inten��o, Aes Sedai. Temos trabalhado demais. Por favor, nos perdoe. � Incluir a si mesma poderia ser de alguma ajuda, j� que n�o tinha feito nada. E poderia fazer com que as duas acabassem esfregando o ch�o. Pelo menos aquilo fez Nynaeve olhar para ela. E, ao que parecia, a levou a refletir, j� que a amiga assumiu uma express�o de fato complacente, fez uma mesura e encarou o ch�o, como se estivesse envergonhada. E talvez estivesse mesmo. Talvez. Elayne apressou-se em prosseguir, como se Nynaeve tivesse pedido desculpas formais e as outras tivessem aceitado. � Sei que todas voc�s querem passar o m�ximo de tempo poss�vel na Torre, ent�o talvez seja melhor n�o nos demorarmos mais? Que tal se todas visualizarem o gabinete de Elaida da maneira exata como o viram da �ltima vez? � Ali em Salidar, Elaida jamais era chamada de Amyrlin. Da mesma forma, o gabinete da Amyrlin na Torre Branca tivera o nome alterado. � Pe�o que todas visualizem o lugar bem fixamente, para que cheguemos l� juntas.</p><p>Anaiya foi a primeira a assentir, mas at� Carlinya e Beonin se deixaram contornar.</p><p>N�o ficou claro se as dez mulheres se deslocaram ou se foi <emphasis>Tel�aran�rhiod </emphasis>que se deslocou em torno delas. Poderia ter sido ambas as coisas, pelo pouco que Elayne de fato compreendia. O Mundo dos Sonhos era de uma maleabilidade quase infinita. Primeiro estavam todas na rua em Salidar, mas, no instante seguinte, se viram no interior de um aposento grande e todo ornamentado. As Aes Sedai assentiram, satisfeitas, ainda inexperientes a ponto de se contentar com tudo o que funcionasse de acordo com o planejado.</p><p>Assim como <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> refletia o mundo desperto, aquele aposento refletia o poder das mulheres que o haviam ocupado durante os �ltimos tr�s mil anos. Os grandes abajures de ch�o dourados estavam apagados, mas havia luz, � maneira estranha dos sonhos e de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. A comprida lareira era de m�rmore dourado de Kandor, e o ch�o, de pedra vermelha polida das Montanhas da N�voa. Os pain�is das paredes tinham sido instalados havia relativamente pouco tempo, meros mil anos. Eram de madeira clara, com linhas desiguais e entalhes de bestas e p�ssaros maravilhosos, que Elayne tinha certeza de serem origin�rios da imagina��o do escultor. Reluzentes pedras peroladas emolduravam as imensas janelas em arco que levavam at� a sacada com vista para o jardim particular da Amyrlin � aquela pedra fora extra�da de uma cidade sem nome, submersa no Mar das Tempestades durante a Ruptura do Mundo, e ningu�m jamais encontrara material similar.</p><p>Cada mulher que utilizava aquele aposento deixava ali sua pr�pria marca, ainda que apenas durante o per�odo de sua posse, e com Elaida n�o era diferente. Uma pesada cadeira com ares de trono, com uma Chama de Tar Valon de marfim coroando o espaldar alto, jazia atr�s de uma pesada escrivaninha ornamentada com entalhes de tr�s an�is conectados. Sobre a mesa havia apenas tr�s caixas de laca altaranas, cada uma precisamente � mesma dist�ncia das outras. Um vaso branco liso repousava no topo de um austero pedestal recostado a uma parede. O vaso continha rosas cujo n�mero e cor mudavam a cada olhada, por�m sempre dispostas em arranjos muito s�brios e r�gidos. Rosas naquela �poca do ano, com aquele clima! O Poder �nico fora <emphasis>desperdi�ado </emphasis>s� para faz�-las florescer. Elaida fazia o mesmo quando era conselheira da m�e de Elayne.</p><p>Acima da lareira estava pendurada uma pintura no novo estilo, em lona estendida, de dois homens lutando entre as nuvens, disparando raios. Um deles tinha rosto de fogo, o outro era Rand. Elayne estivera em Falme durante aquele epis�dio, e a pintura n�o estava muito longe da realidade. A tela fora rasgada bem em cima do rosto de Rand, ao que parecia pelo arremesso de um objeto pesado, e havia um remendo quase invis�vel. Estava claro que Elaida queria uma lembran�a constante do Drag�o Renascido � e estava igualmente claro que a mulher n�o ficava muito feliz em ter que olhar para ele.</p><p>� Se me d�o licen�a � pediu Leane, antes mesmo que todas terminassem de menear a cabe�a, satisfeitas �, preciso ver se meu povo recebeu minhas mensagens.</p><p>Todas as Ajahs, exceto a Branca, tinham uma rede de olhos-e-ouvidos espalhada pelas na��es, e um bom n�mero de Aes Sedai tinha sua rede pr�pria, mas Leane era rara, talvez �nica � como Curadora, criara uma rede dentro da pr�pria Tar Valon. No instante em que falou, a mulher desapareceu.</p><p>� Ela n�o devia andar por aqui sozinha � comentou Sheriam, exasperada. � Nynaeve, v� atr�s dela. E fiquem juntas.</p><p>Nynaeve deu um pux�o na tran�a.</p><p>� Eu n�o acho que�</p><p>� Voc� �n�o acha� um pouco demais � interrompeu Myrelle. � Pelo menos uma vez na vida, Aceita, fa�a o que lhe for mandado. E na hora em que for mandado.</p><p>Trocando um olhar azedo com Elayne, Nynaeve assentiu, claramente engolindo uma bufada, e desapareceu. Elayne n�o foi muito simp�tica ao sofrimento da amiga. Se Nynaeve n�o tivesse cedido � pr�pria irrita��o em Salidar, talvez tivesse podido explicar que seria imposs�vel encontrar Leane, que a mulher podia estar em qualquer lugar da cidade e que fazia semanas que ela vinha se aventurando sozinha em<emphasis> Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p>� Agora vamos ver o que podemos descobrir � disse Morvrin.</p><p>Por�m, antes que as outras pudessem se mexer, Elaida surgiu atr�s da escrivaninha, os olhos vidrados. Uma mulher inflex�vel, de beleza masculina e olhos e cabelos escuros, Elaida usava um vestido vermelho-sangue e a estola listrada do Trono de Amyrlin por sobre os ombros.</p><p>� Como eu Previ � entoou. � A Torre Branca vai se reunir sob o meu comando. Sob o<emphasis> meu</emphasis> comando! � Ela apontou para o ch�o, irritada. � Ajoelhem-se e pe�am perd�o por seus pecados! � Com isso, ela sumiu.</p><p>Elayne soltou um longo suspiro, ent�o sentiu-se grata ao perceber que n�o fora a �nica.</p><p>� Uma Previs�o? � Beonin franziu a testa, pensativa. N�o parecia preocupada, mas poderia muito bem estar. Elaida de fato tinha o dom da Previs�o, ainda que n�o fosse constante. Quando a Previs�o dominava uma mulher e ela previa um acontecimento, acontecia.</p><p>� Um sonho � retrucou Elayne, e ficou surpresa em ver como sua voz estava firme. � Ela est� dormindo e sonhando. N�o me admira que sonhe tudo conforme seu gosto. � <emphasis>Por favor, Luz, que seja apenas isso.</emphasis></p><p>� Perceberam a estola? � perguntou Anaiya, a ningu�m em particular. � N�o tinha listra azul. � A estola da Amyrlin deveria exibir uma listra para cada uma das sete Ajahs.</p><p>� Um sonho � repetiu Sheriam, inexpressiva. Soava destemida, mas usava outra vez o xale de franjas azuis, que apertava em volta do corpo. Anaiya tamb�m.</p><p>� Seja isso ou n�o � interveio Morvrin, muito calma �, � melhor fazermos o que viemos fazer. � Pouca coisa a amedrontava.</p><p>A s�bita agita��o desencadeada pelas palavras da irm� Marrom deixou muito claro como todas tinham ficado paralisadas. Ela, Carlinya e Anaiya mais que depressa sa�ram para a antessala, onde estaria a mesa de trabalho da Curadora � Alviarin Freidhen, sob as ordens de Elaida. Uma Branca, por estranho que fosse, j� que a Curadora <emphasis>sempre</emphasis> vinha da mesma Ajah da Amyrlin.</p><p>Siuan olhou irritada para as mulheres que sa�am. Ela sempre dizia que havia mais a se descobrir com os pap�is de Alviarin do que os de Elaida, pois a Branca �s vezes parecia saber mais do que a mulher a quem supostamente servia, e por duas vezes Siuan encontrou provas de que Alviarin havia ido contra as ordens de Elaida sem repercuss�o aparente. N�o que tivesse revelado tais ordens a Elayne ou Nynaeve. O que Siuan decidia compartilhar era bem limitado.</p><p>Sheriam, Beonin e Myrelle se reuniram diante da mesa de Elaida, abriram uma das caixas de laca e come�aram a revirar os pap�is l� dentro. Era ali que Elaida guardava as correspond�ncias e os relat�rios recentes. A caixa, entalhada com gavi�es dourados lutando entre as nuvens brancas de um c�u azul, cismava em fechar de repente toda vez que uma delas soltava a tampa, at� que as mulheres se lembraram de mant�-la presa, mas os pap�is tamb�m se modificavam durante a leitura. Papel era mesmo uma mat�ria ef�mera. Entre <emphasis>tsc, tsc</emphasis> exaltados e suspiros de irrita��o, as Aes Sedai perseveraram.</p><p>� Aqui tem um relat�rio de Danelle � anunciou Myrelle, passando os olhos por uma das folhas. Siuan tentou juntar-se a elas, pois Danelle, uma jovem Marrom, fizera parte do grupo de conspiradoras que a depusera; mas Beonin olhou feio para a antiga Amyrlin, que retornou para o canto, resmungando sozinha. Beonin voltou a aten��o � caixa e aos documentos antes mesmo que Siuan desse tr�s passos, e as outras duas nem sequer perceberam a troca. Myrelle continuou: � Ela diz que Mattin Stepaneos aceita cordialmente, que Roedran ainda est� tentando ouvir de todos os lados e que Alliandre e Tylin querem mais tempo para considerar a resposta. Tem uma observa��o aqui, na caligrafia de Elaida: �Pressione-os!� � A mulher estalou a l�ngua enquanto o relat�rio se desfazia em suas m�os, transformando-se em ar. � N�o dizia em rela��o ao qu�, mas s� pode haver duas possibilidades que envolva aqueles quatro.</p><p>Mattin Stepaneos era Rei de Illian, e Roedran, de Murandy, enquanto Alliandre era Rainha de Ghealdan, e Tylin, de Altara. O assunto s� podia ser Rand ou as Aes Sedai em oposi��o a Elaida.</p><p>� Pelo menos sabemos que nossas emiss�rias ainda t�m as mesmas chances que as de Elaida � comentou Sheriam.</p><p>Claro, Salidar n�o mandara ningu�m at� Mattin Stepaneos, pois Lorde Brend, do Conselho dos Nove � na verdade Sammael �, era quem detinha o poder em Illian. Elayne queria muito poder saber que proposta de Elaida Sammael estava disposto a apoiar, ou pelo menos permitir que Mattin Stepaneos dissesse que ele iria apoiar. Tinha certeza de que as tr�s Aes Sedai tamb�m queriam muito saber, mas elas apenas continuaram pegando documentos de dentro da caixa de laca.</p><p>� O mandado de pris�o para Moiraine ainda est� em vigor � anunciou Beonin, balan�ando a cabe�a enquanto a folha em sua m�o de s�bito se transformava em um grosso calhama�o de pap�is. � Ela ainda n�o sabe que Moiraine morreu. � Franzindo o cenho para os pap�is, ela os deixou cair. As folhas se espalharam e se dissolveram no ar antes de chegar ao ch�o. � E Elaida continua pretendendo construir um pal�cio para si.</p><p>� Bem t�pico dela � retrucou Sheriam, num tom seco. Estendeu a m�o com um tranco e apanhou o que parecia um bilhete. � Shemerin fugiu. A <emphasis>Aceita</emphasis> Shemerin.</p><p>As tr�s olharam para Elayne antes de voltar a aten��o � caixa, que tiveram que abrir outra vez. Ningu�m fez qualquer coment�rio em rela��o �s palavras de Sheriam.</p><p>Elayne quase rangeu os dentes. Ela e Nynaeve tinham dito �s outras que Elaida estava rebaixando Shemerin, uma irm� Amarela, a Aceita, mas elas naturalmente n�o tinham acreditado. Era poss�vel obrigar uma Aes Sedai a cumprir penit�ncias, era poss�vel bani-la, mas n�o era poss�vel rebaix�-la, a n�o ser que fosse estancada. Por�m, fora exatamente isso que Elaida fizera, fossem quais fossem as leis da Torre. Talvez ela estivesse reescrevendo as leis da Torre.</p><p>A verdade era que muitas coisas que haviam contado �quelas mulheres n�o tinham sido levadas a s�rio. Mo�as t�o novas, Aceitas, n�o podiam ter tanto conhecimento sobre o mundo a ponto de saberem o que podia ou n�o ser verdade. Jovens eram cr�dulas, ing�nuas, podiam muito bem ver e acreditar em algo que com certeza n�o existia. Elayne se esfor�ou para n�o bater o p�. Uma Aceita aceitava o que as Aes Sedai desejassem oferecer e n�o pedia o que as Aes Sedai escolhessem guardar para si. Como pedidos de desculpas. A Filha-herdeira preservou o rosto sereno e conteve a ira.</p><p>Siuan n�o se sentia presa a tais amarras. Pelo menos, n�o na maior parte do tempo. Quando as Aes Sedai n�o estavam olhando, sempre lhes dispensava uma carranca. Naturalmente, se uma das tr�s lhe dirigisse o olhar, ela na mesma hora assumia uma express�o mansa. Era muito experiente nisso. Um le�o sobrevive sendo le�o, dissera certa vez a Elayne, e um rato, sendo rato. Mas Siuan dava um rato muito pertinaz.</p><p>Elayne pensou ter detectado preocupa��o nos olhos da antiga Amyrlin. Aquela tarefa fora dela desde que Siuan provara �s Aes Sedai que podia usar o anel com seguran�a � na verdade, depois de ela e Leane terem aulas secretas ministradas por Nynaeve e Elayne �, al�m de ser uma excelente fonte de informa��es. Restabelecer contato com os olhos-e-ouvidos espalhados pelas na��es e redirecionar os informes da Torre para Salidar levava tempo. Se Sheriam e as outras pretendiam assumir o controle daquilo, Siuan poderia se tornar menos �til. Nenhuma rede de agentes da hist�ria da Torre jamais fora comandada por ningu�m menos que uma irm� completa antes que a antiga Amyrlin chegasse a Salidar com seu conhecimento sobre os olhos-e-ouvidos do Trono e da Ajah Azul, que ela comandara antes de se tornar Amyrlin. Beonin e Carlinya mostravam relut�ncia em depender de uma mulher que j� n�o era uma delas, e as outras n�o pareciam pensar muito diferente. Verdade fosse dita, nenhuma delas se sentia muito confort�vel perto de uma mulher estancada.</p><p>E tamb�m n�o havia nada que Elayne pudesse fazer. As Aes Sedai poderiam chamar aquilo de instru��o, poderiam at� pensar que fosse, mas ela sabia por experi�ncia pr�pria que, se tentasse ensinar qualquer coisa sem que lhe fosse solicitado, seria repreendida na hora. Estava ali para responder �s perguntas e nada mais. Pensou em um banquinho que apareceu na mesma hora � tinha entalhes de vinhas nos p�s �, e se sentou para esperar. Uma cadeira seria mais confort�vel, mas talvez gerasse coment�rios. Uma Aceita sentada muito confortavelmente em geral era considerada uma Aceita sem tarefas o bastante. Depois de um instante, Siuan conjurou um banquinho quase id�ntico e abriu um sorriso tenso para Elayne� e uma careta de desprezo para as costas das Aes Sedai.</p><p>Da primeira vez que Elayne visitara aquele aposento em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, havia um semic�rculo de banquinhos similares, uma d�zia ou mais, diante da robusta mesa entalhada. A cada visita havia menos, e agora, ela n�o via nenhum. Tinha certeza de que isso indicava alguma coisa, embora n�o conseguisse imaginar o qu�. Tinha certeza de que Siuan pensava o mesmo e que, muito provavelmente, j� desvendara a raz�o. Mas, se era o caso, n�o compartilhara a explica��o com Elayne e Nynaeve.</p><p>� Os combates em Shienar e Arafel est�o arrefecendo � murmurou Sheriam, meio que para si mesma �, mas ainda n�o tem nada aqui que indique por que come�aram. Apenas escaramu�as, s� que os homens da Fronteira n�o lutam entre si. Eles t�m que lidar com a Praga. � Ela era de Saldaea, uma das Terras da Fronteira.</p><p>� Pelo menos a Praga continua em paz � comentou Myrelle. � Paz at� demais. Isso n�o vai durar muito. Ainda bem que Elaida tem muitos olhos-e-ouvidos pelas Terras da Fronteira.</p><p>Siuan conseguiu estremecer ao mesmo tempo que olhava feio para Myrelle. Elayne achava que a antiga Amyrlin ainda n�o conseguira entrar em contato com seus agentes nas Terras da Fronteira, muito longe de Salidar.</p><p>� Eu ficaria mais tranquila se pud�ssemos dizer o mesmo de Tarabon. � A folha na m�o de Beonin ficou maior e mais larga. Ela deu uma olhadela, fungou e deixou-a de lado. � Os olhos-e-ouvidos em Tarabon, eles andam quietos. Todos eles. A �nica not�cia que Elaida tem de Tarabon s�o os rumores de Amad�cia de que as Aes Sedai est�o envolvidas na guerra. � Ela balan�ou a cabe�a, pensando no absurdo de depositar tais rumores em uma folha de papel. As Aes Sedai n�o se envolviam em guerras civis. Pelo menos n�o abertamente a ponto de serem detectadas. � E, ao que parece, h� apenas uns poucos relatos confusos de Arad Doman.</p><p>� Dentro em breve n�s mesmas saberemos de Tarabon � disse Sheriam, em um tom tranquilo. � S� mais algumas semanas.</p><p>A busca prosseguiu por horas. Os documentos nunca escasseavam, a caixa de laca estava sempre cheia. Inclusive, a pilha �s vezes crescia com a retirada de uma folha. Claro que apenas as menores mantinham sua concretude por tempo suficiente para serem lidas por completo, mas de vez em quando uma carta ou um relat�rio j� visualizado despontava outra vez na caixa. Havia longos per�odos de sil�ncio, mas alguns documentos provocavam coment�rios, e uns poucos suscitavam discuss�es entre as Aes Sedai. Siuan come�ou a tran�ar um barbante, brincando de cama de gato sozinha, em aparente desaten��o. Elayne desejou poder fazer o mesmo, ou melhor, poder ler um pouco � um livro surgiu no ch�o a seus p�s, <emphasis>As Jornadas de Jain, o Viajante</emphasis>, e ela logo o fez desaparecer �, mas as mulheres que n�o eram Aes Sedai tinham mais liberdade do que as ainda em treinamento. Contudo, ouvindo a conversa, ela descobriu algumas coisas.</p><p>O envolvimento de Aes Sedai em Tarabon n�o foi o �nico boato que chegou � escrivaninha de Elaida. Havia rumores de que a reuni�o de Pedron Niall com os Mantos-brancos tivera muitos objetivos, como tomar o trono de Amad�cia � o que sem d�vida ele n�o precisava fazer �, reprimir as guerras e a anarquia em Tarabon e Arad Doman, e at� <emphasis>apoiar</emphasis> Rand. Elayne s� acreditaria nisso quando o sol nascesse no oeste. Havia relatos de acontecimentos estranhos em Illian e Cairhien: aldeias tomadas pela loucura, pesadelos ambulantes � luz do dia, bezerros falantes de duas cabe�as, Crias da Sombra se materializando do nada � talvez houvesse outros acontecimentos, mas s� esses tinham sido testemunhados. Sheriam e as outras n�o pareceram se importar muito, pois o mesmo tipo de hist�rias chegava a Salidar vindas de algumas partes de Altara e Murandy e tamb�m pelo rio, de l� de Amad�cia. As Aes Sedai achavam que fosse histeria do povo por saber do Drag�o Renascido. Elayne n�o tinha tanta certeza. Tinha visto coisas que as outras n�o tinham, mesmo com tantos anos de experi�ncia. Corria o boato de que sua m�e estava formando um ex�rcito a oeste de Andor � e ainda por cima sob a antiga bandeira de Manetheren! � e tamb�m que fora feita prisioneira por Rand e escapara para todas as na��es imagin�veis, incluindo as Terras da Fronteira e Amad�cia � sendo que essa �ltima era um absurdo <emphasis>inimagin�vel</emphasis>. Ao que parecia, a Torre n�o acreditava em nada disso. Elayne queria saber no que acreditar.</p><p>Tentou parar de sofrer por n�o saber o paradeiro da m�e quando ouviu Sheriam mencionar seu nome. A mulher n�o estava falando com ela, apenas lendo �s pressas uma folha de papel quadrada, que logo se transformou em um comprido pergaminho com tr�s selos no canto inferior. Elayne Trakand deveria ser localizada e levada de volta � Torre Branca a qualquer custo. Caso fracassasse, a encarregada �invejaria a puni��o de Macura�. Aquilo deixou Elayne arrepiada. Quando ela e Nynaeve estavam a caminho de Salidar, uma mulher chamada Ronde Macura chegara muito perto de mand�-las de volta � Torre feito trouxas de roupa suja. A casa governante de Andor, leu Sheriam, era �a chave� � o que n�o fazia o menor sentido. Chave de qu�?</p><p>Nenhuma das tr�s Aes Sedai sequer olhou na dire��o dela. Apenas se entreolharam e prosseguiram. Talvez tivessem se esquecido de que Elayne estava ali, mas, por outro lado, talvez n�o. Aes Sedai faziam o que decidiam fazer. Se Elayne seria defendida de Elaida ou se por qualquer motivo a entregariam de p�s e m�os atados, isso seria decis�o das Aes Sedai. �<emphasis>O l�cio n�o pede permiss�o para jantar o sapo</emphasis>�, costumava dizer Lini.</p><p>A rea��o de Elaida era evidente na condi��o do relat�rio que reportava a anistia de Rand. Elayne quase podia v�-la esmagando a folha, come�ando a rasg�-la e ent�o alisando-a com frieza e depositando-a de volta na caixa. Seus acessos de f�ria eram quase sempre g�lidos. Elaida n�o escrevera nada naquele documento, por�m um rabisco contumaz em outro, enumerando as Aes Sedai ainda na Torre, deixava claro que ela estava prestes a declarar publicamente que qualquer uma que n�o obedecesse sua ordem de retorno seria considerada traidora. Sheriam e as outras debateram essa possibilidade com toda a calma. Por mais que muitas irm�s pretendessem obedecer, algumas teriam bastante ch�o a percorrer � algumas talvez ainda nem tivessem recebido a convoca��o. De todo modo, a ordem confirmaria ao mundo os rumores sobre a cis�o da Torre. Elaida devia estar em p�nico para considerar uma coisa dessas, ou talvez absolutamente fora de si.</p><p>Elayne sentiu um calafrio, e n�o tinha nada a ver com n�o saber se Elaida estava apavorada ou descontrolada. Havia duzentas e noventa e quatro Aes Sedai na Torre apoiando Elaida. Quase um ter�o do total, quase tantas quanto as que estavam reunidas em Salidar. Talvez o melhor a esperar disso fosse que as outras tamb�m se dividissem. Depois de um grande afluxo no in�cio, o n�mero que chegava a Salidar era muito pequeno. Talvez o fluxo � Torre tamb�m tivesse diminu�do. Havia esperan�a.</p><p>Durante um tempo, as tr�s mulheres vasculharam em sil�ncio. Ent�o Beonin exclamou:</p><p>� Elaida, ela mandou emiss�rias a Rand al�Thor.</p><p>Elayne se levantou de um salto. Quase n�o conseguiu segurar a l�ngua, mas viu Siuan cerrar o punho � o gesto um pouco comprometido pelo fracasso em fazer o barbante sumir depressa.</p><p>Sheriam procurou a folha, mas antes que sua m�o a tocasse, o papel se dividiu em tr�s.</p><p>� Para onde ela as mandou? � perguntou, ao mesmo tempo que Myrelle inquiria, com a calma e serenidade por um fio:</p><p>� Quando foi que sa�ram de Tar Valon?</p><p>� Para Cairhien � respondeu Beonin. � E n�o vi quando, se � que estava escrito. Mas elas com certeza v�o seguir para Caemlyn assim que descobrirem onde ele est�.</p><p>Mesmo assim, era bom. Talvez levassem um m�s ou mais para viajar de Cairhien at� Caemlyn. A miss�o diplom�tica de Salidar o alcan�aria antes, sem d�vida. Elayne guardava um mapa roto debaixo de seu colch�o em Salidar, e todos os dias marcava quanto achava que as enviadas j� tinham percorrido em dire��o a Caemlyn.</p><p>A irm� Cinza ainda n�o tinha terminado.</p><p>� Parece que Elaida, ela est� pretendendo oferecer apoio a Rand. E uma escolta � Torre.</p><p>Sheriam arqueou as sobrancelhas, surpresa.</p><p>� Isso � um absurdo. � O rosto cor de oliva de Myrelle assumiu uma express�o sombria. � Elaida era uma Vermelha.</p><p>A Amyrlin era de todas as Ajahs e de nenhuma, mas mesmo assim ningu�m abandona completamente suas origens.</p><p>� Aquela mulher � capaz de qualquer coisa � retrucou Sheriam. � Pode ser que ele veja atrativos no apoio da Torre.</p><p>� Talvez a gente possa enviar uma mensagem para Egwene pelas mulheres Aiel? � sugeriu Myrelle, em tom de d�vida.</p><p>Siuan tossiu alto, de um jeito bastante falso, por�m Elayne j� estava no limite. Advertir Egwene era vital, sem d�vida � o pessoal de Elaida com certeza tentaria arrast�-la de volta para a Torre caso a descobrisse em Cairhien, e ela n�o teria uma recep��o muito agrad�vel �, mas o resto�!</p><p>� Como voc�s podem sequer pensar que Rand escutaria qualquer coisa vinda de Elaida? Acham que ele n�o sabe que ela era da Ajah Vermelha e o que isso significa? Elas n�o v�o oferecer apoio, e voc�s sabem disso. N�s precisamos avis�-lo! � Havia contradi��o naquilo, e ela sabia, mas estava tomada de preocupa��o. Morreria se alguma coisa acontecesse a Rand.</p><p>� E como � que voc� sugere que <emphasis>n�s</emphasis> fa�amos isso, Aceita? � inquiriu Sheriam, com frieza.</p><p>Elayne temia que estivesse parecendo um peixe, com a boca escancarada daquele jeito. N�o fazia ideia de que resposta dar. E foi salva por um berro ao longe, de repente, seguido por gritos indistintos vindos da antessala. Estava mais perto da porta, mas quando saiu correndo as outras vieram logo atr�s.</p><p>O quarto estava vazio, exceto pela escrivaninha da Curadora, com pilhas de pap�is e montes de rolos e documentos, e uma fileira de cadeiras encostadas em uma das paredes, onde as Aes Sedai se sentavam enquanto aguardavam para falar com Elaida. Anaiya, Morvrin e Carlinya tinham sumido, mas uma das altas portas de entrada ainda estava se fechando. Os gritos fren�ticos de uma mulher ecoavam pela abertura estreita. Sheriam, Myrelle e Beonin quase derrubaram Elayne no desespero de chegar � parede. Podiam ter a apar�ncia indistinta, mas tinham corpos concretos at� demais.</p><p>� Tomem cuidado � gritou Elayne, mas n�o havia nada a fazer al�m de juntar as saias e correr com Siuan.</p><p>Adentraram a cena de um pesadelo. Literalmente. A cerca de trinta passos � direita, o corredor cheio de tape�arias de s�bito se abria em uma caverna de pedras que se estendia infinitamente, iluminada em alguns trechos pelo fraco brilho avermelhado das fogueiras e dos braseiros espalhados. Havia Trollocs por toda parte, imensas silhuetas com contornos de gente, os rostos demasiadamente humanos distorcidos por focinhos, trombas e bicos bestiais, al�m de chifres, presas ou cristas emplumadas. Os que estavam mais longe pareciam mais indefinidos que os pr�ximos, como se os mais distantes n�o estivessem completamente ali, ao passo que os mais pr�ximos eram gigantes, duas vezes maiores que um homem, maiores at� do que um Trolloc de verdade, todos envoltos em couro e malha negra com ponteiras, uivando e cabriolando por entre fogueiras, caldeir�es, rodas de tortura, estranhas molduras pregueadas e outros utens�lios de metal.</p><p>Era de fato um pesadelo, por�m maior do que qualquer outro que Elayne j� tivesse ouvido Egwene ou as S�bias mencionarem. Depois de deixarem a mente de quem as criava, essas criaturas �s vezes vagavam pelo Mundo dos Sonhos e se fixavam em algum lugar. Assim que as encontravam, as Andarilhas dos Sonhos Aiel as destru�am com toda a tranquilidade, mas as S�bias � e Egwene � tinham lhe dito que o melhor a fazer era evitar qualquer criatura com quem topasse. Infelizmente, Carlinya n�o devia ter prestado aten��o quando ela e Nynaeve passaram o conselho adiante.</p><p>A irm� Branca estava amarrada e pendurada pelos tornozelos por uma corrente que sumia na escurid�o acima. Aos olhos de Elayne, o t�nue brilho de <emphasis>saidar</emphasis> ainda a rodeava, mas Carlinya se contorcia e gritava freneticamente enquanto era abaixada de ponta cabe�a em dire��o a um imenso caldeir�o negro cheio de �leo fervente.</p><p>Ao mesmo tempo que Elayne avan�ava pelo corredor, Anaiya e Morvrin pararam na fronteira do pesadelo, onde o ch�o da torre de repente se transformava em caverna. Assim que pararam, suas formas indistintas come�aram a se espichar para dentro da borda, feito fuma�a entrando em uma chamin�. Na mesma hora ambas surgiram do lado de dentro, Morvrin aos berros enquanto dois Trollocs giravam imensas rodas de ferro que a faziam se esticar cada vez mais, Anaiya pendurada pelos pulsos com Trollocs dan�ando � sua volta, fustigando-a com chicotes com pontas de metal que deixavam rasgos enormes em seu vestido.</p><p>� Precisamos nos unir � anunciou Sheriam, e o brilho t�nue que a envolvia se fundiu com o de Myrelle e o de Beonin. Mesmo assim n�o chegou nem perto do brilho capaz de envolver uma �nica mulher no mundo desperto, uma mulher que n�o fosse um sonho nebuloso.</p><p>� N�o! � gritou Elayne, desesperada. � Voc�s n�o podem aceitar isso como real! Tem que tratar a situa��o como� � Ela agarrou o bra�o de Sheriam, mas o fluxo de Fogo que as tr�s haviam urdido, t�nue mesmo com o elo, tocou a fronteira entre sonho e pesadelo. A trama desapareceu, como se absorvida pelo pesadelo, e no mesmo instante as tr�s come�aram a se espichar feito brumas levadas pelo vento. S� tiveram tempo de gritar, surpresas, antes de tocar a fronteira e desaparecer. Sheriam ressurgiu l� dentro com a cabe�a para fora de um objeto de metal escuro em formato de sino; ao seu redor os Trollocs giravam manivelas e impulsionavam alavancas, e os cabelos ruivos da Aes Sedai balan�avam enquanto ela guinchava cada vez mais alto. Das outras duas n�o havia sinal, mas Elayne achou que ouvia mais berros ao longe, com gritos ininterruptos de �N�o!� e mais pedidos de ajuda.</p><p>� Voc� lembra o que lhe dissemos sobre como desfazer pesadelos? � perguntou Elayne.</p><p>Com os olhos fixos na cena � frente, Siuan assentiu.</p><p>� Negar a realidade deles. Tentar visualizar mentalmente como as coisas seriam fora dele.</p><p>Aquele tinha sido o erro de Sheriam, e decerto o erro de todas as outras Aes Sedai. Ao tentar canalizar para combater o pesadelo, elas o tinham aceitado como verdade, e essa aceita��o tragara todas para dentro do pesadelo exatamente como se elas o estivessem sonhando, deixando-as impotentes. A �nica sa�da era recordar o conselho, o que elas n�o davam sinal de sequer tentar fazer. Os ganidos cada vez mais altos penetravam os ouvidos de Elayne.</p><p>� O corredor � murmurou a Filha-herdeira, tentando formar na mente a imagem da �ltima vez que o vira. � Pense em como era o corredor.</p><p>� Estou tentando, garota � rosnou Siuan. � N�o est� funcionando.</p><p>Elayne suspirou. Siuan tinha raz�o. Nenhuma linha da cena diante delas sequer estremeceu. A cabe�a de Sheriam quase vibrava acima da mortalha de metal que envolvia o restante de seu corpo. Os uivos de Morvrin sa�am feito arquejos contidos, e Elayne quase podia ouvir suas articula��es sendo rompidas. Os cabelos de Carlinya, pendurados logo abaixo do corpo de ponta-cabe�a, j� quase tocavam a superf�cie borbulhante do �leo quente. Duas mulheres n�o eram o bastante. O pesadelo era grande demais.</p><p>� Precisamos das outras � anunciou.</p><p>� Leane e Nynaeve? Garota, mesmo que soub�ssemos onde encontr�-las, Sheriam e as outras estariam mortas antes de� � Siuan foi baixando a voz, encarando Elayne. � Voc� n�o est� falando de Leane e Nynaeve, est�? Est� falando de Sheriam e� � Elayne apenas assentiu, assustada demais para verbalizar. � Acho que elas n�o podem nos ouvir daqui, nem nos ver. Esses Trollocs nem sequer olharam na nossa dire��o. O que quer dizer que teremos que tentar fazer isso pelo lado de dentro. � Elayne assentiu outra vez. � Garota � a voz de Siuan estava inexpressiva �, voc� tem a coragem de um le�o, mas o bom senso de um p�ssaro-peixe. � Com um suspiro pesado, ela acrescentou: � Bem, eu mesma n�o vejo outra maneira.</p><p>Elayne concordava com tudo, menos em rela��o � coragem. Se n�o estivesse com os joelhos travados, j� teria se jogado aos solu�os no ch�o de azulejos com as cores de todas as Ajahs. Percebeu que tinha uma espada na m�o, uma l�mina comprida de a�o reluzente completamente in�til ali, mesmo se soubesse como empunh�-la. Largou a arma, que desapareceu antes de tocar o ch�o.</p><p>� Essa demora n�o est� ajudando em nada � resmungou. Mais algum tempo, e a pouca coragem que conseguira reunir acabaria por evaporar.</p><p>Juntas, ela e Siuan deram um passo em dire��o � fronteira. Elayne deixou o p� tocar aquela linha divis�ria, e de s�bito se sentiu sendo puxada para dentro, sugada feito �gua por um tubo.</p><p>Primeiro estava parada de p� no corredor, encarando aqueles horrores, e, no instante seguinte, estava deitada de barriga para baixo na pedra cinza bruta, os pulsos e os tornozelos presos bem forte �s costas, com os mesmos horrores � sua volta. A caverna se estendia infinitamente em todas as dire��es, e o corredor da torre j� n�o parecia existir. Gritos ecoavam pelo ar, vindos das paredes de pedra e do teto cheio de estalactites. A poucos passos, um imenso caldeir�o negro borbulhava sobre um fogo imenso e crepitante. Um Trolloc com focinho de javali, arrematado com presas, jogava l� dentro uns caro�os que pareciam ra�zes imposs�veis de identificar. Um panel�o. Trollocs comiam qualquer coisa. At� gente. Elayne pensou nas m�os e nos p�s livres, mas a corda �spera ainda comprimia sua carne. At� a sombra p�lida de <emphasis>saidar</emphasis> desparecera, a Fonte Verdadeira j� n�o existia para ela � n�o ali. Um pesadelo de verdade, e fora capturada por completo.</p><p>A voz de Siuan entrecortou os gritos em um gemido de dor.</p><p>� Sheriam, me escute! � S� a Luz sabia o que estava sendo feito a ela. Elayne n�o conseguia ver nenhuma das outras, s� ouvir. � Isso � um sonho! <emphasis>Aah� aaaaaaah!</emphasis> P-pense em como as coisas s�o de verdade!</p><p>Elayne tomou a dianteira.</p><p>� Sheriam, Anaiya, todo mundo, me escutem! Voc�s precisam pensar no corredor como ele era! Isso s� � real se voc�s acreditarem! � Ela fixou a imagem do corredor na mente, os azulejos coloridos em fileiras ordenadas, os lampi�es de p� dourados e as tape�arias espl�ndidas. Nada mudou. Os gritos ainda ecoavam. � Voc�s precisam pensar no corredor! Fixem essa imagem na cabe�a, e ela vai se tornar real! Voc�s podem derrotar isso, basta tentarem! � O Trolloc a encarou, trazia na m�o uma faca grossa de l�mina afiada. � Sheriam, Anaiya, voc�s precisam se concentrar! Myrelle, Beonin, concentrem-se no corredor! � O Trolloc a ergueu pela lateral do corpo. Elayne tentou se esquivar, mas um joelho gigantesco a prendeu no lugar sem esfor�o enquanto a coisa come�ava a dilacerar suas roupas feito um ca�ador esfolando a carca�a de um cervo. Desesperada, Elayne se agarrou � imagem do corredor. � Carlinya, Morvrin, pelo amor da Luz, concentrem-se! Pensem no corredor! No corredor! Todas voc�s! Firmem a imagem no pensamento! � Grunhindo qualquer coisa numa l�ngua �spera, que n�o fora feita para uma boca humana, o Trolloc girou Elayne de cabe�a para baixo outra vez e ajoelhou-se por cima dela, os joelhos grossos esmagando seus bra�os contra as costas. � O corredor! � gritou a jovem. A coisa entrela�ou os dedos pesados em seus cabelos e puxou sua cabe�a com for�a. � O corredor! Pensem no corredor! � A l�mina do Trolloc tocou seu pesco�o retesado por tr�s da orelha esquerda. � O corredor! O corredor! � A l�mina come�ou a deslizar.</p><p>De repente, Elayne se viu encarando os azulejos coloridos do ch�o sob seu nariz. Levando as m�os � garganta, maravilhada por t�-las livres, sentiu algo molhado e examinou os pr�prios dedos. Sangue, mas s� um fiozinho. Um arrepio percorreu seu corpo. Se aquele Trolloc tivesse conseguido cortar sua garganta� Cura nenhuma teria adiantado. Com outro arrepio, a jovem se levantou devagar. Estava na Torre, no corredor que levava ao gabinete da Amyrlin, sem sinal de Trollocs ou de cavernas.</p><p>Siuan estava ali, parecia uma massa de hematomas usando um vestido todo rasgado, e as demais Aes Sedai n�o passavam de figuras indistintas prestes a se desmanchar. Carlinya era quem parecia em melhor estado, toda tr�mula e de olhos arregalados. Ela tocou os cabelos escuros chamuscados que agora mediam apenas um palmo de comprimento. Sheriam e Anaiya estavam ensanguentadas, as roupas reduzidas a trapos. Myrelle estava encolhida, o rosto p�lido, toda nua e repleta de hematomas e arranh�es vermelhos. Morvrin gemia a cada vez que se mexia, o que fazia de maneira pouco natural, como se as juntas j� n�o funcionassem da forma correta. O vestido de Beonin parecia ter sido rasgado por garras, e ela arquejava, ajoelhada, os olhos arregalados como nunca, apoiada � parede para n�o cair.</p><p>De s�bito Elayne percebeu que seu pr�prio vestido e sua roupa de baixo estavam pendurados dos ombros, abertos com um corte limpo que expunha a frente de seu corpo � como se um ca�ador tivesse cortado a carca�a de um cervo. Ela tremeu tanto que quase caiu. Para remendar as roupas bastou um pensamento, mas ela n�o sabia ao certo quanto tempo levaria para remendar a mem�ria.</p><p>� Temos que voltar � anunciou Morvrin, ajoelhando-se desajeitadamente entre Sheriam e Anaiya. Apesar da rigidez e dos gemidos, soava impass�vel como nunca. � Precisamos de algumas Curas, e do jeito que estamos ningu�m aqui vai ser capaz de faz�-las.</p><p>� Isso. � Carlinya tocou outra vez os cabelos curtos. � �, talvez seja melhor voltarmos a Salidar. � Sua voz sem d�vida soava como uma vers�o inst�vel da frieza costumeira.</p><p>� Vou ficar um pouco, se ningu�m se opuser � retrucou Siuan. Ou pelo menos sugeriu, naquele tom inadequadamente humilde. O vestido estava inteiro outra vez, mas os hematomas persistiam. � Talvez eu descubra mais alguma coisa �til. S� tenho umas manchas roxas, j� me machuquei mais do que isso caindo num barco.</p><p>� Parece mais que algu�m fez um barco cair em voc� � retrucou Morvrin �, mas voc� � que sabe.</p><p>� Eu tamb�m vou ficar � anunciou Elayne. � Posso ajudar Siuan e n�o estou nem um pouco ferida. � Sentia o corte na garganta toda vez que engolia.</p><p>� N�o preciso de ajuda � retrucou Siuan, ao mesmo tempo que Morvrin completou, em um tom de voz ainda mais firme:</p><p>� Voc� manteve o controle muito bem hoje, crian�a. N�o estrague tudo agora. Voc� vem com a gente.</p><p>Elayne assentiu com a cabe�a, emburrada. Discutir s� a poria em maus len��is. Quem visse a cena at� poderia imaginar que a irm� Marrom era a professora, e Elayne, a pupila. E decerto pensaria que ela tinha adentrado o pesadelo sem querer, assim como as outras.</p><p>� Lembrem-se de que voc�s podem sair direto do sonho para o pr�prio corpo. N�o precisam voltar a Salidar primeiro. � N�o havia como dizer se elas tinham ouvido. Morvrin dera as costas assim que Elayne fizera que sim com a cabe�a.</p><p>� Calma, Sheriam � disse a Marrom corpulenta, em um tom tranquilizador. � J�, j� estaremos de volta a Salidar. Calma, Anaiya. � Pelo menos Sheriam parara de chorar, embora ainda gemesse de dor. � Carlinya, pode ajudar Myrelle? Est� pronta, Beonin? Beonin?</p><p>A Cinza ergueu a cabe�a e encarou Morvrin por um instante antes de assentir.</p><p>As seis Aes Sedai desapareceram.</p><p>Com uma �ltima olhada para Siuan, Elayne s� se demorou um instante a mais, por�m n�o seguiu para Salidar. Decerto algu�m viria Curar o corte em seu pesco�o quando reparasse nele, mas por alguns instantes todas estariam preocupadas com as seis Aes Sedai acordando com a apar�ncia de quem fora empurrado para dentro de uma engrenagem monstruosa. Elayne tinha esses poucos minutos � e tinha outro destino em mente.</p><p>N�o foi f�cil fazer aparecer a sua volta o Grande Sal�o do pal�cio de sua m�e, em Caemlyn. Elayne sentiu certa resist�ncia antes de parar em um piso de azulejos vermelhos e brancos sob o imenso teto abobadado, entre fileiras de robustas colunas brancas. Assim como nos outros lugares, a luz parecia vir de todos os cantos e de lugar nenhum. As imensas janelas acima, que exibiam alternadamente o Le�o Branco de Andor, as primeiras rainhas do reino e cenas de grandes vit�rias andorianas, confundiam-se com a noite l� fora.</p><p>Na mesma hora Elayne viu a diferen�a que dificultara sua chegada: no estrado, no fim do corredor, onde deveria estar o Trono do Le�o, havia em lugar uma monstruosidade toda elaborada de Drag�es em ouro reluzente, esmaltados de vermelho e dourado, com pedras-do-sol no lugar dos olhos. O trono de sua m�e n�o fora removido do aposento: jazia sobre uma esp�cie de pedestal, atr�s e acima daquela monstruosidade.</p><p>Elayne avan�ou devagar pelo corredor, subindo as escadas de m�rmore branco para olhar o trono dourado das Rainhas de Andor. O Le�o Branco de Andor, feito de pedras-da-lua dispostas sobre um fundo de rubis, ficava acima do ponto onde repousaria a cabe�a de sua m�e.</p><p>� O que voc� est� fazendo, Rand al�Thor? � sussurrou, irritada. � O que voc� pensa que est� fazendo?</p><p>Sentiu um pavor imenso ao pensar que ele estivesse estragando as coisas, sem ela ali para conduzi-lo por entre as armadilhas e os imprevistos. Era bem verdade que Rand lidara bastante bem com os tairenos e, ao que parecia, com os cairhienos, mas o povo dela era diferente. Eram francos e honestos e n�o gostavam de ser manipulados nem intimidados. O que dera certo em Tear e Cairhien, ali podia explodir bem na cara dele, feito a exibi��o de fogos de artif�cio de um Iluminador.</p><p>Se ao menos pudesse estar com ele. Se ao menos pudesse adverti-lo sobre a miss�o diplom�tica da Torre. Elaida com certeza escondia algum truque na manga, do qual lan�aria m�o quando ele menos esperasse. Ser� que Rand seria sensato o suficiente para ver isso? Ali�s, Elayne n�o fazia ideia de quais eram as ordens da miss�o diplom�tica de Salidar. Apesar dos esfor�os de Siuan, a maioria das Aes Sedai em Salidar ainda parecia ter opini�es conflitantes a respeito de Rand al�Thor. Ele era o Drag�o Renascido, o salvador profetizado da humanidade, mas, por outro lado, era um homem capaz de canalizar, condenado � loucura, � morte e � destrui��o.</p><p><emphasis>Cuide dele, Min</emphasis>, pensou. <emphasis>Encontre-o logo e cuide dele.</emphasis></p><p>Uma pontada de ci�me a invadiu ao pensar que Min estaria l� justamente para fazer o que ela queria. Talvez tivesse que dividi-lo, mas <emphasis>teria</emphasis> uma parte dele s� para si. Elayne criaria um <emphasis>elo</emphasis>, fazendo dele seu Guardi�o, custasse o que custasse.</p><p>� Vai acontecer. � Ela estendeu a m�o em dire��o ao Trono do Le�o, querendo jurar como todas as rainhas de Andor juraram, desde que Andor existia. O pedestal era alto demais para que ela tocasse o trono, mas o que contava era a inten��o. � <emphasis>Vai</emphasis> acontecer.</p><p>O tempo estava se esgotando. Uma Aes Sedai logo chegaria, l� em Salidar, para acord�-la e Curar o min�sculo corte em seu pesco�o. Com um suspiro, Elayne saiu do sonho.</p><empty-line/><p>Demandred saiu de tr�s das colunas do Grande Sal�o e olhou dos dois tronos para o ponto onde a garota desaparecera. Elayne Trakand, a menos que estivesse redondamente enganado, e usando um <emphasis>ter�angreal</emphasis> menor, dado seu aspecto indistinto, um desses feitos para estudantes em in�cio de treinamento. Daria tudo para saber o que se passava na cabe�a daquela jovem, mas suas palavras e express�o tinham sido bastante claras. Ela n�o gostava do que al�Thor estava fazendo ali, nem um pouco, e pretendia tomar uma atitude a respeito. Suspeitava de que fosse uma jovem determinada. De todo modo, era mais um fio puxado na trama, por mais fraco que tivesse sido o pux�o.</p><p>� Deixe o Senhor do Caos reinar � disse para os tronos, embora ainda desejasse saber por que tinha que ser assim, e abriu um port�o para sair de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 8</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Arma-se uma tempestade</p></title><p>Na manh� seguinte, Nynaeve acordou de mau humor ao raiar do dia. Tinha a sensa��o de que vinha mau tempo pela frente, mas uma olhadela pela janela n�o revelou uma nuvem sequer no c�u ainda meio escuro. O dia j� prometia ser outro forno. A roupa de baixo estava empapada de suor e toda amarrotada, de tanto que ela se remexera. J� fora capaz de confiar em sua capacidade de escutar o vento, mas, desde que sa�ra de Dois Rios, parecia n�o funcionar do mesmo jeito � isso quando n�o a deixava na m�o.</p><p>Ter que aguardar a vez de usar o lavat�rio tamb�m n�o ajudou, e muito menos escutar o relato de Elayne sobre o que tinha acontecido depois que ela deixou o gabinete de Elaida. Sua pr�pria noite fora uma busca em v�o pelas ruas de Tar Valon, onde al�m dela mesma s� se viam pombos, ratos e pilhas de lixo. Aquilo fora um choque: Tar Valon estava sempre impec�vel. Elaida devia estar negligenciando demais a cidade, para que aparecesse lixo em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Em dado momento, avistou Leane de relance pela janela de uma taverna perto da Ba�a do Sul, por mais incr�vel que fosse v�-la num lugar daqueles, mas quando correu para dentro do sal�o s� encontrou mesas e bancos rec�m-pintados de azul. Devia ter desistido, mas Myrelle andava atormentando seu ju�zo nos �ltimos tempos, e queria ter a consci�ncia tranquila quando contasse � mulher que de fato tentara. Myrelle podia detectar uma evasiva mais r�pido do que qualquer pessoa que ela j� conhecera ou de quem ouvira falar. Para completar, tinha sa�do de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> na noite anterior e encontrado o anel de Elayne j� de volta na mesa, com a jovem ca�da no sono. Se existisse um pr�mio para esfor�o in�til, teria ganhado sem nem tentar. E saber que Sheriam e as outras quase tinham morrido� At� o canto do pardal, em sua gaiolinha de palha, ganhou uma olhada de desprezo.</p><p>� Elas acham que sabem de tudo � resmungou Nynaeve, em tom de desprezo. � Contei a elas sobre os pesadelos. Eu avisei, e ontem n�o foi a primeira vez. � N�o fazia diferen�a que todas as seis irm�s tivessem sido Curadas antes mesmo que ela tivesse voltado de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Tudo poderia ter terminado de maneira muito pior� e s� porque elas achavam que j� sabiam tudo. Os pux�es irritados que ela deu na tran�a atrasaram a refeitura do penteado para o dia. O bracelete do <emphasis>a�dam</emphasis> tamb�m �s vezes agarrava no cabelo, mas ela n�o pretendia tir�-lo. Era dia de Elayne us�-lo, o que daria no mesmo que deix�-lo pendurado em um prego na parede. Sentiu preocupa��o passar pelo bracelete, junto com aquele medo inevit�vel, por�m, mais do que qualquer coisa, frustra��o. �Marigan� sem d�vida j� estava ajudando a preparar o caf� da manh�, e ter que fazer as tarefas parecia irrit�-la mais do que ser prisioneira. � Foi muito bem pensado da sua parte, Elayne. Mas voc� n�o disse como foi que acabou no meio da coisa depois de tentar avisar todo mundo.</p><p>Ainda esfregando o rosto com a toalha, Elayne estremeceu.</p><p>� N�o foi t�o dif�cil chegar nessa solu��o. Um pesadelo daquele tamanho requeria o trabalho de todas. Talvez elas tenham aprendido um pouco de humildade. Talvez a reuni�o com as S�bias, hoje, n�o seja t�o ruim.</p><p>Nynaeve assentiu, pensando consigo mesma. Ent�o fora o que ela imaginara. N�o em rela��o a Sheriam e �s outras � as Aes Sedai s� aprenderiam a ter humildade no dia em que as cabras come�assem a voar, e as S�bias ainda levariam um dia mais. Era em rela��o a Elayne: estava claro que a garota entrara no pesadelo por escolha pr�pria, embora jamais fosse admitir. Nynaeve n�o sabia ao certo se a menina considerava ostenta��o levar cr�dito pela bravura ou se simplesmente n�o percebia quanto era corajosa. De todo modo, Nynaeve estava dividida entre admira��o pela coragem da amiga e o desejo de que, ao menos uma vez na vida, Elayne reconhecesse seus feitos.</p><p>� Achei que tinha visto Rand.</p><p>Aquilo fez Elayne baixar a toalhinha.</p><p>� Ele estava l� em carne e osso? � Aquilo era perigoso demais, segundo as S�bias. Havia o risco de perder parte de sua humanidade. � Mas voc� o avisou.</p><p>� E desde quando ele escuta a voz da raz�o? S� o vi de relance. Talvez ele s� tenha tocado <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em sonho. � Era improv�vel. Ao que parecia, Rand criava blindagens t�o fortes nos pr�prios sonhos que ela achava que ele n�o teria como adentrar aquele mundo de outra forma sen�o em carne e osso, nem que fosse um Andarilho dos Sonhos <emphasis>e</emphasis> portasse um dos an�is. � Talvez fosse algu�m um pouco parecido com ele. Como eu disse, foi uma vis�o muito r�pida, na pra�a em frente � Torre.</p><p>� Eu devia estar l� com ele � murmurou Elayne. Esvaziando a bacia na jarra para a noite, ela abriu espa�o para Nynaeve usar o lavat�rio. � Ele <emphasis>precisa</emphasis> de mim.</p><p>� Ele precisa � do que sempre precisou. � Nynaeve parecia irritada enquanto enchia a bacia com �gua da jarra. Realmente odiava se lavar com �gua que tinha ficado ali parada a noite toda. Pelo menos n�o estava fria, j� que, naqueles tempos, n�o havia mais o que se pudesse chamar de �gua fria. � Algu�m para dar um safan�o em sua orelha uma vez por semana, s� por precau��o, e tamb�m para mant�-lo na linha.</p><p>� N�o � justo. � As palavras sa�ram abafadas pela roupa de baixo limpa que Elayne enfiava pela cabe�a. � Eu me preocupo com ele o tempo todo. � A cabe�a emergiu pela gola exibindo um semblante mais preocupado que indignado, a despeito do tom, e ela puxou um vestido branco com listras de um dos pregos da parede. � Eu me preocupo com ele at� em <emphasis>sonhos</emphasis>! Voc� acha que ele passa o tempo inteiro preocupado<emphasis> comigo</emphasis>? Duvido muito.</p><p>Nynaeve assentiu, embora parte dela considerasse que n�o era exatamente a mesma coisa. Rand havia sido informado de que Elayne estava em seguran�a com as Aes Sedai, por mais que n�o soubesse onde. Como � que ele algum dia poderia estar em seguran�a? Nynaeve se debru�ou no lavat�rio, e o anel de Lan escapou pela gola da roupa de baixo e ficou balan�ando no cord�o de couro. N�o, Elayne tinha raz�o. Fosse l� o que Lan estivesse fazendo, fosse l� onde ele estivesse, Nynaeve duvidava de que ele pensasse nela metade das vezes que ela pensava nele. <emphasis>Luz, que ele esteja vivo, mesmo que n�o pense nem um pouco em mim. </emphasis>Aquela possibilidade a encheu de raiva, raiva o bastante para dar um pux�o na tran�a, se n�o estivesse com as m�os cheias de sab�o e segurando a toalha de rosto.</p><p>� Voc� n�o pode passar o tempo todo preocupada com um homem � declarou, com amargor �, mesmo se quiser ser uma Verde. O que foi que elas encontraram, ontem � noite?</p><p>Foi uma longa hist�ria, embora com pouco conte�do, e, depois de um tempo, Nynaeve sentou-se na cama de Elayne para escutar e fazer perguntas. N�o que as respostas revelassem muito. N�o era a mesma coisa que ela pr�pria olhar os documentos. Era importante descobrir que Elaida finalmente ficara sabendo da anistia de Rand, mas o que a mulher pretendia fazer a respeito? A prova de que a Torre estava travando contato com governantes at� poderia ser boa not�cia, j� que talvez fizesse o Sal�o come�ar a se mexer. Alguma coisa tinha que tirar a Aes Sedai daquele marasmo. Era mesmo preocupante que Elaida estivesse enviando uma miss�o diplom�tica a Rand, mas ele n�o seria idiota a ponto de dar ouvidos a qualquer um que viesse a mando de Elaida. Ou seria? Simplesmente n�o havia informa��o suficiente no que Elayne entreouvira. E o que Rand estava pensando quando colocou o Trono do Le�o em um pedestal? O que ele estava fazendo com um trono, para come�o de conversa? Ele at� podia ser o Drag�o Renascido e o tal <emphasis>car</emphasis>-sei-l�-o-que-das-quantas dos Aiel, mas Nynaeve n�o conseguia esquecer que cuidara dele quando crian�a e lhe dera umas boas palmadas quando preciso.</p><p>Elayne continuou se vestindo, mas estava arrumada antes de a hist�ria acabar.</p><p>� Eu conto o resto mais tarde � disse a jovem, muito apressada, e disparou porta afora.</p><p>Nynaeve grunhiu e voltou a se vestir, sem pressa. Naquele dia, Elayne daria sua primeira aula �s novi�as, coisa que Nynaeve ainda n�o tivera permiss�o para fazer. Mas, ainda que n�o tivesse ganhado a confian�a para ensinar �s novi�as, havia Moghedien. Que dentro em breve estaria concluindo as tarefas do caf� da manh�.</p><p>Quando encontrou a mulher, enfiada at� os cotovelos em �gua com sab�o, o colar de prata do <emphasis>a�dam</emphasis> parecia bastante deslocado ali. Moghedien n�o estava sozinha: cerca de dez mulheres esfregavam roupas sobre t�buas em um p�tio com cerca de madeira, entre caldeir�es borbulhantes de �gua fervente. Outras penduravam as roupas j� limpas em compridos varais erguidos entre estacas, mas, nas t�buas de lavar, pilhas de roupa de cama, roupas de baixo e de todo tipo de tecido aguardavam a vez. O olhar que Moghedien lhe dirigiu teria sido capaz de fritar o couro de Nynaeve. �dio, vergonha e ira atravessaram o <emphasis>a�dam</emphasis>, quase suficientes para sobrepujar o medo, sempre presente.</p><p>A mulher no comando, Nildra, grisalha e magra feito um varapau, veio toda alvoro�ada, segurando sua comprida colher de pau feito um cetro, as saias de l� escura amarradas aos joelhos para n�o tocarem o ch�o enlameado por conta da �gua espalhada.</p><p>� Bom dia, Aceita. Veio atr�s de Marigan, suponho? � Seu tom era seco, um misto de respeito com a certeza de que, no dia seguinte, poderia ver qualquer Aceita trabalhando com as lavadeiras por um dia ou um m�s. E sendo t�o atormentadas quanto as outras, se n�o mais. � Bom, eu ainda n�o posso liber�-la. J� tem pouqu�ssima gente aqui. Uma das minhas garotas est� se casando hoje, outra fugiu, e duas v�o pegar leve no trabalho porque est�o gr�vidas. Myrelle Sedai disse que eu podia ficar com ela. Talvez eu consiga liber�-la daqui a umas horas. Vou ver.</p><p>Moghedien se endireitou, abrindo a boca, mas Nynaeve a silenciou com um olhar firme e um toque consp�cuo no bracelete em seu pulso, e a Abandonada retornou ao trabalho. Bastariam algumas palavras impr�prias de Moghedien, uma reclama��o do tipo que jamais seria proferida pela camponesa que ela aparentava ser, para lev�-la ao estancamento e ao carrasco � e Nynaeve e Elayne n�o teriam fim muito melhor. Nynaeve n�o p�de evitar engolir em seco, aliviada, quando Moghedien inclinou-se de volta para a t�bua, a boca se contorcendo enquanto resmungava entre dentes. Vergonha imensa e f�ria desmedida percorreram o <emphasis>a�dam</emphasis>.</p><p>Nynaeve conseguiu abrir um sorriso para Nildra e murmurar qualquer coisa indistinta, depois seguiu a passos firmes at� uma das cozinhas comunit�rias para tomar o caf� da manh�. Ficou imaginando se a Verde criara alguma birra com ela, por qualquer motivo que fosse. E se iria amargar uma dor de est�mago permanente por estar prendendo Moghedien. Comia menta-de-ganso quase feito bala, desde que pusera o <emphasis>a�dam</emphasis> na mulher.</p><p>Foi bem f�cil arranjar uma caneca de barro cheia de ch� com mel e um p�ozinho sa�do do forno, mas teve que ir comendo enquanto andava. Seu rosto pingava de suor. Mesmo �quela hora da manh�, o calor j� estava forte, e o ar, seco. O sol nascente era um domo de ouro fundido acima da floresta.</p><p>As ruas de terra batida estavam movimentadas, como de costume quando havia luz do dia. Aes Sedai deslizavam, serenas, ignorando a poeira e o calor, os rostos misteriosos compenetrados em tarefas misteriosas, em geral seguidas de seus Guardi�es � lobos de olhos frios fingindo, em v�o, que haviam sido domados. Havia soldados por toda parte, em geral marchando ou cavalgando em grupamentos, mas Nynaeve n�o entendia por que tinham permiss�o de deixar as ruas lotadas daquele jeito, se seus acampamentos eram na mata. As crian�as saracoteavam, �s vezes imitando os soldados, mas portando gravetos em lugar das espadas e ponteiras. Novi�as com vestidos brancos, ocupadas com suas tarefas, abriam caminho a passo r�pido pela multid�o. Os servi�ais se deslocavam um pouco mais devagar, mulheres com bra�os abarrotados de len��is para as camas das Aes Sedai ou cestas de p�o das cozinhas, homens guiando carros de boi cheios de lenha empilhada, puxando ba�s ou levando nos ombros carca�as inteiras de ovelhas para as cozinhas. Salidar n�o fora concebida para comportar tanta gente, e a aldeia estava quase explodindo.</p><p>Nynaeve continuou andando. Uma Aceita supostamente deveria ter a maior parte do dia para si, para estudar sobre o que escolhesse, sozinha ou com uma Aes Sedai, a n�o ser que desse aulas para as novi�as. Ainda assim, se a Aceita aparentasse n�o estar fazendo nada, poderia ser chamada por qualquer Aes Sedai. E ela n�o pretendia passar o dia ajudando uma irm� Marrom a catalogar livros ou passando anota��es a limpo para uma Cinza. <emphasis>Odiava</emphasis> passar a limpo, com todas aquelas estaladas de l�ngua quando manchava o papel e bufadas por n�o ter a caligrafia limpa como a de um copista. Ent�o ela seguiu por entre o povo e a poeira, atenta para caso visse Siuan e Leane. Estava com raiva suficiente para canalizar sem usar Moghedien.</p><p>Cada vez que reparava no pesado anel de ouro aninhado entre os seios, pensava: <emphasis>ele tem que estar vivo. Mesmo que tenha me esquecido, Luz, que ele esteja vivo.</emphasis> E esse �ltimo pensamento, naturalmente, a deixava ainda mais irritada. Se a ideia de esquec�-la sequer passasse pela cabe�a de al�Lan Mandragoran, ela o poria na linha. Ele tinha que estar vivo. Os Guardi�es quase sempre morriam vingando suas Aes Sedai, e era t�o certo quanto o nascer sol que nenhum Guardi�o se permitiria desviar do caminho dessa vingan�a, mas n�o havia como Lan vingar Moiraine. Era como se a Azul tivesse ca�do de um cavalo e quebrado o pesco�o. Ela e Lanfear tinham matado uma � outra. Ele <emphasis>tinha</emphasis> que estar vivo. E por que ela deveria se sentir culpada pela morte de Moiraine? Era verdade que aquilo deixara Lan livre, mas ela n�o tivera nada a ver com o fato. Ainda assim, a primeira coisa que sentira ao saber que Moiraine estava morta, por mais ef�mero que tivesse sido, fora alegria por Lan estar livre, e n�o pesar por Moiraine. Dessa vergonha ela n�o tinha como se livrar, o que a deixava com mais raiva do que nunca.</p><p>De s�bito, viu Myrelle caminhando a passos firmes em sua dire��o, acompanhada de um homem louro a cavalo: Croi Makin, um de seus tr�s Guardi�es, bem jovem e bem magro, mas forte como uma rocha. Com uma express�o determinada, a Aes Sedai decerto n�o demonstrava os efeitos da noite anterior. Nada indicava que Myrelle estivesse procurando por ela, por�m Nynaeve logo se enfiou em um grande edif�cio de pedras, que outrora fora uma das tr�s estalagens de Salidar.</p><p>O amplo sal�o havia sido limpo e mobiliado como uma recep��o. As paredes caiadas e o teto alto tinham sido remendados, havia umas poucas tape�arias vistosas penduradas e alguns tapetes coloridos jaziam espalhados no ch�o, que j� n�o parecia lascado, mas continuava a resistir a todos os esfor�os dos servi�ais para deix�-lo com aspecto lustroso. O interior protegido do sol estava fresco, se comparado � rua. Pelo menos um pouco mais fresco. E estava ocupado.</p><p>Logain permanecia, insolente, diante de uma das grandes lareiras apagadas, a cauda do casaco vermelho com bordados em ouro enfiada nas costas, parado sob o olhar atento de Lelaine Akashi, com seu xale de franjas azuis indicando a formalidade da ocasi�o. Uma mulher esbelta, com um ar de dignidade que �s vezes se abrandava em um sorriso afetuoso, uma das tr�s Votantes da Ajah Azul no Sal�o da Torre de Salidar. Naquele dia, o mais evidente era seu olhar penetrante, observando a audi�ncia de Logain.</p><p>Eram dois homens e uma mulher resplandecente, vestidos com sedas bordadas e joias de ouro, todos os tr�s grisalhos, embora um dos homens estivesse quase careca � o que ele compensava com a barba quadrada e um longo bigode. Eram poderosos nobres altaranos, que haviam chegado na v�spera com uma escolta de peso e pareciam t�o desconfiados uns dos outros quanto das Aes Sedai que reuniam um ex�rcito dentro de Altara. Os altaranos deviam lealdade a um lorde, uma lady ou cidade � pouca ou nenhuma lealdade restava � na��o que chamavam de Altara. Poucos nobres pagavam impostos ou davam aten��o ao que dizia a rainha em Ebou Dar, mas voltavam sua aten��o a um ex�rcito comum. S� a Luz sabia que efeitos os boatos sobre os Devotos do Drag�o exerciam no povo dali. Naquele momento, contudo, os nobres tinham se esquecido de trocar olhares altivos e de encarar Lelaine em desafio. Todos tinham os olhos fixos em Logain, como se ele fosse uma serpente imensa e de cores fortes.</p><p>Completando o ciclo, Burin Shaeren, de pele acobreada, cujo rosto parecia entalhado de um toco de madeira, observava tanto Logain quanto os visitantes � era um homem preparado para se mover s�bita e violentamente em um piscar de olhos. O Guardi�o de Lelaine estava ali em parte para vigiar Logain � afinal de contas, o sujeito supostamente estava em Salidar de livre e espont�nea vontade �, mas sobretudo para proteger o homem dos visitantes e de uma facada no peito.</p><p>De sua parte, Logain parecia florescer sob aqueles olhares. Era um homem alto, de cabelos cacheados que tocavam os ombros largos, pele escura e bem bonito, mesmo com fei��es r�gidas, e tinha a soberba e a confian�a de uma �guia. Mas era uma promessa de vingan�a que alimentava o brilho em seus olhos. Ainda que ele n�o pudesse dar o troco em todos os que lhe fizeram mal, poderia pelo menos se esfor�ar para punir alguns.</p><p>� Seis irm�s Vermelhas me encontraram em Cosamelle, cerca de um ano antes de eu me proclamar � ia dizendo ele, quando Nynaeve entrou. � Javindhra, esse era o nome da l�der, embora uma chamada Barasine tamb�m falasse bastante. E ouvi mencionarem Elaida, como se a mulher soubesse o que elas estavam tramando. Elas me encontraram enquanto eu dormia, e, quando me blindaram, achei que seria o meu fim.</p><p>� Aes Sedai � interrompeu a mulher que escutava, bruscamente. Era troncuda e de olhar r�gido, com uma fina cicatriz na bochecha, que Nynaeve considerou incongruentes com uma mulher. As altaranas de fato tinham reputa��o de ferozes, embora muito provavelmente fosse exagero. � Aes Sedai, como pode o que ele alega ser verdade?</p><p>� N�o sei como, Lady Sarena � respondeu Lelaine, muito calma �, mas recebi a confirma��o de uma pessoa incapaz de mentir. Ele est� dizendo a verdade.</p><p>O rosto de Sarena n�o se alterou, mas ela cerrou os punhos �s costas. Um de seus companheiros, o homem alto de rosto encovado, com mais fios grisalhos que pretos no cabelo, tinha os polegares cravados no cintur�o. Ele tentava parecer relaxado, mas a for�a com que cerrava os punhos embranquecia as juntas.</p><p>� Como eu ia dizendo � prosseguiu Logain, dando um sorrisinho �, elas me encontraram e me deixaram optar entre morrer ali mesmo ou aceitar sua oferta. Uma escolha estranha, nada do que eu esperava, mas eu n�o tinha muito tempo para pensar. Elas n�o disseram que j� tinham feito isso, mas tive a sensa��o de que j� eram experientes na coisa. N�o davam motivos, mas, olhando para tr�s, me parece bem claro. Capturar um homem capaz de canalizar trazia pouca gl�ria, mas abater um falso Drag�o, por outro lado�</p><p>Nynaeve franziu o cenho. Ele falava em um tom t�o displicente, como se conversasse sobre a ca�a do dia, mas tratava da pr�pria ru�na, e cada palavra era mais um prego cravado no caix�o de Elaida. Talvez no caix�o de toda a Ajah Vermelha. Se as Vermelhas tinham pressionado Logain a se proclamar o Drag�o Renascido, poderiam ter feito o mesmo com Gorin Rogad ou Mazrim Taim? Talvez com <emphasis>todos </emphasis>os falsos Drag�es da hist�ria? Ela quase podia ver as engrenagens girando feito moinhos nas mentes dos altaranos � a princ�pio lentas, depois girando cada vez mais r�pido.</p><p>� Durante um ano inteiro, elas me ajudaram a evitar outras Aes Sedai � continuou Logain �, enviando mensagens quando avistavam alguma, embora naquela �poca n�o houvesse muitas. Depois que eu me proclamei e comecei a reunir seguidores, elas mandavam not�cias sobre onde estavam os ex�rcitos do rei e quantos eram em n�mero. Como � que voc�s acham que eu sempre soube onde e quando atacar?</p><p>Os ouvintes remexiam os p�s, tanto pelas palavras quanto pelo sorriso feroz daquele homem.</p><p>Logain odiava as Aes Sedai. Nynaeve tinha certeza disso pelas poucas vezes em que conseguira se obrigar a estud�-lo. N�o que tivesse continuado a pesquisa depois da partida de Min ou descoberto qualquer coisa durante as sess�es anteriores. Chegara a pensar que observ�-lo seria como olhar para o problema de outro �ngulo � a diferen�a entre os homens nunca ficava t�o clara quanto ao usarem o Poder �, mas observ�-lo era pior do que olhar uma caverna escura. N�o havia nada ali, nem a caverna. Em geral, estar perto de Logain era perturbador. O homem perscrutava cada movimento seu com intensidade fervorosa, fazendo-a estremecer mesmo ciente de que poderia envolv�-lo com o Poder, caso ele erguesse um dedinho que fosse para lhe fazer mal. N�o era o tipo de fervor que os olhos dos homens costumavam direcionar �s mulheres, era um desprezo puro. E o mais aterrorizante era que ele jamais deixava o sentimento transparecer em suas fei��es. As Aes Sedai o haviam apartado para sempre do Poder �nico. Nynaeve s� podia imaginar o que ela pr�pria sentiria se algu�m lhe fizesse isso. Ele, no entanto, n�o podia se vingar de todas as Aes Sedai. O que podia era destruir a Ajah Vermelha � e a miss�o at� agora parecia promissora.</p><p>Era a primeira vez que vinham tr�s ao mesmo tempo, mas toda semana, mais ou menos, chegava um lorde ou uma lady para ouvir a hist�ria dele, vindos de Altara ou �s vezes at� de Murandy, e todos sa�am completamente arrebatados pelo que Logain lhes contava. N�o era de se admirar: a �nica not�cia mais chocante seria se as Aes Sedai admitissem que a Ajah Negra de fato existia. Bem, elas n�o fariam uma coisa dessas, n�o em p�blico, e era pela mesma raz�o que faziam o poss�vel para manter em segredo as not�cias relacionadas a Logain. Podia ter sido obra da Ajah Vermelha, mas ainda assim eram Aes Sedai, e muita gente n�o sabia distinguir uma Ajah da outra. No geral, apenas poucas pessoas eram trazidas para ouvir Logain, ainda que cada uma fosse escolhida pelo poder da Casa que liderava. Casas que agora cederiam seu apoio �s Aes Sedai em Salidar, ainda que nem sempre abertamente. Ou que pelo menos se recusariam a apoiar Elaida.</p><p>� Javindhra me avisou da chegada de mais Aes Sedai � continuou Logain �, as que estavam atr�s de mim, e informou onde estariam, para que eu pudesse atac�-las sem aviso pr�vio. � As fei��es serenas e et�reas de Lelaine se endureceram por um instante, e a m�o de Burin foi sozinha para o punho da espada. Irm�s haviam morrido tentando capturar Logain. O homem pareceu n�o notar a rea��o. � A Ajah Vermelha nunca me deu informa��es falsas, at� que me tra�ram.</p><p>O homem barbado encarava Logain com tanta intensidade que era evidente que estava se for�ando a faz�-lo.</p><p>� Aes Sedai, e os seguidores dele? Talvez ele estivesse seguro na Torre, mas foi capturado muitas l�guas mais perto de onde estamos.</p><p>� N�o foram todos mortos ou capturados � observou o lorde de rosto encovado, logo atr�s do primeiro. � A maioria fugiu, evaporou. Eu conhe�o bem a hist�ria de meu povo, Aes Sedai. Os seguidores de Raolin Algoz-das-trevas ousaram atacar a pr�pria Torre Branca depois da captura dele, e os de Guaire Amalasan tamb�m. N�s nos lembramos muito bem do ex�rcito de Logain marchando por nossas terras para querer que isso se repita numa tentativa de resgate.</p><p>� Voc� n�o precisa temer isso. � Lelaine olhou para Logain com um sorriso breve, como uma mulher olharia um c�o domesticado e preso a uma coleira. � Ele j� n�o deseja gl�ria, quer apenas reparar um pouco do mal que causou. Al�m do mais, duvido de que muitos de seus antigos seguidores viriam ao seu chamado, n�o depois de ele ser levado enjaulado para Tar Valon, onde foi amansado. � Sua risada baixinha ecoou na voz dos altaranos, mas s� depois de um instante, e era um eco bem fraco. O rosto de Logain era uma m�scara de ferro.</p><p>De repente, Lelaine notou Nynaeve logo � frente do batente da porta e ergueu as sobrancelhas. A mulher j� havia trocado palavras amistosas com Nynaeve mais de uma vez e elogiara as supostas descobertas dela e de Elayne, mas seria t�o r�pida quanto qualquer outra Aes Sedai em repreender uma Aceita que cometesse um deslize.</p><p>Nynaeve curvou-se em uma mesura, fazendo um gesto com a caneca de barro j� sem ch�.</p><p>� Pe�o perd�o, Lelaine Sedai. Preciso levar isso de volta � cozinha. � Ela disparou pela rua escaldante antes que a Aes Sedai pudesse dizer uma palavra.</p><p>Por sorte, Myrelle j� n�o estava � vista. Nynaeve n�o estava com disposi��o para mais um serm�o sobre como demonstrar responsabilidade, manter a calma ou qualquer coisa idiota. Por uma sorte ainda maior, viu Siuan parada a menos de trinta passos de dist�ncia, encarando Gareth Bryne no meio da rua, os dois no meio da multid�o de transeuntes que iam e vinham. Tal qual Myrelle, Siuan n�o dava sinais do ataque relatado por Elayne � na opini�o de Nynaeve, elas respeitariam mais <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> se n�o pudessem simplesmente fugir de l� e ter seus deslizes Curados na mesma hora em que chegavam ao mundo desperto. Nynaeve se aproximou.</p><p>� Qual � o seu problema, mulher? � rosnou Bryne para Siuan. Sua cabe�a grisalha a olhava de cima, assomando-se sobre aquele rosto de aspecto jovem. Com os p�s cal�ados em botas bem plantados no ch�o e as m�os nos quadris, Bryne parecia robusto como um rochedo. O suor que escorria por seu rosto poderia ser de outra pessoa, de t�o pouca aten��o que ele dispensava �s gotas. � Eu a elogio pela maciez das minhas camisas, e voc� retruca com essa rudeza. E eu disse que voc� parecia bem-disposta, o que n�o � um golpe comum para come�ar batalhas, at� onde eu sabia. Foi um elogio, mulher, mesmo que n�o tenha vindo acompanhado de rosas.</p><p>� Elogio? � rosnou Siuan em resposta, os olhos azuis cravados nele. � Eu n�o quero seus elogios! Voc� fica todo alegre por eu ter que passar suas camisas. Voc� � um homem muito mais baixo do que eu imaginava, Gareth Bryne. Espera mesmo que eu corra atr�s de voc� feito uma criadinha quando o ex�rcito marchar, mendigando mais <emphasis>elogios</emphasis>? E voc� <emphasis>n�o</emphasis> vai se dirigir a mim dessa forma, como <emphasis>mulher</emphasis>! Eu tenho nome!</p><p>Uma veia saltou na t�mpora de Bryne.</p><p>� Fico feliz em saber que voc� mant�m a palavra, <emphasis>Siuan</emphasis>. E, se o ex�rcito de fato marchar, espero que continue mantendo. Nunca pedi que voc� fizesse esse juramento, ele foi escolha sua, para tentar se eximir da responsabilidade pelo que fez. Voc� nunca achou que seria obrigada a cumpri-lo, n�o �? Falando na marcha do ex�rcito, o que foi que voc� ouviu enquanto rastejava diante das Aes Sedai e beijava os p�s delas?</p><p>Em um piscar de olhos, Siuan passou da ira fervilhante � calma g�lida.</p><p>� Isso n�o faz parte do meu juramento. � Ela parecia uma jovem Aes Sedai, parada ali, toda empertigada, com aquela rebeldia fria e arrogante. Parecia algu�m que ainda n�o usara o Poder por tempo suficiente para adquirir aquele ar et�reo. � N�o vou servir de espi� para voc�. Voc� serve ao Sal�o da Torre, Gareth Bryne, por juramento <emphasis>seu</emphasis>. Seu ex�rcito vai marchar quando o Sal�o decidir. Fique atento �s palavras deles e obede�a.</p><p>A mudan�a em Bryne foi imediata.</p><p>� Voc� seria uma inimiga com quem valeria a pena cruzar espadas � comentou, dando uma risadinha de admira��o. � Seria melhor ainda� � Com a mesma rapidez, o sorriso deu lugar a uma careta. � O Sal�o, �? Ora! Diga a Sheriam que ela pode muito bem parar de me evitar. O que pode ser feito aqui j� foi feito. Diga a ela que um c�o de ca�a preso em uma jaula pode virar porco com a chegada dos lobos. N�o reuni esses homens para serem vendidos no mercado. � Com um curto aceno de cabe�a, ele saiu pisando firme pela multid�o.</p><p>Siuan o encarou de cenho franzido.</p><p>� Que hist�ria foi essa? � perguntou Nynaeve, e Siuan se assustou.</p><p>� N�o � da sua conta � retrucou em tom rude, alisando o vestido. Pairava no ar a suspeita de que Nynaeve a estava espiando de prop�sito. Siuan sempre levava tudo para o lado pessoal.</p><p>� Deixe para l� � disse Nynaeve em um tom firme. Ela n�o se deixaria ser distra�da. � O que eu n�o vou deixar para l� � a vontade de estudar voc�. � Faria algo de �til hoje, nem que acabasse morta. Siuan abriu a boca e olhou em volta. � N�o, eu n�o estou com Marigan, e, neste exato instante, n�o preciso dela. Voc� s� permitiu que me aproximasse de voc� duas vezes desde que encontrei uma pista de que algo em voc� poderia ser Curado. Duas! Pretendo estudar voc� hoje, e, se eu n�o conseguir, <emphasis>vou</emphasis> contar a Sheriam que voc� est� desobedecendo as ordens dela de se colocar dispon�vel. Juro que vou!</p><p>Por um instante, pensou que a outra fosse desafi�-la a tentar, mas Siuan por fim respondeu, de m� vontade:</p><p>� Hoje � tarde. Estou ocupada agora de manh�. A n�o ser que voc� considere sua vontade mais importante do que ajudar seu amigo de Dois Rios?</p><p>Nynaeve deu um passo � frente. Ningu�m na rua dispensava �s duas mais do que uma olhadela ao passar, mas mesmo assim ela baixou o tom.</p><p>� O que � que elas est�o planejando para ele? Voc� vive dizendo que elas n�o se decidiram em rela��o ao que fazer, mas a essa altura devem ter chegado a <emphasis>alguma</emphasis> conclus�o. � Se tinham, Siuan saberia, n�o importava se devesse ou n�o estar sabendo.</p><p>Leane apareceu de repente, e teria sido melhor Nynaeve ficar de boca calada. Siuan e Leane cravaram os olhos uma na outra, as costas r�gidas, pareciam dois gatos se estranhando em um cantinho.</p><p>� E ent�o? � murmurou Siuan, o maxilar contra�do.</p><p>Leane fungou, e seus cachos balan�aram quando ela jogou a cabe�a para tr�s. Ela contorceu os l�bios em uma express�o de desprezo, mas as palavras n�o correspondiam � express�o e nem ao tom.</p><p>� Eu tentei dissuadi-las � retrucou, mas num tom suave. � S� que elas n�o tinham escutado voc� o suficiente para sequer considerar. Voc� n�o vai se reunir com as S�bias hoje � noite.</p><p>� Ah, entranhas de peixe! � rosnou Siuan, dando meia-volta e disparando a passos firmes, por�m n�o mais ligeiros do que Leane, para o lado oposto.</p><p>Nynaeve quase jogou as m�os para o alto, de t�o frustrada. As duas estavam conversando como se ela n�o estivesse ali, como se ela n�o soubesse exatamente sobre o que estavam falando. Ignorando-a. Era bom que Siuan aparecesse � tarde, como prometera, ou daria um jeito de torc�-la todinha e coloc�-la para secar! Ao ouvir uma voz de mulher atr�s de si, Nynaeve deu um salto.</p><p>� Aquelas duas deviam ser enviadas a Tiana para receber umas boas varadas. � Lelaine parou a seu lado, olhando primeiro para Siuan, depois para Leane. A Aes Sedai chegara de mansinho. Que mulher bisbilhoteira! N�o havia sinal de Logain, nem de Burin, nem dos nobres altaranos. A irm� azul remexeu o xale. � Elas n�o s�o o que eram, claro, mas era de se esperar que conservassem um pouco de decoro. N�o ser� nada bom se elas come�arem a puxar os cabelos uma da outra no meio da rua.</p><p>� �s vezes as pessoas simplesmente irritam as outras sem querer � comentou Nynaeve. Siuan e Leane se esfor�avam tanto para sustentar a historinha que o m�nimo que ela podia fazer era corrobor�-la. Ah, como odiava gente bisbilhoteira.</p><p>Lelaine olhou a m�o de Nynaeve, agarrada � tran�a, e ela mais que depressa soltou o cabelo. Muita gente conhecia aquele h�bito � um h�bito que ela se esfor�ava para abandonar. Mas a Aes Sedai apenas disse:</p><p>� N�o quando isso fere a dignidade das Aes Sedai, crian�a. Mulheres que servem �s Aes Sedai precisam demonstrar certa reserva em p�blico, por mais patetas que sejam a portas fechadas. � Decerto n�o havia nada a ser dito em resposta. Pelo menos, nada que n�o gerasse problemas. � Por que voc� entrou agora h� pouco no recinto onde eu estava exibindo Logain?</p><p>� Achei que o sal�o estivesse vazio, Aes Sedai � respondeu Nynaeve, prontamente. � Pe�o perd�o. Espero n�o ter incomodado a senhora. � Isso n�o era resposta� ela n�o podia dizer que estava se escondendo de Myrelle, mas a Azul esguia apenas a encarou por um instante.</p><p>� O que voc� acha que Rand al�Thor vai fazer, crian�a?</p><p>Nynaeve piscou, confusa.</p><p>� Aes Sedai, faz meio ano que n�o o vejo. S� sei o que a gente ouve por aqui. O Sal�o j�? Aes Sedai, o que foi que o Sal�o decidiu em rela��o a ele?</p><p>Perscrutando o rosto de Nynaeve, Lelaine franziu os l�bios. Aqueles olhos escuros, que pareciam ler pensamentos, eram muito perturbadores.</p><p>� Que coincid�ncia impressionante. Voc� vem da mesma aldeia que o Drag�o Renascido, assim como aquela outra garota, Egwene al�Vere. A expectativa era muito boa, quando ela se tornou novi�a. Voc� faz alguma ideia de onde ela est�? � A mulher n�o esperou a resposta. � E os outros dois rapazes, Perrin Aybara e Mat Cauthon. Ambos tamb�m <emphasis>ta�veren</emphasis>, pelo que eu soube. � mesmo impressionante. E agora voc�, com descobertas extraordin�rias, apesar de suas limita��es. Seja l� onde Egwene estiver, ser� que est� se aventurando em lugares onde nenhuma de n�s esteve? Todos voc�s geraram muitos debates entre as irm�s, como pode imaginar.</p><p>� Espero que estejam dizendo coisas boas a nosso respeito � respondeu Nynaeve, hesitante.</p><p>As Aes Sedai haviam feito muitas perguntas sobre Rand desde sua vinda para Salidar, sobretudo depois da partida da miss�o diplom�tica para Caemlyn � algumas Aes Sedai, inclusive, eram incapazes de conversar com ela sobre outra coisa. Mas aquilo era diferente. Esse era o problema em falar com Aes Sedai. Metade das vezes n�o dava para saber ao certo o que elas buscavam ou pretendiam.</p><p>� Voc� ainda tem esperan�as de Curar Siuan e Leane, crian�a? � Lelaine assentiu, como se Nynaeve j� tivesse respondido, e soltou um suspiro. � �s vezes acho que Myrelle tem raz�o. N�s mimamos voc� demais. Sejam l� quais forem as suas descobertas, talvez dev�ssemos deix�-la aos cuidados de Theodrin at� que esse seu bloqueio de canalizar por vontade pr�pria seja dissolvido. Considerando o que voc� fez nos dois �ltimos meses, pense no que poder� fazer depois. � Agarrando a tran�a sem perceber, Nynaeve tentou encontrar uma brecha para falar, para fazer um protesto cauteloso, mas Lelaine ignorou a tentativa. E decerto foi melhor assim. � Voc� n�o est� fazendo nenhum favor a Siuan e Leane, crian�a. Deixe que elas esque�am quem e o que eram e se contentem com quem e o que s�o. Pela forma como se comportam, o �nico impeditivo para que esque�am completamente � voc�, com essas tentativas tolas de Curar o que n�o pode ser Curado. Elas n�o s�o mais Aes Sedai. Por que alimentar falsas esperan�as?</p><p>Havia um toque de compaix�o em sua voz, junto com um leve desprezo. Afinal de contas, as que n�o eram Aes Sedai eram inferiores, e os ardis de Siuan e Leane definitivamente as fizeram cair ainda mais no conceito geral. Al�m disso, ali em Salidar n�o eram poucas as que culpavam Siuan e suas tramas, em seus tempos de Amyrlin, pelos problemas da Torre. Era muito prov�vel que acreditassem que ela merecia tudo o que lhe acontecera e muito mais.</p><p>O que <emphasis>fora</emphasis> feito, contudo, era um complicador. O estancamento era raro. Antes de Siuan e Leane, fazia cento e quarenta anos que uma mulher n�o era julgada e estancada, e pelo menos doze anos que n�o se via uma mulher exaurida. As estancadas em geral tentavam se afastar ao m�ximo das Aes Sedai. Lelaine, caso fosse estancada, decerto tentaria esquecer que fora Aes Sedai � se � que isso era poss�vel. E deixava claro que gostaria de esquecer que Siuan e Leane tamb�m tinham sido, de que haviam sido destitu�das de tudo aquilo. Grande parte das Aes Sedai se sentiria mais confort�vel se elas pudessem ser encaradas como duas mulheres que jamais tinham sido capazes de canalizar, que jamais tinham sido Aes Sedai.</p><p>� Sheriam Sedai me concedeu permiss�o para tentar � declarou Nynaeve, com a maior firmeza que ousava dirigir a uma irm� completa. Lelaine sustentou o olhar at� Nynaeve se desviar. Ela agarrou a tran�a antes que pudesse perceber, e as juntas de seus dedos ficaram brancas, mas manteve a express�o serena. Tentar encarar uma Aes Sedai era um truque bastante insensato para uma Aceita.</p><p>� Todas agimos feito bobas algumas vezes, crian�a, por�m a mulher s�bia aprende a limitar a frequ�ncia desse tipo de atitude. Como parece que voc� j� terminou o caf� da manh�, sugiro que se livre dessa caneca e v� encontrar o que fazer antes que arrume problemas. Nunca pensou em cortar esse cabelo? Ah, n�o importa. Pode ir.</p><p>Nynaeve fez uma mesura, mas a Aes Sedai j� tinha virado as costas. Olhou feio para Lelaine assim que se viu livre de seu olhar. <emphasis>Cortar o cabelo</emphasis>? Ergueu a tran�a e a sacudiu com for�a na dire��o da Aes Sedai que se afastava � e ficou furiosa por ter esperado ela se afastar para fazer aquilo, mas, se n�o tivesse esperado, com certeza seria mandada para fazer companhia a Moghedien na lavagem das roupas, e no caminho ainda teria que dar uma paradinha para ver Tiana. J� estava ali em Salidar havia meses, sem fazer nada � pelo menos era o que parecia, apesar de tudo o que ela e Elayne tinham conseguido arrancar de Moghedien �, cercada de Aes Sedai que tinham decidido ficar s� conversando enquanto esperavam o mundo acabar sem elas. E Lelaine ainda sugeriu que ela cortasse o cabelo! Ah, Nynaeve perseguira a Ajah Negra, havia sido capturada e tinha fugido, al�m de ter capturado uma Abandonada � tudo bem que ningu�m sabia disso �, e ajudado a Panarca de Tarabon a reconquistar o trono � tudo bem que n�o tinha durado muito. Depois de fazer isso tudo, era obrigada a ficar sentada levando cr�dito pelo que conseguia arrancar de Moghedien. E vinham lhe sugerir cortar o cabelo? Se fosse adiantar de alguma coisa, aceitaria at� ficar careca!</p><p>Avistou Dagdara Finchey, que era t�o robusta quanto qualquer homem ali na rua e mais alta do que a m�dia, avan�ando por entre a multid�o. Ver a Amarela de rosto redondo s� a deixou mais irritada. Um dos motivos para permanecer ali em Salidar era estudar com as Amarelas, que todos diziam conhecer a arte da Cura melhor do que ningu�m. Bem, se alguma delas sabia mais que Nynaeve sobre Cura, n�o estava disposta a compartilhar seus conhecimentos com uma reles Aceita. Tinha pensado que as Amarelas seriam as mais receptivas ao seu desejo de Curar tudo e todos, inclusive o estancamento, mas era o grupo que parecia menos animado com a ideia. N�o fosse a interven��o de Sheriam, Dagdara a teria mandado esfregar o ch�o dia e noite at� ela desistir dessas �bobagens e perdas de tempo�; e Nisao Dachen, uma Amarela bem baixinha de olhos penetrantes, se recusava at� a falar com Nynaeve enquanto ela insistisse em tentar �alterar a forma da trama do Padr�o�.</p><p>E, para piorar a situa��o, os sentidos ainda diziam que uma tempestade estava para chegar, cada vez mais pr�xima, embora ela continuasse sofrendo os efeitos do c�u completamente sem nuvens com um sol escaldante.</p><p>Resmungando sozinha, Nynaeve enfiou a caneca de barro na traseira de um carrinho de madeira e seguiu pela rua abarrotada desviando dos outros transeuntes. Sua �nica op��o era seguir com o dia at� Moghedien estar livre, e s� a Luz sabia quanto isso ia demorar. Uma manh� inteira perdida somada a uma longa lista de dias perdidos.</p><p>Muitas das Aes Sedai meneavam a cabe�a e sorriam para ela, mas bastava for�ar um sorriso de desculpas e acelerar um tantinho o passo, como se estivesse com pressa, para evitar ser parada pelas inevit�veis perguntas sobre que novidades podiam esperar dela. Com seu humor atual, poderia acabar respondendo exatamente o que estava pensando, uma atitude extremamente tola. Ficavam ali fazendo nada. Querendo que <emphasis>ela</emphasis> adivinhasse o que Rand faria. Mandando-a cortar o cabelo. Argh!</p><p>Claro que n�o recebeu apenas sorrisos. Quando se deparou com a pequena Nisao, que agiu como se ela fosse invis�vel, ainda teve que pular para fora do caminho para n�o ser atropelada pela Amarela. E uma Aes Sedai altiva, de cabelos claros, olhos azuis e queixo proeminente, guiando um cap�o ruano alto pela multid�o, passou olhando feio para ela. Nynaeve n�o a reconheceu. Ela estava muito arrumada, usando um vestido de montaria de seda cinza-claro, mas a capa de linho leve dobrada na frente da sela indicava que a mulher tinha acabado de chegar � outro ind�cio era o Guardi�o magricela de casaco verde que vinha atr�s dela, montado em um cavalo de batalha alto e cinzento e com um ar apreensivo. Os Guardi�es <emphasis>nunca</emphasis> pareciam apreensivos, mas Nynaeve imaginou que poderiam abrir uma exce��o quando sua Aes Sedai decidia se juntar a uma rebeli�o contra a Torre. Luz! At� os rec�m-chegados a irritavam!</p><p>Ent�o viu Uno, com sua cara cheia de cicatrizes, o cabelo todo raspado, exceto pelo rabo de cavalo no topo da cabe�a e o tapa-olho com um olho falso horroroso pintado em vermelho-vivo. Uno parou ao ouvir o berro assustado de um jovem a cavalo vestido com armadura de placa e malha, com uma lan�a amarrada � sela. O jovem passou de assustado a envergonhado na mesma hora. Uno abriu um sorriso afetuoso para Nynaeve. Bem, at� poderia ser afetuoso, n�o fosse o tapa-olho. A Aceita respondeu com uma careta que o fez piscar e dar meia-volta para ralhar com o soldado.</p><p>N�o foram Uno e seu tapa-olho que tinham deixado Nynaeve amarga. N�o exatamente. Uno acompanhara ela e Elayne at� Salidar e at� prometera roubar cavalos � �pegar emprestado�, como ele dizia �, caso elas quisessem partir, mas j� n�o havia a menor chance disso. Uno passara a usar uma faixa dourada tran�ada nos punhos do casaco escuro e surrado, indicando seu posto de oficial � ele estava treinando uma cavalaria pesada para Gareth Bryne, estava dedicado demais para se preocupar com Nynaeve. N�o, n�o era verdade. Se ela dissesse que queria ir embora, Uno arranjaria cavalos em quest�o de horas, e ela partiria com uma escolta de shienaranos de rabos de cavalo que haviam jurado lealdade a Rand e s� estavam ali em Salidar porque ela e Elayne tinham levado todos at� l�. S� que para isso ela precisaria admitir que estivera errada ao decidir ficar ali, precisaria admitir que tinha mentido todas as vezes que afirmara estar muito feliz em Salidar. E n�o era capaz de admitir tudo isso. Uno s� estava ali porque acreditava que deveria <emphasis>cuidar</emphasis> dela e de Elayne, e Nynaeve n�o admitiria nada para ele!</p><p>Aquela ideia de sair de Salidar era nova, uma vontade despertada ao ver Uno, e Nynaeve come�ou a pensar seriamente no assunto. Se Thom e Juilin n�o tivessem ido embora para Amad�cia� N�o que os dois tivessem decidido viajar a passeio, � claro. Quando morrer ali como Aes Sedai ainda lhe parecia valer de alguma coisa, aqueles dois tinham se oferecido para descobrir o que estava acontecendo do outro lado do rio. Como queriam avan�ar at� a pr�pria Amador, eles j� estavam afastados havia bem mais de um m�s � e, na melhor das hip�teses, ainda levariam mais uns dias para voltar. Claro que os dois n�o eram os �nicos despachados para descobrir o que estava acontecendo. Haviam mandado at� algumas Aes Sedai, mas a maioria tinha ido mais para oeste, na dire��o de Tarabon. Entre fingir estar fazendo alguma coisa e a demora no retorno dos dois, Nynaeve tinha boas desculpas para esperar. Desejou n�o ter deixado os dois partirem � nenhum deles teria ido se ela tivesse dito n�o.</p><p>Thom era um velho menestrel, embora j� tivesse sido muito mais que isso, e Juilin era um apanhador de ladr�es de Tear: dois homens competentes que sabiam como agir em terras estranhas, al�m de dotados de um sem-n�mero de capacidades �teis. Os dois tamb�m tinham acompanhado Nynaeve e Elayne at� Salidar, e nenhum teria questionado caso ela dissesse que queria ir embora. Com certeza falariam dela pelas costas, mas n�o pela frente, como no caso de Uno.</p><p>Era horr�vel ter que admitir que de fato precisava daqueles dois, mas n�o tinha a menor ideia de como faria para roubar um cavalo. E, al�m disso, uma Aceita rondando os est�bulos ou as fileiras de estacas dos soldados n�o passaria despercebida. E, se tirasse o vestido branco, seria vista e denunciada antes mesmo de chegar perto de um casco. E, mesmo que conseguisse fugir, seria perseguida. Quase todas as Aceitas e novi�as fugidas eram capturadas e sofriam puni��es amargas que reduziam a p� qualquer ideia de uma segunda tentativa. Depois de come�ado, o treinamento para ser Aes Sedai s� terminava quando as <emphasis>Aes Sedai</emphasis> diziam que tinha terminado.</p><p>Claro que n�o era o medo da puni��o que a impedia � o que eram uma ou duas varadas diante da possibilidade de ser morta pela Ajah Negra ou de ter que enfrentar um dos Abandonados? S� n�o sabia se queria mesmo ir. E para onde iria? Para Caemlyn, atr�s de Rand? Encontrar Egwene em Cairhien? E ser� que Elayne iria junto? Ah, a menina com certeza iria se fossem para Caemlyn. Ser� que aquela sua ansiedade era uma vontade de <emphasis>agir</emphasis>, de fazer qualquer coisa que fosse, ou o medo de que as Aes Sedai descobrissem Moghedien? A puni��o para uma fuga n�o seria p�reo para isso! Ainda n�o tinha chegado a nenhuma conclus�o quando virou uma curva e se deparou com a turma de novi�as de Elayne, todas reunidas em um espa�o aberto entre duas casas de pedra e telhado de palha, onde antes ficavam as ru�nas de outra casa.</p><p>Eram mais de vinte mulheres vestidas de branco sentadas em semic�rculo, observando enquanto Elayne guiava duas outras mulheres em um exerc�cio, as tr�s envoltas pelo brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>. Tabiya, uma menina sardenta e de olhos verdes, com cerca de dezesseis anos, e Nicola, uma mulher esguia e de cabelos negros da idade de Nynaeve, passavam, inseguras, uma pequenina chama de um lado a outro. A chama tremulava e volta e meia sumia por alguns segundos quando uma das mulheres n�o era r�pida o suficiente em manter a trama que a outra lhe passara. Naquele estado de humor, Nynaeve conseguia ver claramente os fluxos urdidos.</p><p>Dezoito novi�as tinham sido levadas �s pressas quando Sheriam e as outras fugiram da torre, e Tabiya era uma delas, mas a maioria das mo�as ali era como Nicola: recrutadas depois que as Aes Sedai se estabeleceram em Salidar. Nicola n�o era a �nica mais velha que o normal para uma novi�a, quase metade das outras mulheres tinha a mesma idade. Quando Nynaeve e Elayne foram para a Torre, era raro as Aes Sedai testarem mulheres mais velhas que Tabiya � Nynaeve era famosa tanto por ser bravia quanto pela idade avan�ada �, mas, talvez por desespero, as mulheres de Salidar tinham expandido os testes para mulheres at� um ou dois anos mais velhas que Nynaeve. E, com isso, aquele acampamento passara a abrigar mais novi�as do que a Torre Branca tivera em anos, um sucesso que levou as Aes Sedai a iniciarem novas buscas, cruzando Altara de aldeia em aldeia.</p><p>� Voc� n�o queria estar dando essa aula?</p><p>Nynaeve sentiu o est�mago se revirar ao ouvir aquela voz por cima do ombro. Duas vezes na mesma manh�. Ah, como queria ter um pouco de menta-de-ganso na bolsa do cinto. Se continuasse se deixando ser pega de surpresa, acabaria tendo que organizar a papelada de alguma Marrom.</p><p>A domanesa bochechuda n�o era Aes Sedai. Se estivesse na Torre, Theodrin j� teria sido elevada ao xale, mas ali fora apenas elevada � uma posi��o superior � de uma Aceita, por�m inferior � de uma irm� plena. Ela usava o anel da Grande Serpente na m�o direita, n�o na esquerda, e o vestido verde ca�a bem na pele bronzeada, mas ainda n�o tinha permiss�o para escolher uma Ajah ou para usar o xale.</p><p>� Tenho mais o que fazer do que ensinar um bando de novi�as cabe�as-duras.</p><p>Theodrin apenas sorriu ao notar o tom mordaz de Nynaeve. Ela era sempre t�o simp�tica.</p><p>� Uma Aceita cabe�a-dura ensinando novi�as cabe�as-duras? � Bem, nem sempre. � Bom, depois que conseguirmos fazer voc� canalizar sem estar a ponto de arrancar a cabe�a das meninas, tamb�m vai ser instrutora. E eu n�o ia achar nem um pouco surpreendente se voc� fosse elevada logo em seguida, com todas as coisas que vem descobrindo. Sabe, voc� nunca me contou o seu truque.</p><p>As bravias quase sempre tinham algum truque, desenvolvido logo na primeira vez em que desvelavam a habilidade de canalizar. Outra caracter�stica comum era uma esp�cie de bloqueio, uma barreira mental que escondia o poder de canaliza��o at� delas mesmas.</p><p>Nynaeve teve que fazer um esfor�o para manter a express�o serena. Poder canalizar quando bem entendesse, ser elevada a Aes Sedai� Nada disso ia resolver o problema de Moghedien, mas ao menos poderia ir aonde quisesse, estudar o que lhe desse vontade sem ningu�m buzinando em seus ouvidos que simplesmente n�o havia Cura para isso ou aquilo.</p><p>� �s vezes, alguns doentes j� sem salva��o se curavam. Eu ficava t�o irritada quando via algu�m � beira da morte, mesmo com todos os meus conhecimentos a respeito das ervas� � Ela deu de ombros. � A� a pessoa ficava boa.</p><p>� Muito melhor que o meu. � A mulher esguia suspirou. � Eu podia fazer um rapaz querer me beijar� ou n�o querer. Meu bloqueio eram os homens, n�o a raiva. � Nynaeve a encarou, incr�dula, e Theodrin deu uma risada. � Bem, e os sentimentos. Se eu estivesse perto de um de quem eu gostasse ou detestasse muito, eu conseguia canalizar. Se n�o tivesse nenhum sentimento extremo ou se n�o houvesse homens por perto, eu era praticamente uma �rvore para <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>� E como foi que voc� conseguiu superar isso? � perguntou Nynaeve, curiosa.</p><p>Elayne tinha dividido as novi�as em duplas, e as garotas, muito sem jeito, passavam pequenas chamas de uma para a outra.</p><p>O sorriso de Theodrin cresceu, e seu rosto corou.</p><p>� Um rapaz chamado Charel, criado dos est�bulos da Torre, come�ou a me olhar diferente� Eu tinha quinze anos, e o sorriso dele era lindo. As Aes Sedai permitiam que ele ficasse em sil�ncio em um canto durante as minhas aulas, at� eu conseguir canalizar. S� que at� o nosso primeiro encontro tinha sido planejado por Sheriam, eu n�o fazia ideia. � Ela enrubesceu ainda mais. � E tamb�m n�o sabia que ele tinha uma irm� g�mea. Nem que, depois de uns dias, o Charel sentado diante de mim na realidade era a Marel. Um dia ela tirou o casaco e a camisa no meio de uma aula, e eu fiquei em estado de choque, quase desmaiei� mas depois disso passei a conseguir canalizar sempre que quisesse.</p><p>Nynaeve n�o conseguiu evitar cair na gargalhada, e, apesar do rosto corado, Theodrin riu junto sem o menor constrangimento.</p><p>� Ah, queria que tamb�m fosse f�cil assim para mim.</p><p>� N�s vamos romper esse seu bloqueio, n�o importa qu�o dif�cil seja � respondeu Theodrin, parando de rir. � Hoje � tarde�</p><p>� Hoje � tarde eu vou estudar Siuan � interrompeu Nynaeve, mais do que depressa, e Theodrin comprimiu os l�bios.</p><p>� Voc� tem me evitado, Nynaeve. No m�s passado s� tivemos tr�s encontros, voc� conseguiu escapar de todas as outras aulas. N�o tenho problemas com suas tentativas falhas, mas n�o vou tolerar que voc� fique com medo de tentar.</p><p>� Eu n�o estou com medo� � come�ou Nynaeve, indignada, mas uma vozinha perguntou se ela estava tentando esconder a verdade de si mesma. Era t�o desanimador tentar, tentar, tentar� sem nunca conseguir.</p><p>Theodrin n�o permitiu que ela continuasse a frase.</p><p>� Vou acreditar que voc� j� tem um compromisso hoje � respondeu, muito calma �, mas vamos ter que nos encontrar amanh� e todos os dias seguintes, ou serei for�ada a tomar uma atitude. N�o quero apelar para outros m�todos, e voc� tamb�m n�o quer que eu fa�a isso, mas vou quebrar esse seu bloqueio. Myrelle me pediu para dedicar uma aten��o especial a isso, e juro que � exatamente o que farei.</p><p>Aquilo era quase um eco do que Nynaeve dissera a Siuan, e a antiga Sabedoria ficou de queixo ca�do. Era a primeira vez que Theodrin usava a autoridade de sua posi��o, e, considerando sua sorte desde que acordara naquele dia, era capaz de Nynaeve acabar tendo que ir junto com Siuan fazer uma visita � Tiana.</p><p>Theodrin n�o esperou resposta, simplesmente assentiu, como se as duas estivessem de acordo, e saiu deslizando rua afora. Nynaeve quase podia ver um xale franjado sobre os ombros dela. A manh� n�o estava indo nada bem. E de novo Myrelle se metendo! Quase deu um berro.</p><p>Elayne, no meio de suas novi�as, sorriu orgulhosa para ela, mas Nynaeve apenas balan�ou a cabe�a e virou as costas. Ia voltar para o quarto. E, como se para ficar bem claro o desastre que estava sendo aquele dia, antes de chegar na metade do caminho Nynaeve trombou com Dagdara Finchey, que passou correndo e a derrubou. Correndo! Uma Aes Sedai! A grandalhona n�o parou e nem se dignou a se virar para pedir desculpas enquanto seguia abrindo caminho pela multid�o.</p><p>Nynaeve se levantou, espanou a poeira do vestido, foi at� o quarto pisando firme, entrou e bateu a porta com for�a. L� dentro estava quente e sufocante, e as camas desfeitas ainda aguardavam Moghedien vir arrum�-las. E o pior de tudo era aquela sensa��o de que uma chuva de granizo deveria estar se abatendo sobre Salidar naquele exato instante. Bem, ela n�o seria surpreendida nem derrubada.</p><p>Nynaeve se atirou nos len��is amarfanhados e ficou ali, mexendo no bracelete de prata, divagando sobre o que conseguiria arrancar de Moghedien naquela tarde, se perguntando se Siuan apareceria para o estudo, pensando em Lan, no seu bloqueio, em ficar ou n�o em Salidar� N�o seria uma fuga de verdade, afinal. Provavelmente acabaria indo para Caemlyn atr�s de Rand � ele precisava de algu�m para impedir que aquele poder todo lhe subisse � cabe�a, e Elayne ia gostar de encontr�-lo. S� queria que sua partida � e <emphasis>n�o</emphasis> fuga! � n�o tivesse come�ado a parecer ainda mais atraente depois da conversa com Theodrin.</p><p>Esperava que as emo��es que recebia pelo <emphasis>a�dam</emphasis> lhe dessem algum sinal de que Moghedien tinha terminado as tarefas, e s� ent�o iria atr�s dela � a mulher sempre se escondia quando estava de mau humor. Mas a vergonha e o ultraje que identificava pelo bracelete n�o amainaram, e ela ficou completamente surpresa ao ver a porta ser escancarada com viol�ncia.</p><p>� Ah, ent�o voc� est� aqui � grunhiu Moghedien. � Olhe s�! � Ela ergueu as m�os. � Est�o arruinadas! � Nynaeve achou que pareciam as m�os de qualquer outra pessoa que lavava roupas� estavam brancas e enrugadas, era verdade, mas isso era tempor�rio. � Al�m de eu ter que viver na mis�ria, andando de um lado para o outro cumprindo tarefas, feito uma servi�al, agora querem que eu trabalhe feito uma primitiva�!</p><p>Nynaeve interrompeu a mulher com um procedimento muito simples: pensou em um golpe ligeiro de vara, na sensa��o de receb�-lo, ent�o transferiu o pensamento para a parte de sua mente que recebia as emo��es de Moghedien. A mulher arregalou os olhos escuros e fechou a boca depressa, apertando os l�bios. N�o foi um golpe forte, apenas um lembrete.</p><p>� Feche a porta e sente-se � mandou Nynaeve. � Depois voc� arruma as camas. Vamos estudar um pouco.</p><p>� Estou acostumada a levar uma vida muito melhor � resmungou Moghedien, mas obedeceu. � At� um trabalhador noturno de Tojar levava uma vida melhor!</p><p>� Se eu n�o estiver enganada � retrucou Nynaeve com rispidez �, um trabalhador noturno de sei l� onde n�o tem uma senten�a de morte esperando por ele. Estou pronta para contar a Sheriam exatamente quem voc� �, se quiser. Basta me pedir. � Era puro blefe, e ela sentiu um embrulho quente no est�mago s� de pensar.</p><p>Ainda assim, Moghedien foi tomada por uma onda de medo e repugn�ncia. Nynaeve quase admirava a capacidade da mulher de manter a express�o firme: se ela estivesse sentindo aquilo, estaria gritando e rangendo os dentes no ch�o.</p><p>� O que voc� quer que eu ensine? � perguntou Moghedien, contida.</p><p>Tinham sempre que dizer o que queriam dela. A mulher quase nunca fazia sugest�es ou oferecia seus conhecimentos, a n�o ser que fosse pressionada a um ponto que Nynaeve considerava � beira da tortura.</p><p>� Vamos tentar uma coisa que voc� n�o conseguiu me ensinar muito bem: como detectar a canaliza��o de um homem. � At� ent�o, era a �nica coisa que ela e Elayne n�o tinham conseguido aprender com facilidade. Seria �til, caso decidisse ir para Caemlyn.</p><p>� N�o � f�cil, ainda mais sem um homem para praticar. Pena que voc� ainda n�o conseguiu Curar Logain. � O tom e a express�o de Moghedien n�o indicavam esc�rnio, mas ela encarou Nynaeve e prosseguiu, mais do que depressa: � Bem, mesmo assim, podemos tentar outra vez.</p><p>A aula realmente n�o foi f�cil. Nunca era, mesmo quando era alguma coisa que Nynaeve aprendia assim que entendia as tramas necess�rias. Moghedien n�o conseguia canalizar sem que Nynaeve permitisse � sem que Nynaeve a conduzisse, na verdade �, e, quando se tratava de aprender algo novo, Moghedien precisava ditar a condu��o dos fluxos. Era uma confus�o e tanto, o principal motivo para n�o conseguirem aprender dez coisas diferentes por dia. Neste caso espec�fico, Nynaeve j� tinha <emphasis>alguma</emphasis> ideia de como eram urdidos os fluxos, mas era um trabalho intrincado que envolvia os Cinco Poderes e fazia a Cura parecer simples, al�m de o padr�o se alterar constantemente, em um piscar de olhos. Pelo que Moghedien dizia, era a dificuldade que reduzia a frequ�ncia do uso. E provocava uma bela dor de cabe�a em quem tentasse sustentar aqueles fluxos por muito tempo.</p><p>Nynaeve se deitou na cama e se esfor�ou ao m�ximo. Se decidisse ir mesmo atr�s de Rand, poderia precisar disso, e n�o havia como prever quando partiria. At� canalizou os fluxos sozinha � foi s� pensar em Lan, ou Theodrin, que a raiva veio com for�a. Cedo ou tarde, Moghedien teria que pagar por seus crimes, ent�o como ela ficaria, j� t�o acostumada a recorrer ao poder da mulher sempre que queria? Precisava viver e operar dentro dos pr�prios limites. Ser� que Theodrin era <emphasis>mesmo</emphasis> capaz de encontrar uma forma de quebrar o bloqueio? Lan tinha que estar vivo, ela precisava encontr�-lo. O inc�modo se transformou em uma dor penetrante bem nas t�mporas. Uma tens�o surgiu nos olhos de Moghedien, que volta e meia esfregava a cabe�a, mas por baixo do medo que corria pelo bracelete, tamb�m havia algo que quase parecia satisfa��o. Nynaeve sup�s que ensinar trouxesse alguma satisfa��o, mesmo quando a pessoa n�o queria. N�o sabia muito bem se gostava de ver Moghedien exibir uma rea��o t�o normal e humana.</p><p>E tamb�m n�o soube dizer quanto tempo a aula durou, com Moghedien murmurando �quase� e �n�o tanto�, mas, quando a porta se abriu outra vez, ela se sentou t�o depressa que quase caiu do colch�o. O susto de Moghedien foi t�o intenso que qualquer outra mulher teria gritado.</p><p>� J� ficou sabendo, Nynaeve? � perguntou Elayne, encostando a porta. � Tem uma emiss�ria da Torre aqui, foi mandada por Elaida.</p><p>Nynaeve esqueceu as palavras que teria gritado se o cora��o n�o estivesse entalado na boca. Esqueceu at� a dor de cabe�a.</p><p>� Uma emiss�ria? Tem certeza?</p><p>� Claro que eu tenho certeza, Nynaeve. Acha que eu teria vindo correndo at� aqui s� para contar uma <emphasis>fofoca</emphasis>? A aldeia inteira est� em polvorosa.</p><p>� N�o sei por que todo esse alvoro�o � retrucou Nynaeve, amarga. Sua cabe�a voltou a doer, e nem toda a menta-de-ganso do estoque de ervas guardado debaixo da cama teria aliviado a queima��o no est�mago. Aquela garota n�o ia aprender nunca a bater na porta antes de entrar? Moghedien comprimia a barriga com as duas m�os, como se tamb�m precisasse de um pouco de menta-de-ganso. � J� contamos a elas que Elaida sabe de Salidar.</p><p>� Bem e pode at� ser que tenham acreditado � respondeu Elayne, desabando ao p� da cama de Nynaeve �, e pode ser que n�o, mas acho que isso confirmou a not�cia. Elaida sabe onde estamos. Provavelmente sabe at� o que estamos tramando. Qualquer um dos servi�ais pode ser espi�o. Talvez at� alguma irm�. Dei uma boa olhada na emiss�ria, Nynaeve. � bem loura e tem olhos azuis congelantes. Uma Vermelha chamada Tarna Feir, segundo Faolain. Um dos Guardi�es montando guarda a escoltou. Pelo olhar dela, a mulher poderia estar encarando uma pedra.</p><p>Nynaeve olhou para Moghedien.</p><p>� Vamos parar com essa li��o. Volte daqui a uma hora para fazer as camas. � Ela esperou Moghedien sair, franzindo a boca e agarrando as saias, ent�o virou-se para Elayne. � Que� que recado ela trouxe?</p><p>� Claro que n�o me contaram, Nynaeve. Todas as Aes Sedai com quem cruzei estavam se perguntando a mesma coisa. Ouvi dizer que Tarna riu quando informaram que ela seria recebida pelo Sal�o da Torre� E n�o foi porque achou gra�a. Voc� acha� � Elayne mordeu o l�bio inferior por um instante. � Voc� acha que elas podem mesmo decidir�</p><p>� Voltar? � perguntou Nynaeve, incr�dula. � Elaida vai querer que elas percorram as �ltimas dez milhas de joelhos. E a �ltima milha rastejando, com a barriga no ch�o! E mesmo que n�o seja o caso, mesmo que essa Vermelha diga �voltem para casa, est� tudo perdoado, � hora do jantar�, acha mesmo que elas iam conseguir ignorar Logain assim t�o f�cil?</p><p>� Nynaeve, as Aes Sedai v�o ignorar qualquer coisa para reunificar a Torre Branca. Voc� n�o compreende a situa��o como eu. Eu convivo com Aes Sedai no pal�cio desde o dia em que nasci. A quest�o �: qual � a mensagem de Tarna? E qual � a resposta do Sal�o?</p><p>Nynaeve esfregou os bra�os, irritada. N�o tinha respostas, s� um pouco de esperan�a, e seus sentidos indicavam que aquela chuva de granizo invis�vel deveria estar ressoando feito tambor nos telhados de Salidar. A sensa��o se arrastou durante dias.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 9</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Planos</p></title><p>� Voc� mandou trazer esses Iluminadores para Amador? � Muitos teriam se encolhido ao ouvir tamanha frieza na voz de Pedron Niall, mas n�o o homem parado em cima do raio de sol dourado entalhado no ch�o, diante daquela cadeira lisa e de espaldar alto em que Niall se sentava. Aquele homem exalava confian�a e compet�ncia. Pedron prosseguiu: � Omerna, eu coloquei dois mil Filhos de vigia na fronteira com Tarabon por um motivo. Tarabon est� de quarentena. <emphasis>Ningu�m</emphasis> tem permiss�o de cruzar a fronteira. Se dependesse de mim, aqui n�o entraria nem um pardal.</p><p>Omerna era a imagem ideal de um oficial dos Filhos da Luz: alto e imponente, com o rosto imp�vido e confiante, queixo proeminente e mechas brancas nas t�mporas. Os olhos escuros pareciam mais do que capazes de se manterem firmes ao inspecionar o campo de batalha mais sangrento, como de fato acontecia. Mas os olhos, naquele momento, estavam imersos em reflex�o profunda. O tabardo branco e dourado de Senhor Capit�o Ungido pela Luz lhe ca�a muito bem.</p><p>� Meu Senhor Capit�o Comandante, eles est�o querendo estabelecer uma casa do cap�tulo aqui. � At� sua voz, grave e mel�flua, era adequada � imagem. � Os Iluminadores viajam por todos os cantos. Deve ser f�cil infiltrar agentes entre eles. Agentes que seriam bem recebidos em qualquer cidade, em qualquer solar de nobres, em qualquer pal�cio de governantes. � Abdel Omerna tinha o cargo de um membro inferior do Conselho dos Ungidos, mas na verdade ele era o mestre dos espi�es dos Filhos da Luz. Por assim dizer. � Pense em como seria bom!</p><p>Mas Niall estava pensando que a Guilda de Iluminadores era toda de tarabonianos, cada homem e mulher. E Tarabon estava infectada pelo caos e pela loucura, que ele n�o deixaria correr soltos em Amad�cia. Por mais que tivesse que esperar para cauterizar essa ferida pustulenta, ia pelo menos isol�-la.</p><p>� Eles v�o receber o mesmo tratamento que qualquer um que tente atravessar a fronteira, Omerna. Ser�o mantidos sob vigia, sem poder falar com ningu�m e escoltados para fora de Amad�cia o mais r�pido poss�vel.</p><p>� Se me permite a insist�ncia, meu Senhor Capit�o Comandante, eles podem ser muito �teis, o que vale o pre�o dos rumores que talvez acabem espalhando. Os Iluminadores n�o se misturam muito com o povo. E, al�m de serem �teis para os meus agentes, Amador ainda teria o imenso prest�gio de ter uma casa do cap�tulo de Iluminadores. E seria a �nica. A de Cairhien foi abandonada, assim como aposto que aconteceu o mesmo com a de Tanchico.</p><p>Prest�gio! Niall esfregou o olho esquerdo para aliviar um tremor involunt�rio. N�o adiantava muito se irritar com Omerna, mas teve que fazer um esfor�o para se controlar. O calor da manh� era um fogo cozinhando seu temperamento.</p><p>� Eles s�o mesmo bem isolados, Omerna. S� andam uns com os outros, s� viajam juntos e raramente falam com gente de fora. Voc� vai querer fazer esses agentes se casarem com Iluminadores? � raro haver casamentos com gente de fora da Guilda, e s� � poss�vel se tornar um Iluminador por heran�a de nascen�a.</p><p>� Ah. Bem� Com certeza vamos encontrar um jeito. � Nada abalava aquela fachada de confian�a e compet�ncia.</p><p>� As coisas ser�o feitas segundo minhas ordens, Omerna. � O homem chegou a abrir a boca outra vez, mas Niall, irritado, se antecipou: � Segundo as minhas ordens, Omerna! N�o quero ouvir mais uma palavra sobre isso! Muito bem, e que informa��es voc� traz para mim, hoje? Que informa��es �teis? Essa � a sua fun��o, e n�o ficar jogando lenha na fogueira de Ailron.</p><p>Omerna hesitou, obviamente querendo continuar argumentando em favor de seus preciosos Iluminadores, mas por fim disse, em um tom solene:</p><p>� Parece que os informes sobre Devotos do Drag�o em Altara s�o mais do que apenas rumores. E deve ser o mesmo em Murandy. A infesta��o � pequena, mas vai crescer. Ainda estamos em um momento em que seria poss�vel dar conta deles e das Aes Sedai em Salidar com uma s� cajadad�</p><p>� Voc� agora dita as estrat�gias dos Filhos? Re�na informa��es e deixe que eu decida o que fazer. O que mais voc� tem para mim?</p><p>O homem respondeu � interrup��o com um leve balan�ar de cabe�a, calmo e respeitoso. Omerna tinha muito talento para manter a calma, talvez fosse o que fazia de melhor.</p><p>� Tenho boas not�cias. Mattin Stepaneos est� pronto para se unir ao senhor. Ele ainda est� hesitante em fazer um pronunciamento p�blico, mas meu pessoal em Illian informou que isso vai acontecer em pouco tempo. Pelo que dizem os relat�rios, ele est� bem ansioso.</p><p>� Isso seria extraordin�rio � respondeu Niall, em um tom seco.</p><p>�, sem d�vida seria extraordin�rio. Entre os muitos estandartes e galhardetes enfileirados nas cornijas do escrit�rio estavam os Tr�s Leopardos de Mattin Stepaneos, em preto e prata. Estavam pendurados ao lado de um Estandarte Real Illianense, com franjas douradas e nove abelhas bordadas com fios de ouro em seda verde. O rei de Illian tinha levado a melhor nas Confus�es � pelo menos havia conseguido for�ar um acordo ratificando a fronteira entre Amad�cia e Altara no mesmo ponto inicial �, mas Niall duvidava de que o homem algum dia fosse esquecer que, mesmo tendo a vantagem do terreno e mais homens na batalha em Soremaine, fora derrotado e capturado. Se os Companheiros illianenses n�o tivessem protegido o campo durante a fuga do restante do ex�rcito para longe da armadilha de Niall, Altara teria virado um feudo dos Filhos, e Murandy tamb�m, talvez at� Illian. E pior: Mattin Stepaneos tinha uma bruxa de Tar Valon como conselheira, mesmo que tentasse esconder isso � e a mulher. Niall enviara os emiss�rios porque n�o ousava deixar de explorar todas as possibilidades, mas ter Mattin Stepaneos a seu lado de livre e espont�nea vontade seria, de fato, extraordin�rio.</p><p>� Prossiga. E seja breve. Tenho um dia cheio e posso ler os relat�rios escritos mais tarde.</p><p>Apesar das instru��es, Omerna relatou as novidades num discurso longo, proferido em uma voz sonora e cheia de certeza. Al�Thor s� tinha estendido o controle em Andor para pouco al�m de Caemlyn, e estava claro que seu ataque surpresa fora contido � como Omerna lembrou, cautelosamente, que j� previra. Havia pouca chance de que as Terras da Fronteira se unissem aos Filhos contra o falso Drag�o � os lordes de Shienar, Arafel e Kandor estavam aproveitando a calmaria da Praga para armar uma rebeli�o, e a Rainha de Saldaea tinha se refugiado na casa de campo por medo de que o mesmo acontecesse em suas terras. Mas os agentes de Omerna continuavam trabalhando, e os governantes das Terras da Fronteira teriam que entrar na linha assim que as rebeli�es menores fossem contidas. Por outro lado, os governantes de Murandy, Altara e Ghealdan estavam quase se juntando a eles, embora ainda falassem coisas amb�guas para acalmar as bruxas de Tar Valon. Alliandre, de Ghealdan, sabia que seu trono estava abalado, sabia que precisava dos Filhos para n�o cair de repente, assim como seus predecessores; e tanto Tylin, de Altara, e Roedran, de Murandy, nutriam esperan�as de que a influ�ncia dos Filhos finalmente fizesse deles mais do que pe�as decorativas. Estava claro que o homem considerava que aquelas terras j� estavam praticamente nas m�os de Niall.</p><p>E Omerna achava que o quadro era ainda melhor dentro de Amad�cia. Recrutas iam aos bandos at� os estandartes dos Filhos, tinham mais homens do que em muito tempo. Estritamente falando, os recrutas n�o eram da conta de Omerna, mas ele sempre mesclava os relat�rios com todas as boas not�cias que conseguisse encontrar. O Profeta n�o perturbaria a terra por muito tempo mais, j� que sua turba estava envolvida numa disputa sobre quem cuidaria dos saques de aldeias e mans�es ao norte, e poderia muito bem acabar debandando de volta para Ghealdan no embate seguinte com os soldados de Ailron. N�o tinha muito mais espa�o nas cadeias, j� que estavam prendendo os Amigos das Trevas e os espi�es de Tar Valon mais depressa do que conseguiam enforc�-los. A ca�a �s bruxas de Tar Valon s� rendera duas capturas, por�m mais de cem mulheres haviam sido interrogadas, o que era uma boa medida da intensidade do patrulhamento. E estavam apreendendo cada vez menos refugiados de Tarabon, prova de que a quarentena estava se revelando eficaz � e os capturados eram mandados de volta para Tarabon no tempo em que levava para arrast�-los de volta � fronteira. Omerna relatou depressa essa �ltima not�cia, o que n�o era de se surpreender, considerando a ideia idiota sobre os Iluminadores.</p><p>Niall s� escutava com aten��o suficiente para saber a hora de assentir. Omerna tinha sido bem adequado ao papel de comandante de campo, s� precisava que algu�m lhe dissesse como proceder, mas, agora que mudara de posto, era cansativo lidar com tanta tolice e ingenuidade. O homem havia relatado a morte de Morgase, afirmando com absoluta certeza que seu corpo fora visto e identificado, e mantivera a hist�ria at� que Niall o p�s frente a frente com a antiga rainha. Omerna escarnecera dos �rumores� de que a Pedra de Tear tinha ca�do, e at� hoje negava que a fortaleza mais poderosa do mundo pudesse ter sido tomada por qualquer for�a externa � insistia que era algum caso de trai��o, que algum Gr�o-lorde entregara a Pedra a al�Thor e a Tar Valon. E ele insistia em dizer que o desastre em Falme e as quest�es em Tarabon e Arad Doman eram obra do retorno dos ex�rcitos de Artur Asa-de-gavi�o pelo Oceano de Aryth. Estava convencido de que Siuan Sanche n�o havia sido deposta; de que al�Thor estava louco e � beira da morte; de que Tar Valon tramara a morte do Rei Galldrian para deflagrar a guerra civil em Cairhien; e de que esses tr�s �fatos� estavam ligados aos rumores rid�culos de gente irrompendo em chamas e pesadelos brotando do nada e massacrando aldeias inteiras � que eram sempre convenientemente relatados por algu�m que vivia num lugar muito distante. Ele ainda n�o tinha muita certeza de nada, mas estava trabalhando numa grande teoria que prometia revelar a qualquer momento � uma teoria que supostamente acabaria com toda aquela conspira��o das bruxas e deixaria Tar Valon nas m�os de Niall.</p><p>Com Omerna era assim: ou ele inventava raz�es mirabolantes para os acontecimentos, ou pescava as fofocas nas ruas e as engolia sem nem refletir. Passava boa parte do tempo escutando fofocas nas mans�es <emphasis>e</emphasis> nas ruas. Al�m de ter sido visto bebendo nas tavernas com Ca�adores da Trombeta, n�o era segredo que ele desembolsara quantias enormes de dinheiro por nada menos que tr�s supostas Trombetas de Valere. E, nas tr�s vezes, Omerna levara o objeto para o interior e passara dias soprando o neg�cio, at� ter que admitir que nenhum her�i lend�rio morto sairia cavalgando do t�mulo. Mesmo assim, os fracassos provavelmente n�o o impediriam de fazer novas compras nos becos escuros e nos fundos das tavernas. O problema era f�cil de explicar: enquanto um mestre espi�o duvidava at� mesmo do pr�prio reflexo no espelho, Omerna acreditava em qualquer coisa.</p><p>O homem enfim esgotou o falat�rio, e Niall disse:</p><p>� Lerei seus relat�rios com a devida aten��o, Omerna. Bom trabalho. � Ah, como ele ficou feliz com o elogio, alisando o tabardo, todo orgulhoso. � Agora v�. E mande Balwer entrar quando estiver saindo. Tenho que ditar algumas cartas.</p><p>� Claro, meu Senhor Capit�o Comandante. Ah. � Omerna parou no meio de uma mesura, franziu o cenho e revirou o bolso do colete branco e puxou um pequenino cilindro de osso que entregou a Niall. � Isso aqui chegou no pombal hoje de manh�.</p><p>O cilindro estava marcado com tr�s finas linhas vermelhas de cima a baixo, o que indicava que deveria ser entregue a Niall com os selos de cera intactos. E o homem quase se esquecera.</p><p>Omerna aguardou, decerto esperando alguma dica sobre o conte�do do cilindro, mas Niall o dispensou com um aceno.</p><p>� N�o se esque�a de falar com Balwer. Se existe alguma chance de Mattin Stepaneos se juntar a mim, � melhor eu escrever e ver se consigo influenci�-lo a tomar a decis�o certa. � Omerna n�o teve escolha a n�o ser curvar-se em mais uma mesura e sair.</p><p>Mesmo depois de o homem fechar a porta, Niall simplesmente correu os dedos pelo cilindro por um tempo. Aquelas raras mensagens especiais quase nunca traziam boas not�cias. Ele se levantou com cuidado � nos �ltimos tempos, a idade andava lhe pesando nos ossos � e encheu de ponche um c�lice de prata, que deixou em cima da mesa para ir abrir uma pasta de couro trabalhado presa por um fio de linho. A pasta continha uma �nica folha de papel grosso, amassado e parcialmente rasgado, com um desenho a giz de um artista de rua: dois homens lutando entre nuvens, um com o rosto de fogo, o outro de cabelos vermelhos e escuros. Al�Thor.</p><p>Todos os seus planos de impedir o falso Drag�o tinham dado errado, todas as suas esperan�as de conter a crescente mar� de conquista daquele homem, de desvi�-lo de seu caminho de vit�rias. Ser� que tinha esperado demais, deixando al�Thor ficar ainda mais poderoso? Se fosse o caso, havia apenas uma forma de lidar de vez com aquilo: uma faca no escuro, uma flecha lan�ada de algum telhado. Quanto tempo ousaria esperar? Ousaria correr o risco de n�o esperar? Tanto a pressa quanto a espera poderiam causar um desastre.</p><p>� Milorde mandou me chamar?</p><p>Niall encarou o homem que entrara t�o silenciosamente. � primeira vista, Balwer n�o parecia capaz de se mover sem nem um farfalhar seco para denunciar sua presen�a. Tudo nele era tenso e aflitivo. O casaco marrom ca�a sobre os ombros calombentos, as pernas pareciam prestes a quebrar com o peso do corpo esquel�tico. O sujeito se movia feito um p�ssaro saltando de galho em galho.</p><p>� Voc� acredita que a Trombeta de Valere vai convocar os her�is mortos para nos salvar, Balwer?</p><p>� Pode ser que sim, milorde � respondeu o homem, remexendo as m�os, nervoso. � Pode ser que n�o. Eu n�o contaria muito com isso.</p><p>Niall assentiu.</p><p>� E voc� acha que Mattin Stepaneos vai se juntar a mim?</p><p>� Mais uma vez, pode ser que sim. Ele n�o vai querer acabar morto ou feito de marionete. O homem s� quer agarrar a Coroa de Louros, e o ex�rcito que est� se reunindo em Tear provavelmente vai fazer ele suar para conseguir o que quer. � Balwer abriu um sorriso min�sculo, n�o mais que um esgar de l�bios. � Ele j� falou abertamente sobre a inclina��o de aceitar sua proposta, milorde, mas, por outro lado, acabei de saber que Mattin anda se comunicando com a Torre Branca. Ao que parece, ele concordou em fazer alguma coisa, mas ainda n�o sei o qu�.</p><p>Todo mundo sabia que Abdel Omerna era o espi�o-mestre dos Filhos. A posi��o deveria ser um segredo, � claro, apesar de qualquer pedinte ou cavalari�o ser capaz de apontar Omerna na rua � ainda que o fizessem discretamente, para n�o serem pegos em flagrante por quem consideravam o homem mais perigoso de Amad�cia. Mas a verdade era que Omerna era um chamariz, um idiota que sequer sabia que s� servia para encobrir o verdadeiro espi�o-mestre da Fortaleza da Luz: Sebban Balwer, o secret�rio empertigado e enrugado de Niall, com a constante cara de desaprova��o. Um homem acima de qualquer suspeita, um nome em que ningu�m acreditaria, se ouvisse em alguma confiss�o.</p><p>Enquanto Omerna acreditava em todo e qualquer rumor, Balwer era um c�tico � talvez n�o acreditasse nem nos Amigos das Trevas nem no Tenebroso. Balwer acreditava na efici�ncia de espreitar os outros, escutar seus sussurros e arrancar seus segredos. Naturalmente, o homem teria servido a qualquer outro mestre t�o bem quanto servia a Niall, o que s� o tornava um espi�o melhor. As descobertas de Balwer nunca eram maculadas pelo que ele supunha � ou pelo que desejava � ser a verdade. Como duvidava de tudo, o homem sempre conseguia desencavar os fatos.</p><p>� Eu n�o esperava outra coisa de Illian, Balwer, mas at� Mattin pode ser convencido. � O homem precisava ser convencido. N�o podia ser tarde demais. � Alguma novidade das Terras da Fronteira?</p><p>� Nada ainda, milorde. Mas Davram Bashere est� em Caemlyn. E com uma cavalaria ligeira de trinta mil, segundo meus informantes, mas acho que n�o chega nem a metade disso. Ele n�o deixaria Saldaea t�o vulner�vel, por mais que a Praga esteja tranquila, mesmo que Tenobia ordenasse.</p><p>Niall grunhiu, o canto do olho esquerdo come�ando a tremelicar. Passou os dedos pelo desenho da pasta, um retrato supostamente bem preciso de al�Thor. Bashere em Caemlyn. Um bom indicativo de que Tenobia estava no interior, se escondendo de seu enviado.</p><p>N�o havia boas not�cias das Terras da Fronteira, independentemente do que quer que Omerna acreditasse. As �rebeli�es menores� de que ele falara eram mesmo menores, mas n�o tinham as causas que o falso espi�o imaginava. Homens de toda a Fronteira da Praga estavam debatendo sobre se al�Thor era apenas mais um falso Drag�o ou o Drag�o Renascido. Considerando o jeito dos homens das Terras da Fronteira, esses debates �s vezes evolu�am para pequenas batalhas. As lutas tinham come�ado em Shienar logo que a Pedra de Tear caiu, o que s� servia para confirmar o envolvimento das bruxas � como se realmente precisassem de confirma��o. De acordo com Balwer, ainda n�o dava para saber no que isso tudo acabaria.</p><p>Uma das poucas coisas que Omerna tinha acertado era que al�Thor ainda estava em Caemlyn. Mas por qu�? Ainda mais com Bashere, os Aiel e as bruxas? Isso nem mesmo Balwer soubera responder. Qualquer que fosse o motivo, precisava agradecer � Luz por isso! Era verdade que as turbas do Profeta estavam se dedicando apenas a saquear o norte de Amad�cia, mas consolidavam cada vez mais seu poder, matando ou botando para correr qualquer um que se recusasse a apoiar o Profeta do Drag�o. Os soldados de Ailron s� haviam parado de recuar porque aquele maldito Profeta tinha decidido cessar os avan�os. Alliandre e os outros que Omerna tinha tanta certeza de que se juntariam aos Filhos na verdade estavam indecisos, evitando dar uma resposta aos emiss�rios de Niall com atrasos e desculpas esfarrapadas. O Senhor Capit�o Comandante dos Filhos suspeitava de que nem mesmo eles soubessem muito bem como iam proceder.</p><p>Ao que parecia, tudo estava a favor de al�Thor, exceto pelo que quer que fosse que o prendia em Caemlyn, mas Niall sempre fora muito mais perigoso quando estava na desvantagem, acuado contra a parede.</p><p>De acordo com os rumores, se � que dava para acreditar na boataria das ruas, Carridin estava se saindo bem em Altara e Murandy, embora n�o t�o r�pido quanto Niall gostaria. O tempo era um inimigo t�o poderoso quanto al�Thor e a Torre. Ainda assim, provavelmente j� seria o bastante se Carridin s� estivesse se saindo bem de acordo com os boatos. Talvez fosse hora de expandir o dom�nio dos �Devotos do Drag�o� at� Andor. Quem sabe tamb�m at� Illian, embora umas poucas fazendas e aldeias invadidas n�o fossem fazer a menor diferen�a para influenciar Mattin Stepaneos a seguir pelo caminho certo, j� que nem o ex�rcito se formando em Tear parecia suficiente para convenc�-lo. Niall ficava horrorizado s� de pensar no tamanho daquele ex�rcito � mesmo que fosse s� a metade, mesmo que n�o passasse de um quarto do n�mero que Balwer informava, era aterrador. N�o se via nada dessa magnitude desde os dias de Artur Asa-de-gavi�o. Em vez de assustar os homens a ponto de convenc�-los se unir a Niall, um ex�rcito desses poderia intimid�-los a ponto de sa�rem correndo atr�s do estandarte do Drag�o. Se os Filhos tivessem um ano, ou meio ano que fosse, Niall conseguiria fazer frente a todo o ex�rcito de imbecis e vil�es e selvagens Aiel que al�Thor reunira.</p><p>Claro que nem tudo estava perdido. Enquanto ele estivesse vivo, nada estava perdido. Tarabon e Arad Doman eram t�o in�teis para al�Thor e as bruxas quanto para ele, dois po�os apinhados de escorpi�es, e apenas um tolo enfiaria a m�o ali antes que mais daqueles escorpi�es se matassem. Mesmo que Saldaea estivesse perdida � uma derrota que ele era incapaz de admitir �, Shienar, Arafel e Kandor ainda estavam pesando as opini�es e poss�veis consequ�ncias, numa balan�a que, como todas as outras, podia ser for�ada para o lado certo. Mesmo que Mattin Stepaneos estivesse tentando cavalgar dois cavalos ao mesmo tempo � o homem sempre tentava �, ainda poderia ser for�ado a montar o alaz�o correto. Altara e Murandy ainda podiam ser inclinadas para o caminho mais apropriado, e Andor cairia em suas m�os com ou sem um leve toque do chicote de Carridin. Em Tear, os agentes de Balwer tinham convencido Tedosian e Estanda a se unirem a Darlin, transformando uma pretensa rebeldia em uma verdadeira rebeli�o, e Balwer estava confiante de que o mesmo pudesse ser feito em Cairhien e Andor. Em mais um m�s, no m�ximo dois, Eamon Valda chegaria de Tar Valon � Niall poderia passar sem Valda, mas isso deixaria a maior parte da for�a dos Filhos concentrada num �nico ponto, pronta para ser usada onde fosse melhor.</p><p>Sim, ainda tinha muito a seu favor. Ainda n�o havia nada definitivo, mas tudo estava convergindo na dire��o certa. S� precisava de tempo.</p><p>Niall notou que ainda segurava o cilindro de metal, ent�o quebrou o selo de cera com o polegar e desenrolou o papel fino com todo o cuidado.</p><p>Balwer n�o disse uma palavra, mas estreitou a boca de novo � e dessa vez n�o foi um sorriso. Conseguia tolerar Omerna, sabia que o homem era um imbecil e de fato preferia operar nas sombras, mas n�o gostava de ver Niall recebendo not�cias antes dele, ainda mais vindas de desconhecidos.</p><p>Uma caligrafia min�scula cobria o peda�o de papel em um criptograma conhecido por poucos al�m de Niall, e ningu�m ali em Amador. Para o Senhor Capit�o Comandante, ler aquilo era t�o f�cil quanto ler a pr�pria letra. A assinatura na base da folha o fez piscar, surpreso, e o conte�do tamb�m. Varadin era, ou tinha sido, um de seus melhores agentes pessoais. O homem, um vendedor de tapetes que lhe servira muito bem durante as Confus�es enquanto mascateava seus produtos em Altara, Illian e Murandy. Lucrara tanto que conseguira se estabelecer como comerciante rico em Tanchico, fornecedor regular de bons carpetes e vinhos para os pal�cios do Rei e da Panarca e para as casas da maioria dos nobres de suas cortes. Em suas visitas comerciais, o homem sempre ia embora com olhos e ouvidos cheios. Niall o dera como morto havia muito tempo por conta das reviravoltas naquela regi�o � era a primeira vez em um ano que Varadin mandava not�cias. Pelo que seu informante alegava, teria sido melhor que o homem estivesse mesmo morto. A mensagem tinha sido na caligrafia tr�mula de algu�m � beira da loucura, um relato desconexo sobre homens cavalgando estranhas bestas e criaturas voadoras, sobre Aes Sedai presas em coleiras e sobre os <emphasis>Hailene</emphasis>. A palavra da L�ngua Antiga significava Predecessores, mas Varadin nem ao menos tentara explicar por que aquelas pessoas o deixavam t�o apavorado ou quem supostamente eram. O homem estava obviamente delirante, tendo visto sua na��o se desintegrando diante de si.</p><p>Irritado, Niall amassou o papel e o atirou longe.</p><p>� Primeiro tenho que aguentar as idiotices de Omerna, agora isso. O que mais voc� tem para mim, Balwer?</p><p>Bashere. As coisas podiam ficar feias com Bashere no comando dos ex�rcitos de al�Thor. O homem fazia jus � reputa��o. Quem sabe n�o era melhor enviar uma adaga nas sombras para ele?</p><p>Balwer n�o desviou o olhar de Niall nem por um segundo, mas o Senhor Capit�o Comandante sabia que a bolinha de papel no ch�o acabaria nas m�os do homem, a menos que a queimasse.</p><p>� Sei de quatro coisas que poderiam atrair seu interesse, milorde. Primeiro, a menos importante: os rumores sobre as reuni�es dos Ogier em seus <emphasis>pousos</emphasis> s�o verdadeiros. O que parece transmitir certa ansiedade, em se tratando dos Ogier. � Claro que ele n�o disse sobre o que essas reuni�es tratavam: era t�o prov�vel fazer um humano ser aceito em uma reuni�o Ogier quanto convencer um Ogier a se tornar espi�o. Ou seja: mais f�cil fazer o sol nascer � noite. � Al�m disso, uma quantidade bem inusitada de navios do Povo do Mar est� atracada nos portos ao sul, sem recolher cargas nem navegar.</p><p>� E eles est�o esperando o qu�?</p><p>O verdadeiro mestre espi�o contraiu os l�bios por um instante, como se uma corda os repuxasse.</p><p>� Ainda n�o sei, milorde.</p><p>Balwer n�o gostava de admitir que existiam segredos que ele era incapaz de desencavar. Tentar descobrir mais que o senso comum sabia sobre os Atha�an Miere era como tentar aprender o segredo da Guilda de Iluminadores para fazer fogos de artif�cio: completamente in�til. Pelo menos os Ogier talvez acabassem decidindo revelar as decis�es tomadas nas tais reuni�es.</p><p>� Prossiga.</p><p>� A not�cia razoavelmente mais interessante � um tanto curiosa, milorde. Fontes confi�veis me informaram que al�Thor foi visto em Caemlyn, em Tear e em Cairhien, por vezes no mesmo dia.</p><p>� Confi�veis? S� se for de um confi�vel louco. As bruxas devem ter dois ou tr�s homens parecidos com al�Thor, parecidos o bastante para enganar qualquer um que n�o o conhe�a muito bem. Isso explicaria muita coisa.</p><p>� Pode ser, milorde. Meus informantes <emphasis>s�o</emphasis> confi�veis.</p><p>Niall fechou a pasta de couro com for�a, escondendo o rosto de al�Thor.</p><p>� E a not�cia de maior interesse?</p><p>� Suas fontes em Altara� fontes confi�veis, milorde� informaram que as bruxas de Salidar alegam que a Ajah Vermelha encorajou Logain a se tornar um falso Drag�o. Que praticamente o fabricaram, na verdade. As bruxas est�o com Logain em Salidar, ou pelo menos com um homem que alegam ser Logain, e o exibem aos nobres que convidam para uma visita. N�o tenho provas, mas suspeito de que estejam contando essa hist�ria para todos os governantes com quem conseguem contato.</p><p>Franzindo o cenho, Niall observou os estandartes expostos na sala. Os s�mbolos representavam inimigos de quase todas as na��es � nenhum daqueles o derrotara duas vezes, poucos tinham conseguido ao menos uma vit�ria. Os estandartes j� estavam velhos, desgastados com o tempo. Assim como Niall. Mas n�o estava t�o velho a ponto de n�o conseguir ver um fim para o que ele mesmo havia come�ado. Cada um daqueles estandartes tinha sido capturado em batalhas sangrentas, quando era dif�cil saber o que estava acontecendo para al�m do que os olhos podiam informar, quando a certeza da vit�ria ou da derrota eram igualmente ef�meras. A pior batalha que j� lutara, com ex�rcitos tr�pegos caindo uns por sobre os outros perto de Moisen, durante as Confus�es, parecia movida por artimanhas t�o f�ceis de compreender quanto as fantasias de uma crian�a, se comparados �quela batalha que ele travava agora.</p><p>Ser� que estava errado? A Torre estaria mesmo dividida? Haveria mesmo algum conflito entre as Ajahs? Por qu�? Por al�Thor? Se as bruxas estavam brigando entre si, muitos dos Filhos se mostrariam prontos para defender a solu��o de Carridin: um golpe que destru�sse Salidar e o m�ximo de bruxas poss�vel. Muitos dos Filhos eram homens que acreditavam que pensar no dia de amanh� era pensar muito � frente e que nunca consideravam a semana ou o m�s seguinte, que dir� o ano que ainda estava por vir. Valda era um deles, e talvez fosse bom que o sujeito ainda n�o tivesse chegado a Amador. E tamb�m Rhadam Asunawa, o Gr�o-inquisidor dos Questionadores. Valda estava sempre querendo usar o machado, mesmo quando o punhal servia melhor para a tarefa em quest�o; enquanto Asunawa simplesmente queria � e queria para ontem � ver enforcadas todas as mulheres que tivessem passado uma m�sera noite na Torre, ver queimados todos os livros que mencionavam Aes Sedai ou o Poder �nico, ver banidas todas as palavras a respeito daquela feiti�aria maligna. Asunawa nunca pensava para al�m desses objetivos, nem se preocupava com o custo. Niall trabalhara muito duro, arriscara muita coisa, para permitir que aquilo se transformasse, aos olhos do mundo, numa disputa entre os Filhos e a Torre.</p><p>Na verdade, n�o fazia muita diferen�a ele estar ou n�o errado. Mesmo que estivesse, ainda conseguiria tirar muitas vantagens da situa��o. Talvez ainda mais vantagens do que se estivesse certo. Com um pouco de sorte, poderia arrasar a Torre Branca de um jeito irrepar�vel, esmagar as bruxas at� virarem p�. Com isso, o poder de al�Thor decerto iria vacilar, mas o falso Drag�o continuaria a representar amea�a suficiente para ser usado como isca. E estaria perto da verdade. Muito perto.</p><p>Sem tirar os olhos dos estandartes, o Senhor Capit�o Comandante dos Filhos da Luz respondeu:</p><p>� A cis�o da Torre � real. A Ajah Negra se revelou. As vitoriosas det�m a Torre, e as perdedoras foram expulsas e est�o lambendo as feridas em Salidar. � Niall olhou para Balwer e quase abriu um sorriso. Qualquer outro dos Filhos j� estaria protestando, dizendo que n�o havia Ajah Negra, ou ent�o que todas as bruxas eram Amigas das Trevas. At� o recruta mais novo teria feito isso. Mas Balwer mal olhou para ele, sem nem piscar diante de sua blasf�mia contra tudo o que os Filhos representavam. � S� nos resta decidir se a Ajah Negra ganhou ou perdeu. Acho que ganhou. A maioria vai considerar que as verdadeiras Aes Sedai s�o as da Torre. E � mesmo melhor que associem as <emphasis>verdadeiras</emphasis> Aes Sedai com a Ajah Negra. Al�Thor � uma criatura da Torre, um vassalo da Ajah Negra. � Ele pegou a ta�a que estava na mesa e bebericou, o que n�o ajudou em nada a aplacar o calor. � Talvez eu possa me aproveitar disso como mais uma desculpa para ainda n�o ter agido contra Salidar. � Por meio de seus emiss�rios, ele alegava que o fato de n�o ter tomado provid�ncias era prova de como acreditava que al�Thor era uma amea�a terr�vel, j� que preferira permitir que as bruxas se reunissem �s portas de Amad�cia a desviar os esfor�os das for�as dos Filhos contra o perigo do falso Drag�o. � Aquelas mulheres de l� est�o horrorizadas, assombradas em finalmente ver, depois de tantos anos, a extens�o do avan�o da Ajah Negra. Finalmente se rebelaram contra a maldade em que estavam imersas� � Ele foi perdendo o vigor da imagina��o. Aquelas mulheres eram todas servas do Tenebroso, que tipo de mal as faria se rebelar? Por�m, depois de um instante, Balwer tomou a palavra:</p><p>� Pode ser que elas tenham decidido se jogar � merc� do senhor, milorde, ou at� pedir sua prote��o. Sa�ram derrotadas de uma rebeli�o, mais fracas que as inimigas, e temem ser subjugadas. Um homem � beira do precip�cio, j� certo de sua morte, estende a m�o para pedir ajuda at� a seu pior inimigo. Pode ser que� � Balwer tamborilou os dedos ossudos sobre os l�bios, pensativo. � Pode ser que estejam prontas para se arrepender de seus pecados e abdicar da posi��o de Aes Sedai?</p><p>Niall o encarou. Suspeitava de que os pecados das bruxas de Tar Valon fossem mais uma das coisas em que Balwer n�o acreditava.</p><p>� Isso � absurdo � retrucou, impass�vel. � O tipo de coisa que se poderia esperar de Omerna.</p><p>O secret�rio manteve a mesma express�o afetada de sempre, mas come�ou a esfregar as m�os, como sempre fazia quando se sentia insultado.</p><p>� � mesmo o que milorde esperaria dele, mas � o tipo de coisa que seria repetida onde ele mais colhe informa��es, nas ruas e nos sal�es onde os nobres fofocam enquanto bebem vinho. Ningu�m nunca ri dos absurdos, nesses lugares, apenas escuta. O que pode parecer absurdo demais para acreditar � tomado como verdade justamente por ser absurdo demais para ser mentira.</p><p>� E como � que voc� apresentaria isso? N�o vou plantar nenhum boato sobre uma poss�vel liga��o dos Filhos com as bruxas.</p><p>� Seriam apenas rumores, milorde. � Niall endureceu o olhar, e Balwer espalmou as m�os. � Como milorde desejar. A cada conto se aumenta um ponto, ent�o a hist�ria mais simples tem mais chance de preservar sua ess�ncia. Sugiro quatro rumores, milorde, n�o apenas um. Primeiro, espalhamos o boato de que a cis�o da Torre foi causada por uma insurrei��o da Ajah Negra. Segundo, que a Ajah Negra saiu vitoriosa e agora controla a Torre Branca. Terceiro, que as Aes Sedai em Salidar, expulsas e apavoradas, renunciaram ao posto de Aes Sedai. E quarto, que as mulheres vieram at� o senhor em busca de piedade e prote��o. Para o povo, cada hist�ria servir� como confirma��o das outras. � Ajeitando a lapela, Balwer abriu um sorrisinho de satisfa��o.</p><p>� Muito bom, Balwer. Que assim seja. � Niall tomou um gole maior de vinho. O calor o deixava cada vez mais consciente da pr�pria idade. Sentia que os ossos pareciam fr�geis. Mas viveria por tempo suficiente para ver o falso Drag�o cair, ver o mundo reunido para enfrentar Tarmon Gai�don. Ainda que n�o vivesse para liderar a �ltima Batalha, tinha certeza de que a Luz lhe concederia ao menos isso. � E quero que Elayne Trakand e seu irm�o Gawyn sejam localizados e trazidos de volta para Amador. Cuide disso. Agora pode sair.</p><p>Em vez de sair, Balwer hesitou.</p><p>� Milorde sabe que eu jamais faria nenhuma sugest�o sobre como proceder.</p><p>� Mas est� querendo fazer uma agora? E qual seria?</p><p>� Pressione Morgase, milorde. J� passou mais de um m�s, e ela ainda est� <emphasis>considerando</emphasis> a sua proposta. Ela�</p><p>� J� chega, Balwer. � Niall suspirou. �s vezes desejava que Balwer n�o fosse de Amad�cia, e sim um cairhieno que absorvera o jogo das casas junto com o leite da m�e. � Morgase est� cada dia mais comprometida comigo, seja l� em que ela acredite. Eu preferiria que ela tivesse aceitado a proposta logo, pois j� teria Andor contra al�Thor, e com uma boa quantidade de Filhos para engrossar as fileiras. Mas, a cada dia que a mulher passa como minha h�spede, fica mais e mais atada a mim. N�o vai demorar a descobrir que � minha aliada simplesmente porque o mundo acredita que ela �, ent�o estar� t�o enroscada que ser� imposs�vel se soltar. E ningu�m jamais vai poder dizer que a coagi, Balwer. Isso � muito importante. � sempre mais dif�cil abandonar uma alian�a que o mundo acredita ter sido formada por livre e espont�nea vontade do que uma que � poss�vel provar que foi formada � for�a. Pressa e descuido s� levam � ru�na, Balwer.</p><p>� Muito bem, milorde.</p><p>Niall o dispensou com um gesto, e o sujeito fez uma mesura e se retirou. Balwer n�o compreendia. Morgase era uma oponente de peso. Se fosse pressionada demais, lutaria contra todas as adversidades. No entanto, bastava pression�-la da maneira certa para que ela se pusesse a enfrentar o inimigo que acreditava ver, ent�o s� perceberia a armadilha quando j� fosse tarde demais. O tempo urgia, pressionando-o, pesando com todos os anos que j� vivera, todos os meses de que precisava t�o desesperadamente, mas Niall n�o deixaria que a pressa arruinasse seus planos.</p><empty-line/><p>O falc�o arremeteu, lan�ando-se em um golpe certeiro contra o enorme pato que cruzava os c�us, provocando uma explos�o de penas. As duas aves se afastaram, e o pato, com o voo interrompido, come�ou a cair. O falc�o mergulhou no c�u l�mpido, inclinando o corpo em um �ngulo preciso, e se lan�ou outra vez contra a presa abatida, prendendo-a entre as garras. O peso consider�vel do pato atrapalhava o voo, mas, com certo esfor�o, a ave vitoriosa voou ao encontro das pessoas que a aguardavam em terra.</p><p>Morgase se perguntou se ela mesma n�o seria como o falc�o: orgulhosa e determinada demais para perceber que sua presa era maior do que as asas podiam suportar. Tentou relaxar as m�os enluvadas, que agarravam as r�deas com for�a. O chap�u branco de aba larga, com longas plumas brancas, era uma leve prote��o contra o sol impiedoso, mas o suor ainda assim brotava em seu rosto. Em seu vestido de montaria de seda verde com bordados em ouro, Morgase nem parecia uma prisioneira.</p><p>Havia outras pessoas a cavalo e a p� no longo campo de grama seca e marrom, mas n�o chegavam a formar uma multid�o. Um grupo de m�sicos, todos de tabardos azuis com bordados brancos, trazendo flautas, sabiolas e tambores, tocavam uma melodia suave, bem apropriada para a tarde regada a vinho gelado. Uma dezena de adestradores vestindo coletes de couro bem trabalhados por cima das camisas brancas de mangas bufantes afagava os falc�es de olhos vendados empoleirados em seus bra�os protegidos por manoplas ou pitavam os cachimbos e baforavam uma fuma�a azul nos rostos das aves. E havia o dobro de servi�ais uniformizados circulando com frutas e vinho em c�lices dourados apoiados em bandejas tamb�m douradas, al�m de homens usando cotas de malha reluzentes circulando pelos arredores, mantendo-se bem pr�ximos �s grandes �rvores de galhos nus. Tudo isso para acompanhar o cortejo de Morgase e garantir que a tarde de falcoaria transcorresse sem grandes problemas.</p><p>Bem, pelo menos era esse o motivo que tinham alegado, embora o povo do Profeta estivesse quase a duzentas milhas ao norte e n�o fosse muito prov�vel encontrar bandidos t�o perto de Amador. Al�m disso, apesar do grupo de mulheres que a acompanhavam em �guas e cap�es, todas com vestidos de montaria de seda brilhosa e deslumbrantes chap�us de abas largas com plumagens coloridas, os cabelos compridos divididos em cachos, conforme ditava a moda da corte amadiciana, a verdade era que o cortejo de Morgase consistia apenas em mais duas pessoas: o desajeitado Basel Gill, montado meio torto no cavalo, o colete de discos de metal comprimindo a barriga volumosa por cima do casaco de seda vermelha � casaco esse que a pr�pria Morgase arranjara, para Basel n�o ser ofuscado pelos servi�ais �, e Paitr Conel, que parecia ainda mais desajeitado em seu casaco branco e vermelho de pajem, claramente muito nervoso desde que Morgase o fizera se juntar ao cortejo. As mulheres que os acompanhavam eram nobres da corte de Ailron que tinham se �oferecido� como damas de companhia. O pobre Mestre Gill mexia na espada, distra�do, observando os Mantos-brancos com um olhar de pura desilus�o. Sim, aqueles homens de cotas de malha eram Mantos-brancos, apesar de sempre abrirem m�o do uniforme quando a acompanhavam para fora da Fortaleza da Luz. E tamb�m eram vigias: se Morgase tentasse cavalgar para muito longe ou se afastar por muito tempo, o comandante daquele destacamento, Norowhin, um sujeito de olhar duro, que odiava fingir n�o ser um Manto-branco, �sugeria� que ela retornasse a Amador, dando alguma desculpa como o calor muito intenso ou algum boato de bandoleiros rondando a �rea. N�o havia como discutir com cinquenta homens de armadura sem perder a dignidade. Na primeira vez em que sa�ram, Norowhin quase tomou as r�deas das m�os dela, e era por isso que Morgase nunca permitia que Tallanvor a acompanhasse nesses passeios. O rapaz era tolo o bastante para insistir em defender a honra e os direitos de Morgase mesmo diante de cem homens. Ele passava o tempo livre praticando com a espada, como se esperasse dar um jeito de abrir o caminho de Morgase � for�a.</p><p>Uma brisa se ergueu de repente, ro�ando seu rosto, e, com um susto, Morgase percebeu que estava sendo abanada: Laurain estava inclinada na sela, balan�ando um leque de renda branca. Ela era uma mulher jovem e esbelta, com os olhos escuros um pouco pr�ximos demais, e estava sempre com um sorrisinho coquete.</p><p>� Vossa majestade deve ter ficado t�o satisfeita em saber que seu filho se juntou aos Filhos da Luz. E que subiu de gradua��o t�o depressa.</p><p>� Isso n�o deveria ser nenhuma surpresa � retrucou Altalin, abanando o pr�prio rosto gorducho. � N�o havia d�vidas de que o filho de Sua Majestade evoluiria r�pido, assim como o esplendor do sol n�o demora em se intensificar. � A mulher se regozijou ao ouvir os murm�rios de concord�ncia de algumas das outras damas de companhia, em resposta �queles joguinhos de palavras rid�culos.</p><p>Morgase se esfor�ava para manter o rosto sereno. A not�cia de Niall, que recebera na noite anterior, durante uma das visitas surpresa, tinha sido um verdadeiro choque. Galad, um Manto-branco! Bem, pelo menos ele estava seguro, segundo o Comandante dos Filhos. Mas n�o podia visit�-la, j� que as obriga��es de um Filho da Luz o mantinham afastado. Claro que ele faria parte de sua escolta quando ela retornasse a Andor, liderando um ex�rcito de Filhos.</p><p>N�o, Galad estava t�o em perigo quanto Elayne ou Gawyn � talvez at� mais. Quisesse a Luz que Elayne estivesse em seguran�a na Torre Branca. Quisesse a Luz que Gawyn estivesse vivo. Niall alegava n�o saber o paradeiro do garoto, s� tinha certeza de que Gawyn n�o estava em Tar Valon. E Galad agora era como uma faca em sua garganta � claro que Niall jamais seria cruel a ponto de sugerir uma coisa dessas, mas bastaria uma ordem dele para que o menino fosse enviado em alguma miss�o de morte certa. A �nica coisa que o mantinha em seguran�a era o fato de Niall achar que Morgase n�o ligava tanto para ele quanto para Elayne e Gawyn.</p><p>� Fico feliz por ele, se � isso o que o rapaz busca � respondeu, indiferente. � Mas Galad � filho de Taringail, n�o meu. Meu casamento com Taringail foi arranjado, voc�s sabem como s�o essas coisas. Pode parecer estranho, mas ele j� est� morto h� tanto tempo que mal me lembro de seu rosto. Galad � livre para fazer o que bem entender. Gawyn � quem ser� o Primeiro Pr�ncipe da Espada quando Elayne ocupar o Trono do Le�o. � Ela dispensou um servi�al que trazia um c�lice de vinho numa bandeja. � Niall poderia ao menos ter providenciado um vinho decente.</p><p>Esse �ltimo coment�rio gerou uma onda de risadinhas nervosas. Morgase at� conseguira se aproximar um pouco daquelas mulheres, mas ningu�m se sentia � vontade para ofender Pedron Niall � ao menos n�o ali, onde qualquer coment�rio poderia chegar aos ouvidos dele. Morgase aproveitava toda e qualquer oportunidade de reclamar do Comandante dos Filhos quando as damas de companhia podiam ouvir: a atitude de desafio servia para convenc�-las de sua valentia, o que era importante se quisesse forjar alian�as, mesmo que parciais. E mais importante, pelo menos para ela, era que ajudava a preservar a ilus�o de que n�o era prisioneira ali.</p><p>� Ouvi dizer que Rand al�Thor exibe o Trono do Le�o feito um trof�u de ca�a.</p><p>O coment�rio tinha vindo de Marande, uma bela mulher com rosto em formato de cora��o, um tanto mais velha que as outras. Era irm� do Gr�o-trono da Casa Algoran, o que por si s� j� a tornava bastante poderosa � talvez o bastante para se opor a Ailron, mas n�o a Niall. As outras afastaram as montarias para que Marande se aproximasse no cap�o baio. N�o havia a menor chance de forjar qualquer tipo de alian�a ou amizade com aquela mulher.</p><p>� Pois ouvi dizer o mesmo � retrucou Morgase, displicente. � O le�o � um animal perigoso de se ca�ar, e o Trono do Le�o mais ainda. Sobretudo para um homem. Os homens que se aventuram sempre acabam mortos.</p><p>Marande abriu um sorriso.</p><p>� Tamb�m ouvi dizer que al�Thor deixa os homens capazes de canalizar em postos altos de seu ex�rcito.</p><p>A frase provocou uma troca de olhares desconfort�veis entre as demais presentes, acompanhados de um burburinho de murm�rios de preocupa��o. Uma das mais jovens, a esguia Marewin, ainda quase uma menina, se desequilibrou na sela de patilho alto, parecendo prestes a desmaiar. As not�cias da anistia de al�Thor vinham acompanhadas de hist�rias assustadoras � conversas que Morgase desejava fervorosamente que fossem apenas boatos. Quisesse a Luz que todas as not�cias n�o passassem de boatos: homens capazes de canalizar se reunindo em Caemlyn, bebendo e festejando no Pal�cio Real, aterrorizando a cidade.</p><p>� Voc� ouve bastante coisa � retrucou. � Por acaso passa o dia escutando atr�s das portas?</p><p>Marande alargou o sorriso. Havia sido incapaz de resistir � press�o de se tornar uma das damas de companhia de Morgase, mas tinha poder o suficiente para exibir sua insatisfa��o sem medo. Era como um espinho cravado fundo no p�: imposs�vel de remover e provocava uma pontada de dor a cada passo.</p><p>� O prazer de servir Vossa Majestade me deixa com pouco tempo livre, mas de fato tento ouvir tudo o que chega de not�cias de Andor. Para tratar delas com Vossa Majestade, claro. Ouvi dizer que o falso Drag�o se re�ne diariamente com os nobres andorianos. Lady Arymilla e Lady Naean, Lorde Jarid e Lorde Lir. E outros amigos deles.</p><p>Um dos falcoeiros ergueu uma ave cinza de asas negras e olhos vendados para Morgase. Os sinos de prata presos nas tiras de couro das patas tilintavam enquanto a ave andava pela manopla do adestrador.</p><p>� Obrigada, mas j� cacei bastante por hoje � respondeu Morgase, ent�o ergueu a voz: � Mestre Gill, re�na a escolta. Estou voltando para a cidade.</p><p>Gill levou um susto. Sabia muito bem que s� estava ali para cavalgar na cola dela, mas come�ou a acenar e gritar ordens aos Mantos-brancos como se acreditasse que os homens fossem obedecer. Morgase, por sua vez, deu meia-volta com a �gua negra, mas conduziu o animal a um passo lento, claro. Norowhin sairia em disparada atr�s dela se suspeitasse da menor possibilidade de uma tentativa de fuga.</p><p>Claro que os Mantos-brancos sem mantos sa�ram a galope, formando a escolta antes mesmo que a �gua pudesse avan�ar dez passos. E, antes que Morgase chegasse � beirada do gramado, Norowhin j� estava a seu lado com uma dezena de homens � frente e o restante seguindo atr�s, bem de perto. Os servi�ais, os m�sicos e os falcoeiros foram deixados para tr�s, para ajeitarem as cargas e seguirem o mais depressa poss�vel.</p><p>Gill e Paitr tomaram suas posi��es atr�s de Morgase, seguidos pelas damas de companhia. Marande sorria triunfante, embora algumas das outras exibissem caretas de desaprova��o. Nada muito expl�cito � mesmo que tivesse que se submeter � vontade de Niall, Marande tinha um poder consider�vel dentro de Amad�cia �, mas a maioria daquelas mulheres tentava se esfor�ar na tarefa de dama de companhia, mesmo tendo sido for�adas �quilo. A maioria delas provavelmente teria assistido Morgase de bom grado, apenas n�o gostava de ter que morar na Fortaleza da Luz.</p><p>A pr�pria Morgase teria sorrido, se tivesse certeza de que Marande n�o notaria. A l�ngua solta era a �nica raz�o pela qual n�o insistira, semanas antes, para que a mulher fosse dispensada. Marande gostava de alfinet�-la apontando a extens�o dos problemas em Andor como se fossem ind�cios de que o poder da rainha estava esgotado, mas os nomes que citava eram um b�lsamo para Morgase: todos de homens e mulheres que se opuseram a ela durante a Sucess�o, todos bajuladores de Gaebril. Daqueles nobres, n�o esperava nada menos � nem nada mais � do que essa atitude. Se Marande tivesse citado outros nomes, seria diferente. Se ela falasse de Lorde Pelivar, Abelle, Luan, Lady Arathelle, Ellorien ou Aemlyn. Ou outros. Mas aqueles nobres nunca tinham sido citados nas provoca��es de Marande, e o nome deles com certeza estaria presente caso o mais leve sussurro vindo de Andor os pusesse em suspeita. Enquanto Marande n�o mencionasse aqueles nobres, haveria esperan�a de que n�o tinham se ajoelhado diante de al�Thor. Aquelas pessoas a apoiaram na primeira reivindica��o ao trono e, se a Luz quisesse, poderiam apoi�-la de novo.</p><p>A floresta de �rvores quase secas deu lugar a uma estrada de terra batida, e o grupo foi avan�ando para o sul, em dire��o a Amador. Passaram por trechos em que a mata tinha sido reduzida a tocos de troncos de �rvores derrubadas e descampados de grama amarelada envoltos por cercas de pedra ca�das, com casas de pedra com telhados de palha e celeiros bem afastados da estrada. Tinha bastante gente na estrada, todos levantando poeira ao andar, e Morgase teve que cobrir o rosto com um len�o de seda, embora o povo abrisse caminho ao avistar um grupo t�o grande de homens com armas e armaduras. Alguns at� corriam para as �rvores ou saltavam por cima das pedras das cercas ca�das e disparavam campo adentro. Os Mantos-brancos ignoravam as pessoas, e nenhum fazendeiro ergueu os punhos ou gritou com os invasores. Muitas fazendas pareciam abandonadas, sem galinhas ou qualquer outro animal � vista.</p><p>Por entre o povo que andava pela estrada Morgase viu uma carro�a de bois, um homem conduzindo algumas ovelhas e at� mesmo uma jovem guiando um grupo de gansos. Todos eram obviamente locais. Alguns levavam trouxas nos ombros ou alforjes abarrotados, mas a maioria ia de m�os vazias, como se n�o tivesse ideia de para onde seguia. E essa maioria parecia maior a cada vez que Morgase recebia permiss�o para sair de Amador, n�o importava para que dire��o seguisse com a comitiva.</p><p>Ajustando o len�o sobre o nariz, Morgase olhou Norowhin de esguelha. O sujeito tinha mais ou menos a mesma idade e altura de Tallanvor, mas as semelhan�as acabavam por a�. Norowhin nunca fora bonito, com o rosto vermelho coberto pelo capacete reluzente em forma de cone e a pele descascada por conta do sol. Era magricela, desengon�ado e tinha um nariz proeminente que lembrava uma picareta. Ele liderava a �escolta� sempre que Morgase sa�a da Fortaleza da Luz, e ela sempre tentava engatar conversa. Manto-branco ou n�o, ela considerava uma vit�ria cada passinho que avan�ava na empreitada de convenc�-lo de que n�o precisava trat�-la como prisioneira.</p><p>� Esses s�o os refugiados do Profeta, Norowhin?</p><p>N�o podiam ser, pelo menos n�o todos. Havia tanta gente rumando para o norte quanto para o sul.</p><p>� N�o. � Foi a resposta rude, e ele nem se dignou a encar�-la. Seus olhos esquadrinhavam a beira da estrada, como se ele esperasse que algu�m fosse aparecer do nada para resgat�-la.</p><p>Infelizmente, era o �nico tipo de rea��o que Morgase conseguia arrancar dele. Mesmo assim insistiu:</p><p>� E quem s�o, homem? Com certeza n�o s�o tarabonianos. Voc�s est�o mesmo conseguindo manter esse povo longe de Amad�cia. � Tinha visto Mantos-brancos a cavalo acompanhando um grupo de tarabonianos para oeste, mais cedo. Cinquenta e tantos homens, mulheres e crian�as imundos e quase caindo de cansa�o sendo conduzidos feito gado. S� tinha conseguido conter a l�ngua por saber que n�o havia nada que pudesse fazer sobre o assunto. � Amad�cia � uma terra rica. Nem mesmo uma seca dessas teria conseguido expulsar tanta gente de suas fazendas em uns poucos meses.</p><p>Norowhin pareceu tentar conter uma careta.</p><p>� N�o s�o � respondeu enfim. � S�o refugiados do falso Drag�o.</p><p>� Mas como? Ele est� a centenas de l�guas daqui.</p><p>A relut�ncia do homem ficou mais uma vez estampada no rosto queimado de sol, s� n�o era poss�vel saber se ele hesitava em busca das palavras certas ou se estava considerando se deveria responder ou n�o.</p><p>� Essas pessoas acreditam que ele seja o verdadeiro Drag�o Renascido � disse, por fim, parecendo enojado. � Alegam que ele quebrou todos os elos, segundo as Profecias. Homens renunciaram a seus lordes, aprendizes largaram os mestres. Maridos abandonaram as fam�lias, e as esposas deixaram os maridos. � uma praga levada pelo vento, um vento que vem do falso Drag�o.</p><p>Morgase avistou um jovem casal abra�ado que observava a passagem da comitiva. O suor escorria em seus rostos, sujos da mesma poeira que cobria as roupas simpl�rias. Pareciam famintos, de rosto encovado e olhos arregalados. Ser� que coisa parecida poderia estar acontecendo em Andor? Ser� que Rand al�Thor tamb�m teria causado isso em sua terra? <emphasis>Se tiver, ele vai pagar.</emphasis> O problema era conseguir ter certeza de que a cura n�o seria pior do que a doen�a. Se resgatasse Andor, mesmo que de uma situa��o dessas, e a entregasse aos Mantos-brancos�</p><p>Tentou continuar a conversa, mas, depois de lhe dirigir mais palavras do que j� tinha conseguido dizer de uma s� vez, Norowhin retomou as respostas monossil�bicas. N�o importava: se conseguira abrir aquela casca uma vez, poderia repetir o feito.</p><p>Morgase se remexeu sobre a sela para tentar ver melhor o casal de jovens, mas eles estavam ocultos atr�s dos soldados Mantos-brancos. Isso tamb�m n�o importava. Aqueles rostos permaneceriam guardados em sua mem�ria, assim como sua promessa.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 10</p><p><image l:href="#17"/></p><p>Um ditado das Terras da Fronteira</p></title><p>Rand estava com saudade dos dias em que teria sido poss�vel caminhar sozinho pelos corredores do Pal�cio. Naquela manh�, estava acompanhado por Sulin e mais vinte Donzelas; por Bael, o chefe de cl� dos Aiel Goshien, com seus cinco <emphasis>Sovin Nai</emphasis>, os M�os de Faca dos Jhirad Goshien, pela honra do chefe de cl�; e por Bashere, escoltado por homens de Saldaea com os t�picos narizes de gavi�o. A comitiva apinhava o amplo corredor com paredes cobertas de tape�arias. As <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> e os <emphasis>Sovin Nai</emphasis>, vestidos em seu <emphasis>cadin�sor</emphasis>, nem olhavam para os servi�ais que se curvavam em mesuras e rever�ncias r�pidas logo e sa�am do caminho. J� os saldaeanos, mais jovens, avan�avam com um ar afetado, vestidos com casacos curtos e cal�as largas enfiadas nas botas. Estava fazendo calor at� ali, naquela passagem sombreada, com gr�ozinhos de poeira dan�ando no ar. Alguns servi�ais ostentavam o uniforme vermelho e branco dos tempos do governo de Morgase, mas a maioria era rec�m-chegada e ainda usava as mesmas roupas de quando se candidatara ao trabalho: a l� t�pica de fazendeiros e comerciantes, os tecidos quase todos escuros e lisos, mas de diversas cores, com bordados ou pedacinhos de renda aqui e ali.</p><p>Rand fez uma anota��o mental para n�o se esquecer de mandar a Senhora Harfor, a Criada-chefe, providenciar uniformes para todos, de modo que os rec�m-chegados n�o sentissem que precisavam usar suas melhores roupas para trabalhar. Os uniformes do Pal�cio com certeza seriam de qualidade superior � de qualquer roupa dos camponeses, exceto talvez pelas suas roupas de festa. Havia menos servi�ais do que durante o governo de Morgase, e boa parte dos homens e mulheres vestidos em vermelho e branco eram grisalhos e meio corcundas, pois tinham sido convocados dos alojamentos dos aposentados. Em vez de fugir, como tantos outros, aqueles servi�ais preferiram abdicar da aposentadoria a ver o pal�cio destru�do. Outra anota��o mental. Mandar a Senhora Harfor � Criada-chefe n�o era um t�tulo muito glorioso, mas era Reene Harfor quem comandava o dia a dia do Pal�cio Real � encontrar servi�ais o bastante para que os mais velhos pudessem desfrutar da aposentadoria. Ser� que o benef�cio ainda estava sendo pago, agora que Morgase morrera? Devia ter pensado nisso antes. Bem, Halwin Norry, guarda-livros-chefe, saberia. Rand se sentia como se estivesse sendo espancado por penas at� a morte. Cada coisa o fazia lembrar-se de outra que precisava ser feita. E ainda tinha o problema com os Caminhos� as penas n�o eram nada macias. Mandara uma guarda vigiar o Portal dos Caminhos ali em Caemlyn, al�m de todas as entradas pr�ximas a Tear e Cairhien, mas n�o tinha nem como ter certeza de quantos existiam.</p><p>Sim, trocaria todas as mesuras e rever�ncias, toda a guarda de honra, todas aquelas quest�es e incumb�ncias, toda aquela gente com necessidades a serem atendidas� trocaria tudo aquilo pelos dias em que sua �nica preocupa��o era arranjar um casaco para se aquecer. Claro que, naqueles dias, n�o teria sequer permiss�o de caminhar por esses corredores, pelo menos n�o sem um tipo diferente de guarda, vigiando para que ele n�o surrupiasse um dos c�lices de ouro e prata dos nichos na parede ou alguma das esculturas de marfim de uma das mesas marchetadas de l�pis-laz�li.</p><p>Pelo menos a voz de Lews Therin n�o estava resmungando ininterruptamente naquela manh�. E pelo menos Rand achava que estava pegando o jeito daquele truque que Taim lhe ensinara. O rosto de Bashere estava empapado de suor, mas Rand quase n�o era afetado pelo clima extremo � o casaco cinza de seda bordado estava abotoado at� o pesco�o, e, mesmo sentindo um pouco de calor, o jovem n�o suava uma gota sequer. Taim explicara que com o tempo Rand sequer sentiria calor ou frio, mesmo que a temperatura chegasse a extremos que incapacitariam um homem comum. Era apenas quest�o de se retrair e se distanciar de si mesmo, de um jeito parecido com quando ele se preparava para abra�ar <emphasis>saidin</emphasis>. Era estranho que aquela habilidade fosse t�o similar aos usos do Poder, mesmo sem ter qualquer rela��o com a Fonte Verdadeira. Ser� que as Aes Sedai tamb�m faziam isso? Nunca tinha visto uma delas suar. Pelo menos achava que n�o.</p><p>Riu de repente. Ah, estava pensando se as Aes Sedai suavam ou n�o! Talvez ainda n�o estivesse louco, mas n�o teria dificuldades em se passar por um tonto cabe�a de l�.</p><p>� Eu falei alguma coisa engra�ada? � indagou Bashere, em um tom seco, cofiando o bigode.</p><p>Algumas Donzelas o encararam, um pouco ansiosas. Estavam tentando compreender o humor dos aguacentos.</p><p>Rand n�o sabia como Bashere conseguia manter a compostura. Naquela mesma manh�, chegara ao Pal�cio um boato sobre levantes nas Terras da Fronteira provocados por disputas entre os locais. As fofocas dos viajantes brotavam feito erva depois da chuva, mas aquele rumor parecia ter vindo direto do norte, trazido por mercadores vindos de lugares t�o distantes quanto Tar Valon. Ningu�m mencionara nomes ou locais espec�ficos, ent�o as disputas poderiam muito bem estar ocorrendo em Saldaea. Al�m disso, Bashere n�o recebia not�cias de sua terra desde que fora embora, meses antes. Ainda assim, pela rea��o ao boato, ele poderia simplesmente ter ouvido algu�m comentar que o pre�o do nabo subira.</p><p>Claro, Rand tamb�m n�o tinha not�cias sobre Dois Rios, apenas os vagos rumores de que sua terra natal fora afetada por alguma rebeli�o originada em algum lugar a oeste, o que, em tempos como aqueles, podia ou n�o ser verdade. Mas n�o era a mesma coisa: Rand abandonara Dois Rios. As Aes Sedai tinham espi�es em toda parte, e ele n�o estaria se arriscando nem um pouco em apostar que os Abandonados tamb�m. O Drag�o Renascido n�o tinha qualquer interesse na aldeiazinha onde Rand al�Thor crescera � isso estava no passado. Se n�o fosse assim, dominariam Campo de Emond para usar o lugar contra ele. Bem, n�o ia se ocupar discutindo sozinho sobre seus motivos. Havia abandonado o lugar e ponto final.</p><p><emphasis>Ser� que eu mere�o escapar do destino que me espera, mesmo que eu descubra como?</emphasis> O pensamento vinha dele mesmo, n�o de Lews Therin.</p><p>Rand endireitou os ombros, que de repente pareciam muito doloridos, e manteve a voz baixa:</p><p>� Me desculpe, Bashere. Foi uma ideia meio engra�ada que tive. Mas estava ouvindo. Voc� disse que Caemlyn est� ficando muito cheia. Que para cada homem que fugiu supostamente por medo do falso Drag�o, chegaram outros dois porque acham que n�o sou falso e, portanto, n�o t�m medo. Est� vendo?</p><p>Bashere grunhiu em resposta � uma resposta que poderia significar qualquer coisa.</p><p>� E quantos n�o vieram para c� por outros motivos, Rand al�Thor? � perguntou Bael, o sujeito mais alto que Rand j� vira, quase uma boa m�o maior que ele pr�prio. O Aiel fazia um contraste estranho com Bashere, que era mais baixo do que todas as Donzelas, exceto Enaila. O chefe de cl� dos Aiel Goshien ostentava espessas mechas grisalhas nos cabelos vermelho-escuros, mas seu rosto magro ainda era bem r�gido, e os olhos azuis, muito penetrantes. � Voc� j� tem inimigos mais do que suficiente para a cota de cem homens. Ou�a bem o que eu digo, logo v�o tentar um novo ataque contra voc�. Talvez tenham vindo at� Mensageiros das Sombras entre os rec�m-chegados.</p><p>� Mesmo que n�o tenha Amigos das Trevas entre o povo, os problemas vir�o � observou Bashere �, a inquieta��o cresce aos poucos na cidade, como um p�o no forno. Bastante gente foi atacada e espancada por duvidarem de que voc� � mesmo o Drag�o Renascido. E um coitado foi arrastado de uma taverna at� um celeiro e enforcado nas vigas s� por ter rido ao ouvir o relato dos seus milagres.</p><p>� Meus milagres? � indagou Rand, incr�dulo.</p><p>Um servi�al enrugado e grisalho, metido em um casaco meio largo � guisa de uniforme, que ia pelo corredor carregando um grande vaso, trope�ou e caiu para tr�s quando tentou se curvar em uma mesura e recuar para sair do caminho ao mesmo tempo. O vaso verde-claro, um artigo do Povo do Mar feito de porcelana fina como papel, voou por cima da cabe�a do servi�al e saiu rolando pelo ch�o de azulejos vermelho-escuros, rodopiando e quicando at� parar, perfeitamente de p�, cerca de trinta passadas mais adiante. O velho se levantou mais que depressa, com agilidade surpreendente, e correu para resgatar o vaso. Ele tateou a porcelana toda, ao mesmo tempo incr�dulo e aliviado, e soltou uma exclama��o quando viu que n�o havia sequer uma lasca ou rachadura. Outros servi�ais encararam a cena com a mesma incredulidade, antes de se recomporem de repente e seguirem com seus afazeres. Eles se esfor�avam tanto em evitar olhar para Rand que muitos esqueciam as mesuras e rever�ncias.</p><p>Bashere e Bael se entreolharam, e Bashere bufou, soprando o frondoso bigode.</p><p>� T�m acontecido coisas estranhas � comentou. � A cada dia chega uma hist�ria nova. Alguma crian�a caiu de uma janela a quarenta passadas de altura e se estatelou nas pedras do pavimento, mas n�o sofreu um �nico arranh�o. Ou alguma velhinha se meteu no meio de mais de vinte cavalos em disparada, mas al�m de n�o ter sido derrubada ou pisoteada ainda conseguiu sair ilesa. Outro dia um sujeito acertou cinco coroas vinte e duas vezes seguidas nos dados, e o pessoal tamb�m p�s isso na sua conta. Sorte a dele.</p><p>� Dizem por a� que ontem � noite uma cesta de telhas caiu de cima de um telhado. As telhas ficaram intactas, mas ca�ram formando o antigo s�mbolo dos Aes Sedai � acrescentou Bael. Ele encarou o servi�al grisalho que estava de queixo ca�do, apertando o vaso contra o peito enquanto eles passavam. � E eu n�o duvido.</p><p>Rand soltou a respira��o devagar. Claro que os dois n�o tinham mencionado o outro tipo de coisa estranha que andava acontecendo. N�o falaram do homem que estava caminhando quando trope�ou e foi enforcado pelo pr�prio len�o amarrado ao pesco�o, que ficou preso na lingueta de uma porta. Nem do vento forte que soprou pelas janelas e portas abertas de uma casa, soltou uma ripa do teto e matou a mulher que estava sentada � mesa com a fam�lia. O tipo de coisa que realmente podia acontecer, mas era raro. S� que aqueles eventos n�o eram incomuns quando ele estava por perto. O mero fato de Rand estar a algumas milhas de dist�ncia retorcia o padr�o e o acaso, para o bem ou para o mal � e os dois aconteciam com a mesma frequ�ncia. Mesmo que os Drag�es sumissem de seus bra�os, e as gar�as desaparecessem das palmas das m�os, Rand ainda estaria marcado. Havia um ditado nas Terras da Fronteira: �<emphasis>A morte � mais leve que a pluma. O dever, mais pesado que a montanha.</emphasis>� Depois de erguer a montanha nos ombros, a �nica op��o era sustent�-la com firmeza: n�o havia como deit�-la outra vez no ch�o. E tamb�m n�o havia mais ningu�m que pudesse carreg�-la em seu lugar. Reclamar n�o resolveria nada.</p><p>� Voc� encontrou os homens respons�veis pelo enforcamento? � indagou, rude. Bashere balan�ou a cabe�a. � Ent�o encontre os respons�veis e prenda todos por homic�dio. Quero acabar com essa moda. N�o � crime nenhum duvidar de mim.</p><p>Segundo os rumores, o Profeta declarara que aquilo era, sim, um crime. Mas Rand n�o podia fazer nada a respeito disso � pelo menos por enquanto. Nem ao menos sabia onde Masema estava, s� tinha a vaga no��o de que era em algum lugar de Ghealdan ou de Amad�cia. Isso se n�o tivesse se mudado nesse meio-tempo. Fez mais outra anota��o mental: precisava encontrar aquele homem e dar um jeito de fre�-lo.</p><p>� Seja qual for o tamanho dessa d�vida? � inquiriu Bashere. � Andam dizendo pelos cantos que voc� � um falso Drag�o e que matou Morgase com a ajuda das Aes Sedai. Que o povo deveria se rebelar e vingar sua rainha. Esses rumores podem estar sendo repetidos por mais gente do que imaginamos. N�o d� para ter certeza.</p><p>Rand ficou muito s�rio. Conseguia aceitar que o povo especulasse sobre sua participa��o na morte de Morgase � n�o tinha muita op��o: por mais que negasse, muitas estranhezas tinham acontecido durante a tomada do Pal�cio, havia coisas demais que n�o se encaixavam, o que suscitava d�vidas. Mas n�o podia tolerar qualquer incita��o � rebeli�o. N�o dividiria Andor entre guerras e disputas. Entregaria a Elayne um pa�s t�o intocado quanto o que recebera. Se algum dia a encontrasse outra vez, � claro.</p><p>� Descubra quem come�ou esses rumores e jogue os respons�veis na pris�o � mandou, em um tom severo. Luz, como poderiam descobrir quem dera in�cio �quela fofoca? � Se quiserem perd�o, podem pedir a Elayne. � Uma jovem servi�al usando um vestido marrom simples e espanando um vaso de vidro retorcido olhou para o seu rosto enquanto Rand dava a ordem. O vaso caiu de suas m�os subitamente tr�mulas e se despeda�ou. �, ele nem sempre alterava o acaso. � Alguma boa not�cia? Seria �timo.</p><p>A jovem se agachou, ainda tr�mula, para recolher os cacos, mas bastou um olhar de Sulin � um simples olhar! �, e ela se afastou correndo, de olhos arregalados, e se apertou contra a parede, junto a uma tape�aria de um leopardo em plena ca�a. Rand n�o entendia por qu�, mas algumas mulheres pareciam temer mais as Donzelas que os homens Aiel. A jovem olhou para Bael como se esperasse receber alguma prote��o. Mas ele n�o parecia nem v�-la.</p><p>� Bem, depende de o que voc� considera boas not�cias � retrucou Bashere, dando de ombros. � Fiquei sabendo que Ellorien, da Casa Traemane, e Pelivar, da Casa Coelan, chegaram � cidade faz tr�s dias. Entraram escondidos, por assim dizer, e, pelo que eu sei, nenhum dos dois chegou nem perto da Cidade Interna. E corre o boato de que Dyelin, da Casa Taravin, est� aqui por perto, no interior. Nenhum deles respondeu aos seus convites. N�o ouvi nada que pudesse lig�-los aos boatos. � Ele olhou de esguelha para Bael, que balan�ou a cabe�a de leve.</p><p>� Ouvimos ainda menos do que voc�, Davram Bashere. O povo daqui s� deixa a l�ngua solta na companhia de outros aguacentos.</p><p>De todo modo, eram boas not�cias. Rand precisava daquelas pessoas. Poderia dar um jeito de resolver a situa��o, se aqueles nobres achassem que ele era um falso Drag�o. E se aquelas pessoas acreditassem que ele tinha matado Morgase� bem, era ainda melhor que permanecessem leais � mem�ria e ao sangue da rainha.</p><p>� Mande novos convites para virem me visitar. E inclua o nome de Dyelin. Os dois devem saber onde ela est�.</p><p>� Se eu mandar o convite, acho que a �nica coisa que eles v�o ouvir � que tem um ex�rcito de Saldaea instalado em Andor � retrucou Bashere, meio na d�vida.</p><p>Rand hesitou, ent�o assentiu, abrindo um sorriso de repente.</p><p>� Pe�a a Lady Arymilla que leve o convite. N�o tenho d�vidas de que ela vai adorar a oportunidade de mostrar aos outros quanto � pr�xima de mim. Mas quero que voc� redija.</p><p>Mais uma vez, as aulas de Moiraine sobre o Jogo das Casas se mostravam �teis.</p><p>� Bem, tem mais, e n�o sei se � uma not�cia boa ou ruim � continuou Bael, mudando de assunto �, mas os Escudos Vermelhos disseram que duas Aes Sedai alugaram quartos em uma estalagem na Cidade Nova. � Os Escudos Vermelhos tinham ajudado os homens de Bashere a fazer o policiamento de Caemlyn, no come�o, mas depois assumiram a fun��o. Bael abriu um leve sorriso ao notar o desapontamento no rosto de Bashere. � N�s ouvimos menos, Davram Bashere, mas pode ser que, �s vezes, nossos olhos vejam mais.</p><p>� Alguma delas � nossa amiga que gosta de gatos? � perguntou Rand.</p><p>As hist�rias de que havia uma Aes Sedai na cidade persistiam. �s vezes eram duas, ou tr�s, ou um grupo maior, mas o m�ximo que Rand conseguira descobrir eram umas poucas hist�rias sobre uma Aes Sedai que Curava gatos e cachorros, mas que sempre estava em alguma rua mais � frente. E sempre contada por algu�m que ouvira de algu�m que ouvira em uma taverna ou um mercado.</p><p>Bael balan�ou a cabe�a.</p><p>� Acho que n�o. Os Escudos Vermelhos disseram que as duas parecem ter chegado no meio da noite.</p><p>Bashere parecia interessado � o homem n�o perdia uma chance de repetir que Rand precisava das Aes Sedai. Bael, contudo, franzia o cenho de leve, t�o de leve que s� um Aiel teria percebido. Aquele era um povo cauteloso, at� relutante, quando o assunto era Aes Sedai.</p><p>Aquelas poucas palavras davam a Rand muito o que pensar, e cada pensamento desencadeado pelos boatos levava de volta para ele. As duas Aes Sedai deviam ter um motivo para ir a Caemlyn quando suas irm�s andavam evitando a cidade desde que o Drag�o Renascido aparecera por l�. O mais prov�vel era que tivesse a ver com ele. Era comum evitar viajar � noite at� mesmo nos tempos de paz, e os tempos n�o andavam nada pac�ficos. Chegar no meio da madrugada talvez indicasse que as Aes Sedai estavam tentando passar despercebidas � e o mais prov�vel � que fosse justamente ele quem elas n�o quisessem que notasse sua presen�a. Por outro lado, poderia ser apenas alguma viagem urgente. O que talvez indicasse uma miss�o para a Torre. E a verdade era que Rand n�o conseguia pensar em nada mais importante para a Torre, naquele momento, do que ele pr�prio. Ou as duas poderiam estar viajando ao encontro das Aes Sedai que Egwene insistia que iam apoi�-lo.</p><p>Fosse o que fosse, Rand queria saber. S� a Luz sabia o que as Aes Sedai � fossem as da Torre ou as desse grupo escondido com Elayne � estavam tramando, mas ele tinha que descobrir. As Aes Sedai eram um grupo grande demais e potencialmente perigoso demais para ele se dar ao luxo de n�o ficar atento. Como a Torre reagiria quando Elaida soubesse da anistia? Como as Aes Sedai reagiriam? Ser� que j� estavam sabendo?</p><p>Enquanto se aproximavam das portas no fim do corredor, Rand abriu a boca para pedir a Bael que convidasse uma das Aes Sedai para vir ao Pal�cio. Podia dar conta de duas delas, se fosse o caso � contanto que n�o o pegassem de surpresa �, mas n�o havia motivo para se arriscar antes de saber quem eram e o que pretendiam.</p><p><emphasis>Estou tomado de orgulho. Esse mesmo orgulho doentio que me destruiu!</emphasis></p><p>Rand trope�ou. Era a primeira vez do dia que ouvia a voz de Lews Therin em sua cabe�a � e ainda por cima o coment�rio era parecido demais com o que estava pensando a respeito das Aes Sedai �, mas n�o foi isso o que o fez parar de repente e engolir as palavras que estava prestes a dizer.</p><p>As portas que davam para um dos jardins do Pal�cio estavam abertas por causa do calor. N�o havia flores, e alguns dos arbustos de rosas e estrelas-brancas estavam murchos, mas, mesmo com poucas folhas nas copas, ainda havia a sombra das �rvores ao redor da fonte de m�rmore branco que jorrava �gua, bem no cora��o do jardim. Uma mulher de saia rodada de l� marrom e uma blusa branca e larga de <emphasis>algode</emphasis> estava parada junto � fonte, com um xale cinza enrolado nos bra�os, com aquela mesma express�o at�nita que os Aiel encaravam a �gua que n�o tinha outra fun��o al�m de ser olhada. Rand deixou os olhos de perderem nas linhas do rosto de Aviendha, nas ondas de seus cabelos ruivos que ca�am sobre os ombros, o len�o cinza dobrado amarrado no topo da cabe�a. Luz, como ela era bonita. Aviendha observava o movimento da �gua, ainda sem reparar em sua presen�a.</p><p>O que sentia por ela era amor? N�o sabia. A Aiel sempre aparecia nos sonhos com Elayne e com Min. Rand sabia que aquilo � que era perigoso. Sabia que n�o tinha nada a oferecer a uma mulher al�m de sofrimento.</p><p><emphasis>Ilyena</emphasis>, lamentou Lews Therin.<emphasis> Eu a matei! A Luz h� de me consumir para sempre!</emphasis></p><p>� Deve ser coisa importante, para uma dupla de Aes Sedai aparecer desse jeito � murmurou Rand. � Talvez seja melhor eu visitar a estalagem e descobrir por que vieram. � Quase todos da comitiva pararam junto com ele, mas Enaila e Jalani se entreolharam e continuaram avan�ando, passando por ele e indo para o jardim. Rand ergueu a voz uma fra��o m�nima e a deixou ainda mais dura. � As Donzelas aqui vir�o comigo. Quem quiser botar um vestido e fofocar sobre juntar casais pode ficar para tr�s.</p><p>Enaila e Jalani se empertigaram e se viraram para ele, um brilho de indigna��o nos olhos. Era bom que Somara n�o estivesse na guarda naquela manh�: a mulher provavelmente teria seguido em frente mesmo assim. Sulin remexeu os dedos, dizendo alguma coisa na l�ngua de sinais secreta das Donzelas. Fosse l� o que ela estivesse dizendo, acabou com a indigna��o dos olhares das outras duas e as deixou com o rosto ardendo de vergonha. Os Aiel empregavam uma variedade de gestos quando era melhor manter o sil�ncio. Cada cl� tinha alguns sinais espec�ficos, assim como cada sociedade, al�m dos gestos comuns entre todos os Aiel. Mas apenas as Donzelas tinham criado uma verdadeira linguagem a partir dos sinais.</p><p>Rand se afastou do jardim, sem esperar Sulin acabar o que estava dizendo. Aquelas Aes Sedai podiam sair de Caemlyn t�o r�pido quanto tinham chegado. Olhou por cima do ombro. Aviendha ainda encarava a �gua � ela n�o tinha reparado nele. Apressou o passo.</p><p>� Bashere, pode mandar um de seus homens aprontar os cavalos? No Port�o do Est�bulo Sul. � Os port�es principais do Pal�cio davam para a Esplanada da Rainha, que estaria apinhada de gente na esperan�a de conseguir um vislumbre de Rand. Levaria meia hora para passar, se tivesse sorte.</p><p>Com um gesto, Bashere botou a quest�o a encargo de um dos saldaeanos mais jovens, que saiu em disparada. Seus passos tinham o balan�o ligeiro de um homem mais acostumado a uma sela do que �s pr�prias pernas.</p><p>� Um homem inteligente sabe quando recuar diante de uma mulher � comentou Bashere, para o ar �, mas um homem s�bio reconhece que �s vezes � preciso ficar e enfrent�-la.</p><p>� � coisa dos jovens � retrucou Bael, em tom indulgente. � Os jovens perseguem as sombras e fogem do luar, mas no fim das contas acabam acertando o pr�prio p� com a lan�a que carregavam.</p><p>Alguns outros Aiel, tanto Donzelas quanto M�os de Faca, soltaram risadinhas. S� os mais velhos. Irritado, Rand olhou para tr�s outra vez.</p><p>� Nenhum de voc�s ficaria bem de vestido.</p><p>Para sua surpresa, tanto as Donzelas quanto os M�os de Faca riram outra vez, e ainda mais alto. Talvez ele estivesse pegando o jeito do humor Aiel.</p><p>Tudo correu conforme o esperado quando ele saiu do Port�o do Est�bulo Sul e adentrou uma das ruas sinuosas da Cidade Interna. Os cascos de Jeade�en ressoavam nas pedras do pavimento enquanto o garanh�o se remexia � o sarapintado quase n�o sa�a mais do est�bulo, ultimamente. Havia bastante gente na rua, mas nem de longe na mesma quantidade que deveria estar apinhando os caminhos do outro lado do Pal�cio, e todos ali estavam ocupados com seus afazeres. Mesmo assim, as pessoas apontavam para ele, cochichando umas com as outras. Alguns talvez tivessem reconhecido Bashere � que, ao contr�rio de Rand, circulava com frequ�ncia pela cidade �, mas qualquer um que sa�sse do Pal�cio, ainda mais com uma escolta de Aiel, devia ser importante. Os cochichos e dedos apontados os seguiram pelas ruas.</p><p>Apesar dos olhares, Rand tentou apreciar a beleza das constru��es Ogier da Cidade Interna. Considerava preciosos os raros momentos em que conseguia simplesmente parar e apreciar alguma coisa. As ruas sinuosas sa�am do reluzente Pal�cio Real, todo branco, e seguiam em curvas pelos contornos das colinas como se fossem parte da paisagem natural. O lugar era pontilhado de torres elegantes revestidas de ladrilhos coloridos, algumas com domos dourados, roxos ou brancos cintilando � luz do sol. Em certo ponto, havia um grande espa�o aberto dando vista para um parque bem arborizado; em outro, uma colina atra�a o olhar para os limites da cidade, para as florestas e plan�cies ondulantes al�m do comprido muro branco rajado de prata que circundava toda Caemlyn. A Cidade Interna fora projetada para encantar e confortar os olhos. De acordo com os Ogier, apenas a pr�pria Tar Valon e a hist�rica Manetheren a superavam em beleza, e muitos humanos, sobretudo os andorianos, acreditavam que na verdade a beleza de Caemlyn fazia jus �s outras duas.</p><p>As alv�ssimas muralhas da Cidade Interna demarcavam o in�cio da vizinha, a Cidade Nova, com seus pr�prios domos e pin�culos, alguns tentando competir em altura com os da Cidade Interna, que ocupava as colinas mais altas. As ruas ali eram mais estreitas e estavam cheias de vida. At� os bulevares mais amplos, divididos por canteiros com fileiras de �rvores, estavam lotados de gente a p�, carros de boi, carro��es puxados por cavalos, pessoas montadas ou em carruagens e liteiras. Um burburinho pairava no ar, feito um imenso enxame de abelhas.</p><p>Avan�avam ainda mais devagar por ali, mesmo com o povo abrindo caminho. Assim como o povo nas ruas da Cidade Interna, aquela gente n�o sabia quem ele era, mas ningu�m queria atravancar o avan�o dos Aiel � ainda assim, avan�ar pelas ruas cheias em uma comitiva t�o grande era algo que, simplesmente, levava tempo. E na rua havia todo tipo de gente: fazendeiros usando l� crua; mercadores em casacos ou vestidos de corte mais refinado; artes�os envolvidos em seus trabalhos; mascates berrando sobre os produtos expostos em bandejas e carrinhos de m�o, vendendo desde fitas e alfinetes at� frutas e fogos de artif�cio � e os pre�os dos dois �ltimos itens estavam igualmente exorbitantes. Um menestrel, em seu manto coberto de retalhos, esbarrou em tr�s Aiel que inspecionavam as l�minas expostas nas mesas diante da oficina de um cuteleiro. Dois sujeitos esguios de cabelos escuros e tran�ados e espadas nas costas � Rand sup�s que fossem Ca�adores da Trombeta � estavam parados em uma esquina, conversando com um grupo de saldaeanos enquanto ouviam uma dupla de m�sicos; uma mulher na flauta e um homem batucando um tambor. Os cairhienos, mais baixos e de pele mais clara, destacavam-se entre os andorianos, assim como os tairenos, de pele mais escura. Mas tamb�m havia murandianos em seus casacos compridos, altaranos em coletes elaborados, kandorianos de barba forcada e at� um par de domaneses, com seus longos brincos e o t�pico bigode fino e comprido.</p><p>E outro tipo de gente tamb�m se destacava na multid�o, com seus casacos surrados e vestidos amarrotados, quase sempre sujos, com olhares fixos perdidos, piscando em confus�o, claramente sem rumo e ou ideia do que fazer. Era uma gente que j� tinha encontrado o que buscava: ele � o Drag�o Renascido. Rand n�o tinha no��o do que fazer com aquelas pessoas, mas, querendo ou n�o, eram sua responsabilidade. N�o importava que ele n�o tivesse pedido a ningu�m que jogassem a vida fora, que nunca nem tivesse esperado que eles abandonassem tudo. Nada importava: j� estava feito. E por ele. Aquelas pessoas, se descobrissem Rand ali na rua, poderiam muito bem subjugar os Aiel em meio ao desespero de simplesmente toc�-lo.</p><p>Rand tocou a est�tua do homenzinho gordo no bolso do casaco, o <emphasis>angreal</emphasis>. Era um artefato excelente, se as coisas chegassem ao ponto de ele precisar usar o Poder �nico para se proteger de gente que abandonara tudo por sua causa. Era justamente por isso que Rand quase nunca se aventurava pela cidade. Ou esse era pelo menos um dos motivos � ele era ocupado demais para se dar ao luxo de perder tempo com passeios.</p><p>Bael os guiou at� uma estalagem chamada Sabujo de Culain, na parte oeste da cidade, uma constru��o de pedra de tr�s andares com telhado de azulejos vermelhos. A multid�o aglomerada na sinuosa rua lateral que levava � estalagem recuou para os lados, se amontoando em volta da comitiva quando eles pararam na porta de entrada. Rand tocou outra vez o <emphasis>angreal</emphasis> � duas Aes Sedai� provavelmente conseguiria lidar com elas sem ajuda �, desceu da montaria e entrou. Claro que antes entraram tr�s Donzelas e uma dupla de M�os de Faca, todos avan�ando nas pontas dos p�s e prestes a erguer os v�us. Seria mais f�cil ensinar um gato a cantar do que convencer os Aiel a se acalmarem um pouco. Dois saldaeanos ficaram com os cavalos, e Bashere e os outros o seguiram de perto, com Bael e outros Aiel atr�s � claro que Bael deixara homens de guarda do lado de fora. Mas o que encontraram n�o era o que Rand esperava.</p><p>O sal�o poderia ser qualquer um dos mais de cem sal�es de estalagem em Caemlyn: os imensos barris de cerveja e vinho enfileirados em uma parede caiada, sustentando uma fileira de pequenas barricas de conhaque e o gato cinza listrado deitado bem no topo; o par de lareiras de pedra completamente vazias; o teto de vigas, as tr�s ou quatro servi�ais de avental circulando por entre as mesas; os bancos espalhados pelo lugar; o ch�o de madeira crua. O estalajadeiro, cuja enorme papada fazia seu rosto redondo parecer ter tr�s queixos, com o corpanzil apertado num avental branco, aproximou-se depressa a passos pesados, limpando as m�os e lan�ando um olhar nervoso na dire��o dos Aiel. O povo de Caemlyn j� conseguira compreender que aquele povo do deserto n�o sairia saqueando e incendiando tudo � tinha sido muito mais dif�cil convencer os Aiel de que Andor n�o era um territ�rio conquistado e que eles n�o poderiam reivindicar o quinto �, mas isso n�o queria dizer que os estalajadeiros estavam acostumados a receber tantos Aiel armados em seus sal�es.</p><p>O estalajadeiro concentrou a aten��o em Rand e Bashere, por�m mais em Bashere. Os dois obviamente eram homens de recursos, a julgar por suas roupas, mas Bashere era bem mais velho, ent�o o mais prov�vel era que ele fosse o mais importante do grupo.</p><p>� Bem-vindo, milorde, milordes� O que posso oferecer aos senhores? Tenho vinhos de Murandy e de Andor, conhaque de�</p><p>Rand o ignorou. Havia uma diferen�a gritante em rela��o �s outras centenas de sal�es de estalagens na cidade: a clientela. Teria esperado encontrar pelo menos um ou dois homens bebendo, �quela hora, mas n�o havia nenhum. Quase todas as mesas estavam cheias de mo�as � quase todas garotas, na verdade � em vestimentas simples. Ainda sentadas e segurando as canecas de ch�, elas se viraram, espantadas, para encarar os rec�m-chegados. Mais de uma soltou um murm�rio de surpresa ao notar a altura de Bael. No entanto, nem todas olharam para os Aiel, e foram as jovens que se voltaram para <emphasis>ele</emphasis>, boquiabertas, que deixaram Rand surpreso. Ele conhecia aquelas meninas. N�o conhecia todas muito bem, mas mesmo assim� Uma em particular chamou sua aten��o.</p><p>� Bo? � perguntou, incr�dulo.</p><p>A garota de olhos grandes que o encarava� n�o conseguia entender quando a menina passara a ser velha o bastante para tran�ar os cabelos. Aquela era Bodewhin Cauthon, irm� de Mat. E ali estava a roli�a Hilde Barran, sentada ao lado da magrela Jerilin al�Caar e da bela Marisa Ahan, com as m�os espalmadas nas bochechas, como sempre fazia quando estava surpresa. E tamb�m Emry Lewin, de corpo robusto, Elise Marwin, Darea Candwin, e� As meninas eram todas de Campo de Emond ou das vilas vizinhas. Passando os olhos pelas outras mesas, notou que as garotas ali tamb�m deviam ser de Dois Rios. Pelo menos a maioria. Viu um rosto doman�s, al�m de pelo menos dois outros que tamb�m deveriam ser de um lugar distante, mas poderia ter visto cada um daqueles vestidos em um dia comum em Campo de Emond.</p><p>� Pela Luz, o que voc�s est�o fazendo aqui?</p><p>� Estamos indo para Tar Valon � conseguiu dizer Bo, apesar da surpresa. Sua �nica semelhan�a com Mat era o leve toque de mal�cia nos olhos. O espanto em v�-lo sumiu depressa, e a jovem abriu um largo sorriso de encanto e admira��o. � Para virar Aes Sedai, que nem Egwene e Nynaeve.</p><p>� E olha que a gente poderia perguntar a mesma coisa � acrescentou Larine Ayellin, sempre graciosa, ajeitando a grossa tran�a por cima do ombro com uma displic�ncia calculada. Era a mais velha das garotas de Campo de Emond, quase tr�s anos mais nova que ele, mas a �nica de cabelos tran�ados al�m de Bo. Larine sempre se considerara muito importante, e era bonita o bastante para que todos os rapazes corroborassem sua opini�o. � Lorde Perrin praticamente n�o falou sobre voc�, s� comentou que voc� estava viajando e tendo aventuras. E usando casacos finos, o que pelo visto � verdade.</p><p>� Est� tudo bem com o Mat? � perguntou Bo, parecendo ansiosa de repente. � Ele est� com voc�? Minha m�e est� t�o preocupada� Ele n�o lembrava nem de cal�ar meias limpas se n�o tivesse algu�m em cima dele.</p><p>� N�o � respondeu Rand, hesitante �, ele n�o est� aqui. Mas est� bem.</p><p>� A gente n�o imaginou que fosse encontrar voc� aqui em Caemlyn � comentou Jancy Torfinn, em sua voz aguda. A menina n�o devia ter mais que quatorze anos: era a mais jovem do grupo, pelo menos entre as garotas de Campo de Emond. � Aposto que Verin Sedai e Alanna Sedai v�o ficar muito felizes. As duas sempre fazem perguntas sobre voc�.</p><p>Ent�o elas eram as duas Aes Sedai ali na cidade. Rand conhecia Verin, uma irm� Marrom, at� melhor do que gostaria, mas n�o sabia o que pensar sobre a presen�a dela na cidade. De todo modo, essa n�o era nem de longe a not�cia mais importante. Aquelas garotas tinham vindo de <emphasis>casa</emphasis>.</p><p>� Ent�o est� tudo bem em Dois Rios? Em Campo de Emond? Parece que Perrin conseguiu chegar bem. Ei� espera a�! <emphasis>Lorde</emphasis> Perrin?</p><p>Aquilo abriu as comportas, liberando a torrente de novidades. As garotas de outras vilas de Dois Rios estavam mais interessadas em espiar os Aiel, principalmente Bael, com olhares de esguelha, e algumas at� dispensavam olhares para os saldaeanos, mas as jovens de Campo de Emond se aglomeraram ao redor de Rand e come�aram a falar ao mesmo tempo. A informa��o sa�a toda entrecortada e confusa, pontuada por perguntas sobre ele, Mat, Egwene e Nynaeve. Mesmo que tivesse chance de falar, Rand n�o levaria menos de uma hora para responder �quilo tudo.</p><p>Trollocs tinham invadido Dois Rios, mas Lorde Perrin os expulsara. As meninas se empolgaram ao relatar a grande batalha, todas falando ao mesmo tempo e t�o r�pido que foi dif�cil entender qualquer coisa al�m do fato de que houvera uma batalha. Claro que todos da regi�o haviam se envolvido na luta, mas Lorde Perrin fora quem salvara o lugar. E era sempre <emphasis>Lorde</emphasis> Perrin � quando Rand chamava o amigo apenas de Perrin, era corrigido com a mesma naturalidade com que as garotas corrigiriam o erro gramatical de uma crian�a pequena.</p><p>Mesmo com a not�cia de que os Trollocs tinham sido derrotados, Rand sentiu um aperto no peito. Abandonara seu povo. Se estivesse l�, talvez n�o houvesse uma lista de mortos t�o extensa, com tantos nomes conhecidos. Por�m, se tivesse voltado para sua terra natal, n�o teria os Aiel ao seu lado. E n�o teria dom�nio sobre Cairhien � pelo menos n�o naquela magnitude. E Rahvin com certeza teria unido Andor e enviado os ex�rcitos contra ele e Dois Rios. Havia um pre�o a ser pago por qualquer decis�o que ele tomava � e quem pagava eram os outros. N�o podia esquecer que era um pre�o muito menor do que o mundo pagaria sem ele � o que, claro, n�o ajudava muito.</p><p>Julgando a express�o sombria de Rand como uma prov�vel consterna��o diante da lista dos mortos de Dois Rios, as garotas mais que depressa mudaram para os relatos mais alegres. Ao que parecia, Perrin tinha se casado com Faile. Rand desejou que os dois fossem felizes e se perguntou quanto tempo poderia durar qualquer felicidade que qualquer um deles encontrasse. As garotas achavam tudo muito lindo e rom�ntico, mas lamentavam n�o ter havido tempo para as festividades de costume. Apesar de aprovarem e admirarem muito Faile, todas as jovens, at� Larine, tamb�m pareciam sentir um pouco de inveja.</p><p>O vilarejo tamb�m fora visitado por Mantos-brancos. Estavam acompanhados de Padan Fain, o velho mascate que visitava Campo de Emond toda primavera. As garotas n�o pareciam ter muita certeza se os Mantos-brancos tinham ido como amigos ou inimigos, mas, se Rand ainda tivesse d�vidas, a uni�o com Fain as teria dissipado. O antigo mascate era um Amigo das Trevas � ou talvez fosse coisa ainda pior �, e faria qualquer coisa para prejudicar Rand, Mat e Perrin. Principalmente Rand. A pior not�cia das garotas talvez fosse o fato de ningu�m saber se Fain estava vivo ou morto. De todo modo, os Mantos-brancos e os Trollocs tinham batido em retirada, e uma torrente de refugiados cruzava as Montanhas da N�voa trazendo todo tipo de novidades, de costumes a mercadorias, de plantas e sementes a roupas e tecidos. Uma das garotas ali era domanesa, e tamb�m havia duas tarabonianas e tr�s da Plan�cie de Almoth.</p><p>� Larine comprou um vestido doman�s � comentou a pequena Jancy, com uma risada que a fez estreitar os olhos �, mas a m�e mandou ela devolver.</p><p>Larine ergueu uma das m�os, ent�o parou para pensar e apenas fungou com desd�m e ajeitou a tran�a. Jancy deu uma risadinha.</p><p>� E quem liga para vestidos? � retrucou Susa al�Seen. � Rand n�o liga para vestidos. � A jovem magra e agitada sempre se entusiasmara com as menores coisas, e ela agora quase saltitava, apoiando-se nas pontas dos p�s enquanto falava. � Alanna Sedai e Verin Sedai testaram todo mundo l�. Bem. Quase todo mundo�</p><p>� Cilia Cole tamb�m queria ser testada � intrometeu-se Marce Eldin, uma menina robusta de quem Rand n�o se lembrava muito bem, suas �nicas mem�rias eram da garota com a cara enfiada em algum livro, mesmo enquanto andava pela rua. � Ela insistiu! E passou, mas disseram que ela era muito velha para ser novi�a.</p><p>Susa quase n�o deixou Marce terminar.</p><p>� � e n�s todas passamos�</p><p>� Estamos viajando dia e noite quase sem parar desde que sa�mos de Ponte Branca � intrometeu-se Bo, sem esperar por uma pausa. � � t�o bom fazer uma pausa e descansar um pouquinho�</p><p>� Voc� j� foi a Ponte Branca, Rand? � perguntou Jancy, por cima de Bo. � Chegou a ver a ponte em si?</p><p>� � ent�o estamos indo para Tar Valon, para virar Aes Sedai! � concluiu Susa, olhando feio para Bo, Marce e Jancy ao mesmo tempo. � Em Tar Valon!</p><p>� Ainda vamos demorar um pouco para seguir para Tar Valon.</p><p>A voz, vinda da porta que levava para a rua, desviou a aten��o das garotas, mas as duas Aes Sedai que acabavam de entrar nem deram aten��o para os questionamentos prestes a surgir � ambas s� tinham olhos para Rand. Apesar de partilharem da mesma fei��o et�rea, as duas eram bastante diferentes. Era imposs�vel definir a idade de qualquer uma delas, mas Verin era baixinha e gorducha, com rosto quadrado e um toque grisalho nos cabelos; enquanto a outra, que devia ser Alanna, tinha pele escura e o corpo esguio: uma bela mulher com olhar ardiloso, de cabelos negros e ondulados e um brilho de g�nio forte no olhar � al�m de uma leve vermelhid�o nos olhos, como se tivesse chorado, embora Rand achasse dif�cil de imaginar uma Aes Sedai aos prantos. O vestido de montaria de Alanna era de seda cinza com listras verdes e parecia impec�vel, como se ela tivesse acabado de trocar de roupa, ao passo que o tecido marrom-claro do vestido de Verin estava um pouco amarrotado. Apesar de a Marrom n�o dar muita aten��o �s roupas, seus olhos escuros eram bem astutos e penetrantes. E estavam cravados em Rand feito musgos em pedra.</p><p>Dois homens vestindo casacos de um tom verde opaco acompanharam as duas para dentro do sal�o. Um era parrudo e grisalho, e o outro, mais alto, era muito magro e de pele escura, mas ambos estavam com uma espada presa � cintura, e, mesmo sem a presen�a das Aes Sedai, dava para saber que eram Guardi�es s� pelos movimentos fluidos. Os dois ignoraram Rand e ficaram de olho nos Aiel e nos saldaeanos. Permaneciam im�veis e calmos, claramente prontos para qualquer movimento s�bito. Os Aiel n�o se mexeram, n�o exatamente, mas parecia que o grupo inteiro, tanto Donzelas quanto M�os de Faca, estava prestes a erguer os v�us. Os saldaeanos mais jovens de repente aproximaram as m�os do punho da espada. Apenas Bael e Bashere pareciam realmente tranquilos. As garotas n�o repararam em nada al�m da chegada das Aes Sedai, mas o estalajadeiro gordo notou a s�bita mudan�a de humores do grupo e come�ou a esfregar as m�os, sem d�vida j� visualizando a destrui��o no sal�o, talvez at� na estalagem inteira.</p><p>� N�o teremos problemas � declarou Rand, num tom alto e firme, tanto para o estalajadeiro quanto para os Aiel. Esperava que todos os presentes tivessem entendido o recado. � N�o teremos nenhum problema, Verin, a n�o ser que venha de voc�.</p><p>V�rias garotas arregalaram os olhos ao verem Rand falando daquele jeito com uma Aes Sedai, e Larine fungou alto.</p><p>Verin o examinou com seus olhos astutos.</p><p>� Quem somos n�s para criar problemas perto de voc�? Vejo que voc� avan�ou muito desde a �ltima vez em que nos encontramos.</p><p>Rand n�o sabia bem por qu�, mas n�o queria falar sobre aquilo.</p><p>� Se decidiram n�o ir para Tar Valon, ent�o � porque devem ter ouvido que a Torre est� cindida. � A frase gerou um burburinho assustado entre as garotas, que decerto n�o tinham ouvido as not�cias. As Aes Sedai n�o esbo�aram qualquer rea��o. � Sabem onde est�o as opositoras de Elaida?</p><p>� Algumas coisas devem ser discutidas em particular � respondeu Alanna, muito calma. � Mestre Dilham, precisaremos da sala de jantar privada.</p><p>O estalajadeiro quase trope�ou nos pr�prios p�s na pressa de assegurar que a sala estava � disposi��o.</p><p>Verin saiu andando em dire��o a uma porta lateral.</p><p>� Por aqui, Rand.</p><p>Alanna o encarou, erguendo a sobrancelha com uma express�o indagativa.</p><p>Rand conteve um sorriso amargo. As duas mal tinham chegado e j� queriam assumir o comando, mas parecia que esse tipo de atitude era t�o natural para as Aes Sedai quanto respirar. As garotas de Dois Rios o encaravam com olhares de diferentes n�veis de pena. Sem d�vida achavam que as Aes Sedai iam arrancar seu couro se ele n�o se comportasse e falasse com mais educa��o. Talvez Verin e Alanna tamb�m pensassem o mesmo. Com uma mesura suave, Rand gesticulou para que Alanna fosse na frente. Quer dizer que tinha avan�ado bastante, �? As duas n�o faziam ideia.</p><p>Alanna respondeu � mesura com um aceno de cabe�a, juntou as saias em um gesto elegante e saiu deslizando atr�s de Verin, mas foi nesse momento que os problemas come�aram. Os dois Guardi�es fizeram men��o de seguir as Aes Sedai, mas, antes que pudessem dar um s� passo, um par de <emphasis>Sovin Nai</emphasis> de olhos frios avan�ou para impedi-los. No mesmo instante, Sulin mexeu os dedos na linguagem de sinais das Donzelas, mandando Enaila e Dagendra, uma mulher grandalhona, em dire��o � porta para onde as Aes Sedai estavam indo. Os saldaeanos olharam para Bashere, que fez um gesto para que permanecessem onde estavam, mas ele pr�prio lan�ou um olhar interrogativo para Rand.</p><p>Alanna soltou um muxoxo irritado.</p><p>� Vamos falar com ele a s�s, Ihvon.</p><p>O Guardi�o esguio franziu o cenho, ent�o assentiu, hesitante.</p><p>Verin olhou para tr�s, levemente surpresa, como se tivesse sido arrancada de seus pensamentos.</p><p>� O qu�? Ah, sim, claro. Tomas, fique aqui, por favor.</p><p>O Guardi�o grisalho pareceu um pouco hesitante, ent�o olhou firme para Rand antes de se recostar tranquilamente na parede ao lado da porta de sa�da. Parecia t�o tranquilo quanto o fio esticado que acionaria uma armadilha. S� depois � que os dois M�os de Faca que tinham se adiantado pareceram relaxar� pelo menos o tanto que um Aiel poderia relaxar, � claro.</p><p>� Quero falar com elas sozinho � declarou Rand, encarando Sulin.</p><p>Por um momento, achou que ela fosse retrucar. A l�der do grupo de Donzelas retesou a mand�bula, mas por fim engatou alguns gestos, dando ordens para Enaila e Dagendra, e as duas se afastaram, olhando para ele enquanto balan�avam a cabe�a em desaprova��o. Sulin mexeu os dedos outra vez, e todas as Donzelas riram. Ah, como Rand queria dar um jeito de aprender aquela linguagem de sinais� Sulin tinha ficado escandalizada quando ele perguntou se podia.</p><p>As garotas de Dois Rios trocaram olhares confusos quando Rand saiu atr�s das Aes Sedai, e quando ele fechou a porta, ao entrar, ouvia um burburinho crescente. A sala era pequena, mas tinha cadeiras de madeira polida em vez de bancos, e havia casti�ais de estanho na mesa lustrosa e na cornija com entalhes de vinhas sobre a lareira. As duas janelas estavam fechadas, mas ningu�m fez men��o de abri-las. Rand se perguntou se alguma das Aes Sedai notara como o calor o afetava t�o pouco quanto a elas.</p><p>� Voc�s v�o levar as meninas para as rebeldes? � perguntou, assim que fechou a porta.</p><p>Verin franziu o cenho e alisou as saias.</p><p>� Voc� sabe muito mais a respeito disso do que n�s.</p><p>� S� ouvimos falar do que se passou na Torre quando chegamos a Ponte Branca. � O tom de Alanna era frio, mas havia calor em seus olhos, que n�o desviavam dele. � O que voc� sabe sobre as� rebeldes? � Todo o desgosto do mundo pareceu acompanhar aquela palavra.</p><p>Pelo visto as duas haviam ouvido os rumores em Ponte Branca, ent�o tinham ido correndo para l� e mantido tudo escondido das garotas. Pelas rea��es de Bo e das outras, a decis�o de n�o ir a Tar Valon era novidade. Ao que parecia, as duas s� tinham confirmado que os rumores eram verdadeiros naquela mesma manh�.</p><p>� Imagino que voc�s n�o v�o me dizer quem � sua espi� em Caemlyn.</p><p>As duas simplesmente o encararam, e Verin inclinou a cabe�a para analis�-lo. Era estranho pensar em como j� ficara inquieto ao ser alvo do olhar de uma Aes Sedai, que sempre pareciam t�o serenas e no controle da situa��o. J� n�o sentia o est�mago se revirar, ansioso, quando encarava de frente uma � ou mesmo duas � Aes Sedai. <emphasis>Ah, o orgulho</emphasis>, comentou Lews Therin, soltando uma risada insana, e Rand conteve uma careta.</p><p>� Fui informado de que existe um grupo de rebeldes. E voc�s n�o negaram saber onde elas est�o. N�o desejo nenhum mal a elas, longe disso. Tenho motivos para crer que podem me apoiar.</p><p>Rand preferiu manter segredo sobre a principal raz�o de querer saber o paradeiro das rebeldes. Talvez Bashere estivesse certo, talvez ele realmente precisasse do apoio das Aes Sedai, mas o que mais o impelia a descobrir onde as outras estavam era ter sido informado de que Elayne estava com elas. Precisava dela para conquistar Andor sem viol�ncia. Era s� por isso que a estava procurando. S� por isso. Rand sabia que ele era t�o perigoso para a Filha-herdeira quanto para Aviendha.</p><p>� Pelo amor da Luz, se souberem, me digam.</p><p>� Se soub�ssemos � retrucou Alanna �, n�o ter�amos o direito de contar a ningu�m. Se elas decidirem apoiar voc�, pode ter certeza de que vir�o ao seu encontro.</p><p>� E no tempo delas � acrescentou Verin �, n�o no seu.</p><p>Rand abriu um sorriso taciturno. Deveria ter esperado isso, talvez at� menos. O que o guiava era o conselho de Moiraine, no dia em que ela morreu: n�o confiar em mais nenhuma mulher que usasse o xale.</p><p>� Mat est� com voc�? � perguntou Alanna, em um tom que sugeria que aquilo realmente tivesse acabado de lhe ocorrer.</p><p>� Se eu soubesse onde ele est�, por que contaria a voc�s? E ent�o, j� � minha vez de perguntar de novo? � Elas n�o pareceram achar gra�a.</p><p>� � tolice sua nos tratar como inimigas � murmurou Alanna, aproximando-se. � Voc� parece abatido. Est� conseguindo descansar direito?</p><p>Quando a mulher ergueu a m�o, Rand deu um passo atr�s, afastando-se. Ela parou.</p><p>� Assim como voc�, Rand, n�o tenho inten��o de causar mal. Isso n�o vai machuc�-lo.</p><p>Alanna organizara a frase de um jeito t�o direto que n�o tinha como n�o ser verdade. Rand assentiu, e a mulher ergueu a m�o para tocar sua cabe�a. A pele de Rand formigou de leve quando Alanna abra�ou <emphasis>saidar</emphasis>, e ele sentiu uma onda morna e familiar percorrer o corpo � a sensa��o de algu�m conferindo sua sa�de.</p><p>A mulher assentiu, satisfeita. Ent�o aquela sensa��o morna virou um calor intenso de repente, como se ele tivesse sido transportado por um instante para o meio de uma caldeira crepitante. Mesmo depois que o calor passou, Rand se sentiu estranho, muito mais consciente de si mesmo do que jamais estivera, muito consciente da presen�a de Alanna. Ele balan�ou o corpo de leve, ligeiramente tonto, os m�sculos fracos. Sentiu um eco de confus�o e desconforto vindo de Lews Therin.</p><p>� O que voc� fez? � inquiriu. Furioso, agarrou <emphasis>saidin</emphasis>. A for�a do Poder �nico o ajudou a se manter de p�. � O que foi que voc� fez?</p><p>Sentiu uma pancada no fluxo que o unia � Fonte Verdadeira. As mulheres estavam tentando blind�-lo! Urdiu seus pr�prios escudos e os jogou com for�a contra as duas. Ah, tinha mesmo avan�ado muito e aprendido bastante desde a �ltima vez que encontrara Verin. A Marrom cambaleou, apoiando-se na mesa, e Alanna grunhiu, como se tivesse levado um soco.</p><p>� O que foi que voc� fez? � Mesmo no Vazio frio e desapaixonado, sentiu que a voz sa�a rascante. � Me responda! Eu n�o prometi que n�o machucaria voc�s. Se n�o me disserem�</p><p>� Ela criou um elo com voc� � respondeu Verin, mais do que depressa. Se a sua serenidade tinha sido abalada, ela a recuperou em um instante, porque continuou, a voz tranquila: � Ela fez de voc� um de seus Guardi�es, com um elo. Foi isso.</p><p>Alanna recuperou a compostura ainda mais depressa. Mesmo blindada, a mulher o encarou com toda a calma, os bra�os cruzados e um leve brilho satisfeito nos olhos. Satisfeito!</p><p>� Eu falei que n�o ia machuc�-lo. E, de fato, fiz o oposto.</p><p>Rand tentou se acalmar, respirando lenta e profundamente. Ca�ra no jogo dela feito um patinho. Sentia a ira rastejando fora do Vazio. Calma. Precisava manter a calma. Um Guardi�o. Ent�o ela era uma Verde. N�o que fizesse diferen�a. Rand n�o sabia muito sobre Guardi�es, e n�o tinha ideia de como quebrar o elo � n�o sabia nem se era poss�vel. Sentia apenas choque e espanto emanando de Lews Therin. N�o pela primeira vez, desejou que Lan n�o tivesse fugido a galope logo ap�s a morte de Moiraine.</p><p>� Voc�s disseram que n�o v�o para Tar Valon. Nesse caso, e j� que parecem n�o ter muita certeza se sabem ou n�o onde as rebeldes est�o, podem ficar aqui em Caemlyn. � Alanna abriu a boca, mas ele n�o a deixou falar. � E deviam ficar gratas por eu n�o atar a blindagem e largar as duas assim! � Aquilo as fez parar e ouvir. Verin comprimiu os l�bios, e o brilho de raiva nos olhos de Alanna podia se equiparar ao calor daquela fornalha em que ele mergulhara mais cedo. � Mas v�o ficar longe de mim. As duas. Est�o proibidas de entrar na Cidade Interna, a n�o ser que sejam convocadas por mim. Se tentarem entrar l�, podem acreditar que <emphasis>vou</emphasis> deixar as duas presas nesse escudo, al�m de jog�-las em uma cela. Estamos entendidos?</p><p>� Perfeitamente. � Apesar do fogo nos olhos, a voz de Alanna era puro gelo.</p><p>Verin limitou-se a assentir.</p><p>Rand parou assim que abriu a porta. Tinha se esquecido das garotas de Dois Rios. Umas conversavam com as Donzelas, outras apenas as observavam, cochichando por tr�s das canecas de ch�. Bo e um grupo das meninas de Campo de Emond interrogavam Bashere, que estava agarrado a uma caneca de estanho, com um dos p�s apoiado em um banco. Pareciam metade entretidas, metade horrorizadas. O barulho da porta se abrindo as fez virar a cabe�a de repente.</p><p>� Rand! � exclamou Bo � Este sujeito aqui est� falando umas coisas horr�veis de voc�.</p><p>� Ele disse que voc� � o Drag�o Renascido � balbuciou Larine.</p><p>Ao que parecia, as outras garotas espalhadas pelo sal�o ainda n�o tinham ouvido a novidade, e todas soltaram murm�rios surpresos.</p><p>� Eu sou � confirmou Rand, cansado.</p><p>Larine fungou e cruzou os bra�os.</p><p>� Percebi que voc� estava se achando todo importante assim que vi esse casaco, ainda mais depois de ter ido embora com uma Aes Sedai. E notei isso antes mesmo de voc� ser t�o desrespeitoso com Alanna Sedai e Verin Sedai. Mas n�o sabia que voc� tinha virado um completo idiota.</p><p>Bo soltou uma risada, mas parecia mais de medo do que de algu�m que achava gra�a.</p><p>� Voc� n�o devia dizer essas coisas, Rand, nem mesmo de brincadeira. Tam criou voc� direito, e n�o para essas besteiras. Voc� � Rand al�Thor. Agora deixe de bobagem.</p><p>Rand al�Thor. Era mesmo seu nome, mas ele mal sabia quem era. Tam al�Thor o criara, mas seu pai na verdade era um chefe de cl� Aiel morto havia muito. Sua m�e era uma Donzela, mas n�o era Aiel. E isso era tudo o que sabia sobre quem realmente era.</p><p><emphasis>Saidin </emphasis>ainda o preenchia. Com toda a delicadeza, envolveu Bo e Larine em fluxos de Ar e ergueu as duas at� ficarem com os p�s balan�ando.</p><p>� Eu sou o Drag�o Renascido. Negar isso n�o muda nada. Nem desejar que seja mentira. Eu n�o sou o homem que voc�s conheceram em Campo de Emond. Entendem agora? Entendem? � Reparou que estava gritando e calou a boca.</p><p>Sentia o est�mago pesado feito chumbo, estava tremendo. Por que Alanna fizera aquilo? Que conspira��es de Aes Sedai se escondiam por tr�s daquele belo rosto? Moiraine lhe dissera para n�o confiar em nenhuma delas.</p><p>Sentiu uma m�o tocar seu bra�o e girou a cabe�a com um solavanco.</p><p>� Por favor, ponha as meninas no ch�o � pediu Alanna. � Por favor. Elas est�o assustadas.</p><p>E estavam mais do que assustadas. Larine estava completamente p�lida, a boca escancarada como se ela quisesse gritar e n�o lembrasse o que precisava fazer. Bo solu�ava tanto que seu corpo todo tremia. E n�o eram as �nicas. As outras garotas de Dois Rios tinham se afastado ao m�ximo dele, abra�adas umas com as outras, e a maioria tamb�m chorava. As servi�ais tamb�m tinham se juntado ao grupinho, chorando tanto quanto as meninas. O estalajadeiro estava ca�do de joelhos, de olhos arregalados, murmurando sons indistintos.</p><p>Rand desceu as duas garotas de volta para o ch�o e soltou <emphasis>saidin </emphasis>depressa.</p><p>� Me desculpem. N�o quis assustar voc�s. � Assim que conseguiram se mover, Bo e Larine sa�ram correndo para perto das outras. � Bo? Larine? Me desculpem. N�o vou machucar voc�s, prometo.</p><p>As duas n�o olharam para ele. Nenhuma das garotas olhou. Claro que Sulin o encarava, assim como as outras Donzelas, todas impass�veis e com olhares de reprova��o.</p><p>� O que est� feito, est� feito � disse Bashere, deitando a caneca. � Talvez seja melhor assim. Quem sabe?</p><p>Rand assentiu, hesitante. Provavelmente era mesmo melhor que as garotas quisessem manter dist�ncia dele. Melhor para elas. S� queria ter conseguido conversar um pouquinho mais sobre as not�cias de casa. Ter um pouquinho mais de tempo para ser apenas Rand al�Thor. Ainda sentia os joelhos tremendo por conta do elo, mas depois que come�ou a andar s� parou ao subir na sela de Jeade�en. Melhor que tivessem medo dele. Melhor esquecer Dois Rios de vez. Ficou se perguntando se a montanha algum dia ficaria mais leve, ou se seu peso s� aumentaria cada vez mais.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 11</p><p><image l:href="#20"/></p><p>Aulas e professores</p></title><p>Assim que Rand saiu da estalagem, Verin soltou o suspiro que estivera segurando. Tinha alertado Siuan e Moiraine sobre quanto aquele garoto era perigoso. Mas nenhuma das duas lhe dera ouvidos, e agora, ap�s pouco mais de um ano, Siuan estava estancada e provavelmente morta, enquanto Moiraine� As ruas fervilhavam com rumores sobre o Drag�o Renascido instalado no Pal�cio Real, quase todos inacredit�veis, e nada digno de cr�dito sequer mencionava alguma Aes Sedai. Moiraine at� podia ter decidido deixar Rand pensar que estava seguindo o pr�prio caminho, mas jamais permitiria que o rapaz se afastasse � n�o com a situa��o como estava, com Rand reunindo tamanho poder. N�o num momento como aquele, com o jovem representando tamanho perigo. Ser� que Rand havia se voltado contra Moiraine com ainda mais viol�ncia do que demonstrara contra ela e Alanna, havia pouco? O rapaz envelhecera desde a �ltima vez em que o vira, e seu rosto apresentava as marcas de uma vida dif�cil. S� a Luz sabia como Rand tinha uma vida bastante dura, mas Verin se perguntava se aquelas marcas no rosto dele tamb�m n�o estavam relacionadas com a dificuldade em manter a sanidade?</p><p>Pois ent�o. Moiraine morta, Siuan morta, a Torre Branca cindida, e Rand possivelmente � beira da loucura. Verin soltou um grunhido irritado. Quando se corria riscos, �s vezes a conta chegava em momentos inesperados, e o pagamento nunca era na moeda prevista. Passara quase setenta anos trabalhando com extrema cautela e dedica��o, e aquele garoto poderia ter botado tudo a perder. Mas Verin vivera tempo demais e passara por coisas demais para ficar balan�ada. <emphasis>Vamos por partes. Melhor resolver o que d� para resolver agora, em vez de perder tempo se preocupando com o que talvez n�o aconte�a nunca.</emphasis> Aprendera essa li��o a duras penas, mas nunca deixou de segui-la.</p><p>Primeiro precisava acalmar as jovens, que ainda estavam encolhidas em um canto feito um rebanho de ovelhas assustadas, agarradas umas �s outras, solu�ando e escondendo o rosto. Verin entendia muito bem o que elas estavam sentindo. N�o era a primeira vez que ela confrontava um homem capaz de canalizar, muito menos o Drag�o Renascido em pessoa, mas sentia o est�mago revirar como se estivesse em um navio em alto-mar. Come�ou com palavras de consolo, um tapinha no ombro aqui, um afago no cabelo ali, tentando manter um tom maternal na voz. Conseguiu restabelecer boa parte da calma s� de convencer as meninas de que Rand tinha ido embora, e para isso precisara persuadir quase todas a abrirem os olhos. Pelo menos com isso os solu�os passaram, mas Jancy ainda exigia, insistente, que algu�m lhe dissesse que Rand estava mentindo, que tinha sido apenas um truque. Bodewhin implorava, com a mesma veem�ncia, que seu irm�o fosse localizado e resgatado � ah, Verin faria quase qualquer coisa para saber onde Mat estava �, e Larine balbuciava que precisavam deixar Caemlyn naquele mesmo dia, e sem demora.</p><p>Verin puxou uma das servi�ais para um canto. A mulher de rosto comum, apesar de pelo menos vinte anos mais velha que qualquer uma das meninas de Dois Rios, estava com os olhos arregalados e ainda tremia e secava as l�grimas com o avental. Depois de perguntar qual era seu nome, Verin pediu:</p><p>� Azril, traga um ch� fresco para todas. Bem quente e com bastante mel. E ponha um pouquinho de conhaque. � Ent�o examinou a jovem mulher por um instante e acrescentou: � Ponha um tanto mais que um pouquinho, melhor dar uma dose generosa para cada uma. � Aquilo ajudaria a acalmar os nervos. � E quero que voc� e as outras servi�ais tamb�m tomem um pouco.</p><p>Azril fungou, piscou e limpou o rosto, mas aquiesceu com uma mesura � receber a ordem de desempenhar uma tarefa corriqueira pareceu aplacar suas l�grimas, embora ela continuasse com medo.</p><p>� Sirva as garotas em seus quartos � mandou Alanna, e Verin aquiesceu.</p><p>Dormir um pouco faria maravilhas aos �nimos delas. N�o fazia muito tempo que as meninas estavam fora da cama, mas a mistura do conhaque com a viagem dif�cil que tiveram at� ali daria conta do recado.</p><p>A ordem causou como��o.</p><p>� N�o podemos nos esconder aqui � conseguiu dizer Larine, entre fungadas e solu�os. � Precisamos ir embora! Agora! Ele vai matar todas n�s!</p><p>As bochechas de Bodewhin estavam �midas e reluzentes, mas o rosto assumira uma express�o determinada. A teimosia de Dois Rios causaria problemas �quelas jovens.</p><p>� Temos que encontrar Mat. N�o podemos deixar meu irm�o com aquele� com um homem capaz de� n�o podemos! Mesmo que ainda seja Rand, n�o podemos!</p><p>� Quero ver Caemlyn � gemeu Jancy, com um ganido, embora ainda estivesse tr�mula.</p><p>As outras fizeram coro �s tr�s. Algumas apoiavam Jancy, apesar de ainda estarem tremendo de medo, mas a maioria se juntara, inflex�vel, na exig�ncia de ir embora. Elle, um dos achados mais promissores em Dois Rios, uma garota alta e bonita de Colina da Vig�lia, voltou a chorar a plenos pulm�es.</p><p>Verin precisou de todo o seu autocontrole para n�o come�ar a distribuir tapas. As mais jovens at� tinham desculpa para agir daquele jeito, mas Larine, Elle e algumas outras garotas usavam os cabelos tran�ados porque supostamente j� eram mulheres. Al�m disso, apenas duas tinham sido tocadas pelos fluxos de Poder de Rand, e o perigo j� passara. Por outro lado, estavam todas cansadas, al�m de a visita de Rand ter sido um choque � um dos muitos que as meninas decerto enfrentariam no futuro �, ent�o Verin conteve a irrita��o.</p><p>Mas Alanna n�o pensava da mesma forma. Mesmo entre as Verdes, era conhecida pelo g�nio imprevis�vel, que nos �ltimos tempos andava ainda pior.</p><p>� Voc�s v�o para os quartos agora mesmo � declarou, com frieza. Mas a frieza s� estava no tom.</p><p>Verin soltou um suspiro ao ver a companheira de viagem urdir Ar e Fogo em uma Ilus�o. Exclama��es de assombro tomaram o sal�o da estalagem, e os olhos j� arregalados das meninas se abriram ainda mais. N�o havia necessidade daquela demonstra��o, mas o costume das Aes Sedai ditava que n�o era certo desautorizar uma irm� em p�blico, e, para dizer a verdade, a Marrom se viu aliviada quando os ganidos de Elle enfim cessaram. At� a pr�pria Verin estava com os nervos � flor da pele. Claro que as jovens, ainda sem treinamento, n�o conseguiam ver os fluxos. Para elas, Alanna ficava maior a cada palavra, e sua voz parecia cada vez mais alta � n�o era o tom que mudava, e sim a intensidade, adequando-se ao tamanho que ela parecia ter.</p><p>� Voc�s se tornar�o novi�as, e a primeira li��o � aprender a obedecer �s Aes Sedai. Na hora em que s�o mandadas. E sem reclamar nem choramingar. � Alanna estava parada no meio do sal�o, e Verin n�o via diferen�a em sua apar�ncia, mas a cabe�a da Ilus�o tocava as vigas do teto. � Agora v�o logo! Quem n�o estiver no quarto quando eu contar at� cinco vai se arrepender da decis�o at� a hora da morte. Um. Dois�</p><p>As meninas sa�ram correndo e fazendo uma barulheira, subindo as escadas nos fundos do sal�o em desespero, antes que a Verde chegasse ao tr�s. Verin ficou surpresa ao notar que nenhuma tinha sido pisoteada.</p><p>Alanna n�o se deu ao trabalho de contar al�m de quatro: soltou <emphasis>saidar</emphasis> assim que a �ltima garota de Dois Rios desapareceu no andar de cima, deixando a Ilus�o sumir, e balan�ou a cabe�a de leve, satisfeita. Verin imaginava que todas precisariam de uma boa dose de convencimento at� para enfiar as cabe�as para fora da porta dos quartos. E talvez fosse melhor assim. Com as coisas como estavam, n�o queria ter que ir atr�s de ningu�m que sa�sse �s escondidas para dar um passeio por Caemlyn.</p><p>Claro que a Ilus�o de Alanna n�o fez efeito apenas nas futuras novi�as. Tiveram que convencer as servi�ais a sa�rem de debaixo das mesas, e a mulher que ca�ra enquanto tentava se arrastar at� a cozinha precisou de ajuda para se levantar. As servi�ais n�o soltaram um pio, apenas tremiam feito vara verde. Cada uma delas precisou de um leve empurr�ozinho de Verin para come�ar a se mexer, e a Marrom ainda teve que repetir a ordem de que servissem ch� e conhaque tr�s vezes antes de Azril parar de encar�-la como se estivesse brotando mais uma cabe�a em seu pesco�o. O estalajadeiro estava de queixo ca�do, os olhos pareciam a ponto de saltar das �rbitas. Verin olhou para Tomas e gesticulou para o sujeito abalado.</p><p>Seu Guardi�o a encarou com o mesmo olhar amargo de todas as vezes em que Verin pedia a ele que resolvesse problemas triviais � mesmo assim, o homem raramente questionava suas ordens �, ent�o passou um dos bra�os por cima dos ombros de Mestre Dilham e perguntou, em um tom jovial, se ele n�o gostaria de acompanh�-lo em algumas canecas do melhor vinho da casa. Tomas era um bom homem, com talentos surpreendentes. Ihvon estava sentado com as costas na parede e as botas apoiadas em uma mesa, um olho na porta e outro em Alanna � o olho em Alanna estava bastante atento. O homem estava ainda mais sol�cito com ela desde a morte de Owein, o outro Guardi�o da Verde, al�m de, sabiamente, trat�-la com ainda mais delicadeza para n�o provocar seu mau g�nio � embora, no geral, Alanna se controlasse um pouco melhor. E a Verde n�o demonstrava o menor interesse em ajudar a arrumar a bagun�a que fizera. Estava parada de bra�os cruzados no meio do sal�o, olhando para o nada. Para qualquer um que n�o fosse Aes Sedai, a mulher parecia a encarna��o da serenidade. Para Verin, a Verde estava prestes a explodir.</p><p>A Marrom foi at� ela e tocou seu bra�o.</p><p>� Precisamos conversar.</p><p>Alanna a encarou com um olhar indecifr�vel e, sem dizer uma palavra, saiu deslizando a passos elegantes em dire��o � sala de jantar particular.</p><p>�s suas costas, Verin ouviu Mestre Dilham dizer, com a voz tr�mula:</p><p>� Acha que eu posso dizer que o Drag�o Renascido � fregu�s da minha estalagem? Ele entrou aqui, afinal.</p><p>A Marrom deu um leve sorriso. Pelo menos aquele homem ficaria bem. O sorriso sumiu assim que ela fechou a porta atr�s de si.</p><p>A Verde andava de um lado para o outro pela pequena sala de jantar, batendo o p�, a seda das saias divididas farfalhando a cada passo, um sussurro t�o leve quanto o de espadas sendo desembainhadas. A serenidade sumira de seu rosto.</p><p>� Que aud�cia! Ele nos deteve! Nos <emphasis>restringiu</emphasis>!</p><p>Verin a observou por uns momentos antes de responder. Levara dez anos para superar a morte de Balinor e estabelecer um elo com Tomas. A verde estava com os nervos � flor da pele desde a morte de Owein e passara tempo demais contendo as emo��es. Os poucos arroubos de choro que ela se permitira desde que partiram de Dois Rios n�o eram o suficiente � a mulher precisava deixar a tristeza sair.</p><p>� Imagino que ele realmente tenha como nos manter longe da Cidade Interna, botando guardas no port�o, mas n�o pode nos prender aqui em Caemlyn.</p><p>Aquilo suscitou o olhar fulminante que Verin esperava. Rand podia ter aprendido bastante sozinho, mas era pouco prov�vel que soubesse tecer selos que as prendessem ali, ent�o as duas n�o teriam muita dificuldade em partir � mas para isso teriam que abandonar as garotas de Dois Rios. N�o se encontrava um tesouro como o de Dois Rios desde� Verin n�o conseguia nem imaginar quanto tempo fazia. Talvez desde as Guerras dos Trollocs. Eram muitas garotas. Tinham estabelecido um limite de idade de dezoito anos � mesmo garotas t�o jovens em geral tinham dificuldades em aceitar as restri��es da vida de novi�a �, mas, se tivessem aumentado esse limite em apenas cinco anos, estariam levando o dobro de garotas, se n�o mais. Cinco das que traziam consigo � cinco! � tinham nascido com a centelha, inclusive a irm� de Mat, uma garota chamada Wile e a jovem Jancy: aquelas garotas conseguiriam canalizar, n�o importava se algu�m as ensinasse ou n�o, e seriam muito fortes. Ela e Alanna tinham deixado outras duas para tr�s, para serem recolhidas dali a um ou dois anos, quando tivessem idade suficiente para sair de casa. N�o havia muito perigo: sem treinamento, as nascidas com a habilidade raramente manifestavam o poder antes dos quinze anos. Todas as outras prometiam um talento excepcional, cada uma delas. Dois Rios era um veio de ouro puro.</p><p>Depois de chamar a aten��o da Verde, Verin mudou de assunto. N�o tinha a menor inten��o de abandonar aquelas jovens. Ou de se afastar mais do que o necess�rio de Rand.</p><p>� Acha que ele est� certo em rela��o �s rebeldes?</p><p>Alanna cerrou os punhos, agarrando as saias, ent�o relaxou as m�os.</p><p>� Fico com nojo s� de pensar na possibilidade! Ser� que realmente chegamos a esse ponto� � Sua voz foi morrendo, meio perdida. Deixou os ombros ca�rem. J� dava para ver o pren�ncio das l�grimas, que ela quase n�o conseguia conter.</p><p>Com a ira da Verde atenuada, Verin decidiu que era hora de fazer algumas perguntas, antes de deix�-la irritada outra vez.</p><p>� Ser� que com algum incentivo a sua a�ougueira conseguiria nos dizer alguma coisa sobre o que aconteceu em Tar Valon?</p><p>A a�ougueira n�o era realmente de Alanna, e sim uma agente da Ajah Verde � s� tinha sido descoberta porque Alanna reparara no sinal que indicava um aviso urgente no exterior da loja. N�o que a Verde tivesse lhe contado qual era o sinal, claro. A Marrom certamente n�o teria revelado nenhum segredo das Marrons.</p><p>� N�o. A mulher n�o sabe nada al�m daquela mensagem, que j� foi o bastante para deixar sua boca t�o seca que ela mal conseguia pronunciar as palavras.</p><p>A mensagem. �Todas as Aes Sedai leais devem retornar � Torre. Tudo est� perdoado.� Aquilo, pelo menos, era a ess�ncia da mensagem. Um lampejo de raiva cintilou nos olhos de Alanna, mas durou apenas um instante e n�o teve a mesma for�a de antes.</p><p>� N�o fosse por todos esses boatos, eu jamais teria revelado identidade da informante a voc� � declarou a Verde.</p><p>N�o fossem os boatos e o fato de ela estar com as emo��es t�o fora de controle. Pelo menos a mulher tinha parado de andar de um lado para o outro.</p><p>� Eu sei � retrucou Verin, sentando-se � mesa �, e vou respeitar o segredo. Mas voc� tem que concordar que essa mensagem confirma os rumores que ouvimos. A Torre est� cindida. � bem prov�vel que <emphasis>de fato</emphasis> tenha rebeldes em algum lugar. A quest�o �: o que faremos?</p><p>Alanna a encarou como se Verin estivesse louca, o que n�o era de se espantar: Siuan s� podia ter sido deposta pelo Sal�o da Torre, segundo as leis da Torre. S� a sugest�o de ir contra a lei da Torre j� era algo inimagin�vel. Mas, por outro lado, ver a Torre cindida tamb�m era inimagin�vel.</p><p>� Se ainda n�o tiver uma resposta, pense um pouco a respeito. E considere isto: Siuan Sanche foi uma das respons�veis por o jovem al�Thor ter sido encontrado, em primeiro lugar. � Alanna abriu a boca, decerto para perguntar como Verin sabia daquilo e se tamb�m tinha parte da responsabilidade, mas a Marrom n�o deu nem chance. � E apenas uma mente simpl�ria poderia acreditar que a responsabilidade por ter encontrado o Drag�o Renascido n�o teve rela��o com a deposi��o da Amyrlin. N�o existem coincid�ncias assim t�o grandes. Ent�o � melhor pensar em qual deve ser a opini�o de Elaida sobre Rand. N�o esque�a que ela era Vermelha. E, enquanto pensa no assunto, quero que me responda uma coisa: onde voc� estava com a cabe�a para formar um elo com ele daquele jeito?</p><p>Alanna n�o deveria ter ficado surpresa com a pergunta, mas ficou. A Verde hesitou, ent�o puxou uma cadeira e tamb�m se sentou, ajeitando as saias, antes de responder.</p><p>� Era a coisa mais l�gica a se fazer, com ele ali na nossa frente. E deveria ter sido feito h� muito tempo. Mas voc�s n�o conseguiram� ou n�o quiseram. � Como a maioria das Verdes, Alanna achava um pouco surpreendente que as outras Ajahs insistissem que cada irm� devesse ter apenas um Guardi�o. E era melhor nem mencionar o que achavam sobre as Vermelhas preferirem n�o ter nenhum. � Algu�m devia ter forjado um elo com aqueles tr�s desde que o encontraram. S�o importantes demais para ficarem � solta, ainda mais al�Thor.</p><p>A Verde de repente ficou com as bochechas coradas. Ela ainda levaria um bom tempo para voltar a ter as emo��es sob controle.</p><p>Verin sabia a causa do rubor: Alanna tinha se descuidado e soltado a l�ngua. As duas mantiveram o olho em Perrin durante as longas semanas enquanto testavam as mo�as de Dois Rios, mas Alanna logo parara de falar sobre a necessidade de estabelecer um elo com ele. O sil�ncio se devia � amea�a simples, por�m fervorosa, de Faile � e feita bem longe dos ouvidos de Perrin � de que Alanna n�o sairia viva de Dois Rios se ousasse fazer uma coisa daquelas. Claro que a amea�a n�o teria funcionado caso Faile soubesse alguma coisa sobre o elo entre uma Aes Sedai e seu Gaidin, mas fora justamente sua ignor�ncia que refreara a Verde. Era bem prov�vel que a frustra��o de ter sido impedida pela amea�a de uma garota qualquer, somada � exaust�o, que levara Alanna a fazer aquilo com Rand. A mulher n�o tinha apenas forjado um elo com ele: tinha feito aquilo sem permiss�o. Uma pr�tica abandonada havia centenas de anos.</p><p><emphasis>Bem</emphasis>, pensou Verin, secamente, <emphasis>eu tamb�m violei alguns costumes ao longo da vida.</emphasis></p><p>� L�gica? � perguntou, abrindo um sorriso para abrandar as palavras. � Voc� est� parecendo uma Branca. Muito bem. E o que vai fazer, agora que Rand � seu? Considerando a li��o que ele acabou de nos dar. O que me lembra uma hist�ria de quando eu era menina, dessas que contavam � beira da lareira, sobre uma mulher que conseguiu botar sela e r�dea em um le�o. Ela adorou a nova montaria, at� que descobriu que nunca mais poderia desmontar nem dormir.</p><p>Alanna estremeceu e esfregou os bra�os.</p><p>� Ainda n�o consigo acreditar em como ele � forte. Se pelo menos tiv�ssemos nos unido mais cedo� E eu tentei� mas fracassei� Ele � t�o forte!</p><p>At� Verin teve que fazer um esfor�o para conter o tremor. Alanna estava falando do momento em que uniram suas for�as para manejar uma quantidade maior de Poder, e Verin n�o via como poderiam ter feito isso mais cedo � a n�o ser que Verde estivesse sugerindo que tivessem se unido antes de ela estabelecer o elo de Guardi�o. A Marrom n�o sabia dizer o que poderia ter acontecido caso tivessem se atrevido a tanto. De todo modo, o encontro com al�Thor fora uma sucess�o de acontecimentos horr�veis. Depois de descobriram que n�o conseguiam apart�-lo da Fonte Verdadeira, tiveram que testemunhar o desd�m com que ele, sem a menor dificuldade, blindara as duas ao mesmo tempo, rompendo sua liga��o com <emphasis>saidar</emphasis> como se cortasse um fio. As duas, e de uma s� vez. Impressionante. Quantas mulheres seriam necess�rias para blind�-lo e cont�-lo? Todas as treze, como ditava a tradi��o? Aquilo era apenas um costume antigo, mas no caso dele talvez de fato fosse necess�rio. Bem, de qualquer forma, n�o era hora de pensar naquilo.</p><p>� E ainda temos que pensar na quest�o da anistia.</p><p>Alanna arregalou os olhos.</p><p>� Voc� n�o pode acreditar numa coisa dessas! Sempre que surgia um falso Drag�o, vinham tamb�m os boatos de que o sujeito estava reunindo homens capazes de canalizar. Mas eram apenas boatos, e t�o falsos quanto os homens que se diziam Drag�es. Esses homens querem todo o poder para si, n�o gostam de dividir nada com os outros.</p><p>� Ele n�o � um falso Drag�o � retrucou Verin, muito calma. � Isso muda tudo. Se um dos boatos � verdadeiro, o outro pode ser tamb�m. E essa hist�ria de anistia est� na boca do povo desde que sa�mos de Ponte Branca.</p><p>� Mesmo que seja verdade, talvez ningu�m tenha vindo. Nenhum homem decente sonha em canalizar. Ter�amos um falso Drag�o por semana, se houvesse muitos homens com essas ideias.</p><p>� Ele � <emphasis>ta�veren</emphasis>, Alanna. Ele atrai o que necessita.</p><p>Alanna abriu e fechou a boca, cerrando os punhos apoiados sobre o tampo da mesa at� os dedos ficarem brancos, de tanta for�a. N�o restava mais nenhum tra�o da tranquilidade das Aes Sedai em seu rosto, e ela estava visivelmente tr�mula.</p><p>� N�o podemos permitir uma coisa dessas� Agora temos homens canalizando � solta pelo mundo? Se for verdade, precisamos dar um fim nisso. � nossa obriga��o!</p><p>O acesso de raiva estava prestes a irromper outra vez, e os olhos de Alanna faiscavam.</p><p>� Precisamos saber onde al�Thor est� mantendo esses homens, antes de pensar no que fazer com eles � retrucou Verin, ainda calma. � O Pal�cio Real parece um bom local para isso, mas vai ser dif�cil descobrir se n�o tivermos acesso � Cidade Interna. Proponho o seguinte�</p><p>Alanna se inclinou para a frente e ouviu com aten��o.</p><p>O plano ainda precisava de muitos ajustes, mas podiam deixar quase todos para mais tarde. Ainda havia diversas quest�es a serem respondidas, por�m isso tamb�m ficaria para depois. Moiraine estava mesmo morta? Se sim, como morrera? Havia mesmo rebeldes? E como ela e Alanna deveriam se posicionar nessa cis�o entre as Aes Sedai? Era melhor tentarem entregar Rand a Elaida ou �s rebeldes? E onde estavam essas Aes Sedai foragidas? O paradeiro das rebeldes era uma informa��o valiosa, independente das respostas para as outras perguntas. Como poderiam tirar proveito da corrente t�o fr�gil que Alanna colocara em Rand? Ser� que era boa ideia uma delas, ou quem sabe as duas, tentar tomar o lugar de Moiraine? Pela primeira vez desde que Alanna extravasara seus sentimentos, t�o � flor da pele depois da morte de Owein, Verin ficou feliz por isso ter demorado tanto. Naquele estado t�o vol�vel e confuso, a Verde ficava mais suscet�vel a aceitar sua orienta��o, e Verin sabia exatamente qual devia ser a resposta para algumas daquelas perguntas. E sabia que Alanna n�o ia gostar nada de algumas das respostas. Melhor que ela s� descobrisse quando j� fosse tarde demais.</p><empty-line/><p>Rand galopou de volta para o Pal�cio, aos poucos foi deixando para tr�s at� mesmo os Aiel, ignorando os gritos de sua comitiva e a contrariedade das pessoas em seu trajeto, que sacudiam o punho no ar por precisarem saltar para fora do caminho de Jeade�en � ignorava at� o rastro de confus�o que deixava, com liteiras e carruagens enroscadas com as rodas dos carrinhos de venda. Bashere e seus homens, que usavam cavalos menores, mal conseguiam manter o ritmo. Rand n�o sabia muito bem por que estava com tanta pressa � n�o levava not�cias t�o urgentes assim �, mas, conforme a tremedeira em seus bra�os e pernas diminu�a, aumentava a percep��o de que continuava muito consciente de Alanna. Podia <emphasis>senti-la</emphasis>. Era como se a mulher tivesse se esgueirado para dentro de sua mente e se alojado l�. Se podia senti-la, ent�o a Aes Sedai tamb�m o sentia? O que mais ela podia fazer? O que mais? Precisava escapar daquilo.</p><p><emphasis>Orgulho</emphasis>, disse Lews Therin, gargalhando. Pela primeira vez, Rand n�o tentou silenciar a voz.</p><p>N�o era ao pal�cio que estava pensando em ir, mas para Viajar era preciso conhecer o lugar de partida ainda melhor que o de chegada. Quando entrou no Est�bulo Sul, jogou as r�deas do garanh�o para um cavalari�o de colete de couro e saiu correndo. As pernas compridas o mantiveram � frente dos saldaeanos que o tinham seguido at� ali, e Rand disparou por corredores onde servi�ais o encaravam, boquiabertos, curvando-se em mesuras e rever�ncias assim que o viam passar a toda. No Grande Sal�o, Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis>, abriu o v�o no ar e disparou, avan�ando pela clareira pr�xima � fazenda e largando a Fonte Verdadeira.</p><p>Soltando um longo suspiro, ele caiu de joelhos sobre as folhas mortas. Sentia o golpe duro do calor do sol, que atravessava por entre os galhos nus das copas das �rvores. J� fazia um bom tempo que perdera a concentra��o necess�ria para se manter indiferente � temperatura. Ainda sentia a mulher ali, por�m era uma sensa��o mais fraca � se � que dava para chamar de fraca a certeza de que Alanna estava <emphasis>naquela</emphasis> dire��o. Poderia apontar para onde ir mesmo de olhos fechados.</p><p>Agarrou <emphasis>saidin</emphasis> outra vez, apenas por um instante, mergulhando naquele �xtase de fogo, gelo e lodo ran�oso. Uma espada em sua m�o. Uma espada de fogo � de Fogo �, com uma gar�a escura na l�mina vermelha e meio curvada. Mas n�o conseguia se lembrar de ter pensado na arma. Era Fogo, mas o cabo longo era frio e r�gido contra a palma da m�o. O Vazio n�o fazia diferen�a, o Poder n�o fazia diferen�a. Alanna ainda estava li, enroscada em um canto de seu c�rebro, � espreita.</p><p>Com uma risada amarga, Rand soltou o Poder outra vez e se ajoelhou ali mesmo. Ah, como estivera confiante. Eram apenas duas Aes Sedai. Claro que conseguia dar conta delas � n�o dera conta de Egwene e Elayne juntas? O que aquelas mulheres poderiam fazer a ele? Percebeu que a risada persistia. Parecia incapaz de parar. Bem, era mesmo engra�ado. Aquele orgulho idiota� O excesso de confian�a. Aquilo j� lhe metera em problemas antes � e n�o s� a ele. Ah, tivera tanta certeza de que, junto com os Cem Companheiros, n�o teria o menor problema para selar a Fenda�</p><p>As folhas secas no ch�o estalaram quando ele se for�ou a ficar de p�.</p><p>� N�o fui eu! � exclamou, rouco. � Isso n�o fui eu! Saiam da minha cabe�a! Todos voc�s, saiam da minha cabe�a!</p><p>A voz de Lews Therin, ao longe, emitia murm�rios indistintos. Alanna aguardava em sil�ncio, paciente, em um canto de sua mente. A voz do antigo Drag�o parecia ter medo da mulher.</p><p>Determinado, Rand esfregou os joelhos das cal�as. Ele n�o se renderia �quilo. N�o podia confiar em nenhuma Aes Sedai � n�o ia mais esquecer. <emphasis>Quando n�o temos mais em quem confiar, s� o que resta � a morte, comentou Lews Therin, com uma risadinha. Rand n�o se renderia</emphasis>.</p><p>Nada na fazenda mudara � nada, mas tamb�m tudo. A casa e o celeiro continuavam iguais, com as galinhas, as cabras e as vacas. Sora Grady, com o rosto frio e inexpressivo, ficou na janela observando a chegada de Rand. Sora era a �nica mulher que restava, todas as outras esposas e namoradas tinham ido embora junto com os homens que haviam falhado nos testes. Taim estava com os alunos � todos os sete � em uma �rea aberta um pouco atr�s do celeiro, onde ervas escassas cresciam no ch�o de barro vermelho e duro. Al�m do marido de Sora, Jur, apenas Damer Flinn, Eben Hopwil e Fedwin Morr tinham passado nos primeiros testes. Os outros eram novos, todos quase t�o jovens quanto Fedwin e Eben.</p><p>Todos os alunos exceto Damer, com seus cabelos brancos, estavam sentados um ao lado do outro, de costas para Rand. O mais velho estava diante da fileira, o cenho franzido, encarando uma pedra do tamanho de uma cabe�a a trinta passadas de dist�ncia.</p><p>� Agora � mandou Taim.</p><p>Rand sentiu Damer agarrar <emphasis>saidin</emphasis> e o viu urdir Fogo e Terra em tramas inexperientes.</p><p>A pedra explodiu, e Damer e os outros alunos se jogaram no ch�o para escapar dos fragmentos que sa�ram voando. Taim nem se mexeu � as lascas de pedra quicaram no escudo de Ar erguido no �ltimo instante. Damer ergueu a cabe�a, receoso, e limpou o sangue de um talho raso logo abaixo do olho esquerdo. Rand comprimiu os l�bios � apenas por pura sorte n�o tinha sido atingido por alguma daquelas lascas voadoras. Olhou para tr�s, para a casa. Sora ainda estava l�, aparentemente ilesa. E ainda o encarava. As galinhas nem ao menos pararam de ciscar � pareciam acostumadas.</p><p>� Talvez da pr�xima vez voc� se lembre do que eu sempre digo � comentou Taim calmamente, deixando sua trama esvaecer. � Voc� precisa erguer o escudo ainda enquanto ataca, ou pode acabar se matando. � O homem deu uma olhada raivosa para Rand, como se j� tivesse notado sua presen�a desde que ele chegara. � Continuem � disse aos alunos, e foi andando at� Rand, empinando o nariz de gavi�o. Naquele dia, seu rosto parecia um pouco cruel.</p><p>Damer se sentou entre os homens na fileira, e Eben, um jovem com o rosto coberto de marcas vermelhas, se levantou, nervoso, mexendo em uma de suas orelhas enormes enquanto usava uma trama de Ar para erguer uma pedra de uma pilha mais afastada. Os fluxos eram inconstantes, e ele deixou a pedra cair antes de ajeit�-la no lugar.</p><p>� Acha que � seguro eles ficarem sem supervis�o? � perguntou Rand, quando Taim se aproximou.</p><p>A segunda pedra tamb�m explodiu, mas dessa vez os alunos j� tinham urdido os escudos para se protegerem dos fragmentos. E Taim tamb�m � o professor envolvera a si mesmo e a Rand na mestra urdidura. Sem dizer uma palavra, Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis> e criou seu pr�prio escudo, afastando o de Taim, que contorceu a boca em seu costumeiro meio sorriso.</p><p>� O senhor me mandou pegar pesado com os rapazes, milorde Drag�o, ent�o � o que estou fazendo. Mando usarem o Poder para tudo, tudo mesmo, at� as tarefas do dia. Ontem � noite, o mais novo conseguiu ter a primeira refei��o quente. Se n�o conseguem produzir calor suficiente sozinhos, eles comem comida fria. Ainda levam o dobro do tempo que o normal para fazer quase tudo, mas est�o aprendendo a manejar o Poder o mais depressa poss�vel, pode acreditar. Mas ainda n�o temos muitos aprendizes, claro.</p><p>Ignorando a pergunta impl�cita, Rand olhou em volta.</p><p>� E cad� Haslin? Est� b�bado de novo? Eu j� disse que ele s� pode tomar vinho � noite.</p><p>Henre Haslin tinha sido Mestre da Espada da Guarda da Rainha, o encarregado de treinar recrutas at� Rahvin come�ar a reorganizar a guarda, descartando todos os fi�is a Morgase ou mandando-os para a guerra em Cairhien. Como era velho demais para ingressar em uma campanha, Haslin fora mandado embora do pal�cio com o dinheiro da aposentadoria. Quando a not�cia da morte de Morgase se espalhou por Caemlyn, o homem come�ara a se afogar no vinho. Haslin tinha seus defeitos, mas ao menos acreditava que Rahvin � que conhecia como Gaebril � � que era o assassino de Morgase, e n�o Rand. E o sujeito era um bom professor. Quando estava s�brio.</p><p>� Mandei o sujeito embora � retrucou Taim. � Qual � a serventia das espadas? � Outra pedra explodiu. � Nunca senti falta de uma, e preciso tomar cuidado para n�o me cortar com minha pr�pria l�mina. Esses homens agora t�m o Poder.</p><p><emphasis>Mate-o! Mate-o agora! </emphasis>A voz de Lews Therin, et�rea, ecoava dentro do Vazio. Rand exterminou o eco, mas n�o conseguiu acabar com a raiva que o envolveu no Vazio de repente, fechando-o como uma concha. Mesmo assim, o Vazio drenava toda a emo��o de sua voz.</p><p>� Trate de encontrar Haslin, Taim, e traga-o de volta para c�. Diga a ele que mudou de ideia. E tamb�m diga isso aos alunos. Ou melhor, pode escolher dizer o que quiser, mas quero Haslin aqui, dando aulas todos os dias. Esses homens precisam fazer parte do mundo, n�o ficar � margem. O que � que eles v�o fazer quando n�o conseguirem canalizar? Se soubesse manejar uma espada ou lutar com as pr�prias m�os, voc� teria escapado quando foi blindado pelas Aes Sedai.</p><p>� Eu escapei. Estou bem aqui.</p><p>� Pelo que ouvi dizer, voc� foi libertado por alguns dos seus seguidores. Se n�o fosse eles, teria acabado ao lado de Logain em Tar Valon, amansado. Esses homens aqui n�o t�m seguidores. V� atr�s de Haslin.</p><p>Taim curvou-se em uma mesura suave.</p><p>� Como ordenar, milorde Drag�o. O que o trouxe aqui, milorde Drag�o? Veio falar de Haslin e espadas? � A voz dele guardava um lev�ssimo toque de desprezo, mas Rand ignorou.</p><p>� Tem Aes Sedai em Caemlyn. Est� na hora de parar com as idas � cidade, tanto suas quanto dos alunos. S� a Luz sabe o que aconteceria se um deles topasse com uma Aes Sedai e ela o reconhecesse pelo que �.</p><p>Ou, o que tamb�m era poss�vel, se um aluno reconhecesse uma Aes Sedai, como decerto reconheceria. O homem sem d�vida sairia correndo ou entraria em p�nico e atacaria, e qualquer uma dessas rea��es o deixaria marcado. Qualquer uma dessas rea��es seria sua ru�na. Pelo que Rand vira mais cedo, tanto Verin quanto Alanna acabariam com qualquer um daqueles alunos como se fossem apenas criancinhas.</p><p>Taim deu de ombros.</p><p>� Apesar de destreinados, � bem prov�vel que consigam explodir a cabe�a de uma Aes Sedai com a mesma facilidade com que destroem essas pedras. A trama � s� um pouco diferente� � Ele olhou para tr�s e ergueu a voz: � Precisa de mais concentra��o, Adley. Concentra��o � tudo.</p><p>O rapaz desengon�ado, todo bra�os e pernas, que estava parado diante dos outros alunos, se assustou e perdeu contato com <emphasis>saidin</emphasis>, mas conseguiu agarrar o Poder de novo, ainda sem jeito. Mais uma pedra explodiu quando Taim virou de volta para Rand e sugeriu:</p><p>� Ali�s, posso� dar conta das mulheres sozinho� se esse for o problema para voc�.</p><p>� Se eu quisesse essas mulheres mortas, j� teria matado.</p><p>Rand achava que conseguiria dar conta disso, se tentassem mat�-lo ou amans�-lo. Pelo menos torcia para estar certo. Mas ser� que tentariam, ainda mais depois de estabelecer aquele elo? A� estava uma coisa que n�o pretendia informar a Taim. N�o precisava dos resmungos de Lews Therin para saber que o homem n�o era confi�vel � n�o a ponto de expor alguma fraqueza que pudesse esconder. <emphasis>Luz, quanto poder permiti que Alanna tivesse sobre mim?</emphasis></p><p>� Pode deixar que vou informar se for preciso matar alguma Aes Sedai. At� l�, ningu�m deve sequer levantar a voz para uma, a n�o ser que ela esteja tentando arrancar a cabe�a do sujeito. Ali�s, quero voc�s todos o mais longe poss�vel das Aes Sedai. N�o quero nenhum incidente, nada que as ponha contra mim.</p><p>� E acha mesmo que elas j� n�o est�o contra voc�? � murmurou Taim.</p><p>Rand decidiu ignorar a provoca��o de novo. Dessa vez, foi porque n�o tinha certeza da resposta.</p><p>� E n�o quero ver ningu�m morto nem amansado porque a cabe�a � grande demais para o chap�u. E quero que voc� garanta que eles saibam bem disso. Voc� � respons�vel por eles.</p><p>� Como quiser � respondeu Taim, dando de ombros outra vez. � Mais cedo ou mais tarde, alguns deles v�o acabar morrendo. A n�o ser que o que voc� queira � mant�-los confinados aqui para sempre. Bem, � prov�vel que alguns morram mesmo assim. A morte � quase inevit�vel, a n�o ser que eu reduza o passo das aulas. Voc� n�o precisaria se preocupar tanto com eles, se me deixasse sair para procurar mais homens.</p><p>Tinham voltado ao mesmo ponto. Rand olhou os alunos. Um jovem suado, de cabelos claros e olhos azuis, estava com dificuldade para colocar uma pedra no lugar. O sujeito n�o parava de perder o contato com <emphasis>saidin</emphasis>, e a pedra avan�ava aos pulinhos. Dali a poucas horas, a carro�a com os candidatos ao treinamento que haviam chegado desde a tarde de ontem sairia do Pal�cio. Dessa vez seriam quatro. Alguns dias vinham apenas tr�s, ou dois, embora o n�mero de candidatos estivesse aumentando aos poucos. J� tinham testado dezoito homens desde que Rand levara Taim at� ali, sete dias antes, e apenas tr�s conseguiriam aprender a canalizar. Taim insistia que era um n�mero extraordin�rio, considerando que os homens s� tinham ido a Caemlyn atr�s de uma oportunidade. E tamb�m atentou outra vez para o fato de que, nesse passo, poderiam medir for�as com a Torre em seis anos. Rand n�o precisava ser lembrado de que n�o tinha seis anos. E n�o havia tempo para reduzir o ritmo do treinamento.</p><p>� E como voc� faria isso?</p><p>� Com os port�es. � Taim aprendera a us�-los de primeira. Ele aprendia bem r�pido tudo o que Rand mostrava. � Posso visitar duas, talvez at� tr�s aldeias por dia. � mais f�cil come�ar com aldeias, mais at� do que com vilarejos. Deixo Flinn a cargo das aulas, j� que ele � o mais avan�ado do grupo, apesar da demonstra��o que voc� viu. E levo comigo Grady, Hopwil ou Morr. Voc� teria que fornecer uns cavalos decentes� Aquele pangar� que puxa a carro�a n�o vai servir.</p><p>� Mas qual seria o seu plano? Chegar do nada e anunciar que est� procurando homens capazes de canalizar? Vai ter sorte se os alde�es n�o tentarem mandar voc� direto pra forca.</p><p>� Eu me considero um pouco mais sensato do que isso � retrucou Taim secamente. � Vou dizer que estou recrutando homens para seguir o Drag�o Renascido. � Mais sensato? N�o muito. � Isso vai assustar o povo, que vai ficar afastado por tempo suficiente para eu reunir quem estiver disposto a vir conosco. E ajuda a selecionar quem ainda n�o estiver pronto para apoiar voc�. Suponho que voc� n�o tenha a inten��o de treinar homens que v�o se voltar contra voc� na primeira oportunidade. � Taim ergueu uma sobrancelha indagativa, mas n�o esperou a resposta �bvia. � Assim que eu tirar os homens das aldeias em seguran�a, trago todos para c� atrav�s de um port�o. Alguns talvez entrem em p�nico, mas isso n�o deve ser muito dif�cil contornar. E, j� que ter�o concordado em seguir um homem capaz de canalizar, vai ser dif�cil rejeitarem meus testes. E posso mandar os que falharem para Caemlyn. Est� mais do que na hora de voc� come�ar a organizar um ex�rcito pr�prio, em vez de depender dos outros. Bashere pode mudar de ideia a qualquer momento. E ele com certeza vai se voltar contra voc� se a Rainha Tenobia mandar. E sabe-se l� do que esses Aiel s�o capazes.</p><p>O homem fez uma pausa depois do �ltimo coment�rio �cido, mas Rand segurou a l�ngua. J� tinha pensado coisa parecida � apesar de com certeza n�o suspeitar dos Aiel �, mas Taim n�o precisava saber disso. Depois de um instante, o tutor prosseguiu como se sequer tivesse tocado no assunto:</p><p>� Vamos fazer uma aposta, voc� define o valor. No primeiro dia de recrutamento, aposto que encontro tantos homens capazes de aprender a canalizar quanto os que vierem por conta pr�pria at� Caemlyn no per�odo de um m�s. Quando Flinn e alguns dos outros j� estiverem prontos para continuar seus estudos sem mim� � Ele espalmou as m�os. � Em menos de um ano, consigo tantos homens quanto h� Aes Sedai na Torre Branca. E cada homem ser� uma arma.</p><p>Rand hesitou. Deixar Taim partir era um risco. O homem era agressivo demais � o que faria se topasse com uma Aes Sedai em uma de suas viagens de recrutamento? Talvez mantivesse a palavra e a poupasse, mas e se a mulher descobrisse do que ele era capaz? E se ela o blindasse e o capturasse? Era uma perda que Rand n�o podia se permitir. N�o conseguiria treinar os alunos e fazer tudo o que precisava fazer. Do jeito que estavam, levaria seis anos para se igualar � Torre Branca em n�mero. Isso se as Aes Sedai n�o descobrissem aquela fazenda e destru�ssem tudo, inclusive os alunos, antes que formassem um grupo experiente o bastante para se defender. Do jeito de Taim, levariam menos de um ano. Por fim, Rand assentiu. A voz de Lews Therin era um zumbido ensandecido ao longe.</p><p>� Voc� ter� seus cavalos.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 12</p><p><image l:href="#18"/></p><p>Perguntas e respostas</p></title><p>� E ent�o? � perguntou Nynaeve, na voz mais paciente que conseguiu. Estava fazendo um esfor�o para manter as m�os paradas sobre o colo, e ainda mais para permanecer sentada na cama. Sufocou um bocejo. Estava muito cedo, e j� fazia tr�s dias que n�o dormia direito. A gaiola de palha estava vazia � tinham libertado o pardal. Como queria estar livre tamb�m� � E ent�o? � repetiu.</p><p>Elayne estava ajoelhada em sua cama, com a cabe�a e os ombros enfiados para fora da janela que dava para a viela atr�s da casa. Dali, dava para ver apenas uma nesga dos fundos da Pequena Torre, onde, apesar da hora, estavam quase todas as Votantes de Salidar, recebendo os emiss�rios que a Torre Branca enviara naquela manh�. N�o dava para ver muito, mas era o suficiente para notar um peda�o do selo que impedia o som das vozes das mulheres ali reunidas de sair da estalagem. O tipo de selo que barrava inclusive as tentativas de usar o Poder para escutar. Era o pre�o que ela e Nynaeve tinham que pagar por compartilhar o que sabiam.</p><p>Depois de um instante, a Filha-herdeira se sentou de volta, a frustra��o estampada no rosto.</p><p>� Nada. Voc� disse que esses fluxos iam atravessar o selo sem serem notados. Acho que ningu�m me notou, mas n�o ouvi absolutamente nada.</p><p>O coment�rio fora dirigido a Moghedien, sentada no banquinho bambo em um canto. Nynaeve n�o conseguia nem exprimir quanto ficava irritada em ver que a mulher n�o suava uma gota sequer. A Abandonada afirmava que era preciso passar um bom tempo em contato com o Poder at� ser capaz de alcan�ar o distanciamento necess�rio para ignorar o frio e o calor, o que n�o era nem um pouco mais animador do que as vagas promessas das Aes Sedai de que �com o tempo� a temperatura pararia de afet�-la. Elayne e Nynaeve pingavam suor, e Moghedien estava fresca como uma manh� de primavera. Luz, que �dio!</p><p>� Eu disse que havia a possibilidade de atravessarem � retrucou Moghedien, na defensiva. Ela mantinha a aten��o quase toda em Elayne: a mulher sempre cravava os olhos em quem estivesse usando o bracelete do <emphasis>a�dam</emphasis>. � Uma possibilidade. Existem milhares de formas de urdir um selo. Pode levar dias para abrir uma brecha em um.</p><p>Nynaeve mal conseguiu conter a l�ngua. Estavam tentando havia dias. Era a terceira tentativa desde a chegada de Tarna Feir, e o Sal�o ainda mantinha a mensagem de Elaida como segredo absoluto. Bem, Sheriam, Myrelle e as outras sabiam do que se tratava � Nynaeve n�o se surpreenderia se elas tivessem ficado sabendo antes mesmo do Sal�o �, mas at� Siuan e Leane tinham sido deixadas de fora daquelas reuni�es. Pelo menos era o que diziam.</p><p>Reparou que estava puxando as saias e sossegou as m�os. Precisavam dar um jeito de descobrir o que Elaida queria � e o mais importante, qual fora a resposta do Sal�o de Salidar. Era urgente. Tinham que arranjar um jeito.</p><p>� Tenho que ir � anunciou Elayne, com um suspiro. � Tenho que mostrar o processo de fabrica��o de um <emphasis>ter�angreal</emphasis> a mais algumas irm�s.</p><p>Pouqu�ssimas Aes Sedai em Salidar pareciam ter o dom, mas todas queriam aprender, e a maioria acreditava que conseguiria pegar o jeito, bastava que Elayne demonstrasse quantas vezes fossem necess�rias.</p><p>� � melhor voc� ficar com isso � acrescentou a Filha-herdeira, soltando o bracelete. � Quero testar uma ideia nova para a fabrica��o depois que acabar com as irm�s, e ainda tenho que dar uma aula para as novi�as.</p><p>Elayne tamb�m n�o parecia muito feliz com a perspectiva da aula com as novi�as � pelo menos n�o como ficara antes da primeira vez. A Filha-herdeira sa�a t�o irritada das aulas que ficava arisca feito um gato. As garotas mais novas eram ansiosas demais e ficavam atropelando as li��es e se aventurando em coisas com as quais n�o faziam ideia de como lidar � e quase sempre sem perguntar antes. As mais velhas, embora fossem um pouco mais cautelosas, eram muito mais propensas a discutir e retrucar, e muitas simplesmente se recusavam a seguir as ordens de uma mulher seis ou sete anos mais nova. Elayne tinha adquirido o costume de sair resmungando coisas como �novi�as tontas� e �idiotas teimosas� pelos cantos, como uma mulher que j� tivesse passado dez anos como Aceita.</p><p>� Isso pode lhe comprar um pouco de tempo para questionar essa a�. Talvez voc� tenha mais sorte do que eu para aprender a detectar um homem canalizando.</p><p>Nynaeve balan�ou a cabe�a.</p><p>� Tenho que passar a manh� ajudando Janya e Delana com suas anota��es. � N�o conseguiu conter a careta ao responder. Delana ela uma Votante da Ajah Cinza, e Janya era da Marrom, mas Nynaeve sabia que n�o conseguiria arrancar nada daquelas duas. � E depois tenho mais uma <emphasis>aula</emphasis> com Theodrin. � Mais perda de tempo. Todos ali em Salidar estavam apenas perdendo tempo. � Use o bracelete � mandou, quando Elayne foi pendurar o <emphasis>a�dam</emphasis> em um prego na parede, junto com suas roupas.</p><p>A Filha-herdeira soltou um suspiro irritado, mas recolocou o bracelete. Nynaeve achava que Elayne confiava demais no <emphasis>a�dam</emphasis>. Enquanto o colar permanecesse no pesco�o de Moghedien, qualquer mulher capaz de canalizar poderia encontr�-la e control�-la atrav�s do bracelete. E, se ningu�m estivesse com o <emphasis>a�dam</emphasis> no pulso, a Abandonada n�o conseguiria se afastar mais de dez passos do bracelete sem cair de joelhos e ter �nsias de v�mito � e o mesmo aconteceria se a mulher tentasse mover o <emphasis>a�dam</emphasis> mais de umas poucas polegadas de onde ele fora deixado ou tentasse soltar o colar em seu pesco�o. Talvez isso fosse o suficiente para a mulher se convencer a ficar ali, bem quietinha, mas uma Abandonada talvez conseguisse arranjar um jeito de contornar as limita��es do <emphasis>a�dam</emphasis>, se tivesse oportunidade. Em Tanchico, Nynaeve dera as costas para uma Moghedien blindada e atada com o Poder por apenas alguns instantes e a mulher conseguira escapar. Depois que a capturou de volta, uma de suas primeiras perguntas foi sobre como a mulher conseguira dar conta daquela proeza � e arrancar a resposta dela tinha sido quase t�o dif�cil quanto arrancar a cabe�a do pesco�o. Ao que parecia, bastava um pouco de tempo e de paci�ncia para descobrir como romper uma blindagem. Elayne insistia que aquilo n�o funcionaria no caso do <emphasis>a�dam</emphasis> � n�o havia nenhum n� da trama para atacar, e, com o colar no pesco�o, Moghedien n�o teria nem ao menos como <emphasis>tentar</emphasis> tocar <emphasis>saidar</emphasis> sem permiss�o �, mas Nynaeve preferia n�o correr o risco.</p><p>� Tome cuidado na hora de passar as notas a limpo � aconselhou Elayne. � J� ajudei Delana com as anota��es. Ela <emphasis>odeia</emphasis> erros e borr�es. Vai obrigar voc� a reescrever cinquenta vezes, se for preciso, s� para ter uma folha limpa.</p><p>Nynaeve fez careta. Podia n�o ter a caligrafia t�o limpa e delicada quanto a de Elayne, mas n�o era uma grosseirona que acabara de aprender que a ponta da pena devia ser mergulhada na tinta. A Filha-herdeira nem reparou, s� abriu um �ltimo sorriso e saiu. Talvez a menina s� quisesse ajudar. Se as Aes Sedai descobrissem como Nynaeve odiava passar as notas a limpo, come�ariam a lhe passar a tarefa como puni��o.</p><p>� Talvez seja melhor voc� ir at� al�Thor � sugeriu Moghedien, de repente.</p><p>Ela estava sentada de um jeito diferente, com a postura mais r�gida. Os olhos escuros estavam fixos em Nynaeve. Por qu�?</p><p>� Como assim? � inquiriu Nynaeve.</p><p>� Voc� e Elayne deveriam ir atr�s de Rand, em Caemlyn. Elayne pode virar rainha, e voc� � O sorriso de Moghedien n�o era nada agrad�vel. � Cedo ou tarde, v�o chamar voc� para uma sala e tentar descobrir como � que voc� consegue fazer todas essas descobertas incr�veis e ao mesmo tempo tremer feito uma garotinha pega roubando doces quando tenta canalizar na frente dos outros.</p><p>� Eu n�o�! � N�o iria se explicar, n�o �quela mulher. Por que Moghedien de uma hora para a outra come�ara a se comportar daquele jeito t�o petulante? � S� se lembre, seja l� o que acontecer comigo se descobrirem a verdade, sua cabe�a vai parar debaixo do machado rapidinho.</p><p>� E o seu sofrimento vai durar muito mais tempo. Semirhage j� conseguiu fazer um homem passar cinco anos gritando todos os dias. E at� manteve o sujeito s�o� Bem, no fim, nem mesmo ela conseguiu manter o cora��o dele funcionando. Duvido de que alguma dessas crian�as tenha um d�cimo da habilidade de uma Abandonada, mas talvez voc� descubra em primeira m�o quanto elas j� aprenderam.</p><p>Como a mulher conseguia dizer aquelas coisas? Parecia ter se livrado daquela ansiedade habitual feito uma serpente soltando a pele velha. Seria de se pensar que eram duas iguais debatendo um assunto corriqueiro. N�o, pior: a atitude de Moghedien dava a entender que o assunto, apesar de ser corriqueiro para ela, era algo terr�vel para Nynaeve. Desejou estar usando o bracelete, o que teria sido ao menos um consolo. Moghedien n�o podia estar t�o serena e tranquila quanto indicavam seu rosto e sua voz.</p><p>Nynaeve ficou sem f�lego. O bracelete. Era isso. O bracelete n�o estava no quarto. Sentiu uma bola de gelo formar-se no fundo do est�mago, e o suor de repente pareceu escorrer mais intensamente pelo rosto. Pela l�gica, n�o fazia diferen�a se o bracelete estava ou n�o ali: o colar estava muito bem preso ao pesco�o de Moghedien, enquanto Elayne usava a outra parte do <emphasis>a�dam</emphasis> � <emphasis>Por favor, Luz, que ela n�o tenha tirado esse neg�cio!</emphasis> Mas, na verdade, n�o era quest�o de l�gica: Nynaeve nunca tinha ficado sozinha com a mulher sem o bracelete por perto. Ou melhor: as �nicas vezes em que isso acontecera quase haviam terminado em desastre completo. Verdade que Moghedien n�o estava usando o <emphasis>a�dam</emphasis> nessas ocasi�es, mas isso tamb�m n�o fazia diferen�a. A mulher ainda era uma Abandonada, e Nynaeve estava a s�s com ela sem uma maneira de control�-la. Agarrou as saias para se impedir de agarrar a faca de cintura.</p><p>O sorriso de Moghedien se alargou como se a mulher tivesse lido seus pensamentos.</p><p>� Mas n�o se preocupe, pode ter certeza de que essa minha sugest�o de partir leva em conta o que � melhor para voc�. Isto aqui � acrescentou, erguendo a m�o acima do colar, mas tomando cuidado para n�o o tocar � vai me manter presa em Caemlyn t�o bem quanto me mant�m aqui, mas � melhor ser escrava l� do que morrer neste lugar. S� n�o demore muito para se decidir: se essas mulheres que se consideram Aes Sedai resolverem voltar para a Torre, n�o haveria presente melhor para o novo Trono de Amyrlin do que voc�, uma mulher t�o pr�xima de Rand al�Thor. Al�m de Elayne, claro. Se o rapaz sentir metade do que a menina sente por ele, quem a mantiver sob seu poder tem uma corda amarrada nele. Uma corda que ele jamais poder� arrebentar.</p><p>Nynaeve se levantou, for�ando os joelhos a ficarem firmes.</p><p>� Pode ir fazer as camas e limpar o quarto. Quero encontrar tudo brilhando quando voltar.</p><p>� Quanto tempo voc� tem? � perguntou Moghedien, antes de ela conseguir chegar � porta. Pelo tom, poderia estar perguntando se a �gua para o ch� j� tinha fervido. � Alguns dias, no m�ximo, at� enviarem uma resposta para Tar Valon? Algumas horas? Como fica a balan�a das Aes Sedai, se de um lado estiver Rand al�Thor, talvez at� somado aos supostos crimes de Elaida, e do outro a reunifica��o de sua preciosa Torre?</p><p>� E trate de dar aten��o redobrada na limpeza dos penicos � disse Nynaeve, sem se virar. � Desta vez quero ver eles bem limpos � acrescentou, saindo antes que Moghedien pudesse dizer qualquer outra coisa e fechando a porta com for�a.</p><p>Nynaeve se apoiou nas t�buas �speras de madeira, parando para respirar fundo no corredor estreito e sem janelas. Revirou a bolsa do cinto, pegou um saquinho e enfiou duas folhas de menta-de-ganso amassadas na boca. Levava um tempo para a menta-de-ganso aliviar a queima��o no est�mago, mas ela mastigou e engoliu como se a pressa fosse acelerar o processo. Os �ltimos minutos de conversa tinham sido um baque atr�s do outro, com Moghedien destruindo v�rias de suas <emphasis>certezas</emphasis>. Mesmo com toda a desconfian�a, acreditara que a mulher estava com medo. E se enganara. Ah, Luz, estava redondamente enganada. Tivera tanta certeza de que Moghedien sabia t�o pouco sobre o relacionamento de Elayne e Rand quanto as Aes Sedai. Outra vez se enganara. E ainda sugerir que fossem encontr�-lo� haviam tomado pouco cuidado com as conversas que tinham na frente daquela Abandonada. O que mais teriam deixado escapar, e como Moghedien conseguiria usar aquelas informa��es contra elas?</p><p>Outra Aceita adentrou o corredor mal iluminado, vinda da sala principal da casinha, e Nynaeve se endireitou, enfiando a menta-de-ganso de volta na bolsa e alisando o vestido. Todos os aposentos, exceto a sala da frente, tinham sido transformados em alojamentos, e todos eram ocupados por Aceitas e servi�ais � tr�s ou quatro em cada quarto, nenhum muito maior do que o aposento de onde acabara de sair, e em alguns casos duas mulheres eram obrigadas a dividir a cama. A Aceita que acabava de chegar era uma mulher esguia, quase fr�gil, com olhos cinza e sorriso ligeiro. Era Emara, uma illianense que n�o gostava nem de Siuan nem de Leane � o que Nynaeve conseguia compreender � e que achava que as duas deviam ser mandadas embora � com toda a dec�ncia, como fizera quest�o de ressaltar �, como acontecera com todas as outras mulheres estancadas. Apesar disso, era simp�tica e n�o se ressentia do �espa�o extra� de Elayne e Nynaeve, nem do fato de �Marigan� desempenhar as tarefas das duas. E essa aus�ncia de ressentimento era rara entre as Aceitas.</p><p>� Ouvi dizer que voc� est� passando a limpo para Janya e Delana � comentou ela, naquela voz aguda, quando passou apressada em dire��o ao pr�prio quarto. � V� por mim: escreva o mais depressa que der. Janya, no caso, se preocupa mais em conseguir registrar tudo do que com alguns borr�es.</p><p>Nynaeve olhou feio para as costas de Emara. Escrever devagar para Delana. Escrever depressa para Janya. Mas que maravilha de conselho que recebia. De todo modo, n�o podia se preocupar com c�pias borradas. E nem com Moghedien, n�o at� ter chance de conversar sobre o assunto com Elayne.</p><p>Balan�ando a cabe�a e murmurando entre dentes, avan�ou a passos firmes para fora da casa. Tudo bem que talvez tivesse dado sua situa��o ali como certa e cometido alguns deslizes, mas ainda tinha tempo de mudar o rumo das coisas. Sabia quem precisava encontrar.</p><p>Nos �ltimos dias, Salidar estivera imersa em uma onda de tranquilidade, embora as ruas continuassem abarrotadas. Uma boa medida da calmaria era como as ferrarias dos arredores da cidade estavam silenciosas. Todos tinham sido orientados a segurar a l�ngua enquanto Tarna estivesse por ali, sem revelar nada sobre a miss�o diplom�tica a caminho de Caemlyn nem sobre Logain, que estava sendo mantido em seguran�a em um dos acampamentos dos soldados � e muito menos sobre os pr�prios soldados e o motivo pelo qual estavam se reunindo. E isso deixava o povo quase todo com medo de falar qualquer coisa numa voz mais alta que um sussurro. O burburinho que permeava a cidade tinha um toque de ansiedade.</p><p>Todos tinham sido afetados. Servi�ais que viviam apressados avan�avam a passos hesitantes, olhando temerosos por cima do ombro. At� as Aes Sedai pareciam cautelosas, por baixo daquela fisionomia calma, sempre se entreolhando, pensativas, analisando os comportamentos umas das outras. Havia menos soldados nas ruas � como se Tarna n�o tivesse visto os n�meros, quando chegou, e tirado suas pr�prias conclus�es. Caso o Sal�o de Salidar desse a resposta errada para a Torre Branca, todos ali podiam parar no cadafalso. At� governantes e nobres que preferiam se manter alheios aos assuntos da Torre decerto enforcariam qualquer soldado em quem conseguissem p�r as m�os s� para evitar que difundissem a ideia de rebeli�o. Sentindo a situa��o incerta, os poucos homens que circulavam ostentavam express�es impass�veis ou carrancas ansiosas � exceto Gareth Bryne, que aguardava pacientemente diante da Pequena Torre. O homem ia todos os dias ali, chegando antes de qualquer das Votantes e s� indo embora depois de a �ltima sair. Nynaeve achava que ele queria garantir que as Aes Sedais dali se lembrassem dele e do que estava fazendo por elas. E, na �nica vez em que viu as Votantes saindo, Nynaeve achou que elas n�o pareciam muito felizes em v�-lo esperando.</p><p>S� os Guardi�es n�o se comportavam diferente diante da chegada da irm� Vermelha. Os Guardi�es e as crian�as. Nynaeve levou um susto quando tr�s garotinhas de lacinhos no cabelo passaram � sua frente, correndo feito codornas, suadas, poeirentas e rindo enquanto iam de um lado a outro. As crian�as n�o sabiam das not�cias que toda a Salidar estava esperando � e nem entenderiam se soubessem. E cada Guardi�o seguiria sua Aes Sedai sem pestanejar, n�o importava o que ela decidisse e para onde rumasse.</p><p>Quase todos os cochichos pareciam tratar do clima, mas tamb�m se falava das hist�rias que chegavam sobre acontecimentos estranhos em outros lugares � bezerros falantes de duas cabe�as; homens sufocados por enxames de moscas; todas as crian�as de uma aldeia desaparecendo no meio da noite; gente caindo morta de repente, em plena luz do dia, afetada por algo invis�vel. Qualquer pessoa em s� consci�ncia sabia muito bem que a seca e o calor fora de �poca eram causados pelo toque da m�o do Tenebroso, mas at� as Aes Sedai � pelo menos a maioria � duvidavam quando Elayne e Nynaeve diziam que esses outros acontecimentos eram igualmente ver�dicos, que bolhas de mal estavam se erguendo da pris�o do Tenebroso � medida que os selos se enfraqueciam, subindo para o mundo e pairando pelas tramas do Padr�o at� estourarem. A maioria das pessoas n�o era capaz de pensar com tal lucidez. Alguns culpavam Rand por tudo, enquanto outros afirmavam que o Criador ficara insatisfeito com o mundo � fosse porque n�o estavam se unindo para seguir o Drag�o Renascido, ou porque as Aes Sedai n�o o haviam capturado e amansado, ou porque as Aes Sedai estavam se opondo a uma Amyrlin entronada. Nynaeve, inclusive, ouvira que o tempo voltaria ao normal assim que a Torre estivesse unificada outra vez. Foi abrindo caminho pela multid�o, querendo chegar logo.</p><p>� � juro que � verdade! � ia resmungando uma cozinheira, com farinha at� os cotovelos � Tem um ex�rcito de Mantos-brancos reunido do outro lado do rio Eldar, s� esperando uma ordem de Elaida.</p><p>Al�m do falat�rio sobre o clima e os bezerros de duas cabe�as, as hist�rias sobre os Mantos-brancos tamb�m estavam na boca do povo. Mas <emphasis>Mantos-brancos</emphasis> aguardando ordens de <emphasis>Elaida</emphasis>? O calor devia ter derretido os miolos daquela mulher!</p><p>� � verdade, que a Luz seja testemunha � murmurava um carroceiro grisalho para uma mulher de cenho franzido, cujo vestido de l� bem cortado indicava seu posto de camareira de alguma Aes Sedai. � Elaida morreu. A Vermelha veio convocar Sheriam para ser a nova Amyrlin.</p><p>A camareira assentia, aceitando cada palavra.</p><p>� Pois eu acho que Elaida � uma �tima Amyrlin � afirmava um homem de casaco tosco, remexendo um molho de varas apoiado no ombro. � T�o boa quanto qualquer outra. � Ele n�o se dirigia especificamente � mulher que o acompanhava. Falava alto e precisou se controlar para n�o dar uma olhada em volta e conferir quem estava ouvindo.</p><p>Nynaeve contorceu a boca, amargurada. Aquele homem <emphasis>queria</emphasis> ser ouvido. Como Elaida conseguira descobrir t�o depressa sobre Salidar? Pelo que via, Tarna sa�ra de Tar Valon logo que as Aes Sedai come�aram a se reunir ali na aldeia. Siuan j� comentara, em tom sombrio, que um bom n�mero das Azuis � a Ajah originalmente convocada a Salidar fora a Azul � ainda estavam desaparecidas, e Alviarin fizera quest�o de abordar o assunto com a mensageira de Elaida. Nynaeve sentia o est�mago revirar s� de pensar naqueles questionamentos, mas nada parecia t�o terr�vel quanto a explica��o mais �bvia para o caso: havia partid�rias de Elaida infiltradas ali em Salidar. Todos se olhavam com desconfian�a, e o lenhador encasacado n�o tinha sido o primeiro que Nynaeve ouviu dizer aquilo, e naquelas mesmas palavras. As Aes Sedai podiam at� n�o tocar no assunto, mas Nynaeve suspeitava de que algumas estivessem doidas para se pronunciarem. Aquela inquietude deixava Salidar borbulhante feito um caldeir�o de cozido, e n�o dos mais saborosos. E s� lhe deixava mais certa sobre o que estava fazendo.</p><p>Ia demorar para encontrar quem estava procurando. Precisava primeiro encontrar grupos de crian�as brincando, e n�o havia muitas crian�as ali em Salidar. Como era de se esperar, Birgitte estava assistindo a cinco garotos correndo pela rua e jogando um saquinho de pedras uns nos outros, gargalhando alto sempre que um era atingido, inclusive o que levava a pancada. Uma brincadeira t�o tola quanto quase todas as brincadeiras de meninos. Ou de homens.</p><p>Claro que Birgitte n�o estava sozinha. Era muito raro de acontecer, a n�o ser que ela pr�pria buscasse a solid�o. Areina estava bem ali ao lado, dando batidinhas com um len�o para secar o suor que escorria pelo rosto e tentando n�o parecer entediada com as crian�as. A mulher era um ou dois anos mais nova que Nynaeve e usava os cabelos escuros pouco abaixo dos ombros tran�ados como as madeixas louras de Birgitte, que iam at� a cintura. As roupas tamb�m eram c�pia das de Birgitte: um casaco cinza-claro at� a cintura e volumosas cal�as cor de bronze, presas no tornozelo pelas botas curtas com salto elevado, imitando at� o arco e a aljava na cintura. Nynaeve suspeitava que Areina nunca tivesse sequer segurado um arco antes de conhecer Birgitte. Decidiu ignorar a mulher.</p><p>� Preciso falar com voc� � disse a Birgitte. � Em particular.</p><p>Areina a encarou, os olhos azuis exibindo um brilho que lembrava desprezo.</p><p>� Nossa, achei que voc� fosse querer usar o xale em um dia lindo como esse, Nynaeve. Minha nossa! Voc� est� suando feito um porco. O que aconteceu?</p><p>Nynaeve contraiu o rosto. Virara amiga daquela mulher antes de Birgitte entrar no grupo, mas a rela��o azedou quando chegaram a Salidar. Areina ficara mais do que decepcionada ao saber que Nynaeve n�o era uma Aes Sedai completa, e foi s� a pedido de Birgitte que a mulher n�o revelou �s verdadeiras Aes Sedai que Nynaeve fingira ser uma delas. Al�m do mais, Areina fizera o juramento de Ca�adora da Trombeta, e Birgitte decerto era melhor modelo para essa vida. Ah, e pensar que Nynaeve um dia sentira pena ao v�-la machucada!</p><p>� Pela sua cara � comentou Birgitte, com um sorriso suado �, ou voc� est� a ponto de estrangular algu�m, provavelmente a Areina aqui, ou seu vestido abriu bem na frente de um bando de soldados e voc� n�o estava usando roupa de baixo.</p><p>Areina soltou uma risada curta, mas pareceu chocada. Nynaeve n�o entendia a surpresa; a mulher j� tivera bastante tempo para se acostumar com o suposto senso de humor de Birgitte, mais apropriado a um marmanjo barbado com o nariz enfiado em uma caneca e a pan�a cheia de cerveja.</p><p>Nynaeve ficou um tempo assistindo aos garotos brincarem, querendo dar uma chance de a irrita��o arrefecer. Seria ainda pior do que in�til se deixar irritar quando tinha um favor a pedir.</p><p>Dois dos garotos que brincavam de correr e desviar do saquinho de pedras eram Seve e Jaril. As Amarelas estavam mesmo certas, um tempo atr�s, quando os diagnosticaram: precisavam mesmo era de tempo. Depois de quase dois meses com outras crian�as em Salidar, sem motivos para ter medo, eles riam e gritavam t�o alto quanto os amiguinhos.</p><p>Um pensamento s�bito a atingiu, golpeando-a feito uma marreta. �Marigan� continuava cuidando deles, ainda que de m� vontade, sempre se certificando de que estivessem alimentados e de banho tomado, mas, agora que os meninos tinham voltado a falar, poderiam revelar que a mulher n�o era m�e deles. Talvez j� at� o tivessem feito. O que at� poderia n�o suscitar perguntas, mas havia o risco � e perguntas poderiam fazer desabar o castelo de cartas que tinham erguido acima de suas cabe�as. Nynaeve sentiu a bola de gelo ressurgir no fundo do est�mago. Por que n�o tinha pensado nisso antes?</p><p>Levou um susto quando sentiu Birgitte tocar seu bra�o.</p><p>� Qual � o problema, Nynaeve? Voc� est� com uma cara.. parece que sua melhor amiga acabou de morrer e ainda a amaldi�oou com seu �ltimo suspiro.</p><p>Areina se afastava a passos largos, empertigada, e deu uma olhada para as duas por cima do ombro. Ela nem se abalava ao ver Birgitte beber e flertar com os homens, e at� tentava imit�-la, mas ficava toda encrespada sempre que Birgitte queria ficar a s�s com Elayne ou Nynaeve. No mundo de Areina, os homens n�o representavam amea�a e s� mulheres podiam ser consideradas amigas, mas apenas ela podia ser amiga de Birgitte. Parecia achar estranha a ideia de ter duas amigas. Bem, n�o havia por que perder tempo pensando nela.</p><p>� Voc� conseguiria arrumar cavalos para n�s? � Nynaeve tentou manter a voz firme. N�o era isso o que tinha ido pedir, mas Seve e Jaril fizeram com que aquela pergunta parecesse excelente. � Quanto tempo levaria?</p><p>Birgitte a puxou do meio da rua at� a entrada de uma viela estreita entre duas casas castigadas pelo clima, dando uma olhada cautelosa em volta antes de responder. N�o havia ningu�m por perto para ouvir, nem ningu�m prestava aten��o nelas.</p><p>� Um ou dois dias. Uno acabou de me contar�</p><p>� Uno n�o! Quero deixar ele fora disso. S� voc�, eu, Elayne e Marigan. A n�o ser que Thom e Juilin voltem a tempo. E Areina, se voc� insistir.</p><p>� Areina � mesmo muito tonta em alguns aspectos � respondeu Birgitte, hesitante �, mas a vida logo acaba com esse comportamento� ou acaba com ela. Voc� sabe que eu n�o vou insistir se voc� e Elayne n�o quiserem a presen�a dela.</p><p>Nynaeve ficou quieta. Birgitte estava se comportando como se <emphasis>ela</emphasis> � que estivesse com ci�mes! Ora, n�o se importava se aquela mulher quisesse uma companhia t�o vol�vel como Areina.</p><p>Esfregando as juntas dos dedos sobre os l�bios, Birgitte franziu o cenho.</p><p>� Thom e Juilin s�o bons homens, mas o melhor para evitar confus�o � garantir que ningu�m esteja disposto a criar confus�o com voc�. Dez ou mais shienaranos, com armaduras ou sem, seriam de grande ajuda. N�o entendo voc� e Uno. Ele � dur�o e seguiria voc� e Elayne at� o Po�o da Perdi��o. � Um s�bito sorriso se abriu em seu rosto. � Al�m do mais, ele at� que � bem constitu�do�</p><p>� N�o precisamos de ningu�m segurando nossa m�o pelo caminho � retrucou Nynaeve, r�gida. Bem constitu�do? Teve um lampejo daquele tapa-olho pintado, junto com as cicatrizes. Birgitte tinha um gosto estranh�ssimo para homens. � Podemos muito bem dar conta de qualquer coisa que cruze nosso caminho. E acho que j� provamos isso, se � que voc� precisa de provas.</p><p>� Eu sei que podemos, Nynaeve, mas vamos acabar atraindo problemas feito uma pilha de esterco atrai moscas. Altara est� cozinhando em fogo brando, a cada dia chegam mais rumores sobre os Devotos do Drag�o. E aposto meu melhor vestido de seda contra uma das suas camisolas velhas que metade daquele bando � de bandidos, bem do tipo que vai achar que quatro mulheres sozinhas s�o presa f�cil. A� vamos ter que provar o contr�rio a cada dois dias. E ouvi dizer que a situa��o em Murandy � ainda pior, cheia como est� de Devotos do Drag�o, bandidos e os refugiados de Cairhien, apavorados achando que o Drag�o Renascido vai atr�s deles a qualquer momento. Imagino que voc� n�o esteja pensando em fazer a travessia por Amad�cia, e sim por Caemlyn. � A tran�a intrincada balan�ou de leve quando ela inclinou a cabe�a e ergueu uma sobrancelha, com uma express�o interrogativa. � E Elayne concorda com voc� nessa quest�o do Uno?</p><p>� Vai concordar � resmungou Nynaeve.</p><p>� Entendi. Bem, quando tiver a palavra dela vou providenciar todos os cavalos de que precisarmos. Mas primeiro quero que ela me explique por que n�o levar Uno.</p><p>O tom inflex�vel deixou Nynaeve ardendo de raiva. Se pedisse a Elayne, mesmo que com toda a delicadeza, para explicar a Birgitte que Uno deveria ficar, podiam muito bem acabar encontrando o sujeito na estrada, � espera delas. E Birgitte ia parecer toda surpresa, sem entender como ele sabia que estavam partindo � e por qual caminho. A mulher podia at� ser Guardi� de Elayne, mas Nynaeve �s vezes se perguntava qual das duas estava no comando. Quando encontrasse Lan � <emphasis>quando</emphasis>, n�o <emphasis>se</emphasis>! �, ia fazer o homem jurar por tudo o que � mais sagrado que acataria suas decis�es.</p><p>Respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar. N�o fazia sentido discutir com uma parede. Era melhor ir direto ao assunto que a levara a procurar Birgitte.</p><p>Com a maior naturalidade poss�vel, deu um passo mais para dentro da estreita viela, for�ando a outra mulher a segui-la. O ch�o estava coberto de tocos e galhos marrons, restos dos arbustos que tinham sido removidos para abrir caminho. Examinou a multid�o na rua, tentando manter um ar despreocupado. Ningu�m prestava aten��o nelas, mas baixou a voz mesmo assim.</p><p>� Precisamos descobrir que mensagem Tarna trouxe para o Sal�o e o que est�o respondendo. Elayne e eu tentamos, mas as reuni�es s�o protegidas por um selo, n�o d� para espionar a conversa. Mas s� se a pessoa tentar ouvir alguma coisa com o Poder. Ficaram t�o preocupadas com essa possibilidade que se esqueceram do velho m�todo de encostar a orelha atr�s da porta. Bastaria que algu�m�</p><p>� N�o � interrompeu Birgitte, em um tom indiferente.</p><p>� Pelo menos considere o pedido. � dez vezes mais prov�vel que eu ou Elayne sejamos descobertas do que voc�.</p><p>Nynaeve at� pensou em acrescentar que Elayne era bem esperta e conseguiria dar conta, mas a mulher bufou, interrompendo-a.</p><p>� Eu j� disse que n�o! Voc� j� demonstrou ser muitas coisas desde que a conheci, Nynaeve, mas nunca me pareceu tola. Luz, daqui a um ou dois dias v�o anunciar as decis�es para todo mundo.</p><p>� Temos que saber agora � insistiu Nynaeve, sussurrando e engolindo em seco. � Ah, sua tonta com c�rebro de homem.</p><p>Tonta? Claro que nunca parecera tonta! Ah, n�o podia ficar irritada. Se conseguisse convencer Elayne a ir embora, talvez n�o estivessem mais em Salidar dali a um ou dois dias. Melhor n�o abrir aquele saco de serpentes outra vez.</p><p>Com um arrepio � que Nynaeve achou um tanto exagerado, ali�s �, Birgitte se apoiou no arco e voltou a falar:</p><p>� Uma vez me pegaram espionando as Aes Sedai. Me largaram tr�s dias depois, e sa� de Shaemal assim que consegui arrumar um cavalo. N�o vou passar por isso de novo s� para voc� ganhar um ou dois dias, ainda mais sem necessidade.</p><p>Nynaeve manteve a calma. Fez um esfor�o para conservar a express�o serena, para n�o ranger os dentes nem puxar a tran�a. Estava calma.</p><p>� Nunca ouvi hist�ria nenhuma sobre voc� espionando as Aes Sedai.</p><p>Ela se arrependeu das palavras assim que sa�ram de sua boca. Aquele era o cerne do segredo de Birgitte: ela era a Birgitte das hist�rias. N�o deveriam jamais mencionar nada que pudesse levar algu�m a pensar nisso.</p><p>A mulher permaneceu impass�vel por um instante, encobrindo tudo o que poderia estar remoendo em seu interior. Aquilo foi o bastante para Nynaeve estremecer: aquele era um segredo permeado de muita dor. Seu rosto de pedra por fim voltou a ser de carne, e Birgitte suspirou.</p><p>� O tempo transforma as coisas. Eu mesma mal reconhe�o metade dessas hist�rias, e a outra metade ainda menos. N�o vamos mais falar disso. � Ficou bem �bvio que n�o era uma sugest�o.</p><p>Nynaeve abriu a boca, ainda sem qualquer ideia do que dizer. A d�vida que tinha com Birgitte a impedia de obrigar a outra a remoer suas dores, mas depois de ter dois pedidos simples negados�!</p><p>A voz de uma terceira mulher irrompeu subitamente da entrada da viela.</p><p>� Nynaeve, Janya e Delana querem ver voc� neste instante.</p><p>O sobressalto de Nynaeve foi t�o grande que o pulo mais pareceu um voo � e o seu cora��o quase fugiu voando pela boca.</p><p>Quem estava na entrada da viela era Nicola, em suas roupas de novi�a. A mulher mais nova pareceu surpresa por um instante � e Birgitte tamb�m, mas ela logo baixou os olhos para o arco, parecendo divertida.</p><p>Nynaeve engoliu em seco duas vezes antes de conseguir for�ar uma palavra a sair da boca. Quanto a mulher teria ouvido?</p><p>� Se acha que isso � jeito de falar com uma Aceita, Nicola, � melhor se corrigir depressa. Ou vai acabar tendo ajuda para aprender.</p><p>Era uma resposta digna de Aes Sedai, mas a mulher esguia de olhos escuros simplesmente examinou Nynaeve de alto a baixo, com um olhar observador e avaliativo.</p><p>� Pe�o perd�o, Aceita � respondeu, com uma mesura. � Vou tentar ser mais cuidadosa.</p><p>A mesura n�o se estendeu mais do que o suficiente para uma Aceita, e, ainda que o tom da resposta tivesse sido frio, n�o fora o bastante para valer uma bronca. Areina n�o fora a �nica companheira de viagem decepcionada em saber a verdade sobre Elayne e Nynaeve, mas Nicola concordara em manter o segredo � s� parecera um pouco surpresa por elas acharem que precisariam pedir. S� depois de a testagem revelar que a mulher era capaz de aprender a canalizar � que ela passou a assumir aquela postura avaliativa.</p><p>Nynaeve entendia muito bem. Nicola n�o possu�a a centelha inata � sem orienta��o, jamais teria tocado <emphasis>saidar</emphasis> �, mas j� haviam falado de seu potencial, da for�a que um dia teria, caso se dedicasse. Apenas dois anos antes, Nicola teria demonstrado mais potencial do que qualquer novi�a em s�culos e teria causado grande como��o, mas isso era antes de Elayne e de Egwene, e da pr�pria Nynaeve � Nicola nunca lhe dissera isso, mas tinha certeza de que a mulher estava determinada a chegar ao n�vel dela e de Elayne, talvez at� a super�-las. A novi�a nunca ultrapassava a linha do decoro, mas era comum se comportar bem no limite do aceit�vel.</p><p>Nynaeve meneou a cabe�a, r�spida. Compreender o que se passava n�o a impedia de querer mand�-la tomar uma dose tripla de raiz de l�ngua-de-ovelha, para deixar de ser tonta.</p><p>� Pois tente mesmo. V� dizer �s Aes Sedai que vou encontr�-las daqui a pouco. � Nicola curvou-se em outra mesura, mas, assim que a mulher se virou para ir embora, Nynaeve chamou: � Espere. � Nicola parou imediatamente. N�o parecia mais estar l�, mas Nynaeve tinha certeza de ter notado um lampejo de� satisfa��o? � Voc� deu o recado completo?</p><p>� Me mandaram aqui para mandar voc� ir encontrar com elas, Aceita, e foi isso que eu fiz. � O tom da resposta parecia t�o estagnado quanto �gua h� mais de uma semana na jarra.</p><p>� O que foi que elas disseram? Quero as palavras exatas.</p><p>� As palavras exatas, Aceita? N�o sei se consigo lembrar as palavras <emphasis>exatas</emphasis>, mas vou fazer um esfor�o. N�o se esque�a que foram as palavras delas, eu s� estou repetindo. Janya Sedai disse algo como: �Se aquela garota tonta n�o aparecer logo, juro que ela s� vai conseguir sentar direito quando tiver idade para ser av�.� E o que Delana Sedai falou foi algo como: �Capaz de ela conseguir os netos antes de decidir aparecer aqui. Se a Aceita n�o estiver na minha frente em quinze minutos, vou fazer pano de ch�o com o couro dela.� � Havia um brilho de pura inoc�ncia nos olhos da novi�a. � Isso foi h� uns vinte minutos, Aceita. Talvez um pouquinho mais.</p><p>Nynaeve quase teve que engolir em seco outra vez. N�o era s� porque as Aes Sedai n�o podiam mentir que as amea�as deviam ser levadas ao p� da letra, mas �s vezes quase n�o fazia diferen�a. Se fosse qualquer outra novi�a ali, que n�o Nicola, ela teria gritado �ai, Luz!� e sa�do em disparada. Mas n�o sob aquele olhar. N�o diante de uma mulher que parecia estar criando uma lista mental de suas fraquezas.</p><p>� Nesse caso, suponho que n�o haja motivo para voc� ir correndo na frente. V� cuidar das suas tarefas. � Nynaeve virou as costas para a mesura de Nicola, como se n�o estivesse dando a m�nima, e disse a Birgitte: � Falo com voc� mais tarde. Sugiro que at� l� voc� n�o decida tomar nenhuma atitude a respeito do que conversamos. � Com sorte, conseguiria manter a mulher longe de Uno com aquela amea�a velada. Com muita sorte.</p><p>� Vou considerar sua sugest�o � retrucou Birgitte, muito s�ria.</p><p>Mas n�o havia nada de s�rio na mistura de compaix�o e divertimento em seu rosto. A mulher conhecia bem as Aes Sedai � em alguns aspectos, sabia mais sobre elas do que qualquer Aes Sedai daquele tempo.</p><p>N�o havia o que fazer al�m de aceitar e torcer pelo melhor. Assim que come�ou a andar pela rua, Nynaeve notou Nicola a seu lado.</p><p>� Mandei voc� cuidar das suas tarefas.</p><p>� Elas me mandaram voltar depois de encontrar voc�, Aceita. Essa a� � uma das suas ervas? Por que voc� usa ervas? � porque n�o consegue�? Ah, me desculpe. Eu n�o devia ter mencionado�</p><p>Nynaeve piscou, encarando o saco de menta-de-ganso em suas m�os. N�o se lembrava de t�-lo pegado. Enfiou o saco de ervas de volta na bolsa, pensando em como queria mascar todas as folhas ali. Ignorou tanto o pedido de desculpas quanto o coment�rio anterior. O arrependimento com certeza era t�o falso quanto a pergunta fora deliberada.</p><p>� Uso ervas porque nem sempre � preciso Curar.</p><p>O que as Amarelas achariam desse coment�rio, se isso chegasse a seus ouvidos? Elas desprezavam as ervas e s� demonstravam interesse por doen�as graves demais para os m�todos tradicionais. Ou pelo menos enfermidades graves em que optar pela Cura n�o chegava ser um uso sup�rfluo do Poder. Ah, o que estava fazendo? Toda preocupada com a resposta que dera para Nicola, temendo que ela fosse dedurar tudo para as Aes Sedai? A despeito dos olhares que dava para Nynaeve e Elayne, ela ainda era uma novi�a. Os olhares n�o importavam.</p><p>� Fique quieta � mandou Nynaeve, irritada. � Quero pensar.</p><p>Nicola ficou mesmo quieta enquanto as duas iam andando pelas ruas apinhadas, mas Nynaeve teve a impress�o de que a mulher caminhava se arrastando. Talvez fosse s� sua imagina��o, mas sentiu os joelhos doerem com o esfor�o de n�o passar na frente dela. N�o importava o que acontecesse, n�o ia deixar Nicola sequer pensar que ela parecia com pressa.</p><p>A situa��o come�ou a corro�-la por dentro. De todas que poderiam ter sido enviadas para busc�-la, era dif�cil imaginar algu�m pior do que Nicola, com aqueles olhares. Birgitte j� devia estar encontrando Uno. As Votantes deviam estar dizendo a Tarna que queriam se ajoelhar e beijar o anel de Elaida. Seve e Jaril deviam estar falando para Sheriam que n�o sabiam distinguir �Marigan� de um ganso selvagem. Tinha sido um dia daqueles, e o sol escaldante nem chegara ao topo do c�u sem nuvens.</p><p>Janya e Delana aguardavam na sala principal da pequena casa que dividiam com tr�s outras Aes Sedai � claro que cada uma tinha seu pr�prio quarto. Cada Ajah tinha uma casa onde se reunir, mas as Aes Sedai estavam espalhadas pela aldeia, e seus alojamentos tinham sido dispostos de acordo com a ordem de chegada. Janya, que encarava o ch�o de cara feia e l�bios franzidos, nem pareceu notar a chegada das duas. Mas a p�lida Delana, cujos cabelos eram t�o claros que n�o dava para dizer se havia ou n�o fios brancos, encarou-as com os olhos azuis, igualmente claros, assim que adentraram pela porta. Nicola deu um salto. Nynaeve teria apreciado mais aquilo se n�o tivesse feito a mesma coisa. Os olhos da robusta irm� Cinza n�o eram muito diferentes dos de qualquer outra Aes Sedai, mas, quando se concentravam em algu�m, era como se ningu�m mais existisse. Havia quem dissesse que Delana era boa mediadora, j� que ambas as partes sempre chegavam a um acordo s� para que ela parasse de encar�-los. O alvo do olhar come�ava a se perguntar o que havia feito de errado, mesmo que n�o tivesse feito nada. A lista de erros que surgiu em sua cabe�a fez Nynaeve se curvar em uma mesura t�o intensa quanto a de Nicola, antes mesmo que percebesse o que estava fazendo.</p><p>� Ah � comentou Janya, surpresa, como se as duas tivessem brotado do ch�o �, a� est�o voc�s.</p><p>� Pe�o desculpas pelo atraso � disse Nynaeve, mais do que depressa. Nicola que pensasse o que quisesse. Era Delana quem a encarava, n�o a novi�a. � Perdi a no��o do tempo, e�</p><p>� N�o importa. � Delana tinha a voz grave para uma mulher, e seu sotaque era um eco gutural do shienarano de Uno, apesar de estranhamente mel�dico em uma mulher t�o corpulenta. Por outro lado, Delana era estranhamente graciosa para uma mulher t�o robusta. � Nicola, pode sair. Voc� vai fazer umas tarefas para Faolain at� a pr�xima aula.</p><p>Nicola n�o perdeu tempo em curvar-se em outra mesura e sair. Talvez quisesse ter ouvido o que as Aes Sedai diriam por Nynaeve estar atrasada, mas ningu�m testa os limites com nenhuma Aes Sedai.</p><p>Nynaeve n�o teria reparado nem se tivessem brotado asas em Nicola. Acabara de perceber que n�o havia frasco de tinta na mesa em que as Aes Sedai faziam as refei��es, nem caixa de areia, pena, ou papel. Nada do que poderia precisar. Ser� que devia ter levado os seus? Delana <emphasis>ainda</emphasis> a encarava. A mulher <emphasis>nunca</emphasis> encarava algu�m por tanto tempo. Na verdade, ela nunca encarava ningu�m, a n�o ser com algum motivo.</p><p>� Quer ch� de menta gelado? � ofereceu Janya, e foi a vez de Nynaeve ficar surpresa. � Acho ch� reconfortante. Suaviza a conversa, � o que sempre digo. � Sem esperar resposta, a irm� Marrom, que parecia um p�ssaro, come�ou a encher x�caras desparelhadas com o l�quido de um bule de listras azuis que estava no aparador, e uma pedra fazia as vezes de um dos p�s do m�vel. As Aes Sedai at� podiam ter mais espa�o, mas a mob�lia delas estava em condi��es t�o prec�rias quanto as das Aceitas. � Delana e eu decidimos que as anota��es podem ficar para outra hora. Em vez disso, vamos s� conversar. Quer mel? Eu prefiro sem. Acho que o doce estraga o sabor. As jovens sempre querem mel. Voc� vem fazendo umas coisas incr�veis. Voc� e Elayne. � Delana pigarreou alto, o que fez a Marrom encar�-la com um olhar interrogativo. Depois de um instante, Janya disse: � Ah. Sim.</p><p>Delana puxara uma das cadeiras da mesa para o centro da sala. Uma cadeira com assento de palha. No instante em que Janya mencionou que s� iriam conversar, Nynaeve soube que n�o seria bem assim. A Cinza indicou a cadeira, e Nynaeve sentou-se bem na pontinha, aceitou a x�cara apoiada em um pires quebrado da m�o que Janya oferecia e agradeceu. Depois disso, n�o precisou esperar muito.</p><p>� Fale mais sobre Rand al�Thor � mandou Janya.</p><p>A Marrom parecia prestes a dizer mais alguma coisa, mas Delana pigarreou outra vez. Janya piscou e se calou, bebericando o ch�. As duas estavam paradas uma de cada lado da cadeira de Nynaeve. Delana a encarou, soltou um suspiro e canalizou para apanhar a terceira x�cara, que veio flutuando, ent�o cravou os olhos nela outra vez, daquele jeito que parecia que abriria buracos em sua cabe�a. Janya parecia perdida em pensamentos, parecendo ter se esquecido de Nynaeve.</p><p>� J� contei tudo o que sei � respondeu Nynaeve, com um suspiro. � Bem, contei �s outras Aes Sedai, de todo modo.</p><p>E tinha contado mesmo. Nada do que soubesse poderia fazer mal a Rand, pelo menos n�o mais do que saber o que ele era. E talvez ajudasse se pudesse fazer as irm�s o enxergarem como homem. N�o um homem capaz de canalizar, mas apenas um homem. N�o era tarefa f�cil, quando o assunto era o Drag�o Renascido.</p><p>� Eu n�o sei de mais nada � completou.</p><p>� N�o fa�a malcria��o � retrucou Delana, bruscamente. � E n�o fique se remexendo.</p><p>Nynaeve deitou a x�cara de volta no pires e limpou a m�o na saia.</p><p>� Crian�a � come�ou Janya, em tom de pura compaix�o �, sei que voc� acha que contou tudo o que sabe, mas Delana� eu n�o acredito que voc� esconderia algo de prop�sito�</p><p>� E por que n�o? � vociferou a Cinza. � Os dois nasceram na mesma aldeia. Um viu o outro crescer. Ela pode ser mais leal a ele do que � Torre Branca. � O olhar lancinante se abateu outra vez sobre Nynaeve. � Conte alguma coisa que ainda n�o contou. J� ouvi todas as suas hist�rias, garota, ent�o vou saber se tentar me enrolar.</p><p>� Tente, crian�a. Tenho certeza de que n�o quer Delana zangada com voc�. Por que� � Outro pigarreio fez Janya se calar.</p><p>Nynaeve torceu para que as duas achassem que o chocalhar da x�cara de ch� significasse que ela tamb�m estava agitada. Primeiro fora arrastada at� ali, apavorada � n�o, apavorada, n�o, apreensiva � com a poss�vel irrita��o delas, e agora isso. Ficar rodeada por Aes Sedai ensinava a ouvir com aten��o. Poderia at� n�o ser poss�vel captar a inten��o real, mas a chance era maior do que ouvindo sem muita aten��o, como a maioria costumava fazer. Nenhuma das duas dissera que de fato achava que ela estava escondendo alguma coisa, s� estavam querendo assust�-la para ver se ela soltaria mais alguma informa��o. E Nynaeve n�o estava com medo das duas. Bem, n�o muito. Mas estava furiosa.</p><p>� Quando ele era garoto � come�ou, hesitante �, aceitava a puni��o sem discutir, se achasse que merecia. Mas, se n�o achasse, protestava at� o fim.</p><p>Delana bufou.</p><p>� Voc� j� contou isso para todo mundo que quisesse escutar. Conte algo diferente. E logo!</p><p>� D� para tentar orient�-lo ou convenc�-lo, mas n�o adianta querer for��-lo. Rand empaca se achar que�</p><p>� Isso tamb�m. � Apoiando as m�os na cintura larga, Delana abaixou-se at� que seus olhos ficassem na altura dos de Nynaeve, que quase desejou que fosse Nicola encarando-a de novo. � Conte alguma coisa que n�o tenha contado a todas as cozinheiras e lavadeiras de Salidar.</p><p>� Tente, crian�a � pediu Janya e, espantosamente, deixou por isso mesmo.</p><p>As duas continuaram cavando informa��es. Janya pedia, simp�tica, e Delana pressionava sem piedade. Nynaeve mencionou cada detalhe que conseguiu lembrar. Aquilo n�o aliviou sua situa��o: os detalhes tinham sido mencionados tantas vezes que ela j� se lembrava deles de cor. Como Delana observou, t�o delicadamente � ou melhor, nem tanto. Quando Nynaeve conseguiu dar um gole no ch�, a bebida j� estava ran�osa, e a do�ura quase travou a l�ngua. Janya parecia de fato acreditar que as mo�as gostavam de muito mel. A manh� estava passando devagar. Muito devagar.</p><p>� N�o vamos a lugar nenhum com isso � anunciou Delana, por fim, cravando os olhos em Nynaeve como se ela fosse a culpada.</p><p>� Ent�o posso ir? � perguntou Nynaeve, cansada.</p><p>Cada gota de suor que empapava seu corpo parecia ter sido espremida. Ela se sentia sem energia. Tamb�m queria estapear aqueles rostos frios de Aes Sedai.</p><p>Delana e Janya trocaram olhares. A Cinza deu de ombros e foi at� o aparador, encher outra x�cara de ch�.</p><p>� Claro que pode � respondeu Janya. � Sei que deve ter sido dif�cil para voc�, mas precisamos mesmo conhecer Rand al�Thor melhor do que ele conhece a si mesmo, se quisermos tomar a melhor decis�o poss�vel. Do contr�rio, tudo pode acabar virando uma cat�strofe. Ai, ai, sim� Voc� foi muito bem, crian�a. Por outro lado, eu n�o esperava menos. Uma pessoa capaz de fazer as descobertas que fez, e ainda por cima com a sua defici�ncia� Ora, n�o espero de voc� nada menos que a excel�ncia. E pensar que�</p><p>Levou um bom tempo at� a mulher parar de falar e deixar Nynaeve sair, cambaleante. E ela cambaleou mesmo: sentia os joelhos fracos. Todas estavam falando dela. Claro que estavam. Deveria ter dado ouvidos a Elayne e deixado as tais descobertas para ela. Moghedien tinha raz�o. Cedo ou tarde, come�ariam a investigar como ela conseguia fazer aquilo. Ent�o as Aes Sedai queriam tomar a melhor decis�o para evitar uma cat�strofe. E n�o davam qualquer pista do que pretendiam com rela��o a Rand.</p><p>Olhando para o sol, quase no topo do c�u, Nynaeve percebeu que estava atrasada para a reuni�o com Theodrin. Pelo menos dessa vez tinha uma boa desculpa.</p><p>A casa de Theodrin � e de mais umas vinte mulheres � ficava depois da Pequena Torre. Nynaeve reduziu o passo ao chegar perto da antiga estalagem. O burburinho dos Guardi�es na porta da frente, perto de Gareth Bryne, deixava claro que a reuni�o ainda n�o havia terminado. Um res�duo de raiva permitiu que ela visualizasse o selo de prote��o, um domo plano, fechado, feito principalmente de Fogo e Ar, mas com toques de �gua, cintilava diante de seus olhos, cobrindo toda a constru��o. O n� da trama parecia um tormento. Tocar nele seria quase como oferecer o pr�prio couro a um curtume, j� que havia muitas Aes Sedai na rua lotada. De vez em quando, alguns Guardi�es entravam e sa�am do brilho, invis�vel a eles, deixando ou juntando-se � vig�lia na porta. O mesmo selo de prote��o que Elayne n�o conseguira penetrar. Um escudo contra bisbilhoteiros. Contra quem tentasse ouvir algo com o Poder.</p><p>A casa de Theodrin ficava a cerca de cem passadas mais adiante na rua, mas Nynaeve virou-se para entrar no p�tio ao lado de um casebre de telhado de palha, apenas duas casas depois da antiga estalagem. Uma cerca de madeira bamba protegia o pequenino jardim de ervas murchas nos fundos do casebre, mas havia um port�o ainda preso por uma �nica dobradi�a quase completamente enferrujada. Quando ela o abriu, a dobradi�a soltou um rangido t�trico. Nynaeve olhou em volta, afobada � ningu�m nas janelas ou na rua podia v�-la �, juntou as saias e disparou pela viela estreita que dava no quarto que ela dividia com Elayne.</p><p>Hesitou por um instante, secando as palmas suadas no vestido, lembrando-se do que Birgitte dissera. Sabia que no fundo era uma covarde, por mais que se odiasse por isso. Houve um tempo em que pensara em si mesma como corajosa � n�o uma hero�na como Birgitte, mas corajosa o bastante. O mundo lhe dera uma boa li��o. S� de pensar no que as irm�s fariam se a pegassem ali, sentia vontade de dar meia-volta e ir correndo at� Theodrin. Havia uma pequena chance de que encontraria a janela do aposento exato onde estavam as Votantes. Uma chance �nfima.</p><p>Tentando molhar um pouco a boca � como podia estar t�o seca, se o resto do corpo estava t�o �mido? �, ela se aproximou devagar. Um dia gostaria de saber como era ser corajosa feito Birgitte ou Elayne, em vez de uma covarde.</p><p>O selo de prote��o n�o se alterou quando ela o adentrou, e ela sequer o sentiu. Sabia que n�o sentiria. Toc�-lo n�o faria mal nenhum, mas, mesmo assim, ela se espremeu contra a parede de pedra bruta para evitar a trama ao m�ximo. Alguns pedacinhos de trepadeira agarrados �s rachaduras ro�aram seu rosto.</p><p>Nynaeve foi seguindo devagar at� o batente da janela � mas quase deu meia-volta e foi embora. A janela estava bem fechada, e todo o vidro tinha desaparecido e sido substitu�do por um tecido imperme�vel que podia at� deixar entrar luz, mas n�o permitia que ela visse nada l� dentro. E nem ouvisse nada � se � que havia algu�m do outro lado. N�o havia como saber, j� que nenhum som escapava. Foi respirando bem fundo e avan�ando aos poucos at� a janela seguinte. Um dos pain�is tamb�m fora substitu�do, mas dava para ver uma mesa surrada, a madeira outrora ornamentada coberta de pap�is e frascos de tinta, com poucas cadeiras em volta. Fora isso, o c�modo estava vazio.</p><p>Resmungando um xingamento que ouvira de Elayne � a garota tinha um repert�rio surpreendente de palavr�es �, ela foi tateando o caminho pela pedra bruta. A terceira janela estava aberta. Nynaeve chegou mais perto � e ent�o deu um pulo para tr�s. N�o tinha realmente acreditado que encontraria alguma coisa, mas Tarna estava ali. N�o com as Votantes, mas com Sheriam, Myrelle e o restante daquele grupinho. Se seu cora��o n�o estivesse batendo t�o alto, teria ouvido os murm�rios das vozes das mulheres antes de v�-las.</p><p>Ela se ajoelhou e se aproximou do batente o m�ximo que podia sem ser vista pelas pessoas l� dentro. A base da janela aberta ro�ava sua cabe�a.</p><p>� � tem certeza de que � essa a mensagem que quer que eu leve de volta? � Aquela voz dura s� podia ser de Tarna. � Est� me pedindo mais tempo para avaliar a situa��o? O que h� para avaliar?</p><p>� O Sal�o� � come�ou Sheriam.</p><p>� O <emphasis>Sal�o</emphasis> � retrucou a emiss�ria da Torre, em tom de esc�rnio. � N�o pense que n�o sei onde est� o poder. Esse suposto <emphasis>Sal�o</emphasis> pensa o que voc�s seis mandam.</p><p>� Foi o Sal�o, ele pediu mais tempo � declarou Beonin, com firmeza. � Quem � que pode dizer a que decis�o elas v�o chegar?</p><p>� Elaida vai ter que esperar para ouvir a decis�o delas � completou Morvrin, em uma imita��o clara do tom g�lido de Tarna. � Ela n�o aguenta esperar mais um pouco para poder ver a Torre Branca �ntegra mais uma vez?</p><p>A resposta de Tarna foi ainda mais fria:</p><p>� Vou levar a sua� a mensagem do <emphasis>Sal�o</emphasis>� para a Amyrlin. Vamos ver o que ela pensa a respeito.</p><p>Uma porta se abriu e se fechou com um baque cortante.</p><p>Nynaeve poderia ter gritado de frustra��o. Agora sabia a resposta, mas n�o a pergunta. Se pelo menos Janya e Delana a tivessem liberado um pouquinho mais cedo� Bem, melhor do que nada. Melhor do que �vamos voltar e obedecer a Elaida�. N�o havia por que ficar ali, esperando ser vista.</p><p>Ela come�ou a se afastar, ent�o ouviu Myrelle dizer:</p><p>� Talvez seja melhor simplesmente deixar uma mensagem para ela. Talvez seja melhor convoc�-la.</p><p>Com o cenho franzido, Nynaeve parou onde estava. Ela quem?</p><p>� As formalidades devem ser cumpridas � retrucou Morvrin, em um tom r�spido. � Temos que seguir as cerim�nias apropriadas.</p><p>Beonin respondeu na hora, em um tom firme.</p><p>� Precisamos cumprir cada letra da lei. O menor deslize ser� usado contra n�s.</p><p>� E se tivermos cometido um erro? � Carlinya soava acalorada, talvez pela primeira vez na vida. � Quanto temos que esperar? Quanto ousamos esperar?</p><p>� Esperaremos o tempo que for preciso � retrucou Morvrin.</p><p>� O tempo que for necess�rio � ratificou Beonin. � N�o esperei esse tempo todo para aquela crian�a d�cil simplesmente abandonar todos os nossos planos.</p><p>Por algum motivo, aquilo gerou um sil�ncio, embora Nynaeve tenha ouvido algu�m murmurar �d�cil� outra vez, como se examinasse a palavra. Que crian�a? Uma novi�a, talvez uma Aceita? N�o fazia sentido. As irm�s <emphasis>nunca</emphasis> esperavam pelas novi�as ou Aceitas.</p><p>� J� fomos longe demais para voltar atr�s agora, Carlinya � declarou Sheriam, por fim. � Ou trazemos a garota aqui e garantimos que ela fa�a o que tem que fazer, ou deixamos tudo para o Sal�o e esperamos que elas n�o nos levem ao desastre. � Pelo tom, ela considerava a �ltima possibilidade uma esperan�a tola.</p><p>� Um deslize � acrescentou Carlinya, com uma voz ainda mais fria do que de costume �, basta um deslize, e vamos todas acabar com a cabe�a numa estaca.</p><p>� Mas quem � que vai colocar ela l�? � perguntou Anaiya, pensativa. � Elaida, o Sal�o, ou Rand al�Thor?</p><p>O sil�ncio se estendeu, as saias farfalharam, e a porta se abriu e se fechou outra vez.</p><p>Nynaeve arriscou uma espiada. O aposento estava vazio. Soltou um muxoxo exaltado. Era de pouco consolo que elas tivessem decidido esperar � a resposta final ainda poderia ser qualquer coisa. O coment�rio de Anaiya mostrou que aquelas seis ainda estavam t�o cautelosas em rela��o a Rand quanto a Elaida. Talvez at� mais. Elaida n�o estava reunindo homens capazes de canalizar. E quem era a �crian�a d�cil�? N�o, isso era irrelevante. Elas podiam estar tramando cinquenta planos dos quais Nynaeve nada sabia.</p><p>O selo de prote��o esvaneceu, e ela deu um salto. J� passava da hora de sair dali. Levantando-se �s pressas, come�ou a espanar a terra dos joelhos enquanto se afastava da parede. Deu apenas um passo, pois foi obrigada a parar, ainda agachada, as m�os paralisadas sobre as manchas de terra do vestido, diante de Theodrin.</p><p>A domanesa bochechuda a encarou de volta sem dizer uma palavra.</p><p>Em instantes, Nynaeve considerou e descartou a desculpa rid�cula de que estava procurando algo que deixara cair. Em vez disso, endireitou-se e passou lentamente pela domanesa, como se n�o tivesse nada a explicar. Theodrin a seguiu com as m�os na cintura. Nynaeve considerou suas op��es. Podia dar uma pancada na cabe�a de Theodrin e sair correndo. Podia se ajoelhar outra vez e implorar. As duas seriam bem equivocadas, em sua opini�o, mas n�o conseguia pensar em nenhuma solu��o intermedi�ria.</p><p>� Voc� tem conseguido manter a calma? � perguntou Theodrin, olhando para a frente.</p><p>Nynaeve levou um susto. Recebera aquela instru��o da domanesa, depois do treino da noite anterior para romper o bloqueio. Manter a calma, ter sempre pensamentos tranquilos e serenos.</p><p>� � claro � respondeu, com uma risada fraca. � O que poderia me aborrecer?</p><p>� Que bom � respondeu Theodrin, em um tom suave. � Hoje pretendo tentar algo um pouco mais� direto.</p><p>Nynaeve a encarou. Nenhuma pergunta? Nenhuma acusa��o? Pelo jeito que o dia estava se desenrolando, n�o conseguia acreditar que sairia t�o f�cil dessa.</p><p>Nenhuma das duas viu a mulher que as observava de uma das janelas do segundo andar.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 13</p><p><image l:href="#22"/></p><p>Sob a poeira</p></title><p>Nynaeve, enrolada em uma toalha esfarrapada de listras vermelhas e se perguntando se era melhor desfazer a tran�a, olhou irritada para o vestido e a roupa de baixo pendurados no encosto das cadeiras, pingando nas t�buas rec�m-varridas do ch�o. Sua outra op��o de vestimenta era outra toalha velha, essa listrada de verde e branco e consideravelmente maior.</p><p>� Agora sabemos que choque n�o funciona � rosnou, para Theodrin, estremecendo. Sentia a mand�bula doer, e as bochechas ainda ardiam. Theodrin tinha reflexos r�pidos e um bra�o forte. � Eu at� conseguiria canalizar agora, mas, enquanto test�vamos essa alternativa, <emphasis>saidar</emphasis> era a �ltima coisa em que eu pensaria. � No momento em que fora encharcada, perdera o f�lego, os pensamentos fugiram e os instintos assumiram o comando.</p><p>� Bem, ent�o canalize para secar suas coisas � resmungou Theodrin.</p><p>A dor na mand�bula de Nynaeve at� diminuiu ao ver Theodrin examinar o pr�prio reflexo em um tri�ngulo de espelho quebrado e levar a m�o ao olho. A pele j� estava meio inchada, e Nynaeve suspeitava que o hematoma ficaria espetacular. Seu bra�o n�o era t�o fraco assim. E um hematoma era <emphasis>o m�nimo</emphasis> que Theodrin merecia!</p><p>Talvez a domanesa pensasse a mesma coisa, j� que disse, em um suspiro:</p><p>� N�o vou tentar isso de novo. Mas ainda vou conseguir ensinar voc� a se render a <emphasis>saidar</emphasis> sem ter que ficar irritada a ponto de agarrar a Fonte com os dentes.</p><p>Olhando irritada para as roupas encharcadas, Nynaeve parou um instante para pensar. Nunca tinha feito nada parecido. Eram proibidas de realizar tarefas com o Poder, e com raz�o. <emphasis>Saidar</emphasis> era sedutora. Quanto mais a pessoa canalizava, mais queria canalizar � e, quanto mais a pessoa queria canalizar, maior o risco de que abra�asse Poder demais e acabasse estancada ou morta. A do�ura da Fonte Verdadeira veio preench�-la sem quaisquer impedimentos � se a manh� j� n�o tivesse sido o suficiente, o balde de �gua de Theodrin garantira a irrita��o. Uma simples trama de �gua absorveu toda a umidade de suas roupas e a fez escorrer pelo ch�o, formando uma po�a que logo se espalhou e se juntou aos resqu�cios do balde.</p><p>� N�o sou muito boa em me render � comentou.</p><p>A menos que n�o houvesse mais raz�o para lutar. S� um tolo insistiria quando n�o havia chance de vit�ria. Nynaeve n�o conseguia respirar debaixo d��gua, n�o conseguia voar batendo os bra�os� e n�o conseguia canalizar se n�o estivesse irritada.</p><p>Theodrin, que olhava irritada para a po�a, voltou-se para Nynaeve e plantou as m�os na cintura fina.</p><p>� Estou bem ciente disso � retrucou, com calma demais. � Por tudo o que aprendi, voc� n�o deveria sequer conseguir canalizar. Fui ensinada que � preciso estar calma para canalizar, estar internamente serena e tranquila, com a menta aberta e complacente. � O brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> a rodeava, e fluxos de �gua reuniram a pocinha em uma bola l�quida, uma vis�o estranha apoiada no ch�o. � � preciso se entregar antes de guiar. Mas voc�, Nynaeve� por mais que tente se render, e olha que j� a vi tentar, voc� persiste e se agarra com unhas e dentes, a n�o ser que esteja furiosa o bastante para esquecer a luta e se deixar levar. � Fluxos de Ar ergueram a bola oscilante. Por um instante, Nynaeve achou que a domanesa pretendia atirar a �gua nela, mas a esfera flutuou pelo recinto e saiu por uma das janelas abertas. Fez um estrondo ao cair, e um gato berrou, assustado e irritado. Talvez a proibi��o n�o se aplicasse a algu�m do n�vel de Theodrin.</p><p>� Por que n�o deixamos por isso mesmo? � Nynaeve tentou soar otimista, mas achava que n�o tinha se sa�do muito bem. <emphasis>Queria</emphasis> poder canalizar quando bem entendesse. Mas, como dizia o ditado, �se desejos dessem asas, os porcos poderiam voar�. � N�o faz sentido perder�</p><p>� Deixe ele assim � mandou Theodrin, quando Nynaeve come�ou a passar a trama de �gua nos cabelos. � Solte <emphasis>saidar,</emphasis> deixe ele secar naturalmente. E vista suas roupas.</p><p>Nynaeve estreitou os olhos.</p><p>� Voc� tem outra surpresa me esperando, n�o tem?</p><p>� N�o. Agora comece a preparar sua mente. Voc� � um bot�o de flor sentindo o calor da Fonte, pronto para se abrir. <emphasis>Saidar</emphasis> � o rio, voc� � a margem. O rio � mais poderoso que a margem, mas � ela que o cont�m e o conduz. Esvazie a mente e fique s� com o bot�o. N�o h� nada em seus pensamentos al�m do bot�o. Voc� � o bot�o�</p><p>Enfiando a roupa de baixo pela cabe�a, Nynaeve suspirou enquanto a voz de Theodrin prosseguia, hipn�tica. Exerc�cios de novi�a. Se funcionassem para ela, j� teria conseguido canalizar por vontade pr�pria muito tempo antes. Devia desistir logo daquilo e ir tratar de coisas que conseguiria resolver, como convencer Elayne a ir a Caemlyn. Mas queria que Theodrin conseguisse o que pretendia, mesmo que precisasse de dez baldes d��gua. Aceitas n�o viravam as costas; Aceitas n�o desafiavam a autoridade. Odiava que os outros lhe dissessem o que n�o era capaz de fazer, mais ainda do que quando lhe diziam o que fazer.</p><p>Horas se passaram, e as duas ficaram ali, sentadas, uma de frente para a outra, diante de uma mesa que parecia sa�da de uma fazenda decr�pita. Passaram horas repetindo os exerc�cios que as novi�as tamb�m deviam estar fazendo naquele mesmo instante. O bot�o de flor e a margem do rio. A brisa de ver�o e o riacho murmurante. Nynaeve tentou ser uma semente de dente-de-le�o flutuando ao vento, tentou ser a terra sorvendo a chuva da primavera, tentou ser uma raiz penetrando o solo bem lentamente. Tudo sem efeito � ou, pelo menos, sem o efeito que Theodrin queria. A domanesa chegara a sugerir que Nynaeve se imaginasse nos bra�os de um amante, o que acabou sendo um desastre, j� que ela acabou pensando em Lan � como ele <emphasis>ousava</emphasis> sumir daquele jeito! �, mas a cada vez a frustra��o virava raiva, incendiando seu g�nio feito brasa em palha seca, e punha <emphasis>saidar </emphasis>a seu alcance, Theodrin mandava que soltasse e recome�asse, devagar e com calma. A domanesa se agarrava ao que queria com tanta intensidade que era enlouquecedor. Nynaeve achou que a mulher poderia ensinar as mulas a serem teimosas. E Theodrin nunca se frustrava, sua serenidade era quase uma arte. Nynaeve queria virar um balde de �gua fria na cabe�a <emphasis>dela</emphasis>, para ver se <emphasis>ela</emphasis> ia gostar. Por outro lado, considerando a dor que sentia na mand�bula, talvez n�o fosse boa ideia.</p><p>Theodrin Curou o machucado antes de a aula acabar, que era at� onde iam suas habilidades naquele Dom. Logo depois, Nynaeve retribuiu a Cura. O olho de Theodrin assumira um tom de roxo brilhante, e odiava n�o poder deix�-lo de lembran�a para que a mulher tivesse um pouco mais de cuidado ao planejar as aulas seguintes. Mas a retribui��o era apenas justa, e os arquejos e arrepios de Theodrin quando os fluxos de Esp�rito, Ar e �gua percorreram seu corpo foram como uma retribui��o pelos arquejos da pr�pria Nynaeve, quando aquele balde foi jogado em cima dela. Claro que tamb�m estremecera na hora de ser Curada, mas n�o se podia ter tudo.</p><p>L� fora, o sol j� estava a meio caminho do horizonte a oeste. Na rua, uma onda de mesuras e rever�ncias percorreu a multid�o, que abria caminho para Tarna Feir. A representante da Torre ia deslizando com a eleg�ncia de uma rainha ao caminhar por um chiqueiro, o xale de franjas vermelhas enrolado nos bra�os, t�o chamativo quanto um estandarte. Mesmo a cinquenta passadas de dist�ncia, a atitude era clara na maneira como mantinha a cabe�a erguida e levantava as saias para n�o suj�-las de terra, ignorando at� os que a cumprimentavam com mesuras quando ela passava. Houvera muito menos rever�ncias e bem mais alvoro�o e insultos no primeiro dia, mas uma Aes Sedai era uma Aes Sedai � ao menos para as irm�s em Salidar, que refor�aram essa li��o com duras puni��es: duas Aceitas, cinco novi�as e quase dez servi�ais, homens e mulheres, passavam as horas de folga arrastando lixo da cozinha e dejetos de penico at� as florestas, para serem enterrados.</p><p>Enquanto Nynaeve tentava escapulir antes que Tarna pudesse v�-la, seu est�mago roncou t�o alto que rendeu um olhar assustado de um sujeito carregando um cesto de nabos nas costas. Tinha perdido o caf� da manh� com as tentativas de Elayne de romper o selo de prote��o e o almo�o com os exerc�cios de Theodrin � e as aulas daquele dia ainda n�o tinham acabado: recebera instru��es de Theodrin para que n�o dormisse � noite. O choque falhara, mas talvez a exaust�o funcionasse. <emphasis>Qualquer bloqueio pode ser quebrado</emphasis>, dissera Theodrin, em um tom confiante e implac�vel,<emphasis> e eu vou quebrar o seu. S� precisa acontecer uma vez. Uma vez canalizando sem raiva, e </emphasis>saidar<emphasis> ser� sua.</emphasis></p><p>Naquele momento, Nynaeve s� queria comida. Os ajudantes j� estavam quase terminando a limpeza das cozinhas, claro, mas o aroma de cozido de carneiro e porco assado agu�ou seu nariz � ainda assim, Nynaeve teve que se contentar com duas ma��s horrorosas, um peda�o de queijo de cabra e um naco de p�o. O dia n�o estava melhorando.</p><p>De volta ao quarto, encontrou Elayne esparramada na cama. A Filha-herdeira olhou-a sem nem erguer a cabe�a, ent�o voltou a encarar o teto rachado.</p><p>� Meu dia foi p�ssimo, Nynaeve � comentou, com um suspiro. � Escaralde <emphasis>insiste</emphasis> em aprender a fazer um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, sendo que n�o tem for�a para isso. E Varilin fez <emphasis>alguma coisa</emphasis>� n�o sei o qu� e a pedra em que ela estava trabalhando virou uma bola de� bem, n�o era exatamente fogo� e bem nas m�os dela! Acho que teria morrido se Dagdara n�o estivesse conosco� Ningu�m mais ali conseguiria Cur�-la, e acho que n�o teria dado tempo de buscar outra pessoa. Da� fiquei pensando em Marigan� Mesmo que a gente n�o consiga aprender a detectar um homem canalizando, talvez d� para detectar o que ele j� fez� Acho que me lembro de Moiraine <emphasis>insinuando</emphasis> que era poss�vel. <emphasis>Acho</emphasis> que me lembro� de todo modo, eu estava distra�da pensando nela quando algu�m encostou no meu ombro, a� eu dei um berro, como se tivesse levado uma picada de agulha. Era s� o coitado de um carroceiro querendo me perguntar sobre algum boato idiota, mas assustei tanto o homem que ele quase saiu correndo.</p><p>Ela enfim fez uma pausa para tomar f�lego, e Nynaeve abandonou a ideia de atirar o resto da �ltima ma�� em sua cabe�a e aproveitou o sil�ncio para perguntar:</p><p>� Cad� a Marigan?</p><p>� Ela demorou bastante na arruma��o, mas como j� tinha terminado, eu a mandei voltar para o quarto. E <emphasis>ainda</emphasis> estou usando o bracelete. Est� vendo? � Ela sacudiu o bra�o, depois o largou de volta no colch�o, mas a torrente de palavras n�o desacelerou. � Ela n�o parava de choramingar daquele jeito horroroso sobre como dever�amos fugir para Caemlyn, e eu simplesmente n�o conseguia aguentar <emphasis>nem mais um minuto</emphasis>, n�o depois do dia que tive. A aula com as novi�as foi um desastre. Sabe a Keatlin, aquela mulher <emphasis>terr�vel</emphasis>, a nariguda? Ela n�o parava de resmungar que se estivesse em casa n�o deixaria uma <emphasis>garota</emphasis> dar as ordens. Da� Faolain chegou batendo o p�, <emphasis>exigindo</emphasis> saber por que Nicola estava na aula. Como � que <emphasis>eu</emphasis> ia saber que Nicola devia estar cuidando de umas tarefas para ela? Depois <emphasis>Ibrella</emphasis> decidiu tentar fazer a maior chama que poderia e quase tocou fogo na sala <emphasis>inteira</emphasis>, e Faolain me passou um serm�o na frente de <emphasis>todo mundo</emphasis> por n�o conseguir controlar a turma. E Nicola disse que <emphasis>ela</emphasis>�</p><p>Nynaeve desistiu de tentar encontrar uma brecha para falar � talvez devesse ter atirado a ma�� �, ent�o simplesmente gritou:</p><p>� Eu concordo com a Moghedien!</p><p>O nome calou a boca de Elayne, que se sentou na cama, surpresa. Mesmo sabendo que estava dentro do quarto, Nynaeve n�o p�de deixar de olhar em volta para conferir se algu�m a ouvira.</p><p>� Mas que tolice, Nynaeve.</p><p>N�o dava para saber se a Filha-herdeira se referia � sua opini�o ou a ela ter falado o nome da Abandonada em voz alta, e Nynaeve n�o pretendia perguntar. Ela se sentou na pr�pria cama, de frente para Elayne, e ajeitou as saias.</p><p>� N�o, n�o �. Qualquer dia desses, Jaril e Seve v�o acabar contando que Marigan n�o � m�e deles, isso se j� n�o tiverem contado. Voc� est� preparada para responder �s perguntas que vir�o depois? Eu, n�o. Qualquer dia desses, alguma Aes Sedai vai querer entender como � que eu consigo descobrir tanta coisa sem passar raiva do dia at� a noite. A cada duas Aes Sedai com quem falo, uma menciona o assunto. E Dagdara anda me olhando de um jeito estranho. Al�m do mais, elas s� v�o ficar aqui, sentadas, mais nada. A n�o ser que decidam voltar para a Torre. Entrei escondida l� e escutei Tarna conversando com Sheriam�</p><p>� Voc� <emphasis>o qu�</emphasis>?</p><p>� Eu entrei escondida e fiquei ouvindo � respondeu Nynaeve, muito calma. � A mensagem que mandaram para Elaida � de que precisam de mais tempo para considerar a proposta. O que, no m�nimo, quer dizer que est�o considerando esquecer essa hist�ria da Ajah Vermelha com Logain. N�o sei como teriam coragem de deixar isso de lado, mas aposto que est�o considerando. Se ficarmos por muito mais tempo aqui, podemos acabar entregues de presente a Elaida. Se formos agora, pelo menos poderemos dizer a Rand para ele n�o contar com o apoio de nenhuma Aes Sedai. Dizer para ele n�o confiar em nenhuma Aes Sedai.</p><p>Franzindo o cenho com toda a eleg�ncia, Elayne se sentou de pernas cruzadas.</p><p>� Se ainda est�o considerando a proposta, ent�o n�o se decidiram. Acho melhor ficarmos. Talvez a gente possa ajud�-las a tomar a decis�o certa. Al�m do mais, voc� nunca vai conseguir romper esse seu bloqueio se formos embora. A n�o ser que pretenda convencer Theodrin a ir junto.</p><p>Nynaeve ignorou o coment�rio. Como se Theodrin tivesse feito muita diferen�a. Baldes de �gua. Nada de dormir � noite. O que viria depois? A mulher praticamente dissera que ia tentar o poss�vel e o imposs�vel at� descobrir algo que funcionasse. Nynaeve achava que havia coisa demais entre o poss�vel e o imposs�vel.</p><p>� Ajud�-las a decidir? Elas n�o v�o nos dar ouvidos. At� mesmo <emphasis>Siuan</emphasis> mal nos d� ouvidos. E isso porque ela tem o rabo preso com a gente, e n�s com ela.</p><p>� Ainda acho melhor ficarmos aqui. Pelo menos at� o Sal�o <emphasis>decidir</emphasis> alguma coisa. Ent�o, se o pior acontecer, pelo menos teremos fatos para contar a Rand, e n�o suposi��es.</p><p>� E como � que vamos descobrir o que elas decidirem? N�o d� para esperar que eu v� encontrar duas vezes a janela certa para espiar. Se esperarmos algum an�ncio, pode ser que j� tenham come�ado a nos vigiar. Ou a mim, pelo menos. N�o tem uma s� Aes Sedai que n�o saiba que eu e Rand somos de Campo de Emond.</p><p>� Siuan vai nos contar antes de qualquer an�ncio � retrucou a garota tola, com toda a calma. � Voc� n�o acha que ela e Leane v�o voltar mansinhas para Elaida, acha?</p><p>Havia esse detalhe. Elaida ia mandar arrancar a cabe�a de Siuan e de Leane antes que elas pudessem sequer fazer uma mesura.</p><p>� Mas isso ainda n�o leva em conta o problema de Jaril e Seve � insistiu Nynaeve.</p><p>� Vamos pensar em alguma coisa. N�o � como se fossem as primeiras crian�as refugiadas cuidadas por algu�m que n�o � parente. � Elayne decerto estava achando que o sorriso de covinhas que deu era reconfortante. � S� precisamos nos concentrar em arranjar uma solu��o. E temos no m�nimo que esperar Thom voltar de Amad�cia. N�o posso deix�-lo para tr�s.</p><p>Nynaeve jogou as m�os para cima, frustrada. Se a apar�ncia das pessoas refletisse a personalidade, Elayne seria uma mula esculpida em pedra. A garota tinha tomado Thom Merrilin como substituto do pai, que morrera quando ela ainda era pequena. E �s vezes parecia pensar que o homem n�o conseguiria nem encontrar o caminho at� a mesa de jantar se ela n�o o tomasse pela m�o.</p><p>O �nico aviso foi a sensa��o de algu�m abra�ando <emphasis>saidar</emphasis> ali perto, ent�o um fluxo de Ar fez a porta se abrir, e Tarna Feir adentrou o quarto. Nynaeve e Elayne se levantaram de um salto. Uma Aes Sedai era uma Aes Sedai, e em alguns casos bastara a palavra de Tarna para que a pessoa se juntasse aos demais ofensores enterrando lixo nas horas vagas.</p><p>A loura encarou as duas Aceitas com uma express�o arrogante no rosto que parecia feito de m�rmore branco.</p><p>� Pois bem. A Rainha de Andor e a bravia incapaz.</p><p>� Ainda n�o sou rainha, Aes Sedai � respondeu Elayne, com uma polidez fria. � S� quando for coroada no Grande Sal�o. E s� se minha m�e estiver morta.</p><p>Tarna abriu um sorriso mais g�lido do que uma tempestade de neve.</p><p>� � claro. Tentaram manter sua presen�a aqui em segredo, mas sempre h� boatos e sussurros. � Ela olhou as camas estreitas e o banquinho bambo, as roupas penduradas nos grampos presos �s paredes de gesso rachado. � Imaginei que teriam alojamento melhor, considerando todos os milagres por que s�o respons�veis. Se estivessem na Torre, onde � o seu lugar, n�o seria surpresa se as duas j� estivessem prestes a ser testadas para o xale.</p><p>� Obrigada � respondeu Nynaeve, querendo mostrar que podia ser t�o educada quanto Elayne. Tarna a encarou. Aqueles olhos azuis quase faziam sua express�o parecer calorosa. Ent�o acrescentou, mais do que depressa: � Aes Sedai.</p><p>Tarna virou-se de volta para Elayne.</p><p>� Voc� tem um lugar especial no cora��o da Amyrlin, assim como Andor. Voc� n�o conseguiria nem acreditar na enormidade de recursos empregados nas buscas pelo seu paradeiro. Sei que ela ficaria muito feliz se voc� retornasse comigo a Tar Valon.</p><p>� Meu lugar � aqui, Aes Sedai. � A voz de Elayne ainda era agrad�vel, mas a jovem mantinha o queixo erguido, em uma postura t�o arrogante que competia com a de Tarna. � Retornarei � Torre junto com as outras irm�s.</p><p>� Entendo � respondeu a Vermelha, impass�vel. � Muito bem. Agora nos d� licen�a. Quero conversar a s�s com a bravia.</p><p>Nynaeve e Elayne se entreolharam, mas n�o havia nada que a Filha-herdeira pudesse fazer al�m de se curvar em uma mesura e se retirar.</p><p>Quando a porta se fechou, a mudan�a na postura de Tarna foi surpreendente. A mulher se sentou na cama de Elayne e p�s as pernas para cima, cruzou os p�s, recostou-se contra a cabeceira lascada e cruzou as m�os sobre a barriga. Seu rosto relaxou, e ela at� sorriu.</p><p>� Voc� parece tensa. N�o fique. Eu n�o mordo.</p><p>Nynaeve teria acreditado mais se os olhos da Aes Sedai tamb�m tivessem mudado junto com a postura. O sorriso n�o chegava aos olhos � pelo contr�rio, os olhos pareciam dez vezes mais duros, cem vezes mais g�lidos, por causa do contraste. Nynaeve sentiu calafrios.</p><p>� Eu n�o estou tensa � retrucou, r�gida, plantando os p�s no ch�o para n�o os remexer.</p><p>� Ah. Ent�o est� ofendida? Por qu�? Foi porque a chamei de �bravia�? Eu tamb�m sou bravia, sabe. Foi a pr�pria Galina Casban que desfez meu bloqueio, com uma boa surra. Ela j� sabia qual seria a minha Ajah muito antes que eu mesma soubesse e manifestou seu interesse por mim. Galina sempre faz isso com as que ela acredita que escolher�o a Ajah Vermelha. � Tarna balan�ou a cabe�a, rindo, os olhos ainda frios e cortantes. � Ah, as horas que passei gritando e chorando antes de conseguir encontrar <emphasis>saidar</emphasis> sem estar com os olhos bem fechados� n�o d� para urdir tramas sem enxergar os fluxos. Fiquei sabendo que Theodrin est� usando m�todos mais delicados com voc�.</p><p>Nynaeve remexeu os p�s involuntariamente. Theodrin n�o tentaria uma coisa dessas! Tinha certeza disso. Retesar os joelhos n�o diminu�a as reviravoltas em seu est�mago. Ent�o n�o deveria se sentir ofendida? Era para ignorar o �incapaz� tamb�m?</p><p>� Sobre o que queria falar comigo, Aes Sedai?</p><p>� A Amyrlin quer ver Elayne em seguran�a, mas, sob muitos aspectos, voc� � igualmente importante. Talvez at� mais. O que voc� guarda na cabe�a sobre Rand al�Thor pode ser inestim�vel. Isso e o que tem na cabe�a de Egwene al�Vere. Sabe onde ela est�?</p><p>Nynaeve queria secar o suor da testa, mas manteve as m�os firmes ao lado do corpo.</p><p>� Faz muito tempo que n�o vejo Egwene, Aes Sedai. � Fazia meses desde o �ltimo encontro das duas, em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. � Se me permite a pergunta, quais s�o as inten��es da� � Ningu�m ali em Salidar chamava Elaida de Amyrlin, mas ela supostamente devia respeito �quela Vermelha � sua frente. � � da Amyrlin em rela��o a Rand?</p><p>� Inten��es, crian�a? Ele � o Drag�o Renascido. A Amyrlin sabe disso e pretende dar a ele todas as honras merecidas. � A voz de Tarna ganhou um toque de intensidade. � Pense, crian�a. Este grupo daqui vai voltar assim que as irm�s perceberem as consequ�ncias de seus atos, mas cada dia que se passa pode fazer a diferen�a. J� faz tr�s mil anos que a Torre Branca orienta os governantes � sem as Aes Sedai, teria havido mais guerras, e muito mais sangrentas. O mundo corre o risco de cair em desgra�a se al�Thor n�o receber essa orienta��o. S� que, assim como n�o d� para urdir a trama sem ver os fluxos, n�o se pode orientar um completo desconhecido. O melhor para al�Thor seria que voc� voltasse comigo e repassasse tudo o que sabe sobre ele � Amyrlin. E que voltasse logo agora, n�o daqui a semanas ou meses. Isso tamb�m seria o melhor para voc�. N�o d� para ser elevada a Aes Sedai aqui: o Bast�o dos Juramentos est� na Torre. A testagem s� pode ser feita em Tar Valon.</p><p>O suor escorria, fazendo arder os olhos de Nynaeve, mas ela se recusava a piscar. Aquela mulher achava que podia suborn�-la?</p><p>� A verdade � que nunca passei muito tempo com ele. Eu morava na aldeia, sabe, e ele morava numa fazenda mais afastada na Floresta do Oeste. S� me lembro de um garoto que se recusava a ouvir a voz da raz�o. Ele precisava ser obrigado a cumprir com suas obriga��es, �s vezes at� arrastado. Isso quando garoto, � claro. Ele pode muito bem ter mudado. Claro que quase todos os homens n�o passam de garotos crescidos, mas ele pode ter mudado.</p><p>Tarna apenas a encarou por um longo instante � longo demais, sob aquela mirada g�lida.</p><p>� Bom � disse a Vermelha, enfim, e levantou-se t�o depressa que Nynaeve quase deu um passo para tr�s, mas n�o havia para onde recuar naquele quartinho min�sculo. O sorriso inquietante permanecia. � Foi um grupo estranho o que se reuniu aqui. N�o vi nenhuma das duas, mas ouvi dizer que Siuan Sanche e Leane Sharif est�o abrilhantando a cidade com sua presen�a. N�o � o tipo de gente a quem uma mulher s�bia gostaria de se associar. E talvez os outros tamb�m n�o sejam. Seria muito melhor para voc� se viesse comigo. Partirei pela manh�. Quero que me avise ainda hoje � noite se devo ou n�o esperar por voc� na estrada.</p><p>� Receio que n�o�</p><p>� Pense a respeito, crian�a. Essa pode ser a decis�o mais importante da sua vida. Pense bem. � A m�scara de cordialidade esvaneceu, e Tarna saiu do quarto.</p><p>Os joelhos de Nynaeve cederam, e ela despencou na cama. A mulher despertara tantas emo��es que ela n�o fazia ideia de como lidar com tudo aquilo. Sentia a raiva e a inquietude se revolvendo dentro de si em um frenesi. Queria que a Vermelha tivesse algum meio de se comunicar com as Aes Sedai da Torre que estavam atr�s de Rand. Ah, queria ser uma mosquinha para ouvir quando tentassem usar o que ela dissera a respeito dele. Aquelas mulheres tentavam suborn�-la. Tentavam deix�-la com medo � e tinham sucesso, precisava admitir. Tarna tinha tanta certeza de que as Aes Sedai ali acabariam se ajoelhando aos p�s de Elaida� A Vermelha decidira que a rendi��o era inevit�vel, era apenas uma quest�o de tempo. E ser� que a parte final havia sido uma alus�o a Logain? Nynaeve suspeitava de que Tarna soubesse mais de Salidar do que o Sal�o ou Sheriam imaginavam. Talvez Elaida realmente tivesse defensoras ali na cidade.</p><p>Ficou esperando Elayne voltar, mas, depois de quase meia hora sem nem sinal da Filha-herdeira, saiu atr�s da garota. A princ�pio apenas andou pelas ruas de terra batida, depois apertou o passo, parando aqui e ali para espiar a multid�o de cabe�as de cima de um carro��o, escalando um barril virado para baixo ou uma plataforma de pedra. O sol j� estava bem baixo, quase na linha das �rvores, quando ela voltou para o quarto, resmungando sozinha. E deu de cara com Elayne, que tamb�m acabava de chegar.</p><p>� Onde voc� se meteu? Achei que Tarna tinha lhe amarrado em algum canto!</p><p>� Estava pegando isto aqui com Siuan.</p><p>Elayne abriu a m�o. Na palma havia dois dos an�is de pedra retorcidos.</p><p>� Algum deles � o verdadeiro? Foi uma boa ir atr�s deles, mas voc� deveria ter tentado pegar o verdadeiro.</p><p>� Nada me fez mudar de opini�o, Nynaeve. Ainda acho melhor ficarmos.</p><p>� Mas Tarna�</p><p>� S� aumentou minhas certezas. Se formos embora, Sheriam e o Sal�o <emphasis>definitivamente </emphasis>v�o escolher a Torre em vez de Rand. Sei disso. � Ela p�s as m�os nos ombros de Nynaeve, que se deixou conduzir at� sentar-se na cama. Elayne ocupou a cama em frente e se inclinou para mais perto, enfatizando o que dizia: � Voc� se lembra do que me disse sobre usar a necessidade como guia para encontrar alguma coisa em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>? A gente precisa � de um jeito de convencer o Sal�o a n�o ir at� Elaida.</p><p>� Como? Que jeito? Se a hist�ria de Logain n�o basta�</p><p>� A gente vai saber quando encontrar � respondeu Elayne, com firmeza.</p><p>Nynaeve, absorta, passou os dedos pela tran�a grossa.</p><p>� E voc� vai aceitar ir embora se n�o encontrarmos nada? N�o gosto da ideia de ficar aqui, sentada, at� elas decidirem come�ar a nos vigiar.</p><p>� Vou aceitar ir embora, mas s� se voc� concordar em ficar se encontrarmos alguma coisa �til. Nynaeve, por mais que eu queira v�-lo, somos mais �teis aqui.</p><p>Nynaeve hesitou, ent�o concordou com um murm�rio. Parecia um acordo seguro. Como n�o tinham ideia do que procurar, ela achava que n�o havia a menor chance de encontrarem qualquer coisa de �til.</p><p>Se o dia j� estava passando devagar antes daquilo, agora parecia se arrastar. As duas foram para a fila de uma das cozinhas pegar os pratos de presunto fatiado, nabos e ervilhas. O sol parecia parado havia horas bem no topo das �rvores. Quase todos em Salidar se deitavam logo ap�s o p�r do sol, mas sempre restavam umas poucas luzes saindo das janelas, sobretudo na Pequena Torre, onde o Sal�o oferecia jantares para Tarna. Uma melodia de harpas volta e meia escapava da antiga estalagem � as Aes Sedai tinham encontrado um harpista razo�vel entre os soldados, ent�o mandaram o sujeito fazer a barba e se enfiar nas roupas chamativas dos m�sicos. As pessoas na rua circulavam a passos r�pidos diante da estalagem, apenas olhando de soslaio para o interior ou fazendo tanto esfor�o para ignorar a movimenta��o l� dentro que chegavam a tremer com a tens�o. Gareth Bryne, como sempre, era a exce��o. Ele fez sua refei��o sentado em um caixote de madeira no meio da rua, em um ponto em que seria visto por qualquer um do Sal�o que olhasse pela janela. Devagar, muito devagar, o sol foi deslizando por entre as �rvores. A escurid�o chegou de repente, sem o an�ncio do crep�sculo, e as ruas logo ficaram desertas. A melodia do harpista voltou a escapar da estalagem. Gareth Bryne permaneceu sentado no caixote, na beira da luz que sa�a de uma das janelas do Sal�o em festa. Nynaeve balan�ou a cabe�a � n�o sabia se o achava fant�stico ou idiota. Um pouco de cada, talvez.</p><p>S� depois de estar na cama com o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de pedra rajada preso ao cord�o em seu pesco�o, junto ao pesado anel de ouro de Lan, com a vela apagada, que ela se lembrou das instru��es de Theodrin. Bem, tarde demais para aquilo. E, de todo modo, a domanesa n�o teria como saber se Nynaeve tinha ou n�o dormido. E <emphasis>onde</emphasis> estava Lan?</p><p>A respira��o de Elayne foi ficando mais lenta. Nynaeve abra�ou o travesseirinho com um breve suspiro, e�</p><p>� se viu ao p� da cama vazia, encarando uma Elayne enevoada sob a t�nue luz da noite em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Ningu�m as via ali. Talvez Sheriam ou alguma Aes Sedai de seu c�rculo estivesse por perto, ou quem sabe Siuan ou Leane. Claro que ela e Elayne tinham o direito de visitar o Mundo dos Sonhos, mas n�o queriam ter que responder a perguntas sobre o que pretendiam fazer naquela noite. Elayne parecia ver aquilo como uma ca�ada � conscientemente ou n�o, se vestira como Birgitte: casaco verde e cal�as brancas. A jovem piscou para o arco de prata em suas m�os, e ele desapareceu junto com a aljava.</p><p>Nynaeve olhou para as pr�prias vestimentas e suspirou. Um vestido de baile de seda azul com flores douradas bordadas no decote baixo e em linhas tran�adas ao longo da saia volumosa. Sentia que cal�ava sapatilhas de festa de veludo. N�o importava muito o que a pessoa vestia em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas o que dera nela para sua mente escolher aquelas roupas?</p><p>� Voc� sabe que isso pode n�o dar certo, n�o sabe? � perguntou, mudando as roupas para o vestido de l� simples e os sapatos grossos t�picos de Dois Rios. Elayne n�o tinha o direito de sorrir daquele jeito. Um arco de prata. R�! � Precisamos ter pelo menos alguma ideia do que estamos procurando, precisamos de pelo menos uma leve no��o do que queremos.</p><p>� Vai ter que dar certo, Nynaeve. Pelo que voc� disse, as S�bias ensinaram que quanto mais forte a necessidade, melhor, e precisamos mesmo encontrar alguma coisa, ou a ajuda que prometemos a Rand vai por �gua abaixo. Vai sobrar s� o que Elaida estiver disposta a oferecer. Eu n�o vou permitir que isso aconte�a, Nynaeve. N�o vou.</p><p>� Abaixe esse nariz empinado. Eu tamb�m n�o vou permitir uma coisa dessas se puder fazer algo a respeito. � melhor a gente andar logo com isso.</p><p>Nynaeve deu a m�o a Elayne e fechou os olhos. Concentrou-se na necessidade de algo que ajudasse. Esperava que uma parte de si tivesse alguma ideia do que seria isso. Talvez nada acontecesse. Algo que ajudasse. De repente, tudo pareceu derreter � sua volta, e ela sentiu <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> inclinar e arremeter.</p><p>Abriu os olhos de supet�o. Inevitavelmente, cada passo baseado em sua necessidade era dado �s cegas e, embora a aproximassem de seu objetivo, qualquer um desses passos poderia jog�-la em um po�o de serpentes ou deix�-la cara a cara com um le�o em plena ca�a, pronto para lhe arrancar a perna.</p><p>N�o viu le�es, mas o que viu era perturbador. O brilho do sol indicava que j� era meio-dia, mas isso n�o a incomodou � o tempo ali transcorria de um jeito diferente. Ela e Elayne estavam de m�os dadas em uma rua de paralelep�pedos, rodeadas por edif�cios de tijolo e pedra � casas e lojas decoradas com sancas e frisos elaborados, os telhados de telha sustentando domos ornamentados, pontes de pedra ou madeira se elevando em arco sobre as ruas, �s vezes at� tr�s ou quatro andares acima. Pilhas de lixo, roupas velhas e mob�lia quebrada se amontoavam pelos cantos das ruas, e ratos corriam em bandos, �s vezes parando para bater os dentes, destemidos, em desafio. Algumas pessoas apareciam de repente, tremeluzindo, e logo sumiam, trazidas por seus sonhos �s margens de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Um homem despencou de uma das pontes, aos berros, mas esvaneceu antes de chegar ao ch�o de pedras. Uma mulher de vestido rasgado gritava enquanto corria em dire��o a elas, mas tamb�m sumiu depois de poucos passos. Gritos e berros truncados ecoavam pelas ruas, e �s vezes se ouvia uma risada rouca e quase insana.</p><p>� N�o estou gostando nada disso � comentou Elayne, preocupada.</p><p>Ao longe, uma coluna branca feito neve se assomava acima da cidade, muito mais alta do que as torres ao redor � algumas, inclusive, ligadas por pontes t�o altas que faziam as grandes torres da �rea em que estavam parecerem baixas. As duas estavam em Tar Valon, na parte onde Nynaeve avistara Leane da �ltima vez. A antiga Curadora n�o falara muito abertamente sobre o que andava fazendo � alegando, com um sorriso, que buscava uma forma de manter a aura de mist�rio e assombro das Aes Sedai.</p><p>� N�o importa � declarou Nynaeve, corajosamente. � Ningu�m aqui em Tar Valon sequer sabe sobre o Mundo dos Sonhos. N�o vamos encontrar ningu�m.</p><p>Nynaeve sentiu o est�mago se revirar quando um homem apareceu de repente, com o rosto ensanguentado, cambaleando em dire��o a elas. O sujeito n�o tinha m�os, apenas cotocos esguichando sangue.</p><p>� N�o foi isso o que eu quis dizer � resmungou Elayne.</p><p>� Vamos logo. � Nynaeve fechou os olhos, concentrando-se no que precisavam encontrar.</p><p>Tudo mudou.</p><p>Estavam na Torre, em um dos corredores circulares com paredes cobertas de tape�arias. Uma garota gorducha em trajes de novi�a brotou a menos de tr�s passadas dali, arregalando os olhos ao v�-las.</p><p>� Por favor � choramingou a menina. � Por favor. � E desapareceu.</p><p>De repente, Elayne deu um grito:</p><p>� Egwene!</p><p>Nynaeve deu meia-volta, mas o corredor estava vazio.</p><p>� Eu vi a Egwene � insistiu Elayne. � Tenho certeza.</p><p>� Imagino que ela possa tocar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em um sonho comum, como qualquer outra pessoa � sugeriu Nynaeve. � Vamos continuar com o que viemos fazer.</p><p>Estava come�ando a sentir algo maior que desconforto. As duas deram as m�os outra vez. O que precisavam encontrar.</p><p>Tudo mudou.</p><p>N�o era um dep�sito comum. As paredes estavam cobertas de prateleiras e havia duas fileiras curtas de estantes no meio do aposento, cheias de caixas de v�rios formatos e tamanhos muito bem guardadas, algumas de madeira lisa, outras com entalhes ou envernizadas. Continham coisas enroladas em peda�os de pano; �s vezes pequenas imagens e estatuetas; figuras peculiares de vidro, metal, cristal, pedra ou porcelana esmaltada. Nynaeve n�o precisava nem olhar com mais aten��o para saber que deviam ser objetos do Poder �nico, muito provavelmente <emphasis>ter�angreal</emphasis>, talvez at� alguns <emphasis>angreal</emphasis> e <emphasis>sa�angreal</emphasis>. Dentro da Torre, uma cole��o de objetos t�o d�spares e guardada com tanto esmero e ordena��o n�o podia ser de outra coisa.</p><p>� Acho que n�o faz muito sentido continuar explorando esse lugar � comentou Elayne, desanimada. � N�o sei o que poder�amos conseguir aqui.</p><p>Nynaeve deu um leve pux�o na tran�a. Se tivesse alguma coisa ali que pudessem usar � devia haver, a n�o ser que as S�bias tivessem mentido �, ent�o devia ter um jeito de conseguir chegar a essa coisa no mundo desperto. No tempo que passou na Torre, os <emphasis>angreal</emphasis> e similares n�o eram t�o bem guardados � em geral, eram vigiados apenas por um cadeado e uma novi�a. A porta dali era de t�buas pesadas, trancada por um pesado cadeado de ferro preto. Sem d�vida estava trancado, mas ela o visualizou aberto e empurrou a porta.</p><p>O dep�sito se abria para um aposento da guarda. Uma das paredes estava coberta por camas estreitas empilhadas, enquanto a outra continha fileiras de estantes com velhas alabardas. Atr�s de uma mesa maci�a e surrada rodeada de banquetas ficava outra porta, refor�ada com ripas de ferro, com uma pequena janela gradeada.</p><p>Assim que ela se virou de volta para Elayne, percebeu que a porta estava fechada outra vez.</p><p>� Se a gente n�o conseguir pegar o que precisa aqui, talvez d� para encontrar algo parecido em algum outro lugar. Quer dizer, talvez alguma outra coisa funcione. Pelo menos agora temos uma pista. Acho que essas coisas aqui s�o <emphasis>ter�angreal</emphasis> que ningu�m descobriu como usar. S� por isso estariam guardados desse jeito. Pode ser que at� mesmo canalizar perto deles seja perigoso.</p><p>Elayne a encarou com um olhar ir�nico antes de responder:</p><p>� Mas se tentarmos a busca pela necessidade outra vez, n�o vamos acabar voltando para c�? A n�o ser que� A n�o ser que as S�bias tenham lhe ensinado como eliminar um local da busca.</p><p>As S�bias n�o tinham ensinado, n�o estavam nem um pouco �vidas por compartilhar informa��o com ela. Mas tudo era poss�vel naquele lugar, onde se podia abrir um cadeado s� com a for�a do pensamento.</p><p>� Vamos fazer exatamente isso. Vamos nos concentrar em como o que queremos n�o est� em Tar Valon. � Franzindo o cenho para as prateleiras, Nynaeve acrescentou: � E aposto que vai ser algum <emphasis>ter�angreal</emphasis> que ningu�m sabe como usar. � S� n�o sabia como aquilo ia ajudar a convencer o Sal�o a apoiar Rand.</p><p>� Precisamos de um <emphasis>ter�angreal</emphasis> que n�o esteja em Tar Valon � disse Elayne, como se tentasse se convencer daquilo. � Muito bem. Vamos em frente.</p><p>Ela estendeu as m�os, e, depois de um instante, Nynaeve as segurou. Ainda n�o conseguia entender o que a possu�ra para insistir em continuar a busca. Queria ir embora de Salidar, n�o encontrar um motivo para ficar. Mas se aquilo lhes trouxesse uma garantia de que as Aes Sedai de Salidar apoiariam Rand�</p><p>Pensou no que precisavam. De um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Que n�o estivesse em Tar Valon. Era disso que precisavam.</p><p>Tudo mudou<emphasis>.</emphasis></p><p>Fosse l� onde estivessem, a cidade banhada pela luz da aurora com certeza n�o era Tar Valon. A menos de vinte passadas dali a rua larga e pavimentada transformava-se em uma ponte de pedras com est�tuas nas duas extremidades, a base arqueada unindo as duas margens de pedra de um canal. A cinquenta passadas, no sentido oposto, havia outra ponte. Torres delgadas circundadas por varandas se elevavam por toda a parte, feito lan�as cravadas em fatias de estruturas redondas e ornamentadas. Todas as constru��es eram brancas, com portas e janelas com formato de grandes arcos pontiagudos, �s vezes duplos ou triplos. Os edif�cios maiores ostentavam compridas varandas de ferro forjado pintadas de branco com vista para as ruas e os canais, mas com telas de ferro em desenhos intrincados encobrindo quaisquer ocupantes; no topo, domos brancos com faixas douradas ou escarlates se erguiam at� formarem pontas agudas, t�o altas quanto as torres.</p><p>Nynaeve se concentrou naquilo que precisavam.</p><p>Tudo mudou.</p><p>Poderia muito bem ser outra cidade. A rua era estreita e com pavimento irregular, os dois lados completamente cobertos de constru��es de cinco e seis andares com as paredes rebocadas de massa branca j� descascando em v�rios pontos, deixando os tijolos � mostra. N�o havia varandas. Moscas zumbiam pelo ar, e era dif�cil dizer se ainda era alvorada, com o ch�o tomado pelas sombras dos edif�cios.</p><p>As duas se entreolharam. Parecia improv�vel encontrar um <emphasis>ter�angreal</emphasis> ali, mas j� tinham ido longe demais para parar. Tinham que ir atr�s do que precisavam.</p><p>Tudo mudou<emphasis>.</emphasis></p><p>Nynaeve espirrou antes de conseguir abrir os olhos, ent�o espirrou outra vez assim que os abriu. Cada vez que mexia os p�s, subia uma nuvem de poeira. O dep�sito n�o era nada parecido com o da Torre. Um pequeno aposento lotado de ba�s, barris e engradados, empilhados de todas as maneiras poss�veis, quase sem deixar espa�o entre si, e tudo sob uma grossa camada de poeira. Nynaeve deu um espirro t�o forte que achou que seus sapatos iam sair dos p�s� e a poeira desapareceu. Toda. Elayne abriu um sorrisinho presun�oso. Nynaeve n�o disse uma palavra, apenas visualizou o recinto na cabe�a, mas <emphasis>sem</emphasis> poeira. Devia ter pensado nisso.</p><p>Ela encarou o amontoado de tralhas e soltou um suspiro. O lugar n�o era maior que o quartinho onde seus corpos dormiam, em Salidar, mas vasculhar aquilo tudo�</p><p>� Vai levar semanas.</p><p>� Podemos tentar mais uma vez. Talvez isso nos mostre as coisas que precisamos examinar. � Elayne soava t�o descrente quanto Nynaeve se sentia, mas era uma boa sugest�o.</p><p>Nynaeve fechou os olhos, e mais uma vez� tudo mudou.</p><p>Quando ela abriu os olhos de novo, estava parada no fim da fileira de tralhas mais afastada da porta, encarando um alto ba� quadrado de madeira que ia at� sua cintura. As al�as estavam enferrujadas, e o pr�prio ba� parecia ter passado os �ltimos vinte anos sob golpes de martelos. Nynaeve n�o conseguia imaginar um local mais improv�vel para armazenar qualquer coisa de �til, ainda mais um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Mas viu Elayne ali, parada bem a seu lado, encarando o mesmo ba�.</p><p>Nynaeve p�s a m�o na tampa � aquelas dobradi�as <emphasis>iam</emphasis> abrir sem que ela precisasse for��-las � e a empurrou para cima. N�o houve sequer um rangido. L� dentro, duas espadas extremamente enferrujadas e uma placa peitoral com um buraco no meio e no mesmo tom amarronzado jaziam sobre o restante do conte�do: um emaranhado de pacotes embrulhados em tecidos que pareciam ter sido reaproveitados a partir de roupas velhas e dos resqu�cios de alguma cozinha.</p><p>Elayne remexeu em um pequeno caldeir�o com a al�a quebrada.</p><p>� N�o sei se levar�amos semanas, mas pelo menos o resto da noite.</p><p>� Quer tentar outra vez? � sugeriu Nynaeve. � Mal � que n�o faria.</p><p>Elayne deu de ombros. Olhos fechados. O que precisavam.</p><p>Nynaeve estendeu a m�o e tocou um objeto redondo e r�gido, enrolado em trapos podres. Quando abriu os olhos, viu a m�o de Elayne pr�xima � sua. A Filha-herdeira sorria de orelha a orelha.</p><p>N�o foi f�cil tirar o embrulho do ba�. N�o era pequeno, e tiveram que revirar casacos esfarrapados, panelas amassadas e embrulhos que se desintegravam revelando estatuetas, animais entalhados e todo tipo de bobagem. Quando enfim desenterraram o embrulho, tiveram que ergu�-lo juntas. Era um disco largo e achatado envolto em tecido velho. Quando afastaram os trapos que o cobriam, o objeto revelou-se uma tigela rasa de cristal espesso com mais de dois p�s de di�metro, o interior coberto de entalhes profundos que pareciam nuvens formando redemoinhos.</p><p>� Nynaeve � come�ou Elayne, hesitante �, acho que isso aqui �</p><p>Nynaeve levou um susto e quase largou a tigela, que de repente assumiu um tom azul bem claro, e as nuvens entalhadas come�aram a se mover devagar. Uma fra��o de segundo depois, o cristal estava transparente outra vez, e as nuvens entalhadas, paradas. Mas Nynaeve tinha certeza de que n�o eram as mesmas nuvens de antes.</p><p>� �, sim! � exclamou Elayne. � � um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. E aposto o que voc� quiser que tem alguma rela��o com o clima. Mas n�o sou forte o suficiente para us�-lo sozinha.</p><p>Engolindo em seco, Nynaeve tentou fazer o cora��o parar de palpitar.</p><p>� Pare com isso! Voc� ainda n�o entendeu que pode acabar se estancando se mexer com um <emphasis>ter�angreal</emphasis> sem saber o que ele faz?</p><p>A tola teve a ousadia de parecer surpresa.</p><p>� Mas � <emphasis>isso</emphasis> o que viemos procurar, Nynaeve. Voc� acha que existe <emphasis>algu�m</emphasis> que saiba mais sobre os <emphasis>ter�angreal</emphasis> do que eu?</p><p>Nynaeve fungou. N�o era s� porque Elayne estava certa que n�o merecera a advert�ncia.</p><p>� N�o estou dizendo que n�o seria maravilhoso se isso fizer alguma coisa com o clima, porque �. S� n�o vejo como isso pode ser o que a gente precisa. Esse neg�cio n�o vai fazer o Sal�o mudar de opini�o em rela��o a Rand.</p><p>� O que voc� precisa nem sempre � o que voc� quer � respondeu Elayne. � Era o que Lini costumava dizer quando me proibia de cavalgar ou de subir em �rvores, mas talvez tamb�m se aplique aqui.</p><p>Nynaeve fungou com desd�m outra vez. Talvez at� se aplicasse, mas naquele momento ela queria ter o que queria. Era pedir demais?</p><p>A tigela sumiu de suas m�os, e foi a vez de Elayne levar um susto, resmungando sobre nunca se acostumar com aquilo. O ba� tamb�m se fechou.</p><p>� Nynaeve, quando eu canalizei dentro da tigela, senti� Olha, esse n�o � o �nico <emphasis>ter�angreal</emphasis> aqui. Acho que tamb�m tem algum <emphasis>angreal</emphasis>, talvez at� um <emphasis>sa�angreal</emphasis>.</p><p>� Aqui? � perguntou Nynaeve, incr�dula, encarando o quartinho atulhado. Mas, se havia um, por que n�o dois? Ou dez? Ou cem? � Luz, n�o canalize de novo! E se voc� sem querer fizer algum deles se manifestar? Voc� poderia acabar estanca�</p><p>� Eu sei o que estou fazendo, Nynaeve. De verdade, sei mesmo. Agora, o que <emphasis>n�s</emphasis> temos que fazer � descobrir exatamente onde fica este quarto.</p><p>O que n�o foi tarefa f�cil. Embora as dobradi�as parecessem massas de ferrugem maci�a, a porta n�o era um obst�culo � n�o em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Os problemas vieram logo depois. O corredor estreito e escuro l� fora possu�a apenas uma janela, na outra extremidade. Atrav�s dela, n�o se via nada al�m da parede branca caiada descascada do outro lado da rua. E tamb�m n�o adiantou descer os estreitos lances de escada de pedra. A rua l� fora poderia ter sido a primeira que tinham visto naquela �rea da cidade, fosse l� onde fosse � as constru��es eram todas t�o parecidas que n�o serviam para se localizarem. As pequeninas lojinhas ao longo da rua n�o tinham placas, e s� o que indicava as estalagens eram as portas pintadas de azul � o vermelho parecia indicar as tavernas.</p><p>Nynaeve avan�ou � procura de algum marco, qualquer coisa que pudesse indicar sua localiza��o. Algo que informasse qual era aquela cidade. Cada rua onde entrava era igual � anterior, mas ela n�o demorou a encontrar uma ponte que, ao contr�rio das outras, era de pedra lisa e n�o tinha est�tuas. Subindo at� o centro da plataforma arqueada, viu apenas o canal, que nos dois sentidos se encontrava com outros, al�m de mais pontes e mais constru��es de massa branca flocada.</p><p>De s�bito, ela percebeu que estava sozinha.</p><p>� Elayne � chamou.</p><p>Sil�ncio, exceto pelo eco de sua pr�pria voz.</p><p>� Elayne? Elayne!</p><p>A loura apareceu de volta em um canto, perto da base da ponte.</p><p>� A� est� voc�! � exclamou a jovem. � Nossa, este lugar faz uma toca de coelho parecer bem planejada. Desviei os olhos por um segundo, e voc� sumiu. Encontrou alguma coisa?</p><p>� Nada. � Nynaeve olhou outra vez para o canal, antes de se juntar � amiga. � Nada �til.</p><p>� Pelo menos d� para ter certeza de onde estamos. Ebou Dar. S� pode ser. � O casaco curto e as cal�as largas de Elayne se transformaram em um vestido de seda verde com renda saindo pelas mangas, gola alta com bordados elaborados e um decote estreito, por�m bastante profundo e revelador. � N�o consigo pensar em nenhuma outra cidade com tantos canais al�m de Illian, e isso aqui com certeza n�o � Illian.</p><p>� Espero que n�o � retrucou Nynaeve, sem for�as.</p><p>Nunca tinha lhe ocorrido que uma busca �s cegas poderia lev�-las ao covil de Sammael. Reparou que o pr�prio vestido tamb�m tinha mudado para uma seda azul-marinho mais adequada a viagens, completado com uma capa de linho. Fez a capa desaparecer, mas deixou o restante como estava.</p><p>� Voc� ia gostar de Ebou Dar, Nynaeve. As Mulheres S�bias de l� sabem mais de ervas do que ningu�m. Conseguem curar de tudo. E � bom que consigam, mesmo, porque l� o povo duela como se trocasse de roupa, sejam nobres ou plebeus, homens ou mulheres. � Elayne deu uma risadinha. � Thom disse que aqui tinha leopardos, mas eles foram embora porque achavam o povo de Ebou Dar muito nervosinho.</p><p>� Muito interessante � respondeu Nynaeve �, mas de que me interessa se esse povo passa o dia se esbofeteando? Elayne, isso aqui foi t�o �til quanto se tiv�ssemos deixado os an�is de lado e ido dormir. Eu n�o conseguiria voltar �quele quarto nem se fosse para receber o xale. Se pelo menos tiv�ssemos como fazer um mapa� � Ela fez uma careta. Era melhor pedir asas no mundo desperto: se pudessem sair de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> com um mapa, poderiam sair com a tigela.</p><p>� Ent�o teremos que ir procurar em Ebou Dar � declarou Elayne, com firmeza. � No mundo real. Pelo menos saberemos em que <emphasis>parte</emphasis> da cidade come�ar.</p><p>Nynaeve se animou. Ebou Dar ficava a apenas algumas milhas de Salidar, descendo o Rio Eldar.</p><p>� Parece uma �tima ideia. E vamos poder dar no p� antes que tudo desabe na nossa cabe�a.</p><p>� S�rio, Nynaeve? Voc� ainda acha que isso � o que importa?</p><p>� � uma das coisas que importam. Consegue pensar em alguma outra coisa para fazer aqui? � Elayne balan�ou a cabe�a. � Ent�o � melhor voltarmos. Quero dormir de verdade esta noite.</p><p>N�o dava para saber quanto tempo passava no mundo desperto quando se estava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> � �s vezes uma hora l� correspondia a uma hora no Mundo dos Sonhos, mas �s vezes era um dia ou mais. Por sorte, a rec�proca n�o parecia verdadeira, ou pelo menos n�o tanto, ou correriam o risco de morrer de fome durante o sono.</p><p>Nynaeve saiu do sonho�</p><p>� e abriu os olhos, encarando o travesseiro, t�o empapado de suor quanto ela pr�pria. Nenhuma brisa soprava pela janela aberta. O sil�ncio se abatera sobre Salidar, e o som mais alto eram os arrulhos agudos das gar�as. Ela se sentou, desatou o n� do cord�o no pesco�o e removeu o anel de pedra retorcido, pausando um instante para tocar o robusto anel de ouro de Lan. Elayne se remexeu, ent�o se sentou, bocejando, e canalizou para acender um toco de vela.</p><p>� Acha que vai adiantar de alguma coisa? � perguntou Nynaeve, baixinho.</p><p>� N�o sei. � Elayne se deteve para abafar um bocejo com o dorso da m�o. Como ela conseguia ser bonita at� bocejando, com os cabelos bagun�ados e a bochecha com marcas do travesseiro? Era um mist�rio que as Aes Sedai deveriam investigar. � O que eu sei � que aquela tigela talvez possa fazer alguma coisa em rela��o ao clima. E sei que um esconderijo de <emphasis>ter�angreal</emphasis> e <emphasis>angreal</emphasis> precisa cair nas m�os certas. � nosso dever entreg�-lo ao Sal�o. Ou pelo menos a Sheriam. E sei que, se isso n�o fizer com que elas apoiem Rand, vou continuar buscando at� encontrar algo que fa�a. E sei que quero dormir. Podemos continuar esta conversa de manh�?</p><p>Sem esperar resposta, a Filha-herdeira apagou a vela, enroscou-se outra vez na cama e respirou fundo. As respira��es lentas e intensas do sono come�aram assim que ela encostou a cabe�a no travesseiro.</p><p>Nynaeve se esticou outra vez, encarando o teto em meio � escurid�o. Pelo menos em breve estariam a caminho de Ebou Dar. No dia seguinte, talvez. No m�ximo um ou dois dias depois, j� que precisariam se aprontar para a jornada e parar algum barco de passagem. Pelo menos�</p><p>Ela de repente se lembrou de Theodrin. Se levassem dois dias para se aprontar, a domanesa iria querer duas sess�es � isso era t�o certo como um pato tinha penas. E a mulher esperava que Nynaeve n�o dormisse � noite. Bem, Theodrin n�o tinha como saber, mas�</p><p>Suspirando pesadamente, ela saiu da cama. N�o havia muito espa�o para caminhar, mas usou todo o espa�o dispon�vel, ficando mais irritada a cada minuto. S� queria ir embora. J� tinha dito que n�o possu�a muito talento para a rendi��o, mas talvez estivesse se aprimorando na arte da fuga. Seria maravilhoso poder canalizar quando bem entendesse. Nynaeve nem percebeu as l�grimas que come�aram a rolar por seu rosto.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 14</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Sonhos e pesadelos</p></title><p>Quando viu Elayne e Nynaeve, Egwene n�o saiu do sonho � ela pulou fora. N�o voltou para seu corpo adormecido em Cairhien, pois a noite estava apenas come�ando. Em vez disso, foi explorar o vasto negrume pontilhado de luzes cintilantes que pareciam piscar, muitas mais do que havia estrelas no mais l�mpido dos c�us, cada uma n�tida e distinta, at� onde a vista alcan�ava. Embora ela na verdade n�o tivesse olhos ali. Egwene flutuava sem forma definida no infinito entre <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> e o mundo desperto, a fenda estreita entre sonho e realidade.</p><p>Se tivesse um cora��o, ele estaria martelando feito um tambor desenfreado. Egwene achava que n�o tinha sido vista, mas o qu�, em nome da Luz, aquelas duas estavam fazendo <emphasis>l�</emphasis>, naquela parte da Torre que n�o guardava nada de importante? Em suas excurs�es noturnas, Egwene tinha o cuidado de evitar o gabinete da Amyrlin, os alojamentos das novi�as e at� os das Aceitas. Sempre parecia que, caso Nynaeve ou Elayne � ou ambas � n�o estivessem em um daqueles lugares, haveria alguma outra pessoa. Podia ter falado com as amigas, claro � elas com certeza guardariam segredo �, mas algo lhe disse que era melhor n�o. Sonhara com aquilo, e a sensa��o tinha sido de um pesadelo. N�o do tipo que faz a pessoa acordar suando frio, e sim aqueles pesadelos que fazem quem os sonha ficar se virando, agonizante, de um lado para o outro. Aquelas outras mulheres� Ser� que as Aes Sedai de Salidar sabiam que estranhos perambulavam pela Torre no Mundo dos Sonhos? Bom, eram estranhos para ela, ao menos. E, se as mulheres j� n�o soubessem, n�o tinha como alert�-las � n�o sabia como. Era tudo t�o frustrante!</p><p>O grande oceano de escurid�o cintilante criava um redemoinho ao seu redor, parecendo se mover enquanto ela permanecia onde estava. Egwene nadou confiante, como um peixe nativo daquele mar de escurid�o e luz � assim como os peixes, ela n�o precisava pensar no que fazia para se mover por ali. Aquelas luzes tremeluzentes eram sonhos, todos os sonhos de todas as pessoas do mundo. De todos os mundos, de lugares que n�o eram exatamente o mundo que Egwene conhecia, de mundos que n�o tinham nada a ver com o seu. Verin Sedai tinha sido a primeira a lhe falar sobre aqueles lugares, e as S�bias afirmavam que era exatamente isso � e, espiando, ela mesma avistara coisas em que simplesmente n�o podia acreditar, nem mesmo em sonho. N�o eram pesadelos � que sempre pareciam banhados em vermelho, azul ou no cinza turvo das sombras profundas �, e sim sonhos repletos de coisas imposs�veis. Melhor evit�-los, j� que claramente n�o pertencia �queles mundos. Espionar aqueles sonhos era como se ver cercada por espelhos quebrados, com tudo girando, tornando imposs�vel distinguir o que estava em cima e o que estava embaixo. S� de pensar sentia o est�mago querendo se esvaziar � e, se fosse embora com aquela sensa��o, mas sem ter como alivi�-la justamente por <emphasis>n�o ter</emphasis> um est�mago, a vontade voltaria assim que retornasse ao pr�prio corpo. E n�o era nada bom acordar vomitando.</p><p>Aprendera algumas coisas naquelas aventuras solit�rias, conhecimento que somara aos ensinamentos das S�bias � chegara at� a se aventurar onde as Andarilhas do Sonho Aiel a teriam impedido de entrar. Mas, ainda assim� tinha certeza de que saberia mais, muito mais, se tivesse ajuda de alguma Andarilha dos Sonhos. Claro que a mulher diria que aquilo ainda era perigoso demais, para n�o falar em proibido, mas tamb�m sugeriria as melhores t�ticas a tentar. Egwene j� estava bem avan�ada, j� ultrapassara as li��es mais simples, e agora as solu��es vinham f�ceis � bem, n�o t�o f�cil assim, nunca era realmente f�cil, apenas menos dif�cil. Ela chegara a um ponto em que era capaz de descobrir sozinha qual seria o passo seguinte, mas esses sempre seriam passos que as S�bias Andarilhas dos Sonhos j� haviam trilhado muito antes. Aquelas mulheres poderiam ensinar em uma noite, em uma hora, o que Egwene levava um m�s para dominar sozinha. Mas s� ensinariam quando decidissem que ela estava pronta � nunca antes. Isso era t�o irritante� s� queria aprender. Aprender tudo. Imediatamente.</p><p>Todas as luzes pareciam id�nticas, mas Egwene aprendera a reconhecer algumas � s� n�o sabia dizer exatamente como ou por qu�, o que a deixava bem irritada. Nem mesmo as S�bias entendiam por qu�, mas, depois que identificava a quem pertencia um sonho, conseguia encontrar os outros sonhos daquela pessoa feito uma flecha bem mirada acertando o alvo � e n�o importava se quem sonhava estivesse do outro lado do mundo. Aquela luz ali era de Berelain, a Primeira de Mayene, mulher que Rand deixara no comando de Cairhien. Egwene sempre ficava desconfort�vel olhando os sonhos de Berelain. Eles em geral n�o eram muito diferentes dos sonhos de qualquer outra mulher que se interessasse igualmente por poder, pol�tica e os vestidos da �ltima moda, mas Berelain �s vezes tinha sonhos com homens � inclusive alguns com conhecidos seus � que faziam Egwene enrubescer s� de lembrar.</p><p>E aquele brilho discretamente embotado logo adiante era Rand, com os sonhos guardados por tr�s de um selo de prote��o tecido com <emphasis>saidin</emphasis>. Egwene quase parou � ficava um pouco ressentida de ser bloqueada por algo que n�o era capaz de ver ou sentir �, por�m decidiu deixar para l�. N�o queria perder mais uma noite com tentativas in�teis.</p><p>Aquele lugar distorcia as dist�ncias da mesma forma que <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> distorcia o tempo. Rand estava dormindo em Caemlyn � a menos que tivesse ido passear em Tear, coisa que Egwene gostaria muito de descobrir como ele fazia �, mas ela identificou uma luz conhecida bem perto do sonho dele: era Bair, que estava em Cairhien, a centenas de l�guas de Rand. Egwene tinha certeza absoluta de que, naquela noite, Rand n�o estava em Cairhien. <emphasis>Como</emphasis> ele fazia aquilo?</p><p>Egwene se afastou do sonho da S�bia na hora, os pontinhos de luzes passando t�o depressa que pareciam riscos. Provavelmente n�o fugiria se tamb�m tivesse visto os sonhos de Amys e Melaine, mas, se as outras duas Andarilhas dos Sonhos n�o estavam dormindo e sonhando, poderiam muito bem estar andando por entre os sonhos. E uma delas podia estar bem ali, pronta para investir contra ela e arrast�-la para fora daquele universo escuro e pontilhado � ou talvez at� para dentro do pr�prio sonho de Andarilha, onde teria mais controle sobre o ambiente. E Egwene duvidava de que fosse capaz de impedir o ataque, pelo menos n�o ainda. Estaria � merc� da Aiel que a encontrasse, seria apenas parte do sonho <emphasis>dela</emphasis>. Manter-se no controle de si mesma dentro do sonho de uma pessoa comum, que n�o tinha ideia do que estava acontecendo, j� era bem dif�cil, mas isso nem se comparava � dificuldade de escapar de tal sonho sem que a pr�pria pessoa parasse de sonhar com voc�, o que normalmente ela s� fazia ao acordar se voc� estava de fato l�, invadindo o sonho dela. Quando quem sonhava era uma Andarilha, t�o consciente do que acontecia no pr�prio sono quanto do mundo desperto, era imposs�vel. E isso s� na <emphasis>melhor</emphasis> das hip�teses.</p><p>Egwene s� ent�o reparou em como estava sendo tola. Era in�til correr. Se tivesse sido encontrada, Amys ou Melaine j� a teriam levado para outro lugar. Ali�s, podia muito bem estar correndo na dire��o das duas. As luzes que passavam depressa ao redor n�o desaceleraram, simplesmente pararam de vez. As coisas eram assim naquele lugar.</p><p>Frustrada, Egwene pensou um pouco no que fazer. Queria aprender o m�ximo que conseguisse a respeito de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas tinha ido ali principalmente para dar uma olhada no que estava acontecendo no mundo. �s vezes, era como se as S�bias se recusassem a permitir que ela soubesse se o sol j� tinha ou n�o nascido se ela n�o pudesse ver por conta pr�pria. Diziam que ela n�o deveria se exaltar � mas como, se ficava desesperada s� de pensar em tudo o que n�o sabia? E era por isso que estava na Torre Branca, tinha tentado encontrar alguma pista sobre as inten��es de Elaida. E de Alviarin. Nunca encontrava nada muito concreto, apenas pistas � e poucas. Odiava n�o saber. Continuar na ignor�ncia era como se ver, de repente, cega e surda.</p><p>Bem, a Torre estava fora de quest�o � n�o havia op��o, j� que n�o tinha certeza de que partes eram seguras. O restante de Tar Valon j� fora eliminado depois da quarta vez em que quase deu de cara com uma mulher de pele acobreada que assentia, surpreendentemente satisfeita, enquanto examinava um est�bulo que parecia ter acabado de ser pintado de azul. Quem quer que fosse a mulher, era �bvio que n�o tinha ido a <emphasis>Tel�aran�rhiod </emphasis>por acidente � al�m de n�o ter desaparecido como um sonhador eventual, ela aparentava ser feita de n�voa. A mulher estava obviamente usando algum <emphasis>ter�angreal </emphasis>para acessar o mundo dos sonhos, o que quase com certeza significava que se tratava de uma Aes Sedai. Egwene s� sabia de um <emphasis>ter�angreal</emphasis> que dava acesso ao Mundo dos Sonhos sem canaliza��o, e ele estava com Elayne e Nynaeve. Ainda assim, aquela mulher esbelta e muito bonita, usando um vestido escandalosamente transparente, n�o parecia ser Aes Sedai havia muito tempo � parecia ter a idade de Nynaeve, e n�o aquele rosto et�reo de idade indefinida.</p><p>Egwene poderia ter tentado segui-la � afinal, a mulher talvez fosse da Ajah Negra, j� que as Negras tinham roubado alguns <emphasis>ter�angreal</emphasis> relacionados ao Mundo dos Sonhos. Mas achou que n�o valia a pena ir atr�s da mulher, considerando os riscos de ser descoberta, talvez at� capturada, e o fato de que n�o teria com quem compartilhar as informa��es que descobrisse at� arranjar um jeito de falar de novo com Elayne ou Nynaeve � a n�o ser que acabasse descobrindo algo terr�vel o bastante para botar tudo a perder� A quest�o era que a Ajah Negra era problema das Aes Sedai e, al�m de todos os outros motivos para guardar segredo, ela n�o poderia sair contando aquilo para qualquer um. Manter o sil�ncio n�o era quest�o de escolha.</p><p>Egwene examinou as luzes mais pr�ximas sem muita aten��o. N�o reconheceu nenhuma. Os pontos cintilantes estavam completamente im�veis, estrelas bruxuleantes paralisadas em um gelo negro e l�mpido.</p><p>Estava aparecendo gente demais no Mundo dos Sonhos para o seu gosto. Tudo bem que tinham sido duas pessoas, mas s� essas duas j� eram gente demais. A mulher de pele acobreada e uma outra, bela e robusta, de olhos azuis e rosto determinado, andando a passos resolutos. Egwene a apelidara de �a mulher determinada� e achava que ela devia ser capaz de adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> sozinha � ela tinha uma apar�ncia s�lida, e n�o entalhada na n�voa. Al�m disso, quem quer que fosse a mulher e qualquer que fosse o motivo para ela estar ali, Egwene a via pela Torre com mais frequ�ncia do que via Nynaeve, Elayne, Sheriam e todas as outras juntas. A mulher parecia ser vista em todos os lugares � al�m da Torre, ela quase surpreendera Egwene, em sua �ltima visita a Tear. E claro que <emphasis>n�o</emphasis> tinha sido uma noite de reuni�o das S�bias com as Aes Sedai. Egwene avistou a mulher caminhando escondida pelo Cora��o da Pedra, resmungando sozinha, parecendo irritada. E ela tamb�m aparecera em Caemlyn nas <emphasis>duas</emphasis> �ltimas visitas de Egwene.</p><p>A mulher determinada tinha tantas chances de ser da Ajah Negra quanto a outra, de pele acobreada � mas qualquer uma das duas tamb�m poderia ser de Salidar. Ou quem sabe as duas fossem do grupo de Aes Sedai dissidente, embora Egwene nunca as tivesse visto juntas e muito menos na companhia de algu�m de Salidar. Ali�s, qualquer uma delas podia muito bem ser da Torre � entre as que restavam l� havia divis�es internas o bastante para que um lado decidisse espionar o outro. Al�m do qu�, as Aes Sedai da Torre mais cedo ou mais tarde ficariam sabendo de <emphasis>Tel�aran�rhiod��</emphasis>�isso se j� n�o soubessem. Aquelas duas estranhas s� traziam mais perguntas sem resposta. E a �nica solu��o em que Egwene conseguia pensar era evit�-las.</p><p>Claro que, nos �ltimos tempos, ela andava tentando evitar qualquer um no Mundo dos Sonhos. Tinha come�ado a andar por l� sempre vigilante, olhando por cima do ombro, achando que algu�m a seguia sorrateiramente, vendo coisas. Pensou ter avistado Rand, Perrin e at� Lan de relance, sempre meio de canto de olho. Era sua imagina��o, claro � ou talvez eles s� tivessem entrado ali por acaso, em sonhos. Mas aquilo tudo a deixava assustadi�a feito gato no canil.</p><p>Ela franziu o cenho � ou teria franzido, se tivesse rosto. Uma daquelas luzes parecia� N�o podia dizer que era familiar, j� que n�o a conhecia, mas a luz parecia� atra�-la. N�o importava para onde olhasse, acabava se voltando para o mesmo pontinho cintilante.</p><p>Talvez devesse tentar encontrar Salidar. Para isso teria que esperar Elayne e Nynaeve sa�rem de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> � j� conseguia identificar os sonhos das duas s� de olhar, claro. Na verdade, conseguiria encontrar os sonhos das duas at� dormindo, pensou, dando uma risadinha muda. At� o momento, suas muitas tentativas de localizar Salidar atrav�s dos sonhos das duas amigas tinham sido t�o frut�feras quanto tentar atravessar a barreira dos sonhos de Rand. Ali, a dist�ncia e a localiza��o n�o tinham nenhuma rela��o com o mundo desperto. Amys dizia que a dist�ncia e a localiza��o naquele lugar nem ao menos <emphasis>existiam</emphasis>. Por outro lado, seria um exerc�cio t�o bom quanto qualquer�</p><p>Ficou surpresa ao notar que o pontinho em que seu olhar sempre pousava come�ou a flutuar em sua dire��o, aumentando a ponto de o que antes parecia uma estrela distante logo se transformar em uma lua branca e cheia. Egwene sentiu uma centelha de medo se acender dentro de si. Encostar em um sonho e bisbilhot�-lo era f�cil � era como encostar um dedo na superf�cie de um lago em um toque t�o suave que a �gua envolvia o dedo, mas a superf�cie n�o era perturbada �, mas tudo aquilo deveria ser fruto da sua pr�pria vontade. Era a Andarilha quem buscava o sonho, e n�o o sonho que a procurava. Desejou que a luz fosse embora, desejou que toda a paisagem estrelada se movesse � s� que aquela luz � que se moveu, expandindo-se at� preencher sua vis�o com uma luz branca.</p><p>Desesperada, ela tentou se afastar. Luz branca. Nada al�m da luz branca, absorvendo-a�</p><p>Egwene piscou, embasbacada. Ao seu redor, estendia-se uma floresta de grandes colunas brancas. Quase tudo parecia confuso, indistinto, sobretudo as colunas mais distantes, mas havia algo bem n�tido e real: Gawyn, correndo em sua dire��o pelo piso de ladrilhos brancos, trajando um casaco verde, um misto de ansiedade e al�vio no rosto. Que era <emphasis>quase</emphasis> o rosto de Gawyn. Ele n�o era t�o belo quanto o meio-irm�o, Galad, mas mesmo assim era bonito. S� que aquele rosto parecia muito� comum. Egwene tentou se mexer, mas n�o conseguiu � n�o conseguia de jeito nenhum. Sentia as costas apoiadas em uma das colunas, e correntes prendiam seus pulsos acima da cabe�a.</p><p>Aquilo devia ser o sonho de Gawyn. De todos aqueles incont�veis pontos de luz, tinha parado justamente perto do dele � que, de alguma forma, a atra�ra. Aquela atra��o era um problema para depois: naquele momento, ela queria saber por que ele sonharia em mant�-la presa. Egwene tratou de fixar a verdade com firmeza na mente: aquilo era um sonho, o sonho de outra pessoa. Ela era ela, e n�o o que quer que Gawyn quisesse que fosse. Egwene n�o aceitava a realidade de nada daquilo. Nada ali a afetava de verdade. N�o parava de repetir aquilo na mente, como um mantra. O processo tornava dif�cil pensar em qualquer outra coisa, mas, contanto que se mantivesse firme, poderia correr o risco de permanecer naquele sonho � ao menos por tempo suficiente para descobrir que esquisitices e peculiaridades perpassavam os pensamentos de Gawyn. Mant�-la presa!</p><p>De repente, uma imensa chama em forma de gota brotou nos ladrilhos do piso, e uma fuma�a amarela e �cida ondulou pelo ar. Rand saiu daquele inferno de chamas. Trajava um casaco vermelho com bordados dourados aos moldes de um rei e encarava Gawyn. Fogo e fuma�a desvaneceram. S� que aquele homem mal se parecia com Rand � o verdadeiro era da mesma altura e porte de Gawyn, mas aquela figura ali diante deles era uma cabe�a mais alto que o irm�o de Elayne. E o rosto tamb�m era apenas levemente parecido, com propor��es ligeiramente estranhas e uma express�o mais dura do que deveria � o rosto frio de um assassino. O rec�m-chegado abriu um sorriso desdenhoso.</p><p>� Ela n�o ser� sua � rosnou.</p><p>� Ela n�o vai ficar presa aqui com voc� � retrucou Gawyn, com a voz tranquila.</p><p>De repente, os dois empunhavam espadas.</p><p>Egwene ficou boquiaberta. N�o era Gawyn quem a mantinha prisioneira � em seu sonho, ele a resgatava! E de Rand! Tinha que ir embora daquela loucura. Ela se concentrou em estar <emphasis>fora </emphasis>dali, de volta na escurid�o, vendo tudo aquilo <emphasis>de fora</emphasis>. Nada aconteceu.</p><p>As espadas se chocaram com um estrondo, e os dois bailaram uma dan�a mortal � ou qu�o mortal poderia ser em um sonho. Nada ali fazia sentido. Quem sonharia com um duelo de espadas?! E n�o era pesadelo � podia ser confuso, mas tinha um aspecto muito normal, as cores n�o estavam embotadas. �Os sonhos dos homens s�o um labirinto t�o confuso que at� ele desconhece�, dissera Bair, certa vez.</p><p>Egwene fechou os olhos e se concentrou. Fora. Estava l� fora, olhando aquilo se desenrolar dentro da luz. N�o restava espa�o para pensar em mais nada. Estava do lado de fora, olhando para dentro. Do lado de fora, olhando para dentro. Do lado de fora!</p><p>Abriu os olhos outra vez. O confronto estava chegando ao cl�max. A l�mina de Gawyn penetrou o peito de Rand, que pareceu murchar. O a�o se desprendeu do corpo dele e deslizou pelo ar, em um arco reluzente. A cabe�a de Rand rodopiou pelo ch�o, quase alcan�ando os p�s de Egwene, parando com os olhos cravados nela. A jovem sentiu um grito borbulhar na garganta antes que pudesse cont�-lo. Era um sonho. Apenas um sonho. Mas aqueles olhos mortos a encar�-la pareciam bem reais.</p><p>Ent�o Gawyn surgiu diante dela, a espada de volta na bainha. A cabe�a e o corpo de Rand tinham sumido. Ele estendeu as m�os para as algemas que a prendiam, que tamb�m sumiram.</p><p>� Eu tinha certeza de que voc� viria � sussurrou Egwene, e levou um susto com a pr�pria rea��o.</p><p>Ela ainda era ela mesma! N�o podia se render �quilo, sen�o acabaria presa de verdade.</p><p>Sorrindo, Gawyn tomou-a nos bra�os.</p><p>� Essa sua certeza me deixa t�o feliz. Eu teria vindo antes, se pudesse. N�o deveria ter deixado que voc� corresse perigo por tanto tempo. Voc� me perdoa?</p><p>� Eu perdoaria qualquer coisa que voc� fizesse.</p><p>Havia duas Egwenes: uma alegremente aninhada nos bra�os de Gawyn, que a carregava por um corredor palaciano repleto de tape�arias coloridas e grandes espelhos com molduras douradas ornamentadas; outra em um cantinho ao fundo da mente da primeira.</p><p>Aquilo estava ficando s�rio. Mesmo se concentrando o m�ximo que podia em estar do lado de fora, Egwene continuava ali, vendo tudo pelos olhos de uma outra Egwene. Ela tratou de reprimir a curiosidade a respeito do que Gawyn sonhava com ela. Essa curiosidade, ali, podia ser perigosa. N�o aceitava nada do que estava vivenciando como verdade! Mas nada mudava.</p><p>Olhou para o corredor, que parecia bem real � primeira vista, mas tudo o que ela via de canto de olho parecia enevoado. Sua aten��o foi capturada pela pr�pria imagem, vista de relance em um espelho. Egwene at� teria se virado para olhar, quando passaram, mas era apenas uma passageira na mente da mulher dos sonhos de Gawyn. A mulher refletida naquele espelho era ela � n�o havia qualquer tra�o que diferisse minimamente do seu rosto verdadeiro �, mas, de alguma forma, o conjunto era todo muito� Bonito � era a �nica palavra que se aplicava. Uma beleza estonteante. Era assim que Gawyn a via?</p><p>N�o! Nada de curiosidade! Estava do lado de fora!</p><p>Entre um passo e outro de Gawyn, o corredor virou uma encosta coberta de flores silvestres, cujo perfume era trazido pela brisa suave. A verdadeira Egwene levou um susto. Ser� que aquilo era obra sua? Sentiu a barreira entre ela e a outra enfraquecer. Egwene se concentrou, desesperada. Aquilo n�o era real. Recusava-se a aceitar. Ela era ela. Estava do lado de fora. Queria estar do lado de fora, olhando para dentro.</p><p>Gawyn colocou-a com toda a delicadeza sobre um manto que, naquele jeito estranho dos sonhos, j� estava estendido na encosta. Ele se ajoelhou a seu lado e afastou uma mecha de cabelo da bochecha de Egwene, deixando os dedos ro�arem o canto da boca. Estava muito dif�cil se concentrar em qualquer coisa. Egwene podia at� n�o ter controle sobre o corpo em que estava, mas sentia o que aquela Egwene do sonho sentia, e os dedos de Gawyn pareciam soltar fa�scas contra sua pele.</p><p>� Meu cora��o � seu � entoou ele, baixinho. � Minha alma, tudo o que eu sou. � O casaco de Gawyn assumira um tom escarlate, todo trabalhado com bordados elaborados de folhas de ouro e le�es de prata. Ele gesticulava dramaticamente, levando a m�o da cabe�a ao cora��o. � Quando penso em voc�, n�o sobra espa�o para mais nada. Seu perfume invade meu c�rebro e incendeia meu sangue. Meu cora��o bate t�o forte que n�o conseguiria escutar nem se o mundo se rompesse ao meio. Voc� � o meu sol, a minha lua, as minhas estrelas. Voc� � o C�u e a Terra. Voc� � mais preciosa do que a vida, o ar ou� � Ele parou de repente e franziu o cenho. � Estou parecendo um idiota � resmungou consigo mesmo.</p><p>Se Egwene tivesse algum controle sobre as pr�prias cordas vocais, teria discordado. Era muito bom ouvir aquilo, mesmo que soasse um pouquinho � s� um pouquinho � exagerado.</p><p>Naquele instante em que ele franziu o cenho, ela sentiu a tens�o se afrouxar, mas�</p><p><emphasis>O mundo ao redor mudou.</emphasis></p><p>Gawyn colocou-a com toda a delicadeza sobre um manto que, naquele jeito estranho dos sonhos, j� estava estendido na encosta. Ele se ajoelhou a seu lado e afastou uma mecha de cabelo da bochecha de Egwene, deixando os dedos ro�arem o canto da boca. Egwene podia at� n�o ter controle sobre o corpo em que estava, mas sentia o que aquela Egwene do sonho sentia, e os dedos de Gawyn pareciam soltar fa�scas contra sua pele.</p><p>N�o! Egwene n�o podia aceitar nenhuma parte daquele sonho como real!</p><p>O rosto de Gawyn era puro sofrimento, o casaco assumiu um tom cinza e s�brio. As m�os cerradas repousavam sobre os joelhos.</p><p>� N�o tenho o direito de me dirigir a voc� como bem entender � declarou, todo r�gido. � Meu irm�o ama voc�. Sei que Galad vive em agonia, temendo pela sua vida. E acabou virando um Manto-branco em grande parte porque acha que as Aes Sedai abusaram de voc� Eu sei que ele� � Gawyn fechou os olhos com for�a. � Ah, Luz, me ajude!</p><p><emphasis>O mundo ao redor mudou</emphasis>.</p><p>Gawyn colocou-a com toda a delicadeza num manto que, naquele jeito estranho dos sonhos, j� estava estendido na encosta. Ele se ajoelhou a seu lado e afastou uma mecha de cabelo da bochecha de Egwene, deixando os dedos ro�arem o canto da boca.</p><p>N�o! Egwene estava perdendo o pouco controle que tinha! Precisava sair dali! <emphasis>Por que tanto medo?</emphasis> N�o tinha certeza se o pensamento era seu ou da <emphasis>outra</emphasis>. A barreira entre elas estava fina como seda. � o <emphasis>Gawyn. Gawyn.</emphasis></p><p>� Eu amo voc� � declarou ele, hesitante. Estava outra vez no casaco verde, mas ainda parecia menos bonito do que na vida real. Ele cutucou um dos bot�es do casaco, ent�o afastou a m�o. Gawyn olhou para ela como se temesse o que poderia ver em seu rosto. Claramente, tentava esconder esse medo, ainda que sem sucesso. � Eu nunca disse isso para mulher nenhuma, Egwene, nunca nem tive vontade. Voc� n�o tem ideia de como � dif�cil dizer agora� Mas n�o � que eu n�o queira � acrescentou, mais do que depressa, estendendo uma das m�os para toc�-la. � Mas revelar meus sentimentos desse jeito, sem o menor encorajamento, � como largar a espada e deixar o peito exposto a uma l�mina. Mas n�o que eu ache que voc� Luz! N�o consigo me expressar direito! Ser� que existe alguma chance de� quem sabe um dia� voc� come�ar a nutrir� algum� sentimento� por mim? Algo� al�m de amizade?</p><p>� Voc� � um idiota� e um amor! � respondeu, com a voz cheia de ternura, rindo. � Eu te amo.</p><p>Aquele <emphasis>eu te amo </emphasis>ecoou na parte dela que era realmente ela. Egwene sentiu a barreira desaparecer, teve um segundo para perceber que n�o se importava, e ent�o passou a haver uma �nica Egwene � uma Egwene feliz que passou os bra�os por tr�s do pesco�o de Gawyn.</p><empty-line/><p>Sentada em seu banquinho sob a luz fraca do luar, Nynaeve cobriu a boca para abafar o bocejo que escapou e piscou firme os olhos que pareciam cheios de areia. Aquilo ia funcionar � ah, se ia. Ela ia desmaiar de sono assim que cumprimentasse Theodrin, se n�o antes! Sentiu o queixo se inclinando contra o peito e tratou de se levantar. O banquinho parecia feito de pedra, e seu traseiro j� estava dormente, mas, ao que parecia, aquele desconforto j� n�o era mais o suficiente para mant�-la desperta. Talvez fosse melhor caminhar um pouco ao ar livre. Esticando os bra�os, ela tateou para encontrar o caminho at� a porta.</p><p>De repente, um grito distante cortou a noite. No mesmo instante, o banquinho em que estava sentada a atingiu com for�a nas costas. Nynaeve se chocou contra a madeira �spera da porta, soltando seu pr�prio grito assustado. Estarrecida, encarou o banco, que jazia no ch�o ao seu lado, com um dos p�s tortos.</p><p>� O que foi?! � gritou Elayne, sentando-se de repente na cama.</p><p>Mais gritos e berros ressoaram pela cidade, alguns vindos da pr�pria casa em que elas estavam, acompanhados de baques e uma sinfonia de coisas caindo que pareciam vir de tudo que era lado. A cama vazia de Nynaeve chacoalhou e se deslocou praticamente uma passada. A de Elayne se ergueu no ar, quase arremessando a jovem para fora do colch�o de palha.</p><p>� Uma bolha de mal � explicou Nynaeve, surpresa com a calma na pr�pria voz. N�o havia por que sair pulando desesperada de um lado para o outro, mas, por dentro, era exatamente o que ela estava fazendo. � Precisamos acordar todos que ainda estiverem dormindo. � N�o sabia como algu�m poderia n�o ter acordado com aquela algazarra, mas quem ainda estivesse dormindo podia acabar morrendo, sem chance de se defender.</p><p>Sem esperar resposta, ela saiu depressa do quarto e tratou de abrir a primeira porta que encontrou no corredor � teve que se agachar quando uma bacia de lou�a branca passou voando pelo espa�o onde um segundo antes estivera sua cabe�a e se chocou contra a parede logo atr�s. Quatro mulheres dividiam aquele quarto, mobiliado com duas camas pouco maiores que a de Nynaeve. Uma das camas estava virada de cabe�a para baixo, e as duas ocupantes presas sob ela tentavam em v�o se arrastar para fora. Na outra cama, Emara e Ronelle, outra Aceita, debatiam-se desesperadas, aparentemente sufocadas pelas pr�prias roupas de cama que haviam se enrolado nelas com firmeza.</p><p>Nynaeve agarrou a primeira mulher que conseguiu sair de baixo da cama virada, uma servi�al esquel�tica chamada Mulinda, ainda at�nita, e a empurrou para a porta.</p><p>� Corra! Acorde todo mundo que ainda estiver dormindo nesta casa e ajude quem puder! Corra! � Mulinda saiu aos trope�os, enquanto Nynaeve puxava a outra mulher ca�da e a ajudava a se levantar. � Me ajude, Satina. Preciso de ajuda para soltar Emara e Ronelle.</p><p>A mulher rechonchuda estava tr�mula, mas assentiu e obedeceu sem pestanejar. N�o era s� quest�o de desenrolar os len��is, claro � o tecido parecia vivo, como uma trepadeira maligna agarrada �s mulheres, apertando-as cada vez mais, at� esmag�-las. Trabalhando juntas, Nynaeve e Satina tinham acabado de, mal a mal, afastar os panos da garganta das outras duas quando o jarro d��gua saltou do lavat�rio e se chocou contra o teto. Satina deu um pulo e largou o len�ol, que se soltou das m�os de Nynaeve e voltou para a mesma posi��o de antes. As mulheres presas come�avam a parecer cada vez mais sem for�as, debatendo-se com movimentos mais lentos. Uma delas ofegava, deixando escapar murm�rios roucos, a outra n�o emitia som algum. Mesmo sob o luar fraco que entrava pelas janelas, dava para ver que seus rostos estavam inchados e escuros.</p><p>Nynaeve agarrou o len�ol outra vez e se abriu para <emphasis>saidar</emphasis>, mas n�o encontrou nada. <emphasis>Estou me rendendo, que me queime! Estou me rendendo! Preciso do Poder!</emphasis> Nada. A cama se sacudiu, empurrando-a pelos joelhos, e Satina ganiu.</p><p>� N�o fique a� parada! � ralhou Nynaeve. � Me ajude!</p><p>De repente, a roupa de cama escapou outra vez de suas m�os. Em vez de se enroscar de volta em Emara e Ronelle, o tecido se desenroscou das duas e se afastou t�o depressa e com tanta for�a que Emara e Ronelle se chocaram uma contra a outra ao ca�rem de volta no colch�o. Quando viu Elayne � porta, Nynaeve fechou a boca. O len�ol caiu do teto. O Poder. Claro.</p><p>� Todas est�o acordadas � informou Elayne, j� com um robe por cima da camisola, entregando outro a Nynaeve. � Sofreram alguns machucados e arranh�es, um ou dois cortes bem feios que precisar�o ser tratados quando houver tempo, e acho que <emphasis>todo mundo</emphasis> vai ter pesadelos por uns dias, mas foi s�. Tome. � Gritos e berros ainda ressoavam noite adentro. Satina deu um pulo quando Elayne deixou o len�ol cair, mas ele ficou im�vel no ch�o. A cama virada, no entanto, se mexeu, rangendo. Elayne se curvou, examinando as duas mulheres que gemiam, ca�das na cama. � Acho que s� est�o um pouco tontas. Satina, me ajude com elas.</p><p>Nynaeve olhou irritada para o robe em suas m�os. Aquelas duas deviam mesmo estar tontas, depois de serem torcidas feito pano. Ah, Luz, como ela era in�til� E ainda por cima sa�ra correndo feito uma tola, querendo assumir o comando. Sem o Poder, ela era in�til.</p><p>� Nynaeve, pode me ajudar aqui? � Elayne sustentava uma Emara cambaleante, enquanto Satina mais do que carregava Ronelle at� a porta. � Acho que Emara vai vomitar, e � melhor que seja l� fora. Parece que os penicos quebraram.</p><p>Pelo cheiro, Elayne estava certa. Os cacos de cer�mica se sacudiam no ch�o, tentando escapar da cama virada.</p><p>Irritada, Nynaeve enfiou o robe. J� sentia a Fonte, um brilho t�pido ligeiramente fora de vista, mas decidiu ignor�-la. Passara anos se virando bem sem o Poder, podia continuar assim. Ela ergueu o bra�o livre de Emara por cima do ombro e ajudou a conduzi-la, ainda gemendo, at� a rua. Quase conseguiram chegar a tempo.</p><p>Quando finalmente sa�ram da casa, depois de limpar a boca de Emara, todas as outras mulheres j� estavam reunidas diante da porta, em robes ou o que quer que usassem para dormir. A lua brilhante, ainda cheia, no topo de um c�u l�mpido, iluminava tudo. Mais pessoas sa�am das outras casas em meio a uma profus�o de berros e gritos. Uma t�bua de uma cerca pr�xima come�ou a chacoalhar, seguida de outra. Um balde saiu quicando rua abaixo. Uma carro�a carregada de lenha avan�ou de repente, as traves das rodas arando sulcos rasos no ch�o de terra batida. Fuma�a come�ou a subir de uma casa mais adiante, e elas ouviram gritos pedindo por �gua.</p><p>Nynaeve reparou em um vulto escuro ca�do na rua. O lampi�o bruxuleante, quase ao alcance de suas m�os inertes estendidas, indicava que devia ser um dos guardas noturnos. Dava para ver seus olhos arregalados reluzindo ao luar, o rosto coberto de sangue e a cabe�a amassada na lateral, onde algo o atingira com a for�a de um golpe de machado. Nynaeve mesmo assim tentou sentir seu pulso na garganta. Estava t�o furiosa que tinha vontade de dar um berro. A morte devia vir depois de uma vida longa, com a pessoa na pr�pria cama, cercada pela fam�lia e pelos amigos. Qualquer outro cen�rio indicava um desperd�cio de vida. Um desperd�cio terr�vel!</p><p>� Ah, ent�o voc� encontrou <emphasis>saidar</emphasis> esta noite, Nynaeve. Que bom.</p><p>Nynaeve deu um pulo e ergueu os olhos, encontrando o rosto de Anaiya. S� ent�o percebeu que de fato agarrava <emphasis>saidar</emphasis> � e mesmo assim era in�til. Levantou-se, esfregou os joelhos com pesar e tentou n�o olhar para o homem morto. Se tivesse sido mais r�pida, ser� que teria feito diferen�a?</p><p>O brilho do Poder cercava Anaiya � e n�o apenas ela. Aquela aura de luz singular tamb�m envolvia outras duas Aes Sedai j� em seus trajes habituais, al�m de uma Aceita de robe e Nicola e outras duas novi�as, ainda de camisola. Nynaeve notou outros grupos reluzentes, dezenas e mais dezenas de pontinhos de luz deslocando-se pela rua. Alguns pareciam de Aes Sedai completas, mas a maioria, n�o.</p><p>� Abra-se para uma uni�o � instruiu Anaiya. � E voc� tamb�m, Elayne. E� Qual � o problema com Emara e Ronelle? � Ao ouvir que estavam ainda meio tontas, se recuperando, Anaiya resmungou baixinho, depois mandou que as duas fossem encontrar um c�rculo para se unir assim que estivessem melhores. Sem delongas, selecionou outras quatro Aceitas do grupo em torno de Elayne. � Sammael logo vai ver que Salidar est� bem longe de estar indefesa. Isso se for mesmo ele, e n�o um dos outros. Bem, vamos logo. Abracem a Fonte, mas se mantenham bem no limiar. Fiquem abertas, se entregando.</p><p>� Isto n�o � coisa dos Abandonados � come�ou Nynaeve, mas Anaiya, em um tom muito r�gido e maternal, cortou-a com firmeza.</p><p>� N�o discuta, crian�a, apenas se abra. J� est�vamos esperando um ataque. N�o algo desse tipo, mas j� est�vamos preparadas, nos planejamos para isso. Vamos, crian�a. N�o podemos perder tempo com conversa in�til.</p><p>Nynaeve tratou de calar a boca e tentou se colocar naquele limiar do abra�o de <emphasis>saidar</emphasis>, no momento da rendi��o. N�o foi f�cil. Por duas vezes, sentiu o Poder fluir para dentro de si e depois atravessar seu corpo at� Anaiya � e nas duas vezes o fluxo escapuliu de volta para ela. A Aes Sedai estreitou os l�bios e olhou feio para Nynaeve, como se achasse que tinha sido de prop�sito. A terceira vez foi como se a tivessem agarrado pela nuca. <emphasis>Saidar</emphasis> passou varrendo por seu corpo at� Anaiya e, quando ela tentou se retrair � era de fato culpa dela, n�o do fluxo, afinal �, o Poder que ela canalizava ficou retido ali, misturando-se com um fluxo ainda maior.</p><p>Nynaeve ficou impressionada. Viu-se olhando para o rosto das outras, querendo descobrir se sentiam o mesmo. Agora era parte de algo mais, algo maior que ela mesma. N�o era s� o Poder �nico. As emo��es iam desabando sobre ela � medo, esperan�a, al�vio e assombro, maior do que qualquer outra, al�m daquela sensa��o de calma que s� podia vir das Aes Sedai. N�o havia como discernir que emo��es eram suas. A experi�ncia deveria ser assustadora � sentia-se mais pr�xima daquelas mulheres do que poderia se sentir at� mesmo de uma irm�. Era como se todas fossem uma s� carne. Ashmanaille, uma Cinza magricela, pareceu compreender o que ela estava pensando e abriu um sorriso caloroso.</p><p>Nynaeve ficou surpresa quando percebeu que n�o estava mais irritada. A raiva desaparecera, engolida pelo assombro. Mas o fluxo de <emphasis>saidar</emphasis> ainda permanecia, talvez pelo fato de o controle j� ter passado para a irm� Azul. Seu olhar caiu sobre Nicola, que n�o abriu um sorriso fraterno, apenas lhe lan�ou aquele olhar calculista. Por reflexo, Nynaeve tentou se afastar da uni�o, mas nada aconteceu. Faria parte daquele c�rculo at� que Anaiya o quebrasse, e fim.</p><p>A entrada de Elayne no c�rculo foi muito mais tranquila, mas ela primeiro escondeu o bracelete de prata no bolso do robe. Nynaeve sentiu o suor frio brotar de seu rosto. O que aconteceria se Elayne tivesse entrado na uni�o ainda ligada a Moghedien atrav�s do <emphasis>a�dam</emphasis>? N�o fazia ideia, o que s� piorava a sensa��o da d�vida. Nicola franziu o cenho, olhando de Nynaeve para Elayne. Claro que a novi�a n�o tinha como separar uma emo��o da outra, ainda mais quando nem mesmo Nynaeve conseguia identificar o que ela pr�pria estava sentindo. A entrada das �ltimas duas mulheres no c�rculo foi igualmente tranquila. Shimoku, uma bela kandoriana de olhos escuros, elevada a Aceita pouco antes da cis�o da Torre, e Calindin, uma taraboniana que usava os cabelos negros em uma infinidade de trancinhas finas, Aceita j� fazia uns bons dez anos � uma era um pouco mais que uma novi�a, a outra precisava dar o m�ximo de si para aprender cada migalha de conhecimento, mas nenhuma das duas teve a mesma dificuldade que ela para se unir ao c�rculo.</p><p>Ent�o Nicola se pronunciou, de repente. Era como se estivesse falando dormindo:</p><p>� A espada do le�o, a lan�a dedicada e ela aquela que enxerga al�m. Tr�s a bordo do barco, e aquele que est� morto, mas ainda vive. Chega ao fim a grande batalha, mas n�o acabam as batalhas do mundo. A terra dividida pelo retorno, e h� tantos guardi�es quanto servas. O futuro se equilibra no fio de uma l�mina.</p><p>Anaiya a encarou.</p><p>� O que voc� disse, crian�a?</p><p>Nicola piscou, confusa.</p><p>� Eu falei alguma coisa, Aes Sedai? � perguntou, com a voz fraca. � Estou me sentindo� diferente�</p><p>� Bem, se for vomitar, ent�o vomite logo de uma vez � retrucou Anaiya, com rispidez. � Unir-se pela primeira vez pode deixar algumas mulheres meio estranhas. N�o temos tempo para cuidar do seu est�mago. � Como se para comprovar a urg�ncia da situa��o, ela ergueu as saias e disparou pela rua. � Tratem de ficar bem juntas, todas voc�s. E avisem quando virem algum problema que precise de nossa aten��o.</p><p>O que n�o foi muito dif�cil. Pessoas se amontoavam pelas ruas, gritando perguntas sobre o que estava acontecendo � algumas apenas gritando coisas sem sentido �, e havia muito movimento: portas batiam, janelas se escancaravam sem que ningu�m as tocasse; ouviam-se estrondos e objetos se estilha�ando dentro das casas. Panelas, ferramentas, pedras e qualquer objeto que n�o estivesse bem preso podia dar um salto ou sair voando a qualquer momento. Com uma risada triunfante quase hist�rica, uma cozinheira rechonchuda de camisola agarrou um balde que se arremessava contra ela ainda no ar. Quando um sujeito p�lido e magro s� com as roupas de baixo tentou se desvencilhar de um peda�o de lenha, seu bra�o acabou quebrando com um estalido. Cordas se retorciam, subindo por pernas e bra�os, e at� as roupas come�aram a se remexer sobre os corpos de quem as usava. Encontraram um homem muito peludo com a camisa toda enrolada na cabe�a, debatendo-se com tamanho desespero que ningu�m conseguia se aproximar para tentar arrancar a pe�a de cima de seu rosto antes que ele se asfixiasse. Uma mulher, que conseguira se enfiar em um vestido, mas n�o tivera tempo de aboto�-lo, se agarrava � ponta de um telhado de palha, gritando a plenos pulm�es enquanto o vestido tentava lan��-la por cima da casa � ou talvez c�u adentro.</p><p>Resolver essas quest�es acabou se revelando t�o simples quanto encontrar problemas a serem resolvidos. Os fluxos de Poder que Anaiya manejava por meio da uni�o � assim como os fluxos dos outros c�rculos � n�o teriam a menor dificuldade de refrear a investida de uma manada de touros, que dir� uma chaleira que decidira sair voando. Assim que um objeto era contido, fosse pelo Poder ou com as pr�prias m�os, a coisa raramente voltava a se mover, mas o problema era que eram muitos. N�o havia tempo nem para Curar algu�m, a menos que a vida da pessoa estivesse em perigo. Pancadas, sangramentos e ossos fraturados tinham que esperar enquanto mais uma t�bua de alguma cerca era jogada de volta no ch�o, de prefer�ncia antes de rachar a cabe�a de algu�m, ou enquanto outro barril que sa�ra rolando desgovernado era detido antes de quebrar a perna de algum desavisado.</p><p>Nynaeve sentia uma frustra��o crescente. Havia tanto a resolver � v�rios problemas pequenos, mas um homem com o cr�nio rachado por uma frigideira ou uma mulher estrangulada pela pr�pria camisola acabavam t�o mortos quanto algu�m atacado diretamente pelo Poder. E a frustra��o n�o era s� dela � pelo que podia entender, vinha de todas do c�rculo, inclusive das Aes Sedai. Ainda assim, s� o que podia fazer era seguir marchando ao lado das outras, assistindo a Anaiya tecer a combina��o dos fluxos de todas as mulheres do c�rculo para lutar contra mil pequenos perigos. Nynaeve ficou completamente absorta em ser apenas um canal, em ser uma com todas aquelas outras mulheres.</p><p>Anaiya enfim parou, franzindo o cenho. A dissolu��o da uni�o pegou Nynaeve de surpresa. Ela ficou parada um momento, com o olhar perdido e fixo de quem n�o compreendia o que estava acontecendo. Gemidos e lamentos tinham tomado o lugar de gritos e berros. A rua, iluminada pelo brilho p�lido do luar, estava parada, exceto pelas pessoas que tentavam ajudar os feridos. Pela posi��o da lua, passara menos de uma hora, mas, para Nynaeve, pareciam ter sido dez. Sentia as costas doloridas no ponto em que o banco a atingira, os joelhos vacilavam, e os olhos pareciam ter sido ariados. Ela bocejou t�o forte que achou que as orelhas iam saltar do rosto.</p><p>� Eu n�o esperava isso de um dos Abandonados � resmungou Anaiya, meio que para si mesma, mas alto o bastante para ser para as outras. Ela tamb�m soava cansada, mas disparou para assumir a tarefa seguinte. Antes, segurou Nicola pelo ombro. � Voc� mal se aguenta em p�, crian�a. V� para a cama. Pode ir. Quero que venha falar comigo assim que amanhecer, antes mesmo do caf�. Angla, voc� fica. Voc� ainda consegue se unir de novo e emprestar um pouco de for�a para a Cura. Lanita, cama.</p><p>� N�o foi nenhum dos Abandonados � afirmou Nynaeve. Murmurou, na verdade. Luz, como estava cansada. � Foi uma bolha de mal.</p><p>As tr�s Aes Sedai a encararam. E as outras Aceitas tamb�m, ali�s, assim como as novi�as. Todo mundo, exceto Elayne. At� mesmo Nicola, que ainda n�o tinha ido embora. Pelo menos daquela vez, Nynaeve n�o deu a m�nima para como o olhar da outra mulher parecia medi-la. Estava com sono demais para se importar.</p><p>� Vimos uma em Tear, na Pedra � confirmou Elayne. Na verdade, tinham visto apenas as consequ�ncias, no entanto era mais do que qualquer uma das duas desejava ver outra vez. � Se Sammael tivesse atacado, n�o ficaria s� arremessando gravetos.</p><p>Ashmanaille trocou olhares indecifr�veis com Bharatine, uma Verde capaz de fazer o corpo esquel�tico parecer esbelto e dar ao nariz comprido um aspecto elegante.</p><p>Anaiya sequer pestanejou.</p><p>� Me parece que voc� tem energia de sobra, Elayne. Tamb�m pode me ajudar com a Cura. E voc�, Nynaeve� Perdeu de novo, n�o foi? Bem, pela cara, devia ser carregada para a cama, mas vai ter que dar um jeito de ir sozinha. Shimoku, levante-se e v� para a cama, crian�a. Calindin, venha comigo.</p><p>� Anaiya Sedai � chamou Nynaeve, com muita educa��o �, Elayne e eu fizemos uma descoberta, hoje � noite. Se pudermos conversar a s�s�</p><p>� Amanh�, crian�a. Para voc�, � cama. E j�, antes que desabe no meio da rua.</p><p>Anaiya nem esperou para ver se seria obedecida. Levando Calindin a tiracolo, caminhou a passos largos at� um homem que se lamuriava, deitado no ch�o, a cabe�a apoiada no colo de uma mulher, e se curvou sobre ele. Ashmanaille puxou Elayne para o outro lado, e Bharatine levou Angla para uma terceira dire��o. Antes de desaparecer em meio � multid�o, Elayne encarou Nynaeve por cima do ombro e balan�ou a cabe�a de leve.</p><p>Bem, talvez n�o fosse o melhor momento para mencionar a vasilha e Ebou Dar. A rea��o de Anaiya fora meio estranha, como se ela tivesse ficado desapontada ao descobrir que n�o tinha sido um ataque dos Abandonados. Por qu�? Nynaeve estava cansada demais para pensar naquilo. Anaiya at� podia ter controlado os fluxos, mas seu corpo servira como canal para <emphasis>saidar</emphasis> durante uma hora inteira, o suficiente para desgastar at� algu�m que j� tivesse dormido uma boa noite de sono.</p><p>Cambaleando, Nynaeve avistou Theodrin. A domanesa mancava, ladeada por um par de novi�as trajando branco, parando sempre que encontrava algu�m com um ferimento que suas habilidades com a Cura pudessem dar conta. Ela n�o reparou em Nynaeve.</p><p><emphasis>Vou para a cama</emphasis>, pensou Nynaeve, emburrada. <emphasis>Anaiya Sedai mandou.</emphasis> Por que Anaiya parecera desapontada? Um pensamento come�ou a brotar l� no fundo da mente, mas ela estava com sono demais para examin�-lo. Andava a passos arrastados, quase trope�ando no ch�o nivelado. Ia <emphasis>dormir</emphasis>, e Theodrin que pensasse o que quisesse a respeito.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 15</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Um monte de areia</p></title><p>Egwene abriu os olhos, sem reparar nos arredores. Ficou um tempo ali, deitada, aconchegada na cama, mexendo distraidamente no anel da Grande Serpente preso � tira em torno do pesco�o. Quando o usava no dedo, recebia muitos olhares suspeitos. Era mais f�cil se passar por aluna das S�bias se ningu�m achasse que ela era Aes Sedai � o que de fato n�o era, claro: era uma Aceita. Tinha passado tanto tempo fingindo ser Aes Sedai que �s vezes quase esquecia que n�o era.</p><p>Uma nesga do sol morno do in�cio da manh� entrava pela fresta na abertura de entrada, t�o fraca que mal servia para iluminar o interior da tenda. Era como se n�o tivesse pregado o olho, e as t�mporas latejavam de dor. Desde que Lanfear quase matara Aviendha e Egwene, no dia em que Moiraine tinha levado a Abandonada consigo para a morte, a jovem sempre ficava com dor de cabe�a depois de ir a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, embora nunca forte o bastante para incomodar de verdade. De qualquer forma, aprendera uma coisinha ou outra com Nynaeve sobre as ervas, muito tempo antes, ainda em casa, e conseguira encontrar algumas plantas conhecidas ali em Cairhien. Raiz de dorme-bem a deixaria sonolenta � ou, cansada como ela estava, talvez a apagasse por horas �, mas acabaria com qualquer vest�gio de dor de cabe�a.</p><p>Ela se levantou, endireitou a camisola amarrotada e empapada de suor e foi pisando nas camadas de tapetes at� o lavat�rio da tenda � uma vasilha de cristal entalhada que j� devia ter sido usada para servir sangria a um nobre qualquer. Ora, a vasilha era t�o boa para armazenar �gua limpa quanto o jarro de vidro azul, mas �gua n�o estava nem um pouco fresca quando Egwene lavou o rosto. Teve o vislumbre de seus pr�prios olhos no espelhinho de moldura dourada preso � parede escura da tenda e sentiu as bochechas ficarem vermelhas.</p><p>� Bem, o que voc� achava que ia acontecer? � sussurrou. Parecia imposs�vel, mas seu rosto no espelho ficou ainda mais vermelho.</p><p>Aquilo n�o tinha passado de um sonho � n�o fora como em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, onde o que acontecia passava a ser real depois de acordar, mas Egwene se lembrava de cada detalhe como se tivesse sido mesmo real. Achou que as bochechas iam pegar fogo. Fora s� um sonho, e ainda por cima um sonho de Gawyn. Ele n�o tinha o direito de sonhar aquelas coisas com ela.</p><p>� Foi tudo culpa dele � declarou, zangada, para o pr�prio reflexo. � N�o tive nada a ver com isso! N�o tive nem escolha! � Ela tratou de fechar a boca, j� arrependida. Estava querendo culpar o homem pelas coisas com que sonhava! E ainda por cima estava falando com um espelho, feito uma galinha tonta.</p><p>Egwene parou diante da sa�da da tenda baixa para espiar o movimento l� fora. Estava instalada na extremidade do acampamento Aiel, e as muralhas cinzentas de Cairhien se erguiam cerca de duas milhas a oeste, cruzando as colinas descampadas. O espa�o entre o acampamento e as muralhas, onde antes ficava Port�o da Frente, a cidade que envolvia Cairhien, agora estava vazio, e restava apenas o ch�o chamuscado. Considerando a luz ambiente, o sol acabara de surgir acima da linha do horizonte, mas os Aiel j� zanzavam por entre as tendas.</p><p>Egwene decidiu que n�o levantaria cedo aquela manh�. N�o depois de passar a noite toda fora do corpo � uma lembran�a que a fez corar de novo. Luz, ia passar o resto da vida com as bochechas vermelhas s� por causa de um sonho? Ao que parecia, era uma grande possibilidade. Bem, depois de tudo o que passara, podia se dar ao luxo de dormir at� tarde. O cheiro de mingau sendo feito n�o era p�reo para as p�lpebras pesadas.</p><p>Muito cansada, Egwene se jogou de volta nos cobertores e massageou as t�mporas. Estava cansada demais para preparar a raiz de dorme-bem. De qualquer forma, achava que estava cansada demais para que a erva fizesse diferen�a. A dor era fraca e sempre sumia em cerca de uma hora. J� estaria bem quando acordasse.</p><p>Considerando a noite que tivera, n�o foi surpresa ter Gawyn invadindo seus sonhos. Reviveu algumas vezes um dos sonhos dele � mas n�o que tenham sido id�nticos, claro. Nas vers�es de Egwene, algumas situa��es constrangedoras simplesmente n�o ocorriam ou, no m�nimo, n�o apareciam em tantos detalhes. Gawyn passava muito mais tempo recitando poemas ou abra�ando-a enquanto assistiam ao sol nascer e se p�r. E ele tamb�m n�o dizia que a amava, todo atrapalhado. Al�m disso, aparecia t�o bonito quanto na vida real. Tudo o mais fora obra da cabe�a de Egwene: beijos ternos que duravam para sempre, Gawyn ajoelhado enquanto ela amparava sua cabe�a com as m�os� Algumas coisas n�o faziam sentido. Por duas vezes seguidas, sonhou que agarrava os ombros dele e tentava for��-lo a se virar para o outro lado. Na primeira vez, Gawyn afastou suas m�os com rispidez; na outra, Egwene parecia ser mais forte que ele. As duas ocorr�ncias se mesclavam na mem�ria. Em outra ocasi�o, Gawyn ia fechando uma porta na cara dela, e Egwene sabia que morreria se aquela fresta de luz cada vez menor desaparecesse.</p><p>Os sonhos foram se amontoando. Nem todos eram com ele, e a maioria parecia mais pesadelo do que sonho.</p><p>Perrin surgiu diante dela. O amigo ferreiro tinha um lobo deitado a seus p�s, al�m de um gavi�o e um falc�o aninhados um em cada ombro, os dois se encarando por cima da cabe�a dele. Perrin, que n�o parecia reparar nos p�ssaros, ficava tentando jogar o machado longe, at� que desistiu e saiu correndo, com o machado flutuando atr�s dele. Perrin reapareceu: deu as costas a um latoeiro e saiu correndo cada vez mais r�pido, ignorando seus gritos para que ele voltasse. Mat surgiu, falando palavras estranhas que Egwene quase compreendia � � <emphasis>na L�ngua Antiga</emphasis>, pensou �, com dois corvos pousados um em cada ombro, as garras perfurando o casaco, afundando na pele logo abaixo. Mat parecia t�o alheio aos animais quanto Perrin, por�m mantinha uma express�o desafiadora, que logo mudou para uma carranca resignada. Em outro sonho, uma mulher com o rosto encoberto por sombras chamava Mat, atraindo-o em dire��o a um grande perigo. Egwene n�o sabia do que se tratava, s� tinha certeza de que era monstruoso. V�rios sonhos foram sobre Rand; nem todos eram ruins, mas eram sempre estranhos. Elayne o for�ava a ficar de joelhos, empurrando-o para baixo com apenas uma das m�os. Elayne ao lado de Min e Aviendha, sentadas caladas ao redor dele, cada uma esperando sua vez de pousar uma das m�os sobre ele. Rand andando em dire��o a uma montanha em chamas, esmigalhando alguma coisa sob as botas. Egwene se remexeu e choramingou: as coisas que Rand esmagava com os p�s eram os lacres da pris�o do Tenebroso, despeda�ando-se a cada passo dele. Egwene sabia. N�o precisava v�-los para saber.</p><p>Alimentados pelo medo, os sonhos foram piorando. As duas estranhas que vira em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> a apanhavam e a arrastavam at� uma mesa cheia de mulheres encapuzadas. Quando as mulheres baixaram os capuzes, eram todas Liandrin, a irm� Negra que a capturara em Tear. Uma Seanchan sisuda lhe entregou um bracelete e um colar de prata conectado por uma correia prateada � um <emphasis>a�dam</emphasis>. Aquilo a fez gritar. J� tinha sido obrigada a usar um <emphasis>a�dam</emphasis>. Preferiria morrer a permitir que aquilo acontecesse de novo. Outro sonho � Rand fazendo estripulias pelas ruas de Cairhien, gargalhando enquanto explodia as casas e as pessoas na rua com rel�mpagos e fogo. Outros homens corriam com ele, golpeando a tudo com o Poder. Aquela terr�vel anistia de Rand fora anunciada em Cairhien, mas homem nenhum <emphasis>escolheria </emphasis>canalizar. Sonhou que as S�bias a surpreendiam em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> e a vendiam feito bicho nas terras al�m do Deserto Aiel, que era o que faziam com os cairhienos encontrados pelo Deserto. Egwene sonhou que sa�a do corpo e ficava ali, parada, assistindo ao rosto se derreter e ao cr�nio rachar, enquanto vultos de sombras a cutucavam com bast�es. Cutucando. Cutucando�</p><p>Ela se sentou de repente, ofegante, e Cowinde se endireitou ao lado da cama, a cabe�a curvada escondida no capuz do robe branco de l�.</p><p>� Me perdoe, Aes Sedai. S� pretendia acord�-la para acabar com seu jejum noturno.</p><p>� N�o precisava abrir um buraco nas minhas costelas � resmungou Egwene, mas logo se arrependeu do coment�rio �cido.</p><p>Um brilho irritado tomou os olhos azuis intensos de Cowinde, mas logo foi abafado, escondida por tr�s da m�scara de <emphasis>gai�shain</emphasis> resignada e submissa<emphasis>.</emphasis> Depois de fazer o juramento de obedecer com docilidade e n�o tocar em armas durante um ano e um dia, os <emphasis>gai�shain</emphasis> aceitavam o que lhes acontecesse, n�o importava se era uma palavra rude, uma agress�o ou at� uma facada no peito, provavelmente. Era por isso que os Aiel consideravam matar um <emphasis>gai�shain</emphasis> t�o absurdo quanto matar uma crian�a � era algo imperdo�vel, e o assassino acabava morto por seu pr�prio irm�o ou irm�. Ainda assim, Egwene tinha certeza de que aquela obedi�ncia cega era uma m�scara. Os <emphasis>gai�shain</emphasis> eram obstinados e se esfor�avam para manter a apar�ncia de docilidade, mas eram Aiel. Imposs�vel pensar em um povo menos d�cil, mesmo no caso de Cowinde, que se recusara a abandonar a roupa branca ao fim do um ano e um dia. A recusa foi um ato de rebeldia, um orgulho teimoso similar ao de qualquer homem que se recusava a bater em retirada mesmo diante de dez inimigos. Era nesse tipo de enrascada que os Aiel acabavam por causa daquele <emphasis>ji�e�toh.</emphasis></p><p>E era um dos motivos por que Egwene tomava cuidado com o modo como se dirigia aos <emphasis>gai�shain</emphasis>, sobretudo aos que eram como Cowinde. Aquelas pessoas n�o tinham como revidar uma agress�o sem violar tudo em que acreditavam. Por outro lado, Cowinde fora uma Donzela da Lan�a � e voltaria a ser, se algum dia a convencessem a abandonar aquela roupa branca. Se Egwene n�o pudesse contar com o Poder, aquela <emphasis>gai�shain</emphasis> provavelmente conseguiria subjug�-la com uma das m�os enquanto amolava a lan�a com a outra.</p><p>� N�o quero caf� da manh� � declarou Egwene. � Pode ir embora, quero dormir.</p><p>� Nada de caf� da manh�? � questionou Amys, os colares e braceletes de marfim, ouro e prata tilintando quando ela se agachou para entrar na tenda. A mulher n�o usava an�is, coisa que Aiel nenhum usava, mas usava adornos o suficiente para enfeitar tr�s mulheres e ainda sobrar um pouco. � Achei que pelo menos seu apetite j� tivesse voltado.</p><p>Bair e Melaine entraram logo em seguida, ambas tamb�m adornadas com muitas joias. Cada uma era de um cl�, mas mantinham suas tendas bem pr�ximas, apesar de as outras S�bias que haviam cruzado a Espinha do Drag�o terem permanecido junto a seus ramos. As tr�s se acomodaram sobre almofadas borladas coloridas diante das cobertas de Egwene e ajustaram os xales escuros que as Aiel usavam o tempo todo � pelo menos as Aiel que n�o faziam parte das <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>. Amys tinha cabelos t�o brancos quanto os de Bair, mas � talvez pelo contraste entre os cabelos brancos e o rosto liso � parecia estranhamente jovem em compara��o com a cara de av� de Bair, que ostentava rugas profundas. Amys tinha dito que seus cabelos eram apenas um pouco menos claros quando ela era pequena.</p><p>Em geral, era Bair ou Amys que ficava no comando, mas foi Melaine, de cabelos dourados e olhos verdes, quem falou primeiro naquele dia:</p><p>� Se voc� parar de comer, n�o vai se recuperar. N�s t�nhamos pensado em permitir que nos acompanhasse ao pr�ximo encontro com as Aes Sedai. Elas sempre perguntam quando v�o poder ver voc� outra vez�</p><p>� E sempre agem como aguacentas tolas � completou Amys, �cida.</p><p>Amys n�o era uma mulher amarga, mas seu humor azedava sempre que se referia �s Aes Sedai de Salidar. Talvez esse azedume todo fosse simplesmente por se ver obrigada a fazer reuni�es com Aes Sedai. Era costume das S�bias evitar as mulheres da Torre, sobretudo as S�bias capazes de canalizar, como Amys e Melaine. Al�m disso, as mulheres n�o ficaram nada felizes ao ver que as Aes Sedai tinham substitu�do Nynaeve e Elayne nas reuni�es. Egwene tamb�m n�o. Pelo que entendera, as S�bias achavam que haviam conseguido impressionar suas duas amigas com a seriedade de estar em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. No entanto, pelo que ouvira das reuni�es, as Aes Sedai n�o tinham ficado nem um pouco impressionadas. Pouca coisa impressionava uma Aes Sedai.</p><p>� Mas talvez seja melhor reconsiderar � continuou Melaine, com a voz tranquila. Antes do casamento, que n�o tinha muito tempo, a mulher era irasc�vel feito um espinheiro. Mas, agora, pouca coisa a fazia perder a compostura. � Voc� n�o deve voltar para os sonhos at� seu corpo ter se recuperado.</p><p>� Seus olhos est�o vermelhos � observou Bair, com uma voz preocupada e ansiosa que combinava com a express�o em seu rosto. Ainda assim, ela era a mais dura das tr�s. � Voc� dormiu mal?</p><p>� Como ela poderia ter dormido bem? � indagou Amys, irritada. � Tentei olhar os sonhos dela tr�s vezes, ontem � noite, mas n�o encontrei nada. Ningu�m dorme bem sem sonhar.</p><p>Egwene sentiu a boca ficar seca num piscar de olhos; e a l�ngua grudou no c�u da boca. Claro que elas iam verificar seus sonhos justamente na �nica noite em que ela passara mais do que apenas algumas horas fora do corpo.</p><p>Melaine fez cara feia. N�o para Egwene, mas para Cowinde, ainda ajoelhada e de cabe�a baixa.</p><p>� Tem um monte de areia perto da minha tenda � avisou, em um tom que lembrava um pouco a irrita��o constante de antes do casamento. � Quero que voc� olhe gr�o por gr�o at� encontrar um que seja vermelho. E se n�o for o que estou procurando, vai ter que olhar tudo de novo. Agora v�. � Cowinde se curvou em uma mesura t�o profunda que o rosto quase tocou os tapetes coloridos e saiu. Melaine abriu um sorriso satisfeito. � Voc� parece surpresa, Egwene. Se a garota n�o quer fazer o que � certo por conta pr�pria, vou fazer com que queira. J� que ela diz que continua me servindo, ainda � minha responsabilidade.</p><p>O longo cabelo de Bair rodopiou quando ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o vai dar certo. � Ela ajustou o xale nos ombros pontudos. Egwene suava, mesmo s� de camisola e com o sol ainda baixo, mas os Aiel estavam acostumados a passar ainda mais calor. � J� a�oitei Juric e Bera at� cansar o bra�o, mas, n�o importa quantas vezes eu diga para elas deixarem de usar branco, as duas voltam a usar o robe antes do p�r do sol.</p><p>� � uma abomina��o � resmungou Amys. � Desde que viemos para as terras aguacentas, um em cada quatro dos <emphasis>gai�shain</emphasis> que terminam de cumprir seu tempo se recusam a voltar para seus ramos. Eles est�o distorcendo o significado do <emphasis>ji�e�toh</emphasis>.</p><p>Aquilo era obra de Rand, que revelara a todos o que apenas as S�bias e os chefes de cl� sabiam: que, no passado, todos os Aiel haviam se recusado a tocar em armas ou praticar a viol�ncia. Depois disso, alguns acreditavam que ser <emphasis>gai�shain </emphasis>era dever de todos os Aiel, ao passo que outros se recusavam a aceitar Rand como o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> justamente por conta disso, e ainda havia os que a cada dia decidiam se juntar aos Shaido, nas montanhas do norte. Alguns simplesmente abandonavam as armas e sumiam, e ningu�m sabia de seu paradeiro. V�timas da Desola��o, como chamavam os Aiel. Para Egwene, o mais estranho daquilo tudo era que nenhum Aiel culpava Rand, a n�o ser os Shaido. A Profecia de Rhuidean afirmava que o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> os levaria de volta e os destruiria. De volta para o qu�, ningu�m parecia ter certeza, mas que ele os destruiria, todos, de alguma forma, aceitavam com a mesma calma com que Cowinde se conformara com uma tarefa que sabia n�o ter prop�sito.</p><p>Naquele momento, Egwene n�o teria se importado se todos os Aiel de Cairhien passassem a usar o robe branco dos <emphasis>gai�shain</emphasis>. Se as S�bias sequer suspeitassem do que ela andara aprontando� Preferiria examinar <emphasis>centenas</emphasis> de montes de areia, e faria isso de boa vontade, j� que achava que n�o teria tanta sorte. Sua puni��o seria bem mais severa. Certa vez, Amys dissera que o Mundo dos Sonhos era extremamente perigoso e, se ela n�o fizesse exatamente o que mandassem, n�o a ensinaria mais. As outras com certeza concordariam. E aquela era a puni��o que Egwene mais temia. Preferia encarar <emphasis>milhares</emphasis> de montes de areia sob o sol escaldante.</p><p>� N�o precisa ficar t�o nervosa � brincou Bair, rindo. � Amys n�o est� com raiva de todos os aguacentos, e com certeza n�o est� zangada com voc�, que � como uma filha das nossas tendas. � com aquela sua irm� Aes Sedai. Uma mulher chamada Carlinya insinuou que estar�amos prendendo voc� contra vontade.</p><p>� Insinuou? � Amys ergueu as sobrancelhas claras quase at� a raiz dos cabelos. � A mulher afirmou com todas as letras!</p><p>� Mas ela aprendeu a controlar a l�ngua � retrucou Bair, dando uma risada que a fez se balan�ar na almofada escarlate. � Ah, aposto que aprendeu. Quando sa�mos, a Aes Sedai ainda estava aos berros, tentando tirar os lagartos-escarlates do vestido. Para os olhos fracos de uma aguacenta, um lagarto-escarlate � igualzinho a uma v�bora-vermelha, mas eles n�o s�o venenosos. S� que n�o param de se contorcer quando ficam confinados.</p><p>Amys fungou.</p><p>� E os lagartos-escarlates teriam sumido se ela os visualizasse sumindo. Aquela mulher n�o aprende nada. Os Aes Sedai a quem servimos na Era das Lendas n�o deviam ser t�o tolos. � Apesar das palavras duras, ela parecia mais calma.</p><p>Melaine gargalhava com vontade, e Egwene tamb�m acabou soltando uma risadinha. Havia aspectos inexplic�veis no humor Aiel, mas n�o tinha dificuldade em ver a gra�a naquela situa��o. S� encontrara Carlinya tr�s vezes, mas s� de imaginar aquela mulher presun�osa, sisuda e fria se sacudindo sem parar enquanto tentava arrancar cobras de dentro do vestido� Egwene mal conseguia conter uma gargalhada.</p><p>� Pelo menos seu humor anda bem � comentou Melaine. � As dores de cabe�a voltaram?</p><p>� Minha cabe�a est� bem � mentiu Egwene, e Bair aquiesceu.</p><p>� �timo. Aquela dor persistente nos deixou preocupadas. Basta voc� continuar sem entrar em sonhos por mais um tempo que elas n�o devem voltar. N�o precisa ficar com medo de qualquer efeito negativo depois de ter entrado nos sonhos. A dor � s� uma forma de o corpo nos mandar descansar.</p><p>Aquilo quase fez Egwene rir de novo, mas n�o por ter achado gra�a. Os Aiel muitas vezes ignoravam ferimentos graves e ossos quebrados s� porque achavam que tinham mais o que fazer.</p><p>� Por mais quanto tempo vou precisar esperar? � indagou. Detestava mentir para as S�bias, mas ficar sem fazer nada era ainda pior. J� tinha sido bem ruim durante os primeiros dez dias depois de Lanfear a acertar com aquilo, fosse o que fosse. Naqueles primeiros dias ela n�o conseguia nem pensar sem sentir que a cabe�a ia explodir. Assim que melhorou, a �coceira do t�dio�, como sua m�e chamava, a fizera ir a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> escondida das S�bias. Ningu�m aprendia descansando, afinal. � Ent�o � para eu ir na pr�xima reuni�o?</p><p>� Talvez � respondeu Melaine, dando de ombros. � Veremos. Mas voc� precisa comer. Se estiver sem apetite � porque tem alguma coisa errada que n�o sabemos.</p><p>� Ah, eu consigo comer. � Inclusive, o mingau cozinhando l� fora cheirava bem. � Acho que s� estava com pregui�a. � Foi complicado se levantar sem vacilar; a cabe�a ainda n�o queria ser movida. � Pensei em mais perguntas ontem � noite.</p><p>Melaine revirou os olhos, divertida.</p><p>� Desde que voc� se machucou, faz cinco perguntas para cada questionamento de antes.</p><p>Porque estava tentando decifrar as coisas sozinha. Mas claro que n�o podia dizer isso, ent�o apenas pegou uma roupa de baixo limpa de um dos pequenos ba�s alinhados junto � parede da tenda e trocou-a pela camisola suada que estava usando.</p><p>� Perguntar � bom � interveio Bair. � Pergunte.</p><p>Egwene escolheu as palavras com cuidado, continuando a trocar a roupa com uma naturalidade medida, metendo-se na mesma blusa branca de <emphasis>algode</emphasis> e na saia volumosa de l� das S�bias.</p><p>� � poss�vel algu�m ser puxado para dentro de um sonho contra a vontade?</p><p>� Claro que n�o � respondeu Amys �, a n�o ser que tenha um toque muito desajeitado.</p><p>Mas, logo em seguida, Bair respondeu:</p><p>� A n�o ser que haja emo��es muito fortes envolvidas. Se tentar ver o sonho de algu�m que a ama ou odeia, voc� pode acabar sendo puxada para dentro. Ou se amar ou odiar a pessoa. � por isso, inclusive, que nem nos atrevemos a olhar os sonhos de Sevanna ou sequer falar com as S�bias Shaido em seus pr�prios sonhos.</p><p>Egwene achava muito surpreendente que aquelas mulheres � e todas as outras S�bias, na verdade � ainda se encontrassem e conversassem com as S�bias dos Shaido. Segundo os costumes, a uni�o entre as S�bias estava acima de rixas e batalhas, mas Egwene achava que se opor ao <emphasis>Car�a�carn</emphasis> e jurar mat�-lo deixava os Shaido muito al�m de um conflito comum.</p><p>� Sair do sonho de algu�m que a odeia ou a ama � como tentar escalar para sair de um buraco bem fundo e de paredes lisas � concluiu Bair.</p><p>� Bem isso. � Amys pareceu recobrar o humor, olhando de soslaio para Melaine. � Por isso que nenhuma Andarilha dos Sonhos comete o erro de tentar ver os sonhos do marido. � Melaine parecia cada vez mais s�ria, os olhos fixos � frente. � Bem, pelo menos n�o comete esse erro duas vezes.</p><p>Bair abriu um sorriso enorme que aprofundou os vincos de seu rosto, tudo isso enquanto claramente evitava olhar para Melaine.</p><p>� Pode ser um tremendo choque, ainda mais se o marido estiver irritado com a esposa Andarilha. Como, em um exemplo que acabei de inventar, caso o marido tivesse que ficar longe da esposa por causa do <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, e ela, revoltada feito uma crian�a tola, fosse boba o bastante para dizer que ele n�o iria se a amasse de verdade.</p><p>� Isso j� est� fugindo demais da pergunta � advertiu Melaine, com o rosto muito vermelho e a voz muito contida.</p><p>Bair riu.</p><p>Egwene conteve a curiosidade e o divertimento. For�ou a voz a soar ainda mais casual:</p><p>� Mas e se a pessoa n�o estiver tentando olhar?</p><p>Melaine olhou para ela, agradecida, e Egwene sentiu uma pontada de culpa. Claro que n�o o suficiente para deixar de tentar descobrir a hist�ria inteira mais tarde. S� podia ser hil�ria, para <emphasis>Melaine</emphasis> corar daquele jeito.</p><p>� J� ouvi um caso assim � comentou Bair. � Quando eu era jovem e estava come�ando a aprender, fui treinada por Mora, a S�bia do Forte Colrada. Ela dizia que, se o sentimento fosse <emphasis>muito</emphasis> intenso, como um amor ou um �dio imensos e que n�o deixassem espa�o para mais nada, a Andarilha poderia ser puxada para dentro do sonho s� de ficar sabendo que ele existia.</p><p>� Nunca ouvi falar de nada parecido � afirmou Melaine.</p><p>Amys apenas pareceu incerta.</p><p>� Eu tamb�m nunca ouvi isso de ningu�m, s� de Mora � confirmou Bair. � Mas Mora era incr�vel. Diziam que tinha quase trezentos anos quando morreu com uma picada de cobra-sangue, mas parecia t�o jovem quanto qualquer uma de voc�s. Eu n�o passava de uma garota, mas me lembro bem de Mora. Ela entendia de muitas coisas, e n�o s� era capaz de canalizar como era bem forte. Vinham S�bias de todos os cl�s para aprender com ela. Acho que � muito raro haver um amor ou um �dio t�o grandes, mas Mora dizia que j� tinha acontecido duas vezes com ela. Uma com o primeiro homem com quem se casou, outra com um rival que disputava o interesse de seu terceiro marido.</p><p>� Trezentos?! � exclamou Egwene, parando de amarrar a bota macia que ia at� os joelhos. Achava que nem Aes Sedai viviam tanto.</p><p>� Como falei, era o que se dizia � retrucou Bair, sorrindo. � Algumas mulheres envelhecem mais devagar, como Amys aqui. E, quando se trata de uma mulher como Mora, sempre surgem hist�rias. Um dia conto a hist�ria de como Mora moveu uma montanha. Quer dizer, � o que dizem.</p><p>� Um dia? � indagou Melaine, em um tom um tanto delicado demais. Dava para ver que ela ainda se ressentia do que acontecera no sonho de Bael, fosse o que fosse, e de todas as outras saberem do acontecido. � J� ouvi todas as hist�rias de Mora quando era crian�a. Acho at� que sei todas de cor. No dia em que Egwene terminar de se vestir, temos que a fazer comer alguma coisa. � Um brilho em seus olhos verdes indicava que ela pretendia conferir que cada mordida fosse engolida. Suas suspeitas quanto � sa�de de Egwene com certeza n�o tinham cessado. � E responder �s outras perguntas.</p><p>Egwene, desesperada, se atrapalhou na formula��o da pergunta seguinte. Em geral, sempre acordava com um monte de perguntas, mas, depois dos acontecimentos da noite anterior, acabara s� com aquela d�vida. Se deixasse por aquilo mesmo, as S�bias poderiam come�ar a suspeitar se a indaga��o n�o surgira por ela ter ido escondida espionar algum sonho. Mais uma pergunta. E n�o sobre os pr�prios sonhos, t�o estranhos. Um ou outro at� poderiam ter algum significado, se ela conseguisse decifr�-lo. Anaiya afirmava que Egwene era uma Sonhadora, algu�m capaz de predizer o curso de acontecimentos futuros, e aquelas tr�s S�bias concordavam que podia ser o caso, mas diziam que Egwene deveria aprender que a interpreta��o dos sonhos vinha de dentro. Al�m disso, n�o sabia ao certo se queria discutir seus sonhos, n�o importava com quem. Aquelas mulheres j� sabiam mais do que se passava em sua cabe�a do que Egwene gostaria que soubessem.</p><p>� Ah� e as Andarilhas dos Sonhos que n�o s�o S�bias? Voc�s por acaso encontram outras mulheres em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>?</p><p>� �s vezes � respondeu Amys �, mas n�o � comum. Sem um guia com quem aprender, a mulher pode nunca sequer perceber que caminhar no Mundo dos Sonhos � mais do que ter sonhos v�vidos.</p><p>� E, ignorante dos arredores, pode muito bem acabar morrendo, v�tima do sonho, antes de aprender� � completou Bair.</p><p>J� mais segura por ter se afastado daquele assunto arriscado, Egwene relaxou. Conseguira mais respostas do que poderia esperar. Sabia que amava Gawyn � <emphasis>Ent�o voc� sabia, �?</emphasis> sussurrou uma voz. <emphasis>E estava disposta a admitir?</emphasis> �, e os sonhos dele eram um claro indicativo de que esse amor era correspondido. Por�m, pensando bem, se os homens eram capazes de dizer coisas que n�o sentiam quando acordados, era muito prov�vel que pudessem sonh�-las. Bem, com as S�bias confirmando que ele a amava com tanta intensidade que passava por cima de tudo, Egwene�</p><p>N�o. Pensaria nisso depois. N�o fazia ideia de em que parte do mundo estava Gawyn. O importante era que sabia do perigo. Da pr�xima vez, conseguiria reconhecer e evitar os sonhos de Gawyn. <emphasis>Se </emphasis>� isso que <emphasis>voc� realmente quer</emphasis>, sussurrou aquela vozinha. Egwene torceu para que as S�bias encarassem suas bochechas coradas como um fulgor saud�vel. Queria poder interpretar o significado dos pr�prios sonhos. Isso se tivessem algum significado.</p><empty-line/><p>Aos bocejos, Elayne subiu em uma pedra para ver por cima das cabe�as da multid�o. Naquele dia, n�o havia soldados em Salidar, mas o povo enchia as ruas e assistia das janelas, entre sussurros ansiosos, esperando, os olhos fixos na Pequena Torre. Os �nicos sons vinham do arrastar de p�s ansioso que levantavam poeira e, volta e meia, faziam algu�m tossir. Apesar do calor logo no in�cio da manh�, as pessoas mal se moviam, a n�o ser para abanar algum leque ou chap�u a fim de se refrescar.</p><p>Leane estava parada entre duas casas de telhado de palha, nos bra�os de um homem alto e de rosto muito s�rio que Elayne nunca vira. E bem nos bra�os dele. Decerto era algum dos agentes da antiga Curadora das Cr�nicas. Era mais comum que os olhos-e-ouvidos das Aes Sedai fossem mulheres, mas os de Leane eram quase todos homens. Ela sempre os mantinha fora de vista, mas Elayne j� notara alguns tapinhas em bochechas desconhecidas e sorrisos em dire��o a um par de olhos estranhos. N�o fazia ideia de como Leane conseguia. Tinha certeza de que, se tentasse aqueles truques domaneses, o sujeito acabaria achando que ela prometera muito mais do que pretendia dar. Com Leane, os homens ganhavam um tapinha e um sorriso e iam embora t�o felizes quanto se tivessem recebido um ba� de ouro.</p><p>Em outro ponto da multid�o, viu Birgitte, que, muito esperta, se mantivera afastada. Daquela vez, n�o viu aquela horrorosa da Areina em lugar nenhum. A noite tinha sido muito mais que agitada, e Elayne s� fora para a cama quando o dia j� come�ava a raiar. Na verdade, nem teria ido se Birgitte n�o tivesse dito a Ashmanaille que Elayne parecia um pouco tonta. Claro que Birgitte n�o estava sendo apenas observadora: o elo com um Guardi�o era uma via de m�o dupla. Qual era o problema de estar um pouco cansada? Quando fora mandada para a cama, ainda havia muito trabalho a fazer, e ela conseguiria canalizar com mais for�a do que metade das Aes Sedai ali em Salidar. Atrav�s do elo, sabia que a pr�pria Birgitte ainda n�o dormira! Ah, tinha sido mandada para a cama feito uma novi�a, enquanto Birgitte passava a noite carregando os feridos e limpando destro�os!</p><p>Quando olhou de novo, viu que Leane j� estava sozinha, espremendo-se por entre a multid�o em busca de um bom lugar para assistir a tudo. N�o havia sinal do homem alto.</p><p>Aos bocejos, uma Nynaeve sonolenta e de olhos vermelhos foi para perto de Elayne, fazendo cara feia para um lenhador de colete de couro que tentara chegar antes dela. Resmungando sozinho, o sujeito se enfiou de volta na multid�o. Elayne gostaria que Nynaeve n�o fizesse aquilo � os bocejos, n�o a cara feia. Antes que pudesse se conter, imitou o movimento. Birgitte at� tinha desculpa � n�o muita �, mas Nynaeve, n�o. Theodrin n�o podia ter esperado que ela ficasse acordada depois da noite anterior, e Elayne ouvira Anaiya mand�-la para a cama. Ainda assim, quando Elayne entrou no quarto, deu de cara com Nynaeve sentada no banquinho, que acabara com o p� torto, tentando se manter acordada, a cabe�a meneando a cada dois minutos, resmungando que Theodrin ia ver s�, todo mundo ia ver s�.</p><p>Claro que o bracelete do <emphasis>a�dam</emphasis> transmitia medo, mas tamb�m tinha um toque do que poderia ser divers�o. Moghedien passara a noite escondida debaixo da cama, ilesa � e, como se escondera bem, n�o recebera ordens de catar um �nico galho ca�do. Conseguira at� ter uma boa noite de sono assim que a como��o arrefeceu. Ao que parecia, ainda valia o velho ditado sobre a sorte do Tenebroso.</p><p>Nynaeve abriu a boca para um novo bocejo, e Elayne desviou os olhos depressa. Ainda assim, precisou botar a m�o na frente da boca e segurar firme para n�o a imitar � o que n�o deu muito certo. O som de p�s arrastando e de tossidelas foi assumindo um ar cada vez mais impaciente.</p><p>As Votantes ainda estavam com Tarna na Pequena Torre, mas o cavalo ru�o da Vermelha j� estava preparado, amarrado bem ali, na rua, diante da antiga estalagem. Ao redor encontrava-se a escolta de honra para as primeiras dez milhas de viagem da Vermelha de volta a Tar Valon: dez Guardi�es ao lado de seus cavalos de batalha, segurando bem as r�deas � uma vis�o dif�cil, com os mantos furta-cor confundindo o olhar. A multid�o n�o se reunira ali ansiosa, apenas por causa da partida da enviada da Torre, mas a maioria parecia t�o esgotada quanto Elayne.</p><p>� Seria de se pensar que ela era� era� � Cobrindo a boca com a m�o, Nynaeve deu um enorme bocejo.</p><p>� Ah, sangue e cinzas! � murmurou Elayne.</p><p>Ou tentou murmurar, pois s� o que saiu depois do �ah� foi um resmungo abafado pela m�o cobrindo seu pr�prio bocejo. Lini sempre dizia que aquele tipo de coment�rio vulgar era indicativo de uma mente lerda e de intelig�ncia limitada � e isso sempre vinha logo antes de uma ordem para que Elayne lavasse a boca, claro. Mas, algumas vezes, n�o havia express�o melhor para expressar tantos sentimentos em t�o poucas palavras. E ela teria dito mais, por�m n�o conseguiu.</p><p>� Por que n�o fazem logo uma prociss�o? � vociferou Nynaeve. � N�o entendo para que tanto alvoro�o por causa dessa mulher � completou. E bocejou de novo. De novo!</p><p>� � porque essa mulher � Aes Sedai, dorminhoca � respondeu Siuan, juntando-se a elas. � Duas dorminhocas � completou, olhando para Elayne. � V�o acabar com o casco coberto de cracas, se continuarem nessa leseira. � Elayne tratou de fechar a boca e encarar Siuan com seu olhar mais g�lido. Como de costume, o efeito foi como chuva deslizando por um telhado laqueado. � Tarna � Aes Sedai, meninas � prosseguiu Siuan, encarando os cavalos parados � espera. Ou talvez estivesse olhando para a carro�a vazia que tinham puxado at� a entrada da estalagem de pedra. � E uma Aes Sedai � uma Aes Sedai, n�o h� como mudar isso.</p><p>Nynaeve olhou feio para Siuan, que nem reparou.</p><p>Elayne agradeceu por Nynaeve ter se controlado. Sabia que a resposta pronta na ponta da l�ngua da amiga teria sido bem venenosa.</p><p>� Qual foi o preju�zo de ontem � noite?</p><p>Siuan respondeu sem nem desviar o olhar da porta da estalagem, por onde Tarna sairia.</p><p>� Sete mortos s� aqui na aldeia. Quase cem soldados nos acampamentos, com todas aquelas espadas, machados e outras armas jogadas pelos cantos, mas sem ningu�m para ajudar com o Poder. Algumas irm�s est�o Curando os sobreviventes agora.</p><p>� E Lorde Gareth? � perguntou a Filha-herdeira, um pouco ansiosa.</p><p>O homem podia estar agindo com frieza com ela, mas Elayne j� vira seus sorrisos calorosos quando era crian�a, e ele sempre tinha balas no bolso para ela.</p><p>Siuan bufou t�o alto que algumas pessoas se viraram para olhar.</p><p>� Aquele l� At� um peixe-le�o quebraria os dentes, se tentasse morder o homem � resmungou.</p><p>� Voc� parece de bom humor � observou Nynaeve. � Finalmente descobriu qual � a mensagem da Torre? Gareth Bryne a pediu em casamento? Algu�m morreu e deixou uma heran�a�?</p><p>Elayne tentou n�o olhar para a amiga � at� o som do bocejo dela fazia sua mand�bula ranger.</p><p>Siuan encarou Nynaeve com indiferen�a, e ela devolveu na mesma moeda, ainda que com olhos um tanto �midos.</p><p>� Por favor, conte se tiver descoberto alguma coisa � interrompeu Elayne, antes que os olhares assassinos que as duas trocavam acabassem matando de verdade.</p><p>� Todo mundo sabe que uma mulher que se diz Aes Sedai quando n�o � est� se metendo num caldeir�o fervente com �gua at� o pesco�o, mas se a mulher ainda por cima alegar fazer parte de uma Ajah espec�fica, essa Ajah tem prioridade na escolha da puni��o� � murmurou Siuan, como se estivesse pensando em voz alta. � Myrelle j� contou sobre a vez em que encontrou uma mulher em Chachin que dizia ser uma Verde? Era uma antiga novi�a que n�o passou no teste para Aceita. Voc�s deviam perguntar, quando ela tiver algumas horas livres. Vai levar um bom tempo para contar a hist�ria toda. A coitada deve ter desejado ter sido simplesmente estancada muito antes de Myrelle acabar. Estancada e decapitada.</p><p>Inexplicavelmente, a amea�a n�o surtiu mais efeito do que o olhar feio de antes tivera em Nynaeve. As duas sequer estremeceram. Talvez estivessem cansadas demais.</p><p>� Ah, trate de me contar o que sabe � amea�ou Elayne, baixinho �, sen�o vou ensinar voc� a se sentar direito, na pr�xima vez em que estivermos sozinhas. E pode sair chorando atr�s de Sheriam, se quiser.</p><p>Siuan estreitou os olhos. De repente, Elayne soltou um gritinho de dor e levou a m�o � cintura.</p><p>Siuan nem tentou disfar�ar enquanto recolhia a m�o que dera o belisc�o.</p><p>� N�o sou muito chegada a amea�as, garota. Voc� sabe o que Elaida disse t�o bem quanto eu. E viu antes de todo mundo aqui.</p><p>� Para voltarem, que est� tudo perdoado? � indagou Nynaeve, incr�dula.</p><p>� Mais ou menos. Tem uma boa dose de tempero para disfar�ar o peixe azedo, uma conversa de que, mais do que nunca, a Torre precisar se unir. Sem falar na isca de que ningu�m precisar ter medo, s� quem �de fato decidiu se rebelar�. S� a Luz sabe o que isso quer dizer. Eu n�o sei.</p><p>� E por que est�o mantendo tudo em segredo? � protestou Elayne. � N�o � poss�vel que elas achem que algu�m vai voltar para Elaida. Basta mostrar Logain!</p><p>Siuan n�o respondeu, apenas franziu a testa para os Guardi�es � espera na frente da estalagem.</p><p>� Ainda n�o entendo por que elas est�o pedindo mais tempo � resmungou Nynaeve. � Elas sabem o que deve ser feito. � Siuan continuou quieta. Depois de alguns segundos, Nynaeve ergueu as sobrancelhas. � Voc� n�o sabe o que elas responderam.</p><p>� Agora eu sei � retrucou Siuan, irritada, para ent�o murmurar sozinha, algo que saiu como sobre �tolas fracas de joelhos bambos�.</p><p>Elayne concordou, mas segurou a l�ngua.</p><p>A porta da antiga estalagem se abriu de repente, e algumas Votantes � uma de cada Ajah � sa�ram, usando os xales cheios de babados, seguidas de Tarna. As outras Votantes fechavam a prociss�o. Se a multid�o ali reunida estava esperando alguma cerim�nia, devia ter ficado desapontada. Com uma express�o indecifr�vel, Tarna montou no cavalo, correu os olhos pelas Votantes, encarou brevemente a multid�o e esporou o cap�o, colocando-o em movimento. A escolta de Guardi�es foi junto. Um burburinho preocupado se elevou da multid�o, ansiosa como abelhas agitadas, � medida que as pessoas iam abrindo passagem.</p><p>Os murm�rios se prolongaram at� Tarna sumir de vista, j� fora da aldeia, e Romanda subir na carro�a e, com toda a delicadeza, endireitar o xale de babados amarelos. Seguiu-se um sil�ncio mortal. Segundo a tradi��o, os pronunciamentos do Sal�o eram feitos pela Votante mais antiga. Claro que Romanda n�o se movia como uma idosa, e seu rosto tinha a idade t�o indefinida quanto qualquer outro, mas mechas de cabelo grisalho sempre eram um indicativo da idade numa Aes Sedai, e o coque preso � nuca da Amarela era de um grisalho claro, sem o menor sinal de qualquer mecha escura. Elayne se perguntava quantos anos a mulher devia ter, mas perguntar a idade de uma Aes Sedai era considerado extremamente rude.</p><p>Romanda teceu fluxos de Ar para aumentar o alcance da voz aguda de soprano, que chegou a Elayne como se estivesse cara a cara com a Amarela.</p><p>� Muitos de voc�s andam preocupados, mas n�o h� necessidade. Se Tarna Sedai n�o tivesse vindo at� n�s, ter�amos enviado missivas para a Torre Branca. Afinal, n�o d� para dizer que a localiza��o do nosso esconderijo � um segredo. � Romanda fez uma pausa, como se quisesse dar tempo para a multid�o rir, mas todos mantiveram os olhos fixos na mulher, que arrumou o xale. � Nosso prop�sito aqui n�o mudou. Estamos em busca da verdade e da justi�a, de fazer o que � certo�</p><p>� Certo para quem? � murmurou Nynaeve.</p><p>� � e n�o vamos hesitar ou fracassar. Cuidem de suas tarefas como t�m cuidado, certos de que continuam abrigados sob nossas m�os, agora e depois de retornarmos a nossos devidos lugares na Torre Branca. Que a Luz brilhe sobre todos voc�s. Que a Luz brilhe sobre todos n�s.</p><p>O burburinho se intensificou, e a multid�o foi se dispersando aos poucos enquanto Romanda descia da carro�a. O rosto de Siuan poderia ter sido esculpido em pedra, tamanho estoicismo, os l�bios comprimidos e p�lidos. Elayne tinha algumas perguntas, mas Nynaeve saltou da pedra onde estivera e for�ou caminho em dire��o � estalagem. Elayne se apressou em segui-la. Na noite anterior, a amiga estivera prestes a revelar o que tinham descoberto sem nem pensar. Se quisessem usar a informa��o para influenciar o Sal�o, precisavam expor o que sabiam com cuidado. E de fato parecia que precisavam dessa influ�ncia. O pronunciamento de Romanda fora uma carro�a e meia de nada e claramente irritara Siuan.</p><p>Espremendo-se por entre dois grandalh�es de olhos cravados nas costas de Nynaeve, que pisara em v�rios p�s para passar, Elayne se virou para tr�s e flagrou Siuan de olho nela e em Nynaeve. Mas s� durou um instante: assim que percebeu que havia sido vista, fingiu ter encontrado algum conhecido na multid�o e pulou para o ch�o, como se estivesse indo atr�s da pessoa. Franzindo o cenho, Elayne apressou o passo. Siuan estava ou n�o irritada? E quanto daquela irrita��o e ignor�ncia do que se passava era fingimento? A ideia de Nynaeve de fugir para Caemlyn � que Elayne ainda n�o tinha certeza se j� fora descartada � era mais que est�pida, mas at� ela estava ansiosa para ir a Ebou Dar e fazer algo realmente �til. Todos aqueles segredos e suspeitas eram como uma comich�o que n�o conseguia alcan�ar para co�ar. Bastava que Nynaeve n�o estragasse tudo�</p><p>Elayne alcan�ou a amiga no exato instante em que Nynaeve chegava a Sheriam, parada perto da carro�a da qual Romanda fizera o pronunciamento. Morvrin tamb�m estava l�, junto com Carlinya, e as tr�s usavam os xales. Naquela manh�, todas as Aes Sedai estavam de xale. O cabelo cacheado de Carlinya, agora muito mais curto, era o �nico sinal do quase desastre em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p>� Precisamos falar com voc� a s�s � declarou Nynaeve, para Sheriam. � Em particular.</p><p>Elayne suspirou. N�o era o melhor dos come�os, mas tamb�m n�o era um dos piores.</p><p>Sheriam encarou as duas por um momento e ent�o olhou para Morvrin e Carlinya.</p><p>� Muito bem. L� dentro � ordenou.</p><p>Quando se viraram, deram de cara com Romanda entre elas e a porta. A Amarela, de olhos escuros e com uma beleza masculina, estava parada, envolta no xale de babados amarelos cheio de flores e vinhas e com a Chama de Tar Valon bem no topo, entre os ombros. Ignorando Nynaeve, ela abriu um sorriso caloroso para Elayne � o tipo de sorriso que ela j� se acostumara a esperar e a temer, vindo de uma Aes Sedai. Para Sheriam, Carlinya e Morvrin, a express�o foi bem diferente. Romanda as encarou, ap�tica e de cabe�a erguida, at� as tr�s se abaixarem em rever�ncias t�midas e murmurarem �Com sua licen�a, Votante�. S� ent�o Romanda se afastou para o lado, mas mesmo assim fungou alto.</p><p>O povo n�o notou, claro, mas Elayne j� entreouvira trechos de conversas das Aes Sedai a respeito de Sheriam e seu pequeno conselho. Algumas achavam que elas s� cuidavam de aspectos do cotidiano de Salidar, liberando o Sal�o para tratar quest�es mais importantes. Outros sabiam que elas tinham influ�ncia junto ao Sal�o � mas o tamanho dessa influ�ncia variava de acordo com quem opinava. Romanda era uma das que acreditavam que era influ�ncia demais. Pior ainda: havia duas Azuis e nenhuma Amarela no grupinho. Elayne sentiu o olhar da Votante mais velha cravado em suas costas enquanto acompanhava as outras porta adentro.</p><p>Sheriam as conduziu a uma das salas privativas junto � antiga �rea comum, com pain�is carcomidos por insetos e uma mesa cheia de pap�is encostada a uma das paredes. Ela ergueu as sobrancelhas quando Nynaeve pediu que tomassem precau��es para evitar que algu�m entreouvisse, mas teceu a barreira ao redor do aposento sem nenhum coment�rio. Lembrando-se das aventuras passadas de Nynaeve, Elayne tomou o cuidado de verificar se todas as janelas estavam bem fechadas.</p><p>� N�o espero menos do que not�cias de que Rand al�Thor est� a caminho � avisou Morvrin, seca.</p><p>As duas outras se entreolharam. Elayne conteve a indigna��o. Aquelas mulheres realmente acreditavam que ela e Nynaeve estavam escondendo segredos sobre Rand al�Thor. Elas e aqueles segredos!</p><p>� N�o � nada disso � respondeu Nynaeve �, mas � igualmente importante. Apenas diferente.</p><p>As duas contaram de sua viagem a Ebou Dar e da descoberta da vasilha <emphasis>ter�angreal</emphasis>. N�o na ordem certa e sem mencionar a Torre, mas com todos os pontos essenciais.</p><p>� E voc�s t�m certeza de que essa vasilha � um <emphasis>ter�angreal</emphasis>? � indagou Sheriam, quando Nynaeve terminou. � Ela pode controlar o clima?</p><p>� Pode, Aes Sedai � confirmou Elayne, simplesmente. O melhor era ser simples, para come�ar.</p><p>Morvrin grunhiu. A mulher duvidava de tudo.</p><p>Mexendo no xale, Sheriam assentiu.</p><p>� Ent�o voc�s fizeram bem. Vamos mandar uma carta para Merilille. � Merilille Ceandevin, a irm� Cinza enviada para Ebou Dar a fim de convencer a rainha a apoiar Salidar. � Precisaremos de todos os detalhes.</p><p>� Ela n�o vai conseguir encontrar � interveio Nynaeve, antes que Elayne pudesse abrir a boca. � Mas eu e Elayne conseguiremos.</p><p>Os olhos das Aes Sedai gelaram.</p><p>� Provavelmente seria imposs�vel para ela � acrescentou Elayne, mais do que depressa. � N�s <emphasis>vimos</emphasis> onde est� a vasilha, mas mesmo assim vai ser dif�cil. Mas pelo menos <emphasis>sabemos</emphasis> o que vimos. Descrev�-la numa carta nunca seria igual.</p><p>� Ebou Dar n�o � lugar para Aceitas � afirmou Carlinya, com frieza.</p><p>O tom de voz de Morvrin foi um pouco mais gentil, ainda que rude:</p><p>� Todas precisamos fazer o melhor que pudermos, crian�a. Acham que Edesina, Afara e Guisin queriam ir para Tarabon? O que elas poderiam fazer para trazer ordem �quela terra agitada? Mas temos que tentar, ent�o elas foram. Neste exato momento, Kiruna e Bera devem estar na Espinha do Mundo, em sua jornada atr�s de Rand al�Thor no Deserto Aiel, porque, quando enviamos as duas, achamos, e era s� um palpite, que ele pudesse estar l�. A jornada delas n�o � menos f�til porque est�vamos certas, agora que ele j� saiu do Deserto. Todas fazemos o que podemos, o que devemos. Voc�s s�o Aceitas. Aceitas n�o saem correndo para Ebou Dar ou outro lugar qualquer. O que voc�s duas podem e devem fazer � ficar aqui, estudando. Mesmo se voc�s fossem irm�s completas, eu diria para ficarem. H� mais de cem anos ningu�m faz o tipo de descoberta que voc�s fizeram, tantas em t�o pouco tempo.</p><p>Nynaeve, sendo quem era, ignorou o que n�o queria ouvir e se concentrou em Carlinya.</p><p>� Temos nos sa�do muito bem sozinhas, obrigada. Duvido que Ebou Dar seja t�o ruim quanto Tanchico.</p><p>Elayne achava que Nynaeve n�o sabia nem que estava agarrando a tran�a, puxando a ponto de quase arrancar. Ser� que ela nunca aprenderia que �s vezes bastava um pouco de civilidade para conquistar o que a honestidade poria a perder?</p><p>� Entendo as suas preocupa��es, Aes Sedai � ponderou Elayne �, mas, mesmo podendo parecer falta de mod�stia, a verdade � que estou mais qualificada para localizar um <emphasis>ter�angreal</emphasis> do que qualquer pessoa em Salidar. E Nynaeve e eu sabemos mais sobre onde procurar do que conseguir�amos transmitir em uma carta. Se nos mandarem para Merilille Sedai, tenho certeza de que, sob a orienta��o dela, conseguir�amos localizar a tigela bem r�pido. Seriam apenas alguns dias de barco at� Ebou Dar e mais os poucos dias da volta, al�m de alguns dias sob a tutela de Merilille Sedai. � Foi dif�cil n�o respirar fundo. � Enquanto isso, voc�s poderiam mandar uma mensagem para um dos olhos-e-ouvidos de Siuan em Caemlyn. para que a pessoa j� esteja l� quando Merana Sedai chegar com a miss�o diplom�tica.</p><p>� E por que, sob a Luz, dever�amos fazer isso? � contestou Morvrin.</p><p>� Achei que Nynaeve tivesse dito, Aes Sedai. N�o tenho certeza, mas acredito que a vasilha tamb�m precise da canaliza��o de um homem para funcionar.</p><p>Claro que aquilo causou uma pequena como��o. Carlinya engasgou, Morvrin resmungou baixinho e Sheriam ficou literalmente boquiaberta. Nynaeve tamb�m ficou surpresa, mas apenas por um instante. Elayne teve certeza de que a amiga conseguira disfar�ar antes que as outras notassem � estavam estupefatas demais para ver muita coisa, afinal. A quest�o, pura e simples, era que se tratava de uma mentira. O segredo era ser simples. Em tese, os grandes feitos da Era das Lendas tinham sido alcan�ados por homens e mulheres canalizando em conjunto, provavelmente em uni�o. Era muito prov�vel que <emphasis>existissem</emphasis> alguns <emphasis>ter�angreal</emphasis> que precisassem da canaliza��o conjunta de um homem para funcionar. Em todo caso, se Elayne n�o conseguisse fazer aquela vasilha funcionar, ningu�m mais em Salidar conseguiria � exceto talvez Nynaeve. Caso o funcionamento dependesse da participa��o de Rand, o Sal�o de Salidar n�o poderia simplesmente desperdi�ar a chance de tomar alguma provid�ncia a respeito do clima e teriam que se aliar a ele. Quando Elayne �descobrisse� que um c�rculo de mulheres daria conta da vasilha, as Aes Sedai de Salidar j� estariam muito atreladas a Rand para poderem se libertar.</p><p>� Tudo isso faz muito sentido � afirmou Sheriam, por fim �, mas n�o muda o fato de que voc�s s�o apenas Aceitas. Vamos enviar uma carta para Merilille. Tem havido muita conversa sobre voc�s duas�</p><p>� Conversa! � irrompeu Nynaeve. � Voc�s s� fazem isso, voc�s <emphasis>e</emphasis> o Sal�o! S� conversam! Elayne e eu podemos <emphasis>encontrar</emphasis> esse <emphasis>ter�angreal</emphasis>, mas voc�s preferem ficar cacarejando feito galinhas chocadeiras! � As palavras iam se atropelando ao sair. Nynaeve puxava a tran�a com tanta intensidade que Elayne n�o se surpreenderia se acabasse se soltando da cabe�a, pendurada em suas m�os. � Voc�s s� ficam aqui, sentadas, torcendo para que Thom, Juilin e os outros voltem dizendo que os Mantos-brancos n�o v�o desabar feito uma casa velha em cima da gente, sendo que eles podem muito bem voltar com os Mantos-brancos em seu encal�o. Ficam sentadas s� pensando no que fazer com Elaida, em vez de fazer o que disseram que fariam, e se atrapalham todas para resolver como lidar com Rand. Por acaso j� sabem como v�o se posicionar a respeito dele? Sabem, apesar de a miss�o diplom�tica j� estar a caminho de Caemlyn? E querem saber por que s� ficam sentadas conversando? Pois eu sei! Voc�s t�m medo. Medo de ver a Torre cindida, medo de Rand, dos Abandonados, da Ajah Negra� Ontem � noite, Anaiya deixou escapar que voc�s tinham um plano pronto para o caso de um dos Abandonados atacar. Todos aqueles c�rculos, e tudo por uma bolha de mal� Ser� que finalmente acreditam que elas existem? E os c�rculos estavam todos desordenados, a maioria deles com mais novi�as do que Aes Sedai, porque s� algumas Aes Sedai sabiam de antem�o o que fazer. Acham que a Ajah Negra est� aqui em Salidar, e estavam com medo de que o plano pudesse chegar a Sammael ou algum dos outros. N�o confiam nem umas nas outras! N�o confiam em ningu�m! E � por isso que n�o v�o nos mandar para Ebou Dar? Acham que <emphasis>n�s </emphasis>somos da Ajah Negra, ou que vamos fugir para Rand, ou� ou�! � A voz foi fraquejando, e Nynaeve come�ou a ofegar e a gaguejar. Mal parara para respirar durante aquele rompante.</p><p>O primeiro instinto de Elayne foi tentar colocar panos quentes, mas n�o conseguia nem come�ar a pensar em como fazer isso. Seria t�o f�cil quanto suavizar o relevo de uma cordilheira. Foram as Aes Sedai que a fizeram esquecer a preocupa��o por Nynaeve talvez ter conseguido estragar tudo. Os rostos inexpressivos, com olhos capazes de ver atrav�s de rochas, n�o deveriam ter transmitido nenhuma emo��o � mas, para ela, transmitiam. E n�o era aquela raiva fria que deveria ser direcionada a qualquer um tolo o bastante para vociferar contra uma Aes Sedai. O que ela viu foi um escudo, e a �nica coisa a ser escondida era a verdade. Uma verdade que elas mesmas n�o queriam admitir: estavam realmente com medo.</p><p>� Acabou? � indagou Carlinya, com uma voz capaz de congelar o sol.</p><empty-line/><p>Elayne soltou um espirro t�o forte que bateu a cabe�a na lateral do caldeir�o virado. O cheiro de sopa queimada enchia seu nariz. O sol do meio da manh� esquentara o interior escuro do panel�o at� parecer que ele ainda estava no fogo. O suor pingava de seu rosto � ou melhor, escorria. Ela largou a pedra-pomes �spera e engatinhou de costas para fora do caldeir�o, ent�o olhou para a mulher a seu lado � ou melhor, para a metade exposta da mulher, enfiada em um caldeir�o um pouco menor, tamb�m deitado de lado. Ela cutucou a cintura de Nynaeve e abriu um sorriso satisfeito quando o cutuc�o a fez bater a cabe�a no ferro, resultando em um gemido de dor. Nynaeve saiu de dentro do panel�o com um olhar amea�ador � o brilho perigoso em seus olhos sequer foi amenizado pelo bocejo que ela escondeu por tr�s da m�o encardida. Elayne n�o lhe deu nem chance de falar.</p><p>� Voc� tinha que explodir, n�o tinha? N�o consegue controlar esse g�nio nem por cinco minutos. J� t�nhamos tudo nas m�os, mas voc� teve que ir l� e dar um pontap� bem no nosso tornozelo.</p><p>� Elas n�o teriam deixado a gente ir para Ebou Dar, de qualquer jeito � resmungou Nynaeve. � E n�o chutei nada sozinha. � Ela empinou o queixo em um gesto afetado, erguendo tanto a cabe�a que teve que olhar bem para baixo para ver Elayne. � �Aes Sedai controlam o pr�prio medo� � entoou, em um tom que poderia ter servido para repreender um vagabundo b�bado e cambaleante que tivesse se metido na frente de seu cavalo. � �E n�o permitem que o medo as controle. Liderem, e seguiremos com prazer. Mas voc�s precisam liderar, n�o se curvar na esperan�a de que alguma coisa fa�a os problemas desaparecerem.�</p><p>Elayne sentiu as bochechas esquentarem. N�o se comportava daquele jeito. E com certeza n�o tinha falado naquele tom.</p><p>� Bem, talvez n�s duas tenhamos perdido a calma, mas� � Ela ouviu passos, ent�o parou de falar.</p><p>� Ah, ent�o quer dizer que as crian�as de ouro das Aes Sedai decidiram descansar um pouco, �? � O sorriso de Faolain era t�o pouco amig�vel quanto um sorriso poderia ser. � N�o estou aqui pelo prazer, entendem? Queria passar o dia trabalhando em algum projeto meu, algo n�o terrivelmente inferior ao que as duas crian�as de ouro t�m feito. Em vez disso, tenho que vigiar duas Aceitas esfregando panelas para expiar seus pecados. Vigiar para que n�o saiam de fininho feito as duas novi�as inferiores que deveriam ser. Agora voltem ao trabalho. S� posso ir embora quando voc�s terminarem, e n�o pretendo passar o dia inteiro aqui.</p><p>A mulher de cabelo escuro e cacheado era como Theodrin: acima de uma Aceita, mas abaixo de uma Aes Sedai. O que Elayne e Nynaeve teriam sido, caso Nynaeve n�o tivesse se comportado como uma gata que levou um pis�o. Nynaeve e ela, corrigiu-se Elayne, relutante. Sheriam dissera exatamente isso enquanto anunciava quanto tempo das horas �livres� as duas passariam trabalhando nas cozinhas, dando conta do pior trabalho que as cozinheiras pudessem encontrar. Mas nada de Ebou Dar, de um jeito ou de outro. Isso tamb�m fora deixado bem claro. Uma carta estaria a caminho de Merilille ao meio-dia � isso se j� n�o tivesse sido enviada.</p><p>� Eu� sinto muito � disse Nynaeve.</p><p>Elayne piscou para ela. Ouvir a amiga pedindo desculpas era como ver neve em pleno ver�o.</p><p>� Tamb�m sinto muito, Nynaeve.</p><p>� Ah, se sentem � retrucou Faolain. � Nunca vi ningu�m sentir tanto. Agora voltem ao trabalho, antes que eu encontre um motivo para mandar as duas para Tiana assim que terminarem.</p><p>Elayne lan�ou um olhar pesaroso para Nynaeve, rastejou de volta para dentro do caldeir�o e atacou a sopa queimada com a pedra-pomes como se atacasse Faolain. Voaram peda�os pretos de legumes carbonizados e p� de pedra. N�o, Faolain n�o: as Aes Sedai, que ficavam sentadas quando deveriam estar agindo. Ah, mas ela <emphasis>ia</emphasis> para Ebou Dar, <emphasis>ia</emphasis> encontrar aquele <emphasis>ter�angreal</emphasis> e <emphasis>ia</emphasis> us�-lo para amarrar Sheriam e todas as outras a Rand. E de joelhos! Deu um espirro t�o forte que os sapatos quase sa�ram voando dos p�s.</p><empty-line/><p>Sheriam deu meia-volta e saiu andando pela viela estreita, com brotos e trechos de erva daninha e palhada murchas aqui e ali. Estivera observando as duas trabalhando em sua puni��o por uma fresta na cerca.</p><p>� Estou arrependida. � Ao refletir sobre as palavras e o tom de Nynaeve, sem falar em Elayne, aquela crian�a deplor�vel, acrescentou: � S� um pouco.</p><p>Carlinya abriu um sorriso desdenhoso. Era muito boa naquilo.</p><p>� Quer contar para Aceitas o que nem vinte Aes Sedai sabem? � Com o olhar penetrante de Sheriam em resposta, ela fechou a boca com um estalo.</p><p>� H� ouvidos onde menos se espera � disse Sheriam em voz baixa.</p><p>� Mas numa coisa aquelas duas t�m raz�o � ponderou Morvrin. � S� de pensar em al�Thor fico com o est�mago revirado. N�o temos escolha, com ele.</p><p>Sheriam achava que fazia muito tempo que j� n�o tinham escolha.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 16</p><p><image l:href="#22"/></p><p>Previs�es da Roda</p></title><p>Rand estava sentado no Trono do Drag�o, o Cetro do Drag�o apoiado nos joelhos abertos, muito tranquilo e relaxado � ou era o que demonstrava. Tronos n�o s�o feitos para algu�m se sentar relaxado, e aquele ali parecia ainda menos prop�cio para o conforto, mas isso era apenas parte da dificuldade. Tamb�m havia o inc�modo de sentir Alanna, uma presen�a constante chamando sua aten��o. Se contasse �s Donzelas o que acontecera, elas iam� n�o. Como podia sequer cogitar uma coisa dessas? J� a deixara assustada o bastante para a mulher se manter na linha, a prova disso era que Alanna n�o fizera nenhum esfor�o para entrar na Cidade Interna. E Rand saberia se a mulher tivesse tentado. N�o� naquele momento, Alanna incomodava ainda menos do que o assento almofadado e desconfort�vel.</p><p>Apesar do casaco azul trabalhado em prata abotoado at� a gola, Rand n�o sentia calor � estava mesmo pegando o jeito do truque de Taim �, mas, se a impaci�ncia o fizesse suar, estaria pingando como se tivesse acabado de sair de um rio. Manter o frescor do corpo n�o era problema, o complicado era ficar ali, parado. Queria entregar a Elayne um reino em boas condi��es, e aquela manh� seria o primeiro passo em sua miss�o para devolver Andor. Se o grupo fosse v�-lo.</p><p>� � e, al�m do mais � ia dizendo o homem alto e magrelo diante do Trono, em uma voz mon�tona �, mil, quatrocentos e vinte e tr�s refugiados de Murandy, quinhentos e sessenta e sete de Altara, e cento e nove de Illian. Isso pelo que conseguimos da contagem dentro da cidade propriamente dita, � claro. � Os poucos fios de cabelo que restavam a Halwin Norry eram grisalhos e arrepiados, mais parecendo penas de escrever enfiadas atr�s das orelhas. Visual bem apropriado, j� que ele era o secret�rio-chefe de Morgase. � Contratei vinte e tr�s secret�rios a mais para a contagem, mas o n�mero ainda � insuficiente para�</p><p>Rand parou de escutar. Apesar de estar grato pelo fato de o homem n�o ter fugido do reino, como tantos outros fizeram, n�o sabia dizer se Norry considerava qualquer outra realidade que n�o a dos n�meros em seu livro cont�bil. O homem enumerava as mortes durante a semana no mesmo tom seco e sem emo��o com que relatava o pre�o do nabo nas carro�as do interior; organizava os enterros di�rios de refugiados que n�o tinham onde cair mortos com o mesmo desprendimento com que contratava pedreiros para a reforma das muralhas da cidade. Para ele, Illian era apenas uma terra, n�o a morada de Sammael; Rand era apenas mais um governante.</p><p><emphasis>Onde est�o?</emphasis>, perguntou-se, furioso. <emphasis>Por que nem Alanna tentou se aproximar de mim?</emphasis> Moiraine n�o teria se acovardado com t�o pouco.</p><p><emphasis>Onde est�o os mortos?</emphasis>, sussurrou Lews Therin. <emphasis>Por que n�o se calam?</emphasis></p><p>Rand soltou uma risadinha soturna. S� podia ser piada.</p><p>Sulin estava acocorada de um dos lados do tablado do trono, parecendo muito confort�vel, e a ruiva Urien se acomodara do outro. Vinte <emphasis>Aethan Dor</emphasis>, Escudos Vermelhos, montavam guarda junto com a escolta permanente de Donzelas entre as colunas do Grande Sal�o, alguns usando a faixa vermelha na cabe�a. Alguns estavam de p�, outros sentados ou agachados, e muitos conversavam baixinho, mas todos prontos para entrar em a��o em um piscar de olhos, at� mesmo as Donzelas e os dois Escudos Vermelhos que jogavam dados. Ao menos um par de olhos estava sempre em Norry � poucos Aiel confiavam em um aguacento t�o perto de Rand.</p><p>Bashere apareceu de repente entre as portas altas do Sal�o e o chamou com um balan�ar de cabe�a � Rand se endireitou no trono. Sangue e cinzas, <emphasis>at� que enfim</emphasis>. A borla verde e branca pendurada � lan�a Seanchan com entalhe de drag�o se balan�ou quando ele gesticulou, encerrando o discurso do contador.</p><p>� Muito bom trabalho, mestre Norry. Seu relat�rio n�o deixou nada de fora, e vou cuidar para que voc� receba o ouro necess�rio. Agora, se o senhor puder me desculpar, preciso cuidar de outros assuntos.</p><p>O homem n�o deu o menor sinal de curiosidade ou m�goa por ter sido interrompido daquele jeito t�o abrupto. Ele parou de falar na hora, no meio da frase, curvou-se em uma mesura, entoou um �como o Lorde Drag�o ordenar� com a mesma falta de emo��o de sempre e recuou tr�s passos antes de dar meia-volta e sair. Ele sequer olhou Bashere ao passar. Para ele, s� havia a realidade dos livros cont�beis.</p><p>Impaciente, Rand assentiu para Bashere e se endireitou ainda mais, com as costas rijas coladas ao trono. Os Aiel se calaram, o que os fez parecer ainda mais prontos para agir.</p><p>O saldaeano n�o entrou sozinho. Dois homens e duas mulheres vinham logo atr�s, nenhum deles jovem, todos metidos em sedas finas e brocados. Tentavam ignorar a exist�ncia de Bashere � e quase conseguiam, mas n�o puderam evitar os olhares atentos dos Aiel espalhados por entre as colunas. A loura, Dyelin, apenas hesitou um pouco, mas Abelle e Luan, ambos grisalhos e de fei��es duras, franziram o cenho para as figuras metidas no <emphasis>cadin�sor</emphasis>, levando a m�o instintivamente para o espa�o vazio onde estariam as espadas. Ellorien, uma mulher roli�a e de cabelos escuros, que seria bem bonita se perdesse a teimosia e a dureza do rosto, parou e ficou encarando os Aiel, antes de voltar a si e apressar o passo para alcan�ar os outros. Assim que puderam ver Rand direito, tamb�m pareceram surpresos. Todos se entreolharam brevemente, em d�vida. Talvez tivessem imaginado que fosse mais velho.</p><p>� Milorde Drag�o � entoou Bashere, bem alto, parando diante do tablado �, Senhor da Manh�, Pr�ncipe da Aurora, Verdadeiro Defensor da Luz, aquele diante de quem o mundo se ajoelha em rever�ncia, eu trago Lady Dyelin, da Casa Taravin, Lorde Abelle, da Casa Pendar, Lady Ellorien, da Casa Traemane e Lorde Luan, da Casa Norwelyn.</p><p>Os quatro andorianos enfim reconheceram a presen�a de Bashere, todos comprimindo os l�bios e o fitando apenas com olhares penetrantes e de esguelha. Algo no tom de Bashere dera a impress�o de que o homem estava trazendo quatro cavalos para Rand, e dizer que pareceram ficar mais empertigados seria como sugerir que a �gua parecia ainda mais molhada � ainda assim, foi exatamente o que aconteceu quando os quatro olharam para Rand. Ou para a dire��o geral onde ele estava. N�o conseguiram evitar olhar o Trono do Le�o, cintilante e reluzente, em um pedestal atr�s da cabe�a do Drag�o Renascido.</p><p>Rand quis rir daquelas express�es indignadas � estavam indignados, sim, mas tamb�m cautelosos e talvez at� um pouco espantados, ainda que n�o tivessem inten��o de demonstrar surpresa. Ele e Bashere tinham pensado muito bem naquela lista de t�tulos para seu posto de Drag�o Renascido, mas a parte sobre o mundo se ajoelhar diante dele era nova, um acr�scimo do pr�prio Bashere. Rand estava seguindo o conselho de Moiraine. Quase podia ouvir sua voz suave recitando: <emphasis>O que fica registrado a seu respeito � a primeira impress�o que t�m de voc�. � assim que o mundo funciona. Se primeiro aparecer em um trono, n�o importa se no segundo seguinte voc� se comportar feito um fazendeiro no chiqueiro: parte deles sempre se lembrar� de que o viram em um trono. Mas, se virem primeiro um jovem, um mero campon�s, v�o se ressentir ao ver voc� subindo ao trono, n�o importa quanto isso seja seu direito, n�o importa o tamanho de seu poder.</emphasis> Bem, se um ou dois t�tulos tivessem mesmo todo esse poder, as coisas ficariam muito mais f�ceis.</p><p><emphasis>Eu era o Senhor da Manh�</emphasis>, murmurou Lews Therin<emphasis>. Eu sou o Pr�ncipe da Aurora.</emphasis></p><p>Rand manteve a express�o serena.</p><p>� N�o lhes darei as boas-vindas, pois esta � a sua terra, � o pal�cio da sua rainha. Ainda assim, fico feliz por terem aceitado meu convite.</p><p>Claro que n�o mencionou o fato de s� terem vindo depois de cinco dias e ainda por cima s� tendo avisado com algumas poucas horas de anteced�ncia. Apenas se levantou, deitou o Cetro do Drag�o no trono e desceu do tablado. Com um sorriso contido � <emphasis>Nunca pare�a hostil, a menos que seja realmente necess�rio, </emphasis>dissera Moiraine. <emphasis>Mas, acima de tudo, n�o pare�a amistoso demais. N�o pere�a �vido</emphasis>. �, Rand apontou para cinco poltronas com encostos almofadados dispostas em c�rculo entre as colunas.</p><p>� Vamos nos sentar � convidou. � Vamos conversar e beber um pouco de vinho gelado.</p><p>E os quatro foram, claro, examinando Rand e os Aiel com a mesma curiosidade � e talvez o mesmo n�vel de animosidade, tudo muito mal disfar�ado. Depois que todos se acomodaram, os <emphasis>gai�shain</emphasis> se aproximaram em sil�ncio, usando as t�nicas brancas com capuz. Alguns traziam vinho em c�lices dourados j� �midos pela condensa��o, outros se postaram atr�s de cada poltrona com um leque de plumas, abanando o ar. Todas as poltronas, menos a de Rand. E os quatro perceberam isso, notaram a aus�ncia de suor em seu rosto. Mas os <emphasis>gai�shain</emphasis> tamb�m n�o transpiravam, mesmo com as t�nicas, e nem os outros Aiel. Rand examinou os rostos dos quatro nobres por sobre o pr�prio c�lice de vinho.</p><p>Os andorianos se orgulhavam de serem mais objetivos e sempre se vangloriavam de que o Jogo das Casas era muito mais intrincado em outras terras do que na deles, mas ainda assim se julgavam capazes de jogar <emphasis>Daes Dae�mar</emphasis>, quando preciso. E eram mesmo, de certa forma, mas os cairhienos � e at� mesmo os tairenos � consideravam suas t�ticas muito simpl�rias para os movimentos e contramovimentos t�o sutis do Grande Jogo. Os quatro nobres ali presentes conseguiam manter a compostura boa parte do tempo, mas, para um aluno de Moiraine cuja for�a fora posta � prova em Tear e Cairhien, eles revelavam demais a cada mexida dos olhos, a cada lev�ssima mudan�a de express�o.</p><p>Primeiro, os nobres repararam que n�o havia cadeira para Bashere. Eles trocaram olhares r�pidos, um tanto mais animados, ainda por cima depois de ver que o pr�prio Bashere estava saindo a passos largos da sala do trono. Os quatro at� se permitiram acompanh�-lo com o olhar e o mais sutil sorriso de satisfa��o. Estava claro que eles desprezavam a presen�a do ex�rcito saldaeano em Andor com a mesma intensidade com que Naean e aquele bando. Seus pensamentos eram �bvios: talvez a influ�ncia do estrangeiro fosse menor do que temiam. Ora, Bashere fora tratado como nada mais do que um servi�al com um cargo mais elevado.</p><p>Dyelin arregalou os olhos bem de leve no mesmo instante que Luan, apenas um segundo antes dos outros dois. Durante breves momentos, os quatro encararam Rand com tanta aten��o que ficou �bvio que evitavam olhar uns para os outros. Bashere era forasteiro, mas tamb�m era o Marechal-General de Saldaea, tr�s vezes lorde, tio da Rainha Tenobia. Se Rand o usava como servi�al�</p><p>� Um vinho excelente � comentou Luan, encarando o c�lice, e hesitou um momento antes de acrescentar: � Milorde Drag�o. � O t�tulo parecia ter sido arrancado � for�a.</p><p>� � do sul � acrescentou Ellorien, depois de um golinho. � Safra das Colinas de Tunaighan. Acho espantoso o senhor conseguir gelo em Caemlyn, este ano. Ouvi dizer que o povo j� come�ou a chamar este de �o ano sem inverno�.</p><p>� Acha mesmo que eu gastaria tempo e esfor�o para encontrar gelo com tantos problemas assolando o mundo? � retrucou Rand.</p><p>O rosto magro de Abelle empalideceu, e ele pareceu se for�ar a tomar mais um gole do vinho. Luan, por outro lado, fez quest�o de esvaziar o c�lice e em seguida o estendeu para um <emphasis>gai�shain</emphasis>, indicando que queria mais. Os olhos verdes do Aiel de robe branco exibiram um lampejo de f�ria, um contraste com a suavidade calculada do rosto bronzeado de sol. Servir aguacentos era coisa de servi�al, e os Aiel desprezavam o conceito de servi�ais. Claro que Rand nunca conseguira entender como esse desprezo se encaixava em toda a ideia de ser <emphasis>gai�shain</emphasis>, mas as coisas eram assim.</p><p>Dyelin apoiou a ta�a bem firme entre os joelhos e passou a ignor�-la. De perto, dava para ver alguns fios grisalhos em seus cabelos louros. Ela era linda, embora apenas os cabelos lembrassem Morgase e Elayne. Dyelin, a seguinte na sucess�o ao trono, era no m�nimo prima pr�xima da Filha-herdeira. A mulher, encarando-o com uma leve carranca, parecia prestes a balan�ar a cabe�a em reprova��o, mas apenas disse:</p><p>� Estamos preocupados com os problemas do mundo, mas ainda mais com os que afetam Andor. O senhor nos trouxe aqui para encontrar uma cura?</p><p>� Se os senhores souberem de alguma � respondeu Rand, simplesmente. � Se n�o, acho que devo procurar em outro lugar. Muitos julgam conhecer a cura apropriada e, se eu n�o encontrar a que quero, terei que me contentar com a segunda op��o. � Aquilo fez os nobres contra�rem a boca. No caminho at� l�, Bashere os conduzira por um p�tio onde Arymilla, Lir e as outras tinham sido deixadas. Era uma esp�cie de fila de espera, mas, para olhares estranhos, pareciam estar relaxando no Pal�cio. � Achei que os senhores iam querer ajudar a recuperar a integridade de Andor. Ouviram minha proclama��o? � N�o precisou dizer qual. Naquele contexto, s� poderia haver uma.</p><p>� H� uma recompensa por not�cias de Elayne � respondeu Ellorien, inexpressiva, o rosto ainda mais contido �, que ser� feita rainha, agora que Morgase morreu.</p><p>Dyelin assentiu.</p><p>� Para mim, est� bom.</p><p>� Mas para mim, n�o! � vociferou Ellorien. � Morgase traiu os amigos e desprezou os partid�rios mais antigos. � hora de acabar com o poder da Casa Trakand sobre o Trono do Le�o. � Ela, assim como todos os outros, parecia ter se esquecido de Rand.</p><p>� Dyelin � a pr�xima na sucess�o � declarou Luan, sem rodeios. A mulher balan�ou a cabe�a, como se j� tivesse ouvido aquilo, mas Luan prosseguiu mesmo assim: � Eu apoio Dyelin.</p><p>� Elayne � a Filha-herdeira � retrucou Dyelin com firmeza. � <emphasis>Eu</emphasis> apoio Elayne.</p><p>� Que diferen�a faz quem cada um de n�s apoia? � inquiriu Abelle. � Se ele matou Morgase, n�o vai� � Ele se calou de repente, fazendo careta, ent�o olhou para Rand. Seu olhar n�o era exatamente rebelde, mas estabelecia um claro desafio para que ele respondesse ao coment�rio. Parecia esperar que ele reagisse mal.</p><p>� � isso que voc�s acham? � Rand olhou com pesar para o Trono do Le�o em seu pedestal. � Por que, sob a Luz, eu mataria Morgase, se fosse entregar o controle a Elayne?</p><p>� Pouca gente sabe em que acreditar � respondeu Ellorien, r�gida, as bochechas bem vermelhas. � O povo fala de tudo, a maioria � pura asneira.</p><p>� Como, por exemplo? � A pergunta era para Ellorien, mas foi Dyelin quem respondeu, encarando-o bem nos olhos.</p><p>� Dizem que o senhor vai lutar a �ltima Batalha e matar o Tenebroso. Dizem que o senhor � um falso Drag�o, uma marionete das Aes Sedai, ou ambos. Dizem que o senhor � o filho bastardo de Morgase, um Gr�o-lorde taireno, um Aiel� � Ela franziu o cenho, mas logo prosseguiu. � Dizem que o senhor � filho de uma Aes Sedai com o pr�prio Tenebroso. Que o senhor � o Tenebroso, ou que � at� mesmo o Criador em um corpo humano. Dizem que o senhor vai destruir o mundo, depois vai salv�-lo, ent�o vai subjug�-lo e dar in�cio a uma nova Era. H� tantos boatos quanto h� bocas. A maioria afirma que o senhor matou Morgase. Muitos acrescentam Elayne � hist�ria. Dizem que essa proclama��o � um disfarce para encobrir seus crimes.</p><p>Rand soltou um suspiro. Alguns daqueles boatos eram os piores que ele j� ouvira.</p><p>� N�o vou perguntar em quais voc�s acreditam.</p><p>Por que Dyelin insistia em franzir o cenho quando ele falava? E n�o era a �nica. Luan fazia o mesmo, enquanto Abelle e Ellorien lhe lan�avam o tipo de olhar que Rand aprendera a esperar receber do pessoal de Arymilla, quando achavam que ele n�o estava olhando. <emphasis>Olhando. Sempre olhando</emphasis>, murmurou Lews Therin, em um sussurro rouco, dando uma risadinha. <emphasis>Eu estou sempre olhando voc�. Mas quem olha para mim?</emphasis></p><p>� Em vez disso, prefiro perguntar se v�o me ajudar a unificar Andor outra vez. N�o quero que Andor acabe virando outra Cairhien, ou pior, uma terra como Tarabon ou como Arad Doman.</p><p>� Eu conhe�o um pouco do <emphasis>Ciclo de Karaethon.</emphasis> Acredito que o senhor seja o Drag�o Renascido � comentou Abelle. � Ainda assim, nada nas profecias menciona o senhor governando, apenas falam da luta contra o Tenebroso em Tarmon Gai�don.</p><p>Rand apertou o c�lice com tanta for�a que a superf�cie escura do vinho oscilou. Seria t�o mais f�cil se aqueles quatro fossem como quase todos os Gr�o-lordes tairenos ou cairhienos. O problema era que nenhum deles queria um �nfimo de poder a mais do que j� possu�am. Por mais gelado que estivesse o vinho, duvidava de que o Poder �nico fosse intimidar aquele bando. <emphasis>Tenho certeza de que, se eu tentasse, os quatro apenas me mandariam mat�-los de uma vez, e a Luz que me queimasse!</emphasis></p><p><emphasis>A Luz que me queime</emphasis>, ecoou Lews Therin, irritado.</p><p>� Quantas vezes vou ter que dizer que n�o quero governar Andor? Vou embora assim que Elayne se sentar no Trono do Le�o. E, se depender de mim, jamais voltarei.</p><p>� Se o trono pertence a algu�m � retrucou Ellorien, sem se abalar �, � a Dyelin. Se est� sendo sincero, ent�o ponha a coroa na cabe�a dela e v� embora. Andor estar� recuperada, e n�o duvido de que nossos soldados v�o segui-lo at� a �ltima Batalha, se necess�rio.</p><p>� Ainda assim, eu recuso � interveio Dyelin, a voz firme, ent�o voltou-se para Rand. � Quero esperar e considerar as possibilidades, milorde Drag�o. Quando vir Elayne viva e coroada e depois que o senhor for embora, mandarei os meus homens o seguirem, n�o importa se mais ningu�m em Andor fizer isso. Mas, se o tempo passar e o senhor ainda estiver reinando aqui, ou se esses seus Aiel selvagens fizerem com esta terra o que ouvi que fizeram em Cairhien e Tear� � Ela olhou com desprezo para as Donzelas e os Escudos Vermelhos e at� assim como para os <emphasis>gai�shain</emphasis>, como se estivessem saqueando e incendiando a cidade naquele exato momento. � Ou se o senhor mandar para c� aqueles� homens que reuniu depois dessa sua anistia, ent�o me voltarei contra o senhor, mesmo que nenhum outro cidad�o de Andor fa�a isso.</p><p>� E eu estarei ao lado dela � declarou Luan, com firmeza.</p><p>� E eu tamb�m � completou Ellorien, logo seguida por Abelle.</p><p>Rand jogou a cabe�a para tr�s e riu, sem conseguir se conter, parte por divertimento, parte por frustra��o. <emphasis>Luz! E eu achando que uma oposi��o direta seria melhor do que t�-los tramando pelas minhas costas ou lambendo minhas botas!</emphasis></p><p>Os quatro o encararam, inquietos, sem d�vida achando que aquilo j� era a loucura em curso. E talvez fosse, mesmo. Nem ele tinha mais certeza de nada.</p><p>� Podem considerar a situa��o pelo tempo que for necess�rio � retrucou, levantando-se para encerrar a audi�ncia. � O que estou falando � verdade. Mas pe�o que tamb�m considerem isto: Tarmon Gai�don est� cada dia mais perto. N�o sei mais quanto tempo os senhores poder�o gastar com reflex�es.</p><p>Os quatro se despediram com um movimento calculado da cabe�a, como se estivessem entre iguais � era mais do que quando chegaram �, mas, quando se viraram para sair, Rand segurou Dyelin pela manga.</p><p>� Tenho uma pergunta para a senhora. � Os outros pararam e se viraram, antes de Rand acrescentar: � Uma pergunta pessoal.</p><p>Depois de um instante, Dyelin assentiu, e seus companheiros se afastaram um pouco. Os outros tr�s permaneceram na sala do trono, observando com aten��o, mas n�o estavam perto o bastante para entreouvir.</p><p>� A senhora me olhou� de um jeito estranho � comentou Rand. <emphasis>A senhora e todos os outros nobres que conheci em Caemlyn.</emphasis> Pelo menos, todos os nobres andorianos. � Por qu�?</p><p>Dyelin ergueu a cabe�a e o encarou, ent�o assentiu de leve, para si mesma.</p><p>� Qual � o nome da sua m�e?</p><p>Rand piscou.</p><p>� Minha m�e?</p><p>Sua m�e era Kari al�Thor. Pelo menos, era no que ele acreditava � Kari o criara desde a inf�ncia at� o dia de sua morte. Mas decidiu dar a verdade crua que descobrira no Deserto.</p><p>� Minha m�e se chamava Shaiel. Foi uma Donzela da Lan�a. Meu pai era Janduin, chefe do cl� dos Aiel Taardad. � Dyelin ergueu uma sobrancelha, desconfiada. � Juro pelo que a senhora quiser. O que isso tem a ver com o que eu quero saber? Os dois j� morreram h� muito tempo.</p><p>A mulher pareceu aliviada.</p><p>� Ent�o parece ser apenas uma mera semelhan�a, um acaso, s� isso. N�o estou sugerindo que o senhor n�o saiba quem s�o seus pais, mas � que tem um sotaque do oeste de Andor.</p><p>� Semelhan�a? Eu cresci em Dois Rios, mas meus pais s�o esses que eu disse. Com quem � que eu pare�o, para a senhora ficar me encarando?</p><p>A mulher hesitou, ent�o soltou um suspiro e respondeu:</p><p>� Acho que n�o importa. Um dia o senhor precisa me contar como tem pais Aiel, mas foi criado em Andor. Vinte e cinco anos atr�s, talvez mais, a Filha-herdeira de Andor desapareceu na calada da noite. Seu nome era Tigraine, e ela deixou para tr�s um marido, Taringail, e um filho, Galad. Sei que � apenas coincid�ncia, mas vejo Tigraine em seu rosto. Da primeira vez que o vi, fiquei chocada.</p><p>O pr�prio Rand ficou chocado. Um arrepio gelado percorreu seu corpo. Fragmentos da hist�ria que ouvira das S�bias rodopiaram em sua mente� <emphasis>uma jovem aguacenta de cabelos louros� um filho que ela amava, um marido que n�o amava� Shaiel foi o nome que ela adotou. Nunca nos deu outro� voc� parece um pouco com ela.</emphasis></p><p>� Como foi que Tigraine desapareceu? Sou muito interessado na hist�ria de Andor.</p><p>� Agrade�o se n�o chamar de hist�ria, milorde Drag�o. Eu era garota quando isso aconteceu, mas j� n�o era mais crian�a e vinha muito ao Pal�cio. Certa manh�, Tigraine simplesmente n�o estava mais aqui, ent�o nunca mais foi vista. Diziam que tinha o dedo de Taringail naquilo, mas ele parecia louco de afli��o. Taringail Damodred queria ver sua filha Rainha de Andor e seu filho Rei de Cairhien mais do que tudo no mundo. Taringail era cairhieno, entende? O casamento supostamente era para acabar com as guerras entre Andor e Cairhien, e de fato conseguiu fazer isso. Mas o desaparecimento de Tigraine levou os cairhienos a pensarem que Andor fosse quebrar o acordo, e isso os levou a conspirar, como bons cairhienos que s�o. Essa hist�ria, claro, acaba com o epis�dio do Orgulho de Laman. E o senhor sabe aonde isso deu. � Essa �ltima parte veio em um tom mais seco. � Meu pai diz que a culpa na verdade era de Gitara Sedai.</p><p>� Gitara? � perguntou Rand, impressionado por n�o soar t�o espantado quanto se sentia. Ouvira aquele nome mais de uma vez.</p><p>Gitara Moroso foi uma Aes Sedai com o dom da Previs�o, a mulher que anunciou que o Drag�o havia Renascido nas encostas do Monte do Drag�o e que pusera Moiraine e Siuan em sua longa busca. Gitara Moroso que, anos antes, dissera a �Shaiel� que, caso ela n�o fugisse para o Deserto sem contar a ningu�m e se tornasse Donzela da Lan�a, a desgra�a se abateria sobre Andor e o mundo.</p><p>Dyelin assentiu, um tanto impaciente.</p><p>� Gitara era conselheira da Rainha Mordrellen � respondeu, sem rodeios �, mas passava mais tempo com Tigraine e Luc, o irm�o dela, do que com a Rainha. Depois que Luc foi para o norte para nunca mais voltar, correram boatos de que Gitara o convencera de que sua fama, ou seu destino, estavam na Praga. Outros diziam que ele encontraria o Drag�o Renascido por l�, ou tamb�m que a �ltima Batalha dependia de sua partida. Isso foi cerca de um ano antes de Tigraine desaparecer. Eu, por mim, duvido de que Gitara tenha tido qualquer coisa a ver com isso ou com o sumi�o de Luc. Ela continuou conselheira da Rainha at� Mordrellen morrer, e dizem que foi uma morte de tristeza pela perda de Tigraine e de Luc. Foi isso que desencadeou a Sucess�o, � claro. � Ela deu uma olhada para os outros, que se remexiam, impacientes, lan�ando olhares desconfiados para os dois. Ainda assim, n�o resistiu e acrescentou: � Se n�o tivesse sido dessa forma, o senhor teria encontrado Andor bem diferente. Tigraine seria rainha, Morgase seria apenas Gr�o-trono da Casa Trakand, e Elayne nem teria nascido. Morgase casou-se com Taringail depois que subiu ao trono, o senhor bem sabe. Quem � que pode dizer o que mais teria sido diferente?</p><p>Enquanto a olhava se juntar aos outros e sair, Rand pensou em mais uma coisa que teria sido diferente: ele n�o estaria ali em Andor � n�o teria nem nascido. Tudo voltava para o mesmo ponto, em c�rculos sem fim. Tigraine foi para o Deserto em segredo, o que levou Laman Damodred a derrubar <emphasis>Avendoraldera</emphasis>, um presente dos Aiel, para fazer um trono. Isso, por sua vez, levou os Aiel at� a Espinha do Mundo com o �nico objetivo de matar Laman � apesar disso, as na��es chamavam o evento de Guerra dos Aiel. Com os Aiel, veio uma Donzela chamada Shaiel, que morreu no parto. Tantas vidas se alteraram e tantas vidas se perderam para que sua m�e pudesse dar � luz na hora e no local apropriados, para que ent�o morresse naquele momento. Kari al�Thor era a m�e de quem ele se lembrava, ainda que muito pouco, mas Rand desejava ter conhecido Tigraine, Shaiel, ou fosse l� o nome pelo qual ela quisesse ser chamada, mesmo que por pouco tempo. Queria pelo menos ter visto seu rosto.</p><p>Devaneios in�teis. Sua m�e estava morta havia muitos anos. J� estava tudo acabado. Ent�o por que aquilo ainda o incomodava tanto?</p><p><emphasis>A Roda do Tempo e a roda da vida de um homem giram igual, sem pena nem miseric�rdia</emphasis>, murmurou Lews Therin.</p><p><emphasis>Voc� est� mesmo a�?</emphasis>, pensou Rand. <emphasis>Ah, se houver algo a� al�m de uma voz e umas poucas mem�rias muito antigas, ent�o responda! Est� a�?</emphasis> Sil�ncio. Como gostaria de receber um dos conselhos de Moiraine � ou de qualquer um.</p><p>De s�bito, Rand percebeu que encarava a parede de m�rmore branco do Grande Sal�o, voltado para noroeste � na dire��o de Alanna. A Verde estava longe do Sabujo de Culain. <emphasis>N�o! Que a Luz a queime!</emphasis> N�o trocaria Moiraine por uma mulher capaz de preparar uma armadilha daquelas para ele. N�o podia confiar em nenhuma mulher da Torre, exceto tr�s: Elayne, Nynaeve e Egwene. Ou ao menos esperava poder confiar nelas. Mesmo que s� um pouquinho.</p><p>Rand ent�o se voltou para o grande teto abobadado, cujos vitrais coloridos exibiam batalhas, antigas rainhas e o Le�o Branco. Aquelas mulheres, retratadas em uma escala maior que seu tamanho normal, encaravam Rand com olhares desaprovadores, como se estivessem perguntando o que ele estaria fazendo ali. Claro que a reprova��o no olhar delas era fruto da sua imagina��o, mas� por que pensara aquilo? Por conta da descoberta sobre Tigraine? E aquilo era mesmo apenas sua imagina��o, ou j� seria a loucura?</p><p>� Chegou algu�m que acho que o senhor devia ver � anunciou Bashere, aparecendo atr�s de Rand de repente.</p><p>Rand se sobressaltou, desviando o olhar das mulheres no teto. Estivera mesmo encarando aquelas antigas rainhas? Bashere vinha acompanhado por um de seus cavaleiros. Um sujeito mais alto � coisa f�cil perto de Bashere �, de barba e bigode escuros e olhos verdes obl�quos.</p><p>� N�o verei ningu�m, a n�o ser que seja Elayne � retrucou Rand, em um tom mais r�spido do que pretendia. � Ou algu�m com provas de que o Tenebroso est� morto. Vou passar a manh� em Cairhien.</p><p>A verdade � que n�o tivera qualquer inten��o de viajar antes de as palavras sa�rem de sua boca. Mas l� poderia encontrar Egwene � e ficar longe das rainhas no teto.</p><p>� J� faz algumas semanas desde que apareci por l�. Se eu n�o ficar de olho, algum lorde ou lady vai acabar reivindicando o Trono do Sol pelas minhas costas.</p><p>Bashere olhou estranho para ele. Rand estava se explicando demais.</p><p>� Como quiser, mas acho que vai querer ver este homem primeiro. Ele diz que vem em nome de Lorde Brend, e acho que � verdade.</p><p>Os Aiel se levantaram no mesmo instante. Todos sabiam quem usava aquele nome.</p><p>Rand apenas encarou Bashere, surpreso. A �ltima coisa que esperava era um emiss�rio de Sammael.</p><p>� Traga o homem at� mim.</p><p>� Hamad � disse Bashere, virando-se para o jovem que o acompanhava, e o saldaeano saiu depressa.</p><p>Alguns minutos depois, Hamad voltou trazendo um bando de saldaeanos desconfiados que escoltavam um sujeito. A princ�pio, nada no homem justificava todo aquele cuidado: ele n�o portava nenhuma arma vis�vel, e seu estilo correspondia � moda de Illian � um casaco longo e cinza com o colarinho erguido e a barba encaracolada e cheia, mas sem bigode, al�m de ter um nariz curto e largo e ostentar um largo sorriso. Mas, quando o sujeito se aproximou, Rand notou que o sorriso nunca se alterava � todo o rosto do homem parecia congelado naquela express�o sorridente. Os olhos escuros, em contraste, se projetavam por tr�s daquela m�scara de alegria for�ada, e o medo neles era evidente.</p><p>Quando o homem estava a dez passadas de dist�ncia, Bashere ergueu a m�o, e a guarda parou. O illianense, que encarava Rand, s� percebeu a ordem de parada quando Hamad ergueu a espada e pressionou a ponta contra seu peito, for�ando-o a parar para evitar ser atravessado pela arma. O homem simplesmente encarou a l�mina levemente sinuosa, ent�o voltou os olhos aterrorizados para Rand, o sorriso ainda escancarado, os bra�os ca�dos ao lado do corpo. As m�os do sujeito tremiam na mesma intensidade da rigidez da express�o em seu rosto.</p><p>Rand come�ou a se aproximar do homem, mas Sulin e Urien se meteram entre os dois de repente � n�o bloquearam a passagem, n�o foi bem isso, apenas se posicionaram de modo que, para avan�ar mais, Rand teria que os empurrar ligeiramente para fora do caminho.</p><p>� O que ser� que fizeram com ele? � perguntou Sulin, examinando o sujeito. Donzelas e Escudos Vermelhos tinham sa�do de seus postos entre as colunas e se aproximado mais, alguns at� de rosto velado. � Se n�o for uma Cria da Sombra, no m�nimo foi tocado pela Sombra.</p><p>� Um sujeito desses deve poder fazer coisas que nem sequer imaginamos � comentou Urien, um dos Escudos Vermelhos que usava a tira de tecido escarlate presa � cabe�a. � Talvez possa at� matar com apenas um toque. Seria uma bela mensagem para um inimigo.</p><p>Nenhum dos dois o encarou, como se n�o falassem diretamente com Rand, mas ele assentiu. Talvez tivessem raz�o.</p><p>� Qual � o seu nome? � perguntou Rand ao homem.</p><p>Quando perceberam que ele ficaria onde estava, Sulin e Urien se afastaram um passo, indo um para cada lado.</p><p>� Eu, no caso, venho de� de Sammael � respondeu o sujeito, o sorriso ainda congelado no rosto. � Eu trago uma mensagem para� para o Drag�o Renascido. Para o senhor, no caso.</p><p>Bem, era bem direto. Ser� que o sujeito era Amigo das Trevas, ou s� mais uma pobre alma que Sammael aprisionara em uma de suas tramas hediondas de que Asmodean lhe falara?</p><p>� Que mensagem? � perguntou Rand.</p><p>A boca do illianense se contorceu, como se ele tentasse resistir. O som que saiu n�o parecia nem de longe com a voz de antes: era mais profunda, mais confiante e com um sotaque diferente.</p><p>� Eu e voc� estaremos de lados diferentes quando chegar o Dia do Retorno do Grande Senhor, mas qual � o sentido de nos matarmos agora e deixarmos Demandred e Graendal disputarem o mundo sobre nossos cad�veres? � Rand reconheceu aquela voz de um dos fragmentos da mem�ria de Lews Therin que tinham se fixado em sua mente. Era a voz de Sammael. Lews Therin rosnou, uma raiva sem palavras. � Voc� j� tem bastante para digerir, para que pegar ainda mais? � prosseguiu Sammael, atrav�s do illianense. � E s�o bocados bem dif�ceis de mastigar, mesmo sem Semirhage ou Asmodean tentando lhe apunhalar pelas costas enquanto voc� est� distra�do. Eu proponho uma tr�gua, uma tr�gua que vai durar at� o Dia do Retorno. Se voc� n�o agir contra mim, n�o agirei contra voc�. Eu me comprometo a n�o estender meus dom�nios a leste para al�m das Plan�cies de Maredo ou ao norte para al�m de Lugard e Jehannah, a noroeste. E que fique claro que estou deixando a maior parte do terreno para voc�. N�o posso falar em nome dos outros Escolhidos, mas voc� pode ter certeza de que n�o tem o que temer de mim ou das terras sob meu dom�nio. Eu tamb�m me comprometo a n�o ajudar os outros em nada do que armem contra voc�, muito menos a se defenderem. Voc� tem feito um bom trabalho, retirando os Escolhidos do jogo. N�o tenho d�vidas de que continuar� muito bem, melhor at� do que antes, agora que sabe que seu flanco sul est� a salvo e que os outros lutam sem minha ajuda. Suspeito de que, no Dia do Retorno, restaremos apenas n�s dois, como deve ser. Como est� destinado a ser.</p><p>O illianense cerrou os dentes com um estalido, ainda se escondendo por tr�s daquele sorriso congelado. O brilho em seus olhos beirava a loucura.</p><p>Rand encarou o sujeito. Uma tr�gua com Sammael? Mesmo que pudesse confiar que o Abandonado fosse honrar a proposta, mesmo que isso significasse um perigo a menos at� que desse conta dos outros� tamb�m significava que Sammael teria milhares de pessoas � sua merc�, e o Abandonado jamais se mostrara misericordioso. Rand sentiu a ira deslizando pela superf�cie do Vazio e s� ent�o percebeu que agarrara <emphasis>saidin</emphasis>. Aquela torrente abrasadora de do�ura f�tida e congelante parecia ecoar sua raiva. Lews Therin. N�o era de se surpreender que aquela personalidade insana perdesse a cabe�a. O eco da ira de Lews Therin ressoou na f�ria de Rand, at� que n�o dava mais para distinguir uma da outra.</p><p>� Leve esta mensagem de volta a Sammael � come�ou, a voz fria. � Vou cobrar o pre�o de cada morte que ele causou desde que despertou, � uma d�vida. Vou cobrar o pre�o de cada assassinato que ele cometeu ou provocou, � uma d�vida. Sammael escapou da justi�a em Rorn M�doi, em Nol Caimaine e em Sohadra. � Eram lembran�as de Lews Therin, mas a dor do que acontecera e a agonia que os olhos de Lews Therin tinham testemunhado queimavam no Vazio, como se fossem do pr�prio Rand. � Agora verei a justi�a ser feita. Diga a Sammael que n�o h� tr�gua com os Abandonados. N�o h� tr�gua com a Sombra.</p><p>O mensageiro ergueu a m�o tr�mula, secando o suor do rosto � n�o, n�o era suor: a m�o ficou vermelha. Got�culas escarlate escapavam dos poros, e o homem tremia dos p�s � cabe�a. Hamad deu um passo atr�s, surpreso, e n�o foi o �nico. Bashere cofiou o bigode, desconfort�vel, apertando-o bem entre os dedos, fazendo uma careta de dor em solidariedade. At� os Aiel encararam o sujeito. O illianense desabou, convulsionado, uma massa coberta de vermelho, o sangue formando uma po�a escura e viscosa que se espalhava conforme o homem se debatia.</p><p>Recolhido � profundidade do Vazio, Rand apenas assistiu ao homem morrer, sem sentir nada. O Vazio isolava as emo��es, e, al�m disso, n�o havia o que ele pudesse fazer. Mesmo que soubesse algo de Cura, n�o teria conseguido impedir aquilo.</p><p>� Eu acho � come�ou Bashere, hesitante � que Sammael saber� a resposta ao ver que o sujeito n�o vai retornar. Sei que h� quem mate mensageiros que trazem m�s not�cias, mas nunca ouvi falar de algu�m que matasse os mensageiros <emphasis>para transmitir </emphasis>a m� not�cia.</p><p>Rand assentiu. Assim como quando descobriu a verdade sobre Tigraine, aquela morte n�o mudava nada.</p><p>� Mande organizarem o enterro. Uma prece n�o far� mal ao homem, mesmo que n�o v� adiantar de nada.</p><p>Por que as rainhas, nos vitrais coloridos, ainda o encaravam acusadoramente? Elas com certeza j� tinham visto coisa pior, talvez at� ali, naquela sala do trono. E ainda conseguia apontar na dire��o exata de Alanna, ainda podia senti-la � o Vazio n�o o protegia. Ser� que podia confiar em Egwene? Ela sabia guardar segredo.</p><p>� Talvez eu passe a noite em Cairhien.</p><p>� Um fim estranho para um homem estranho � comentou Aviendha, contornando o trono. Pequenas portas ocultas ali atr�s levavam �s salas de vestir, que davam para outros corredores.</p><p>Rand fez men��o de se colocar entre ela e o corpo sobre os azulejos vermelhos e brancos, mas parou. Depois de uma olhada curiosa, Aviendha apenas ignorou o homem morto no ch�o. A ruiva tinha sido Donzela da Lan�a, decerto testemunhara tantas mortes quanto Rand. E, quando Aviendha enfim abriu m�o da lan�a, j� devia ter matado tantos homens quanto Rand vira morrer.</p><p>Era nele que a jovem estava concentrada, olhando-o de cima a baixo para garantir que n�o estava ferido. Algumas Donzelas sorriram e abriram caminho, empurrando alguns Escudos Vermelhos para o lado, mas Aviendha ficou parada, ajeitando o xale, s� olhando. Rand teve vontade de abra��-la ali mesmo e ficou feliz por poder se conter. Sabia que, apesar do que as Donzelas achavam, Aviendha s� estava ali porque as S�bias a tinham mandado espion�-lo. Era bom saber que ela n�o o queria. O bracelete de marfim que Aviendha usava no bra�o, todo de rosas entalhadas entre espinhos, bem como ela, fora presente de Rand. Era a �nica joia que ela usava al�m de um colar de prata, uma corrente kandoriana intrincada, forjada em um padr�o que chamavam de flocos de neve. Rand n�o sabia de quem fora aquele presente.</p><p><emphasis>Luz!</emphasis>, pensou, enojado com o pr�prio comportamento. Queria Aviendha<emphasis> e</emphasis> Elayne, mesmo sabendo que n�o podia ter nenhuma das duas. <emphasis>Voc� � pior do que Mat sequer cogitou ser algum dia.</emphasis> At� mesmo Mat teria o bom senso de ficar longe das mulheres a quem poderia fazer mal.</p><p>� Tamb�m tenho que ir para Cairhien � declarou Aviendha.</p><p>Rand fez careta. Uma das vantagens de passar a noite em Cairhien seria dormir sem ela no quarto.</p><p>� N�o tem nada a ver com� � come�ou a jovem, irritada, mas se conteve, mordendo o l�bio inferior carnudo, um brilho estranho nos olhos verde-azulados. � Preciso falar com as S�bias, com Amys.</p><p>� Claro � concordou Rand. � N�o vejo por que a impedir.</p><p>Al�m disso, talvez conseguisse deix�-la para tr�s, por l�.</p><p>Bashere chamou sua aten��o, tocando seu bra�o.</p><p>� Voc� ia ver meus cavaleiros marcharem hoje � tarde. � O tom era displicente, mas os olhos obl�quos do general conferiam grande peso �s palavras.</p><p>Era<emphasis> mesmo </emphasis>importante, mas Rand queria ir para longe de Caemlyn, de Andor.</p><p>� Amanh�. Ou depois.</p><p>Precisava ir para longe dos olhares daquelas rainhas, todas se perguntando se algu�m de seu sangue teria coragem de destruir sua terra, como fizera com tantas outras. Luz, Rand tinha o sangue delas nas veias! E tamb�m precisava ficar longe de Alanna, mesmo que s� por uma noite. Precisava ficar longe dela.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 17</p><p><image l:href="#17"/></p><p>A roda da vida</p></title><p>Com um breve fluxo de Ar, Rand apanhou o cetro e o cintur�o ao lado do trono, ent�o abriu o port�o ali mesmo, diante da plataforma do trono � a barra de luz girat�ria foi se ampliando, abrindo-se para uma c�mara vazia com paredes cobertas por pain�is escuros. O aposento ficava a mais de seiscentas milhas de Caemlyn, no Pal�cio do Sol, o pal�cio real de Cairhien. A sala, reservada para que ele usasse justamente daquela maneira, n�o tinha nenhuma mob�lia, e tanto o ch�o de azulejos azul-escuros quanto os pain�is de madeira da parede estavam lustrados e brilhantes. Apesar de n�o ter janelas, o lugar estava bastante iluminado � oito lampi�es de ch�o dourados queimavam dia e noite, e os espelhos no aposento ampliavam o brilho das chamas a �leo. Rand fez uma pausa para afivelar a espada enquanto Sulin e Urien abriam a porta do corredor e conduziam Donzelas e Escudos Vermelhos velados adiante, � frente dele.</p><p>Rand achava a cautela dos Aiel rid�cula. O largo corredor do lado de fora era a �nica forma de acesso ao aposento, e ele era constantemente guardado por cerca de trinta Aiel <emphasis>Far Aldazar Din</emphasis>, Irm�os da �guia, e quase vinte dos homens de Berelain, a Primeira de Mayene, todos com placas peitorais pintadas de vermelho e capacetes arredondados cujas abas, atr�s, desciam quase at� a nuca. Se havia um lugar no mundo onde Rand tinha certeza de que n�o precisava da escolta de Donzelas, era em Cairhien � e mais at� do que em Tear.</p><p>Quando Rand saiu, viu um Irm�o da �guia j� no fim do corredor, indo anunciar sua chegada. Um mayenense ia atr�s do Aiel mais alto, agarrado desajeitado � lan�a e � espada curta � ou melhor, um pequeno batalh�o marchava atr�s do <emphasis>Far Aldazar Din</emphasis>: servi�ais nos mais variados uniformes; um Defensor da Pedra taireno metido em uma reluzente placa peitoral e um casaco preto e dourado; um soldado cairhieno com a frente da cabe�a raspada e a placa peitoral bem mais surrada que a do taireno; duas jovens Aiel em saias pesadas e blusas brancas soltas, que Rand achou que reconhecia das aprendizes de S�bias. As not�cias de sua chegada correriam depressa. Era sempre assim.</p><p>Pelo menos Alanna estava longe. Verin tamb�m, mas principalmente Alanna. Mesmo �quela dist�ncia, ainda tinha a vaga sensa��o de que a Verde estava em algum lugar a oeste. Era como sentir que havia algu�m com a m�o estendida parada a apenas um fio de cabelo de dist�ncia de sua nuca. Ser� que havia alguma forma de se livrar daquela mulher? Agarrou <emphasis>saidin</emphasis> outra vez, por um instante, mas n�o fez diferen�a.</p><p><emphasis>Voc� nunca escapa das armadilhas em que se mete</emphasis>. O murm�rio de Lews Therin parecia confuso. <emphasis>Para destruir uma for�a, s� uma for�a ainda maior, mas ent�o voc� acaba preso outra vez. Preso para sempre, sem poder morrer.</emphasis></p><p>Rand estremeceu. �s vezes parecia que a voz estava mesmo falando com ele. Se o que ela dizia ao menos fizesse sentido, vez ou outra, seria mais f�cil t�-la dentro da mente.</p><p>� Vejo voc�, <emphasis>Car�a�carn</emphasis> � cumprimentou um dos Irm�os da �guia. O homem tinha olhos cinza na mesma altura dos de Rand e uma cicatriz branca cortava seu nariz, em forte contraste com o rosto bronzeado de sol. � Eu sou Corman, dos Mosaada Goshien. Que o dia lhe traga sombra.</p><p>Rand n�o teve chance de dar a resposta apropriada, pois o oficial de Mayene, um sujeito de bochechas rosadas, veio logo se enfiando entre os dois, empurrando o Aiel com um tranco dos ombros. Bem, n�o exatamente se enfiando: o sujeito era esguio demais para conseguir dar um tranco em algu�m uma cabe�a mais alto e com quase o dobro de largura no corpo, ainda mais se tratando de um Aiel � mas o mayenense talvez fosse jovem o suficiente para achar que podia. Ainda assim, ele se meteu na frente de Rand, ao lado de Corman, o capacete carmesim com uma �nica pluma vermelha enfiado debaixo do bra�o, duas asas trabalhadas nas laterais da redoma de metal.</p><p>� Milorde Drag�o, sou Havien Nurelle, Lorde Tenente dos Guardas Alados, a servi�o de Berelain sur Paendrag Paeron, Primeira de Mayene, e tamb�m a servi�o do senhor.</p><p>Corman olhou de esguelha para o homem, contendo um sorrisinho.</p><p>� Vejo voc�, Havien Nurelle � respondeu Rand, solene, e o garoto piscou, surpreso. <emphasis>Garoto</emphasis>? Pensando bem, o tenente talvez n�o fosse muito mais novo que Rand, o que era um choque. � Se voc� e Corman puderem�</p><p>Ele de repente reparou que Aviendha tinha ido embora. Quase se matara tentando evitar aquela mulher, e, na primeira vez em que concordava em t�-la por perto, ela escapava de fininho assim que ele dava as costas!</p><p>� Levem-me a Berelain e Rhuarc � ordenou, com rispidez. � Se os dois n�o estiverem juntos, levem-me ao que estiver mais perto e v�o atr�s do outro.</p><p>Aviendha s� podia ter corrido para as S�bias para relatar o que ele estava fazendo. Ah, mas dessa vez ele ia deix�-la para tr�s quando voltasse a Caemlyn.</p><p><emphasis>Voc� quer o que n�o pode ter. E o que n�o pode ter � o que quer.</emphasis> Ao dizer isso, Lews Therin soltou uma risada man�aca. Sua presen�a j� n�o incomodava Rand como antes. N�o tanto. O fardo inevit�vel sempre pode ser carregado.</p><p>Corman e Havien deixaram seus homens para tr�s, conversando sobre quem estaria mais pr�ximo, por�m Rand ainda assim foi seguido por uma grande comitiva. As Donzelas e os Escudos Vermelhos o acompanhavam de perto, lotando o corredor com teto quadrado e abobadado. O ambiente parecia escuro, apesar dos lampi�es de ch�o espalhados. Quase n�o havia cor, exceto em uma ou outra tape�aria, e os cairhienos tentavam compensar a invas�o de cores com muita rigidez nos bordados, fossem de flores, p�ssaros, cervos, leopardos ca�ando ou uma batalha de nobres. Os uniformes indicadores dos servi�ais cairhienos, que sa�am depressa do caminho, consistiam em listras coloridas nos punhos das mangas e a ins�gnia da casa a que serviam bordada no peitoral, no m�ximo uma gola ou as mangas nas cores da Casa e, muito raramente, um vestido ou casaco inteiro de um tom mais v�vido. Claro que apenas os servi�ais superiores usavam mais cores. Os cairhienos gostavam de ordem e desprezavam exageros. Poucas prateleiras espalhadas abrigavam ornamentos, uma vasilha dourada ou um vaso do Povo do Mar, mas tudo muito austero e trabalhado em linhas retas, sempre tentando disfar�ar as curvas, caso houvesse alguma. Quando o corredor se abria para uma colonata de colunas retas, dava para ver, nos poucos jardins do andar de baixo, caminhos de sebe em �ngulos precisos, cada canteiro do mesmo tamanho, cada arbusto e pequena �rvore podados � perfei��o e com o mesmo espa�amento. Se a seca e o calor tivessem permitido flores, Rand tinha certeza de que cada bot�o teria nascido em fileiras perfeitas.</p><p>Rand desejou que Dyelin pudesse ver aquelas vasilhas e vasos espalhados por ali. Os Shaido tinham levado tudo o que eram capazes de carregar no caminho do Deserto at� Cairhien, ent�o queimaram o que sobrara � um comportamento que violava o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Os Aiel que seguiam Rand, os que tinham salvado a cidade, tamb�m pegaram algumas coisas, pois, pelas regras do povo do Deserto, a conquista de um lugar em batalha lhes dava a permiss�o de levarem um quinto de todas as riquezas e recursos � e nem uma colher a mais. Bael at� concordara, relutante, em abster-se do quinto em Andor, mas Rand achou que ningu�m poderia pensar que qualquer coisa tivesse sido tirada dali, n�o sem uma listagem.</p><p>Apesar de toda a discuss�o, Corman e Havien n�o conseguiram encontrar nem Rhuarc nem Berelain antes de os dois decidirem aparecer.</p><p>Os dois se aproximaram sozinhos por entre as colonatas, sem qualquer comitiva � o que s� fez Rand se sentir como se estivesse liderando uma esp�cie de desfile aleg�rico. Rhuarc, em seu <emphasis>cadin�sor</emphasis>, com o cabelo ruivo escuro pontilhado de mechas grisalhas, avultava-se sobre Berelain, uma bela jovem de pele clara metida em um vestido azul e branco. O decote era t�o baixo que Rand pigarreou e desviou os olhos quando ela se abaixou para uma mesura. Rhuarc, de <emphasis>shoufa</emphasis> enrolada no pesco�o, n�o portava nenhuma arma al�m de uma pesada faca Aiel, enquanto Berelain usava o Diadema da Primeira de Mayene, um gavi�o dourado em pleno voo preso aos cabelos negros e brilhantes, que ca�am em ondas por sobre os ombros nus.</p><p>Talvez fosse melhor mesmo que Aviendha tivesse ido embora � ela �s vezes se comportava de forma muito violenta com mulheres que pensava estarem se jogando para cima de Rand.</p><p>Ele ent�o reparou que Lews Therin cantarolava uma melodia dissonante � algo nela parecia perturbador, mas� o qu�? Era uma esp�cie de zumbido, feito um homem admirando uma bela mulher que nem sequer o notara.</p><p><emphasis>Pare com isso!</emphasis>, gritou Rand, para dentro da pr�pria cabe�a. <emphasis>Pare de olhar pelos meus olhos! N�o havia como dizer se </emphasis>Lews tinha ouvido � ser� que havia algu�m l� dentro para ouvir? �, mas o zumbido cessou.</p><p>Havien baixou-se em um dos joelhos, mas Berelain, quase distra�da, gesticulou para que ele se levantasse.</p><p>� Creio que tudo esteja bem com milorde Drag�o e com Andor. � A Primeira tinha o tipo de voz que fazia um homem parar para escutar. � E tamb�m com seus amigos, Mat Cauthon e Perrin Aybara.</p><p>� Est� tudo bem � respondeu Rand. Berelain sempre perguntava por Mat e Perrin, n�o importava quantas vezes ele dissesse que um estava a caminho de Tear e que n�o via o outro desde antes da ida ao Deserto. � E com voc�s?</p><p>Berelain olhou de esguelha para Rhuarc enquanto os dois se posicionavam um de cada lado de Rand, avan�ando para o corredor seguinte.</p><p>� T�o bem quanto se pode esperar, milorde Drag�o.</p><p>� Tudo est� bem, Rand al�Thor � respondeu Rhuarc, sem muita express�o. O que, afinal, era bem comum.</p><p>Rand sabia que ambos compreendiam por que ele deixara Berelain no comando de Cairhien. Pura l�gica. Ela fora a primeira governante a lhe oferecer uma alian�a sem pedir nada em troca, e Rand sabia que podia confiar nela, j� que Berelain precisava dele, ainda mais do que quando fizeram a alian�a, para manter Tear longe de Mayene. Al�m de os Gr�o-lordes tairenos sempre tentarem tratar Mayene como uma prov�ncia, a jovem era estrangeira, vinda de uma pequena na��o a centenas de l�guas ao sul, e n�o tinha por que favorecer uma Casa ou fac��o cairhiena em detrimento de outra, nem qualquer esperan�a de se manter por muito tempo no poder. Al�m disso, ela sabia governar. A mais pura l�gica. Al�m disso, considerando como os Aiel se sentiam em rela��o aos cairhienos � o que era rec�proco �, colocar Rhuarc no comando teria gerado um derramamento de sangue. Cairhien j� vira sangue suficiente.</p><p>O arranjo parecia estar funcionando bem. Tal qual Semaradrid e Weiramon, em Tear, os cairhienos aceitavam uma cidad� de Mayene como sua governante tanto porque ela n�o era Aiel, quanto porque o pr�prio Rand a havia escolhido. Berelain sabia o que estava fazendo, e pelo menos escutava os conselhos de Rhuarc, que falava em nome dos chefes dos cl�s que ainda permaneciam ali. E, apesar de ainda n�o ter reclamado, a Primeira tamb�m lidava com as S�bias, que s� desistiriam de se intrometer � ainda que n�o considerassem o que faziam como intromiss�o � um dia depois das Aes Sedai.</p><p>� E Egwene? � perguntou Rand. � Ela est� melhor?</p><p>Berelain comprimiu os l�bios de leve. A Primeira n�o gostava de Egwene � por outro lado, Egwene tamb�m n�o gostava dela. N�o havia motivos para isso, n�o que Rand soubesse, mas tamb�m n�o havia o que fazer.</p><p>Rhuarc espalmou as m�os.</p><p>� S� sei o que Amys diz.</p><p>Amys era uma S�bia, e esposa de Rhuarc � uma das esposas. Eram duas, um dos costumes Aiel mais estranhos dentre os muitos costumes que Rand considerava estranhos.</p><p>� Ela diz que Egwene precisa descansar, n�o fazer muito esfor�o, comer bem e tomar ar fresco. Acho que a menina tem caminhado ao frescor do dia.</p><p>Berelain encarou o Aiel com um olhar ir�nico. O leve brilho da transpira��o em seu rosto n�o diminu�a sua beleza, mas Rhuarc, naturalmente, n�o suava nem um pouco.</p><p>� Eu gostaria de ver Egwene. Se as S�bias permitirem. � As S�bias eram t�o enf�ticas em refor�ar suas regras internas quanto qualquer Aes Sedai, sempre fazendo quest�o de deix�-las bem delimitadas para os chefes de ramo, os chefes de cl� e, sobretudo, para o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. � Mas, primeiro, temos que�</p><p>Ouviu um ru�do baixo quando come�aram a se aproximar daquela �rea, onde uma parede do corredor tinha sido substitu�da por uma balaustrada de colunas: era o clangor de espadas de treinamento. Rand deu uma olhada quando passou � ou pelo menos essa fora sua inten��o inicial. Mas n�o p�de deixar de parar, surpreso, ao perceber que um cairhieno muito r�gido, metido em um casaco cinza liso, supervisionava o treinamento de cerca de uma dezena de mulheres empapadas de suor, algumas usando vestidos de montaria com as saias divididas, outras vestidas em casacos e cal�as masculinos. A maioria ainda n�o conseguia manter muito bem as posturas e formas, apesar de serem bem vigorosas no combate, mas algumas flu�am suavemente de postura em postura, mesmo manejando as l�minas com certa hesita��o. Todas pareciam muito obstinadas, mas os rostos s�rios se dissolviam em risadas e lamenta��es quando elas percebiam que tinham cometido algum erro.</p><p>O cairhieno sisudo bateu palmas, e as mulheres pararam, ofegantes, apoiando-se nas espadas de treinamento, algumas alongando os bra�os, claramente n�o acostumadas ao esfor�o. Para al�m de seu campo de vis�o, Rand notou os servi�ais indo e vindo, curvando-se em mesuras e rever�ncias enquanto apresentavam suas bandejas com c�ntaros e ta�as. Podiam ser servi�ais, mas usavam um uniforme estranho para os padr�es Cairhien � a roupa era toda branca, n�o importava se fossem vestidos ou casacos com cal�as.</p><p>� O que � isso? � perguntou, para os dois que o acompanhavam.</p><p>Rhuarc soltou um muxoxo desgostoso.</p><p>� Algumas cairhienas ficaram muito impressionadas com as Donzelas � explicou Berelain, com um sorriso. � Querem ser uma delas. S� que imagino que queiram manejar a espada, e n�o a lan�a. � Sulin se empertigou, ultrajada, e as Donzelas come�aram a conversar naquela linguagem de sinais, com gestos que pareciam indignados. � S�o filhas de Casas nobres, e as deixei ficarem aqui porque os pais n�o permitiriam esse treinamento. A cidade j� tem quase uma d�zia de escolas que instruem as mulheres no manejo da espada, mas muitas precisam ir escondidas para as aulas. E n�o s�o s� as mulheres que est�o tentando aprender. Todos os jovens cairhienos parecem bastante impressionados com os Aiel, est�o at� adotando o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>.</p><p>� Est�o � acabando com o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> � resmungou Rhuarc. � Muitos v�m nos perguntar sobre nossos costumes, e quem n�o instruiria algu�m disposto a aprender o que � o correto? Mesmo se for um Assassino da �rvore � Ele estava quase cuspindo. � Mas esses jovens distorcem os ensinamentos.</p><p>� Ah, eu n�o diria que distorcem � protestou Berelain. � Acho que s� adaptam para os nossos costumes.</p><p>Rhuarc ergueu a sobrancelha de modo sutil, e a Primeira de Mayene suspirou em resposta. Havien parecia a personaliza��o do ultraje, vendo sua governante ser contestada. Nem Rhuarc nem Berelain repararam, ambos t�o concentrados em Rand � ao que parecia, aquele era um debate que os dois tinham com frequ�ncia.</p><p>� Distorcem, sim � retrucou Rhuarc, insistente. � Esses idiotas vestidos de branco at� alegam ser <emphasis>gai�shain</emphasis>. <emphasis>Gai�shain</emphasis>! � Os outros Aiel resmungaram, e as Donzelas voltaram a se comunicar na linguagem de sinais. Havien come�ou a parecer um pouco desconfort�vel. � Em que batalha ou invas�o eles foram derrotados? Em que <emphasis>toh</emphasis> incorreram? Voc� confirmou minha ordem de proibi��o �s brigas pela cidade, Berelain Paeron, mas esses jovens disputam duelos em qualquer canto onde acham que n�o ser�o vistos, e o perdedor adota o branco. Se um consegue golpear o outro mesmo enquanto os dois est�o armados, o ferido pede por um duelo; quando o duelo � negado, o tolo veste o branco. O que isso tem a ver com honra ou obriga��o? Esses jovens distorcem tudo, se comportam de um jeito que faria at� um sharamano corar. Isso precisa acabar, Rand al�Thor.</p><p>O rosto de Berelain assumiu uma express�o teimosa, e ela agarrou as saias com os punhos cerrados.</p><p>� � normal os jovens lutarem, isso sempre acontece � retrucou ela, com um tom t�o condescendente que dava para esquecer que ela tamb�m era jovem. � Mas, desde que isso come�ou, mais nenhum morreu em duelo. <emphasis>Nenhum</emphasis>. S� isso j� basta para deix�-los seguirem com essas ideias. Al�m do mais, j� confrontei pais e m�es e alguns poderosos que exigiam que suas filhas fossem mandadas de volta para casa. N�o vou negar a essas jovens o que j� lhes prometi.</p><p>� Pode ficar com elas. Deixe que aprendam a arte da <emphasis>espada</emphasis>, se � o que elas querem. Mas precisam parar de dizer que est�o seguindo o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Precisam parar com essa hist�ria de usarem roupas brancas e alegarem ser <emphasis>gai�shain</emphasis>. O que elas fazem � uma ofensa � respondeu Rhuarc, os frios olhos azuis fixos em Berelain. Mas os olhos grandes e escuros da Primeira de Mayene permaneceram cravados em Rand.</p><p>Rand hesitou apenas por um instante. Podia entender por que os cairhienos mais jovens estavam impressionados com o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> � depois de serem derrotados duas vezes pelos Aiel em menos de trinta anos, eles decerto deveriam se perguntar se aquele seria o segredo da vit�ria, ou talvez achassem que as derrotas simplesmente fossem prova de que o estilo de vida Aiel era melhor. Era evidente que os Aiel estavam incomodados com aquele comportamento que viam como um esc�rnio de suas cren�as, mas a verdade era que algumas das situa��es que levavam os Aiel a se tornarem <emphasis>gai�shain</emphasis> tamb�m eram bastante peculiares. Por exemplo, reclamar com um homem sobre seu sogro ou com uma mulher sobre sua sogra � que, na nomenclatura Aiel, eram chamados de segundo-pai ou segunda-m�e � era considerado ofensa o bastante para justificar desembainhar armas, a n�o ser que a nora ou o genro � que tivesse come�ado a reclamar do parente em quest�o. Se, em vez de iniciar um duelo, a parte ofendida tocasse a outra, seria como se ela tivesse tocado um inimigo armado sem o ferir � o que tocava ganhava muito <emphasis>ji</emphasis> e incorria em muito <emphasis>toh </emphasis>para seu oponente, que, por sua vez, podia exigir tornar-se <emphasis>gai�shain</emphasis> para atenuar o ganho de honra de quem o tocara e diminuir a pr�pria obriga��o. De acordo com o <emphasis>ji�e�toh,</emphasis> era obrigat�rio honrar qualquer exig�ncia de se tornar <emphasis>gai�shain</emphasis>, ent�o a pessoa poderia acabar trabalhando em servid�o durante um ano e um dia apenas por ter falado da sogra de algu�m. O que parecia t�o tolo quanto o que os cairhienos estavam fazendo. No fim das contas, seria muito f�cil de resolver: deixara Berelain no comando, ent�o tinha que apoi�-la. Simples assim.</p><p>� Rhuarc, os cairhienos j� ofendem os Aiel simplesmente por serem cairhienos. Deixe estar. Quem sabe eles n�o acabem aprendendo o suficiente para que voc�s parem de odi�-los.</p><p>Rhuarc resmungou, amargo, e Berelain sorriu. Por um momento, a jovem pareceu prestes a dar a l�ngua para o Aiel. Claro que fora apenas sua imagina��o � Berelain era apenas alguns anos mais velha do que ele, mas j� governava Mayene quando ele ainda pastoreava ovelhas em Dois Rios.</p><p>Rand mandou Corman e Havien de volta � guarda e continuou seu caminho com Rhuarc e Berelain de cada lado e o restante da comitiva logo atr�s. Era praticamente um desfile, s� faltavam os tambores e trompetes.</p><p>Mais atr�s, o clangor das espadas de treinamento recome�ou. Era mais uma mudan�a, por menor que fosse. Nem mesmo Moiraine, que passara tanto tempo estudando as Profecias do Drag�o, sabia se a nova Ruptura marcaria o come�o de uma nova Era, mas n�o havia d�vidas de que Rand estava trazendo mudan�as. Tantas por acidente, ao que parecia, quanto de prop�sito.</p><p>Quando chegaram � porta do gabinete que Berelain e Rhuarc dividiam � uma sala com paredes cobertas de pain�is de madeira com entalhes de s�is nascentes, o que indicava que era usada pela realeza �, Rand parou e virou-se para Sulin e Urien. Se n�o conseguisse dispens�-los ali, com todos aqueles guardas, n�o ficaria livre em nenhum outro lugar.</p><p>� Pretendo retornar a Caemlyn amanh�, uma ou duas horas depois do nascer do sol. At� l�, visitem as tendas, vejam seus amigos e tentem n�o come�ar nenhuma rixa de sangue. Se fizerem muita quest�o, destaquem um de cada grupo para ficar comigo e me proteger dos ratos, mas duvido que haja qualquer coisa maior que isso disposta a me atacar, aqui.</p><p>Urien abriu um leve sorriso e assentiu, apesar de ter apontado para um cairhieno pr�ximo, murmurando:</p><p>� Tem uns ratos grandes por aqui.</p><p>A princ�pio, Rand achou que Sulin fosse discutir, mas a mulher s� sustentou aquele olhar inexpressivo por alguns momentos, antes de assentir � apesar da boca contra�da. Ele com certeza ouviria bastante assim que se visse a s�s com as Donzelas.</p><p>Era sua segunda vez no gabinete, mas Rand ainda ficava admirado com os contrastes do grande aposento. No teto alto de gesso trabalhado, linhas retas e �ngulos marcantes formavam padronagens elaboradas, que desciam pelas paredes e marcavam o entorno de uma enorme lareira revestida de m�rmore azul-escuro. Uma mesa imponente coberta de pap�is e mapas estava posicionada no centro do recinto, servindo como uma esp�cie de fronteira. As duas janelas altas e estreitas de um dos lados da lareira abrigavam vasos de barro em tamboretes baixos, com plantinhas cheias de bot�es diminutos vermelhos e brancos. Diante delas, do lado de l� da mesa, uma comprida tape�aria exibia navios no mar, com homens puxando redes cheias de enchovas-pretas � a fonte da riqueza de Mayene. Um bordado ainda no aro, a agulha presa a um fio de linha vermelha pendendo do trabalho inacabado, jazia em uma poltrona alta e larga o bastante para Berelain se deitar, caso desejasse. No ch�o havia um �nico tapete, com desenho floral em vermelho e azul, e uma mesinha ao lado da cadeira sustentava uma bandeja de prata com uma jarra e c�lices. Logo ao lado da bandeja, uma tirinha de couro trabalhada em ouro marcava um livro fino de encaderna��o vermelha, indicando o ponto onde Berelain parara de ler.</p><p>O ch�o do outro lado da mesa era coberto por camadas de tapetes menores de cores vivas e almofadas adornadas com borlas vermelhas, azuis e verdes. Uma bolsa de tabaco, um cachimbo de cano curto e um par de pin�as jaziam ao lado de uma tigela de lat�o fechada, tudo sobre um pequeno ba� com tiras de metal. Um ba� maior, envolto por uma al�a de ferro, apoiava uma escultura de marfim de algum animal desajeitado que Rand duvidava de que existisse. Cerca de vinte livros de todos os tamanhos poss�veis, de edi��es de bolso a tomos t�o grandes que at� mesmo Rhuarc precisaria de ambas as m�os para sustent�-los, estavam alinhados no ch�o, ocupando toda a extens�o da parede. Os Aiel fabricavam tudo de que precisavam no Deserto, exceto livros. Muitos mascates tinham feito fortunas negociando apenas livros com os Aiel.</p><p>� Pois bem � disse Rand, depois de ver a porta fechada, j� a s�s com Rhuarc e Berelain �, e como � que est�o as coisas, de verdade?</p><p>� Est�o como eu j� disse � respondeu Berelain �, t�o bem quanto se pode esperar. Cresceu o falat�rio sobre Caraline Damodred e Toram Riatin, mas o povo anda cansado demais para querer outra guerra t�o cedo.</p><p>� H� boatos de que dez mil andorianos se juntaram a eles. � Rhuarc come�ou a encher o cachimbo, prensando o tabaco com o polegar. � Qualquer boato sempre multiplica as coisas por dez, quando n�o por vinte, mas mesmo assim � preocupante, se for verdade. Nossos vigias relataram que os n�meros n�o s�o t�o grandes, mas, se os deixarmos crescer, podem se tornar mais que um aborrecimento. A mosca-amarela � quase impercept�vel, mas, se ela p�e um ovo na sua pele, voc� acaba perdendo um bra�o ou uma perna antes mesmo de o ovo acabar de chocar� e isso se n�o morrer.</p><p>Rand soltou um grunhido. A rebeli�o de Darlin em Tear n�o era a �nica. A Casa Riatin e a Casa Damodred, as duas �ltimas a ocuparem o Trono do Sol, j� estavam em uma rivalidade feroz antes de ele chegar, e era bem prov�vel que voltassem � inimizade de antes assim que ele fosse embora. Ambas tinham deixado a rivalidade de lado, ao menos nas apar�ncias � os cairhienos podiam ser completamente diferentes sob a superf�cie. Agora, seguindo o exemplo de Darlin, Toram e Caraline queriam reunir suas tropas em algum lugar que julgassem seguro � para tanto, tinham escolhido o interior mais distante poss�vel da cidade: o sop� das montanhas da Espinha do Mundo. Juntas, as duas casas tinham reunido a mesma mistura que compunha as for�as de Darlin, nobres quase sempre medianos, camponeses desalojados, alguns mercen�rios ultrajados com a situa��o e uns poucos milicianos. E aquilo talvez tivesse dedo de Niall, como no caso de Darlin.</p><p>Os sop�s das montanhas n�o eram nem de longe t�o impenetr�veis quanto Haddon Mirk, mas Rand estava decidido a conter seus esfor�os: tinha v�rios inimigos, em muitos locais. Se parasse para matar a mosca-amarela de Rhuarc, um leopardo furtivo poderia lhe dar um bote. Queria acabar primeiro com os leopardos � se conseguisse descobrir onde estavam todos.</p><p>� E os Shaido? � perguntou, apoiando o Cetro do Drag�o sobre a mesa, em cima de um mapa meio desenrolado do norte de Cairhien, com as montanhas que chamavam de Adaga do Fratricida. Os Shaido n�o eram um leopardo t�o perigoso quanto Sammael, mas ainda eram um pouco maiores que o Gr�o-lorde Darlin ou que Lady Caraline. Berelain lhe entregou um c�lice de vinho, que ele aceitou e agradeceu. � As S�bias j� disseram alguma coisa sobre Sevanna e suas pretens�es?</p><p>Achava que pelo menos uma ou duas poderiam investigar um pouco quando iam resolver suas quest�es de S�bias na Adaga do Fratricida � as S�bias dos Shaido com certeza faziam isso quando desciam para esses lados do Rio Gaelin. Mas n�o disse nada, claro. Os Shaido podiam ter abandonado o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, mas Rhuarc era muito tradicional em suas opini�es sobre espionagem. Claro que as S�bias tinham suas pr�prias opini�es, embora fosse imposs�vel saber que opini�es eram essas, exatamente.</p><p>� Disseram que os Shaido est�o construindo fortalezas. � Rhuarc fez uma pausa, pin�ando um carv�o em brasa do fornilho de lat�o cheio de areia e o levando at� o cachimbo. Depois de acender o fumo, prosseguiu: � Elas n�o acham que os Shaido tenham qualquer pretens�o de voltar � Terra da Trindade. Eu concordo.</p><p>Rand passou a m�o livre pelo cabelo. Caraline e Toram infestando o interior, e os Shaido se assentando deste lado da Muralha do Drag�o � uma mistura bem mais perigosa do que os problemas com Darlin. E a m�o invis�vel de Alanna parecia sempre prestes a tocar sua nuca.</p><p>� Tem mais not�cias boas?</p><p>� Temos conflitos em Shamara � respondeu Rhuarc, o cachimbo na boca.</p><p>� Onde?</p><p>� Shamara� Ou Shara. Esse povo d� v�rios nomes para a pr�pria terra: Co�dansin, Tomaka, Kigali, v�rios outros. E qualquer um pode ser verdadeiro. Ou nenhum. � um povo que mente sem nem pensar. Se n�o tomar o cuidado de abrir cada rolo de seda que comprar, voc� corre o risco de descobrir que s� a parte de fora � seda. E, quando encontrar o vendedor de novo, ele vai dizer que n�o o conhece ou que � a primeira vez que faz neg�cios na �rea. Se voc� insistir muito, os outros acabam matando o vendedor s� para lhe tranquilizar, depois dizem que o sujeito era o �nico que podia tomar alguma provid�ncia em rela��o � seda e ainda tentam vender �gua como se fosse vinho.</p><p>� E por que os conflitos em Shara s�o boa not�cia? � murmurou Rand.</p><p>Ele n�o estava realmente interessado na resposta, mas Berelain escutava com aten��o. S� os Aiel e o Povo do Mar conheciam mais sobre as terras al�m do Deserto do que o marfim e a seda provenientes da regi�o � as outras informa��es vinham das hist�rias em <emphasis>As Jornadas de Jain, o Viajante</emphasis>, fantasiosas demais para serem verdade. Mas, pensando bem, Rand se lembrava de alguma men��o �s mentiras do povo e aos v�rios nomes que davam �quela terra, mas, at� onde lembrava, nenhum dos exemplos do livro coincidia com os de Rhuarc.</p><p>� Porque nunca h� conflitos em Shara, Rand al�Thor. Dizem que as Guerras dos Trollocs chegaram at� l�, mas, se houve alguma batalha desde ent�o, n�o chegaram not�cias aos p�tios de troca. � Os Trollocs tamb�m tinham adentrado o Deserto Aiel durante aquela guerra. Desde ent�o, as criaturas chamavam aquela regi�o de Solo da Morte. Rhuarc continuou: � Na verdade, aqui fora n�o chegam not�cias de nada daquelas terras. O povo diz que sempre foi uma s� terra, e n�o muitas, como aqui, e que sempre houve paz. Quando voc� saiu de Rhuidean como <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, a not�cia se espalhou. E tamb�m havia men��es do seu t�tulo entre os aguacentos daqui, �Drag�o Renascido�. A not�cia se espalhou dos p�tios de troca, atravessando todo o Grande Fosso e os Penhascos da Aurora. � Os olhos de Rhuarc se mantiveram firmes e calmos; aquilo n�o o perturbava. � E as not�cias agora voltam pela Terra da Trindade. H� conflitos em Shara, e os sharamanos nos p�tios de troca perguntam quando � que o Drag�o Renascido vai Romper o Mundo.</p><p>De repente, o vinho ficou amargo. Mais um lugar que, a exemplo de Tarabon e Arad Doman, mergulhara no caos s� com o rumor de sua exist�ncia. At� onde ia sua influ�ncia? Ser� que, por causa dele, guerras das quais jamais saberia estavam se desenrolando em terras das quais ele jamais ouviria falar?</p><p><emphasis>A morte se apoia em meus ombros</emphasis>, murmurou Lews Therin. <emphasis>A morte caminha em minhas pegadas. Eu sou a morte.</emphasis></p><p>Rand estremeceu e pousou o c�lice na mesa. Que pre�o aquelas Profecias cobravam, em todos aqueles versos grandiloquentes e insinua��es tortuosas? Ser� que deveria acrescentar Shara � ou qualquer que fosse o verdadeiro nome daquela terra � � lista, junto com Cairhien e as outras? Ser� que devia contabilizar o mundo inteiro? Mas como, se nem ao menos conseguia ocupar Tear inteira, ou mesmo Cairhien? Aquilo levaria mais tempo do que uma vida inteira. E Andor� Ainda que estivesse destinado a destruir todas as na��es, romper o mundo inteiro, preservaria Andor. Por Elayne. Daria um jeito.</p><p>� Shara, ou seja l� qual for o nome desse lugar, fica muito longe daqui. Daremos um passo de cada vez. E Sammael � nosso primeiro passo.</p><p>� Sammael � concordou Rhuarc.</p><p>Berelain estremeceu e esvaziou o c�lice.</p><p>Passaram um tempo conversando sobre os Aiel a caminho do sul. Rand queria que o ex�rcito que estavam reunindo em Tear fosse grande o bastante para aniquilar de um s� golpe o que quer que Sammael pusesse em seu caminho. Rhuarc parecia satisfeito, mas Berelain protestou, alegando que precisavam de mais gente em Cairhien � isso at� Rhuarc mand�-la ficar quieta. A Primeira resmungou alguma coisa sobre o Aiel ser excessivamente teimoso, mas passou para o t�pico seguinte, os esfor�os de reassentar os fazendeiros. Segundo seus c�lculos, no ano seguinte n�o haveria mais necessidade de receberem gr�os de Tear. Isso se a seca desse alguma tr�gua � se n�o desse, Tear n�o conseguiria suprir nem as pr�prias necessidades de gr�os, muito menos exportar. E estavam come�ando a surgir os primeiros sinais da volta do com�rcio: mercadores chegavam de Andor, Tear e Murandy, descendo pelas Terras da Fronteira. Por falar no com�rcio, um navio do Povo do Mar ancorara naquela mesma manh� � Berelain achou estranho v�-los t�o longe do mar, mas ainda assim eram bem-vindos.</p><p>A Primeira de Mayene ficou s�ria e concentrada, passando a falar mais depressa e dar voltas na mesa para alcan�ar uma ou outra pilha de pap�is e enumerar o que Cairhien precisava comprar e o que podia pagar; o que tinha para vender agora e o que teria dali a seis meses ou um ano. O futuro dependia do clima, claro, mas ela n�o se demorou nos coment�rios sobre a seca, agindo como se n�o fosse uma quest�o t�o premente � ainda assim, encarou Rand com um olhar firme que dava a entender que ele era o Drag�o Renascido e que, se havia como refrear aquele calor, cabia a ele descobrir. Rand j� a vira l�nguida e sedutora, e tamb�m j� lidara com Berelain assustada, desafiadora e arrogante, mas nunca a vira daquele jeito. Parecia outra mulher. Rhuarc, sentado em uma de suas almofadas, baforando o cachimbo, parecia se divertir com a cena.</p><p>� � essa sua escola talvez possa ajudar � comentou ela, franzindo o cenho para um longo pergaminho completamente preenchido por uma caligrafia precisa. � Quer dizer, se pararem de pensar em novas cria��es por tempo o bastante para executar as ideias que j� conceberam. � Ela deu uma batidinha nos l�bios e encarou o nada, pensativa. � Voc� me diz para dar todo o ouro que pedirem, mas se me deixasse segurar um pouco o dinheiro at� eles de fato�</p><p>A frase foi interrompida pelo an�ncio de Jalani, que meteu o rosto gorducho porta adentro � os Aiel pareciam incapazes de entender o conceito de bater � porta antes de entrar em um aposento.</p><p>� Mangin est� aqui para falar com voc� e Rhuarc, Rand al�Thor.</p><p>� Avise que terei muito prazer em conversar com ele depois de�</p><p>Rand n�o conseguiu terminar, foi interrompido por Rhuarc, que disse, em voz baixa:</p><p>� Voc� deveria falar com ele agora, Rand al�Thor.</p><p>O chefe do cl� parecia muito s�rio, e Berelain, que largara o pergaminho em cima da mesa, encarava o ch�o.</p><p>� Pois bem � aquiesceu Rand, hesitante.</p><p>Jalani voltou para o corredor, e Mangin entrou. O Aiel, um sujeito mais alto que Rand, era um dos que cruzaram a Muralha do Drag�o em busca d�Aquele Que Vem Com a Aurora, e tamb�m fazia parte do pequeno grupo que tomou a Pedra de Tear.</p><p>� Seis dias atr�s, eu matei um homem � anunciou ele, sem pre�mbulos �, um Assassino da �rvore. E preciso saber se tenho <emphasis>toh</emphasis> com voc�, Rand al�Thor.</p><p>� Comigo? � perguntou Rand. � Voc� tem o direito de se defender, Mangin. Luz, voc� sabe muito bem diss� � Ele ficou mudo, encarando aqueles olhos cinza muito s�rios, mas sem o menor sinal de medo; no m�ximo uma poss�vel curiosidade. A express�o de Rhuarc nada revelava, e Berelain ainda se recusava a erguer os olhos do ch�o. � Ele atacou primeiro, n�o atacou?</p><p>Mangin balan�ou a cabe�a bem lentamente.</p><p>� Eu vi que o homem merecia morrer, ent�o o matei � retrucou ele, em um tom quase displicente, como se contasse que limpara ralos que pareciam precisar de uma limpeza. � Mas voc� tinha dito que s� podemos matar os quebradores de juramentos que estivessem tentando nos matar. Eu agora tenho <emphasis>toh</emphasis> com voc�?</p><p>Rand lembrou-se do que dissera quando conquistaram a cidade� <emphasis>vou mandar enforcar.</emphasis> Sentiu um aperto no peito.</p><p>� Por que o homem merecia morrer?</p><p>� Ele usava o que n�o tinha direito de usar.</p><p>� Usava? O que � que ele estava usando, Mangin?</p><p>� Isto.</p><p>Foi Rhuarc quem respondeu, tocando o antebra�o esquerdo, indicando o Drag�o que envolvia seu antebra�o. N�o era comum os chefes de cl� exibirem o desenho, e em geral nem mencionavam que o tinham � quando se tratava daquelas marcas, quase tudo era envolto em mist�rio, e os chefes preferiam que permanecesse assim.</p><p>� Uma vers�o feita com agulha e tinta, claro � completou Rhuarc.</p><p>Era uma tatuagem.</p><p>� E o homem estava fingindo ser chefe de cl�? � perguntou Rand, mas sabia que estava procurando uma justificativa� <emphasis>vou mandar enforcar.</emphasis> Mangin tinha sido um dos primeiros a segui-lo.</p><p>� N�o � respondeu o Aiel assassino. � Ele estava bebendo, exibindo a todos o que nem deveria ter no bra�o. Eu vejo seus olhos, Rand al�Thor. � O homem de repente escancarou um sorriso. � � uma complica��o. Eu fiz o certo em matar aquele homem, mas agora tenho <emphasis>toh</emphasis> com voc�.</p><p>� Foi errado matar o sujeito. Voc� sabe a puni��o para um assassinato.</p><p>� Uma corda do pesco�o, como fazem esses aguacentos � concordou Mangin, ent�o assentiu, pensativo. � Me diga onde e quando, e eu estarei l�. Que voc� encontre �gua e sombra, Rand al�Thor.</p><p>� Que voc� encontre �gua e sombra, Mangin � respondeu Rand, triste.</p><p>Berelain comentou, depois que viram a porta se fechar outra vez:</p><p>� Bem, suponho que ele comparecer� ao pr�prio enforcamento de livre e espont�nea vontade. Ah, Rhuarc, n�o me olhe com essa cara. N�o estou querendo impugn�-lo, nem manchar a honra Aiel.</p><p>� Seis dias! � grunhiu Rand, virando-se para ela. � Voc�s dois sabiam por que ele queria falar comigo, <emphasis>os dois</emphasis>. Isso j� faz seis dias, e voc�s deixaram para eu resolver. Assassinato � assassinato, Berelain.</p><p>A Primeira de Mayene se aprumou, imponente, mas sua voz saiu na defensiva.</p><p>� N�o estou acostumada a ver homens vindo confessar que cometeram um assassinato. � essa droga desse <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Esses Aiel com essa honra maldita. � Era estranho v�-la praguejando.</p><p>� Voc� n�o tem por que ficar irritado com Berelain, Rand al�Thor � observou Rhuarc. � A <emphasis>toh</emphasis> de Mangin � para com voc�, n�o com ela. Nem comigo.</p><p>� A <emphasis>toh</emphasis> dele era para com o homem que morreu � retrucou Rand, com frieza. Rhuarc pareceu chocado. � Da pr�xima vez que algu�m cometer assassinato, n�o esperem por mim. Fa�am valer a lei!</p><p>Assim, talvez n�o tivesse que passar por aquela situa��o outra vez e ter que sentenciar um homem que ele conhecia e de quem gostava. Claro que faria de novo, se fosse preciso. Sabia muito bem disso, o que s� o deixava mais triste. O que havia se tornado?</p><p><emphasis>A roda da vida de um homem</emphasis>, murmurou Lews Therin. <emphasis>Sem piedade. Sem miseric�rdia.</emphasis></p><image l:href="#1"/></section><section><image l:href="#5"/><empty-line/></section><section><title><p>CAP�TULO 18</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Um pouco de solid�o</p></title><p>� Tem mais algum problema que voc�s queiram que eu resolva? � O tom de Rand deixava claro que ele se referia a problemas que os dois j� deveriam ter resolvido. Rhuarc balan�ou a cabe�a de leve, e Berelain enrubesceu. � �timo. Marquem a data para o enforcamento de Mangin.</p><p><emphasis>Quando a dor for demais, fa�a doer em outra pessoa</emphasis>, sussurrou Lews Therin, com uma risada rouca<emphasis>. </emphasis>Aquilo era sua responsabilidade. Era seu dever. Rand enrijeceu as costas, tentando n�o ser esmagado por aquela montanha, e completou:</p><p>� Marquem o enforcamento para amanh�. Digam a ele que foi decis�o minha. � Rand fez uma pausa, os olhos vidrados, ent�o percebeu que estava esperando ouvir o coment�rio de Lews Therin, e n�o o deles dois. Aguardando o conselho de um homem morto. Um homem morto e louco. � Vou at� a escola.</p><p>Rhuarc comentou que as S�bias j� deviam estar a caminho, e Berelain acrescentou que os nobres tairenos e cairhienos tamb�m exigiriam saber onde ela estava escondendo o Drag�o Renascido, mas Rand mandou que os dois dissessem a verdade. E que avisassem para ningu�m ir atr�s dele, explicando que voltaria quando fosse a hora. Rhuarc e Berelain fizeram cara de quem comeu ameixa azeda, mas Rand simplesmente pegou o Cetro do Drag�o e saiu.</p><p>No corredor, Jalani e um Escudo Vermelho, um sujeito louro e n�o muito mais velho que ela, puseram-se de p� em um movimento fluido e trocaram um olhar furtivo. Fora eles e alguns servi�ais apressados em suas tarefas, o corredor estava vazio. Ao que parecia, Rand teria uma escolta com um integrante de cada grupo Aiel, mas ficou se perguntando se Urien tivera de brigar com Sulin para garantir aquela equidade.</p><p>Gesticulando para que os dois o acompanhassem, Rand foi direto para o est�bulo mais pr�ximo, com baias do mesmo m�rmore verde das colunas que sustentavam o teto alto. O criado-chefe, um velho calejado e orelhudo ostentando o Sol Nascente de Cairhien bordado no colete de couro curto, ficou t�o chocado em v�-lo com apenas dois Aiel de escolta que ficou um tempo olhando as portas do est�bulo, esperando os outros. O velho fez tantas mesuras entre uma olhadela e outra para a porta que Rand se perguntou, impaciente, se algum dia conseguiria um cavalo. Assim que o velho finalmente gritou para os cavalari�os, pedindo �um cavalo para o Lorde Drag�o!�, seis homens sa�ram em disparada, indo preparar um cap�o baio alto de olhos geniosos. Meteram o animal em uma r�dea de franjas douradas, com uma sela trabalhada em ouro acima do teliz azul-celeste franjado, cheio de s�is nascentes bordados com fios de ouro.</p><p>T�o r�pido quanto os cavalari�os, o criado-chefe orelhudo j� estava longe quando Rand subiu na sela, pouqu�ssimo tempo depois da ordem dada. Decerto fora atr�s da comitiva que o Drag�o Renascido deveria ter consigo; ou quem sabe fora espalhar a not�cia de que Rand estava deixando o pal�cio praticamente s� � Cairhien era assim. O baio que ele montava era um cavalo nobre e for�ava um passo saltitante, mas Rand o for�ou a trotar. Ainda estava tentando ajustar o estranho passo do animal quando saiu dos muros do pal�cio, assustando os guardas cairhienos ao passar. N�o estava preocupado com uma poss�vel tocaia de assassinos que porventura ouvissem os avisos do criado orelhudo � qualquer um que tentasse armar uma emboscada para ele acabaria descobrindo que estava t�o mal preparado quanto um campon�s sem tesoura na tosquia de ovelhas. Ainda assim, n�o queria se demorar � quanto mais tempo passava, maior era a chance de se ver cercado de nobres, e ent�o seria imposs�vel partir desacompanhado. E era bom estar sozinho, para variar.</p><p>Encarou Jalani e o jovem Aiel que corriam ao lado do baio. Achava que o homem se chamava Dedric, um Codarra do septo Fenda de Jaern. Bem, estava quase sozinho. Ainda sentia Alanna e ouvia os lamentos distantes de Lews Therin, pranteando a morte de sua Ilyena. Jamais estava realmente s�. Isso talvez nunca mais acontecesse. Ainda assim, gostava daquela solid�o parcial, o m�ximo que poderia ter, depois de tanto tempo no meio de todos.</p><p>Cairhien era uma cidade grande, e as ruas principais eram largas o bastante para fazer a multid�o parecer pequena. As ruas pareciam flechas atravessando as colinas � t�o perfeitamente escavadas e aterradas que mais pareciam obra dos homens � e sempre se cruzavam em �ngulos muito retos. Havia imensas torres espalhadas pela cidade, todas envoltas em andaimes de madeira que quase encobriam seus suportes elaborados com arcos quadrados, todas parecendo j� tocar o c�u, mas planejadas para ir ainda mais alto. J� fazia vinte anos que as lend�rias torres de Cairhien, t�o elevadas que n�o tinham topo, consideradas uma das maravilhas do mundo, tinham sido incendiadas, queimando feito tochas durante a Guerra dos Aiel, e as restaura��es ainda n�o haviam terminado.</p><p>N�o foi f�cil abrir caminho pela multid�o, e o trote ligeiro do baio n�o durou muito. Rand j� havia se acostumado a ter as pessoas abrindo espa�o para sua escolta de sempre, mas o efeito n�o era o mesmo com apenas dois acompanhantes, ainda mais quando havia centenas de Aiel em seus <emphasis>cadin�sor</emphasis> andando por entre os locais. Achava que alguns daqueles Aiel o reconheciam, mas optavam por ignor�-lo, sem querer o constrangimento de chamar aten��o para o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> enquanto ele portava uma espada e montava um cavalo � o que era menos pior, mas n�o digno de aplauso. Para os Aiel, vergonha e constrangimento eram sensa��es muito piores que a dor, embora o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> complicasse tudo de maneiras que Rand quase n�o conseguia compreender. Aviendha sem d�vida adoraria explicar, j� que parecia querer que ele se tornasse Aiel.</p><p>E tamb�m havia todo tipo de gente apinhando as ruas: cairhienos da capital, em seus costumeiros trajes amarronzados; as pessoas que tinham vivido em Port�o da Frente antes do inc�ndio, nas t�picas roupas surradas de cores vibrantes; e tairenos, quase sempre uma cabe�a mais altos que os locais, mas n�o t�o altos quanto os Aiel. Carros de boi e carro��es puxados por cavalos ziguezagueavam pelo povo, abrindo caminho para carruagens envernizadas de portas fechadas e liteiras, algumas com o estandarte de uma Casa ou outra. Ambulantes anunciavam seus produtos aos berros, exibindo bandejas, e mascates puxavam carrinhos de m�o. M�sicos, acrobatas e malabaristas se apresentavam em cada esquina � duas grandes mudan�as. Cairhien costumava ser uma cidade silenciosa e tranquila, a n�o ser em Port�o da Frente, e algo daquela sobriedade ainda se mantinha. As lojas ainda tinham placas pequenas, sem exibirem os produtos do lado de fora, e os locais ainda olhavam, altivos e indignados, para o povo da antiga Port�o da Frente, com a costumeira algazarra, rindo alto e gritando uns com os outros, discutindo bem no meio da rua.</p><p>S� os Aiel reconheceram o cavaleiro de casaco azul trabalhado em prata, embora de vez em quando algu�m olhasse com mais aten��o para seu teliz. O Cetro do Drag�o ainda n�o era muito conhecido por ali, e ningu�m abria passagem. Rand estava dividido entre a impaci�ncia e o prazer de n�o ser o centro das aten��es.</p><p>A escola ficava em um pal�cio a uma milha do Pal�cio do Sol, e o lugar j� fora propriedade de um certo Lorde Barthanes, j� falecido sem deixar saudades. O lugar era um gigantesco aglomerado de quadrados de pedra com torres em �ngulos retos e varandas sem adornos. Os compridos port�es do p�tio principal estavam abertos, e Rand foi bem recebido.</p><p>Idrien Tarsin, diretora da escola, estava parada nos degraus largos do extremo oposto do p�tio. Era uma mulher atarracada, metida em um vestido cinza simpl�rio, t�o empertigada que parecia uma cabe�a mais alta do que era. E n�o estava sozinha: dezenas de pessoas se aglomeravam junto a ela nos degraus de pedra, homens e mulheres, quase todos vestindo l�, e n�o seda, as roupas quase sempre surradas e sem adorno. A maioria j� tinha uma idade avan�ada, e Idrien n�o era a �nica com mais fios grisalhos do que pretos � alguns tamb�m n�o tinham preto nenhum na cabe�a; ou n�o tinham cabelo �, embora aqui e ali Rand notava um rosto mais jovem encar�-lo com avidez. Por �mais jovem�, entendia-se dez ou quinze anos mais velho do que ele.</p><p>Eram os professores, de certa forma, embora aquilo n�o fosse bem uma escola. Era verdade que havia alunos que iam l� para aprender, e ele notou rapazes e mo�as boquiabertos, dependurados em todas as janelas ao redor do p�tio. Mas o objetivo de Rand tinha sido reunir o conhecimento do mundo em um s� lugar. J� ouvira tantas vezes sobre quanto se perdera durante a Guerra dos Cem Anos e as Guerras dos Trollocs� Quanto mais teria sido perdido com a Ruptura do Mundo? Se estava destinado a Romper o Mundo outra vez, ent�o criaria reposit�rios para preservar o conhecimento. J� fundara outra escola em Tear, embora ainda estivesse apenas no come�o, e ele j� buscava um bom local para criar a de Caemlyn.</p><p><emphasis>Nada nunca sai como voc� espera</emphasis>, resmungou Lews Therin. <emphasis>N�o espere nada, e n�o ter� surpresas desagrad�veis. N�o espere nada. N�o deseje nada. Nada.</emphasis></p><p>Rand ignorou a voz em sua cabe�a e desceu do cavalo.</p><p>Idrien veio cumpriment�-lo com uma mesura. Quando ela se endireitou, Rand teve o costumeiro choque de perceber que ela mal batia em seu peito.</p><p>� Bem-vindo � Escola de Cairhien, milorde Drag�o. � Idrien tinha uma voz surpreendentemente doce e jovial, um forte contraste com seu rosto firme, mas Rand j� a ouvira falar em tom mais �spero com alunos e professores. A mulher conduzia a escola na r�dea curta.</p><p>� Quantos espi�es a senhora tem no Pal�cio do Sol? � perguntou Rand, sem muita emo��o.</p><p>Idrien pareceu assustada, Rand s� n�o sabia se era porque ele sugerira tamanho ultraje ou se � o que era mais prov�vel � era porque a pergunta n�o era de bom-tom ali em Cairhien.</p><p>� Preparamos uma pequena exposi��o � anunciou a diretora, � guisa de resposta. Bem, Rand n�o esperava resposta, afinal. Ela encarou os dois Aiel como uma mulher olharia para dois c�es marrons imensos e de temperamento imprevis�vel, mas se contentou em fungar em desaprova��o. � Milorde Drag�o, queira me acompanhar.</p><p>Rand a seguiu, franzindo o cenho. Exposi��o de qu�?</p><p>O sagu�o de entrada era imenso, com colunas lustrosas de um tom sobre tom cinza-escuro e ch�o de azulejos de um cinza mais claro, al�m de uma varanda de m�rmore com veios cinza que circundava todo o sagu�o, tr�s andares acima. E o lugar estava atulhado de� geringon�as. Os professores aglomerados atr�s dele correram para suas inven��es, e Rand ficou olhando, lembrando-se do que Berelain dissera sobre a escola ter come�ado a fabricar coisas� Mas o qu�?</p><p>Idrien respondeu sua d�vida conduzindo-o at� cada geringon�a, onde homens e mulheres apresentavam suas cria��es. Rand at� conseguiu compreender algumas coisas.</p><p>Um conjunto de telas, raspadores e jarros cheios de retalhos de linho formavam uma m�quina capaz de produzir o papel mais fino j� fabricado � ou pelo menos era o que alegava seu inventor. Uma instala��o gigantesca e maci�a, com alavancas e imensas placas achatadas, era uma prensa de impress�o muito melhor do que as que j� havia em uso � mais uma vez, segundo o inventor. Dedric pareceu bem interessado na prensa, at� que Jalani decidiu que o Escudo Vermelho deveria era estar atento a algu�m que pudesse querer atacar o <emphasis>Car�a�carn </emphasis>e deu um pis�o em seu p�. Depois disso, o Aiel foi mancando atr�s de Rand. Viram um arado sobre rodas que parecia ter o prop�sito de abrir seis sulcos de uma s� vez � pelo menos essa inven��o Rand compreendia e at� achava que poderia ser �til��;�uma geringon�a com hastes para cavalos tinha a fun��o de substituir os homens que golpeavam o feno com foices durante a colheita; e tamb�m um novo tipo de tear, que o criador alegava ser mais f�cil de manejar. Viram maquetes de madeira pintada, algumas com dutos para transportar �gua a locais onde os po�os estavam secando; outras com prospectos de novos escoadouros e sistemas de esgoto para Cairhien; e at� um modelo com estatuetas de homens, carro�as, gruas e cilindros, feita com o prop�sito de demonstrar como as estradas poderiam voltar a ser constru�das e pavimentadas com a mesma qualidade de muitos anos antes.</p><p>Rand n�o sabia se aquelas invencionices funcionariam, mas algumas pareciam valer a pena tentar. O arado, por exemplo, poderia ser bem �til para Cairhien conseguir voltar a produzir o pr�prio alimento. Mandaria Idrien constru�-lo � n�o, ordenaria a Berelain mandar Idrien. <emphasis>Sempre siga a hierarquia em p�blico</emphasis>, dissera Moiraine. <emphasis>A n�o ser que pretenda passar por cima de algum governante e derrub�-lo.</emphasis></p><p>Kin Tovere era um dos professores que ele conhecia, um sujeito atarracado que fabricava lentes e tinha a mania de lustrar a careca com um lencinho listrado. Al�m de fazer lunetas de diversos tamanhos � �d� para contar os pelos do nariz de um sujeito a uma milha daqui�, como ele dizia �, o homem apresentou uma lente do tamanho da pr�pria cabe�a com um modelo de lunetas para sustent�-la junto com outras seis lentes imensas. A coisa toda tinha cerca de seis passadas de comprimento, al�m de um esquema surpreendente de orienta��es para observar as estrelas. Bem, Kin sempre quisera ver o que havia ao longe.</p><p>Idrien pareceu exibir uma satisfa��o contida enquanto Rand analisava o esbo�o de Mestre Tovere. A mulher n�o era muito f� do que n�o fosse pr�tico. Durante o s�tio de Cairhien, ela pr�pria fabricara uma besta enorme e cheia de roldanas e alavancas capaz de arremessar lan�as a uma milha com for�a suficiente para perfurar um homem. Se tudo fosse como ela gostaria, n�o se desperdi�aria tempo com qualquer coisa que n�o parecesse real e s�lida.</p><p>� Pode construir � disse Rand. Talvez a inven��o n�o tivesse utilidade real, n�o na mesma medida do arado, mas ele gostava de Tovere. Idrien suspirou e balan�ou a cabe�a, mas Tovere ficou radiante. � E lhe concedo um pr�mio de cem coroas de ouro. Isso parece interessante.</p><p>Aquela �ltima frase gerou muito alarido, e foi dif�cil dizer se quem ficou mais surpreso e boquiaberto foi Idrien ou Tovere.</p><p>Outras geringon�as no sal�o faziam Tovere parecer t�o sensato quanto o aspirante a construtor de estradas. Um sujeito de rosto redondo apresentou alguma coisa com estrume de vaca que terminava com uma chama azulada queimando na ponta de um tubo de lat�o, mas nem mesmo ele parecia saber a serventia. Uma jovem magricela apresentou um mostru�rio que era basicamente uma concha de papel amarrada por cordas, suspensa no ar pelo calor que subia de um pequeno fogo em um braseiro. A jovem murmurou algo a respeito de voar � Rand tinha certeza de que tinha sido isso � e sobre a curvatura das asas do p�ssaro � ela apresentou desenhos de p�ssaros e do que pareciam p�ssaros <emphasis>de madeira</emphasis> �, mas ficou t�o sem palavras diante do Drag�o Renascido que n�o conseguiu soltar mais nenhuma explica��o compreens�vel. Naturalmente, Idrien n�o conseguiu dizer do que se tratava.</p><p>E um sujeito careca estava parado diante de um conjunto de barras, rodas, tubos e cilindros de metal, tudo sobre uma pesada mesa de madeira rec�m-entalhada e raspada, com alguns talhos quase fundos o bastante para perfurar o tampo da mesa. Por alguma raz�o misteriosa, metade de seu rosto e uma das m�os estavam envoltos em ataduras. Assim que Rand adentrara o sagu�o de entrada, o sujeito come�ara a acender uma fogueira debaixo de um dos cilindros, muito nervoso. Logo que Rand e Idrien pararam diante da inven��o, ele movimentou uma alavanca e abriu um sorriso orgulhoso.</p><p>A geringon�a come�ou a vibrar, vapor saindo sibilante de dois ou tr�s pontos. O sibilo tornou-se um guincho, e a coisa come�ou a tremer, emitindo um ru�do t�trico. O guincho ficou ensurdecedor. A coisa tremia tanto que a mesa come�ou a se mexer. O careca se jogou em cima da mesa, sem jeito, e agarrou um fio solto do cilindro maior. O vapor irrompeu em uma nuvem, e a coisa toda parou. O homem gemeu, lambendo os dedos queimados.</p><p>� Belo trabalho com lat�o � comentou Rand, antes que Idrien o conduzisse para longe. Ent�o perguntou, baixinho, quando se afastaram: � O que era aquilo?</p><p>A diretora deu de ombros.</p><p>� Mervin n�o quer contar a ningu�m. �s vezes d� para ouvir uns estrondos vindos do quarto dele. S�o t�o altos que as portas chegam a tremer. E ele j� se escaldou seis vezes, mas n�o para de dizer que, se fizer aquela coisa funcionar, dar� in�cio a uma nova Era. � Ela olhou para Rand, constrangida.</p><p>� Essa nova Era de Mervin ser� muito bem recebida � retrucou Rand, seco. Ser� que aquele treco deveria fazer m�sica? E todos aqueles guinchos? � N�o vi Herid. Ele se esqueceu de descer?</p><p>Idrien soltou outro suspiro. Herid Fel era um andoriano que sabe-se l� como fora parar na Biblioteca Real de Cairhien. O homem se autointitulava estudioso de hist�ria e filosofia � ou seja, um campo que n�o agradava � diretora.</p><p>� Milorde Drag�o, Herid s� sai do gabinete para ir � Biblioteca.</p><p>Rand precisou fazer um pequeno discurso para poder ir embora. Do alto de um banquinho, com o Cetro do Drag�o enganchado na dobra do cotovelo, ele disse a todos que as cria��es eram magn�ficas. E algumas at� poderiam ser, afinal. S� ent�o conseguiu escapar com Jalani e Dedric. E com Lews Therin e Alanna. O grupo deixou para tr�s um burburinho satisfeito, e Rand se perguntou se algu�m al�m de Idrien j� cogitara fabricar alguma arma.</p><p>O gabinete de Herid Fel ficava em um dos andares superiores, em um ponto de onde n�o se via muito mais que os telhados de azulejo escuro e uma torre quadrada que bloqueava a paisagem. Herid alegava que n�o se importava, j� que nunca olhava pela janela.</p><p>� Podem esperar aqui � declarou, quando chegaram � porta estreita que dava para o gabinete tamb�m estreito. Ficou surpreso em ver Jalani e Dedric concordarem prontamente.</p><p>De s�bito, uma s�rie de pequenos detalhes come�aram a fazer sentido. Jalani n�o olhara com desaprova��o para sua espada � coisa que sempre fazia quest�o de fazer � desde que Rand sa�ra da reuni�o com Rhuarc e Berelain. Nem ela nem Dedric sequer olharam para o cavalo no est�bulo ou fizeram qualquer coment�rio depreciativo sobre como as pernas de Rand deveriam bastar � outra coisa que a mulher fazia com frequ�ncia.</p><p>Rand se virou para a porta e, como se para confirmar suas suspeitas, Jalani olhou Dedric de cima a baixo. Um olhar breve, mas cheio de interesse, e ainda por cima acompanhado de um sorriso. Dedric a ignorou com tanta �nfase que era como se estivesse retribuindo o olhar. Era o jeito Aiel, um sempre fingindo n�o entender at� que o outro se fizesse claro. Jalani tamb�m teria ignorado Dedric, se ele a tivesse olhado primeiro.</p><p>� Divirtam-se � disse Rand antes de entrar, com uma olhadela por cima do ombro, apreciando as express�es sobressaltadas que seu coment�rio provocou.</p><p>O quarto era pequeno e estava abarrotado de livros, pergaminhos e ma�os de papel � tanto que n�o parecia haver mais nada ali. Prateleiras abarrotadas at� o teto escondiam as paredes, exceto pela �rea da porta e de duas janelas abertas. Livros e pap�is cobriam a mesa, que ocupava quase todo o espa�o �til, e jaziam amontoados na cadeira sobressalente ou aqui e ali, no pouco que sobrava de ch�o. Herid Fel era um homem corpulento que sempre parecia ter se esquecido de pentear os cabelos finos e grisalhos pela manh�. O cachimbo que segurava entre os dentes estava apagado, e havia cinzas ca�das no casaco marrom amarrotado.</p><p>O homem olhou com surpresa para Rand, ent�o disse:</p><p>� Ah. Sim. Claro. Eu ia� � Ele franziu o cenho para o livro em suas m�os, ent�o sentou-se � mesa e passou os dedos por algumas folhas soltas diante de si, resmungando baixinho para si mesmo. Herid virou-se para a primeira p�gina do livro e co�ou a cabe�a. Ent�o olhou de volta para Rand, olhando-o com surpresa mais uma vez. � Ah, sim. Sobre o que voc� queria conversar, mesmo?</p><p>Rand esvaziou a segunda cadeira, pousando livros e pap�is no ch�o, apoiou o Cetro do Drag�o sobre uma pilha de pergaminhos e se sentou. J� tentara conversar com os outros estudiosos, todos fil�sofos e historiadores, mulheres doutas e acad�micos, mas era como tentar extrair informa��o de uma Aes Sedai. Todos tinham muita certeza das coisas sobre as quais tinham certeza, mas, quando se tratava de todo o resto, engatavam um falat�rio mon�tono que poderia significar qualquer coisa. E eles tamb�m se irritavam quando pressionados, j� que pareciam achar que Rand duvidava de seu intelecto, o que consideravam um grande pecado. Quando n�o era isso, ou se empenhavam tanto em seus discursos que chegava ao ponto de Rand n�o entender metade, ou assumiam uma postura subserviente, tentando dizer exatamente o que ele queria ouvir. Herid era diferente. Sempre parecia se esquecer de que Rand <emphasis>era</emphasis> o Drag�o Renascido, o que Rand achava �timo.</p><p>� O que � que voc� sabe sobre Aes Sedai e Guardi�es, Herid? Sobre o elo?</p><p>� Guardi�es? Elo? Tanto quanto qualquer um que n�o seja Aes Sedai, suponho. O que n�o � muita coisa, veja bem. � Herid tragou o cachimbo, sem perceber que estava apagado. � O que o senhor queria saber?</p><p>� Esse elo pode ser quebrado?</p><p>� Quebrado? Ah, n�o. Creio que n�o. A n�o ser que o senhor esteja falando do momento em que o Guardi�o ou a Aes Sedai morre. S� assim o elo � quebrado. Acho. Eu me recordo de ter ouvido alguma coisa sobre o elo, mas n�o consigo lembrar exatamente�</p><p>Herid avistou uma pilha de anota��es em cima da mesa, puxou-as mais para perto com as pontas dos dedos e come�ou a leitura, fechando a cara e balan�ando a cabe�a. As notas tinham sido escritas em sua pr�pria caligrafia, mas ele j� n�o parecia mais concordar com o teor.</p><p>Rand suspirou. Quase acreditava que, se virasse a cabe�a de repente, veria a m�o de Alanna prestes a toc�-lo.</p><p>� E a pergunta que eu fiz da �ltima vez? Herid? Herid?</p><p>O homem corpulento ergueu a cabe�a com um solavanco.</p><p>� Ah. Sim. Ah, a pergunta. Da �ltima vez. Tarmon Gai�don. Bem, n�o sei como � que vai ser. Trollocs, talvez? Senhores do Medo? Sim� Senhores do Medo. Mas andei pensando. N�o tem como ser a �ltima Batalha. N�o acredito que tenha. Talvez cada Era tenha uma �ltima Batalha. Ou pelo menos a maioria. � Ele franziu o cenho, os olhos voltados para o nariz e o cachimbo preso entre os dentes, e come�ou a revirar os pap�is na mesa. � Tenho um acendedor aqui, em algum lugar.</p><p>� Como assim n�o tem como ser a �ltima Batalha? � Rand tentou manter a voz baixa. Sempre conseguia fazer Herid chegar ao ponto, o sujeito s� precisava de um pouco de ajuda.</p><p>� O qu�? Isso, exatamente isso. N�o tem como ser a �ltima Batalha. Mesmo que o Drag�o Renascido restaure os lacres da pris�o do Tenebroso t�o bem como fez o Criador. O que eu n�o acho que seja poss�vel. � Ele se inclinou para a frente, baixando a voz e assumindo um tom conspirat�rio. � O Drag�o Renascido n�o � o Criador, entende? N�o importa o que andem dizendo por a�. Mesmo assim, algu�m tem que selar a pris�o. A Roda, entende?</p><p>� N�o entendo� � A voz de Rand foi morrendo.</p><p>� Entende, sim. O senhor daria um bom aluno. � Herid tirou o cachimbo da boca e baforou a fuma�a em um c�rculo. � A Roda do Tempo. As Eras v�m e v�o e v�m de novo, com o girar da Roda, e tudo aquilo que a gente j� sabe� � Ele ergueu o dedo de repente, apontando para um ponto daquela roda imagin�ria. � Aqui a pris�o do Tenebroso est� inteira. Aqui, abriram um buraco nela e depois selaram de volta. � Ele moveu a ponta do cachimbo ao longo do arco que desenhara. � N�s estamos aqui. Os selos est�o enfraquecendo. Mas isso n�o importa, � claro. � A haste do cachimbo completou o c�rculo. � Quando a Roda voltar para c�, para onde foi aberto o buraco pela primeira vez, a pris�o do Tenebroso tem que estar selada de novo.</p><p>� Por qu�? Talvez da pr�xima vez abram um buraco no remendo. Talvez tenha sido o que aconteceu da �ltima vez� Quer dizer, � dif�cil abrir um buraco em algo que o Criador fez. Talvez tenham perfurado a Fenda por um remendo, o que seria muito mais f�cil, e a gente n�o saiba.</p><p>Herid balan�ou a cabe�a. Passou um instante encarando o cachimbo, voltando a notar que estava apagado. Rand achou que teria que cham�-lo outra vez para a conversa, mas Herid piscou e prosseguiu:</p><p>� Algu�m teve que fazer isso, em algum momento. Quer dizer, na primeira vez. A n�o ser que o senhor ache que o Criador tenha feito a pris�o j� esburacada e remendada. � Ele ergueu as sobrancelhas, tornando a sugest�o c�mica. � N�o� A pris�o come�ou �ntegra, e acho que voltar� a ser quando a Terceira Era retornar. Hum� Ser� que ela era <emphasis>chamada</emphasis> de Terceira Era? � Ele molhou uma pena no tinteiro e rabiscou uma anota��o apressada na margem de um livro aberto. � Argh, n�o importa mais. E n�o estou dizendo que � o Drag�o Renascido quem vai tornar a pris�o �ntegra outra vez, e n�o necessariamente nesta Era em que estamos, mas isso ter� que acontecer antes que a Terceira Era retorne. E j� se passou muito tempo desde que a pris�o foi restaurada pela �ltima vez� passou no m�nimo uma Era. Tanto tempo que ningu�m se lembra do Tenebroso ou de sua pris�o. Ningu�m se lembra. Hum� Ser� que� � Ele espiou as pr�prias anota��es e co�ou a cabe�a, ent�o se surpreendeu ao notar que co�ara a cabe�a com a m�o que segurava a pena, deixando um borr�o de tinta nos cabelos. � Em qualquer Era que os selos se enfraque�am, o povo acaba se lembrando do Tenebroso, j� que tem que enfrent�-lo e prend�-lo outra vez.</p><p>Enfiando de volta o cachimbo entre os dentes, Herid tentou rabiscar outra anota��o, mas n�o molhou a pena no tinteiro.</p><p>� A n�o ser que o Tenebroso se liberte � respondeu Rand, baixinho. � Para romper a Roda do Tempo e recriar o Tempo e o mundo � sua pr�pria imagem.</p><p>� Tem isso. � Herid deu de ombros, olhando feio para a pena, at� que enfim se lembrou do tinteiro. � Acho que n�o tem muito que eu ou o senhor possamos fazer a respeito. Por que n�o vem estudar aqui comigo? Duvido de que Tarmon Gai�don v� acontecer amanh�, e o senhor faria bom uso do seu temp�</p><p>� E voc� consegue pensar em alguma raz�o para romper os lacres?</p><p>Herid ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Romper os lacres? Romper os lacres?! Por que algu�m iria querer fazer isso? S� se fosse louco. Ser� que � poss�vel romper os lacres, para come�o de conversa? Acho que me lembro de ter lido em algum lugar que isso seria imposs�vel, mas n�o me lembro de ter visto um motivo. O que o fez pensar em uma coisa dessas?</p><p>� N�o sei.</p><p>Rand suspirou. No fundo da mente, Lews Therin entoava: <emphasis>Rompa os lacres. Rompa os lacres e acabe com tudo. Me deixe morrer para sempre.</emphasis></p><empty-line/><p>Abanando-se distraidamente com a borda do xale, Egwene espiou os dois lados do corredor que cruzava, torcendo para n�o ter se perdido outra vez. Estava quase certa de que tinha e n�o ficaria nada satisfeita se fosse mesmo o caso. O Pal�cio do Sol tinha milhas de corredores, nenhum muito mais fresco do que l� fora, e ela n�o passara tempo suficiente ali para conhecer o caminho.</p><p>Havia Donzelas por toda parte, em grupos de duas e tr�s � muito mais do que a comitiva que acompanhava Rand, e decerto muito mais do que o normal, quando ele n�o estava ali. Pareciam estar s� passeando, mas havia algo de� furtivo nelas. V�rias a conheciam de vista, e Egwene teria esperado algum cumprimento amig�vel, j� que as Donzelas pareciam ter conclu�do que ser pupila das S�bias era muito mais importante do que ser Aes Sedai � como acreditavam que ela fosse �, tanto que Egwene j� n�o era mais considerada Aes Sedai, e sim pupila. Ainda assim, elas pareciam t�o surpresas em v�-la quanto um Aiel poderia parecer surpreso. As cabe�as se balan�ando em cumprimento vinham um segundo depois, e elas seguiam seu caminho, apressadas, sem dizer uma palavra. Desse jeito, Egwene n�o tinha como pedir informa��es.</p><p>Em vez de perturbar as Donzelas, Egwene optou por franzir o cenho para um servi�al suado com listras azuis e douradas nos punhos das mangas, ponderando se o sujeito saberia ou n�o como chegar aonde ela queria ir � a dificuldade, claro, era que n�o sabia muito bem aonde queria ir. Pena que o sujeito estivesse t�o visivelmente tenso, com tantos Aiel por perto. O criado, decerto cheio de caraminholas sobre as Donzelas na cabe�a, disparou para longe assim que viu �uma Aiel� encar�-lo de cenho franzido � ningu�m nunca notava os olhos escuros de Egwene, caracter�stica que n�o era encontrada entre o povo do Deserto.</p><p>Ela bufou, irritada. Bem, n�o precisava de informa��o, afinal. Cedo ou tarde acabaria encontrando um corredor conhecido. N�o havia por que voltar por onde viera, mas por qual dos outros tr�s corredores devia seguir? Acabou se decidindo por um e seguiu adiante a passos firmes � t�o firmes que at� algumas Donzelas abriram caminho.</p><p>A verdade era que estava um pouco irritada. Teria sido �timo ver Aviendha, depois de tanto tempo, mas a ruiva simplesmente a cumprimentara com um aceno de cabe�a e se enfiara em uma reuni�o com Amys. <emphasis>S�</emphasis> com Amys, como Egwene logo descobriu, ao tentar ir atr�s das duas.</p><p><emphasis>Voc� n�o foi convocada</emphasis>, dissera a S�bia, com rispidez, enquanto Aviendha se sentava de pernas cruzadas sobre uma almofada, parecendo infeliz enquanto encarava as camadas de tapete no ch�o. <emphasis>V� dar uma volta. E trate de comer. Voc� quer ser uma mulher ou um cani�o?</emphasis></p><p>Bair e Melaine tinham chegado depressa, convocadas por algum <emphasis>gai�shain</emphasis>, e Egwene foi exclu�da. Ver a fileira de S�bias sendo dispensadas ajudou a apaziguar o inc�modo, mas s� um pouco. Ela era amiga de Aviendha, afinal. Se a ruiva estava com algum problema, Egwene queria ajudar.</p><p>� O que voc� est� fazendo aqui? � inquiriu Sorilea, atr�s dela.</p><p>Egwene estava muito orgulhosa de si mesma. Virou-se, muito calma, para encarar a S�bia da Fortaleza Shende. Sorilea era uma Jarra Chareen de cabelos brancos e finos e rosto coberto de pele curtida e muito repuxada. Era uma mulher ossuda e forte que podia canalizar, apesar de ter menos for�a com o Poder do que a maioria das novi�as que Egwene conhecera. Se ela estivesse na Torre, teria sido dispensada sem nem chegar a ser Aceita. Claro que a canaliza��o n�o fazia muita diferen�a entre as S�bias � fossem quais fossem as misteriosas leis que as regiam, a lideran�a das S�bias sempre reca�a para Sorilea quando a mulher estava por perto. Egwene achava que Sorilea conquistara essa posi��o apenas com a for�a de vontade.</p><p>Como a maioria das Aiel, Sorilea era uma boa cabe�a mais alta que Egwene. A S�bia a encarou com seus olhos verdes e firmes, um olhar capaz de desestabilizar um touro. Egwene se sentiu aliviada, pois aquele era o jeito normal de Sorilea encarar a todos. Se a mulher quisesse ralhar com ela, as paredes j� teriam desabado com a for�a de seu olhar, e as tape�arias estariam em chamas, ou praticamente isso.</p><p>� Vim ver Rand � respondeu Egwene. � E a caminhada das tendas at� aqui me pareceu um bom exerc�cio.</p><p>Sem d�vida era um exerc�cio melhor do que dar cinco ou seis voltas correndo ao redor das muralhas da cidade, o que os Aiel consideravam um exerc�cio leve. Esperava que Sorilea n�o lhe perguntasse por que queria falar com Rand. N�o gostava de mentir para as S�bias.</p><p>Sorilea a encarou por um instante, como se tivesse farejado um segredo oculto, ent�o ajeitou o xale sobre os ombros estreitos e disse:</p><p>� Rand n�o est� aqui, foi visitar a escola. Berelain Paeron achou que n�o seria sensato ir atr�s dele, e eu concordo.</p><p>Egwene teve que se esfor�ar para manter a express�o tranquila. Nunca imaginara que as S�bias fossem gostar de Berelain, mas as Aiel a tratavam como uma mulher sensata e respeit�vel � o que n�o fazia <emphasis>o menor</emphasis> sentido para Egwene �, e n�o era porque Rand lhe conferira autoridade, j� que os Aiel n�o davam a m�nima para a autoridade de nenhum aguacento. Aquilo era rid�culo. A Primeira de Mayene se exibia em trajes escandalosos e flertava sem o menor pudor � isso quando n�o fazia mais do que flertar, como Egwene acreditava. N�o era nem de longe o tipo de mulher para quem Amys abriria um sorriso como se se tratasse de sua filha preferida. Muito menos Sorilea.</p><p>Sua mente, incontrol�vel, a fez pensar em Gawyn. Tinha sido apenas um sonho � e um sonho <emphasis>dele</emphasis>, ali�s. Nada como o que Berelain fazia.</p><p>� Quando uma mulher cora sem qualquer motivo aparente, em geral � por causa de um homem � comentou Sorilea. � Quem atraiu seu interesse? Ser� que logo vamos v�-la pousar uma coroa nupcial aos p�s dele?</p><p>� Aes Sedai quase nunca se casam � respondeu Egwene, em um tom frio.</p><p>A mulher de rosto curtido deu uma risada ir�nica, um som que lembrou tecido rasgando. As Donzelas e as S�bias � na verdade, todas as Aiel � podiam at� considerar que Egwene n�o era Aes Sedai enquanto estudava com Amys e as outras, mas Sorilea ia ainda mais longe. A mulher parecia achar que Egwene de fato se tornara Aiel. Somado a isso, n�o havia nenhum assunto em que Sorilea julgasse n�o ter o direito de meter o bedelho.</p><p>� Mas voc� vai se casar, garota. N�o � do tipo que vira essas <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, que acham que a vida com os homens �, quando muito, um esporte feito a ca�a. Essas suas ancas foram feitas para ter beb�s, e beb�s voc� ter�.</p><p>� Voc� sabe me dizer onde posso esperar por Rand? � perguntou Egwene, com a voz mais fraca do que gostaria.</p><p>Sorilea n�o era Andarilha dos Sonhos nem podia interpret�-los, e certamente n�o tinha o dom da Previs�o, mas falava de um jeito t�o decisivo que o que dizia parecia inevit�vel. Beb�s de Gawyn. Luz, como teria beb�s com Gawyn? As Aes Sedai nunca se casavam. Era raro um homem querer se casar com uma mulher que o deixaria t�o vulner�vel, se quisesse usar o Poder contra ele.</p><p>� Venha por aqui � apontou a S�bia. � � Sanduin, aquele Sangue Verdadeiro todo musculoso que eu vi perto da tenda de Amys, ontem? A cicatriz deixa o resto do rosto dele t�o mais bonito�</p><p>Sorilea n�o parou de sugerir nomes enquanto conduzia Egwene pelo pal�cio, sempre espiando de rabo do olho para ver sua rea��o. A mulher tamb�m se esfor�ava ao m�ximo para listar os atributos de cada homem, e com certeza viu seu alvo corar v�rias vezes, j� que essa lista inclu�a uma descri��o dos corpos por baixo das roupas � coisa que sabia porque homens e mulheres Aiel compartilhavam as tendas de vapor.</p><p>Quando as duas chegaram � ala onde Rand passaria a noite, Egwene j� estava desesperada. Ela ficou mais do que satisfeita em agradecer depressa e fechar a porta da sala com firmeza na cara de Sorilea. Por sorte, a S�bia tamb�m devia ter afazeres, ou teria empurrado a porta e imposto sua presen�a.</p><p>Egwene respirou fundo e come�ou a alisar as saias e arrumar o xale. N�o que estivessem em desalinho, mas ela sentia como se tivesse sido empurrada colina abaixo. Sorilea realmente amava bancar a casamenteira � era capaz at� de moldar a coroa nupcial e arrastar uma mulher desavisada para deit�-la aos p�s do homem que <emphasis>ela pr�pria </emphasis>escolhera e ainda torcer o bra�o do sujeito at� ele agarrar a coroa. Bem, ela n�o arrastava ningu�m nem torcia bra�os, mas era t�o insistente que dava no mesmo. Claro que Sorilea n�o levaria aquilo adiante com ela, e s� de pensar naquela possibilidade, Egwene deu uma risadinha. No fim das contas, Sorilea n�o achava que ela tivesse mesmo virado Aiel � a mulher sabia que Egwene era Aes Sedai, ou pelo menos acreditava que ela fosse. <emphasis>Claro</emphasis> que n�o precisava se preocupar!</p><p>Ouvindo passos suaves vindo do dormit�rio, ela congelou, as m�os ainda no len�o cinza dobrado prendendo seus cabelos. Rand conseguia ir direto de Caemlyn a Cairhien, talvez tivesse surgido no quarto. Ou talvez algu�m � ou algo � estivesse esperando por ele. Egwene agarrou <emphasis>saidar</emphasis>, preparando urdiduras terr�veis, pronta para lan��-las� At� que uma <emphasis>gai�shain</emphasis> saiu do aposento e adentrou a sala trazendo roupas de cama dobradas. A mulher levou um susto ao v�-la, e Egwene soltou <emphasis>saidar</emphasis>, torcendo para n�o ter corado outra vez.</p><p>A mulher na t�nica branca com capuz era Niella, t�o parecida com Aviendha que causava espanto � primeira vista. Mas logo era poss�vel ver que seria preciso acrescentar seis ou sete anos �quele rosto, que tamb�m n�o parecia t�o bronzeado e talvez fosse um pouco mais rechonchudo. A irm� de Aviendha era tecel� e nunca fora Donzela da Lan�a. J� passara bem mais da metade da pena de um ano e um dia.</p><p>Egwene n�o a cumprimentou, pois isso s� deixaria Niella constrangida.</p><p>� Sabe se Rand chegar� logo? � perguntou.</p><p>� O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> vai chegar quando chegar � respondeu a jovem, os olhos baixos e submissos. Era mesmo estranho. Mesmo sendo um pouco mais jovem e rechonchudo, era o rosto de Aviendha. N�o combinava com a submiss�o. � Devemos estar preparados para quando ele chegar.</p><p>� Niella, faz ideia de por que Aviendha foi se trancar com Amys, Bair e Melaine?</p><p>Aquilo com certeza n�o tinha nada a ver com caminhar pelos sonhos. Aviendha era t�o incapaz de acessar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> quanto Sorilea.</p><p>� Ela est� aqui? N�o, n�o sei por qu�. � Apesar da negativa, Niella estreitou um pouco os olhos verde-azulados.</p><p>� Voc� sabe, sim � insistiu Egwene. Poderia muito bem tirar vantagem da obedi�ncia <emphasis>gai�shain</emphasis>. � Diga o que sabe, Niella.</p><p>� O que eu sei � que, se o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> me encontrar aqui com a roupa de cama suja, a surra que vou levar de Aviendha n�o vai me deixar sentar o dia inteiro � respondeu Niella, em tom de lamento.</p><p>Egwene n�o sabia se havia <emphasis>ji�e�toh</emphasis> envolvido naquilo, mas, quando as duas estavam juntas, Aviendha era duas vezes mais rigorosa com a irm� do que com qualquer outro <emphasis>gai�shain</emphasis>.</p><p>Niella se virou, a t�nica deslizando pelo tapete branco, seguindo depressa para a porta, mas Egwene a segurou pela manga.</p><p>� Voc� vai largar o branco quando acabar seu tempo?</p><p>N�o era uma pergunta educada, e a submiss�o deu lugar a um orgulho que fazia frente a qualquer Donzela.</p><p>� Qualquer outra atitude seria zombar do <emphasis>ji�e�toh</emphasis> � respondeu a jovem, muito r�gida. Ent�o um leve sorriso surgiu em seus l�bios. � Al�m do mais, meu marido viria atr�s de mim. Ele n�o ficaria nem um pouco satisfeito. � A m�scara de submiss�o retornou, e ela baixou os olhos. � Posso ir? Se Aviendha est� aqui, prefiro n�o a encontrar, se puder evitar. E ela vir� para c�.</p><p>Egwene a dispensou. N�o tinha o direito de perguntar, falar da vida de antes ou de depois do branco era vergonhoso para um <emphasis>gai�shain</emphasis>. At� ela se sentiu um pouco constrangida, mesmo que n�o fosse sua obriga��o seguir o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. S� se atinha a ele o suficiente para ser educada.</p><p>Quando se viu sozinha, Egwene se acomodou em uma poltrona com enormes entalhes e apliques de ouro � sentar-se nela era estranhamente desconfort�vel, depois de tanto tempo com as pernas cruzadas em almofadas ou no ch�o. Enfiando as pernas para baixo do corpo, ela se perguntou o que Aviendha estaria falando com Amys e as outras duas. Sobre Rand, tinha quase certeza. As S�bias sempre queriam saber dele. Os Aiel n�o davam a m�nima para as Profecias do Drag�o, mas conheciam a Profecia de Rhuidean de cabo a rabo. Quando Rand destru�sse os Aiel, como rezava a profecia, salvaria o que restasse do restante. E as S�bias queriam garantir que esse restante inclu�sse o maior n�mero poss�vel de Aiel.</p><p>Era por isso que obrigavam Aviendha a ficar ao lado dele, beirando a indec�ncia: se Egwene entrasse no quarto onde Rand passaria a noite, tinha certeza de que encontraria um catre no ch�o para Aviendha. Mas os Aiel n�o viam as coisas dessa maneira. As S�bias queriam que Aviendha ensinasse os h�bitos e costumes Aiel a Rand � lembr�-lo de que seu sangue era Aiel, por mais que a cria��o tivesse sido outra. Ao que parecia, as S�bias achavam que ele precisava ser lembrado disso <emphasis>o tempo todo</emphasis> � considerando o que estavam tentando assegurar, Egwene n�o podia culp�-las. N�o completamente. Ainda assim, era uma indec�ncia botar uma mulher para dormir no mesmo quarto de um homem.</p><p>Bem, n�o havia o que pudesse fazer em rela��o ao problema de Aviendha, sobretudo se a amiga n�o parecia ver isso como um problema. Com a cabe�a apoiada no cotovelo, Egwene tentava pensar em como abordaria Rand. Sua mente deu voltas e mais voltas, mas ainda n�o tinha conseguido pensar em uma solu��o quando ele entrou na sala, murmurando alguma coisa para dois Aiel no corredor, antes de fechar a porta.</p><p>Egwene se levantou de um salto.</p><p>� Rand, voc� tem que me ajudar com as S�bias! Elas v�o ouvir voc� � disparou, sem conseguir se conter.</p><p>N�o saiu <emphasis>nem um pouco</emphasis> como o que tinha planejado dizer.</p><p>� Tamb�m estou muito feliz em ver voc� � retrucou ele, abrindo um sorriso. Rand portava a mesma lan�a Seanchan comprida que ela j� conhecia, e Egwene notou que fora entalhada com drag�es desde a �ltima vez que a vira. Ela se perguntou onde Rand arrumara aquilo. Ficava arrepiada com qualquer coisa que viesse dos Seanchan. � Eu estou bem, Egwene, obrigado. E voc�? Parece ter voltado a si, sempre muito cautelosa.</p><p>Rand parecia t�o cansado. E tamb�m severo e implac�vel � t�o implac�vel que o sorriso ficava esquisito nele. Cada vez que Egwene o via, ele parecia mais implac�vel.</p><p>� N�o venha bancar o engra�adinho � retrucou, olhando feio para Rand. Melhor prosseguir como come�ara. Pelo menos era melhor do que voltar atr�s e dar mais motivos para aquele sorrisinho na cara dele. � Voc� me ajuda?</p><p>� Como?</p><p>Rand n�o fez cerim�nias � bem, a sala era mesmo dele �, jogando a lan�a enfeitada com borlas sobre uma mesinha de p�s entalhados em forma de leopardo e livrando-se do cintur�o da espada e do casaco. Misteriosamente, ele estava t�o seco de suor quanto um Aiel.</p><p>� As S�bias me escutam, � verdade, mas s� ouvem o que querem. J� reconhe�o de longe aquele olhar sem emo��o de quando elas acham que estou falando bobagens, mas decidem simplesmente me ignorar em vez de me constranger chamando minha aten��o ou tentando discutir � declarou ele, puxando uma das poltronas com entalhes de ouro para ficar de frente para Egwene e se esparramando, esticando os p�s ainda cal�ados nas botas. At� aquilo ele fazia com um ar de arrog�ncia. Definitivamente tinha gente demais lhe dispensando mesuras.</p><p>� Mas voc� realmente fala umas bobagens, de vez em quando � resmungou Egwene. Era surpreendente, mas a falta de tempo para pensar ajudava na concentra��o. Ajeitando o xale com muito cuidado, ela se postou diante de Rand. � Sei que voc� gostaria de mais not�cias de Elayne� � Por que ele assumira uma express�o t�o triste, mas ao mesmo tempo g�lida feito o inverno? Devia ser porque j� fazia um bom tempo que n�o ouvia not�cias da Filha-herdeira. � Duvido de que Sheriam esteja passando recados dela para voc�, quando se encontra com as S�bias. � N�o houvera nenhuma mensagem, at� onde ela sabia, embora fosse raro Rand aparecer em Cairhien em busca de recados. � � em mim que Elayne confia esse tipo de missiva. Posso trazer not�cias dela para voc�, se convencer Amys de que eu estou forte o bastante para� para retomar meus estudos.</p><p>Desejou n�o ter hesitado, mas Rand j� sabia demais a respeito de caminhar pelos sonhos, qui�� at� de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Quase tudo sobre aquele talento era segredo das S�bias, sobretudo das Andarilhas. Egwene n�o tinha o direito de revelar aqueles segredos.</p><p>� Vai me dizer onde est� Elayne? � perguntou ele, com toda a naturalidade, como se pedisse uma x�cara de ch�.</p><p>Egwene hesitou, mas fizera um acordo com Elayne e Nynaeve � Luz, quanto tempo fazia? Mas o acordo ainda valia, afinal. Rand j� n�o era o garoto com quem ela crescera � tinha virado um homem cheio de si, e, qualquer que fosse o tom que empregava �quela pergunta, seus olhos firmes <emphasis>exigiam</emphasis> resposta. Aes Sedai e S�bias juntas j� eram uma mistura que gerava fa�scas, mas botar Rand de frente com as Aes Sedai acabaria em um inc�ndio. Era preciso haver algum intermedi�rio entre eles, e s� elas tr�s estavam dispon�veis. Era inevit�vel, mas Egwene esperava que n�o acabassem chamuscadas no processo.</p><p>� N�o posso lhe dizer isso, Rand. N�o tenho o direito. N�o � um segredo meu para contar. � E estava dizendo a verdade. Ali�s, n�o era como se pudesse contar onde ficava essa Salidar, se tudo o que sabia era que as amigas estavam em uma cidadezinha depois de Altara, em algum ponto ao longo do Rio Eldar.</p><p>Rand se inclinou para a frente, determinado.</p><p>� Eu sei que ela est� com as Aes Sedai. E voc� j� disse que s�o Aes Sedai que me apoiam, ou que poderiam apoiar. Mas essas mulheres t�m medo de mim? Dou minha palavra de que manterei dist�ncia, se o problema for o medo. Egwene, pretendo entregar o Trono do Le�o e o Trono do Sol a Elayne. Ela tem direito aos dois, e Cairhien vai aceit�-la t�o f�cil quanto Andor. Eu preciso dela, Egwene.</p><p>A jovem abriu a boca� ent�o percebeu que estava prestes a contar tudo o que sabia sobre Salidar. Cerrou os dentes na mesma hora, com tanta for�a que machucou a mand�bula, ent�o se abriu para <emphasis>saidar</emphasis>. A doce sensa��o de vida, t�o forte que sobrepujava tudo o mais, pareceu ajudar, e a vontade de falar foi se atenuando aos poucos.</p><p>Rand se sentou, com um suspiro, e Egwene o encarou de olhos arregalados. Uma coisa era saber que ele era o <emphasis>ta�veren</emphasis> mais forte desde Artur Asa-de-gavi�o, outra era ela pr�pria se ver envolvida naquilo. Teve que fazer muito esfor�o para se impedir de envolver o tronco com os bra�os e estremecer.</p><p>� Voc� n�o vai me contar � declarou Rand. N�o era uma pergunta. Ele esfregou os antebra�os por cima das mangas da camisa, lembrando a Egwene que ainda estava abra�ada a <emphasis>saidar. </emphasis>Ele estava t�o perto que devia ter sentido um leve arrepio. � Acha que eu ia arrancar a resposta de voc� � for�a? � vociferou ele, irritado. � Eu sou algum monstro, para voc� ter que usar o Poder para se proteger?</p><p>� Eu n�o preciso de nada para me proteger de voc� � retrucou Egwene, com toda a calma que conseguiu reunir.</p><p>O est�mago ainda se revirava um pouco. Aquele era Rand, um homem capaz de canalizar. Parte dela queria simplesmente cair no choro e sair contando tudo. Aquele �mpeto a deixava envergonhada, mas a vergonha n�o eliminava a vontade. Deixou <emphasis>saidar</emphasis> de lado, triste por sentir aquela pontinha de relut�ncia em fazer isso. Mas de fato n�o importava: se chegassem a lutar, teria que ser r�pida o bastante para blind�-lo, ou Rand a venceria t�o f�cil como em uma queda de bra�o.</p><p>� Rand, sinto muito por n�o poder ajudar, mas realmente n�o posso. E, mesmo assim, tenho que pedir outra vez sua ajuda. Mas voc� sabe que isso tamb�m o beneficiaria.</p><p>A raiva dele foi engolida por um sorriso enorme e inquietante. Era assustadora a rapidez com que ele mudava de humor.</p><p>� �Por um prato, um gato; por um gato, um prato� � citou Rand.</p><p><emphasis>Mas por nada, nada</emphasis>, completou Egwene, em pensamento. Ouvia o ditado de Barca de Taren, desde menina.</p><p>� Ent�o quebre esse seu prato na cabe�a e depois enfie o gato nas cal�as, Rand al�Thor � retrucou, com frieza.</p><p>Conseguiu n�o bater a porta na hora de sair, mas foi por pouco.</p><p>Enquanto se afastava a passos largos, foi pensando no que faria. Precisava dar um jeito de convencer as S�bias de que estava pronta para voltar a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> � oficialmente, por assim dizer. Cedo ou tarde, Rand encontraria as Aes Sedai de Salidar, mas seria de muita ajuda se conseguisse falar com Elayne ou Nynaeve antes disso. Estava um pouco surpresa em ver que Salidar ainda n�o tentara uma aproxima��o com Rand. O que estaria impedindo Sheriam e as outras? Bem, n�o podia fazer nada a respeito, e suas amigas decerto sabiam mais sobre o que estava acontecendo.</p><p>Mas havia uma coisa que estava ansiosa para contar a Elayne: Rand precisava dela. O apelo dele parecera mais sincero do que qualquer coisa que ele j� dissera na vida. Isso deveria apaziguar as preocupa��es de Elayne a respeito de seu amor. Homem nenhum diria que precisava de uma mulher que n�o amasse, n�o com tamanha intensidade.</p><empty-line/><p>Rand permaneceu alguns instantes sentado, encarando a porta que se fechara atr�s de Egwene. Ela estava t�o diferente da garota com quem crescera. Naqueles trajes Aiel, Egwene conseguia fazer uma bela imita��o de S�bia � exceto pela altura, talvez, mas era uma S�bia baixa e com grandes olhos escuros. Bem, Egwene sempre se dedicara a tudo de corpo e alma. Lembrou-se de que ela o encarara com a calma e frieza de uma Aes Sedai, agarrando <emphasis>saidar</emphasis> quando achou que estava sendo amea�ada. E era isso o que precisava manter em mente: n�o importava a roupa, o que Egwene queria ser era Aes Sedai. E ela guardaria os segredos das Aes Sedai, mesmo depois de Rand ter deixado bem claro quanto precisava de Elayne para garantir a paz de duas na��es. Tinha que passar a pensar nela como Aes Sedai. Era um pensamento triste.</p><p>Cansado, Rand se levantou e botou o casaco de volta. Ainda tinha que ver os nobres cairhienos � Colavaere, Maringil, Dobraine e os outros. E os tairenos tamb�m � Meilan, Aracome e seu bando entrariam em desespero se ele passasse um instante a mais com os cairhienos do que com eles. E as S�bias tamb�m iam querer sua vez, assim como Timolan e os outros chefes de cl� que estavam por ali e que ele ainda n�o encontrara naquele dia. Por que decidira sair de Caemlyn, mesmo? Bem, fora bom falar com Herid. As d�vidas que o homem levantou n�o tinham sido muito agrad�veis de se pensar, mas era bom conversar com algu�m que n�o parecia fixado no fato de que ele era o Drag�o Renascido. E tivera um tempinho sem a comitiva permanente de Aiel. Precisava fugir mais.</p><p>Viu seu reflexo em um espelho com moldura dourada.</p><p>� Pelo menos voc� n�o deixou Egwene perceber o quanto estava cansado � disse, para a imagem no espelho.</p><p>Era um dos conselhos mais sucintos que recebera de Moiraine: <emphasis>Nunca demonstre fraqueza.</emphasis> S� precisava se acostumar a pensar que Egwene agora tamb�m era uma das pessoas sobre quem Moiraine lhe avisara.</p><empty-line/><p>Sulin estava muito tranquila, acocorada no jardim logo abaixo dos aposentos de Rand al�Thor, aparentemente entretida com uma pequena brincadeira de girar a faca e acertar a ponta da l�mina no ch�o de terra. Um pio de coruja soou de uma das janelas, e Sulin se levantou de um pulo, praguejando, guardando a faca no cinto. Rand al�Thor sa�ra do quarto outra vez. Aquele tipo de vig�lia n�o adiantaria de nada. Se Enaila ou Somara estivessem ali, mandaria as duas segui-lo, mas em geral tentava proteg�-lo desse tipo de bobagens, como protegeria um irm�o-primeiro.</p><p>Sulin foi a passos r�pidos at� a sa�da mais pr�xima para se juntar �s outras tr�s Donzelas l� em cima e, fingindo caminhar a esmo, come�ou a explorar o labirinto de corredores em busca de Rand. N�o importava o que o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> quisesse: n�o podiam deixar que nada acontecesse ao �nico filho de uma Donzela que j� havia voltado para elas.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 19</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Quest�es de <emphasis>toh</emphasis></p></title><p>Rand achou que conseguiria dormir bem aquela noite. Estava t�o cansado que quase podia ignorar Alanna, e � mais importante � Aviendha estava nas tendas com as S�bias, e n�o se despindo para dormir sem nem se importar com sua presen�a, ou atrapalhando seu descanso com o som de sua respira��o. Ainda assim, outra coisa o fez se revirar na cama: sonhos. Sempre blindava seus sonhos, querendo impedir a entrada dos Abandonados � e das S�bias �, mas a blindagem n�o podia impedir o que j� estava l� dentro. Logo vieram os sonhos: gigantescas criaturas aladas planavam pelo c�u � pareciam asas de p�ssaros gigantes, mas sem os p�ssaros �; grandes cidades com constru��es impossivelmente altas, as paredes reluzindo sob o sol; estranhos objetos em forma de besouro e de gotas d��gua horizontais disparavam por entre as ruas. J� tinha visto tudo aquilo antes, nas vis�es do imenso <emphasis>ter�angreal</emphasis> de Rhuidean, onde ganhara as marcas dos Drag�es nos bra�os. Sabia que se tratavam de coisas da Era das Lendas, mas aquele sonho era completamente diferente. Tudo parecia distorcido, as cores estavam� erradas, como se seus olhos n�o estivessem funcionando direito. As asas sho come�aram a falhar e cair, cada uma causando centenas de mortes. As constru��es altas se despeda�avam, as paredes se estilha�ando feito vidro; inc�ndios engoliam as cidades; e a terra se movia em ondas, feito um mar revolto. E ele n�o parava de se ver frente a frente com uma bela mulher loura, notando enquanto o amor virava horror em seu rosto. Parte dele a conhecia. Parte dele queria salv�-la� salv�-la do Tenebroso, de algum mal, do que ele pr�prio estava prestes a fazer. Mas tinha tantas partes, a mente cindida em tantos fragmentos cintilantes, e todos aos berros.</p><p>Rand acordou no escuro, suando e tremendo. Sonhos de Lews Therin. Aquilo nunca tinha acontecido, ele nunca sonhara os sonhos do outro homem em sua mente. Ficou ali, deitado, esperando as horas passarem at� o dia nascer, encarando o nada, com medo de fechar os olhos. Agarrou-se a <emphasis>saidin</emphasis> como se pudesse us�-lo para enfrentar aquele homem morto, mas Lews Therin continuou em sil�ncio.</p><p>Quando enfim viu uma luz fraca despontar nas janelas, um <emphasis>gai�shain</emphasis> adentrou o quarto em sil�ncio, trazendo uma bandeja de prata coberta com um pano. Quando viu Rand acordado, o homem n�o disse palavra, apenas fez uma mesura e saiu, t�o silencioso quanto entrou. Sentiu cheiro de ch� de groselha gelado, p�o morno, manteiga, mel e o mingau quente que os Aiel comiam toda manh� � usando o Poder, conseguia sentir os cheiros t�o bem como se o nariz estivesse colado na bandeja. Soltando a Fonte Verdadeira, Rand se vestiu e afivelou a espada. Nem tocou no pano que cobria a comida � n�o estava com fome. Metendo o Cetro do Drag�o preso na dobra do cotovelo, ele saiu de seus aposentos.</p><p>Sulin, acompanhada por outras Donzelas, j� estava de volta ao largo corredor, assim como Urien e seus Escudos Vermelhos, mas n�o eram os �nicos. Uma aglomera��o de pessoas lotava o corredor, um pouco atr�s da escolta Aiel, e tamb�m havia gente mais para dentro do per�metro demarcado por sua guarda particular. Aviendha estava no meio de uma delega��o de S�bias, com Amys, Bair e Melaine � e Sorilea, naturalmente �, al�m de Chaelin, uma Mi�goma Fuma�a L�quida, com mechas grisalhas nos cabelos de um tom escuro de vermelho, e Edarra, uma Shiande Neder que n�o parecia muito mais velha do que ele pr�prio, embora os olhos azuis j� exibissem aquela calma inabal�vel e ela tivesse uma presen�a altiva o suficiente para fazer frente �s outras S�bias. Berelain tamb�m estava com as mulheres, mas n�o se via Rhuarc ou qualquer outro chefe de cl� � Rand j� dissera aos homens o que tinha a dizer, e os Aiel n�o gostavam de prolongar debates. Mas por que as S�bias estavam ali? E Berelain? A Primeira de Mayene usava um vestido verde e branco cujo decote exibia uma bela extens�o do colo p�lido.</p><p>Tamb�m havia alguns cairhienos, todos fora do per�metro da guarda Aiel. Colavaere, cujo rosto de tra�os fortes n�o tivera a beleza diminu�da pela meia-idade, havia prendido os cabelos escuros em uma elaborada torre de cachos e usava um vestido colorido por listras horizontais que iam da gola alta bordada em ouro at� a bainha, abaixo dos tornozelos � mais listras do que qualquer um dos cairhienos presentes. Dobraine, o rosto duro e quadrado, usava a frente da cabe�a raspada � moda militar local, seu casaco surrado nos pontos em que ficavam as al�as de uma placa peitoral. Maringil, todo empertigado, n�o s� n�o usava a cabe�a raspada como seus cabelos brancos iam at� os ombros, e seu sobretudo de seda escura, com quase tantas listras quanto o de Dobraine, ia at� os joelhos e era t�o elegante que poderia ser usado em um baile. Vinte ou mais nobres se apinhavam atr�s deles, quase todos rapazes e mo�as mais jovens, mas poucos ostentavam uma quantidade de listras horizontais que sequer chegava � cintura.</p><p>� Que a gra�a ilumine o Lorde Drag�o � murmuraram, levando a m�o ao cora��o ou fazendo mesuras. � A gra�a nos honra com a presen�a do Lorde Drag�o.</p><p>Os tairenos tamb�m estavam presentes. Gr�o-lordes e Ladies, sem os nobres menores � uns de chap�u de veludo pontudo e casaco de seda com mangas bufantes de cetim listrado; outros com uma esp�cie de beca de cores fortes adornada com um grande rufo de renda e barrete bem-ajustado cravejado de p�rolas ou pedras preciosas. Todos prestando respeito ao Drag�o Renascido e saudando-o com �Que a Luz ilumine o Drag�o da Luz�. Meilan estava mais � frente, claro, um sujeito esguio, r�gido e inexpressivo, com a barba grisalha e pontuda. Logo atr�s estava Fionnda, muito s�ria e com olhos de a�o, mas que n�o reduziam nem um pouco sua beleza, ao contr�rio dos sorrisos t�midos e afetados da graciosa Anaiyella, que de alguma forma a deixavam menos bonita. N�o se via nenhum sorriso no rosto de Maraconn, com seus olhos azuis raros para um taireno, nem de Aracome, que parecia duas vezes mais esguio ao lado de toda a corpul�ncia do careca Gueyam, ainda que fosse igualmente forte. Esses �ltimos tr�s, assim como Meilan, tinham sido muito pr�ximos de Hearne e Simaan. Rand n�o mencionara aqueles dois ou sua trai��o na noite anterior, mas tinha certeza de que era fato conhecido � assim como estava certo de que seu sil�ncio j� produzia o efeito apropriado � consci�ncia de cada um daqueles homens. Os tairenos j� estavam acostumados com o que seu sil�ncio dizia desde que chegaram em Cairhien, mas, naquela manh�, encaravam Rand como se ele fosse ordenar a pris�o de qualquer um deles a qualquer momento.</p><p>Na verdade, quase todo mundo parecia de olho em alguma outra pessoa. Uns tantos encaravam os Aiel com ansiedade, alguns menos ou mais bem-sucedidos em esconder a raiva. Outros observavam Berelain quase com a mesma aten��o � Rand ficou surpreso em ver que, at� nos homens que a encaravam �, mesmo os tairenos �, a suspeita vencia o desejo em seus olhos. A maioria, claro, olhava para ele � Rand era quem era, <emphasis>o que</emphasis> era. Colavaere alternava o olhar frio entre ele e Aviendha, mas encarar a outra mulher sempre fazia seus olhos se aquecerem de raiva � Colavaere guardava bastante m�goa, embora Aviendha parecesse ter se esquecido disso. Bem, Colavaere com certeza jamais esqueceria a surra que recebera da ruiva depois de ser encontrada nos aposentos de Rand, muito menos perdoaria o fato de aquilo ter se tornado de conhecimento geral. Meilan e Maringil evitavam cruzar olhares, deixando bem claro quanto estavam cientes da presen�a um do outro � ambos almejavam o trono de Cairhien e consideravam o outro seu principal rival. Dobraine estava atento a Meilan e Maringil, mas ningu�m sabia o motivo. Melaine encarava Rand com os olhos de Sorilea pregados nela, e Aviendha encarava o ch�o, franzindo o cenho. Uma jovem cairhiena de olhos grandes usava o cabelo solto, cortado na altura dos ombros, em vez de armado em cachos elaborados, e portava uma espada presa em um cintur�o sobre o vestido escuro de montaria, com apenas seis listras coloridas. Muitos dos outros n�o se davam ao trabalho de disfar�ar os sorrisos de desprezo quando olhavam para ela, mas a mo�a sequer pareceu notar, enquanto alternava olhares de extrema admira��o �s Donzelas e de extremo medo do Drag�o. Rand se lembrava dela: Selande, integrante do grupo de beldades que Colavaere achava que conseguiriam capturar o Drag�o Renascido em suas tramoias, tendo persistido at� Rand convenc�-la de que n�o daria certo � com a ajuda n�o requisitada de Aviendha, infelizmente. Esperava que Colavaere agora o temesse o bastante para esquecer a vingan�a contra Aviendha, mas desejava poder convencer Selande de que ela n�o tinha nada a temer dele. <emphasis>Voc� n�o pode agradar a todos</emphasis>, dissera Moiraine. <emphasis>N�o pode apaziguar todos os �nimos.</emphasis> Moiraine era uma mulher dura.</p><p>Para completar, os Aiel observavam todo mundo com a mesma aten��o � exceto as S�bias, claro. E Berelain, por algum motivo misterioso. Os Aiel sempre pareciam desconfiados dos aguacentos, mas tratavam a Primeira de Mayene como se fosse s� mais uma das S�bias.</p><p>� � uma honra receber voc�s todos. � Rand torceu para n�o ter soado seco demais.</p><p>Mais um carnaval de nobres. Ele se perguntou onde estaria Egwene. Decerto esparramada na cama. Considerou ir atr�s dela por um instante, com uma �ltima tentativa de� n�o, se Egwene n�o queria falar, n�o sabia como convenc�-la. Quando ele mais precisava, ser <emphasis>ta�veren</emphasis> n�o adiantava de nada.</p><p>� Infelizmente, n�o posso dedicar mais tempo a voc�s, nesta manh�. Vou voltar para Caemlyn.</p><p>Era com Andor que precisava lidar no momento. Andor e Sammael.</p><p>� Suas ordens ser�o levadas a cabo, milorde Drag�o � anunciou Berelain. � Esta manh�, para que o senhor possa testemunh�-las.</p><p>� Minhas ordens?</p><p>� Mangin � explicou ela. � Ele foi avisado hoje de manh�.</p><p>A maioria das S�bias parecia impass�vel, mas tanto Bair quanto Sorilea n�o escondiam a desaprova��o � que, por mais surpreendente que parecesse, era dirigida a Berelain.</p><p>� N�o pretendo testemunhar o enforcamento de cada assassino � respondeu Rand, com frieza.</p><p>A verdade � que se esquecera � ou melhor, apagara da mente. N�o era o tipo de coisa que um homem gostaria de ficar lembrando, ter mandado enforcar algu�m de quem gostava. Rhuarc e os outros chefes de cl� sequer haviam mencionado o fato, em sua conversa com ele. E outra verdade era que n�o queria que essa execu��o fosse um evento especial. Os Aiel tinham que seguir a lei, como todos os outros. Cairhienos e tairenos precisavam presenciar aquilo e saber que, se Rand n�o tratava os Aiel com favoritismo, tamb�m n�o faria o mesmo com eles. <emphasis>Use tudo e todos</emphasis>, pensou, enojado � ou ao menos torcia para que o pensamento tivesse mesmo vindo dele. Al�m do mais, n�o queria assistir a enforcamento nenhum, muito menos o de Mangin.</p><p>Meilan parecia pensativo, e Aracome estava com a testa coberta de got�culas de suor, mas talvez fosse apenas o calor. Colavaere, p�lida, parecia estar vendo Rand pela primeira vez na vida. Berelain trocou olhares pesarosos com Bair e Sorilea, que assentiu � ser� que as duas j� tinham avisado a Primeira de Mayene de que essa seria sua resposta? N�o parecia muito poss�vel. Os outros rostos variavam da surpresa � satisfa��o, mas o de Selande chamou sua aten��o. A jovem, de olhos arregalados, parecia ter se esquecido das Donzelas. E, se antes daquele pronunciamento ela j� olhava Rand com medo, agora parecia decididamente apavorada. Bem, que fazer?</p><p>� Vou para Caemlyn imediatamente � anunciou.</p><p>Um burburinho irrompeu entre os grupos de cairhienos e tairenos, e Rand notou que muitas das exclama��es mais pareciam suspiros de al�vio.</p><p>N�o se surpreendeu ao ver que todos o acompanharam at� os aposentos reservados para suas Viagens. As Donzelas e os Escudos Vermelhos impediram a passagem de todos os aguacentos, exceto Berelain. Os Aiel n�o gostavam da aproxima��o dos cairhienos em particular, mas Rand ficara muito satisfeito por eles tamb�m terem barrado os tairenos, daquela vez. Muitos nobres olharam feio para ele, mas ningu�m protestou � ao menos n�o que ele tenha ouvido. Nem mesmo Berelain, que seguiu logo atr�s de sua escolta, junto com as S�bias e Aviendha, todas conversando baixinho e vez ou outra soltando uma risadinha. Berelain e Aviendha de conversinha? E rindo? Aquilo lhe deu arrepios.</p><p>Quando parou diante da porta com entalhes quadrados e retos que dava para o aposento reservado para suas Viagens, Rand olhou, hesitante, para o topo da cabe�a de Berelain, que se curvava em uma mesura.</p><p>� Manterei Cairhien justa e igualit�ria, sem ceder ao medo ou a favores, at� seu retorno, milorde Drag�o.</p><p>Talvez, mesmo com a execu��o de Mangin, ela de fato tivesse ido v�-lo apenas para dizer isso � e ser ouvida pelos outros nobres. A frase, por alguma raz�o, arrancou um sorriso indulgente de Sorilea. Rand precisava descobrir o que estava acontecendo ali: n�o permitiria que as S�bias se metessem entre Berelain e ele. As outras S�bias tinham puxado Aviendha para um canto e estavam se revezando para falar com ela. Rand n�o conseguia distinguir as palavras, mas fosse o que fosse, pareciam falar com muita firmeza.</p><p>� Quando vir Perrin Aybara � acrescentou Berelain �, por favor mande minhas lembran�as e meu afeto. E Mat Cauthon tamb�m.</p><p>� Aguardaremos ansiosos o retorno do Lorde Drag�o � mentiu Colavaere, mantendo a express�o cuidadosamente neutra.</p><p>Meilan olhou feio para ela, irritado pelo fato de a mulher ter conseguido falar primeiro, e fez um discurso floreado, repetindo o que Colavaere j� dissera com outras palavras. Claro que Maringil tentou superar suas palavras, pelo menos nos floreios. Fionnda e Anaiyella ainda tentaram sobrepujar os outros dois, acrescentando tantos elogios que Rand come�ou a olhar irritado para Aviendha, ainda ocupada com as S�bias. Dobraine contentou-se em soltar um �At� seu retorno, milorde Drag�o�, enquanto Maraconn, Gueyam e Aracome soltaram murm�rios indistintos, os olhos cautelosos.</p><p>Foi um al�vio poder finalmente entrar na c�mara e ir para longe deles. S� ficou surpreso quando viu que Melaine tamb�m o seguia, � frente de Aviendha. Ele ergueu uma das sobrancelhas, confuso.</p><p>� Preciso consultar Bael sobre uns assuntos das S�bias � explicou, muito s�ria, cravando os olhos em Aviendha.</p><p>A ruiva assumira uma express�o t�o inocente que s� podia estar escondendo alguma coisa. Aviendha sempre parecia encarar muitas coisas estranhas com naturalidade, mas nunca exibia um olhar inocente � ao menos n�o t�o inocente.</p><p>� Como quiser � respondeu ele.</p><p>Suspeitava de que as S�bias estivessem apenas esperando uma chance de enviar a mulher para Caemlyn. Quem melhor para garantir que Bael n�o sofresse influ�ncias erradas de Rand do que sua pr�pria esposa? Assim como Rhuarc, Bael tinha duas esposas � o que Mat sempre dissera n�o saber muito bem se era um sonho ou um pesadelo.</p><p>Aviendha ficou olhando com aten��o enquanto ele abria o port�o de volta para Caemlyn, bem dentro do Grande Sal�o. Ela sempre ficava muito atenta, mesmo sendo incapaz de ver os fluxos e as tramas. Ela pr�pria j� abrira um port�o, mas fora em um instante de p�nico, e ela n�o conseguia se lembrar de como fizera. Naquele dia, por alguma raz�o, o feixe de luz girat�rio a fez lembrar o que acontecera na ocasi�o: as bochechas bronzeadas coraram, e ela pareceu se recusar a olhar na sua dire��o. Tomado pelo Poder, Rand sentiu seu cheiro � o perfume herb�ceo do sab�o, um toque de um cheiro doce que ele n�o se lembrava de ter sentido antes. Foi a primeira vez que se sentiu �vido para se livrar de <emphasis>saidin</emphasis>, e foi o primeiro a adentrar o sal�o do trono vazio. Alanna pareceu desabar sobre ele, uma presen�a t�o palp�vel como se estivesse diante dele. Reparou que a Verde tinha chorado. Seria porque ele tinha ido embora? Bem, que chorasse. Tinha que encontrar um jeito de se livrar dela.</p><p>As Donzelas e os Escudos Vermelhos n�o ficaram muito felizes por Rand ter ido na frente, naturalmente. Urien apenas grunhiu e balan�ou a cabe�a em desaprova��o. J� Sulin ficou muito p�lida e ergueu-se nas pontas dos p�s para encarar Rand nos olhos.</p><p>� O grande e poderoso <emphasis>Car�a�carn</emphasis> entregou sua honra para as <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> carregarem � praticamente sibilou a mulher, em um sussurro baixo. � Se o poderoso <emphasis>Car�a�carn</emphasis> morrer em uma emboscada enquanto estiver sob a prote��o das Donzelas, n�o restar� mais honra nenhuma �s <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>. Se o conquistador <emphasis>Car�a�carn</emphasis> n�o se importa com isso, ent�o talvez Enaila tenha raz�o. Talvez o todo-poderoso <emphasis>Car�a�carn</emphasis> n�o passe de um garoto mimado que precisa ser levado pela m�o para n�o acabar caindo de um penhasco porque estava de nariz empinado em vez de olhar por onde anda.</p><p>Rand fechou a cara. Quando estavam a s�s, ele apenas rangia os dentes e ouvia � e no geral ouvia ainda menos! �, em respeito � d�vida que tinha com as Donzelas. Mas nem Enaila nem Somara o repreendiam daquele jeito em p�blico. Melaine sa�ra depressa e j� estava na metade do corredor, erguendo as saias, quase correndo � ao que parecia, ela mal podia esperar para restabelecer a influ�ncia das S�bias com Bael. Rand n�o sabia se Urien tinha ouvido a bronca, mas parecia bem concentrado em guiar seus <emphasis>Aethan Dor</emphasis> velados, que vasculhavam as colunas junto com as Donzelas � coisa que n�o precisavam de orienta��es ou guia para fazer. Aviendha, por sua vez, estava ali, parada, de bra�os cruzados, exibindo um misto de irrita��o e aprova��o, e Rand n�o teve d�vidas de que ela ouvira cada palavra.</p><p>� O dia de ontem correu bem. De agora em diante, acho que dois guardas ser�o mais do que o suficiente � declarou, com a voz firme. Os olhos de Sulin quase saltaram das �rbitas, e ela ficou sem palavras. Bem, depois de tirar poder dela, era melhor devolver um pouco, ou a mulher explodiria feito os fogos de artif�cio de um Iluminador. � Claro que ser� diferente quando eu sair do Pal�cio. Essa guarda que voc� vem me fornecendo ser� boa nessas ocasi�es, mas quando eu estiver aqui, no Pal�cio do Sol ou na Pedra de Tear, dois na escolta j� bastam � concluiu, e deu meia-volta enquanto Sulin ainda abria e fechava a boca, sem resposta.</p><p>Aviendha foi para o seu lado enquanto ele circundava o tablado dos tronos rumo �s portinhas nos fundos. Tinha ido para l�, em vez de seguir direto para seus aposentos, na esperan�a de despist�-la. Mesmo sem <emphasis>saidin</emphasis>, sentia o cheiro dela � ou talvez fosse apenas a mem�ria do cheiro. De todo modo, desejou estar com o nariz entupido e resfriado. Aquele perfume era bom demais.</p><p>Apertando o xale em volta do corpo, Aviendha mantinha o olhar fixo � frente, parecendo preocupada, e passou sem nem perceber quando Rand segurou a porta para um dos quartos de vestir com paredes cobertas de pain�is com entalhes de le�es � coisa que em geral despertava certa ira nela, no m�nimo uma pergunta irritada sobre qual dos bra�os dela parecia quebrado. Quando Rand perguntou qual era o problema, a jovem levou um susto.</p><p>� Nada. Sulin estava certa. Mas� � Ela de repente abriu um sorriso enorme, mas meio relutante. � Voc� viu a cara dela? Sulin n�o ouve uma resposta dessas� desde nunca, eu acho. Nem Rhuarc fala assim com ela.</p><p>� Estou surpreso com esse seu apoio.</p><p>Aviendha o encarou com aqueles olhos enormes. Rand poderia passar o dia inteiro tentando decidir se eram mais azuis ou mais verdes� N�o. N�o tinha o direito de pensar nos olhos dela. N�o importava o que havia acontecido logo depois de ela abrir aquele port�o � para <emphasis>fugir dele</emphasis>, ali�s. E tamb�m, principalmente, n�o tinha o direito de pensar no que acontecera entre os dois naquele dia.</p><p>� Ah, Rand al�Thor, voc� s� me perturba � comentou ela, sem um pingo de irrita��o. � Luz, �s vezes acho que o Criador fez voc� s� para me causar problemas.</p><p>Rand quis retrucar, dizer que aquilo era apenas culpa dela pr�pria. Mais de uma vez se oferecera para lev�-la de volta para as S�bias, mesmo que na pr�tica isso s� servisse para faz�-las mandarem outra espi� em seu lugar. Mas, antes que ele pudesse abrir a boca, Jalani e Liah chegaram, seguidas de perto por dois Escudos Vermelhos � um deles era um sujeito grisalho, ostentando no rosto quase o triplo das cicatrizes na face de Liah. Rand mandou Jalani e o homem das cicatrizes de volta ao sal�o do trono, o que quase desencadeou uma briga � n�o da parte do Escudo Vermelho, claro: o homem apenas olhou para seu companheiro, deu de ombros e saiu. Jalani, no entanto, se empertigou.</p><p>Rand apontou para a porta que levava ao Grande Sal�o.</p><p>� O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> espera que as <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> sigam para onde ele ordenar.</p><p>� Voc� pode ser um rei dos aguacentos, Rand al�Thor, mas n�o � rei dos Aiel. � A irrita��o evidente na voz de Jalani acabou com seu ar de dignidade, o que fez Rand notar como ela era jovem. � As Donzelas nunca v�o desapont�-lo na dan�a das lan�as, mas isto aqui n�o � a dan�a.</p><p>Mesmo tendo respondido, ela se retirou, parando apenas para trocar breves gestos com Liah, naquela l�ngua de sinais das Donzelas.</p><p>Com Liah e o outro Escudo Vermelho, um homem louro e esguio chamado Cassin, quase uma boa polegada mais alto que ele, Rand atravessou o pal�cio depressa at� seus aposentos. Com Aviendha, claro. Se achava que aquelas saias pesadas a deixariam para tr�s, estava muit�ssimo enganado. Liah e Cassin montaram guarda no corredor, do lado de fora da enorme antessala, mas Aviendha entrou atr�s dele. O c�modo tinha um friso de m�rmore com entalhes de le�es, logo abaixo do teto alto, e as paredes eram cobertas de tape�arias com desenhos de cenas de ca�a e montanhas enevoadas.</p><p>� Voc� n�o deveria estar com Melaine? Para cuidar desses assuntos das S�bias e tudo o mais?</p><p>� N�o � retrucou ela, sem rodeios. � Melaine n�o ficaria muito feliz com minha interfer�ncia, n�o agora.</p><p>Luz, mas <emphasis>ele</emphasis> n�o ficaria feliz se ela n�o fosse logo embora. Rand largou o Cetro do Drag�o sobre uma mesa com p�s cobertos de entalhes dourados de vinhas, desafivelou o cintur�o da espada e perguntou:</p><p>� Amys e as outras lhe contaram onde Elayne est�?</p><p>Aviendha ficou um bom tempo ali, parada, no meio do piso de azulejos azuis, encarando-o com uma express�o indecifr�vel.</p><p>� Elas n�o sabem � disse, por fim. � Eu perguntei.</p><p>Rand tinha imaginado que ela perguntaria. J� fazia meses que Aviendha parara de falar em Elayne, mas, antes de ir a Caemlyn com ele pela primeira vez, uma em cada duas palavras que sa�am de sua boca eram para lembr�-lo de que ele pertencia a Elayne � segundo a pr�pria Aviendha, pelo menos, e ela j� deixara bem claro que o que acontecera entre os dois do outro lado daquele port�o n�o mudava em nada esse fato. Outra coisa que ficara bem clara � que aquilo decididamente n�o aconteceria de novo. Rand concordava com ela, e era pior que um porco pela ponta de arrependimento misturada � concord�ncia. Ignorando todas as elegantes poltronas douradas, Aviendha se acomodou no ch�o, de pernas cruzadas, e ajeitou as saias graciosamente.</p><p>� Mas falaram de voc� � comentou.</p><p>� Ah, por essa eu n�o esperava � retrucou ele, ir�nico.</p><p>Para sua surpresa, Aviendha enrubesceu. Ela n�o era mulher de corar, e j� era a segunda vez no mesmo dia.</p><p>� As S�bias contaram os sonhos que tiveram, e alguns lhe dizem respeito. � A voz dela come�ou a sair um pouco falha, at� que Aviendha fez uma pausa para pigarrear, ent�o o encarou com um olhar firme e determinado. � Melaine e Bair sonharam que voc� estava em um barco � contou, proferindo a palavra com estranheza, mesmo depois de tantos meses em terras aguacentas �, junto com tr�s mulheres cujos rostos elas n�o conseguiram distinguir. E uma balan�a que pendia primeiro para um lado, depois para o outro. Melaine e Amys sonharam com um homem ao seu lado, encostando uma adaga em seu pesco�o, mas sem voc� ver. Bair e Amys sonharam com voc� dividindo as terras aguacentas ao meio com uma espada.</p><p>Aviendha olhou de relance, os olhos cheios de desprezo, para a espada embainhada largada sobre o Cetro do Drag�o. Desprezo, sim, muito, mas tamb�m um pouco de culpa. Ela lhe dera aquela espada, que j� fora do Rei Laman. O presente viera cuidadosamente embrulhado em um cobertor, para que ela n�o tocasse na arma diretamente.</p><p>� Elas n�o conseguem interpretar os sonhos, mas acharam que voc� deveria saber � concluiu ela.</p><p>O primeiro era t�o obscuro para ele quanto era para as S�bias, mas o segundo parecia �bvio: um homem que ele n�o podia ver atacando-o com uma adaga s� podia ser um Homem Cinza. Eram almas entregues � Sombra � n�o apenas juradas, mas completamente entregues �, e podiam passar despercebidos mesmo quando encarados diretamente. Seu �nico prop�sito era matar. Como as S�bias n�o tinham conseguido entender uma mensagem t�o clara? O �ltimo sonho tamb�m era bem claro, para sua infelicidade. E ele <emphasis>j� estava</emphasis> dividindo as terras aguacentas: Tarabon e Arad Doman estavam em ru�nas; as rebeli�es em Tear e Cairhien a qualquer momento podiam deixar de ser apenas boatos; e Illian decerto logo sentiria o peso de sua espada. Isso sem falar no Profeta, espalhando os Devotos do Drag�o por Altara e Murandy.</p><p>� N�o vejo muito mist�rio em dois desses sonhos, Aviendha.</p><p>Ainda assim, a jovem apenas o encarou, descrente, enquanto ele explicava suas interpreta��es. Claro. Para Aviendha, se as S�bias Andarilhas dos Sonhos n�o conseguiam interpretar um sonho, ent�o ningu�m mais conseguiria. Rand soltou um grunhido frustrado e desabou em uma poltrona de frente para ela, perguntando:</p><p>� O que mais elas sonharam?</p><p>� Tem um outro sonho que eu posso contar, mas talvez n�o tenha muita rela��o com voc�. � O que significava que havia sonhos que ela n�o podia contar. Rand se perguntou por que as S�bias tinham discutido aqueles sonhos com ela. Aviendha n�o era Andarilha dos Sonhos. � As tr�s tiveram o mesmo sonho, o que s� torna seu significado mais especial. Elas sonharam com chuva � a palavra saiu com o mesmo estranhamento que �barco�, mais cedo. � Chuva saindo de uma tigela. E, em volta dela, h� armadilhas e arapucas. Se for encontrada pelas pessoas certas, a tigela trar� um tesouro que pode ser at� mais impressionante do que ela pr�pria. Mas, se cair nas m�os erradas, o mundo estar� condenado. A chave para encontrar essa tigela � encontrar aquele que j� n�o �.</p><p>� J� n�o � o qu�? � Isso sem d�vida parecia o detalhe mais relevante. � � algu�m que j� morreu?</p><p>Os cabelos ruivos de Aviendha se balan�aram sobre os ombros quando ela negou com a cabe�a.</p><p>� Elas n�o sabem mais do que o que eu lhe disse.</p><p>Aviendha se levantou, para surpresa de Rand, ajeitando a roupa com aqueles movimentos mec�nicos t�picos das mulheres.</p><p>� Voc� � Ele for�ou uma tosse, cortando a frase no meio. <emphasis>Voc� tem mesmo que ir?</emphasis>, era o que estava prestes a perguntar.</p><p>Luz, queria que ela fosse. Cada minuto perto dela era uma tortura. Bem, poderia fazer o que era certo e bom para ele � e ainda melhor para ela.</p><p>� Voc� quer voltar para as S�bias, Aviendha? Retomar os estudos? N�o tem muito por que voc� ficar mais tempo aqui comigo. J� aprendi tanto com voc� que � como se tivesse sido criado pelos Aiel.</p><p>Ela fungou, o que j� era resposta suficiente, mas claro que n�o se conteve e respondeu:</p><p>� Voc� sabe menos que um garoto de seis anos. Por que um homem ouve a m�e-segunda antes da pr�pria m�e, enquanto uma mulher ouve seu pai-segundo antes do pr�prio pai? Em que situa��o uma mulher pode se casar sem fazer a coroa nupcial? E quando uma senhora do teto precisa obedecer a um ferreiro? Se tiver uma <emphasis>gai�shain</emphasis> que fa�a prata, por que precisa permitir que ela trabalhe um dia para si mesma para cada dia que trabalhar para voc�? E por que o mesmo n�o se aplica a uma tecel�? � Rand pensou, buscando as respostas a fundo, para n�o precisar admitir que n�o sabia. Mas Aviendha remexeu o xale, como se tivesse esquecido que ele estava ali. � �s vezes o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> rende �timas piadas. Eu riria at� morrer, se essa n�o fosse comigo. � Ela baixou a voz a um sussurro. � Vou ao encontro da minha <emphasis>toh</emphasis>.</p><p>Rand achou que a ruiva estivesse falando sozinha, mas respondeu mesmo assim. Com toda a delicadeza.</p><p>� Se voc� est� falando de Lanfear, n�o fui eu que a salvei. Foi Moiraine. Ela morreu salvando todos n�s.</p><p>A espada de Laman livrara Aviendha de sua �nica <emphasis>toh </emphasis>para com Rand, embora ele jamais tivesse compreendido qual era. Pelo menos da �nica obriga��o que Aviendha sabia. Rezava para que ela jamais descobrisse a outra � Aviendha decerto acharia que tinha alguma d�vida com ele, mesmo que Rand n�o enxergasse a quest�o dessa maneira.</p><p>Inclinando a cabe�a e abrindo um sorrisinho, Aviendha olhou fundo nos olhos dele. A ruiva recobrara o autocontrole em um n�vel que deixaria Sorilea orgulhosa.</p><p>� Obrigada, Rand al�Thor. Bair sempre diz que de vez em quando � bom ser lembrada de que um homem n�o sabe tudo. N�o se esque�a de me avisar quando pretende dormir. N�o quero chegar muito tarde e acord�-lo.</p><p>Rand permaneceu parado, encarando a porta mesmo depois que ela saiu. Era mais f�cil entender um cairhieno no Jogo das Casas do que uma mulher que n�o estava fazendo o menor esfor�o para ser enigm�tica. E suspeitava de que seus sentimentos por Aviendha, fossem l� quais fossem, complicavam ainda mais as coisas.</p><p><emphasis>O que eu amo, eu destruo</emphasis>, comentou Lews Therin, com uma risada. <emphasis>O que eu destruo, eu amo.</emphasis></p><p><emphasis>Cale a boca!</emphasis>, pensou Rand, furioso, e a gargalhada insana morreu. N�o sabia quem amava, mas sabia quem salvaria. De todas as amea�as, mas sobretudo de si mesmo.</p><empty-line/><p>Quando saiu para o corredor, Aviendha se encostou na porta, respirando fundo para se acalmar. Ou pelo menos para tentar se acalmar. O cora��o ainda tentava rasgar o peito e sair. Estar perto de Rand al�Thor do�a como estar nua sobre uma cama de brasas, do�a quase a ponto de lhe quebrar todos os ossos. Rand a fazia sentir uma vergonha que ela jamais pensou que sentiria. Era mesmo uma grande piada, como dissera, e parte dela queria mesmo rir. Tinha <emphasis>toh</emphasis> para com Rand, por�m tinha muito mais para com Elayne. Rand apenas salvara sua vida � Lanfear a teria matado, n�o fosse por ele. E Lanfear queria mesmo matar Aviendha em especial, causando a maior dor poss�vel. Lanfear sabia, de algum jeito. Mas, em compara��o ao que incorrera com Elayne, sua <emphasis>toh</emphasis> para com Rand era um cupinzeiro aos p�s da Espinha do Mundo.</p><p>Cassin simplesmente olhou para ela. O corte do casaco que o sujeito usava informava que era Goshien, al�m de <emphasis>Aethan Dor</emphasis>, mas Aviendha<emphasis> n�o reconhecia o </emphasis>ramo. Ele continuou acocorado, as lan�as apoiadas nos joelhos. O homem n�o sabia de nada, claro. Mas Liah abriu um sorriso encorajador demais para uma mulher que n�o conhecia, e astuto demais para algu�m que n�o soubesse. Aviendha ficou chocada em perceber que estava pensando em como os Chareen � como indicava o casaco de Liah � tinham fama de dissimulados. Nunca pensara em qualquer Donzela como algo al�m de <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>. Rand al�Thor esgotara seu c�rebro.</p><p>Mas ainda assim mexeu os dedos, irritada. <emphasis>Por que est� sorrindo, garota? N�o tem nada melhor para fazer?</emphasis></p><p>Liah ergueu as sobrancelhas de leve, e o sorriso n�o diminuiu, apenas assumiu um ar divertido. Ela gesticulou em resposta. <emphasis>Quem voc� est� chamando de garota, garota? Voc� ainda n�o � S�bia, mas n�o � mais Donzela. Acho que vai acabar tran�ando a alma em uma coroa e a deitando aos p�s de um homem.</emphasis></p><p>Aviendha deu um passo � frente, furiosa. Poucos insultos eram piores que aquele, para as <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>. Mas ent�o se conteve. Se estivesse de <emphasis>cadin�sor</emphasis> achava que Liah n�o seria p�reo para ela, mas, naquelas saias, seria derrotada. E pior: Liah decerto se recusaria a fazer dela <emphasis>gai�shain</emphasis> � e poderia muito bem faz�-lo, j� que teria sido atacada por uma mulher que n�o era Donzela, mas ainda n�o era S�bia �, ou ent�o acabaria exigindo o direito de surrar Aviendha diante de todos os Taardad que pudessem reunir � o que seria vergonha menor que a recusa, claro, mas ainda assim uma vergonha consider�vel. E pior de tudo: mesmo que Aviendha ganhasse, Melaine decerto escolheria uma puni��o para faz�-la lembrar que deixara a lan�a para tr�s, e ela acabaria desejando dez surras de Liah diante de todos os cl�s. Nas m�os de uma S�bia, a vergonha era mais cortante que uma faca afiada. Liah n�o moveu um m�sculo sequer. Ela sabia de tudo isso t�o bem quanto Aviendha.</p><p>� E agora voc�s ficam se encarando� � comentou Cassin. � Um dia tenho que aprender essa sua l�ngua de sinais.</p><p>Liah olhou de esguelha para ele, soltando uma risada animada.</p><p>� Voc� vai ficar bonito de saias, Escudo Vermelho, vou gostar de ver quando vier pedir para se tornar Donzela.</p><p>Aviendha soltou um suspiro de al�vio quando Liah desviou os olhos dela. Naquelas circunst�ncias, n�o teria podido desviar o olhar primeiro e ainda manter a honra. Sem nem pensar, fez com os dedos o sinal de agradecimento � o primeiro gesto da l�ngua de sinais que uma Donzela aprendia, posto que era a frase que uma nova Donzela mais usava: <emphasis>Tenho</emphasis> toh<emphasis>.</emphasis></p><p>Liah respondeu sem nem hesitar. <emphasis>Muito pequena, irm�-de-lan�a.</emphasis></p><p>Aviendha sorriu agradecida quando Liah n�o acrescentou o dedinho em gancho que teria transformado o termo em zombaria, o que era sempre utilizado com mulheres que tinham abandonado a lan�a, mas ainda tentavam se comportar como se n�o tivessem.</p><p>Um servi�al aguacento vinha apressado pelo corredor. Mantendo oculto o desgosto que sentia por quem passava a vida servindo aos outros, Aviendha foi para o lado oposto, querendo evitar passar pelo sujeito. Matar Rand al�Thor satisfaria uma <emphasis>toh</emphasis>, enquanto matar a si mesma satisfaria a segunda, mas cada <emphasis>toh</emphasis> impedia uma dessas solu��es. N�o importava o que as S�bias dissessem, teria quer dar um jeito de pagar aquelas duas d�vidas.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 20</p><p><image l:href="#7"/></p><p>Visitas do <emphasis>pouso</emphasis></p></title><p>Rand tinha apenas come�ado a enfiar o tabaco de Dois Rios no cachimbo curto quando a cabe�a de Liah apareceu pela porta entreaberta. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, um criado de rosto redondo, usando um uniforme vermelho e branco, empurrou-a para abrir caminho e entrou, muito ofegante, desabando de joelhos diante de Rand. A Aiel encarava o sujeito, estupefata.</p><p>� Milorde Drag�o � ganiu o criado, ainda sem ar �, os Ogier acabaram de chegar ao Pal�cio. <emphasis>Tr�s</emphasis> deles! Servimos vinho e oferecemos um pouco mais, mas eles insistem que s� querem ver o Lorde Drag�o.</p><p>Rand manteve a voz calma, sem querer assustar o sujeito.</p><p>� H� quanto tempo voc� trabalha no Pal�cio�? � Al�m de usar o casaco do uniforme do tamanho certo, o sujeito n�o era jovem. � Acho que ainda n�o sei seu nome.</p><p>O criado ajoelhado arregalou os olhos.</p><p>� Meu nome? � Bari, milorde Drag�o. Ʌ trabalho aqui h� Milorde, far� vinte e dois anos na Noite Invernal. Milorde Drag�o, e o Ogier?</p><p>Rand j� fora duas vezes a um <emphasis>pouso</emphasis> Ogier, mas n�o sabia a etiqueta apropriada para receb�-los como convidados. Os Ogier tinham constru�do quase todas as grandes cidades, pelo menos as partes mais antigas, e de vez em quando ainda sa�am dos <emphasis>pousos</emphasis> para realizar alguns reparos, mas ele duvidava de que um criado como Bari fosse ficar t�o ansioso por qualquer visita menos importante que um rei ou uma Aes Sedai � ou talvez nem isso. Ele guardou o cachimbo e a bolsa de tabaco de volta no bolso.</p><p>� Ent�o me leve at� eles.</p><p>Bari se levantou de p� em um salto, quase dando pulinhos de ansiedade. Rand suspeitou de que tivesse tomado a decis�o certa: o homem n�o demonstrou muita surpresa em ver o Lorde Drag�o ir at� os Ogier, em vez de mandar que viessem ao seu encontro. Ele deixou a espada e o cetro para tr�s � nada daquilo impressionaria os Ogier. Liah e Cassin o acompanharam, naturalmente, e pelo jeito Bari decerto teria ido correndo at� os visitantes se n�o tivesse que ajustar o passo ao ritmo menos afoito de Rand.</p><p>Os Ogier aguardavam em um p�tio, ao largo de uma fonte cheia de vit�rias-r�gias, com peixes vermelhos e dourados nadando na base. Eram tr�s: um homem de cabelos brancos usando um casaco comprido e aberto com botas altas de cano dobrado e duas mulheres, uma notavelmente mais jovem que a outra, ambas com saias cheias de bordados de vinhas e folhas, embora os bordados das roupas da Ogier mais velha fossem consideravelmente mais elaborados do que os da mais jovem. Os c�lices de ouro, feitos para humanos, pareciam min�sculos em suas m�os enormes. Muitas das �rvores ali no p�tio ainda conservavam algumas de suas folhas, e o pr�prio Pal�cio tamb�m fornecia alguma sombra. Os Ogier n�o estavam sozinhos. Quando Rand chegou, viu Sulin e quase trinta Donzelas � volta deles, al�m de Urien, junto de cinquenta ou mais de seus homens. Os Aiel tiveram a delicadeza de fazer sil�ncio ao avistarem Rand.</p><p>� Seu nome � m�sica para meus ouvidos, Rand al�Thor � disse o Ogier, a voz retumbante feito um trov�o, ent�o fez as apresenta��es.</p><p>Ele era Haman, filho de Dal, filho de Morel. A mais velha era Covril, filha de Ella, filha de Soong; e a mais nova era Erith, filha de Iva, filha de Alar. Rand se lembrava de ter visto Erith quando foi ao Pouso Tsofu, a dois dias de cavalgada intensa de Cairhien. N�o tinha a menor ideia do que ela estava fazendo ali em Caemlyn.</p><p>Os Ogier faziam os Aiel parecerem pequenos; faziam at� o p�tio parecer pequeno. Haman tinha uma vez e meia a altura de Rand e a mesma propor��o em largura, Covril era menos de uma cabe�a � uma cabe�a Ogier � mais baixa que seu companheiro. At� mesmo Erith era quase um p� e meio mais alta que Rand. Ainda assim, essa era a menor das diferen�as entre os Ogier e os humanos � volta. Haman tinha olhos imensos e redondos feito x�caras de ch�, um nariz largo que ocupava quase o rosto inteiro, e orelhas pontudas, cheias de tufos de pelos brancos e despontando no topo da cabe�a, por entre os cabelos grisalhos. Ele usava um comprido bigode branco, e uma barba estreita brotava do queixo. As sobrancelhas chegavam at� as bochechas. Rand n�o sabia dizer exatamente o que distinguia o rosto masculino dele das fei��es de Erith e de Covril � exceto pela barba e pelo bigode, claro, al�m de as sobrancelhas delas serem menores e menos espessas �, mas os rostos delas pareciam mais delicados. Mesmo que Covril tivesse uma express�o bastante r�gida � a Ogier mais velha lhe parecia familiar, n�o sabia por qu� � e Erith parecesse preocupada, com as orelhas ca�das.</p><p>� Pe�o licen�a um instante � come�ou Rand, mas Sulin n�o permitiu que ele dissesse outra palavra.</p><p>� Viemos falar com os Irm�os das �rvores, Rand al�Thor � declarou ela, com firmeza. � Voc� sabe que os Aiel s�o velhos amigos de �gua dos Irm�os da �rvore. Vamos com frequ�ncia ao <emphasis>pouso</emphasis> deles para fazer neg�cios.</p><p>� Isso � mesmo verdade � murmurou Haman. Ou melhor, murmurou para os padr�es de um Ogier, mas que poderia muito bem ter causado uma avalanche nas montanhas ao longe.</p><p>� E n�o tenho d�vidas de que os outros vieram mesmo falar com eles � retrucou Rand. S� de olhar, conseguia identificar cada um dos integrantes de sua guarda entre a multid�o de Aiel. O rosto de Jalani ficou escarlate. Por outro lado, n�o se viam Escudos Vermelhos ali, al�m de Urien e mais de tr�s ou quatro homens espalhados pela multid�o. � N�o gostaria de ter que pedir a Enaila e a Somara que cuidem de <emphasis>voc�</emphasis>. � A indigna��o tomou o rosto bronzeado de Sulin, destacando ainda mais a cicatriz que ela conseguira por ter seguido Rand. � Vou conversar com eles sozinho. <emphasis>Sozinho</emphasis> � enfatizou, encarando Liah e Cassin. � A n�o ser que voc�s achem que preciso de prote��o contra esses Ogier.</p><p>A �ltima frase apenas aumentou a irrita��o de Sulin, e ela reuniu as Donzelas com gestos r�pidos na linguagem de sinais � o que, para qualquer um que n�o fosse Aiel, teria parecido um ataque de raiva. Alguns dos homens entre a multid�o de Aiel deram risadinhas ao v�-las sa�rem, e Rand sup�s que tivesse feito alguma piada sem querer.</p><p>Enquanto as Donzelas sa�am, Haman afagou a longa barba.</p><p>� Nem sempre os humanos nos consideraram t�o confi�veis, sabe. N�o, n�o. � O murm�rio dele soava como uma imensa colmeia de abelhas. � Est� nos registros antigos. Muito antigos. Apenas fragmentos, na verdade, mas datados de logo depois da�</p><p>� Anci�o Haman � interrompeu Covril, com muita educa��o �, talvez seja melhor nos atermos ao assunto em quest�o? � A colmeia dela ressoava em um tom um pouco mais agudo.</p><p>Anci�o Haman. Onde Rand ouvira aquele nome, antes? Cada <emphasis>pouso</emphasis> tinha seu pr�prio Conselho de Anci�es.</p><p>Haman suspirou profundamente.</p><p>� Muito bem, Covril, mas essa sua pressa � um tanto inquietante. Voc� mal nos deu tempo de nos lavarmos, depois que chegamos. Voc� come�ou a cabriolar feito um� � Seus olhos enormes se voltaram para Rand, e ele disfar�ou a frase com uma tossidela, cobrindo a boca com a m�o enorme, do tamanho de um pernil.</p><p>Os Ogier consideravam os humanos muito apressados, sempre tentando fazer agora o que n�o teria a menor import�ncia at� o dia seguinte. Ou at� o ano seguinte, j� que os Ogier viam tudo a longo prazo. Tamb�m consideravam afrontoso lembrar aos humanos de quanto eles �cabriolavam�.</p><p>� Tivemos uma viagem bastante �rdua aqui Fora � prosseguiu Haman, para Rand. � Nosso tempo aqui n�o ficou menos dif�cil quando soubemos que os Aiel Shaido tinham sitiado Al�cair�rahienallen, o que foi mesmo extraordin�rio. Considerando isso, assim como o fato de que voc� de fato estava l�, mas foi embora antes que pud�ssemos nos apresentar, e� n�o consigo deixar de pensar que fomos muito impetuosos. N�o. N�o, fale voc�, Covril. Foi por voc� que larguei meus estudos e ensinamentos para percorrer o mundo. A essa altura, minhas turmas j� devem estar armando uma revolu��o. � Rand quase abriu um sorriso. Se seguissem os costumes Ogier, as turmas de Haman levariam mais de meio ano para concluir que ele de fato partira, depois passariam mais um ano inteiro debatendo como proceder a respeito.</p><p>� Voc� n�o pode culpar uma m�e por se preocupar � retrucou Covril, as orelhas peludas tremelicando. Ela parecia em conflito entre o respeito que devia demonstrar a um Anci�o e a impaci�ncia, pouco adequada aos modos Ogier. Ela se virou para Rand, empertigando-se, as orelhas bem erguidas e o queixo firme. � O que voc� fez com o meu filho?</p><p>Rand ficou boquiaberto.</p><p>� Filho?</p><p>� Loial! � Covril o encarou como se ele estivesse louco. Erith olhava para os dois, ansiosa, as m�os entrela�adas contra o peito. � Voc� disse ao Anci�o dos Anci�es do Pouso Tsofu que cuidaria dele � prosseguiu Covril. � Os Anci�es me contaram. Voc� ainda n�o tinha se proclamado Drag�o, naquela �poca, mas foi voc� mesmo. N�o foi, Erith? Alar n�o disse que foi Rand al�Thor? � Ela n�o deu tempo para a jovem fazer mais do que assentir. Sua voz foi ganhando velocidade, e uma careta de desgosto surgiu no rosto de Haman. � Meu Loial � jovem demais para estar aqui Fora, jovem demais para viajar pelo mundo fazendo as coisas que o senhor com certeza o est� botando para fazer. O Anci�o Alar me falou do senhor. O que � que o meu Loial tem a ver com os Caminhos e os Trollocs e a Trombeta de Valere? O senhor me devolva meu filho agora mesmo, por favor, para que eu possa cas�-lo com Erith, como � o correto. Ela vai p�r um fim nessa vontade de viajar dele.</p><p>� Ele � muito bonito � murmurou Erith, encabulada, as orelhas tremelicando tanto de vergonha que os tufos de pelos escuros viraram um borr�o. � E acho que ele tamb�m � muito corajoso.</p><p>Rand levou um instante para recuperar o equil�brio mental. Um Ogier falando com tamanha firmeza era feito uma montanha desabando. Mas um Ogier falando com aquela firmeza e t�o r�pido�</p><p>Pelos costumes dos Ogier, Loial <emphasis>era mesmo</emphasis> jovem demais para sair do <emphasis>pouso</emphasis> sozinho. Loial tinha pouco mais de noventa anos, mas os Ogier tinham uma vida bastante longa. Desde o dia que em que o conhecera, sempre ansioso para ver o mundo, Loial morria de medo do que aconteceria quando os Anci�es percebessem que ele fugira. E, acima de tudo, morria de medo de que sua m�e partisse para busc�-lo com uma noiva a tiracolo. Ele dizia que o noivo n�o tinha voz nesses assuntos, segundo a cultura Ogier, e que mesmo a noiva s� podia opinar muito pouco � tudo ficava a cargo das duas m�es. N�o era nada imposs�vel que um Ogier se visse comprometido com uma mulher que s� iria conhecer no dia em que a m�e o apresentasse �s futuras noiva e sogra.</p><p>Loial parecia pensar que o casamento seria o fim de tudo para ele � ou pelo menos o fim de seus anseios em ver mais do mundo. Bem, estivesse ele certo ou n�o, Rand n�o podia entregar um amigo de bandeja a seus maiores temores. Estava prestes a dizer que n�o sabia o paradeiro de Loial e sugerir que os tr�s retornassem ao <emphasis>pouso</emphasis> e aguardassem que ele voltasse � chegou at� a abrir a boca para isso �, quando uma d�vida lhe ocorreu. Ficou um pouco constrangido por n�o conseguir se lembrar de algo t�o importante � pelo menos para Loial.</p><p>� H� quanto tempo ele est� longe do <emphasis>pouso</emphasis>?</p><p>� Tempo demais � resmungou Haman, feito pedregulhos rolando montanha abaixo. � O garoto nunca se dedicava. Sempre falando em conhecer o mundo aqui Fora, como se de fato algo fosse diferente do que h� nos livros que ele deveria estar estudando. Hum, hum. Que diferen�a faz se os humanos alteram as linhas de um mapa? A terra continua sendo�</p><p>� Ele est� Fora faz tempo demais � acrescentou a m�e de Loial, com a firmeza de um mour�o fincado em barro seco.</p><p>Haman franziu o cenho para ela, que devolveu um olhar igualmente firme, mesmo com as orelhas vibrando de constrangimento.</p><p>� J-J� faz mais de cinco anos � contou Erith. Suas orelhas murcharam por alguns instantes, depois subiram de volta, resistentes. Em uma imita��o muito boa de Covril, ela completou: � Quero que ele seja meu marido. Soube disso assim que o vi pela primeira vez. N�o vou deixar que ele morra. N�o por conta dessas bobagens que ele faz.</p><p>Rand e Loial tinham conversado sobre muitos assuntos, e um deles fora a Saudade, embora Loial n�o gostasse de falar nisso. A Ruptura do Mundo fez os humanos fugirem para qualquer lugar seguro que encontrassem, e tamb�m fez os Ogier se afastarem dos <emphasis>pousos</emphasis>. Os humanos vagaram durante longos anos, atravessando um mundo que mudava algumas vezes ao longo do dia, e os Ogier tamb�m vagaram, buscando seus <emphasis>pousos</emphasis> perdidos com as mudan�as da terra. Foi quando passaram a sofrer de Saudade. Um Ogier longe do <emphasis>pouso</emphasis> sempre desejava retornar. Um Ogier que ficava longe do <emphasis>pouso</emphasis> por muito tempo <emphasis>precisava</emphasis> retornar. Um Ogier muito tempo longe do <emphasis>pouso</emphasis> acabava morrendo.</p><p>� Ele me contou de um Ogier que ficou longe por mais tempo � respondeu Rand, baixinho. � Dez anos, acho que foi isso.</p><p>Haman j� balan�ava a imensa cabe�a em negativa antes mesmo que Rand conclu�sse o pensamento.</p><p>� Isso n�o importa. Pelo que sei, cinco ficaram Fora por tanto tempo assim e conseguiram voltar vivos, e acho que eu saberia se houvesse outros. Tamanha loucura decerto teria sido registrada nos livros. Tr�s desses Ogier morreram menos de um ano depois de voltarem, e o quarto ficou inv�lido pelo resto da vida. O quinto n�o ficou muito longe disso e passou o resto da vida precisando de uma bengala para caminhar, apesar de n�o ter parado de escrever. Hum, hum. Dalar tinha umas coisas bem interessantes a dizer sobre� � Desta vez, quando Covril abriu a boca para protestar, Haman virou a cabe�a de repente e a encarou, as compridas sobrancelhas curvadas para cima, at� que a mulher come�ou a ajeitar as saias. Por�m mesmo assim Covril sustentou seu olhar. � Cinco anos � pouco tempo, eu sei � continuou Haman, encarando Covril com um olhar de esguelha penetrante �, mas estamos atados ao <emphasis>pouso</emphasis>. N�o ouvimos na cidade nada que indicasse que Loial est� aqui, e, pelo alarido que suscitamos, acho que ter�amos ouvido alguma not�cia da presen�a dele. No entanto, se o senhor nos disser onde ele est�, ser� um bem enorme para ele.</p><p>� Em Dois Rios � respondeu Rand. Salvar a vida de um amigo n�o era trai��o. � Quando o vi pela �ltima vez, Loial estava em boa companhia, rodeado de amigos. Dois Rios � um lugar tranquilo. Seguro. � Ou pelo menos voltara a ser, gra�as a Perrin. � E ele estava bem, uns meses atr�s. � Era o que ouvira de Bo, quando as garotas relataram o que acontecera pelas bandas de casa.</p><p>� Dois Rios � murmurou Haman. � Hum, hum. Pois sim, eu sei onde fica. Mais uma longa caminhada.</p><p>Os Ogier n�o tinham o costume de montar a cavalo. Poucos cavalos eram capazes de sustent�-los, e os Ogier preferiam avan�ar nos pr�prios p�s.</p><p>� Temos que partir imediatamente � declarou Erith, com firmeza, ainda que seu tom fosse menos grave se comparado ao de Haman.</p><p>Covril e Haman a encararam, surpresos, e as orelhas dela desabaram de vez. Afinal, ela era uma mo�a jovem demais na companhia de um Anci�o e de uma mulher que Rand suspeitava de ser de alguma import�ncia entre os seus, pela maneira com que enfrentava Haman. Erith n�o devia ter um dia a mais que oitenta anos.</p><p>Pensando nisso, Rand sorriu. Ela era uma garotinha, l� pelos seus setenta anos.</p><p>� Por favor, aceitem a hospitalidade do Pal�cio. Uns poucos dias de descanso podem at� acelerar sua viagem. E o senhor talvez possa me ajudar, Anci�o Haman. � Naturalmente, Loial estava sempre falando de seu professor, o Anci�o Haman. O Ogier que, segundo Loial, sabia tudo. � Preciso localizar os Portais dos Caminhos. Todos eles.</p><p>Os tr�s Ogier falaram ao mesmo tempo:</p><p>� Portais dos Caminhos? � perguntou Haman, erguendo as orelhas e sobrancelhas ao mesmo tempo. � Os Caminhos s�o muito perigosos. Perigosos demais.</p><p>� Uns poucos dias? � protestou Erith. � Meu Loial pode estar morrendo.</p><p>� Uns poucos dias? � inquiriu Covril, a voz um tom acima da de Erith. � Meu Loial pode estar� � Ela calou a boca e encarou a mais jovem, comprimindo os l�bios e tremelicando as orelhas.</p><p>Haman olhou feio para as duas, afagando a barba estreita, irritado.</p><p>� N�o sei por que me deixei convencer de uma coisa dessas. Eu devia estar dando minhas aulas, me reunindo com o Cepo� Covril, se voc� n�o fosse uma Oradora t�o respeitada�</p><p>� Se voc� n�o fosse casado com a minha irm� � retrucou a mulher, incisiva. � Voniel mandou que voc� cumprisse seu dever, Haman. � As sobrancelhas de Haman baixaram at� que as compridas pontas tocassem as bochechas, e as orelhas de Covril pareceram perder quase toda a rigidez. � Quer dizer, Voniel <emphasis>pediu</emphasis> � corrigiu ela. N�o foi uma corre��o apressada, e ela n�o perdeu a pose, mas definitivamente n�o hesitou em completar: � Pela �rvore e quietude, n�o quis ofend�-lo, Anci�o Haman.</p><p>Haman pigarreou alto � o que, para um Ogier, era muito alto � e virou-se para Rand, puxando o casaco como se o arrumasse.</p><p>� H� Crias da Sombra usando os Caminhos � explicou Rand, antes que Haman pudesse abrir a boca. � Deixei guardas nos poucos que pude. � Incluindo o que ficava logo ao lado do Pouso Tsofu, depois de partirem. Aqueles tr�s n�o poderiam ter vindo a p� desde o Pouso Tsofu depois de sua �ltima visita in�til ao local. � Mas foram poucos. Todos precisam ser vigiados, ou ent�o Myrddraal e Trollocs poder�o surgir do nada e nos pegar desprevenidos. Mas n�o fa�o ideia de onde ficam todos.</p><p>Isso n�o adiantaria de nada para os port�es, naturalmente. �s vezes ele se perguntava por que um dos Abandonados simplesmente n�o abria um port�o para o pal�cio e mandava alguns milhares de Trollocs. Dez mil, talvez vinte. Seria muito dif�cil impedir um ataque dessa magnitude, isso se <emphasis>conseguisse</emphasis> impedir. Seria, na melhor das hip�teses, uma carnificina. Bem, n�o podia fazer nada em rela��o a um port�o, a menos que estivesse nele. Mas podia tomar atitudes para se proteger dos Portais dos Caminhos.</p><p>Haman e Covril se entreolharam. Os dois foram para um canto conversar aos sussurros � incrivelmente, falaram baixo o suficiente para que Rand ouvisse apenas um zunido, como um imenso enxame de abelhas preso no telhado. Estava certo sobre a m�e de Loial ser de alguma import�ncia: uma Oradora, um t�tulo que parecera relevante. Considerou agarrar <emphasis>saidin</emphasis> para poder ouvir a conversa, mas rejeitou a ideia, enojado. Ainda n�o se rebaixara a bisbilhotar. A aten��o de Erith estava dividida entre Rand e seus anci�es, e ela alisou as saias sem perceber que o fazia.</p><p>Rand torceu para que eles n�o decidissem perguntar por que n�o pedira aquilo ao Conselho de Anci�es no Pouso Tsofu. Alar, a Anci� dos Anci�es de l�, fora bastante firme: o Cepo estava se reunindo, e uma coisa t�o estranha � e t�o peculiar, algo que jamais se cogitara fazer � quanto entregar a um humano o controle dos Portais dos Caminhos s� poderia ser feita com o apoio do Cepo. Quem ele era parecia n�o importar � nem para ela e nem para aqueles tr�s ali.</p><p>Haman enfim retornou, franzindo o cenho e agarrando as lapelas do casaco. Covril tamb�m franzia a testa.</p><p>� Isso tudo est� indo r�pido demais, r�pido demais � come�ou Haman, em um tom grave, soando como o rolar de pedregulhos. � Queria poder debater isso com� bem, n�o posso. Crias da Sombra, o senhor disse? Hum, hum. Muito bem, se � preciso ligeireza, ent�o � preciso ligeireza. E que n�o digam que os Ogier n�o sabem agir com rapidez quando � necess�rio. E talvez agora seja necess�rio. O senhor precisa entender que o Conselho de Anci�es de qualquer <emphasis>pouso</emphasis> pode lhe negar isso, e tamb�m o Cepo.</p><p>� Mapas! � gritou Rand, t�o alto que os tr�s Ogier deram um salto. � Preciso de mapas! � Ele deu meia-volta, procurando algum dos servi�ais que pareciam estar sempre por perto, um <emphasis>gai�shain</emphasis>, qualquer um. Sulin meteu a cabe�a porta adentro e espiou o p�tio. Claro que ela estaria ali por perto, depois de tudo o que Rand dissera. � Mapas � vociferou para ela. � Quero todos os mapas do Pal�cio. E uma pena, e tinta. Agora! R�pido! � Sulin o encarou com uma express�o de quase desd�m e deu meia-volta. Os Aiel n�o usavam mapas, at� alegavam que eram desnecess�rios. � Corra, <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>! � gritou.</p><p>Sulin o encarou por cima do ombro� e correu. Rand se perguntou que cara estava fazendo naquele momento para ter sido obedecido, querendo us�-la de novo quando fosse preciso.</p><p>Pela express�o no rosto de Haman, o Anci�o j� estaria retorcendo as m�os em desespero se tivesse um pouquinho menos de dignidade.</p><p>� Na verdade, tem pouca coisa que podemos de fato dizer que o senhor j� n�o saiba. Cada <emphasis>pouso</emphasis> tem apenas um Portal, bem ao lado. � Essa parte n�o era novidade. Os primeiros Portais dos Caminhos n�o poderiam ter sido feitos dentro do <emphasis>pouso</emphasis>, que bloqueava a canaliza��o. E, mesmo quando os Ogier receberam o Talism� do Crescimento e puderam eles pr�prios fazer com que os Caminhos crescessem e abrissem novos Portais, ainda havia Poder envolvido, por mais que n�o fosse usado para canalizar. � E tem um em cada cidade com um bosque Ogier. Embora aqui a cidade pare�a ter crescido <emphasis>por cima</emphasis> do bosque. E em Al�cair�rahienallen� � A voz de Haman foi morrendo, e ele balan�ou a cabe�a.</p><p>Era um nome que poderia muito bem sintetizar a quest�o. Tr�s mil anos antes, ou quase isso, existira uma cidade erguida pelos Ogier chamada Al�cair�rahienallen. O local passara a se chamar Cairhien, e o bosque que os construtores Ogier plantaram em mem�ria de seu <emphasis>pouso</emphasis> era parte de uma propriedade que pertencia ao mesmo Barthanes cujo pal�cio agora abrigava a escola de Rand. Ningu�m, al�m dos Ogier e talvez de algumas Aes Sedai, sabia de Al�cair�rahienallen. Nem mesmo os cairhienos.</p><p>Fosse l� em que Haman acreditasse, muita coisa podia mudar em tr�s mil anos. Imensas cidades constru�das por Ogier tinham deixado de existir, algumas sem deixar nada al�m do nome. E algumas grandes cidades foram erguidas sem a m�o dos Ogier. Segundo Moiraine, Amador era uma delas, criada depois das Guerras dos Trollocs � assim como Chachin, em Kandor, e Shol Arbela, em Arafel, e Fal Moran, em Shienar. Em Arad Doman, Bandar Eban fora constru�da sobre as ru�nas de uma cidade devastada durante a Guerra dos Cem Anos � uma cidade que Moiraine conhecia por tr�s nomes diferentes, nenhum deles confirmado, e que fora erguida sobre uma cidade sem nome que desaparecera nas Guerras dos Trollocs. Rand sabia de um Portal dos Caminhos no interior de Shienar, pr�ximo a uma cidade de porte m�dio que conservara parte do nome da gigantesca cidade arrasada pelos Trollocs. Sabia tamb�m de outro, dentro da Praga, em Malkier, um reino destru�do pela Sombra. Outros locais tinham apenas passado por mudan�as ou crescido bastante, como apontara o pr�prio Haman. O Portal dos Caminhos ali em Caemlyn agora ficava em um por�o. Um por�o bem escondido. Rand sabia que havia um Portal dos Caminhos em Tear, entre os campos de pastoreio onde os Gr�o-lordes criavam seus famosos rebanhos equinos. Devia haver outro em algum ponto das Montanhas da N�voa, onde um dia ficara Manetheren � fosse l� onde fosse. Quanto aos <emphasis>pousos</emphasis>, sabia apenas onde ficava o Pouso Tsofu. Moiraine n�o considerara os <emphasis>pousos</emphasis> ou os Ogier parte essencial da educa��o de Rand.</p><p>� O senhor n�o sabe onde ficam os <emphasis>pousos</emphasis>? � perguntou Haman, incr�dulo, quando Rand terminou de explicar. � Isso � alguma piada Aiel? Nunca entendi o humor do Deserto.</p><p>� Para os Ogier, j� faz um bom tempo que os Caminhos foram criados � explicou Rand, educadamente. � Para os humanos, faz uma eternidade.</p><p>� Mas o senhor nem ao menos <emphasis>se lembra</emphasis> de Mafal Dadaranell, Ancohima, Londaren Cor, ou�?</p><p>Covril p�s uma das m�os no ombro de Haman, mas a compaix�o em seus olhos era para Rand.</p><p>� Ele n�o se lembra � murmurou ela. � Os humanos j� se esqueceram. � Covril falava como se aquilo fosse a pior perda imagin�vel. Erith, apertando as m�os sobre a boca, parecia a ponto de chorar.</p><p>Sulin voltou, fazendo quest�o de mostrar que n�o corria, seguida por um grande grupo de <emphasis>gai�shain</emphasis> com bra�os abarrotados de rolos de mapas de todos os tamanhos, alguns arrastando nas pedras do pavimento do p�tio, de t�o compridos. Um homem de toga branca trazia uma caixa de escrita de marfim entalhado.</p><p>� Mandei alguns <emphasis>gai�shain</emphasis> procurarem mais � anunciou Sulin, em um tom r�gido �, junto com alguns aguacentos.</p><p>� Obrigado � respondeu Rand. Um pouco da tens�o se esvaiu do rosto da Aiel.</p><p>Rand se agachou e come�ou a espalhar e organizar os mapas ali mesmo, nas pedras do pavimento. V�rios eram da cidade, e outros tantos representavam apenas partes de Andor. Ele logo encontrou um que exibia toda a faixa das Terras da Fronteira, e s� a Luz sabia o que aquele mapa estava fazendo em Caemlyn. Alguns dos mapas, j� envelhecidos e pu�dos, mostravam fronteiras que n�o existiam mais e nomeavam na��es extintas centenas de anos antes.</p><p>As fronteiras e os nomes foram suficientes para ele classificar os mapas em ordem cronol�gica. Nos mais antigos, Hardan margeava o norte de Cairhien. Ent�o, com o passar dos anos, Hardan desaparecia, e as fronteiras de Cairhien avan�aram at� a metade de Shienar antes de voltarem, quando ficou claro que o Trono do Sol simplesmente n�o conseguiria dar conta de tantas terras. Primeiro Maredo ficava entre Tear e Illian, depois desapareceu, e Tear e Illian passaram a fazer fronteira nas Plan�cies de Maredo, mas ambas foram se retirando aos poucos do local � pelos mesmos motivos de Cairhien. Caralain desapareceu, assim como Almoth, Mosara, Irenvelle e outras, por vezes absorvidas por outras na��es, quase sempre virando territ�rios ind�mitos, terras de ningu�m. Aqueles mapas narravam uma hist�ria de perecimento que come�ara com a ru�na do imp�rio de Asa-de-gavi�o, um lento recuo da humanidade. Um segundo mapa das Terras da Fronteira mostrava apenas Saldaea e parte de Arafel, com a Fronteira da Praga cinquenta milhas mais longe a norte. A humanidade recuava, e a Sombra avan�ava.</p><p>Um homem magro e careca, usando um uniforme do Pal�cio mal-ajustado ao corpo, veio correndo p�tio adentro com outro monte de mapas, e Rand suspirou e prosseguiu com a sele��o.</p><p>Haman, muito s�rio, examinava a caixa de escrita que lhe fora entregue pelo <emphasis>gai�shain</emphasis>, ent�o tirou outra, quase t�o grande quanto, embora bastante simples, de um espa�oso bolso do casaco. A pena que saiu da caixa era de madeira polida, bem mais grossa que o polegar de Rand e comprida o bastante para parecer fina, mas encaixava-se perfeitamente nos dedos robustos do Ogier. Haman apoiou-se sobre as m�os e os joelhos e foi engatinhando por cima dos mapas que Rand estendera, vez ou outra molhando a pena no frasco de tinta do <emphasis>gai�shain</emphasis> e rabiscando em uma caligrafia que parecia grande demais, mas que para ele era bastante pequena. Covril o acompanhava, espiando por cima do ombro de Haman, mesmo depois de ele perguntar duas vezes se a mulher achava que ele cometeria algum erro.</p><p>Foi uma aula para Rand, come�ando com sete <emphasis>pousos</emphasis> espalhados pelas Terras da Fronteira. Bem, os Trollocs de fato tinham medo de entrar nos <emphasis>pousos</emphasis>, e at� os Myrddraal precisavam de um bom incentivo. A Espinha do Mundo, a Muralha do Drag�o, abrigava treze, incluindo o que havia na Adaga do Fratricida � apenas algumas milhas separavam o Pouso Shangtai, ao sul, do Pouso Qichen e do Pouso Sanshen, ao norte.</p><p>� A terra realmente mudou com a Ruptura do Mundo � explicou Haman, quando Rand deu voz � surpresa. Ele prosseguiu com as marca��es, um tanto �vido. Ou melhor, �vido para os padr�es Ogier. � A terra virou mar, e o mar virou terra, mas a terra tamb�m se dobrou. �s vezes o que era bem distante se aproximou, e o que era pr�ximo se distanciou. Embora, claro, ningu�m possa dizer se Qichen e Sanshen come�aram muito longe um do outro.</p><p>� Voc� se esqueceu de Cantoine � anunciou Covril, assustando um servi�al de uniforme, que jogou longe a nova bra�ada de mapas.</p><p>Haman olhou feio para ela e rabiscou o nome logo acima do Rio Iralell, n�o muito longe a norte de Haddon Mirk. Na faixa a oeste da Muralha do Drag�o, da fronteira sul de Shienar at� o Mar das Tempestades, havia apenas quatro <emphasis>pousos</emphasis>, todos considerados rec�m-encontrados pelos Ogier � o que significava que o mais recente, Tsofu, abrigava Ogier havia apenas seiscentos anos, e nenhum dos outros era habitado havia mais de mil anos. Alguns dos locais foram t�o surpreendentes quanto as Terras da Fronteira, como as Montanhas da N�voa, que abrigava seis, e a Costa da Sombra. As Colinas Negras tamb�m tinham seus <emphasis>pousos</emphasis>, assim como as florestas acima do Rio Ivo, e as montanhas acima do Rio Dhagon, logo ao norte de Arad Doman.</p><p>O mais triste era a lista de <emphasis>pousos</emphasis> abandonados, desocupados por causa da grande redu��o da popula��o Ogier. A Espinha do Mundo, as Montanhas da N�voa e a Costa da Sombra tamb�m estavam nessa lista, assim como um <emphasis>pouso </emphasis>nas profundezas da Plan�cie de Almoth, perto da imensa floresta de Paerish Swar, e de um nas montanhas baixas ao longo do norte da Ponta de Toman, diante do Oceano de Aryth. Talvez mais triste ainda fosse o <emphasis>pouso </emphasis>assinalado bem na extremidade da Praga, em Arafel � os Myrddraal podiam ser relutantes em adentrar um <emphasis>pouso</emphasis>, mas, � medida que a Praga avan�ava para o sul, ia varrendo tudo em seu caminho.</p><p>Haman hesitou e comentou, em um tom triste:</p><p>� Sherandu foi tragado pela Grande Praga h� 1.843 anos, e Chandar j� n�o existe h� 968.</p><p>� Que suas mem�rias flores�am e prosperem sob a Luz � murmuraram Covril e Erith, em un�ssono.</p><p>� Eu sei de um que o senhor n�o marcou � avisou Rand.</p><p>Perrin lhe contara que tinha se abrigado nesse <emphasis>pouso</emphasis>. Ele puxou um mapa de Andor, para leste do Rio Arinelle, e tocou um ponto bem acima da estrada de Caemlyn, rumo � Ponte Branca � se n�o acertou o ponto exato, ao menos sabia que ficava bem perto.</p><p>Haman fez uma careta, quase um rosnado.</p><p>� Onde seria a cidade de Asa-de-gavi�o. Esse nunca chegou a ser reivindicado. Muitos <emphasis>pousos</emphasis> foram encontrados, mas n�o reivindicados. Tentamos nos manter afastados das terras dos homens.</p><p>Todas as marca��es ficavam em montanhas escarpadas, em locais que os homens consideravam dif�ceis de entrar, ou, em uns poucos casos, apenas longe de qualquer habita��o humana. O Pouso Tsofu ficava bem mais perto de um local habitado por homens, mas mesmo ele ficava a um dia inteiro de viagem da aldeia mais pr�xima.</p><p>� Esse seria um �timo debate para algum outro momento � ralhou Covril. Falava com Rand, mas claramente se dirigia a Haman, como indicava seu olhar de esguelha. � Quero chegar o mais a oeste que der antes do cair da noite.</p><p>Haman suspirou pesadamente.</p><p>� Ah, mas voc�s n�o v�o ficar aqui um pouco? � protestou Rand. � Devem estar exaustos, depois de toda essa caminhada, vindos de Cairhien.</p><p>� As mulheres n�o se exaurem nunca � reclamou Haman �, s� exaurem os outros. � um ditado Ogier muito antigo.</p><p>Covril e Erith fungaram com desd�m ao mesmo tempo. Resmungando sozinho, Haman seguiu com sua lista, mas agora de cidades constru�das pelos Ogier � cidades que tinham abrigado bosques, cada qual com seu Portal dos Caminhos, para que os Ogier pudessem entrar e sair dos <emphasis>pousos</emphasis> sem ter de passar pelas sempre conturbadas terras dos homens.</p><p>Ele marcou Caemlyn, naturalmente, assim como Tar Valon, Tear, Illian, Cairhien, Maradon e Ebou Dar. Era tudo, no que dizia respeito �s cidades que ainda existiam, e ele escreveu Barashta em vez de Ebou Dar. Talvez o lugar de Barashta fosse com as outras marcas, que indicavam locais onde os mapas n�o mostravam nada al�m de uma aldeia, quando muito: Mafal Dadaranell, Ancohima, Londaren Cor, claro, e Manetheren; al�m de Aren Mador, Aridhol, Shaemal, Braem, Condaris, Hai Ecorimon, Iman� a lista crescia, e Rand come�ou a ver manchinhas �midas em cada mapa, quando Haman terminava. Levou um instante para perceber que o Anci�o Ogier estava chorando em sil�ncio, deixando que as l�grimas vertessem enquanto assinalava cidades mortas e esquecidas. Talvez ele chorasse pelo povo, talvez pelas lembran�as. A �nica certeza de Rand era que o choro n�o era pelas cidades em si, n�o era pelo trabalho perdido dos pedreiros Ogier � para os Ogier, o trabalho de cantaria era apenas uma fun��o que haviam aprendido durante o Ex�lio. E que trabalho de cantaria poderia se comparar � grandiosidade das �rvores?</p><p>Um daqueles nomes lhe pareceu familiar, e a localiza��o tamb�m. A leste de Baerlon, v�rios dias de viagem para cima da Ponte Branca e Arinelle.</p><p>� Tinha um bosque aqui? � perguntou, o dedo sobre a marca��o.</p><p>� Em Aridhol? � perguntou Haman. � Sim. Tinha, sim. Que tristeza.</p><p>Rand n�o ergueu a cabe�a.</p><p>� Em Shadar Logoth � corrigiu. � Foi mesmo uma tristeza. Voc�s poderiam� voc�s me mostrariam esse Portal dos Caminhos, se eu os levasse at� l�?</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 21</p><p><image l:href="#19"/></p><p>Para Shadar Logoth</p></title><p>� Se voc� nos levasse at� l�? � indagou Covril, examinando o mapa nas m�os de Rand com uma carranca descomunal. � Seria um desvio enorme do nosso caminho, se bem me lembro onde fica Dois Rios. Precisamos encontrar Loial, e n�o aceito desperdi�ar nem mais um dia.</p><p>Erith assentiu com firmeza.</p><p>Haman, as bochechas ainda molhadas de l�grimas, balan�ou a cabe�a, desapontado com a afoba��o das duas, mas disse:</p><p>� N�o posso permitir uma coisa dessas. Aridhol� Ou Shadar Logoth, como voc�s chamam agora, um nome muito apropriado, ali�s, n�o � lugar para algu�m jovem como Erith. N�o � lugar para ningu�m, ali�s.</p><p>Rand se levantou, deixando o mapa cair. Conhecia Shadar Logoth melhor do que gostaria.</p><p>� Voc�s n�o v�o perder tempo. Na verdade, v�o ganhar. Levarei voc�s em uma Viagem, abrindo um port�o at� Shadar Logoth. Assim, voc�s percorreriam mais da metade do caminho at� Dois Rios ainda hoje. E n�o vamos demorar. Sei que voc�s conseguiriam me guiar direto at� o Portal dos Caminhos.</p><p>Ogier eram capazes de sentir os Portais dos Caminhos, se n�o estivessem muito longe.</p><p>A proposta gerou outra pequena confer�ncia diante da fonte, e dessa vez Erith exigiu participar. Rand s� conseguiu entreouvir alguns trechos, mas estava claro que Haman se opunha, pela forma como balan�ava a cabe�a insistentemente; enquanto Covril, com as orelhas t�o r�gidas que dava a impress�o de estar tentando parecer o mais alta poss�vel, acreditava que deveriam aceitar. No come�o, Covril franzia o cenho tanto para Erith quanto para Haman � fosse qual fosse a rela��o entre sogra e nora para os Ogier, a m�e de Loial deixava bem claro que, para ela, Erith n�o deveria opinar. Mas logo mudou de ideia: as duas Ogier se uniram contra Haman, insistentes e implac�veis.</p><p>� � muito perigoso. Muito, muito perigoso � dizia Haman, feito um trov�o distante.</p><p>� � quase l� ainda hoje� � argumentava um trov�o mais leve, de Covril.</p><p>� � j� est� Fora h� muito tempo� � acrescentava o ribombar sonoro de Erith.</p><p>� � a pressa n�o compensa�</p><p>� � meu Loial�</p><p>� � meu Loial�</p><p>� � Mashadar sob nossos p�s�</p><p>� � meu Loial�</p><p>� � meu Loial�</p><p>� � como Anci�o�</p><p>� � meu Loial�</p><p>� � meu Loial�</p><p>Haman voltou at� Rand ajeitando o casaco, como se tivesse sido rasgado ao meio, seguido de perto pelas duas. Covril parecia mais serena que Erith, que fazia um esfor�o vis�vel para sufocar o sorriso, mas as duas estavam com as orelhas peludas apontadas no mesmo �ngulo, transmitindo anima��o e satisfa��o.</p><p>� N�s decidimos � come�ou Haman, muito r�gido � aceitar sua oferta. Vamos acabar logo com esse passeio para eu poder retomar as aulas. E voltar ao Cepo. Hum, hum. H� muito a dizer sobre o senhor, diante do Cepo.</p><p>Rand n�o se importava se Haman dissesse ao Cepo que ele intimidara os tr�s. Os Ogier mantinham dist�ncia dos homens, s� aparecendo para efetuar reparos em antigos trabalhos de cantaria, e era improv�vel que pudessem influenciar a opini�o de qualquer humano sobre ele.</p><p>� �timo � respondeu. � Vou mandar algu�m buscar seus pertences na estalagem.</p><p>� Estamos com tudo bem aqui � anunciou Covril.</p><p>A mulher foi at� o outro lado da fonte, agachou-se e pegou duas trouxas que os Ogier haviam escondido ali atr�s. Qualquer uma daquelas trouxas seria uma carga bem pesada para um homem, mas ela entregou uma a Erith e pendurou a al�a da outra nos ombros, acomodando-a enviesada no peito e apoiada nas costas.</p><p>� Imaginamos que, se Loial estivesse aqui � explicou Erith, ajeitando a trouxa �, j� estar�amos com tudo pronto para voltar ao Pouso Tsofu sem mais demora. Se n�o o encontr�ssemos, estar�amos prontos para partir. Sem demora.</p><p>� Na verdade, o problema s�o as camas � confidenciou Haman, erguendo as m�os apartadas, formando entre elas um espa�o do tamanho de uma crian�a humana. � Nos tempos antigos, todas as estalagens daqui de Fora tinham dois ou tr�s quartos para Ogier, mas hoje em dia � uma dificuldade encontrar mob�lia para o nosso tamanho. � dif�cil de entender por qu�. � Ele olhou os mapas marcados e soltou um suspiro. � <emphasis>Era</emphasis> dif�cil entender.</p><p>Rand esperou apenas por tempo suficiente para Haman apanhar a pr�pria trouxa, ent�o agarrou <emphasis>saidin</emphasis> e abriu um port�o ali mesmo, ao lado da fonte. O buraco no ar exibia uma rua devastada, repleta de ervas daninhas e constru��es em ru�nas.</p><p>� Rand al�Thor � chamou Sulin, entrando no p�tio em um passo quase casual, � frente de um grupo de servi�ais e <emphasis>gai�shain</emphasis> abarrotadas de mapas. Liah e Cassin estavam junto, com a mesma naturalidade fingida. � Voc� pediu mais mapas.</p><p>O olhar de Sulin para o portal era quase acusat�rio.</p><p>� Posso me proteger melhor l� sozinho do que com voc�s � explicou Rand, com frieza. N�o pretendia ser frio, mas, envolto no Vazio, n�o havia como a voz soar mais que fria e distante. � N�o h� nada que suas lan�as possam combater, e h� algumas coisas que as lan�as n�o venceriam.</p><p>Sulin ainda exibia boa parte da irrita��o de mais cedo.</p><p>� Por isso mesmo dever�amos ir.</p><p>Aquilo n�o faria sentido para ningu�m que n�o fosse Aiel, mas�</p><p>� Eu n�o vou discutir � declarou Rand. Sulin tentaria ir atr�s, caso ele recusasse. Ela convocaria Donzelas que tentariam pular portal adentro, mesmo que a abertura j� estivesse se fechando. � Imagino que todo o restante da guarda de hoje deve estar logo ali dentro, na pr�xima sala. Convoque todas com um assobio. Mas quero que todos fiquem perto de mim e tomem o cuidado de n�o tocar em nada. Seja r�pida. Quero acabar logo com isso.</p><p>Suas lembran�as de Shadar Logoth n�o eram nada agrad�veis.</p><p>� Eu as mandei embora, como voc� insistiu � retrucou Sulin, indignada. � Conte devagar at� cem.</p><p>� Dez.</p><p>� Cinquenta.</p><p>Rand assentiu, e a mulher remexeu os dedos. Jalani disparou para dentro, e Sulin remexeu as m�os outra vez. Tr�s <emphasis>gai�shain</emphasis>, at�nitas, largaram o monte de mapas que carregavam, ergueram os longos robes brancos e correram de volta para o Pal�cio por caminhos diferentes. As mulheres pareciam muito surpresas, e nenhum Aiel nunca demonstrava tamanha surpresa. Sulin nem esperou: j� tinha desaparecido quando as <emphasis>gai�shain </emphasis>come�aram a se afastar.</p><p>Quando Rand chegou a vinte, Aiel come�aram a saltar p�tio adentro, pulando pelas janelas, jogando-se das sacadas. Ele quase perdeu a conta. Todos estavam velados, e havia apenas algumas Donzelas. Os Aiel olharam em volta, confusos por verem apenas Rand e tr�s Ogier, que olharam de volta para eles, curiosos. Alguns baixaram os v�us. Os servi�ais do Pal�cio se encolheram, aproximando-se uns dos outros de modo apreensivo.</p><p>O fluxo de Aiel continuou mesmo depois de Sulin voltar, o v�u baixado, no exato instante em que ele chegou a cinquenta. O p�tio estava tomado de Aiel. Logo ficou claro que a mulher espalhara a not�cia de que o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> estava em perigo, a �nica forma que encontrara de reunir lan�as suficientes no tempo que lhe fora concedido. Os homens resmungaram, amargurados, mas a maioria logo concluiu que era uma boa piada, e alguns soltaram risadinhas e bateram as lan�as nos broqu�is. Ainda assim, nenhum foi embora. Eles olharam o port�o e se endireitaram, agachados, tentando ver o que estava acontecendo.</p><p>Com os ouvidos agu�ados pelo Poder, Rand ouviu Nandera, uma Donzela bem musculosa, ainda bela apesar dos cabelos mais grisalhos que louros, sussurrar para Sulin:</p><p>� Voc� falou com as <emphasis>gai�shain</emphasis> como se fossem <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>.</p><p>Os olhos azuis de Sulin encararam os verdes de Nandera com firmeza.</p><p>� Falei. Lidaremos com isso ainda hoje, depois que Rand al�Thor estiver seguro.</p><p>� Depois que ele estiver seguro � concordou Nandera.</p><p>Sulin logo destacou vinte Donzelas, inclusive algumas que tinham composto a guarda naquela manh�. Quando Urien come�ou a escolher seus Escudos Vermelhos, homens de outras sociedades insistiram para serem inclu�dos. Aquela cidade para al�m do port�o parecia um lugar cheio de inimigos, e o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> tinha que ser protegido. Na verdade, nenhum Aiel dava as costas a uma possibilidade de luta � e quanto mais jovens, mais prov�vel que corressem atr�s de uma. Uma nova discuss�o come�ou quando Rand declarou que n�o poderia haver mais homens do que as Donzelas � o que desonraria as <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, posto que elas carregavam sua honra �, e que Sulin n�o poderia escolher mais nenhuma Donzela. Falara s�rio quando dissera que estava levando aqueles Aiel a um lugar onde nenhuma de suas habilidades de batalha poderia proteg�-los, e cada um que levava era um a mais em quem ficar de olho. Claro que n�o explicou isso. N�o havia como saber quem ficaria ofendido com aquilo.</p><p>� Lembrem-se de n�o tocar em nada � ressaltou, assim que todos foram selecionados. � N�o peguem nada, nem mesmo tomem um gole de �gua. E fiquem sempre � vista. N�o entrem em nenhuma casa, n�o importa o motivo.</p><p>Haman e Covril assentiram com vigor, o que pareceu impressionar mais os Aiel que as palavras de Rand. Bem, n�o importava. Bastava que ficassem impressionados.</p><p>O grupo cruzou o portal e adentrou uma cidade morta � uma cidade mais do que morta.</p><p>O sol dourado, j� a mais de meio caminho do z�nite, escaldava as ru�nas grandiosas. Aqui e ali ainda havia imensos domos intactos sobre pal�cios de m�rmore claro, por�m era mais comum ver constru��es sem teto, e na maioria dos casos restavam apenas as ru�nas de algum fragmento curvo. Compridas passarelas sustentadas por colunas ligavam torres mais altas do que Cairhien jamais sonhara ter, algumas com extremidades irregulares. Por todo lado se viam tetos desmoronados das casas, al�m de tijolos e pedras espalhados pelas pedras rachadas do pavimento, resqu�cios de constru��es e muralhas desabadas. Fontes espatifadas e monumentos destru�dos decoravam cada cruzamento. As imensas montanhas de entulho eram pontilhadas de �rvores atrofiadas, morrendo pela falta de �gua. Ervas mortas revestiam as rachaduras das ruas e dos edif�cios. Nada se movia � nem um p�ssaro, nem um rato, nem a brisa. O sil�ncio dominava Shadar Logoth. Onde a Sombra Espreita.</p><p>Rand deixou o port�o se fechar. Nenhum Aiel baixou o v�u. Os Ogier olhavam em volta, tensos, as orelhas bem para tr�s. Rand agarrou-se a <emphasis>saidin,</emphasis> naquela luta que, como dizia Taim, fazia o homem saber que estava vivo. Mesmo se n�o pudesse canalizar � especialmente nesse caso, talvez �, naquele lugar era bom ser lembrado de que estava vivo.</p><p>Aridhol era uma capital magn�fica nos tempos das Guerras dos Trollocs, aliada de Manetheren e do restante das Dez Na��es. Essas guerras duraram tanto tempo que faziam a Guerra dos Cem Anos parecer breve, e tamb�m davam a impress�o de que a Sombra estava vencendo em todos os cantos e que cada vit�ria da Luz servia apenas para se ganhar tempo. Foi quando Mordeth tornou-se conselheiro de Aridhol e convencera o governante de que, para ganhar a guerra � para sobreviver � guerra �, a cidade teria que ser ainda mais forte que a Sombra, ainda mais cruel e menos confi�vel que a Sombra. E isso foi se estabelecendo aos poucos, at� que, por fim, Aridhol se tornou um lugar t�o tenebroso quanto a Sombra � se n�o mais. A Guerra dos Trollocs seguia, feroz, mas Aridhol voltou-se para si mesma � virou-se contra si mesma. Consumindo-se.</p><p>E algo foi deixado para tr�s. Algo que impedia qualquer um de voltar a viver ali. At� a menor pedrinha daquele lugar estava maculada com o �dio e a desconfian�a que tinham assassinado Aridhol e deixado Shadar Logoth em seu lugar. Com o tempo, at� a menor pedrinha deixava uma m�cula pr�pria.</p><p>E ali ainda resistia algo al�m da m�cula, embora essa j� fosse forte o suficiente para afastar qualquer homem s�o.</p><p>Rand girou o corpo bem devagar, mantendo-se no mesmo lugar, examinando cada janela como se fosse uma �rbita oca, os olhos arrancados das constru��es. O sol ainda estava alto, mas ele j� sentia os olhos invis�veis o observando. Quando passara por ali antes, a sensa��o s� ficara forte daquele jeito depois de o sol come�ar a baixar. Muito mais do que a m�cula persistia ali. Um ex�rcito de Trollocs morrera enquanto acampava ali, desaparecera por completo, deixando apenas manchas de sangue nas paredes � mensagens implorando ao Tenebroso que os salvasse. Shadar Logoth n�o era um bom local para se estar � noite.</p><p><emphasis>Este lugar me d� medo</emphasis>, murmurou Lews Therin, por tr�s do Vazio. <emphasis>Voc� n�o fica com medo?</emphasis></p><p>Rand ficou sem f�lego. A voz estava mesmo falando com ele? <emphasis>Fico.</emphasis></p><p><emphasis>A escurid�o est� aqui. Um negrume mais negro que o negro mais intenso. Se o Tenebroso escolhesse viver entre os homens, viveria aqui.</emphasis></p><p><emphasis>Sim. Viveria.</emphasis></p><p><emphasis>Preciso matar Demandred.</emphasis></p><p>Rand ficou sem rea��o.</p><p><emphasis>Demandred tem alguma liga��o com Shadar Logoth? Com este lugar?</emphasis></p><p><emphasis>Eu agora me lembro de que matei Ishamael</emphasis>. A voz transmitia um qu� admirado, como se acabasse de descobrir isso. <emphasis>Ele mereceu morrer. Lanfear tamb�m mereceu, mas fico feliz que n�o tenha sido por minhas m�os.</emphasis></p><p>Ser� que a voz apenas parecia estar falando com ele, por acaso? Ou Lews Therin estava ouvindo, respondendo?</p><p><emphasis>Como foi que eu� que </emphasis>voc�<emphasis> matou Ishamael? Me conte.</emphasis></p><p><emphasis>Morte. Quero a morte completa. Mas n�o aqui. N�o quero morrer aqui.</emphasis></p><p>Rand suspirou. Era apenas por acaso. Tamb�m n�o queria morrer ali. Um pal�cio pr�ximo, com as colunas da frente quebradas, estava bem inclinado em dire��o � rua. Poderia desabar a qualquer momento, soterrando-os ali mesmo.</p><p>� Podem guiar � disse a Haman. E alertou os Aiel: � Lembrem-se do que eu disse. N�o toquem em nada, n�o peguem nada e n�o sumam de vista.</p><p>� N�o achei que estivesse t�o ruim � murmurou Haman. � Quase abafa a sensa��o do Portal dos Caminhos.</p><p>Erith soltou um gemido de lamento, e Covril teria soltado outro, se n�o fosse t�o altiva. Os Ogier eram muito sens�veis � atmosfera de um lugar. Haman apontou. O suor em seu rosto n�o tinha nenhuma rela��o com o calor.</p><p>� Por aqui.</p><p>O pavimento rachado estalava sob as botas de Rand feito ossos sendo esmigalhados. Haman conduziu o grupo pelas ruas e esquinas, passando por diversas ru�nas, mas sempre seguro da dire��o. Os Aiel � volta avan�avam nas pontas dos p�s. Seus olhos, a �nica parte do rosto vis�vel por entre as dobras dos v�us negros, indicavam que n�o esperavam um ataque � para eles, o ataque j� tinha come�ado.</p><p>Os olhos invis�veis que os observavam e as constru��es destro�adas trouxeram mem�rias que Rand preferia evitar. Fora ali que Mat iniciara a jornada que o levara � Trombeta de Valere � uma jornada que quase o matara, e talvez a mesma jornada que o conduzira a Rhuidean e ao <emphasis>ter�angreal</emphasis> do qual ele n�o queria falar. Ali, Perrin desaparecera quando todos foram for�ados a fugir no meio da noite � quando Rand enfim o reencontrou, o amigo tinha olhos dourados tristes e segredos que Moiraine jamais revelara.</p><p>Ele pr�prio n�o escapara inc�lume, embora Shadar Logoth n�o o tivesse tocado diretamente. Padan Fain seguira todos at� ali: Rand, Mat, Perrin, Moiraine, Lan, Nynaeve e Egwene. Padan Fain, o mascate que sempre visitava Dois Rios. Padan Fain, o Amigo das Trevas. Que agora, segundo Moiraine, era mais que Amigo das Trevas � algo pior. Fain seguira todos at� Shadar Logoth, mas o que saiu de l� foi mais � ou menos � do que entrou. Padan Fain, ou quanto ainda restara dele, queria ver Rand morto. J� amea�ara todos os que Rand amava caso o garoto n�o fosse ao seu encontro. E Rand n�o fora. Perrin lidara com a amea�a e protegera Dois Rios, mas � Luz! � como do�a. E o que Fain estava fazendo com os Mantos-brancos? Ser� que Pedron Niall era Amigo das Trevas? Se algumas Aes Sedai podiam ser, ent�o o Senhor Capit�o Comandante dos Filhos da Luz tamb�m podia.</p><p>� L� est� � anunciou Haman, e Rand levou um susto.</p><p>Shadar Logoth era o pior lugar do mundo para se perder em devaneios.</p><p>O Anci�o estava parado onde j� houvera uma pra�a enorme. Um dos cantos estava cheio de entulho enferrujado. No meio, onde talvez existisse uma fonte, havia uma cerca com filigranas de algum metal brilhante. Era da altura de um Ogier, e, ao contr�rio do restante dos escombros da cidade, permanecera intocada pela ferrugem. A cerca envolvia o que parecia uma pedra alta com entalhes de vinhas e folhas ao sabor da brisa � tinham sido esculpidas com tamanho esmero que parecia que a brisa logo voltaria a soprar. Pareciam t�o bem-feitas que era uma surpresa notar seu tom cinza e p�treo, n�o verde. Era o Portal dos Caminhos, mesmo que n�o se parecesse com um portal.</p><p>� Derrubaram o bosque assim que os Ogier partiram para os <emphasis>pousos�</emphasis>��resmungou Haman, irritado, as compridas sobrancelhas ca�das. Mal esperaram uns vinte ou trinta anos para expandir a cidade.</p><p>Rand tocou a cerca com um fluxo de Ar, perguntando-se como transpor aquele obst�culo. Piscou, surpreso, quando a estrutura inteira se desfez em vinte ou mais peda�os, que desabaram com um estr�pito que fez os Ogier darem um salto. Rand balan�ou a cabe�a. Claro. Qualquer metal que tivesse sobrevivido tanto tempo sem o menor pontinho de ferrugem <emphasis>s� podia</emphasis> ter sido feito a partir do Poder. Talvez fosse um resqu�cio da Era das Lendas. Mas os fluxos que uniam as placas de metal j� estavam enfraquecidos havia muito, s� esperando um bom solavanco.</p><p>Covril botou a m�o em seu ombro.</p><p>� Queria pedir que o senhor n�o abrisse. Loial com certeza lhe ensinou como fazer� ele sempre teve interesse demais nesse tipo de coisa. Mas os Caminhos s�o perigosos.</p><p>� Posso trancar � anunciou Haman �, para que n�o possa mais ser aberto sem o Talism� do Crescimento. Hum, hum. � bem simples. A solu��o � muito �bvia. � Mas ele n�o parecia ansioso por tentar, e nem fez men��o de se aproximar do portal.</p><p>� Talvez o portal tenha que ser usado �s pressas, sem que se tenha tempo de pegar um Talism� do Crescimento � explicou Rand.</p><p>Todos os Caminhos talvez tivessem que ser usados, a despeito dos perigos. Se pudesse dar um jeito de purific�-los� era um projeto quase t�o ambicioso quanto o an�ncio que fizera a Taim de que purificaria <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p>Come�ou criando tessituras em torno do Portal usando todos os Cinco Poderes, erguendo as partes da cerca de volta para o lugar. Desde o primeiro fluxo que canalizou, sentiu que a m�cula parecia pulsar dentro dele � uma vibra��o que aos poucos tomava seu corpo. Devia ser em resposta ao mal de Shadar Logoth, um mal ecoando o outro. Mesmo dentro do Vazio, ficou tonto com tantas reverbera��es, como se o mundo oscilasse sob seus p�s. A sensa��o o deixou com �nsia, querendo vomitar tudo o que j� comera na vida. Ainda assim, perseverou. N�o podia botar homens de guarda ali, assim como n�o podia enviar batedores para explorar a cidade.</p><p>A trama que ele urdiu, para ent�o inverter, era uma armadilha horr�vel, adequada para aquele lugar. Um selo de prote��o da mais profunda e completa vilania. Podia erguer um selo contra humanos ou um selo contra Crias da Sombra, mas n�o os dois. Por aquele ali, humanos passariam inc�lumes, e talvez at� os Abandonados conseguissem atravessar � e quem sabe n�o conseguiriam nem notar sua presen�a. Ainda assim, se alguma Cria da Sombra passasse por ali� bem, era a quest�o da vilania. A criatura n�o morreria imediatamente, e talvez at� vivesse para transpor as muralhas da cidade. Tempo suficiente para chegar bem longe, sair dali e n�o servir de aviso para o pr�ximo Myrddraal que passasse. Tempo suficiente para a debandada de um ex�rcito de Trollocs, talvez deixando alguns para tr�s pelo caminho. E seria uma morte cruel o bastante para um Trolloc. Fazer aquilo o enojava tanto quanto a m�cula em <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p>Tran�ar os �ltimos n�s da trama e soltar <emphasis>saidin</emphasis> s� lhe trouxe um pouco de al�vio. O res�duo de podrid�o que sempre parecia persistir ainda pulsava, e Rand quase sentia como se o ch�o pulsasse debaixo de suas botas. Os dentes e as orelhas do�am. Mal via a hora de sair dali.</p><p>Respirou fundo e preparou-se para canalizar outra vez, abrir um port�o� ent�o parou, franzindo o cenho. Contou todos depressa, depois recontou, mais devagar.</p><p>� Est� faltando algu�m. Quem �?</p><p>Os Aiel levaram apenas um instante para conferir.</p><p>� Liah � anunciou Sulin, por baixo do v�u.</p><p>� Ela estava logo atr�s de mim. � A voz de Jalani era inconfund�vel.</p><p>� Talvez ela tenha visto alguma coisa. � Parecia ser a voz de Desora.</p><p>� Eu mandei todo mundo ficar junto! � A ira irrompeu pelo Vazio como ondas arrebentando contra um rochedo, espumando. Algu�m estava faltando, e eles ainda encaravam a situa��o com a maldita frieza Aiel. Uma <emphasis>Donzela</emphasis> faltando. Uma mulher desaparecida em Shadar Logoth. � Ah, quando eu encontrar aquela� � Ele combateu a f�ria que amea�ava engolir o vazio � sua volta, ganhando polegada a polegada de autocontrole. Queria era gritar com Liah at� ela desmaiar, ent�o mand�-la para Sorilea pelo resto de sua vida. Sua f�ria era incandescente, assassina. � Dividam-se em pares. Chamem o nome dela, procurem por toda parte, mas n�o entrem em pr�dio nenhum, n�o importa o motivo. E fiquem longe das sombras. Aqui um homem pode morrer sem nem se dar conta. Todos voc�s podem morrer sem nem se darem conta. Se virem Liah dentro de alguma constru��o, me chamem primeiro, mesmo que ela pare�a completamente normal. Me chamem, a n�o ser que ela v� at� voc�s.</p><p>� Conseguir�amos procurar mais r�pido sozinhos � sugeriu Urien, e Sulin assentiu em concord�ncia. Houve acenos afirmativos demais entre os outros Aiel.</p><p>� Em pares! � Rand teve que lutar outra vez contra a f�ria. <emphasis>Que a Luz queime essa teimosia Aiel!</emphasis> � Pelo menos assim cada um tem algu�m de apoio. Fa�am o que eu digo na hora que eu digo, pelo menos uma vez na vida. Eu j� estive aqui antes, sei um pouco mais do que voc�s sobre este lugar.</p><p>Alguns minutos depois, quase todos gastos em um debate sobre quantos deveriam permanecer ao lado de Rand, vinte pares de Aiel se espalharam pela cidade em ru�nas. S� uma ficou � Jalani, Rand achava, mas era dif�cil ter certeza por conta do v�u. Pela primeira vez, a mulher n�o parecia nem um pouco satisfeita em vigi�-lo. Seus olhos verdes exibiam um brilho firme de contrariedade.</p><p>� Acho que podemos formar mais uma dupla � sugeriu Haman, olhando para Covril.</p><p>A Ogier assentiu.</p><p>� E Erith pode ficar aqui.</p><p>� N�o! � gritaram Rand e Erith, quase no mesmo instante.</p><p>Os Ogier mais velhos se viraram, os rostos graves e cheios de desaprova��o. As orelhas de Erith afundaram at� quase a ponto de desabar.</p><p>Rand conteve o mau humor com mais firmeza. Antes, quando estava no Vazio, toda a raiva parecia permanecer em um lugar distante, ligada a ele por apenas um fio. S� que cada vez mais a raiva amea�ava arrebat�-lo, arrebatar o Vazio. O que poderia ser um desastre. Bem, fora isso�</p><p>� Pe�o desculpas. N�o tinha o direito de gritar com o senhor, Anci�o Haman, nem com a senhora, Oradora Covril. � Seria a forma apropriada de se dirigir a eles? Eram mesmo aqueles t�tulos, para in�cio de conversa? Nada na express�o dos dois lhe deu qualquer resposta. � Agradeceria muito se permanecessem aqui comigo. Podemos procurar todos juntos.</p><p>� � claro � concordou Haman. � N�o vejo como lhe oferecer mais prote��o do que o senhor � capaz de oferecer a si mesmo, mas o pouco que tenho a lhe oferecer � sua. � Covril e Erith assentiram em aprova��o. Rand n�o fazia ideia do que Haman estava falando, mas n�o parecia hora de perguntar, com os tr�s parecendo preparados para proteg�-lo. N�o tinha d�vidas de que conseguiria manter os tr�s a salvo, desde que n�o se afastassem.</p><p>� Contanto que siga suas pr�prias regras, Rand al�Thor. � A Donzela de olhos verdes de fato era Jalani, soando animada por n�o ter que ficar ali esperando.</p><p>Rand torceu para que os outros tivessem entendido bem o perigo daquele lugar.</p><p>A busca j� come�ou frustrante. Percorreram as ruas vigiadas por olhos invis�veis de cima a baixo, por vezes escalando entulho, sempre gritando por Liah. Os berros de Covril faziam ranger as paredes inclinadas, e os de Haman arrancavam grunhidos abomin�veis das ru�nas. N�o se ouvia resposta. Os �nicos outros sons eram os gritos das outras duplas de busca e os ecos zombeteiros se dissipando pelas ruas. Liah! Liah!</p><p>O sol j� estava quase a pino quando Jalani comentou:</p><p>� N�o acho que ela teria vindo t�o longe, Rand al�Thor. A n�o ser que estivesse tentando fugir de n�s, coisa que n�o faria.</p><p>Rand, que examinava as colunas sombrias no topo de amplos degraus de pedra, tentando ver o interior de um amplo aposento mais adiante, virou-se para a Aiel. At� onde pudera ver, n�o havia nada ali al�m de poeira. Nenhuma pegada. Os olhos invis�veis tinham esvanecido � n�o pareciam ter ido embora, mas quase.</p><p>� Temos que procurar o m�ximo que der. Talvez ela� � N�o soube como concluir a frase. � N�o quero abandonar Liah aqui, Jalani.</p><p>O sol subiu mais ainda, ent�o come�ou a descer. Rand estava no topo do que um dia fora um pal�cio, talvez um bloco inteiro de edif�cios. Agora era uma colina, t�o desgastada pelos anos que s� o punhado de tijolos quebrados e os peda�os de madeira trabalhada despontando do ch�o seco davam ind�cios de que um dia fora outra coisa.</p><p>� Liah! � gritou, entre as m�os em concha. � Liah!</p><p>� Rand al�Thor! � chamou uma Donzela da rua de baixo, descendo o v�u para que ele a reconhecesse. Sulin. Ela e sua dupla, ainda velada, estavam com Jalani e os Ogier. � Des�a aqui.</p><p>Ele desceu depressa, fazendo subir uma nuvem de poeira e uma chuva de fragmentos de tijolo e pedras. Foi t�o r�pido que quase caiu duas vezes.</p><p>� Encontraram?</p><p>Sulin balan�ou a cabe�a.</p><p>� Mas j� ter�amos encontrado, se ela estivesse viva. Liah n�o teria ido t�o longe sozinha. Se algu�m a levou, acho que a levou morta. Ela n�o cederia t�o f�cil. E, se est� ferida a ponto de n�o conseguir responder a nossos chamados, isso tamb�m deve significar que ela est� morta.</p><p>Haman soltou um suspiro triste. As compridas sobrancelhas das outras duas Ogier desabaram at� as bochechas. Por alguma raz�o, seus olhares tristes e pesarosos se voltaram para Rand.</p><p>� Continuem procurando � mandou.</p><p>� Podemos olhar dentro das constru��es? Tem muitas salas que n�o conseguimos ver de fora.</p><p>Rand hesitou. Ainda estava perto do meio da tarde, mas j� voltara a sentir aqueles olhos invis�veis � espreita. T�o forte quanto sentira no sol poente, da primeira vez que estivera l�. As sombras n�o eram seguras em Shadar Logoth.</p><p>� N�o. Mas vamos continuar procurando.</p><p>N�o soube ao certo por quanto tempo seguiu gritando pelas ruas. Depois de um tempo, Urien e Sulin pararam diante dele, ambos desvelados. O sol j� tocava os topos das �rvores a oeste, uma bola vermelho-sangue no c�u sem nuvens. As sombras se estiravam, compridas, por sobre as ru�nas.</p><p>� Eu procuro pelo tempo que voc� quiser � come�ou Urien �, mas gritar por ela n�o vai adiantar de mais nada. Se pud�ssemos entrar nas constru��es�</p><p>� N�o. � A resposta saiu fraca e rouca, e Rand pigarreou.</p><p>Luz, como queria �gua. Os vigias invis�veis estavam em cada janela, cada fresta, aos milhares, aguardando, antecipando. As sombras envolviam a cidade. As sombras n�o eram seguras em Shadar Logoth, mas a escurid�o era pior � trazia apenas a morte. Mashadar surgia ao p�r do sol.</p><p>� Sulin, eu�</p><p>N�o conseguia se obrigar a dizer que precisavam desistir, deixar Liah para tr�s, n�o importava se a mulher estava viva ou morta, ou talvez ca�da em algum lugar, inconsciente, fora de vista, atr�s de um muro ou sob uma pilha de tijolos desabados. Poderia estar.</p><p>� Seja l� o que estiver nos vigiando, acho que est� esperando o cair da noite � comentou Sulin. � Olhei para dentro de janelas e senti que algo me encarava de volta, mas n�o havia nada para ver. N�o ser� nada f�cil dan�ar as lan�as com algo que os olhos n�o podem ver.</p><p>Rand ent�o percebeu quanto desejava que Sulin falasse outra vez que Liah devia estar morta, que era melhor irem embora. Liah poderia estar ferida, ca�da em algum lugar por ali � era poss�vel. Apalpou o bolso do casaco. O <emphasis>angreal</emphasis> do homenzinho gordo estava em Caemlyn, junto com sua espada e o cetro. N�o sabia ao certo se conseguiria proteger o grupo todo, depois do cair da noite. Moiraine revelara que achava que nem a Torre Branca inteira conseguiria matar Mashadar � isso se Mashadar pudesse ser considerado um ser vivo.</p><p>Haman pigarreou.</p><p>� Pelo que me lembro de Aridhol, ou melhor, de Shadar Logoth � comentou, franzindo o cenho �, quando o sol cair, n�s provavelmente morreremos.</p><p>� Sim � concordou Rand, em um sussurro relutante.</p><p>Liah, que talvez estivesse viva. Todos os outros. Covril e Erith, um pouco afastadas, conversavam em particular. Conseguiu ouvir um sussurro: �Loial.�</p><p><emphasis>O dever � mais pesado que a montanha. A morte, mais leve que a pluma.</emphasis></p><p>O coment�rio de Lews Therin s� podia ter sido tirado das mem�rias e dos pensamentos do pr�prio Rand � ao que parecia, as mem�rias atravessavam aquela barreira para todos os lados �, mas a frase o afetou profundamente.</p><p>� Temos que ir � anunciou. � N�o importa se Liah estiver viva ou morta, n�s� n�s temos que ir.</p><p>Urien e Sulin apenas assentiram, mas Erith se aproximou e afagou seu ombro com uma delicadeza surpreendente, considerando que a m�o era grande o bastante para envolver sua cabe�a.</p><p>� Se me permite incomod�-lo � come�ou Haman �, j� ficamos aqui bem mais tempo do que o esperado. � Ele apontou para o sol poente. � Eu ficaria muito agradecido se o senhor fizesse a gentileza de nos levar para fora da cidade daquela mesma maneira que nos trouxe at� aqui.</p><p>Rand ent�o se lembrou da floresta que ficava nas cercanias de Shadar Logoth. Dessa vez n�o haveria Myrddraal ou Trollocs por l�, mas ainda assim era uma floresta densa, e s� a Luz sabia a que dist�ncia ou em que dire��o ficava a aldeia mais pr�xima.</p><p>� Vou fazer melhor que isso. Posso levar voc�s direto at� Dois Rios, e t�o r�pido quanto viemos para c�.</p><p>Os dois Ogier mais velhos assentiram, muito s�rios.</p><p>� Que a b�n��o da Luz e a quietude retribuam a sua ajuda � murmurou Covril.</p><p>As orelhas de Erith tremelicaram de ansiedade � talvez tanto por ver Loial quanto por enfim sair de Shadar Logoth.</p><p>Rand hesitou por um instante. Loial decerto estava em Campo de Emond, mas n�o poderia levar os Ogier direto at� l�. Era muito prov�vel que a not�cia de sua visita se espalhasse para al�m de Dois Rios. Teria que ir para um ponto longe da aldeia, longe o bastante para evitar as fazendas ali por perto.</p><p>Abriu o port�o � um feixe de luz vertical despontou no ar e se alargou, e a m�cula se revirou outra vez dentro dele. Estava pior que antes, e agora o ch�o parecia pulsar sob as solas de suas botas.</p><p>Seis Aiel pularam port�o adentro, e os tr�s Ogier os seguiram com uma pressa nem um pouco inesperada, dadas as circunst�ncias. Rand hesitou e olhou para tr�s, para a cidade em ru�nas. Tinha prometido que permitiria que as Donzelas morressem por ele.</p><p>Assim que o �ltimo Aiel passou, ouviu Sulin soltar um silvo de dor. Olhou para ela, mas a mulher encarava a m�o dele � o dorso da m�o, no qual Rand esfregara as unhas at� tirar sangue. Envolto no Vazio como estava, a dor parecia pertencer a outra pessoa. A marca f�sica n�o importava, o ferimento logo cicatrizaria, mas a ferida interna era mais profunda, em um lugar onde ningu�m poderia ver. Um corte para cada Donzela morta, feridas que ele jamais deixava cicatrizar.</p><p>� Terminamos por aqui � anunciou, atravessando para Dois Rios. A palpita��o da m�cula desapareceu com o port�o.</p><p>Rand tirou um momento para se orientar, franzindo o cenho. N�o era f�cil posicionar um port�o com precis�o, ao menos em um local desconhecido, mas escolhera uma �rea bem familiar: um prado coberto de ervas daninhas a sul do vilarejo, a boas duas horas de caminhada de Campo de Emond � um lugar desocupado e sem qualquer utilidade. Ainda assim, avistou formas se movendo sob a luz p�lida do crep�sculo � ovelhas, um rebanho grande, e um garoto de cajado nas m�os e arco pendurado nas costas, encarando o grupo de rec�m-chegados a cerca de cem passadas de dist�ncia. Rand nem precisaria do olhar agu�ado pelo Poder para dizer que o pastorzinho estava de olhos arregalados. O garoto largou o cajado e saiu correndo para uma casa que n�o estava l� quando Rand viu o lugar pela �ltima vez. Uma casa com telhado de telhas.</p><p>Por um instante, ele se perguntou se estava mesmo em Dois Rios. A atmosfera local era familiar, assim como os cheiros. Mas todas aquelas mudan�as de que Bo e as outras meninas lhe falaram� Rand n�o as tinha assimilado de fato, porque nada mudava em Dois Rios. Ser� que devia mandar as meninas de volta para ali, para casa? <emphasis>Voc� tem � que ficar longe delas</emphasis>, pensou, irritadi�o.</p><p>� Campo de Emond � por ali � anunciou Rand. Campo de Emond. Perrin. Tam tamb�m devia estar l�, hospedado na estalagem Fonte de Vinho, junto dos pais de Egwene. � � l� que Loial deve estar. N�o sei se voc�s conseguem chegar antes do cair da noite, talvez seja melhor voc�s irem falar com o pessoal daquela casa ali, eles com certeza ceder�o um lugar para voc�s dormirem. Mas n�o falem de mim, nem revelem a ningu�m como voc�s chegaram aqui.</p><p>J� tinha sido visto por aquele garoto, mas o que ele contasse poderia muito bem ser tido como exagero quando tr�s Ogier aparecessem.</p><p>Haman e Covril se entreolharam enquanto ajeitavam a trouxa nas costas, e a Ogier declarou:</p><p>� N�o contaremos nada sobre como chegamos at� aqui. Deixe que as pessoas inventem as hist�rias que quiserem.</p><p>Haman afagou a barba e pigarreou.</p><p>� N�o v� se matar.</p><p>Mesmo no Vazio, Rand levou um susto com o coment�rio.</p><p>� O qu�?</p><p>� A estrada � sua frente � longa e escura � explicou Haman, em sua voz retumbante � e eu temo que esteja muito manchada de sangue. Tamb�m temo que o senhor acabe levando todos n�s por essa estrada. Mas n�o se esque�a de que precisa viver para chegar ao fim do caminho.</p><p>� Eu vou � respondeu Rand, sem rodeios. � Sigam com a Luz. � Tentou imprimir algum afeto ao que dizia, qualquer sentimento que fosse, mas n�o sabia se conseguira.</p><p>� Siga com a Luz � respondeu Haman, e as mulheres repetiram.</p><p>Os tr�s Ogier deram as costas para o grupo, rumo � casa mais adiante. Mas nem mesmo Erith parecia acreditar que ele conseguiria seguir com a Luz.</p><p>Rand ficou um instante a mais ali, parado. Algumas pessoas tinham sa�do da casa e observavam os Ogier se aproximarem, mas os olhos de Rand estavam voltados para noroeste � n�o na dire��o de Campo de Emond, e sim da fazenda onde crescera. Dar meia-volta e abrir um port�o para Caemlyn foi como arrancar o pr�prio bra�o � aquela dor seria um lembrete muito mais adequado da morte de Liah do que um mero arranh�o.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 22 </p><p><image l:href="#21"/></p><p>Rumo ao sul</p></title><p>Mat jogava as cinco pedras para cima, formando um c�rculo que girava suavemente logo acima das m�os � uma vermelha, uma azul, uma verde-clara e as outras duas com listras em padr�es interessantes. N�o parara de cavalgar enquanto jogava as pedras, conduzindo Pips com os joelhos, a lan�a de cabo preto enfiada atr�s da cinta da sela, no lado oposto em que repousava o arco desencordoado. As pedras lembravam Thom Merrilin, que lhe ensinara a arte do malabarismo, e ele se perguntou se o velho ainda estaria vivo. Pouco prov�vel. Parecia ter passado uma eternidade desde que Rand mandara o menestrel ir atr�s de Elayne e Nynaeve, querendo que ele cuidasse das duas � se existiam duas mulheres que precisassem menos de cuidados, Mat n�o conhecia. S� sabia que n�o havia dupla de mulheres mais capazes de fazer um homem acabar morto simplesmente por n�o dar ouvidos a seus conselhos. Nynaeve se metia em tudo o que um homem fazia, dizia ou pensava e sempre puxava aquela maldita tran�a na cara de quem fosse, e aquela maldita Filha-herdeira sempre achava que conseguiria deixar as coisas do jeito dela se empinasse bem o nariz e explicasse o que queria t�o mal quanto Nynaeve � mas com Elayne era ainda pior, j� que, se a petul�ncia g�lida n�o desse certo, a garota sorria, deixando as covinhas � mostra, e esperava que acabassem cedendo s� porque ela era bonita. Mat torcia para que Thom tivesse sobrevivido �s duas. E torcia para que elas tamb�m estivessem bem, mesmo que n�o fosse se importar muito se tivessem se metido em apuros vez ou outra desde que partiram �s pressas sabia l� a Luz para onde. Elas que vissem como era dif�cil n�o ter Mat sempre por perto para descascar os abacaxis � e n�o tinham agradecido nem uma �nica vez quando ele estava sempre l� para ajudar. E nem precisavam ter encontrado algum abacaxi muito grande, s� algo dif�cil o suficiente para desejarem que Mat Cauthon estivesse ali para resgat�-las de novo, como o idiota que era.</p><p>� E voc�, Mat? � indagou Nalesean, puxando as r�deas para se aproximar. � J� pensou alguma vez em como seria ser Guardi�o?</p><p>Mat quase deixou cair as pedras. Daerid e Talmanes o encaravam, muito suados, esperando a resposta. O sol j� deslizava em dire��o ao horizonte, e em pouco tempo teriam que parar. O crep�sculo parecia durar cada vez mais conforme os dias iam se encurtando, mas Mat queria j� estar sossegado com seu cachimbo quando a noite enfim ca�sse. E, al�m do mais, aquele era o tipo de terreno onde era muito f�cil os cavalos quebrarem as pernas, se viajassem no escuro. Os cavalos e os homens.</p><p>Vinham do norte, e o Bando se estendia atr�s dele, patas de cavalos e p�s humanos levantando um rastro de poeira. Os estandartes drapejavam ao vento, mas os tambores estavam quietos conforme o grupo atravessava as colinas baixas cobertas por um matagal esparso com aglomerados de �rvores aqui e ali. Avan�avam mais r�pido do que Mat imaginara: fazia onze dias que tinham partido de Maerone, mas j� estavam na metade do caminho � talvez um pouco al�m � para Tear. E s� tinham gastado um dia inteiro com o descanso dos cavalos. Claro que n�o sentia a menor pressa para tomar o lugar de Weiramon, mas n�o conseguia deixar de se perguntar quanto mais conseguiriam percorrer se avan�assem entre o nascer e o p�r do sol, caso precisassem. At� ali, o m�ximo que tinham conseguido era quarenta e cinco milhas de uma s� vez. Claro que os carro��es com mantimentos levariam metade da noite para alcan��-los, mas, nos �ltimos dias, os homens a p� tinham feito quest�o de demonstrar que conseguiriam acompanhar os cavalos ao longo da viagem, ainda que n�o se mantivessem emparelhados com os animais a todo momento.</p><p>Um pouco mais para tr�s, a leste, havia um grupo de Aiel no topo de uma eleva��o cercada por �rvores, todos correndo sem a menor dificuldade, diminuindo a dist�ncia pouco a pouco. Deviam estar viajando desde o nascer do sol e era certo que continuariam avan�ando at� o cair da noite � isso se n�o avan�assem por mais tempo. Se passassem pelo Bando enquanto ainda houvesse luz para v�-los, seria um bom est�mulo para os homens no dia seguinte. Sempre que os Aiel os ultrapassavam, os homens pareciam dispostos a tentar avan�ar uma ou duas milhas a mais no dia seguinte.</p><p>Algumas milhas � frente, os aglomerados de �rvores iam se alargando at� virarem outra vez uma floresta densa, ent�o era melhor descerem para um pouco mais perto do Erinin antes de avan�arem at� a mata. Quando chegaram no topo de uma colina, Mat avistou o rio, onde os cinco barcos que haviam sido contratados ostentavam o estandarte da M�o Vermelha, enquanto outros quatro barcos � que transportavam principalmente forragem para os cavalos � voltavam a Maerone para serem recarregados. O que ele n�o conseguia avistar ainda, mas que sabia que estava l�, era as pessoas que andavam ao longo das margens, algumas rio acima, outras rio abaixo, e algumas mudando de dire��o sempre que encontravam um grupo liderado por algu�m com alguma l�bia. Umas poucas tinham carro�as, que em geral eram puxadas por seus pr�prios donos, e outras tinham carro��es, mas a maioria levava apenas o que podia carregar � at� os salteadores mais obtusos j� tinham aprendido que n�o havia por que gastar tempo com aquela gente. Mat n�o fazia ideia de para onde aquele povo ia � coisa que nem mesmo aquelas pessoas sabiam �, mas o fluxo de gente ainda era o suficiente para congestionar aquela trilha rid�cula ao longo do rio, que muitos teimavam em chamar de estrada. O Bando ganhava tempo indo ali por cima. Se tentassem seguir pela trilha no mesmo ritmo, precisariam abrir caminho a pauladas.</p><p>� Um Guardi�o? � repetiu Mat, guardando as pedras no alforje. Conseguiria encontrar mais pedras daquelas em qualquer lugar que fosse, mas gostava das cores das que tinha. Tamb�m estava guardando uma pena de �guia, uma pedra desgastada, branca como a neve, que, no passado, devia ser coberta de entalhes. Tamb�m ficara tentado a levar consigo um pedregulho que parecia ter sido a cabe�a de alguma est�tua, mas para isso precisaria de um carro��o. � Nunca. S�o um bando de tolos, idiotas o bastante para se deixar serem arrastados pela orelha por uma Aes Sedai. De onde voc� tirou essa ideia de jerico?</p><p>Nalesean deu de ombros. Estava bastante suado, mas mesmo assim usava o casaco � que naquele dia era vermelho com listras azuis � abotoado at� o pesco�o. O casaco de Mat estava aberto, mas mesmo assim ele sentia como se estivesse assando ao sol.</p><p>� Acho que foi por causa das Aes Sedai ali perto � sugeriu o taireno. � Que me queime a alma, mas n�o d� para n�o pensar. Quer dizer, que me queime a alma, o que elas est�o tramando?</p><p>Ele estava falando das Aes Sedai no outro lado do Erinin, que, segundo os batedores, estavam subindo e descendo o rio �s pressas, um pouco mais r�pido que os andarilhos na outra margem.</p><p>� O que eu acho � que � melhor n�o pensar nelas � retrucou Mat.</p><p>Atrav�s da camisa, tocou a cabe�a de raposa de prata. Mesmo com ela, ficou feliz em saber que as Aes Sedai estavam do outro lado do rio. Alguns dos seus soldados viajavam naquelas embarca��es, e, mesmo havendo poucas aldeias, seguiam as ordens de Mat e atracavam sempre que passavam por algu�m na margem oposta, s� para saber que not�cias o viajante trazia. At� aquele momento, as not�cias n�o tinham sido nada reveladoras e eram quase sempre desagrad�veis. Aquele monte de Aes Sedai por ali era o menor dos problemas.</p><p>� E como n�o pensar nelas? � questionou Talmanes. � Acha que a Torre controlava mesmo Logain?</p><p>Aquela era uma das novidades, uma not�cia que chegara havia apenas dois dias.</p><p>Mat tirou o chap�u apenas por tempo suficiente para enxugar a testa. Quando ca�sse a noite, ficaria um pouco mais fresco. Mas continuaria sem vinho, sem cerveja, sem mulheres e sem jogos. Quem � que virava soldado por op��o?</p><p>� Eu, por mim, acho que n�o duvido de quase nada vindo das Aes Sedai. � Ele deslizou o dedo por tr�s do cachecol preso ao pesco�o e o afrouxou. Uma coisa boa em ser Guardi�o, pelo que sabia de Lan, era que eles pareciam n�o suar. � Mas isso? Veja, Talmanes, mais f�cil eu acreditar que voc� � uma Aes Sedai. E voc� n�o �, �?</p><p>Daerid se curvou sobre o cepilho da sela de tanto gargalhar, e Nalesean quase caiu do cavalo. Talmanes ficou muito r�gido, mas acabou sorrindo � at� quase riu: o sujeito podia n�o ter muito senso de humor assim, mas tinha alguma coisa.</p><p>A seriedade logo voltou.</p><p>� E os Devotos do Drag�o? Se for verdade, Mat, temos um problema.</p><p>O coment�rio cortou a gargalhada dos outros como se tivesse sido decepada por um machado.</p><p>Mat fez careta. Aquela era a �ltima not�cia � ou boato, ficava a gosto do fregu�s � que chegara, no dia anterior: uma aldeia incendiada em algum lugar de Murandy. E pior, pelo que se dizia, tinham matado todos que n�o jurassem fidelidade ao Drag�o Renascido, executando as fam�lias junto.</p><p>� Rand vai resolver isso. Se for verdade. Aes Sedai, Devotos do Drag�o, isso tudo � problema dele e a gente n�o tem nada com isso. Temos nossos pr�prios problemas.</p><p>Claro que aquilo n�o diminuiu a preocupa��o no rosto de nenhum deles. J� tinham visto muitas aldeias incendiadas, e todos suspeitavam de que veriam outras tantas logo que chegassem a Tear. Quem � que queria ser soldado?</p><p>Um cavaleiro despontou o topo da colina logo � frente e vinha galopando at� eles. O sujeito fez o cavalo saltar por cima dos arbustos, em vez de desviar, mesmo na descida. Mat sinalizou para que os homens parassem e acrescentou:</p><p>� Nada de trompetes.</p><p>A ordem foi viajando atr�s dele, em murm�rios, mas Mat manteve o olhar fixo no cavaleiro.</p><p>Transpirando aos borbot�es, Chel Vanin puxou as r�deas do cap�o pardo bem diante de Mat. Usava um casaco cinza grosseiro que ca�a como um saco no corpo calvo e tamb�m se sentava na sela como se fosse um saco. Vanin era gordo, e n�o havia como disfar�ar. Por�m, por mais improv�vel que fosse, conseguia cavalgar qualquer coisa viva e era muito bom nisso.</p><p>Muito antes de chegarem a Maerone, Mat surpreendera Nalesean, Daerid e Talmanes pedindo os nomes dos melhores ca�adores ilegais e ladr�es de cavalo entre seus homens � gente que eles sabiam que eram culpados, mas contra os quais n�o se podia provar nada. Os dois nobres n�o quiseram admitir que tinham esse tipo de gente sob seu comando, mas, depois de certa insist�ncia, acabaram revelando os nomes de tr�s cairhienos, dois tairenos e � para surpresa de Mat � dois andorianos. Achava que nenhum andoriano estivesse entre eles por tempo suficiente para j� ter aquela fama, mas parecia que as not�cias se espalhavam r�pido.</p><p>Mat chamou os sete sujeitos de lado e explicou que precisava de batedores, e um bom batedor utilizava praticamente as mesmas habilidades que um ca�ador ilegal ou um ladr�o de cavalos. Ignorando as negativas fervorosas de que eles j� tivessem cometido qualquer tipo de crime � cada um soltou mais negativas do que Talmanes e Nalesean juntos, e com a mesma eloqu�ncia, ainda que com palavras bem mais vulgares �, Mat ofereceu perd�o para quaisquer delitos praticados antes daquele dia, al�m de o triplo do pagamento e nenhum requisito sobre como conduziriam o trabalho, contanto que lhe contassem a verdade. Alertou que seriam enforcados logo na primeira mentira. Muitos homens podiam acabar mortos por causa de uma mentira de um batedor. Mesmo com a amea�a, todos toparam sem nem pestanejar � claro que devia ser mais pelo trabalho f�cil do que pela prata extra.</p><p>S� que sete n�o bastavam, ent�o Mat tratou de pedir que sugerissem outros, tendo em mente o que ele dissera sobre as habilidades necess�rias e sem esquecer que eles conseguirem ficar vivos para coletar o pagamento triplo dependeria em grande medida da capacidade dos homens que indicassem. Aquilo gerou muito co�ar de queixos e olhares nervosos, mas os homens acabaram oferecendo mais onze nomes, sempre enfatizando que n�o estavam acusando os tais sujeitos de nada. Onze homens, todos ca�adores ilegais e ladr�es de cavalo bons o bastante para que nem Daerid nem Talmanes tivessem suspeitado deles, mas n�o o suficiente para passarem despercebidos pelos sete primeiros. Mat lhes fez a mesma oferta, tornando a pedir mais nomes. Quando chegou ao ponto em que n�o conseguia mais nenhuma nova indica��o, Mat j� contava com quarenta e sete batedores. Os tempos dif�ceis tinham levado muitos homens a se tornarem soldados, em vez de seguirem o of�cio que teriam preferido.</p><p>O �ltimo, apontado por todos os tr�s que foram recomendados antes dele, era Chel Vanin, um andoriano que antes morava em Maerone, mas que sempre atuara muito nas duas margens do Erinin. Vanin era capaz de roubar os ovos de uma f�mea de fais�o ainda no ninho sem nem perturb�-la, embora fosse mais prov�vel que ele levasse a coitada da ave junto. Vanin conseguia roubar um cavalo com o nobre ainda montado na sela, e o sujeito s� descobriria dois dias depois. Ao menos foi o que disseram a seu respeito, sempre em tom de admira��o. Com o sorriso faltando alguns dentes e um olhar da mais absoluta inoc�ncia no rosto redondo, Vanin protestara, alegando que n�o passava de um mero cavalari�o e, quando conseguia, mantinha o of�cio de ferrador � mas completou dizendo que aceitaria o trabalho pelo qu�druplo do pagamento normal do Bando. At� aquele momento, o pagamento mais do que valera a pena.</p><p>Sentado em seu cap�o pardo diante de Mat naquele topo de colina, Vanin parecia incomodado. O sujeito ficara feliz com o fato de Mat n�o querer ser tratado por �milorde�, j� que n�o gostava muito de fazer rever�ncias, mas mesmo assim tocou a testa com os dedos, em uma esp�cie de sauda��o.</p><p>� Acho que tem uma coisa que voc� precisa ver. N�o sei o que dizer, voc� tem que ver com seus pr�prios olhos.</p><p>� Esperem aqui � ordenou Mat aos demais. Virou-se para Vanin e completou: � Me mostre.</p><p>N�o era muito longe, cruzaram apenas as duas colinas seguintes e subiram ao longo de um regato sinuoso com margens largas de lama seca. O cheiro anunciou o que Vanin queria que Mat visse antes que os primeiros abutres bamboleassem e levantassem voo � muitos dos p�ssaros s� bateram as asas por umas poucas passadas antes de voltarem a pousar, sacudindo as cabe�as peladas e guinchando provoca��es, mas o pior foram os que nem tiraram a cabe�a do jantar, formando um amontoado de penas negras manchadas.</p><p>Havia um carro��o tombado na passagem. Mais parecia uma casinha sobre rodas, e a madeira em tons intensos de verde, azul e amarelo o marcava como a morada de Latoeiros. Da caravana em volta, poucos carro��es tinham escapado do fogo. Havia corpos por toda parte, homens, mulheres e crian�as com roupas coloridas rasgadas e escurecidas pelo sangue seco. Parte de Mat analisou tudo aquilo com frieza, mas o restante queria vomitar ou sair correndo, qualquer coisa que n�o fosse ficar ali, sentado no dorso de Pips. Os agressores tinham vindo do oeste. Quase todos os corpos de homens e garotos mais velhos estava por ali, misturados ao que ainda restava de v�rios c�es grandes, como se tivessem tentado formar uma barreira para deter os assassinos enquanto as mulheres e crian�as fugiam. Uma luta in�til. Cad�veres empilhados indicavam o lado para onde tinham tentado fugir, quando veio o segundo ataque. S� os abutres se moviam pela cena.</p><p>Vanin cuspiu por uma fresta entre os dentes, enojado.</p><p>� A gente sempre tem que expulsar esses da� antes que eles roubem muita coisa. E se a pessoa n�o ficar esperta, eles pegam as crian�as e levam pra criar. E de vez em quando � preciso dar uns chutes para eles irem embora mais r�pido, mas isso n�o se faz. Quem seria capaz de uma barbaridade dessas?</p><p>� N�o sei. Ladr�es, talvez.</p><p>De fato, os cavalos n�o estavam por ali. Mas ladr�es sempre queriam apenas roubar, n�o matar, e nenhum Latoeiro resistiria, nem se quisessem levar sua �ltima moeda e os fizessem tirar a roupa do corpo, do casaco �s botas. Mat se obrigou a diminuir o aperto das m�os nas r�deas. N�o havia para onde se virar sem esbarrar os olhos em uma mulher ou crian�a morta. Quem tinha feito aquilo, fosse quem fosse, n�o queria sobreviventes. Deu uma volta na �rea, bem devagar, tentando ignorar os guinchos dos abutres, que abriam as asas � sua passagem. O ch�o estava seco demais para exibir rastros precisos do que acontecera, mas, pelo que via, Mat achava que os cavalos tinham fugido por todos os lados, na hora da confus�o. Voltou para perto de Vanin.</p><p>� Voc� poderia ter me contado � protestou. � Eu n�o precisava ver.</p><p><emphasis>Luz, n�o precisava!</emphasis></p><p>� Eu podia ter contado que n�o encontrei nenhum rastro � retrucou Vanin, virando o cavalo e avan�ando pelo regato raso. � Mas achei que o senhor precisava ver isto aqui.</p><p>O carro��o tombado de lado fora quase completamente consumido pelo fogo, mas o anexo sobre rodas amarelas de aros vermelhos, onde ficava a cama, permanecera intacto. Um sujeito metido em um casaco escurecido pelas chamas, ainda com alguns peda�os remanescentes do tecido de um tom azul de doer os olhos, jazia estatelado contra a parede de madeira, uma das m�os coberta de sangue seco enegrecido e ca�da aberta para o lado. Ele escrevera uma mensagem no carro��o intocado, e as letras tr�mulas se destacavam, mais escuras que a madeira de fundo:</p><cite><p>CONTE AO DRAG�O RENASCIDO</p></cite><p><emphasis>Contar</emphasis> o qu�?, pensou Mat. Que algu�m assassinara uma caravana inteira de Latoeiros? Vai ver o homem tinha morrido antes de conseguir completar a frase. N�o seria a primeira vez que um grupo de Latoeiros encontrava alguma informa��o importante. Se fosse uma hist�ria, o sujeito teria vivido por tempo suficiente para conseguir escrever aquele trecho vital que levaria � vit�ria do bem. Ora, fosse qual fosse a mensagem, ningu�m �quela altura iria descobrir mais nenhuma palavra.</p><p>� Voc� estava certo, Vanin � concordou Mat. Ent�o hesitou. Contar o que para o Drag�o Renascido? N�o tinha por que gerar ainda mais boataria. � Antes de ir embora, cuide de queimar o que resta desse carro��o. E, se algu�m perguntar, s� o que tinha por aqui eram homens mortos.</p><p>E mulheres, e crian�as.</p><p>Vanin aquiesceu.</p><p>� Esses selvagens imundos � resmungou, cuspindo outra vez pelo buraco do sorriso. � Acho at� que pode ter sido um grupo deles.</p><p>O sujeito estava reclamando do grupo de Aiel que enfim os alcan�ara, cerca de trezentos ou quatrocentos homens. Vinham trotando encosta abaixo e cruzaram o regato a n�o mais que cinquenta passadas dos carro��es. Alguns ergueram a m�o em cumprimento. Mat n�o reconheceu nenhum rosto, mas muitos dos Aiel j� tinham ouvido falar do amigo de Rand al�Thor, um sujeito de chap�u contra o qual era melhor n�o apostar. Depois de atravessado o regato e subido a encosta seguinte, os Aiel seguiram em frente � para eles, todos aqueles corpos podiam muito bem nem ter existido.</p><p><emphasis>Malditos Aiel</emphasis>, pensou Mat. Sabia que os Aiel evitavam os Latoeiros, que os ignoravam. N�o sabia bem por qu�, mas aquilo�</p><p>� Mas acho que n�o foram eles � opinou. � N�o se esque�a de tocar fogo no carro��o, Vanin.</p><p>Talmanes e os outros dois estavam no mesm�ssimo lugar onde os deixara, claro. Quando Mat contou o que havia � frente e explicou que precisariam designar alguns destacamentos para os enterros, os homens assentiram com tristeza. E Daerid resmungou, descrente:</p><p>� Latoeiros?</p><p>� Vamos acampar aqui � acrescentou Mat.</p><p>Esperava algum coment�rio em protesto � ainda havia luz para avan�arem mais algumas milhas, e aqueles tr�s tamb�m tinham se envolvido nos debates sobre quanto o Bando conseguiria avan�ar por dia, tinham at� feito suas apostas. Mas Nalesean s� respondeu:</p><p>� Vou mandar um homem ir l� embaixo dar um sinal para os navios, antes que se distanciem demais.</p><p>Talvez os tr�s tamb�m se sentissem como ele. A menos que dessem uma grande volta para chegarem ao rio, n�o haveria como evitar ao menos a vis�o dos abutres espalhados pelo c�u acima dos destacamentos. S� porque o sujeito j� tinha visto a morte de perto n�o significava que ia querer ver uma coisa daquelas. Mat, de sua parte, achava que acabaria esvaziando o est�mago se visse aqueles p�ssaros mais uma vez. Pela manh�, haveria apenas t�mulos � e bem longe do alcance dos olhos.</p><p>Mas a cena n�o sa�a da cabe�a, mesmo depois de sua tenda ter sido montada bem no topo daquela colina, onde talvez passasse uma brisa do rio, caso surgisse alguma brisa. Corpos destro�ados por assassinos, bicados por abutres. Fora pior que na batalha contra os Shaido, nos arredores de Cairhien. Algumas Donzelas tinham morrido naquela batalha, mas Mat pelo menos n�o vira nenhuma, e n�o houvera crian�as. Os Latoeiros n�o lutavam nem para defender a pr�pria vida. Ningu�m matava o Povo Errante. Mat mal tocou na sua por��o de carne com feij�o e se recolheu o mais cedo poss�vel. Nem mesmo Nalesean queria conversar, e Talmanes parecia mais tenso do que nunca.</p><p>A not�cia da matan�a se espalhara. Uma quietude in�dita tomou o acampamento. Em geral, a escurid�o da noite era cortada por pelo menos algumas gargalhadas, e muitas vezes as can��es desafinadas e de gosto duvidoso quebravam o sil�ncio at� que os porta-estandartes finalmente convenciam o grupo dos que n�o admitiriam estar cansados a irem dormir. Aquela noite era como nas vezes em que tinham encontrado uma aldeia que ainda n�o enterrara seus muitos mortos ou um grupo de refugiados assassinados enquanto tentavam evitar que bandidos levassem o pouco que possu�am. Poucos conseguiam rir ou cantar depois de cenas como aquelas, e quase sempre eram silenciados pelos outros.</p><p>Mat ficou deitado, fumando seu cachimbo enquanto a noite ca�a. A tenda estava fechada para visitas, mas o sono n�o viria, com tantas mem�rias de Latoeiros mortos � e outras mem�rias, mais antigas, de outros mortos mais antigos. Eram batalhas demais, mortos demais. Dedilhou a lan�a, tateando a inscri��o na L�ngua Antiga ao longo do cabo preto.</p><poem><stanza><v>Eis o que foi acordado, tratado sa�do a contento.</v><v>O pensamento � a flecha do tempo, a lembran�a jamais se apaga.</v><v>O que foi pedido est� dado. O pre�o assim se paga.</v></stanza></poem><p>Ficara com a pior parte daquele trato.</p><p>Depois de um tempo, Mat pegou um cobertor. Hesitou um instante, ent�o pegou tamb�m a lan�a e saiu da tenda s� com as roupas de baixo, o pingente de prata de cabe�a de raposa em seu peito desnudo refletindo a luz da nesga de lua no c�u. Uma leve brisa soprava, um discreto revolver do vento com um frescor m�nimo que mal fazia o estandarte da M�o Vermelha tremular no mastro cravado no ch�o diante da tenda. Ainda assim era melhor do que l� dentro.</p><p>Mat estendeu o cobertor entre os arbustos e se deitou de peito para cima. Quando era garoto, �s vezes se deitava ao relento e dormia identificando as constela��es. Naquele c�u claro, a lua, mesmo minguante, proporcionava luz suficiente para ofuscar quase todas as estrelas, mas ainda deixava algumas. L� estavam a Carro�a de Feno, bem acima de sua cabe�a; assim como as Cinco Irm�s e, mais ao lado, os Tr�s Gansos, indicando o norte. A constela��o do Arqueiro, a do Fazendeiro, a do Ferreiro, a da Serpente � que os Aiel chamavam de Drag�o. E tamb�m a do Escudo, que alguns chamavam de �Escudo de Asa-de-gavi�o� � ver aquelas estrelas o deixou meio agitado: em algumas das suas mem�rias, n�o gostava nem um pouco de Artur Paendrag Tanreall �, al�m de a do Cervo e a do Carneiro. Ah, e logo ali a da X�cara e a da Viajante, o cajado bem destacado.</p><p>Mat ouviu um barulho, mas n�o conseguiu identificar o que era. Se a noite n�o estivesse t�o parada, o ru�do t�nue poderia n�o ter parecido furtivo, mas, com a calmaria, foi exatamente essa a impress�o que passou. Quem estaria se esgueirando ali por cima? Curioso, Mat ergueu o tronco, apoiando-se s� no cotovelo � e congelou.</p><p>Vultos se moviam ao redor de sua tenda, sombras ao luar. A lua iluminou um deles o suficiente para que Mat identificasse um rosto velado. Seriam Aiel? Como assim, pela Luz? Em sil�ncio, os vultos cercaram a tenda e se aproximaram cada vez mais. O brilho do metal reluziu na noite, e Mat ouviu o tecido ser rasgado, ent�o todos sumiram de vista. Sa�ram da tenda apenas um momento depois, muito atentos ao acampamento em volta. Havia luz suficiente para notar sua inquieta��o.</p><p>Mat ergueu o corpo, mas permaneceu de c�coras. Se ficasse abaixado, talvez conseguisse escapulir sem ser ouvido.</p><p>� Mat! � gritou Talmanes, para o alto da colina. Pela voz, parecia b�bado.</p><p>Ficou im�vel. Talvez Talmanes fosse embora, se achasse que ele estava dormindo. Os Aiel pareciam ter desaparecido, mas Mat tinha certeza de que s� haviam se abaixado exatamente onde estavam.</p><p>O som das botas de Talmanes contra o ch�o foi ficando mais perto.</p><p>� Tenho um pouco de conhaque aqui, Mat. Acho que voc� devia tomar um gole. � bom para os sonhos. Voc� n�o vai se lembrar de nenhum.</p><p>Mat se perguntou se, caso sa�sse correndo, os Aiel o ouviriam por cima do alarde de Talmanes. Estava a pouco mais de dez passadas dos homens adormecidos mais pr�ximos � naquela noite, era o Primeiro Estandarte do Cavalo, os Raios de Talmanes, que ganharam a �honra� de cerc�-lo naquela noite �, mas os Aiel estavam a menos de dez passadas, ao lado de sua tenda. Os homens do Deserto eram r�pidos, mas, com duas passadas de vantagem, Mat achava que conseguiria ter cinquenta homens quase ao alcance quando os Aiel o alcan�assem.</p><p>� Mat? Sei que que voc� n�o est� dormindo. Vi sua cara, mais cedo. Vai melhorar depois que voc� matar os sonhos. Pode acreditar.</p><p>Mat ficou agachado, agarrando a espada, e respirou fundo. S� precisava de duas passadas de vantagem.</p><p>� Mat? � Talmanes estava mais perto. A qualquer momento, o idiota acabaria pisando em um Aiel. Acabaria com a garganta cortada, e os agressores n�o fariam nem um ru�do.</p><p><emphasis>Que a Luz o queime</emphasis>, Mat pensou.<emphasis> S� preciso de duas passadas.</emphasis></p><p>� �s armas! � gritou, dando um pinote e se levantando de vez. � Os Aiel est�o atacando! � Saiu correndo encosta abaixo. � Todos para o estandarte! Todos para a M�o Vermelha! Corram, seu bando de ladr�es de tumba!</p><p>Aquilo acordou todos em volta � claro, o que mais poderia acontecer, com Mat berrando feito um touro no estouro da boiada? Ouviu gritos de todas as dire��es. Os tambores come�aram a ribombar, os trompetes ressoavam em convoca��o. Homens do Primeiro Cavalo irromperam dos len��is e sa�ram correndo em dire��o ao estandarte, espadas em riste.</p><p>Ainda assim, o fato era que os Aiel tinham uma dist�ncia menor a percorrer do que os soldados e sabiam o que estavam procurando. Por instinto, por sorte ou simplesmente por ser <emphasis>ta�veren�</emphasis>��Mat com certeza n�o ouviu nada em meio �quele alvoro�o �, algo o fez se virar justo no instante em que o primeiro vulto de v�u apareceu atr�s de si, como se brotando do ar. N�o teve nem tempo para pensar. Bloqueou a investida de uma lan�a Aiel com o cabo de sua lan�a estranha, mas o sujeito defendeu o contra-ataque com um broquel e deu um chute na barriga de Mat. O desespero lhe deu for�as para manter as pernas eretas, mesmo sem nenhum ar nos pulm�es, e Mat desviou depressa para o lado, escapando de uma ponta de lan�a que tentava se enfiar entre suas costelas. Ent�o passou o cabo de sua pr�pria lan�a por tr�s das pernas do Aiel, derrubando-o, e enfiou a ponta da arma no cora��o do agressor. Luz, torcia para que fosse um homem.</p><p>Mat sacudiu a lan�a, soltando a l�mina bem a tempo de se defender do ataque seguinte. <emphasis>Eu devia ter fugido quando tive a chance!</emphasis> Come�ou a usar a lan�a feito um bast�o, os golpes fluindo em movimentos mais r�pidos e intensos do que em toda a vida, girando e bloqueando investidas de lan�as Aiel. N�o tinha nem tempo de contra-atacar. Eram muitos. <emphasis>Devia ter fechado essa minha matraca e dado no p�!</emphasis> Conseguiu recuperar o f�lego.</p><p>� Avancem, seus ladr�es de ovelha com tripas de pombo! Est�o surdos? Limpem esses ouvidos e venham logo!</p><p>Mat come�ou a se perguntar por que ainda n�o estava morto � tivera sorte na luta contra aquele primeiro Aiel, mas n�o havia sorte que desse conta daquilo tudo �, at� que reparou que n�o estava mais sozinho. Viu um cairhieno magricela s� de roupas de baixo cair ali perto, quase aos seus p�s, com um grito estridente. O sujeito logo foi substitu�do por um taireno, a camisa solta tremulando, a espada rodopiando sem parar. Outros homens se amontoaram, aos berros de �Lorde Matrim, vit�ria!�; �Avante M�o Vermelha!� e �Matem esses vermes!�</p><p>Mat recuou, deixando os soldados darem conta daquilo. <emphasis>Tolo � o general que lidera na linha de frente.</emphasis> As palavras vinham de uma daquelas mem�rias antigas, a fala de algu�m cujo nome n�o acompanhara a lembran�a. <emphasis>Os homens morrem f�cil, na linha de frente.</emphasis> Aquele pensamento era s� dele, mesmo.</p><p>No fim das contas, foi mesmo uma quest�o de n�meros. Eram pouco mais de dez Aiel contra v�rias centenas de homens, se n�o o Bando inteiro, que conseguiram chegar no topo da colina antes que a coisa toda terminasse. Os Aiel morreram e, como se tratava de Aiel, levaram quase vinte homens do Bando, deixando o dobro de gente ou at� mais sangrando, mas ainda vivos para se lamuriar. Mesmo tendo passado pouco tempo em luta, Mat estava dolorido e sangrava de cinco cortes diferentes � e suspeitava de que pelo menos tr�s precisariam de suturas.</p><p>A lan�a serviu bem como bengala quando Mat foi mancando at� Talmanes, estirado no ch�o com Daerid amarrando um torniquete em sua perna esquerda.</p><p>Havia duas manchas escuras na camisa branca de Talmanes.</p><p>� Parece que Nerim vai ter outra chance de treinar suas m�os de costureira na minha pele � comentou, ofegante. � Que o queime, ele tem patas de touro.</p><p>Nerim era servi�al de Talmanes e remendava a pele de seu senhor com quase a mesma frequ�ncia com que remendava as roupas do nobre.</p><p>� Ele vai ficar bem? � perguntou Mat, baixinho.</p><p>Daerid deu de ombros. Estava s� de bombachas.</p><p>� Acho que ele est� sangrando menos que voc�. � Quando o sujeito ergueu a cabe�a para responder, Mat notou que ele teria uma nova cicatriz para a cole��o que ostentava no rosto. � Foi bom ter sa�do da frente deles, Mat. Ficou bem claro que vieram atr�s de voc�.</p><p>� Que bom que n�o conseguiram o que queriam. � Talmanes se esfor�ou para ficar de p�, fazendo uma careta de dor enquanto se apoiava com o bra�o por sobre o ombro de Daerid. � Seria uma pena perder a sorte do Bando para uns selvagens que apareceram no meio da noite.</p><p>Mat pigarreou.</p><p>� Tamb�m fiquei pensando nisso.</p><p>Lembrou-se dos Aiel desaparecendo tenda adentro e estremeceu. Luz, por que aqueles Aiel queriam acabar com ele?</p><p>Nalesean apareceu, vindo de onde tinham disposto os corpos dos Aiel. Ainda estava com o casaco, apesar de desabotoado, e n�o parava de olhar feio para uma mancha de sangue na lapela � talvez fosse seu pr�prio sangue, talvez n�o.</p><p>� Que minha alma queime, sabia que mais cedo ou mais tarde esses selvagens iam nos atacar. Acho que eram parte daquele grupo que nos passou, mais cedo.</p><p>� Duvido � contestou Mat. � Se aqueles Aiel estivessem atr�s de mim, teriam me enfiado num espeto e me colocado para assar no fogo antes que qualquer um de voc�s notasse minha aus�ncia. � Ele deu um jeito de ir mancando at� os corpos dos Aiel e examinou um a um, usando a luz de uma lanterna que tinham trazido para ampliar sua vis�o � luz do luar. O al�vio de encontrar apenas rostos masculinos quase fez seus joelhos bambearem. N�o conhecia nenhum daqueles homens, mas de fato n�o conhecia muitos Aiel. � Devem ser Shaido � sugeriu, voltando com a lanterna para junto dos outros.</p><p>Poderiam ser Shaido. Poderiam ser Amigos das Trevas � Mat tinha plena consci�ncia de que havia Amigos das Trevas entre os Aiel. E claro que Amigos das Trevas tinham muitos motivos para querer v�-lo morto.</p><p>� Amanh� acho que dever�amos tentar encontrar uma daquelas Aes Sedai no outro lado do rio � ponderou Daerid. � Nosso Talmanes aqui vai sobreviver, a menos que todo o conhaque tenha vazado pelos cortes, mas alguns dos outros feridos talvez n�o tenham tanta sorte.</p><p>Nalesean n�o se pronunciou, mas deu um grunhido que j� dizia muita coisa. Ele era taireno, afinal � gostava menos das Aes Sedai do que Mat.</p><p>Mesmo assim, Mat n�o hesitou em concordar. N�o permitiria que Aes Sedai nenhuma canalizasse nele � de certo modo, cada cicatriz era a marca de uma pequena vit�ria, de mais uma ocasi�o em que evitara as Aes Sedai �, mas n�o poderia pedir a um homem que morresse por ele. Depois de resolvido isso, tratou de falar sobre os outros assuntos que tinha em mente.</p><p>� Um fosso? � questionou Talmanes, descrente.</p><p>� Dando a volta em todo o acampamento? � A barba pontuda de Nalesean estremeceu quando ele falou. � A cada noite?</p><p>� E uma pali�ada?! � exclamou Daerid. Ent�o olhou em volta e baixou a voz: ainda havia soldados demais ali por perto, arrastando os mortos. � Os homens v�o se rebelar, Mat.</p><p>� N�o v�o, n�o. Quando a manh� raiar, cada homem aqui vai saber que os Aiel se esgueiraram por todo o acampamento para chegar � minha tenda. Metade n�o vai nem mais dormir, com medo de acordar com uma lan�a nas costelas. Voc�s tr�s tratem de garantir que eles entendam direitinho como uma pali�ada pode evitar que os Aiel entrem outra vez no acampamento. � Bem, se n�o os impedisse, pelo menos os atrasaria. � Agora v�o embora, quero dormir pelo menos um pouco esta noite.</p><p>Depois que os nobres sa�ram, Mat examinou sua tenda. Havia cortes compridos nas paredes de tecido, as frestas por onde os Aiel tinham entrado, e o tecido meio solto volta e meia balan�ava com a brisa. Com um suspiro, foi voltando para o len�ol em meio aos arbustos, ent�o parou. Lembrou-se do barulho que o alertara. Os Aiel n�o tinham feito nenhum outro som, nem mesmo um farfalhar. Qualquer Aiel fazia tanto ru�do ao se mover quanto uma sombra. Ent�o de onde viera o barulho?</p><p>Apoiado na lan�a, mancando, Mat deu a volta na tenda, examinando o ch�o em volta. N�o tinha certeza do que estava procurando. N�o havia qualquer rastro que pudesse identificar � luz da lanterna. Duas das cordas da tenda tinham sido cortadas e pendiam ao longo das paredes de tecido, mas� Mat largou a lanterna no ch�o e tateou as cordas. O ru�do podia ter sido feito ao cortar uma corda tensionada, mas n�o era preciso cortar nenhuma corda para entrar na tenda. Algo chamou sua aten��o no �ngulo dos cortes, na forma como se alinhavam. Pegou a lanterna e iluminou em volta. Um arbusto pr�ximo estava com a lateral podada, e os resqu�cios dos galhos finos ainda cheios de folhinhas repousavam no ch�o. Tinha sido uma poda muito bem-feita: perfeitamente reta, as pontas dos galhos cortadas bem lisinhas, como se tivessem sido aplainadas por um marceneiro.</p><p>Mat sentiu um arrepio. Ali fora aberto um daqueles buracos que Rand usava para Viajar. J� era ruim o bastante ter Aiel tentando mat�-lo, mas ainda por cima tinham sido enviados por algu�m capaz de fazer um daqueles� port�es, como Rand chamava. Luz, se n�o estava a salvo dos Abandonados nem no meio do Bando, onde mais estaria? Ficou se perguntando como faria para dormir sob o brilho das tochas de seguran�a que teria que dispor ao redor da tenda. E os guardas � anunciaria uma guarda de honra, tentando amenizar um pouco a necessidade de escolher sentinela para ficar em torno da tenda. Da pr�xima vez, era prov�vel que mandassem cem Trollocs � ou mil �, em vez de um bando de Aiel. Quer dizer, ser� que ele era importante o bastante para merecer isso? Se decidissem que era, poderia acabar recebendo a visita de um dos Abandonados. Sangue e cinzas! N�o pedira para ser <emphasis>ta�veren</emphasis>, n�o pedira para ficar amarrado ao maldito Drag�o Renascido.</p><p>� Sangue e malditas�!</p><p>Foi alertado por um barulho de passos no ch�o seco e rachado. Com um rosnado, j� girou o corpo com a lan�a em riste� e conseguiu frear a investida a tempo: Olver gritou e caiu de costas, os olhos arregalados fixos na ponta de lan�a.</p><p>� Pelo maldito Po�o da Perdi��o, o que voc� est� fazendo aqui? � ralhou Mat.</p><p>� Eu� Eu� � O garoto parou para engolir em seco. � Est�o dizendo que cinquenta Aiel tentaram matar o senhor durante o sono, Lorde Mat, mas que o senhor deu conta de matar todos primeiro. Mas eu queria ver se est� tudo bem e se� Ah, veja: Lorde Edorion comprou sapatos para mim! � Ele ergueu o p� cal�ado.</p><p>Resmungando sozinho, Mat ajudou Olver a se levantar.</p><p>� N�o foi isso que eu perguntei. Por que voc� n�o ficou em Maerone? Edorion n�o encontrou ningu�m l� para cuidar de voc�?</p><p>� A mulher s� estava interessada nas moedas de Lorde Edorion, n�o queria nada comigo. E j� tinha seus pr�prios filhos, eram seis. Mestre Burdin me d� bastante comida, e s� preciso dar de comer e beber para os cavalos dele. E escovar o pelo tamb�m. E gosto disso, Lorde Mat. Mas ele n�o me deixa montar.</p><p>Algu�m pigarreou.</p><p>� Lorde Talmanes me enviou, milorde.</p><p>Era Nerim, um sujeito baixo at� para um cairhieno, muito magricela e grisalho, com um rosto tristonho que parecia dizer que nada ia bem, mas que, no fim das contas, ainda assim era um dia melhor do que a maioria.</p><p>� Se milorde me perdoar a intromiss�o, devo dizer que essas manchas de sangue nunca mais sair�o de suas roupas de baixo. Mas, se milorde me permitir, talvez eu consiga dar um jeito nesses cortes. � Nerim estava com a caixa de costura debaixo do bra�o. � Garoto, me arrume um pouco de �gua. E n�o quero ouvir nem um pio. �gua para milorde, e r�pido. � O criado de Talmanes aproveitou enquanto fazia uma rever�ncia para pegar a lanterna no ch�o. � Ser� que milorde n�o quer entrar? O ar da noite n�o � bom para ferimentos.</p><p>Pouco depois, Mat j� estava estirado ao lado das roupas de cama � afinal, �Milorde n�o vai querer manchar os len��is� �, permitindo que Nerim limpasse o sangue ressecado e suturasse as feridas. Talmanes tinha raz�o: no que dizia respeito � arte da agulha e linha, o criado era um excelente cozinheiro. Com Olver ali perto, n�o lhe restou escolha sen�o cerrar os dentes e aguentar a dor.</p><p>Tentando manter a mente bem longe da agulha de Nerim, Mat apontou para a bolsa de pano pendurada no ombro de Olver.</p><p>� O que tem a�? � perguntou, arfando.</p><p>Olver apertou a bolsa esfarrapada contra o peito. O garoto continuava magricela, mas pelo menos estava mais limpo. Os sapatos eram bem robustos, e as cal�as e a camisa de l� pareciam novas.</p><p>� � tudo meu � declarou, na defensiva. � N�o roubei nada. � Passado um momento, ele abriu a bolsa e foi retirando seus pertences: o par de cal�as sobressalente, as outras duas camisas e os pares de meias n�o despertaram o interesse de Mat, mas o garoto continuou listando o que tinha: � Esta aqui � a minha pena de falc�o-vermelho, Lorde Mat, e esta pedra aqui � da cor do sol. Est� vendo? � Ele mostrou uma bolsinha: � Tenho cinco moedas de cobre e uma de prata. � Ent�o revelou um pano enrolado, amarrado com um barbante, junto de uma caixinha de madeira: � Meu jogo de Cobras e Raposas. Foi meu pai que fez, ele mesmo desenhou o tabuleiro. � Ele franziu o cenho por um instante, consternado, ent�o prosseguiu: � E olhe s�, tem uma cabe�a de peixe grudada nesta pedra aqui. N�o tenho ideia de como o peixe foi parar nela. E este aqui � o meu casco de tartaruga, de uma tartaruga de dorso azul. D� para ver as listras?</p><p>Mat fez careta ao levar uma estocada particularmente forte da agulha de sutura e estendeu a m�o, tateando o pano enrolado. Ficava bem melhor quando respirava pelo nariz. Estranho como funcionavam aquelas lacunas em sua mem�ria. Sabia como jogar Cobras e Raposas, mas n�o tinha qualquer lembran�a de j� ter jogado.</p><p>� � mesmo um belo casco de tartaruga, Olver. J� tive um. De uma verde, essas que gostam de sol. � Mat esticou a m�o para o lado e pegou a bolsa, de onde pescou duas coroas de ouro cairhienas. � Pode botar essas aqui na sua bolsa, Olver. Os homens precisam sempre andar com um pouco de ouro.</p><p>Olver se retesou e come�ou a guardar seus pertences de volta.</p><p>� N�o sou de pedir dinheiro, Lorde Mat. Posso trabalhar por comida. N�o sou nenhum mendigo.</p><p>� N�o foi minha inten��o sugerir uma coisa dessas. � Mat tentou encontrar algum motivo para pagar as duas coroas ao garoto. � Eu� Eu preciso de algu�m para ser meu mensageiro. N�o posso pedir isso a ningu�m do Bando, est�o todos ocupados com suas tarefas de soldado. Claro que voc� teria que cuidar do seu pr�prio cavalo, n�o tenho como pedir para fazerem isso no seu lugar.</p><p>Olver se endireitou.</p><p>� Eu teria o meu pr�prio cavalo? � indagou, incr�dulo.</p><p>� Claro. Mas tem mais um detalhe. Meu nome � Mat. Se me chamar de <emphasis>Lorde</emphasis> Mat mais uma vez, vou arrancar seu nariz e dar um n�. � Mat soltou um berro e at� encolheu o corpo de tanta dor. � Que o queime, Nerim! Isto a� � uma perna, n�o uma droga de um bife!</p><p>� Como milorde quiser � murmurou Nerim. � Sua perna n�o � mesmo nenhum peda�o de bife. Obrigado, milorde, pelo esclarecimento.</p><p>Olver levou a m�o ao nariz, hesitante, como se considerasse se era poss�vel arranc�-lo para dar um n�.</p><p>Gemendo, Mat se endireitou. Tinha acabado de se comprometer com um garoto, e aquilo n�o fora nenhum favor ao coitado � n�o se Olver estivesse por perto, da pr�xima vez que os Abandonados tentassem reduzir a quantidade de <emphasis>ta�veren</emphasis> no mundo. Bem, se o plano de Rand funcionasse, haveria um Abandonado a menos. Se fosse s� pela vontade de Mat Cauthon, ficaria bem longe de confus�es e perigos at� que n�o existisse mais nenhum Abandonado.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 23</p><p><image l:href="#22"/></p><p>Para entender a mensagem</p></title><p>Graendal conseguiu se impedir de ficar olhando em volta quando entrou no aposento, mas o vestido de estraite ficou completamente negro antes que ela conseguisse retomar o autocontrole e voltar ao azul di�fano. Sammael fizera mudan�as suficientes para que qualquer pessoa que entrasse naquela c�mara se perguntasse se estava mesmo no Grande Sal�o do Conselho, em Illian. Bem, em todo caso, ficaria muito surpresa se algu�m al�m do pr�prio Sammael chegasse at� ali sem ter sido convidado � estava, afinal, bem dentro dos aposentos de �Lorde Brend�.</p><p>O ar tinha um frescor agrad�vel. Em um dos cantos estava o cilindro oco e vertical de um permutador. As esferas de luz, bem fortes e de brilho est�vel, destacavam-se estranhamente contra os pesados candelabros de ouro onde estavam apoiadas, iluminando muito mais intensamente do que as velas e lamparinas a �leo daquela Era. Uma caixinha de m�sica repousava no tampo de m�rmore da cornija da lareira, emitindo as suaves melodias das mem�rias de uma escultura sonora que, muito provavelmente, n�o era ouvida fora daquele aposento havia bem mais que tr�s mil anos. Al�m disso, reconheceu v�rias das obras de arte nas paredes.</p><p>Graendal parou diante da obra de Ceran Tol conhecida como �Ritmo do Infinito�. N�o era uma reprodu��o.</p><p>� Algu�m poderia pensar que voc� roubou um museu, Sammael. � Era dif�cil mascarar a inveja na voz, e ela s� deu conta de que falhara quando notou o discreto sorriso dele.</p><p>Sammael serviu vinho em dois c�lices de prata chanfrados e entregou um a Graendal.</p><p>� Foi s� uma caixa de estase que encontrei. Imagino que, nos �ltimos dias, tenham tentado guardar tudo o que podiam para a posteridade.</p><p>O sorriso de Sammael repuxava a cicatriz horrorosa que cruzava seu rosto. Ele foi atravessando a c�mara, mas se deteve para lan�ar um olhar afetuoso para o tabuleiro de zara, que projetava o campo de caixas transparentes e im�veis no ar. Sammael sempre apreciara os jogos violentos, e a presen�a de um tabuleiro de zara naquela caixa de estase s� podia indicar que um seguidor do Grande Senhor selecionara os itens para a posteridade � nos tempos antigos, estar de posse de uma �nica pe�a, que um dia tinha sido um ser humano, resultava em, no m�nimo, aprisionamento � quando a pessoa era pega pelo outro lado, ao menos. O que mais Sammael tinha encontrado?</p><p>Bebericando o vinho � e suprimindo um suspiro por ser um vinho comum daquela Era, quando tivera esperan�a de que fosse no m�nimo um delicado Satare ou ao menos um dos requintados Comolad �, Graendal alisou o vestido com os dedos cheios de an�is.</p><p>� Tamb�m encontrei uma, mas, fora um tanto de estraite, s� continha um monte de quinquilharias � admitiu.</p><p>Sammael a convidara para ir ali e a deixara ver aquilo tudo � era hora das confid�ncias, afinal. <emphasis>Pequenas</emphasis> confid�ncias, ao menos.</p><p>� Mas que infelicidade. � Sammael abriu outro sorriso discreto. Ele de fato encontrara mais do que brinquedos e quinquilharias bonitas. � Por outro lado, imagine s� como teria sido horr�vel abrir uma caixa e, digamos, incitar o ninho de um cafar. Ou uma jumara, ou qualquer uma das outras cria��ezinhas de Aginor. Sabia que tem jumaras � solta na Praga? E j� adultas, mas agora j� n�o conseguem atingir a metamorfose. S�o chamadas de Vermes.</p><p>Sammael gargalhou t�o alto que o corpo se balan�ou com a risada.</p><p>Graendal abriu um sorriso bem mais caloroso do que sentia, e, se o vestido mudou de cor, foi apenas em alguma leve nuance do tom. J� tivera uma experi�ncia bem desagrad�vel � na verdade, quase fatal � com uma das cria��es de Aginor. O homem fora brilhante, � verdade, mas fora um louco. S� um louco teria criado coisas como os <emphasis>gholam</emphasis>.</p><p>� Voc� parece de muito bom humor.</p><p>� E por que n�o deveria estar? � retrucou Sammael, expansivo. � Estou prestes a me apossar de alguns <emphasis>angreal</emphasis> escondidos, sem falar no que mais pode haver entre eles. Ah, n�o precisa fingir tanta surpresa, eu obviamente sei que voc� e os outros andam tentando espiar por cima dos meus ombros, na esperan�a de ter alguma dica de onde est�o esses <emphasis>angreal</emphasis>. Bem, n�o vai adiantar nada no seu caso. Ah, claro que vou compartilhar minha descoberta, mas s� depois de me apossar do que quer que seja e escolher os melhores primeiro.</p><p>Esparramando-se sobre uma poltrona coberta de bordados dourados � podiam at� ser de fios de ouro de verdade, o que seria bem de seu feitio �, Sammael apoiou o p� cal�ado sobre a ponta da outra bota e alisou a barba dourada.</p><p>� Al�m disso, mandei um emiss�rio para al�Thor. A resposta foi bem favor�vel.</p><p>Graendal quase cuspiu o vinho.</p><p>� Favor�vel? Ouvi dizer que ele matou o mensageiro.</p><p>Se Sammael se abalou por ela saber daquilo, conseguiu disfar�ar bem. Ele at� sorriu.</p><p>� Al�Thor n�o matou ningu�m; Andris foi at� l� para morrer. Acha mesmo que eu ficaria esperando algum animal mensageiro, um <emphasis>pombo</emphasis>? A morte dele foi o que me deu a resposta de al�Thor.</p><p>� Que foi? � indagou, cuidadosa.</p><p>� Uma tr�gua.</p><p>A Graendal, parecia que dedos g�lidos agarravam seus cabelos, tocando o couro cabeludo. N�o podia ser verdade. N�o podia, mas Sammael de fato parecia muito mais tranquilo do que da �ltima vez que o vira, desde o despertar.</p><p>� Lews Therin nunca�</p><p>� Lews Therin morreu faz tempo, Graendal � interrompeu ele, em um tom divertido, at� zombeteiro. Sem a menor raiva.</p><p>Fingindo beber, a mulher disfar�ou um suspiro. Podia mesmo ser verdade?</p><p>� Ele ainda est� reunindo seu ex�rcito em Tear. Eu vi com meus pr�prios olhos. N�o parece muito uma tr�gua.</p><p>Sammael nem se preocupou em disfar�ar a risada.</p><p>� Redirecionar um ex�rcito demora. Pode acreditar, aquele ex�rcito n�o vai se voltar contra mim.</p><p>� Acha mesmo que n�o? Um ou dois dos meus amiguinhos afirmam que ele quer voc� morto, depois de ter matado algumas de suas Donzelas de estima��o. Se eu fosse voc�, come�aria a pensar em morar em algum lugar menos vistoso, onde ele n�o me encontrasse t�o f�cil�</p><p>N�o se notava nem o mais leve tremelicar de c�lios nele. Era como se todas as cordinhas que antes o faziam se mexer tivessem sido cortadas.</p><p>� Quem liga para a morte de algumas Donzelas? � O rosto dele parecia cheio de uma confus�o genu�na. � Foi uma batalha, soldados morrem. Al�Thor pode ser fazendeiro, mas tem generais a seu lado para lutar suas batalhas e explicar como s�o as coisas. Duvido que tenha notado.</p><p>� Ah, voc� nunca olhou de verdade para essas pessoas. Elas mudaram tanto quanto a terra, Sammael. E n�o s� os Aiel. De muitas maneiras, os outros povos mudaram ainda mais. Aqueles soldados eram mulheres. Para Rand al�Thor, isso faz diferen�a.</p><p>O homem deu de ombros, desdenhoso, e Graendal reprimiu o desprezo que sentia, mantendo o estraite est�vel em um enevoado tranquilo. Sammael nunca conseguira compreender que era preciso entender as pessoas para faz�-las agir conforme sua vontade. A Compuls�o funcionava bem, era verdade, mas n�o podia ser usada com o mundo inteiro.</p><p>Graendal se perguntou se n�o era na verdade a caixa de estase � a mesma que guardara aquelas coisas expostas ali na c�mara � o achado que ele afirmava que logo teria em m�os. Se Sammael estivesse de posse de um �nico <emphasis>angreal</emphasis>� Bem, ela descobriria se fosse o caso, mas provavelmente s� quando ele revelasse por conta pr�pria.</p><p>� Ent�o suponho que logo vamos descobrir qu�o mais s�bio se tornou o primitivo Lews Therin � comentou ela, erguendo uma sobrancelha desconfiada e for�ando um sorriso. Nenhuma rea��o dele. Onde Sammael encontrara r�deas t�o fortes para o pr�prio g�nio? A mera men��o do nome de Lews Therin deveria ter bastado para ele perder um pouco o controle. � Bem, se ele n�o botar voc� parar correr de Illian feito um cosa disparando para o alto de uma �rvore, ent�o�</p><p>� Talvez voc� tenha que esperar sentada � interrompeu ele, com toda a delicadeza. � Digo, o tempo de espera cansaria sua beleza.</p><p>� Isso deveria ser uma amea�a, Sammael? � O vestido mudou para um rosa-claro, mas ela manteve a nova cor. Queria que o homem soubesse que estava com raiva. � Achei que voc� j� tivesse aprendido, h� muito tempo, que me amea�ar � um erro.</p><p>� N�o � nenhuma amea�a, Graendal � retrucou ele, muito calmo. Todos os seus pontos fracos estavam entorpecidos, nada parecia tir�-lo daquela indiferen�a bem-humorada. � S�o s� os fatos. Al�Thor n�o vai me atacar, e eu tamb�m n�o vou atacar o coitado. E claro que concordei em n�o prestar nenhum aux�lio a outro Escolhido, se ele ou ela cair nas m�os de al�Thor. Tudo de acordo com as ordens do Grande Senhor, n�o acha?</p><p>� Claro.</p><p>Graendal manteve o rosto sereno, mas o estraite passara a um rosa mais escuro, perdendo um pouco o aspecto enevoado. Em parte, a cor ainda denotava raiva. Estavam faltando algumas pe�as naquela hist�ria, mas como poderia descobrir quais eram?</p><p>� O que significa que � prosseguiu ele �, no Dia do Retorno, � bem prov�vel que eu seja o �nico Escolhido restante para enfrentar al�Thor.</p><p>� Duvido de que ele v� conseguir matar todos n�s � afirmou Graendal, irritada.</p><p>Mas a irrita��o tamb�m lhe incomodava o est�mago. J� tinham morrido Escolhidos demais. Sammael devia ter encontrado um jeito de se manter afastado e ficar por �ltimo. Era a �nica explica��o.</p><p>� Acha mesmo que n�o? Nem se ele descobrir onde voc�s est�o se escondendo? � O sorrisinho no rosto dele s� aumentou. � Eu j� sei com certeza o que Demandred est� tramando, mas onde ele est� se escondendo? E onde est� Semirhage? Mesaana? E ainda tem Asmodean e Lanfear? E Moghedien?</p><p>Aqueles dedos frios voltaram a agir, deixando sua marca g�lida no cr�nio de Graendal. Sammael n�o ficaria parado diante dela com aquela tranquilidade e n�o falaria daquele jeito � ele sequer ousaria sugerir o que estava sugerindo � se n�o�</p><p>� Asmodean e Lanfear est�o mortos, e � quase certo que Moghedien tamb�m esteja. � Graendal ficou surpresa ao notar que a pr�pria voz sa�ra rouca e um tanto hesitante. O vinho n�o pareceu ter diminu�do a secura na garganta.</p><p>� E os outros? � Foi uma pergunta bem simples, e a voz dele n�o soava nem um pouco insistente.</p><p>Graendal ficou arrepiada.</p><p>� Eu j� lhe disse o que sei, Sammael.</p><p>� E n�o me disse nada. Quando eu for o Nae�blis, vou escolher quem estar� logo abaixo de mim. Esse escolhido tem que estar vivo para receber o toque do Grande Senhor.</p><p>� Est� dizendo que voc� foi a Shayol Ghul? Que o Grande Senhor lhe prometeu�?</p><p>� Voc� vai saber quando for a hora, n�o antes. Mas ou�a um pequeno conselho, Graendal: j� comece a se preparar. Onde est�o os outros?</p><p>Graendal sentia a mente trabalhar freneticamente. O Grande Senhor s� podia ter feito a promessa a Sammael. S� podia. Mas por que <emphasis>ele</emphasis>? Bem, n�o tinha tempo para especula��es � o Grande Senhor escolhia como lhe apetecesse. E Sammael sabia o paradeiro dela, mesmo se n�o soubesse o de mais algum Escolhido. Bem, podia fugir de Arad Doman e se estabelecer em outro lugar � nem seria dif�cil. Teria que abrir m�o dos joguinhos que conduzia por ali. Ora, mesmo se tivesse que abrir m�o das disputas maiores, seria uma perda pequena em compara��o a ter Rand al�Thor � ou Lews Therin � em seu encal�o. N�o tinha a menor inten��o de encar�-lo. Se era verdade que Ishamael e Rahvin tinham ca�do diante do garoto, n�o era ela que testaria a for�a de Rand � n�o diretamente. O Grande Senhor <emphasis>s� podia </emphasis>ter prometido o posto a Sammael. E bem, se ele morresse� Ah, o homem com certeza estava agarrado a <emphasis>saidin,</emphasis> n�o seria louco de dizer tudo aquilo sem o amparo do Poder. E com certeza sentiria caso Graendal abra�asse <emphasis>saidar � </emphasis>ela � que acabaria morta. O Grande Senhor s� podia ter prometido�</p><p>� Eu� eu n�o sei onde Demandred e Semirhage est�o escondidos. Mesaana� Mesaana est� na Torre Branca. � tudo o que sei. Juro.</p><p>Sentiu diminuir o aperto em seu peito quando ele enfim aquiesceu.</p><p>� Voc� vai encontrar os outros para mim. � N�o foi uma pergunta. � Todos, Graendal. Se quiser me fazer acreditar que algum deles morreu, ent�o me mostre o cad�ver.</p><p>Graendal queria muito ter a coragem de mat�-lo. O vestido ondulou em tons violentos de vermelho, reverberando a raiva, o medo e a vergonha que sentia, envolvendo-a em ondas incontrol�veis. Muito bem, Sammael que pensasse que ela estava intimidada � pelo menos por ora. Que importava se ele entregasse Mesaana a al�Thor � se entregasse todos os Escolhidos a al�Thor? Bastava que al�Thor ficasse bem longe da garganta dela.</p><p>� Vou tentar.</p><p>� Fa�a mais do que tentar, Graendal. Mais do que tentar.</p><empty-line/><p>Depois que a mulher foi embora e Sammael viu fechar o port�o que a levara de volta ao pal�cio em Arad Doman, ele deixou o sorriso se dissolver. As mand�bulas do�am de tanto esfor�o que fizera para sustentar a express�o af�vel. Graendal pensava demais � ela estava t�o acostumada a fazer os outros agirem em sua defesa que n�o conseguia nem cogitar como se defender por conta pr�pria. Sammael se perguntou o que ela diria se descobrisse como fora manipulada daquele jeito � com a mesma habilidade que ela pr�pria manipulara tantos tolos em seus tempos de gl�ria. Apostaria qualquer coisa que fosse que a mulher n�o conseguira descobrir o verdadeiro prop�sito da conversa. Ent�o Mesaana estava na Torre Branca? Mesaana na Torre e Graendal em Arad Doman. Ah, aquela mulher de fato conheceria o medo, se pudesse ver seu rosto agora. N�o importava o que acontecesse, Sammael seria o �nico de p� no Dia do Retorno � seria nomeado Nae�blis e derrotaria o Drag�o Renascido.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 24</p><p><image l:href="#18"/></p><p>A miss�o diplom�tica</p></title><p>Egwene, muito bem-humorada, deu as costas para a dupla de m�sicos na esquina � uma mulher suada que soprava uma flauta comprida e um sujeito de rosto corado dedilhando uma sabiola de nove cordas � e come�ou a abrir caminho pela multid�o. O sol era uma bola de ouro l�quido bem alta no c�u, e o ch�o de paralelep�pedos estava t�o quente que o calor atravessava as botas macias e queimava a sola de seus p�s. Suor pingava de seu nariz, o xale mais parecia um cobertor, mesmo preso frouxamente na altura dos cotovelos, e o ar estava t�o poeirento que ela j� estava com vontade de se lavar de novo. Ainda assim, Egwene sorria. Algumas pessoas olhavam de soslaio quando achavam que ela n�o ia reparar, o que quase a fez rir. Era assim que olhavam para os Aiel. As pessoas sempre viam o que esperavam ver e reparavam apenas nas suas roupas de mulher Aiel, ignorando a cor de seus olhos e sua baixa estatura.</p><p>Mascates e ambulantes ofereciam suas mercadorias aos gritos, competindo com os berros de a�ougueiros e artes�os, com o chocalhar e retinir de oficinas de prateiros ou ceramistas, e com o chiado de eixos mal lubrificados de carro�as. Condutores praguejando improp�rios e homens andando ao lado de carros de boi disputavam no grito a passagem com liteiras de laca escura e carruagens s�brias, ostentando os s�mbolos de Casas nas portas trabalhadas. Havia m�sicos, acrobatas e malabaristas por toda parte. Um grupo de mulheres p�lidas, portando espadas e usando vestidos de montaria, cruzou a passos arrogantes, imitando o comportamento que julgavam ver nos homens, soltando gargalhadas altas e exageradas enquanto abria caminho com uma atitude que, se fossem mesmo homens, teria desencadeado mais de dez brigas a cada cem passadas. O martelo de um ferreiro ressoou contra a bigorna. Pairava no ar aquele zum-zum-zum alvoro�ado, o barulho t�pico de uma cidade � quase se esquecera de como era aquilo, em seu tempo entre os Aiel. Talvez tivesse at� sentido falta.</p><p>Pensando nisso, a risada de fato saiu � e bem ali, no meio da rua. Ficara quase completamente desorientada da primeira vez em que escutara o barulho de uma cidade. �s vezes, parecia que aquela garota de olhos esbugalhados era outra pessoa.</p><p>Uma mulher, conduzindo a �gua baia pela multid�o, virou-se para Egwene, curiosa. Sininhos de prata estavam amarrados na cauda e na crina comprida da �gua, e a mulher tamb�m ostentava sinos no cabelo preto, solto at� quase o meio das costas. Era bela e n�o podia ser muito mais velha que Egwene, mas tinha uma express�o dura, um olhar penetrante e portava nada menos que seis facas no cinto � uma delas quase t�o grande quanto a de um Aiel. S� podia ser uma Ca�adora da Trombeta.</p><p>Um homem alto e bonito de casaco verde, com duas espadas �s costas, ficou olhando a mulher passar. Devia ser outro. Aquela gente parecia estar por todos os lados. A multid�o foi engolindo a mulher montada na �gua baia, e o homem pegou Egwene o encarando. O sujeito abriu um sorriso interessado, endireitou os ombros largos e foi at� ela.</p><p>Egwene foi logo armando a express�o mais fria que tinha, tentando misturar a rigidez de Sorilea com a seriedade de Siuan Sanche quando ostentava a estola do Trono de Amyrlin nos ombros.</p><p>O sujeito parou, parecendo surpreso, ent�o deu meia-volta. Egwene p�de ouvi-lo resmungar um �Aiel chamuscados� e n�o conseguiu conter o riso. O sujeito deve ter ouvido, mesmo com o alarido da multid�o, j� que enrijeceu e balan�ou a cabe�a � mas n�o olhou para tr�s.</p><p>Tinha dois motivos para seu bom humor. O primeiro era que as S�bias finalmente tinham concordado que uma caminhada pela cidade era um exerc�cio t�o bom quanto dar a volta ao redor das muralhas. Sorilea, em particular, n�o parecia conseguir entender por que Egwene iria querer passar um minuto a mais que o necess�rio naquele amontoado de aguacentos, ainda mais fechada entre muralhas. O segundo, por�m principal motivo de seu bom humor, era as S�bias terem decidido que, com o desaparecimento das dores de cabe�a que tanto as intrigaram � Egwene nunca conseguia esconder a dor muito bem �, ela logo poderia voltar a visitar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Claro que n�o a tempo do encontro seguinte, que seria dali a tr�s noites, mas sem d�vida antes do outro que haveria depois desse.</p><p>Para Egwene, a permiss�o era um al�vio em mais de um sentido. Nada mais de entrar escondida no Mundo dos Sonhos. Nada mais de se desdobrar para tentar entender tudo sozinha. Nada mais de viver preocupada, temendo que as S�bias a encontrassem e se recusassem a ensinar a ela. Nada mais de mentiras inevit�veis. E a mentira fora mesmo inevit�vel: Egwene n�o podia perder tempo. Havia muito o que aprender, e ela duvidava de que teria tempo suficiente. Ainda assim, as S�bias nunca entenderiam.</p><p>Havia alguns Aiel na multid�o, alguns de <emphasis>cadin�sor</emphasis> e outros com o branco dos <emphasis>gai�shain �</emphasis> os <emphasis>gai�shain</emphasis> iam para onde eram mandados, mas os outros podiam muito bem estar ali entre as muralhas pela primeira e, muito provavelmente, �ltima vez. Os Aiel n�o pareciam gostar tanto de cidades, embora muitos tivessem adentrado as muralhas seis dias antes, querendo acompanhar o enforcamento de Mangin. Corria o boato de que o pr�prio homem passara o n� em volta do pesco�o e fizera uma de suas piadas de Aiel sobre se seria a corda que quebraria o pesco�o ou o pesco�o que partiria a corda. J� vira v�rios Aiel repetirem a piada, mas nenhum coment�rio sobre o enforcamento. Sabia que Rand gostava de Mangin � tinha certeza. Berelain informara as S�bias sobre a senten�a com a casualidade de quem avisa que as roupas colocadas para lavar voltariam limpas no dia seguinte, e as S�bias receberam a not�cia com a mesma falta de preocupa��o. Egwene achava que nunca entenderia os Aiel. E receava que j� n�o entendesse mais Rand. J� Berelain ela compreendia bem at� demais � a mulher s� estava interessada em um tipo de homem: os vivos.</p><p>Perdida naqueles pensamentos, teve que fazer um esfor�o para recuperar o bom humor. A cidade n�o estava mais fresca do que o acampamento do lado de fora das muralhas � na verdade, era capaz at� de estar mais quente, sem a brisa e com o tamanho da multid�o �, e o ar estava quase t�o empoeirado quanto l� fora, mas pelo menos ela n�o estava caminhando sem nada para olhar al�m das cinzas de Port�o da Frente. Mais alguns dias e poderia voltar aos ensinamentos, enfim aprendendo de verdade. Aquilo devolveu um sorriso ao seu rosto.</p><p>Parou perto de um sujeito magrelo com o rosto �mido de suor. Era f�cil definir seu of�cio: o sujeito era � ou melhor, tinha sido � Iluminador: o bigode espesso n�o estava coberto pelo v�u di�fano dos tarabonianos, mas as cal�as folgadas com bordados nas pernas e a camisa igualmente folgada com bordados no peito j� tornavam poss�vel identific�-lo. Ele estava vendendo p�ssaros, pardais e pintassilgos presos em gaiolas r�sticas. Depois que a sala do cap�tulo fora incendiada pelos Shaido, v�rios Iluminadores vinham tentando buscar meios de retornar a Tarabon.</p><p>� Ouvi de uma fonte das mais confi�veis � ia dizendo o Iluminador, para uma bela mulher grisalha, metida em um vestido de seda azul e corte simples. Sem d�vida era mercadora, tentando ganhar seu sustento com as pessoas que esperavam por tempos melhores ali em Cairhien. O Iluminador continuou confidenciando suas descobertas, aos sussurros, reclinado sobre uma gaiola: � Elas est�o divididas, as Aes Sedai. Est�o em guerra. Entre si.</p><p>A mercadora assentiu.</p><p>Egwene parou de fingir que considerava a ideia de comprar um p�ssaro de cabe�a verde e seguiu em frente. Teve que saltar para fora do caminho de um menestrel de rosto redondo que avan�ava a seu lado a passos largos, cheio de floreios pomposos da capa coberta de retalhos. Menestr�is sabiam muito bem que estavam entre os poucos aguacentos bem recebidos no Deserto e nunca se intimidavam com os Aiel � ou, pelo menos, fingiam que n�o.</p><p>Ficou incomodada com o boato do Iluminador. O problema n�o era o falat�rio de que a Torre estivesse dividida � isso n�o poderia ter sido mantido em segredo por muito tempo �, e sim aquela hist�ria de uma guerra entre as Aes Sedai. Ter as �nicas mulheres capazes de manejar o Poder vivendo um conflito interno era como ter um lado da fam�lia em p� de guerra com o outro, uma disputa que ela s� conseguia tolerar porque sabia os motivos. Ainda assim, a hip�tese de que aquilo fosse virar algo mais s�rio� Se ao menos houvesse como Curar a Torre, unific�-la sem precisar de um banho de sangue.</p><p>Descendo um pouco mais a rua, encontrou uma mulher de Port�o da Frente � estava toda suada e talvez ficasse bonita, se conseguisse limpar o rosto. Ela espalhava boatos junto com as fitas e os broches que vendia de uma bandeja presa em seu pesco�o por uma correia. A mulher usava um vestido de seda azul com a saia cheia de tiras vermelhas horizontais que claramente fora confeccionado para uma mulher mais baixa. A bainha, muito desgastada, ficava elevada o bastante para revelar os sapatos robustos, e buracos nas mangas e no corpete indicavam os pontos de onde antigos bordados tinham sido arrancados.</p><p>� Pois vou lhe contar uma verdade � informou a mulher, para as clientes que vinham olhar sua bandeja. � Soube de gente que viu Trollocs pela cidade. Ah, sim, isso mesmo, estas contas verdes v�o real�ar seus olhos. Sim, sim, centenas de Trollocs. E tamb�m�</p><p>Egwene nem parou para ouvir. Se um �nico Trolloc tivesse aparecido em qualquer lugar nas redondezas da cidade, os Aiel teriam descoberto muito antes que virasse fofoca de rua. Quem dera as S�bias fofocassem � bem, elas �s vezes fofocavam, mas s� sobre os outros Aiel: nada dos aguacentos atra�a o interesse do povo do Deserto. O problema era que ter a capacidade de viajar toda vez que quisesse para o gabinete de Elaida em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, onde podia ler suas correspond�ncias, deixara Egwene mal-acostumada, sempre sabendo o que se passava no mundo.</p><p>De repente, reparou que mudara sua forma de examinar a cidade ao redor, encarando o rosto das pessoas. Em Cairhien, t�o certo quanto havia suor, havia olhos-e-ouvidos das Aes Sedai. A cada dia, pelo menos um pombo devia al�ar voo levando um relat�rio para Elaida. Espi�es da Torre, das Ajahs e at� de algumas Aes Sedai. E estavam por toda parte � em geral era quem menos se esperava. Por que aqueles dois acrobatas estavam ali parados, sem fazer nada? Estariam recuperando o f�lego ou vigiando-a? Os dois voltaram � a��o de repente � com um pinote, um deles virou uma cambalhota no ar e pousou plantando bananeira apoiado nos ombros do colega.</p><p>Certa vez, sob ordens de Elaida, uma espi� da Ajah Amarela tentara mandar Elayne e Nynaeve de volta para Tar Valon. Egwene n�o sabia se Elaida tamb�m estava atr�s dela, mas presumir o contr�rio seria uma grande tolice. N�o conseguia se convencer de que a Vermelha perdoaria uma Aceita que tivesse trabalhado sob a orienta��o da Amyrlin que ela depusera.</p><p>Ali�s, algumas das Aes Sedai de Salidar tamb�m deviam ter olhos-e-ouvidos pela cidade. Se a informa��o sobre �Egwene Sedai da Ajah Verde� chegasse a elas� Podia ser qualquer pessoa: aquela mulher magrinha na porta da loja, parecendo examinar um rolo de tecido cinza-escuro; ou quem sabe aquela outra, toda desgrenhada, encostada ao lado da porta da taverna enquanto abanava o rosto com o avental; ou talvez o sujeito gordo da carro�a cheia de tortas � por que ele a encarava daquele jeito estranho? Egwene quase decidiu ir embora pelo primeiro port�o que achasse para fora da cidade.</p><p>Mas foi justamente o sujeito gordo quem a fez parar � ou ao menos o modo como ele tentou cobrir as tortas com as m�os. O homem a encarara daquele jeito porque <emphasis>ela </emphasis>o encarara. Devia estar com medo de que uma Aiel �selvagem� quisesse levar algumas de suas mercadorias sem pagar.</p><p>Egwene soltou uma risadinha fraca. Aiel. Mesmo quando a encaravam bem de perto, achavam que ela era Aiel. Se houvesse alguma agente da Torre atr�s dela, passaria a seu lado sem nem olhar duas vezes. Sentindo-se um pouco melhor, ela voltou a perambular pelas ruas, ouvindo as conversas e boatarias sempre que podia.</p><p>O problema era que estava acostumada a saber das coisas apenas semanas, no m�ximo dias, depois de terem acontecido � e ainda por cima com a garantia de que acontecera mesmo da forma relatada. Boatos podiam atravessar cem milhas em um s� dia ou levar um m�s para andar alguns metros, e a cada dia geravam mais dez. S� naquela volta pela cidade, j� descobrira v�rios boatos conflitantes: Siuan fora executada porque tinha exposto a exist�ncia da Ajah Negra; Siuan <emphasis>era</emphasis> Ajah Negra e ainda estava viva; a Ajah Negra expulsara todas as Aes Sedai de outras Ajahs da Torre. N�o eram hist�rias novas, s� varia��es de boatos mais antigos. Mas havia uma hist�ria nova, uma que vinha se espalhando feito um inc�ndio no prado em pleno ver�o: a Torre estivera por tr�s de todos os falsos Drag�es. Toda vez que ouvia aquela hist�ria, Egwene ficava t�o irritada que come�ava a andar mais r�pido e com as costas mais r�gidas � o que, claro, significava que ela passava um bom tempo andando r�pido e com as costas eretas. Tamb�m ouviu as hist�rias de que, com a suposta morte de Morgase, os andorianos em Aringill tinham decidido que uma nobre � Dylin, Delin, o nome variava � agora era sua rainha; o que poderia muito bem ser verdade, ali�s. E ouvira que havia Aes Sedai zanzando por Arad Doman, fazendo coisas muito improv�veis, o que com certeza era mentira. E havia boatos de que o Profeta estava vindo para Cairhien; de que o Profeta fora coroado rei de Ghealdan � n�o, de Amad�cia �, de que o Drag�o Renascido condenara o Profeta � morte por blasf�mia. E dizia-se que os Aiel estavam partindo; mas tamb�m que o povo do Deserto pretendia se estabelecer por ali. Falavam que Berelain seria coroada no Trono do Sol. E um homenzinho esqu�lido de olhos evasivos parado na �rea externa de uma taverna quase apanhou s� por afirmar que Rand era um Abandonado � Egwene nem hesitou em se intrometer para acabar com a confus�o.</p><p>� Voc�s n�o t�m honra? � questionou, com frieza.</p><p>Os quatro brutamontes que estavam a ponto de agarrar o sujeito magricela apenas piscaram, confusos. Eram cairhienos, n�o muito mais altos que ela, mas bem mais encorpados. Tinham marcas de narizes quebrados e as juntas dos dedos afundadas t�picas dos brig�es, mas ela conseguiu mant�-los quietos apenas com a intensidade do olhar � intensidade e a presen�a de v�rios Aiel ali pela rua. Considerando o entorno, aqueles homens n�o cometeriam a tolice de se indispor com uma Aiel, como pensavam que ela era.</p><p>� Se quiserem lutar contra um homem por conta do que ele diz, lutem um de cada vez. E com honra � acrescentou. � Isto n�o � uma batalha. Voc�s deveriam sentir vergonha de quererem lutar quatro contra um.</p><p>Os homens a encararam como se ela fosse doida, e Egwene come�ou a corar. Torceu para que achassem que era de raiva. O problema n�o era aqueles sujeitos amea�arem algu�m mais fraco, e sim n�o quererem permitir uma luta justa, um a um. Ah, acabara de passar um serm�o como se aqueles homens seguissem <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Claro que, se fosse o caso, n�o teria havido a necessidade de um serm�o.</p><p>Um dos brutamontes inclinou a cabe�a em uma quase rever�ncia. O nariz, al�m de torto, n�o tinha a ponta.</p><p>� Hum� � senhora? Ele j� foi. Podemos ir?</p><p>Era verdade. O sujeito magricela se aproveitara da interfer�ncia dela para dar no p�. Egwene sentiu um lampejo de desprezo: o homem sa�ra correndo s� por medo de encarar quatro advers�rios. Como conseguia suportar tamanha vergonha? Luz! J� estava pensando como Aiel de novo.</p><p>Abriu a boca para dizer que era �bvio que eles podiam ir embora, mas nenhuma palavra saiu. Os homens interpretaram o sil�ncio como consentimento � ou talvez tenham achado que fosse uma desculpa para sair correndo �, mas Egwene mal reparou. Ela se distraiu com um grupo a cavalo, que seguia rua acima.</p><p>N�o reconheceu os quase dez soldados de capas verdes que abriam caminho pela multid�o, mas identificou na hora quem eles escoltavam. S� via as costas das cinco ou seis mulheres entre os soldados � parte das costas, na verdade, mas era mais do que suficiente. Muito mais. As mulheres usavam capas de viagem leves de linho claro, todas em tons de marrom, e Egwene acabou encarando intensamente o que parecia um disco branco bordado nas costas de uma das capas. Apenas alguns detalhes bordados diferenciavam o c�rculo alvo do branco da Chama de Tar Valon em seu interior, ent�o a mulher devia ser da Ajah Branca. De relance, avistou um s�mbolo verde, um vermelho� Vermelho?! Cinco ou seis Aes Sedai cavalgando para o Pal�cio Real, onde uma c�pia do estandarte do Drag�o tremulava ao sabor da brisa inconstante, posicionado no topo de uma torre escalonada bem ao lado de uma das bandeiras carmesim de Rand, com o antigo s�mbolo das Aes Sedai. Alguns diziam que <emphasis>aquele</emphasis> era o estandarte do Drag�o, outros alegavam que as bandeiras vermelhas eram o estandarte de al�Thor ou at� mesmo dos Aiel, sem falar nas outras dezenas de possibilidades e boatos.</p><p>Egwene foi ziguezagueando pela multid�o, seguindo as mulheres por cerca de vinte passadas, ent�o parou. A presen�a daquela irm� Vermelha � ao menos a que tinha visto, poderia haver outras � s� podia significar que aquela era a t�o aguardada miss�o diplom�tica da Torre, que Elaida enviara para escoltar Rand at� Tar Valon. J� fazia mais de dois meses que o an�ncio da vinda da comitiva chegara a Cairhien, trazida por um mensageiro incans�vel. O grupo devia ter sa�do de Tar Valon logo depois do mensageiro.</p><p>E n�o encontrariam Rand ali, a n�o ser que ele tivesse aparecido sem aviso. Egwene estava certa de que Rand conseguira redescobrir um antigo Talento chamado Viagem, mas saber o que ele fazia n�o a ajudava a descobrir como. Bem, n�o importava se as Aes Sedai fossem ou n�o encontrar o Drag�o � n�o poderiam encontrar Egwene. Se isso acontecesse, mesmo na melhor das hip�teses ela seria identificada como uma Aceita longe da Torre sem uma irm� completa para supervision�-la � isso se Elaida n�o estivesse ca�ando-a. Ainda assim, elas iriam arrast�-la de volta para Tar Valon e Elaida. Egwene n�o alimentava ilus�es de que conseguiria resistir a cinco ou seis Aes Sedai.</p><p>Com uma �ltima olhada para o grupo de Aes Sedai j� se afastando, Egwene ergueu as saias e saiu em disparada, desviando de algumas pessoas e esbarrando em outras, abaixando-se sob os focinhos de parelhas de animais que puxavam os carro��es e as carruagens, deixando uma trilha de gritos indignados. Quando enfim cruzou um dos altos port�es de arco triunfal que levavam para fora das muralhas, sentiu o golpe do vento quente no rosto. Sem as paredes e as constru��es como obst�culo, o ar carregava tanta poeira que fez Egwene tossir, mas ela continuou correndo at� chegar �s tendas baixas das S�bias.</p><p>Para sua surpresa, encontrou uma �gua cinza lustrosa com sela e r�dea trabalhadas e bordadas em ouro do lado de fora da tenda de Amys, sob os cuidados de um <emphasis>gai�shain</emphasis> que s� tirava os olhos do ch�o para dar tapinhas amistosos no animal irrequieto. Quando se abaixou para entrar na tenda, encontrou a cavaleira: Berelain bebericava ch� com Amys, Bair e Sorilea, todas estiradas em almofadas borladas e reluzentes. Uma mulher de robe branco, Rodera, estava ajoelhada em um canto, aguardando a hora de encher as x�caras de novo.</p><p>� Aes Sedai chegaram na cidade � alertou Egwene, assim que entrou. � V�o em dire��o ao Pal�cio do Sol. Deve ser a miss�o diplom�tica de Elaida para Rand.</p><p>Berelain levantou-se com muita gra�a. Mesmo a contragosto, Egwene tinha que admitir: a mulher era elegante. E o vestido de cavalgada tinha um corte decente � nem mesmo ela era tola o bastante para cavalgar ao sol com o decote habitual. As outras mulheres tamb�m se levantaram.</p><p>� Bem, parece que preciso voltar para o pal�cio � anunciou Berelain, com um suspiro. � S� a Luz sabe o que elas v�o pensar se n�o tiver ningu�m l� para receb�-las. Amys, se souber de Rhuarc, pode mandar um recado para ele ir me encontrar?</p><p>Amys assentiu, mas Sorilea que falou:</p><p>� Melhor n�o depender tanto de Rhuarc, garota. Rand al�Thor entregou Cairhien aos seus cuidados. Para os homens, se voc� d� a m�o, logo eles querem o bra�o inteiro. E, se for um chefe de cl�, d� um dedo e ele logo vai estar querendo a sua cabe�a.</p><p>� � verdade � murmurou Amys. � Rhuarc � a sombra do meu cora��o, mas � verdade.</p><p>Berelain cal�ou as finas luvas de cavalgada que estavam presas no cinto.</p><p>� Ele me lembra meu pai. �s vezes, at� demais. � Ela abriu um breve sorriso pesaroso. � Mas d� bons conselhos. E sabe quando precisa ficar por perto e por quanto tempo permanecer. Acho que at� as Aes Sedai ficariam impressionadas com Rhuarc cravando os olhos nelas.</p><p>Amys deu uma risadinha.</p><p>� Ele � mesmo impressionante. Pode deixar que vou mandar Rhuarc para voc�. � Dizendo aquilo, ela beijou a testa e as bochechas de Berelain com toda a delicadeza.</p><p>Egwene ficou olhando. Era um beijo de m�e para o filho ou a filha. <emphasis>O que</emphasis> estava acontecendo entre Berelain e as S�bias? Claro que n�o podia perguntar � uma pergunta daquela s� traria vergonha para ela e para as S�bias. E para Berelain, mesmo que ela n�o fosse ficar sabendo, e mesmo que Egwene n�o se importasse de envergonhar Berelain at� ela ficar careca.</p><p>Quando Berelain estava se virando para sair da tenda, Egwene a segurou pelo bra�o.</p><p>� Tome cuidado com elas. As Aes Sedai n�o ser�o amig�veis com Rand, mas as palavras erradas, ou mesmo um movimento errado, podem fazer com que se tornem inimigas declaradas.</p><p>Aquilo era verdade, mas n�o era o que Egwene precisava dizer. Preferia que lhe arrancassem a l�ngua do que ter que pedir um favor de Berelain.</p><p>� J� lidei com Aes Sedai antes, Egwene Sedai � afirmou a Primeira de Mayene, seca.</p><p>Egwene se conteve e evitou respirar fundo. Teria que pedir, mas n�o permitiria que a mulher percebesse como estava sendo dif�cil.</p><p>� Elaida n�o ser� uma amiga para Rand, n�o mais que uma doninha pode ser amiga de uma galinha, e essas Aes Sedai s�o de Elaida. Se elas ficarem sabendo de uma Aes Sedai que o apoia e que est� por aqui, ao alcance, essa Aes Sedai pode acabar desaparecendo logo no dia seguinte.</p><p>Ela encarou o rosto indecifr�vel da Primeira de Mayene, sem conseguir se obrigar a dizer mais nada. Depois de um longo instante, Berelain sorriu.</p><p>� Egwene Sedai, vou fazer o que estiver ao meu alcance. Por Rand. � Tanto o sorriso quanto a voz pareciam insinuar alguma coisa.</p><p>� Garota� � advertiu Sorilea, r�spida, e foi uma surpresa ver que Berelain corou de leve.</p><p>Sem olhar para Egwene e com uma voz cuidadosamente neutra, a Primeira de Mayene respondeu:</p><p>� Eu agradeceria se voc�s n�o contassem nada a Rhuarc.</p><p>Na verdade, ela n�o olhava para ningu�m, mas fazia um esfor�o para ignorar a presen�a de Egwene.</p><p>� N�o vamos contar � retrucou Amys, sem demora, deixando Sorilea boquiaberta. � N�o vamos contar. � A repeti��o era para Sorilea, a voz um misto de firmeza e pedido, at� que a idosa enfim aquiesceu, ainda que relutante. Berelain chegou a suspirar de al�vio antes de se abaixar e sair da tenda.</p><p>� Essa crian�a � espirituosa � gargalhou Sorilea, assim que Berelain saiu. Ela se reclinou de volta nas almofadas e deu tapinhas no lugar ao lado, sinalizando para que Egwene se sentasse. � Dever�amos encontrar o marido ideal para ela, um homem � altura dela. Se � que tal homem existe entre os aguacentos.</p><p>Esfregando as m�os e o rosto com o pano �mido que Rodera trouxera, Egwene se perguntou se aquilo j� lhe dava abertura suficiente para perguntar sobre Berelain sem causar desonra. Ela aceitou a x�cara de ch� de porcelana verde do Povo do Mar e tomou seu lugar no c�rculo de S�bias. Se uma das outras respondesse ao coment�rio de Sorilea, talvez bastasse.</p><p>� Tem certeza de que essas Aes Sedai representam perigo para o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>? � perguntou Amys, antes que outra pudesse se pronunciar.</p><p>Egwene corou. Estava perdida em fofocas enquanto havia quest�es t�o importantes a tratar.</p><p>� Tenho � respondeu mais do que depressa. Ent�o completou, mais calma: � Pelo menos� n�o sei se o que elas querem exatamente � fazer mal a Rand. Pelo menos n�o de prop�sito. � A carta de Elaida de fato dizia que deviam trat�-lo com �a honra e o respeito� que o Drag�o merecia. Quanto respeito uma antiga irm� Vermelha achava que um homem capaz de canalizar merecia? � Mas n�o duvido de que elas v�o querer ter algum controle sobre ele, obrigar Rand a fazer o que Elaida quiser. N�o querem ser aliadas. � E at� que ponto as Aes Sedai de Salidar eram aliadas? Luz, precisava falar com Elayne e Nynaeve. � E n�o v�o se importar se ele � o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>.</p><p>Sorilea grunhiu, amargurada.</p><p>� Acha que elas v�o tentar fazer mal a voc�? � perguntou Bair.</p><p>Egwene assentiu.</p><p>� Se descobrirem que eu estou aqui� � Tentou disfar�ar o arrepio tomando um golinho do ch� de menta. Fosse para ter um meio de controlar Rand ou para lev�-la embora como a Aceita n�o supervisionada que era, aquelas mulheres fariam de tudo para arrast�-la de volta para a Torre. � Elas n�o me deixar�o livre, se tiverem op��o. Elaida n�o vai querer que Rand ou�a ningu�m al�m dela mesma.</p><p>Bair e Amys trocaram olhares s�rios.</p><p>� Ent�o a resposta � simples. � Sorilea soou como se tudo estivesse decidido. � Voc� vai ficar aqui nas tendas, e elas n�o ter�o como encontr�-la. As S�bias sempre evitam Aes Sedai, de qualquer forma. Se ficar mais alguns anos com a gente, acho que voc� dar� �tima S�bia.</p><p>Egwene quase deixou a x�cara cair.</p><p>� Fico lisonjeada � respondeu, hesitante �, mas, uma hora ou outra, terei que ir embora.</p><p>Sorilea n�o pareceu convencida. Egwene aprendera a se impor com Amys e Bair, depois de um tempo, mas Sorilea�</p><p>� Bem, n�o t�o cedo � retrucou Bair, abrindo um sorriso para que as palavras soassem amig�veis. � Voc� ainda tem muito o que aprender.</p><p>� Tem, e est� ansiosa para voltar a estudar � acrescentou Amys. Egwene se esfor�ou para n�o corar, e a S�bia franziu o cenho. � Voc� parece estranha. Andou se esfor�ando demais, hoje de manh�? Eu tinha certeza de que voc� j� estava recuperada o bastante�</p><p>� J� me recuperei � garantiu Egwene, mais do que depressa. � � verdade, j� me recuperei. Faz dias que n�o tenho dor de cabe�a. Foi a poeira do vento, quando eu estava correndo de volta para c�. E a multid�o na cidade est� maior do que eu me lembrava. E sem falar que eu estava t�o empolgada que n�o comi bem no caf� da manh�.</p><p>Sorilea chamou Rodera com um gesto.</p><p>� Traga p�o de mel, se ainda tiver, e queijo. E qualquer fruta que conseguir encontrar. � Ela cutucou as costelas de Egwene. � As mulheres n�o devem ser s� pele e osso � disse a mulher que parecia ter sido largada ao sol at� que quase toda a carne tivesse ressecado.</p><p>Egwene n�o se importava de ter que comer, j� que estava t�o empolgada naquela manh� que de fato se esquecera, mas Sorilea ficou olhando cada peda�o ser engolido, e aquele escrut�nio dificultava um pouco as coisas. Isso e o fato de que as S�bias queriam discutir o que fazer quanto �s Aes Sedai � se as mulheres da Torre se mostrassem hostis a Rand, ent�o teriam que ser vigiadas. As S�bias precisavam encontrar um jeito de preservar e proteger o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. At� Sorilea estava meio nervosa com a possibilidade de terem que se colocar diretamente contra as Aes Sedai � nervosa, mas n�o com medo: o que a incomodava era ter que ir contra seus costumes. De qualquer forma, fariam o que fosse preciso pelo <emphasis>Car�a�carn</emphasis>.</p><p>Egwene estava preocupada com a possibilidade de que as S�bias transformassem em ordem aquela sugest�o de Sorilea, de que ela permanecesse entre as tendas. N�o haveria como escapar, passar despercebida por aqueles cinquenta olhos, a n�o ser ficando dentro da tenda. Como Rand fazia para Viajar? As S�bias fariam o que fosse preciso, desde que n�o fosse contra os princ�pios de <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. As S�bias podiam muito bem ter interpreta��es criativas de alguns aspectos, mas se agarravam a essas interpreta��es com a mesma firmeza de qualquer outro Aiel. Luz, a pr�pria Rodera era Shaido � uma dentre os milhares que foram capturados na batalha para expulsar os Shaido de Cairhien �, mas as S�bias a tratavam como qualquer outro <emphasis>gai�shain.</emphasis> E, pelo que Egwene via, Rodera tamb�m n�o se comportava nem um pouco diferente de qualquer outro <emphasis>gai�shain</emphasis>. Nenhuma delas se disporia a contrariar <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, n�o importava quanto fosse preciso.</p><p>Por sorte, n�o tocaram de novo naquele assunto. Mas, para seu azar, falaram bastante de sua sa�de. As S�bias n�o sabiam Curar nem verificar o estado de algu�m com o Poder, ent�o faziam testes com seus pr�prios m�todos � alguns ela reconhecia das aulas de Nynaeve, quando queria se tornar Sabedoria, como examinar os olhos, ouvir o cora��o com um tubo oco de madeira; outros eram tipicamente Aiel, como tocar os dedos do p� at� ficar tonta, pular no lugar at� achar que os olhos iam saltar da cabe�a e correr ao redor das tendas das S�bias at� sua vista ficar cheia de pontinhos negros. Quando um <emphasis>gai�shain</emphasis> trouxe �gua para derramar em sua cabe�a, ela bebeu o que p�de, ergueu as saias e correu mais um pouco. Aiel eram grandes adeptos de manter um corpo resistente, e, se ela fosse um passinho mais lenta, se vacilasse e parasse antes que Amys mandasse, as S�bias decidiriam que ela ainda n�o se recuperara o suficiente.</p><p>Quando Sorilea enfim assentiu, completando com um �voc� est� t�o saud�vel quanto uma Donzela�, Egwene j� estava cambaleando, ofegante. Tinha certeza de que nenhuma Donzela estaria naquele estado, mas mesmo assim ficou orgulhosa de si mesma. Nunca se considerara molenga, mas tinha plena consci�ncia de que, antes de viver entre os Aiel, teria ca�do de cara no ch�o na metade do teste. <emphasis>Mais um ano e vou conseguir correr t�o bem quanto qualquer</emphasis> Far Dareis Mai, pensou.</p><p>Egwene tamb�m n�o estava com muita vontade de voltar para a cidade. Juntou-se �s S�bias na tenda de vapor � desta vez n�o recebeu ordens de derramar �gua nas rochas quentes, e Rodera cuidou disso �, aproveitando o calor �mido enquanto os m�sculos relaxavam. S� saiu porque Rhuarc e dois outros chefes de cl� � Timolan, dos Miagoma, e Indirian, dos Codarra � se juntaram a elas, todos homens altos e imensos, com rostos duros e austeros e cabelos j� grisalhos. Quando os viu, saiu correndo da tenda, ent�o tratou de enrolar o xale no corpo. Sempre que isso acontecia, esperava ouvir gargalhadas, mas os Aiel nunca entendiam por que ela sa�a correndo da tenda de vapor sempre que um homem entrava. Se entendessem, j� teriam feito suas t�picas piadas Aiel. Por sorte, simplesmente n�o faziam a conex�o, para a felicidade de Egwene.</p><p>Egwene recolheu o restante das roupas em meio �s pilhas bem arrumadas ali fora e saiu depressa para sua pr�pria tenda. O sol j� estava baixo no c�u, e, depois de uma refei��o leve, estaria pronta para dormir. Estava cansada demais para sequer pensar em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Cansada demais, tamb�m, para se lembrar da maioria dos sonhos que teve � coisa que as S�bias vinham tentando lhe ensinar a fazer �, e a maioria dos que conseguiu se recordar envolvia Gawyn.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 25</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Como rel�mpagos e chuva</p></title><p>Apesar dos sonhos que teve a noite inteira, Egwene acordou se sentindo inexplicavelmente revigorada quando Cowinde veio cham�-la bem cedo, ainda no c�u cinza que precede a alvorada. Renovada e pronta para tentar descobrir alguma coisa em sua ida � cidade. Depois de bocejar e se espregui�ar, levantou-se sem delongas, cantarolando enquanto se lavava e se vestia �s pressas, mal parando para pentear os cabelos direito. Teria sa�do correndo da �rea das tendas, sem nem gastar tempo com o desjejum, mas deu de cara com Sorilea, o que p�s um fim a seus planos de sair �s pressas. No fim das contas, tamb�m acabou sendo bom.</p><p>� Voc� n�o devia ter sa�do t�o cedo da tenda de suor � comentou Amys, que estava recebendo cerca de vinte S�bias em sua tenda. Ela pegou uma tigela de mingau e frutas secas das m�os de Rodera, que, junto de Cowinde e um homem de robe branco chamado Doilan, outro Shaido, corria para servir a todos. � Rhuarc tinha muito o que dizer sobre suas irm�s. Talvez voc� possa acrescentar mais algumas coisas.</p><p>Depois de meses de fingimento, Egwene nem se perguntava quem seriam essas irm�s � sabia que a mulher estava falando da miss�o diplom�tica da Torre.</p><p>� Vou lhe contar o que puder. O que ele disse?</p><p>Para come�ar, havia seis Aes Sedai. E duas eram Vermelhas, n�o uma. Egwene n�o conseguia acreditar na arrog�ncia � ou talvez na burrice � de Elaida, de ter enviado uma �nica Vermelha que fosse. Pelo menos o comando estava nas m�os de uma Cinza. As S�bias estavam acomodadas em um grande c�rculo, a maioria deitada, seus corpos parecendo delinear os raios de uma roda, embora houvesse algumas de p� ou ajoelhadas nos espa�os. Todas se voltaram para Egwene assim que ela foi informada dos nomes das Aes Sedai visitantes.</p><p>� Infelizmente s� conhe�o duas dessas � declarou a jovem, hesitante. � Temos muitas Aes Sedai, afinal, e n�o sou irm� completa h� tanto tempo, para conhecer tantas. � V�rias assentiram, aceitando a explica��o. � Nesune Bihara � bem justa, escuta todos os lados antes de tomar uma decis�o, mas sempre consegue identificar incongru�ncias, por menores que sejam. Ela v� tudo, se lembra de tudo. Passa os olhos numa p�gina uma �nica vez e consegue repetir palavra por palavra, e tamb�m � capaz de repetir uma conversa que ouviu um ano antes. E ela �s vezes fala sozinha, enunciando os pensamentos sem nem se dar conta de que est� falando em voz alta.</p><p>� Rhuarc falou que essa mulher estava interessada na Biblioteca Real. � Bair mexeu seu mingau, a aten��o voltada para Egwene. � Disse que a escutou resmungar alguma coisa sobre selos.</p><p>Um murm�rio se espalhou por entre as outras S�bias, mas foi silenciado quando Sorilea pigarreou bem alto.</p><p>Egwene pensou por um instante, remexendo o mingau com a colher � notou lascas de ameixa seca e alguma baga doce na mistura. Se Elaida tivesse interrogado Siuan antes da execu��o, devia saber que tr�s selos j� haviam sido quebrados. Rand mantinha dois outros escondidos em algum lugar � Egwene queria muito saber onde, mas seu velho amigo n�o parecia confiar em ningu�m, nos �ltimos tempos � e Nynaeve e Elayne tinham encontrado um em Tanchico e o levado para Salidar. Bem, Elaida n�o tinha como saber destes. A menos que contasse com espi�es em Salidar, mas� N�o. Era especula��o para outro momento, seria in�til cogitar aquilo agora. Elaida devia estar desesperada atr�s dos outros selos. Parecia sensato enviar Nesune para a segunda maior biblioteca do mundo, perdendo apenas para a biblioteca da pr�pria Torre Branca. Engolindo algumas ameixas secas, Egwene revelou suas conclus�es �s S�bias.</p><p>� Eu j� tinha falado isso ontem � noite � grunhiu Sorilea. � Aeron, Colinda, Edarra, v�o para a Biblioteca. Tr�s S�bias devem bastar para encontrar o que houver para ser encontrado antes de uma Aes Sedai. � Tr�s rostos assumiram uma express�o irritada. A Biblioteca Real era imensa. Mas a ordem partira de Sorilea, e, apesar de terem resmungado e suspirado, as mulheres escolhidas deixaram suas tigelas de mingau no ch�o e sa�ram imediatamente. � Voc� disse que conhecia duas � prosseguiu a S�bia mais velha, antes mesmo que as tr�s tivessem sa�do. � Nesune Bihara e quem mais?</p><p>� Sarene Nemdahl � respondeu Egwene. � Mas vejam bem, conhe�o as duas apenas superficialmente. Sarene � como a maioria das Brancas, pondera tudo com muita l�gica e �s vezes parece surpresa quando algu�m age com o cora��o, mas � geniosa. Ela quase sempre consegue se controlar, mas basta um passo errado na hora errada e ela acaba� arrancando seu nariz antes de voc� entender o que est� acontecendo. Ainda assim, ela sempre escuta outras opini�es e admite que estava errada, mesmo depois de um ataque. Quer dizer, pelo menos depois que passa o acesso de raiva.</p><p>Enfiando uma colherada de bagas e mingau na boca, Egwene tentou examinar as S�bias sem que elas percebessem. Nenhuma parecia ter percebido sua hesita��o. Ela quase dissera que Sarene mandaria algu�m esfregar o ch�o antes que a pessoa pudesse entender o que estava acontecendo. S� conhecia as duas das aulas dos tempos de novi�a. Nesune, uma kandoriana esguia com olhos afiados de �guia, conseguia perceber mesmo de costas quando algu�m deixava de prestar aten��o. Assistira a v�rias aulas dela. Quanto a Sarene, s� fora a duas de suas palestras sobre a natureza da realidade, mas era dif�cil esquecer uma mulher que afirmava como a beleza e a feiura eram ilus�es, mesmo tendo um rosto que fazia qualquer homem parar para olhar com aten��o.</p><p>� Espero que voc� consiga se lembrar de mais coisas � comentou Bair, apoiada no cotovelo, inclinando-se para Egwene. � Parece que voc� � a nossa �nica fonte de informa��es.</p><p>Egwene precisou de um momento para entender o que a mulher dizia. Sim, claro. Bair e Amys deviam ter tentado espiar o sonho das Aes Sedai, na noite anterior, mas todas as Aes Sedai protegiam os sonhos com barreiras � uma habilidade que se arrependia de n�o ter aprendido antes de deixar a Torre.</p><p>� Farei o poss�vel. Onde ficam os aposentos delas l� no pal�cio?</p><p>Se quisesse falar com Rand na pr�xima vez em que ele visitasse a cidade, seria bom n�o ir parar nos aposentos delas enquanto tentava encontrar o caminho. Sobretudo os de Nesune. Sarene talvez n�o se lembrasse de uma novi�a entre tantas outras, mas tinha quase certeza de que Nesune se lembraria. Ali�s, qualquer uma das mulheres que n�o conhecia tamb�m poderia se lembrar dela, j� que houve muito falat�rio a seu respeito quando estava na Torre.</p><p>� As Aes Sedai recusaram a oferta de sombra de Berelain, mesmo por uma �nica noite. � Amys franziu o cenho. Entre os Aiel, uma oferta de hospitalidade sempre devia ser aceita. A recusa, mesmo entre inimigos de sangue, era desonrosa. � Est�o hospedadas com uma mulher chamada Arilyn, uma nobre dos Assassinos da �rvore. Rhuarc acredita que Coiren Saeldain j� conhecia essa Arilyn antes de chegarem, ontem.</p><p>� � uma espi� de Coiren � garantiu Egwene. � Ou da Ajah Cinza.</p><p>V�rias das S�bias resmungaram entre dentes, irritadas. Sorilea grunhiu alto de desgosto, e Amys soltou um longo suspiro de desapontamento. Algumas outras n�o pareceram t�o convencidas. Corelna, de olhos verdes e um rosto que lembrava um falc�o, ostentando grandes mechas cinza nos cabelos louros, balan�ou a cabe�a em d�vida; j� Tialin, uma ruiva esguia de nariz pontudo, encarou Egwene sem esconder a descren�a.</p><p>Espionagem era uma viola��o de <emphasis>ji�e�toh</emphasis> � Egwene s� n�o entendera ainda por que isso n�o se aplicava quando as Andarilhas dos Sonhos bisbilhotavam os sonhos alheios. Seria in�til ressaltar que as Aes Sedai n�o seguiam <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Aquelas mulheres sabiam disso, s� achavam dif�cil de acreditar ou de compreender, tratando-se de Aes Sedai ou de qualquer outra pessoa.</p><p>N�o importava o que algumas das S�bias achavam; Egwene sabia que estava certa e apostaria o que fosse. Galldrian, o �ltimo Rei de Cairhien, tivera uma conselheira Aes Sedai antes de ser assassinado. Niande Moorwyn fora uma presen�a quase invis�vel naquelas terras, mesmo antes de ter que desaparecer ap�s a morte de Galldrian, mas Egwene conseguira descobrir que a mulher fizera algumas visitas �s propriedades rurais de Lady Arilyn. E Niande era uma Cinza.</p><p>� Ao que parece, puseram cem guardas debaixo do teto de Arilyn � comentou Bair, depois de algum tempo. Ent�o completou, em uma voz completamente sem emo��o: � As Aes Sedai alegam que a situa��o na cidade ainda est� inst�vel, mas acho que est�o com medo dos Aiel.</p><p>Olhares muito interessados surgiram em v�rios rostos � chegava a ser um pouco perturbador.</p><p>� Cem!? � exclamou Egwene. � Elas trouxeram <emphasis>cem</emphasis> homens?</p><p>Amys negou com a cabe�a.</p><p>� Trouxeram mais de quinhentos. Os batedores de Timolan encontraram grande parte acampados a menos de meio dia de viagem a norte. Rhuarc mencionou os homens, e Coiren Saeldain explicou que eram uma guarda de honra, mas que tinham deixado a maioria esperando nos arredores da cidade para n�o <emphasis>alarmar </emphasis>ningu�m.</p><p>� Elas acham mesmo que v�o escoltar o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> para Tar Valon. � Sorilea falava em uma voz t�o dura que poderia rachar uma pedra, e sua express�o fazia o tom parecer bem suave. Egwene n�o fizera segredo do que dizia a carta de Elaida para Rand, e as S�bias pareciam gostar menos da mensagem a cada vez que a ouviam.</p><p>� Rand n�o � tolo o bastante para aceitar a oferta � declarou Egwene, mas n�o estava pensando na carta.</p><p>Quinhentos homens de fato poderiam ser apenas uma guarda de honra, e Elaida podia muito bem achar que o Drag�o Renascido esperaria honrarias do tipo e ficaria at� lisonjeado. Pensou em diversas possibilidades, mas precisava prosseguir com cuidado. Bastava uma palavra errada para que Amys, Bair ou, pior ainda, Sorilea � escapar dela era como tentar sair de um espinheiro � lhe dessem ordens que n�o seria capaz de obedecer se tivesse que dar conta do que s� ela pr�pria tinha como resolver. Ou que s� ela estava disposta a resolver.</p><p>� Imagino que os chefes estejam de olho nesses soldados fora da cidade, certo? � Meio dia a norte estava mais para um dia inteiro de marcha, j� que os soldados n�o eram Aiel. Era longe demais para representar qualquer perigo, mas um pouco de cautela nunca ca�a mal. Amys assentiu, e Sorilea olhou para Egwene como se ela tivesse perguntado se o sol ainda estaria no c�u ao meio-dia. A jovem pigarreou. � Ah, claro que est�o. � Era pouco prov�vel que os chefes de cl� fossem cometer um erro t�o ing�nuo. � Bem, tenho algumas sugest�es. Se uma dessas Aes Sedai for ao pal�cio, algumas S�bias capazes de canalizar deveriam ir atr�s, para garantir que ela n�o deixe nenhuma armadilha com o Poder.</p><p>As S�bias aquiesceram. Dois ter�os das presentes conseguiam manejar <emphasis>saidar</emphasis>. Algumas n�o tinham muito mais habilidade que Sorilea, mas outras tinham o mesmo n�vel de Amys, que era t�o forte quanto a maioria das Aes Sedai que Egwene j� conhecera. Era mais ou menos a mesma propor��o dali para todas as S�bias dos Aiel. Suas habilidades eram bem distintas das Aes Sedai � sabiam menos de alguns aspectos e mais de outros, mas no geral era o mesmo n�vel de poder, apenas em �reas distintas. Ainda assim, era prov�vel que as S�bias conseguissem detectar �presentes� indesejados.</p><p>� E temos que ter certeza de que vieram s� seis representantes da Torre � completou Egwene.</p><p>Teve que explicar essa parte. As S�bias tinham lido livros de aguacentos, mas nem as capazes de canalizar conheciam os rituais que as Aes Sedai haviam desenvolvido para lidar com homens capazes de tocar <emphasis>saidin</emphasis>. Entre os Aiel, um homem capaz de canalizar acreditava ser um escolhido e partia para o norte, para a Praga, ca�ando o Tenebroso. Nenhum nunca voltava. A pr�pria Egwene n�o sabia dos rituais at� ir para a Torre. Era raro as hist�rias que ouvira quando crian�a terem qualquer rela��o com a realidade.</p><p>� Rand consegue dar conta de duas mulheres de uma s� vez � declarou Egwene, e sabia disso por experi�ncia pr�pria. � E pode ser que d� conta de seis. Mas, se estiverem em maior n�mero do que afirmam, seria no m�nimo prova de que mentiram, mesmo que apenas por omiss�o.</p><p>Quase se encolheu diante das testas franzidas daquelas mulheres. Quem mentia incorria em <emphasis>toh</emphasis> para com qualquer um que ouvisse a mentira. No seu caso, a mentira era inevit�vel. <emphasis>Era mesmo</emphasis>.</p><p>Durante todo o restante do caf�, as S�bias decidiram quem iria ao pal�cio naquele dia e quais chefes poderiam ser confiados para escolher homens e Donzelas para vasculharem a cidade em busca de mais Aes Sedai. Alguns poderiam relutar em agir contra qualquer Aes Sedai, n�o importava como � as S�bias n�o declararam isso, apenas deram a entender pelas coisas que diziam, e sempre com amargor �, e outros talvez acreditassem que qualquer amea�a ao <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, mesmo por parte das Aes Sedai, seria mais bem resolvida com a lan�a � e algumas S�bias tamb�m pareciam partilhar daquela opini�o. Sorilea recusara com muita �nfase as sugest�es evasivas de que esse problema seria resolvido se Aes Sedai simplesmente n�o estivessem mais na cidade. No fim das contas, Rhuarc e Mandelain, dos Daryne, foram os dois �nicos chefes de Cl� que todas concordaram em chamar.</p><p>� Mas fiquem atentas para eles n�o escolherem nenhum <emphasis>siswai�aman</emphasis> � advertiu Egwene.</p><p>Os <emphasis>siswai�aman</emphasis>, a lan�a do Drag�o, com certeza recorreriam � viol�ncia ao menor sinal de amea�a. O alerta lhe rendeu muitos olhares, tanto inexpressivos quanto ir�nicos � as S�bias s�o eram tolas. Ainda assim, Egwene estava incomodada com uma coisa: nenhuma delas mencionou o que j� estava t�o acostumada a ouvir quase sempre que o povo do Deserto mencionava as mulheres da Torre: no passado, os Aiel tinham falhado com as Aes Sedai e seriam destru�dos se falhassem de novo.</p><p>Exceto por aquele �nico coment�rio, Egwene se manteve de fora da discuss�o, ocupando-se de uma segunda tigela de mingau � dessa vez com pera seca junto das ameixas �, o que gerou um meneio de aprova��o de Sorilea. Mas n�o buscava aprova��o de Sorilea � estava com fome, verdade, mas queria mesmo que aquelas mulheres esquecessem que ela estava ali. Pareceu funcionar.</p><p>Depois de encerrados o caf� da manh� e as discuss�es, Egwene voltou para sua tenda e se agachou junto da aba, do lado de dentro, observando um pequeno grupo de S�bias que partia rumo � cidade, lideradas por Amys. Quando as mulheres cruzaram o port�o mais pr�ximo, Egwene deu um pinote e saiu outra vez. Havia Aiel por toda parte, <emphasis>gai�shain</emphasis> e outros, mas todas as S�bias estavam em suas tendas, e ningu�m pareceu olh�-la quando saiu andando para a muralha, tentando n�o caminhar r�pido demais. Se algu�m a notasse, poderia pensar que ela s� estava fazendo seu exerc�cio matinal. O vento aumentou, soprando ondas de poeira e resqu�cios das cinzas de Port�o da Frente, mas ela manteve o ritmo. Estava apenas se exercitando.</p><p>Na cidade, a primeira pessoa para quem ela pediu informa��o, uma mulher magrela vendendo ma��s murchas a um pre�o exorbitante, n�o soube dizer o caminho para o pal�cio de Lady Arilyn. Nem a segunda, uma costureira rechonchuda que arregalou os olhos ao ver o que parecia uma Aiel entrando em sua loja, muito menos o cuteleiro meio careca que achou que Egwene estaria muit�ssimo interessada em suas facas. Por fim, conseguiu a informa��o com uma prateira de olhos estreitos que a encarou com muita aten��o durante todo o tempo que ela passou na loja. Egwene balan�ou a cabe�a, desapontada, enquanto avan�ava a passos largos por entre a multid�o. �s vezes esquecia como era grande uma cidade do porte de Cairhien � grande a ponto de que nem todo mundo saber onde ficava cada lugar.</p><p>T�o grande era a cidade que Egwene acabou se perdendo tr�s vezes e precisou pedir informa��o a duas outras pessoas antes de acabar se esgueirando pela lateral de um est�bulo que alugava cavalos, espiando o outro lado da rua. Sua aten��o estava concentrada em uma constru��o que consistia em um amontoado de pedras escuras com janelas estreitas, varandas anguladas e torres inclinadas. Era pequeno para um pal�cio, mas parecia enorme para uma casa comum. Se bem lembrava, Arilyn estava um pouco acima da m�dia da nobreza de Cairhien. Soldados com casacos verdes, usando placas peitorais e elmos, montavam guarda na espa�osa escadaria frontal, diante de cada port�o vis�vel e nas varandas. Estranhamente, eram todos jovens � bem, isso n�o importava. Havia mulheres canalizando dentro daquela casa, e n�o eram quantidades pequenas de <emphasis>saidar</emphasis>, para ela estar sentindo ali da rua � e sentindo com tanta intensidade. A quantidade de poder sendo canalizado diminuiu de repente, mas continuava significativa.</p><p>Egwene mordeu o l�bio inferior. N�o tinha como saber o que estavam fazendo ali dentro, n�o sem ver os fluxos. Por outro lado, as mulheres que estavam canalizando tamb�m precisavam ver os fluxos para tec�-los. Mesmo que estivessem diante de alguma janela mais escondida, se houvesse um fluxo sendo canalizado para fora da mans�o, Egwene s� n�o conseguiria ver se fossem todos voltados para o sul, para longe do Pal�cio do Sol � longe de tudo. O que elas estariam fazendo?</p><p>Um dos port�es se abriu apenas por tempo suficiente para deixar sair uma parelha de seis baios puxando uma carruagem preta toda fechada com um bras�o laqueado nas portas � duas estrelas de prata em um fundo de listras vermelhas e verdes. A carruagem rumou para o norte, abrindo caminho por entre a multid�o. O condutor, de libr�, abusava do chicote comprido, usando-o tanto para afastar as pessoas quanto para incitar os cavalos. Seria Lady Arilyn indo a algum lugar, ou seria algu�m da miss�o diplom�tica?</p><p>Bem, n�o tinha ido at� ali para ficar olhando. Recuando at� s� conseguir espiar para a rua com um dos olhos e apenas o suficiente para divisar o casar�o, Egwene tirou uma pequena pedra vermelha da bolsinha do cinto, respirou fundo e come�ou a canalizar. Se uma das Aes Sedai estivesse olhando para fora naquela dire��o, conseguiria ver os fluxos, mas n�o a veria. Bem, precisava correr o risco.</p><p>A pedra lisa era apenas isso � uma pedra polida de algum regato. Mas Egwene aprendera aquele truque com Moiraine e, como esta usara uma pedra para se concentrar � na verdade uma pedra preciosa, mas a qualidade do material n�o fazia diferen�a �, Egwene tamb�m usava. Teceu principalmente Ar, com um toque de Fogo. A tessitura permitia ouvir a conversa alheia � ou espionar, como diriam as S�bias. Egwene n�o ligava para como chamavam, s� queria descobrir as inten��es das Aes Sedai enviadas pela Torre.</p><p>Tocou a tessitura com todo o cuidado na abertura de uma janela � bem de leve, com toda a delicadeza� Depois tocou em outra, e mais outra. Apenas sil�ncio. E ent�o�</p><p>� � da� virei pra ele � anunciou uma voz feminina, em seu ouvido � e falei bem assim: ah, voc� quer essas camas pra agora, �? Pois vai ficar querendo, Alwin Rael!</p><p>Outra mulher respondeu:</p><p>� At� parece que voc� falou isso mesmo!</p><p>Egwene abriu um sorriso amargo. Criadas.</p><p>Uma mulher corpulenta carregando uma cesta de p�o no ombro passou por ali, encarando Egwene, confusa. Claro que estaria confusa: ouvia duas mulheres e via apenas uma garota ali, parada, com os l�bios im�veis. Egwene resolveu o problema do jeito mais r�pido que conhecia: encarou a mulher com tanta irrita��o que ela levou um susto e quase deixou cair a cesta quando disparou para o meio da multid�o.</p><p>Um pouco relutante, Egwene reduziu a intensidade da tessitura. N�o ouviria t�o bem, mas tamb�m n�o atrairia mais olhares curiosos. Uma Aiel espremida contra a parede j� atra�a muitos olhares, embora ningu�m sequer hesitasse antes de seguir adiante, j� que n�o queriam confus�o com os Aiel. N�o quis se preocupar com os curiosos. Foi movendo a tessitura de janela em janela. Suava em bicas, e n�o s� por conta do calor, que j� aumentava. Se uma �nica Aes Sedai visse seus fluxos, mesmo que de relance, mesmo que n�o reconhecesse a tessitura, todas saberiam que algu�m estava canalizando contra elas. E claro que imaginariam o prop�sito da tessitura. Egwene se escondeu ainda mais � s� aparecia metade do olho.</p><p>Sil�ncio. Sil�ncio. Um farfalhar � algu�m andando? Chinelos num carpete? Mas nenhuma palavra. Sil�ncio. Um homem resmungando � parecia estar esvaziando penicos e nem um pouco contente. Sentindo as orelhas quentes, Egwene prosseguiu com a busca. Sil�ncio. Sil�ncio. Sil�ncio.</p><p>� � acha mesmo que � necess�rio? � A voz da mulher chegava como um sussurro, mas mesmo assim soava intensa e cheia de si.</p><p>� Precisamos estar preparadas para qualquer eventualidade, Coiren � retrucou outra mulher, com uma voz que parecia uma barra de ferro. � Ouvi um boato surpreendente�</p><p>Uma porta bateu com for�a, cortando o restante da conversa.</p><p>Egwene encostou na parede de pedra do est�bulo, desanimada. Queria gritar de tanta frustra��o. Ouvira a Cinza que estava no comando, e a outra s� podia ser uma das Aes Sedai que a acompanhavam, ou n�o teria falado daquele jeito com Coiren. N�o poderia ter encontrado conversa melhor para ouvir, mas <emphasis>claro </emphasis>que as duas sa�ram da sala onde estavam. Que boato surpreendente? Que eventualidades? Como elas iam se preparar? A canaliza��o dentro da mans�o voltou a aumentar. O que aquelas mulheres estavam armando? Egwene respirou fundo e recome�ou, obstinada.</p><p>O sol ia cada vez mais alto, e ela ouviu uma infinidade de barulhos, quase todos imposs�veis de identificar, al�m de muitas conversas e fofocas dos servi�ais. Uma mulher chamada Ceri estava gr�vida de novo, e teriam que servir vinho de Arindrim � Egwene n�o fazia ideia de que lugar era esse � para as Aes Sedai junto com a refei��o do meio-dia. A descoberta mais interessante foi que era mesmo Arilyn naquela carruagem. A nobre tinha ido se encontrar com o marido, na �rea rural. Grande coisa. Uma manh� inteira desperdi�ada.</p><p>As portas principais da mans�o se escancaram, e os servi�ais de libr� se curvaram em mesuras. Os soldados n�o pareceram tensos, apenas um pouco mais atentos. Nesune Bihara saiu, seguida por um jovem alto que aparentava ter sido talhado em pedra � em um pedregulho, na verdade.</p><p>Egwene soltou depressa a tessitura, largou <emphasis>saidar</emphasis> e respirou bem fundo, tentando se acalmar. N�o era hora de entrar em p�nico. Nesune e seu Guardi�o trocaram algumas palavras, ent�o a irm� Marrom de cabelo escuro olhou para os dois lados rua abaixo. N�o restava d�vida de que estava atr�s de alguma coisa.</p><p>Achando que, afinal, talvez fosse uma boa hora para entrar em p�nico, Egwene come�ou a se afastar bem devagar, sem querer atrair o olhar atento de Nesune, e tratou de dar meia-volta assim que saiu de vista. Ergueu as saias e saiu correndo, abrindo caminho � for�a pela multid�o. Correu tr�s passadas, at� que deu de cara com uma parede de pedra e caiu sentada no meio da rua, batendo no ch�o com tanta for�a que at� quicou nos paralelep�pedos quentes.</p><p>Ergueu os olhos, confusa � e s� ficou ainda mais confusa. A parede de pedra era Gawyn, que a encarava de cima, parecendo t�o estarrecido quanto ela. Os olhos dele eram azuis brilhantes e intensos, e aqueles cachos dourados� Sentiu o rosto corar, pensando em como queria enroscar os dedos outra vez naqueles cachos neles. <emphasis>Voc� nunca fez isso,</emphasis> corrigiu-se, com firmeza. <emphasis>Foi s� um sonho!</emphasis></p><p>� Machuquei voc�? � perguntou o rapaz, ansioso, abaixando-se para se ajoelhar a seu lado.</p><p>Egwene conseguiu se levantar, meio sem jeito, e espanou a poeira do corpo. Se pudesse ter um �nico desejo realizado naquele exato momento, seria perder a capacidade de corar. Os dois j� haviam atra�do um c�rculo de curiosos, e ela enroscou o bra�o no de Gawyn e o puxou pela rua na dire��o em que estava indo antes de esbarrarem. Com uma olhadela por cima do ombro, viu que deixavam para tr�s apenas uma aglomera��o agitada. Mesmo que Nesune fosse exatamente para aquela esquina, veria apenas um grupo de curiosos confusos. Ainda assim, n�o desacelerou, e a multid�o abria passagem sem reclamar para a Aiel e seu companheiro, alto o bastante para tamb�m ser Aiel, mesmo carregando uma espada � e o modo como Gawyn se movia indicava que sabia como us�-la. Ele se portava como um Guardi�o.</p><p>Depois de se afastarem algumas passadas, Egwene desenroscou o bra�o do dele, embora relutante. Gawyn, por sua vez, agarrou sua m�o antes que ela pudesse se afastar muito, e Egwene permitiu que ele a segurasse enquanto caminhavam.</p><p>� Bem, imagino que � para ignorar o fato de voc� estar vestida como uma Aiel � comentou o jovem, depois de alguns instantes. � A �ltima not�cia que tive era de que voc� estava em Illian. E imagino que eu tamb�m n�o deva comentar que voc� estava fugindo de um pal�cio onde seis Aes Sedai est�o hospedadas. Um comportamento estranho para uma Aceita.</p><p>� Nunca fui a Illian � retrucou ela, olhando em volta, querendo ver se algum Aiel estaria perto o bastante para entreouvir. V�rios olharam em sua dire��o, mas nenhum estava ao alcance da voz. De repente, Egwene assimilou o que Gawyn dissera. Encarou o casaco verde dele, do mesmo tom do casaco dos soldados. � Voc� veio com elas. Com as Aes Sedai da Torre.</p><p>Luz, era uma tola por n�o ter percebido isso assim que o viu.</p><p>A express�o dele se suavizou. Por um instante, seu rosto ficara duro como pedra.</p><p>� Eu comando a guarda de honra das Aes Sedai para escoltar o Drag�o Renascido at� Tar Valon. � Sua voz era uma estranha mistura de ironia, raiva e cansa�o. � Isso se ele quiser. E se estiver mesmo aqui. Fiquei sabendo que ele� aparece e some. Coiren est� irritada.</p><p>Egwene sentia o cora��o na garganta.</p><p>� Eu� Eu preciso lhe pedir um favor, Gawyn.</p><p>� Fa�o qualquer coisa, a n�o ser minhas poucas restri��es � retrucou ele, simplesmente. � N�o farei nenhum mal a Elayne ou a Andor e n�o me tornarei um Devoto do Drag�o. Qualquer outra coisa que possa fazer por voc�, farei.</p><p>V�rias pessoas se viraram na dire��o deles dois. A menor men��o aos Devotos do Drag�o j� atra�a muitos ouvidos. Quatro dur�es que levavam chicotes de condutor de carro��o enrolados por cima dos ombros olharam feio para Gawyn e estalaram os dedos daquele jeito amea�ador que alguns homens faziam antes de uma briga. Gawyn apenas os encarou. N�o eram pequenos, mas sua beliger�ncia esvaneceu sob o olhar daquele rapaz. Dois at� o saudaram levando o punho � testa antes de desaparecerem em meio ao mar de gente. Ainda assim, restaram muitos olhares curiosos, muitos rostos tentando observ�-los furtivamente. Com aqueles trajes, Egwene atrairia olhares mesmo sem dizer uma s� palavra. Ao lado daquele homem de cachos dourados com bem mais que uma bra�a de altura e que parecia um Guardi�o, n�o tinha como n�o chamar aten��o.</p><p>� Precisamos conversar a s�s � sugeriu ela.</p><p><emphasis>Ah, se alguma Aes Sedai tiver feito Gawyn seu Guardi�o, eu vou�</emphasis> Mas era uma amea�a vazia.</p><p>Sem retrucar, Gawyn a levou a uma estalagem pr�xima chamada Homem Comprido. Uma coroa dourada arremessada ao estalajadeiro roli�o resultou em uma sauda��o quase reverente e uma pequena sala de jantar privada com pain�is escuros, cadeiras e uma mesa bem polida, al�m de uma lareira apagada sobre a qual repousava um vaso azul cheio de flores secas. Gawyn fechou a porta, e eles de repente pareceram muito desconfort�veis ali, a s�s. Luz, como ele era lindo. T�o lindo quanto Galad. E o cabelo cacheando em torno das orelhas�</p><p>Gawyn pigarreou.</p><p>� O calor parece cada dia pior. � Ele secou o rosto com um len�o, ent�o o ofereceu. Ent�o pareceu se dar conta de que o len�o estava usado e pigarreou outra vez. � H�, acho que tenho outro.</p><p>Egwene pegou seu pr�prio len�o enquanto ele vasculhava os bolsos.</p><p>� Gawyn, como voc� pode servir a Elaida depois do que ela fez?</p><p>� A Jovem Guarda serve a Torre � retrucou ele, r�gido, mas balan�ou a cabe�a, desconfort�vel. � Desde que� Siuan Sanche� � Por um momento, seus olhos viraram uma pedra de gelo. S� por um momento. � Egwene, minha m�e sempre dizia que at� uma rainha precisa obedecer �s leis que cria, ou n�o existiria lei. � Ele balan�ou a cabe�a, irritado. � Eu n�o deveria ter ficado surpreso por encontr�-la aqui. Eu devia saber que voc� estaria junto de al�Thor.</p><p>� Por que esse �dio dele? � Se a voz dele n�o estava cheia de �dio, ent�o nunca tinha ouvido �dio na vida. � Gawyn, ele realmente � o Drag�o Renascido. Voc� deve ter ouvido falar do que aconteceu em Tear. Ele�</p><p>� Ele pode at� ser o pr�prio Criador encarnado � retrucou o rapaz, irritado. � Al�Thor matou a minha m�e!</p><p>Os olhos de Egwene ficaram t�o arregalados que quase saltaram do rosto.</p><p>� N�o, Gawyn! N�o matou, n�o!</p><p>� Pode jurar isso? Estava l� quando ela morreu? Todos est�o falando nisso. O Drag�o Renascido tomou Caemlyn e matou Morgase. E deve ter matado Elayne tamb�m. N�o tenho nenhuma not�cia dela. � Toda aquela f�ria foi drenada, e Gawyn pareceu perder as for�as. Deixou a cabe�a cair para a frente, cerrou os punhos, fechou os olhos. � N�o consigo descobrir nada sobre ela � sussurrou.</p><p>� Elayne est� ilesa � avisou Egwene.</p><p>Ficou surpresa ao notar que estava bem diante dele. Ent�o se levantou e ficou surpresa outra vez quando ergueu a m�o e acariciou os cachos de Gawyn enquanto erguia sua cabe�a. A sensa��o era id�ntica � da mem�ria do sonho. Ent�o recolheu a m�o como se tivesse sido queimada. Tinha certeza de que estava corando tanto que seu rosto em breve pegaria fogo. S� que� Manchas de cor brotaram nas bochechas de Gawyn. Claro. Ele tamb�m se lembrava, embora achasse que tinha sido um sonho s� dele. Aquilo deveria ter deixado Egwene ainda mais corada, por�m, de alguma forma, sua rea��o foi o oposto. O ruborizar de Gawyn acalmou seus nervos e a fez at� querer sorrir.</p><p>� Elayne est� em seguran�a, Gawyn. Isso, eu <emphasis>posso</emphasis> jurar.</p><p>� Onde ela est�? � A voz dele era pura ang�stia. � E por onde andou? O lugar dela � em Caemlyn. Quer dizer, n�o em Caemlyn. N�o enquanto al�Thor estiver l�. Mas � em Andor. Onde ela est�, Egwene?</p><p>� Eu� n�o posso dizer. N�o posso, Gawyn.</p><p>Ele a analisou, o rosto completamente inexpressivo, ent�o suspirou.</p><p>� A cada vez que nos vemos, voc� � mais Aes Sedai. � Ele riu. A risada soou for�ada. � Sabia que eu �s vezes pensava em ser seu Guardi�o? Que tolice, n�o �?</p><p>� Voc� vai ser o meu Guardi�o.</p><p>Egwene s� percebeu que dissera aquilo quando as palavras j� tinham sa�do da boca. No entanto, soube que era verdade. Aquele sonho. Gawyn se ajoelhando diante dela para que segurasse sua cabe�a. O significado daquilo poderia ser cem coisas ou nada, mas Egwene sabia.</p><p>Gawyn sorriu. O idiota achava que ela estava brincando!</p><p>� Ah, com certeza n�o serei eu. Galad, talvez. S� que voc� vai ter que espantar as outras Aes Sedai com uma vara. As Aes Sedai, as servi�ais, as rainhas, as camareiras, as mercadoras, as mulheres de fazendeiros� Todas s� t�m olhos para ele. Nem tente dizer que n�o acha Galad�</p><p>O jeito mais simples de acabar com aquela baboseira foi cobrir a boca dele com a m�o.</p><p>� Eu n�o amo Galad. Eu amo voc�.</p><p>Gawyn continuou tentando fingir que era zombaria, sorrindo por tr�s de seus dedos.</p><p>� Eu n�o posso ser Guardi�o. Serei o Primeiro Pr�ncipe da Espada de Elayne.</p><p>� Se a Rainha de Andor pode ser Aes Sedai, ent�o um Primeiro Pr�ncipe pode ser Guardi�o. E voc� vai ser o meu. Trate de meter isso nessa sua cabe�a dura, porque estou falando s�rio. E eu te amo.</p><p>Gawyn simplesmente a encarou. Pelo menos tinha parado com aquele sorriso. S� que ele n�o disse nada, ficou apenas olhando. Egwene afastou a m�o do rosto dele e perguntou:</p><p>� E ent�o? N�o vai dizer nada?</p><p>� Quando voc� passa tanto tempo desejando ouvir algo � come�ou ele, hesitante �, ent�o ouve de repente, sem aviso, � como escutar rel�mpagos e ver a chuva cair no solo seco e rachado depois de uma longa seca. � um choque, mas voc� n�o quer ouvir outra coisa.</p><p>� Eu te amo, eu te amo, eu te amo � repetiu Egwene, sorrindo. � E ent�o?</p><p>Em resposta, ele a ergueu nos bra�os e a beijou. Cada detalhe foi t�o bom quanto nos sonhos. Foi ainda melhor. Foi� Quando ele a botou de volta no ch�o, Egwene se agarrou em seus bra�os � ela sentia que os joelhos n�o estavam funcionando direito.</p><p>� Milady Aiel Egwene Aes Sedai, eu te amo. N�o vejo a hora de me tornar seu Guardi�o. � Deixando de lado a falsa formalidade e assumindo um tom mais leve, ele acrescentou: � Eu te amo, Egwene al�Vere. Voc� disse que queria um favor. Qual era? A lua em um colar? Mando um ourives dar um jeito nisso em menos de uma hora. Estrelas para usar no cabelo? Vou�</p><p>� N�o conte a Coiren e as outras que estou aqui. Nem mencione o meu nome.</p><p>Egwene esperava alguma hesita��o, mas Gawyn apenas respondeu, sem rodeios:</p><p>� Elas n�o v�o ficar sabendo de nada por mim. E, se eu puder evitar, ningu�m vai dizer nada. � Ele fez uma breve pausa, ent�o segurou seus ombros e a encarou. � Egwene, n�o vou perguntar por que voc� est� aqui. N�o, ou�a o que tenho a dizer. Sei que Siuan a envolveu em suas tramas e entendo que voc� seja leal a um homem da sua pr�pria aldeia. Isso n�o importa. Mas voc� deveria estar na Torre Branca, estudando. Eu me lembro de todas l� comentarem que voc� seria uma Aes Sedai poderosa um dia. Voc� tem algum plano para voltar sem� sem ser punida? � Egwene balan�ou a cabe�a, muda, e ele prosseguiu, apressado: � Talvez eu consiga arranjar um jeito, caso voc� n�o pense em nada antes. Sei que voc� n�o tinha op��o sen�o obedecer Siuan, mas duvido que Elaida v� considerar isso. S� de mencionar o nome da antiga Amyrlin perto dela a pessoa corre o risco de sair sem cabe�a. Vou tentar descobrir um jeito, qualquer que seja. Eu juro. Mas me prometa que, at� eu conseguir, voc� n�o vai� n�o vai fazer nenhuma bobagem. � Durou apenas um instante, mas ele apertou seu ombro quase a ponto de doer. � S� me prometa que vai tomar cuidado.</p><p>Luz, se metera em uma encrenca daquelas. N�o podia dizer a ele que n�o tinha a menor inten��o de voltar � Torre enquanto Elaida ainda ocupasse o Trono de Amyrlin. E essa tal bobagem que ele queria que ela n�o fizesse com certeza estava relacionada a Rand. Gawyn parecia t�o preocupado. Com ela.</p><p>� Eu vou tomar cuidado, Gawyn. Prometo. � <emphasis>O m�ximo de cuidado poss�vel,</emphasis> emendou, para si mesma. Era apenas um pequeno detalhe, mas dificultou ainda mais o que precisava dizer: � Preciso lhe pedir um segundo favor. Rand n�o matou sua m�e. � Como podia dizer aquilo e esperar que ele ficasse menos tenso? Bem, com ou sem tens�o, precisava ser feito. � Me prometa que n�o vai levantar a m�o contra Rand at� eu ter como provar que ele n�o matou sua m�e.</p><p>� Eu juro.</p><p>A resposta mais uma vez veio sem hesita��o, mas a voz estava rouca, e as m�os a apertaram de novo por alguns instantes, e com mais for�a que antes. Egwene n�o se encolheu. Aquela leve dor foi como uma compensa��o para a dor que infligia nele.</p><p>� Tem que ser assim, Gawyn. N�o foi ele, mas preciso de tempo para provar.</p><p>Ah, Luz, como faria isso? A palavra de Rand n�o bastaria. Que enrascada! Bem, precisava se concentrar em uma coisa de cada vez. E o que aquelas Aes Sedai estariam tramando?</p><p>Gawyn deixou-a sobressaltada ao respirar com pesar.</p><p>� Eu posso abrir m�o de tudo, trair tudo, por voc�. Fuja comigo, Egwene. Vamos deixar isso tudo para tr�s. Eu tenho uma pequena propriedade ao sul de Ponte Branca, com um vinhedo e uma aldeia. � t�o embrenhada na zona rural que por l� o sol se levanta com dois dias de atraso. Mal vamos ficar sabendo do que tem acontecido no mundo. Podemos nos casar no caminho. N�o sei quanto tempo temos, com al�Thor e Tarmon Gai�don. N�o sei quanto tempo teremos, mas podemos pass�-lo juntos.</p><p>Egwene o encarou, pasma. Em seguida, ela se deu conta de que falara em voz alta, perguntando o que as Aes Sedai estariam tramando. S� ent�o entendeu a palavra que ele usou � trair. Gawyn achava que Egwene queria que ele espionasse as Aes Sedai. E espionaria. Estava desesperado atr�s de um modo de n�o ter que fazer isso, mas faria, se ela pedisse. Quando Gawyn prometera que faria qualquer coisa, estava falando de qualquer coisa mesmo, n�o importava o que lhe custasse. Foi quando Egwene fez uma promessa para si mesma � para ele, na verdade, mas n�o era o tipo de promessa que podia ser feita em voz alta. Se Gawyn deixasse escapar alguma coisa, ela usaria a informa��o � n�o tinha op��o. Mas n�o iria tentar extrair qualquer informa��o dele, por menos que fosse. N�o importava o que poderia lhe custar. Sarene Nemdahl jamais compreenderia aquilo, mas era a �nica coisa que poderia se equiparar � lealdade que ele lhe prometera.</p><p>� Eu n�o posso � respondeu, baixinho. � Voc� nunca vai conseguir compreender quanto eu quero isso, mas n�o posso. � Ela come�ou a rir de repente, sentindo l�grimas brotarem em seus olhos. � E nem voc�. Trair? Gawyn Trakand, essa palavra faz tanto sentido na sua boca quanto dizer que a escurid�o � coisa do sol. � Suas promessas mudas podiam ser �timas e muito verdadeiras, mas n�o podia deixar por aquilo mesmo. Sabia que usaria a lealdade que ele lhe dedicara, e usaria contra o que ele acreditava ser certo. Precisava oferecer uma parte de si em troca. � Eu durmo nas tendas, mas venho passear pela cidade todas as manh�s. Atravesso o Port�o da Muralha do Drag�o pouco depois do nascer do sol.</p><p>E Gawyn compreendeu, claro. Para retribuir a lealdade de Gawyn, ela oferecia sua f� nas palavras dele, depositava sua liberdade nas m�os dele. Gawyn tomou suas m�os dela e virou-as, beijando as palmas com toda a delicadeza.</p><p>� � um presente muito precioso. Se eu for todas as manh�s ao Port�o da Muralha do Drag�o, algu�m com certeza vai notar. E pode ser que eu n�o consiga ir todas as manh�s. Mas n�o fique surpresa em me ver a seu lado quase todos os dias, logo depois de voc� entrar na cidade.</p><p>Quando Egwene finalmente saiu da estalagem, o sol j� percorrera uma dist�ncia consider�vel. Era a hora mais quente da tarde, o que diminu�a um pouco a multid�o. Despedir-se levou bem mais tempo do que imaginara. Al�m disso, beijar Gawyn talvez n�o fosse bem o tipo de exerc�cio que as S�bias tinham em mente, mas seu cora��o estava acelerado como se tivesse corrido.</p><p>Afastou aqueles pensamentos com firmeza � na verdade, teve que fazer bastante esfor�o para deixar o rapaz em segundo plano, j� que afast�-lo da mente por completo parecia muito al�m de suas possibilidades � e voltou ao ponto de observa��o perto do est�bulo. Algu�m ainda canalizava l� dentro da mans�o, e provavelmente era mais de uma pessoa � a menos que uma �nica pessoa estivesse tecendo algo bem grande. Dali de fora, a sensa��o estava mais fraca, mas ainda era forte. Viu uma mulher de cabelo escuro entrando na propriedade � n�o a reconheceu, mas o rosto duro de idade indefinida deixava bem claro o que a mulher era. N�o tentou ouvir mais conversas e n�o ficou muito tempo ali � se as mulheres iam ficar entrando e saindo, havia uma grande chance de acabar sendo vista e reconhecida, apesar das roupas. Enquanto sa�a, �s pressas, um pensamento ainda martelava em sua cabe�a: o que elas estariam tramando?</p><empty-line/><p>� Viemos com a inten��o de oferecer uma escolta para levar o Drag�o a Tar Valon � informou Katerine Alruddin, remexendo-se de leve no assento. Nunca tinha entendido se as poltronas cairhienas eram t�o desconfort�veis quanto pareciam ou se sua mente acreditava que fossem desconfort�veis apenas pela apar�ncia. � Depois que ele deixar Cairhien para ir a Tar Valon, haver� um v�cuo aqui.</p><p>Lady Colavaere, acomodada na poltrona dourada diante dela, n�o sorriu, apenas se inclinou um pouco para a frente.</p><p>� Isso desperta meu interesse, Katerine Sedai. � Ent�o se virou para os servi�ais e completou: � Podem ir.</p><p>Katerine sorriu.</p><empty-line/><p>� Viemos com a inten��o de oferecer uma escolta para levar o Drag�o a Tar Valon � declarou Nesune, a voz muito controlada revelando uma pontinha de irrita��o. Apesar do rosto sereno, o taireno � sua frente n�o parava de remexer os p�s, ansioso por estar na presen�a de uma Aes Sedai e talvez apreensivo com a possibilidade de ela come�ar a canalizar. S� um amadiciano estaria pior. � Depois que ele deixar Cairhien para ir a Tar Valon, Cairhien precisar� de uma figura poderosa.</p><p>O Gr�o-senhor Meilan umedeceu os l�bios.</p><p>� Por que est� me dizendo isso?</p><p>O sorriso de Nesune poderia significar qualquer coisa.</p><empty-line/><p>Quando Sarene entrou na sala de estar, s� encontrou Coiren e Erian, bebericando ch�. Al�m do servi�al esperando para servi-las, claro. Sarene gesticulou para que o homem sa�sse.</p><p>� Ela pode se revelar bem dif�cil, essa Berelain � opinou, assim que a porta se fechou. � N�o sei se o que funcionaria melhor com ela seria a ma�� ou o chicote. Eu deveria encontrar Aracome amanh�, n�o � mesmo? Mas acho que precisaremos de mais tempo com Berelain.</p><p>� Ma�� ou chicote � ponderou Erian, a voz contrita. � No caso, usamos o que for preciso.</p><p>Sarene pensou em como o rosto de Erian parecia ser de m�rmore claro emoldurado por asas de corvo � seu v�cio secreto era a poesia, mas jamais permitiria que descobrissem que ela se interessava por algo t�o� emotivo. Morreria de vergonha se Vitalien, seu Guardi�o, descobrisse que ela j� escrevera versos comparando-o a um leopardo, al�m de outros animais graciosos, poderosos e perigosos.</p><p>� Controle-se, Erian. � Como de costume, Coiren falava como se discursasse. � Sarene, ela est� assim incomodada por um rumor que Galina escutou. Corre o boato de que uma irm� Verde estava em Tear com o jovem Rand al�Thor e que essa mulher agora est� aqui em Cairhien.</p><p>Coiren <emphasis>sempre</emphasis> se referia ao garoto como �o jovem Rand al�Thor�, como se quisesse lembrar a todos de que o rapaz era muito jovem � e, portanto, inexperiente.</p><p>� Moiraine <emphasis>e</emphasis> uma Verde � matutou Sarene. Aquilo de fato poderia indicar problemas. Elaida insistia que Moiraine e Siuan tinham agido sozinhas, permitindo que al�Thor ficasse � solta sem orienta��o, mas, mesmo que o boato fosse de apenas mais uma Aes Sedai envolvida, poderia significar que outras tamb�m estavam, o que poderia ser um fio condutor que levasse at� algumas, qui�� muitas, das que tinham ido embora da Torre quando Siuan foi deposta. � Mas � s� um boato.</p><p>� Talvez n�o seja � alertou Galina, entrando na sala. � N�o ouviram? Algu�m canalizou contra n�s hoje de manh�. Por que eu n�o sei, mas acho que d� para ter um palpite. E com muitas chances de estar certo.</p><p>As contas presas �s trancinhas escuras de Sarene estalaram quando ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� Isso n�o comprova a presen�a de uma Verde, Galina. N�o prova nem que era uma Aes Sedai. Poderia ser alguma coitada qualquer mandada embora da Torre por n�o ter passado no teste para Aceita. E voc� sabe t�o bem quanto eu que algumas daquelas Aiel podem canalizar.</p><p>Galina sorriu, os dentes brancos se destacando no rosto negro e duro.</p><p>� Acho que comprova a presen�a de Moiraine. Ouvi dizer que ela tinha a mania de ouvir as conversas alheias e n�o acredito nada nessa hist�ria t�o oportuna de ela ter morrido. N�o sem nenhum cad�ver de prova e nem ningu�m para dar detalhes de como foi.</p><p>Sarene tamb�m se incomodava bastante com aquilo. Em parte porque gostava de Moiraine, antes daquela hist�ria toda. Tinham sido amigas durante seu tempo de novi�as e Aceitas, mesmo Moiraine estando um ano � frente, e a amizade se mantivera em seus poucos encontros nos anos seguintes. E em parte porque aquela hist�ria estava mesmo muito estranha, e era bastante conveniente que Moiraine tivesse morrido � ou melhor, desaparecido � agora que havia um mandato de pris�o para sua cabe�a. Naquelas circunst�ncias, a Azul podia muito bem ter forjado a pr�pria morte.</p><p>� Ent�o voc� acredita que teremos que lidar com Moiraine e com uma irm� Verde desconhecida? Isso tudo � especula��o, Galina.</p><p>O sorriso de Galina n�o se alterou, mas os olhos brilharam. A mulher era inflex�vel demais para a l�gica, acreditava no que acreditava, n�o importando as evid�ncias. Ainda assim, Sarene sempre achava que havia um fogo intenso e incandescente ardendo em algum lugar das profundezas de Galina.</p><p>� Eu acredito � que <emphasis>Moiraine </emphasis>� essa irm� Verde misteriosa � revelou Galina. � Que jeito melhor de escapar da pris�o do que morrer e reaparecer como outra mulher, de outra Ajah? J� ouvi falar at� que essa Verde � baixa, e todas sabemos como Moiraine est� longe de ser uma alta. � Erian se endireitou na poltrona, r�gida feito uma rocha, as labaredas de ultraje ardendo em seus grandes olhos castanhos. Galina se virou para ela: � Quando pegarmos essa <emphasis>irm� Verde,</emphasis> acredito que o melhor ser� deix�-la sob sua responsabilidade durante a jornada de volta � Torre.</p><p>Erian assentiu, �vida, mas o calor n�o se dissipou de seus olhos.</p><p>Sarene estava estarrecida. Moiraine fingindo ser de outra Ajah? Claro que n�o. Sarene nunca se casara � n�o havia nada de l�gico em pensar que duas pessoas poderiam permanecer compat�veis por uma vida inteira �, mas a �nica compara��o que lhe vinha � cabe�a era que se passar por outra Ajah era como se deitar com o marido de outra mulher. No entanto, foi a acusa��o em si que a deixou estarrecida, n�o a possibilidade de que aquela fantasia pudesse ser verdade. Estava prestes a retrucar, observando que havia muitas mulheres baixas no mundo e que a pouca estatura de algu�m era algo relativo, quando Coiren voltou a falar, naquela voz retumbante:</p><p>� Sarene, � sua vez de novo. Precisamos estar preparadas, aconte�a o que acontecer.</p><p>� Ah, nem gosto de falar nisso � reclamou Erian. � No caso, parece que estamos nos preparando para o fracasso.</p><p>� O que � apenas l�gico � retrucou Sarene. � Mesmo se dividirmos nosso tempo pela menor medida poss�vel, continua sendo imposs�vel afirmar com certeza fact�vel o que vai acontecer entre um momento e outro. Se formos a Caemlyn atr�s de al�Thor, podemos muito bem chegar l� apenas para descobrir que ele veio para c�, � melhor continuarmos aqui, para onde podemos afirmar com razo�vel certeza que ele vai voltar em algum momento. O problema � que isso pode acontecer amanh� ou daqui a um m�s. Qualquer acontecimento isolado em qualquer momento dessa espera, ou ainda qualquer combina��o de eventos, poderia nos deixar sem alternativa. Portanto, � apenas l�gico estarmos preparadas para o pior.</p><p>� Muito bem explicado � retrucou Erian, seca.</p><p>A mulher n�o levava muito jeito para a l�gica, e Sarene �s vezes achava que aquilo era uma caracter�stica comum �s mulheres bonitas, apesar de n�o haver qualquer l�gica aparente nessa rela��o.</p><p>� Temos todo o tempo de que precisamos � anunciou Coiren, com ares de grandeza. Mesmo quando n�o estava discursando, parecia fazer um pronunciamento. � Beldeine chegou hoje e alugou um quarto perto do rio, mas Mayam n�o conseguir� chegar em menos de dois dias. Precisamos tomar muito cuidado, e essa demora nos d� tempo.</p><p>� Continuo sem gostar nada dessa hist�ria de me preparar para o fracasso � murmurou Erian, para sua x�cara de ch�.</p><p>� N�o considero nem um pouco inoportuno se tivermos algum tempo para levar Moiraine � justi�a � opinou Galina. � J� esperamos esse tempo todo, n�o h� tanta pressa assim para resolver as coisas com al�Thor.</p><p>Sarene suspirou. Aquelas mulheres eram t�o boas em suas especialidades, mas n�o conseguia entender como. N�o havia um pingo de l�gica em qualquer uma delas.</p><p>Retirou-se para seus aposentos, sentou-se diante da lareira apagada e come�ou a canalizar. Seria mesmo poss�vel que esse tal Rand al�Thor tivesse redescoberto a arte de Viajar? Era muito mais do que se poderia acreditar, mas era a �nica explica��o. Que tipo de homem ele era? Bem, descobriria quando o conhecesse, n�o antes. Preenchida por <emphasis>saidin</emphasis> quase a ponto de a do�ura se transformar em dor, come�ou a repassar os exerc�cios das novi�as � aquilo serviria t�o bem quanto qualquer outra prepara��o mental. E se preparar era apenas l�gico.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 26</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Ligando as linhas</p></title><p>Em um ressoar cont�nuo, trov�es ribombavam pelas colinas baixas e cobertas de grama j� amarronzada em um cont�nuo ressoar, embora n�o houvesse uma s� nuvem no c�u, apenas o sol escaldante, que ainda n�o chegara ao topo. Rand estava no cume de uma colina, segurando as r�deas, o Cetro do Drag�o apoiado no cepilho da sela, esperando. O trov�o foi crescendo aos poucos, aumentando. Era dif�cil n�o olhar para tr�s, para o sul, na dire��o de Alanna � a Verde machucara o tornozelo e ralara a m�o naquela manh�, al�m de estar de p�ssimo humor. N�o sabia como nem por qu�, nem ao menos tinha ideia de como estava t�o certo daquilo. O trov�o chegou ao �pice.</p><p>Os cavaleiros saldaeanos despontaram no topo da colina mais pr�xima, os tr�s galopando lado a lado, encabe�ando a longa linha serpenteante que descia encosta abaixo at� chegar ao campo extenso entre as muitas colinas � nove mil homens, uma serpente bem comprida. Eles se dividiram assim que chegaram ao p� de uma nova colina: a coluna do meio seguiu adiante, mas as outras deram uma guinada para a esquerda e a direita, ent�o cada coluna se dividiu de novo e de novo, at� cavalgarem em centenas de pequenas fileiras que ultrapassavam umas as outras. Os cavaleiros come�aram a se erguer nas selas, uns apoiados nos p�s, outros, nas m�os. Alguns se balan�aram bem rente ao ch�o, acertando-o com a palma da m�o em uma manobra imposs�vel, uma vez de cada lado da montaria. Outros homens desceram das selas e se penduraram embaixo dos cavalos ainda em disparada; enquanto alguns se jogaram no ch�o para correr ao lado do animal antes de montar outra vez, para depois pular para o outro lado e repetir a proeza.</p><p>Rand ergueu as r�deas e cravou os calcanhares em Jeade�en. Quando o sarapintado come�ou a avan�ar, os Aiel � sua volta tamb�m se puseram em movimento. Naquela manh�, quem acompanhava a escolta das Donzelas eram os Dan�arinos da Montanha, <emphasis>Hama N�dore</emphasis> � mais da metade usava a faixa vermelha dos <emphasis>siswai�aman</emphasis>. Caldin, um homem grisalho e de pele curtida, tentara convencer Rand a permitir mais de vinte homens na escolta, considerando a quantidade de aguacentos armados que haveria na exibi��o. Nenhum dos Aiel se preocupou em olhar com desprezo para a espada que ele carregava. Nandera, por exemplo, estava mais preocupada com as duzentas e tantas mulheres que seguiam o grupo a cavalo. A seus olhos, havia mais amea�a nas nobres saldaeanas e nas esposas dos oficiais do que naqueles soldados. Depois de ter conhecido algumas mulheres daquela terra, Rand n�o estava disposto a discutir com ela � a pr�pria Sulin decerto concordaria. Foi quando reparou que n�o via Sulin desde� desde que tinham voltado de Shadar Logoth. Fazia oito dias. Ser� que a ofendera de algum jeito?</p><p>N�o era hora de se preocupar com Sulin ou o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Ele contornou o vale at� o topo da colina de onde os saldaeanos tinham vindo. Bashere tamb�m cavalgou at� l�, observando a demonstra��o � por uma ir�nica coincid�ncia, ele fez isso tudo de p� sobre a sela.</p><p>Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis>, soltando-o um instante depois. Com a vis�o agu�ada pelo Poder, n�o fora dif�cil notar as duas pedras brancas perto do p� da encosta, a quatro passos de dist�ncia uma da outra, exatamente onde Bashere as colocara na noite anterior � com sorte, sem ser visto. E, com sorte, ningu�m faria muitas perguntas sobre aquela manh�. No prado abaixo, alguns homens cavalgavam dois cavalos, um p� em cada sela, ainda mantendo um galope ligeiro, enquanto outros sustentavam um soldado nos ombros. Muitas vezes, esse segundo soldado estava de cabe�a para baixo, equilibrando-se com as m�os nos ombros do cavaleiro.</p><p>Olhou em volta, ouvindo um cavalo avan�ar em sua dire��o. Deira ni Ghaline t�Bashere cavalgava entre os Aiel visivelmente despreocupada. Armada apenas com uma faquinha no cintur�o de prata e usando um vestido de montaria de seda cinza com bordados prateados nas mangas e na gola alta, a mulher parecia desafi�-los a atac�-la. Era uma mulher grande, t�o alta quanto muitas das Donzelas e quase um palmo maior que o marido. N�o era corpulenta ou mesmo rechonchuda, apenas grande. Mechas brancas despontavam de cada lado dos cabelos negros, e os olhos escuros e obl�quos estavam fixos em Rand. Devia ser uma bela mulher, quando a presen�a do Drag�o Renascido n�o transformava seu rosto em granito.</p><p>� E meu marido est� conseguindo� <emphasis>entret�-lo</emphasis>? � Ela nunca usava nenhum t�tulo para Rand nem nunca o chamava pelo nome.</p><p>Rand olhou para as outras saldaeanas, que o encaravam feito uma tropa de cavalaria pronta para avan�ar � seus rostos tamb�m eram puro granito, e os olhos obl�quos, g�lidos. Estavam s� esperando a ordem de Deira. N�o tinha a menor dificuldade de acreditar nas hist�rias sobre as saldaeanas pegando as espadas dos maridos que tinham ca�do em batalha e conduzindo seus homens de volta para a luta. Tentar ser agrad�vel n�o surtira qualquer efeito positivo com a esposa de Bashere. O pr�prio general apenas dava de ombros e dizia que ela de fato podia ser bem dif�cil, isso tudo com um sorriso enorme no rosto que s� podia ser de orgulho.</p><p>� Pode dizer a Lorde Bashere que fiquei satisfeito � respondeu Rand. Virou Jeade�en para come�ar a voltar para Caemlyn. Sentia os olhos das saldaeanas cravados em suas costas.</p><p>Lews Therin soltou uma risadinha � pelo menos essa parecia ser a melhor forma de descrever o som. <emphasis>Nunca provoque uma mulher desnecessariamente. Qualquer uma mataria com menos aviso ou motivo do que um homem ofendido, mesmo que depois acabe chorando sobre o cad�ver.</emphasis></p><p><emphasis>Voc� est� mesmo a�?</emphasis>, perguntou Rand. <emphasis>Voc� � mais que uma voz?</emphasis></p><p>Em resposta, veio apenas aquela risada baixa e louca.</p><p>Ele ficou ruminando a respeito de Lews Therin durante todo o trajeto de volta a Caemlyn, mesmo quando passaram por um dos longos mercados comunit�rios de teto azulejado enfileirados pr�ximo aos port�es da Cidade Nova. Temia estar enlouquecendo � n�o apenas pela loucura em si, embora isso j� fosse ruim o bastante, mas porque, se enlouquecesse, como faria o que precisava ser feito? �, embora n�o notasse qualquer ind�cio de loucura. Por outro lado, como saberia se sua mente de fato sucumbisse? Nunca conhecera um louco, s� tinha o exemplo da voz de Lews Therin dentro de sua cabe�a. Ser� que a loucura de todos os homens era igual? Ser� que acabaria daquele jeito, rindo e chorando por coisas que ningu�m mais via ou notava? Sabia que tinha uma chance de sobreviver, por mais que parecesse imposs�vel. <emphasis>Se quiser viver, ter� que morrer � </emphasis>uma das tr�s coisas que Rand sabia que s� podiam ser verdade, pois lhe tinham sido reveladas dentro de um <emphasis>ter�angreal</emphasis> onde as respostas eram sempre verdadeiras, ainda que n�o fossem f�ceis de compreender. Mas uma vida daquelas� n�o tinha certeza, mas talvez fosse melhor morrer.</p><p>A multid�o caminhando pela Cidade Nova abriu caminho para os mais de quarenta Aiel que o acompanhavam, e alguns at� reconheceram o Drag�o Renascido � talvez mais pessoas tivessem reconhecido, mas Rand n�o recebeu muitas sauda��es. �Que a Luz brilhe sobre o Drag�o Renascido!�, �A gl�ria da Luz ao Drag�o Renascido!� e �O Drag�o Renascido, o rei de Andor!�</p><p>Aquela �ltima sempre o incomodava, e dessa vez ouviu a sauda��o mais de uma vez. Precisava encontrar Elayne. Sentia os dentes rangendo. N�o conseguia nem olhar para o povo � queria deixar todos de joelhos, berrar que Elayne era a rainha. Tentando n�o ouvir, Rand encarou o c�u, os telhados � tudo, menos a multid�o. E foi por isso que conseguiu ver o homem de manto branco que escalou um telhado de telhas vermelhas e ergueu uma besta na dire��o dele.</p><p>Tudo aconteceu em um piscar de olhos. Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis> e canalizou enquanto a flecha voava em sua dire��o � o proj�til atingiu uma barreira de Ar, uma massa de prata azulada suspensa no meio da rua, chocando-se com um clangor de metal contra metal. Uma bola de fogo irrompeu de sua m�o, acertando o homem no peito enquanto a flecha ricocheteava para longe do escudo de Ar. As chamas envolveram o desconhecido e ele caiu do telhado ainda agonizando. Ent�o algu�m se atirou em cima de Rand, jogando-o para fora da sela.</p><p>Ele caiu feio no ch�o de paralelep�pedos, sentindo um peso sobre seu corpo, e largou <emphasis>saidin</emphasis> ao mesmo tempo em que perdia o f�lego. Tentando respirar, lutou contra o peso, jogando-o para o lado� e viu que segurava Desora pelos bra�os. A mulher sorriu para ele � um belo sorriso �, ent�o sua cabe�a desabou para o lado. Os olhos azuis o encaravam, j� cegos e embotados. Uma flecha da besta despontava de seu peito, pressionando o punho de Rand. Por que ela sempre escondera aquele sorriso t�o lindo?</p><p>Rand foi agarrado e erguido por Donzelas e Dan�arinos da Montanha que o empurraram para o canto da rua, bem ao lado da loja de um funileiro, e se dispuseram em um c�rculo bem fechado � sua volta � todos velados, os arcos de chifre prontos, os olhos perscrutando ruas e telhados. Gritos e berros irromperam por toda parte, mas a rua j� estava completamente livre mais de cinquenta passadas de cada lado do c�rculo de Aiel, e a multid�o virou uma massa fervilhante desesperada para ir embora. A rua estava vazia, exceto pelos corpos: Desora e mais seis, tr�s deles Aiel. Rand achou que havia mais uma Donzela abatida. Era dif�cil ter certeza daquela dist�ncia, ainda mais com a pessoa ca�da feito uma boneca de pano.</p><p>Rand come�ou a andar, e os Aiel � sua volta apertaram ainda mais o c�rculo, em uma muralha de carne.</p><p>� Esses lugares parecem tocas de coelhos � comentou Nandera, displicente, mas ainda de rosto velado, vigiando os arredores. � Se entrar na dan�a aqui, pode acabar levando uma facada nas costas antes de desconfiar de que h� perigo.</p><p>Caldin assentiu.</p><p>� Isso me lembra uma batalha perto de Fenda de Sedar, quando� Bem, pelo menos temos um prisioneiro. � Alguns dos <emphasis>Hama N</emphasis>�<emphasis>dore</emphasis> tinham sa�do de uma taverna do outro lado da rua, empurrando um homem com os bra�os e os cotovelos amarrados nas costas. O homem n�o parou de se debater at� ser derrubado de joelhos sobre o ch�o de paralelep�pedos, as lan�as coladas a seu pesco�o. � Talvez ele diga quem ordenou isso. � Caldin n�o parecia ter a menor d�vida de que o homem falaria.</p><p>Um instante depois, algumas Donzelas sa�ram de outra casa trazendo um segundo homem amarrado � o sujeito mancava e estava com o rosto ensanguentado. N�o demorou para os Aiel alinharem quatro homens ajoelhados na rua. Enfim o semic�rculo que envolvia Rand se afrouxou.</p><p>Os quatro pareciam dur�es, mas o que estava todo sujo de sangue cambaleou e revirou os olhos para os Aiel. Dois outros pareciam desafiadores, e o quarto os olhava com desprezo.</p><p>Rand sentiu as m�os tremerem.</p><p>� T�m certeza de que eles estavam envolvidos? � N�o conseguia acreditar na brandura e na firmeza de sua voz. Um tanto de fogo devastador resolveria tudo. <emphasis>Fogo devastador n�o</emphasis>, protestou Lews Therin, ofegante. <emphasis>Nunca mais.</emphasis> � T�m certeza?</p><p>� Estavam � respondeu uma Donzela, mas ele n�o soube dizer quem era por tr�s do v�u. � E os que matamos estavam usando isso aqui.</p><p>A mulher deu um pux�o, soltando o manto preso pelos bra�os atados do sujeito com o rosto ensanguentado. Era um manto branco surrado, encardido e manchado com um raio de sol dourado bordado na parte que deveria ficar sobre o peitoral. Os outros tr�s usavam mantos iguais.</p><p>� Foram enviados para ficar de vigia � acrescentou um Dan�arino da Montanha � e informar aos superiores caso o ataque fosse malsucedido. � Ele soltou uma risada seca e curta. � Esses superiores n�o imaginavam o tamanho do fracasso.</p><p>� Nenhum desses homens disparou uma besta? � perguntou Rand. Fogo devastador. <emphasis>N�o</emphasis>, ganiu Lews Therin, de longe. Os Aiel se entreolharam e negaram com as cabe�as envoltas nas <emphasis>shoufas</emphasis>. � Enforquem todos � ordenou.</p><p>O sujeito ensanguentado quase desabou. Rand o sustentou com fluxos de Ar e o p�s de p�. S� ent�o percebeu que agarrara <emphasis>saidin</emphasis>. Aceitou de bom grado aquela luta pela sobreviv�ncia, aceitou at� a m�cula, que corro�a seus ossos feito lodo �cido. O Poder diminu�a a consci�ncia das coisas que preferia n�o lembrar, das emo��es que preferia n�o sentir.</p><p>� Qual � o seu nome?</p><p>� F-Faral, m-milorde. D-Dimir Faral. � Os olhos, t�o arregalados que quase saltavam das �rbitas, encaravam Rand por tr�s daquela m�scara de sangue. � P-Por favor, n�o me e-enforque, m-milorde. Eu c-caminharei pela Luz, eu j-juro!</p><p>� Voc� � um sujeito de muita sorte, Dimir Faral � come�ou Rand, sua pr�pria voz soando t�o distante quanto os gritos de Lews Therin. � Voc� vai assistir ao enforcamento dos seus amigos � Faral come�ou a chorar �, depois receber� um cavalo, ent�o vai contar a Pedron Niall que um dia eu tamb�m o enforcarei pelo que aconteceu aqui hoje. � Quando Rand soltou os fluxos de Ar, Faral desabou no ch�o, gemendo e afirmando que iria at� Amador sem parar nem uma vez. Os tr�s que estavam � beira da morte encararam o homem solu�ante com desprezo. Um at� cuspiu no ch�o.</p><p>Rand eliminou todos os pensamentos sobre aqueles homens. Niall era o �nico de quem precisava lembrar. Ainda havia uma coisa a fazer. Afastou <emphasis>saidin</emphasis>, travando a luta para escapar sem ser obliterado, a luta para se for�ar a soltar o Poder. N�o queria nenhum filtro que o apartasse das emo��es que viriam com o que precisava fazer.</p><p>Uma Donzela estava ajeitando o corpo de Desora, que j� estava com o v�u erguido. A mulher ergueu o bra�o para det�-lo quando Rand tocou o <emphasis>algode</emphasis> negro, ent�o hesitou, o encarou e se afastou, agachando.</p><p>Rand ergueu o v�u e memorizou o rosto da Donzela ca�da. Parecia estar dormindo. Desora, do ramo Musara dos Aiel Reyn. Tantos nomes. Liah, dos Chareen Cosaida; Dailin, dos Taardad dos Nove Vales; Lamelle, dos Miagoma da �gua Esfumada� tantos. Ele �s vezes percorria nome por nome daquela lista, mas havia um nome que n�o fora culpa sua: Ilyena Therin Moerelle. N�o sabia como Lews Therin pusera aquele nome ali, mas, mesmo que soubesse, n�o o removeria.</p><p>Afastar-se de Desora foi ao mesmo tempo um esfor�o e um al�vio, mas foi puro al�vio descobrir que o corpo que ele achava que era de uma segunda Donzela na verdade era de um homem � um sujeito baixo para um Aiel. Rand tamb�m lamentava pelos homens que morriam por ele, mas com suas mortes sempre vinha � sua mente um antigo ditado: <emphasis>�Deixe que os mortos descansem, cuide dos vivos.�</emphasis> N�o era f�cil, mas conseguia se obrigar a seguir aquelas palavras. Entretanto, nunca conseguia sequer invocar o ditado quando era uma mulher quem morria.</p><p>Seu olhar foi atra�do pela vis�o de uma saia esparramada no ch�o de paralelep�pedos. Os mortos n�o eram apenas Aiel.</p><p>A mulher levara uma flechada de besta bem entre as omoplatas. Quase nenhum sangue manchava as costas do vestido � uma morte r�pida, o que era um pequeno consolo. Rand se ajoelhou e virou o corpo com toda a delicadeza. A outra ponta da flecha projetava-se do peito. A mulher tinha um rosto quadrado de meia-idade, com toques de fios grisalhos nos cabelos. Os olhos escuros estavam arregalados, e ela parecia surpresa. N�o sabia seu nome, mas memorizou as fei��es. Aquela mulher morrera apenas por estar na mesma rua que ele.</p><p>Agarrou o bra�o de Nandera, que se desvencilhou para que ele n�o a atrapalhasse caso precisasse usar o arco, mas ainda assim o encarou.</p><p>� Encontre a fam�lia desta mulher e d� a eles o que precisarem. Ouro� � N�o era o bastante. Precisavam era da esposa de volta, da m�e. Mas isso ele n�o podia dar. � O que precisarem. E descubra o nome dela.</p><p>Nandera estendeu a m�o em sua dire��o, ent�o voltou a segurar o arco. Quando Rand se levantou, notou que as Donzelas o observavam. Ah, claro que aqueles olhos estavam sempre atentos a tudo, mas os rostos velados pareciam se voltar para ele com um pouco mais de frequ�ncia. Sulin sabia como Rand se sentia, mesmo que n�o soubesse da lista, mas ele n�o tinha certeza se ela contara ou n�o �s outras. Se tivesse contado, n�o fazia ideia do que as outras achavam.</p><p>Foi andando de volta para onde tinha ca�do e pegou o Cetro do Drag�o, com suas borlas. Teve que fazer um esfor�o para se agachar, e a lan�a curta e ornamentada parecia muito pesada. Jeade�en n�o fora muito longe com a sela vazia, era um cavalo bem-treinado. Rand montou de volta no sarapintado.</p><p>� J� fiz tudo o que podia por aqui � anunciou, enfiando os calcanhares no lombo do cavalo. Os outros que pensassem o que quisessem.</p><p>Se n�o podia deixar as lembran�as para tr�s, deixaria os Aiel. Ao menos por um tempo. Entregara Jeade�en a um cavalari�o e adentrara o Pal�cio antes de Nandera e Caldin o alcan�arem, trazendo cerca de dois ter�os da escolta de Donzelas e Dan�arinos da Montanha. Alguns tinham ficado cuidando dos mortos. Caldin parecia irritado e, pela f�ria nos olhos de Nandera, Rand se considerou sortudo por ela n�o estar velada.</p><p>Antes que a mulher pudesse reclamar, a Senhora Harfor se aproximou e curvou-se em uma mesura profunda.</p><p>� Milorde Drag�o � come�ou, com uma voz grave e firme �, a Mestra das Ondas do cl� Catelar, dos Atha�an Miere, fez uma peti��o para uma audi�ncia.</p><p>Se o corte sofisticado do vestido vermelho e branco de Reene n�o bastasse como indicativo de que �Criada-chefe� n�o era uma boa designa��o para seu posto, os modos sem d�vida eram. A mulher rechonchuda, de cabelos grisalhos e queixo comprido, encarava Rand nos olhos, mesmo tendo que empinar o queixo para tanto, e conseguia mesclar o grau apropriado de defer�ncia a uma total falta de servilismo e a um desinteresse que a maioria das nobres n�o conseguia atingir. Tal qual Halwin Norry, Reene permanecera no reino mesmo depois que a maioria dos outros criados fugiu � Rand tinha a leve suspeita de que a mulher ficara para defender o Pal�cio dos invasores e n�o ficaria surpreso em descobrir que ela fazia revistas peri�dicas em seus aposentos atr�s de bens do Pal�cio; n�o ficaria surpreso sequer em saber que ela tentara revistar os Aiel.</p><p>� O Povo do Mar? O que � que eles querem?</p><p>Reene o encarou com um olhar paciente, tentando ser compreensiva com sua ignor�ncia. Apenas tentando.</p><p>� A peti��o n�o informa, milorde Drag�o.</p><p>Se Moiraine sabia alguma coisa a respeito do Povo do Mar, n�o priorizara o t�pico em seus conselhos, mas, pela atitude de Reene, aquela mulher que pedia uma audi�ncia era importante. O t�tulo de Mestra das Ondas decerto soava importante. Bem, teria que usar o Grande Sal�o. N�o visitara o lugar desde que voltara de Cairhien � n�o que tivesse qualquer motivo para evitar o sal�o do trono, simplesmente n�o houvera necessidade de us�-lo.</p><p>� Hoje � tarde � respondeu, hesitante. � Diga que a verei no meio da tarde. A senhora ofereceu boas acomoda��es a ela e � comitiva? � Duvidava de que uma pessoa com um t�tulo t�o imponente fosse viajar sozinha.</p><p>� Ela recusou, e todos se hospedaram na Bola e Argola. � Reene Harfor pareceu meio irritada com aquilo; ao que parecia, n�o considerava a recusa muito apropriada, por mais importante que fosse uma Mestra das Ondas. � Estavam todos muito sujos e cansados por conta da viagem, quase n�o conseguiam se manter de p�. Vieram a cavalo, n�o de coche, e acredito que n�o estejam muito acostumados a esse tipo de viagem. � Ela piscou, parecendo surpresa por ter falado tanto, ent�o recuperou a discri��o como se vestisse um manto. � Outra pessoa deseja v�-lo, milorde Drag�o. � Sua voz assumiu o mais leve tom de desgosto. � Lady Elenia.</p><p>At� ele teve que conter uma careta. Elenia decerto preparara mais um discurso reivindicando seus direitos ao Trono do Le�o. At� ent�o, Rand conseguira evitar ouvir mais de uma em cada tr�s palavras. Bem, seria f�cil dispens�-la. Ainda assim� precisava de uma informa��o a respeito da hist�ria de Andor, e ningu�m por ali sabia mais do assunto do que Elenia Sarand.</p><p>� Bem, leve Lady Elenia aos meus aposentos, por favor.</p><p>� � verdade que pretende levar a Filha-herdeira ao trono?</p><p>A pergunta n�o veio em um tom r�spido, mas Reene n�o demonstrava a menor defer�ncia. Seu rosto permanecia impass�vel, mas Rand tinha certeza de que, com a resposta errada, a mulher berraria �Por Elayne e o Le�o Branco!� e tentaria esmagar seu cr�nio, com ou sem escolta Aiel em volta.</p><p>� Pretendo � respondeu ele, com um suspiro. � O Trono do Le�o � de Elayne. Pela Luz e por minha esperan�a de renascimento e salva��o, � dela.</p><p>Reene o avaliou por um instante, ent�o abriu as saias em mais uma mesura profunda.</p><p>� Vou mandar Lady Elenia entrar, milorde Drag�o.</p><p>A mulher se afastou a passos graciosos, as costas eretas. Mas era sempre assim, e n�o havia como dizer se ela acreditara no que ouvira.</p><p>� Um inimigo ardiloso � come�ou Caldin, irritadi�o, antes que Reene avan�asse cinco passadas � prepara uma emboscada fraca para que o alvo consiga escapar. Com a confian�a de ter enfrentado a amea�a, o alvo ent�o baixa a guarda e caminha direto para a segunda emboscada, mais poderosa.</p><p>Nandera, quase falando por cima de Caldin, declarou, em uma voz g�lida:</p><p>� Os rapazes podem ser impetuosos, podem ser impulsivos, podem at� ser idiotas. O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> n�o pode se permitir ser um rapaz.</p><p>Rand olhou para os dois por cima do ombro antes de come�ar a se afastar. Parou apenas por tempo suficiente para dizer:</p><p>� Vamos voltar para o pal�cio. Escolham os dois da escolta.</p><p>N�o foi nenhuma surpresa ver que Nandera e Caldin escolheram a si mesmos, menos ainda que o tenham seguido pisando duro, em um sil�ncio muito r�gido.</p><p>Rand parou diante da porta para seus aposentos e pediu que mandassem Elenia entrar quando ela chegasse, ent�o os deixou no corredor. Havia ponche de ameixa em uma jarra folheada a prata, mas ele nem pensou em beber. Ficou apenas encarando a jarra, tentando planejar o que diria � at� que notou o que estava fazendo e soltou um grunhido de surpresa. O que havia para planejar?</p><p>Uma batidinha na porta anunciou Elenia. A mulher de cabelos cor de mel se curvou em uma mesura ao entrar. Usava um vestido trabalhado em rosas douradas � em qualquer outra mulher, Rand teria pensado que eram simples rosas; em Elenia, s� podia simbolizar a Coroa de Rosas.</p><p>� Milorde Drag�o agrade�o a imensa cortesia de me receber.</p><p>� Quero fazer algumas perguntas sobre a hist�ria de Andor � respondeu Rand. � Gostaria de um pouco de ponche de ameixa?</p><p>Elenia n�o conseguiu se conter e arregalou os olhos em deleite. Sem d�vida j� planejava conduzir a conversa para as pr�prias reivindica��es, mas Rand lhe dera um pretexto de gra�a. Ela abriu um sorriso em seu rosto de raposa.</p><p>� Posso ter a honra de servir milorde Drag�o? � perguntou, mas n�o esperou que Rand assentisse. A mulher estava t�o satisfeita com a reviravolta que ele quase podia imagin�-la empurrando-o para uma cadeira e obrigando-o a p�r os p�s para cima. � Sobre que parte da hist�ria posso lhe fornecer algum esclarecimento?</p><p>� Um cen�rio mais geral� � Rand franziu o cenho, aquilo daria � nobre a desculpa perfeita para come�ar a listar sua linhagem com detalhes dali a duas frases. � Por exemplo, quero saber o que levou Souran Maravaile a trazer a esposa para c�. Ele era de Caemlyn?</p><p>� Foi Ishara quem trouxe Souran, milorde Drag�o. � O sorriso de Elenia mudou um pouco, assumindo um ar indulgente. � A m�e de Ishara era Endara Casalain, a governante local de Artur Asa-de-gavi�o quando Andor era apenas uma prov�ncia. Ela tamb�m era neta de Joal Ramedar, o �ltimo Rei de Aldeshar. Souran era s� um� um general. � Rand podia apostar que a mulher estava para dizer que ele era plebeu, mas pensou melhor a tempo. � Claro que era o melhor dos generais de Asa-de-gavi�o. Endara renunciou � coroa e se ajoelhou perante Ishara, elevando-a a Rainha. � Rand n�o conseguia acreditar que a coisa tinha ocorrido exatamente dessa forma, ou pelo menos n�o daquele jeito t�o pac�fico. � Claro que foi uma �poca terr�vel, t�o ruim quanto as Guerras dos Trollocs, tenho certeza. Com Asa-de-gavi�o morto, todos os nobres queriam se tornar reis. Ou rainhas. No entanto, Ishara sabia que ningu�m poderia dar conta de todo o territ�rio. Eram fac��es demais, al�m das muitas alian�as, e a maioria se desfazia assim que era selada. Ela convenceu Souran a suspender o cerco de Tar Valon e vir para c� com a maior parcela do ex�rcito que ele conseguiria manter por aqui.</p><p>� Souran Maravaile estava no comando do s�tio de Tar Valon? � perguntou Rand, at�nito.</p><p>Artur Asa-de-gavi�o mantivera Tar Valon sitiada durante vinte anos, oferecendo recompensas pelas cabe�as de todas as Aes Sedai.</p><p>� Apenas no �ltimo ano, de acordo com os registros � respondeu a mulher, um tanto impaciente. Era vis�vel que ela n�o estava nem um pouco interessada em Souran, exceto por ser marido de uma nobre. � Ishara era muito esperta, ela prometeu �s Aes Sedai que sua filha mais velha seria enviada para estudar em Tar Valon, o que lhe rendeu o apoio da Torre e uma conselheira Aes Sedai chamada Ballair. Ela foi a primeira governante com uma conselheira da Torre. Claro que outros a imitaram, mas o fizeram porque queriam o trono de Asa-de-gavi�o. � Elenia desatou a falar, muito animada, o c�lice esquecido enquanto ela gesticulava com a m�o livre. As palavras sa�ram em uma torrente. � Uma gera��o inteira se passou antes de essa ideia fenecer, mas Narasim Bhuran insistiu em suas tentativas at� os �ltimos dez anos da Guerra dos Cem Anos. Seus planos eram deplor�veis e o fizeram acabar com uma lan�a cravada na cabe�a um ano depois. Esmara Getares tamb�m tinha tentado, cerca de trinta anos antes, e obteve um progresso consider�vel at� que decidiu conquistar Andor. A mulher passou os �ltimos doze anos de vida como <emphasis>convidada</emphasis> da Rainha Telaisien. Esmara foi assassinada, mas n�o h� registro de por que algu�m iria querer a mulher morta, depois que Telaisien destruiu seu poder. Veja bem, as Rainhas que vieram depois de Ishara� todas elas, de Alesinde a Lyndelle, deram seguimento �s suas ideias, e n�o apenas no costume de enviar uma filha para a Torre. Ishara mandou Souran proteger as terras vizinhas a Caemlyn, come�ando com apenas algumas milhas, mas aos poucos foi expandindo o controle. Ora, levou cinco anos para seu dom�nio chegar ao Rio Erinin. A posse das Rainhas de Andor sobre as terras que controlavam era incontest�vel, ainda mais em uma �poca em que a maioria dos que se intitulavam reis ou rainhas estavam mais interessados em conquistar algumas poucas terras do que em fortalecer as que j� possu�am.</p><p>A mulher parou para tomar f�lego, e Rand aproveitou a brecha. Elenia falava daquela gente como se os conhecesse, mas ele j� estava tonto com tantos nomes desconhecidos.</p><p>� Por que n�o existe a Casa Maravaile?</p><p>� Nenhum dos filhos de Ishara viveu al�m dos vinte anos. � Elenia deu de ombros e bebericou o ponche. O assunto n�o a interessava, mas deu abertura para um novo t�pico. � Nove rainhas reinaram durante a Guerra dos Cem Anos, e nenhuma teve um filho que vivesse mais de vinte e tr�s anos. As batalhas eram constantes, e Andor sofria press�o de todos os lados. Ora, durante o reinado de Maragaine, quatro reis reuniram seus ex�rcitos contra ela. Inclusive, existe uma cidade nomeada em homenagem � batalha, que se passou por l�. Os reis eram�</p><p>� Mas todas as rainhas s�o descendentes de Souran e Ishara? � perguntou Rand, mais que depressa. A mulher descreveria em detalhes cada dia daquela maldita guerra, se ele deixasse. Ele se sentou e gesticulou para que Elenia se acomodasse em alguma poltrona.</p><p>� Sim � respondeu a nobre, relutante. A hesita��o decerto estava em incluir Souran na lista. Ela logo se animou. � Veja bem, a quest�o � o quanto do sangue de Ishara a pessoa tem. Quantas linhas ligam a rainha a ela, e em que grau. No meu caso�</p><p>� Para mim n�o � t�o f�cil entender. Por exemplo, Tigraine e Morgase. Morgase tinha mais direito que Tigraine. Suponho que isso signifique que Morgase e Tigraine eram parentes pr�ximas?</p><p>� Elas eram primas.</p><p>Elenia se esfor�ava para esconder a irrita��o em ser interrompida com tanta frequ�ncia, ainda mais agora, quando estava t�o perto do que queria dizer. Mesmo assim, comprimiu os l�bios e aceitou. Parecia uma raposa querendo abocanhar uma galinha que escapava a todo instante.</p><p>� Entendi.</p><p>Primas. Rand tomou um gole, esvaziando quase todo o c�lice.</p><p>� Somos todos primos. Todas as Casas. � O sil�ncio dele pareceu revigor�-la. Seu sorriso voltou. � Com os casamentos entre nobres j� h� mais de mil anos, n�o existe uma s� Casa sem uma gota do sangue de Ishara. Mas o que importa � o grau, assim como a quantidade de linhas de liga��o. No meu caso�</p><p>Rand piscou.</p><p>� Voc�s s�o <emphasis>todos</emphasis> primos? <emphasis>Todos</emphasis> voc�s? Isso n�o parece muito poss� � Ele se inclinou para a frente, atento. � Elenia, se Morgase e Tigraine fossem pessoas mais simples, como mercadoras, ou fazendeiras� qual seria o grau de parentesco entre elas?</p><p>� Fazendeiras? � perguntou a mulher, encarando-o. � Milorde Drag�o, que pergunta mais curios� � A nobre come�ou a empalidecer. Rand fora fazendeiro, afinal. Ela umedeceu os l�bios e estalou a l�ngua, tensa. � Eu suponho que� eu teria que pensar. Fazendeiras. Suponho que para isso eu teria que imaginar que todas as Casas fossem compostas de fazendeiros. � Ela soltou uma risada nervosa, abafando-a com ponche. � Bem, se as duas fossem fazendeiras, acho que ningu�m as consideraria parentes, na verdade. Todas as liga��es s�o bem distantes. Mas elas n�o eram fazendeiras, milorde Drag�o�</p><p>Rand desviou mais da metade da aten��o para os pr�prios pensamentos e se afundou de novo na cadeira. N�o eram parentes.</p><p>� � tenho trinta e uma linhas de liga��o at� Ishara, enquanto Dyelin tem apenas trinta, e�</p><p>Por que de repente se sentia t�o tranquilo? Sentiu n�s de tens�o nos m�sculos se desfazerem � n�s que ele nem notara que tinha.</p><p>� � se me permite dizer, milorde Drag�o.</p><p>� O qu�? Pe�o desculpas. Deixei a cabe�a voar longe por um instante� os problemas de� perdi a �ltima coisa que a senhora disse.</p><p>Perdera, mas algo no que ela dissera o deixara intrigado.</p><p>Elenia ostentava aquele sorriso lisonjeiro e prestativo que ficava t�o estranho em seu rosto.</p><p>� Ora, eu s� estava dizendo que o senhor mesmo � um pouco parecido com Tigraine, milorde Drag�o. O senhor deve ter um toque do sangue de Ishara� � A frase acabou com um gritinho abafado, e Rand percebeu que se levantara.</p><p>� Estou� um pouco cansado. � Ele tentou falar em um tom normal, mas sua voz soava distante, como se estivesse envolto no Vazio. � Pe�o � senhora a gentileza de me deixar sozinho.</p><p>N�o sabia como estava seu rosto, mas Elenia se levantou de um pulo e correu para botar o c�lice na mesa. A mulher tremia. Se antes seu rosto estava p�lido, agora parecia papel. Curvando-se em uma mesura mais adequada a um ajudante de cozinha pego roubando, a nobre saiu correndo para a porta, cada passo mais ligeiro que o outro, sem nunca parar de olh�-lo por cima do ombro. Ela abriu a porta com um empurr�o, e Rand ouviu suas sand�lias ressoando corredor afora. Nandera enfiou a cabe�a para dentro da sala, querendo ver como ele estava, ent�o fechou a porta.</p><p>Rand ficou um longo tempo encarando o nada. N�o era de se admirar que aquelas rainhas antigas o encarassem daquele jeito. Sabiam o que ele estava pensando, mesmo quando ele pr�prio n�o fazia ideia. A sementinha de preocupa��o que o corro�a, s�bita e invis�vel, desde que ele descobrira o nome verdadeiro da m�e� Mas Tigraine n�o era parente de Morgase. Sua m�e n�o fora parente da m�e de Elayne. Ele n�o era parente de�</p><p>� Voc� � um libertino da pior laia � declarou, a voz alta e amarga. � Voc� � um imbecil e um�</p><p>Desejou que Lews Therin se pronunciasse para que ele pudesse dizer a si mesmo que o outro sim era um louco e ele era s�o. O que sentia eram os olhares das governantes mortas de Andor, ou seria Alanna? Avan�ou at� a porta e a abriu com um tranco. Nandera e Caldin estavam acocorados sob uma tape�aria de p�ssaros coloridos.</p><p>� Re�nam a escolta � declarou. � Vou a Cairhien. Por favor, n�o contem a Aviendha.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 27</p><p><image l:href="#17"/></p><p>Presentes</p></title><p>Durante a caminhada de volta para o acampamento das S�bias, Egwene tentava se recompor, mas era como se seus p�s sequer tocassem o ch�o. Ela sabia que n�o era o caso, j� que cada passo contribu�a para as ondas de poeira varridas pelas lufadas de vento quente. Tossindo, ela desejou que as S�bias tamb�m usassem v�us. Um xale enrolado na cabe�a n�o produzia o mesmo resultado e ela se sentia como uma tenda de vapor ambulante. Ainda assim, a sensa��o era de que caminhava nas nuvens. O c�rebro parecia girar, e n�o era por conta do calor.</p><p>Primeiro achou que Gawyn n�o fosse encontr�-la, mas ela o viu assim que come�ou a caminhar pela multid�o. Os dois acabaram passando a manh� inteira de m�os dadas na sala privada da estalagem O Homem Comprido, conversando enquanto tomavam ch�. Egwene foi completamente descarada e o beijou logo que a porta se fechou, sem nem dar a Gawyn tempo de tomar a iniciativa, e chegou at� a se sentar no colo dele, embora n�o por muito tempo. Aquilo a fez se lembrar dos sonhos de Gawyn, e ela considerou voltar a visit�-lo enquanto dormiam, fantasiando coisas que nenhuma mulher decente deveria sequer cogitar! Ao menos n�o uma mulher solteira. Com a reprimenda mental, ela se levantara de um pulo, feito cor�a assustada, o que acabou por assust�-lo tamb�m.</p><p>Olhou em volta, ansiosa. As tendas ainda estavam a meia milha de dist�ncia, e n�o havia vivalma por perto. Mesmo se houvesse algu�m, n�o teria notado como ela corara. Reparando que sorria feito uma idiota por tr�s do xale, Egwene tratou de ficar s�ria. Luz, precisava se controlar. Tinha que esquecer a sensa��o dos bra�os fortes de Gawyn e se lembrar de por que tinham passado tanto tempo no sal�o da estalagem.</p><cite><p>Enquanto abria caminho pela multid�o, deu uma olhada ao redor, em busca de Gawyn, tentando � sem sucesso � parecer despreocupada. Afinal, n�o queria que ele pensasse que estava desesperada para v�-lo. De repente, um homem se inclinou para perto dela e sussurrou:</p><p>� Me siga at� O Homem Comprido.</p><p>Egwene deu um pulo � n�o conseguiu evitar. Levou um momento para reconhecer Gawyn, que usava um casaco marrom simples com uma fina sobrecapa pendendo �s costas, o capuz puxado quase escondendo o rosto. N�o era o �nico de capa nos arredores � todos os n�o Aiel que iam para al�m das muralhas da cidade sempre as usavam �, mas poucos mantinham o capuz levantado naquele calor infernal.</p><p>Ela agarrou a manga dele com for�a quando Gawyn tentou ir andando na frente.</p><p>� O que o faz pensar que vou seguir voc� at� uma estalagem, Gawyn Trakand? � perguntou, estreitando os olhos. Ainda assim, manteve a voz baixa. N�o havia por que atrair olhares. � A gente ia caminhar. Se voc� est� achando que�</p><p>Gawyn fez uma careta e se apressou a responder, aos sussurros:</p><p>� As mulheres com quem vim para c� est�o atr�s de uma pessoa. Uma mulher com a sua descri��o. Elas n�o falam muito perto de mim, mas escutei aqui e ali. Venha comigo.</p><p>Sem nem olhar para tr�s, ele saiu a passos largos, e Egwene n�o teve op��o sen�o segui-lo, mesmo com o est�mago se revirando.</p></cite><p>As lembran�as devolveram firmeza a seus p�s. O ch�o, assado pelo sol, estava t�o quente que ela sentia o calor atrav�s da sola das botas macias � um calor quase t�o intenso quanto o dos paralelep�pedos da cidade. Egwene n�o conseguia parar de pensar no encontro enquanto se arrastava em meio � poeira. Gawyn n�o sabia muito mais do que lhe contara naquele primeiro momento e argumentou que poderiam n�o estar atr�s dela em especial, bastava que Egwene tomasse cuidado ao canalizar e que tentasse o m�ximo poss�vel ficar fora de vista. O problema era que nem mesmo ele parecia muito convencido daquilo que dizia, ainda mais depois de ter tentado disfar�ar as roupas de guardi�o. Egwene evitou mencionar o que ele vestia, pois Gawyn j� parecia preocupad�ssimo com os problemas que ela teria se aquelas Aes Sedai a encontrassem, ou se o seguissem e chegassem at� ela, embora tenha deixado bem claro que n�o estava disposto a parar com aqueles encontros furtivos, mesmo que a sugest�o tivesse partido dele pr�prio. Ali�s, Gawyn estava convencido de que Egwene precisava encontrar um jeito de voltar �s escondidas para Tar Valon e se restabelecer na Torre � isso ou fazer logo as pazes com Coiren e as outras e voltar com elas. Luz, Egwene devia ter se irritado por ele achar que sabia o que seria melhor para seu futuro mais do ela pr�pria. Ainda assim, por algum motivo, pensar naquilo s� a fazia querer abrir um sorriso indulgente � mesmo agora. Por algum motivo misterioso, seu c�rebro parecia parar de funcionar quando o assunto era Gawyn. Sem falar que o rapaz parecia surgir em sua mente o tempo inteiro, mesmo quando ela estava pensando em outras coisas.</p><p>Egwene mordeu o l�bio inferior e se concentrou no verdadeiro problema: as Aes Sedai da Torre. Se ao menos conseguisse dar um jeito de interrogar Gawyn� N�o seria trai��o fazer s� algumas perguntinhas, saber quais eram as Ajahs, para onde iam ou� N�o! A promessa que fizera fora para si mesma, mas quebr�-la traria desonra a ele. Nada de perguntas. S� o que Gawyn contasse espontaneamente.</p><p>E n�o importava o que ele dissesse, n�o havia motivo nenhum para acreditar que aquelas mulheres estavam atr�s de Egwene al�Vere � mas tamb�m precisava admitir, mesmo relutante, que n�o havia motivos para pensar que n�o estavam atr�s dela, apenas suposi��es e esperan�as. Mesmo que uma agente da Torre n�o reconhecesse Egwene al�Vere nos trajes de uma S�bia, isso n�o significava que a agente nunca tivesse escutado seu nome ou ouvido falar de Egwene Sedai da Ajah Verde. Ela fez careta. Dali em diante, precisaria tomar muito cuidado quando fosse � cidade. Mais cuidado do que j� estava pensando em tomar.</p><p>Chegou na �rea das tendas. O acampamento se espalhava por v�rias milhas, cobrindo as colinas a leste da cidade, arborizadas ou n�o. Aiel se moviam por entre as tendas baixas, mas havia poucos <emphasis>gai�shain</emphasis> por perto. E n�o se via nenhuma S�bia. Egwene quebrara uma promessa que fizera a elas � a Amys, na verdade, mas que se estendia para todas. O argumento da necessidade que tivera de quebrar a promessa parecia um junco cada vez mais fino para sustentar a mentira.</p><p>� Venha se juntar a n�s, Egwene � chamou uma voz feminina.</p><p>A n�o ser que estivesse cercada de garotas muito jovens, Egwene n�o era dif�cil de identificar entre os Aiel, mesmo com a cabe�a coberta. Surandha, aprendiz de Sorilea, enfiara a cabe�a de cabelos louro-escuros para fora de uma das tendas e acenava para ela.</p><p>� As S�bias se reuniram de novo entre as tendas, todas elas, e disseram que temos o dia s� para n�s. O dia todo.</p><p>Aquele era um luxo raro, que Egwene n�o deixaria passar.</p><p>L� dentro, encontrou algumas mulheres deitadas, esparramadas sobre almofadas, lendo � luz de lamparinas a �leo � a tenda ficava fechada para bloquear a poeira, o que tamb�m deixava o interior escuro � e outras sentadas costurando, tricotando ou bordando. Duas brincavam com barbantes, em um jogo complexo de cama de gato. A tenda estava tomada por um murm�rio baixo de conversas casuais, e v�rias das presentes trocavam sorrisos. Nem todas eram aprendizes, havia visitas: duas m�es e diversas irm�s-primeiras. As aprendizes mais velhas usavam tantas joias quanto as S�bias, e todas estavam com as blusas desamarradas e os xales enrolados na cintura, embora o calor retido na tenda n�o parecesse incomod�-las.</p><p>Um <emphasis>gai�shain</emphasis> ia de um lado ao outro oferecendo ch�. Algo no modo como ele se movia indicava que se tratava de um artes�o, n�o de um <emphasis>algai�d�siswai</emphasis>. Tinha o rosto duro dos Aiel, ainda que parecesse um pouco mais delicado em compara��o, e manter o comportamento d�cil n�o parecia demandar tanto esfor�o dele. O sujeito usava uma daquelas bandanas vermelhas que o identificavam como <emphasis>siswai�aman</emphasis>. Nenhuma das mulheres parecia se incomodar com aquilo, mesmo que os <emphasis>gai�shain</emphasis> supostamente s� devessem usar branco.</p><p>Egwene amarrou o xale na cintura e aceitou, agradecida, um pouco de �gua para lavar as m�os e o rosto, ent�o desfez alguns dos la�os da blusa e foi ocupar uma almofada vermelha com borlados entre Surandha e Estair, a aprendiz ruiva de Aeron.</p><p>� Por que as S�bias se reuniram? Algu�m sabe o motivo?</p><p>Mesmo tendo perguntado aquilo, seu pensamento n�o estava nas S�bias � pensava em como n�o tinha a menor inten��o de evitar a cidade. Concordara em visitar a estalagem do Homem Comprido a cada manh�, no caso de Gawyn estar l�, mesmo que o sorriso afetado da estalajadeira roli�a tivesse feito suas bochechas arderem � s� a Luz sabia o que a mulher devia pensar dela! Ainda assim, estava certo de que n�o tentaria mais ouvir as conversas na mans�o de Lady Arilyn. Depois de se despedir de Gawyn, fora ver a casa � chegara quase perto o bastante para sentir que a canaliza��o prosseguia l� dentro, mas acabou indo embora depois de uma espiadela da esquina. S� de chegar perto, era tomada pela desconfort�vel sensa��o de que Nesune apareceria de repente atr�s dela.</p><p>� Suas irm�s, � claro � retrucou Surandha, com uma risada. � O que mais deixaria as S�bias aos pinotes, como se tivessem sentado em espinhos de <emphasis>segade</emphasis>?</p><p>Surandha tinha belas fei��es fortes, al�m de grandes olhos azuis, e a risada s� a deixava mais bonita. Era cerca de cinco anos mais velha que Egwene e conseguia canalizar com tanta for�a quanto muitas das Aes Sedai. A jovem aguardava, ansiosa, o chamado para ser dona do pr�prio forte. Claro que, enquanto isso, ainda pulava s� de Sorilea <emphasis>pensar</emphasis> em mand�-la pular.</p><p>� Dever�amos mandar Sorilea ir falar com elas � sugeriu Egwene, aceitando uma x�cara de ch� de listras verdes que o <emphasis>gai�shain </emphasis>lhe ofereceu.</p><p>Gawyn havia comentado que a Jovem Guarda estava ocupando todos os quartos que as Aes Sedai tinham deixado livres, e mesmo assim parte deles teve que se hospedar nos est�bulos � com isso, o rapaz deixara escapar que n�o havia mais espa�o nem para uma copeira e que as Aes Sedai n�o pareciam preparar mais quartos. Uma boa not�cia.</p><p>� Sorilea conseguiria fazer at� mesmo Aes Sedai se sentarem direito � acrescentou Surandha, jogando a cabe�a para tr�s de tanto rir.</p><p>A risada de Estair foi mais t�mida e um pouco escandalizada. A jovem esbelta de olhos cinza e s�rios costumava se comportar sempre como se houvesse uma S�bia de olho. Egwene ficava muito impressionada em pensar como Sorilea tinha uma aprendiz t�o alegre e divertida, enquanto Aeron, uma mulher agrad�vel e sorridente que nunca usava palavras r�spidas, tinha uma aprendiz que parecia ca�ar regras para obedecer.</p><p>� Acredito que seja por causa do <emphasis>Car�a�carn</emphasis> � ponderou Estair, completamente s�ria.</p><p>� Por qu�? � perguntou Egwene, sem muita aten��o.</p><p>Teria mesmo que evitar a cidade. A n�o ser pelos encontros com Gawyn, claro � por mais constrangedor que fosse ter que admitir, n�o abdicaria de encontr�-lo por nada menos que a certeza de que Nesune a aguardava na sala privativa do Homem Comprido. O que significava que voltaria a caminhar ao redor das muralhas da cidade para se exercitar, no meio de toda a poeira do vento. Aquela manh� fora uma exce��o, mas n�o daria nenhuma desculpa �s S�bias para postergar seu retorno a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Naquela noite, as mulheres se encontrariam sozinhas com as Aes Sedai de Salidar, mas, dali a sete noites, Egwene estaria com elas.</p><p>� O que ele fez agora? � indagou para as outras duas.</p><p>� Voc� n�o ficou sabendo? � perguntou Surandha.</p><p>Dali a dois ou tr�s dias, poderia ir atr�s de Nynaeve e Elayne, ou falar com elas em seus sonhos � tentar falar, ao menos. Nunca dava para ter certeza de que a pessoa sabia que aquilo era mais que um sonho, a menos que tamb�m estivesse habituada a se comunicar daquela forma, o que Nynaeve e Elayne decerto n�o estavam. Egwene s� conversara com elas nos sonhos uma �nica vez. Em todo caso, pensar em se encontrar com elas ainda a deixava um tanto desconfort�vel, e tivera mais um quase pesadelo meio nebuloso a respeito. Quando uma das duas falava, trope�ava e ca�a de cara no ch�o, deixava cair uma x�cara ou um prato ou derrubava um vaso � sempre algum objeto que se estilha�ava com o impacto. Desde que interpretara o sonho sobre Gawyn se tornar seu Guardi�o, vinha fazendo o mesmo esfor�o com todos os outros sonhos que tinha. Claro que ainda n�o conseguira nenhuma interpreta��o sensata, mas tinha certeza de que aquele sonho em especial guardava algum significado. Talvez fosse melhor esperar o encontro seguinte para falar com uma das duas. Al�m disso, poderia acabar trombando de novo com os sonhos de Gawyn, ser atra�da para eles. Suas bochechas coravam s� de pensar.</p><p>� O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> voltou � anunciou Estair. � Ele vai se encontrar com suas irm�s hoje � tarde.</p><p>Gawyn e os sonhos desapareceram da mente, e Egwene franziu o cenho para a x�cara de ch�. Duas visitas em dez dias. Era at�pico dele voltar em t�o pouco tempo. Por que teria vindo? Ser� que soubera das Aes Sedai enviadas da Torre? Como? Al�m disso, s� a presen�a dele j� provocava a pergunta de sempre: <emphasis>como ele faz aquilo</emphasis>?</p><p>� Como ele faz o qu�? � indagou Estair.</p><p>Egwene piscou, sobressaltada, reparando que falara em voz alta.</p><p>� Como ele consegue me deixar com esse n� no est�mago?</p><p>Surandha balan�ou a cabe�a em comisera��o, mas tamb�m sorriu:</p><p>� Ele � homem, Egwene.</p><p>� Ele � o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> � ressaltou Estair, com muita �nfase e mais que um toque de rever�ncia. Egwene n�o ficaria surpresa se ela passasse a usar aquela faixa idiota enrolada na cabe�a.</p><p>Surandha logo confrontou Estair, querendo saber como a outra mulher conseguiria lidar com um chefe de forte ou, pior ainda, um chefe de cl� ou de ramo, se n�o entendia que nenhum homem deixava de ser homem s� porque era um l�der. Estair retrucou, enf�tica, que o caso do <emphasis>Car�a�carn</emphasis> era diferente. Mera, uma das mais velhas na tenda, que viera para visitar a filha, inclinou-se na dire��o das tr�s e disse que lidar com qualquer chefe, fosse de forte, de ramo, de cl� ou o pr�prio <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, era o mesmo que lidar com um marido. O coment�rio suscitou uma gargalhada de Baerin, tamb�m ali para visitar a filha, que completou dizendo que aquela era uma boa maneira de fazer uma senhora do teto depositar sua faca aos p�s dela � uma declara��o de rixa. Baerin tinha sido Donzela antes de se casar, mas qualquer um poderia declarar uma rixa contra qualquer Aiel que n�o fosse uma S�bia ou um ferreiro. N�o importava: antes mesmo que Mera terminasse seu primeiro coment�rio, todas as presentes � exceto os <emphasis>gai�shain</emphasis>, claro � j� tinham se metido na conversa, massacrando a pobre Estair. O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> era um chefe entre os chefes e nada mais, isso era certo. A conversa prosseguiu em uma discuss�o sobre se era melhor abordar um chefe diretamente ou por meio de sua senhora do teto.</p><p>Egwene n�o prestou muita aten��o ao falat�rio. Claro que Rand n�o cometeria nenhuma tolice. Seu amigo se mostrara relutante em rela��o � carta de Elaida, mas, ainda assim, acreditara na sinceridade da mensagem de Alviarin � que, al�m de ser mais cordial, era absolutamente lisonjeira. Rand achava que tinha encontrado amigas e at� mesmo seguidoras na Torre. Egwene duvidava muito. Com ou sem os Tr�s Juramentos, estava convencida de que Elaida e Alviarin tinham mancomunado para escrever aquela segunda carta, mesmo com toda aquela besteirada de �servir sua gl�ria�. Tudo n�o passava de uma artimanha para lev�-lo at� a Torre.</p><p>Encarando as pr�prias m�os, arrependida, Egwene suspirou e largou o ch�. A x�cara foi recolhida antes mesmo que pudesse afastar as m�os.</p><p>� Preciso ir � anunciou para as duas outras aprendizes. � Acabei de me lembrar que ainda preciso resolver um assunto.</p><p>Surandha e Estair falaram que queriam ir junto � na verdade, estavam prestes a se levantar e ir com ela, pois os Aiel nunca falavam da boca para fora �, mas algo no debate lhes chamou a aten��o, e elas n�o discutiram quando Egwene insistiu que ficassem. Enrolando o xale de volta na cabe�a e deixando as vozes cada vez mais elevadas para tr�s � Mera ia dizendo a Estair, sem um pingo de hesita��o, que jovem at� poderia se tornar uma S�bia, algum dia, mas que at� l� ainda tinha muito o que aprender com uma mulher que dera conta de um marido e criara tr�s filhas e dois filhos sem nenhuma esposa-irm� para ajudar �, Egwene saiu para a poeira e o vento.</p><p>J� na cidade, tentou se esgueirar pelas ruas cheias sem parecer muito furtiva, tentou ficar atenta aos arredores enquanto aparentava olhar apenas para o caminho que seguia. As chances de trombar com Nesune eram pequenas, mas� � frente, duas mulheres com vestidos muito s�brios e aventais engomados deram um passo para o lado, desviando uma da outra. Por azar, ambas escolheram o mesmo lado e acabaram ficando cara a cara. Depois de murmurarem desculpas, deram mais um passo para o lado � o mesmo lado. Mais desculpas e, como se dan�assem, foram outra vez mais um passo para o mesmo lado. Quando Egwene as ultrapassou, as duas ainda estavam andando de um lado para o outro em perfeita sincronia, os rostos j� corando, as desculpas sendo engolidas por tr�s dos l�bios comprimidos. Egwene n�o fazia ideia de quanto tempo aquilo ainda poderia durar, mas serviu para lembr�-la de que Rand estava na cidade. Luz, quando ele estava por perto, n�o seria nem um pouco absurdo se acabasse de cara com as seis Aes Sedai da Torre justo no instante em que uma lufada de vento arrancasse seu xale da cabe�a e tr�s pessoas gritassem seu nome e a chamassem de Aes Sedai. Com ele por perto, n�o acharia absurdo nem se desse de cara com Elaida.</p><p>Avan�ou, apressada, cada vez mais preocupada com a possibilidade de sofrer a influ�ncia de <emphasis>ta�veren</emphasis> de Rand, o olhar cada vez mais irritado. Por sorte, uma Aiel irritada de rosto coberto � aquelas pessoas ao menos sabiam da diferen�a entre um xale e um v�u? � fazia todos sa�rem do caminho, o que lhe permitia acelerar o passo at� quase correr. Ainda assim, ela n�o respirou tranquila at� se enfiar no Pal�cio do Sol, entrando por uma portinha de empregados que ficava nos fundos.</p><p>Um forte cheiro de comida no fogo pairava no corredor estreito, e mulheres e homens de libr� andavam �s pressas de um lado a outro. Foi recebida pelos olhares at�nitos de alguns servi�ais descansando sem o casaco e algumas criadas que se abanavam com o avental. Provavelmente n�o era comum ver ningu�m al�m dos servi�ais t�o perto das cozinhas, muito menos uma Aiel. Todos pareciam esperar que ela fosse tirar uma lan�a de debaixo das saias.</p><p>Egwene apontou para um homenzinho rechonchudo que enxugava o pesco�o com um len�o.</p><p>� Sabe onde est� Rand al�Thor?</p><p>O sujeito levou um susto, voltando os olhos para os colegas, que j� se afastavam. Ele batia os p�s, ansioso, doido para ir atr�s dos outros.</p><p>� O Lorde Drag�o, � Senhora? Nos aposentos dele? � o que eu acho, ao menos. � Ele come�ou a se virar de lado, curvando-se em uma mesura. � Se a Senhora� � se milady me permitir, preciso voltar para o�</p><p>� Voc� vai me levar at� l� � interrompeu Egwene, a voz firme. Dessa vez, n�o ficaria perambulando � toa.</p><p>Voltando os olhos uma �ltima vez em busca dos amigos desaparecidos, o sujeito suprimiu um suspiro, lan�ou um r�pido olhar assustado para ver se n�o a havia ofendido e disparou atr�s do casaco. O homem sabia se orientar muito bem naquele emaranhado de corredores palacianos, andando r�pido e fazendo uma mesura a cada curva. Quando, com uma �ltima rever�ncia, o sujeito enfim apontou para as portas altas decoradas com s�is nascentes dourados e vigiadas por uma Donzela e um Aiel, Egwene sentiu uma pontada de desd�m e o dispensou. N�o conseguia entender por que sentira aquilo quando o sujeito estava apenas fazendo o que era pago para fazer.</p><p>Quando ela se aproximou, o Aiel se levantou. Era um sujeito de meia-idade e <emphasis>muito</emphasis> alto, com um t�rax e ombros que lembravam os de um touro e olhos cinzentos e frios. Egwene n�o o conhecia, e o Aiel parecia prestes a mand�-la embora. Por sorte, ela conhecia a Donzela.</p><p>� Deixe-a passar, Marie � disse Somara, abrindo um sorriso. � Esta � a aprendiz de Amys, e tamb�m de Bair e Melaine. A �nica aprendiz que eu conhe�o que serve a tr�s S�bias. E, pela cara dela, foi enviada �s pressas com palavras bem contundentes para Rand al�Thor.</p><p>� �s pressas? � O gracejo de Marie n�o suavizou a dureza de seu rosto ou de seus olhos. � Parece mais que veio se arrastando.</p><p>Ele retomou a posi��o de guarda.</p><p>Egwene n�o precisou perguntar o que ele queria dizer. Desenterrou um len�o do fundo da bolsa do cinto e esfregou o rosto. Ningu�m era levado a s�rio sujo daquele jeito, e Rand precisava ouvi-la com aten��o.</p><p>� S�o mesmo palavras importantes, Somara. Espero que ele esteja sozinho. As Aes Sedai ainda n�o vieram?</p><p>O len�o voltou cinza, e ela o devolveu � bolsa com um suspiro.</p><p>Somara balan�ou a cabe�a.</p><p>� Ainda falta um bom tempo para elas chegarem. Voc� vai pedir para ele tomar cuidado? N�o tenho inten��o de desrespeitar suas irm�s, mas ele se joga sem pensar onde vai cair. � muito cabe�a-dura.</p><p>� Vou pedir, sim.</p><p>Egwene n�o conseguiu suprimir um sorrisinho. J� ouvira Somara falar daquele jeito, com o tom orgulhoso e exasperado que uma m�e teria ao falar de um filho excessivamente aventureiro de dez anos de idade � e ouvira o mesmo tom sendo usado por outras Donzelas. S� podia ser alguma brincadeira Aiel. Bem, mesmo que n�o entendesse do que se tratava, apoiava qualquer comportamento que evitasse que Rand acabasse muito cheio de si.</p><p>� Tamb�m vou mandar ele lavar as orelhas. � Somara at� assentiu, antes de se conter e voltar � express�o s�ria. Egwene respirou fundo. � Somara, minhas irm�s n�o podem saber que estou aqui. � Marie, que examinava cada servi�al que cruzava o corredor, a encarou com curiosidade. Egwene precisava tomar cuidado. � N�s n�o somos muito pr�ximas, Somara. Na verdade, d� para dizer que sempre fomos o mais distantes poss�vel, em se tratando de irm�s.</p><p>� N�o h� rixa pior que as rixas entre irm�s-primeiras � afirmou Somara, assentindo. � Entre. N�o direi nada a elas sobre voc�. E se a l�ngua de Marie ficar muito agitada, dou um n� nela.</p><p>Marie apenas abriu um leve sorriso, sem nem olhar para Somara � a mulher batia abaixo de seu ombro e devia ter metade de seu peso.</p><p>As Donzelas sempre a mandavam entrar sem ser anunciada, o que j� causara alguns constrangimentos, mas dessa vez ela n�o encontrou Rand tomando banho. S� de olhar, dava para notar que aqueles eram os antigos aposentos reais, e a antessala estava mais para uma miniatura de sala do trono � ou melhor, miniatura se comparada � verdadeira. As �nicas curvas na decora��o eram os raios ondulosos de um sol dourado, cada um de uma bra�ada de largura, gravados no piso de pedra polido. Espelhos altos em molduras de ouro austeras enfileiravam-se nas paredes sob largas faixas retas com douraduras, e a enorme cornija da lareira era toda de tri�ngulos dourados que se sobrepunham feito escamas. Poltronas cobertas de douraduras estavam dispostas de cada lado do sol nascente, em duas fileiras t�o r�gidas quanto os espaldares altos, uma perfeitamente de frente para a outra. Rand estava sentado em uma poltrona com o dobro de douraduras e o espaldar duas vezes mais alto que as outras apoiada sobre um pequeno estrado tamb�m incrustrado de douraduras. O jovem trajava um casaco de seda vermelho com bordados de ouro, ostentando uma careta de preocupa��o enquanto segurava aquela lan�a Seanchan entalhada apoiada no cotovelo. Parecia um rei � um rei prestes a cometer um assassinato.</p><p>Egwene apoiou os punhos cerrados na cintura.</p><p>� Somara disse que voc� devia ir lavar estas orelhas agora mesmo, meu jovem � ralhou, fazendo-o erguer a cabe�a.</p><p>A surpresa e o leve ultraje duraram apenas um instante. Abrindo um sorriso, Rand se levantou e largou a ponta de lan�a no assento da cadeira.</p><p>� Luz, o que voc� andou fazendo? � perguntou ele, atravessando o aposento, agarrando-a pelos ombros e virando-a de frente para o espelho mais pr�ximo.</p><p>Egwene fez uma careta involunt�ria. Que vis�o. A poeira que atravessara o xale � poeira n�o: j� virara lama, com todo aquele suor � desenhava linhas em suas bochechas e espirais nos pontos de sua testa que esfregara com o len�o antes.</p><p>� Vou mandar Somara providenciar um pouco de �gua � afirmou ele, seco. � Talvez ela ache que � para as minhas orelhas.</p><p>Ah, aquele sorriso insuport�vel!</p><p>� N�o precisa � respondeu Egwene, com o m�ximo de dignidade que conseguiu reunir. N�o iria simplesmente se lavar com ele ali, assistindo. Puxou o len�o encardido da bolsa e tentou dar um jeito nas piores partes. � Daqui a pouco voc� vai se encontrar com Coiren e as outras. N�o preciso avisar que elas s�o perigosas, preciso?</p><p>� Acho que voc� acabou de avisar. Bem, nem todas elas vir�o. Eu disse que n�o receberia mais que tr�s, ent�o apenas tr�s foram enviadas. � Pelo espelho, Egwene notou a cabe�a dele se inclinando, como se estivesse ouvindo alguma coisa. Rand assentiu, a voz baixando at� n�o passar de um murm�rio: � �, consigo dar conta de tr�s, se n�o forem muito fortes. � De repente, ele pareceu notar que era observado. � Claro que, se alguma delas for Moghedien de peruca, ou Semirhage disfar�ada, vou acabar encrencado.</p><p>� Rand, voc� precisa levar isso a s�rio. � O len�o n�o estava ajudando muito. Com toda a relut�ncia do mundo, cuspiu no tecido para ver se melhorava. N�o havia maneira digna de cuspir em um len�o. � Eu sei o quanto voc� � forte, mas elas s�o Aes Sedai. Voc� n�o pode se comportar como se fossem apenas camponesas. Mesmo que ache que Alviarin <emphasis>vai</emphasis> se ajoelhar aos seus p�s, junto com todas as amigas que trouxer, essas mulheres foram enviadas por Elaida. Voc� n�o pode acreditar que vir�o com qualquer inten��o al�m de atar uma coleira em seu pesco�o. Serei franca e direta: voc� deveria mandar todas embora.</p><p>� E confiar nas suas amigas escondidas? � indagou ele, a voz suave. Suave demais.</p><p>Egwene concluiu que n�o havia como dar jeito no rosto. Devia ter deixado Rand mandar trazer �gua. Bem, n�o tinha mais como pedir, n�o depois de ter recusado.</p><p>� Voc� sabe que n�o pode confiar em Elaida � advertiu, hesitante, virando-se para ele. Lembrando-se do desfecho da �ltima conversa, n�o queria nem mencionar as Aes Sedai de Salidar. � Voc� sabe.</p><p>� Eu n�o confio em nenhuma Aes Sedai. Elas� � Ele hesitou, como se fosse usar alguma palavra� Egwene n�o fazia ideia de qual poderia ser. � Elas tentar�o me usar, e eu tentarei usar cada uma delas. Uma bela troca, n�o acha?</p><p>Se Egwene algum dia tivesse considerado a possibilidade de deix�-lo chegar perto das Aes Sedai de Salidar, teria desistido ao ver o olhar de Rand � era t�o duro e g�lido que ela ficou arrepiada.</p><p>Talvez, se ele ficasse zangado o bastante, se trocasse farpas com Coiren at� obrigar a miss�o diplom�tica a voltar para a Torre de m�os abanando�</p><p>� Se voc� acha uma bela troca, ent�o suponho que seja. Voc� � <emphasis>o Drag�o Renascido</emphasis>, afinal. Bem, j� que pretende continuar com isso, ent�o � melhor fazer as coisas direito. S� n�o se esque�a de que s�o Aes Sedai. At� um rei trata as mulheres da Torre com respeito, mesmo quando n�o concorda com o que dizem. E at� um Rei iria correndo a Tar Valon, se fosse convocado. At� os Gr�o-senhores tairenos iriam, at� Pedron Niall. � Ah, o tonto voltou a sorrir; ou pelo menos exibiu os dentes, j� que o restante do rosto estava t�o inexpressivo quanto uma pedra de rio. � Espero que esteja prestando aten��o, estou tentando ajudar. � Bem, e estava. S� n�o do jeito que ele pensava. � Se quer usar essas mulheres, n�o pode deix�-las feito gatas arrepiadas. Elas n�o ficar�o mais impressionadas do que eu com voc�, Drag�o Renascido, mesmo com esses casacos enfeitados, esse trono e esse cetro idiota. � Egwene olhou com desprezo para a ponta de lan�a borlada. Luz, aquele tro�o lhe causava arrepios! � As Aes Sedai n�o cair�o de joelhos quando chegarem, e voc� n�o vai morrer por isso. Tamb�m n�o vai morrer se demonstrar alguma cortesia. Curve esse seu pesco�o teimoso. N�o � humilha��o agir com a defer�ncia apropriada, mostrar um pouco de humildade.</p><p>� A defer�ncia apropriada � repetiu ele, pensativo. Suspirando, Rand balan�ou a cabe�a com pesar e passou a m�o no cabelo. � Bem, suponho que eu n�o possa falar com uma Aes Sedai como falo com um lorde qualquer que vem tramando contra mim. � um bom conselho, Egwene. Vou tentar. Serei humilde feito um rato.</p><p>Tentando n�o parecer espantada, Egwene disfar�ou os olhos arregalados esfregando o rosto com o len�o. N�o podia afirmar com certeza se os olhos estavam a ponto de saltar das �rbitas, mas achou que deviam. A vida inteira, sempre que apontava que era melhor ir pela direita, Rand levantava o queixo e insistia na esquerda! Por que ele teve de escolher justo aquele momento para ouvi-la?</p><p>Havia algo de bom no jeito como as coisas estavam? Ao menos n�o faria mal a ele demonstrar algum respeito. Mesmo que elas estivessem do lado de Elaida, a ideia de algu�m se mostrar impertinente com qualquer Aes Sedai de fato a aborrecia. S� que ela <emphasis>queria</emphasis> que ele fosse impertinente, t�o arrogante quanto jamais havia sido. N�o havia raz�o para tentar desfazer aquilo, n�o havia como. Ele n�o era obtuso. Apenas irritante.</p><p>� Foi s� para isso que voc� veio? � indagou Rand.</p><p>N�o podia ir embora, n�o ainda. Talvez tivesse uma chance de consertar as coisas, ou pelo menos de ter certeza de que Rand n�o era cabe�a oca a ponto de concordar em ir para Tar Valon.</p><p>� Sabia que tem uma Senhora das Ondas do Povo do Mar num navio l� no rio, o <emphasis>Borbot�o</emphasis>? � Era uma mudan�a brusca, mas para um assunto t�o bom quanto qualquer outro. � Ela veio ver voc�, e ouvi dizer que a mulher j� est� ficando impaciente.</p><p>Ficara sabendo por Gawyn. Erian fora remando at� o navio para descobrir o que o Povo do Mar estava fazendo t�o dentro do continente, mas n�o recebeu permiss�o para embarcar. A mulher voltara em tal estado de esp�rito que, se n�o fosse Aes Sedai, diriam que estava prestes a explodir de �dio. Egwene tinha mais do que suspeitas de por que aquela gente estava ali, mas n�o as revelaria para Rand. Seria bom para ele finalmente se encontrar com algu�m sem a expectativa de que a outra pessoa fosse se curvar a seus p�s.</p><p>� Ao que parece, os Atha�an Miere est�o por toda parte. � Rand se sentou em uma das cadeiras. Por algum motivo, parecia de bom humor. Egwene podia jurar que n�o tinha nada a ver com o Povo do Mar. � Berelain disse que tenho que me encontrar com essa Harine din Togara Dois Ventos, mas, se a mulher tiver metade do g�nio que Berelain relatou, ent�o pode esperar. J� tenho que lidar com uma boa quota de mulheres zangadas, por enquanto.</p><p>Aquilo era quase uma abertura, mas n�o era o suficiente.</p><p>� N�o consigo entender por qu�. Voc� � t�o cativante. � Egwene se arrependeu assim que falou. Aquelas palavras s� refor�avam o que <emphasis>n�o</emphasis> queria que ele fizesse.</p><p>Rand franziu o cenho � n�o pareceu nem ter ouvido o coment�rio �cido.</p><p>� Egwene, sei que voc� n�o gosta de Berelain, mas a quest�o n�o vai muito al�m disso, n�o �? Quer dizer, voc� � t�o boa em se passar por Aiel que d� para imagin�-la se oferecendo para dan�ar as lan�as com ela. Berelain estava incomodada com alguma coisa, parecia desconfort�vel, mas n�o queria dizer o que era.</p><p>Bem, talvez tivesse encontrado um homem que lhe tivesse dito n�o. Bastaria isso para deixar a Primeira de Mayene tremendo nas bases.</p><p>� N�o troquei nem dez palavras com ela desde que sa�mos da Pedra de Tear, e n�o nos falamos muito mais que isso por l�. Rand, voc� n�o acha que�</p><p>Uma das portas se abriu s� o suficiente para deixar entrar Somara, que a fechou depressa atr�s de si.</p><p>� <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, as Aes Sedai est�o aqui.</p><p>Rand virou a cabe�a para a porta, o rosto duro feito pedra.</p><p>� Elas s� deveriam chegar daqui a�! Ah, est�o pensando que v�o me pegar de guarda baixa, �? Elas precisam aprender quem � que dita as regras por aqui.</p><p>Egwene n�o se importaria nem se as mulheres da Torre estivessem tentando flagrar Rand s� com as roupas de baixo. Berelain desapareceu da sua mente. Somara gesticulou, discretamente, parecendo expressar sua pena de Egwene. Bem, tamb�m n�o se importava com aquilo. Se pedisse, sabia que Rand poderia evitar que as mulheres a levassem. S� teria que ficar perto dele dali em diante, para que as mulheres n�o a atacassem e a blindassem assim que botasse a cara na rua, levando-a embora �s pressas. Bastava pedir e se colocar sob a prote��o dele. A diferen�a era min�scula entre isso ou ser arrastada de volta para a Torre dentro de uma saca � t�o t�nue que lhe fez doer o est�mago. Primeiro porque jamais se tornaria Aes Sedai se ficasse se escondendo atr�s dele, segundo porque a ideia de ficar escondida atr�s de quem quer que fosse a irritava demais. S� que as enviadas da Torre estavam bem ali, do outro lado da porta, e ela em menos de uma hora poderia acabar metida na tal saca, ou coisa parecida. Respirar fundo e bem devagar n�o surtiu nenhum efeito para acalmar seus nervos, t�o � flor da pele.</p><p>� Rand, tem alguma outra sa�da? Se n�o tiver, vou me esconder em um dos outros quartos. Elas n�o podem saber que estou aqui. Rand? Rand! Est� me ouvindo?</p><p>Rand respondeu, mas n�o estava falando com ela.</p><p>� Ah, voc� <emphasis>est�</emphasis> a�! � sussurrou, rouco. � � coincid�ncia demais voc� pensar nisso justo agora. � Ele encarava o nada com um olhar de f�ria, talvez de medo. � Que o queime, me responda! Eu sei que voc� est� a�!</p><p>Sem conseguir se conter, Egwene umedeceu os l�bios. Somara o encarava com o que s� poderia ser descrito como preocupa��o maternal � e Rand nem notava o gracejo da Aiel �, mas Egwene sentia o est�mago se retorcer. Ele n�o podia ter enlouquecido t�o r�pido. N�o podia. Ainda assim, parecia que Rand ouvira alguma voz oculta, momentos antes. Talvez tivesse falado com a tal voz.</p><p>N�o se lembrava de ter se aproximado tanto dele, mas logo estava com a m�o firme contra a testa de Rand. Nynaeve sempre dizia para primeiro verificar se havia febre, mas n�o fazia ideia se isso adiantaria, �quela altura� Se ao menos ela soubesse mais do que o b�sico sobre Cura. Bem, tamb�m n�o adiantaria nada. N�o se ele estivesse�</p><p>� Rand�? Voc� est� bem?</p><p>Ele se recomp�s, afastou o rosto da m�o dela e a encarou com desconfian�a. No momento seguinte, j� estava de p�, segurando-a pelo bra�o, praticamente arrastando-a pela sala � ia t�o depressa que Egwene quase trope�ou nas pr�prias saias enquanto tentava acompanh�-lo.</p><p>� Fique ali parada � ordenou, r�spido, deixando-a plantada ao lado do estrado, ent�o se afastou um pouco.</p><p>Esfregando o bra�o com vigor suficiente para que Rand n�o deixasse de reparar, Egwene fez men��o de ir atr�s dele. Os homens n�o tinham no��o de como eram fortes. Nem mesmo Gawyn, embora, no caso dele, ela n�o se importasse muito.</p><p>� O que voc� pensa que�?</p><p>� N�o se mexa! � Ent�o, contrariado, acrescentou: � Ah, que o queime, parece que ondula quando voc� se mexe. Vou prender no ch�o, mas mesmo assim � melhor n�o ficar se mexendo muito. N�o sei de que tamanho consigo fazer, e agora n�o � hora de descobrir.</p><p>Somara ficou boquiaberta � deu para ver, mesmo ela tendo fechado a boca logo em seguida.</p><p>Prender o que no ch�o? Do que ele estava falando�? A compreens�o se abateu sobre ela, t�o de repente que esqueceu de se perguntar quem seria esse �ele�. Rand tecera uma trama de <emphasis>saidin</emphasis> em torno dela. Egwene arregalou os olhos. Estava ofegante, respirando r�pido demais, mas n�o conseguia parar. Ser� que a trama estava muito perto? Cada fiapo de raz�o lhe dizia que a m�cula n�o poderia escorrer das tramas que ele fizesse � Rand j� a tocara com <emphasis>saidin</emphasis>, em outra ocasi�o. Ainda assim, pensar naquilo s� fez piorar as coisas. Instintivamente, encolheu os ombros e segurou as saias � frente do corpo, as m�os bem juntas.</p><p>� O que�? O que voc� fez? � Ficou orgulhosa por ter mantido a voz firme. Podia at� estar um pouquinho inst�vel, mas nada perto da lam�ria que queria deixar escapar.</p><p>� Olhe naquele espelho � retrucou ele, rindo. Rindo!</p><p>Ela obedeceu, meio a contragosto� e ficou sem f�lego. Ali, no espelho prateado, estava a cadeira dourada sobre o estrado. O reflexo tamb�m mostrava parte do aposento. Mas n�o havia nenhuma imagem dela.</p><p>� Eu estou� invis�vel � sussurrou.</p><p>Certa vez, Moiraine escondera todos eles por tr�s de uma cortina de <emphasis>saidar</emphasis>. Mas como Rand aprendera aquilo?</p><p>� Muito melhor do que se esconder debaixo da minha cama � comentou, dirigindo-se ao ar, os olhos fixos em um ponto um palmo � direita da cabe�a dela. Como se Egwene sequer tivesse <emphasis>cogitado</emphasis> essa possibilidade! � Quero que voc� veja como sei ser respeitoso. Al�m do qu� � ele assumiu um tom mais s�rio �, talvez voc� perceba algo que eu deixe passar. E talvez at� esteja disposta a me contar o qu�, mais tarde. � Com uma risada alta e curta, Rand subiu no estrado, pegou a ponta de lan�a borlada e se sentou. � Mande elas entrarem, Somara. Permita que a miss�o diplom�tica da Torre Branca fale com o Drag�o Renascido.</p><p>O sorriso retorcido no rosto dele deixou Egwene quase t�o desconfort�vel quanto a proximidade da urdidura de <emphasis>saidin</emphasis>. Qu�o perto estava aquele tro�o maldito?</p><p>Somara saiu da sala, e as portas se abriram de novo momentos depois.</p><p>Uma mulher de vestido azul-escuro, muito imponente e rechonchuda, que s� podia ser Coiren, vinha � frente. A seu lado, por�m uma passada atr�s, vinha Nesune, usando uma l� simples marrom, junto de uma Aes Sedai de cabelos negros como penas de corvo trajando seda verde � era muito bonita, de rosto redondo, com l�bios fartos e chamativos. Egwene desejou que as Aes Sedai sempre usassem as cores das suas Ajahs � as Brancas usavam sempre que podiam. N�o sabia a Ajah daquela terceira mulher, mas n�o acreditava fosse uma Verde � n�o com o olhar firme que ela lan�ou a Rand no instante em que p�s os p�s no aposento. Uma serenidade fria quase mascarava o desprezo em seus olhos � e talvez mascarasse, para algu�m que n�o estivesse acostumado a lidar com Aes Sedai. Ser� que Rand tinha percebido? Talvez n�o, j� que parecia concentrado em Coiren, cujo rosto era completamente indecifr�vel. Nesune, claro, estava atenta a tudo, os olhos de p�ssaro disparando para um lado e para o outro.</p><p>Egwene ficou muito grata pelo manto de invisibilidade que ele tecera. Deu batidinhas no rosto com o len�o, que ainda tinha nas m�os, ent�o ficou paralisada. Rand disse que prenderia a trama no ch�o. Teria mesmo prendido? Luz, pelo pouco que sabia, poderia muito bem estar completamente exposta. Mas ent�o o olhar de Nesune passou por ela sem nenhuma pausa. O suor escorria pelo rosto. Pingava. Que a Luz queimasse Rand! Ficaria perfeitamente feliz escondida debaixo da cama dele.</p><p>Atr�s das Aes Sedai veio mais uma d�zia de mulheres com roupas simples e sobrecapas �speras de linho pendendo das costas. A maioria era bem troncuda, mas parecia penar com o peso de dois ba�s nada pequenos, as al�as de lat�o polido trabalhadas com a Chama de Tar Valon. As servi�ais depositaram os ba�s no ch�o com suspiros de al�vio bem aud�veis, alongando os bra�os e as costas discretamente enquanto as portas se fechavam. Coiren e as outras Aes Sedai mergulharam em mesuras na mais perfeita sincronia, ainda que n�o muito profundas.</p><p>Rand se levantou antes mesmo que as tr�s Aes Sedai endireitassem as costas. O brilho de <emphasis>saidar</emphasis> cercava as tr�s � tinham se unido. Egwene tentou se lembrar do que vira, de como aquilo era feito. Apesar do brilho intenso, nada abalou a calma em seus rostos quando Rand passou direto, indo at� as servi�ais, analisando cada um de seus rostos.</p><p>O que ele estava�? Ah, claro. Estava querendo se certificar de que nenhuma tinha o rosto de idade indefinida de uma Aes Sedai. Egwene balan�ou a cabe�a, ent�o voltou a ficar im�vel. Rand era um tolo se achava que aquilo bastava. Quase todas as servas pareciam j� ter certa idade � n�o eram velhas, mas j� tinham a marca da passagem dos anos �, s� que duas eram jovens o bastante para terem sido elevadas havia pouco tempo. Nenhuma era � Egwene s� conseguia sentir a capacidade de canaliza��o das tr�s Aes Sedai, e estava perto o bastante para ter sentido, caso houvesse a fagulha em alguma das outras mulheres. Ainda assim, Rand n�o podia afirmar s� de olhar se aquelas mulheres eram ou n�o capazes de manejar o Poder.</p><p>Rand estendeu a m�o e ergueu o queixo de uma jovem robusta, encarando-a com um sorriso.</p><p>� N�o tenha medo � disse ele, baixinho. A mulher cambaleou como se estivesse prestes a desmaiar. Com um suspiro, Rand deu meia-volta. Nem olhou para as Aes Sedai quando passou por elas.</p><p>� Voc�s n�o v�o canalizar perto de mim � advertiu, firme. � Soltem.</p><p>Nesune pareceu pensativa por uma fra��o de segundo, mas as outras duas permaneceram completamente serenas enquanto ele voltava a se sentar e esfregava o bra�o. Egwene estivera presente quando ele desenvolveu aquela comich�o. Rand acrescentou, com uma voz mais firme:</p><p>� Eu disse que voc�s n�o v�o canalizar perto de mim. N�o v�o nem abra�ar <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>Houve um longo momento de hesita��o, e Egwene rezou em sil�ncio. O que Rand faria se as mulheres continuassem abra�ando a Fonte? Tentaria cortar a conex�o? Interromper o acesso a <emphasis>saidar</emphasis> depois que a mulher j� o abra�ara era bem mais dif�cil do que criar uma barreira antes de acontecer. N�o sabia nem se ele conseguiria lidar com tr�s mulheres ao mesmo tempo, ainda por cima unidas. E pior � o que elas fariam se Rand tentasse alguma coisa? O brilho esvaneceu, e Egwene conseguiu � por pouco � suprimir um enorme suspiro de al�vio. Aquela trama que ele fizera a tornava invis�vel, mas obviamente n�o isolava o som.</p><p>� Bem melhor. � Rand abriu um sorriso caloroso voltado para as tr�s, mas o calor n�o chegou aos seus olhos. � Vamos come�ar de novo. Voc�s s�o convidadas de honra e acabaram de entrar aqui neste exato momento.</p><p>Elas entenderam, claro. Rand n�o estava apenas supondo que as tr�s estavam canalizando � ele sabia. Coiren se enrijeceu de leve, e a mulher de cabelos escuros como um corvo arregalou os olhos. Nesune apenas assentiu para si mesma, acrescentando aquilo �s anota��es mentais. Egwene torcia para que ele tomasse cuidado � Nesune n�o deixaria passar nada.</p><p>Com esfor�o vis�vel, Coiren tratou de se acalmar, alisou o vestido e quase ajustou um xale que nem ao menos estava usando.</p><p>� Eu tenho a honra � anunciou, com uma voz l�mpida � de ser Coiren Saeldain Aes Sedai, Embaixadora da Torre Branca e emiss�ria de Elaida do Avriny a�Roihan, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin.</p><p>Com apresenta��es um pouco menos floreadas, ainda que com as honrarias completas de Aes Sedai, ela anunciou as outras duas. A mulher de olhar firme e cabelos negros era Galina Casban.</p><p>� Eu sou Rand al�Thor.</p><p>A simplicidade assinalava um contraste n�tido. Corina n�o mencionara o t�tulo de Drag�o Renascido e ele tamb�m n�o, mas aquela omiss�o pareceu fazer o t�tulo ressoar de leve pela sala.</p><p>Coiren respirou fundo, inclinando a cabe�a como se ouvisse o tal sussurro.</p><p>� Trazemos um nobre convite ao Drag�o Renascido. O Trono de Amyrlin tem plena consci�ncia de que os sinais foram dados e as profecias foram cumpridas, de que� � A mulher, sempre com uma voz alta e l�mpida, chegou r�pido demais ao ponto, dizendo que Rand deveria acompanh�-las, �com a honra e o respeito merecidos�, at� a Torre Branca, e que, caso ele aceitasse o convite, Elaida oferecia a prote��o da Torre e todo o peso de sua autoridade e influ�ncia por tr�s do t�tulo de Amyrlin. Seguiu-se mais uma boa dose de discursos floreados antes que ela terminasse com um: � � e, como s�mbolo de boa vontade, o Trono de Amyrlin envia este humilde presente.</p><p>Coiren se virou para os ba�s e ergueu as m�os. Ent�o ficou parada, abrindo uma leve careta de irrita��o. Precisou gesticular duas vezes at� que as servi�ais compreendessem o que ela queria e puxassem as al�as de lat�o para abrir as tampas dos ba�s. Ao que parecia, a mulher tivera inten��o de abrir as tampas usando <emphasis>saidar</emphasis>. Os ba�s estavam completamente cheios de sacas de couro. Depois de um outro gesto, mais firme, as servi�ais come�aram a desamarr�-las.</p><p>Egwene conteve um suspiro. N�o era de se surpreender que aquelas mulheres tivessem precisado de tanto esfor�o para carregar os ba�s! As sacas abertas tiveram seu conte�do derramado: moedas de ouro de todos os tamanhos, an�is reluzentes, colares cintilantes e gemas soltas. Mesmo se as sacas logo abaixo da primeira camada contivessem apenas entulho, tratava-se de uma fortuna.</p><p>Reclinando-se na poltrona em forma de trono, Rand examinava os ba�s com um princ�pio de sorriso. As Aes Sedai o analisavam, os rostos cobertos com suas m�scaras de autocontrole, mas Egwene achou ver um qu� de complac�ncia nos olhos de Coiren e um leve desd�m nos l�bios carnudos de Galina. Mas Nesune� Nesune representava o verdadeiro perigo.</p><p>As tampas se fecharam de repente, sem que ningu�m as tocasse. As servi�ais deram um pinote para tr�s, sem sequer abafarem os gritinhos de susto. As Aes Sedai se enrijeceram, e Egwene rezava com a mesma intensidade com que o suor escorria do corpo. Claro que queria um Rand arrogante e um tanto insolente, mas apenas o bastante para deixar as tr�s irritadas, n�o a ponto de elas decidirem tentar amans�-lo ali mesmo.</p><p>Foi ent�o que lhe ocorreu que, at� o momento, Rand n�o mostrara nada daquele lado �humilde feito um rato�. Ah, ele nunca sequer tivera a inten��o de mostrar humildade, apenas zombara dela! Se n�o estivesse t�o aterrorizada, iria at� ele e lhe daria uma bela bofetada na orelha.</p><p>� � bastante ouro � afirmou Rand. Parecia tranquilo, o sorriso enchendo o rosto todo. � Eu sempre encontro utilidade para ouro. � Egwene apenas piscou, surpresa. Rand soava quase ganancioso!</p><p>Coiren respondeu com um sorriso, uma imagem perfeita de arrog�ncia ponderada.</p><p>� O Trono de Amyrlin � de extrema generosidade, claro. Quando voc� chegar � Torre Branca�</p><p>� Quando eu chegar � Torre � interrompeu Rand, como se pensasse alto. � Sim, mal posso esperar pelo dia em que entrarei na Torre. � Ele se inclinou um pouco para a frente, apoiando o cotovelo no joelho, o Cetro do Drag�o dependurado para al�m das pernas. � Mas, entendam, n�o posso ir imediatamente. Primeiro tenho compromissos por aqui, al�m de em Andor e em outros lugares.</p><p>Coiren comprimiu os l�bios apenas por uma fra��o de segundo. Ainda assim, sua voz se manteve tranquila e firme como sempre.</p><p>� Com certeza n�o fazemos nenhuma obje��o a descansar alguns dias por aqui antes de iniciarmos a jornada de volta a Tar Valon. Enquanto isso, permita-me sugerir que uma de n�s fique dispon�vel para aconselh�-lo em caso de necessidade. Ouvimos falar, claro, do triste destino de Moiraine. N�o posso me oferecer, mas Nesune e Galina est�o � disposi��o.</p><p>Rand analisou a dupla, franzindo o cenho, e Egwene prendeu a respira��o. Ele mais uma vez parecia estar ouvindo alguma voz � ou tentando ouvir. Nesune o encarava com a mesma aten��o com que ele a analisava. Galina alisou as saias por reflexo, sem nem reparar no que seus dedos faziam.</p><p>� N�o � respondeu, por fim, recostando-se de volta e repousando os cotovelos nos bra�os da poltrona. Com aquilo, Rand a fazia parecer ainda mais um trono. � N�o � muito seguro. Eu n�o gostaria que uma de voc�s, por acidente, acabasse com uma lan�a atravessada entre as costelas. � Coiren abriu a boca para protestar, mas ele continuou falando. � Para sua pr�pria seguran�a, nenhuma de voc�s deve ficar a menos de uma milha de mim sem minha permiss�o. Ali�s, o melhor � tamb�m manterem essa dist�ncia do Pal�cio, a n�o ser que eu permita. Voc�s ser�o informadas quando eu estiver pronto para acompanhar a comitiva de volta a Tar Valon. Eu prometo. � Rand se levantou de repente. De cima do estrado, ficava alto o bastante para que as Aes Sedai precisassem levantar o pesco�o, e as tr�s deixaram muito claro que desgostavam daquilo tanto quanto das restri��es impostas. Tr�s rostos entalhados em pedra ergueram os olhos para fit�-lo. � Agora vou deixar que voltem ao seu descanso. Quanto mais r�pido eu conseguir resolver certas quest�es, mais r�pido poderei ir para a Torre. Mandarei avisar quando pudermos nos encontrar outra vez.</p><p>As tr�s n�o ficaram nada satisfeitas com aquela dispensa t�o s�bita, muito menos com o fato de terem sido dispensadas. Eram as Aes Sedai que definiam quando uma audi�ncia se encerrava. Ainda assim, havia pouco que pudessem fazer al�m de rever�ncias m�nimas, a contrariedade quase esfacelando a famosa calma das mulheres da Torre.</p><p>Quando davam meia-volta para ir embora, Rand se pronunciou mais uma vez, em um tom casual:</p><p>� Esqueci de perguntar: como est� Alviarin?</p><p>� Est� bem. � Galina passou alguns instantes boquiaberta, os olhos arregalados. Parecia surpresa por ter respondido.</p><p>Coiren hesitou, prestes a usar aquela abertura para falar mais, por�m Rand j� dava sinais de impaci�ncia, quase batendo os p�s no ch�o. Quando as mulheres sa�ram, ele desceu do tablado ainda carregando a ponta de lan�a, os olhos fixos nas portas que se fecharam atr�s delas.</p><p>Egwene n�o perdeu tempo, foi logo avan�ando para cima dele.</p><p>� Que jogo � este que voc� est� jogando, Rand al�Thor? � J� avan�ara quase cinco passos quando um vislumbre de seu reflexo nos espelhos a fez perceber que atravessara a tessitura de <emphasis>saidin</emphasis>. Pelo menos n�o reparara quando foi tocada por aquelas tramas cheias de m�cula. � Pois bem?</p><p>� Ela � uma das mulheres de Alviarin � comentou ele, em tom pensativo. � Galina. Ela � uma das amigas de Alviarin. Posso at� apostar.</p><p>Egwene parou diante dele e fungou com desd�m.</p><p>� Voc� perderia sua moeda e ainda acabaria com um ancinho no pr�prio p�. Se Galina n�o � Vermelha, nunca vi uma Vermelha na vida.</p><p>� S� porque ela n�o gosta de mim? � Rand a encarava, e Egwene quase desejou que ele desviasse os olhos. � Porque ela tem medo de mim? � Ele n�o franziu a testa nem olhou feio para ela. Nem ao menos a encarava com dureza. Ainda assim, seus olhos pareciam saber coisas que ela desconhecia. Egwene <emphasis>odiou</emphasis> aquela sensa��o. O sorriso de Rand surgiu t�o de repente que ela teve que piscar. � Egwene, espera que eu acredite que voc� consegue identificar a Ajah de uma mulher s� de olhar para o rosto dela?</p><p>� N�o, mas�</p><p>� Seja como for, at� as Vermelhas podem acabar me seguindo. Elas conhecem as Profecias t�o bem quanto qualquer um. �A torre imaculada se divide e se ajoelha perante o s�mbolo esquecido.� Foram escritas antes de existir uma Torre Branca, mas o que mais poderia ser essa �torre imaculada�? E o s�mbolo esquecido? � meu estandarte, Egwene, com o antigo s�mbolo Aes Sedai.</p><p>� Que o queime, Rand al�Thor! � O xingamento que escapou de seus l�bios soava mais estranho do que Egwene esperava. N�o estava acostumada a dizer aquele tipo de coisa. � Que a Luz o queime! Voc� n�o pode estar pensando em ir mesmo com elas. N�o pode!</p><p>Rand abriu um sorriso divertido. Divertido!</p><p>� Ora, eu n�o fiz o que voc� queria? Fiz o que voc� me disse para fazer <emphasis>e</emphasis> o que voc� queria.</p><p>Ela comprimiu os l�bios, indignada. J� era ruim que ele soubesse que seus planos tinham falhado, mas era uma verdadeira grosseria jogar na cara dela daquele jeito.</p><p>� Rand, por favor, me escute. Elaida�</p><p>� A quest�o � como fazer voc� voltar para as tendas sem elas descobrirem sua presen�a. Acho que elas t�m olhos-e-ouvidos no Pal�cio.</p><p>� Rand, voc� precisa�</p><p>� Que tal escapulir dentro de um daqueles cestos grandes da lavanderia? Posso mandar duas Donzelas carregarem.</p><p>Egwene quase gritou de frustra��o. Rand estava t�o ansioso para se ver livre dela quanto das Aes Sedai.</p><p>� Pode deixar que meus pr�prios p�s j� s�o o bastante, obrigada. � Um cesto de lavanderia, ora essa! � Se me dissesse como faz para vir de Caemlyn para c� na hora que quiser, eu n�o precisaria me preocupar. � Ela n�o entendia por que era t�o dif�cil perguntar a ele. � Sei que voc� n�o tem como me ensinar, mas, se me dissesse como faz, talvez eu pudesse dar um jeito de imitar o truque usando <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>Em vez de zombar dela, o que Egwene j� praticamente esperava que acontecesse, Rand segurou as pontas de seu xale com ambas as m�os.</p><p>� Tem o Padr�o � come�ou ele. � Aqui � Caemlyn � um dos dedos da m�o esquerda se ergueu, elevando o tecido de l� �, e aqui � Cairhien. � Um dedo da outra m�o se ergueu do outro lado, ent�o ele uniu as pontas dos dois dedos. � Eu dobro o Padr�o, ent�o fa�o um buraco de um ponto ao outro. N�o sei o que � que escavo para abrir esse buraco, mas n�o h� espa�o entre uma ponta e a outra. � Ele deixou o xale cair. � Isso ajuda?</p><p>Egwene mordeu o l�bio e encarou o xale de cenho franzido, amargurada. N�o ajudava em nada. Ficava enjoada s� de pensar em abrir um buraco no Padr�o. Tivera a esperan�a de que fosse ser como algo que ela descobrira em rela��o a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> � n�o que pretendesse usar sua descoberta, claro, mas tivera todo aquele tempo nas m�os, e as S�bias n�o paravam de resmungar a respeito das perguntas das Aes Sedai sobre como entrar l� em carne e osso. Egwene achava que a solu��o seria criar uma semelhan�a � esse parecia o �nico meio de descrever o que precisava ser feito � entre o mundo real e seu reflexo no Mundo dos Sonhos. O que criaria um lugar onde seria poss�vel simplesmente passar de um mundo para o outro. Se a Viagem de Rand tivesse uma rela��o m�nima com isso, Egwene estaria disposta a tentar. Mas aquilo� <emphasis>Saidar</emphasis> sempre obedecia aos desejos de quem canalizava, bastava se ter consci�ncia de que o Poder era muito mais forte que qualquer pessoa e precisava ser conduzido com delicadeza. Tentar for�ar algo errado poderia resultar em morte, ou a pessoa acabaria exaurida antes mesmo de conseguir gritar.</p><p>� Rand, tem certeza de que n�o existe um meio de tornar as coisas mais iguais� ou� � N�o sabia explicar. Em todo caso, ele balan�ou a cabe�a antes mesmo que ela come�asse a diminuir a voz em busca das palavras certas.</p><p>� Me parece muito que essa sua ideia mudaria a tessitura do Padr�o. Acho que eu acabaria destru�do se tentasse. Eu s� fa�o um buraco � completou, cutucando-a para demonstrar.</p><p>Bem, n�o havia sentido em tentar aprender aquilo. Egwene ajeitou o xale, irritada.</p><p>� Rand, e quanto ao Povo do Mar? N�o sei nada sobre eles al�m do que li. � Na verdade sabia, mas n�o contaria a ele. � Mas deve ser um assunto importante para eles virem t�o longe s� para falar com voc�.</p><p>� Luz � murmurou Rand, distra�do �, voc� pula de um assunto a outro feito uma gota d��gua na frigideira quente. Vou receber o Povo do Mar quando tiver tempo. � Ele esfregou a testa, e seus olhos pareciam n�o ver. Ent�o piscou, e j� a encarava de novo. � Pretende ficar aqui at� elas voltarem?</p><p>Ao que parecia, Rand queria mesmo se ver livre dela.</p><p>Egwene parou diante da porta, antes de sair, mas Rand j� come�ara a andar de um lado a outro pela sala, as m�os entrela�adas �s costas, falando sozinho. Falava bem baixo, mas ela conseguiu entender uma parte:</p><p>� Que o queime, onde voc� est� se escondendo? Sei que est� a�!</p><p>Arrepiada, Egwene saiu. Se Rand estivesse mesmo enlouquecendo, n�o havia o que fazer. Bem, haveria de ser o que a Roda tecesse, e teriam que lidar com a tessitura que viesse.</p><p>Egwene se obrigou a se acalmar quando notou que estava atenta aos servi�ais que passavam de um lado a outro do corredor, perguntando-se quais seriam agentes das Aes Sedai. Haveria de ser o que a Roda tecesse. Cumprimentando Somara com um meneio de cabe�a, ela endireitou os ombros e fez um esfor�o enorme para n�o sair correndo at� a entrada de servi�o mais pr�xima.</p><empty-line/><p>N�o havia muita conversa no interior da melhor carruagem de Arilyn, que partia do Pal�cio do Sol seguida pelo carro��o que antes levara os ba�s, mas que agora transportava apenas as servi�ais e o condutor. Nesune, que passara um tempo tamborilando sobre as costuras do banco de couro, come�ou a bater os dedos contra os l�bios, pensativa. Que jovem interessante. Um objeto de estudo fascinante. Seu p� encostou em uma das caixas para cataloga��o de esp�cimes sob o assento � Nesune nunca ia a lugar algum sem seus compartimentos apropriados para catalogar os novos esp�cimes que encontrasse. Era de se pensar que o mundo inteiro j� tivesse sido catalogado, mas, desde que partiram de Tar Valon, ela j� armazenara cinquenta plantas, o dobro de insetos, a pele e os ossos de uma raposa, tr�s tipos de cotovias e nada menos que cinco esp�cies de esquilos terrestres que tinha certeza de que ainda n�o estavam em nenhum registro.</p><p>� Eu n�o sabia que voc� e Alviarin eram amigas � comentou Coiren, depois de um tempo.</p><p>Galina fungou com desd�m.</p><p>� N�o � preciso ser amiga dela para saber que ela estava bem quando partimos.</p><p>Nesune se perguntou se Galina sabia que estava fazendo um beicinho de irrita��o. Bem, talvez fosse apenas o formato natural da boca� ora, a pessoa precisava aprender a lidar com o pr�prio rosto.</p><p>� Acha que ele sabia mesmo? � prosseguiu Galina. � Que ele sabia que est�vamos� n�o � poss�vel. Devia ser um palpite.</p><p>Nesune quase se aprumou, atenta, mas n�o parou de tamborilar os l�bios. Era um esfor�o �bvio para mudar de assunto, assim como um sinal de que Galina estava nervosa. O sil�ncio persistira por todo aquele tempo porque ningu�m queria tocar no nome de al�Thor. Ao mesmo tempo, parecia n�o haver nenhum outro assunto poss�vel. Por que Galina n�o queria falar sobre Alviarin? As duas decerto n�o eram amigas; era raro uma Vermelha ter amizade com algu�m de outra Ajah. Nesune registrou a d�vida em seu arquivo mental.</p><p>� Se era s� um palpite, ele poderia fazer fortuna nas apostas das feiras. � Coiren n�o era boba. Era explosiva at� al�m da conta, mas n�o era nada boba. � N�o importa o quanto essa ideia pare�a rid�cula, temos que presumir que ele pode sentir <emphasis>saidar</emphasis> numa mulher.</p><p>� Isso pode ser um desastre � resmungou Galina. � N�o, n�o � poss�vel. S� pode ter sido um palpite. Qualquer homem capaz de canalizar presumiria que est�vamos abra�adas a <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>Nesune realmente se irritava com aquele beicinho; se irritava com aquela expedi��o toda. Estaria mais do que feliz em fazer parte da empreitada se tivessem lhe pedido para ir, mas Jesse Bilal n�o pedira, apenas a colocara no cavalo quase � for�a. N�o importava como eram as coisas nas outras Ajahs, ningu�m esperava que a l�der do conselho das Marrons agisse daquela forma. E o pior de tudo era que suas acompanhantes estavam t�o concentradas no jovem al�Thor que pareciam ter ficado cegas para qualquer outra coisa.</p><p>� O que acharam da irm� presente naquela audi�ncia? � indagou, pensando alto.</p><p>Talvez n�o fosse uma irm� � sempre encontrava tr�s Aiel quando ia � Biblioteca Real, e duas delas eram capazes de canalizar. Ainda assim, queria ver as rea��es das outras. N�o estava desapontada � ou melhor, estava. Coiren apenas se endireitou, mas Galina a encarou, chocada. Nesune fez um esfor�o enorme para conter um suspiro. As duas realmente eram cegas. Tinham ficado a poucas passadas de uma mulher capaz de canalizar, mas n�o a sentiram s� porque n�o podiam enxerg�-la.</p><p>� N�o sei como ela se escondeu � prosseguiu �, mas vai ser interessante descobrir.</p><p>S� podia ter sido obra dele, j� que as tr�s teriam notado qualquer tessitura de <emphasis>saidar</emphasis>. As outras n�o perguntaram se ela tinha certeza, pois sabiam que ela sempre deixava claro quando estava apenas conjecturando.</p><p>� � uma confirma��o de que Moiraine est� viva � declarou Galina, recostando-se no assento da carruagem com um sorriso sombrio. � Minha sugest�o � mandar Beldeine atr�s dela. A� n�s a pegamos e a deixamos amarrada no por�o. Isso vai manter a mulher longe de al�Thor, pelo menos. E podemos arrastar Moiraine de volta para Tar Valon junto com o garoto. Duvido de que ele v� perceber, basta ofuscar sua vista com bastante ouro.</p><p>Coiren balan�ou a cabe�a com vigor, em uma negativa enf�tica.</p><p>� N�o temos nenhuma confirma��o a mais do que j� t�nhamos, n�o de Moiraine. Pode ser essa Verde misteriosa. Quanto a essa ideia de descobrir quem quer que seja, eu concordo. Mas precisamos pensar bem antes de agir. N�o vou arriscar todo o nosso plano, feito com tanto cuidado. Temos que nos manter cientes de que al�Thor tem uma liga��o com essa irm�, quem quer que ela seja, e que ele pode ter pedido mais tempo apenas como uma estrat�gia. Por sorte, temos tempo.</p><p>Galina assentiu, ainda que relutante � a mulher se casaria e iria morar em uma fazenda antes de arriscar os planos.</p><p>Nesune se permitiu um suspiro t�mido. Al�m daquela pompa toda, o outro �nico verdadeiro defeito de Coiren era sua mania de afirmar o �bvio. A mulher de fato tinha a cabe�a boa, quando a usava. E de fato tinham tempo. Seu p� encostou outra vez em uma das caixas de esp�cimes catalogados. N�o importava como tudo transcorreria, o registro que pretendia escrever sobre al�Thor seria o �pice de sua vida.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 28</p><p><image l:href="#8"/></p><p>Cartas</p></title><p>Lews Therin <emphasis>estava</emphasis> l� � Rand tinha certeza �, mas em sua mente n�o havia nenhum sussurro que n�o fosse dele pr�prio. No restante do dia, chegou a tentar pensar em outras coisas, por mais in�teis que fossem. Berelain quase perdeu as estribeiras com o tanto de vezes que ele apareceu do nada para perguntar sobre algum assunto que ela era perfeitamente capaz de resolver sozinha. Rand n�o tinha certeza, mas achava que a mulher come�ara a evit�-lo. At� Rhuarc come�ou a se mostrar incomodado depois da d�cima vez que Rand o encurralou querendo falar sobre os Shaido � os Shaido estavam im�veis, e Rhuarc s� via duas sa�das: deix�-los em paz na Adaga do Fratricida ou expuls�-los � for�a. Herid Fel tinha sa�do sem destino, o que Idrien logo apontou que ele fazia com frequ�ncia, ocasi�es em que nunca era encontrado em lugar nenhum � quando Fel se perdia em pensamentos, �s vezes tamb�m se perdia pela cidade. Rand acabou gritando com a diretora. Fel n�o era culpa dela, muito menos sua responsabilidade, mas Rand a deixou p�lida e tr�mula. Seu humor oscilava feito uma rajada de trov�es varrendo o horizonte. E tamb�m gritou com Meilan e Maringil at� os dois come�arem a tremer nas bases e se retirarem, p�lidos, al�m de reduzir Colavaere a l�grimas e ter chegado a p�r Anaiyella para correr, as saias erguidas at� os joelhos. Inclusive, quando Amys e Sorilea foram perguntar o que ele tinha conversado com as Aes Sedai, gritou com as duas tamb�m � pela cara que Sorilea fez enquanto as suas S�bias iam embora, suspeitou de que fosse a primeira vez que algu�m erguia a voz para ela na vida. Estava incomodado por saber � <emphasis>sem sombra de d�vida�</emphasis>��que Lews Therin estava ali, que era mais do que uma voz, era um homem escondido dentro de sua cabe�a.</p><p>Quando a noite caiu, quase teve medo de adormecer, medo de Lews Therin assumir o controle enquanto ele dormia. Quando enfim conseguiu dormir, n�o parou de se remexer e resmungar em meio a sonhos turbulentos. O primeiro raio de luz que entrou pelas janelas j� o acordou � estava de olhos ardidos, embolado em meio aos len��is molhados de suor, com as pernas doloridas e um gosto de cavalo morto havia seis dias na boca. Todos os sonhos que recordava eram ele correndo de algo que n�o conseguia ver. Levantou-se da imensa cama de dossel e foi at� o lavat�rio coberto de douraduras. O c�u l� fora ainda estava ficando cinza, ent�o os <emphasis>gai�shain</emphasis> que trariam a �gua fresca ainda n�o tinham aparecido. Bem, a �gua da noite anterior bastaria.</p><p>Estava quase terminando de se barbear quando parou, a l�mina apoiada na bochecha, encarando o pr�prio reflexo no espelho da parede. Fugindo. Nos sonhos, tivera certeza de que estava correndo para fugir dos Abandonados, ou do Tenebroso, ou de Tarmon Gai�don � talvez at� de Lews Therin. Estava t�o cheio de si� <emphasis>claro</emphasis> que o Drag�o Renascido sonharia que era perseguido pelo Tenebroso. Apesar de sempre protestar que ainda era Rand al�Thor, parecia ser t�o f�cil para ele se esquecer quanto para qualquer outro. Na verdade, Rand al�Thor tinha fugido de Elayne, de seu medo de amar Elayne, assim como fugira do medo de amar Aviendha.</p><p>O espelho se espatifou, os estilha�os ca�ram no lavat�rio de porcelana. Os peda�os que sobraram na moldura refletiam uma imagem fragmentada de seu rosto.</p><p>Rand soltou <emphasis>saidin</emphasis>, enxaguou com cuidado os �ltimos resqu�cios de espuma do rosto e se demorou em guardar a l�mina de barbear. Nada mais de correr. Faria o que tinha de fazer, mas sem correr.</p><p>Quando saiu, duas Donzelas aguardavam no corredor. Harilin, uma ruiva magricela mais ou menos de sua idade, saiu correndo em busca das outras assim que o viu. Chiarid, uma loura de olhar alegre com idade para ser sua m�e, o acompanhou pelos corredores � os poucos servi�ais que circulavam ficaram surpresos em v�-lo t�o cedo. Chiarid sempre gostava de fazer piada � custa de Rand quando estavam sozinhos � algumas ele at� entendia. A mulher o via como um irm�o mais novo que precisava de uns freios para n�o se envaidecer demais. Naquela manh�, percebendo seu humor, ela ficou calada. At� olhou feio para a espada, mas apenas uma vez.</p><p>Nandera e as outras Donzelas os alcan�aram antes que chegassem � metade do caminho at� o aposento reservado �s Viagens. Elas tamb�m logo perceberam seu sil�ncio taciturno, assim como os homens de Mayene e os Olhos Negros que vigiavam a porta de entalhes quadrados. Rand estava come�ando a achar que conseguiria sair de Cairhien sem que ningu�m dissesse uma palavra quando uma jovem usando o vermelho e azul caracter�stico dos servi�ais de Berelain se aproximou, afobada, e curvou-se em uma mesura profunda justo no instante em que ele abriu o port�o.</p><p>� A Primeira lhe enviou isso � anunciou a jovem, ofegante, estendendo uma carta com um selo grande e verde. Ela parecia ter corrido at� ali. � � do Povo do Mar, milorde Drag�o.</p><p>Rand enfiou a carta no bolso do casaco e deu um passo � frente, adentrando o port�o, ignorando a pergunta da jovem sobre que resposta mandar. Queria um pouco de sil�ncio. Passou o polegar pelo entalhe do Cetro do Drag�o. Seria firme e forte, nada mais de ficar se lamentando.</p><p>O ambiente escuro do Grande Sal�o de Caemlyn trouxe Alanna de volta. Ainda era noite, mas ela estava acordada � Rand sabia disso, assim como sabia que ela estivera chorando, assim como soube que as l�grimas cessaram apenas instantes depois de ele fechar o port�o atr�s da �ltima Donzela. Ainda restava um emaranhado de emo��es ca�ticas e indecifr�veis no fundo da mente, mas tinha certeza de que a Verde sabia que ele voltara. Alanna e seu elo sem d�vida tinham contribu�do para sua fuga, mas ele agora aceitava o elo, por mais que n�o gostasse. Esse pensamento quase o fez soltar uma risadinha amarga. Melhor aceitar, j� que n�o havia o que fazer. Alanna atara nele um fio � Luz, que n�o passasse disso �, ent�o supostamente s� teria problemas se a deixasse se aproximar o bastante para transformar o fio em uma correia. Desejou que Thom Merrilin estivesse ali. Thom devia saber tudo sobre Guardi�es e elos; ele sabia sobre as coisas mais surpreendentes. Bom, encontraria o menestrel quando encontrasse Elayne. Era isso.</p><p><emphasis>Saidin</emphasis> se abriu em um globo de luz; Fogo e Ar iluminando a sa�da do sal�o do trono. Muito acima, as antigas rainhas, cobertas pela escurid�o, n�o o incomodavam nem um pouco. Eram apenas imagens em vidro colorido.</p><p>O mesmo n�o se podia dizer de Aviendha. Quando chegaram aos seus aposentos, Nandera dispensou todas as Donzelas menos Jalani, e as duas entraram com ele para vistoriar os quartos enquanto ele usava o Poder para acender as l�mpadas e largava o Cetro do Drag�o em uma mesinha de m�rmore marchetada, embora com muito menos douraduras do que teria uma equivalente no Pal�cio do Sol. Toda a mob�lia ali seguia esse estilo, com menos ouro e mais entalhes, em geral de le�es ou rosas. Um imenso carpete vermelho cobria o ch�o, bordado com rosas de fios de ouro.</p><p>Se n�o estivesse cheio de <emphasis>saidin</emphasis>, provavelmente n�o teria ouvido as passadas suaves das Donzelas. Mas Aviendha surgiu antes mesmo que as duas cruzassem a antessala, embora o barulho n�o passasse de um farfalhar. A jovem saiu pisando duro do dormit�rio ainda escuro, os cabelos desgrenhados e a faca de cintura na m�o. Completamente nua. Quando o viu, a ruiva enrijeceu feito um poste e entrou de volta quase correndo. Notou um leve brilho passar pelas frestas da porta � uma l�mpada acesa. Nandera soltou uma risadinha baixa e trocou olhares divertidos com Jalani.</p><p>� Nunca vou entender os Aiel � resmungou Rand, largando a Fonte. � A quest�o n�o era as Donzelas considerarem a situa��o engra�ada, fazia tempo que desistira de compreender o humor Aiel. O problema era Aviendha, que achava <emphasis>muito </emphasis>engra�ado se despir na frente dele antes de dormir, mas parecia uma gata escaldada quando revelava sequer um pedacinho de tornozelo sem querer. E claro que ele � que levava a culpa por ter visto.</p><p>Nandera deu mais uma risadinha.</p><p>� N�o s�o os Aiel que voc� n�o entende, e sim as mulheres. Homem nenhum jamais conseguiu compreender as mulheres.</p><p>� Por outro lado, os homens s�o muito simples � observou Jalani.</p><p>Rand a encarou, o rosto ainda redondo feito o de uma crian�a, e ela corou de leve. Nandera parecia prestes a irromper em uma gargalhada.</p><p><emphasis>Morte</emphasis>, sussurrou Lews Therin.</p><p>Rand se esqueceu de tudo em volta. <emphasis>Morte? Como assim?</emphasis></p><p><emphasis>A morte vem.</emphasis></p><p><emphasis>Que tipo de morte?</emphasis>, inquiriu Rand. <emphasis>Do que voc� est� falando?</emphasis></p><p><emphasis>Quem � voc�? Onde estou?</emphasis></p><p>Rand sentiu como se um punho apertasse sua garganta. Tivera tanta certeza, mas� Bem, era a primeira vez que Lews Therin deixava t�o evidente que estava falando com ele. <emphasis>Eu sou Rand al�Thor. Voc� est� dentro da minha cabe�a.</emphasis></p><p><emphasis>Dentro�? N�o! Eu sou eu mesmo! Eu sou Lews Therin Telamon! Eu sou eeeeeuuuuu!</emphasis></p><p>O grito foi sumindo ao longe.</p><p><emphasis>Volte aqui!</emphasis>, gritou Rand. <emphasis>Que morte? Responda, que o queime!</emphasis></p><p>Sil�ncio. Ele se remexeu, inquieto. Saber era uma coisa, mas ter aquele homem morto dentro dele falando de morte� aquilo o fazia se sentir impuro, era como um leve toque da m�cula de <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p>Sentiu um toque no bra�o e quase voltou a agarrar a Fonte antes de perceber que era Aviendha. Considerando o tempo que se passara, a ruiva devia ter enfiado as roupas �s pressas, mas parecia ter levado uma hora arrumando cada fio de cabelo. Diziam que os Aiel n�o demonstravam qualquer emo��o, mas a verdade era que eles apenas eram mais reservados. Para quem sabia o que procurar, seus rostos revelavam tanto quanto o de qualquer povo. Aviendha parecia dividida entre a preocupa��o e a raiva.</p><p>� Voc� est� bem? � perguntou ela.</p><p>� Estava s� pensando � respondeu Rand.</p><p>N�o deixava de ser verdade. <emphasis>Responda, Lews Therin! Volte aqui e me responda!</emphasis> Como ele podia ter pensado que gostaria de um pouco de sil�ncio?</p><p>Infelizmente, Aviendha acreditou no que ele disse. Como n�o havia nada com que se preocupar� ela apoiou as m�os cerradas na cintura. Ah, eis uma coisa que ele compreendia muito bem sobre as mulheres, fossem Aiel ou de Dois Rios ou de qualquer lugar: m�os cerradas em punhos na cintura eram sin�nimo de problemas. Nem precisava ter se dado ao trabalho de acender as lamparinas, pois os olhos da ruiva, em brasas, j� teriam bastado para iluminar a sala.</p><p>� Voc� saiu sem mim de novo. Prometi �s S�bias que ficaria perto de voc� at� chegar a hora de eu ir embora, mas voc� faz pouco caso da minha promessa. E isso faz com que voc� tenha <emphasis>toh</emphasis> para comigo, Rand al�Thor. Nandera, de agora em diante quero saber aonde ele vai e quando. E Rand n�o tem permiss�o de sair sem mim, j� que tenho o dever de ficar junto dele.</p><p>Nandera n�o hesitou um instante sequer antes de assentir.</p><p>� Ser� como deseja, Aviendha.</p><p>Rand se virou, olhando para as duas.</p><p>� Ora, podem parar com essa hist�ria! Ningu�m ser� informado das minhas idas e vindas, a n�o ser que eu mande.</p><p>� Eu dei minha palavra, Rand al�Thor � retrucou Nandera, impass�vel, encarando-o. Seus olhos demonstravam que a mulher n�o tinha a menor inten��o de voltar atr�s.</p><p>� E eu dou a minha � completou Jalani, com a mesma firmeza.</p><p>Rand abriu a boca, ent�o fechou. Maldito <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Claro que seria in�til lembrar a elas que era o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Aviendha pareceu um pouco surpresa por ele ter protestado � ao que parecia, j� considerava o assunto resolvido. Rand se remexeu, incomodado, mas n�o por causa da jovem ruiva. Ainda sentia aquela impureza, agora mais forte. Talvez Lews Therin tivesse voltado. Rand o chamou em pensamento, mas n�o houve resposta.</p><p>Ouviram uma batidinha � porta e a Senhora Harfor entrou quase um segundo depois, fazendo a profunda rever�ncia costumeira. A apar�ncia impec�vel da Criada-chefe n�o dava sinais do hor�rio cedo demais, claro � independentemente da hora do dia, Reene Harfor sempre parecia ter acabado de se vestir.</p><p>� Algumas pessoas vieram para a cidade, milorde Drag�o, e Lorde Bashere achou que o senhor deveria ser informado o quanto antes. Lady Aemlyn e Lorde Culhan chegaram ontem ao meio-dia e est�o hospedados com Lorde Pelivar. Lady Arathelle chegou uma hora mais tarde, com uma grande comitiva. Lorde Barel, Lorde Macharan, Lady Sergase e Lady Negara n�o vieram juntos, mas chegaram todos agora � noite, cada um com apenas alguns servi�ais. Ningu�m veio prestar seus respeitos ao Pal�cio. � A �ltima frase saiu no mesmo tom impass�vel que n�o deixava transparecer sua opini�o a respeito disso.</p><p>� Isso � uma boa not�cia � respondeu Rand. E era, n�o importava que os nobres tivessem prestado seus respeitos ou n�o. Aemlyn e o marido, Culhan, eram quase t�o poderosos quanto Pelivar, e Arathelle era a mais influente de todos, exceto por Dyelin e Luan. Os outros eram de Casas menores, e apenas Barel era um Gr�o-Trono de sua casa, mas os nobres que tinham se oposto a �Gaebril� estavam come�ando a se unir. Bem, claro que s� seria uma boa not�cia se encontrasse Elayne antes que o grupo decidisse tomar Caemlyn.</p><p>A Senhora Harfor o encarou por um instante, ent�o lhe entregou uma carta com um selo azul.</p><p>� Isto foi entregue ontem � noite, bem tarde, milorde Drag�o. Veio com um cavalari�o. Um rapazote todo sujo. A Mestra das Ondas do Povo do Mar veio para a audi�ncia e n�o ficou muito feliz ao descobrir que o Drag�o n�o estaria aqui para receb�-la. � Desta vez, o tom de reprova��o estava evidente, embora n�o desse para saber se era em rela��o � Mestra das Ondas, a Rand ter perdido a audi�ncia ou � falta de higiene do mensageiro da carta.</p><p>Ele suspirou. Tinha se esquecido do Povo do Mar ali em Caemlyn. Bem, serviu para lembr�-lo da mensagem que Berelain repassara em Cairhien. Rand pegou a carta e notou que tanto o selo verde quanto o azul tinham o mesmo padr�o, embora n�o fosse poss�vel distinguir o que era. A imagem gravada consistia em duas coisas que pareciam vasos achatados com uma linha ornamentada correndo de um a outro. As duas cartas estavam endere�adas ao �Coramoor�, fosse quem ou o que isso fosse. Supunha que fosse um t�tulo para ele pr�prio. Talvez fosse como o Povo do Mar chamava o Drag�o Renascido.</p><p>Rompeu o selo azul primeiro. N�o havia sauda��o, a mensagem era completamente distinta de qualquer outra coisa que Rand j� vira endere�ada ao Drag�o Renascido.</p><cite><p>Querendo a Luz, talvez o senhor algum dia retorne a Caemlyn. Como viajei de muito longe para v�-lo, talvez encontre tempo para receb�-lo quando retornar.</p><text-author>Zaida din Paredde Asa-negra</text-author><text-author>Mestra das Ondas do Cl� Catelar</text-author></cite><p>Ao que parecia, a Senhora Harfor tinha raz�o: a Mestra das Ondas n�o estava nada satisfeita. O selo verde n�o guardava mensagem muito melhor.</p><cite><p>Se aprouver � Luz, eu o receberei no conv�s do <emphasis>Borbot�o</emphasis> assim que lhe for conveniente.</p><text-author>Harine din Togara Dois Ventos</text-author><text-author>Mestra das Ondas do Cl� Shodein</text-author></cite><p>� Alguma not�cia ruim? � perguntou Aviendha.</p><p>� Eu n�o sei. Acho que n�o.</p><p>Ainda de cenho franzido para as cartas, Rand mal notou quando a Senhora Harfor recebeu uma mulher de uniforme vermelho e branco, com quem trocou algumas palavras sussurradas. Nenhuma daquelas mulheres do Povo do Mar parecia algu�m que ele desejasse encontrar. J� lera todas as tradu��es das Profecias do Drag�o que encontrara, e, embora as mais claras quase sempre fossem muito nebulosas, n�o se lembrava de nada que mencionasse os Atha�an Miere. Talvez fossem um povo intocado por ele ou Tarmon Gai�don, j� que viviam em navios no mar e em ilhas long�nquas. Devia um pedido de desculpas �quela Zaida, mas talvez pudesse enrol�-la mandando Bashere em seu lugar � ele tinha t�tulos suficientes para saciar a vaidade de qualquer um.</p><p>A servi�al rec�m-chegada se atirou de joelhos diante dele, a cabe�a coberta de branco abaixada, as m�os erguidas bem alto para oferecer uma terceira carta, essa em um pergaminho grosso. Rand hesitou, encarando a postura subserviente da mulher. Nem em Tear vira uma criada t�o servil, quem dir� em Andor. A Senhora Harfor franzia o cenho e balan�ava a cabe�a em desaprova��o. A mulher de joelhos falou, ainda de cabe�a baixa.</p><p>� Isto chegou para milorde Drag�o.</p><p>� Sulin? � perguntou, surpreso. � O que voc� est� fazendo? O que est� fazendo nesse� <emphasis>vestido</emphasis>?</p><p>Sulin ergueu a cabe�a. Estava com uma apar�ncia terr�vel, feito um lobo que se esfor�ava ao m�ximo para fingir que era uma cor�a.</p><p>� � o que usam as mulheres que servem e obedecem em troca de moedas. � Ela balan�ou levemente as m�os erguidas, que ainda sustentavam a carta. � Fui ordenada a lhe informar que isso acabou de chegar para milorde Drag�o, por� um cavaleiro que foi embora assim que me entregou.</p><p>A Criada-chefe estalou a l�ngua, irritada.</p><p>� Quero uma resposta direta � retrucou ele, agarrando o pergaminho selado das m�os da mulher. Ela se levantou de um salto assim que o papel foi arrancado de suas m�os. � Volte aqui, Sulin. Sulin, eu quero uma resposta!</p><p>Mas Sulin correu at� as portas, r�pida como se ainda usasse o <emphasis>cadin�sor</emphasis>, e saiu sem responder.</p><p>Por algum motivo, a Senhora Harfor olhou feio para Nandera.</p><p>� Eu avisei que isso n�o iria funcionar. E avisei �s duas que, enquanto ela usar o uniforme do Pal�cio, espero que ela honre o Pal�cio, n�o importa se � uma Aiel ou a Rainha de Saldaea. � Com uma mesura, ela murmurou um �milorde Drag�o� apressado para Rand e saiu pisando duro, resmungando sozinha sobre os Aiel loucos.</p><p>Rand estava muito de acordo. Ele encarou primeiro Nandera, depois Aviendha e por fim Jalani. Nenhuma das tr�s parecia nem um pouco surpresa. Nenhuma parecia ter presenciado nada fora do comum.</p><p>� Querem me dizer o que est� acontecendo, pela Luz? Aquela era Sulin!</p><p>� Primeiro � come�ou Nandera �, Sulin e eu fomos at� as cozinhas. Ela achou que esfregar panelas ou coisa assim seria adequado. Mas um sujeito l� disse que j� tinha todos os ajudantes de que precisava. Ele parecia pensar que Sulin arrumaria briga com os outros. N�o era um sujeito muito alto � observou, indicando um ponto logo abaixo do queixo de Rand �, mas era grandalh�o, e acho que teria nos convidado para dan�ar as lan�as se n�o tiv�ssemos ido embora de uma vez. Ent�o fomos at� essa mulher, Reene Harfor, j� que ela parece ser a senhora deste teto. � Nandera n�o conseguiu conter uma leve careta de desprezo. Para um Aiel, n�o havia necessidade do posto de Criada-chefe: ou a mulher era senhora do teto ou n�o era. � Bem, a mulher n�o entendeu, mas pelo menos concordou. Quase achei que Sulin fosse mudar de ideia quando percebeu que Reene Harfor iria querer que ela usasse um vestido, mas claro que isso n�o aconteceu. Sulin � muito mais corajosa que eu. Preferia ser feita <emphasis>gai�shain</emphasis> por um <emphasis>Seia Doon</emphasis>.</p><p>� Eu preferia passar um ano inteiro levando surras di�rias do irm�o-primeiro do meu pior inimigo na frente da minha m�e � intrometeu-se Jalani, enf�tica.</p><p>Nandera estreitou os olhos em desaprova��o e chegou a flexionar os dedos, mas, em vez de usar a linguagem de sinais, disse, em alto e bom som:</p><p>� Voc� exagera como uma Shaido, garota.</p><p>Se Jalani fosse um pouco mais velha, aqueles tr�s insultos muito calculados poderiam ter causado problema, mas ela apenas fechou os olhos com for�a para n�o ter que olhar para as pessoas que tinham presenciado a sua humilha��o.</p><p>Rand passou a m�o nos cabelos.</p><p>� Reene n�o entendeu? Eu tamb�m n�o, Nandera. Por que � que ela est� fazendo isso? Sulin abriu m�o da lan�a? Se ela tiver se casado com um andoriano� � Coisas mais estranhas j� tinham acontecido. � Olha, se for o caso, eu dou a ela ouro suficiente para comprar uma fazenda ou seja l� o que quiserem. Sulin n�o precisa virar servi�al.</p><p>Jalani arregalou os olhos, e as tr�s mulheres o encararam como se <emphasis>ele</emphasis> fosse o louco.</p><p>� Sulin est� pagando a sua <emphasis>toh</emphasis>, Rand al�Thor � respondeu Aviendha com firmeza. Ela estava muito ereta, e seus olhos o encaravam diretamente, em uma �tima imita��o de Amys. S� que a cada dia a postura era menos imita��o e mais ela pr�pria. � Isso n�o lhe diz respeito.</p><p>Jalani meneou a cabe�a, concordando. Nandera s� ficou ali, parada, absorta, examinando a lan�a.</p><p>� Sulin � problema meu, sim � retrucou ele. � Se algo acontecer a ela�</p><p>Ele ent�o se lembrou da conversa que entreouvira antes de ir a Shadar Logoth. Nandera acusara Sulin de falar com algumas <emphasis>gai�shain</emphasis> como se fossem <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, e Sulin respondera que discutiriam aquilo depois. N�o vira Sulin desde que voltaram de Shadar Logoth, mas tinha presumido que a mulher s� estava irritada com ele e que deixara as outras na fun��o de vigi�-lo. Ah, devia ter percebido. Ficar perto de um Aiel por muito tempo ensinava bastante de <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, e as Donzelas eram as mais r�gidas no assunto, exceto talvez pelos C�es de Pedra e os Olhos Negros. Al�m disso, ainda tinha as li��es de Aviendha, em suas tentativas de transform�-lo em um Aiel.</p><p>A situa��o era simples, ou t�o simples quanto tudo o mais no <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Se n�o estivesse t�o preocupado com outras coisas, teria entendido desde o princ�pio. N�o era crime lembrar diariamente um <emphasis>gai�shain</emphasis> de sua vida antes do branco, mesmo que se tratasse de uma senhora do teto � isso provocaria uma profunda vergonha, mas era permitido e por vezes at� encorajado. No entanto, quando se tratava dos integrantes de nove das treze sociedades, trazer essa lembran�a � tona era uma desonra profunda, exceto sob um punhado de circunst�ncias das quais n�o se recordava. As <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> sem d�vida estavam entre essas sociedades. Era uma das poucas formas de incorrer em <emphasis>toh</emphasis> para com um <emphasis>gai�shain</emphasis>, mas era considerada a obriga��o mais dura a se pagar. Ao que parecia, Sulin optara por restaurar sua <emphasis>toh</emphasis> aceitando uma vergonha ainda maior � ao menos aos olhos dos Aiel � do que a que causara. A <emphasis>toh </emphasis>era dela, ent�o ela escolhia como pag�-la e quanto tempo ficaria fazendo algo que desprezava. Afinal, quem melhor do que ela pr�pria para definir o valor de sua honra ou a profundidade de sua obriga��o? Ainda assim, Sulin s� fizera o que fizera porque ele n�o lhe dera tempo suficiente.</p><p>� A culpa � minha � declarou Rand.</p><p>Foi a coisa errada a dizer. Jalani o encarou, surpresa. Aviendha corou, envergonhada � ela com frequ�ncia enfatizava que n�o havia desculpas em rela��o ao <emphasis>ji�e�toh</emphasis>; se salvar o pr�prio filho ocasionasse uma obriga��o para com um inimigo de sangue, era preciso pagar o pre�o sem titubear.</p><p>O olhar que Nandera lan�ou a Aviendha ia muito al�m do desprezo.</p><p>� Se voc� parasse de suspirar pelos cantos pelas sobrancelhas dele, essas suas li��es seriam melhores.</p><p>Aviendha corou, indignada. Nandera se virou para Jalani e fez algum coment�rio na linguagem de sinais, e a Donzela mais jovem gargalhou, o que deixou o rosto de Aviendha ainda mais vermelho, dessa vez de pura vergonha. Parte de Rand esperava que a mulher fosse chamar as outras duas para dan�ar as lan�as � bem, n�o exatamente isso, j� que Aviendha lhe ensinara que nem as S�bias e nem suas aprendizes faziam esse tipo de coisa. Mas n�o se surpreenderia se ela desse um tapa nas orelhas de Nandera.</p><p>Rand se pronunciou, querendo evitar qualquer das possibilidades.</p><p>� Como fui o respons�vel por Sulin ter feito o que fez, n�o tenho <emphasis>toh</emphasis> para com ela?</p><p>Bem, com aquilo concluiu que de fato poderia fazer um papel de idiota ainda maior do que com o coment�rio anterior. O rosto de Aviendha ficou ainda mais vermelho, sabia a Luz como, e Jalani encarou o tapete a seus p�s, de repente muito interessada nos desenhos de rosas. At� Nandera parecia um tanto constrangida com sua ignor�ncia. Ele sabia que era poss�vel algu�m ser informado de que tinha <emphasis>toh</emphasis> ou mesmo ser lembrado do caso, embora isso fosse uma esp�cie de insulto, mas ter que perguntar significava que a pessoa n�o sabia. Bem, ele sabia. Poderia come�ar ordenando que Sulin largasse aquele trabalho rid�culo de servi�al, deixar que ela pusesse outra vez o <emphasis>cadin�sor</emphasis>, e� e impedi-la de cumprir sua <emphasis>toh</emphasis>. Qualquer coisa que fizesse para suavizar o fardo de Sulin seria uma interfer�ncia na honra dela. A <emphasis>toh</emphasis> era de Sulin, ent�o a escolha tamb�m era dela. Havia algum detalhe, mas n�o conseguia entender o que seria. Talvez pudesse perguntar a Aviendha. Bem, faria isso mais tarde, quando ela n�o fosse morrer de constrangimento. Os rostos das tr�s deixavam claro que ele j� a envergonhava mais do que o suficiente com aquela conversa. Luz, que confus�o!</p><p>Enquanto pensava em uma poss�vel sa�da, percebeu que ainda segurava a carta que Sulin trouxera. Ele a enfiou no bolso e desafivelou o cintur�o, que largou sobre o Cetro do Drag�o, ent�o pegou o pergaminho de volta. Quem lhe enviaria uma mensagem por um cavaleiro que nem sequer fizera uma pausa para tomar caf� da manh�? N�o havia nada escrito do lado de fora, nenhum nome. Apenas o mensageiro, agora desaparecido, poderia ter dito para quem era endere�ada a mensagem. O selo era outro bras�o que ele n�o reconhecia, alguma flor prensada sobre uma cera roxa. O pergaminho era pesado, do tipo mais caro que havia. O conte�do, escrito em uma caligrafia fina e floreada, trouxe um sorriso pensativo a seu rosto.</p><cite><p>Primo,</p><p>Vivemos tempos delicados, mas senti que deveria escrever para assegur�-lo de minha boa vontade e expressar minha esperan�a de, em troca, tamb�m ter sua simpatia. N�o tema, eu o reconhe�o e legitimo. No entanto, h� alguns que n�o veriam com bons olhos algu�m que se aproximasse de voc� diretamente, sem primeiro passar por eles. A �nica coisa que quero de voc� � que guarde minhas confid�ncias nas chamas de seu cora��o.</p><text-author>Alliandre Maritha</text-author></cite><p>� Que sorriso � esse? � perguntou Aviendha, curiosa, espiando a carta. Ainda havia um toque de raiva nas marcas ao redor de sua boca, um resqu�cio da irrita��o pela vergonha que ele a fizera passar.</p><p>� � bom receber not�cias de algu�m t�o transparente � respondeu.</p><p>O Jogo das Casas era simples se comparado ao <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. O nome j� dizia muito sobre o remetente, mas, se o pergaminho ca�sse em m�os erradas, pareceria apenas um bilhete para um amigo ou talvez uma resposta calorosa a algum favor que lhe fora pedido. Alliandre Maritha Kigarin, Aben�oada pela Luz, Rainha de Ghealdan, jamais trataria algu�m que nunca vira com tanta intimidade, ainda mais o Drag�o Renascido. Era �bvia sua preocupa��o com os Mantos-brancos em Amad�cia, assim como com o Profeta Masema. Teria que fazer alguma coisa a respeito de Masema. Alliandre fora muito cautelosa, sem arriscar p�r mais que o necess�rio no papel. E o lembrara de queimar a carta depois de ler � <emphasis>nas chamas de seu cora��o</emphasis>. Ainda assim, era a primeira vez que um governante o reconhecia sem que ele segurasse a espada no pesco�o de sua na��o. Pois bem, se ao menos ele conseguisse encontrar Elayne e lhe devolver Andor antes que tivesse outra batalha para enfrentar naquelas terras�</p><p>A porta se abriu bem devagar, e Rand ergueu os olhos para a sala. N�o reparou em nada relevante, ent�o se voltou outra vez para a carta, ponderando se assimilara toda a mensagem. Enquanto lia, teve que esfregar o nariz, incomodado. Lews Therin e aquela hist�ria de morte. N�o conseguia se livrar daquela sensa��o de imund�cie.</p><p>� Jalani e eu vamos assumir nossas posi��es l� fora � anunciou Nandera.</p><p>Rand assentiu, absorto, contemplando a carta. Tinha certeza de que Thom encontraria seis coisas que ele deixara escapar, e s� em uma primeira leitura.</p><p>Aviendha tocou seu bra�o, mas afastou a m�o com um sobressalto.</p><p>� Rand al�Thor, precisamos conversar.</p><p>De s�bito, tudo fez sentido. Ele vira a porta se abrindo. N�o estava com aquele inc�modo no nariz porque sentia cheiro de imund�cie, n�o porque se sentia maculado. Na verdade, n�o era bem um cheiro. Deixando cair a carta, empurrou Aviendha com tanta for�a que ela perdeu o equil�brio, soltando um grito assustado � ao menos estava longe dele, longe do perigo. O tempo pareceu desacelerar. Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis> enquanto dava meia-volta.</p><p>Nandera e Jalani tamb�m se viraram para ver o que fizera Aviendha gritar. Rand teve que olhar com muita aten��o para conseguir ver o homem alto de casaco cinza que nenhuma Donzela vira passar. O homem tinha os olhos escuros e sem vida fixos em Rand. Mesmo sabendo que o intruso estava diante de si, Rand se sentiu tentado a desviar os olhos do Homem Cinza � era isso que ele era, um dos assassinos da Sombra. A carta ainda pousava no ch�o quando o Homem Cinza percebeu que Rand o avistara. O grito de Aviendha ainda ecoava, ela havia acabado de cair com for�a no ch�o. Uma faca surgiu na m�o do Homem Cinza, que manteve a l�mina abaixada e avan�ou. Quase com descaso, Rand o envolveu em espirais de Ar � uma barra de fogo incandescente e grossa feito um bra�o passou zunindo por cima de seu ombro e abriu um buraco bem no meio do peito do Homem Cinza, um buraco do tamanho de um punho. O assassino morreu sem nem reagir. A cabe�a desabou para o lado � seus olhos, t�o mortos quanto antes, ainda encaravam Rand.</p><p>Depois de morto, o poder misterioso que tornava o Homem Cinza t�o dif�cil de notar j� n�o fazia efeito. Depois de morto, o sujeito ficou t�o vis�vel quanto qualquer outra pessoa. Aviendha, ainda no ch�o, mas j� come�ando a se levantar, soltou uma exclama��o de surpresa, e Rand sentiu os arrepios que indicavam que ela abra�ara <emphasis>saidar</emphasis>. Nandera subiu o v�u, deixando escapar um grunhido surpreso, e Jalani come�ou a erguer o dela.</p><p>Rand deixou o corpo desabar, mas continuou agarrado a <emphasis>saidin </emphasis>quando se virou para Taim, parado na porta.</p><p>� Por que o matou? � perguntou para o rec�m-chegado. O Vazio era respons�vel apenas por parte da frieza em sua voz. � Eu o tinha capturado. Ele poderia ter dito alguma coisa, talvez at� revelasse quem o enviou. Ali�s, o que voc� est� fazendo aqui no meu quarto, entrando desse jeito?</p><p>Taim avan�ou at� ele em um passo muito calmo, bem � vontade. Usava um casaco preto com drag�es entrela�ados ao redor das mangas vermelhas e azuis. Aviendha se levantou depressa, empunhando a faca de cintura. Apesar de estar abra�ada a <emphasis>saidar</emphasis>, o brilho em seus olhos deixava claro que ela estava t�o inclinada a cravar a l�mina em Taim quanto a embainh�-la de volta. Nandera e Jalani continuavam veladas e estavam a postos, as lan�as em riste. Taim as ignorou. Rand sentiu quando o outro homem largou o Poder. Nem ao menos parecia preocupado com o fato de Rand ainda estar preenchido por <emphasis>saidin</emphasis>. Quando encarou o Homem Cinza morto, aquele quase sorriso t�o peculiar contorceu seus l�bios.</p><p>� Coisas hediondas, esses Sem-alma. � Qualquer outra pessoa teria se arrepiado com a vis�o, mas n�o Taim. � Abri um port�o para a sua varanda porque achei que voc� iria querer saber imediatamente.</p><p>� Algu�m andou aprendendo depressa demais? � interrompeu Rand, e Taim abriu outra vez aquele meio sorriso.</p><p>� N�o, n�o � um dos Abandonados disfar�ado. A n�o ser que tenha conseguido se disfar�ar de um garoto de pouco menos de vinte anos. O rapaz se chama Jahar Narishma, ele tem a centelha, mas ainda n�o a manifesta. A habilidade tende a se manifestar mais tarde nos homens do que nas mulheres. Voc� deveria visitar a escola. Vai ficar surpreso com as mudan�as.</p><p>Rand n�o duvidava. Jahar Narishma n�o era nem de longe um nome andoriano. Pelo que sabia, as Viagens n�o impunham limites, e parecia que Taim se arriscara a ir bem longe no recrutamento. Rand n�o disse nada, s� encarou o corpo estirado no tapete.</p><p>Taim fechou a cara, mas n�o perdeu a compostura, apenas pareceu irritado.</p><p>� Pode acreditar, eu tamb�m queria que esse a� ainda estivesse vivo. Vi o Homem Cinza e agi sem pensar, j� que a �ltima coisa que quero � voc� morto. Voc� prendeu o assassino no instante em que canalizei, mas foi tarde demais para frear o golpe.</p><p><emphasis>Tenho que mat�-lo</emphasis>, murmurou Lews Therin, e o Poder explodiu dentro de Rand. Paralisado, lutou para afastar <emphasis>saidin</emphasis> � foi uma luta dif�cil. Lews Therin tentava se agarrar � Fonte, tentava canalizar. Por fim, o Poder �nico se esvaiu aos poucos, feito �gua escoando de um balde furado.</p><p><emphasis>Por qu�?</emphasis>, inquiriu Rand. <emphasis>Por que quer ele morto? </emphasis>N�o houve resposta, apenas, ao longe, uma risada louca e um choro angustiado.</p><p>Aviendha o encarava, o rosto cheio de preocupa��o. Ela largara a faca, mas Rand ainda sentia aquele formigamento que lhe indicava que ela continuava em contato com <emphasis>saidar</emphasis>. As duas Donzelas tinham baixado os v�us depois de se certificarem de que a chegada de Taim n�o era um ataque. Mesmo atentas a Taim e ao ambiente em volta, elas trocaram um olhar constrangido � s� restava saber o motivo do constrangimento.</p><p>Rand sentou-se em uma cadeira ao lado da mesa onde estava a espada, apoiada no Cetro do Drag�o. A luta durara apenas alguns instantes, mas sentia os joelhos fracos. Lews Therin quase assumira o controle, quase agarrara <emphasis>saidin</emphasis>. Antes, na escola, ele foi capaz de fingir para si mesmo que n�o tinha notado, mas n�o conseguiria desta vez.</p><p>Se Taim percebeu alguma coisa, n�o deixou transparecer. O homem se inclinou para apanhar a carta e deu uma olhadela antes de entreg�-la a Rand, curvando-se na mais �nfima das mesuras.</p><p>Rand enfiou o pergaminho no bolso. Nada abalava Taim, nada perturbava seu equil�brio. Por que Lews Therin o queria morto?</p><p>� Considerando como voc� estava querendo ir atr�s das Aes Sedai, estou surpreso por ainda n�o ter ouvido uma sugest�o de atacar Sammael. Eu, voc� e mais alguns alunos mais fortes atacando-o l� em Illian, chegando de surpresa por um port�o. Voc� sabe que o Homem Cinza s� pode ter vindo de Sammael.</p><p>� Talvez � respondeu Taim, sem rodeios, examinando o corpo no ch�o. � Eu daria tudo para ter certeza. � Ele soava completamente sincero. � Quanto a Illian, duvido que seja simples como acabar com algumas Aes Sedai. Fico pensando no que eu faria, se estivesse no lugar de Sammael. J� teria envolvido Illian em um selo de prote��o que me apontasse qualquer homem que sequer pensasse em canalizar e reduziria at� o ch�o ao redor dele a cinzas sem nem dar tempo de o coitado piscar.</p><p>Rand tamb�m j� pensara nisso. Ningu�m defendia um lugar melhor que Sammael. Talvez a quest�o fosse apenas a loucura de Lews Therin. Talvez tamb�m a inveja. Rand tentou dizer a si mesmo que n�o estava evitando a escola porque era <emphasis>ele</emphasis> o invejoso, mas sempre sentia uma pontada estranha quando estava perto de Taim.</p><p>� Voc� j� contou a novidade. Sugiro que v� cuidar do treinamento desse tal Jahar Narishma. Treine-o bem. Pode ser que a habilidade dele seja necess�ria muito em breve.</p><p>Os olhos escuros de Taim cintilaram por um breve instante, ent�o ele baixou a cabe�a em uma leve mesura. Sem mais uma palavra, o homem agarrou <emphasis>saidin</emphasis> e abriu um port�o ali mesmo. Rand se obrigou a ficar sentado, sem canalizar, at� Taim ir embora; o port�o se afinando at� virar uma linha fulgurante. N�o podia se arriscar em mais uma luta contra Lews Therin, n�o considerando a chance de perder e come�ar a lutar contra Taim. <emphasis>Por que</emphasis> Lews Therin queria aquele homem morto? Luz, Lews parecia querer todos mortos, incluindo a si mesmo.</p><p>Tinha sido uma manh� agitada, sobretudo considerando que o c�u ainda estava come�ando a clarear. Bem, houvera mais not�cias boas do que ruins. Ele encarou o Homem Cinza estendido no tapete. A ferida decerto fora cauterizada no instante em que se abrira, mas a Senhora Harfor faria quest�o de avis�-lo se houvesse qualquer manchinha no tecido � ah, com certeza ele ficaria sabendo, mesmo que ela n�o pronunciasse uma palavra a respeito. Quanto � Mestra das Ondas do Povo do Mar� Bem, a mulher podia ir se afogar na pr�pria petul�ncia, no que lhe dizia respeito. J� tinha muito com que lidar sem <emphasis>mais uma</emphasis> mulher melindrosa.</p><p>Nandera e Jalani ainda remexiam os p�s perto da porta. Deveriam ter ido ocupar seus postos do lado de fora da porta assim que Taim partiu.</p><p>� Se as duas ainda est�o chateadas por conta do Homem Cinza, podem esquecer o assunto. S� uma idiota esperaria notar um Sem-alma sem ser por puro acaso, e nenhuma de voc�s � idiota.</p><p>� N�o � isso � retrucou Nandera, r�gida.</p><p>Jalani cerrara o maxilar com tanta for�a que era evidente que estava se esfor�ando para segurar a l�ngua.</p><p>Ent�o Rand compreendeu. As duas n�o achavam que deveriam ter percebido o Homem Cinza, mas mesmo assim sentiam a vergonha de n�o terem conseguido notar o ataque. Al�m da vergonha, havia o medo da humilha��o ainda por vir caso a not�cia de seu �fracasso� se espalhasse.</p><p>� N�o quero que ningu�m saiba que Taim esteve aqui, nem o que ele disse. O povo j� fica ansioso demais por saber que a escola fica aqui perto da cidade, as pessoas n�o precisam do medo de achar que Taim ou um dos alunos pode aparecer de repente. Acho que o melhor � n�o falarmos sobre nada do que aconteceu hoje de manh�. N�o temos como esconder um corpo, mas quero que as duas jurem que v�o apenas dizer que um homem tentou me matar e morreu por conta disso. � tudo o que eu pretendo revelar, e n�o quero que me pintem como um mentiroso.</p><p>A gratid�o em seus rostos foi surpreendente.</p><p>� Eu tenho <emphasis>toh</emphasis> � murmuraram, quase ao mesmo tempo.</p><p>Rand pigarreou de repente. N�o fora essa sua inten��o, mas pelo menos as tranquilizara. Foi ent�o que teve uma ideia para lidar com Sulin. A mulher n�o iria gostar, mas ainda estaria cumprindo sua <emphasis>toh</emphasis> � talvez ainda mais por n�o gostar. E aliviaria sua consci�ncia, pelo menos um pouco, al�m de pagar parte de sua <emphasis>toh</emphasis> para com ela.</p><p>� Agora voltem para seus postos, ou ent�o vou come�ar a achar que <emphasis>voc�s</emphasis> � que querem ficar suspirando pelas minhas sobrancelhas. � Nandera n�o tinha dito isso? Dado a entender que Aviendha estava fascinada por suas <emphasis>sobrancelhas</emphasis>? � Andem. E mandem algu�m para recolher esse sujeito daqui. � As duas sa�ram sorridentes, conversando na linguagem de sinais. Ele ficou ali, parado, ent�o segurou Aviendha pelo bra�o. � Voc� disse que precisamos conversar. Vamos ficar no quarto at� este aposento estar limpo.</p><p>Se houvesse alguma mancha, talvez Rand pudesse canalizar para limp�-la.</p><p>Aviendha se desvencilhou com um pux�o.</p><p>� N�o! L�, n�o! � Ela respirou fundo e moderou o tom, mas ainda parecia desconfiada e um tanto irritada. � Por que n�o podemos conversar aqui?</p><p>N�o havia motivo al�m do homem morto no ch�o, o que para ela parecia n�o fazer diferen�a. Aviendha o empurrou de volta para a cadeira, quase com viol�ncia, ent�o o encarou e respirou fundo antes de falar.</p><p>� O <emphasis>ji�e�toh</emphasis> � a base da sociedade Aiel, � o que <emphasis>somos</emphasis>. Hoje de manh� voc� me envergonhou at� os ossos.</p><p>Com os bra�os cruzados e encarando-o de frente, a ruiva lhe passou um serm�o sobre sua ignor�ncia e a import�ncia de encobri-la at� que ela conseguisse retificar a quest�o, depois explicou que a <emphasis>toh</emphasis> precisava ser satisfeita a qualquer custo. Ah, nessa parte ela gastou tempo.</p><p>Rand sabia que n�o era esse o assunto que a ruiva tivera em mente quando o chamou para conversar, mas estava gostando de analisar aqueles olhos � gostando mais do que deveria. Apreciando. Pouco a pouco, foi contendo o prazer de olhar nos olhos de Aviendha, ent�o esmagou a satisfa��o at� restar apenas um desejo abafado.</p><p>Achou que disfar�ara os sentimentos, mas decerto algo mudara em sua express�o. A voz de Aviendha foi morrendo, e ela ficou ali, encarando-o, a respira��o alta e entrecortada. Ent�o desviou os olhos com um esfor�o vis�vel.</p><p>� Pelo menos agora voc� entendeu � murmurou ela. � Tenho que� preciso� contanto que voc� entenda.</p><p>Ela ergueu as saias e saiu em disparada. Contornou o corpo como se n�o passasse de um arbusto em seu caminho.</p><p>Rand foi deixado para tr�s, naquela sala que por algum motivo lhe pareceu mais escura, sozinho com o corpo de um homem morto. Aquilo ca�a bem at� demais. Quando os <emphasis>gai�shain</emphasis> chegaram para recolher o corpo, encontraram Rand rindo baixinho.</p><empty-line/><p>Padan Fain estava sentado com os p�s apoiados em uma banqueta almofadada, observando a beleza da luz do sol nascente refletindo na l�mina curva da adaga que ele girava em suas m�os. N�o era suficiente ter a arma presa ao cinto; de tempos em tempos ele simplesmente precisava toc�-la. O enorme rubi no punhal reluzia com uma malevol�ncia intensa. A adaga era parte dele � ou ele era parte da adaga. A arma era parte de Aridhol, que os homens chamavam de Shadar Logoth. Por outro lado, ele tamb�m era parte de Aridhol � ou Aridhol era parte dele. Estava louco e sabia bem disso, mas n�o se importava, j� que estava louco. A luz do sol refletia no a�o, a�o mais letal do que qualquer l�mina de Thakan�dar.</p><p>Um farfalhar chamou sua aten��o e ele olhou para o Myrddraal do outro lado do c�modo, sentado, aguardando que ele terminasse. A criatura n�o tentou encar�-lo � j� fazia um bom tempo que Fain o fizera parar de tentar.</p><p>Ele tentou retornar � contempla��o da l�mina, tentou voltar a apreciar a beleza perfeita da morte perfeita, a beleza do que Aridhol j� fora e do que voltaria a ser, mas o Myrddraal quebrara sua concentra��o. Estragara tudo. Quase se levantou e matou a criatura. Os Meio-homens levavam muito tempo para morrer. Quanto tempo aquele levaria, se Fain usasse a adaga? Parecendo sentir seus pensamentos, a criatura se remexeu outra vez. N�o, melhor n�o, ela ainda podia ser �til.</p><p>De todo modo, era dif�cil permanecer concentrado por muito tempo em uma coisa s�. Exceto em Rand al�Thor, claro. Sentia o garoto, podia apontar para a dire��o em que ele estava, at� estimar a dist�ncia. Al�Thor o puxava, puxava at� doer. Algo mudara nos �ltimos tempos, a mudan�a chegara de repente, quase como se algu�m tivesse se apossado de parte de al�Thor e, no processo, tivesse tomado uma parte que o pr�prio Fain possu�a. N�o era problema. O garoto era dele.</p><p>Desejou poder sentir a dor de al�Thor � n�o conseguia acreditar que n�o tivesse ao menos lhe causado alguma dor. Por enquanto tinham sido apenas agulhadas, no m�ximo, mas uma quantidade suficiente de agulhadas acabaria por esgot�-lo. Os Mantos-brancos estavam firmes na oposi��o ao <emphasis>Drag�o Renascido</emphasis>. Fain contorceu os l�bios em um riso desdenhoso. Pouco prov�vel que Niall algum dia apoiasse al�Thor mais do que Elaida o teria apoiado, mas era melhor n�o tomar nada como certo, quando se tratava daquele garoto maldito. Bem, j� conseguira resolver a situa��o daqueles dois com o que trazia de Aridhol � talvez at� conseguisse confiar nas pr�prias m�es de novo, mas nunca confiariam em al�Thor.</p><p>A porta se abriu de repente, e o jovem Perwyn Belman irrompeu no recinto, seguido pela m�e. Nan Belman era uma mulher vistosa, embora agora fosse raro para Fain notar se uma mulher era ou n�o vistosa. Nan era uma Amiga das Trevas e achava que seus juramentos eram apenas minimamente perversos at� Padan Fain bater � sua porta. Nan achava que ele tamb�m era Amigo das Trevas, algu�m importante nos conselhos. Claro que Fain estava longe disso � estaria morto assim que um dos Escolhidos pusesse as m�os nele. O pensamento suscitou uma risadinha.</p><p>Tanto Perwyn quanto a m�e se intimidaram com a vis�o do Myrddraal, claro, mas o garoto se recomp�s primeiro, alcan�ando Fain enquanto a mulher ainda tentava recuperar o f�lego.</p><p>� Mestre Mordeth, Mestre Mordeth � chamou o garoto de casaco vermelho e branco, em uma voz esgani�ada, trocando o peso de um p� para o outro nervosamente �, trago a not�cia que o senhor queria.</p><p>Mordeth. Ent�o tinha usado esse nome? �s vezes, Fain n�o conseguia lembrar o nome que usara em determinada situa��o, n�o conseguia saber qual nome era o dele. Abriu um sorriso afetuoso, embainhando a adaga por baixo do casaco.</p><p>� E que not�cia seria essa, meu jovem?</p><p>� Algu�m tentou matar o Drag�o Renascido hoje de manh�. Um homem. O sujeito morreu, mas passou pelos Aiel e conseguiu entrar nos aposentos do Lorde Drag�o.</p><p>Fain sentiu o sorriso virar um rosnado. Algu�m tentara matar al�Thor? Al�Thor era dele! O garoto morreria pelas suas m�os, e de ningu�m mais! Mas� O assassino passara pelos Aiel e entrara nos aposentos de al�Thor?</p><p>� Um Homem Cinza! � N�o reconheceu o som rouco como sua pr�pria voz. Homens Cinza eram coisa dos Escolhidos. Ser� que nunca se livraria da interfer�ncia deles?</p><p>Toda aquela ira precisava ser extravasada ou ele iria explodir. Em um gesto quase displicente, ro�ou a m�o no rosto do garoto, que arregalou os olhos e come�ou a tremer � tremia t�o intensamente que rangia os dentes.</p><p>Fain n�o entendia muito bem aqueles truques que conseguia fazer. Talvez fosse um toque do Tenebroso, talvez de Aridhol. Come�ara l�, depois que deixara de ser apenas Padan Fain. S� sabia que agora conseguia fazer certas coisas, bastava tocar o alvo.</p><p>Nan desabou de joelhos ao lado da cadeira dele, agarrando seu casaco.</p><p>� Piedade, Mestre Mordeth � implorou, ofegante. � Por favor, tenha piedade. Ele � s� uma crian�a. Uma crian�a!</p><p>Fain a encarou, durante um instante, curioso, inclinando a cabe�a. Era mesmo uma mulher muito bonita. Plantou o p� no peito dela e a empurrou para longe, querendo espa�o para se levantar. O Myrddraal, que assistia � cena furtivamente, virou a cabe�a depressa quando viu que ele notara. Ah, o Meio-homem se lembrava muito bem de seus� truques.</p><p>Fain andou de um lado a outro. Precisava se mexer. Al�Thor tinha que cair por suas m�os. Suas! N�o dos Escolhidos. Como conseguiria feri-lo outra vez, apunhal�-lo bem no cora��o? Bem, havia aquelas garotas abestalhadas l� no Sabujo de Culain. Mas se al�Thor n�o sa�ra do lugar quando Dois Rios foi atacada, de que se importaria se Fain incendiasse a estalagem com aquelas garotinhas atrevidas dentro? Ah, o que ele tinha para usar? S� restavam alguns dos homens que tirara dos Filhos da Luz. A verdade � que aquilo fora apenas um teste � ah, o homem que conseguisse matar al�Thor naquela brincadeira teria implorado a ele para ser esfolado vivo! Ainda assim, a empreitada lhe custara alguns n�meros. S� tinha o Myrddraal, um punhado de Trollocs escondidos fora da cidade, uns poucos Amigos das Trevas reunidos em Caemlyn e a caminho de Tar Valon. Sentia al�Thor puxando, arrastando-o. Havia uma mudan�a interessante em rela��o aos Amigos das Trevas. Em teoria, n�o deveria haver nada que os distinguisse de qualquer outra pessoa, mas Fain descobrira que podia identific�-los apenas com um olhar, mesmo que a pessoa tivesse pensado apenas em prestar o juramento � Sombra. Era como se tivessem uma marca na testa.</p><p>N�o! Tinha que se concentrar. Concentrar! Clarear as ideias. Seus olhos ca�ram sobre a mulher, no ch�o, gemendo e afagando o filho. O garoto ainda balbuciava, e ela falava com ele baixinho, como se isso fosse ajudar. Fain n�o fazia ideia de como parar um de seus truques depois que j� come�ara. Depois que a coisa toda acabasse, o garoto sobreviveria, embora n�o ileso. Fain n�o se dedicara ao golpe de cora��o. Tinha que clarear as ideias. Pensar em outra coisa. Uma bela mulher. Quanto tempo fazia desde que possu�ra uma mulher?</p><p>Sorrindo, Fain a tomou pelo bra�o. Precisava afast�-la daquele garoto tolo.</p><p>� Venha comigo. � Sua voz estava diferente, mais grandiosa, sem o sotaque de Lugard. Mas ele n�o percebeu. Nunca percebia. � Tenho certeza de que voc�, pelo menos, sabe demonstrar o respeito apropriado. Se me deixar satisfeito, nenhum mal lhe acontecer�.</p><p>Por que ela resistia? Fain sabia que estava sendo charmoso. Ora, teria que machuc�-la. Era tudo culpa de al�Thor.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 29</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Fogo e Esp�rito</p></title><p>Nynaeve parou � sombra, logo em frente � Pequena Torre, secou o rosto e ent�o enfiou o len�o de volta na manga. Claro que n�o adiantou muito � o suor voltou a brotar assim que o secou �, mas queria entrar l� com a melhor apar�ncia poss�vel. Queria parecer tranquila, serena, digna� embora n�o fosse conseguir. Sentia as t�mporas latejando, e o est�mago parecia� fr�gil. Nem conseguira olhar para o caf� da manh�. Era s� efeito do calor, claro, mas sua vontade era voltar para a cama, deitar em posi��o fetal e morrer. Para completar, sua capacidade de escutar o vento a estava atormentando � aquele sol candente j� deveria estar encoberto por nuvens negras turbulentas, todas soltando rel�mpagos amea�adores.</p><p>A um olhar pouco atento, os Guardi�es descansando ali na frente n�o pareciam guardas, embora fossem. Aqueles homens lembravam os Aiel da Pedra de Tear � at� dormindo deviam parecer lobos. Um sujeito careca de rosto quadrado, mais ou menos da sua altura, mas quase t�o largo quanto alto, saiu correndo da Pequena Torre e seguiu rua abaixo, a espada presa �s costas, o cabo despontando por cima do ombro. At� mesmo Jori � Guardi�o de Morvrin � conseguia parecer perigoso.</p><p>Uno passou com seu coque, abrindo caminho a cavalo pela multid�o. Ele mal parecia registrar o calor, mesmo com a armadura de malha e placas de a�o que cobriam seu corpo do ombro para baixo. Ele girou na sela para encar�-la com o olho bom, e Nynaeve fechou a cara. Ah, Birgitte tinha falado com ele! Toda vez que o homem a via, ficava bem �bvio que ele estava esperando o pedido de cavalos. E ela estava quase pedindo � nem mesmo Elayne podia dizer que o que estavam fazendo por ali adiantava alguma coisa. Bem, na verdade ela n�o s� podia como dizia, mas estava redondamente enganada.</p><p>Uno fez uma curva e sumiu de vista, e Nynaeve suspirou. Estava tentando protelar em vez de entrar logo na Pequena Torre. Myrelle talvez estivesse l�. Secou o rosto outra vez, franzindo o cenho para a m�o enrugada. J� estava no d�cimo primeiro dia de esfrega��o de panelas, com mais vinte e nove pela frente. Vinte e nove!</p><p>Quando finalmente entrou no que j� fora o sal�o da estalagem que agora era a Pequena Torre, notou que estava um pouquinho mais fresco, o que ofereceu certo al�vio para sua dor de cabe�a. Todos tinham passado a se referir ao aposento como �sala de espera�, e ali n�o se perdera tempo com reparos. Faltavam pedras nas lareiras e o reboco esburacado deixava ripas � mostra. Areina e Nicola varriam o ch�o junto de outra novi�a, mas a limpeza n�o fazia muito efeito no assoalho castigado pelo tempo. Areina estava de cara feia, mas ela sempre parecia irritada quando precisava cumprir tarefas com as novi�as. Ora, ningu�m ficava � toa em Salidar. Na outra extremidade do sal�o, Romanda conversava com duas Aes Sedai esbeltas e bem mais velhas � seus rostos at� tinham aquele ar de idade indefinida, mas o cabelo era branco � que claramente haviam acabado de chegar, a julgar pelas finas sobrecapas que usavam. Nenhum sinal de Myrelle, o que fez Nynaeve suspirar de al�vio � a mulher a enfiava em um espeto e mandava para o fogo a cada oportunidade, depois ainda a fazia virar de um lado para o outro! Algumas Aes Sedai estavam sentadas �s mesas, todas de estilos diferentes, mas dispostas em fileiras muito retas. Estavam ocupadas com pergaminhos ou despachando ordens para Guardi�es e servi�ais, mas havia menos delas do que na primeira vez em que Nynaeve estivera l�. �quela altura, s� as Votantes e suas servi�ais ainda moravam nos andares superiores, todas as outras tinham sido remanejadas para as Aes Sedai terem um espa�o onde trabalhar. A Pequena Torre assumira as mesmas fun��es da Torre Branca e a mesm�ssima formalidade. Da primeira vez que entrou ali no sal�o, o lugar estava tomado por um burburinho, havia um ar de dilig�ncia no local, de que algo estava sendo feito � uma falsa sensa��o, no caso. Agora, o ambiente parecia envolvido em um marasmo, mas era como entrar na Torre Branca.</p><p>Nynaeve foi at� uma das mesas � mas n�o a mais pr�xima � e fez uma rever�ncia calculada.</p><p>� Perdoe a intromiss�o, Aes Sedai, mas fiquei sabendo que Siuan e Leane est�o aqui. Pode me informar onde eu as encontro?</p><p>Brendas parou de escrever e ergueu os olhos frios e escuros. Nynaeve decidira ir falar com ela em vez de com alguma mulher mais perto da porta porque Brendas era uma das poucas Aes Sedai que nunca a interrogara a respeito de Rand. Al�m disso, quando ainda era Amyrlin, Siuan apontara Brendas como uma pessoa de confian�a � aquilo n�o tinha nada a ver com a situa��o do momento, mas Nynaeve buscava pequenos consolos.</p><p>� Elas est�o com algumas Votantes, crian�a. � A voz de Brendas era feito um badalar, e t�o sem emo��o quanto o rosto p�lido. Era raro as Brancas demonstrarem qualquer emo��o, mas Brendas ia al�m: a mulher nunca externava nada.</p><p>Nynaeve conteve um suspiro irritado. Se as Votantes estivessem ouvindo os relatos dos olhos-e-ouvidos das antigas Azuis, talvez ainda levasse algumas horas para que elas fossem liberadas. Talvez ficassem l� dentro at� o fim do dia. A essa altura, Nynaeve j� estaria com a cabe�a enfiada nas panelas.</p><p>� Obrigada, Aes Sedai.</p><p>Brendas interrompeu sua mesura com um gesto.</p><p>� Theodrin fez algum progresso com voc� ontem?</p><p>� N�o, Aes Sedai.</p><p>Se sua voz saiu contida e seca, foi porque tinha motivo: Theodrin dissera que pretendia tentar tudo, e ao que parecia era tudo <emphasis>mesmo</emphasis>. Na v�spera, tinha feito Nynaeve bebericar vinho para ficar relaxada. S� que Nynaeve acabara tomando mais do que uns poucos golinhos. Ela nunca se esqueceria de ter sido carregada para o quarto cantando � cantando! � e j� ficava vermelha s� de lembrar. N�o tinha como Brendas n�o saber. Todo mundo j� devia ter ouvido a respeito. Nynaeve queria se enfiar em um buraco no ch�o.</p><p>� S� pergunto porque isso parece estar comprometendo seus estudos. Ouvi diversas irm�s comentando que voc� parou com as descobertas not�veis. Talvez o problema sejam as atividades suplementares, mas Elayne ainda consegue trazer uma novidade por dia, mesmo dando aulas e esfregando com as panelas. V�rias irm�s est�o ponderando se n�o seriam mais preparadas do que Theodrin para ajudar. Se nos revez�ssemos, se fiz�ssemos voc� se esfor�ar o dia inteiro, todos os dias, poderia acabar sendo mais proveitoso do que essas sess�es informais com algu�m que, no fim das contas, � apenas pouco mais que uma Aceita. � Tudo aquilo foi dito em um tom equilibrado e sem o menor ar acusat�rio, mas o rosto de Nynaeve ficou vermelho como se a Aes Sedai tivesse gritado com ela.</p><p>� Tenho certeza de que Theodrin em breve vai conseguir dar um jeito nisso, Aes Sedai � respondeu, quase sussurrando. � Vou me esfor�ar mais, Aes Sedai.</p><p>Curvando-se em uma rever�ncia apressada, Nynaeve tratou de dar meia-volta antes que Brendas pudesse interromp�-la outra vez. Com isso, acabou quase trombando em uma das rec�m-chegadas de cabelo branco. As duas eram t�o parecidas que poderiam ser irm�s, quase imagens espelhadas uma da outra, com ossos finos e rostos compridos de tra�os aristocr�ticos.</p><p>A quase trombada n�o passou de um leve toque, e Nynaeve at� tentou se desculpar, mas a Aes Sedai a encarou com um olhar t�o intenso que qualquer falc�o teria ficado com inveja.</p><p>� Preste aten��o por onde anda, Aceita. Na minha �poca, uma Aceita que tentasse atropelar uma Aes Sedai s� terminaria de esfregar o ch�o quando estivesse com o cabelo mais branco que o meu.</p><p>A outra tocou o bra�o da mulher irritada.</p><p>� Ah, deixe a crian�a ir, Vandene. Temos trabalho a fazer.</p><p>Vandene fungou com desd�m, mas se permitiu ser levada para fora.</p><p>Nynaeve decidiu deix�-las sa�rem na frente. Viu Sheriam surgir de uma das salas de reuni�o acompanhada de Myrelle, Morvrin e Beonin. Myrelle tamb�m a viu e fez men��o de ir em sua dire��o, mas s� conseguiu dar um passo antes de Sheriam e Morvrin a segurarem e falarem algo depressa e em voz baixa, sem nem mesmo olhar para Nynaeve. Ainda conversando, as quatro atravessaram o aposento e desapareceram por outra porta.</p><p>Nynaeve esperou at� estar do lado de fora da Pequena Torre para dar um pux�o firme e deliberado na tran�a. As Aes Sedai tinham se encontrado com as S�bias na noite anterior, e era f�cil imaginar por que as outras impediram Myrelle de falar com ela. Se Egwene finalmente tivesse ido � reuni�o na Pedra de Tear, ela n�o deveria ficar sabendo. Nynaeve al�Meara ca�ra em desgra�a. Nynaeve al�Meara estava esfregando panelas feito uma novi�a, quando poderia estar pelo menos um n�vel acima que o de Aceita. Nynaeve al�Meara n�o estava chegando a lugar nenhum com Theodrin e tinha parado de fazer aquelas descobertas maravilhosas. Nynaeve al�Meara jamais seria uma Aes Sedai. Sabia que tinha sido um erro come�ar a concentrar todo o conhecimento de Moghedien em Elayne. Sabia!</p><p>Sentia a l�ngua se contorcer com a mem�ria daquele gosto repugnante � rabo-de-gato fervida com folha-s�bia em p�. Um ant�doto que usara muitas vezes em crian�as que n�o paravam de mentir. Tudo bem que ela pr�pria sugerira us�-lo, mas ainda assim fora um erro. As Aes Sedai j� n�o falavam mais sobre suas inova��es, e sim sobre a falta delas. Aes Sedai que nunca tinham demonstrado mais que um interesse passageiro em seu bloqueio agora queriam ajudar a desfaz�-lo. N�o tinha como vencer. De um jeito ou de outro, acabaria com as Aes Sedai examinando-a da cabe�a aos p�s, de sol a sol.</p><p>Nynaeve deu um pux�o ainda mais forte na tran�a, forte o bastante para machucar, o que, considerando a dor que j� sentia, n�o fez nada para melhorar seu humor. Um soldado de elmo achatado, usando o gib�o acolchoado comum dos arqueiros, diminuiu o passo para encar�-la com curiosidade, mas ela retribuiu a encarada com um olhar t�o maligno que ele trope�ou nos pr�prios p�s e tratou de sumir na multid�o. <emphasis>Por que</emphasis> Elayne era t�o teimosa?</p><p>Sentiu m�os masculinas apertarem seus ombros, ent�o deu a volta j� soltando improp�rios, preparando-se para arrancar a cabe�a do sujeito. Mas as palavras morreram ainda na l�ngua.</p><p>Thom Merrilin sorria para ela por baixo daquele bigode branco comprido, os olhos azuis penetrantes brilhando no rosto cheio de marcas.</p><p>� Pela sua cara, Nynaeve, quase daria para pensar que voc� est� zangada, mas sei que seu temperamento � t�o doce que as pessoas chegam at� a lhe pedir para enfiar o dedo no ch� delas.</p><p>Juilin Sandar estava logo ao lado, um homem esguio que parecia entalhado em madeira escura escorado em um cajado de bambu da grossura de um polegar. Juilin era taireno, n�o taraboniano, mas mesmo assim usava aquele rid�culo chap�u vermelho c�nico de topo achatado, que estava ainda mais esfarrapado do que na �ltima vez que o vira. Juilin tirou o chap�u ao reparar no olhar de Nynaeve. Os homens estavam empoeirados e pareciam cansados da viagem, com rostos muito magros e abatidos � bem, na verdade nenhum deles jamais fora muito rechonchudo ou corpulento, para in�cio de conversa. Ambos pareciam ter passado todas aquelas semanas desde que deixaram Salidar usando as mesmas roupas, desmontando das selas apenas para dormir.</p><p>Antes que Nynaeve pudesse abrir a boca, foram atingidos por uma avalanche humana. Elayne se jogou sobre Thom com tanta for�a que o velho cambaleou. Claro que o menestrel � que ainda mancava discretamente � passou as m�os debaixo dos bra�os da jovem e a ergueu e rodopiou em c�rculos feito uma crian�a. O velho estava gargalhando quando devolveu a garota ao ch�o, e Elayne tamb�m. A Filha-herdeira ent�o puxou o bigode de Thom, e ambos apenas gargalharam ainda mais. Thom examinou as m�os da jovem, t�o acabadas quanto as de Nynaeve, e perguntou em que tipo de problema ela conseguira se meter sem ele ali por perto para mant�-la na linha. Elayne respondeu que n�o precisava de ningu�m lhe dizendo o que fazer, mas estragou a reprimenda ao ficar com as bochechas coradas, dar risadinhas e mordiscar o l�bio.</p><p>Nynaeve respirou fundo. �s vezes, aqueles dois levavam a brincadeira de pai e filha um pouco longe demais. �s vezes, Elayne parecia pensar que tinha dez anos, e Thom parecia concordar com a garota.</p><p>� Achei que voc� tinha que dar aula para as novi�as hoje de manh�, Elayne.</p><p>A Filha-herdeira a encarou de soslaio, ent�o se recomp�s. A tentativa de manter a compostura acabou chegando tarde demais, e ela teve que se contentar em endireitar o vestido listrado.</p><p>� Pedi a Calindin que me substitu�sse � respondeu, em um tom casual. � Achei que seria melhor lhe fazer companhia. E que bom que fiz isso � acrescentou, sorrindo para Thom. � Agora vamos poder ouvir tudo o que voc�s descobriram em Amad�cia.</p><p>Nynaeve fungou com desd�m. Companhia? Ora essa. N�o se lembrava de tudo o que acontecera na v�spera, mas ainda tinha bem fresca a mem�ria de Elayne gargalhando enquanto tirava sua roupa e a botava para dormir antes que o sol j� tivesse sumido no c�u. E tinha certeza de que se recordava de ouvi-la perguntando se ela queria um balde de �gua para esfriar a cabe�a.</p><p>Thom n�o percebeu nada. Os homens eram quase todos cegos, embora ele fosse mais esperto que a m�dia.</p><p>� Precisamos ser r�pidos � afirmou o velho menestrel. � Agora que Sheriam j� nos espremeu, pretende nos obrigar a ir falar pessoalmente com algumas Votantes. Por sorte, isso simplifica as coisas. N�o tem Mantos-brancos o suficiente ao longo do Eldar para impedir sequer um rato de cruzar o rio, mesmo se esse rato tivesse tambores e trompetes para anunciar sua passagem com um dia de anteced�ncia. Tirando o forte contingente na fronteira taraboniana e os homens que Niall colocou para tentar conter o Profeta, l� no norte, o tal Comandante dos Filhos parece estar reunindo todos os Mantos-brancos restantes em torno de Amad�cia. E Ailron tamb�m est� juntando seus soldados. J� tinha come�ado a aparecer conversa sobre Salidar nas ruas antes de irmos embora, mas, se Niall chegou a pensar na cidade, n�o encontrei nenhum ind�cio disso.</p><p>� Tarabon � resmungou Juilin, analisando o chap�u. � Ouvi dizer que � um pa�s muito perigoso para quem n�o sabe se cuidar.</p><p>Nynaeve n�o tinha certeza de qual dos dois era mais dissimulado, mas estava certa de que ambos eram perfeitamente capazes de mentiras t�o deslavadas que deixariam um mercador de l� verde de inveja. E tamb�m n�o tinha d�vidas de que estavam escondendo alguma coisa.</p><p>Elayne percebeu na hora. Agarrando Thom pela lapela, ela ergueu os olhos e o encarou.</p><p>� Voc�s ouviram alguma coisa sobre minha m�e � afirmou, calma. N�o era uma pergunta.</p><p>Thom cofiou o bigode.</p><p>� Tem centenas de boatos em cada rua de Amad�cia, crian�a, cada um mais louco que o outro. � Seu rosto curtido e cheio de rugas era pura inoc�ncia e franqueza, mas aquele homem perdera a inoc�ncia logo ao nascer. � Dizem que a Torre Branca inteira est� aqui em Salidar, com dez mil Guardi�es prontos para cruzar o Eldar. E que as Aes Sedai est�o no controle de Tanchico, que Rand tem asas e sai voando por a� � noite e�</p><p>� Thom � interrompeu Elayne.</p><p>O menestrel bufou, olhando de Juilin para Nynaeve como se aquilo fosse culpa deles.</p><p>� � s� um boato, crian�a, t�o louco quanto qualquer outro. N�o consegui confirmar nada, e pode acreditar que tentei. N�o queria nem mencionar. S� vai lhe trazer sofrimento. Deixe estar, crian�a.</p><p>� Thom. � A voz de Elayne saiu bem mais firme dessa vez.</p><p>Juilin remexeu os p�s, parecendo querer estar em outro lugar. Thom s� parecia emburrado.</p><p>� Bem, se voc� faz quest�o� Ao que parece, todo mundo em Amad�cia acha que sua m�e est� na Fortaleza da Luz e que ela vai liderar um ex�rcito de Mantos-brancos de volta a Andor.</p><p>Elayne balan�ou a cabe�a e soltou uma risada baixa.</p><p>� Ah, Thom, acha que eu me preocuparia com esse tipo de coisa? Mam�e nunca pediria ajuda aos Mantos-brancos. Eu at� preferia que fosse o caso. Queria que ela estivesse viva para isso. Esse neg�cio de levar soldados estrangeiros para Andor, ainda mais Mantos-brancos, � uma afronta a tudo o que ela me ensinou, mas ainda assim eu gostaria que fosse verdade. Bem, se desejar adiantasse de alguma coisa� � Ela abriu um sorriso triste, mas de uma tristeza contida. � J� respeitei meu tempo de luto, Thom. Minha m�e morreu, e agora tenho que fazer meu melhor para ser digna de suced�-la. Ela jamais teria ido atr�s da verdade em boatos rid�culos, nem ficaria chorando pelos cantos.</p><p>� Crian�a � interveio Thom, meio sem jeito.</p><p>Nynaeve se perguntou o que o menestrel sentia a respeito da morte de Morgase, se � que sentia alguma coisa. Pareia dif�cil de acreditar, mas Thom j� fora amante de Morgase quando a rainha era jovem e Elayne mal passava de uma beb�. Naquela �poca, ele n�o devia parecer um pano deixado por tempo demais ao sol para secar. N�o sabia muito sobre como e por que tudo acabara, s� que ele tinha ido embora de Caemlyn de fininho, com um mandado de pris�o nos calcanhares. N�o era um amor para se contar em hist�rias. Ele no momento s� parecia preocupado em saber se Elayne estava falando a verdade ou escondendo sua m�goa. Ele deu alguns tapinhas no ombro da jovem e afagou seu cabelo. Se Nynaeve n�o quisesse tanto que eles brigassem como pessoas normais pelo menos uma vez, teria achado a cena muito bonita.</p><p>Algu�m pigarreou, interrompendo-os.</p><p>� Mestre Merrilin? � chamou Tabiya, abrindo o vestido branco em uma mesura ligeira. � Mestre Sandar? Sheriam Sedai manda informar que as Votantes est�o prontas para receber os dois. E acrescenta que os senhores ainda n�o podem sair da Pequena Torre.</p><p>� Pequena Torre, �? � indagou Thom, seco, examinando a antiga estalagem. � Elas n�o podem nos prender l� para sempre, Elayne. Quando terminarmos, n�s dois vamos conversar sobre� sobre o que voc� quiser.</p><p>O menestrel gesticulou para Tabiya ir na frente e marchou estalagem adentro, o coxear bem n�tido era prova de como estava cansado. Juilin endireitou os ombros e o seguiu; parecia andar para a forca. Era mesmo taireno.</p><p>Nynaeve e Elayne ficaram ali, paradas, sem olhar uma para a outra.</p><p>Por fim, Nynaeve falou:</p><p>� Eu n�o estava�</p><p>Ao mesmo tempo, Elayne disse:</p><p>� Eu n�o deveria�</p><p>As duas pararam de falar ao mesmo tempo, enrubescendo e endireitando as saias.</p><p>� Est� quente demais para ficar aqui � opinou Nynaeve, por fim.</p><p>N�o era muito prov�vel que as Votantes ocupadas com os relatos de Siuan e Leane fossem parar para ouvir Thom e Juilin. Elas sempre dividiam esse tipo de trabalho. S� restava Logain, mesmo Nynaeve preferindo que n�o fosse o caso. N�o descobriria nada novo. Bem, era melhor do que ficar sem fazer nada at� aparecerem dez Aes Sedai despejando suas tarefas sobre ela.</p><p>Com um suspiro, foi avan�ando rua abaixo. Elayne a acompanhou, como se tivesse sido convidada, o que ajudou Nynaeve a encontrar a raiva necess�ria. De repente, reparou que os pulsos de Elayne estavam desnudos.</p><p>� Onde est� o bracelete? � perguntou, baixinho. Ningu�m na rua entenderia, se escutasse, mas bastava abrir m�o da cautela uma vez para come�ar a deix�-la de lado sempre. � Onde est� Marigan?</p><p>� Est� na minha bolsinha, Nynaeve. � Elayne se afastou, abrindo passagem para uma carro�a de roda grande, ent�o se aproximou de volta. � Marigan est� lavando roupa junto com vinte outras mulheres. E gemendo a cada vez que se move. Ela fez um coment�rio que achou que Birgitte n�o fosse ouvir, e Birgitte� Olha, eu <emphasis>tive</emphasis> que tirar aquele tro�o, Nynaeve. Birgitte estava com a raz�o, e <emphasis>doeu</emphasis>. Eu disse para Marigan falar que tinha ca�do da escada.</p><p>Nynaeve fungou com reprova��o, mas n�o estava realmente contrariada. N�o havia usado muito o bracelete nos �ltimos tempos, e n�o porque n�o pudesse mais apresentar como suas as descobertas que conseguisse arrancar da Abandonada. Ainda tinha certeza de que Moghedien sabia <emphasis>alguma coisa</emphasis> a respeito da Cura, mesmo que nem ela pr�pria percebesse � ningu�m podia ser t�o cego �, e ainda havia o truque de detectar a canaliza��o de um homem, coisa que Moghedien sempre dizia que as duas estavam quase aprendendo. A verdade era que estava com medo de fazer coisa pior do que Birgitte, caso tivesse mais contato al�m do absolutamente necess�rio com a Abandonada. Talvez fosse porque a mulher sempre parecesse ligeiramente satisfeita, mesmo quando reclamava da dor gerada pelas tentativas de Nynaeve de dominar a arte da detec��o. Talvez fosse a lembran�a de qu�o assustada se sentira quando ficara sozinha com a mulher sem o bracelete. Talvez fosse um desgosto crescente por ter que evitar que uma Abandonada fosse a julgamento. Talvez fosse um pouco de tudo isso. O que sabia era que, ultimamente, precisava se obrigar a colocar o bracelete, e mal podia conter a vontade de socar o rosto de Moghedien sempre que a via.</p><p>� Eu n�o deveria ter rido de voc� � declarou Elayne. � Pe�o desculpas.</p><p>Nynaeve parou de andar t�o de repente que um cavaleiro atr�s delas precisou puxar as r�deas para n�o a atropelar. O homem ainda deu uns berros antes de sumir na multid�o, mas o choque abafou tanto suas palavras que n�o havia possibilidade de serem ouvidas. N�o era um choque pelo pedido de desculpas. Era pelo que precisava dizer. Pois era o certo a se dizer. Era verdade.</p><p>Incapaz de olhar para Elayne, Nynaeve retomou a caminhada.</p><p>� Voc� tinha todo o direito de rir. Eu� � Ela engoliu em seco. � Eu � que fiz papel de idiota. � E fizera, mesmo. Theodrin a mandara tomar s� uns goles, um copo, e ela bebera cada gota do c�ntaro. Se era para fracassar, melhor n�o ser por falta de tentativa. � Voc� devia ter pegado aquele balde e enfiado minha cabe�a dentro da �gua at� eu conseguir recitar �A Grande Ca�ada � Trombeta� sem errar.</p><p>Ela arriscou uma olhada de rabo de olho. Elayne ainda tinha pequenos pontinhos vermelhos nas bochechas. Ah, ent�o houvera mesmo aquela sugest�o do balde.</p><p>� Poderia ter acontecido com qualquer um � rebateu a Filha-herdeira.</p><p>Nynaeve sentiu as pr�prias bochechas esquentarem. Quando acontecera com Elayne, Nynaeve tinha ensopado a cabe�a da garota para tirar o efeito do vinho.</p><p>� Voc� devia ter feito o que fosse preciso para� me deixar s�bria.</p><p>Aquela era a discuss�o mais inusitada que conseguia se lembrar entre elas duas: enquanto insistia que agira como uma completa idiota e que merecia sofrer as consequ�ncias de suas a��es, Elayne dava uma desculpa atr�s da outra para justificar seu comportamento. Nynaeve n�o entendia por que assumir toda a culpa era t�o revigorante, n�o se lembrava de jamais ter feito coisa parecida, sempre se esquivava at� onde podia. Quase se irritou com Elayne, por n�o concordar que ela tinha agido como uma tonta infantil. A discuss�o perdurou at� as duas chegarem � casinha de palha na extremidade da aldeia onde Logain estava sendo mantido.</p><p>� Se voc� n�o parar com isso � afirmou Elayne, por fim �, juro que vou buscar um balde d��gua agora mesmo.</p><p>Nynaeve abriu a boca, ent�o a fechou. Mesmo com a euforia de ter admitido que estava errada, aquilo j� era um pouco demais. N�o poderia encarar Logain sentindo-se t�o bem daquele jeito. Bem, sentindo-se bem daquele jeito qualquer coisa seria in�til sem Moghedien e o bracelete que definitivamente se sentia bem demais para colocar. Deu uma olhada nos dois Guardi�es que montavam guarda ao lado da porta de batente de pedra. N�o estavam perto o bastante para ouvir, mas mesmo assim baixou a voz.</p><p>� Vamos, Elayne. Hoje � noite. � Com Thom e Juilin em Salidar, n�o haveria necessidade de pedir a Uno que encontrasse cavalos. � N�o precisamos ir para Caemlyn, se voc� n�o quiser. Vamos para Ebou Dar. Merilille nunca vai encontrar aquela tigela, e Sheriam n�o vai deixar a gente ir procurar. Que tal? Hoje � noite?</p><p>� N�o, Nynaeve. Que bem faremos a Rand se as Aes Sedai nos considerarem duas fugitivas? E � isso que ser�amos. Voc� prometeu, Nynaeve. Voc� prometeu ficar se encontr�ssemos alguma coisa.</p><p>� Prometi ficar se encontr�ssemos alguma coisa �til. S� encontramos isto! � exclamou, esticando os bra�os e abrindo as m�os enrugadas debaixo do nariz da Filha-herdeira.</p><p>A firmeza sumiu do rosto e da voz de Elayne. A jovem comprimiu os l�bios e encarou o ch�o.</p><p>� Nynaeve, voc� sabe que eu disse para Birgitte que ir�amos ficar. Bem, parece que ela contou a Uno que n�o era para ele arranjar nenhum cavalo a voc� sob nenhuma circunst�ncia, a menos que ela mandasse. E falou que voc� estava pensando em fugir. S� descobri quando j� era tarde demais. � Ela balan�ou a cabe�a, irritada. � Se ter um Guardi�o � assim, ent�o n�o sei como algu�m poderia querer um.</p><p>Nynaeve achou que os olhos fossem saltar das �rbitas de tanta indigna��o. Ent�o era por isso que Uno ficava olhando para ela. A euforia sumiu, se dissipando em um calor que� bem, era parte raiva, parte humilha��o. O homem <emphasis>sabia</emphasis> e achava que ela� Ora, vejam s�. Franziu o cenho para Elayne, ent�o decidiu n�o fazer a pergunta que lhe viera � mente: ser� que Birgitte s� alertara a Uno sobre ela ou o nome de Elayne estava inclu�do? Que bela fam�lia adotiva a Filha-herdeira encontrara. Thom, um pai indulgente que queria lhe ensinar tudo o que sabia, e Birgitte, uma irm� mais velha que achava que era seu papel evitar que a garota quebrasse o pesco�o montando em cavalos que ainda n�o sabia controlar.</p><p>� Se � assim � disse, indiferente �, vamos ver o que consigo descobrir com Logain.</p><p>Era uma casa pequena, de apenas dois c�modos, mas as grossas paredes de pedra deixavam o ambiente relativamente fresco. Logain estava de camisa, fumando um cachimbo e lendo junto a uma janela. As Aes Sedai estavam cuidando bem dele: as poltronas e as mesas eram t�o boas quanto qualquer outra em Salidar � nada muito grandioso, mas tudo bem-feito, mesmo sem combinar com qualquer outra pe�a da mob�lia �, e um tapete vermelho e dourado cheio de volutas cobria quase todo o piso, que havia sido t�o bem varrido que Nynaeve duvidou de que Logain � que tivesse dado conta da limpeza.</p><p>Quando entraram, Logain baixou o livro sem parecer incomodado por elas n�o terem batido � porta. Ele se levantou devagar, esvaziou o cachimbo, vestiu o casaco e s� ent�o curvou a perna em uma rever�ncia delicada.</p><p>� � bom ver voc�s de novo depois de tanto tempo. Achei que tivessem se esquecido de mim. Que tal um pouco de vinho? As Aes Sedai s� me permitem uma quantidade limitada, mas n�o � de m� qualidade.</p><p>A oferta de vinho j� bastou, e Nynaeve por pouco n�o se encolheu toda � ora, como se precisasse de mais bebida. Considerando o que descobrira de Uno, s� o fato de estar diante de um homem j� era o bastante. N�o precisava alimentar a raiva com seus sentimentos sobre a Pequena Torre, mas pensar neles ajudou um pouco. A Fonte Verdadeira de repente estava ali, um calor invis�vel quase � vista. Ela se abriu e <emphasis>saidar</emphasis> a inundou. Se o que tinha sentido antes era euforia, aquilo era mais que um �xtase � <emphasis>estava</emphasis> se rendendo, e que a Luz queimasse Theodrin!</p><p>� Sente-se � mandou, fria. � N�o vim jogar conversa fora. Responda o que lhe for perguntado. Do contr�rio, fique de boca fechada.</p><p>Logain simplesmente deu de ombros e obedeceu, d�cil feito um c�ozinho � n�o, n�o era docilidade: aquele sorriso era pura insol�ncia. Parte era causada pelo que sentia a respeito das Aes Sedai, Nynaeve tinha certeza, mas outra parte� O homem ficou olhando enquanto Elayne se sentava em outra poltrona, ajustando as saias com movimentos meticulosos. Mesmo que Nynaeve n�o tivesse visto para onde ele estava olhando, saberia que era para uma mulher. N�o havia nenhum sorrisinho, nenhum olhar lascivo, s� Nynaeve n�o sabia o qu�, s� sabia que Logain lhe dirigiu o mesmo olhar. De repente, teve total consci�ncia de que era mulher e que ele era homem. Talvez fosse s� por ele ser todo bonit�o e de ombros largos, mas gostava de pensar que estava acima disso. Claro que n�o era a apar�ncia dele.</p><p>Ela pigarreou e teceu filamentos de <emphasis>saidar</emphasis> em volta dele � Ar, �gua, Fogo, Terra e Esp�rito. Todos os elementos da Cura, mas os utilizaria para uma sondagem. Ajudaria se o tocasse, mas n�o conseguiu se obrigar a faz�-lo. J� era ruim o bastante ter que toc�-lo com o Poder. O homem estava saud�vel feito um touro e quase t�o forte quanto um. N�o havia nem um pelo errado com ele, exceto o buraco.</p><p>N�o era bem um buraco, era mais a sensa��o de que algo que parecia cont�nuo acabava de repente, que o que parecia suave e direto estava, na verdade, margeando uma aus�ncia. Conhecia bem aquela sensa��o, estudara aquilo com muita aten��o nos primeiros dias, quando achava que poderia aprender alguma coisa. Ainda lhe dava calafrios.</p><p>Logain ergueu os olhos e os fixou nela. Nynaeve n�o se lembrava de ter se aproximado tanto. O rosto dele era uma m�scara do mais puro desd�m. Ela podia n�o ser Aes Sedai, mas estava bem perto disso.</p><p>� Como voc� conseguiu fazer aquilo tudo de uma vez? � indagou Elayne. � N�o consegui acompanhar nem metade.</p><p>� Sil�ncio � murmurou Nynaeve. Disfar�ando o esfor�o que teve que fazer para toc�-lo, agarrou a cabe�a de Logain com for�a. Sim. Contato f�sico facilitava as coisas, as impress�es ficavam mais n�tidas.</p><p>Direcionou todo o fluxo de <emphasis>saidar</emphasis> para onde o buraco deveria estar� e quase se surpreendeu ao se deparar com um vazio. Como sempre, n�o esperava descobrir nada. Homens eram t�o diferentes de mulheres no que dizia respeito ao Poder quanto na parte de carne e osso, talvez at� mais. Era como estudar uma pedra querendo descobrir mais sobre os peixes. Era dif�cil se manter concentrada no que estava fazendo, sabendo que sua presen�a ali era uma formalidade, que estava passando o tempo, por assim dizer.</p><p><emphasis>O que Myrelle vai dizer? Ser� que n�o passaria adiante uma mensagem de Egwene?</emphasis> Aquele vazio, t�o pequeno que poderia at� ser desconsiderado, se mostrou enorme e vasto assim que permitiu que os fluxos o penetrassem, imenso o bastante para engolir a todos. <emphasis>Se ao menos eu tivesse como falar com Egwene� Aposto que assim que ela souber que a Torre est� mandando uma miss�o diplom�tica atr�s de Rand e que as Aes Sedai daqui est�o de bra�os cruzados, ela vai me ajudar a convencer Elayne de que j� fizemos tudo o que pod�amos por aqui.</emphasis> Um vasto vazio, um nada. Lembrou-se do que encontrara em Siuan e Leane, aquela sensa��o de algo rompido. Tinha certeza de que era real, mesmo que a sensa��o fosse fraca. Homens e mulheres podiam at� ser diferentes, mas talvez� <emphasis>S� preciso dar um jeito de falar com ela. Egwene vai concordar que Rand estaria melhor com a gente por perto. E Elayne vai dar ouvidos a ela, j� que acha que Egwene conhece Rand melhor que ningu�m.</emphasis> L� estava. Algo rompido. Era s� uma impress�o, mas era a mesma com Siuan e Leane. <emphasis>Mas como vou me encontrar com ela? Ah, se Egwene pudesse aparecer em nossos sonhos outra vez� Aposto que consigo convenc�-la a vir se juntar a n�s. N�s tr�s nos sair�amos bem melhor com Rand. Juntas, poder�amos contar a ele o que aprendemos em </emphasis>Tel�aran�rhiod<emphasis>, evitar que ele cometa algum erro ing�nuo com aquelas Aes Sedai. Ela vai concordar.</emphasis> Havia algo naquele rompimento� Se fosse remendado com Fogo e Esp�rito, talvez�</p><p>Foi o ligeiro arregalar dos olhos de Logain que comprovou o que ela acabara de fazer. Nynaeve sentiu a respira��o ficar presa na garganta. Afastou-se dele t�o r�pido que trope�ou na pr�pria saia.</p><p>� Nynaeve � chamou Elayne, se endireitando �, qual � o prob�?</p><p>Nynaeve piscou, agarrou toda a <emphasis>saidar</emphasis> que conseguia canalizar e o blindou.</p><p>� V� buscar Sheriam � mandou, quase atropelando as palavras. � Mais ningu�m, s� Sheriam. Diga a ela� � Nynaeve respirou t�o fundo que pareceu que era o primeiro ar em seu pulm�o em horas. Seu cora��o estava t�o acelerado que batia mais r�pido que cavalos a galope. � Diga a ela que Curei Logain.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 30</p><p><image l:href="#18"/></p><p>Curar de novo</p></title><p>Nynaeve sentiu algo empurrar a blindagem que tecera entre Logain e a Fonte Verdadeira, uma press�o que foi se intensificando at� a tessitura come�ar a se curvar e a tremer, chegando quase a ponto de se romper. Deixou que <emphasis>saidar</emphasis> percorresse seu corpo, a do�ura atingindo o limiar da dor, e canalizou cada fio em Esp�rito para a barreira.</p><p>� Anda logo, Elayne! � N�o se incomodou nem um pouco por a voz ter sa�do t�o aguda.</p><p>Elayne, que a Luz sempre brilhasse sobre ela, n�o perdeu tempo com perguntas. A garota se levantou de um pulo e saiu correndo na mesma hora.</p><p>Logain n�o movera um �nico m�sculo. Estava com os olhos � que pareciam brilhar � fixos nos de Nynaeve. Luz, o homem era grande, de ombros extremamente largos. Toda atrapalhada, Nynaeve tentou pegar a faca no cinto, ent�o percebeu como estava sendo rid�cula. Ele provavelmente conseguiria desarm�-la sem suar nem uma gota a mais do que j� estava. Ela desviou alguns dos fluxos para Ar, criando elos que o deixaram preso exatamente onde estava, ainda sentado, amarrado pelos bra�os e pelas pernas. Logain continuava sendo grande, mas de repente pareceu mais normal e menos amea�ador. S� ent�o lhe ocorreu que diminu�ra a for�a da barreira � bem, n�o conseguiria canalizar nem mais um fio de cabelo. A pura alegria que era <emphasis>saidar</emphasis> j� era t�o intensa em seu corpo que ela quase quis chorar. Logain sorriu.</p><p>Um dos Guardi�es meteu a cabe�a porta adentro, um homem de cabelo escuro com nariz pronunciado e uma cicatriz branca profunda ao longo do queixo magro.</p><p>� Alguma coisa errada? A outra Aceita saiu correndo como se tivesse sentado numa urtiga.</p><p>� Est� tudo absolutamente sob controle � respondeu Nynaeve, com a voz tranquila. Ou ao menos o mais tranquila que conseguiu. <emphasis>Ningu�m pode saber, ningu�m!</emphasis> N�o at� que tivesse a chance de conversar com Sheriam, de trazer a mulher para seu lado. � Elayne esqueceu uma coisa e foi buscar. � A desculpa soou esfarrapada. � Pode sair. Estou ocupada.</p><p>Tervail � era o nome dele, Tervail Dura, Guardi�o de Beonin. Luz, por que estava preocupada com o nome dele? Antes de se retirar, Tervail abriu um sorriso ir�nico e fez uma rever�ncia zombeteira. Os Guardi�es n�o deixavam as Aceitas agirem como Aes Sedai.</p><p>Precisou de um esfor�o consider�vel para evitar umedecer os l�bios. Analisou Logain. Por fora, o homem estava calmo, como se nada tivesse mudado.</p><p>� N�o h� necessidade disso, Nynaeve. Acha que eu vou atacar uma aldeia com centenas de Aes Sedai? Elas fariam picadinho de mim antes que eu desse dois passos.</p><p>� Fique quieto � retrucou ela, sem nem pensar. Muito atrapalhada, encontrou uma cadeira atr�s de si e, sem nunca tirar os olhos dele, se sentou. Luz, por que Sheriam estava demorando tanto? Ela precisava entender que tinha sido um acidente. A raiva de si pr�pria era a �nica coisa que a mantinha canalizando. Como pudera ser t�o descuidada, uma idiota cega?</p><p>� N�o tenha medo � insistiu Logain. � N�o vou me voltar contra elas, n�o a esta altura. Elas est�o fazendo exatamente o que eu queria, mesmo que n�o percebam. A Ajah Vermelha acabou. Daqui a um ano, n�o haver� nenhuma Aes Sedai que ouse admitir que � Vermelha.</p><p>� Eu mandei voc� ficar quieto! � ralhou Nynaeve. � Acha que acredito que voc� s� odeia as Vermelhas?</p><p>� Olha, j� vi um homem que vai causar mais problemas do que eu j� causei. Talvez seja o Drag�o Renascido, n�o sei. Foi quando atravessaram Caemlyn comigo, depois que fui capturado. Ele estava longe, mas eu vi um� um brilho. Foi quando soube que ele iria abalar o mundo. Enjaulado como eu estava, n�o tive como n�o rir.</p><p>Nynaeve moveu parte do fluxo de Ar que o mantinha preso e o for�ou entre as mand�bulas de Logain como uma morda�a. Seu rosto assumiu uma express�o raivosa e sombria, mas a emo��o se dissipou quase imediatamente. Nynaeve nem se importou. Conseguira det�-lo. Pelo menos� Logain n�o tentara resistir, nem um pouco, mas talvez fosse porque soubera desde o princ�pio que seria in�til. Talvez. Mas com que for�a ele tentara romper a barreira? A press�o que ela havia sentido contra a blindagem n�o fora lenta, mas tamb�m n�o fora r�pida. Fora quase como um homem alongando m�sculos h� muito n�o utilizados, empurrando algo sem querer de fato mov�-lo, apenas pela necessidade de exercitar os m�sculos. S� de pensar nisso seu est�mago foi tomado por gelo.</p><p>Os olhos de Logain brilhavam, divertidos, quase como se o homem soubesse tudo o que havia se passado pela cabe�a dela, o que s� deixou Nynaeve ainda mais irritada. Logain estava com a boca escancarada feito um idiota, preso e blindado, mas <emphasis>ele</emphasis> estava tranquilo. Como pudera ser t�o tola? Nynaeve n�o estava apta a ser Aes Sedai, n�o se sua barreira desmoronasse naquele instante. N�o estava apta para ser deixada sozinha. Melhor dizerem a Birgitte para ficar de olho nela, antes que ca�sse de cara no ch�o ao tentar atravessar a rua.</p><p>N�o foi intencional, mas ficar criticando a si mesma manteve a raiva borbulhando at� a porta se escancarar. N�o era Elayne.</p><p>Sheriam entrou logo depois de Romanda, com Myrelle, Morvrin e Takima seguindo de perto, depois entraram Lelaine, Janya, Delana, Bharatine e Beonin. Ent�o vieram outras, aglomerando-se at� lotarem o aposento. Nynaeve conseguia ver outras mulheres do outro lado da porta, que n�o tinha espa�o para ser fechada. As que estavam l� dentro a encaravam, analisando tamb�m a tessitura. Estavam t�o compenetradas que ela engoliu em seco, e toda a raiva cultivada com tanto cuidado se desfez. E, claro, desfizeram-se tamb�m a barreira e os elos que prendiam Logain.</p><p>Antes que Nynaeve pudesse pedir a outra pessoa que o blindasse, Nisao se plantou diante dela. Mesmo baixinha como era, a mulher conseguiu se assomar diante dela.</p><p>� Ent�o que hist�ria � essa de voc� ter Curado este homem?</p><p>� Foi isso mesmo que ela disse que fez? � Logain at� conseguiu parecer surpreso.</p><p>Varilin se aproximou e parou ao lado de Nisao. A Cinza esbelta era t�o alta quanto Logain e se assomava acima de Nynaeve.</p><p>� Era isso que eu temia quando todo mundo come�ou a afag�-la por conta das descobertas. Assim que as novidades se esgotaram, os afagos cessaram. Claro que ela tentaria alguma maluquice para recuper�-los.</p><p>� � nisso que d� deixar a garota ficar <emphasis>estudando</emphasis> Siuan e Leane � interveio Romanda, firme. � E este sujeito. Deveriam ter dito a ela de uma vez que certas coisas n�o podem ser Curadas e ponto final!</p><p>� Mas eu Curei! � protestou Nynaeve. � Eu Curei! Por favor, blindem Logain. Voc�s precisam blind�-lo, por favor!</p><p>As Aes Sedai diante dela se viraram para Logain, abrindo o m�nimo de espa�o de que ela precisava para tamb�m olh�-lo. O desgra�ado devolveu os olhares com uma express�o inocente. Chegou at� a dar de ombros!</p><p>� Acho que o m�nimo que podemos fazer � mant�-lo blindado at� termos certeza absoluta � sugeriu Sheriam.</p><p>Romanda aquiesceu, e uma blindagem despontou, sendo aumentada at� se tornar forte o bastante para prender um gigante. O brilho de <emphasis>saidar</emphasis> envolvia quase todas as mulheres presentes. Romanda restaurou um pouco da ordem nomeando seis mulheres para manter uma blindagem menor, mas ainda assim mais que suficiente.</p><p>Myrelle agarrou o bra�o de Nynaeve.</p><p>� Voc� vai nos perdoar, Romanda, mas precisamos conversar a s�s com Nynaeve.</p><p>Sheriam agarrou o outro bra�o.</p><p>� Melhor acabarmos logo com isso.</p><p>Romanda assentiu, distra�da. Estava franzindo o cenho para Logain, como quase todas as Aes Sedai ali. Ningu�m fez men��o de sair.</p><p>Sheriam e Myrelle puseram Nynaeve de p� e a puxaram para a porta.</p><p>� O que voc�s est�o fazendo? � perguntou Nynaeve, sem f�lego. � Para onde est�o me levando?</p><p>Do lado de fora, as tr�s foram se acotovelando pela multid�o de Aes Sedai. Muitas mulheres a encaravam com um olhar intenso, at� acusador. Passaram aos empurr�es por Elayne, que fez uma careta culpada. Nynaeve a encarou por cima do ombro enquanto as duas Aes Sedai a arrastavam t�o depressa que ela n�o conseguia evitar trope�ar. N�o que esperasse que Elayne fosse ajud�-la, mas podia ser a �ltima vez que Nynaeve a via. Beonin estava falando alguma coisa para Elayne, que disparou pelo meio da multid�o.</p><p>� O que voc�s v�o fazer comigo? � ganiu Nynaeve.</p><p>� Poder�amos deixar voc� esfregando panelas para o resto da vida � respondeu Sheriam em tom casual.</p><p>Myrelle assentiu.</p><p>� Voc� poderia passar o dia trabalhando nas cozinhas.</p><p>� Ou poder�amos a�oit�-la todos os dias.</p><p>� Arrancar seu couro pedacinho por pedacinho.</p><p>� Pregar voc� dentro de um barril e s� passar comida pelo buraquinho na tampa.</p><p>� Mas s� mingau. Mingau dormido.</p><p>Nynaeve sentiu os joelhos fraquejarem.</p><p>� Foi um acidente! Eu juro! Foi sem querer!</p><p>Sem diminuir o passo, Sheriam sacudiu-a.</p><p>� N�o seja tola, crian�a. Voc� pode ter feito algo imposs�vel.</p><p>� Voc�s acreditam em mim? Acreditam! Por que n�o disseram nada quando Nisao e Varilin e� Por que n�o disseram nada?</p><p>� Eu disse �pode ter feito�, crian�a. � Ela sentiu uma pontada de tristeza ao notar o tom neutro de Sheriam.</p><p>� Outra possibilidade � acrescentou Myrelle � � seu c�rebro ter inchado de tanto esfor�o. � Ela encarou Nynaeve com um olhar desconfiado. � Voc� ficaria surpresa com a quantidade de Aceitas e at� de novi�as que afirmam ter redescoberto algum Talento perdido ou descoberto um novo. Quando eu era novi�a, uma Aceita chamada Echiko estava t�o convencida de que sabia voar que pulou do alto da Torre.</p><p>Atordoada, Nynaeve olhava de uma mulher para a outra. Acreditavam nela ou n�o? Ser� que achavam mesmo que estava <emphasis>louca</emphasis>? <emphasis>O que, sob a Luz, elas v�o fazer comigo?</emphasis> Tentava encontrar palavras para convenc�-las � n�o estava mentindo, n�o estava maluca, e <emphasis>tinha mesmo</emphasis> Curado Logain �, mas sua boca abria e fechava sem fazer barulho, e foi assim at� entrarem �s pressas na Pequena Torre.</p><p>S� quando adentraram o que antes era uma sala de jantar privada da antiga estalagem, um aposento comprido onde agora havia uma mesa estreita cercada de cadeiras junto a uma parede, foi que Nynaeve se deu conta de que havia seguidoras em seu encal�o. Mais de dez Aes Sedai foram entrando atr�s delas: Nisao, de bra�os cruzados; Dagdara, com o queixo projetado para a frente como se pretendesse atravessar uma parede; Shanelle, Therva e� Todas da Ajah Amarela, salvo Sheriam e Myrelle. Aquela mesa sugeria a c�mara de um magistrado, e a fileira de rostos taciturnos indicava um julgamento. Nynaeve engoliu em seco.</p><p>Sheriam e Myrelle a deixaram ali, de p�, e deram a volta para se juntar �s Aes Sedai perto da mesa. Ent�o, de costas para ela, come�aram a conversar em voz baixa entre si. Quando se viraram de volta, seus rostos estavam indecifr�veis.</p><p>� Voc� afirma ter Curado Logain. � Havia um qu� de desd�m na voz de Sheriam. � Voc� afirma ter Curado um homem amansado.</p><p>� Voc�s t�m que acreditar em mim � protestou Nynaeve. � Voc� disse que acreditava.</p><p>Ela deu um pulo, como se algo invis�vel a tivesse golpeado com for�a na cintura.</p><p>� Olhe os modos, Aceita � retrucou Sheriam com frieza. � Voc� ainda afirma isso?</p><p>Nynaeve encarou a mulher. Sheriam � que estava louca, mudando de comportamento daquele jeito. Ainda assim, conseguiu soar respeitosa:</p><p>� Sim, Aes Sedai.</p><p>Dagdara soltou uma exclama��o de surpresa e desd�m.</p><p>Sheriam gesticulou para aquietar um murm�rio entre as Amarelas.</p><p>� E voc� diz que o que fez foi um acidente. Se for o caso, suponho que n�o haja nenhuma chance de repetir o feito para provar que diz a verdade.</p><p>� Como ela poderia? � indagou Myrelle, parecendo achar gra�a. <emphasis>Gra�a</emphasis>! � Se ela foi fazendo o que fez �s cegas, como conseguiria repetir? N�o que fa�a diferen�a, a menos que ela realmente tenha Curado o homem.</p><p>� Responda! � exclamou Sheriam, e aquele a�oite invis�vel a golpeou outra vez. Desta vez, Nynaeve conseguiu n�o se sobressaltar. � Existe alguma chance de voc� se lembrar do que fez, ao menos em parte?</p><p>� Eu me lembro, Aes Sedai � afirmou Nynaeve, soturna, com medo de uma nova agress�o. O golpe n�o veio, mas j� conseguia ver o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> em torno de Sheriam. Aquele brilho parecia amea�ador.</p><p>Houve uma pequena como��o � porta, e Carlinya e Beonin abriram caminho pela fileira de Amarelas. Uma empurrava Siuan � frente, a outra trazia Leane.</p><p>� Elas n�o queriam vir � anunciou Beonin, exasperada. � Acreditam que elas tiveram a aud�cia de tentar dizer que estavam ocupadas?</p><p>Leane tinha a express�o t�o inescrut�vel quanto a de qualquer Aes Sedai, mas Siuan disparava olhares irados para todas as presentes, sobretudo para Nynaeve.</p><p>Foi ent�o que Nynaeve enfim compreendeu. Tudo se encaixou. A presen�a das irm�s Amarelas. Sheriam e Myrelle acreditando nela, depois n�o acreditando mais, amea�ando-a, agredindo-a. Foi tudo de prop�sito, tudo para deix�-la com raiva suficiente para que ela usasse sua Cura em Siuan e Leane, para que provasse seu feito para as Amarelas. N�o. Pelas express�es em seus rostos, aquelas mulheres estavam ali para v�-la fracassar. Nynaeve n�o fez nenhum esfor�o para esconder o pux�o que deu na tran�a � inclusive puxou outra vez, caso algu�m n�o tivesse visto da primeira vez. Queria esbofetear <emphasis>todas</emphasis>. Queria dar a elas uma dose de um preparado de ervas que, s� com o cheiro, faria todas se sentarem no ch�o e chorarem feito beb�s. Queria arrancar o cabelo de todas e estrangul�-las com os fios, queria�</p><p>� Eu preciso mesmo aguentar essa baboseira? � rosnou Siuan. � Tenho coisas importantes a fazer. Mesmo que eu s� tivesse que cortar a cabe�a de peixes, seria mais imp�</p><p>� Ah, cale a boca � interrompeu Nynaeve, irritadi�a.</p><p>Com um passo, tomou a cabe�a de Siuan nas m�os, como se pretendesse quebrar o pesco�o da mulher. Tinha acreditado naquelas bobagens, at� na hist�ria do barril! Aquelas mulheres a manipularam e ela tinha ca�do direitinho!</p><p><emphasis>Saidar</emphasis> preencheu-a, e Nynaeve canalizou como fizera com Logain, combinando todos os Cinco Poderes. Desta vez sabia o que estava buscando, aquela sensa��o de algo rompido que quase n�o parecia estar l�. Esp�rito e Fogo para remendar a fenda, e�</p><p>Por um momento, Siuan s� a encarou, impass�vel. Em seguida, o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> a envolveu. Murm�rios de surpresa tomaram a sala. Bem devagar, Siuan se inclinou para a frente e deu um beijo em cada bochecha de Nynaeve. Uma l�grima escorreu por seu rosto, depois outra, e, de repente, Siuan estava chorando, abra�ando a si mesma, tr�mula. A aura reluzente ao seu redor se dissipou. Sheriam a envolveu em um abra�o reconfortante e tamb�m parecia prestes a chorar.</p><p>As demais presentes encaravam Nynaeve. O choque que substitu�ra toda aquela serenidade de Aes Sedai foi muito satisfat�rio, e at� mesmo a decep��o em seus rostos foi gratificante. Os olhos azul-claros de Shanelle pareciam prestes a saltar das �rbitas. Nisao ainda estava de queixo ca�do, at� que a mulher notou que Nynaeve estava olhando e tratou de fechar a boca.</p><p>� O que fez voc� pensar em usar Fogo? � indagou Dagdara em uma voz estrangulada que pareceu extremamente aguda para uma mulher t�o grande. � E Terra? Voc� usou Terra. A Cura se faz com Esp�rito, �gua e Ar.</p><p>Aquilo abriu as comportas, e ela foi inundada por perguntas vindas de todas as presentes. Mas, na verdade, eram sempre as mesmas perguntas, apenas com palavras diferentes.</p><p>� N�o sei por qu� � respondeu Nynaeve, quando encontrou uma brecha. � S� me pareceu certo. Eu quase sempre uso tudo.</p><p>Aquilo que gerou uma rodada de broncas. A Cura se fazia com Esp�rito, �gua e Ar. Na Cura, era perigoso experimentar. Um erro poderia matar n�o s� a Aes Sedai, mas tamb�m o paciente. Nynaeve n�o respondeu, e as advert�ncias logo cessaram, abafadas entre olhares contrariados e saias amarrotadas. Al�m de n�o matar ningu�m, Nynaeve ainda Curara o que elas diziam que era imposs�vel ser Curado.</p><p>Leane exibia um sorriso t�o esperan�oso que chegava quase a doer. Nynaeve se aproximou dela, tamb�m abrindo um sorriso, mascarando a irrita��o ardente que sentia por dentro. A Ajah Amarela e todo aquele suposto conhecimento sobre a Cura. Quantas vezes ela n�o estivera disposta a implorar de joelhos para que elas lhe ensinassem. Ora, entendia mais de Cura do que qualquer uma delas!</p><p>� Agora prestem bastante aten��o, voc�s n�o v�o ter outra chance de ver como se faz t�o cedo.</p><p>Conforme canalizava, Nynaeve sentiu uma aproxima��o, mas ainda n�o sabia dizer o que se aproximava. A Cura em Leane e Siuan era um pouco diferente da de Logain. Bem, como vivia dizendo a si mesma, homens e mulheres <emphasis>eram</emphasis> diferentes. <emphasis>Luz, ainda bem que isso funciona com elas t�o bem quanto funcionou com ele!</emphasis> Aquilo provocou algumas perguntas desagrad�veis. E se certas coisas exigissem Curas distintas em homens e mulheres? Talvez seu conhecimento n�o fosse mesmo t�o grande quanto o das Amarelas.</p><p>A rea��o de Leane foi diferente. Nada de l�grimas. A mulher abra�ou <emphasis>saidar</emphasis>, abriu um sorriso agradecido e soltou, apesar de o sorriso permanecer. Ent�o agarrou Nynaeve em um abra�o, apertando at� suas costelas estalarem.</p><p>� Obrigada, obrigada, obrigada � sussurrava, sem parar.</p><p>Um murm�rio despontou entre as Amarelas, e Nynaeve se preparou para se deleitar com os elogios que receberia. Aceitaria as desculpas com eleg�ncia. Foi quando ouviu o que as mulheres estavam falando:</p><p>� � usou Fogo e Terra como se estivesse abrindo um buraco numa pedra � comentou Dagdara em tom de reprova��o.</p><p>� Um toque mais suave seria melhor � concordou Shanelle.</p><p>� � ver se Fogo pode ser �til em problemas com o cora��o � ponderou Therva, tamborilando o narig�o.</p><p>Beldemaine, uma arafeliana rechonchuda com sininhos de prata no cabelo, aquiesceu, pensativa, e completou: � � se Terra fosse combinada com Ar assim, ent�o�</p><p>� Fogo tecido em �gua�</p><p>� Terra misturada com �gua�</p><p>Nynaeve ficou boquiaberta. As mulheres j� tinham se esquecido dela! Achavam que poderiam aprimorar a demonstra��o que tinham acabado de ver!</p><p>Myrelle deu um tapinha em seu bra�o.</p><p>� Voc� se saiu muito bem � murmurou. � N�o se preocupe. Depois elas ser�o s� elogios. Agora ainda est�o um pouco desconcertadas.</p><p>Nynaeve fungou alto com desd�m, mas nenhuma das Amarelas pareceu notar.</p><p>� Espero que isso ao menos signifique que n�o preciso mais esfregar panelas.</p><p>Sheriam se virou para ela de repente, sobressaltada.</p><p>� Por que n�o precisaria, crian�a? Que ideia � essa? � A mulher ainda tinha o bra�o em torno de Siuan, que, bastante envergonhada, enxugava os olhos com um len�o rendado. � Se qualquer pessoa pudesse quebrar regras ao bel-prazer, fazer o que bem entendesse, e escapar de puni��es s� por fazer algo positivo para compensar� o mundo seria um caos.</p><p>Nynaeve suspirou. Devia ter imaginado.</p><p>Afastando-se das outras Amarelas, Nisao pigarreou. Disparou a Nynaeve um breve olhar que s� poderia ser acusat�rio.</p><p>� Suponho que isso signifique que teremos que amansar Logain de novo. � Pelo tom de voz, ela parecia querer fingir que nada daquilo acontecera.</p><p>Quando as presentes come�aram a aquiescer, Carlinya se pronunciou, t�o g�lida que o aposento pareceu ficar mais frio.</p><p>� Mas ser� que devemos? � Todos os olhos se voltaram para ela, que apenas prosseguiu, muito calma e tranquila. � Temos que considerar as implica��es �ticas. Como podemos apoiar um homem que � capaz de canalizar, um homem que est� tentando juntar outros homens com a mesma habilidade, e, ao mesmo tempo, continuarmos agindo como antes, amansando os que encontramos? Na pr�tica, que efeito isso ter� quando ele descobrir? Por mais aflitiva que seja a atual situa��o, ela vai ajud�-lo a nos ver como um grupo dissociado da Torre e, mais importante, de Elaida e da Ajah Vermelha. Se amansarmos um �nico homem que seja, podemos perder essa diferencia��o. Com isso, perdemos a chance de estabelecer nossa influ�ncia sobre ele antes de Elaida.</p><p>Quando ela parou, o sil�ncio caiu como um manto sobre o ambiente. Aes Sedai trocaram olhares preocupados, e os olhares dirigidos a Nynaeve fizeram o de Nisao parecer gentil. Irm�s tinham morrido na captura de Logain. E, mesmo que ele estivesse blindado, Nynaeve o transformara em um problema de novo e ainda dera um jeito de piorar a situa��o.</p><p>� Acho que voc� deveria ir � advertiu Sheriam, baixinho.</p><p>Nynaeve nem discutiu. Fez suas mesuras o mais r�pido poss�vel e fez o poss�vel para n�o sair correndo.</p><p>Quando saiu, Elayne j� estava se levantando da escadinha de pedra.</p><p>� Me desculpe, Nynaeve � pediu ela, esfregando a saia. � Eu estava t�o empolgada que deixei escapar tudo para Sheriam antes de me dar conta de que Romanda e Delana estavam l�.</p><p>� N�o importa � respondeu Nynaeve, com firmeza, come�ando a andar pela rua lotada. � Elas ficariam sabendo mais cedo ou mais tarde. � Mas n�o era justo, n�o era. <emphasis>Eu fiz uma coisa que elas disseram que n�o podia ser feita e ainda tenho que esfregar panelas!</emphasis> � Elayne, n�o me importa o que voc� disser, temos que ir embora. Carlinya estava falando de �estabelecer influ�ncia� sobre Rand. Esse pessoal n�o � diferente da Elaida. Thom ou Juilin podem arranjar cavalos para n�s, e Birgitte pode ir pentear capim.</p><p>� Receio que j� seja tarde demais � ponderou Elayne em tom infeliz. � A not�cia j� est� se espalhando.</p><p>Vindas de dire��es opostas, Larissa Lyndel e Zenare Ghodar atacaram Nynaeve feito dois falc�es disputando uma lebre. Larissa era uma mulher ossuda cujo rosto simples quase se sobrepunha � idade indefinida de Aes Sedai, e Zenare era um tanto rechonchuda e com arrog�ncia suficiente para fazer frente a duas rainhas, mas ambas pareciam �vidas e ansiosas. Eram da Ajah Amarela, embora nenhuma das duas estivesse presente quando Nynaeve Curou Siuan e Leane.</p><p>� Quero ver voc� fazer tudo de novo passo a passo � afirmou Larissa, agarrando firme um de seus bra�os.</p><p>� Nynaeve! � exclamou Zenare, tomando o outro bra�o. � Se voc� repetir a tessitura algumas vezes, aposto que vou descobrir umas cem coisas em que voc� nunca pensou.</p><p>Salita Toranes, uma tairena quase t�o escura quanto as pessoas do Povo do Mar, pareceu surgir do nada.</p><p>� Vejo que foram mais r�pidas. Bem, que minha alma queime se vou ficar esperando na fila.</p><p>� Eu cheguei primeiro, Salita � advertiu Zenare, firme, apertando mais o bra�o de Nynaeve.</p><p>� <emphasis>Eu</emphasis> cheguei primeiro � corrigiu Larissa, apertando tamb�m.</p><p>Nynaeve lan�ou um olhar de puro terror para Elayne, mas recebeu de volta apenas um olhar de pena e um dar de ombros � era disso que a jovem estava falando quando disse j� ser tarde demais. Nynaeve n�o teria mais um instante de paz.</p><p>� � com raiva? � ia dizendo Zenare. � Pois eu consigo pensar em cinquenta coisas que a deixariam com raiva suficiente at� para mastigar pedras.</p><p>� <emphasis>Eu</emphasis> consigo pensar em <emphasis>cem</emphasis> � interveio Larissa. � E <emphasis>eu</emphasis> pretendo quebrar esse bloqueio dela, nem que seja a �ltima coisa que eu fa�a.</p><p>Magla Daronos se enfiou entre o grupo abrindo caminho com os ombros, coisa que tinha de sobra. Parecia algu�m h�bil no manejo da espada ou de um machado de ferreiro.</p><p>� <emphasis>Voc�</emphasis> vai quebrar, Larissa? R�! No caso, eu � que j� pensei em v�rias maneiras de acabar de uma vez com essa hist�ria.</p><p>Nynaeve s� queria gritar.</p><empty-line/><p>Siuan tentou com todas as suas for�as n�o abra�ar e segurar <emphasis>saidar</emphasis>, pois achou que fosse come�ar a chorar de novo, e isso seria inaceit�vel. Al�m de tudo, ficaria parecendo uma novi�a boba aos olhos das mulheres que se amontoavam em torno dela na sala de espera. Cada express�o de fasc�nio e deleite, cada acolhida calorosa como se ela tivesse passado anos longe era como um b�lsamo, sobretudo daquelas de quem j� era amiga antes de se tornar Amyrlin, antes que o tempo e o dever as afastassem. Lelaine e Delana a envolveram em abra�os como n�o faziam havia longos anos. Moiraine tinha sido sua �nica amiga mais pr�xima, a �nica al�m de Leane que ela conseguira manter por perto depois de receber a estola, e o dever as ajudara a permanecer juntas.</p><p>� � t�o bom ter voc� de volta � disse Lelaine, risonha.</p><p>� T�o, t�o bom � murmurou Delana, com uma voz calorosa.</p><p>Siuan gargalhou e teve que enxugar as l�grimas das bochechas. Luz, qual era o problema dela? N�o chorava assim desde crian�a!</p><p>Talvez fosse apenas alegria por recuperar <emphasis>saidar</emphasis>, por todas as rea��es calorosas ao seu redor. S� a Luz sabia, mas aquilo era o bastante para abalar qualquer um. Nunca ousara sonhar que aquele dia chegaria, mas, agora que tinha chegado, n�o guardava rancor de nenhuma daquelas mulheres, perdoava a frieza da dist�ncia de antes, assim como da insist�ncia anterior para que Siuan jamais pensasse que era uma igual. A divis�o entre Aes Sedai e n�o Aes Sedai era clara � Siuan insistira nisso antes de ser estancada, e n�o precisava dizer que tornaria a faz�-lo �, e ela sabia como antes era preciso lidar com dureza com mulheres estancadas, para o pr�prio bem delas e daquelas que ainda eram capazes de canalizar. Como antes. Era estranho se dar conta de que aquilo jamais se repetiria.</p><p>De rabo de olho, Siuan avistou Gareth Bryne subindo a escada lateral do aposento.</p><p>� Me deem licen�a um momentinho � disse, e foi correndo atr�s dele.</p><p>Mesmo �s pressas, precisou parar a cada dois passos para aceitar mais congratula��es durante todo o caminho at� a escada, de modo que s� o alcan�ou quando Bryne j� estava em um corredor no segundo andar. Correu para ultrapass�-lo e se plantou diante dele. O cabelo quase todo grisalho do homem estava assanhado pelo vento, o rosto quadrado e o casaco de camur�a desgastada estavam empoeirados. Ele parecia t�o s�lido quanto uma pedra.</p><p>Bryne ergueu um ma�o de pap�is e disse, tentando contorn�-la:</p><p>� Tenho que entregar isto aqui, Siuan.</p><p>Ela se moveu para bloquear seu caminho.</p><p>� Eu fui Curada. Posso canalizar de novo.</p><p>Ele assentiu � s� assentiu!</p><p>� Eu fiquei sabendo. Suponho que isso signifique que, de agora em diante, voc� vai canalizar para limpar minhas camisas. Quem sabe agora elas fiquem limpas de verdade. J� me arrependi de ter aberto m�o de Min t�o f�cil.</p><p>Siuan o encarou. O homem n�o era bobo. Por que estava fingindo que n�o entendia?</p><p>� Eu voltei a ser Aes Sedai. Voc� espera mesmo que uma Aes Sedai <emphasis>lave as suas roupas</emphasis>?</p><p>S� para deixar bem claro, ela abra�ou <emphasis>saidar</emphasis> � aquela do�ura da qual sentia tanta falta era t�o maravilhosa que seu corpo chegou a estremecer �, envolveu-o em fluxos de Ar e o suspendeu � ou melhor, tentou suspender. Pasma, abra�ou mais, tentou com mais for�a� at� que a do�ura a apunhalou feito mil anz�is. As botas do homem sequer sa�ram do ch�o.</p><p>Era imposs�vel. Tudo bem que suspender algo era uma das coisas mais dif�ceis de se fazer ao canalizar, mas ela antes podia erguer quase tr�s vezes o pr�prio peso.</p><p>� Era para eu ficar impressionado? � perguntou Bryne, com toda a calma. � Sheriam e suas amigas me deram sua palavra, o Sal�o me deu sua palavra, e, mais importante, voc� me deu a sua palavra, Siuan. N�o deixaria voc� se safar com menos do que me prometeu nem se voc� voltasse a ser a Amyrlin. Agora trate de desfazer o que quer que tenha feito, sen�o, quando eu mesmo me soltar, vou lhe virar de cabe�a para baixo e lhe dar uns tapas no traseiro por ser t�o infantil. � bem raro voc� ser infantil, ent�o n�o v� pensando que, a esta altura, vou deixar que voc� comece com isso.</p><p>Quase aturdida, Siuan soltou a Fonte. N�o fora por conta da amea�a dele � Bryne cumpriria a amea�a, como j� fizera outras vezes, embora n�o por esse motivo � e nem pelo choque de n�o ter conseguido levant�-lo. L�grimas pareciam brotar de repente em seus olhos, e ela esperava que soltar <emphasis>saidar</emphasis> pudesse cont�-las. Algumas, contudo, continuaram a descer pelas bochechas, mesmo depois de ela piscar com for�a.</p><p>Antes de Siuan se dar conta de que o homem se movera, Gareth j� tomara a cabe�a dela entre as m�os.</p><p>� Luz, mulher, n�o v� me dizer que eu a assustei. Achava que voc� n�o teria medo nem se fosse largada numa cova com um bando de leopardos.</p><p>� Eu n�o estou com medo � retrucou ela, firme.</p><p>Bom. Ainda conseguia mentir. Por dentro, as l�grimas brotavam.</p><p>� Temos que encontrar um jeito de parar de atacar um ao outro o tempo todo � ponderou ele, em voz baixa.</p><p>� N�o temos por que dar um jeito em nada. � As l�grimas estavam vindo. Estavam vindo. Ah, Luz, ele n�o podia ver. � S� me deixe em paz, por favor. Por favor, apenas suma.</p><p>Para sua surpresa, ele hesitou apenas por um momento antes de fazer o que ela pediu.</p><p>Ouvindo os passos de Bryne atr�s de si, Siuan s� conseguiu virar o corredor transversal antes que a represa arrebentasse e ela ca�sse de joelhos, debulhando-se em l�grimas. �quela altura, j� sabia o motivo. Alric, seu Guardi�o � seu Guardi�o morto, assassinado quando Elaida a dep�s. Conseguia mentir � os Tr�s Juramentos tinham mesmo sido desfeitos �, mas alguma parte do elo com Alric, um elo de carne com carne e mente com mente, voltara. A dor da morte dele, antes mascarada pelo choque de descobrir as inten��es de Elaida e depois enterrada com o estancamento� aquela dor a tomou por completo. Encolhida junto � parede, aos prantos, seu �nico consolo era Gareth n�o estar ali. <emphasis>N�o tenho tempo para o amor, que o queime!</emphasis></p><p>Pensar aquilo foi como levar um balde de �gua fria no rosto. A dor permaneceu, mas as l�grimas cessaram, e ela conseguiu se levantar com certo esfor�o. Amor? Aquilo era t�o imposs�vel quanto� quanto� Siuan n�o conseguia pensar em nada t�o imposs�vel. Aquele homem era imposs�vel!</p><p>De repente, percebeu que Leane estava ali, parada, a menos de duas passadas de dist�ncia, observando-a. Ergueu a m�o para limpar as l�grimas do rosto, mas desistiu. N�o havia nada al�m de compaix�o no rosto da amiga.</p><p>� Como voc� lidou com a� morte de Anjen, Leane? � J� fazia quinze anos.</p><p>� Eu chorei � respondeu Leane. � Passei um m�s me segurando durante o dia e gastando a noite inteira chorando encolhida na minha cama. Depois de j� ter transformado os len��is em farrapos. Por outros tr�s meses, as l�grimas brotavam sem mais nem menos. S� parou de doer mais de um ano depois. Por isso que nunca mais criei nenhum elo. Achava que n�o suportaria passar por tudo aquilo de novo. Mas passa, Siuan. � Ela conseguiu abrir um sorriso travesso. � Hoje em dia acho que j� daria conta de dois ou tr�s Guardi�es, se n�o quatro.</p><p>Siuan assentiu. Poderia chorar � noite. Quanto ao maldito Gareth Bryne� N�o havia nada. N�o havia!</p><p>� Acha que elas j� est�o prontas? � L� embaixo, s� tinham conseguido alguns momentos para conversar. Aquele anzol precisava ser posicionado r�pido, ou n�o seria nem lan�ado.</p><p>� Talvez. N�o tive muito tempo. E tive que tomar cuidado. � Leane hesitou. � Tem certeza de que quer continuar com isso, Siuan? Vai mudar tudo para o que trabalhamos t�o de repente e� eu n�o sou t�o forte quanto antes, Siuan, nem voc�. A maior parte das mulheres aqui consegue canalizar mais que n�s duas. Luz, acho que at� algumas Aceitas conseguiriam, sem contar Elayne ou Nynaeve.</p><p>� Eu sei � ponderou Siuan. Precisava correr o risco. O outro plano n�o passara de um paliativo por conta de n�o ser mais Aes Sedai. Agora que voltara a ser� bem, fora deposta com pouco ou quase nenhum respeito �s leis da Torre. Se voltara a ser Aes Sedai, por que n�o poderia ser Amyrlin de novo?</p><p>Ela endireitou os ombros e partiu l� para baixo, para enfrentar o Sal�o.</p><empty-line/><p>Deitada de camisola, Elayne conteve um bocejo e continuou a esfregar o creme que recebera de Leane. A mistura pareceu surtir algum efeito � ao menos achava que as m�os estavam mais macias. Uma brisa noturna entrava pela janela, fazendo bruxulear a vela solit�ria; ainda assim as lufadas de ar s� serviam, se muito, para esquentar ainda mais o quarto.</p><p>Nynaeve entrou cambaleante, bateu a porta e se jogou na cama, de onde encarou Elayne.</p><p>� Magla � a mulher mais baixa, odiosa e <emphasis>desprez�vel</emphasis> do mundo todo � resmungou. � N�o, essa � Larissa. Ou melhor, Romanda.</p><p>� Ent�o quer dizer que elas conseguiram deix�-la com raiva suficiente para canalizar. � Nynaeve grunhiu, fazendo a express�o mais irritada e maligna que conseguia, e Elayne tratou de mudar de assunto. � Teve que fazer a demonstra��o para quantas delas? Achei que voc� fosse conseguir voltar bem mais cedo. Eu procurei por voc� no jantar, mas n�o a vi em lugar nenhum.</p><p>� Jantei um p�ozinho � resmungou Nynaeve. � Um p�ozinho! Tive que demonstrar para todas elas, at� a �ltima Amarela aqui de Salidar. S� que aquelas mulheres nunca ficam satisfeitas. Agora querem falar comigo uma de cada vez. At� montaram um esquema de revezamento! Amanh� de manh� � Larissa, e isso antes mesmo do caf� da manh�! Depois vem Zenare, depois� Ah, e elas n�o paravam de trocar ideias sobre como me irritar, falando como se eu nem estivesse presente! � Ela ergueu a cabe�a, antes apoiada na colcha. Parecia ansiosa. � Est�o competindo para ver quem consegue quebrar meu bloqueio, Elayne. Parecem moleques tentando agarrar o porco ensebado no dia do festival. E eu sou o porco!</p><p>Com um bocejo, Elayne passou para ela o pote de creme para as m�os. Instantes depois, Nynaeve se virou na cama e come�ou a esfregar o unguento nas palmas � mesmo com todos os novos compromissos, continuava tendo que gastar um bom tempo com as panelas.</p><p>� Olha, pe�o desculpas por n�o ter feito como voc� queria naquele dia, Nynaeve. Poder�amos ter tecido disfarces como os de Moghedien e fugido no meio do dia sem que ningu�m percebesse� � De repente, Nynaeve parou de esfregar as m�os. � O que foi?</p><p>� Eu n�o tinha pensado nisso. Nunca nem <emphasis>pensei</emphasis> nisso!</p><p>� N�o? Eu achei que tivesse. Voc� � que aprendeu a tessitura primeiro.</p><p>� Tento nem pensar nas coisas que n�o podemos compartilhar com as irm�s. � A voz de Nynaeve soava ins�pida feito gelo, al�m de quase t�o fria e dura quanto. � Bem, tarde demais. Estou t�o cansada que n�o conseguiria canalizar nem mesmo se voc� tacasse fogo no meu cabelo. E acho que vou passar o resto da minha vida cansada, no que depender dessas mulheres. Elas s� me liberaram hoje � noite porque n�o consegui agarrar <emphasis>saidar</emphasis> nem quando Nisao� � Nynaeve estremeceu e voltou a esfregar as m�os, espalhando o creme.</p><p>Elayne deixou escapar um suspiro contido. Quase se atrapalhara com as palavras. Tamb�m estava cansada. Admitir que estivera errado sempre fazia o outro se sentir um pouco melhor, mas n�o fora sua inten��o sugerir usarem <emphasis>saidar</emphasis> para criar algum disfarce � inclusive, era o que temia que Nynaeve fosse sugerir. Ali, ao menos, poderiam ficar de olho nas Aes Sedai de Salidar e talvez conseguissem passar informa��es a Rand atrav�s de Egwene, quando ela enfim voltasse a visitar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Na pior das hip�teses, ainda tinham um m�nimo de influ�ncia atrav�s de Siuan e Leane.</p><p>Como se convocadas pelos pensamentos de Elayne, a porta se abriu e as duas entraram no quarto. Leane trazia uma bandeja de madeira com p�o e uma tigela de sopa, al�m de uma x�cara de cer�mica vermelha e um jarro branco vitrificado. Havia at� um ramalhete fresco em um vasinho azul.</p><p>� Siuan e eu achamos que voc� talvez estivesse com fome, Nynaeve. Disseram que as Amarelas abusaram de voc�.</p><p>Elayne n�o sabia ao certo se devia se levantar. Eram s� Siuan e Leane, mas as duas agora eram Aes Sedai de novo � ou ao menos ela achava que fossem. As rec�m-chegadas resolveram o impasse ao se sentarem: Siuan se acomodou no p� da cama de Elayne, e Leane, na de Nynaeve, que encarou as duas com desconfian�a antes de se sentar, as costas coladas na parede e a bandeja apoiada nos joelhos.</p><p>� Ouvi rumores de que voc� se apresentou ao Sal�o, Siuan � comentou Elayne, hesitante. � Dever�amos ter feito mesuras?</p><p>� Quer saber se voltamos a ser Aes Sedai, garota? Sim. Elas bateram boca feito um monte de vendedoras de peixe na feira, mas pelo menos concordaram com isso.</p><p>Siuan trocou olhares com Leane, e suas bochechas adquiriram um leve tom rosado. Elayne suspeitou de que jamais descobriria com o que as Votantes n�o tinham concordado.</p><p>� Myrelle teve a gentileza de ir atr�s de mim para contar � explicou Leane, cortando o breve sil�ncio. � Acho que vou escolher a Verde.</p><p>Nynaeve se engasgou com a colherada de sopa.</p><p>� Como assim? D� para mudar de Ajahs?</p><p>� N�o, n�o d� � respondeu Siuan. � Mas o Sal�o decidiu que, apesar de ainda sermos Aes Sedai, passamos um tempo sem ser. E, como elas insistem em dizer que toda aquela baboseira de deposi��o foi legal, todos os nossos antigos la�os, elos, associa��es e t�tulos j� n�o t�m mais valor � explicou, a voz t�o �spera que serviria como lixa de madeira. � Amanh� vou falar com as Azuis para ver se me aceitam de volta. Nunca ouvi falar de uma Ajah que rejeitasse algu�m. Tudo bem que uma Aceita, quando � elevada, j� foi abra�ada pela Ajah certa, mesmo que n�o perceba que seus passos est�o sendo guiados. Bem, pelo jeito como est�o conduzindo essas quest�es, eu n�o ficaria surpresa se as Azuis batessem a porta na minha cara.</p><p>� E <emphasis>como</emphasis> as quest�es est�o sendo conduzidas? � indagou Elayne. Tinha alguma coisa errada. Siuan era de intimidar, espica�ar e torcer o bra�o das pessoas com quem queria resolver algum assunto, n�o de trazer sopa, sentar ao p� da cama e bater papo como boas amigas. � Achei que tudo estivesse caminhando t�o bem quanto se poderia esperar.</p><p>Nynaeve a encarou com um olhar ao mesmo tempo incr�dulo e abatido. Bem, a amiga com certeza sabia o que Elayne quis dizer.</p><p>Siuan se virou para encar�-la, mas n�o deixou Nynaeve de lado.</p><p>� Passei na casa de Logain. Tem seis irm�s mantendo a blindagem, igual a quando o capturaram. Ele tentou se libertar quando descobriu que j� sab�amos que ele tinha sido mesmo Curado, e as irm�s de l� disseram que ele teria conseguido se fossem apenas cinco mantendo a barreira. Ou seja, o homem est� t�o forte quanto antes, ou com a for�a t�o parecida que quase n�o faz diferen�a. Eu, n�o. Nem Siuan. Quero que voc� tente de novo, Nynaeve.</p><p>� Eu sabia! � Nynaeve arremessou a colher de volta para a bandeja. � Sabia que voc�s queriam alguma coisa! Bem, estou cansada demais para canalizar, e, mesmo se n�o estivesse, n�o adiantaria de nada. N�o se pode Curar o que j� foi Curado. Agora caiam fora e levem essa sopa nojenta com voc�s!</p><p>Restava menos da metade da sopa nojenta, e a tigela era bem grande.</p><p>� Eu sei que n�o vai funcionar! � retrucou Siuan, irritada. � Hoje de manh� eu tamb�m sabia que era imposs�vel Curar um estancamento!</p><p>� Espere um pouco, Siuan � interrompeu Leane. � Nynaeve, voc� entende o que estamos arriscando, vindo aqui juntas? Isto aqui n�o � um quarto escondido num beco, com aquela sua amiga arqueira montando guarda. Tem mulheres pela casa toda, mulheres com olhos para ver e bocas para falar. Se descobrirem que Siuan e eu estamos fazendo esse joguinho com todo mundo, mesmo que s� descubram daqui a dez anos� bem, basta dizer que Aes Sedai tamb�m podem ser punidas e que � muito prov�vel acabarmos numa fazenda capinando repolhos at� muito depois de nosso cabelo ficar branco. Viemos aqui pelo que voc� fez por n�s, queremos recome�ar do zero.</p><p>� Por que n�o procuraram uma das Amarelas? � questionou Elayne. � A esta altura, a maioria j� deve saber tanto quanto Nynaeve.</p><p>A amiga a encarou, indignada, por cima da colherada de sopa. N�o estava nojenta?</p><p>Siuan e Leane se entreolharam, at� que a antiga Amyrlin confessou, relutante:</p><p>� Se falarmos com alguma irm�, mais cedo ou mais tarde todo mundo vai acabar sabendo. Se Nynaeve nos ajudar, pode ser que alguma das irm�s que conseguiu nos analisar hoje ache que cometeu um erro. Supostamente as irm�s s�o todas iguais, e j� houve uma ou outra Amyrlin que quase n�o conseguia canalizar o suficiente para ganhar a estola. Ainda assim, segundo costume, exceto nos casos envolvendo um t�tulo como o de Amyrlin ou de l�der de uma Ajah, se uma irm� � mais forte com o Poder, espera-se que a mais fraca fique fora de seu caminho.</p><p>� N�o entendo � comentou Elayne. Era uma bela aula sobre as pol�ticas internas da Torre. Aquela hierarquia fazia sentido, mas devia ser um dos aspectos da vida na Torre que s� se aprendia vivendo como Aes Sedai. De um jeito ou de outro, j� encontrara muitos ind�cios de que o verdadeiro aprendizado s� come�ava depois de se adquirir o xale. � Se Nynaeve conseguir Curar voc�s de novo, voc�s ficar�o mais fortes?</p><p>Leane balan�ou a cabe�a.</p><p>� Ningu�m nunca foi Curado de um estancamento. Talvez as outras passem a encarar esse retorno ao Poder como encaram as bravias, que acabam em um status um pouco mais baixo do que teriam considerando-se apenas a for�a no Poder. Talvez ter sido mais fraca agora valha de alguma coisa. Bem, se Nynaeve n�o conseguiu nos Curar por completo da primeira vez, talvez agora consiga nos levar a dois ter�os do que �ramos, ou quem sabe � metade. At� isso seria melhor do que o que temos agora, mas mesmo assim muitas irm�s aqui ainda seriam t�o fortes quanto ficar�amos, e boa parte seria ainda mais forte.</p><p>Elayne a encarou, ainda mais confusa. Nynaeve parecia ter levado uma paulada na cara.</p><p>� Tudo entra na conta � explicou Siuan. � Quem aprendeu mais r�pido, quem passou menos tempo como novi�a e Aceita� H� nuances de todos os tipos. N�o se pode afirmar a for�a de ningu�m com muita precis�o. Duas mulheres podem parecer igualmente fortes, e talvez at� sejam, mas s� se poderia afirmar com certeza se houvesse um duelo, e estamos acima disso, pela gra�a da Luz. Se Nynaeve n�o nos devolver toda a nossa for�a, corremos o risco de acabar bem abaixo na hierarquia.</p><p>Leane voltou a falar.</p><p>� A hierarquia n�o deveria ditar mais do que as regras da vida cotidiana, mas dita. O conselho de algu�m em uma posi��o mais alta tem mais peso. Isso n�o importava enquanto est�vamos estancadas, j� que n�o ocup�vamos posi��o nenhuma, e as irm�s consideravam o que diz�amos apenas pelo m�rito do argumento. S� que n�o vai mais ser assim.</p><p>� Entendo � retrucou Elayne, hesitante. N�o era de surpreender que muitos acreditavam que as Aes Sedai tinham inventado o Jogo das Casas! Elas faziam o <emphasis>Daes Dae�mar</emphasis> parecer simples.</p><p>� � um consolo ver que eu ter Curado voc�s lhes trouxe ainda mais problemas do que a mim mesma � resmungou Nynaeve. Ela encarou o fundo da tigela, soltou um suspiro e esfregou o �ltimo naco de p�o no restinho da sopa.</p><p>Siuan fechou a cara, mas conseguiu manter a voz equilibrada.</p><p>� Entenda, estamos aqui nos abrindo com voc�. E n�o � s� para convenc�-la a tentar nos Curar de novo. Voc� me devolveu� minha vida. � isso. Eu j� tinha conseguido me convencer de que ainda estava viva, mas parecia era que eu estava morta, se comparado com a vida com o Poder. Ent�o vamos fazer o que Leane sugeriu e recome�ar do zero. Como amigas, se voc�s me aceitarem. Se n�o, ao menos como tripulantes do mesmo barco.</p><p>� Amigas � rebateu Elayne. � Amigas soa bem melhor.</p><p>Leane abriu um sorriso para ela, mas a antiga Curadora e Siuan logo voltaram a aten��o para Nynaeve, que apenas olhou de uma para outra.</p><p>� Se Elayne pode fazer uma pergunta, ent�o eu tamb�m tenho esse direito. O que Sheriam e as outras descobriram com as S�bias, noite passada? E n�o venha me dizer que n�o sabe, Siuan. At� onde eu sei, sempre que elas formulam uma ideia, voc� descobre exatamente qual foi menos de uma hora depois.</p><p>Siuan cerrou o maxilar, teimosa, assumindo um brilho intimidador naqueles olhos azul-escuros. De repente, ela soltou um gritinho e se curvou para esfregar o tornozelo.</p><p>� Conte � mandou Leane, ajeitando a perna que acabara de estender para chutar a amiga. � Ou voc� conta ou conto eu. E fale tudo, Siuan.</p><p>A mulher cravou os olhos em Leane e inspirou, irritada, t�o fundo que Elayne achou que ela fosse explodir. Ent�o pousou os olhos em Nynaeve e suavizou a express�o. As palavras sa�ram meio arrastadas, mas sa�ram:</p><p>� A miss�o diplom�tica de Elaida chegou a Cairhien. Rand se encontrou com elas, mas parece estar tentando ganhar tempo. Ao menos � o que esperamos que ele esteja fazendo. Sheriam e as outras est�o muito satisfeitas porque, para variar, conseguiram n�o bancar as tolas diante das S�bias. E Egwene ir� � pr�xima reuni�o.</p><p>Por algum motivo, aquela �ltima informa��o foi a que pareceu sair com mais relut�ncia.</p><p>Nynaeve se animou, sentando-se mais ereta.</p><p>� Egwene? Maravilha! Ah, ent�o desta vez elas n�o fizeram papel de tolas� Eu j� tinha imaginado, j� que n�o vieram nos arrastar para mais uma aula. � Ela estreitou os olhos para Siuan, mas at� seu olhar desconfiado parecia animado. � O mesmo barco, �? E quem � a capit�?</p><p>� Eu, sua mulherzinha miser�vel� � Leane pigarreou, e Siuan parou e respirou fundo. Ent�o continuou, mais calma: � Bem, que tal uma capitania conjunta? Responsabilidades iguais. � Ent�o acrescentou, quando Nynaeve come�ou a abrir um sorriso: � Mas algu�m precisa manejar o leme, e serei <emphasis>eu</emphasis>.</p><p>� Tudo bem � concordou Nynaeve, depois de uma longa pausa. Ent�o, ap�s um momento de hesita��o, remexendo a colher, ela perguntou, com uma voz t�o casual que Elayne quase jogou as m�os para o alto, desistindo das negocia��es: � Alguma chance de voc�s talvez me� nos ajudarem� nos tirarem das cozinhas? � Os rostos das duas n�o pareciam muito mais velhos do que o de Nynaeve, mas ambas tinham sido Aes Sedai por longos anos, e seus olhos ainda se lembravam de como dar aquele olhar impass�vel de Aes Sedai. Nynaeve conseguiu encar�-las com uma express�o mais tranquila do que Elayne teria conseguido, deixando transparecer apenas uma leve inquieta��o. Ainda assim, n�o foi nenhuma surpresa quando ela murmurou: � Bem, imaginei que n�o.</p><p>� Temos que ir � anunciou Siuan, j� se levantando. � Acho que Leane subestimou o risco que corremos em sermos descobertas. N�s acabar�amos sendo as primeiras Aes Sedai a ter o couro arrancado em p�blico, e j� fui a primeira em coisas demais na vida.</p><p>Para a surpresa de Elayne, Leane se curvou para abra��-la, sussurrando:</p><p>� Amigas.</p><p>Ela retribuiu o abra�o e a declara��o com o mesmo calor.</p><p>Leane tamb�m abra�ou Nynaeve, murmurando palavras que Elayne n�o conseguiu entender, e Siuan tamb�m as abra�ou, resmungando um agradecimento relutante.</p><p>Pelo menos foi o que ela interpretou da situa��o, mas assim que as duas sa�ram, Nynaeve comentou:</p><p>� Nossa, Elayne, Siuan estava quase chorando. Talvez tenha sido mesmo sincera. Acho que eu deveria tentar ser mais gentil com ela. � Um suspiro que logo se transformou em bocejo a fez pausar por um momento, ent�o: � Ainda mais agora que ela voltou a ser Aes Sedai.</p><p>Dizendo isso, Nynaeve dormiu ali mesmo, como estava, com a bandeja ainda apoiada nos joelhos.</p><p>Abafando um bocejo com o dorso da m�o, Elayne se levantou para guardar a bandeja debaixo da cama de Nynaeve. Demorou para conseguir tirar o vestido da amiga e acomod�-la na cama em uma posi��o mais confort�vel, mas nem assim a outra mulher acordou. Depois que apagou a vela e se acomodou, abra�ando o travesseiro, ainda ficou um tempo deitada sem dormir, encarando a escurid�o, pensativa. Rand estava tentando dar conta de um grupo de Aes Sedai enviadas por Elaida? Ah, aquelas mulheres iam com�-lo vivo. Quase queria ter sido capaz de considerar aceitar a sugest�o de Nynaeve, quando aquela ideia maluca ainda tinha alguma chance de �xito. Com o que aprendera com a m�e � mais os conhecimentos que adquirira com Thom �, sabia que se estivesse ao lado de Rand poderia gui�-lo por quaisquer armadilhas que aquelas mulheres preparassem, e ele sempre lhe daria ouvidos. E se estivesse l� tamb�m poderia criar um elo com ele. N�o precisara esperar at� usar o xale para criar um elo com Birgitte, por que teria que esperar para tornar Rand seu Guardi�o?</p><p>Ela se remexeu, inquieta, e se aconchegou ainda mais no travesseiro. Rand teria que ficar para depois. Ele estava em Caemlyn, n�o em Salidar, mas� Siuan n�o tinha dito que ele estava em Cairhien. Como�?</p><p>Estava cansada demais, e o pensamento se esvaiu. Siuan� Siuan ainda estava escondendo alguma coisa. Tinha certeza.</p><p>O sono chegou, e, com ele, veio um sonho: estava em um barco, com Leane sentada na proa flertando com um sujeito que parecia mudar de rosto a cada vez que Elayne olhava. Na popa, Siuan e Nynaeve brigavam, cada uma tentando virar o leme para um lado. A disputa continuou at� Elayne se levantar e assumir o comando. Um motim era justificado quando a capit� guardava segredos demais.</p><p>Siuan e Leane voltaram na manh� seguinte, antes mesmo de Nynaeve abrir os olhos, o que foi mais que o bastante para deix�-la com raiva suficiente para canalizar. Por�m o esfor�o de nada adiantou: n�o havia como Curar o que j� tinha sido Curado.</p><empty-line/><p>� Farei o poss�vel, Siuan � respondeu Delana, inclinando-se para a frente para dar um tapinha amig�vel em seu bra�o. As duas estavam sozinhas na sala de estar, e as x�caras de ch� na mesinha entre elas permaneciam intocadas.</p><p>Siuan suspirou, parecendo desolada � bem, como mais poderia estar, depois da forma como se comportara diante do Sal�o? A luz do come�o da manh� entrava pelas janelas, e Delana pensou no desjejum que ainda n�o tomara. Aquela era Siuan, afinal. Era uma situa��o desconcertante, e Delana n�o gostava nada de ficar desconcertada. Passara muito tempo se esfor�ando para n�o reconhecer sua velha amiga no rosto daquela mulher � o que n�o era muito dif�cil, j� que a mulher em quest�o n�o se parecia em nada com a Siuan Sanche de que Delana se lembrava, mesmo depois de tantos anos de amizade. O primeiro choque viera logo que Siuan reapareceu, ainda que em uma forma mais jovem e bonita. O segundo foi encontrar Siuan � sua porta com o sol ainda por nascer, querendo sua ajuda. Siuan nunca pedia ajuda. Ent�o veio o maior choque de todos, que se renovava toda vez que ela encontrava Siuan desde que aquela mulher al�Meara realizara o tal milagre: Delana agora era mais forte que Siuan. Bem mais. Sempre fora o contr�rio. Siuan assumira a dianteira quando as duas ainda eram novi�as, antes at� de passarem a Aceitas. Bem, ainda assim, aquela <emphasis>era</emphasis> Siuan, e parecia bem cabisbaixa, coisa que Delana n�o se lembrava de j� ter visto. Siuan at� podia ficar chateada, mas nunca deixava transparecer. Era uma tristeza n�o poder fazer mais pela mulher com quem roubara bolinhos e que, mais de uma vez, levara a culpa por brincadeiras em que ambas estavam envolvidas.</p><p>� Siuan, eu posso fazer pelo menos o seguinte: Romanda ficaria mais do que feliz se aqueles <emphasis>ter�angreal</emphasis> dos sonhos acabassem sob os cuidados do Sal�o. Ela n�o tem influ�ncia com um n�mero suficiente de Votantes para garantir isso, mas se Sheriam pensar que ela tem, se achar que voc� usou a sua influ�ncia junto a mim e a Lelaine para impedir isso de acontecer� ora, ela n�o vai ter como recusar sua proposta. Sei que Lelaine vai concordar. Apesar de eu n�o conseguir imaginar por que voc� quer se encontrar com aquelas Aiel. Romanda fica sorrindo feito uma gata presa num pombal quando Sheriam volta daquelas reuni�es e fica por a� batendo o p�, muito mal-humorada. Voc�, com esse seu temperamento, vai acabar quebrando alguma coisa de tanta raiva.</p><p>Que mudan�a. Em outros tempos, Delana n�o teria nem cogitado mencionar o temperamento de Siuan, mas agora o fazia sem nem pestanejar.</p><p>O semblante cabisbaixo de Siuan deu lugar a um sorriso.</p><p>� Ah, eu tinha esperan�as de que voc� fosse ajudar com algo do tipo. Vou falar com Lelaine. E com Janya, acho que ela tamb�m ajudaria. Mas voc� precisa garantir que Romanda n�o leve isso adiante. Pelo pouco que sei, Sheriam j� tem ao menos uma no��o de como lidar com essas Aiel, e Romanda teria que come�ar do zero. Claro que isso talvez n�o seja importante para o Sal�o, mas eu preferiria n�o ter minha primeira intera��o com elas quando todo mundo j� estivesse com um anzol nas guelras.</p><p>Delana reprimiu um sorriso ao levar Siuan at� a porta e dar um abra�o na amiga. Sim, era muito importante para o Sal�o manter uma rela��o pac�fica com as S�bias, embora Siuan n�o tivesse como saber daquilo. Antes de entrar de volta, ficou um tempo ali, parada, assistindo enquanto Siuan seguia apressada pela rua. Ao que tudo indicava, ela � que teria que proteger a amiga, a partir de agora. Esperava se sair t�o bem no papel quanto Siuan.</p><p>O ch� ainda estava morno, ent�o decidiu mandar Miesa, sua servi�al, ir buscar alguns p�ezinhos e frutas. Quando ouviu uma batidinha t�mida na porta da sala, ficou surpresa em ver n�o Miesa, e sim Lucilde, uma das novi�as que tinham trazido da Torre.</p><p>A garota magricela baixou o corpo depressa em uma mesura nervosa. Bem, Lucilde sempre estava nervosa.</p><p>� Delana Sedai? Chegou uma mulher hoje de manh�, e Anaiya Sedai disse que era para eu trazer a visita aqui at� voc�? O nome dela � Halima Saranov? Ela diz que conhece a senhora? � anunciou a garota, sempre hesitante.</p><p>Delana abriu a boca para responder que nunca tinha ouvido falar de nenhuma Halima Saranov, mas ficou quieta quando uma mulher surgiu � porta. N�o conseguiu evitar encar�-la. A mulher conseguia ser ao mesmo tempo esbelta e curvil�nea, trajando um vestido de montaria cinza ridiculamente decotado, o cabelo negro comprido e brilhante emoldurando o rosto e os olhos verdes que decerto deixavam boquiabertos todos os homens que os encarassem. Claro que n�o foi por isso que Delana ficou surpresa ao encar�-la. A mulher estava com as m�os soltas de cada lado do corpo, mas com os polegares bem presos entre o indicador e o m�dio. Delana nunca imaginou que veria uma mulher que n�o usasse o xale fazendo aquele sinal, e aquela Halima Saranov n�o tinha capacidade de canalizar � sabia disso, estava perto o bastante para ter certeza.</p><p>� Ah, sim � respondeu Delana �, eu me lembro, sim. Pode ir, Lucilde. E, crian�a, tente se lembrar de que nem toda frase � uma pergunta.</p><p>A novi�a baixou o corpo depressa, em uma mesura t�o r�pida e profunda que quase caiu. Em outras circunst�ncias, Delana teria suspirado. Nunca se sa�a bem com as novi�as, mesmo sem entender por qu�.</p><p>Quase antes de a garota sair, Halima foi rebolando at� a cadeira em que pouco antes estivera Siuan e se sentou sem esperar convite. A mulher apanhou uma das x�caras intocadas, cruzou as pernas e bebericou o ch�, encarando-a.</p><p>Delana devolveu um olhar firme.</p><p>� Quem voc� pensa que �, mulher? N�o importa qu�o importante voc� pensa que �, ningu�m est� acima de uma Aes Sedai. E onde foi que aprendeu aquele sinal?</p><p>Seu olhar s�rio n�o surtiu efeito � devia ser a primeira vez em sua vida que aquilo acontecia.</p><p>Halima respondeu com um sorriso zombeteiro.</p><p>� Voc� acha mesmo que os segredos da� Ajah <emphasis>mais escura</emphasis>, por assim dizer, s�o assim t�o secretos? E quanto � sua posi��o como Aes Sedai� ora, voc� sabe muito bem que se um mendigo lhe fizesse os sinais apropriados, voc� daria um pinote e obedeceria sem pestanejar. A minha hist�ria � que, por um tempo, fui companheira de viagem de uma mulher chamada Cabriana Mecandes, uma irm� Azul. Por infort�nio, Cabriana veio a falecer ao cair do cavalo, e depois disso o Guardi�o dela simplesmente se recusou a sair da cama ou a comer. Ele tamb�m acabou morrendo. � Halima abriu um sorriso gentil, como se perguntasse se Delana estava acompanhando. � Cabriana e eu conversamos muito antes de ela morrer, e foi assim que fiquei sabendo de Salidar. Ela tamb�m me contou diversas coisas que tinha descoberto acerca dos planos da Torre Branca para voc�s, aqui, e para o Drag�o Renascido.</p><p>Ela abriu outro sorriso, um r�pido lampejo de dentes brancos, e voltou a bebericar o ch�, observando Delana com aten��o.</p><p>Delana nunca fora mulher de desistir f�cil; j� coagira reis a estabelecer acordos de paz quando queriam guerra e arrastara rainhas pela nuca para assinar tratados que precisavam ser assinados. Era verdade que teria obedecido ao tal mendigo hipot�tico, caso ele fizesse os sinais adequados e dissesse as palavras certas. Mas a posi��o das m�os de Halima, mais cedo, a identificaram como pertencente � Ajah Negra, o que via agora, com toda certeza, que a mulher n�o era. Talvez achasse que aquela fosse a �nica maneira de convencer Delana a receb�-la para uma conversa, ou podia ser que tamb�m quisesse demonstrar seu conhecimento proibido. Delana n�o gostava nada dessa Halima.</p><p>� E imagino que voc� esteja querendo que eu fa�a o Sal�o acreditar na veracidade dessas suas informa��es? � rebateu, �spera. � N�o deve ser problema, supondo que voc� saiba o suficiente sobre Cabriana para sustentar essa hist�ria. Nisso n�o tenho como ajudar, j� que s� encontrei a mulher duas vezes na vida, no m�ximo. E imagino que a chance de ela reaparecer e estragar a sua hist�ria � nula. Certo?</p><p>� Exatamente. � Outra vez aquele sorriso r�pido e zombeteiro. � E eu poderia relatar a vida inteira de Cabriana, sei coisas at� de que ela j� tinha esquecido.</p><p>Delana apenas assentiu. Matar uma irm� era sempre lament�vel, mas a pessoa precisava fazer o que tinha que ser feito.</p><p>� Ent�o n�o vai haver problema. O Sal�o vai receb�-la como convidada, e posso me certificar de que as Votantes v�o ouvir sua hist�ria.</p><p>� Convidada n�o era bem o que eu estava imaginando. Estou pensando em algo mais permanente� Sua secret�ria, por exemplo. Ou, melhor ainda, sua companheira. Preciso me assegurar de que esse Sal�o ser� guiado com m�o firme. E, al�m dessa hist�ria de Cabriana, de tempos em tempos trarei instru��es para voc�.</p><p>� Ora, voc� me escute bem! Eu�!</p><p>Halima a interrompeu. Nem precisou levantar a voz.</p><p>� Disseram que eu deveria mencionar um nome quando a encontrasse. Um nome que eu �s vezes uso. Aran�gar.</p><p>A Aes Sedai se deixou cair na cadeira. Aquele nome j� aparecera em seus sonhos. Pela primeira vez em anos, Delana Mosalaine estava com medo.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 31</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Lacre de cera vermelha</p></title><p>Eamon Valda avan�ava aos poucos pelas ruas lotadas, os passos do cap�o negro abafados pelo barulho da multid�o de Amador. O suor brotava de cada poro, intensificado pelo calor da armadura e da placa peitoral. Os metais haviam sido polidos � perfei��o e reluziam mesmo sob a camada de poeira. O calor s� aumentava com o manto branco feito a neve estirado sobre a anca larga do cavalo musculoso. Ainda assim, Eamon era t�o bom em esconder o inc�modo que quem o visse pensaria que aquele era um agrad�vel dia de primavera. Ele se esfor�ava ao m�ximo para ignorar as mulheres e os homens sujos que pediam esmola na rua � havia at� mesmo crian�as �, todos com rostos desolados e roupas desgastadas pela viagem. At� ali havia mendigos. At� ali.</p><p>Pela primeira vez na vida, n�o sentiu seu humor melhorar ante a vis�o majestosa das grandes muralhas de pedra da Fortaleza da Luz, uma constru��o inexpugn�vel cheia de torres e estandartes, o basti�o da verdade e da retid�o. Desmontou no p�tio principal e jogou as r�deas para um Filho, vociferando algumas instru��es de como o sujeito deveria cuidar do animal. O rapaz sabia o que fazer, claro, mas Valda precisava descontar a raiva em algu�m. Havia homens de manto branco andando apressados por toda parte, todos parecendo muito en�rgicos e ativos, apesar do calor intenso. Eamon torcia para que aquela prontid�o para resolver as coisas fosse al�m das apar�ncias.</p><p>O jovem Dain Bornhald veio correndo pelo p�tio, apertando o punho contra o peitoral em uma sauda��o animada.</p><p>� Que a Luz o ilumine, Milorde Capit�o. Fez boa viagem de Tar Valon, espero? � Ele estava com os olhos vermelhos e fedia a conhaque. N�o havia desculpa para o sujeito estar bebendo durante o dia.</p><p>� A viagem pelo menos foi r�pida � grunhiu Valda, descal�ando as luvas e enfiando-as no cintur�o da espada.</p><p>A resposta atravessada n�o fora motivada pelo cheiro de conhaque, embora fosse repreender o rapaz por conta daquilo. A jornada de fato fora r�pida, considerando a dist�ncia. Recompensaria a legi�o com uma noite na cidade assim que os homens acabassem de montar o acampamento ali nos arredores de Amador. A jornada fora r�pida, mas ele n�o estava nada satisfeito com as ordens que o convocaram de volta justo quando uma forte ofensiva poderia ter tombado a Torre, j� fr�gil, e deixado as bruxas enterradas sob os escombros. Ele e seus homens tinham viajado a um passo impressionante, mesmo que cada dia tivesse sido pontuado por not�cias ainda piores que as anteriores. Al�Thor em Caemlyn. N�o importava que o homem fosse um Drag�o falso ou o verdadeiro: era um homem capaz de canalizar, e essa capacidade s� existia em Amigos das Trevas. Uma turba de Devotos do Drag�o em Altara. Aquele tal de Profeta arrastando sua ral� por Ghealdan e pela pr�pria Amad�cia.</p><p>Ao menos conseguira matar parte daquela esc�ria, embora fosse dif�cil enfrentar inimigos que estavam mais dispostos a bater em retirada e se misturar � multid�o do que a lutar, gente que conseguia se esconder entre os malditos refugiados, uma turba de errantes desmiolados que pareciam pensar que al�Thor acabara com toda a ordem do mundo. Ah, mas ele encontrara uma solu��o para aquele desastre, ainda que n�o tivesse sido totalmente satisfat�ria. Sua legi�o deixara as ruas cheias, e os corvos provavelmente comeriam at� explodir. Se n�o podia diferenciar a gentalha do Profeta da multid�o imunda de refugiados, ent�o melhor matar qualquer um que obstru�sse seu caminho. Os inocentes deveriam ter ficado em suas casas, onde era o lugar deles � o Criador abrigaria os justos, afinal. Para Eamon Valda, os errantes foram apenas as ameixas no bolo.</p><p>� Ouvi boatos na cidade de que Morgase est� aqui � comentou.</p><p>N�o acreditava naquilo, ainda mais porque mais da metade dos rumores em Andor especulava sobre quem teria matado Morgase, e ent�o foi uma grande surpresa quando Dain aquiesceu.</p><p>A surpresa virou desgosto conforme o jovem ia tagarelando sobre os aposentos de Morgase e as ca�adas de que ela participava, sobre qu�o bem a mulher estava sendo tratada por ali e como Dain achava que ela logo assinaria um acordo com os Filhos. Valda n�o escondeu a cara de desgosto. Bem, n�o devia ter esperado coisa melhor de Niall � ele tinha sido um dos melhores soldados de sua �poca, sempre visto como um grande capit�o, mas a velhice acabou amolecendo o homem. Valda se deu conta disso no instante que recebeu as ordens de Senhor Capit�o Comandante, em Tar Valon. Niall deveria ter se deslocado at� Tear com um batalh�o assim que come�ou o burburinho a respeito de al�Thor, e assim teria conseguido reunir a for�a necess�ria durante a marcha. Na��es inteiras teriam aderido � marcha dos Filhos contra um falso Drag�o. Pelo menos no come�o. Agora al�Thor estava em Caemlyn, forte o bastante para assustar os mais covardes. Mas Morgase estava ali. Se Morgase estivesse sob a responsabilidade de Eamon, ela teria assinado aquele acordo logo no primeiro dia, mesmo que algu�m precisasse segurar sua m�o ao redor da pena. Pela Luz, aquela mulher aprenderia a dar um pinote toda vez que ele a mandasse pular. E caso se recusasse a voltar para Andor com os Filhos, ele a levaria amarrada em um mastro. Ela daria um �timo estandarte para conduzir a ofensiva at� Andor.</p><p>Dain foi atr�s dele, sol�cito, sem d�vida esperando um convite para o jantar daquela noite. Como era um oficial mais baixo na hierarquia, ele n�o podia convidar um mais antigo, por�m deixava bem claro que queria conversar com seu velho comandante � sobre Tar Valon, talvez at� sobre seu falecido pai. Valda n�o gostava muito de Geofram Bornhald. O homem era muito mole.</p><p>� Encontro voc� �s seis para jantar no acampamento. E quero que esteja s�brio, Filho Bornhald.</p><p>N�o restava d�vidas de que Dain Bornhald andara bebendo. O jovem ficou um instante boquiaberto e gaguejou uma resposta sem jeito antes de fazer a sauda��o e partir. Valda se perguntou o que teria acontecido. Dain tinha sido um bom jovem oficial � ele se preocupava demais com besteiras, como arranjar provas de culpa quando n�o havia como obt�-las, mas mesmo assim era bom. N�o era mole como o pai. Uma pena v�-lo se perder na bebida.</p><p>Resmungando sozinho � oficiais bebendo em plena Fortaleza da Luz, mais um sinal de que a influ�ncia nefasta de Niall apodrecera todas as ma��s do cesto �, Valda foi at� seus aposentos. Pretendia dormir no acampamento, mas um banho quente n�o seria nada mau.</p><p>Um jovem Filho de ombros largos se aproximou de Valda no corredor de pedra bruta, o cajado de pastor escarlate, s�mbolo da M�o da Luz, despontava por tr�s do fulgurante sol dourado em seu peito. Sem parar de andar, sem sequer olhar para Valda, o Questionador murmurou, em um tom muito deferente:</p><p>� Milorde Capit�o talvez devesse visitar o Domo da Verdade.</p><p>Valda franziu o cenho. N�o gostava de Questionadores � a seu modo, eles at� faziam um bom trabalho, mas sempre tivera a sensa��o de que aqueles homens s� optavam pelo cajado para evitar enfrentar um inimigo armado. Ele quase come�ou a falar, levantando bem a voz para vociferar uma bronca, mas se deteve. Questionadores eram desleixados com a disciplina, mas um reles Filho jamais falaria daquele jeito com um Senhor Capit�o sem que houvesse um motivo. Talvez o banho pudesse esperar.</p><p>O Domo da Verdade era uma vis�o maravilhosa, e o lugar enfim o ajudou a recobrar um pouco do bom humor. O exterior da constru��o era todo branco, e o interior folheado a ouro refletia a luz de mil lampi�es pendurados no teto. Espessas colunas brancas sem adornos, polidas at� reluzirem, circundavam a c�mara, mas o domo propriamente dito se estendia por mais cem passadas sem nenhum suporte e tinha cinquenta passadas de altura no cume, encimando o centro do aposento. Era l� que ficava o estrado simples de m�rmore branco, apoiado no piso tamb�m de m�rmore branco, onde o Senhor Capit�o Comandante dos Filhos da Luz se posicionava, de p�, para se dirigir aos Filhos nas reuni�es mais solenes, nas cerim�nias mais s�rias. Um dia, ele ficaria ali, de p�. Niall n�o viveria para sempre.</p><p>Dezenas de Filhos perambulavam pela enorme c�mara � era mesmo uma vis�o maravilhosa, embora ningu�m al�m dos Filhos jamais pudesse aproveit�-la. Bem, n�o recebera um chamado para admirar o Domo. Disso tinha certeza. Por tr�s das grandes colunas havia fileiras de colunas menores, t�o simples e t�o bem polidas quanto as maiores, al�m de nichos imensos onde afrescos de mais de mil anos ilustravam cenas de triunfos dos Filhos. Valda percorreu o aposento, observando cada reentr�ncia. Enfim notou o homem alto e agrisalhado examinando uma das pinturas � Serenia Latar sendo conduzida ao cadafalso; a �nica Amyrlin que os Filhos conseguiram enforcar. A mulher j� estava morta na ocasi�o, claro, at� porque � dif�cil conseguir enforcar uma bruxa viva, mas n�o era esse o ponto. Seiscentos e noventa e tr�s anos antes, a justi�a havia sido feita de acordo com a lei.</p><p>� Algum problema, meu filho? � A voz era suave, quase mansa.</p><p>Valda se enrijeceu um pouco. Rhadam Asunawa at� podia ser o Gr�o-inquisidor, mas ainda era um Questionador. E Valda era um Senhor Capit�o, Ungido pela Luz, n�o algu�m a ser tratado como �meu filho�.</p><p>� N�o que eu tenha percebido � respondeu, sem rodeios.</p><p>Asunawa suspirou. Seu rosto abatido era um retrato do sofrimento de um m�rtir, e o suor poderia ter passado por l�grimas, mas seus olhos profundos pareciam arder com o calor que cozinhara toda a carne que lhe faltava nas bochechas. Em seu manto havia apenas o desenho do cajado, sem nenhum sol reluzente, como se ele n�o fizesse parte dos Filhos � ou, talvez, como se estivesse acima de todos.</p><p>� Vivemos tempos confusos. A Fortaleza da Luz abriga uma bruxa.</p><p>Valda se conteve para n�o lan�ar um olhar ir�nico ao outro homem. Covardes ou n�o, os Questionadores podiam ser perigosos at� para um Senhor Capit�o. Aquele ali talvez jamais conseguiria enforcar uma Amyrlin, mas decerto sonhava em ser o primeiro a enforcar uma rainha. Valda n�o se importava se Morgase morreria ou n�o, desde que antes pudesse arrancar toda e qualquer serventia da mulher. Optou por simplesmente n�o responder, e as espessas sobrancelhas grisalhas de Asunawa baixaram, aumentando a cavidade de seus olhos at� eles parecerem espreitar de dentro de cavernas escuras.</p><p>� Vivemos tempos confusos � repetiu � e n�o podemos permitir que Niall destrua os Filhos da Luz.</p><p>Valda ficou longos minutos parado, examinando a pintura. Talvez o artista tivesse sido bom, talvez n�o � n�o entendia nada daquelas coisas e ligava para isso menos ainda. Bem, o sujeito fizera um trabalho decente com as armas e armaduras dos guardas, e a corda e o cadafalso pareciam reais. Daquilo ele entendia.</p><p>� Estou pronto para ouvir � declarou, por fim.</p><p>� Ent�o vamos conversar, meu filho. Mais tarde, quando houver menos olhos para ver e menos ouvidos para ouvir. Que a Luz o ilumine, meu filho.</p><p>Asunawa saiu andando sem mais uma palavra, o manto branco ondulando de leve, os passos ecoando t�o alto pelo aposento que parecia que o homem estava tentando cravar as botas nas pedras. Alguns dos Filhos se curvaram em profundas rever�ncias quando ele passou.</p><empty-line/><p>De uma janela estreita bem acima do p�tio, Niall ficou olhando enquanto Valda desmontava, falava com o jovem Bornhald e sa�a a passos firmes e irritados. Valda sempre estava irritado. Se houvesse como convocar os Filhos que estavam em Tar Valon e deixar Valda por l�, Niall teria feito isso alegremente. O homem at� era um comandante de batalha competente, mas era mais talhado para lidar com multid�es em polvorosa. Sua �nica ideia de t�tica era a investida, e sua estrat�gia� tamb�m era a investida.</p><p>Balan�ando a cabe�a, Niall seguiu para a c�mara de audi�ncias. Tinha assuntos mais importantes que Valda com que se preocupar. Morgase ainda resistia, firme feito um ex�rcito com vantagem territorial, �gua de sobra e moral elevado. A mulher se recusava a admitir que estava encurralada em um vale sem sa�da e que seu inimigo � que tinha a vantagem do terreno mais elevado.</p><p>Balwer se levantou da escrivaninha assim que Niall entrou na antessala.</p><p>� Omerna veio aqui, milorde. Deixou isto. � O homem indicou um ma�o de pap�is amarrados com fita vermelha sobre a mesa. � E isto. � Ele estreitou os l�bios finos quando tirou do bolso um min�sculo cilindro de osso.</p><p>Resmungando, Niall pegou o tubo e foi para a c�mara interna. Por algum motivo misterioso, Omerna estava mais in�til a cada dia. Deixar os relat�rios com Balwer j� era ruim o bastante, a despeito das bobagens que decerto continham, mas at� aquele maldito sabia muito bem que n�o deveria entregar nenhum daqueles tubos com tr�s listras vermelhas a ningu�m que n�o o pr�prio Niall. Analisou o tubo � luz de um lampi�o para examinar o lacre de cera � intacto. Abriu o lacre com a unha do polegar. Precisava ter uma conversa muito s�ria com Omerna, deixar o sujeito com tanto medo que ele imploraria para ser incendiado pela Luz. O imbecil n�o seria um bom disfarce para o verdadeiro chefe da espionagem se ao menos n�o tentasse fazer o trabalho da melhor maneira que podia.</p><p>Era outra mensagem de Varadin, naquela cifra secreta de Niall escrita em garranchos finos, cobrindo a tira de papel bem fino. Quase queimou a mensagem sem ler, at� que um detalhe bem no fim do bilhete lhe chamou a aten��o. Voltando ao come�o dos garranchos, foi decifrando a cifra de mem�ria. Queria ter certeza absoluta. Era o mesmo de sempre, alguma baboseira sobre Aes Sedai presas em coleiras e estranhas criaturas, at� que, bem no fim� Varadin tinha ajudado Asidim Faisar a encontrar um esconderijo em Tanchico. Mais tarde ele tentaria tirar Faisar da cidade sem ser reconhecido, mas os Predecessores estavam mantendo uma guarda t�o cuidadosa que nem um sussurro passava pelas muralhas sem permiss�o.</p><p>Niall esfregou o queixo, absorto. Faisar era um dos homens que enviara a Tarabon para ver se ainda poderiam salvar alguma coisa por l�. Faisar n�o sabia de Varadin, que tamb�m n�o deveria saber nada a respeito de Faisar. Os Predecessores mantinham uma guarda t�o cuidadosa que nem um sussurro passaria pelas muralhas. Garranchos de um louco.</p><p>Ele enfiou o papel no bolso e voltou para a antessala.</p><p>� Balwer, qual � a �ltima not�cia do oeste?</p><p>Entre eles, �oeste� sempre significava a fronteira com Tarabon.</p><p>� Nenhuma mudan�a, milorde. As patrulhas que chegam bem a fundo no territ�rio de Tarabon n�o conseguem voltar. O pior problema perto da fronteira s�o os refugiados tentando atravessar.</p><p>Patrulhas que chegavam bem a fundo. Tarabon era uma cova cheia de v�boras venenosas e ratos infectados, mas�</p><p>� Em quanto tempo voc� conseguiria mandar um mensageiro a Tanchico?</p><p>Balwer nem pestanejou. Ele n�o pareceria surpreso nem mesmo se algum dia seu cavalo come�asse a falar com ele.</p><p>� O problema � arranjar cavalos novos depois que o mensageiro cruzar a fronteira, milorde. Em circunst�ncias normais eu diria vinte dias para ir e voltar, talvez um pouco menos, num passo bom. Mas agora � o dobro disso, e se tivermos sorte. Talvez seja o dobro s� para chegar em Tanchico.</p><p>Aquela cidade era uma cova que poderia engolir um mensageiro. Nem os ossos seriam encontrados</p><p>Bem, o sujeito n�o precisaria voltar, mas Niall guardou a informa��o s� para si.</p><p>� Mande providenciarem um homem, Balwer. A carta estar� pronta em uma hora. Eu mesmo vou falar com o mensageiro.</p><p>Balwer assentiu com uma mesura, mas tamb�m esfregou as m�os no manto, ofendido. Que ficasse. Havia uma chance muito pequena de concretizar aquilo sem expor Varadin � precau��o desnecess�ria se o homem fosse mesmo insano, claro, mas se n�o fosse� Revelar a identidade do espi�o n�o aceleraria as coisas.</p><p>De volta � c�mara de audi�ncia, Niall analisou a mensagem de Varadin outra vez antes de tocar o papel na chama de uma lamparina e v�-lo se queimar. Amassou as cinzas entre os dedos.</p><p>O Senhor Capit�o Comandante dos Filhos da Luz sempre seguia quatro regras para lidar com as informa��es que recebia: nunca fazer planos sem saber o m�ximo poss�vel sobre o inimigo, nunca hesitar em mudar os planos quando surgisse uma nova informa��o, nunca acreditar que sabia tudo e nunca esperar at� saber tudo. Quem espera at� saber tudo fica sentado na tenda enquanto o inimigo ateia fogo na lona. Niall respeitava suas pr�prias regras. S� as deixara de lado uma vez na vida, seguindo uma intui��o � tinha sido em Jhamara, onde, por nenhuma raz�o al�m de uma comich�o no fundo da mente, destacara um ter�o do ex�rcito para vigiar montanhas que todos diziam serem intranspon�veis. Enquanto manobrava o restante das for�as para esmagar os murandianos e altaranos, um ex�rcito illianense que supostamente estava a cem milhas dali se abateu sobre o destacamento, vindo daquelas passagens �intranspon�veis�. S� p�de bater em retirada sem ser esmagado por ter seguido aquela �intui��o�. E ali estava, outra vez, a mesma comich�o.</p><empty-line/><p>� Eu n�o confio nele � declarou Tallanvor com firmeza. � Ele me lembra um jovem trapaceiro que encontrei certa vez em um festival, o camarada tinha uma cara de beb� inocente, conseguia olhar qualquer um nos olhos e ainda sorrir enquanto escondia a carta marcada na manga.</p><p>Daquela vez, Morgase achou at� f�cil controlar o g�nio. O jovem Paitr tinha relatado que o tio finalmente conseguiria dar um jeito de tir�-la sem ser vista da Fortaleza da Luz � ela e os outros. Os outros � que tinham sido o problema at� ent�o. J� fazia um tempo que Torwyn Barshaw declarara que conseguiria tir�-la de l� sozinha, mas Morgase n�o deixaria seus companheiros para tr�s, � merc� dos Mantos-brancos. N�o deixaria nem mesmo Tallanvor.</p><p>� Compreendo que voc� se sinta assim � respondeu ela de forma indulgente. � S� n�o v� deixar que esses sentimentos atrapalhem. Algum ditado que se encaixe nessa situa��o, Lini? Algo que possa ajudar o jovem Tallanvor a lidar com seus sentimentos? � Luz, por que sentia tanto prazer em provoc�-lo? O homem estava sempre a um passo da trai��o, mas ela era sua rainha, n�o� Recusava-se a concluir o pensamento.</p><p>Lini estava sentada perto das janelas, onde enrolava um novelo de l� azul da meada embolado nas m�os de Breane.</p><p>� Paitr me lembra aquele rapaz que foi ajudante de cavalari�o um pouco antes de voc� ir para a Torre Branca. Aquele que engravidou duas mo�as e foi pego tentando fugir da mans�o com uma saca cheia das pratarias da sua m�e.</p><p>Morgase comprimiu o maxilar, mas nada estragaria sua divers�o, nem mesmo o olhar de Breane, que parecia achar que tamb�m devia ter permiss�o de opinar. Paitr se deleitara com a fuga iminente de Morgase � em parte, claro, porque parecia esperar algum tipo de recompensa do tio, ou ao menos era o que dava a entender com alguns de seus coment�rios, algo sobre se redimir de um fracasso em casa. Bem, o jovem s� faltou sair dan�ando quando Morgase concordou com o plano que tiraria todos da Fortaleza naquele mesmo dia e os veria fora de Amador no p�r do sol do dia seguinte. Iriam para longe de Amador, a caminho de Ghealdan, onde arranjariam soldados que n�o tentariam tirar vantagem de Andor. Dois dias antes, o pr�prio Barshaw tinha ido discutir o plano com ela. O sujeito narigudo e atarracado viera disfar�ado de um lojista que fazia a entrega de agulhas de tric� e um novelo � o homem tinha olhar col�rico e boca zombeteira, mas suas palavras sa�ram com um respeito satisfat�rio. Dif�cil acreditar que aquele era tio de Paitr, sendo os dois t�o diferentes, e ainda mais dif�cil aceitar que o homem era mercador. Ao fim das contas, o plano era de uma simplicidade maravilhosa, ainda que n�o fosse muito digno, e s� precisava de uma quantidade suficiente de gente no exterior da Fortaleza para dar certo. Morgase sairia da Fortaleza da Luz enterrada no fundo de uma carro�a cheia de refugos da cozinha.</p><p>� Agora voc�s todos j� sabem o que fazer � anunciou. Contanto que ela permanecesse em seus aposentos, seus acompanhantes podiam se deslocar com uma liberdade consider�vel, e tudo dependia disso. Bem, nem tudo, mas todas as fugas que n�o a dela. � Lini, voc� e Breane t�m que estar no quintal da lavanderia quando o sino soar a hora mais alta. � Lini aquiesceu, complacente, mas Breane apenas a encarou, em sil�ncio, com um olhar de reprova��o. J� tinham repassado aquilo quase vinte vezes. Ainda assim, Morgase n�o permitiria que algu�m acabasse sendo deixado para tr�s por algum erro bobo. � Tallanvor, voc� deixar� a espada para tr�s e vai esperar na estalagem chamada O Carvalho e o Espinho. � O homem abriu a boca para protestar, mas ela se antecipou, firme. � J� ouvi suas argumenta��es. Voc� vai conseguir outra espada. Se deixar a arma aqui, v�o pensar que voc� pretende voltar. � Tallanvor fez cara feia, mas assentiu. � Lamgwin vai esperar na estalagem A Cabe�a Dourada, e Basel na�</p><p>Uma breve batidinha na porta, e ela se abriu o suficiente para dar acesso � cabe�a quase careca de Basel.</p><p>� Minha Rainha, tem um homem� um Filho� � Ele olhou por cima do ombro, para o corredor. � � um Questionador, minha Rainha.</p><p>Tallanvor levou as m�os ao punho da espada, claro, e s� as tirou de l� depois de Morgase gesticular duas vezes e olhar de cara feia para ele.</p><p>� Deixe-o entrar.</p><p>Conseguiu manter a voz calma, mas sentia um frio t�o intenso na barriga que era como se tivesse engolido um bloco de gelo. Um Questionador? Ser� que a situa��o estava prestes a piorar com a mesma rapidez com que come�ara a melhorar?</p><p>Um sujeito alto de nariz aquilino empurrou Basel para fora do caminho e fechou a porta na cara dele. O tabardo branco e dourado com o cajado carmesim despontando no ombro indicava sua patente de Inquisidor. Morgase n�o conhecia Einor Saren pessoalmente, mas j� tinham apontado o sujeito para ela na rua. Ele projetava uma seguran�a inabal�vel.</p><p>� Voc� foi convocada pelo Senhor Capit�o Comandante � anunciou o sujeito, tranquilo. � Voc� vir� agora mesmo.</p><p>Os pensamentos de Morgase se tornaram um turbilh�o. J� estava acostumada a ser convocada � Niall nunca ia at� ela, agora que a tinha como ref�m na Fortaleza �, chamada a comparecer perante o homem para mais um falat�rio sobre seu dever para com Andor ou para o que supostamente seria uma conversa amig�vel em que Niall tentaria provar que s� estava agindo de acordo com os interesses dela e de Andor. Estava acostumada com isso, mas n�o com aquele tipo de mensageiro. Se estivesse sendo entregue aos Questionadores, n�o haveria subterf�gios: Asunawa enviaria homens suficientes para arrast�-la dali e levar todos os seus companheiros junto. Morgase falara brevemente com o l�der dos Questionadores, e o homem lhe dera calafrios. Por que tinham enviado um Inquisidor para convoc�-la? Exp�s sua d�vida, e Saren respondeu com o mesmo tom de voz g�lido.</p><p>� Eu estava com o Senhor Capit�o Comandante e j� ia passar aqui perto. J� terminei o que tinha que fazer, agora vou lev�-la at� ele. A senhora � uma rainha, afinal, e merece o devido respeito. � O homem falou aquilo tudo com um ar meio aborrecido, um tanto impaciente, at� que no final um qu� de zombaria e ironia brotou em sua voz, que em nenhum momento perdeu a frieza.</p><p>� Muito bem � concordou ela.</p><p>� Devo acompanhar minha rainha? � Tallanvor fez uma mesura formal. Ao menos demonstrava defer�ncia quando havia algu�m de fora por perto.</p><p>� N�o. � Levaria Lamgwin em vez dele. N�o, nada disso: levar qualquer um dos homens faria parecer que Morgase achava que precisava de guarda-costas. Saren a apavorava quase tanto quanto Asunawa, mas n�o permitiria que o homem notasse nem o menor sinal de seu receio. A rainha abriu um sorriso casual e tolerante. � Tenho certeza de que n�o preciso de nenhuma prote��o aqui.</p><p>Saren tamb�m sorriu, ou ao menos sua boca se abriu em um sorriso. Mas parecia estar rindo dela.</p><p>Do lado de fora, quando Basel e Lamgwin lhe lan�aram olhares temerosos, Morgase quase mudou de ideia quanto a levar um acompanhante. E teria mesmo mudado, se n�o tivesse se pronunciado contra l� dentro. Bem, dois homens n�o tinham como proteg�-la, se aquilo de fato fosse alguma armadilha, e mudar de ideia seria uma demonstra��o de fraqueza. E ela com certeza se sentiu fraca enquanto avan�ava pelos corredores de pedra ao lado de Saren, n�o parecia em nada com uma rainha. N�o mesmo. Talvez gritasse como uma pessoa qualquer, se os Questionadores a trancassem em suas masmorras � bem, n�o havia talvez nesse caso. N�o era tola o bastante para acreditar que a carne da realeza era diferente de qualquer outra, numa situa��o como aquela. Ainda assim, seria quem era enquanto a situa��o permitisse. Usando toda a sua for�a de vontade, tratou de ignorar o bloco de gelo na barriga.</p><p>Saren a conduziu at� um pequeno p�tio de lajotas, onde homens de peito nu golpeavam postes de madeira com a espada.</p><p>� Aonde vamos? � perguntou ela. � Este n�o � o mesmo caminho que fiz das outras vezes para o gabinete do Senhor Capit�o Comandante. Ele est� em outro lugar?</p><p>� Eu peguei o caminho mais curto � retrucou o homem, com aspereza. � Tenho assuntos mais importantes para tratar do que� � Ele n�o concluiu a frase e nem diminuiu o passo.</p><p>Morgase n�o teve op��o sen�o segui-lo corredor adentro, passando por fileiras de quartos compridos cheios de catres estreitos e homens, a maioria de peito nu ou vestindo ainda menos. Manteve os olhos fixos nas costas de Saren, formulando as frases duras que pretendia dizer a Niall. Eles cruzaram o p�tio de um est�bulo, o ar fedendo a cavalos e esterco, onde um ferrador manipulava as patas dos cavalos a um canto; depois percorreram mais um corredor de casernas; depois outro, onde as cozinhas de um dos lados emanavam um forte aroma de ensopado no fogo; at� que chegaram a outro p�tio� Morgase ficou paralisada.</p><p>Um cadafalso alto e comprido repousava no centro do p�tio. Tr�s mulheres e mais de dez homens estavam sobre ele, as m�os e os p�s atados, n�s apertados em volta dos pesco�os. Alguns choravam copiosamente, mas a maioria apenas parecia aterrorizada. Os dois �ltimos homens na extremidade oposta eram Torwyn Barshaw e Paitr � o garoto estava s� de camisa, em vez do casaco vermelho e branco que Morgase mandara fazer especialmente para ele. Paitr n�o estava chorando, mas seu tio, sim. Paitr parecia horrorizado demais para as l�grimas.</p><p>� Pela Luz! � bradou um oficial Manto-branco, e outro empurrou uma alavanca comprida na ponta do cadafalso.</p><p>Os al�ap�es abaixo de cada pessoa se abriram com estalos ruidosos, e as v�timas sumiram de vista. Algumas das cordas estiradas tremeram enquanto os homens e as mulheres nas extremidades se engasgavam e perdiam a vida, sem a piedade da morte r�pida por um pesco�o quebrado. Paitr foi uma das mortes lentas � e a fuga t�o bem orquestrada de Morgase morria com ele. Talvez devesse ter ficado t�o preocupada com o rapaz quanto estava por si pr�pria, mas s� conseguia pensar na fuga, na sa�da da armadilha em que ela pr�pria se metera. Estava presa, e Andor estava ali junto com ela.</p><p>Saren a encarava e estava �bvio que esperava que a rainha fosse desmaiar ou vomitar.</p><p>� Tanta gente de uma s� vez? � perguntou, orgulhosa do equil�brio em sua voz.</p><p>A corda de Paitr parara de se agitar, s� balan�ava devagar para um lado e para o outro. N�o haveria fuga.</p><p>� Enforcamos Amigos das Trevas todos os dias � respondeu Saren, seco. � Em Andor voc� talvez os liberte depois de um simples serm�o. N�s n�o somos indolentes.</p><p>Morgase retribuiu o olhar do homem. O caminho mais curto, �? Ent�o aquela era a nova t�tica de Niall: n�o ficou surpresa por n�o ouvir nenhuma men��o ao seu plano de fuga, o Senhor Capit�o Comandante era sutil demais para isso. Morgase era uma h�spede de honra, e Paitr e seu tio tinham sido enforcados por acaso por algum crime que nada tinha a ver com sua presen�a ali. Quem seria o pr�ximo a ir para a forca? Lamgwin ou Basel? Lini ou Tallanvor? Estranho, mas pensar em Tallanvor com uma corda no pesco�o do�a ainda mais que pensar em Lini na mesma situa��o. A mente pregava pe�as bem peculiares. Vislumbrou Asunawa por cima do ombro de Saren, encarando-a de uma janela que dava para o cadafalso. Olhando diretamente para ela. Talvez aquilo fosse obra dele, n�o de Niall. N�o fazia diferen�a. N�o podia permitir que sua gente morresse � toa. N�o podia permitir que Tallanvor morresse. Pe�as bem peculiares, mesmo, as que a mente pregava.</p><p>Arqueando a sobrancelha em uma express�o de deboche, ela declarou, em uma voz suave e nem um pouco afetada pelo que acabara de ver:</p><p>� Se a cena o deixou de pernas bambas, acho que podemos esperar at� voc� recobrar suas for�as.</p><p>Que a Luz permitisse que n�o vomitasse.</p><p>Saren fechou a cara, deu meia-volta e saiu andando. Morgase o seguiu em um passo imponente, sem olhar para a janela de Asunawa e tentando n�o pensar no cadafalso.</p><p>Talvez fosse mesmo o caminho mais curto, j� que, no corredor seguinte, Saren a conduziu por lances de escada bem �ngremes que a deixaram na c�mara de audi�ncias de Niall mais depressa do que ela se lembrava de ter chegado nas outras vezes. Como de costume, Niall n�o se levantou e n�o havia cadeira para ela, de forma que era obrigada a ficar de p� diante dele, feito uma peticion�ria. O homem parecia distra�do, sentado em sil�ncio, encarando-a sem parecer enxerg�-la.</p><p>Niall vencera, mas n�o estava nem olhando para ela. Ficou irritada com aquilo. Luz, o homem tinha vencido. Talvez devesse voltar para seus aposentos. Se mandasse Tallanvor, Lamgwin e Basel a tirarem de l� � for�a, os homens tentariam. Iam morrer, assim como ela. Morgase jamais empunhara uma espada, mas, se desse essa ordem absurda, pegaria em uma. Ela morreria, e Elayne ocuparia o Trono do Le�o � assim que al�Thor fosse tirado de l�, claro. A Torre Branca cuidaria para que Elayne ficasse com o que era dela. A Torre. Se a Torre garantisse o trono para sua filha� Parecia loucura, mas confiava ainda menos na Torre do que em Niall. N�o, precisava salvar Andor por conta pr�pria. Mas haveria um pre�o. E esse pre�o devia ser pago.</p><p>Teve que for�ar as palavras a sa�rem:</p><p>� Estou pronta para assinar seu acordo.</p><p>Niall nem pareceu ouvir. Ent�o piscou e, logo depois, de repente, soltou uma risada ir�nica e balan�ou a cabe�a. Aquilo tamb�m a irritou. Fingir surpresa. N�o tinha tentado fugir. Era uma h�spede. Como queria ver aquele homem pendurado no cadafalso.</p><p>O Senhor Capit�o Comandante agiu t�o depressa que Morgase quase duvidou de sua apatia de momentos antes. Em poucos instantes, mandou entrar o secret�rio caqu�tico, trazendo um longo pergaminho com tudo j� escrito e at� uma c�pia do selo de Andor � t�o bem-feita que nem ela conseguiria distinguir do selo original.</p><p>Mesmo n�o tendo escolha sobre assinar ou n�o, fez quest�o de ler os termos: n�o havia nada diferente do que esperara. Niall lideraria os Mantos-brancos na retomada do trono, mas havia um pre�o, ainda que no acordo n�o fosse apresentado desta maneira: mil Mantos-brancos se aquartelariam em resid�ncia permanente em Caemlyn, com seus pr�prios tribunais e sem se sujeitar � lei de Andor, al�m de a ordem de Mantos-brancos passar a ser considerada igual � Guarda da Rainha e com o mesmo poder por toda Andor. Poderia levar a vida inteira para desfazer aquele acordo, e tamb�m a vida de Elayne, mas a alternativa era al�Thor levar o Trono do Le�o como trof�u. Se alguma mulher voltasse a reinar ali, seria Elenia, Naean ou algu�m dessa estirpe, e apenas como fantoche de al�Thor. Era isso ou Elayne como fantoche da Torre, e <emphasis>n�o conseguia</emphasis> se convencer de que podia confiar na Torre.</p><p>Assinou seu nome com caligrafia precisa e pressionou o Selo falso na cera vermelha que o secret�rio de Niall pingou ao p� da p�gina. O Le�o de Andor cercado pela Coroa de Rosas. Pronto, era a primeira rainha a aceitar soldados estrangeiros em solo andoriano.</p><p>� As legi�? � A pergunta saiu com mais dificuldade do que imaginara. � As legi�es partir�o em quanto tempo?</p><p>Niall hesitou, encarando a mesa � frente. N�o havia nada ali al�m de caneta e tinta, uma tigela de p� de pedra-pomes e um toco de cera de selagem rec�m-queimado, como se ele tivesse acabado de escrever uma carta. O homem rabiscou a pr�pria assinatura no acordo e gravou seu selo, um sol fulgurante em cera dourada, ent�o entregou o pergaminho para o secret�rio.</p><p>� Guarde na sala de documenta��o, Balwer. E receio que eu n�o v� conseguir avan�ar t�o r�pido quanto esperava, Morgase. Preciso considerar algumas quest�es que v�m se desenrolando. Mas n�o precisa se preocupar. � s� uma quest�o de como se deslocar melhor nas �reas que n�o t�m rela��o com Andor. Insisto que veja esse pequeno adiamento apenas como um tempo a mais para que eu possa desfrutar de sua companhia.</p><p>Balwer fez uma rever�ncia graciosa, ainda que um tanto austera, mas Morgase teve a impress�o de que o homem estivera prestes a encarar Niall com alguma surpresa. Ela mesma por pouco n�o ficou boquiaberta. O homem a pressionara sem parar desde que ela chegara ali, mas agora tinha outras quest�es a considerar? Balwer saiu apressado, como se temesse que Morgase fosse tentar pegar o documento de volta e rasg�-lo, mas n�o poderia estar mais enganado. Ao menos n�o haveria mais enforcamentos. Tudo o mais seria resolvido quando fosse poss�vel. Um passo de cada vez. Sua resist�ncia tenaz acabara falhando, mas agora tinha tempo de novo � o tempo era uma d�diva inesperada que n�o podia ser desperdi�ada. Ent�o ele queria o prazer de sua companhia?</p><p>Morgase abriu um sorriso caloroso.</p><p>� Eu sinto como se tivesse tirado um grande um peso dos meus ombros. Ora, o senhor joga pedras?</p><p>� Sou conhecido como um jogador razo�vel. � O sorriso em resposta foi primeiro de surpresa, depois de anima��o.</p><p>A rainha ruborizou, mas conseguiu se controlar para n�o demonstrar raiva. Talvez fosse melhor Niall achar que a tinha derrotado. Ningu�m vigiava um inimigo combalido com tanta aten��o nem o mantinha em t�o alta conta, e, se ela tomasse cuidado, poderia come�ar o processo de recuperar aquilo de que abrira m�o antes mesmo de os soldados de Niall deixarem Amad�cia. Morgase tivera um excelente professor no Jogo das Casas.</p><p>� Bem, tentarei n�o ser uma advers�ria t�o ruim, caso o senhor aceite jogar.</p><p>Ela era bem mais que razo�vel no jogo das pedras, e talvez fosse at� mais que uma boa jogadora, mas teria que perder, claro. Bem, n�o podia perder t�o feio a ponto de deix�-lo entediado. Odiava perder.</p><empty-line/><p>Franzindo o cenho, Asunawa tamborilava os dedos no bra�o coberto de douraduras da cadeira. Acima de sua cabe�a, no espaldar, fora entalhado um cajado de pastor trabalhado em laca brilhante sobre um disco branco.</p><p>� A bruxa ficou surpresa � murmurou.</p><p>Saren respondeu como se aquilo fosse uma acusa��o.</p><p>� Os enforcamentos afetam mesmo algumas pessoas. Aqueles Amigos das Trevas foram apanhados ontem, pelo que ouvi estavam entoando algum catecismo para a Sombra quando Trom arrombou a porta. Eu at� perguntei aos Filhos que os capturaram, mas ningu�m pensou em tentar descobrir se algum deles tinha rela��o com ela. � Pelo menos o homem conseguiu evitar remexer os p�s, permanecendo com uma postura t�o ereta quanto era apropriado para um integrante da M�o da Luz.</p><p>Asunawa dispensou as explica��es com um discreto aceno. Claro que n�o havia rela��o entre ela e aqueles condenados � forca, afora o fato de que Morgase era uma bruxa e aqueles eram Amigos das Trevas. A bruxa estava na Fortaleza da Luz, afinal. Ainda assim, estava incomodado.</p><p>� Niall me mandou busc�-la como se eu fosse um cachorro � reclamou Saren. � Quase vomitei tudo o que tinha no est�mago s� por estar t�o perto de uma bruxa. Minhas m�os chegaram a tremer de vontade de agarrar a garganta da maldita.</p><p>Asunawa n�o seu deu ao trabalho de responder e mal escutou. Claro que Niall odiava a M�o. A maioria dos homens odiava o que temia. N�o, seus pensamentos estavam voltados para Morgase. A mulher n�o era fraca, n�o mesmo. Tinha conseguido se defender bem de Niall, e ainda mais quando a maioria teria desabado logo depois de entrar na Fortaleza. A mulher arruinaria parte dos planos dele se acabasse se mostrando fraca, afinal. J� tinha todos os detalhes na cabe�a, cada dia do julgamento dela, com embaixadores de cada terra que ainda era capaz de enviar um, at� que Morgase enfim fizesse sua confiss�o dram�tica, arrancada com tamanha habilidade que ningu�m encontraria nenhum vest�gio em seu corpo. Ent�o viriam as cerim�nias da execu��o. Um cadafalso especial s� para ela, a ser preservado posteriormente para marcar a ocasi�o.</p><p>� Vamos torcer para que ela continue resistindo a Niall � afirmou, abrindo um sorriso que alguns definiriam como brando e devoto. Nem mesmo a paci�ncia de Niall poderia durar para sempre. Ao final, ele teria que entreg�-la � justi�a.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 32</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Convoca��o �s pressas</p></title><p>Para Egwene, a visita de Rand a Cairhien lembrava uma daquelas grandes apresenta��es de fogos de artif�cio de Iluminadores das quais apenas ouvira, mas que nunca tinha visto. O reverberar dos ecos parecia n�o ter fim.</p><p>N�o voltou ao pal�cio, claro, mas as S�bias que iam at� l� todos os dias em busca de armadilhas montadas com <emphasis>saidar</emphasis> contavam o que se passava. Nobres se entreolhavam com desconfian�a, tanto tairenos quanto cairhienos. Berelain parecia estar se escondendo de algo, recusando-se a receber qualquer pessoa cuja audi�ncia n�o fosse absolutamente necess�ria. Ao que parecia, Rhuarc ralhara com ela por negligenciar suas obriga��es, mas o efeito foi m�nimo. Ali�s, o chefe do cl� parecia ser o �nico indiferente em todo o pal�cio � at� os servi�ais se sobressaltavam quando algu�m olhava para eles, embora isso talvez se devesse ao fato de as pr�prias S�bias estarem por todos os cantos.</p><p>Nas tendas, a situa��o n�o era muito melhor, ao menos n�o entre as S�bias � os outros Aiel estavam como Rhuarc: calmos e firmes. O contraste de posturas fazia a rabugice das S�bias ainda maior em um momento em que j� era grande o suficiente. Amys e Sorilea voltaram do encontro com Rand quase espumando de raiva. N�o disseram por qu�, pelo menos n�o na frente de Egwene, mas o sentimento se espalhou pelas S�bias mais r�pido que um raio, at� que cada uma delas come�ou a andar por a� feito gatas eri�adas prontas para enfiar as garras em qualquer coisa que se mexesse. As aprendizes andavam pisando em ovos e falando manso, mas continuavam levando broncas pelo que antes teria passado despercebido e recebendo puni��es pelo que em circunst�ncias normais teria resultado em apenas uma bronca.</p><p>Ver as S�bias Shaido no acampamento n�o ajudava � pelo menos Therava e Emerys eram S�bias, a terceira era a pr�pria Sevanna, andando para cima e para baixo cheia de si, usando a blusa t�o aberta que rivalizava com Berelain, n�o importava quanto o vento soprasse a poeira. Therava e Emerys afirmavam que Sevanna era uma S�bia, e, apesar dos resmungos de Sorilea, eram obrigadas a aceit�-la como tal. Egwene tinha certeza de que as mulheres estavam ali para espionar, mas Amys s� olhava feio sempre que ela insinuava aquilo. Protegidas pelos costumes, as mulheres tinham passagem livre pelas tendas e eram bem recebidas por todas as S�bias, inclusive Sorilea, acolhidas como amigas �ntimas ou irm�s-primeiras. Ainda assim, a presen�a delas piorava o humor de todos � o de Egwene em especial. Sevanna, aquela pantera de sorriso afetado, sabia quem ela era e n�o se esfor�ava para esconder seu prazer em mandar �a aprendiz baixinha� ir buscar um copo d��gua ou qualquer outra besteira em toda oportunidade. E Sevanna tamb�m a encarava com um olhar anal�tico, um olhar que lembrava Egwene de algu�m analisando uma galinha e pensando em como a cozinharia depois de roub�-la. E n�o parava por a�: para piorar, as S�bias n�o lhe contavam sobre o que conversavam com as Shaido � era assunto das S�bias, n�o das aprendizes. Qualquer que fosse o motivo para aquelas tr�s estarem ali, seu interesse no comportamento das outras S�bias era evidente. Mais de uma vez, em momentos em que Sevanna achava que n�o estava sendo observada, Egwene a flagrou sorrindo ao ver Amys, Malindhe ou Cosain passarem por ela falando sozinhas ou ajeitando o xale sem necessidade. Claro que ningu�m dava ouvidos a Egwene, e um excesso de advert�ncias a respeito das Shaido acabaram por lhe render a puni��o de passar quase um dia todo cavando um buraco �grande o bastante para se enfiar l� dentro sem ser vista� � e, para coroar o castigo, quando saiu do buraco toda suja e ensopada de suor para obedecer �s ordens de tap�-lo de novo, viu que Sevanna a observava.</p><p>Dois dias depois da partida de Rand, Aeron e algumas outras S�bias mandaram tr�s Donzelas pularem escondidas a muralha do pal�cio de Arilyn, � noite, para ver o que conseguiam descobrir, e isso s� piorou a situa��o. As tr�s conseguiram passar despercebidas pelos guardas de Gawyn, mesmo que com mais dificuldade do que esperavam, mas passar pelas Aes Sedai acabou sendo mais complicado. Quando ainda estavam no topo do telhado, tentando encontrar uma maneira de adentrar o s�t�o, acabaram envolvidas por tramas do Poder e puxadas para dentro do casar�o. Por sorte, Coiren e as outras pareceram pensar que as Aiel s� estavam ali para roubar, embora as Donzelas talvez n�o tivessem considerado aquilo tanta sorte. As tr�s foram jogadas de volta na rua depois de uma sova t�o grande que mal conseguiam andar � ainda estavam tentando conter os gemidos de dor quando voltaram para as tendas. As S�bias se revezaram repreendendo Aeron e as amigas, quase todas em particular, mas Sorilea pareceu fazer quest�o de confront�-las diante do m�ximo de gente poss�vel. Sevanna e as outras duas Shaido sorriam com um desd�m bem expl�cito sempre que avistavam Aeron ou uma das outras, especulando em tons bastante aud�veis sobre o que as Aes Sedai fariam quando descobrissem a verdade sobre a invas�o. At� Sorilea olhou torto para as tr�s ao ouvir os coment�rios, mas ningu�m se pronunciou. Aeron e suas amigas passaram a andar parecendo pisar nos mesmos ovos que as aprendizes, que come�aram a tentar se esconder sempre que n�o estavam desempenhando suas tarefas habituais ou envolvidas nas aulas. Os �nimos ficaram ainda mais exaltados.</p><p>Fora o buraco que tivera que cavar, Egwene conseguiu evitar o pior daquilo tudo, mas s� porque passava boa parte do tempo longe das tendas � e o fazia sobretudo para ficar longe de Sevanna, antes que acabasse dando uma li��o na mulher. N�o tinha d�vidas de como terminaria, caso ousasse se manifestar: Sevanna era aceita como S�bia, n�o importava as caras feias quando ela n�o estava por perto, e Amys e Bair provavelmente deixariam as Shaido pensarem em um castigo para Egwene. Pelo menos n�o era t�o dif�cil ficar afastada. Ela podia ser aprendiz, mas s� Sorilea fazia qualquer esfor�o para lhe ensinar as milhares de coisas que uma S�bia precisava saber, e at� Amys e Bair lhe darem permiss�o para voltar a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, Egwene tinha os dias e as noites livres � s� precisava dar um jeito de escapar de ser convocada, junto com Surandha e as outras aprendizes, para lavar a lou�a, recolher esterco para as fogueiras ou coisa parecida.</p><p>Egwene n�o conseguia entender por que os dias pareciam passar t�o devagar. Achava que podia ter algo a ver com ter que esperar a decis�o de Amys e Bair. Encontrava Gawyn na estalagem O Homem Comprido todas as manh�s, e j� estava acostumada com os sorrisinhos sugestivos da estalajadeira gorducha, apesar de ter considerado dar um belo pontap� na mulher em uma ou duas ocasi�es. Talvez tr�s, por�m n�o mais que isso. Ah, aquelas horas da manh� passavam voando. Mal se sentava no colo dele e j� era hora de endireitar o cabelo e ir embora. N�o ficava mais incomodada de se sentar no colo de Gawyn � n�o que algum dia isso a tivesse incomodado de verdade, mas a experi�ncia foi ficando cada vez melhor. Se por vezes pensava coisas que n�o deveria, e se esses pensamentos a faziam enrubescer� bem, nessas horas Gawyn sempre passava os dedos em seu rosto, murmurando seu nome de um jeito que ela poderia ouvi-lo repetir a vida inteira. O rapaz deixava escapar menos sobre o que vinha se passando com as Aes Sedai do que ela ficava sabendo em outros lugares, mas Egwene mal se importava.</p><p>Eram as outras horas que se arrastavam como se estivessem atoladas na lama. Havia t�o pouco a fazer que ela achava que ia acabar explodindo de tanta frustra��o. As S�bias escolhidas para ficar de olho na mans�o de Arilyn n�o relataram mais nenhuma novidade sobre a presen�a das Aes Sedai � escolhidas entre as que eram capazes de canalizar, as vigias afirmavam que as mulheres da Torre continuavam manejando o Poder l� dentro dia e noite sem parar, mas Egwene n�o ousava se aproximar. Mesmo se tivesse coragem, n�o saberia o que elas estavam fazendo sem ver os fluxos. Se as S�bias n�o estivessem t�o irritadi�as, poderia passar o tempo lendo em sua tenda � na �nica vez em que pegou um livro, a n�o ser � noite, sob a luz de uma lamparina, Bair resmungou tanto sobre as garotas que desperdi�avam os dias deitadas com pregui�a que Egwene acabou murmurando que se esquecera de alguma coisa s� para sair correndo, antes que a S�bia lhe arrumasse alguma coisa para fazer. E uma conversa de poucos instantes com uma aprendiz poderia ser t�o perigosa quanto pegar um livro: ser flagrada por Sorilea em uma pequena pausa para falar com Surandha, escondida sob a sombra de uma tenda dos C�es de Pedra, lhe rendeu uma tarde inteira cuidando da lavagem das roupas. At� teria ficado feliz em cuidar de algumas tarefas pelo simples fato de ter o que fazer, mas Sorilea foi examinar as roupas impecavelmente limpas penduradas dentro da tenda, protegidas da poeira onipresente, fungou e mandou que fizessem tudo de novo � e isso aconteceu duas vezes! Sevanna tamb�m testemunhou parte desse castigo.</p><p>Quando ia � cidade, Egwene sempre ficava tensa � ainda assim, no terceiro dia, foi de fininho at� as docas, se esgueirando como um rato roubando leite de um gato. Um sujeito todo enrugado com um barquinho estreito co�ou o cocuruto coberto de cabelos ralos e pediu um marco de prata para lev�-la a remo at� o navio do Povo do Mar. Nada na vida era de gra�a, mas aquele pre�o era rid�culo. Egwene encarou o homem, respondendo que ele receberia apenas uma moeda comum de prata � o que ainda era bem caro, ali�s �, e esperou que a barganha que viria a seguir n�o lhe custasse todas as moedas da bolsa, pois n�o tinha muitas. Todos se sobressaltavam ou se encolhiam diante dos Aiel, mas, quando o assunto era dinheiro, esqueciam-se do <emphasis>cadin�sor</emphasis> e das lan�as e lutavam feito le�es. O homem abriu a boca banguela, ent�o fechou, espiou Egwene de cima a baixo, resmungou para si mesmo e, para a surpresa da garota, aceitou, acrescentando que ela estava roubando o pouco p�o que ele tinha para comer.</p><p>� Vamos logo � grunhiu o sujeito. Vamos de uma vez. N�o posso perder o dia todo por essa ninharia. Ora, essa mulher querendo intimidar um pobre trabalhador. Querendo roubar meu �ltimo naco de p�o.</p><p>Ele n�o parou de resmungar mesmo quando come�ou a remar, impulsionando o barco min�sculo para as vastas �guas do Alguenya.</p><p>Egwene n�o sabia se Rand j� encontrara essa Senhora das Ondas, mas esperava que sim. De acordo com Elayne, o Drag�o Renascido era o Coramoor do Povo do Mar, o Escolhido, e bastava ele aparecer para que aquela gente atendesse a todos os seus chamados. Ainda assim, torcia para que o Povo do Mar n�o tivesse se rebaixado tanto. Rand j� tinha gente de mais disposta a lhe beijar os p�s. Mas n�o fora at� l� com aquele barqueiro ranzinza por causa de Rand. Elayne conhecera alguns Atha�an Miere, viajara em um de seus navios. E a amiga dizia que as Chamadoras de Ventos do Povo do Mar podiam canalizar � ao menos algumas delas. Talvez a maioria. Tratava-se de um segredo que os Atha�an Miere guardavam muito bem, mas a Chamadora de Ventos da embarca��o de Elayne estivera mais do que disposta a compartilhar seus conhecimentos, depois de ser descoberta. Uma Chamadora de Ventos do Povo do Mar entendia bem dos assuntos do clima, e Elayne alegava que elas sabiam ainda mais do assunto do que as Aes Sedai, dizendo que a Chamadora de Ventos do navio em que estivera tecera fluxos enormes para gerar ventos favor�veis. Egwene n�o tinha ideia de quanto daquilo era verdade e quanto era apenas empolga��o, mas aprender um pouco sobre o clima com certeza seria melhor do que ficar de bra�os cruzados, sem conseguir decidir se ser pega por Nesune talvez n�o fosse melhor do que lidar com as S�bias e Sevanna. Com o que sabia at� ent�o, n�o conseguiria fazer chover nem se os c�us estivessem negros � mas conseguiria invocar rel�mpagos. Bem, o sol ardia, dourado, no c�u sem nuvens, e ondas de calor dan�avam sobre a �gua escura. Pelo menos n�o havia poeira rio adentro.</p><p>Quando o barqueiro finalmente recolheu os remos e deixou a pequena embarca��o deslizar at� a lateral do navio, Egwene se levantou, ignorando os resmungos do homem de que acabaria fazendo ambos ca�rem no rio.</p><p>� Ol�? � gritou. � Ol�? Posso subir a bordo?</p><p>Egwene j� estivera em v�rias embarca��es fluviais e se orgulhava de conhecer os termos corretos � aquela gente da navega��o se ofendia sempre que ouvia um termo errado �, mas aquele navio era diferente. J� vira embarca��es mais longas, por�m nenhuma t�o alta. Parte da tripula��o estava nos cordames ou escalando os mastros obl�quos � homens de pele escura e peito nu, descal�os, trajando cal�as coloridas folgadas presas por faixas brilhantes, e mulheres de pele escura com blusas de cores fortes.</p><p>Estava prestes a gritar outra vez, ainda mais alto, quando uma escada de cordas se desenrolou na lateral da embarca��o. N�o ouviu resposta do conv�s, mas aquilo parecia convite o bastante. Egwene subiu. Foi dif�cil � n�o a escalada, e sim manter as saias fechadas e as pernas cobertas com um m�nimo de dec�ncia, o que a fez entender por que as mulheres do Povo do Mar usavam cal�as �, mas acabou chegando � amurada.</p><p>Seus olhos logo pousaram sobre uma mulher no conv�s, a menos de uma bra�a de dist�ncia. A blusa e as cal�as eram de seda azul, com uma faixa mais escura na cintura. Ela usava tr�s argolas de ouro trabalhadas em cada orelha, al�m de uma correntinha da qual pendiam min�sculos medalh�es cintilantes descendo de uma das orelhas at� uma argola no nariz. Elayne descrevera a joia e at� chegara a mostr�-la em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas ver a coisa ao vivo fez Egwene se encolher. S� que havia algo mais: conseguia sentir a capacidade de canalizar da mulher. Encontrara a Chamadora de Ventos.</p><p>Ela abriu a boca para falar com a mulher, ent�o uma m�o escura empunhando uma adaga reluzente surgiu de repente diante dos seus olhos. Antes que pudesse gritar, a l�mina cortou as cordas da escada. Ainda se segurando no objeto j� sem serventia, Egwene despencou.</p><p>Foi s� ent�o que gritou � o grito durou um piscar de olhos, ent�o ela caiu no rio, os p�s mergulhando primeiro, afundando rapidamente. A �gua entrou depressa em sua boca aberta, abafando o grito. Achou que tinha engolido metade do rio. Ela se debateu, tentando desenrolar as saias em volta da cabe�a e se livrar do que restava da escada. N�o entrou em p�nico. N�o entrou. Qu�o fundo mergulhara? Via apenas uma escurid�o lamacenta ao redor. Para que lado ficava a superf�cie? Tiras de ferro apertavam seu peito, mas ela expirou pelo nariz e ficou olhando o caminho das bolhas, que lhe pareceram ir para baixo e para a esquerda. Virou-se e nadou para a superf�cie. Faltava muito? Os pulm�es ardiam.</p><p>Sua cabe�a irrompeu para a luz do dia e, engasgando e tossindo, Egwene respirou fundo. Para a sua surpresa, o barqueiro estendeu a m�o e a arrastou aos poucos para dentro do barco, resmungando para que ela parasse de se debater antes que irritasse as pessoas no navio, acrescentando que o Povo do Mar era uma gente muito sens�vel. O homem se inclinou de volta para recuperar o xale de Egwene antes que a pe�a afundasse de volta. Apanhou o xale das m�os do barqueiro, que recuou como se pensasse que ela iria bater nele com o tecido molhado. Sentia as saias pesadas, a blusa e a an�gua grudando no corpo, o len�o todo torto no meio da testa. Uma po�a come�ou a se formar sob seus p�s no ch�o do barco.</p><p>O barquinho estava a cerca de vinte passadas do navio. A Chamadora de Ventos estava na amurada, junto com mais duas mulheres, uma usando roupas de seda verde comum e a outra com vestes de um tecido vermelho bordado com fios de ouro. Os brincos, an�is e correntes refletiam o sol.</p><p>� O presente da passagem � negado a voc� � afirmou a mulher de verde, e a de vermelho gritou:</p><p>� Avise �s outras que esses disfarces n�o nos enganam. N�o temos medo de voc�s. O presente da passagem � negado a todas voc�s!</p><p>O barqueiro encarquilhado pegou os remos, mas Egwene apontou o dedo em riste bem para o nariz estreito dele.</p><p>� Pare agora mesmo � ordenou Egwene. Como ousavam jog�-la na �gua daquele jeito, sem uma palavra de cortesia?</p><p>Egwene respirou fundo, abra�ou <emphasis>saidar</emphasis> e canalizou quatro fluxos antes que a Chamadora de Ventos pudesse reagir. Ent�o a mulher entendia do clima, era? Ser� que tamb�m conseguiria canalizar quatro fluxos de uma vez? N�o eram muitas as que conseguiam, nem mesmo entre as Aes Sedai. Com um fluxo de Esp�rito, ela blindou a Chamadora de Ventos para impedi-la de interferir � isso se a mulher soubesse como. Todos os outros tr�s foram de Ar, tecidos com toda a delicadeza ao redor de cada mulher, prendendo seus bra�os � lateral do corpo. Ergu�-las no ar n�o foi exatamente dif�cil, mas tamb�m n�o foi f�cil.</p><p>A tripula��o do barco gritou quando as mulheres come�aram a levitar at� o rio. Egwene escutou o barqueiro se lamuriando, mas n�o estava interessada nele. As tr�s mulheres do Povo do Mar sequer protestaram. Fazendo um esfor�o, ergueu-as ainda mais, a dez ou vinte passadas da superf�cie. N�o importava quanto se empenhasse, aquele parecia ser seu limite. <emphasis>Bem, n�o quero machucar ningu�m,</emphasis> pensou, soltando os fluxos. <emphasis>Agora elas v�o gritar</emphasis>.</p><p>As tr�s se enrolaram feito bolas assim que come�aram a cair, giraram e estenderam os corpos com os bra�os esticados � frente. Mergulharam graciosamente, quase sem espirrar �gua. Momentos depois, tr�s cabe�as escuras despontaram na superf�cie, e as mulheres nadaram depressa de volta para o navio.</p><p>Egwene fechou a boca. <emphasis>Se eu erguer as tr�s pelo tornozelo e enfiar a cabe�a de cada uma na �gua, a� elas v�o�</emphasis> O que estava pensando? Aquelas mulheres tinham que gritar s� porque ela gritara? N�o estava mais ou menos molhada do que as tr�s. <emphasis>Devo estar parecendo uma rata molhada!</emphasis> Canalizou com cuidado � empregar os fluxos em si mesma sempre exigia cautela, j� que n�o conseguia ver a trama muito bem �, e a �gua foi escorrendo do corpo, se esvaindo das roupas. A po�a no ch�o do barco aumentou.</p><p>S� quando notou que o barqueiro a encarava com a boca escancarada e os olhos esbugalhados � que ela se deu conta do que fizera. Tinha canalizado no meio do rio, sem nada para escond�-la de qualquer Aes Sedai que pudesse ver. Com ou sem sol, de repente sentiu os ossos gelarem.</p><p>� Agora j� pode me levar de volta para a margem. � N�o havia como saber quem estava no cais, e, �quela dist�ncia, era imposs�vel diferenciar um homem de uma mulher. � Mas n�o para a cidade. Para a beira do rio.</p><p>O sujeito obedeceu na hora, come�ando a remar t�o r�pido que Egwene quase caiu para tr�s. Ele a levou at� um ponto da margem quase todo coberto por rochas lisas do tamanho da cabe�a dela. N�o havia ningu�m � vista, mas, assim que o barco raspou nas pedras, Egwene saltou, ergueu as saias e disparou pelo barraco �ngreme, mantendo o mesmo pique at� estar de volta � tenda, onde desabou, ofegante, suando em bicas. Desde ent�o, n�o foi mais � cidade. A n�o ser para ver Gawyn, claro.</p><p>Os dias se passaram, e o vento, j� quase constante, carregava dia e noite lufadas de poeira e areia. Na quinta noite, Bair acompanhou Egwene ao Mundo dos Sonhos, um breve passeio de teste pelo trecho de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> que Bair conhecia melhor: o Deserto Aiel, uma terra acidentada e ressecada que fazia at� aquela Cairhien arrasada pela seca parecer formosa e exuberante. Uma viagem r�pida, ent�o Bair e Amys vieram acord�-la para conferir se a empreitada provocara algum efeito negativo. N�o provocara. Nisso as duas acabaram concordando, depois de a obrigarem a correr e saltar v�rias vezes, e mesmo assim apenas ap�s examinarem cuidadosamente seus olhos e seu cora��o. Ainda assim, na noite seguinte, Amys levou-a para mais uma voltinha no Deserto, seguida de mais um exame t�o cansativo que Egwene ficou feliz quando enfim p�de se arrastar de volta para os len��is e cair em um sono profundo.</p><p>Naquelas duas noites, Egwene n�o voltou ao Mundo dos Sonhos, mas foi mais por exaust�o do que por falta de vontade. Antes daqueles pequenos testes, sempre dizia a si mesma que devia parar de ir a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> sozinha � n�o seria nada bom ser pega violando as restri��es justo quando as S�bias estavam prestes a suspend�-las �, mas sempre acabava decidindo que uma viagenzinha curta n�o teria problema, se fosse r�pida o bastante para reduzir as chances de ficar exposta. O que de fato evitava era o lugar entre <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> e o mundo desperto, onde os sonhos flutuavam. Tomou essa decis�o ao perceber como estava tentada a encontrar uma maneira de bisbilhotar os sonhos de Gawyn sem ser atra�da para eles � mas sempre dizendo a si mesma que, caso isso acontecesse, tudo n�o passaria de um sonho. Tentava lembrar a si mesma, o tempo todo, que era uma mulher adulta, n�o uma garotinha tola. Ainda assim, estava feliz por ningu�m mais saber da confus�o que Gawyn criava em sua cabe�a. Amys e Bair gargalhariam at� chorar.</p><p>Na s�tima noite, Egwene se preparou com todo o cuidado antes de dormir, botando uma camisola limpa e escovando o cabelo at� deix�-lo brilhando. Nada daquilo seria relevante em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas servia para distra�-la de como seu est�mago parecia dar piruetas. Naquela noite, as Aes Sedai estariam esperando por ela no Cora��o da Pedra, e n�o Elayne ou Nynaeve. N�o deveria fazer diferen�a, a menos que� A escova de cabelo de marfim parou no meio de uma mecha. A menos que uma das Aes Sedai revelasse que ela era apenas uma Aceita. Como n�o tinha pensado naquilo? Luz, gostaria de poder falar com Nynaeve e Elayne. O problema era que tamb�m n�o via como falar com as amigas adiantaria de alguma coisa, e ela tinha certeza de que aquele sonho com objetos caindo no ch�o e se estilha�ando significava que algo acabaria dando muito errado caso tentasse entrar em contato com as amigas.</p><p>Mordiscando o l�bio inferior, considerou ir dizer a Amys que n�o estava se sentindo bem � nada grave, s� um inc�modo no est�mago, mas que achava que n�o daria conta de visitar o Mundo dos Sonhos naquela noite. Retomariam as aulas depois do encontro, mas� Seria mais uma mentira, al�m de uma covardia. Egwene n�o era covarde. A coragem n�o vinha igual e nem no mesmo n�vel para todos, mas a covardia era desprez�vel. N�o importava o que acontecesse naquela noite, tinha que se for�ar a encarar o que viesse de frente.</p><p>Firme e decidida, largou a escova, apagou o lampi�o com um sopro e foi rastejando at� o catre. Estava cansada o bastante para n�o ter problemas em pegar no sono, embora j� soubesse se obrigar a dormir a qualquer momento, quando necess�rio, ou pelo menos a entrar no leve transe que a levaria parcialmente ao Mundo dos Sonhos, mas a manteria desperta o suficiente para conseguir falar � talvez balbuciar � com algu�m que estivesse aguardando junto a seu corpo. A �ltima coisa que lhe ocorreu antes de cair no sono foi perceber, muito surpresa, que o est�mago n�o estava mais se revirando.</p><p>Estava em uma grande c�mara abobadada repleta de espessas colunas de pedra vermelha polida � o Cora��o da Pedra, na Pedra de Tear. Acima, lampi�es dourados pendiam de correntes. Estavam apagados, mas claro que havia luz, aquela ilumina��o que vinha de todas as partes e de lugar nenhum. Amys e Bair j� estavam l�, com a mesma apar�ncia daquela manh�, tirando o fato de que todos os colares e braceletes cintilavam um pouco mais do que o normal, mesmo sendo de ouro. Conversavam em vozes tranquilas, mas pareciam irritadas. Egwene s� conseguiu ouvir algumas palavras, mas tinha certeza de que houve uma men��o a �Rand al�Thor�.</p><p>De repente, percebeu que usava um vestido branco de Aceita com bainha listrada. Assim que reparou, sua roupa se tornou uma c�pia da vestimenta das S�bias, mas sem as joias. Achou que as outras duas n�o tinham percebido � ou que, caso tivessem, n�o soubessem o significado do vestido. Em alguns casos, a rendi��o fazia a pessoa perder menos <emphasis>ji</emphasis> e adquirir menos <emphasis>toh</emphasis>, mas Aiel nenhum consideraria isso sem pelo menos tentar lutar.</p><p>� Elas est�o atrasadas de novo � reclamou Amys, irritada, andando at� o espa�o aberto logo abaixo do grande domo da c�mara. No ch�o de pedra estava o que parecia uma espada de cristal � era a <emphasis>Callandor</emphasis> da profecia, um <emphasis>sa�angreal</emphasis> masculino dos mais poderosos j� criados. Rand deixara a espada ali para que os tairenos se lembrassem dele � como se houvesse chance de esquecerem �, mas Amys mal olhou para o objeto. Para muitos, A Espada Que N�o � Espada at� podia ser um s�mbolo do Drag�o Renascido, mas para aquela S�bia aquilo era coisa dos aguacentos. � Bem, considerando a reuni�o passada, ao menos podemos esperar que elas n�o v�o tentar fingir que sabem de tudo e que n�s n�o sabemos de nada. As Aes Sedai se sa�ram bem melhor na �ltima vez.</p><p>Bair fungou de um jeito que teria deixado Sorilea sem rea��o.</p><p>� Elas n�o v�o melhorar nunca. O m�nimo que podiam fazer era chegar na hora combi�</p><p>A frase ficou por terminar. Sete mulheres apareceram de repente do outro lado de <emphasis>Callandor</emphasis>.</p><p>Egwene reconheceu todas, at� a jovem de olhos azuis e determinados que encontrara antes, em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Quem seria? Amys e Bair j� tinham falado das demais � quase sempre com amargura �, mas nunca mencionaram aquela mulher. Ela usava um xale com bordas azuis; todas estavam de xale, na verdade. Os vestidos volta e meia mudavam de cor e de corte, mas os xales nunca sequer tremeluziam.</p><p>Assim que chegaram, as Aes Sedai se voltaram para Egwene, como se as S�bias nem existissem.</p><p>� Egwene al�Vere � come�ou Sheriam, em um tom muito formal �, voc� est� convocada a comparecer ao Sal�o da Torre. � A Aes Sedai estreitou os olhos de leve, tentando disfar�ar alguma emo��o. Egwene sentiu um aperto no peito: elas sabiam que estava se passando por uma irm� completa.</p><p>� N�o pergunte o motivo da convoca��o � advertiu Carlinya, logo depois de Sheriam terminar, sua voz g�lida aumentando ainda mais a sensa��o de formalidade. � Seu dever � responder, n�o perguntar.</p><p>Por algum motivo misterioso, Carlinya cortara o cabelo escuro bem curto. O detalhe irrelevante de repente pareceu importante para Egwene. N�o queria ficar pensando no que tudo aquilo significava, n�o mesmo. As frases cerimoniosas vieram em sucess�o, em um ritmo imponente. Amys e Bair ajeitaram os xales e franziram o cenho, a irrita��o come�ando a virar preocupa��o.</p><p>� N�o adie sua vinda � continuou Anaiya. Egwene sempre a tinha achado bondosa, mas a mulher de rosto gentil soava t�o firme quanto Carlinya, com uma formalidade quase t�o fria quanto a da Branca. � Seu dever � obedecer com presteza.</p><p>As tr�s falaram em un�ssono:</p><p>� � bom temer as convoca��es do Sal�o. � bom obedecer com presteza e humildade, sem questionar. Voc� est� convocada a se ajoelhar perante o Sal�o da Torre e aceitar seu julgamento.</p><p>Egwene se for�ou a controlar a respira��o, ao menos o suficiente para conseguir evitar parecer ofegante. Qual seria a puni��o para o que fizera? Suspeitava de que n�o seria nada branda, a julgar por toda aquela cerim�nia. Todas a encaravam. Tentou decifrar alguma coisa naqueles rostos de Aes Sedai � seis deles exibiam apenas a serenidade da idade indefinida, talvez uma leve intensidade no olhar. A jovem Azul ostentava a calma tranquila de algu�m que j� era Aes Sedai havia anos, mas n�o conseguia esconder o sorriso discreto e satisfeito.</p><p>Elas pareciam estar esperando resposta.</p><p>� Vou assim que puder. � Seu cora��o estava t�o apertado que parecia prestes a ser esmagado, mas Egwene conseguiu deixar a voz em um tom � altura do das mulheres. Nada de covardia. Ela ainda se tornaria Aes Sedai. Isso se deixassem, depois de tudo o que fez. � S� n�o sei se consigo chegar assim t�o r�pido. O caminho � longo, e n�o sei exatamente onde fica Salidar, s� sei que � algum lugar ao longo do Rio Eldar.</p><p>Sheriam e outras Aes Sedai se entreolharam. Seu vestido passou de uma seda azul-clara a um cinza-escuro de saias plissadas.</p><p>� Temos certeza de que existe uma maneira de fazer essa jornada mais depressa. Se as S�bias ajudarem, claro. Siuan est� certa de que n�o precisar�amos de mais de um ou dois dias, se voc� entrar fisicamente em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>�</p><p>� N�o � interrompeu Bair, irritada, no mesmo instante em que Amys retrucava:</p><p>� N�o vamos ensinar uma coisa dessas para ela. Isso j� foi usado para o mal, e � uma habilidade maligna. Quem faz uma coisa dessas, n�o importa quem seja, perde uma parte de si mesmo.</p><p>� Voc� n�o pode saber disso com certeza � retrucou Beonin, em um tom muito paciente �, j� que, ao que parece, nenhuma de voc�s nunca nem tentou. Mas, se sabem que existe um jeito, devem ter alguma ideia de como se faz. Com essa informa��o, podemos descobrir a parte que voc�s n�o souberem.</p><p>O tom paciente n�o foi a abordagem correta. Amys ajustou o xale e se endireitou, a postura ainda mais ereta que de costume. Bair plantou as m�os na cintura, encarando Beonin com um olhar duro e amea�ador. Em poucos instantes, haveria uma daquelas brigas que as S�bias tinham dado a entender que aconteciam. Ah, as duas iam ensinar �quelas Aes Sedai algumas li��es sobre o que podia ser feito em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, deixando bem claro qu�o pouco aquelas mulheres da Torre sabiam. As Aes Sedai retribu�ram os olhares irritados com express�es muito calmas e cheias de confian�a. Os xales permaneciam est�veis, mas os vestidos se alternavam quase t�o r�pido quanto as batidas do cora��o de Egwene � s� a roupa da jovem Azul parecia mais est�vel, tendo mudado apenas uma vez durante todo aquele longo sil�ncio.</p><p>Egwene tinha que acabar com aquilo. Precisava ir a Salidar, e n�o ajudaria em nada sua situa��o se ela testemunhasse aquelas Aes Sedai serem humilhadas.</p><p>� Eu sei como faz. Acho que sei. E estou disposta a tentar. � Se n�o desse certo, ainda poderia ir cavalgando. � Mas preciso saber onde �. Pelo menos melhor do que sei agora.</p><p>Amys e Bair desviaram a aten��o das Aes Sedai para ela. Nem Carlinya conseguiria rivalizar com aqueles olhares frios � nem mesmo Morvrin teria conseguido. Egwene sentiu o cora��o se apertar mais um tanto.</p><p>Na mesma hora, Sheriam come�ou a dar as coordenadas � a tantas milhas dessa aldeia, a tantas l�guas ao sul daquela outra �, mas a jovem Azul apenas pigarreou e disse:</p><p>� Isto aqui talvez seja mais �til. � A voz soava familiar, mas Egwene n�o conseguia se lembrar daquele rosto.</p><p>Ela parecia n�o ter muito mais controle sobre as pr�prias roupas do que as outras Aes Sedai, no fim das contas � a seda verde suave foi adquirindo um tom azul-escuro enquanto ela falava, e a gola alta bordada virou um rufo de renda ao estilo taireno enquanto uma touca cravejada de p�rolas surgia em sua cabe�a �, mas at� que possu�a algum conhecimento sobre <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Um mapa enorme se materializou no ar, mais para o lado. Um ponto vermelho reluzente em uma das extremidades indicava �Cairhien�, anotado com letras garrafais, e um segundo indicava �Salidar�, na outra extremidade. O mapa foi se expandindo e se modificando, e de repente as montanhas n�o eram apenas linhas, e sim relevos; as florestas adquiriram tons de verde e marrom; e os rios passaram a cintilar feito �gua azul � luz do sol. O mapa foi crescendo at� virar um pared�o que cobria toda a lateral da Pedra. Era como olhar de cima para o mundo inteiro.</p><p>At� as S�bias ficaram impressionadas � ao menos n�o deixaram a desaprova��o clara at� o vestido taireno da mulher se transformar em uma veste de seda amarela com bordados de prata na gola. Mas a jovem n�o estava interessada nas Aiel. Por algum motivo, fitava as outras Aes Sedai com um olhar desafiador.</p><p>� Espl�ndido, Siuan � opinou Sheriam, depois de um momento.</p><p>Egwene ficou surpresa. Siuan? Devia ser outra mulher com o mesmo nome. A jovem Siuan pareceu muito satisfeita consigo mesma e aquiesceu � sua express�o assertiva lembrava muito Siuan Sanche, mas era imposs�vel. <emphasis>Voc� s� est� enrolando</emphasis>, ralhou consigo mesma.</p><p>� Bem, isso com certeza � o suficiente para eu encontrar Salidar, podendo ou n�o� � Ela olhou de esguelha para Amys e Bair, que a encaravam com um olhar t�o cheio de reprova��o silenciosa que mais pareciam esculpidas em pedra invernal. � Podendo ou n�o entrar neste mundo em carne e osso. De um jeito ou de outro, prometo que estarei em Salidar assim que poss�vel.</p><p>O mapa desapareceu. <emphasis>Luz, o que elas v�o fazer comigo?</emphasis></p><p>Chegou a abrir a boca para perguntar, mas Carlinya a interrompeu, r�spida, voltando ao tom cerimonioso, agora ainda mais intenso e rigoroso.</p><p>� N�o pergunte o motivo da convoca��o. Seu dever � responder, n�o perguntar.</p><p>� N�o adie a sua vinda � completou Anaiya. � Seu dever � obedecer com presteza.</p><p>As Aes Sedai se entreolharam e sumiram, indo embora t�o depressa que Egwene chegou a suspeitar de que achavam que ela faria alguma pergunta.</p><p>Aquilo a deixou a s�s com Amys e Bair. Mas, quando se virou para as S�bias, sem saber se deveria come�ar por uma explica��o ou por um pedido de desculpas ou se apenas imploraria por compreens�o, as duas tamb�m sumiram. Ficou sozinha, cercada pelas colunas de pedra vermelha, com <emphasis>Callandor</emphasis> cintilando a seu lado. N�o havia desculpas no <emphasis>ji�e�toh</emphasis>.</p><p>Egwene suspirou, tristonha, e saiu de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> de volta para seu corpo adormecido.</p><p>Ela despertou na mesma hora � acordar por vontade pr�pria era uma parte t�o importante do treinamento de uma Andarilha dos Sonhos quanto adormecer quando queria, e ela de fato prometera ir o mais depressa poss�vel. Canalizando, acendeu todas as lamparinas. Precisaria de luz. Esfor�ou-se para ser r�pida ao se ajoelhar junto de um dos bauzinhos encostados nas paredes da tenda e desencavar as roupas que n�o usara desde que chegara ao Deserto. Parte de sua vida chegava ao fim, mas ela n�o choraria por aquela perda. N�o mesmo.</p><empty-line/><p>Assim que Egwene sumiu, Rand saiu de detr�s das colunas. �s vezes ia ali dar uma olhada em <emphasis>Callandor</emphasis>. A primeira visita tinha sido depois de Asmodean ensinar a ele a inverter os fluxos. Depois disso, tinha mudado as armadilhas dispostas ao redor do <emphasis>sa�angreal</emphasis> para que apenas ele conseguisse ver as tramas. Se podia acreditar nas Profecias, quem conseguisse empunhar a espada depois dele seria seu �sucessor�. N�o tinha certeza de quanto ainda acreditava naquilo, mas n�o precisaria correr riscos desnecess�rios.</p><p>Lews Therin resmungava em algum lugar no fundo de sua mente � isso acontecia sempre que Rand chegava muito perto de <emphasis>Callandor.</emphasis> Naquela noite, no entanto, a espada de cristal reluzente n�o lhe despertou nenhum interesse. Em vez disso, olhava para o ponto onde o imenso mapa fora estendido � no fim das contas a coisa se revelou n�o apenas um mapa, e sim algo mais. Que lugar seria aquele? Ser� que a pura sorte o conduzira at� ali, naquela noite, em vez da noite anterior ou da seguinte? Teria sido um dos pux�es de <emphasis>ta�veren</emphasis> no Padr�o? N�o importava. Egwene aceitara a convoca��o sem protestar, coisa que jamais faria se aquilo fosse obra da Torre e de Elaida. Essa tal de Salidar era onde estavam escondidas suas amigas misteriosas. Onde estava Elayne. E aquelas mulheres tinham lhe entregado a localiza��o de bandeja.</p><p>Com uma gargalhada, Rand abriu um port�o para o reflexo do Pal�cio em Caemlyn.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 33</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Coragem para fortificar</p></title><p>Ajoelhada, ainda s� de camisola, Egwene franziu o cenho, examinando o vestido de cavalgada de seda verde-escura que estava usando quando chegou ao Deserto, tanto tempo antes. Ainda tinha muito a fazer. Tirara alguns instantes para escrever um bilhete apressado e depois acordara Cowinde para mandar que ela o entregasse na estalagem O Homem Comprido logo de manh�.</p><p>O bilhete n�o dizia muito, s� explicava que precisara ir embora � e Egwene tampouco sabia muito mais que isso �, mas n�o podia simplesmente desaparecer sem deixar nenhuma explica��o para Gawyn. Algumas das coisas que escrevera ainda a deixavam corada s� de lembrar � dizer que o amava era uma coisa, mas chegara a <emphasis>pedir</emphasis> a ele que a esperasse! Bem, conseguira ser justa com ele, pelo menos tanto quanto poss�vel. S� precisava terminar de se arrumar, e mal sabia para qu�.</p><p>A abertura da tenda foi erguida, e Amys entrou com Bair e Sorilea. As tr�s ficaram paradas, lado a lado, encarando-a de cima. Tr�s olhares inflex�veis de reprova��o. Egwene teve que se esfor�ar para n�o apertar o vestido contra o peito � s� de camisola, como estava, sentia-se muito mais vulner�vel. Embora, pensando bem, at� de armadura estaria vulner�vel diante daquelas tr�s. A quest�o era que sabia que estava errada. Ficou surpresa por elas terem demorado tanto tempo para aparecer.</p><p>Egwene respirou fundo.</p><p>� Se vieram me punir, n�o tenho tempo para carregar �gua, cavar buracos e nem nada disso. Pe�o desculpas, de verdade, mas eu prometi que partiria assim que pudesse, e acho que elas v�o contar cada minuto.</p><p>Amys ergueu as sobrancelhas claras, surpresa, e um olhar confuso perpassou o rosto de Bair e Sorilea.</p><p>� Como poder�amos punir voc�? � indagou Amys. � Voc� deixou de ser nossa pupila no instante em que as suas irm�s a convocaram, e agora tem que ir atender ao chamado delas como a Aes Sedai que �.</p><p>Egwene conteve a careta, disfar�ando a express�o enquanto examinava o vestido de cavalgada. Achou impressionante como o tecido estava pouco amassado, mesmo depois de passar todos aqueles meses enrolado em um ba�. Ent�o se obrigou a encar�-las.</p><p>� Sei que est�o zangadas comigo e t�m motivo para�</p><p>� Zangadas? � estranhou Sorilea. � N�o estamos zangadas. Achei que voc� nos conhecesse melhor que isso. � Ela de fato n�o parecia zangada, mas ainda exibia a mesma express�o de censura das outras duas.</p><p>Egwene encarou cada uma delas, demorando-se em Amys e Bair.</p><p>� Mas voc�s falaram que acham errado o que vou fazer. Que eu n�o devia nem pensar em fazer uma coisa dessas. E eu tinha dito que nem mesmo pensaria, mas pensei assim mesmo e descobri como se faz.</p><p>Para sua surpresa, um sorriso brotou no rosto enrugado de Sorilea. A profus�o de braceletes retiniu quando ela ajeitou o xale, parecendo satisfeita.</p><p>� Viram s�? Eu disse que ela entenderia. Ela poderia ser Aiel.</p><p>A tens�o no rosto de Amys pareceu diminuir um pouco, e a de Bair cedeu ainda mais. Egwene enfim compreendeu. As S�bias n�o estavam irritadas porque ela ia entrar em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em carne e osso � aquilo ainda era errado a seus olhos, mas entendiam quando algu�m precisava fazer o que julgava ser necess�rio. E, mesmo que desse certo, Egwene s� incorreria em obriga��o para com ela mesma. As S�bias n�o estavam nem um pouco irritadas, ao menos n�o ainda. O que as incomodava era a mentira. Egwene sentia o est�mago palpitar. S� sabiam da mentira que admitira. Que talvez fosse a menor das mentiras.</p><p>Teve que parar mais uma vez para respirar fundo, preparando a garganta para as palavras que precisava se for�ar a dizer.</p><p>� Tamb�m menti sobre outras quest�es. Entrei em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> sozinha, mesmo depois de ter prometido que n�o entraria. � Amys ficou s�ria outra vez. Sorilea, que n�o era Andarilha dos Sonhos, apenas balan�ou a cabe�a com pesar. � Prometi obedecer como pupila, mas, depois que me machuquei e voc�s me disseram para esperar, explicando que o Mundo dos Sonhos era perigoso demais, eu voltei l� mesmo assim. � Bair cruzou os bra�os, o rosto inexpressivo. Sorilea resmungou algo sobre garotas tolas, mas sem muita raiva. Egwene respirou fundo uma terceira vez, preparando-se para a parte mais dif�cil de dizer. Nem sentia mais as palpita��es no est�mago, pois o que havia dentro dela agora era uma dan�a t�o louca e intensa que era surpreendente o corpo todo n�o estar tremendo. � O pior de tudo � que eu n�o sou Aes Sedai. Sou s� uma Aceita. � como ser aprendiz. Ainda faltam alguns anos para eu ser elevada a Aes Sedai, se � que algum dia serei, depois disso.</p><p>Sorilea ergueu a cabe�a ao ouvir aquilo, comprimindo os l�bios finos em uma linha firme, mas nenhuma das tr�s disse uma �nica palavra. Egwene � quem precisava esclarecer e resolver a situa��o. As coisas nunca mais seriam exatamente como eram, mas�</p><p><emphasis>Voc� admitiu tudo,</emphasis> sussurrou uma vozinha. <emphasis>Agora � melhor tratar de descobrir em quanto tempo consegue chegar em Salidar. Voc� algum dia ainda pode ser elevada a Aes Sedai, mas n�o se deixar as Aes Sedai mais irritadas do que elas j� est�o.</emphasis></p><p>Egwene baixou os olhos, encarando os tapetes coloridos dispostos em camadas, a boca se retorcendo de desd�m. Desd�m por aquela vozinha. E vergonha por t�-la em sua mente, por poder pensar aquilo. Iria embora, sim, mas antes precisava resolver a situa��o � e dava para resolver, com o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Depois de fazer o que julgava ser necess�rio, era preciso pagar o pre�o; era assim que as coisas funcionavam. Muitos meses antes, no Deserto, Aviendha lhe mostrara como era cobrado o pre�o de uma mentira.</p><p>Reunindo cada fragmento de coragem que conseguiu encontrar e torcendo para que fosse o suficiente, Egwene deixou o vestido de seda de lado e se levantou. Estranhamente, parecia mais f�cil prosseguir com aquilo depois de ter come�ado. Ainda teve que erguer os olhos para encarar as tr�s, mas encarou-as com orgulho, de cabe�a erguida, e n�o precisou for�ar as palavras.</p><p>� Eu tenho <emphasis>toh</emphasis>. � N�o sentia mais o est�mago palpitar. � Pe�o a voc�s o favor de me ajudarem a cumprir minha <emphasis>toh</emphasis>.</p><p>Salidar teria que esperar.</p><empty-line/><p>Apoiado no cotovelo, Mat examinava o jogo de Cobras e Raposas disposto no ch�o da tenda. De tempos em tempos, uma gota de suor ca�a de seu queixo, quase pingando no tabuleiro. N�o chegava a ser bem um tabuleiro, na verdade, s� um peda�o de pano vermelho com as tramas das linhas desenhadas � tinta preta e setas identificando os poss�veis sentidos de movimentos por cada linha � algumas permitiam ir apenas em uma dire��o, por outras era poss�vel transitar nos dois sentidos. Dez discos de madeira clara, cada um com um tri�ngulo pintado, marcavam as raposas, e outros dez com uma linha sinuosa eram as cobras. Duas lamparinas pousadas de cada lado proporcionavam luz mais que suficiente.</p><p>� N�s vamos ganhar esta, Mat � empolgou-se Olver. � Sei que vamos.</p><p>� Talvez � respondeu o mais velho. Os dois discos que os representavam, marcados com manchas pretas, estavam quase de volta ao c�rculo no meio do tabuleiro, mas eram as cobras e as raposas que jogariam os dados dessa vez. A maioria dos jogadores n�o conseguia nem chegar � ponta para come�ar a voltar. � Jogue os dados.</p><p>N�o encostava no copo com os dados desde que o dera para o garoto � se iam jogar aquilo, melhor que fosse sem a ajuda da sua sorte.</p><p>Abrindo um sorriso enorme, Olver chacoalhou o copo de couro e deixou cair os dados de madeira, feitos por seu pr�prio pai. Ele gemeu, examinando as faces dos dados � tr�s mostravam lados marcados com um tri�ngulo, e os outros tr�s exibiam linhas sinuosas, indicando que as tr�s pe�as de cada lado se moveriam. Quando era a vez do inimigo, as cobras e as raposas se moviam em dire��o �s pe�as dos jogadores seguindo pelo caminho mais curto, e se uma delas pousasse no mesmo ponto que uma pe�a� Uma cobra caiu em Olver, e uma raposa, em Mat � dava para ver que, se o garoto completasse a jogada, mais duas cobras teriam alcan�ado sua pe�a.</p><p>Era s� um jogo para crian�as, e um jogo imposs�vel de vencer enquanto as regras fossem respeitadas. Olver logo estaria velho o bastante para compreender isso e, como qualquer outra crian�a, deixaria de jogar. Era apenas uma brincadeira de crian�as, mas Mat n�o gostava de ver as raposas alcan�ando sua pe�a, e muito menos as cobras. Aquilo lhe trazia m�s recorda��es, mesmo que o jogo n�o tivesse nada a ver com suas mem�rias.</p><p>� Ah, bem, quase ganhamos � resmungou Olver. � Mais uma? � Sem esperar resposta, o garoto disp�s as pe�as nas posi��es iniciais do jogo, um tri�ngulo perpassado por uma linha sinuosa, ent�o entoou: � �Coragem para fortificar, fogo para cegar, m�sica para encantar, ferro para selar.� Mat, por que dizemos isso? Aqui n�o tem fogo, nem m�sica e nem ferro.</p><p>� N�o sei.</p><p>Os versos faziam remexer algo no fundo de sua mente, mas Mat n�o sabia bem o qu�. As antigas mem�rias que ganhara no <emphasis>ter�angreal</emphasis> pareciam ter sido escolhidas ao acaso � e provavelmente tinham sido mesmo �, e al�m disso ainda havia todas aquelas lacunas em suas pr�prias mem�rias, aquelas lembran�as confusas. Bem, Olver sempre fazia perguntas que Mat n�o sabia responder, e quase todas come�avam com um �por que�.</p><p>Daerid entrou na tenda, permitindo um vislumbre da noite l� fora, e levou um susto ao ver os dois. Estava com o rosto reluzindo de suor, mas usava o casaco, ainda que desamarrado. A nova cicatriz criara um sulco que ia de um lado ao outro das linhas brancas que j� ziguezagueavam seu rosto.</p><p>� Acho que j� passou da sua hora de dormir, Olver � anunciou Mat, levantando-se. Sentiu algumas pontadas das feridas, mas n�o do�a muito. Estavam cicatrizando bem. � Guarde o tabuleiro. � Foi para perto de Daerid e baixou a voz at� um sussurro. � Corto a sua garganta se voc� abrir o bico para algu�m.</p><p>� Por qu�? � indagou Daerid, seco. � Voc� est� se saindo um pai maravilhoso. O garoto assemelha-se muito a voc�. � Mat teve a impress�o de que o homem se esfor�ou para conter um sorriso, mas a vontade pareceu passar no instante seguinte. � O Lorde Drag�o est� vindo para o acampamento � anunciou, s�rio como a morte.</p><p>O impulso de socar o rosto de Daerid se dissipou. Mat puxou a aba da tenda para o lado e se abaixou, mergulhando na noite s� de camisa. Seis dos homens de Daerid, parados ao redor da tenda, enrijeceram quando ele apareceu � todos besteiros, j� que piques n�o seriam muito �teis para guardas. Era noite, mas o acampamento n�o estava escuro: o brilho luminoso da lua crescente quase cheia no c�u l�mpido era at� solapado pelo resplendor dos fogos acesos entre as fileiras de tendas e homens dormindo no ch�o. Sentinelas montavam guarda a cada vinte passadas ao longo de toda a pali�ada de toras. N�o era o que Mat queria, mas, caso houvesse um ataque surpresa�</p><p>O terreno ali era quase plano, o que lhe permitia uma vis�o bem clara de Rand vindo em sua dire��o � e n�o estava sozinho: dois Aiel velados avan�avam a seu lado, atentos, virando a cabe�a sempre que um dos homens do Bando se revirava durante o sono ou quando um sentinela mudava de posi��o para observ�-los. Aquela Aviendha tamb�m estava com ele, carregando uma trouxa �s costas e avan�ando a passos duros, parecendo prestes a pular na garganta do primeiro que cruzasse seu caminho. Mat n�o entendia por que Rand n�o a mandava para longe. <emphasis>Essas Aiel s� trazem problemas,</emphasis> pensou, mal-humorado, <emphasis>e nunca vi uma mulher mais disposta a criar problemas do que essa a�</emphasis>.</p><p>� Aquele � mesmo o Drag�o Renascido? � perguntou Olver, impressionado, quase pulando de tanta empolga��o, o jogo enrolado bem apertado junto ao peito.</p><p>� �, sim � confirmou Mat. � Agora v� para a cama. Aqui n�o � lugar para garotos.</p><p>Olver foi embora resmungando, mas se calou logo ao chegar nos limites da tenda mais pr�xima. De rabo de olho, Mat foi acompanhando enquanto ele sa�a de vista, correndo em disparada, e o viu reaparecer ali perto, bisbilhotando.</p><p>Deixou o garoto em paz, mesmo depois de notar a express�o de Rand � pela cara dele, Mat n�o sabia se aquele seria lugar para homens adultos, quanto mais para um garoto como Olver. Aquele rosto parecia t�o duro que poderia ser usado como arma de cerco para derrubar uma muralha, mas ainda havia um vislumbre de alguma emo��o tentando se revelar � ansiedade, talvez, ou empolga��o. Os olhos de Rand emitiam um brilho febril. Ele trazia um pergaminho grande enrolado em uma das m�os, e a outra alisava o punho da espada distraidamente. A fivela de Drag�o do cinto reluzia � luz do fogo, e volta e meia a cabe�a de um dos Drag�es despontava por baixo das mangas do casaco.</p><p>Quando chegou diante de Mat, Rand n�o perdeu tempo com cumprimentos.</p><p>� Preciso falar com voc�. A s�s. Preciso que voc� fa�a uma coisa.</p><p>A noite parecia um forno escuro. Rand usava um casaco verde de gola alta com bordados de ouro, mas n�o suava nem uma gota.</p><p>Daerid, Talmanes e Nalesean estavam parados a poucas passadas de dist�ncia, observando, cada um deles j� meio despido para a cama. Mat gesticulou para que aguardassem e meneou a cabe�a, indicando a pr�pria tenda para Rand. Deixou o amigo entrar primeiro, ent�o atravessou a abertura do tecido apalpando a cabe�a de raposa de prata atrav�s da camisa. Pelo menos n�o tinha com o que se preocupar. Talvez.</p><p>Rand dissera que a conversa seria a s�s, mas Aviendha parecia pensar que aquilo n�o se aplicava a ela: ficou parada a exatamente duas passadas dele, nem um triz a mais ou a menos. Ela passava quase todo o tempo encarando Rand com uma express�o indecifr�vel, mas volta e meia disparava uma olhadela para Mat, franzindo o cenho e analisando-o de alto a baixo. Rand a ignorava completamente. Toda a pressa de antes parecia ter desaparecido. Ele passou os olhos pela tenda � Mat se perguntou, incomodado, se o homem estava mesmo vendo alguma coisa. Bem, n�o havia muito o que ver: Olver botara as lamparinas de volta sobre a mesinha dobr�vel, e havia uma cadeira tamb�m dobr�vel, assim como o lavat�rio e a cama. Tudo era de laca preta com linhas douradas. Se tinha dinheiro, melhor gastar. Ainda dava para ver as fendas abertas pelos Aiel no tecido da tenda, apesar de terem sido muito bem remendadas.</p><p>O sil�ncio come�ou a incomodar Mat.</p><p>� O que foi, Rand? Espero que n�o tenha decidido mudar os planos t�o em cima da hora.</p><p>Nenhuma resposta. Ao ouvi-lo, Rand mudou de express�o, como se s� ent�o se desse conta de onde estava, o que deixou Mat um pouco nervoso. A despeito do que Daerid e o restante do Bando pensassem, ele se esfor�ava muito para ficar longe de qualquer batalha, mas, ainda assim, �s vezes o fato de ser <emphasis>ta�veren</emphasis> pesava contra sua sorte. Pelo menos era assim que via a quest�o. Achava que Rand tinha algo a ver com aquilo, j� que era o <emphasis>ta�veren</emphasis> mais forte � t�o forte que, de vez em quando, Mat praticamente sentia o pux�o que o levava de volta para perto do tal Drag�o Renascido. Se Rand resolvesse se meter, Mat n�o ficaria surpreso de, ao ir tirar um cochilo em um celeiro isolado, acabar acordando no meio de uma batalha.</p><p>� Mais alguns dias e chego em Tear. As balsas v�o levar o Bando at� o outro lado do rio, ent�o, alguns dias depois, alcan�aremos Weiramon. J� � tarde demais para uma maldita intromiss�o�</p><p>� Quero que voc� leve Elayne para� para Caemlyn � come�ou Rand, de repente. � Quero que a conduza em seguran�a at� Caemlyn, aconte�a o que acontecer. E n�o saia do lado dela at� que ela ocupe o Trono do Le�o. � A Aiel atr�s dele pigarreou. � Ah, sim� � Por algum motivo, sua voz ficou t�o fria e dura quanto o rosto. Bem, se ele estava enlouquecendo, precisava mesmo de um motivo? � Aviendha vai com voc�. Acho melhor assim.</p><p>� <emphasis>Voc�</emphasis> acha melhor assim? � indagou ela, indignada. � Se eu n�o tivesse acordado na hora em que acordei, nunca teria descoberto que voc� tinha encontrado Elayne. Voc� n�o pode me mandar ir a lugar nenhum, Rand al�Thor. Tenho que falar com Elayne para me� Tenho meus motivos para falar com ela.</p><p>� Acho mesmo �timo voc� ter encontrado Elayne � come�ou Mat, escolhendo bem as palavras. Se ele fosse Rand, teria deixado aquela doida onde estava. Luz, at� Aviendha seria melhor! Pelo menos as Aiel n�o andavam por a� de nariz empinado, achando que o sujeito devia dar um pinote s� porque tinham mandado ele pular. Claro que alguns dos joguinhos das mulheres do Deserto eram bem pesados, e elas realmente tentavam matar homens inocentes de vez em quando� � S� n�o entendo por que voc� precisa de mim. Pegue um daqueles seus port�es, ponha a mulher no colo, d� um beijo nela e a arraste de l�.</p><p>Aviendha o encarou, ultrajada. Pelo ar ofendido, parecia at� que Mat aconselhara o amigo a roubar um beijo <emphasis>dela</emphasis>.</p><p>Rand desenrolou o enorme pergaminho sobre a mesa, usando as lamparinas para prender as extremidades.</p><p>� � bem aqui que ela est�. � Era um mapa, um trecho do Rio Eldar com cerca de cinquenta milhas para o lado em cada margem. Uma seta azul fora desenhada apontando para a floresta, e a legenda indicava Salidar. Rand cutucou um ponto pr�ximo � margem leste do mapa; tamb�m era arborizado. Era quase tudo mato. � Aqui tem uma clareira bem grande, d� para ver que a aldeia mais pr�xima fica a quase vinte milhas a norte. Vou abrir um port�o at� a clareira para voc� e o Bando.</p><p>Mat deu um jeito de fazer a hesita��o sair como um sorriso for�ado.</p><p>� Olha, se tem que ser eu, por que n�o vou s� eu? Fa�a esse seu port�o at� Salidar, eu coloco a mulher no lombo de um cavalo e�</p><p>E o qu�? Rand tamb�m abriria um port�o de Salidar para Caemlyn? Era uma longa cavalgada do Eldar at� Caemlyn � bem longa, e acompanhado apenas de uma nobre metida e uma Aiel, a viagem pareceria ainda mais longa.</p><p>� O Bando, Mat � irrompeu Rand. � Voc� e o Bando todo! � Ele inspirou fundo, tr�mulo, e amansou a voz. Mas o rosto n�o perdeu a rigidez, e os olhos continuavam com aquele brilho febril. Quase dava para pensar que ele estava doente ou sentindo muita dor. � Tem Aes Sedai em Salidar, Mat. N�o sei quantas. Centenas, pelo que ouvi, mas n�o ficaria surpreso se estiver mais para cinquenta. Do jeito que elas falam sobre a Torre, essa hist�ria de estar inteira e pura, duvido que voc� v� ver mais que isso. Quero colocar voc� a uns dois ou tr�s dias de dist�ncia, para que elas saibam que voc� est� a caminho. N�o tem por que assust�-las, elas poderiam pensar que � um ataque dos Mantos-brancos. Essas mulheres come�aram uma rebeli�o contra Elaida e devem estar assustadas o bastante para que voc� n�o precise fazer muito mais do que chegar dizendo que Elayne precisa ser coroada em Caemlyn para elas permitirem que ela v�. Se voc� achar que s�o confi�veis, ofere�a sua prote��o a elas. E a minha. J� que supostamente est�o do meu lado, pode ser que fiquem felizes at� com a <emphasis>minha</emphasis> prote��o. A� voc� escolta Elayne e quantas das Aes Sedai quiserem ir junto. V� direto por Altara e Murandy at� chegar em Caemlyn. � s� mostrar meus estandartes e anunciar o que est� fazendo, duvido de que os altaranos e murandianos criem problemas, basta voc� se manter na estrada. Se encontrar algum Devoto do Drag�o, pode levar junto. Acho que a maioria deles vai acabar virando bandido se eu n�o amarrar todos com uma corda logo, logo. E olha que j� ouvi um ou dois boatos sobre isso. Bem, voc� vai atrair esse tipo se levantar meus estandartes. � Ele abriu um sorriso s�bito e irritado, mas nada se comparava �queles olhos em chamas. � Quantos coelhos com uma cajadada s�, Mat? Voc� atravessa Altara e Murandy com seis mil homens, arrasta os Devotos do Drag�o junto e ainda pode acabar me entregando esses dois pa�ses.</p><p>Tantos aspectos daquilo o deixavam irritado que Mat j� n�o daria mais a m�nima nem se Rand estivesse com dez dentes doendo e espinhos enfiados nas duas botas. Deixar as Aes Sedai achando que ele pretendia atac�-las? N�o mesmo. E ainda teria que intimidar cinquenta delas? N�o tinha medo de Aes Sedai, nem mesmo se fossem cinco ou seis juntas, mas <emphasis>cinquenta</emphasis>? Apalpou outra vez a cabe�a de raposa atrav�s da camisa � talvez acabasse descobrindo at� onde ia sua sorte, afinal. E j� at� podia ver o desastre que seria atravessar Altara e Murandy a cavalo: todos os nobres cujas terras cruzasse ficariam inflados feito galos pomposos e tentariam bic�-lo assim que ele virasse as costas. Se aquela loucura de <emphasis>ta�veren</emphasis> se manifestasse, era prov�vel que trombasse com algum lorde ou lady reunindo um ex�rcito bem no seu caminho.</p><p>Mat tentou mais uma vez.</p><p>� Rand, n�o acha que isso pode atrair a aten��o de Sammael para o norte? Voc� n�o quer que ele se concentre no leste? � para isso que estou aqui, lembra? Para fazer ele se voltar para c�.</p><p>Rand balan�ou a cabe�a, enf�tico.</p><p>� Ele s� vai ver uma guarda de honra escoltando a Rainha de Andor at� Caemlyn, isso se descobrir antes de voc�s chegarem no Trono do Le�o. Quanto tempo para voc� se aprontar?</p><p>Mat abriu a boca para protestar, mas desistiu. Nada o faria mudar de ideia.</p><p>� Duas horas.</p><p>Precisava de menos tempo para o Bando estar arrumado e j� nas selas, mas Mat n�o estava com pressa, e a �ltima coisa que queria era que o Bando achasse que eles estavam se deslocando para um ataque.</p><p>� �timo. Tamb�m preciso de mais ou menos uma hora. � Para o qu�, Rand n�o disse. � Fique junto de Elayne, Mat. Cuide bem dela, mantenha-a segura. Nada disso far� sentido se ela n�o chegar viva para a coroa��o.</p><p>Rand achava mesmo que ele n�o sabia que passara os dias se enroscando com a Filha-herdeira em cada canto da Pedra, na �ltima vez em que estiveram juntos?</p><p>� Vou trat�-la como minha pr�pria irm�. � As irm�s tinham feito de tudo para tornar a vida de Mat uma desgra�a. Bem, esperava o mesmo de Elayne, s� que de um jeito diferente. Talvez Aviendha fosse um pouco melhor. � N�o vou perder a mulher de vista at� enfi�-la no Pal�cio Real.</p><p><emphasis>E se ela ficar bancando a metidinha comigo, vai levar um belo de um chute!</emphasis></p><p>Rand aquiesceu.</p><p>� Isso me lembra uma coisa: Bodewhin est� em Caemlyn. Com Verin e Alanna, al�m de mais duas garotas de Dois Rios. Est�o indo treinar para virar Aes Sedai. N�o sei bem onde vai ser esse treinamento, mas n�o tem a menor chance de eu permitir que elas sigam para a Torre, do jeito que as coisas est�o. Talvez as Aes Sedai que voc� levar para l� possam cuidar disso.</p><p>Mat ficou boquiaberto. Sua irm�, Aes Sedai? Bo, que sempre corria para contar para a m�e toda vez que ele tentava fazer alguma coisa divertida?</p><p>� Tem mais � continuou Rand. � Egwene talvez chegue em Salidar antes de voc�. Acho que descobriram que ela vinha se passando por Aes Sedai. Fa�a o poss�vel para livr�-la de qualquer puni��o. Diga que vou fazer ela voltar para as S�bias assim que poss�vel. � prov�vel que ela esteja mais do que disposta a acompanhar voc�, mas pode ser que n�o. Voc� sabe como ela sempre foi teimosa. Elayne � o principal. Lembre-se: n�o saia do lado dela at� chegar a Caemlyn.</p><p>� Prometo que n�o vou sair � resmungou Mat. Como, sob a Luz, Egwene podia estar em algum ponto do Eldar? Tinha certeza de que a mulher estava em Cairhien quando ele saiu de Maerone. A menos que ela tivesse aprendido o truque dos port�es de Rand, mas a� nesse caso poderia voltar na hora em que quisesse. Ou talvez dar um pulo em Caemlyn e ainda criar um port�o para ele e o Bando. � E n�o precisa se preocupar com Egwene; vou arrastar ela para longe de l�, n�o importa o problema em que tiver se metido, n�o importa nem se ela resolver dar uma de mula empacada.</p><p>N�o seria a primeira vez que tiraria as castanhas de Egwene da lareira antes que queimassem. E dessa vez tamb�m era bem prov�vel que n�o fosse receber nenhum agradecimento. <emphasis>Bo</emphasis> ia virar Aes Sedai? <emphasis>Sangue e malditas cinzas!</emphasis></p><p>� �timo � disse Rand. � �timo. � Ele continuava encarando o mapa com aten��o, at� que desviou os olhos. Por um instante, Mat achou que ele pretendia dizer algo a Aviendha. Mas apenas desviou o rosto, irritado. � Thom Merrilin deve estar com Elayne. � Rand puxou uma carta do bolso, dobrada e lacrada. � D� um jeito de entregar isto a ele. � Rand enfiou a carta nas m�os de Mat e saiu depressa da tenda.</p><p>Aviendha deu um passo para segui-lo, fazendo men��o de erguer a m�o, abrindo a boca daquele jeito de quem est� prestes a falar. Ent�o, r�pida como se movera, fechou a boca, enterrou as m�os nas saias e estreitou os olhos. Ah, ent�o era assim que soprava o vento, n�o era? <emphasis>E ela quer conversar com Elayne.</emphasis> Como Rand tinha conseguido se meter naquela confus�o? O amigo sempre soubera lidar com as mulheres. Ele e Perrin.</p><p>Ainda assim, n�o era problema seu. Mat encarou a carta. O nome de Thom estava escrito com uma letra feminina, e o selo era de um tipo que ele n�o reconhecia, uma �rvore frondosa encimada por uma coroa. Que nobre estaria escrevendo para um velho enrugado feito Thom? Tamb�m n�o era problema dele. Jogou a carta em cima da mesa e apanhou o cachimbo e a algibeira.</p><p>� Olver � chamou, enchendo o fornilho de tabaco de Dois Rios �, pe�a para Talmanes, Nalesean e Daerid virem aqui falar comigo.</p><p>Veio um gritinho de surpresa l� de fora, junto da aba da tenda, seguido de uma resposta e de algu�m saindo a passos apressados:</p><p>� Sim, Mat.</p><p>Aviendha o encarou, os bra�os cruzados e a express�o firme, mas Mat se antecipou:</p><p>� Enquanto estiver viajando com o Bando, voc� est� sob o meu comando. N�o quero confus�o, e espero que voc� fa�a a sua parte para evitar problemas.</p><p>Se a mulher provocasse o m�nimo que fosse, seria entregue a Elayne amarrada na algibeira de uma sela, nem que precisasse de dez homens para a enfiar l�.</p><p>� Eu sei obedecer, l�der de batalha. � Ela pontuou a frase com uma fungada sarc�stica. � Mas voc� j� deveria saber que nem todas as mulheres s�o moles feito as aguacentas. Se tentar colocar uma mulher em cima de um cavalo contra a vontade, ela pode acabar enfiando uma faca nas suas costelas.</p><p>Mat quase deixou o cachimbo cair. Sabia que as Aes Sedai n�o podiam ler pensamentos � se pudessem, seu couro j� estaria pendurado em alguma parede da Torre Branca havia muito �, mas talvez as S�bias Aiel� <emphasis>Claro que n�o. � s� um daqueles truques femininos. </emphasis>Se parasse para pensar, conseguiria descobrir como ela fazia aquilo. S� n�o se deu ao trabalho.</p><p>Pigarreou, enfiou o cachimbo apagado entre os dentes e se curvou para examinar o mapa. Se ele for�asse a marcha, o Bando provavelmente conseguiria cobrir a dist�ncia entre a clareira e Salidar em um dia, mesmo naquele terreno arborizado, mas Mat queria que levassem dois ou at� tr�s. Daria muitos avisos para as Aes Sedai; n�o as queria mais assustadas do que j� deviam estar. E pensar em uma Aes Sedai assustada era quase uma contradi��o. Mesmo com o medalh�o, n�o estava nem um pouco ansioso para descobrir do que uma Aes Sedai assustada seria capaz.</p><p>Sentia os olhos de Aviendha cravados em sua nuca, ouvindo um ru�do irritante. A jovem, sentada de pernas cruzadas apoiada na parede da tenda, passava a l�mina da faca do cinto por uma pedra de amolar enquanto o observava.</p><p>Quando Nalesean entrou com Daerid e Talmanes, Mat j� foi logo falando:</p><p>� Estamos indo fazer c�cegas em umas Aes Sedai, resgatar uma mula e levar uma garota de nariz empinado at� o Trono do Le�o. Ah, sim: esta aqui � Aviendha. N�o olhem feio para ela, ou a mulher vai tentar cortar sua garganta e acabar rasgando a pr�pria traqueia por engano.</p><p>Aviendha gargalhou, como se ele tivesse feito a piada mais engra�ada do mundo. Mas n�o parou de amolar a faca.</p><empty-line/><p>Por um momento, Egwene n�o conseguiu entender por que a dor tinha parado de aumentar. Em seguida, tratou de se levantar, erguendo o corpo com dificuldade dos tapetes da tenda, solu�ando tanto que at� tremia. Queria muito assoar o nariz. N�o sabia por quanto tempo chorara daquele jeito t�o desesperado, s� conseguia pensar no fogo que sentia da cintura at� a parte de tr�s dos joelhos. Quase n�o conseguiu ficar de p�. A camisola que estava usando quando tudo come�ou, uma prote��o m�nima, havia sido descartada muito tempo antes. As l�grimas escorriam por seu rosto, mas ela s� ficou ali, parada, chorando copiosamente.</p><p>Sorilea, Amys e Bair a encaravam com express�es muito s�brias, e n�o eram as �nicas, embora quase todas as outras estivessem sentadas em almofadas ou apenas estiradas, conversando e desfrutando do ch� servido por uma <emphasis>gai�shain</emphasis> esbelta. Uma mulher, gra�as � Luz. Todas ali eram mulheres, S�bias e aprendizes � mulheres para as quais Egwene mentira alegando ser Aes Sedai. Foi uma felicidade saber que s� a mentira expl�cita contava, e n�o a simples omiss�o ou ter deixado entenderem que era Aes Sedai � n�o teria sobrevivido a isso! A puni��o era apenas para as vezes em que a mentira sa�ra de sua boca. Mas houvera algumas surpresas. Tanto Estair quanto Cosain, uma loura esguia dos Miagoma Cordilheira da Espinha, dissera com aspereza que Egwene n�o tinha <emphasis>toh</emphasis> para com ela, mas que ficaria para o ch�. Aeron, por outro lado, parecia querer cort�-la em dois, e Surandha�</p><p>Piscando para limpar os olhos daquela nuvem de l�grimas, Egwene olhou para Surandha. A mulher estava sentada com tr�s S�bias, conversando e olhando volta e meia na dire��o de Egwene. Surandha fora absolutamente impiedosa � n�o que alguma delas tivesse aliviado a m�o. O cinto que Egwene encontrara em um de seus ba�s era fino e flex�vel, mas duas vezes mais largo que sua m�o, e aquelas mulheres tinham bra�os pesados. A meia d�zia de golpes que levou de cada uma delas foi se acumulando at� uma dor insuport�vel.</p><p>Nunca sentira tanta vergonha em toda a vida, e n�o fora por ter ficado nua, toda vermelha e chorando feito um beb� � bem, o choro era um fator. O problema n�o fora todas elas a terem visto amarrada, quando n�o estavam se revezando com cinto. O que a envergonhava era ter reagido t�o mal a tudo. At� uma crian�a Aiel teria sido mais estoica � bem, crian�a nenhuma jamais precisaria passar por aquilo, mas ainda n�o deixava de ser verdade.</p><p>� Acabou? � Aquela voz rouca e hesitante era mesmo a dela? Como aquelas mulheres ririam se soubessem como ela se esfor�ara para reunir coragem para se pronunciar.</p><p>� S� voc� sabe o valor da sua honra � respondeu Amys, em um tom neutro, ainda segurando o cinto pela fivela, a tira de couro balan�ando ao lado do corpo. O murm�rio das conversas cessara.</p><p>Egwene respirou fundo, tremendo entre cada solu�o. Bastava uma palavra sua e pronto: tudo estaria terminado. Poderia ter dito que j� bastava depois que cada mulher lhe batera uma �nica vez. Poderia�</p><p>Ela se encolheu, se ajoelhou e se deitou nos tapetes. Enfiou as m�os por baixo das saias de Bair, agarrando-se aos tornozelos ossudos dela por cima das botas macias. Desta vez, Egwene se manteria firme em sua coragem. Desta vez, n�o choraria. Desta vez, n�o daria pontap�s, n�o se debateria e nem� O cinto ainda n�o a golpeara. Ela ergueu a cabe�a e piscou, tentando ver as S�bias por tr�s do borr�o de l�grimas.</p><p>� O que est�o esperando? � Sua voz ainda sa�a tr�mula, mas tamb�m continha mais que um qu� de raiva. Iam faz�-la <emphasis>esperar</emphasis>, al�m de tudo? � Tenho uma viagem para iniciar ainda hoje � noite, caso tenham esquecido. Andem logo com isso.</p><p>Amys largou o cinto ao lado da cabe�a de Egwene.</p><p>� Esta mulher n�o tem <emphasis>toh</emphasis> para comigo.</p><p>� Esta mulher n�o tem <emphasis>toh</emphasis> para comigo. � Era a voz fina de Bair.</p><p>� Esta mulher n�o tem <emphasis>toh</emphasis> para comigo � acrescentou Sorilea, com mais �nfase, ent�o se curvou e afastou o cabelo �mido do rosto de Egwene. � Eu sabia que, em seu cora��o, voc� era uma Aiel. Agora n�o se exceda em seu orgulho, garota. Voc� cumpriu seu <emphasis>toh</emphasis>. Levante-se, antes que a gente ache que voc� est� se exibindo.</p><p>Ent�o as tr�s a ajudaram a ficar de p�, abra�ando-a e secando suas l�grimas, depois lhe deram um len�o para que ela enfim pudesse assoar o nariz. As outras mulheres se aproximaram, cada uma anunciando que Egwene n�o tinha <emphasis>toh</emphasis> para com ela antes de oferecerem seus pr�prios abra�os e sorrisos. Os sorrisos � que foram o mais chocante. Surandha sorria com a mesma alegria de sempre. Pensando bem, era �bvio: a <emphasis>toh</emphasis> deixava de existir assim que era cumprida. Fosse l� o que tivesse causado a obriga��o poderia muito bem jamais ter acontecido. A pequena parte de Egwene que n�o estava completamente envolvida na vida regida pelo <emphasis>ji�e�toh</emphasis> achava que o que tinha dito no final talvez tamb�m tivesse ajudado, assim como � e principalmente � o fato de ter voltado a se prostrar. Talvez n�o tivesse come�ado com a indiferen�a de uma Aiel, mas, no fim das contas, Sorilea tinha raz�o: Egwene se tornara Aiel em seu cora��o. E achava que agora uma parte sua sempre seria Aiel.</p><p>As S�bias e as aprendizes foram saindo aos poucos. Parecia que deveriam passar a noite toda ou at� mais l�, rindo e conversando com Egwene, mas era s� um costume, e n�o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Ent�o, com a ajuda de Sorilea, conseguiu convenc�-las de que simplesmente n�o tinha tempo. Por fim, restaram apenas ela, Sorilea e as duas Andarilhas dos Sonhos. Todos os abra�os e sorrisos tinham reduzido as l�grimas de Egwene a um gotejar, e, mesmo que seus l�bios ainda tremessem, ela pelo menos conseguia sorrir. A verdade era que queria chorar de novo, mas por um outro motivo � quer dizer, pelo menos em parte por outro motivo, j� que ainda sentia o traseiro pegando fogo.</p><p>� Vou sentir tanta saudade de todas voc�s.</p><p>� Bobagem. � Sorilea bufou, enfatizando como achava aquilo uma tolice. � Se tiver sorte, elas v�o lhe dizer que agora voc� nunca mais vai poder ser Aes Sedai. A� poder� voltar para n�s. Voc� vai ser minha aprendiz. Daqui a tr�s ou quatro anos, vai ter seu pr�prio forte. J� tenho at� um marido para voc�: o neto mais novo da minha neta Amaryn, um rapaz chamado Taric. Ele um dia vai ser chefe de cl�, acho, ent�o voc� precisa ficar de olhos abertos para encontrar uma esposa-irm� que possa ser a senhora do teto dele.</p><p>� Obrigada. � Egwene riu. Parecia que teria para onde voltar se o Sal�o de Salidar a mandasse mesmo embora.</p><p>� E Amys e eu encontraremos voc� em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> � avisou Bair �, para contar o que ficarmos sabendo sobre os acontecimentos daqui e tudo o que envolver Rand al�Thor. Voc� agora vai trilhar seu pr�prio caminho em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas, se quiser, eu ainda posso ensin�-la.</p><p>� Eu quero, sim. � Isso se o Sal�o permitisse que ela sequer se aproximasse de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Bem, n�o era como se aquelas mulheres pudessem impedi-la de ir ao Mundo dos Sonhos. N�o importava o que decidissem, isso elas n�o tinham como fazer. � Por favor, vigiem Rand e as Aes Sedai de perto. N�o sei o que aquele garoto est� tramando, mas tenho certeza de que � mais perigoso do que ele imagina.</p><p>Amys n�o se pronunciou sobre continuar ensinando a Egwene, claro. A mulher tinha dado sua palavra sobre o que faria, e aquilo n�o seria apagado nem mesmo por Egwene ter cumprido sua <emphasis>toh</emphasis>. Em vez disso, ela disse:</p><p>� Sei que Rhuarc vai se arrepender de n�o estar aqui hoje � noite. Ele foi atr�s dos Shaido no norte, por conta pr�pria. N�o fique receosa por n�o ter cumprido sua <emphasis>toh</emphasis> para com ele. Voc� ter� a oportunidade de se redimir assim que os dois se encontrarem de novo.</p><p>Egwene ficou boquiaberta, mas conseguiu disfar�ar a surpresa assoando o nariz pelo que parecia a d�cima vez. Esquecera-se completamente de Rhuarc. Claro que nada dizia que ela era obrigada a pagar suas obriga��es para com ele da mesma maneira que pagara para as S�bias. Talvez seu cora��o fosse ao menos em parte Aiel, mas, por um momento, sua mente buscou outra solu��o. Tinha que haver um jeito. E teria bastante tempo para descobrir como resolver isso antes de voltar a v�-lo.</p><p>� Ficarei muito grata � respondeu, baixinho.</p><p>E tamb�m havia Melaine. E Aviendha. Luz! Achava que j� tinha terminado com aquilo. N�o conseguia parar de se contorcer, n�o importava quanto tentasse ficar im�vel. Tinha que haver outro jeito.</p><p>Bair abriu a boca para dizer algo, mas Sorilea a interrompeu.</p><p>� Precisamos deixar Egwene se vestir. Ela tem uma jornada pela frente.</p><p>O pesco�o fino de Bair se enrijeceu, e a boca de Amys arqueou para baixo. Estava claro que nenhuma das duas aprovava o que Egwene tentaria fazer.</p><p>Talvez as duas quisessem ficar ali para tentar convenc�-la a n�o ir, mas Sorilea come�ou a resmungar sozinha sobre pessoas tolas que tentam impedir uma mulher de fazer o que ela achava que precisava ser feito. As mais novas endireitaram os xales � Bair devia ter setenta ou oitenta anos, mas com certeza era mais nova que Sorilea �, deram abra�os de despedida em Egwene e sa�ram com murm�rios de �Que voc� sempre encontre �gua e sombra�.</p><p>Sorilea esperou s� um pouco mais.</p><p>� Pense no que eu disse sobre Taric. Eu devia ter pedido para ele ir � tenda de vapor para que voc� pudesse v�-lo. Bem, lembre-se disso enquanto a mente ainda conseguir lembrar: n�s sempre sentimos mais medo do que gostar�amos, mas sempre temos como ser mais corajosas do que esperamos. Mantenha-se fiel ao seu cora��o, e as Aes Sedai n�o conseguir�o ferir quem voc� � de fato, que � o cerne de seu cora��o. Elas n�o est�o t�o acima de n�s quanto pens�vamos. Que voc� sempre encontre �gua e sombra, Egwene. E lembre-se sempre de seguir seu cora��o.</p><p>Sozinha, Egwene ficou alguns momentos ali, parada, olhando para o nada e refletindo. Seu cora��o. Talvez tivesse mesmo mais coragem do que pensava. Ali com as S�bias, fizera o que precisava ser feito e se tornara uma Aiel. Em Salidar, precisaria se lembrar disso. Os m�todos das Aes Sedai eram bem diferentes dos das S�bias em alguns aspectos, mas as mulheres n�o a tratariam com mais brandura se soubessem que Egwene se passara por Aes Sedai. Se soubessem. N�o conseguia imaginar por que mais a convocariam com tanta frieza, mas Aiel nenhum se rendia antes de encarar a batalha.</p><p>Com um sobressalto, voltou a si. <emphasis>Se n�o vou me render sem lutar,</emphasis> pensou, �cida, � <emphasis>melhor encarar logo a batalha.</emphasis></p></section><section><title><p>CAP�TULO 34</p><p><image l:href="#18"/></p><p>A jornada para Salidar</p></title><p>Egwene precisou lavar o rosto duas vezes. Pegou os alforjes e ajeitou suas coisas. Guardou o espelho, o pente e a escova de marfim, assim como a caixinha de costura � um pequeno cubo de madeira cheio de lindas douraduras que, muito provavelmente, j� abrigara algum dia as joias de uma lady � e uma pasta branca de sab�o com aroma de rosas, meias-cal�as, camisolas e len�os limpos, fora outra por��o de coisas. As bolsas de couro acabaram t�o inchadas que ela mal conseguia afivelar as abas. V�rios vestidos, mantos e um xale Aiel sobraram para uma outra trouxa, que ela amarrou muito bem com uma corda. Feito isso, olhou em volta em busca de algo mais que talvez quisesse levar. Era tudo seu. Ganhara at� aquela tenda, que com certeza era pesada demais para carregar, assim como os tapetes e as almofadas. O lavat�rio de cristal era bem bonito, mas pesad�ssimo. O mesmo valia para os ba�s, apesar de v�rios terem al�as ricamente trabalhadas e lindos entalhes.</p><p>S� ent�o, enquanto pensava nos ba�s e em tudo mais, que se deu conta de que estava tentando postergar a pior parte daquela prepara��o.</p><p>� Coragem � lembrou a si mesma, seca. � Tenha um cora��o Aiel.</p><p>Descobriu que n�o era muito complicado vestir as meias-cal�as ainda de p�, s� deu alguns pulinhos de um lado a outro para se equilibrar. Em seguida cal�ou os sapatos robustos, bons para o caso de precisar andar muito, e vestiu uma an�gua de seda branca e macia, botando por cima o vestido de cavalgada verde-escuro, com as saias plissadas e estreitas que, por azar, acabaram ficando um pouco apertadas no quadril � o suficiente para lembr�-la, sem necessidade, de que passaria um bom tempo sem querer se sentar.</p><p>N�o havia raz�o para sair da tenda. Bair e Amys deviam estar deitadas, mas n�o queria correr o risco de que uma das duas a visse fazendo aquilo. Seria como dar um tapa na cara delas � e isso se desse certo. Se n�o desse, teria uma longa cavalgada pela frente.</p><p>Esfregando os dedos nas palmas, muito nervosa, ela abra�ou <emphasis>saidar</emphasis> e se deixou preencher. E remexeu os p�s. <emphasis>Saidar</emphasis> a deixava mais consciente de tudo, inclusive do pr�prio corpo, coisa que no momento ela preferia esquecer. Tentar uma habilidade nova, uma coisa que, at� onde sabia, ningu�m jamais tentara, deveria ser feito devagar e com cuidado, mas, dessa vez, Egwene queria se ver livre da Fonte Verdadeira o mais r�pido poss�vel. Canalizou os fluxos de Esp�rito depressa, sem muita aten��o.</p><p>O ar no meio da tenda tremeluziu ao longo da tessitura, ocultando o outro lado em brumas. Se estivesse certa, tinha acabado de criar um lugar onde o interior da pr�pria tenda era t�o similar a seu reflexo em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> que n�o existia diferen�a nenhuma � um lado <emphasis>era</emphasis> o outro. Bem, s� havia um jeito de ter certeza.</p><p>Egwene jogou os alforjes por cima do ombro, enfiou a trouxa debaixo do bra�o, atravessou a tessitura e soltou <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>Estava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Teve certeza s� de ver que as lamparinas, antes acesas, j� n�o ardiam mais, por�m ainda havia luz no ambiente. Tudo parecia se mover e mudar alguns detalhes entre uma olhada e outra � o lavat�rio, um dos ba�s. Estava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, e em carne e osso. A sensa��o n�o era diferente de quando ia l� em sonho.</p><p>Egwene se agachou e saiu da tenda. Estava em uma Cairhien que parecia estranhamente distante e envolta por sombras, onde uma lua crescente derramava seu brilho por sobre tendas sem nenhum fogo crepitando nem ningu�m se movendo. S� lhe restava descobrir como chegar a Salidar. J� havia pensado naquilo. Boa parte da quest�o dependia de saber se tinha tanto controle do ambiente em carne e osso quanto ao entrar em sono.</p><p>Concentrando a mente no que iria encontrar, deu a volta ao redor da tenda� e sorriu. Ali estava Bela, a �gua baixinha e desgrenhada que usara para ir embora de Dois Rios no que parecia uma vida inteira atr�s. S� uma Bela de sonhos, mas a �gua robusta ergueu o focinho ao v�-la e relinchou.</p><p>Egwene largou a bagagem e abra�ou a cabe�a do animal.</p><p>� Tamb�m estou feliz de ver voc� de novo � sussurrou.</p><p>Aquele olho escuro e �mido que a encarava <emphasis>era</emphasis> de Bela, reflexo ou n�o.</p><p>A �gua tamb�m estava com a sela de patilha alta que Egwene imaginara � era confort�vel para viagens longas, mas nada macia. Olhou de soslaio para aquele tro�o, se perguntando como a sela ficaria com um acolchoado, quando um pensamento lhe ocorreu. Podia mudar qualquer coisa em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, at� a si pr�pria, bastava saber como. Se tinha controle suficiente para fazer Bela aparecer quando estava no Mundo dos Sonhos em carne e osso� Egwene se concentrou no pr�prio corpo.</p><p>Com um sorriso, apertou os alforjes e a trouxa atr�s da sela e montou, assentando-se com bastante conforto.</p><p>� N�o � trapa�a � explicou para a �gua. � Elas n�o esperavam que eu fosse cavalgando desse jeito at� Salidar. � Bem, parando para pensar, talvez esperassem. Mas tudo tinha limites, com ou sem cora��o Aiel. Virou Bela e esporou as costelas da �gua com delicadeza. � Preciso ir o mais r�pido poss�vel, ent�o voc� vai ter que correr como o vento.</p><p>Antes que tivesse tempo de rir da imagem que lhe veio � mente, visualizando a �gua rechonchuda correndo feito o vento, Bela j� estava em disparada. A paisagem virou um borr�o, passando depressa como um raio. Por um momento, Egwene se grudou no cepilho da sela, boquiaberta. Era como se cada passo em trote de Bela as transportasse por v�rias milhas. Logo no primeiro passo, Egwene s� teve um instante para se dar conta de que estavam na margem do rio abaixo da cidade, com embarca��es flutuando nas �guas escuras por entre intervalos de luz do luar. Quando fez men��o de puxar as r�deas para impedir que a �gua fosse correndo em disparada e ca�sse no rio, o passo seguinte levou-as para colinas cheias de tou�as.</p><p>Jogou a cabe�a para tr�s e soltou uma gargalhada. Aquilo era maravilhoso! Fora a paisagem borrada, n�o sentia como se estivesse indo t�o r�pido. O cabelo mal tinha tempo de esvoa�ar antes que o vento daquela correria parasse e retornasse no momento seguinte. A marcha de Bela tinha o mesmo trote arrastado de que ela se recordava, mas o salto repentino de tudo o que a cercava era emocionante. Estava em uma rua de aldeia, silenciosa e sem lua no c�u, mas, no instante seguinte, chegou a uma estrada de interior serpenteando por entre colinas, e depois a um prado onde o feno se erguia quase � altura dos ombros do animal. Egwene s� fazia uma pausa aqui e ali para se orientar � o que n�o era nenhum problema, com aquele mapa maravilhoso ainda fresco na cabe�a, cortesia daquela mulher que tamb�m se chamava Siuan. Fora isso, deixava Bela trotar livre. As aldeias e as cidades surgiam e sumiam em borr�es, grandes cidades � teve quase certeza de que uma delas era Caemlyn, quando avistou as muralhas de um branco prateado na noite. Em dado momento, ao passar por entre colinas arborizadas, viu a cabe�a e os ombros de uma imensa est�tua despontando do ch�o, resqu�cio de alguma terra perdida na hist�ria. A cara de pedra, feia e desgastada, surgiu t�o de repente ao lado de Bela que Egwene quase gritou � s� se segurou porque a imagem sumiu antes que pudesse soltar o berro preso na garganta. A lua n�o se movia entre um salto e outro e quase n�o sa�a do lugar conforme avan�avam � toda. Um ou dois dias para chegar a Salidar? Era o que Sheriam dissera. As S�bias estavam certas: todos tinham passado tanto tempo acreditando que as mulheres da Torre sabiam de tudo que at� as pr�prias Aes Sedai acreditavam nisso. Naquela noite, Egwene provaria que elas estavam erradas, mas era improv�vel que as Aes Sedai fossem dar sinais de ter reparado naquela prova. Ainda assim, elas <emphasis>saberiam</emphasis>.</p><p>Depois de algum tempo, quando tinha certeza de que j� estava em um ponto qualquer bem dentro do territ�rio de Altara, Egwene come�ou a permitir que Bela desse saltos menores, puxando as r�deas com mais frequ�ncia e at� cavalgando normalmente durante alguns intervalos, sobretudo quando havia alguma aldeia por perto. Algumas estalagens cobertas pela escurid�o da noite informavam o nome da aldeia em suas placas, como a Estalagem Marella ou a Estalagem Fonte Ionina, e o luar combinado com aquela ilumina��o inusitada particular de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> facilitava muito a leitura. Pouco a pouco, Egwene foi tendo certeza de onde estava em rela��o a Salidar e passou a dar saltos ainda menores, at� n�o saltar mais, apenas conduzir Bela em seu trote normal, avan�ando por florestas com �rvores altas que tinham acabado com quase toda a vegeta��o rasteira e em que tudo o que sobrara fora levado pela seca.</p><p>Ainda assim, ela se surpreendeu quando uma aldeia de tamanho consider�vel apareceu de repente, silenciosa e escura sob o luar. S� podia ser o lugar certo.</p><p>Parando diante da linha de casas de pedra com telhados de palha, Egwene desmontou e descarregou seus pertences. Estava tarde, mas talvez ainda houvesse pessoas por ali, no mundo desperto. N�o havia por que assust�-las aparecendo do nada. Se uma Aes Sedai a visse e confundisse sua identidade, ela poderia acabar sem a oportunidade de encarar o Sal�o.</p><p>� Voc� correu mesmo como o vento � murmurou, dando um �ltimo abra�o em Bela. � Queria que voc� pudesse ir comigo.</p><p>Uma fantasia tola. O que acontecia em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> s� poderia existir l�. Aquela n�o era a Bela de verdade. Ainda assim, sentiu uma pontada de tristeza quando deu as costas para a �gua a fim de tecer a cortina de Esp�rito bruxuleante � n�o pararia de imaginar Bela, permitiria que ela existisse ali enquanto poss�vel. De cabe�a erguida, atravessou a passagem. Estava com o cora��o Aiel pronto para encarar o que viesse.</p><p>Mal dera o primeiro passo quando parou de repente, arregalando os olhos.</p><p>� Ai!</p><p>Assim como Bela, as transforma��es que criara em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> n�o perdurariam no mundo real: a ard�ncia voltou com tudo, trazendo junto a voz de Sorilea ao p� do ouvido: <emphasis>Se voc� fizer parecer que a consequ�ncia de cumprir sua </emphasis>toh<emphasis> nunca aconteceu, como ter� cumprido sua </emphasis>toh<emphasis>? N�o v� se esquecer de que tem seu cora��o de Aiel, garota.</emphasis></p><p>Sim. N�o esqueceria. Estava ali para uma batalha, quer as Aes Sedai soubessem quer n�o. Estava pronta para lutar pelo direito de ser Aes Sedai, para encarar� Luz, o que estava acontecendo?</p><p>Tinha gente nas ruas, algumas poucas pessoas andando por entre as casas de janelas acesas. Mancando de leve, Egwene abordou uma mulher magricela de avental branco e rosto sofrido.</p><p>� Com licen�a, meu nome � Egwene al�Vere e sou uma Aceita � a mulher lan�ou um olhar cortante para seu vestido de cavalgada � e acabei de chegar. Poderia me levar a Sheriam Sedai? Preciso falar com ela. � Era muito prov�vel que Sheriam j� estivesse dormindo, mas, se fosse o caso, Egwene pretendia acord�-la. Tinham ordenado que ela fosse o mais r�pido poss�vel, ent�o ia fazer tudo ao seu alcance para que Sheriam soubesse que chegara.</p><p>� Ah, todo mundo sempre vem atr�s de mim � resmungou a mulher. � Ser� que ningu�m sabe resolver nada sozinho? N�o, querem sempre que Nildra resolva. Voc�s, Aceitas, s�o as piores. Olha, n�o tenho a noite inteira. Se quer mesmo que eu a leve, ent�o � melhor apertar o passo. Se n�o, acho que voc� consegue encontrar Sheriam por conta pr�pria. � Nildra saiu andando sem nem olhar para tr�s.</p><p>Egwene seguiu em sil�ncio. Se abrisse a boca, temia que fosse dizer � mulher o que pensava, o que s� serviria para come�ar a estadia em Salidar com o p� esquerdo � n�o importava qu�o curta fosse ser essa estadia. Egwene gostaria que seu cora��o Aiel e sua cabe�a de Dois Rios pudessem se fundir.</p><p>N�o era t�o longe assim. Seguiram um trecho da rua de terra batida e viraram a esquina at� uma outra ainda mais estreita. Ela ouviu risadas de algumas das casas. Nildra parou diante de uma constru��o silenciosa, embora a luz ainda brilhasse pelas janelas do aposento da frente.</p><p>A mulher parou apenas por tempo suficiente para bater � porta e entrou sem esperar resposta. Ao passar pela porta, fez uma mesura perfeitamente adequada, ainda que r�pida, e falou em um tom um tanto mais respeitoso do que o que usara com Egwene:</p><p>� Aes Sedai, tem uma garota aqui dizendo que se chama Egwene e ela� � N�o conseguiu falar mais.</p><p>Todas as sete Aes Sedai do Cora��o da Pedra estavam l�, e nenhuma parecia pronta para dormir, embora todas, exceto a jovem chamada Siuan, estivessem de robe. Estavam sentadas com as cadeiras muito pr�ximas, e Egwene teve a impress�o de que interrompera alguma conversa s�ria. Sheriam foi a primeira a se levantar, acenando para que Nildra sa�sse.</p><p>� Luz, crian�a! J�?</p><p>Ningu�m deu a menor import�ncia para a rever�ncia de Nildra ou para sua fungada de desgosto por ser dispensada daquele jeito.</p><p>� N�o est�vamos esperando voc� � completou Anaiya, tomando Egwene pelos bra�os com um sorriso caloroso. � N�o t�o cedo. Seja bem-vinda, crian�a. Bem-vinda.</p><p>� Teve algum efeito colateral? � indagou Morvrin. Ela n�o se levantou, assim como Carlinya e a jovem Aes Sedai, mas se inclinou para a frente, ansiosa pela resposta. Todas usavam robes de seda de diversos tons, alguns bordados ou adornados, mas o dela era de l� marrom comum, embora parecesse macio e muito bem-feito. � Voc� est� sentindo alguma mudan�a depois da experi�ncia? T�nhamos pouqu�ssimo conhecimento para basear nosso palpite. Para ser sincera, estou surpresa por ter dado certo.</p><p>� Teremos que ver isso na pr�tica para saber se funciona mesmo t�o bem. � Beonin fez uma pausa para tomar um gole de ch�, ent�o depositou a x�cara e o pires em uma mesinha lateral de pernas bambas. A x�cara e o pires n�o combinavam, mas nenhuma mob�lia ali combinava, e a maior parte parecia t�o bamba quanto a mesinha. � Se houver efeitos colaterais, ela pode ser Curada. Vai ficar tudo bem.</p><p>Egwene se afastou depressa de Anaiya e largou seus pertences junto � porta.</p><p>� N�o, estou muito bem. Estou mesmo.</p><p>Poderia ter hesitado. Anaiya a teria Curado sem nem perguntar. Mas seria uma trapa�a.</p><p>� Ela parece bastante bem � opinou Carlinya, tranquila. Estava mesmo de cabelo curto, os cachos escuros mal cobrindo as orelhas, n�o fora apenas em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. A mulher ainda usava branco, claro, at� os bordados da roupa eram brancos. � Podemos pedir a uma das Amarelas que fa�a um exame mais minucioso mais tarde, s� para garantir.</p><p>� Deixem a menina botar os p�s no ch�o antes de come�ar a arrast�-la para l� e para c� � disse Myrelle, rindo. Flores frondosas amarelas e vermelhas cobriam seu robe, eram tantas que mal se via algum verde. � Ela acabou de percorrer mil l�guas em uma noite. Em horas.</p><p>� Voc�s n�o t�m tempo para deixar a garota ficar de p� pra cima � ponderou a jovem Aes Sedai com firmeza. A mulher parecia mesmo um peixe fora d��gua naquela reuni�o, com o seu vestido amarelo de saias listradas em azul e a gola redonda bem cavada com bordados azuis. Al�m da roupa, era a �nica de quem dava para deduzir a idade. � Pela manh�, o Sal�o vai fazer um enxame completo. Se ela n�o estiver preparada, Romanda vai estrip�-la feito uma carpa gorda.</p><p>Egwene ficou boquiaberta. Prestou mais aten��o na voz do que nas palavras.</p><p>� Voc� � Siuan Sanche. Imposs�vel!</p><p>� Ah, � poss�vel, sim � retrucou Anaiya, seca, encarando a jovem Aes Sedai com um olhar resignado.</p><p>� Siuan voltou a ser Aes Sedai � explicou Myrelle, com um olhar mais exasperado do que resignado.</p><p>S� podia ser verdade � as Aes Sedai tinham <emphasis>dito</emphasis> que era �, mas Egwene n�o conseguia acreditar. Achou dif�cil acreditar mesmo com a explica��o de Sheriam. Nynaeve tinha Curado um <emphasis>estancamento</emphasis>? Siuan n�o parecia nem um dia mais velha que Nynaeve porque <emphasis>tinha sido estancada</emphasis>? Siuan sempre fora uma comandante durona e muito s�ria, com um cora��o igualmente duro, n�o uma mulher bonita e de bochechas rosadas, dona de uma boca quase delicada.</p><p>Egwene n�o conseguiu tirar os olhos da antiga Amyrlin enquanto Sheriam falava. Aqueles olhos azuis ainda eram os mesmos. Como podia ter visto aquele olhar, forte o bastante para martelar pregos, e n�o ter se dado conta? Bem, aquele rosto j� era um bom motivo. Mas Siuan tamb�m sempre fora muito forte com o Poder. Quando uma garota come�ava a canalizar, era preciso fazer testes para verificar qu�o forte ela seria, mas n�o depois que sua for�a j� se assentara e estabelecera. Egwene j� tinha conhecimento suficiente para avaliar outra mulher, pelo menos em determinados aspectos. Al�m da pr�pria Egwene, Sheriam era a mais forte ali, seguida de Myrelle, embora fosse dif�cil saber com certeza. Todo o resto parecia semelhante, exceto Siuan � ela era a mais fraca, e por uma boa margem.</p><p>� Esta foi mesmo a descoberta mais not�vel de Nynaeve � afirmou Myrelle. � As Amarelas est�o aprendendo com ela e fazendo suas pr�prias inova��es, mas foi Nynaeve quem come�ou com tudo. Sente-se, crian�a. � uma hist�ria longa demais para ouvir de p�.</p><p>� Prefiro continuar de p�, obrigada. � Quando viu a cadeira de espaldar reto com assento de madeira que Myrelle indicou, Egwene mal conseguiu conter um calafrio. � E Elayne? Tamb�m est� bem? Quero saber tudo sobre ela e Nynaeve.</p><p>A descoberta <emphasis>mais</emphasis> not�vel de Nynaeve? Aquilo implicava que havia mais de uma. Parecia que ficara para tr�s junto com as S�bias e teria que correr para alcan�ar as amigas. Ao menos achava que ainda teria permiss�o para estudar. Era dif�cil que aquelas mulheres a tivessem saudado com tanta anima��o se fossem expuls�-la. Egwene n�o fizera rever�ncias ou chamara qualquer uma delas de Aes Sedai uma �nica vez, por�m isso fora mais por falta de chance do que por qualquer motivo. N�o era uma boa ideia enfrentar as Aes Sedai demonstrando rebeldia. Ainda assim, nenhuma delas a repreendera. Talvez n�o soubessem, afinal. Mas, ent�o, por que a tinham convocado?</p><p>� Bem, tirando um probleminha com panelas que ela e Nynaeve est�o enfrentando� � come�ou Sheriam, mas Siuan a interrompeu, meio irritada:</p><p>� Por que voc�s ficam tagarelando feito garotas desmioladas? � tarde demais para ficar com medo de seguir em frente. J� come�ou, e voc�s � que come�aram. Ou acabam logo com isso, ou Romanda vai pendurar o couro de todas para secar ao sol ao lado desta garota. E Delana, Faiselle e todo o Sal�o estar�o l� para ajudar a prend�-las na corda.</p><p>Sheriam e Myrelle se viraram para encar�-la quase ao mesmo tempo. Todas as Aes Sedai se viraram, ali�s, e Morvrin e Carlinya at� giraram o corpo nas cadeiras. Rostos g�lidos de Aes Sedai fitando com olhos g�lidos de Aes Sedai.</p><p>Siuan primeiro respondeu �queles olhares com uma encarada igualmente desafiadora, t�o Aes Sedai quanto elas, ainda que parecesse muito mais jovem. Ent�o sua cabe�a fraquejou um pouco, e manchas vermelhas surgiram em suas bochechas. Ela se levantou da cadeira, mantendo os olhos baixos.</p><p>� Eu me precipitei � resmungou.</p><p>Mas seus olhos n�o mudaram. Talvez as Aes Sedai n�o tenham percebido, mas Egwene notou. Ainda assim, n�o era do feitio de Siuan.</p><p>Egwene tamb�m reparou que n�o fazia a menor ideia do que estava acontecendo. N�o se tratava s� de uma Siuan Sanche d�cil feito uma gata de casa, ainda que obrigada a agir com docilidade. Isso era o menos significativo. O que aquelas mulheres tinham come�ado? Por que <emphasis>ela</emphasis> seria colocada ao sol para secar, caso decidissem parar?</p><p>As Aes Sedai se entreolharam da forma mais indecifr�vel que podiam. Morvrin foi a primeira a assentir.</p><p>� Voc� foi convocada por um motivo muito especial, Egwene � anunciou Sheriam, solene.</p><p>Egwene sentiu o cora��o bater mais r�pido. Elas n�o sabiam de sua farsa. N�o sabiam. Mas o que era, ent�o?</p><p>Sheriam finalmente explicou:</p><p>� Voc� ser� o pr�ximo Trono de Amyrlin.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 35</p><p><image l:href="#1"/></p><p>No Sal�o das Votantes</p></title><p>Egwene encarou Sheriam, imaginando se deveria rir. Podia ser que, no tempo que passara com os Aiel, ela tivesse se esquecido do que era considerado engra�ado entre as Aes Sedai. Sheriam a encarou de volta com aquele rosto sem idade definida, imperturb�vel, e os olhos verdes amendoados pareciam nem piscar. Egwene olhou para as demais. Sete rostos sem express�o, apenas um ar de expectativa. Siuan talvez at� estivesse sorrindo de modo discreto, mas esse suposto sorriso poderia muito bem ser a curva natural dos seus l�bios. A luz oscilante das lamparinas tornou suas fei��es repentinamente estranhas e inumanas.</p><p>Egwene se sentia tonta, os joelhos bambos. Sem pensar, ela se deixou desabar na cadeira de encosto reto. Tamb�m se levantou de um pulo. Aquilo, com certeza, a ajudou a clarear a mente. Um pouco, pelo menos.</p><p>� Nem Aes Sedai eu sou � afirmou, sem f�lego. A declara��o parecia suficientemente evasiva. Tinha que ser algum tipo de brincadeira ou� ou� ou <emphasis>alguma</emphasis> coisa.</p><p>� Podemos dar um jeito nisso � respondeu Sheriam com firmeza, apertando ainda mais o la�o da sua faixa azul-clara para enfatizar o que tinha dito.</p><p>As tran�as cor de mel de Beonin balan�avam enquanto ela assentia com a cabe�a.</p><p>� Ela � Aes Sedai, o Trono de Amyrlin. A lei � bem clara. Em v�rios pontos se menciona �o Trono de Amyrlin como Aes Sedai�, mas n�o consta em lugar nenhum que � necess�rio ser Aes Sedai para se tornar Amyrlin. � Qualquer Aes Sedai estaria familiarizada com as leis da Torre, mas, como mediadoras, as Cinzas tinham que conhecer as leis de todas as terras, e Beonin assumiu um tom professoral, como se explicasse algo que ningu�m conhecesse t�o bem quanto ela. � A lei que estabelece como a Amyrlin deve ser escolhida faz refer�ncia apenas � �mulher que � convocada� ou ��quela que se apresenta diante do Sal�o� ou algo assim. Do come�o ao fim elas n�o s�o mencionadas uma �nica vez, as palavras �Aes Sedai�. Nunca. Alguns diriam que era essa a inten��o das legisladoras, e ela deve ser considerada, mas est� claro, seja qual for a inten��o das mulheres que escreveram a lei, que� � Beonin franziu a testa quando Carlinya a interrompeu.</p><p>� Sem d�vida, elas acharam t�o �bvio que n�o havia a necessidade de deixar expl�cito. Por outro lado, � l�gico que uma lei significa o que nela est� escrito, a despeito da interpreta��o das legisladoras.</p><p>� As leis raramente dizem respeito � l�gica � afirmou Beonin, �cida. � Neste caso, no entanto � admitiu ela ap�s alguns instantes �, voc� tem toda a raz�o. � Ela se virou para Egwene e prosseguiu: � E ele tamb�m enxerga assim, o Sal�o.</p><p>Todas estavam s�rias, inclusive Anaiya, quando disse:</p><p>� Voc� vai se tornar Aes Sedai, crian�a, assim que for elevada ao Trono de Amyrlin. De maneira bem geral, � isso.</p><p>At� Siuan parecia estar falando s�rio, apesar daquele sorriso min�sculo. Era um sorriso.</p><p>� Voc� vai poder fazer os Tr�s Juramentos logo que voltarmos para a Torre � avisou Sheriam. � Chegamos a considerar que voc� os pronunciasse de qualquer forma, mas, sem o Bast�o dos Juramentos, pode ser visto como uma farsa. Melhor esperar.</p><p>Egwene quase se sentou de novo antes de se conter. Talvez as S�bias tivessem raz�o. Talvez viajar por <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em carne e osso tivesse afetado a mente dela de algum modo.</p><p>� Isso � uma loucura � protestou Egwene. � Eu n�o posso ser Amyrlin. Eu sou� Eu sou� � As obje��es se embolavam em sua l�ngua em um emaranhado que n�o a deixava dizer nada. Ela era jovem demais. A pr�pria Siuan fora a Amyrlin mais jovem de todos os tempos, e j� tinha trinta anos quando foi elevada. Egwene mal iniciara seus estudos, independentemente de quanto soubesse sobre o Mundo dos Sonhos. As Amyrlins eram cultas e experientes. E s�bias. Deveriam, com certeza, ser s�bias. Ela s� se sentia confusa e desnorteada. A maioria das mulheres passava dez anos como novi�a e dez como Aceita. Algumas progrediam mais r�pido, verdade, e at� bem mais r�pido. Foi o caso da pr�pria Siuan. Mas Egwene passara menos de um ano como novi�a e fora Aceita por menos tempo ainda. � � imposs�vel! � Foi o melhor que acabou conseguindo dizer.</p><p>A bufada de Morvrin a fez se lembrar de Sorilea.</p><p>� Acalme-se, crian�a, ou eu mesma vou cuidar disso. N�o � hora de voc� come�ar a se agitar ou de desmaiar em cima de n�s.</p><p>� Mas eu n�o saberia o que fazer! N�o faria a m�nima ideia! � Egwene respirou fundo. Aquilo n�o chegou a acalmar seu cora��o acelerado, mas ajudou. Um pouco. Cora��o de Aiel. O que quer que aquelas mulheres fizessem, ela n�o permitiria que a intimidassem. Com o olhar fixo no rosto s�rio e duro de Morvrin, acrescentou: <emphasis>Ela pode at� me arrancar o couro, mas n�o vai me intimidar. </emphasis>� Isso � rid�culo, isso sim. N�o vou bancar a tola na frente de todo mundo, e a minha decis�o � essa. Se foi para isso que o Sal�o me convocou, minha resposta � n�o.</p><p>� Receio que voc� n�o tenha essa op��o. � Anaiya soltou um suspiro enquanto alisava o robe, que era, surpreendentemente, de seda rosa com babados e delicadas rendas marfim nas bainhas. � Voc� n�o pode recusar uma convoca��o para se tornar Amyrlin, assim como n�o pode recusar uma convoca��o para um julgamento. At� os textos das convoca��es s�o os mesmos. � <emphasis>Aquilo</emphasis> era encorajador. Ah, sim, e como era.</p><p>� A escolha agora � do Sal�o. � Myrelle soou levemente triste, o que n�o melhorou em nada o astral de Egwene.</p><p>Com um sorriso repentino, Sheriam p�s o bra�o em torno dos ombros de Egwene.</p><p>� N�o se preocupe, crian�a. N�s vamos ajud�-la e gui�-la. � para isso que estamos aqui.</p><p>Egwene n�o disse nada. N�o conseguia formular uma resposta. Obedecer a lei n�o significava ser intimidada, mas a sensa��o era a mesma. Para elas, o sil�ncio era consentimento, e Egwene sup�s que fosse o caso. Sem delongas, ordenou-se que Siuan, que saiu resmungando por ter recebido a incumb�ncia, se retirasse e fosse acordar pessoalmente as Votantes para avis�-las que Egwene havia chegado.</p><p>A casa se transformou em um furac�o antes mesmo de Siuan chegar � porta. O vestido de cavalgada de Egwene entrou na pauta de uma discuss�o importante � da qual ela n�o participou. Uma servi�al rechonchuda foi despertada do seu cochilo em uma cadeira no quarto dos fundos e, com duras advert�ncias para que ela n�o deixasse escapar uma palavra sobre o assunto, ordenada a se retirar para ir buscar todo e qualquer vestido de Aceita que conseguisse encontrar que tivesse alguma chance de caber em Egwene. Ela experimentou oito ali mesmo, no quarto da frente, antes de achar um que, de certa maneira, cabia. Era apertado demais no busto, mas, felizmente, folgado no quadril. Enquanto a servi�al ficou levando vestidos para Egwene experimentar, Sheriam e as outras aproveitaram para, uma de cada vez, sa�rem para se vestir e, revezando-se, orientavam-na a respeito do que iria acontecer e do que ela precisava fazer e dizer.</p><p>As mulheres a obrigavam a repetir tudo. As S�bias achavam que falar uma vez s� bastava, e coitada da aprendiz que n�o as ouvisse com aten��o. Egwene se lembrava de uma parte do que precisava dizer por conta de uma aula para novi�as na Torre e acertou todas as palavras logo na primeira tentativa, mas as Aes Sedai repassavam tudo de novo, e de novo e depois de novo. Egwene n�o conseguia entender. Fossem quaisquer outras pessoas que n�o as Aes Sedai, teria afirmado que elas estavam nervosas, rostos serenos ou n�o. Egwene come�ou a se perguntar se estava cometendo algum erro e passou a enfatizar palavras diferentes.</p><p>� Fale do jeito que n�s dissermos � irrompeu Carlinya, fria feito gelo trincando, e Myrelle, t�o g�lida quanto, completou:</p><p>� Voc� n�o pode cometer nenhum erro, crian�a. Nenhum!</p><p>Elas a obrigaram a repetir tudo outras cinco vezes, e quando Egwene protestou que havia pronunciado todas as palavras de maneira correta e listou quem estaria em que lugar e quem diria o qu� da mesma maneira que elas tinham dito, achou que Morvrin fosse esbofete�-la. Isso se Beonin ou Carlinya n�o a estapeassem primeiro. Ali, seus cenhos franzidos eram t�o duros quanto tapas, e Sheriam fitava-a como se ela estivesse se comportando feito uma novi�a emburrada. Egwene suspirou e come�ou outra vez.</p><p>� Eu entro com tr�s de voc�s me escoltando�</p><p>Foi uma prociss�o silenciosa que abriu caminho pelas ruas quase vazias iluminadas pelo luar. Apenas uma ou outra das pessoas que ainda estavam ali fora sequer as olhava de relance. Seis Aes Sedai com uma �nica Aceita entre elas podiam ser ou n�o uma imagem comum por ali, mas a impress�o era de que n�o se tratava de uma situa��o suficientemente estranha para gerar falat�rio. Janelas que estiveram iluminadas mais cedo j� se encontravam escuras, e a cidade estava t�o quieta que os passos das mulheres na terra batida eram aud�veis. Egwene trazia no dedo o anel da Grande Serpente, de volta em sua m�o esquerda. Seus joelhos tremiam. Ela estivera preparada para encarar qualquer coisa, mas sua lista de �quaisquer coisas� jamais inclu�ra aquilo.</p><p>Elas pararam diante de uma constru��o retangular de pedra de tr�s andares. Todas as janelas estavam escuras, mas, � luz do luar, o pr�dio tinha o aspecto de uma estalagem. Carlinya, Beonin e Anaiya iriam permanecer ali, e as duas primeiras, pelo menos, n�o estavam muito contentes. N�o fizeram nenhuma reclama��o, tal como n�o tinham feito ainda na casa, mas ajeitavam as saias sem necessidade e mantinham as cabe�as eretas de maneira rija, sem nem olhar para Egwene.</p><p>Anaiya alisou o cabelo de Egwene para tranquiliz�-la.</p><p>� Vai dar tudo certo, crian�a. � Trazia uma trouxa debaixo do bra�o, o vestido que Egwene usaria depois que tudo estivesse terminado. � Voc� aprende r�pido.</p><p>Dentro da constru��o de pedra, um gongo emitiu um som profundo, uma, duas, tr�s vezes. Egwene quase deu um pulo. Sil�ncio por um instante, e ent�o o gongo repetiu a melodia. Myrelle alisou o vestido sem parecer se dar conta. Sil�ncio de novo, ent�o as tr�s batidas.</p><p>Sheriam abriu a porta e Egwene a acompanhou, Myrelle e Morvrin em seus calcanhares. Pelo modo como as tr�s a cercavam, Egwene n�o teve como n�o pensar em guardas estrategicamente posicionados para garantir que ela n�o fugisse.</p><p>O aposento interno grande e de p�-direito alto n�o estava escuro, longe disso. Havia lamparinas alinhadas sobre as cornijas das quatro grandes lareiras de pedra, e outras mais se enfileiravam nos degraus que conduziam ao andar seguinte e no passadi�o com gradil que dava para o aposento. Duas lumin�rias de ch�o compridas e cheias de ramifica��es foram colocadas diante de espelhos em lados opostos do aposento para aumentar a luminosidade. Cobertores presos �s janelas mantinham toda aquela luz l� dentro.</p><p>Nove cadeiras haviam sido dispostas de cada lado do aposento, viradas para o centro em fileiras de tr�s. As mulheres que as ocupavam, as Votantes das seis Ajahs representadas em Salidar, usavam seus xales e vestidos nas cores das suas respectivas Ajahs. As cabe�as giraram em dire��o a Egwene, os rostos sem exibir nada al�m de uma serenidade pl�cida.</p><p>Na extremidade oposta do aposento havia outra cadeira sobre uma pequena plataforma mais parecida com uma caixa achatada. Alta e pesada, os p�s e o encosto com espirais entalhados, a cadeira fora pintada de amarelo e azul, verde e branco, cinza, marrom e vermelho. Uma estola jazia perpassada sobre os bra�os, listrada em sete cores. Parecia que milhas separavam o ponto em que Egwene estava e a estola.</p><p>� Quem se apresenta perante o Sal�o da Torre? � indagou Romanda com uma voz alta e clara. Estava sentada bem abaixo da cadeira colorida, em frente �s tr�s irm�s Azuis. Sheriam deu um passo suave para o lado e revelou Egwene.</p><p>� Algu�m que vem com obedi�ncia, pela Luz � respondeu Egwene. Sua voz deveria estar tr�mula. Claro que elas n�o iriam mesmo seguir adiante com aquilo.</p><p>� Quem se p�e perante o Sal�o da Torre? � Romanda tornou a perguntar.</p><p>� Algu�m que vem com humildade, pela Luz. � Em algum momento, aquela farsa se transformaria no julgamento dela por fingir ser Aes Sedai. N�o, isso n�o. Se esse fosse o caso, elas teriam simplesmente feito uma blindagem e a deixado trancada at� que chegasse a hora. Mas com certeza�</p><p>� Quem se apresenta perante o Sal�o da Torre?</p><p>� Algu�m que vem sob a convoca��o do Sal�o, obediente e humilde pela Luz, pedindo apenas para aceitar a vontade do Sal�o.</p><p>Entre as Cinzas abaixo de Romanda, levantou-se uma mulher esbelta de pele escura. Por ser a Votante mais jovem, Kwamesa ficou respons�vel por proferir a indaga��o ritual que datava da Ruptura do Mundo:</p><p>� H� algu�m presente que n�o seja mulher?</p><p>Romanda jogou o xale para tr�s deliberadamente e, ao se levantar, deixou-o sobre o encosto da cadeira. Como a mais velha, seria a primeira a responder. Tamb�m de maneira deliberada, desamarrou o vestido e o baixou at� a cintura, descendo a an�gua junto.</p><p>� Eu sou mulher � pronunciou.</p><p>Com cuidado, Kwamesa repousou seu xale sobre a sua pr�pria cadeira e se desnudou at� a cintura.</p><p>� Eu sou mulher � disse.</p><p>As outras ent�o se levantaram e come�aram a se despir, cada qual enunciando as mesmas palavras t�o logo provava que tamb�m era mulher. Egwene sentiu um pouco de dificuldade com o corpete apertado do vestido de Aceita que lhe fora encontrado e precisou da ajuda de Myrelle com os bot�es, mas, bem depressa, todas as quatro estavam t�o nuas quanto qualquer uma das demais.</p><p>� Eu sou mulher � falou Egwene junto com as outras.</p><p>Kwamesa andou devagar pelo aposento, fazendo uma pausa diante de cada mulher para uma encarada quase insultuosa, e ent�o parou de novo � frente da pr�pria cadeira para anunciar que n�o havia ningu�m presente que n�o fosse mulher. As Aes Sedai se sentaram e a maior parte delas come�ou a vestir os corpetes de volta. N�o exatamente com pressa, mas tamb�m foram poucas as que se demoraram. Egwene quase balan�ou a cabe�a. N�o podia se cobrir at� um momento posterior da cerim�nia. Muito tempo atr�s, a pergunta de Kwamesa teria demandado mais provas. Naqueles dias, as cerim�nias formais eram realizadas �sob a vestimenta da Luz�, o que significava dizer que n�o se usava nada al�m da pr�pria pele. O que aquelas mulheres achariam de uma tenda de vapor Aiel ou de um banho shienarano?</p><p>N�o havia tempo para imaginar isso.</p><p>� Quem representa esta mulher � indagou Romanda �, e se compromete por ela, cora��o por cora��o, alma por alma, vida por vida? � A mulher se sentava ereta com toda a dignidade, seu busto redondo ainda desnudo.</p><p>� Eu me comprometo � afirmou Sheriam com firmeza, seguida um instante depois pelas vozes fortes de Morvrin e Myrelle, uma de cada vez.</p><p>� Aproxime-se, Egwene al�Vere � ordenou Romanda com rispidez. Egwene deu tr�s passos e se ajoelhou. Sentia-se entorpecida. � Por que voc� est� aqui, Egwene al�Vere?</p><p>Ela estava, de fato, entorpecida. N�o era capaz de sentir nada. Tamb�m n�o conseguia se lembrar das suas respostas, mas, de alguma forma, elas lhe sa�ram rolando pela l�ngua.</p><p>� Fui convocada pelo Sal�o da Torre.</p><p>� O que deseja, Egwene al�Vere?</p><p>� Servir � Torre Branca, nada mais e nada menos. � Luz, elas iam mesmo seguir adiante com aquilo!</p><p>� E como pretende servir, Egwene al�Vere?</p><p>� Com meu cora��o, minha alma e minha vida, pela Luz. Sem medo ou favoritismo, pela Luz.</p><p>� Onde pretende servir, Egwene al�Vere?</p><p>Egwene respirou fundo. Ainda <emphasis>podia</emphasis> parar com aquela idiotice. N�o era poss�vel que estivesse mesmo prestes a�</p><p>� No Trono de Amyrlin, se for da vontade do Sal�o da Torre. � Sua respira��o paralisou. J� era tarde demais para voltar atr�s. Desde o Cora��o da Pedra talvez j� fosse tarde demais.</p><p>Delana foi a primeira a se levantar, depois Kwamesa e Janya, e ent�o outras, at� nove Votantes estarem de p� � frente das suas cadeiras, o que significava aceita��o. Romanda ainda estava firme em seu assento. Nove de dezoito. A aceita��o precisava ser un�nime, j� que o Sal�o sempre buscava o consenso. Ao final, todas as vota��es eram un�nimes, embora muita conversa fosse necess�ria para se chegar l�, mas, naquela noite, n�o haveria conversas al�m das frases cerimoniais, e aquilo significava quase a rejei��o absoluta. Sheriam e as outras haviam feito pouco caso da sugest�o de Egwene de que aquilo talvez acontecesse, desprezando a ideia com tanta rapidez que ela poderia ter ficado preocupada se a coisa toda n�o fosse t�o rid�cula, mas, quase por alto, tinham avisado que sim, isso poderia ocorrer. N�o uma rejei��o, mas uma manifesta��o de que as Votantes que permaneceram em seus assentos n�o pretendiam servir de capacho. S� um gesto simb�lico, segundo Sheriam, mas, com base na express�o severa de Romanda, bem como na de Lelaine, s� um pouco menos severa acima do peito nu, Egwene n�o tinha nenhuma certeza daquilo. Elas tamb�m haviam dito que talvez fossem tr�s ou quatro mulheres.</p><p>Sem dar um pio, as mulheres de p� retomaram seus lugares. Nenhuma delas falou, mas Egwene sabia o que fazer. Seu entorpecimento desaparecera.</p><p>Ela se levantou e se moveu na dire��o da Votante mais pr�xima, uma Verde de rosto penetrante chamada Samalin, que permanecera sentada. Quando Egwene tornou a se ajoelhar � frente de Samalin, Sheriam ficou de joelhos ao lado dela, segurando uma bacia larga com �gua. Ondula��es dan�avam na superf�cie do l�quido. Sheriam parecia tranquila e seca, enquanto Egwene come�ava a reluzir de suor, mas as m�os de Sheriam tremiam. Morvrin se ajoelhou e entregou um pano para Egwene, enquanto Myrelle ficou aguardando ao lado com peda�os de um tecido atoalhado sobre o bra�o. Por algum motivo, Myrelle aparentava estar zangada.</p><p>� Por favor, me permita servir � disse Egwene. Com o olhar fixo � frente, Samalin suspendeu as saias at� a altura do joelho. Seus p�s estavam descal�os. Egwene lavou cada p� e os secou, e ent�o foi at� a Verde seguinte, uma mulher levemente rechonchuda chamada Malind. Sheriam e as demais lhe haviam dito os nomes de todas as Votantes. � Por favor, me permita servir. � Malind tinha um rosto bonito, com l�bios carnudos e olhos escuros que davam a impress�o de que gostavam de sorrir, mas, naquele momento, n�o havia sorriso. Era uma das que haviam se levantado, mas seus p�s tamb�m estavam descal�os.</p><p>Os p�s de todas as Votantes estavam descal�os. Enquanto lavava todos aqueles p�s, Egwene se perguntou se as Votantes j� sabiam quantas permaneceriam sentadas. Estava t�o �bvio que elas j� sabiam que algumas ficariam, que aquele servi�o seria exigido. Quase tudo o que Egwene sabia a respeito de como funcionava o Sal�o da Torre fora do que ouvira naquela aula enquanto novi�a: para todos os fins pr�ticos, n�o sabia nada. Sua �nica op��o era continuar.</p><p>Ela lavou e secou o �ltimo p� � pertencia a Janya, que tinha o cenho franzido como se tivesse outros assuntos em mente. Pelo menos fora uma das que se levantaram. Largando o pano na bacia, voltou para o seu lugar ao p� das fileiras e se ajoelhou.</p><p>� Por favor, me permitam servir. � Mais uma chance.</p><p>Novamente, Delana foi a primeira a se levantar, mas Samalin desta vez fez o mesmo logo depois. Ningu�m se p�s de p� de um salto, mas, uma a uma, todas foram se levantando, at� que apenas Lelaine e Romanda continuavam sentadas olhando uma para a outra, e n�o para Egwene. Por fim, Lelaine deu de ombros sutilmente, puxou o corpete sem a menor pressa e se levantou. Romanda virou a cabe�a e olhou para Egwene. Encarou-a por tanto tempo que Egwene tomou consci�ncia do suor que lhe escorria por entre os seios e pelas costelas. Enfim, com uma vagarosidade imponente, Romanda se vestiu e se juntou �s demais. Egwene escutou um arquejo de al�vio vindo de tr�s dela, onde Sheriam e as outras estavam aguardando.</p><p>Ainda n�o havia acabado, claro. Romanda e Lelaine se aproximaram ao mesmo tempo para conduzi-la at� a cadeira colorida. Egwene ficou de p� diante dela enquanto as duas lhe puxaram o corpete e puseram a estola do Trono de Amyrlin sobre seus ombros. Em un�ssono, todas as Votantes disseram:</p><p>� Voc� est� elevada ao Trono de Amyrlin, pela gl�ria da Luz, que a Torre Branca possa perdurar para sempre. Egwene al�Vere, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin. � Lelaine removeu o anel da Grande Serpente da m�o esquerda de Egwene e entregou-o a Romanda, que o passou para a m�o direita. � Que a Luz ilumine o Trono de Amyrlin e a Torre Branca.</p><p>Egwene riu. Romanda apenas piscou, chocada, enquanto Lelaine se sobressaltou � e elas n�o foram as �nicas.</p><p>� Acabei de me lembrar de uma coisa � disse ela, acrescentando: �, filhas. � Era como a Amyrlin chamava as Aes Sedai. Do que ela se lembrara foi o que veio em seguida. Egwene n�o p�de deixar de pensar que se tratava de uma compensa��o pelo al�vio que tivera em sua viagem por <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Egwene al�Vere, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin, foi capaz de se sentar naquela cadeira de madeira dura sem aparentar muito cuidado e sem se retrair de dor. Considerou as duas coisas triunfos da sua for�a de vontade.</p><p>Sheriam, Myrelle e Morvrin deram um passo � frente � olhando os rostos igualmente serenos, n�o era poss�vel saber qual delas tinha soltado uma exclama��o surpresa � e as Votantes formaram uma fila logo atr�s delas que se estendia at� a porta. Foi organizada por ordem de idade, com Romanda na �ltima posi��o.</p><p>Numa mesura profunda, Sheriam abriu as saias.</p><p>� Por favor, me permita servir, M�e.</p><p>� Voc� pode servir � Torre, filha � respondeu Egwene no tom mais s�rio que p�de. Sheriam beijou seu anel e se afastou, enquanto Myrelle fez sua mesura.</p><p>Foi assim ao longo da fila inteira. Aquele arranjo proporcionou algumas surpresas. Nenhuma das Votantes era jovem de fato, apesar dos seus rostos de Aes Sedai, mas Delana, com seus cabelos claros, que Egwene pensara ser t�o velha quanto Romanda, estava mais ou menos pelo meio da fila. Lelaine e Janya, duas mulheres bem bonitas sem um �nico fio grisalho em seus cabelos escuros, ficaram � frente apenas da Amarela de cabelo louro. Cada qual fez sua rever�ncia e beijou o anel de Egwene com o rosto impass�vel � embora algumas tenham olhado de relance para as faixas da bainha de Egwene � e deixaram o aposento por uma porta nos fundos sem dar mais nenhum pio. O normal era que tivesse havido mais rituais, mas o restante da cerim�nia deveria esperar at� de manh�.</p><p>Enfim, Egwene se viu sozinha com as tr�s mulheres que haviam se comprometido por ela. Ainda n�o tinha certeza do que aquilo significava. Assim que ela se levantou, Myrelle saiu para deixar entrar as tr�s que haviam ficado do lado de fora.</p><p>� O que teria acontecido se Romanda n�o tivesse se levantado? � Em tese, teria havido mais uma chance, mais uma rodada de lavagem de p�s e pedidos de permiss�o para servir, mas Egwene tinha certeza de que, se Romanda tivesse votado n�o na segunda vez, tamb�m teria votado na terceira.</p><p>� Ent�o � bem prov�vel que ela pr�pria fosse se elevar a Amyrlin daqui a alguns dias � opinou Sheriam. � Ela ou Lelaine.</p><p>� N�o foi isso que eu quis dizer � rebateu Egwene. � O que teria acontecido comigo? Teria simplesmente voltado a ser uma Aceita? � Anaiya e as outras apareceram apressadas, sorrindo, e Myrelle come�ou a ajudar Egwene a trocar o vestido branco com faixas por um de seda verde-clara que ela s� iria usar pelo tempo que levasse para chegar at� sua cama. Era tarde, mas a Amyrlin n�o podia andar por a� com um vestido de Aceita.</p><p>� Muito provavelmente � disse Morvrin ap�s alguns instantes. � N�o posso dizer se isso seria sorte ou n�o, ser uma Aceita que todas as Votantes sabiam que quase havia ocupado o Trono de Amyrlin.</p><p>� Aconteceu pouqu�ssimas vezes � explicou Beonin �, mas uma mulher que � recusada ap�s se apresentar para ser elevada ao Trono de Amyrlin costuma ser exilada. O Sal�o busca sempre a harmonia, e, querendo ou n�o, ela sempre acabaria causando desarmonia.</p><p>Sheriam encarou os olhos de Egwene, como que para refor�ar suas palavras.</p><p>� N�s ter�amos sido exiladas. Myrelle, Morvrin e eu, com certeza, j� que nos comprometemos por voc�, e � prov�vel que Carlinya, Beonin e Anaiya tamb�m. � Seu sorriso foi abrupto. � Mas n�o foi isso que aconteceu. A nova Amyrlin deveria passar a primeira noite em contempla��o e ora��o, mas, assim que Myrelle terminar com esses bot�es, talvez seja melhor lhe darmos ao menos uma palavrinha sobre como est�o as coisas em Salidar.</p><p>Todas observavam Egwene. Myrelle estava atr�s dela, cuidando do �ltimo bot�o, mas ela conseguia sentir os olhos da mulher em sua nuca.</p><p>� �, eu acho que � melhor, sim.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 36</p><p><image l:href="#18"/></p><p>A Amyrlin � elevada</p></title><p>Egwene levantou a cabe�a do travesseiro, olhou em volta e por um momento ficou surpresa ao se ver em uma cama com dossel em um grande quarto. A primeira luz da manh� entrava pelas janelas, e uma mulher bonita e rechonchuda trajando um vestido simples de l� cinza estava colocando um grande jarro branco de �gua quente no lavat�rio. Chesa lhe fora apresentada na v�spera como sua criada. A criada da Amyrlin. Uma bandeja tampada j� estava ao lado do seu pente e da sua escova em uma mesinha estreita diante de um espelho com moldura trabalhada em prata. O quarto cheirava a p�o quente e peras cozidas.</p><p>Anaiya havia preparado o quarto para a chegada de Egwene. Os m�veis ali tamb�m n�o combinavam, mas eram os melhores de Salidar, da poltrona acolchoada estofada com seda verde ao espelho de ch�o no canto, com todas as suas douraduras intactas, e ao arm�rio com entalhes decorativos que agora guardava seus pertences. Infelizmente, parecia que o gosto de Anaiya pendia fortemente para babados e rendas espalhafatosas. Ambos bordejavam o dossel e as cortinas da cama, que estavam abertas, e um ou outro adornavam a mesa e seu banquinho, os bra�os e os p�s da poltrona acolchoada, a manta que Egwene jogara no ch�o e at� mesmo o len�ol fino de seda que ela deixara cair logo em seguida. As cortinas das janelas tamb�m eram rendadas. Egwene deitou a cabe�a. Havia rendas nas extremidades dos travesseiros tamb�m. Corria um s�rio risco de morrer sufocada pelos babados e rendas daquele quarto.</p><p>Tinham conversado muito depois que Sheriam e as outras a levaram para aquele lugar, ao qual se referiam como a Pequena Torre, mas Egwene quase n�o abrira a boca. As mulheres n�o estavam muito interessadas no que ela achava que Rand estaria tramando, ou no que Coiren e as demais poderiam querer. Havia uma miss�o diplom�tica a caminho de Caemlyn a cargo de Merana, que sabia o que fazer, embora elas tivessem sido bem vagas quanto a qual seria, exatamente, a miss�o. Na maior parte do tempo, elas falaram e Egwene escutou, e suas perguntas foram deixadas de lado. As respostas a algumas delas n�o tinham import�ncia, disseram-lhe, ao menos por enquanto. As que foram respondidas tiveram apenas uma explica��o r�pida antes que as mulheres voltassem ao que era mais importante. Miss�es diplom�ticas haviam sido despachadas para cada governante, e o nome de cada um deles foi revelado a Egwene, com uma explica��o sobre o porqu� de ele ou ela ser absolutamente vital para a causa de Salidar � ao que parecia, todos eram. Elas n�o chegaram a dizer com todas as letras que tudo estaria perdido se ao menos um dos governantes se posicionasse contra, mas a �nfase dada a cada um j� deixava isso claro. Gareth Bryne estava montando um ex�rcito que acabaria se mostrando forte o bastante para defender seus direitos � ou os de Egwene � diante de Elaida, se fosse preciso. As Aes Sedai n�o pareciam achar que seria o caso, apesar da exig�ncia de Elaida para que voltassem � Torre. Elas pareciam acreditar que, assim que a not�cia sobre a eleva��o de Egwene al�Vere ao Trono de Amyrlin se espalhasse, as Aes Sedai viriam at� ela, inclusive algumas das que estavam na Torre naquele momento, o suficiente para que Elaida n�o tivesse outra op��o a n�o ser aceitar a exig�ncia de renunciar. Por algum motivo, os Mantos-brancos andavam quietos, de forma que Salidar estava t�o segura quanto qualquer outro local, at� onde sabiam. O fato de Logain ter sido Curado, assim como Siuan � e tamb�m Leane, naturalmente, j� que estava em Salidar �, surgiu na conversa quase por acaso.</p><p><emphasis>� N�o precisa se preocupar com isso � disse Sheriam de modo tranquilizador. Estava de p� junto a Egwene, que se encontrava sentada na poltrona acolchoada, com as demais formando um arco ao seu redor. � O Sal�o vai ficar discutindo se deve ou n�o amansar Logain de novo at� ele morrer de velhice e a quest�o se resolver sozinha.</emphasis></p><p><emphasis>Egwene tentou conter outro bocejo � estava ficando tarde � e Anaiya disse:</emphasis></p><p><emphasis>� Temos que deix�-la dormir. Amanh� vai ser quase t�o importante quanto hoje, crian�a. � De repente ela fez uma pausa e riu. � M�e. Amanh� tamb�m � importante, M�e. Vamos mandar Chesa vir ajud�-la a se preparar para dormir.</emphasis></p><p>Mesmo ap�s elas terem sa�do, ir para a cama n�o foi f�cil. Enquanto Chesa ainda desabotoava o vestido de Egwene, Romanda apareceu com v�rias sugest�es para a Amyrlin, oferecendo-as com uma voz firme e equilibrada, e, t�o logo ela saiu, Lelaine entrou, como se s� estivesse esperando a sa�da da Amarela. A Azul tinha seus pr�prios conselhos, dados com Egwene j� sentada na cama ap�s Chesa ter sido expulsa do quarto com palavras gentis, mas firmes. Suas recomenda��es eram completamente diferentes das de Romanda � que por sua vez tamb�m se contrapunham �s de Sheriam � e vieram acompanhadas de um sorriso caloroso e at� afetuoso, mas seu tom, como o das outras duas, tra�a a certeza de que Egwene precisaria ser guiada durante os seus primeiros meses. Nenhuma mulher disse exatamente que teria mais preparo do que Sheriam para orientar Egwene e garantir que ela tomasse as melhores decis�es para a Torre, ou que Sheriam e seu pequeno c�rculo talvez acabassem brigando entre si, ou que elas pudessem dar conselhos ruins, mas tudo isso ficou subentendido. Romanda e Lelaine tamb�m insinuaram que a outra poderia ter suas pr�prias inten��es ocultas, que, sem a menor d�vida, causariam sofrimentos incalcul�veis.</p><p>Quando canalizou para apagar a �ltima lamparina, Egwene esperava um sono repleto de pesadelos. Na verdade, na manh� seguinte s� se lembrou de dois. No primeiro, ela era Amyrlin � uma Aes Sedai, mas sem prestar os juramentos � e tudo o que fazia resultava em desastres. Ela despertou s� para poder escapar, mas teve certeza de que n�o se tratava de nada com algum significado oculto. Foi uma experi�ncia muito parecida com aquela pela qual passou dentro do <emphasis>ter�angreal</emphasis> em que fizera o teste para se tornar uma Aceita. At� onde se sabia, elas n�o tinham nenhuma rela��o com a realidade. N�o com aquela realidade. O outro foi o tipo de bobagem que Egwene esperava. Ela j� conhecia os pr�prios sonhos o suficiente para saber disso, ainda que tenha precisado acordar para finalmente escapar tamb�m daquele segundo. Sheriam tinha tirado a estola dos ombros dela e todas as pessoas ao redor come�aram a gargalhar e apontar para Egwene, uma bobalhona que acreditou mesmo que uma garota que mal tinha dezoito anos poderia ser Amyrlin. N�o estavam s� as Aes Sedai, mas todas as S�bias, al�m de Rand, Perrin e Mat, Nynaeve e Elayne, e quase todo mundo que ela conhecera algum dia, enquanto ela ficava l� nua, tentando desesperadamente colocar um vestido de Aceita que talvez coubesse em uma garotinha de dez anos.</p><p>� Voc� j� n�o pode passar o dia todo deitada na cama, M�e.</p><p>Egwene abriu os olhos.</p><p>A express�o no rosto de Chesa era de uma falsa severidade, e ela sorria com os olhos. Com pelo menos o dobro da idade de Egwene, a mulher, desde o momento em que foram apresentadas, assumira logo de cara a mistura de respeito e familiaridade que se poderia esperar de uma criada experiente.</p><p>� O Trono de Amyrlin n�o pode dormir at� tarde, ainda mais num dia como hoje.</p><p>� Isso nem passou pela minha cabe�a. � Egwene se levantou da cama com dificuldade e se espregui�ou antes de tirar a camisola suada. Mal podia esperar pelo dia em que sua experi�ncia com o Poder a faria parar de suar. � Vou usar o de seda azul com as estrelas d�alva brancas na gola. � Egwene notou que Chesa fez quest�o de desviar o olhar das pernas de Egwene ao lhe entregar uma an�gua limpa. Os efeitos de ter cumprido sua <emphasis>toh</emphasis> haviam diminu�do um pouco, mas sua pele continuava visivelmente marcada. � Sofri um acidente na vinda para c� � disse, enfiando a cabe�a com pressa na an�gua nova.</p><p>Chesa assentiu com a cabe�a, entendendo na mesma hora.</p><p>� Cavalos s�o criaturas terr�veis e pouco confi�veis. Voc� nunca vai me ver em cima de um, M�e. Uma carro�a boa e robusta � sempre muito mais segura. Se eu ca�sse assim de um cavalo, tamb�m n�o contaria para ningu�m. Nildra n�o falaria noutra coisa, e Kaylin� Ah, voc� n�o iria acreditar nas coisas que algumas mulheres s�o capazes de dizer assim que voc� vira as costas. Claro que com o Trono de Amyrlin � diferente, mas � o que eu faria. � Segurando a porta do arm�rio aberta, a criada olhou de soslaio para ver se Egwene havia entendido.</p><p>Egwene sorriu para ela.</p><p>� Gente � gente, independente da posi��o � afirmou com sinceridade.</p><p>Chesa abriu um largo sorriso e foi buscar o vestido azul. Anaiya podia at� t�-la escolhido, mas ela era criada do Trono de Amyrlin, e era leal ao Trono de Amyrlin. E ela tamb�m tinha raz�o quanto � import�ncia daquele dia.</p><p>Comendo r�pido � apesar de Chesa resmungar baixinho que engolir a comida fazia mal ao est�mago e que leite morno com mel e especiarias era imbat�vel para acalmar uma barriga nervosa �, Egwene esfregou os dentes e se lavou �s pressas, deixou Chesa dar uma escovada de leve em seu cabelo e se vestiu o mais depressa que a criada permitiu, ajudando-a a passar o vestido de seda azul pela cabe�a. Ajustou a estola de sete listras nos ombros e parou para se olhar no espelho. Com ou sem estola, n�o se parecia muito com o Trono de Amyrlin. <emphasis>Mas eu sou. Isso n�o � um sonho</emphasis>.</p><p>No amplo aposento do andar de baixo, as mesas continuavam t�o vazias quanto na v�spera. Apenas as Votantes estavam presentes, usando seus xales e divididas de acordo com as Ajahs. Sheriam estava sozinha. Todas ficaram quietas enquanto Egwene descia a escada e fizeram mesuras quando ela chegou l� embaixo. Romanda e Lelaine lhe lan�aram olhares penetrantes e ent�o se viraram, claramente evitando olhar para Sheriam, e retomaram suas conversas. Quando Egwene permanecia calada, as outras faziam o mesmo. Vez ou outra, uma delas lhe dava uma olhadinha. Mesmo cochichando, suas vozes pareciam altas demais. Fazia sil�ncio l� fora, uma quietude absoluta. Egwene puxou o len�o da manga e secou o rosto com delicadeza. Nenhuma <emphasis>delas</emphasis> suava uma gota sequer.</p><p>Sheriam se aproximou e ficou ao lado dela.</p><p>� Vai dar tudo certo � disse em voz baixa. � Basta voc� se lembrar do que deve dizer. � Aquele foi outro ponto que elas haviam repassado com riqueza de detalhes na noite anterior. Egwene tinha um discurso para fazer naquela manh�.</p><p>A Amyrlin assentiu. Era estranho. Seu est�mago deveria estar se revirando, os joelhos, tr�mulos. N�o estavam, e ela n�o conseguia entender por qu�.</p><p>� N�o precisa ficar nervosa � disse Sheriam. A mulher falava como se pensasse que Egwene estava, e sua inten��o era tranquiliz�-la, mas, antes que pudesse tornar a abrir a boca, Romanda falou bem alto:</p><p>� Est� na hora.</p><p>Com um farfalhar de saias, as Votantes se alinharam de acordo com suas idades, Romanda � frente dessa vez, e marcharam at� o lado de fora. Egwene andou at� junto da porta. Nada de palpita��es, ainda. Talvez Chesa tivesse raz�o quanto ao leite morno.</p><p>Ap�s mais alguns momentos de sil�ncio, Romanda finalmente se pronunciou, a voz mais alta do que seria poss�vel sem a ajuda do Poder:</p><p>� Temos um Trono de Amyrlin.</p><p>Egwene p�s os p�s do lado de fora e sentiu um calor que n�o teria esperado para aquela hora do dia. Quando terminou de descer os degraus da entrada, seu p� pousou numa plataforma tecida com Ar. As filas de Votantes se estendiam em ambos os lados de Egwene, cada qual brilhando com a luz de <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>� Egwene al�Vere � entoou Romanda, sua voz chegando mais longe com a ajuda das tessituras do Poder �, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin.</p><p>As mulheres suspenderam-na com Ar durante o pronunciamento de Romanda, literalmente elevando a Amyrlin at� que ela ficasse quase na altura do telhado de palha. Para qualquer mulher que n�o fosse capaz de canalizar, Egwene pareceria capaz de caminhar sobre o ar.</p><p>Havia bastante gente reunida para v�-la delineada pelo sol que se levantava, e uma segunda tessitura fez a luz formar um halo ao redor dela. Homens e mulheres lotavam as ruas. Nas esquinas, perdia-se a multid�o de vista. Pessoas observavam de cada porta, janela e telhado, exceto os da pr�pria Pequena Torre. O brado que se elevou da multid�o quase abafou a voz de Romanda, e as ondas de aclama��es se espalharam pela aldeia. Egwene correu os olhos pela multid�o em busca de Nynaeve e Elayne, mas n�o conseguiu encontr�-las naquele mar de rostos voltados para ela. Uma era inteira pareceu se passar antes que tudo estivesse suficientemente calmo para que ela falasse. A tessitura que transportara a voz de Romanda passou para a dela.</p><p>Elas haviam preparado o discurso, Sheriam e as demais, uma exorta��o empolada que Egwene talvez fosse capaz de realizar sem ficar ruborizada caso tivesse o dobro da idade que tinha, ou, ainda melhor, o triplo. Ent�o ela decidira fazer algumas modifica��es.</p><p>� N�s nos unimos em uma busca pela verdade e pela justi�a que s� vai acabar quando a falsa Amyrlin, Elaida, for deposta do lugar que usurpou. � A �nica mudan�a foi o �s� vai� no lugar de �s� pode�, o que ela considerou melhor e mais forte. � Como Amyrlin, vou lider�-los nessa busca e n�o vou fraquejar, como sei que voc�s tamb�m n�o v�o. � Tratava-se de uma baita exorta��o. Ela n�o tinha a inten��o de permanecer ali em cima pelo longo tempo que seria necess�rio para repetir tudo o que elas queriam que fosse dito. Afinal, estaria apenas repetindo o que j� fora dito com outras palavras. � Como minha Curadora das Cr�nicas, eu nomeio Sheriam Bayanar.</p><p>Aquelas palavras geraram aclama��es bem mais t�midas. Uma Curadora n�o era uma Amyrlin, afinal. Egwene olhou para baixo e aguardou at� avistar Sheriam saindo �s pressas, ainda envolvendo os ombros com a estola da Curadora, em azul, para mostrar que fora elevada da Ajah Azul. Havia sido decidido que n�o se faria uma c�pia do cajado da Amyrlin, encimado por uma chama dourada, que a Curadora tradicionalmente carregava. At� que o cajado verdadeiro fosse recuperado da Torre Branca, elas teriam que passar sem ele. Sheriam estivera esperando um discurso bem mais longo, e olhou para Egwene com n�tida exaspera��o. Nas filas de Votantes, as express�es de Romanda e Lelaine permaneceram impass�veis. Cada qual tinha sido muito enf�tica em sua sugest�o para Curadora, e era desnecess�rio dizer que nenhuma das duas sugerira Sheriam.</p><p>Egwene respirou e se voltou para a multid�o que esperava.</p><p>� Em honra a este dia, decreto que todas as Aceitas e novi�as est�o absolvidas de suas penit�ncias. � Essa era uma tradi��o, e o an�ncio gerou gritos de j�bilo apenas de garotas vestidas de branco e de algumas Aceitas que ficaram felizes demais para se lembrarem de agir com decoro. � Em honra a este dia, decreto que Theodrin Dabei, Faolain Orande, Nynaeve al�Meara e Elayne Trakand, a partir de agora, est�o elevadas ao xale, tornando-se irm�s completas e Aes Sedai. � A frase foi recebida com uma esp�cie de sil�ncio questionador e murm�rios aqui e ali. Essa parte n�o estava nem um pouco de acordo com os costumes. Longe disso. Mas agora a ordem j� fora proferida, e foi bom Morvrin ter mencionado Theodrin e Faolain. Hora de retornar ao que as mulheres lhe haviam escrito. � Decreto que este � um dia de festa e celebra��o. Que n�o se realize nenhum trabalho al�m do necess�rio para a alegria. Que a Luz brilhe sobre todos voc�s e que a m�o do Criador os proteja. � A �ltima parte acabou engolida por um clamor t�o alto que sobrepujou a tessitura que transportava as palavras de Egwene. Algumas pessoas come�aram a dan�ar ali mesmo na rua, embora mal houvesse espa�o para se mexer.</p><p>A plataforma de Ar talvez tenha baixado um tantinho mais r�pido do que ascendera. As Votantes fitavam-na quando ela desceu, e o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> das mulheres se apagou assim que Egwene tocou o ch�o.</p><p>Sheriam disparou para agarrar o bra�o de Egwene, que sorria para as Votantes com suas express�es p�treas.</p><p>� Tenho que mostrar para a Amyrlin o gabinete dela. Me perdoem. � Egwene n�o diria exatamente que Sheriam quase a arrastou para dentro, mas tamb�m n�o podia dizer que n�o fora o caso. N�o acreditava que Sheriam tentaria lev�-la � for�a, mas achou melhor apanhar as saias com a m�o livre e dar passadas mais largas para n�o correr o risco de descobrir.</p><p>O gabinete, nos fundos da sala de espera, acabou se mostrando um pouco menor que o quarto dela, com duas janelas, uma escrivaninha, uma cadeira de encosto vertical por tr�s e outras duas � frente. Mais nada. Carcomidos pelos besouros, os pain�is das paredes haviam sido encerados e ganharam um brilho meio fosco, mas a mesa estava vazia. Havia um pequeno tapete florido no ch�o.</p><p>� Perdoe-me se fui abrupta, M�e � desculpou-se Sheriam, soltando o bra�o de Egwene �, mas achei que dever�amos conversar em particular antes que voc� falasse com qualquer uma das Votantes. Todas ajudaram na prepara��o do seu discurso e�</p><p>� Eu sei que fiz algumas mudan�as � disse Egwene com um largo sorriso �, mas eu me sentiria uma idiota ali em cima, falando sem parar. � <emphasis>Todas</emphasis> elas tinham ajudado? Ent�o n�o era de se surpreender que o discurso parecesse escrito por uma velha pomposa que n�o sabia calar a boca. Egwene quase gargalhou. � Seja como for, eu disse o que precisava ser dito, a alma do discurso. Elaida precisa ser deposta, e eu vou lider�-las para cumprir nosso objetivo.</p><p>� Certo � concordou Sheriam sem muita certeza �, mas pode ser que haja algumas perguntas sobre algumas das outras� mudan�as. Theodrin e Faolain com certeza v�o ser elevadas a Aes Sedai assim que tivermos de volta a Torre e o Bast�o dos Juramentos, e � bem prov�vel que Elayne tamb�m, mas Nynaeve ainda n�o consegue nem acender uma vela sem primeiro puxar a tran�a na cara das pessoas.</p><p>� Era exatamente esse ponto que eu queria levantar � intrometeu-se Romanda, entrando sem bater. � M�e � acrescentou, ap�s uma pausa bem evidente. Lelaine tamb�m chegou e quase bateu na cara de v�rias outras Votantes.</p><p>� Me pareceu a coisa certa a se fazer � ponderou Egwene, arregalando os olhos. � Pensei nisso ontem � noite. Fui elevada a Aes Sedai sem ter sido testada e sem fazer os Tr�s Juramentos, e, se eu fosse a �nica, isso me tornaria uma exce��o. Com outras quatro, j� n�o vai mais parecer t�o estranho. N�o para quem est� aqui, pelo menos. Elaida pode tentar tirar algum proveito disso quando ficar sabendo, mas a maioria das pessoas sabe t�o pouco sobre as Aes Sedai que, de um jeito ou de outro, n�o vai nem saber no que acreditar. O que mais importa nisso tudo s�o as pessoas. Elas precisam confiar em mim.</p><p>Qualquer pessoa que n�o fosse Aes Sedai teria ficado boquiaberta. Romanda, por sua vez, quase gaguejou.</p><p>� Pode at� ser verdade � come�ou a dizer Lelaine, em tom irritado, dando um pux�o em seu xale de bordas azuis, e ent�o parou. <emphasis>Era verdade</emphasis>. Mais que isso, o Trono de Amyrlin decretara publicamente que aquelas mulheres eram Aes Sedai. O Sal�o talvez conseguisse mant�-las como Aceitas, ou o que quer que Theodrin e Faolain fossem, mas n�o podia apagar mem�rias e n�o evitaria que todos soubessem que elas haviam se mostrado contr�rias � Amyrlin em seu primeiro dia. Seria uma maneira de garantir que as pessoas jamais confiassem em Egwene.</p><p>� Eu espero, M�e � ponderou Romanda com a voz firme �, que, na pr�xima vez, voc� primeiro consulte o Sal�o. Ir contra os costumes pode ter consequ�ncias inesperadas.</p><p>� Ir contra a lei pode ter consequ�ncias infelizes � afirmou Lelaine sem rodeios, acrescentando, atrasada: � M�e. � Aquilo era um absurdo, ou perto disso. As condi��es para algu�m ser elevada a Aes Sedai estavam definidas pela lei, era um fato, mas a Amyrlin podia decretar quase tudo o que quisesse. Ainda assim, uma Amyrlin s�bia n�o compraria brigas com o Sal�o, a menos que fosse inevit�vel.</p><p>� Ah, no futuro eu vou consultar, sim � respondeu Egwene, s�ria. � Mas me pareceu a forma correta de agir. Agora voc�s me d�o licen�a, por favor? Eu realmente preciso conversar com a Curadora.</p><p>As mulheres quase estremeceram. As mesuras foram discretas, as palavras de despedida perfeitamente corretas no que dizia respeito a palavras, mas resmungadas, no caso de Romanda, e, no de Lelaine, pronunciadas em tom cortante.</p><p>� Voc� se saiu muito bem � disse Sheriam depois que as mulheres se retiraram. Parecia surpresa. � Mas � preciso ter em mente que o Sal�o pode criar problemas para qualquer Amyrlin. Um dos motivos para eu ser a sua Curadora � poder aconselh�-la e mant�-la bem longe desse tipo de problema. � melhor voc� me perguntar antes de decretar as coisas. E, caso eu n�o esteja por perto, pergunte para Myrelle, Morvrin e as outras. Estamos aqui para ajud�-la, M�e.</p><p>� Eu compreendo, Sheriam. Prometo escutar com aten��o qualquer coisa que voc�s disserem. Eu gostaria de falar com Nynaeve e Elayne, se for poss�vel.</p><p>� Deve ser � disse Sheriam, sorrindo �, embora eu talvez tenha que arrancar Nynaeve de alguma Amarela. Siuan est� vindo ensinar voc� a etiqueta da fun��o de Amyrlin, e h� muito o que aprender sobre esse assunto, mas vou dizer para ela vir um pouco mais tarde.</p><p>Depois que Sheriam saiu, Egwene ficou olhando para a porta. Em seguida, virou-se e ficou encarando a mesa. Absolutamente vazia. Nenhum relat�rio para ser lido, nenhum registro a estudar. Nem mesmo caneta e tinta para escrever um bilhete, muito menos um decreto. E Siuan vindo dar aulas sobre etiqueta.</p><p>Quando ouviu uma t�mida batidinha na porta, ela ainda estava ali de p�.</p><p>� Entre � respondeu, imaginando se seria Siuan ou, quem sabe, uma servi�al trazendo bolo de mel j� devidamente cortado em pedacinhos para o lanche.</p><p>Hesitante, Nynaeve p�s a cabe�a para dentro, e ent�o Elayne empurrou-a gabinete adentro. Lado a lado, ambas executaram mesuras perfeitas, profundas, abrindo as saias brancas de barras listradas e murmurando:</p><p>� M�e.</p><p>� N�o fa�am isso, por favor � reprovou Egwene. Na verdade, saiu mais como uma lamenta��o. � Voc�s s�o as duas �nicas amigas que eu tenho, e se come�arem� � Luz, Egwene estava quase a ponto de chorar!</p><p>Elayne antecipou-se ao choro por muito pouco e abra�ou Egwene. Nynaeve ficou calada e, nervosa, mexia e remexia um bracelete fino de prata.</p><p>� Ainda somos suas amigas, Egwene, mas voc� � o Trono de Amyrlin. Luz, eu lembro que um dia falei que voc� seria a Amyrlin, quando eu fosse� � Elayne n�o terminou a frase, fazendo uma leve careta. � Bem, em todo caso, voc� �. N�o podemos simplesmente chegar para a Amyrlin e dizer �Egwene, esse vestido me deixa gorda?�. N�o seria adequado.</p><p>� Seria, sim � retrucou Egwene, resoluta. � Pelo menos quando estivermos a s�s � acrescentou ap�s um instante. � Quando estivermos s� n�s tr�s, eu <emphasis>quero</emphasis> que voc�s me digam se um vestido me deixa gorda ou se� ou o que voc�s quiserem. � Sorrindo para Nynaeve, ela deu um pux�o bem delicado na tran�a da mulher. Nynaeve tomou um susto. � E quero que voc� d� pux�es na sua tran�a perto de mim, se sentir vontade. Preciso de amigas, de algu�m que n�o veja apenas essa� essa maldita estola o tempo todo, ou eu vou acabar ficando louca. Falando em vestidos, por que voc�s ainda est�o com esses? Eu tinha certeza de que, a esta altura, voc�s j� poderiam ter se trocado.</p><p>Nynaeve realmente deu um pux�o na tran�a ao ouvir isso.</p><p>� Aquela Nisao me falou que devia ter sido um erro qualquer e me arrastou com ela, dizendo que n�o iria desperdi�ar a sua vez s� por causa de uma celebra��o. � Do lado de fora, os sons dos festejos come�avam a aumentar, um burburinho indistinto, alto o bastante para penetrar as paredes de pedra, al�m de uma m�sica ecoando ao longe.</p><p>� N�o houve erro nenhum, ora � contestou Egwene. Era a vez de Nisao? Bem, n�o era o melhor momento para pedir explica��es. Nynaeve n�o parecia nada feliz, e Egwene queria que a ocasi�o fosse o mais alegre poss�vel. Puxando a cadeira de tr�s da mesa, viu duas almofadas gorduchas de retalhos no assento e sorriu. Chesa. � N�s vamos nos sentar aqui e conversar, e depois eu vou ajudar voc�s a encontrar os dois melhores vestidos de Salidar. Me falem sobre essas descobertas de voc�s. Anaiya tocou no assunto e Sheriam tamb�m, mas n�o consegui fazer as duas sossegarem por tempo suficiente para me contar os detalhes.</p><p>Ao mesmo tempo, as duas fizeram uma pausa antes de se sentar e se entreolharam. Por algum motivo, pareciam relutantes em falar sobre qualquer coisa que n�o fosse Nynaeve ter Curado Siuan e Leane � Nynaeve repetiu tr�s vezes, e com bastante nervosismo, que Curar Logain havia sido um acidente � e sobre Elayne ter aprendido a fazer <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Eram feitos not�veis, em especial o de Nynaeve, mas n�o havia muito o que elas pudessem contar, e Egwene n�o podia apenas continuar repetindo que elas haviam feito coisas maravilhosas e ela estava com inveja. A demonstra��o de Nynaeve n�o durou muito. Egwene n�o tinha a menor aptid�o para Cura, e menos ainda, em particular, para aquela complicada tape�aria que Nynaeve tecia sem nem pensar. Embora tivesse certa afinidade com metais e fosse bastante forte tanto com o Fogo quanto com a Terra, Elayne perdeu a aten��o dela quase de imediato. Claro que elas queriam saber como era a vida entre os Aiel. Pelas express�es surpresas e risadas chocadas, interrompidas de forma abrupta, Egwene n�o sabia se as amigas acreditaram em tudo o que contou, e ela com certeza deixou muito de fora. Falar nos Aiel as fez falar em Rand, naturalmente. As duas prestaram aten��o durante toda a narrativa de Egwene sobre o encontro dele com as Aes Sedai. Concordaram que ele n�o sabia onde estava se metendo e que precisava de algu�m para gui�-lo antes que ca�sse numa armadilha. Elayne achou que Min poderia ajudar nesse sentido, assim que a miss�o diplom�tica chegasse a Caemlyn � foi a primeira not�cia que Egwene tivera de que Min estava com ele, ou que estivera em Salidar �, embora, na realidade, Elayne parecesse desanimada. E ela acabou resmungando algo bem estranho, como se estivesse repetindo uma verdade desagrad�vel.</p><p>� Min � uma mulher melhor que eu. � Por algum motivo, aquilo suscitou um olhar de compaix�o da parte de Nynaeve. � Eu queria que <emphasis>eu</emphasis> estivesse l� � prosseguiu Elayne com uma voz mais forte. � Para gui�-lo, quero dizer. � Seu olhar passou de Egwene para Nynaeve, e suas bochechas ficaram vermelhas. � Ah, e por outros motivos tamb�m. � Nynaeve e Egwene come�aram a gargalhar tanto que quase ca�ram das cadeiras, e Elayne se juntou �s duas quase de imediato.</p><p>� Isso, sim, � algo que vale a pena contar, Elayne � brincou Egwene, sem f�lego, ainda tentando se recuperar. Foi quando percebeu exatamente o que iria dizer, e por qu�. Luz, em que enrascada ela havia se metido, e enquanto gargalhava! � Eu lamento pela sua m�e, Elayne. Voc� n�o imagina o quanto eu gostaria de ter oferecido as minhas condol�ncias antes. � Elayne pareceu confusa, como seria de se esperar. � A quest�o � que Rand pretende conceder a voc� o Trono do Le�o <emphasis>e</emphasis> o Trono do Sol. � Para a surpresa de Egwene, Elayne se empertigou na cadeira.</p><p>� Ah, �, �? � indagou, a voz serena e impass�vel. � Ele pretende me conceder os dois. � Ergueu o queixo de leve. � Eu tenho direito de reivindicar o Trono do Sol, de certa forma, e se optar por fazer isso, vou fazer isso por conta pr�pria. Quanto ao Trono do Le�o, quem Rand al�Thor pensa que � para me <emphasis>conceder</emphasis> o que � meu por direito?</p><p>� N�o foi isso que ele quis dizer � protestou Egwene. <emphasis>Ser� que foi?</emphasis> � Ele ama voc�, Elayne. Eu sei que ama.</p><p>� Quem dera fosse simples assim � resmungou Elayne. Egwene n�o sabia o que a amiga queria dizer com aquilo.</p><p>Nynaeve fungou com desd�m.</p><p>� Os homens sempre se justificam falando que n�o era bem �isso� que eles queriam dizer. Daria at� para pensar que falam outra l�ngua.</p><p>� Quando eu puser as m�os nele de novo � disse Elayne com determina��o �, vou ensin�-lo a falar a l�ngua certa. Me <emphasis>conceder</emphasis>! Como ousa!</p><p>Egwene teve que se esfor�ar ao m�ximo para n�o cair na gargalhada de novo. Na pr�xima vez que Elayne pusesse as m�os em Rand, estaria ocupada demais procurando um cantinho isolado para pensar em ensinar alguma coisa. Era como nos velhos tempos.</p><p>� Agora que � Aes Sedai, pode ir at� ele na hora em que quiser. Ningu�m pode impedir voc�.</p><p>As duas se entreolharam de novo.</p><p>� O Sal�o n�o vai deixar ningu�m simplesmente arrumar a mala e ir embora � ponderou Nynaeve. � E, mesmo que ela pudesse partir, n�s encontramos algo que eu acho mais importante.</p><p>Elayne assentiu.</p><p>� Tamb�m acho. Vou admitir: a primeira coisa que me passou pela cabe�a quando ouvi voc� ser anunciada como Amyrlin foi que, agora, eu e Nynaeve talvez pud�ssemos ir procurar n�s mesmas. Bem, a segunda. A primeira foi uma esp�cie de alegria estarrecida.</p><p>Egwene apenas piscou, confusa.</p><p>� Voc�s encontraram algo. Mas agora precisam ir procurar. � Inclinando-se para a frente, as duas quase se atropelaram para responder.</p><p>� Encontramos � explicou Elayne �, mas s� em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p>� N�s usamos a necessidade como guia � acrescentou Nynaeve. � N�s, com certeza, precis�vamos de <emphasis>algo</emphasis>.</p><p>� � uma tigela � continuou Elayne �, um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, e eu acho que pode ser forte o bastante para alterar o clima.</p><p>� S� que a tigela est� em algum ponto de Ebou Dar, num labirinto tenebroso de ruas sem nenhuma placa ou qualquer coisa que ajude. O Sal�o mandou uma carta para Merilille, mas ela nunca vai encontrar sozinha.</p><p>� Ainda mais porque ela deve estar ocupada convencendo a Rainha Tylin de que a <emphasis>verdadeira</emphasis> Torre Branca est� aqui.</p><p>� N�s dissemos a elas que um homem precisava participar da canaliza��o. � Nynaeve suspirou. � Claro que isso foi antes de Logain, apesar de eu achar que elas n�o confiariam nele.</p><p>� N�o precisa de um homem, na verdade � emendou Elayne. � N�s s� quer�amos faz�-las acreditar que elas <emphasis>precisavam</emphasis> de Rand. N�o sei quantas mulheres s�o necess�rias de fato. Talvez um c�rculo completo com treze.</p><p>� Elayne diz que ele � muito poderoso, Egwene. Poderia consertar o clima. Eu ficaria feliz se encontr�ssemos s� por eu poder voltar a escutar o vento direito.</p><p>� A tigela <emphasis>pode </emphasis>consertar as coisas, Egwene. � Elayne trocou olhares alegres com Nynaeve. � Tudo o que voc� precisa fazer � nos mandar a Ebou Dar.</p><p>O turbilh�o cessou, e Egwene tornou a se recostar em sua cadeira.</p><p>� Vou fazer o poss�vel. Pode ser que n�o haja obje��es, agora que voc�s s�o Aes Sedai. � Por�m ela teve a sensa��o de que haveria. Elev�-las parecera uma decis�o ousada, mas Egwene estava come�ando a acreditar que n�o era assim t�o simples.</p><p>� O que for poss�vel? � contestou Elayne, incr�dula. � Voc� � o Trono de Amyrlin, Egwene. Basta voc� dar a ordem, e todas as Aes Sedai pulam na hora para obedecer. � Ela abriu um sorrisinho r�pido. � Diga �pule� e eu provo para voc�.</p><p>Fazendo careta, Egwene se remexeu nas almofadas.</p><p>� Eu sou a Amyrlin, mas� Elayne, Sheriam n�o precisa se esfor�ar muito para se lembrar de uma novi�a chamada Egwene, olhando para tudo com os olhos arregalados e sendo mandada passar o ancinho no Jardim Novo s� por ter comido ma��s depois da hora de ir para a cama. Ela pretende me pegar pela m�o e me guiar a cada passo, ou talvez at� me levar arrastada pela orelha. Romanda e Lelaine queriam ser a Amyrlin, as duas, e tamb�m ainda se lembram muito bem daquela novi�a. E elas pretendem me dizer por onde andar tanto quanto Sheriam.</p><p>Preocupada, Nynaeve franziu a testa, mas Elayne ficou indignada.</p><p>� N�o pode deix�-las simplesmente� <emphasis>intimidarem voc�</emphasis>. Voc� � a <emphasis>Amyrlin</emphasis>. � a Amyrlin quem diz para o Sal�o como proceder, e n�o o contr�rio. Voc� precisa mostrar autoridade e faz�-las verem o Trono de Amyrlin, n�o a novi�a.</p><p>A gargalhada de Egwene teve um qu� de amargura. Havia sido mesmo na noite anterior que ela tinha se sentido t�o resistente contra intimida��es?</p><p>� Isso vai levar um pouco de tempo, Elayne. Veja s�, eu finalmente entendi por que elas me escolheram. Em parte por Rand, eu acho. Talvez elas acreditem que ele vai nos dar ouvidos mais f�cil se me vir usando a estola. O outro motivo � por elas <emphasis>se lembrarem</emphasis> daquela novi�a. Uma mulher, ou melhor, uma garota! E que est� t�o acostumada a fazer o que mandam que ser� f�cil faz�-la agir como elas querem. � Ela passou o dedo na estola listrada ao redor do pesco�o. � Bem, quaisquer que tenham sido as raz�es delas, elas me escolheram como Amyrlin, e eu pretendo <emphasis>ser</emphasis> a Amyrlin, mas preciso tomar cuidado, pelo menos de in�cio. Talvez Siuan fizesse o Sal�o pular toda vez que franzia o rosto � Egwene ficou se perguntando se aquilo era verdade mesmo �, mas, se eu tentar fazer o mesmo, posso virar a primeira Amyrlin deposta um dia depois de ter sido elevada.</p><p>Elayne parecia at�nita, mas Nynaeve assentiu devagar com a cabe�a. Ter sido Sabedoria e lidado com o C�rculo das Mulheres em Dois Rios talvez tivesse lhe dado uma no��o melhor do real funcionamento do Trono de Amyrlin e do Sal�o da Torre do que todo o treinamento de Elayne como Filha-herdeira.</p><p>� Quando a not�cia se espalhar e os governantes souberem a meu respeito, Elayne, vou poder come�ar a fazer o Sal�o perceber que elas escolheram uma Amyrlin, e n�o um fantoche, mas, at� l�, elas de fato poderiam arrancar essa estola de mim t�o r�pido quanto me deram. Se eu n�o sou mesmo uma Amyrlin, ora, ent�o n�o � dif�cil se ver livre de mim. Poderia haver alguns resmungos contr�rios, mas eu n�o tenho d�vida de que elas conseguiriam cal�-los bem depressa. Se qualquer pessoa fora de Salidar ouvisse falar algum dia que algu�m chamada Egwene al�Vere foi elevada a Amyrlin, n�o passaria de um daqueles boatos estranhos que surgem sobre as Aes Sedai.</p><p>� O que voc� vai fazer? � perguntou Elayne bem baixinho. � Voc� n�o vai aceitar isso t�o f�cil.</p><p>As palavras fizeram Egwene abrir um sorriso sincero. N�o era uma pergunta, mas uma afirma��o contundente.</p><p>� N�o, eu n�o vou. � Ela escutara v�rios serm�es de Moiraine para Rand a respeito do Jogo das Casas. � �poca, pensava que o Jogo era algo absurdo, pior que uma trama ardilosa. Mas ali estava ela desejando que pudesse se lembrar de tudo o que ouvira. Os Aiel sempre diziam: �Use as armas que tiver.� � O fato de elas estarem tentando apertar tr�s coleiras diferentes no meu pesco�o pode ser �til. Eu posso fingir que estou sendo conduzida por uma ou por outra, dependendo de qual esteja mais perto do que eu mesma quero fazer. De vez em quando, posso fazer o que eu bem entender, como fiz quando elevei voc�s duas, mas ainda n�o com tanta frequ�ncia. � Ela endireitou os ombros e as encarou. � Eu gostaria de afirmar que elevei voc�s duas porque voc�s mereceram, mas a verdade � que eu fiz isso porque voc�s s�o minhas amigas e porque eu espero que, como irm�s completas, voc�s possam me ajudar. Realmente n�o sei mais em quem posso confiar al�m de voc�s duas. Vou mandar voc�s para Ebou Dar assim que puder, mas, antes e depois disso, voc�s s�o as duas pessoas com quem eu posso conversar. Sei que v�o me dizer a verdade. A tal viagem a Ebou Dar pode n�o demorar tanto quanto voc�s talvez estejam pensando. Voc�s duas andaram descobrindo todo tipo de coisas, foi o que eu ouvi dizer, mas, se eu conseguir desvendar algumas coisas, posso tamb�m ter feito minha pr�pria descoberta.</p><p>� Vai ser maravilhoso � disse Elayne, embora seu tom de voz fosse quase distra�do.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 37</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Quando a batalha come�a</p></title><p>O sil�ncio que se seguiu foi muito peculiar, e Egwene n�o conseguia entender o porqu�. Elayne olhou para Nynaeve, e ent�o ambas fitaram o fino bracelete de prata de Nynaeve. A amiga mais velha finalmente se voltou para Egwene, de olhos bem arregalados, e logo voltou a encarar o ch�o.</p><p>� Tenho uma confiss�o � disse ela, quase sussurrando. Sua voz se manteve baixa, mas as palavras sa�ram feito uma rajada. � Eu capturei Moghedien. � Sem levantar os olhos, ergueu o pulso onde estava o bracelete. � Isso � um <emphasis>a�dam</emphasis>. Ela � nossa prisioneira, mas ningu�m sabe. Exceto Siuan, Leane e Birgitte. E agora voc�.</p><p>� Fomos obrigadas � explicou Elayne, inclinando-se para a frente. � Elas a teriam executado, Egwene. Sei que seria merecido, mas ela sabe coisas sobre as quais nem sonhamos. Foi assim que fizemos todas as nossas <emphasis>descobertas</emphasis>. Exceto Nynaeve ter Curado Siuan, Leane e Logain, e o meu <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Elas a teriam executado sem tentar aprender nada!</p><p>As perguntas que vieram � mente de Egwene foram tantas que ela quase ficou tonta. Elas haviam capturado uma Abandonada? Como? Elayne fizera um <emphasis>a�dam</emphasis>? Egwene sentiu um calafrio e mal conseguiu olhar para o bracelete. N�o se parecia em nada com o <emphasis>a�dam</emphasis> que ela conhecia at� bem demais. Ainda assim, como as duas tinham conseguido esconder uma Abandonada entre tantas Aes Sedai? Uma Abandonada fora feita prisioneira. N�o tinha sido julgada nem executada. Desconfiado do jeito que estava, se algum dia Rand descobrisse aquilo, jamais voltaria a confiar em Elayne.</p><p>� Quero falar com ela � acabou por dizer, sem emo��o. Nynaeve pulou da cadeira e saiu correndo para buscar Moghedien. Os ru�dos de celebra��o, risadas, m�sicas e can��es entraram por alguns instantes antes que a porta se fechasse. Egwene esfregou a t�mpora. Uma Abandonada. � � um baita segredo para se guardar.</p><p>As bochechas de Elayne enrubesceram. Por qu�, sob a Luz�? Claro.</p><p>� Elayne, n�o tenho nenhuma inten��o de fazer perguntas sobre� sobre ningu�m de quem eu n�o deveria saber a respeito.</p><p>A mulher de cabelos dourados se sobressaltou.</p><p>� Eu� Talvez eu possa contar. Mais tarde. Amanh�. Talvez. Egwene, voc� precisa me prometer que n�o vai dizer nada, para ningu�m, a menos que eu deixe. Pouco importa o que voc� o que voc� vir.</p><p>� Se � isso que voc� quer� � Egwene n�o entendia por que a amiga estava t�o agitada. N�o fazia a menor ideia. Elayne tinha um segredo do qual Egwene sabia, mas a descoberta n�o s� fora por acaso como, desde ent�o, ambas vinham fingindo que ainda se tratava de um segredo que s� pertencia a Elayne. Ela se encontrara com Birgitte, a hero�na das lendas, em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Talvez ainda se encontrassem. Mas� Nynaeve havia revelado algo mais. Birgitte sabia a respeito de Moghedien. Ser� que ela estava mesmo falando da mulher esperando em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> at� que a Trombeta de Valere a convocasse de volta? Ser� que <emphasis>Nynaeve</emphasis> sabia do segredo que Elayne se recusara a admitir para Egwene mesmo ap�s ela ter sido descoberta? N�o. Egwene deixou o pensamento de lado. N�o queria que aquilo se transformasse em uma rodada de acusa��es e negativas.</p><p>� Elayne, eu sou a Amyrlin, a Amyrlin de fato, e j� tenho planos. As S�bias que conseguem canalizar manejam boa parte das suas tessituras de modo diferente das Aes Sedai. � Elayne j� sabia das S�bias, apesar de, agora que fazia uma pausa e pensava no assunto, Egwene n�o saber dizer se as Aes Sedai tamb�m sabiam. As outras Aes Sedai, no caso. � �s vezes, o que elas executam � mais complicado ou mais rudimentar, por�m algumas vezes � mais simples do que como nos ensinaram na Torre e funciona t�o bem quanto.</p><p>� Voc� quer que as Aes Sedai estudem com as Aiel? � A boca de Elayne se retorceu como se a amiga estivesse prestes a rir. � Egwene, elas <emphasis>nunca</emphasis> v�o concordar com isso, nem se voc� viver mil anos. Mas suponho que, quando ficarem sabendo, elas v�o querer testar as garotas Aiel para ver se poderiam virar novi�as.</p><p>Ajeitando-se em suas almofadas, Egwene hesitou. As Aes Sedai estudando com as S�bias, como aprendizes? Imposs�vel, mas Romanda e Lelaine, em especial, poderiam se beneficiar de algumas aulas sobre <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. E Sheriam, e Myrelle, e� Ela encontrou um jeito mais confort�vel de se sentar e desistiu das suas fantasias.</p><p>� Duvido que as S�bias fossem concordar com a ideia de garotas Aiel virarem novi�as. � Algum dia talvez tivessem concordado, mas com certeza n�o �quela altura. No momento, o m�ximo que Egwene podia esperar era que elas falassem com as Aes Sedai de maneira civilizada. � Pensei em algum tipo de parceria. Existem menos de mil Aes Sedai, Elayne. Se a gente contar com as que ainda est�o no Deserto, acho que existem mais S�bias capazes de canalizar do que Aes Sedai. Talvez bem mais. Seja como for, elas n�o perdem nenhuma que nasceu com a centelha. � Quantas mulheres haviam morrido neste lado da Espinha do Drag�o s� porque, de repente, conseguiam canalizar, talvez sem nem perceber, e n�o havia ningu�m para ensinar a elas? � Quero trazer mais mulheres, Elayne. Que tal mulheres capazes de aprender, mas que n�o foram encontradas por nenhuma Aes Sedai antes que as considerassem velhas demais para se tornar novi�as? Eu acho que, se a mulher quiser aprender, precisamos deix�-la tentar, mesmo que j� tenha quarenta ou cinquenta anos, ou que seus netos j� tenham netos.</p><p>Elayne gargalhou tanto que chegou a abra�ar a pr�pria barriga.</p><p>� Ah, Egwene, as Aceitas v�o <emphasis>adorar</emphasis> dar aula para essas suas novi�as.</p><p>� Elas v�o ter que aprender a gostar � retrucou Egwene com firmeza. Ela n�o via problema algum. As Aes Sedai sempre disseram que �s vezes a pessoa era velha demais para se tornar uma novi�a, mas se a pessoa quisesse aprender� Elas j� haviam mudado parcialmente de ideia. Na multid�o, Egwene tinha visto rostos mais velhos que o de Nynaeve usando o branco das novi�as. � A Torre sempre foi severa demais na hora de excluir pessoas, Elayne. Se voc� n�o for forte o bastante, elas a mandam embora. Recuse-se a fazer o teste e voc� � expulsa. Se fizer o teste, mas n�o passar, adeus. Elas deveriam ter permiss�o para ficar, se quisessem.</p><p>� Mas os testes existem para garantir que sejamos fortes o bastante � protestou Elayne. � N�o s� com o Poder �nico, mas por dentro. Voc� com certeza n�o vai querer Aes Sedai que v�o se entregar ou desistir no primeiro obst�culo, n�o �? Ou ent�o Aes Sedai que mal conseguem canalizar.</p><p>Egwene fungou com desd�m. Sorilea teria sido mandada embora da Torre sem nem fazer o teste para Aceita.</p><p>� Talvez elas n�o possam ser Aes Sedai, mas isso n�o significa que sejam in�teis. Afinal, j� se confia que essas mulheres s�o capazes de usar o Poder com certo discernimento, ou elas n�o seriam liberadas da Torre. O meu sonho � que todas as mulheres capazes de canalizar estejam conectadas com a Torre de alguma forma. Absolutamente todas.</p><p>� At� as Chamadoras de Ventos? � Elayne se encolheu quando Egwene assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc� n�o as traiu, Elayne. N�o consigo acreditar que elas tenham conseguido guardar segredo por tanto tempo.</p><p>Elayne soltou um suspiro profundo.</p><p>� Bem, o que est� feito, est� feito. �O mel n�o volta para o favo�, como dizem por a�. Mas se essas suas Aiel tiverem uma prote��o especial, o Povo do Mar tamb�m deveria ter. Deixe as Chamadoras ensinarem as garotas delas. As mulheres do Povo do Mar tamb�m n�o devem ser levadas por Aes Sedai contra a sua vontade.</p><p>� De acordo. � Egwene cuspiu na palma da m�o e estendeu-a, e, ap�s um momento, Elayne cuspiu na dela e sorriu quando as duas apertaram as m�os para selar o pacto.</p><p>O sorriso foi sumindo devagar.</p><p>� Isso tem a ver com Rand e a anistia dele, Egwene?</p><p>� Em parte. Elayne, como esse homem consegue ser t�o�? � N�o sabia como concluir a frase, e a amiga tamb�m n�o sabia como responder, de qualquer forma. A outra mulher apenas assentiu com um qu� de tristeza, talvez tamb�m de compreens�o, concord�ncia ou ambos.</p><p>A porta se abriu, e uma mulher forte trajando l� escura apareceu trazendo uma bandeja de prata com tr�s copos e um jarro de prata de gargalo comprido contendo vinho. Tinha um rosto sofrido, o rosto da mulher de um fazendeiro, mas seus olhos escuros reluziam enquanto ela analisava Egwene e Elayne com um olhar irrequieto. Egwene mal teve tempo de se sentir surpresa ao ver o colar de prata apertado no pesco�o da mulher, apesar do vestido sem gra�a; Nynaeve entrou depois dela e fechou a porta. Devia ter corrido feito o vento, j� que havia encontrado tempo para trocar o vestido de Aceita por um de seda azul-marinho bordado com ornamentos dourados ao longo da gola e da bainha. N�o era nem de perto t�o decotado quanto o que Berelain usava, mas, ainda assim, era consideravelmente mais revelador do que Egwene esperava ver em Nynaeve.</p><p>� Essa � <emphasis>Marigan</emphasis> � disse Nynaeve, puxando a tran�a por cima do ombro em um movimento ensaiado. Seu anel dourado da Grande Serpente estava na m�o direita.</p><p>Egwene teve o impulso de perguntar por que ela enfatizou tanto o nome, quando, de repente, percebeu que o colar de �Marigan� combinava com o bracelete no pulso de Nynaeve. N�o conseguiu deixar de encarar. A mulher certamente n�o se parecia em nada com o que ela esperaria de uma Abandonada. Egwene disse exatamente isso e Nynaeve gargalhou.</p><p>� Veja s�, Egwene.</p><p>Ela fez mais que ver: quase saltou da cadeira e abra�ou <emphasis>saidar</emphasis>. T�o logo Nynaeve falou, o brilho j� envolvia �Marigan�. Apenas por um instante, mas, antes que desaparecesse, a mulher no vestido simples de l� mudou por completo. Mudan�as pequenas, na verdade, mas que, somadas, mostravam uma mulher completamente diferente, de tra�os fortes por�m belos, e nem um pouco acabada � uma mulher orgulhosa e at� majestosa. S� os olhos permaneciam os mesmos, com um brilho perigoso, mas, apesar de inquietos, Egwene era capaz de acreditar que aquela mulher era Moghedien.</p><p>� Como? � Foi tudo o que disse. Egwene escutou com aten��o quando Nynaeve e Elayne explicaram como teciam disfarces e invertiam tessituras, mas seus olhos permaneceram em Moghedien. Ela <emphasis>estava</emphasis> orgulhosa e cheia de si, orgulhosa por voltar a ser ela mesma.</p><p>� Transformem de novo � ordenou Egwene assim que as duas terminaram a explica��o. Uma vez mais, o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> s� durou uns poucos instantes e, assim que esvaneceu, n�o havia tessituras que ela conseguisse enxergar. Moghedien estava acabada e simples outra vez, uma mulher do campo que vivera uma vida dif�cil e que parecia mais velha do que a idade que tinha. Seus olhos negros fitavam Egwene, tomados pelo �dio e tamb�m, talvez, por asco dela pr�pria.</p><p>Ao perceber que ainda abra�ava <emphasis>saidar</emphasis>, Egwene se sentiu uma tola. Nem Nynaeve nem Elayne haviam abra�ado a Fonte. Por�m, Nynaeve estava usando aquele bracelete. Egwene se levantou sem tirar os olhos de Moghedien e estendeu a m�o. Nynaeve pareceu at� ansiosa para tirar aquela coisa do pulso, o que Egwene podia compreender.</p><p>Ao entregar o bracelete, Nynaeve disse:</p><p>� Ponha a bandeja na mesa, Marigan. E trate de se comportar bem. Egwene tem vivido com os Aiel.</p><p>Egwene virou o bracelete prateado em suas m�os, examinando-o, e tentou n�o sentir um calafrio. Um trabalho de muita ast�cia, segmentado de modo t�o inteligente que aparentava ser quase s�lido. Ela j� havia estado na outra extremidade de um <emphasis>a�dam</emphasis>. Um artefato Seanchan, com uma corrente de prata ligando o colar ao bracelete, mas, no fim das contas, a mesma coisa. Seu est�mago agora estava agitado de um modo que n�o estivera nem diante do Sal�o nem da multid�o, em um rebuli�o que parecia tentar compensar a calmaria de antes. Em um gesto decidido, fechou o bracelete de prata em torno do pulso. Tinha alguma ideia do que esperar, mas, mesmo assim, quase pulou de susto. As emo��es da outra mulher foram reveladas diante dela, al�m do seu estado f�sico, tudo reunido em uma por��o delimitada de sua mente. Em especial, sentia um medo pulsante, mas o asco de si mesma que Egwene achava que percebera vibrava de maneira quase t�o intensa quanto o medo. Moghedien n�o gostava da sua apar�ncia atual. Talvez n�o gostasse, em especial, ap�s o breve retorno a quem ela era de fato.</p><p>Egwene pensou em quem era aquela mulher diante de seus olhos: uma Abandonada, algu�m cujo nome fora usado para atemorizar crian�as durante s�culos, uma mulher cujos crimes mereciam centenas de vezes a pena de morte. Pensou no conhecimento que havia naquela cabe�a. Obrigou-se a sorrir. Um sorriso nada bonito. N�o pretendia que fosse, mas acreditava que n�o teria conseguido mesmo que tivesse tentado.</p><p>� Ela falou a verdade. Eu estava vivendo entre os Aiel. Ent�o, se voc� espera que eu seja t�o bondosa quanto Nynaeve e Elayne, trate de esquecer. D� um �nico passo em falso comigo e eu vou fazer voc� implorar pela morte. S� que eu n�o vou matar voc�. S� vou encontrar um jeito de tornar esse sofrimento permanente. Por outro lado, se voc� fizer algo pior que um �nico passo em falso� � Egwene foi abrindo ainda mais seu sorriso, at� deix�-lo absolutamente amea�ador.</p><p>O medo ficou t�o intenso que sobrepujou todas as outras emo��es e chegou a tentar derrubar as paredes daquele espa�o delimitado na mente de Egwene. De p� diante da mesa, Moghedien agarrou as saias com os n�s dos dedos j� esbranqui�ados, tremendo visivelmente. Nynaeve e Elayne olhavam para Egwene como se jamais a tivessem visto. Luz, as duas esperavam que ela fosse educada com uma Abandonada? Sorilea amarraria a mulher em uma estaca sob o sol para obrigar Moghedien a obedec�-la, isso se simplesmente n�o lhe cortasse a garganta com as pr�prias m�os.</p><p>Egwene se aproximou de Moghedien. A outra mulher era mais alta, mas se curvou para tr�s, contra a mesa, derrubando os copos de vinho da bandeja e fazendo o jarro balan�ar. Egwene deixou a voz ainda mais fria � n�o que a diferen�a fosse muito grande.</p><p>� O dia em que eu perceber qualquer mentira sua, eu juro que executo voc� eu mesma. Preste aten��o. Considerei a hip�tese de viajar de um lugar para o outro fazendo um buraco, digamos, daqui at� l�. Um buraco atrav�s do Padr�o, de forma que n�o haja dist�ncia entre uma ponta e a outra. Vai funcionar?</p><p>� N�o, nem com voc� nem com qualquer mulher � respondeu Moghedien na hora, sem f�lego. �quela altura, o medo que fervia dentro dela estava estampado em seu rosto. � Os homens � que Viajam assim. � Ela estava se referindo a um dos Talentos perdidos. � Se voc� tentar, vai ser sugada para� N�o sei o que � aquilo. O espa�o entre os fios do Padr�o, talvez. Acho que voc� n�o sobreviveria por muito tempo. Sei que jamais voltaria.</p><p>� Viajar � resmungou Nynaeve com desgosto. � Nunca pensamos em Viajar!</p><p>� N�o mesmo. � Elayne n�o parecia mais satisfeita consigo mesma. � Fico me perguntando no que mais n�s nunca pensamos.</p><p>Egwene as ignorou.</p><p>� Como, ent�o? � perguntou com delicadeza. Uma voz calma era sempre melhor que gritaria.</p><p>Moghedien se encolheu como se ela tivesse gritado.</p><p>� Tornando os dois lugares id�nticos no Padr�o. Posso mostrar a voc�. Exige um certo esfor�o, por causa da� do colar, mas eu posso�</p><p>� Assim? � indagou Egwene, abra�ando <emphasis>saidar</emphasis> e tecendo fluxos de Esp�rito. Desta vez, n�o estava tentando tocar no Mundo dos Sonhos, mas esperava um efeito parecido, caso desse certo. O que aconteceu foi bem diferente.</p><p>A fina cortina que ela teceu n�o produziu o efeito tremeluzente esperado e s� durou um momento, antes de se fechar e estourar em uma linha vertical que, de repente, virou um rasgo de luz azul prateada. A pr�pria luz se expandiu depressa, ou talvez, como pareceu para ela, se transformou em� algo. Ali, bem no meio do assoalho, havia um� port�o, mas que nada tinha a ver com a imagem indistinta que ela tivera de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em sua tenda, um port�o que se abria para uma terra t�o arrasada pelo sol que a pior seca em Salidar ainda pareceria de uma diversidade exuberante. Pin�culos de pedra e picos afiados avultavam-se sobre uma plan�cie empoeirada cor de barro rasgada por fissuras e pontilhada por alguns arbustos de matagal que, mesmo � dist�ncia, tinham um aspecto espinhoso.</p><p>Egwene ficou encarando o port�o. Dava para o Deserto Aiel, na metade do caminho entre o Forte das Pedras Frias e o vale de Rhuidean, um ponto onde era muito improv�vel que fosse haver algu�m para v�-lo � ou se ferir. As precau��es de Rand com seu aposento especial no Pal�cio do Sol serviram que ela tamb�m se precavesse � mas Egwene n�o tivera certeza se conseguiria alcan��-lo, apenas esperan�as, e pensara que o port�o consistiria em uma cortina tremeluzente.</p><p>� Luz! � respirou Elayne. � Voc� sabe o que fez, Egwene? Sabe? Eu acho que consigo tamb�m. Se voc� fizer a tessitura de novo, sei que vou me lembrar.</p><p>� Se lembrar do qu�? � perguntou Nynaeve quase em tom choroso. � Como foi que ela conseguiu? Ah, <emphasis>maldito</emphasis> bloqueio idiota! Elayne, d� um chute no meu tornozelo. Por favor.</p><p>O rosto de Moghedien tinha ficado quieto demais. A incerteza corria pelo bracelete com quase a mesma intensidade que o medo. Decifrar emo��es era bem diferente de ler palavras em uma p�gina, mas aquelas duas estavam claras.</p><p>� Quem�? � Moghedien lambeu os l�bios. � Quem lhe ensinou isso?</p><p>Egwene sorriu como tinha visto as Aes Sedai sorrirem. Ao menos, esperava ter transmitido mist�rio.</p><p>� Nunca tenha tanta certeza de que eu j� n�o saiba a resposta � respondeu, fria. � Lembre-se. Voc� s� vai mentir para mim uma �nica vez. � De repente, percebeu como aquilo poderia soar para Nynaeve e Elayne. Elas haviam capturado e mantido a mulher prisioneira em meio �s circunst�ncias mais imposs�veis, arrancado dela todo tipo de informa��o. Virando-se para as duas, Egwene soltou uma risadinha triste. � Me desculpem. N�o era a minha inten��o tomar as r�deas de nada.</p><p>� Por que voc� deveria se desculpar? � Elayne exibia um largo sorriso. � <emphasis>Espera-se </emphasis>que voc� tome as r�deas, Egwene.</p><p>Nynaeve deu um pux�o na tran�a e ent�o olhou para o cabelo.</p><p>� Parece que nada funciona! Por que n�o consigo ficar com raiva? Ah, por mim, voc� pode ficar com ela. N�o conseguimos lev�-la para Ebou Dar, afinal. <emphasis>Por que</emphasis> eu n�o consigo ficar com raiva? Oh, sangue e malditas cinzas! � Seus olhos se arregalaram assim que se deu conta do que dissera, e ela cobriu a boca com a palma da m�o.</p><p>Egwene deu uma olhada para Moghedien. A mulher estava colocando os copos novamente de p� e servindo o vinho com aroma de especiarias doces, mas algo passara pelo bracelete enquanto Nynaeve estava falando. Um choque, talvez? Talvez ela preferisse senhoras que j� conhecia, em vez de uma que a amea�ou de morte quase que desde o primeiro instante.</p><p>Ouviu-se uma batida firme � porta, e Egwene soltou <emphasis>saidar</emphasis> �s pressas. A abertura para o Deserto desapareceu.</p><p>� Entre.</p><p>Siuan deu um passo para dentro do gabinete e parou, analisando Moghedien, o bracelete no pulso de Egwene, Nynaeve e Elayne. Ao fechar a porta, fez uma rever�ncia t�o m�nima quanto as de Romanda e Lelaine.</p><p>� M�e, vim para instrui-la sobre etiqueta, mas se preferir que eu volte mais tarde� � Suas sobrancelhas se ergueram de modo interrogativo.</p><p>� Pode ir � disse Egwene a Moghedien. Se Nynaeve e Elayne a deixavam � solta, o <emphasis>a�dam</emphasis> devia limit�-la de alguma maneira, ainda que n�o tanto quanto uma corrente. Correndo o dedo pelo bracelete, que ela odiava, mas que pretendia usar dia e noite, Egwene prosseguiu: � Mas fique por perto. Vou tratar uma tentativa de fuga como uma mentira. � O medo chegou em borbot�es pelo <emphasis>a�dam</emphasis> enquanto Moghedien sa�a apressada. Aquilo poderia ser um problema. Como Nynaeve e Elayne tinham conseguido viver com aquelas torrentes de terror? Em todo caso, era assunto para depois.</p><p>Ela encarou Siuan e cruzou os bra�os.</p><p>� N�o adianta fazer essa cara, Siuan. Eu sei de tudo. Filha.</p><p>Siuan inclinou a cabe�a.</p><p>� �s vezes, saber algo n�o d� nenhum tipo de vantagem. �s vezes, significa apenas compartilhar o perigo.</p><p>� Siuan! � exclamou Elayne, parte chocada e parte em tom de amea�a, e, para a surpresa de Egwene, a outra mulher fez algo que ela nunca esperara ver Siuan Sanche fazer: ficou ruborizada.</p><p>� Voc� n�o pode esperar que eu me transforme em outra pessoa da noite para o dia � resmungou a mulher, irritada.</p><p>Egwene suspeitou de que Nynaeve e Elayne poderiam ajudar com o que ela tinha que fazer em seguida, mas, se fosse mesmo ser a Amyrlin, Egwene tinha de faz�-lo sozinha.</p><p>� Voc� deve estar louca para tirar esse vestido de Aceita, Elayne. Por que n�o vai dar um jeito nisso? E depois v� ver o que consegue descobrir sobre Talentos perdidos. Voc� tamb�m, Nynaeve.</p><p>As duas se entreolharam, deram uma olhadela para Siuan e se levantaram para fazer rever�ncias perfeitas.</p><p>� Como ordenar, M�e � murmuraram respeitosamente. Siuan n�o reagiu, apenas se manteve de p�, observando Egwene com uma express�o sarc�stica enquanto as duas sa�am.</p><p>Egwene tornou a abra�ar <emphasis>saidar</emphasis>, por um breve instante, apenas para fazer a cadeira deslizar de volta para o seu lugar atr�s da mesa, e ent�o ajustou a estola e se sentou. Por um longo momento, ficou encarando Siuan em sil�ncio.</p><p>� Preciso de voc� � disse, por fim. � Voc� sabe o que � ser a Amyrlin, o que a Amyrlin pode e n�o pode fazer. Voc� conhece as Votantes, como elas pensam, o que querem. Preciso de voc� e pretendo t�-la ao meu lado. Sheriam, Romanda e Lelaine podem achar que eu ainda uso o branco das novi�as por debaixo desta estola, e talvez todas elas pensem assim, mas voc� vai me ajudar a mostrar para elas que n�o � o caso. Eu n�o estou pedindo, Siuan. Eu <emphasis>vou</emphasis> ter a sua coopera��o. � Tudo o que se podia fazer, ent�o, era esperar.</p><p>Siuan ficou olhando-a, ent�o balan�ou de leve a cabe�a e riu baixinho.</p><p>� Elas cometeram um erro muito grande, n�o foi? Eu errei primeiro, claro. A piabinha que elas iam servir como petisco no jantar acaba por se mostrar um l�cio do tamanho da sua perna. � Abrindo bem as saias, fez uma mesura profunda, inclinando a cabe�a. � M�e, me permita servi-la e aconselh�-la, por favor.</p><p>� Desde que voc� saiba que � s� para aconselhar, Siuan. J� tem gente demais pensando que pode amarrar fios nos meus bra�os e nas minhas pernas como se eu fosse uma marionete. N�o vou aceitar isso de voc�.</p><p>� Eu preferiria tentar amarrar fios em mim mesma � respondeu Siuan, seca. � Sabe, eu nunca gostei muito de voc�. Talvez fosse porque eu via muito de mim mesma em voc�.</p><p>� Nesse caso � ponderou Egwene em um tom de voz igualmente seco �, pode me chamar de Egwene. Quando estivermos sozinhas. Agora sente-se e me explique por que o Sal�o ainda est� sentado de bra�os cruzados aqui e como posso coloc�-las para trabalhar.</p><p>Siuan come�ou a puxar uma das cadeiras antes de se lembrar de que, naquele momento, poderia mov�-la usando <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>� Elas est�o paradas porque, quando descruzarem os bra�os, a Torre Branca vai estar dividida de verdade. Com rela��o a como coloc�-las para trabalhar, o meu conselho � � O conselho de Siuan tomou um bom tempo. Parte dele seguiu por caminhos que Egwene j� tinha pensado, e todo ele pareceu muito bom.</p><empty-line/><p>Em seu quarto na Pequena Torre, Romanda servia ch� de menta para tr�s outras Votantes, s� uma delas Amarela. O aposento ficava nos fundos, mas os barulhos da comemora��o chegavam at� l�. Romanda fazia quest�o de ignor�-los. Aquelas tr�s estiveram prontas para apoi�-la para o Trono de Amyrlin, e votar pela garota havia sido, acima de tudo, uma maneira de evitar que Lelaine fosse elevada. Lelaine ficaria furiosa se algum dia descobrisse aquilo. Agora que Sheriam tinha posto sua garotinha no Trono, as tr�s ainda estavam dispostas a ouvir. Especialmente ap�s a decis�o de elevar Aceitas ao xale por decreto. Aquilo tinha que ser obra de Sheriam. Ela e o grupinho dela haviam mimado as quatro. Fora ideia delas p�r Theodrin e Faolain acima das demais Aceitas, e, certa vez, elas tamb�m tinham sugerido o mesmo para Elayne e Nynaeve. Com a testa franzida, ela se perguntava por que Delana estava atrasada, mas deu in�cio � reuni�o mesmo assim, ap�s tecer alguns selos de prote��o no quarto para evitar que algu�m as bisbilhotasse com o Poder. Quando chegasse, Delana teria que pegar a conversa pelo meio. O que importava era que Sheriam iria aprender que n�o tinha tanto poder quanto pensava s� por ter conseguido se tornar Curadora.</p><empty-line/><p>Em uma casa no outro lado de Salidar, Lelaine estava servindo vinho frio para quatro Votantes, s� uma delas da Ajah Azul. Uma tessitura de <emphasis>saidar</emphasis> protegia o ambiente contra qualquer um que tentasse ouvir a conversa. Os sons da celebra��o a fizeram sorrir. As quatro mulheres que a acompanhavam haviam sugerido que ela pr�pria tentasse se tornar o Trono de Amyrlin, e Lelaine n�o se mostrara relutante, mas se falhasse isso teria significado que, em vez dela, Romanda seria elevada, o que seria t�o doloroso quanto ser exilada. Como Romanda rangeria os dentes se descobrisse algum dia que todas haviam votado na garota s� para evitar que a estola fosse parar nos ombros da pr�pria Romanda. O que aquelas mulheres tinham se reunido para discutir, por�m, era como diminuir a influ�ncia de Sheriam, que conseguira tomar para si a estola de Curadora. Que absurda aquela hist�ria de elevar Aceitas a Aes Sedai por meio do decreto da garota! O poder tinha subido � cabe�a de Sheriam. Conforme a conversa prosseguiu, Lelaine come�ou a se perguntar onde estaria Delana. �quela altura, j� deveria ter chegado.</p><empty-line/><p>Delana estava sentada em seu quarto e encarava Halima, sentada na beira da cama de Delana. O nome Aran�gar jamais deveria ser utilizado. Por vezes, Delana temia que Halima fosse ficar sabendo mesmo que ela apenas pensasse nele. A prote��o contra bisbilhotagem com o Poder era pequena, estendendo-se s� a elas duas.</p><p>� Isso � uma loucura � conseguiu dizer, por fim. � Voc� n�o entende? Se eu continuar tentando apoiar todas as fac��es, mais cedo ou mais tarde elas v�o descobrir!</p><p>� Todo mundo precisa correr alguns riscos. � A firmeza na voz da mulher contradizia o sorriso naquela boca macia. � E voc� vai continuar pressionando para Logain ser amansado de novo. Ou isso ou mat�-lo. � Uma careta sutil acabou tornando a mulher, de alguma forma, ainda mais bonita. � Se elas algum dia o deixassem sair daquela casa, eu mesma resolveria a quest�o.</p><p>Delana n�o conseguia imaginar como, mas n�o duvidaria da mulher at� v�-la falhar.</p><p>� O que eu n�o entendo � por que voc� est� com tanto medo de um homem que vive com seis irm�s blindando-o de sol a sol.</p><p>Os olhos verdes de Halima ardiam de raiva quando ela se levantou de um pulo.</p><p>� Eu n�o estou com medo, e nunca mais insinue isso! Quero ver Logain apartado ou morto, e isso � tudo o que voc� precisa saber. Estamos entendidas?</p><p>N�o foi a primeira vez que Delana considerou matar a outra mulher, mas, como sempre, teve uma inc�moda certeza de que seria ela quem morreria. De alguma forma, Halima sabia quando ela abra�ava <emphasis>saidar</emphasis>, mesmo que a pr�pria Halima n�o conseguisse canalizar. O pior de tudo era a possibilidade de que, caso falhasse, Halima n�o a matasse por ainda precisar dela. Delana n�o conseguia imaginar o que ela poderia fazer em vez disso, mas a vaga amea�a j� lhe dava calafrios. Ela deveria conseguir de matar a mulher ali, naquele momento.</p><p>� Estamos, Halima � respondeu, mansa, e sentiu �dio de si mesma.</p><empty-line/><p>� Que bondade a sua � murmurou Siuan, segurando a x�cara para Lelaine acrescentar um pinguinho de conhaque em seu ch�. O sol j� se punha, avermelhado, mas as ruas l� fora ainda estavam em polvorosa. � Voc� n�o tem ideia do quanto � cansativo tentar ensinar etiqueta �quela garota. Ela parecia achar que, desde que se comportasse como uma Sabedoria da terra dela, tudo estaria bem. Achava que o Sal�o era como o C�rculo das Mulheres ou algo do tipo.</p><p>Lelaine emitiu sons compreensivos em cima do pr�prio ch�.</p><p>� Voc� falou que ela estava reclamando de Romanda.</p><p>Siuan deu de ombros.</p><p>� Sim, ela falou algo sobre Romanda insistir para ficarmos aqui, em vez de marchar contra Tar Valon, pelo que entendi. Luz, a garota tem o g�nio de um bica-peixe na �poca do acasalamento. Fiquei com vontade de agarrar os ombros dela e sacudi-la, mas claro que, agora, � ela que usa a estola. Bem, assim que eu terminar as aulas, n�o quero mais olhar na cara dela. Voc� se lembra�?</p><p>Sorrindo por dentro, Siuan observou Lelaine sorver suas armadilhas junto com o ch�. S� a primeira frase havia sido realmente importante. Aquela parte sobre o temperamento dif�cil havia sido acr�scimo dela, mas poderia servir para fazer algumas das Votantes tomarem um pouco mais de cuidado com Egwene. Al�m disso, ela suspeitava que pudesse ser verdade. Ela pr�pria jamais voltaria a ser a Amyrlin, e tinha quase certeza de que tentar manipular Egwene seria t�o f�til quanto tentar manipul�-la havia sido, e igualmente doloroso, mas ensinar uma Amyrlin a ser Amyrlin� Siuan ansiava por isso como n�o ansiara por nada em muito tempo. Egwene al�Vere seria uma Amyrlin que faria tronos tremerem.</p><empty-line/><p>� Mas e o meu bloqueio? � questionou Nynaeve, e Romanda franziu a testa para ela. Elas estavam no quarto da Votante na Pequena Torre, e aquele era o momento em que, de acordo com o esquema montado pelas Amarelas, Romanda deveria receb�-la. A m�sica e as risadas l� fora pareciam irritar a Aes Sedai mais velha.</p><p>� Voc� n�o estava t�o ansiosa para tratar disso antes. Ouvi dizer que voc� falou para Dagdara que tamb�m era Aes Sedai e que ela podia ir atr�s de um lago para enfiar a cabe�a.</p><p>O calor se intensificou no rosto de Nynaeve. Claro que seu g�nio dif�cil sempre tinha que dificultar as coisas.</p><p>� Talvez eu s� tenha me dado conta de que s� porque virei Aes Sedai isso n�o significa que agora eu seja capaz de canalizar quando quero.</p><p>Romanda fungou com desd�m.</p><p>� Aes Sedai. Seja como for, voc� ainda tem um longo caminho at� chegar l� Muito bem, ent�o. Algo que ainda n�o tentamos at� agora. Fique pulando num p� s�. E conversar. � Ela se sentou numa poltrona entalhada perto da cama, ainda de cara feia. � Podemos fofocar, eu acho. Falar de coisas leves. Por exemplo, sobre o que foi que a Amyrlin disse que Lelaine queria conversar?</p><p>Por um momento, Nynaeve fitou-a de volta indignada. Pular num p� s�? Aquilo era rid�culo! Ainda assim, ela n�o estava ali por causa do bloqueio. Suspendeu as saias e come�ou a pular.</p><p>� Egwene� a Amyrlin� n�o falou muita coisa. Algo sobre ter que permanecer em Salidar. � Melhor que aquilo funcionasse, ou Egwene iria ouvir poucas e boas, sendo a Amyrlin ou n�o.</p><empty-line/><p>� Acho que este aqui vai funcionar melhor, Sheriam � disse Elayne, entregando um anel retorcido com manchas azuis e vermelhas que, naquela manh�, havia sido pedra. Na verdade, n�o era diferente de nenhum outro que ela confeccionara. Elas estavam afastadas da multid�o, na entrada de uma viela estreita iluminada pelo sol vermelho. Em algum ponto atr�s delas, m�sicos tocavam rabecas e flautas.</p><p>� Obrigada, Elayne. � Sheriam enfiou o <emphasis>ter�angreal</emphasis> na bolsinha do cinto sem nem olhar direito. Elayne finalmente conseguira a aten��o de Sheriam quando a mulher fizera uma pausa para descansar da dan�a. Seu rosto estava um pouco avermelhado por debaixo de toda aquela serenidade de Aes Sedai, mas o olhar verde e l�mpido que fizera os joelhos de Elayne tremerem em seus tempos de novi�a estava fixo no rosto da garota. � Por que eu estou com a sensa��o de que esse n�o � o �nico motivo para voc� ter vindo falar comigo?</p><p>Elayne fez uma careta, revirando o anel da Grande Serpente em sua m�o direita. M�o direita. Ela n�o podia esquecer que agora tamb�m era Aes Sedai.</p><p>� � sobre Egwene. Quer dizer, sobre a Amyrlin. Ela est� preocupada, Sheriam, e eu pensei que talvez voc� pudesse ajud�-la. Voc� � a Curadora, e eu <emphasis>n�o</emphasis> sei a quem mais recorrer. Ainda estou um pouco perdida. Voc� sabe como Egwene �. N�o diria um �ai� nem se o p� dela fosse amputado. Creio que o problema seja Romanda, embora ela tenha mencionado Lelaine. Acho que uma delas, ou ambas, n�o a deixa em paz, querendo que ela prometa ficar aqui em Salidar e n�o se deslocar por ser perigoso demais.</p><p>� � um bom conselho � ponderou Sheriam devagar. � N�o sei desse perigo, mas � o conselho que eu mesma daria a ela.</p><p>Elayne deu de ombros com ar derrotado.</p><p>� Eu sei. Ela me falou que voc� disse isso, mas� Ela n�o admitiu com essas palavras, mas acho que Egwene est� com um pouco de medo daquelas duas. Eu sei que ela agora � a Amyrlin, mas acho que elas fazem Egwene se sentir como uma novi�a. Acho que Egwene tem medo de que, se fizer o que elas querem, mesmo que seja um bom conselho, as duas v�o esperar que ela fa�a o mesmo numa pr�xima vez. Eu acho� Sheriam, ela est� com medo de n�o conseguir dizer n�o na pr�xima vez, caso diga sim agora. E� e eu tamb�m estou com medo. Ela � o <emphasis>Trono</emphasis> de Amyrlin, Sheriam. Ela n�o deveria ter que obedecer a Romanda, a Lelaine e nem a ningu�m. S� <emphasis>voc� </emphasis>pode ajud�-la. N�o sei como, mas voc� � a �nica que pode ajudar.</p><p>Sheriam ficou quieta por tanto tempo que Elayne come�ou a achar que a outra mulher iria lhe dizer que tudo aquilo era rid�culo.</p><p>� Vou fazer o que puder � garantiu Sheriam, por fim.</p><p>Elayne sufocou um suspiro de al�vio antes de perceber que n�o teria atrapalhado a atua��o.</p><empty-line/><p>Inclinada para a frente, Egwene estava com os bra�os apoiados nas laterais da banheira de cobre, sem prestar aten��o na tagarelice de Chesa, que lhe esfregava as costas. Ela havia sonhado com um banho de verdade, mas o fato era que estar sentada naquela �gua com sab�o, aromatizada com um �leo floral, lhe causava certa estranheza depois das tendas de vapor Aiel. Ela dera seu primeiro passo como Amyrlin, comandara seu ex�rcito em desvantagem e iniciara seu ataque. Lembrava-se de ouvir Rhuarc dizer que, uma vez que a batalha come�asse, um comandante j� n�o tinha mais nenhum controle sobre os acontecimentos. �quela altura, tudo o que podia fazer era esperar.</p><p>� Mesmo assim � afirmou baixinho para si mesma �, acho que as S�bias estariam orgulhosas.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 38</p><p><image l:href="#21"/></p><p>Um s�bito des�nimo</p></title><p>O sol calcinante ainda subia por tr�s de Mat. Estava feliz por seu chap�u de aba larga lhe garantir uma pequena sombra no rosto. O inverno deixava as �rvores da floresta altarana desfolhadas e mais marrons do que seria de se esperar na esta��o. Pinheiros, folhas-de-couro e outras �rvores perenes tinham um aspecto ressequido, enquanto carvalhos, freixos e liquid�mbares estavam completamente pelados. O meio-dia ainda estava por vir, assim como o pior do calor, e o dia j� parecia um forno. O manto de Mat estava jogado por cima dos alforjes, mas o suor deixava sua fina camisa de linho grudada no corpo. As patas de Pips esmigalhavam as samambaias mortas e as folhas ca�das que cobriam o solo, e o deslocar do Bando fazia o ch�o da mata estalar. Poucas aves davam as caras, n�o passando de lampejos r�pidos em meio aos galhos, e n�o se viam esquilos. Havia moscas, no entanto, al�m de picadinhas, como se se estivesse no auge do ver�o, e n�o a menos de um m�s da Festa das Luzes. Nada diferente do que Mat encontrara l� no Erinin, na realidade, mas se ver diante daquilo at� mesmo naquela regi�o o deixava desconfort�vel. O mundo inteiro estaria realmente em chamas?</p><p>Aviendha ia caminhando ao lado de Pips com sua trouxa �s costas, n�o parecendo incomodada nem com as �rvores moribundas nem com as moscas que os picavam, al�m de fazer muito menos barulho do que o cavalo, apesar das saias. Seus olhos vasculhavam as �rvores do entorno como se ela n�o confiasse nos batedores e flanqueadores do Bando para impedirem que eles ca�ssem em uma emboscada. Aviendha n�o aceitara cavalgar nem uma �nica vez, o que Mat, de qualquer forma, j� esperara, sabendo como os Aiel se sentiam em rela��o a cavalos, mas ela tamb�m n�o criara problemas, a menos que ter afiado sua faca a cada pausa do grupo para descansar pudesse ser encarado como uma provoca��o. A n�o ser pelo que acontecera com Olver. Montado no cap�o cinza que Mat encontrara para ele em meio aos animais reserva, Olver mantinha um olhar cuidadoso direcionado a ela. O garoto havia tentado matar a mulher com sua faca de cinto logo na segunda noite, gritando a plenos pulm�es que os Aiel haviam matado seu pai. Claro que Aviendha s� desarmou o menino, mas mesmo depois de Mat t�-lo rendido e tentado explicar a diferen�a entre os Shaido e os outros Aiel � algo que Mat n�o tinha certeza nem se ele pr�prio compreendia �, Olver passava o tempo todo olhando para ela. N�o gostava dos Aiel. Aviendha, por sua vez, tamb�m parecia incomodada com o garoto, o que Mat n�o entendia nem um pouco.</p><p>As �rvores eram altas o bastante para ter permitido que uma brisa soprasse sob a esparsa cobertura vegetal acima deles, mas o estandarte da M�o Vermelha pendia inerte, assim como os dois que Mat desenterrara na outra noite, t�o logo Rand os mandara por aquele port�o at� um prado escuro: um estandarte do Drag�o, a figura vermelha e dourada escondida nos vincos brancos, e um daqueles que o Bando chamava de Estandarte de al�Thor, o antigo s�mbolo das Aes Sedai, felizmente tamb�m encolhido pela falta de vento. Um porta-estandarte grisalho trazia o da M�o Vermelha, um sujeito de olhos estreitos e com mais cicatrizes que Daerid que insistia em carregar o estandarte por algumas horas diariamente, o que poucos porta-estandartes faziam. Talmanes e Daerid haviam escolhido homens do segundo esquadr�o para carregar os outros dois, jovens de rosto saud�vel que se mostraram firmes o bastante para assumir aquela pequena responsabilidade.</p><p>Fazia tr�s dias que eles atravessavam Altara, tr�s dias na floresta sem o menor sinal de um �nico Devoto do Drag�o � ou de ningu�m mais, ali�s �, e Mat torcia para que continuassem assim por pelo menos aquele quarto dia antes de chegarem a Salidar. Al�m das Aes Sedai, Mat n�o sabia como faria para evitar que Aviendha avan�asse na garganta de Elayne. Ele tinha um palpite sobre por que ela vivia amolando aquela faca, cujo gume cintilava feito pedras preciosas. Temia acabar precisando levar a Aiel presa at� Caemlyn, com a maldita Filha-herdeira exigindo, a cada passo da jornada, que ele a enforcasse. Rand e suas malditas mulheres! Na opini�o de Mat, qualquer coisa que atrasasse o Bando e o mantivesse longe da enrascada que ele esperava enfrentar em Salidar era uma boa. Parar cedo e marchar tarde ajudava. Bem como os carro��es com mantimentos ao fim da coluna, deslocando-se lentamente pela floresta. Mas o Bando n�o viajava devagar o suficiente. Em pouco tempo, Vanin com certeza encontraria algo.</p><p>Como se tivesse ouvido os pensamentos de Mat, o batedor gorducho surgiu em meio �s �rvores mais adiante acompanhado de quatro cavaleiros. Ele havia partido com seis antes do amanhecer.</p><p>Mat ergueu o punho cerrado para sinalizar uma parada, e murm�rios percorreram a coluna. Sua primeira ordem ao sair do port�o havia sido �nada de tambores, nada de trompetes, nada de flautas e nenhuma maldita cantoria�, e, se no come�o houvera alguns rostos desalentados, ap�s o primeiro dia de viagem por aquele terreno de mata fechada, onde nunca era poss�vel enxergar com clareza a mais de cem passadas, as obje��es cessaram.</p><p>Com a lan�a repousada atravessada na sela, Mat esperou at� que Vanin parasse e, em um gesto casual, levasse o punho � testa.</p><p>� Encontrou?</p><p>Ainda montado em seu cavalo, o homem quase careca se inclinou para um dos lados para cuspir pelo espa�o entre dois dentes. Suava tanto que parecia prestes a derreter.</p><p>� Encontrei. A oito ou dez milhas a oeste. H� Guardi�es por aquelas bandas. Vi um capturar Marr. Surgiu do nada com um daqueles mantos de camuflagem e o varreu do alto da sela. Bateu bastante nele, mas acho que n�o matou. Ladwin tamb�m n�o apareceu mais, imagino que pelo mesmo motivo.</p><p>� Ent�o elas sabem que estamos aqui. � Com for�a, Mat soltou ar pelo nariz. N�o esperava que nenhum homem fosse conseguir esconder qualquer informa��o dos Guardi�es, e menos ainda das Aes Sedai. Bem, elas acabariam sabendo, mais cedo ou mais tarde. Mat s� desejara que fosse mais tarde. Ele tentou matar uma mosca-azul, que escapou e saiu zumbindo ap�s deixar um pontinho de sangue em seu pulso. � Quantas?</p><p>Vanin cuspiu de novo.</p><p>� Mais do que eu esperava. Cheguei na aldeia a p� e vi aqueles rostos de Aes Sedai por toda parte. Duzentas, talvez trezentas. Ou quatrocentas. Eu n�o quis ser �bvio demais e perder tempo contando. � Antes que Mat tivesse tempo de assimilar aquele golpe, o homem deu outro. � Elas tamb�m t�m um ex�rcito. Acampado principalmente ao norte. Maior que o seu. Talvez com o dobro do tamanho.</p><p>Enquanto isso, Talmanes, Nalesean e Daerid haviam cavalgado at� ali em cima, suando e tentando � sem sucesso � espantar moscas e picadinhas.</p><p>� Voc�s ouviram? � perguntou, e os tr�s assentiram de modo sombrio. Sua sorte para as batalhas era �tima, mas uma desvantagem de dois para um, al�m das Aes Sedai, podia derrotar a sorte de qualquer um. � N�o estamos aqui para lutar � lembrou ele, mas n�o houve mudan�a nos semblantes ansiosos. O lembrete, ali�s, tamb�m n�o o ajudou a se sentir melhor. O que importava era se as Aes Sedai queriam ou n�o que o ex�rcito delas lutasse.</p><p>� Preparem o Bando para o caso de sofrermos um ataque � ordenou ele. � Desmatem o m�ximo que puderem e usem os troncos para montar barricadas. � A careta de Talmanes foi quase t�o feia quanto a de Nalesean. Eles gostavam de lutar montados e em movimento. � Pensem. Pode haver Guardi�es nos observando neste exato momento. � Mat ficou surpreso ao ver Vanin assentir e dar uma olhada significativa para a direita deles. � Se virem que estamos nos preparando para nos defender, ent�o vai ficar claro que n�o pretendemos atacar. Pode ser que isso fa�a com que eles decidam nos deixar em paz, e, caso isso n�o ocorra, pelo menos vamos estar prontos. � Aquilo fez sentido mais r�pido para Talmanes que para Nalesean. Daerid j� estava assentindo desde o in�cio.</p><p>Enrolando sua barba oleada, Nalesean resmungou:</p><p>� E depois voc� pretende fazer o qu�? Apenas sentar e esperar por eles?</p><p>� � isso que voc�s v�o fazer � informou Mat. <emphasis>Que a Luz queime Rand e suas �mais para cinquenta Aes Sedai�! Que a Luz queime Rand e seu �basta chegar dizendo� isso ou aquilo!</emphasis> Ter que ficar ali esperando algu�m da aldeia aparecer e perguntar quem eles eram e o que queriam parecia uma ideia muito boa. Nada de contar com seus poderes de <emphasis>ta�veren</emphasis>. Qualquer poss�vel batalha teria que ir atr�s dele. N�o era ele que iria atr�s.</p><p>� Eles est�o para l�? � perguntou Aviendha, apontando. Sem esperar resposta, p�s a trouxa nas costas e partiu em dire��o ao oeste.</p><p>Mat ficou olhando para a mulher. <emphasis>Malditos Aiel</emphasis>. Era prov�vel que algum Guardi�o tamb�m tentasse captur�-la e se arrependesse amargamente. Ou talvez n�o, Guardi�es sendo como eram. Se ela tentasse esfaquear um deles, era poss�vel que o Guardi�o a ferisse. Al�m disso, se ela encontrasse Elayne primeiro e as duas come�assem a puxar os cabelos uma da outra por causa de Rand, ou, pior, se a Aiel resolvesse esfaquear a Filha-herdeira� Aviendha ia caminhando depressa, quase correndo, doida para chegar a Salidar. <emphasis>Sangue e malditas cinzas!</emphasis></p><p>� Talmanes, voc� est� no comando at� eu voltar. S� arredem o p� daqui se algu�m pular com as duas botas em cima do Bando. Esses quatro v�o contar a voc� o que talvez tenha que encarar. Vanin, voc� vem comigo. Olver, fique junto de Daerid para o caso de ele precisar mandar mensagens. Voc� pode ensinar a ele a jogar Cobras e Raposas � acrescentou, com um sorrisinho para Daerid. � Ele me disse que gostaria de aprender. � Daerid ficou boquiaberto, mas Mat j� estava indo embora. Seria �timo se um Guardi�o acabasse arrastando-o para Salidar com um galo na cabe�a. Como diminuir as chances de aquilo acontecer? Os estandartes lhe chamaram a aten��o. � Voc�, fique aqui � disse ele para o porta-estandarte grisalho. � Voc�s dois, venham comigo. E mantenham essas coisas enroladas.</p><p>O pequeno e estranho destacamento de Mat logo alcan�ou Aviendha. Se havia alguma coisa que podia convencer os Guardi�es a deix�-los passar desimpedidos era olhar para eles. Uma mulher e quatro homens n�o representavam amea�a alguma, ainda mais quando n�o faziam o menor esfor�o para se esconder, com dois estandartes a tiracolo. Ele passou pelos homens do segundo esquadr�o. Ainda n�o havia brisa alguma, mas eles mantinham os estandartes presos aos mastros. Seus rostos estavam tensos. S� um tolo iria querer passar a cavalo em meio �s Aes Sedai e ver aqueles tro�os se desfraldarem com uma brisa s�bita.</p><p>Aviendha olhou para Mat de soslaio e ent�o tentou tirar a bota dele do estribo.</p><p>� Me deixe subir � ordenou ela, rude.</p><p>Por que, sob a Luz, ela agora queria ir a cavalo? Bem, ele n�o iria deix�-la montar aos trancos e barrancos e, muito provavelmente, derrub�-lo da sela. J� tinha visto Aiel montarem num cavalo uma ou duas vezes. N�o era uma cena bonita.</p><p>Mat deu outro tapa em uma mosca, inclinou-se e pegou a m�o dela.</p><p>� Segure-se � disse ele, puxando-a para cima com um grunhido e colocando-a atr�s dele. Aviendha era quase da altura dele, e pesada. � Coloque o bra�o em torno da minha cintura. � Ela s� olhou para ele e ficou se retorcendo de um jeito esquisito at� se sentar com uma perna para cada lado, a pele nua acima dos joelhos, mas sem se mostrar minimamente preocupada com aquilo. Belas pernas, mas Mat n�o se envolveria com nenhuma outra Aiel, mesmo que ela n�o estivesse caidinha por Rand.</p><p>Depois de um tempo, Aviendha falou �s costas dele:</p><p>� O garoto, Olver. Os Shaido mataram o pai dele?</p><p>Mat assentiu sem virar o rosto. Ser� que ao menos veria algum Guardi�o antes que fosse tarde demais? � frente do grupo, Vanin, como sempre, cavalgava arriado feito uma saca de sebo, mas com os olhos atentos a tudo.</p><p>� A m�e dele morreu de fome? � continuou ela.</p><p>� Isso, ou de alguma doen�a. � Os Guardi�es usavam aqueles mantos que podiam se camuflar em qualquer lugar. Era poss�vel passar bem na frente deles sem nem saber. � Olver n�o foi muito claro e eu n�o fiquei pedindo detalhes. Ele mesmo a enterrou. Por qu�? Voc� acha que deve algo a ele pelos Aiel terem matado sua fam�lia?</p><p>� Dever algo a ele? � Ela soou assustada. � N�o matei nenhum deles, e, se tivesse matado, eram Assassinos da �rvore. Como eu poderia ter <emphasis>toh</emphasis>? � Sem fazer nenhuma pausa, seguiu em frente como se estivesse apenas continuando a frase. � Voc� n�o cuida direito dele, Mat Cauthon. Eu sei que homens n�o entendem nada a respeito de criar crian�as, mas ele � jovem demais para passar todo o tempo com homens adultos.</p><p>Mat ficou sem rea��o. Aviendha tinha tirado o len�o e estava ocupada passando um pente de pedra-verde polida nos cabelos avermelhados. Toda a sua concentra��o parecia estar naquilo. Naquilo e em n�o cair. Ela tamb�m colocara um colar de prata trabalhado e um bracelete largo de marfim entalhado.</p><p>Mat balan�ou a cabe�a e voltou a examinar a floresta. Aiel ou n�o, todas as mulheres eram iguais em alguns aspectos. <emphasis>O mundo pode estar acabando e mesmo assim uma mulher vai querer um tempo para ajeitar o cabelo. O mundo pode estar acabando e mesmo assim uma mulher vai ter tempo de apontar para um homem alguma coisa que ele fez errado.</emphasis> Isso teria sido o suficiente para faz�-lo sorrir, se ele n�o estivesse ocupado demais imaginando se os Guardi�es n�o estariam observando-o naquele exato momento.</p><p>O sol atingiu o z�nite e j� come�ava a descer no momento em que a floresta terminou abruptamente. Menos de cem passadas de �rea desmatada a separavam das �rvores da aldeia e, a julgar pelo aspecto do solo, n�o fazia muito tempo que havia sido desbastado. Salidar era uma aldeia de tamanho consider�vel de edifica��es cinzentas de pedra e telhados de palha, e as ruas estavam movimentadas. Mat vestiu seu manto. Da melhor l� verde, bordado em ouro nos punhos e na gola alta, deveria ser um traje suficientemente adequado para um encontro com as Aes Sedai. Mat, no entanto, o deixou aberto. N�o morreria de calor nem pelas Aes Sedai.</p><p>Ningu�m tentou det�-lo quando o grupo adentrou a cavalo, mas as pessoas interromperam o que faziam e todos os olhos se voltaram para Mat e sua pequena e estranha comitiva. Elas sabiam, ent�o. Todos sabiam. Ele desistiu de contar os rostos de Aes Sedai quando a soma atingiu cinquenta, n�mero ao qual chegou r�pido demais para conseguir qualquer paz de esp�rito. N�o havia soldados na multid�o, a menos que contasse com os Guardi�es, alguns trajando aqueles mantos que pareciam mudar de cor e outros correndo os dedos pelo punho da espada conforme os observavam passar. A aus�ncia de soldados na aldeia significava simplesmente que todos estavam nos acampamentos que Vanin mencionara. Todos os soldados acampados significava que eles estavam se preparando para fazer alguma coisa. Mat esperava que Talmanes estivesse seguindo suas instru��es. Talmanes tinha algum ju�zo, mas poderia estar quase t�o ansioso para partir para o ataque contra algu�m quanto Nalesean. Mat preferiria ter deixado Daerid no comando � Daerid j� presenciara batalhas demais para ficar ansioso �, mas o nobre jamais teria aceitado. Parecia que em Salidar tamb�m n�o havia nenhuma mosca. <emphasis>Talvez elas saibam de algo que eu n�o sei.</emphasis></p><p>Uma mulher atraiu sua aten��o, uma bela mulher com roupas estranhas, largas cal�as amarelas e um casaco branco curto, seu cabelo dourado preso numa elaborada tran�a que ia at� a cintura. Carregava um arco, o que era bem curioso. N�o eram muitas as mulheres que optavam pelo arco. Ela percebeu que o homem a observava e se esgueirou por uma viela estreita. Algo nela lhe pareceu familiar, mas Mat n�o sabia dizer o qu�. Esse era um problema de todas aquelas lembran�as antigas. Ele sempre via pessoas que o faziam recordar de algu�m que j� estava morto havia mais de mil anos quando, por fim, identificava quem era. Talvez j� tivesse at� visto algu�m parecido com ela. Aquelas lacunas nas lembran�as da pr�pria vida eram confusas e tortuosas. <emphasis>� prov�vel que seja mais uma Ca�adora da Trombeta</emphasis>, pensou ele com sarcasmo, e tirou-a da mente.</p><p>N�o fazia sentido continuar montado esperando algu�m falar com ele. Mat tinha a impress�o de que ficaria esperando at� ter cabelos brancos. Puxou as r�deas e meneou a cabe�a para uma mulher magra de cabelo escuro, que ergueu um olhar frio e questionador em sua dire��o. Bonita, mas magra demais para o gosto dele, mesmo sem aquele rosto de idade indefinida. Quem queria ossos lhe espetando toda vez que desse um abra�o?</p><p>� Meu nome � Mat Cauthon � disse ele em um tom de voz neutro. Se ela esperava rever�ncias e um tom respeitoso era melhor esperar sentada, mas mostrar-se hostil tamb�m seria tolice. � Estou procurando Elayne Trakand e Egwene al�Vere. Ou ent�o Nynaeve al�Meara. � Rand n�o a mencionara, mas Mat sabia que ela tinha ido com Elayne.</p><p>Surpresa, a Aes Sedai pestanejou, mas logo recobrou a serenidade. Analisou Mat e os demais um a um, detendo-se em Aviendha, e ent�o passou tanto tempo olhando para os homens do esquadr�o que Mat ficou se perguntando se ela conseguia divisar o Drag�o e o disco preto e branco pelo tecido dobrado.</p><p>� Sigam-me � disse, por fim. � Vou ver se o Trono de Amyrlin pode receb�-los. � Segurou as saias e partiu rua acima a passos r�pidos.</p><p>Quando Mat esperou Pips para faz�-lo seguir a mulher, Vanin deixou seu baio ficar para tr�s, resmungando:</p><p>� Pedir qualquer coisa para uma Aes Sedai nunca � uma boa ideia. Eu poderia ter mostrado a voc� aonde ir. � Ele moveu a cabe�a na dire��o de uma constru��o de pedra de tr�s andares logo � frente. � Elas chamam o lugar de Pequena Torre.</p><p>Mat deu de ombros de um jeito desconfort�vel. Pequena Torre? E elas tinham algu�m ali que chamavam de Trono de Amyrlin? Ele duvidava de que a mulher estivesse se referindo a Elaida. Rand estava enganado de novo. Estas mulheres n�o estavam apavoradas. Estavam malucas, convencidas demais para sentir medo.</p><p>Diante da constru��o de pedra, a Aes Sedai magricela afirmou categoricamente:</p><p>� Esperem aqui. � E desapareceu porta dentro.</p><p>Aviendha deslizou para o ch�o e Mat foi logo fazendo o mesmo, pronto para agarr�-la caso aquela Aiel maluca tentasse sair em disparada. Mesmo que lhe custasse um pouco de sangue, ele n�o iria permitir que Aviendha sa�sse correndo e cortasse a garganta de Elayne antes que ele pudesse falar com essa tal Amyrlin. Mas a Aiel s� ficou ali parada, os olhos fixos � frente, as m�os cruzadas � cintura e o xale jogado por cima dos ombros. Dava a impress�o de estar absolutamente tranquila, mas Mat achava que ela tamb�m poderia muito bem estar apavorada. Se tivesse um pingo de ju�zo, ela estaria. Eles haviam atra�do uma multid�o.</p><p>Mais Aes Sedai apareceram, cercando-os contra a entrada da sua Pequena Torre, fitando-o em sil�ncio, e, quanto mais tempo ele passava ali, mais grosso ficava o arco de mulheres. Na verdade, elas pareciam t�o interessadas em Aviendha quanto nele, mas Mat podia sentir cada um daqueles olhares frios e indecifr�veis. Foi por pouco que n�o correu os dedos pela cabe�a de raposa de prata pendurada sob a camisa.</p><p>Uma Aes Sedai sem qualquer express�o no rosto abriu caminho at� a frente da multid�o, conduzindo uma jovem esbelta de olhos grandes que trajava branco. Mat se lembrava vagamente de Anaiya, mas ela mal reparou nele.</p><p>� Tem certeza, crian�a? � perguntou ela para a novi�a.</p><p>A boca da jovem se comprimiu um pouco, mas ela n�o deixou a irrita��o transparecer em sua voz.</p><p>� Ele ainda parece reluzir, ter um brilho. Eu estou enxergando, sim. S� n�o sei por qu�.</p><p>Anaiya abriu um sorriso satisfeito para a garota.</p><p>� Ele � <emphasis>ta�veren</emphasis>, Nicola. Voc� descobriu seu primeiro Talento. Voc� � capaz de enxergar <emphasis>ta�veren</emphasis>. Agora, de volta para a aula. R�pido. Voc� n�o vai querer ficar para tr�s. � Nicola fez uma mesura profunda e, com uma �ltima olhadela para Mat, adentrou a multid�o de Aes Sedai que os cercava e foi embora.</p><p>Anaiya, ent�o, voltou sua aten��o para Mat com um daqueles olhares de Aes Sedai cujo objetivo era desestabilizar um homem. E foi exatamente o que ela fez. Claro que algumas Aes Sedai sabiam a respeito dele � algumas sabiam bem mais do que ele gostaria e, parando para pensar, ele se lembrou de que Anaiya era uma dessas �, mas ouvir aquilo ser anunciado daquela maneira, diante de s� a Luz sabia quantas mulheres com aqueles olhos frios de Aes Sedai� Suas m�os alisaram o cabo entalhado da lan�a. Com ou sem cabe�a de raposa, elas estavam em n�mero suficiente para simplesmente p�r as m�os nele e carreg�-lo para onde quisessem. <emphasis>Malditas Aes Sedai! Maldito Rand!</emphasis></p><p>Mat, no entanto, s� reteve o interesse de Anaiya por um momento. Aproximando-se de Aviendha, ela disse:</p><p>� E qual � o seu nome, crian�a? � Seu tom de voz era agrad�vel, mas deixava claro que ela esperava uma resposta.</p><p>Aviendha encarou-a de frente, uma cabe�a mais alta e usando cada fio de cabelo a seu favor.</p><p>� Sou Aviendha, do ramo dos Nove Vales dos Aiel Taardad.</p><p>A boca de Anaiya ensaiou um leve sorriso por conta daquele qu� de desafio.</p><p>Mat ficou se perguntando quem iria vencer aquele duelo de olhares, mas, antes que pudesse fazer uma aposta consigo mesmo, uma outra Aes Sedai se juntou a elas, uma mulher cujas ma��s do rosto ossudas sugeriam certa idade, apesar das bochechas sem rugas e do cabelo castanho brilhoso.</p><p>� Garota, voc� sabia que, no caso, � capaz de canalizar?</p><p>� Sabia � respondeu Aviendha, curta e grossa, fechando a boca em seguida como se n�o pretendesse dizer mais nada. Concentrou-se em ajustar o xale, mas j� dissera o bastante. As Aes Sedai cercaram-na feito abelhas, empurrando Mat para longe.</p><p>� Quantos anos voc� tem, crian�a?</p><p>� Voc� � muito forte, mas poderia aprender muito mais como novi�a.</p><p>� Morrem muitas garotas Aiel de uma doen�a misteriosa quando ainda s�o alguns anos mais jovens que voc�?</p><p>� H� quanto tempo voc�?</p><p>� Voc� poderia�</p><p>� Voc� deveria mesmo�</p><p>� Voc� tem que�</p><p>Nynaeve surgiu t�o de repente � porta que pareceu ter brotado no ar. Com os punhos apoiados na cintura, encarou Mat.</p><p>� O que voc� est� fazendo em Salidar, Matrim Cauthon? Como chegou aqui? Acho que � pedir demais que voc� tenha alguma coisa a ver com esse ex�rcito de Devotos do Drag�o que est� prestes a nos atacar.</p><p>� Na verdade � retrucou ele, seco �, eu estou no comando.</p><p>� Voc�! � Nynaeve ficou ali de p� boquiaberta e ent�o se recomp�s, puxando o vestido azul como se precisasse ajust�-lo. Era mais revelador do que qualquer outro que Mat se recordava de t�-la visto usando antes, o bastante para ostentar algo que podia ser chamado de decote, com arabescos amarelos ao redor da gola e da bainha. Totalmente diferente do que ela usara em casa. � Bem, venha comigo � disse ela com firmeza. � Vou levar voc� at� a Amyrlin.</p><p>� Mat Cauthon � chamou Aviendha, a respira��o um pouco s�frega. Olhava por cima e para um lado e para o outro das Aes Sedai tentando encontr�-lo. � Mat Cauthon. � Apenas isso, mas, para uma Aiel, parecia desesperada.</p><p>As Aes Sedai que a cercavam continuavam a falar, as vozes calmas, ponderadas e implac�veis.</p><p>� Para voc�, o melhor seria�</p><p>� Voc� precisa considerar�</p><p>� � bem melhor�</p><p>� Nem cogite�</p><p>Mat deu um sorrisinho. Ela poderia sacar sua faca em um instante, mas, em meio �quela multid�o, ele duvidou de que lhe seria de grande serventia. Aviendha n�o sairia � ca�a de Elayne t�o cedo, isso era certo. Mat se perguntou se a encontraria usando um vestido branco quando voltasse, ent�o arremessou sua lan�a para Vanin e disse:</p><p>� � s� mostrar o caminho, Nynaeve. Vamos l� falar com essa sua <emphasis>Amyrlin</emphasis>.</p><p>Ela olhou para ele com a testa muito franzida e o levou para dentro dando pux�es em sua tran�a e resmungando � apenas em parte consigo mesma:</p><p>� Isso � coisa de Rand, n�o �? Eu sei que �. Deve ter dedo dele nessa hist�ria. Mas que ideia, quase matou todo mundo de susto. Olhe bem por onde anda, <emphasis>Senhor General</emphasis> Cauthon, ou eu juro que voc� vai desejar que eu tivesse pego voc� roubando mirtilos de novo. Ele deixou todo mundo apavorado! At� mesmo um homem deveria ter mais ju�zo! E tire esse sorrisinho da cara agora mesmo, Mat Cauthon. N�o sei o que ela vai achar disso tudo.</p><p>Havia Aes Sedai nas mesas l� dentro � parecia o sal�o de uma estalagem para Mat, mesmo com aquelas mulheres s�rias rabiscando ou dando ordens a criados �, mas elas n�o fizeram mais do que dar uma olhadela para ele e Nynaeve quando ambos atravessaram o ambiente. A cena ilustrava bem o n�vel do espet�culo que elas estavam apresentando ali. Uma Aceita passou resmungando sozinha e nenhuma das Aes Sedai a repreendeu. Mat ficara na Torre pelo menor tempo que p�de, mas sabia que aquele n�o era o modo como as Aes Sedai tocavam suas atividades.</p><p>Nos fundos do aposento, Nynaeve empurrou uma porta em condi��es ruins. Tudo l� dentro estava em condi��es ruins, para dizer a verdade. Mat entrou logo depois� e ficou paralisado. Ali estava Elayne, linda de morrer com aqueles cabelos dourados, mas com aquele seu ar de import�ncia costumeiro, em um vestido de seda verde com gola alta rendada e exibindo um daqueles sorrisos condescendentes, as sobrancelhas erguidas para ele. E ali estava Egwene, sentada atr�s de uma mesa, um sorriso inquisitivo no rosto. E uma estola com sete listras por sobre o vestido amarelo-claro. Mat deu uma r�pida espreitada l� fora e fechou a porta antes que alguma Aes Sedai pudesse olhar para dentro.</p><p>� Talvez voc�s achem isso engra�ado � rosnou ele, atravessando o trecho atapetado o mais r�pido que conseguiu �, mas elas v�o arrancar o couro de voc�s se descobrirem essa brincadeira. Elas <emphasis>nunca</emphasis> v�o deixar voc�s irem embora, nenhuma de voc�s, se� � Arrancando a estola do pesco�o de Egwene, ele come�ou a arrast�-la da cadeira� e a cabe�a de raposa de prata ficou fria como a morte em seu peito.</p><p>Mat deu um �ltimo empurr�ozinho para afastar Egwene da mesa e fitou as tr�s. Egwene s� o olhou, perplexa, mas Nynaeve ficou boquiaberta, e os enormes olhos azuis de Elayne pareciam prestes a saltar das �rbitas. Uma delas havia tentado usar o Poder contra ele. A �nica coisa boa que resultara da jornada dele dentro daquele <emphasis>ter�angreal</emphasis> era o medalh�o com a cabe�a de raposa. Mat supunha que o objeto tamb�m s� podia ser um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, mas, ainda assim, estava grato por ele. Desde que o medalh�o estivesse tocando sua pele, o Poder �nico n�o podia atingi-lo. Pelo menos n�o <emphasis>saidar</emphasis>. Ele j� tivera mais provas disso do que gostaria. O medalh�o ficava frio sempre que algu�m tentava.</p><p>Arremessando a estola e seu chap�u em cima da mesa, Mat fez men��o de se sentar, mas precisou de uma pausa r�pida para tirar algumas almofadas da cadeira e jog�-las no ch�o. Descansou uma das botas em cima da mesa e ficou olhando para aquelas tolas.</p><p>� Voc�s v�o precisar dessas almofadas se essa tal Amyrlin descobrir essa brincadeirinha de voc�s.</p><p>� Mat � come�ou Egwene com a voz firme, mas ele a interrompeu.</p><p>� N�o! Se voc� quisesse falar, deveria ter falado, em vez de me atacar com o seu maldito Poder. Agora voc� vai ouvir.</p><p>� Como voc�? � quis saber Elayne, admirada. � Os fluxos simplesmente� desapareceram.</p><p>Quase no mesmo instante, Nynaeve se pronunciou num tom amea�ador:</p><p>� Mat Cauthon, voc� est� cometendo o maior�</p><p>� Eu mandei voc�s ouvirem! � Ele apontou para Elayne. � Voc� eu vou levar de volta para Caemlyn, isso se conseguir salv�-la de Aviendha. Se n�o quiser que cortem esse seu pescocinho esbelto, � melhor n�o sair da minha vista e fazer o que eu mandar, sem questionar! � O dedo passou a apontar para Egwene. � Rand disse que vai mand�-la de volta para as S�bias se voc� quiser, e se o que eu vi at� agora � alguma indica��o dos problemas em que est�o prestes a se meter, acho melhor voc� aceitar e arrumar as malas agora mesmo! Como parece que voc� sabe Viajar � Egwene se sobressaltou �, pode abrir um port�o at� Caemlyn para o Bando. N�o quero discuss�o, Egwene! E voc�, Nynaeve! Eu devia deix�-la aqui, mas, se quiser vir junto, pode vir. Mas vou logo avisando: puxe essa sua tran�a uma �nica vez para mim e eu juro que deixo esse seu traseiro ardido!</p><p>As tr�s encaravam-no como se chifres de Trolloc tivessem brotado em sua testa, mas pelo menos se mantiveram de boca fechada. Talvez ele tivesse conseguido enfiar um pouco de ju�zo na cabe�a delas. N�o que qualquer uma delas fosse lhe agradecer algum dia por ter salvado seus couros. Ah, n�o, elas n�o. Como de costume, diriam que teriam pensado em um plano sozinhas com s� um pouquinho mais de tempo. Aquelas mulheres eram capazes de dizer que voc� estava se metendo onde n�o era chamado quando as salvava de uma masmorra, ent�o Mat esperava qualquer coisa delas.</p><p>Mat tomou f�lego e continuou:</p><p>� � o seguinte: quando a pobre coitada que elas escolheram para ser a Amyrlin aparecer aqui, deixem que eu falo. Ela n�o deve ser das mais espertas, ou elas nunca teriam conseguido enfi�-la na fun��o. Que ideia mais rid�cula, o Trono de Amyrlin de uma aldeia no meio do nada. Tratem de ficar de boca fechada, fa�am suas melhores mesuras e deixem que eu tiro voc�s dessa confus�o. � Elas s� ficaram olhando. �timo. � J� sei tudo sobre o ex�rcito dela, mas tamb�m tenho o meu. Se ela for louca o bastante para achar que � capaz de tirar a Torre de Elaida� Bem, duvido de que ela se arrisque a sofrer baixas s� para manter voc�s tr�s aqui. Abra o tal do port�o, Egwene, e eu deixo voc�s tr�s em Caemlyn amanh�, ou no m�ximo no dia seguinte, e a� essas malucas podem ir ser mortas por Elaida, se � o que querem. Talvez voc�s at� tenham companhia. N�o � poss�vel que sejam todas loucas. Rand est� disposto a oferecer um ref�gio. Basta uma mesura aqui, um juramento de lealdade a ele ali e Rand vai evitar que Elaida enfie a cabe�a delas em estacas na frente de Tar Valon. Elas n�o podem pedir mais que isso. Ent�o? Algo a declarar? � At� onde Mat p�de ver, as tr�s nem piscaram. � Um simples �Obrigada, Mat� j� basta. � Nenhuma palavra. Nem uma piscadinha.</p><p>Uma t�mida batida � porta foi seguida por uma novi�a, uma linda garota de olhos verdes que fez uma mesura profunda, os olhos bem abertos em total venera��o.</p><p>� Me mandaram ver se desejava algo, M�e. Para o� general. Vinho ou� ou�</p><p>� N�o, Tabiya. � Egwene puxou a estola listrada de baixo do chap�u de Mat e arrumou-a nos ombros. � Quero falar a s�s com o <emphasis>General</emphasis> Cauthon um pouco mais. Diga a Sheriam que vou mandar cham�-la daqui a pouco para me aconselhar.</p><p>� Feche essa boca, Mat, antes que voc� engula uma mosca � disse Nynaeve, em um tom de voz repleto de satisfa��o.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 39</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Possibilidades</p></title><p>Ajustando a estola, Egwene examinou Mat. Esperara v�-lo com cara de urso encurralado, mas ele s� parecia perplexo e suado. Havia tantas perguntas que ela desejava fazer � Como Rand descobriu onde ficava Salidar? Como sabia que ela aprendera a Viajar? O que Rand achava que estava fazendo? �, mas n�o iria faz�-las. Mat e seu Bando da M�o Vermelha a tinham deixado com a mente em turbilh�o. Talvez Rand tivesse lhe entregado um presente dos c�us.</p><p>� A minha cadeira � pediu ela, calma. Torcia para que Mat tivesse percebido que ela n�o estava suando, assim como Elayne e Nynaeve. A segunda suava um pouquinho, na verdade. Siuan ensinara o truque, que n�o tinha nada a ver com o Poder; era s� uma quest�o de se concentrar de um certo modo. Nynaeve ficara bem zangada por Siuan n�o ter lhes ensinado antes, o que n�o era surpresa, mas a mulher s� fez responder com toda a calma que aquele conhecimento se destinava �s Aes Sedai, n�o �s Aceitas. At� ent�o, Egwene tinha conseguido controlar os pensamentos de modo adequado quando havia irm�s por perto, e o rosto sereno, em vez de suado, de fato parecia ajudar no comportamento delas. De algumas delas. Deveria funcionar �s maravilhas com Mat. Isso se algum dia ele parasse de ficar s� olhando fixo para ela e a enxergasse de verdade. � Mat? A minha cadeira.</p><p>Ele se sobressaltou, ent�o se levantou e se afastou para o lado, sem dar um pio e com os olhos indo de Egwene para Elayne e para Nynaeve como se elas fossem algum tipo de quebra-cabe�as. Bem, Nynaeve e Elayne tamb�m estavam olhando para ele quase da mesma forma, e com certeza tinham motivos melhores para tal.</p><p>Egwene sacudiu o p� das almofadas antes de recoloc�-las na cadeira. Lembrou-se de Chesa com carinho. Depois de dois dias, j� n�o precisava mais das almofadas macias, n�o muito, mas ou ela abria m�o de tomar banho ou as aceitava at� que as manchas roxas sumissem por completo. Se Egwene mandasse, Chesa retiraria as almofadas. Rosto suado ou sereno, ela era o Trono de Amyrlin, perante o qual reis e rainhas se curvavam, embora nenhum tivesse feito isso ainda. Era ela quem faria Elaida ser julgada e executada, normalizando a situa��o da Torre Branca e, consequentemente, do mundo. Chesa lhe obedeceria, mas lan�aria olhares t�o sentidos e acusat�rios por ter sido impedida de cuidar dela que deixar as almofadas ali era bem mais f�cil de suportar.</p><p>Ela se ajeitou na cadeira com as m�os sobre a mesa e disse:</p><p>� Mat�</p><p>� Isso � mesmo uma loucura, sabia? � interrompeu ele, em voz baixa. Baixa, mas bem firme. � V�o acabar cortando a sua cabe�a, Egwene. A de todas voc�s. V�o cortar� as cabe�as� de voc�s.</p><p>� Mat � interveio ela num tom mais severo, mas ele seguiu em frente.</p><p>� Olha, voc�s ainda podem sair dessa. Se elas pensam que voc� � a Amyrlin, voc� pode ir comigo para� inspecionar o Bando. A� voc� abre um port�o e n�s vamos embora antes que essa cambada de lun�ticas com c�rebro de cabra consiga piscar.</p><p>Nynaeve vira com os pr�prios olhos que Mat era imune a <emphasis>saidar</emphasis>, mas j� lidara com homens teimosos muito antes de ter aprendido a canalizar. Rosnando um �Deixar <emphasis>o meu</emphasis> traseiro ardido?� abafado que Egwene achou que n�o era para ter sido ouvido, Nynaeve levantou as saias e deu um pontap� certeiro no traseiro <emphasis>dele</emphasis>, com tanta for�a que Mat cambaleou at� a parede, onde se apoiou com uma das m�os. Elayne deixou escapar o in�cio de uma gargalhada que foi imediatamente sufocada, embora a Filha-herdeira continuasse balan�ando com o esfor�o de se conter, os olhos ainda risonhos.</p><p>Egwene mordeu o l�bio para tamb�m abafar o riso. A cena foi c�mica, de fato. Mat virou a cabe�a devagar para encarar Nynaeve, os olhos arregalados em um misto de indigna��o e ultraje. Em seguida, suas sobrancelhas baixaram e, endireitando o manto desabotoado, ele come�ou a caminhar lentamente em dire��o a ela. Lentamente porque estava mancando. Egwene cobriu a boca. Gargalhar n�o seria bom mesmo.</p><p>Nynaeve se empertigou, e, ent�o, talvez, algumas coisas lhe tenham ocorrido. Ela podia estar zangada o suficiente para canalizar, mas <emphasis>saidar</emphasis> parecia n�o surtir efeito com ele. Mat era alto para um homem de Dois Rios, bem mais alto que ela, al�m de bem mais forte, e havia, decididamente, um brilho perigoso em seu olhar. Nynaeve deu uma olhadinha para Egwene e ajeitou o vestido, tentando manter o rosto impass�vel. Mat chegou ainda mais perto, o rosto tal qual um trov�o. Outra olhadinha afobada, com a preocupa��o come�ando a transparecer, e Nynaeve chegou a dar um passinho para tr�s.</p><p>� Mat � disse Egwene em um tom equilibrado. Ele n�o parou. � Mat, pare com essa besteira. Voc� est� numa bela encrenca, mas eu devo conseguir salvar sua pele, caso voc� tenha ju�zo.</p><p>Por fim, ele parou. Com uma �ltima encarada e balan�ando o dedo em riste para Nynaeve, Mat se virou de costas para ela e plantou os punhos na escrivaninha.</p><p>� <emphasis>Eu</emphasis> estou encrencado? Egwene, voc� saltou de uma �rvore para dentro da jaula de um urso e s� acha que est� tudo bem porque ainda n�o terminou de cair!</p><p>Ela sorriu para ele com toda a calma.</p><p>� Mat, n�o s�o muitos aqui em Salidar que t�m os Devotos do Drag�o em alta conta. Lorde Bryne com certeza n�o � um deles, nem os soldados sob seu comando. J� ouvimos hist�rias bem perturbadoras. E algumas repugnantes.</p><p>� Devotos do Drag�o! � ganiu ele. � O que eu tenho a ver com isso? Eu n�o sou nenhum maldito Devoto do Drag�o!</p><p>� Claro que �, Mat. � Ela fez aquilo soar como a maior obviedade do mundo. O que era, parando para pensar. � Voc� vai aonde quer que Rand mande. O que mais voc� seria se n�o um Devoto do Drag�o? Mas, se voc� me escutar, posso impedir que eles enfiem <emphasis>a sua</emphasis> cabe�a num pique. Na verdade, acho que Lorde Bryne n�o usaria um pique, j� que est� sempre reclamando de n�o ter piques suficientes, mas tenho certeza de que ele usaria alguma outra coisa.</p><p>Mat olhou para as outras duas mulheres e Egwene comprimiu os l�bios por um instante. A Amyrlin fora bem clara, mas Mat aparentava estar em busca de uma pista sobre o que ela estava querendo dizer. Elayne lhe devolveu um meio sorriso e um aceno de cabe�a confirmat�rio. Podia at� n�o estar entendendo aonde Egwene queria chegar, mas sabia que ela n�o estava falando s� por gostar de ouvir a pr�pria voz. Nynaeve, ainda se esfor�ando para manter uma express�o severa e dando pux�es na tran�a, s� fazia encar�-lo, mas talvez fosse melhor assim, embora ela estivesse come�ando a transpirar. Nynaeve perdia a concentra��o quando se zangava.</p><p>� Agora ou�a, Egwene � continuou Mat. Bem, talvez a ajuda das amigas n�o fosse suficiente, afinal. Ele deu um jeito de combinar um tom razo�vel com a complac�ncia mais ofensiva poss�vel. � Se voc� quer se chamar de Amyrlin, voc� pode se chamar de Amyrlin. Rand a receberia de bra�os abertos em Caemlyn mesmo se voc� n�o levasse todas essas Aes Sedai at� ele, mas eu sei que ele ficaria nas nuvens se voc� ainda por cima fizesse isso. Sejam quais forem os seus problemas com Elaida, ele pode resolver. Ela sabe que ele � o Drag�o Renascido. Luz, voc� se lembra da carta dela. Ora, voc� vai ter a sua Torre Branca reunificada antes que consiga dizer Jak das Brumas. Sem batalhas. Sem derramamento de sangue. Voc� sabe que n�o quer um banho de sangue, Egwene.</p><p>Isso ela n�o queria. Assim que a primeira gota de sangue fosse derramada entre Salidar e Tar Valon, seria dif�cil reunificar a Torre. Assim que o primeiro sangue de Aes Sedai fosse derramado, poderia ser imposs�vel. No entanto, Elaida tinha que ser deposta, e Egwene faria o que precisava ser feito. S� n�o gostaria nem um pouco. E n�o gostava de ver Mat lhe dizendo o que ela j� sabia, e gostava menos ainda de ele estar certo. E definitivamente menos ainda naquele tom de voz. Manter as m�os paradas sobre a mesa exigiu um esfor�o tremendo. Sua vontade era levantar e esbofete�-lo.</p><p>� Independentemente de como eu decidir lidar com Rand � retrucou ela com tranquilidade �, voc� pode ter certeza de que n�o vai ser conduzindo as Aes Sedai para jurar lealdade a ele ou a qualquer outro homem. � Tranquila, e sem discutir. Uma exposi��o serena dos fatos. � E Elaida � problema meu, n�o seu. Se voc� tiver algum bom senso, Mat, vai manter essa boca fechada enquanto estiver em Salidar e vai pisar de mansinho. Se sair por a� falando para as outras Aes Sedai o que Rand vai fazer quando elas se ajoelharem diante dele, pode ser que voc� n�o goste das respostas que vai ouvir. Se continuar com essa hist�ria de me levar embora, ou mesmo Nynaeve ou Elayne, vai ser <emphasis>muita</emphasis> sorte se n�o lhe enfiarem uma espada goela abaixo.</p><p>Com um olhar penetrante, ele se empertigou.</p><p>� Vou conversar de novo com voc� quando estiver pronta para escutar a voz da raz�o, Egwene. Thom Merrilin est� por aqui? � Ela respondeu com um breve gesto de cabe�a. O que ele queria com Thom? Provavelmente, se embebedar de vinho. Bem, boa sorte para ele na tentativa de achar uma taverna em Salidar. � Quando voc� estiver pronta para escutar � repetiu Mat emburrado, e foi mancando em dire��o � porta.</p><p>� Mat � disse Elayne �, se eu fosse voc�, n�o tentaria ir embora. Entrar em Salidar � muito mais f�cil do que sair.</p><p>Ele abriu um sorriso insolente para ela, e, pelo modo como a olhou de cima a baixo, teve sorte de Elayne n�o ter lhe dado um tapa t�o forte que lhe afrouxasse todos os dentes.</p><p>� Voc�, minha bela lady, eu vou levar de volta para Caemlyn e para Rand nem que tenha que ser amarrada, e que a Luz me queime se eu estiver mentindo. E eu vou embora na maldita hora em que quiser. � A rever�ncia que fez para Elayne e Egwene foi debochada. Nynaeve s� recebeu um olhar assassino e mais um dedo em riste balan�ado amea�adoramente em sua dire��o.</p><p>� Como Rand consegue ser amigo de um sujeito t�o grosseiro, baixo e insuport�vel? � Elayne n�o dirigiu a pergunta a ningu�m em particular, e falou antes mesmo que a porta fosse fechada.</p><p>� Seu linguajar, com certeza, est� cada dia pior � rosnou Nynaeve com a voz profunda, jogando a cabe�a de um jeito que fez sua tran�a girar por cima do ombro. Egwene achou que ela poderia estar com medo de que fosse arranc�-la pela raiz caso n�o a deixasse fora de alcance.</p><p>� Eu deveria t�-lo deixado fazer o que queria, Nynaeve. Voc� precisa se lembrar de que agora � Aes Sedai. N�o pode sair por a� chutando as pessoas, nem dando bofetadas, e nem as espancando com peda�os de pau.</p><p>Nynaeve encarou Egwene, boquiaberta, e ficou vermelha. Elayne come�ou a examinar o tapete com muito interesse.</p><p>Com um suspiro, Egwene dobrou a estola listrada e repousou-a sobre um dos lados da mesa. Era sua maneira de lembrar a Elayne e Nynaeve que elas estavam sozinhas. �s vezes, a estola as fazia falar com o Trono de Amyrlin, e n�o com Egwene al�Vere. Como de costume, funcionou. Nynaeve respirou bem fundo. Antes que ela pudesse falar, no entanto, Elayne disse:</p><p>� Voc� pretende juntar Mat e esse Bando da M�o Vermelha �s for�as de Gareth Bryne?</p><p>Egwene balan�ou a cabe�a. Os Guardi�es disseram que havia seis ou sete mil pessoas no Bando de Mat, mais do que ela se lembrava de Cairhien, e um n�mero consider�vel, ainda que n�o t�o grande quanto o que aqueles dois homens capturados diziam, mas os soldados de Bryne de fato n�o gostavam muito de Devotos do Drag�o. Al�m disso, Egwene tinha seu pr�prio plano, que explicou enquanto elas puxaram as outras cadeiras para perto da mesa. Era como se sentar para conversar na cozinha. Egwene afastou a estola ainda mais.</p><p>� Isso � brilhante. � O sorriso sincero de Elayne indicava que ela realmente pensava assim. Mas, para falar a verdade, Elayne sempre dizia o que pensava. � Eu tamb�m achava que o outro n�o iria funcionar, mas esse � <emphasis>brilhante</emphasis>.</p><p>Nynaeve fungou, irritada.</p><p>� O que faz voc� pensar que Mat vai concordar? Ele vai dificultar as coisas s� por divers�o.</p><p>� Acho que ele fez uma promessa � disse Egwene simplesmente, e Nynaeve concordou com a cabe�a. Devagar, relutante, mas concordou. Elayne parecia perdida, claro. N�o o conhecia. � Mat s� faz o que quer, Elayne. Sempre foi assim.</p><p>� Pouco importa quantos nabos ele j� teve que descascar como puni��o por causa disso � resmungou Nynaeve � ou quantas surras acabou levando.</p><p>� �, o Mat � assim mesmo � suspirou Egwene. Ele fora o garoto mais irrespons�vel do Campo de Emond, e talvez de Dois Rios. � Mas, se d� a palavra, ele cumpre. E acho que ele prometeu para Rand que levaria voc� de volta para Caemlyn, Elayne. Perceba que no meu caso ele recuou e passou a pedir � de certo modo, era isso que estava fazendo �, mas, com voc�, ele n�o mudou de ideia. Acho que ele vai tentar ficar t�o perto de voc� quanto a bolsinha do seu cinto. Mas n�s n�o vamos deix�-lo nem p�r os olhos em voc�, a menos que ele fa�a o que queremos. � Ela fez uma pausa. � Elayne, se voc� quiser ir com ele, tudo bem. Ir para Rand, quero dizer. Depois que tirarmos todo o proveito que pudermos de Mat e do Bando dele.</p><p>Elayne mal hesitou antes de balan�ar a cabe�a, e o fez com firmeza.</p><p>� N�o, Ebou Dar � importante demais. � Aquela fora uma baita vit�ria sobre as outras Aes Sedai, obtida, de maneira surpreendente, com uma simples sugest�o. Elayne e Nynaeve iriam se juntar a Merilille na corte de Tylin. � Se ele ficar mesmo por perto, pelo menos vou ter alguns dias para tentar dar uma olhada nesse <emphasis>ter�angreal</emphasis>. S� pode ser isso, Egwene. N�o tem outra explica��o.</p><p>Egwene n�o podia discordar. Sua inten��o havia sido apenas envolv�-lo em Ar e paralis�-lo, s� um lembrete gentil de com quem ele estava tentando bancar o dur�o, mas os fluxos encostaram nele e derreteram. Era a �nica explica��o. Os fluxos deixaram de existir no instante em que tocaram nele. Egwene ainda ficava chocada ao se lembrar daquele momento e percebeu que n�o era a �nica que, de repente, estava ajeitando saias que n�o precisavam ser ajeitadas.</p><p>� Podemos mandar alguns Guardi�es revirarem os bolsos dele. � Nynaeve soou mais do que satisfeita ao imaginar a cena. � Vamos ver o que o Mestre Mat Cauthon acha disso.</p><p>� Se n�s tirarmos coisas dele � ponderou Egwene com paci�ncia �, voc�s n�o acham que ele pode se recusar quando come�armos a lhe dizer o que fazer? � Mat nunca fora muito bom em acatar ordens, e sua resposta habitual �s Aes Sedai e ao Poder �nico era aproveitar a primeira chance para dar um jeito de ir embora. Talvez sua promessa a Rand o segurasse por mais tempo, e ele tinha que ter prometido, j� que nada mais explicava o seu comportamento, mas ela n�o iria correr o risco. Com muita m� vontade, Nynaeve aquiesceu.</p><p>� Talvez� � Elayne ficou pensativa por um momento, olhando para o nada e tamborilando na mesa. � Talvez pud�ssemos lev�-lo a Ebou Dar. Assim, posso ter mais sorte com o <emphasis>ter�angreal</emphasis>. S� que, se ele bloqueia <emphasis>saidar</emphasis>, n�o sei como vou conseguir estud�-lo.</p><p>� Levar aquele rufi�o com a gente?! � Nynaeve se empertigou na cadeira. � Voc� n�o pode estar falando s�rio, Elayne. Ele transformaria cada dia em um supl�cio. � muito bom nisso. Nunca faz o que mandam. Al�m disso, Mat jamais vai aceitar. Est� t�o decidido a lev�-la a Caemlyn que voc� n�o conseguiria faz�-lo desempacar nem com uma alavanca e uma parelha de cavalos.</p><p>� Mas se a inten��o dele � ficar de olho em mim at� eu estar em Caemlyn � analisou Elayne �, ent�o ele n�o tem escolha sen�o ir conosco. � perfeito.</p><p>� Talvez n�o seja m� ideia � opinou Egwene enquanto Nynaeve buscava algum outro argumento. Mand�-lo ir atr�s da tigela ainda parecia correto, por�m quanto mais ela pensava em onde elas teriam que procurar, mais preocupada ficava. � Alguns soldados podem ser uma boa ideia, a menos que voc�s j� tenham escolhido Guardi�es sem que eu soubesse. Thom e Juilin s�o �timos, Birgitte tamb�m, mas o lugar para onde voc�s v�o n�o � nada tranquilo.</p><p>� <emphasis>Alguns</emphasis> soldados podem n�o ser de todo ruim � ponderou Elayne, enrubescendo de leve. � Desde que eles saibam obedecer a ordens.</p><p>Nynaeve n�o chegou a olhar para Elayne, mas houve uma n�tida pausa antes que ela balan�asse a cabe�a de maneira irritada.</p><p>� N�o estamos indo l� para disputar duelos, Egwene, n�o importa qu�o esquentadinhos esses eboudarianos sejam. Thom e Juilin j� v�o bastar. Na minha opini�o, creio que a inten��o por tr�s de todas essas hist�rias que temos ouvido � nos fazer querer desistir. � Todos j� haviam escutado hist�rias sobre Ebou Dar desde que se espalhara a not�cia de que elas estavam indo para l�. Chesa ouvira v�rias, cada qual mais deplor�vel e horrenda que a outra, com estranhos sendo assassinados em um piscar de olhos apenas por olharem torto para algu�m, esposas enviuvadas e crian�as �rf�s por causa de uma palavra atravessada, e <emphasis>mulheres</emphasis> lutando com facas nas ruas. � N�o, se sobrevivemos a Tanchico s� com Thom e Juilin, al�m de Liandrin e algumas outras irm�s Negras, vamos nos sair muito bem em Ebou Dar sem Mat Cauthon ou qualquer soldado. Mat comandando soldados! Ele s� se lembrava de ordenhar as vacas do pai dele quando o sentavam no banquinho e entregavam o balde.</p><p>Egwene soltou um leve suspiro. Qualquer men��o a Birgitte resultava nisso. Elas se assustavam como se tivessem sido picadas por uma agulha de costura, e depois ou ficavam gaguejando ou seguiam em frente como se nem tivessem mencionado seu nome. Um olhar convencera Egwene de que a mulher que seguia Elayne e Nynaeve por a� � Elayne em especial, por algum motivo � era a mulher que ela havia visto em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, a Birgitte das lendas, a arqueira que nunca errava, uma dentre os her�is mortos que aguardavam o chamado da Trombeta de Valere. Uma hero�na morta, n�o uma mulher viva andando pelas ruas de Salidar, mas, ainda assim, a mesma mulher. Elayne n�o dera nenhuma explica��o, apenas um murm�rio t�mido e cuidadoso sobre n�o poder falar a respeito de algo que tinham combinado manter segredo. A pr�pria Birgitte, a hero�na das lendas, come�ava a andar em outra dire��o ou se metia em vielas estreitas sempre que via Egwene se aproximar. Ordenar que a mulher fosse ao seu gabinete e exigir uma explica��o estava fora de quest�o, j� que, afinal, ela prometera isso, por mais que a situa��o a fizesse se sentir tola. Em todo caso, n�o parecia haver muito perigo. Ela s� gostaria de saber o porqu� daquilo. E o como.</p><p>Egwene afastou Birgitte de seus pensamentos e se inclinou sobre a mesa na dire��o de Nynaeve.</p><p>� Pode ser que a gente n�o consiga exatamente que Mat obede�a �s nossas ordens, mas n�o seria �timo v�-lo de cara feia por ter que ser seu guarda-costas?</p><p>� Com certeza valeria a pena � ponderou Elayne, pensativa �, caso Rand realmente o tenha nomeado general. Mam�e costumava dizer que os melhores homens eram relutantes em receber ordens, e que sempre valia a pena ensinar a eles. N�o consigo ver Mat como um dos melhores, e Lini bem diz que �os tolos s� escutam a si mesmos�, mas, se pudermos lhe ensinar o suficiente para que ele n�o se fa�a de idiota em um lugar em que n�o haja ningu�m para resgat�-lo, vamos estar fazendo um grande favor a Rand. Al�m disso, eu preciso de <emphasis>tempo</emphasis> se for mesmo estudar o <emphasis>ter�angreal</emphasis>.</p><p>Egwene tentou n�o sorrir. Elayne sempre entendia tudo t�o r�pido. E, al�m disso, ela provavelmente tentaria ensinar Mat a se sentar direito. Algo que ela pagaria para ver. Egwene gostava de Elayne e admirava sua for�a, mas, nessa disputa, apostaria em Mat. Por um triz.</p><p>Nynaeve acabou cedendo, embora teimosamente. Mat n�o batia bem da cabe�a, diria �para baixo� se elas dissessem �para cima� s� para atazan�-las. Era capaz de criar problemas mesmo preso dentro de um barril. Elas passariam a noite inteira arrastando-o para fora de tavernas e antros de jogatina. Mais para o final da conversa, s� restou a Nynaeve dizer que Mat provavelmente beliscaria Elayne na primeira vez em que a garota virasse de costas, ent�o Egwene soube que estavam finalmente derrubando as obje��es dela. Era verdade que Mat passava muito tempo correndo atr�s de mulheres, o que Egwene n�o podia aprovar, mas Nynaeve com certeza sabia t�o bem quanto ela que, apesar de olhares inapropriados em momentos impr�prios, ele parecia ter uma habilidade incomum para identificar quais mulheres queriam ser cortejadas, at� as mais improv�veis. Infelizmente, justo quando ela tinha certeza de que Nynaeve estava prestes a dar o bra�o a torcer, uma batida na porta anunciou Sheriam.</p><p>A mulher n�o esperou ter permiss�o para entrar. Nunca esperava. Com os olhos tranquilos e sua estola azul, parou e fitou Nynaeve e Elayne. Vice da Amyrlin ou n�o, a Curadora n�o tinha nenhuma autoridade real sobre as Aes Sedai, exceto pelo que a Amyrlin decidia conceder a ela e, com certeza, nenhuma autoridade para dispensar ningu�m da presen�a da Amyrlin, ainda que aquele olhar certamente fosse de dispensa.</p><p>Elayne se levantou em um movimento gracioso e fez uma mesura profunda e formal para Egwene.</p><p>� Se me d� licen�a, M�e, � melhor eu ir procurar Aviendha.</p><p>Nynaeve, por outro lado, ficou encarando Sheriam at� Egwene pigarrear e recolocar a estola listrada sobre os ombros.</p><p>Enrubescendo, Nynaeve fez uma mesura e se levantou.</p><p>� Melhor eu ir tamb�m. Janya disse que iria conversar comigo sobre Talentos perdidos.</p><p>A recupera��o daqueles Talentos estava se provando n�o ser t�o f�cil quanto Egwene esperara. As irm�s estavam suficientemente dispostas a falar. O problema era fazer Moghedien compreender o que estava sendo dito apenas por uma vaga descri��o ou �s vezes s� por um nome, e ent�o torcer para que ela realmente soubesse de algo. �timo saber, por exemplo, que Alinhar a Matriz fortalecia metais, mas a mulher entendia ainda menos de metais que da Cura. E o que, sob a Luz, significava Girar Fogo Terrestre? E Ordenhar L�grimas?</p><p>Moghedien parecia disposta a ajudar, desesperada at�, em especial depois que Siuan ensinou o truque de ignorar o calor. Ao que parecia, ela havia mentido para Nynaeve e Elayne a respeito daquilo. Convencida de que Egwene interpretaria isso como �uma �nica mentira� dela, a mulher ficara de joelhos, chorando e implorando, batendo os dentes e beijando-lhes as barras das saias. Ansiosa para ajudar ou n�o, seu medo se elevara a novos patamares. A chuva nauseante e incessante de terror choroso era insuport�vel. Apesar do que Egwene pretendera fazer inicialmente, o bracelete do <emphasis>a�dam</emphasis> estava guardado em sua bolsinha. �quela altura, ela j� o teria dado a Nynaeve � e estaria feliz por se ver livre dele �, mas ficar passando aquilo para l� e para c� na frente dos outros acabaria gerando coment�rios mais cedo ou mais tarde.</p><p>Em vez disso, ela falou:</p><p>� Nynaeve, talvez seja melhor voc� evitar Mat at� que ele se acalme. � Ela n�o tinha certeza de que Mat de fato levaria sua amea�a adiante, mas se havia algu�m que o incitasse a tal, esse algu�m era Nynaeve, e n�o seria poss�vel convenc�-la se isso acontecesse. � Ou pelo menos tome o cuidado de s� se dirigir a ele quando houver muita gente em volta. Talvez alguns Guardi�es.</p><p>Nynaeve abriu a boca e ent�o, momentos depois, fechou. Suas bochechas empalideceram um pouco e ela engoliu em seco.</p><p>� Certo. �, acho que pode ser melhor, M�e.</p><p>Sheriam assistiu � porta se fechar com o cenho levemente franzido, e a express�o permaneceu quando ela se virou para Egwene.</p><p>� A conversa foi dif�cil, M�e?</p><p>� Apenas o que se espera quando velhos amigos se encontram depois de muito tempo. Nynaeve se lembra de Mat como um moleque travesso, mas ele j� n�o tem mais dez anos e se ressente disso. � Impedidas de mentir por conta do Juramento, as Aes Sedai haviam transformado meias verdades e insinua��es em arte. Uma arte muito �til, na opini�o de Egwene. Especialmente com Aes Sedai. Os Tr�s Juramentos n�o eram bons para ningu�m, menos ainda para as Aes Sedai.</p><p>� �s vezes � dif�cil lembrar que as pessoas mudam. � Sheriam se sentou sem ter sido convidada e arrumou suas saias azuis de seda com cuidado. � Presumo que quem quer que esteja no comando dos Devotos do Drag�o tenha mandado o jovem Mat com uma mensagem de Rand al�Thor, n�o? Espero que voc� n�o tenha dito nada que ele possa interpretar como uma promessa, M�e. Um ex�rcito de Devotos do Drag�o a menos de dez milhas daqui nos p�e em uma posi��o muito delicada. N�o vai ajudar em nada se o comandante deles acreditar que descumprimos uma promessa.</p><p>Egwene analisou a outra mulher por um momento. Nada abalava Sheriam. N�o que ela deixasse algu�m perceber, pelo menos. Sheriam sabia bastante sobre Mat, assim como o sabiam v�rias outras irm�s em Salidar. Ser� que aquilo poderia ser usado para pression�-lo na dire��o correta ou o faria dar no p�? <emphasis>Depois eu cuido de Mat</emphasis>, pensou ela com firmeza. <emphasis>Preciso me concentrar em Sheriam</emphasis>.</p><p>� Voc� poderia pedir para algu�m trazer ch�, Sheriam? Estou com um pouquinho de sede.</p><p>O rosto de Sheriam se alterou apenas levemente, um mero estreitamento daqueles olhos amendoados, t�o pequeno que mal perturbou sua aparente serenidade. Egwene, no entanto, podia quase enxergar a pergunta querendo brotar. O que ela dissera a Mat e que agora n�o queria revelar? Que promessas tinha feito? De que enrascada Sheriam teria de resgat�-la sem ter que ceder a Romanda e Lelaine?</p><p>A �nica coisa que Sheriam fez foi dizer umas poucas palavras para algu�m do lado de fora e, quando retomou seu assento, Egwene n�o lhe deu chance para abrir a boca. Em vez disso, acertou-a entre os olhos, por assim dizer.</p><p>� Parece que Mat � o comandante, Sheriam, e, de certa forma, o ex�rcito � a mensagem. Aparentemente, Rand gostaria que todas n�s f�ssemos para junto dele em Caemlyn. Houve at� uma men��o a juramentos de lealdade.</p><p>Sheriam levantou a cabe�a, os olhos se arregalando. S� em parte, por�m, em ultraje �quela sugest�o. Havia um claro qu� de� bem, em qualquer pessoa que n�o fosse Aes Sedai, Egwene teria chamado de medo. Bastante compreens�vel, se fosse o caso. Se ela tivesse prometido aquilo � e eles eram da mesma aldeia, e uma das <emphasis>utilidades</emphasis> de ter Egwene como Amyrlin era o fato de ela ter sido criada com Rand �, seria como tentar escapar de um atoleiro sem fim. A not�cia se espalharia a despeito do que Sheriam fizesse para abaf�-la. Uma parte do Sal�o talvez pusesse a culpa nela, ou usaria o caso como pretexto, de qualquer forma. Romanda e Lelaine n�o eram as �nicas Votantes a ter alertado Egwene quanto a seguir os conselhos de Sheriam sem consultar o Sal�o. Na verdade, Delana era a �nica que parecia apoiar Sheriam sem restri��es, mas sempre advertia que Romanda e Lelaine tamb�m deveriam ser ouvidas, como se realmente fosse poss�vel seguir por tr�s caminhos de uma s� vez. E, ainda que se pudesse contornar o Sal�o, t�o logo a not�cia da promessa, bem como da sua revoga��o, chegasse aos ouvidos de Rand, seria dez vezes mais dif�cil lidar com ele. Cem vezes.</p><p>Egwene s� aguardou at� que os l�bios de Sheriam se abrissem, e ent�o tornou a se antecipar:</p><p>� Claro que eu falei para ele que era uma ideia rid�cula.</p><p>� Claro. � A voz de Sheriam n�o estava t�o firme quanto j� estivera. Muito bom.</p><p>� Mas voc� tem toda raz�o. A situa��o � delicada. � uma pena. O seu conselho sobre como lidar com Romanda e Lelaine foi bom, mas creio que aumentar os preparativos para um deslocamento j� n�o seja mais suficiente.</p><p>Romanda a colocara contra a parede e a advertira com severidade quanto � pressa levar � ru�na. O ex�rcito de Gareth Bryne deveria ter seus n�meros aumentados, at� ficar grande o bastante para que a not�cia sobre o seu tamanho intimidasse Elaida. Por sinal, Romanda n�o poderia ser mais contundente ao enfatizar uma vez mais que miss�es diplom�ticas para governantes <emphasis>tinham</emphasis> que ser suspensas. Somente as Aes Sedai deveriam saber de quaisquer problemas na Torre. Lelaine n�o dava a m�nima nem para o ex�rcito do Lorde Bryne nem para governantes � ambos eram irrelevantes �, embora tenha recomendado cautela e espera. As abordagens adequadas �s Aes Sedai que ainda estavam na Torre por certo dariam frutos: Elaida poderia ser removida do Trono de Amyrlin e Egwene empossada de tal forma que ningu�m al�m de umas poucas irm�s jamais teria certeza do que realmente ocorrera. Com o tempo, o fato de a Torre Branca um dia ter se rompido seria visto como n�o mais que um boato de campon�s. Poderia at� ter dado certo, se elas tivessem mais tempo. Caso esperar n�o desse a Elaida exatamente a mesma chance de atuar junto �s irm�s que estavam ali.</p><p>A outra diferen�a com rela��o a Lelaine era que ela dissera tudo aquilo com um sorriso apropriado para se dirigir a uma novi�a promissora ou a uma Aceita da qual ela estava orgulhosa. Egwene ter redescoberto a Viagem fez com que v�rias Aes Sedai sorrissem, embora s� umas poucas fossem fortes o bastante para abrir um port�o maior que o necess�rio para a passagem de um bra�o, e a maioria, nem isso. Romanda queria usar os port�es para retirar da Torre o Bast�o dos Juramentos e certos outros objetos � n�o disseram a Egwene exatamente quais �, para que elas pudessem elevar Aes Sedai �de verdade� em Salidar, privando Elaida dessa capacidade, e era certo que Egwene queria ser uma Aes Sedai �de verdade�. Lelaine concordava com esse �ltimo ponto, mas n�o com o uso de port�es na Torre. Havia grandes chances de que eles fossem detectados, e, se as mulheres na Torre aprendessem a Viajar, uma vantagem importante demais seria perdida. Esses argumentos haviam tido um peso consider�vel junto ao Sal�o, o que n�o deixou Romanda nada satisfeita.</p><p>Sheriam tamb�m tinha sorrido por finalmente concordar com Lelaine em alguma coisa, mas, �quela altura, j� n�o sorria mais.</p><p>� N�o tenho certeza se entendi, M�e � disse ela, em um tom tolerante demais. � Preparativos certamente s�o o bastante para mostrar ao Sal�o que voc� n�o vai se deixar intimidar. Mas avan�ar antes que tudo esteja em ordem pode ter consequ�ncias desastrosas.</p><p>Egwene deu um jeito de exibir uma express�o inocente.</p><p>� Eu entendo, Sheriam. N�o sei o que eu faria sem os seus conselhos. � Como ela queria que chegasse o dia em que poderia acabar com aquilo. Sheriam seria uma excelente Curadora, e talvez at� uma boa Amyrlin, mas Egwene sentiria muito prazer no dia em que pudesse ensinar � mulher que ela era a <emphasis>Curadora</emphasis>, n�o a Amyrlin. A ela <emphasis>e</emphasis> ao Sal�o. � � que agora Mat est� com esse ex�rcito de Devotos do Drag�o aqui na nossa porta. O que Lorde Bryne vai fazer? Ou alguns dos soldados dele, talvez por conta pr�pria? Todo mundo fala sobre como ele queria enviar homens para ca�ar esses Devotos do Drag�o que supostamente andam incendiando aldeias. Sei que disseram para ele manter as r�deas bem curtas, mas�</p><p>� Lorde Gareth vai agir exatamente como n�s� como voc� ordenar, e nada mais.</p><p>� Pode ser. � Ele n�o estava t�o feliz com essa r�dea curta quanto Sheriam acreditava. Siuan passava um bom tempo com Gareth Bryne, por mais que reclamasse do homem, e ele lhe contava coisas. Egwene, entretanto, n�o podia dizer nada a Sheriam que denunciasse a rela��o dos dois. � Espero que se possa dizer o mesmo de todos os soldados dele. N�o podemos nos deslocar para o oeste e entrar em Amad�cia, mas achei que talvez pud�ssemos seguir rio abaixo, para Ebou Dar. Talvez por um port�o. Tenho certeza de que as Aes Sedai s�o bem-vindas l�. Lorde Bryne poderia acampar fora da cidade. Se nos desloc�ssemos, estar�amos enfatizando que n�o vamos aceitar a� oferta de Rand, se � que pode ser chamada disso. E se vamos fazer mais preparativos, tenho certeza de que achar�amos tudo muito mais f�cil numa cidade grande, com estradas e navios chegando e saindo do porto.</p><p>O controle de Sheriam titubeou de novo, a ponto de chegar a deix�-la com a voz fraca.</p><p>� Ebou Dar n�o � um lugar muito convidativo assim, M�e. Algumas irm�s � algo bem diferente de algumas centenas, ainda mais com um ex�rcito �s costas. Isso pode fazer Tylin achar que nossa inten��o � tomar a cidade, M�e. N�o s� Tylin como tamb�m v�rios nobres altaranos que adorariam ter uma desculpa para derrub�-la e se apossar do Trono dos Ventos. Uma enrascada desse tipo arruinaria nossa imagem diante de todos os governantes. N�o, M�e, � totalmente fora de cogita��o.</p><p>� Mas como podemos ficar aqui agora? Mat n�o vai fazer nada, mas basta que um punhado de soldados de Lorde Bryne resolva fazer justi�a com as pr�prias m�os. � Egwene franziu o cenho olhando para as saias, alisou-as como se estivesse preocupada, e ent�o suspirou. � Quanto mais ficarmos aqui sentadas sem fazer nada com um ex�rcito de Devotos do Drag�o olhando para n�s, pior vai ser. N�o vou ficar surpresa se ouvir boatos de que eles pretendem nos atacar, e pessoas dizendo que dever�amos fazer isso primeiro. � Se a conversa n�o funcionasse, esses boatos com certeza surgiriam. Nynaeve, Elayne, Siuan e Leane cuidariam disso. Seria perigoso, mas ela poderia encontrar um jeito de fazer Mat recuar antes de a coisa pegar fogo, caso se chegasse a esse ponto. � Olha, pela forma como os boatos se espalham, eu n�o ficaria surpresa se em menos de um m�s metade de Altara achasse que <emphasis>n�s</emphasis> somos Devotas do Drag�o. � Esse era um boato que, se soubesse como, ela teria refreado. O Sal�o n�o trazia mais nobres para se encontrar com Logain desde que ele tinha sido Curado, mas os recrutadores de Bryne continuavam saindo, assim como grupos de Aes Sedai que iam ca�ar novas novi�as, e homens que, com suas carro�as e seus carro��es, empreendiam a longa jornada at� as aldeias mais pr�ximas para comprar comida. Cem caminhos para rumores se espalharem, e bastava um. � Sheriam, eu sinto como se estiv�ssemos presas dentro de um caixote, e, se n�o sairmos logo, nada de bom vai acontecer. Nada mesmo.</p><p>� A solu��o � mandar os Devotos do Drag�o embora � retrucou Sheriam, j� sem a mesma paci�ncia de antes. � Eu lamento deixar Mat escapar de novo, mas n�o h� o que fazer, infelizmente. Voc� disse para ele que recus�vamos a <emphasis>oferta</emphasis>, ent�o mande-o embora.</p><p>� Quem me dera fosse simples assim. N�o acho que basta a gente pedir a ele que v� embora, Sheriam. Mat deu a entender que ficaria onde est� at� que alguma coisa acontecesse. Ele pode estar esperando ordens de Rand, ou at� o pr�prio Rand. Corria um boato em Cairhien de que ele passou a gostar de Viajar de vez em quando com alguns daqueles homens que reuniu. Aqueles que ele est� ensinando a canalizar, sabe? Se isso acontecer, n�o sei o que vamos fazer.</p><p>Sheriam encarou-a, a respira��o ofegante para algu�m com fei��es t�o tranquilas.</p><p>Um barulhinho � porta foi seguido por Tabiya trazendo uma bandeja de prata lisa. Sem perceber o clima pesado, ela resolve arrumar as x�caras e o bule de ch� de porcelana verde com todo o esmero, assim como o pote de mel de prata, o jarrinho de creme e os guardanapos de linho com bordas rendadas, at� Sheriam finalmente explodir com a garota e mand�-la terminar logo que Tabiya soltou um ganido, abaixou-se com os olhos arregalados para fazer uma mesura que quase terminou com sua cabe�a enfiada no ch�o e saiu correndo.</p><p>Por um momento, enquanto recuperava a compostura, Sheriam se ocupou em alisar as saias.</p><p>� Talvez � disse, por fim, relutante �, seja mesmo necess�rio deixar Salidar. Antes do que eu gostaria.</p><p>� Mas o �nico caminho que resta � o norte. � Egwene arregalou os olhos. Luz, como ela odiava aquilo! � Vai parecer que estamos indo em dire��o a Tar Valon.</p><p>� Eu sei � retrucou Sheriam, quase irritada. Respirou fundo e moderou o tom. � Me perdoe, M�e. Me sinto um pouco� N�o gosto de ser for�ada a nada, e meu medo � de que Rand al�Thor tenha nos for�ado a entrar no jogo antes de estarmos prontas.</p><p>� Vou ter uma conversa s�ria com ele quando o encontrar � afirmou Egwene. � N�o consigo nem imaginar o que eu faria sem os seus conselhos. � Talvez ela descobrisse um jeito de mandar Sheriam ir estudar com as S�bias como aprendiz. A ideia de Sheriam depois de, digamos, meio ano com Sorilea a fez abrir um sorriso t�o grande que a Curadora chegou at� a sorrir de volta. � Com mel ou amargo? � perguntou Egwene, levantando o bule.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 40</p><p><image l:href="#9"/></p><p>Gargalhada inesperada</p></title><p>� Voc� precisa me ajudar a colocar algum ju�zo na cabe�a delas � disse Mat sem tirar o cachimbo da boca. � Est� ouvindo, Thom?</p><p>Os dois estavam sentados em barriletes tombados na sombra p�fia de uma casa de dois andares, fumando seus cachimbos, e o menestrel velho e magrelo parecia mais interessado em examinar a carta que Rand lhe enviara. �quela altura, j� a enfiara no bolso do manto com o selo em cera azul ainda intacto. O zum-zum-zum de vozes e o rangido de eixos vindos da rua no final da viela pareciam distantes. O suor pingava do rosto de ambos. Naquele momento, ao menos uma coisa j� estava resolvida. Mat sa�ra da Pequena Torre para descobrir que um grupo de Aes Sedai havia arrastado Aviendha para algum lugar. Ela n�o esfaquearia ningu�m t�o cedo.</p><p>Thom tirou o cachimbo da boca. Tinha uma piteira bem comprida, com folhas de carvalho e nozes entalhadas.</p><p>� Uma vez eu tentei resgatar uma mulher, Mat. Laritha era um bot�o de rosa e casada com um brutamontes de olhar furioso que confeccionava botas numa aldeia onde fiz uma parada por alguns dias durante minhas viagens. Um brutamontes. Gritava com ela caso o jantar n�o estivesse pronto na hora e a amea�ava com um chicote se a visse trocar mais que duas palavras com qualquer homem.</p><p>� Thom, onde � que no Po�o da Perdi��o isso tem alguma coisa a ver com aquelas mulheres passarem a ter algum ju�zo?</p><p>� Apenas me ou�a, garoto. O modo como ele tratava a mulher era de conhecimento geral na aldeia, mas foi a pr�pria Laritha que me contou, se lamuriando o tempo todo sobre como gostaria que algu�m a resgatasse. Eu tinha ouro na minha bolsa e uma bela carruagem, com condutor e servi�al. Eu era jovem e bonit�o. � Thom esfregou o bigode branco e suspirou. Era dif�cil acreditar que aquele rosto envelhecido j� havia sido bonito. Mat piscou. Uma carruagem? Desde quando um menestrel tinha carruagem? � A situa��o daquela mulher partiu o meu cora��o, Mat. E n�o vou negar que o rosto dela tamb�m me conquistou. Como eu disse, eu era jovem, achei que estava apaixonado, como um her�i sa�do das hist�rias. Ent�o um dia, sentado debaixo de uma macieira que estava florando, bem longe da casa do fabricante de botas, me ofereci para lev�-la embora. Eu daria uma criada e uma casa s� para ela, e a cortejaria com m�sicas e versos. Quando ela finalmente entendeu, me deu um chute t�o forte no joelho que passei um m�s inteiro mancando, al�m de ter me batido com o banco.</p><p>� Parece que todas elas gostam de dar chutes � resmungou Mat, ajustando seu peso em cima do barrilete. � Suponho que ela n�o tenha acreditado em voc�, e quem pode culp�-la?</p><p>� Ah, ela acreditou. E se sentiu ultrajada por eu ter achado que algum dia ela abandonaria o amado marido dela. Palavra dela: amado. Ela saiu correndo de volta para ele o mais r�pido que os p�s dela aguentavam, e s� me restou escolher entre mat�-lo ou pular para dentro da minha carruagem. Tive que deixar para tr�s quase tudo o que eu tinha. Creio que ela ainda esteja vivendo com ele exatamente como antes: segurando os cordames da bolsa bem apertado em sua m�o e dando com a vassoura na cabe�a dele toda vez que ele vai � estalagem para tomar uma cerveja. De mesmo jeito que ela sempre fez, como eu descobri depois de algumas discretas investiga��es. � Ele meteu o cachimbo de volta entre os dentes como se tivesse chegado a uma conclus�o.</p><p>Mat co�ou a cabe�a.</p><p>� N�o entendi o que uma coisa tem a ver com a outra.</p><p>� Voc� n�o deveria pensar que conhece a hist�ria toda quando s� ouviu uma parte. Por exemplo, voc� sabia que Elayne e Nynaeve v�o partir para Ebou Dar daqui um ou dois dias? E que Juilin e eu devemos ir junto?</p><p>� Ebou�! � Mat quase n�o conseguiu pegar o cachimbo antes que ele ca�sse nas ervas daninhas mortas que recobriam a viela. Nalesean contara algumas hist�rias sobre uma visita a Ebou Dar, e mesmo Mat sabendo que ele exagerava quando se tratava de mulheres que conhecera e brigas em que se metera, o lugar parecia dif�cil. Ent�o elas achavam que conseguiriam levar Elayne embora na calada da noite, �? � Thom, voc� precisa me ajudar�</p><p>� O qu�? � interrompeu Thom. � A salv�-las do artes�o de botas? � Soprou uma serpentina de fuma�a azul. � N�o vou fazer isso, garoto. Voc� ainda n�o sabe a hist�ria toda. Como voc� se sente com rela��o a Egwene e Nynaeve? Pensando melhor, considere s� Egwene.</p><p>Mat franziu a testa, imaginando se o homem pensava que conseguiria confundi-lo ao ficar andando em c�rculos.</p><p>� Eu gosto de Egwene. Eu� Que a Luz me queime, Thom, ela � a Egwene. S� isso j� diz tudo. Por isso � que eu estou tentando salvar o pesco�o daquela idiota.</p><p>� Salv�-la do artes�o de botas dela, voc� quer dizer � murmurou Thom, mas Mat continuou.</p><p>� O pesco�o dela e o de Elayne tamb�m. At� o de Nynaeve, se eu mesmo resistir � tenta��o de estrangul�-la com as minhas pr�prias m�os. Luz! Eu s� quero ajud�-las. Al�m disso, Rand vai quebrar o <emphasis>meu</emphasis> pesco�o se eu deixar alguma coisa acontecer com Elayne.</p><p>� Voc� j� pensou em ajud�-las a fazer o que elas querem, em vez do que voc� quer? Se eu pudesse fazer as coisas do meu jeito, j� estaria com Elayne num cavalo a caminho de Andor. Ela precisa fazer outras coisas primeiro, <emphasis>precisa</emphasis>, eu acho, ent�o eu fico correndo por a� atr�s dela, preocupado dia e noite se algu�m vai conseguir mat�-la sem que eu possa fazer nada para evitar. Ela s� vai para Caemlyn quando estiver pronta. � Cheio de complac�ncia, Thom tragou o cachimbo, mas sua voz soou levemente cortante no final, como se n�o gostasse tanto das suas palavras quanto fingia gostar.</p><p>� A impress�o que eu tenho � de que elas querem entregar a cabe�a delas para Elaida. � Quer dizer que Thom estaria com aquela jovenzinha tola em cima de um cavalo, n�o �? Um menestrel levando a Filha-herdeira na marra para ser coroada! Realmente Thom se tinha em alta conta.</p><p>� Voc� n�o � bobo, Mat � disse Thom, calmo. � Voc� sabe muito bem. Egwene� � dif�cil ver aquela crian�a como Amyrlin� � Mat soltou um grunhido amargo, concordando. Thom nem lhe deu aten��o. � � mas creio que ela tenha est�mago para isso. Ainda � muito cedo para dizer se algumas coisas s�o s� coincid�ncia, mas estou come�ando a acreditar que ela tamb�m pode ter o c�rebro. A quest�o �: ser� que ela � forte o bastante? Se lhe faltar isso, elas v�o com�-la viva, est�mago, c�rebro e tudo.</p><p>� Quem? Elaida?</p><p>� Ah, ela. Se tiver a chance. Essa a� tem for�a de sobra. Mas as Aes Sedai daqui mal veem Egwene como Aes Sedai. Como Amyrlin, talvez, mas n�o como Aes Sedai, mesmo que isso seja dif�cil de se acreditar. � Thom balan�ou a cabe�a. � Eu n�o entendo, mas � verdade. O mesmo vale para Elayne e Nynaeve. Elas tentam manter isso s� entre elas, mas nem as Aes Sedai disfar�am tanto quanto acreditam, se voc� olhar bem e prestar aten��o. � O homem tornou a puxar a carta e s� ficou virando-a nas m�os para um lado e para o outro, sem olhar. � Egwene est� caminhando na beira de um precip�cio, Mat, e tr�s fac��es aqui em Salidar� at� onde sei s�o tr�s� podem empurr�-la l� de cima se ela der um �nico passo em falso. Elayne vai junto se isso acontecer, e Nynaeve tamb�m. Ou talvez elas empurrem primeiro as duas para que Egwene seja arrastada junta.</p><p>� S� aqui em Salidar � repetiu Mat, sem emo��o. Thom assentiu com a cabe�a calmamente, e Mat n�o conseguiu evitar que sua voz subisse de tom. � E voc� quer que eu as deixe aqui?</p><p>� Quero que pare de pensar que voc� vai <emphasis>obrig�-las</emphasis> a fazer o que for. Elas j� decidiram o que v�o fazer, e voc� n�o tem como mudar isso. Mas talvez, e s� talvez, voc� possa me ajudar a mant�-las vivas.</p><p>Mat se levantou rapidamente. A imagem de uma mulher com uma faca enterrada entre os seios lhe viera � mente, e n�o se tratava de uma das lembran�as emprestadas. Ele chutou o barrilete em que estivera sentado e o fez sair rolando viela abaixo. Ajudar um <emphasis>menestrel</emphasis> a mant�-las vivas? Uma lembran�a t�nue ressurgiu, algo com rela��o a Basel Gill, um estalajadeiro de Caemlyn, falando alguma coisa a respeito de Thom, mas foi como se Mat tentasse agarrar fuma�a, e o pensamento se dissipou.</p><p>� De quem � a carta, Thom? De alguma outra mulher que voc� resgatou? Ou voc� a deixou num lugar onde ela poderia acabar decapitada?</p><p>� Deixei � respondeu Thom, tranquilo. Levantou-se e se afastou sem dizer mais nenhuma palavra.</p><p>Mat fez men��o de det�-lo e chegou at� a abrir a boca. S� n�o conseguia pensar no que dizer. <emphasis>Velho maluco!</emphasis> N�o, n�o era maluco. Egwene era teimosa como uma mula, e Nynaeve a fazia parecer d�cil. Pior, ambas subiriam numa �rvore para enxergar melhor um rel�mpago. Quanto a Elayne, as mulheres nobres nunca tinham bom senso suficiente para sair da chuva. E depois ficavam indignadas quando se molhavam.</p><p>Dando tapinhas para esvaziar o cachimbo, Mat apagou as brasas com os calcanhares antes que as ervas daninhas secas pudessem pegar fogo, ent�o apanhou o chap�u no ch�o e saiu mancando pela rua. Precisava obter informa��es de uma fonte melhor que um menestrel que tinha del�rios de grandeza por ter passado tempo demais com aquela Filha-herdeira de nariz em p�. � sua esquerda, ao longe, Mat viu Nynaeve saindo da Pequena Torre e disparou atr�s dela, serpenteando por entre carro�as puxadas por bois ou cavalos. Talvez ela pudesse ajud�-lo a entender melhor. Se quisesse. Sentiu uma pontada no quadril. <emphasis>Que me queime, ela me deve algumas respostas.</emphasis></p><p>Foi quando Nynaeve o avistou e ficou visivelmente tensa. Por um momento, observou-o se aproximar e ent�o, de maneira abrupta, apressou-se na dire��o contr�ria, numa clara tentativa de evit�-lo. Ela olhou por cima do ombro duas vezes antes de as pessoas e as carro�as a encobrirem.</p><p>Mat parou, com a express�o carrancuda, e puxou o chap�u para baixo. Primeiro, a mulher lhe dera um pontap� sem motivo e agora se recusava a falar com ele. Estavam querendo deix�-lo abalado, ela e Egwene, at� que Mat sa�sse correndo sempre que elas lhe apontassem o dedo. <emphasis>Bem, elas escolheram o homem errado para esse joguinho, e que a Luz queime seus couros!</emphasis></p><p>Vanin e os demais estavam do lado de fora de um est�bulo, junto de uma constru��o de pedra que, no passado, com certeza fora uma estalagem. �quela altura, Aes Sedai entravam e sa�am do local. Pips e o restante dos cavalos estavam amarrados a um poste, e Vanin e os dois batedores que haviam sido capturados estavam agachados junto da parede. N�o havia dois homens mais diferentes entre si do que Marr e Ladwin; um alto, magrelo e de rosto duro, o outro baixo, troncudo e de aspecto pacato, mas ambos pareciam absolutamente envergonhados quando Mat apareceu. Nenhum dos dois havia se recuperado de como a captura dele tinha sido f�cil. Rijos, os dois homens do esquadr�o estavam de p� e ainda seguravam os estandartes bem justos junto �s hastes, como se ainda houvesse sentido naquilo. Pareciam mais do que s� um pouco apreensivos. Uma batalha era uma coisa, todas aquelas Aes Sedai eram outra bem diferente. Numa batalha, um homem tinha chances de vencer. Havia dois Guardi�es de olho neles. N�o abertamente. Estavam do outro lado do p�tio do est�bulo, mas n�o teriam optado por ficar ali, de p� no sol a pino, s� para conversar.</p><p>Mat alisou o focinho de Pips e, em seguida, instantes depois, come�ou a examinar os olhos do cavalo. Um sujeito de colete de couro saiu do est�bulo e seguiu rua acima empurrando um carrinho de m�o cheio de esterco. Vanin se aproximou para observar o olho de Pips. Sem olhar para ele, Mat disse:</p><p>� Voc� consegue ir at� o Bando?</p><p>� Talvez. � Vanin franziu o cenho e levantou a p�lpebra de Pips. � Com um pouco de sorte, talvez. Mas odeio ter que abandonar o meu cavalo.</p><p>Mat assentiu, observando o olho mais de perto.</p><p>� Avise a Talmanes que eu disse para ele ficar onde est�. Pode ser que eu fique aqui alguns dias, e n�o quero nenhuma maldita tentativa de resgate. Tente voltar para c�. Sem ser visto, se poss�vel.</p><p>Vanin cuspiu na poeira debaixo de Pips.</p><p>� Um homem que se mistura com Aes Sedai p�e uma r�dea em si mesmo e uma sela em suas costas. Vou voltar assim que puder. � Balan�ando a cabe�a, ele se misturou � multid�o, um gorducho desalinhado e de andar bamboleante que ningu�m suspeitaria de que fosse capaz de ser furtivo.</p><p>Um dos homens do esquadr�o pigarreou com hesita��o e deu um passo em dire��o a Mat.</p><p>� Milorde, est� tudo�? Foi isso que voc� planejou, n�o foi, milorde?</p><p>� Tudo dentro do plano, Verdin � respondeu Mat, dando tapinhas em Pips. Ele fora enfiado de cabe�a numa saca, e com os barbantes bem amarrados. Havia prometido a Rand que levaria Elayne em seguran�a a Caemlyn e n�o podia ir embora sem ela. E tamb�m n�o podia dar no p� e deixar Egwene com o pesco�o estirado no cepo. Podia ser que� Luz, como aquilo o irritava! Mas podia ser que ele tivesse de seguir o conselho de Thom. Tentar manter a maldita cabe�a daquelas malditas mulheres sobre seus malditos ombros dando um jeito de ajud�-las a fazer aquele plano completamente maluco dar certo. E, de quebra, tentava manter o pr�prio pesco�o intacto. Sem falar em deixar Aviendha bem longe da goela de Elayne. Bem, pelo menos ele poderia estar por perto para lev�-las embora quando tudo desse errado. Belo consolo. � Est� tudo indo �s mil maravilhas.</p><empty-line/><p>Elayne esperara encontrar Aviendha na sala de espera ou talvez no lado de fora, mas n�o precisou investigar muito para descobrir por que a Aiel n�o estava nem num lugar nem noutro. Havia dois assuntos nas conversas entre as outras Aes Sedai, e todas elas estavam falando, os pap�is importantes abandonados sobre as mesas. A maioria das l�nguas se ocupava com Mat. At� as servi�ais e novi�as que passavam �s pressas pela sala de espera faziam pausas na realiza��o das suas incumb�ncias para trocar uma ou outra palavra a respeito dele. Ele era <emphasis>ta�veren</emphasis>. Era seguro permitir que um <emphasis>ta�veren</emphasis> permanecesse em Salidar? Ele havia estado mesmo na Torre e simplesmente teve permiss�o para ir embora? Era verdade que comandava um ex�rcito de Devotos do Drag�o? Ser� que ele seria preso pelas atrocidades das quais elas tinham ouvido falar? Era verdade que ele era da mesma aldeia que o Drag�o Renascido e a Amyrlin? Havia boatos de <emphasis>dois ta�veren</emphasis> ligados ao Drag�o Renascido. Quem seria o segundo e onde ele poderia ser encontrado? Talvez Mat Cauthon soubesse. Parecia haver tantas opini�es quanto pessoas para d�-las.</p><p>Havia duas perguntas que Elayne esperava ouvir e que n�o ouviu: o que Mat queria em Salidar e como Rand soubera para onde mand�-lo? Ningu�m as fez, mas, num canto, uma Aes Sedai mexia de repente no xale como se estivesse com frio e se sobressaltava quando algu�m falava com ela, e, no outro, uma servi�al parada no meio do aposento olhava para o nada antes de recobrar a consci�ncia com uma sacudidela, ou uma novi�a disparava olhares apavorados para as irm�s. Mat n�o era exatamente um gato � solta entre os pombos, mas chegava perto. O simples fato de Rand saber onde elas estavam parecia o suficiente para causar calafrios.</p><p>Aviendha gerava menos coment�rios, mas as irm�s n�o tinham como evitar falar sobre ela, e n�o s� para mudar de assunto. N�o era todo dia que uma bravia simplesmente aparecia por conta pr�pria, em especial com aquela for�a not�vel e, ainda por cima, sendo uma Aiel. Esse �ltimo aspecto causava verdadeiro fasc�nio em todas as irm�s. Nenhuma Aiel jamais treinara na Torre, e poucas Aes Sedai j� haviam adentrado o Deserto Aiel.</p><p>Bastou uma �nica pergunta para ela descobrir onde estavam mantendo-a presa. N�o oficialmente presa, mas Elayne sabia como as Aes Sedai podiam ser quando queriam que uma mulher se tornasse novi�a.</p><p>� Ao cair da noite, ela j� vai estar de branco � afirmou Akarrin de modo confiante. A Marrom esbelta assentia para dar �nfase a quase todas as palavras. As duas irm�s que a acompanhavam aquiesceram com a mesma certeza.</p><p>Resmungando sozinha, Elayne saiu apressada para a rua. � sua frente, conseguia avistar Nynaeve quase trotando e olhando por cima do ombro com tanta frequ�ncia que acabava esbarrando nas pessoas. Sem se importar em ter companhia, Elayne cogitou alcan��-la, mas n�o estava disposta a correr naquele calor, com ou sem a concentra��o que a impedia de suar, e aquela parecia ser a �nica alternativa. Ainda assim, ela acabou suspendendo um pouco as saias e apertou o passo.</p><p>Antes que tivesse percorrido cinquenta passadas, sentiu Birgitte se aproximando e virou-se para v�-la correndo rua abaixo. Areina estava com ela, mas parou n�o muito longe e cruzou os bra�os fazendo cara feia. A mulher era intrat�vel, e com certeza n�o mudara de opini�o s� porque Elayne passara a ser de fato uma Aes Sedai.</p><p>� Achei que voc� deveria saber � disse Birgitte, em voz baixa. � Acabei de saber que, quando formos partir para Ebou Dar, Vandene e Adeleas v�o junto.</p><p>� Entendi � murmurou Elayne. Podia ser que a dupla, por algum motivo, fosse se juntar a Merilille, embora j� houvesse tr�s Aes Sedai na corte de Tylin, ou talvez tivessem uma miss�o espec�fica em Ebou Dar. Elayne n�o acreditava em nenhuma das duas hip�teses. Areina j� tinha feito seus julgamentos, e o Sal�o tamb�m: Elayne e Nynaeve teriam duas Aes Sedai <emphasis>de verdade</emphasis> como bab�s. � Ela j� entendeu bem que <emphasis>ela</emphasis> n�o vai.</p><p>Birgitte espiou na dire��o para onde Elayne estava olhando, para Areina, e deu de ombros.</p><p>� Ela sabe, e n�o est� nem um pouco contente com isso. Da minha parte, n�o vejo a hora de ir.</p><p>Elayne hesitou por um breve momento. Tinha prometido que guardaria segredos, o que n�o gostava de fazer, mas n�o que pararia de tentar convencer a outra mulher de que n�o havia necessidade.</p><p>� Birgitte, a Egwene�</p><p>� N�o!</p><p>� Por que n�o? � N�o fazia muito tempo que Elayne tinha Birgitte como Guardi� quando decidira que, assim que estabelecesse um elo com Rand, daria um jeito de obrig�-lo a prometer que ele a obedeceria, ao menos nas coisas importantes. Nos �ltimos dias, ela se contentaria com uma outra promessa: ele teria que responder �s perguntas dela. Birgitte respondia quando queria, fazia-se de desentendida quando tinha vontade e �s vezes s� exibia uma express�o teimosa, como era o caso naquele momento. � Me diga por que n�o e, se a justificativa for boa, eu nunca mais pergunto de novo.</p><p>De in�cio, Birgitte apenas encarou-a com raiva, mas, em seguida, pegou Elayne pelo bra�o e quase a arrastou at� a entrada de uma viela. Nenhum transeunte deu mais que uma �nica olhadela para as duas, e Areina permaneceu onde estava, ainda que com uma express�o mais irritada do que antes, mas Birgitte, mesmo assim, olhou com cuidado para os lados e falou sussurrando:</p><p>� Sempre que a Roda girou e lan�ou para fora, eu nasci, vivi e morri sem saber que estava presa � Roda. Eu s� ficava sabendo disso nos intervalos, em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Algumas vezes, eu me tornei conhecida, e at� famosa, mas era como qualquer outra pessoa, e n�o algu�m que saiu de uma lenda. Desta vez, eu fui arrancada, n�o lan�ada. � a primeira vez em carne e osso que eu sei quem sou. Pela primeira vez, outras pessoas tamb�m podem saber. Thom e Juilin sabem. N�o falam nada, mas eu tenho certeza. Eles n�o olham para mim como as outras pessoas me olham. Se eu dissesse que iria escalar uma montanha de vidro e matar um gigante s� com as m�os, eles s� perguntariam se eu iria precisar de alguma ajuda para encontrar o caminho, e n�o esperariam que eu precisasse.</p><p>� Eu n�o estou entendendo � disse Elayne devagar e Birgitte suspirou, baixando a cabe�a.</p><p>� N�o sei se estou � altura disso tudo. Em outras vidas, eu fiz o que tinha de fazer, o que parecia certo, o bastante para Maerion, Joana ou qualquer mulher. Agora, eu sou a <emphasis>Birgitte</emphasis> das hist�rias. Todos que sabem disso v�o ter <emphasis>expectativas</emphasis>. Me sinto como uma dan�arina com tanga de pena chegando num conclave tovano.</p><p>Elayne nem perguntou. Quando Birgitte mencionava coisas de vidas passadas, as explica��es costumavam gerar mais confus�o que a pura ignor�ncia.</p><p>� Isso � bobagem � opinou ela com firmeza, pegando a outra mulher pelo bra�o. � <emphasis>Eu</emphasis> sei, e <emphasis>eu</emphasis> com certeza n�o espero que voc� saia matando gigantes. Egwene tamb�m n�o. E ela <emphasis>j�</emphasis> sabe.</p><p>� Enquanto eu n�o admitir � resmungou Birgitte � � como se ela n�o soubesse. Nem tenha o trabalho de dizer que isso tamb�m � bobagem. Eu sei que �, e isso n�o muda nada.</p><p>� E o que voc� me diz do seguinte: ela � a Amyrlin e voc� � uma Guardi�. Ela merece a sua confian�a, Birgitte. Ela precisa dela.</p><p>� Voc� j� terminou o que tinha para fazer com ela? � quis saber Areina, a uma passada de dist�ncia. � Se voc� est� indo embora e vai me abandonar, o m�nimo que pode fazer � me ajudar com o arco, como disse que faria.</p><p>� Eu vou pensar � disse Birgitte, com tranquilidade, para Elayne. Virando-se para Areina, ela pegou a mulher pela tran�a junto � base da nuca. � N�s vamos conversar sobre o arco, sim � confirmou, puxando-a rua acima �, mas, primeiro, vamos falar sobre boas maneiras.</p><p>Balan�ando a cabe�a, Elayne de repente se lembrou de Aviendha e saiu �s pressas. A casa n�o ficava muito longe.</p><p>Ela levou um momento para reconhecer Aviendha. Estava acostumada a v�-la de <emphasis>cadin�sor</emphasis>, com seu cabelo avermelhado cortado bem curto, n�o de saia, blusa e xale, com o cabelo abaixo dos ombros e preso atr�s da cabe�a por um len�o dobrado. � primeira vista, n�o parecia estar em nenhuma dificuldade. Sentada meio sem jeito numa cadeira � os Aiel n�o estavam habituados a cadeiras �, dava a impress�o de estar bebericando ch� em absoluta paz com outras cinco irm�s que formavam um c�rculo na sala de estar. Casas que abrigavam Aes Sedai tinham essas coisas, apesar de Elayne e Nynaeve ainda estarem em seu quartinho apertado. Numa segunda an�lise, Aviendha lan�ava olhares assustados para as Aes Sedai por cima da borda da x�cara de ch�. N�o houve tempo para uma terceira an�lise. Ao ver Elayne, Aviendha se p�s de p� instintivamente e deixou a x�cara cair no ch�o limpo. Exceto na Pedra de Tear, Elayne tinha visto poucos Aiel, mas sabia que eles escondiam suas emo��es, coisa que Aviendha fazia muito bem. S� que, dessa vez, sua express�o era sofrida.</p><p>� Me desculpem � disse Elayne para todas as presentes em um tom suave �, mas eu preciso tir�-la da conversa com voc�s por alguns momentos. Talvez voc�s possam falar com ela mais tarde.</p><p>A hesita��o de v�rias irm�s beirou os protestos, embora n�o devesse ter havido nenhuma. Era bem claro que ela era, de longe, a mais forte do aposento, tirando Aviendha, e nenhuma daquelas Aes Sedai era Votante ou fazia parte do conselho de Sheriam. Elayne ficou muito feliz por Myrelle n�o estar l�, j� que a mulher morava na casa. Ela optara pela Verde, fora aceita, e s� ent�o descobriu que Myrelle era a l�der da Ajah Verde em Salidar. Myrelle, que n�o fazia nem quinze anos que era Aes Sedai. Com base em coisas que j� haviam sido ditas, Elayne sabia que existiam Verdes em Salidar que j� usavam o xale havia ao menos cinquenta anos, embora nenhuma delas exibisse um �nico fio grisalho. Se Myrelle estivesse presente, toda a for�a de Elayne n�o teria valido de nada caso a l�der da sua Ajah quisesse manter Aviendha ali. Como n�o era o caso, apenas Shana, uma Branca dos olhos saltados que Elayne achava parecida com um peixe, n�o fez mais que abrir a boca um pouco mais e depois tornar a fech�-la, ainda que de forma bem contrariada, ap�s Elayne ter erguido uma das sobrancelhas.</p><p>As cinco mais que comprimiram os l�bios, mas Elayne ignorou a tens�o.</p><p>� Obrigada � agradeceu, com um sorriso sem vontade.</p><p>Aviendha jogou uma trouxa escura nas costas, mas s� deixou de hesitar quando Elayne de fato pediu para ela ir. J� na rua, Elayne disse:</p><p>� Pe�o desculpas por elas. Vou tomar cuidado para que n�o se repita. � Ela devia ser capaz de proteger Aviendha, tinha certeza. Ou Egwene seria, por certo. � Infelizmente n�o h� muitos lugares para se conversar a s�s. Meu quarto � bem quente a esta hora do dia. Poder�amos tentar encontrar uma sombra, ou tomar um ch�, caso elas ainda n�o tenham entupido voc�.</p><p>� No seu quarto. � Ela n�o chegou a ser exatamente rude, mas estava claro que Aviendha n�o queria conversar, ainda n�o. De repente, ela disparou na dire��o de uma carro�a com lenha que passava e apanhou um dos galhos que seriam partidos em gravetos, maior que seu bra�o e mais grosso que seu polegar. A Aiel voltou para perto de Elayne e come�ou a descasc�-lo com a faca do seu cinto. A l�mina afiada raspava os galhinhos menores feito uma navalha. A express�o n�o era mais sofrida. Ela parecia determinada.</p><p>Elayne observou-a de soslaio enquanto as duas caminhavam. N�o pensava que Aviendha pretendia lhe fazer qualquer mal, a despeito do que dissera aquele ogro chamado Mat Cauthon. E ent�o� Ela sabia um pouco sobre <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Aviendha lhe explicara alguns pontos quando elas estiveram juntas na Pedra. Talvez Rand tivesse dito ou feito algo. Talvez aquele labirinto desconcertante de honras e obriga��es exigisse que Aviendha� N�o parecia poss�vel. Mas talvez�</p><p>Quando chegaram ao quarto, Elayne decidiu tocar primeiro no assunto. Cara a cara com a outra mulher � e, muito deliberadamente, sem abra�ar <emphasis>saidar</emphasis> �, ela falou:</p><p>� Mat diz que voc� veio at� aqui para me matar.</p><p>Aviendha ficou sem rea��o.</p><p>� Aguacentos sempre invertem tudo � afirmou, surpresa. Ela deixou o graveto no p� da cama de Nynaeve e depositou a faca ao lado com todo o cuidado. � Minha quase-irm� Egwene me pediu para vigiar Rand al�Thor para voc�, o que eu prometi que faria. � A trouxa e o xale foram parar no ch�o junto da porta. � Tenho <emphasis>toh</emphasis> para com ela, mas maior ainda para com voc�. � Ela desamarrou a blusa, puxou-a por sobre a cabe�a, depois baixou a an�gua at� a cintura. � Eu amo Rand al�Thor, e certa vez me permiti me deitar com ele. Tenho <emphasis>toh</emphasis>, e pe�o a voc� que me ajude a cumpri-la. � Virando-se de costas, ficou de joelhos no pequeno espa�o que ainda restava. � Voc� pode usar o graveto ou a faca como quiser. A <emphasis>toh</emphasis> � minha, mas a escolha � sua. � Aviendha ergueu o queixo e esticou o pesco�o. Seus olhos se fecharam. � O que voc� escolher, eu aceito.</p><p>Elayne pensou que seus joelhos fossem ceder. Min dissera que a terceira mulher seria perigosa, mas Aviendha? <emphasis>Espere! Ela disse que� Com Rand!</emphasis> Sua m�o se contraiu em dire��o � faca em cima da cama, e ela tratou de cruzar os bra�os, prendendo as m�os junto do corpo.</p><p>� Levante-se. E vista a sua blusa. Eu <emphasis>n�o</emphasis> vou bater em voc� � Talvez s� algumas vezes? Ela retesou os bra�os para manter as m�os onde estavam. � E <emphasis>com certeza</emphasis> n�o vou encostar naquela faca. Por favor, tire isso daqui. � Elayne at� a teria entregado para a outra mulher, mas n�o estava certa de que era seguro tocar em uma arma naquele momento. � Voc� n�o tem <emphasis>toh</emphasis> para comigo. � Acreditava que a frase fosse aquela. � Eu amo Rand, mas n�o me importo se voc� o amar tamb�m. � A mentira lhe queimou a l�ngua. Aviendha havia mesmo <emphasis>se deitado</emphasis> com ele?</p><p>Girando de um lado para o outro ainda de joelhos, Aviendha franziu o cenho.</p><p>� N�o tenho certeza se entendi. Voc� est� propondo dividi-lo comigo? Elayne, n�s somos amigas, eu acho, mas, se vamos ser esposas-irm�s, devemos ser como irm�s-primeiras. Vai levar tempo para saber se podemos ser.</p><p>Ao perceber que sua boca estava escancarada, Elayne fechou-a.</p><p>� Suponho que sim � ponderou com a voz fraca. Min vivia dizendo que elas iriam dividi-lo, mas com certeza n�o daquele jeito! S� pensar naquilo j� era indecente! � � um pouco mais complicado do que voc� sabe. Tem uma outra mulher que tamb�m o ama.</p><p>Aviendha ficou de p� t�o r�pido que simplesmente pareceu estar num lugar e, logo depois, no outro.</p><p>� Qual � o nome dela? � Seus olhos verdes ardiam, e a tal faca estava em sua m�o.</p><p>Elayne quase gargalhou. <emphasis>Uma hora, fala de dividir, na outra, fica t�o violenta quanto� quanto�</emphasis> T�o violenta quanto eu, concluiu, n�o muito contente com o pensamento. Aquilo poderia teria sido pior, bem pior. Poderia ter sido Berelain. J� que teria de ser algu�m, melhor que fosse Aviendha. <emphasis>E � melhor eu aceitar, em vez de ficar chutando as minhas saias como se fosse uma criancinha.</emphasis> Ela se sentou na cama e entrela�ou as m�os no colo.</p><p>� Trate de embainhar isso e se sente aqui, Aviendha. E, por favor, vista a sua blusa. Tenho uma por��o de coisas para falar com voc�. Tem uma mulher, uma amiga minha, minha quase-irm�, chamada Min�</p><p>Aviendha chegou a se vestir, mas se passou um tempo consider�vel at� que ela se sentasse, e outro ainda mais consider�vel at� que Elayne conseguisse convenc�-la de que elas n�o deveriam se juntar para matar Min. Ao menos com isso Aviendha concordou. Relutante, ela disse:</p><p>� Eu preciso conhec�-la. N�o vou dividi-lo com uma mulher que eu n�o consiga amar como uma irm�-primeira. � E tudo isso com um olhar inquisitivo para Elayne, que suspirou.</p><p>Aviendha consideraria dividi-lo com ela. Min estava preparada para dividi-lo com ela. Seria ela a �nica normal das tr�s? Com base no mapa sob o colch�o, Min deveria estar em Caemlyn em pouco tempo, ou talvez j� estivesse. Elayne n�o sabia o que queria que acontecesse l�, apenas que Min usasse suas vis�es para ajud�-lo. O que significava que Min tinha que permanecer perto dele. Enquanto Elayne ia para Ebou Dar.</p><p>� Existe alguma coisa simples na vida, Aviendha?</p><p>� N�o quando envolve homens.</p><p>Elayne n�o sabia qual a surpresa maior: a gargalhada dela ou a de Aviendha.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 41</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Uma amea�a</p></title><p>Apesar de conduzir o cavalo a um passo lento pelas ruas de Caemlyn, exposta sob o sol escaldante do meio da manh�, Min n�o viu muito da cidade. Mal reparou nas pessoas a p� ou em liteiras, carro��es e carruagens que atulhavam a cidade, exceto quando desviava a �gua baia ou abria caminho para algu�m. Sempre sonhara em morar em uma cidade grande e viajar para lugares estranhos, mas as torres coloridas cobertas de azulejos cintilantes e a linda vista das colinas quase passaram despercebidas. Grupos de Aiel caminhavam pela multid�o, atraindo a aten��o conforme as pessoas lhes davam passagem. Seu olhar tamb�m se voltava para as patrulhas de homens a cavalo, todos com nariz aquilino e quase sempre barbados, mas s� porque elas a lembravam dos boatos que chegaram � boca do povo quando ela ainda estava em Murandy. Merana ficara irritada com aquelas hist�rias, e ainda mais nas duas vezes em que toparam com os restos carbonizados que indicavam a passagem dos Devotos do Drag�o, mas Min achava que algumas das outras Aes Sedai estavam mais para preocupadas do que para irritadas. O melhor era evitar falar sobre o que achavam da anistia de Rand.</p><p>Parou diante da pra�a em frente ao Pal�cio Real, puxando as r�deas de Rosa, e secou o suor do rosto com toda a delicadeza, usando um len�o de bordas rendadas que tratou de enfiar de volta na manga do casaco. Apenas umas poucas pessoas pontilhavam a grande pra�a oval, mas essa aus�ncia de gente talvez pudesse ser explicada pelos Aiel montando guarda nos port�es principais do pal�cio, bem abertos. Havia mais Aiel de p� nas varandas de m�rmore e andando para l� e para c� pelas pontes e travessias elevadas, apoiadas em colunas. O Le�o Branco de Andor tremulava ao sabor da brisa acima da c�pula mais alta do pal�cio, e outra bandeira carmesim panejava em um dos pin�culos, um pouco mais baixo que a c�pula branca. A brisa movia o tecido rubro apenas o suficiente para deixar ver o antigo s�mbolo das Aes Sedai, preto e branco.</p><p>Vendo os Aiel, ficou feliz por ter recusado a oferta de uma dupla de Guardi�es como escolta � suspeitava de que misturar os dois grupos poderia causar atritos. E tamb�m n�o fora exatamente uma oferta, e sua recusa s� fora bem-sucedida por Min ter ido embora de fininho uma hora antes do que deveria estar marcado no rel�gio da cornija da lareira da estalagem. Quando as duas finalmente chegaram, logo antes do amanhecer, foram direto para o que Merana, que era de Caemlyn, dizia ser a melhor estalagem da Cidade Nova.</p><p>Ainda assim, n�o eram os Aiel que deixavam Min hesitante � ao menos n�o s� eles, pois j� ouvira toda sorte de hist�rias terr�veis sobre Aiel de v�us negros. Ela usava casaco e cal�as da melhor e mais suave l� que se podia encontrar em Salidar, toda de um tom rosa-claro e com florezinhas azuis e brancas bordadas nas lapelas, nos punhos e pela lateral externa das pernas. A camisa tamb�m tinha o corte t�pico das vestimentas masculinas, mas era de seda creme. Depois que seu pai morrera, quando ainda estava em Baerlon, as tias tentaram transform�-la no que alegavam ser uma �mulher direita� � tia Miren talvez soubesse que, depois de Min passar dez anos nas minas usando roupas de menino, talvez fosse tarde demais para enfiar a sobrinha em vestidos, mas elas tentaram mesmo assim. Min combateu as tentativas com a mesma teimosia com que se recusara a aprender a manejar a agulha. Tirando aquele epis�dio infeliz quando estava servindo mesas na estalagem Pouso dos Mineiros � o lugar era barra-pesada, mas ela n�o passara muito tempo l�: assim que ficaram sabendo do novo trabalho de Min, Rana, Jan <emphasis>e</emphasis> Miren fizeram quest�o de tir�-la de l�, apesar dos protestos da sobrinha sobre j� ter vinte anos. Tirando essa �nica vez, nunca usara um vestido de bom grado. S� que, ali parada, estava pensando que talvez devesse ter mandado fazer um, em vez de usar aquele conjunto de casaco e cal�as. Quem sabe um vestido de seda, com decote profundo e justo no corpete e�</p><p><emphasis>Ele vai ter que me aceitar como sou</emphasis>, pensou, irritada, mexendo nas r�deas. <emphasis>N�o vou mudar por homem nenhum</emphasis>. Ainda assim, nem tanto tempo antes Min teria usado roupas t�o simples como as de um fazendeiro, n�o estaria com o cabelo quase at� os ombros e arrumado em cachos, e n�o ouviria aquela vozinha sussurrando em sua mente: <emphasis>Voc� vai ser o que achar que ele quer que seja</emphasis>. Min massacrou aquelas palavras com a mesma for�a e intensidade com que massacrava qualquer cavalari�o que tentava ser mais grosseiro e, com um m�nimo a mais de delicadeza, esporou Rosa. Sentia �dio s� de pensar em como as mulheres podiam ser fracas quando se tratava de um homem. S� que o problema � que tinha quase certeza de que, muito em breve, sentiria aquela fraqueza na pele.</p><p>Desmontou bem na frente dos port�es do pal�cio e, examinando os Aiel com desconfian�a, deu um tapinha amig�vel na �gua, explicando que o chute n�o fora de prop�sito. Metade dos Aiel ali eram mulheres e, tirando uma, eram todas bem mais altas que ela. Os homens eram quase sempre t�o grandes quanto Rand, alguns at� maiores. Todos estavam bem atentos � sua presen�a � bem, pareciam atentos a tudo, ent�o com certeza tamb�m estavam prestando aten��o nela. De t�o atentos, parecia que nenhum deles sequer piscava. Portavam lan�as e broqu�is, al�m dos arcos presos �s costas e as aljavas na cintura, junto das facas largas � pareciam prontos para matar. Aquelas tiras de pano negro pendendo sobre o peito deviam ser os v�us. J� ouvira falar que os Aiel n�o matavam ningu�m sem cobrir os rostos. <emphasis>Espero que seja verdade</emphasis>.</p><p>Decidiu falar com a menor mulher ali. O rosto bronzeado, emoldurado por um cabelo ruivo reluzente e t�o curto quanto Min usava antes, era t�o r�gido que poderia muito bem ter sido entalhada em madeira, mas a mulher chegava at� a ser um pouco mais baixa que ela.</p><p>� Vim ver Rand al�Thor � anunciou, um tanto insegura. � O Drag�o Renascido. � Aqueles Aiel n�o piscavam nunca? � Eu me chamo Min. Ele me conhece, e trago uma mensagem importante.</p><p>A ruiva se virou para as outras Aiel, fazendo alguns gestos r�pidos com a m�o livre. Quando ela se virou de volta para responder, as mulheres estavam rindo.</p><p>� Vou lev�-la at� ele, Min. Mas se ele n�o souber quem voc� �, vai sair de l� muito mais r�pido do que entrou. � Algumas das Aiel tamb�m riram disso. ��Eu me chamo Enaila.</p><p>� Ele me conhece � insistiu Min, ruborizando. Levava um par de facas escondidas nas mangas do casaco. Aprendera a usar as l�minas com Thom Merrilin, mas tinha a sensa��o de que aquela Enaila n�o teria dificuldades em desarm�-la e descasc�-la com as pr�prias facas. Viu uma imagem tremeluzir sobre a cabe�a da mulher, mas desapareceu r�pido. Alguma guirlanda, mas n�o tinha ideia do que poderia significar. � � para eu levar minha �gua junto? Acho que Rand n�o est� com saudades dela. � Para sua surpresa, alguns dos Aiel deram risadinhas, tanto homens quanto mulheres, e Enaila contorceu os l�bios, como se tamb�m quisesse rir.</p><p>Um sujeito veio pegar Rosa � tamb�m parecia Aiel, apesar dos olhos tristonhos e do robe branco �, ent�o ela acompanhou Enaila port�es adentro, cruzando um largo p�tio at� o Pal�cio propriamente dito. Foi um certo al�vio ver servi�ais de uniforme vermelho e branco atravessando apressados os corredores repletos de tape�arias, todos observando os Aiel que ficavam por ali com cautela � mas a mesma cautela com que olhariam para um c�o estranho. Min j� estava achando que encontraria um Pal�cio povoado apenas de Aiel, com Rand cercado por aquela gente, talvez at� usando casaco e cal�as naqueles tons de marrom, cinza e verde e encarando-a sem nunca piscar.</p><p>Enaila a levou at� portas duplas, largas e imensas, entalhadas com le�es. Estavam abertas, e ela fez uma pausa e deu um aceno para a Aiel que estava de guarda. Todas ali eram mulheres. Uma delas, de cabelo claro e consideravelmente mais alta do que a maioria dos homens, remexeu os dedos em resposta.</p><p>� Espere aqui � advertiu Enaila, e entrou.</p><p>Min fez men��o de segui-la, mas, em um movimento despreocupado, a Aiel de cabelos claros bloqueou seu caminho com a lan�a � quer dizer, talvez n�o tenha sido t�o despreocupado, mas Min n�o ligava. Conseguia ver Rand dali.</p><p>Ele estava sentado em um grande trono dourado que parecia todo feito de Drag�es, usando um casaco vermelho cheio de brocados de ouro, e, para a surpresa de Min, portava um cabo de lan�a borlado verde e branco. Um segundo trono, tamb�m dourado, repousava sobre um pedestal logo atr�s, esse com um le�o de pedras preciosas brancas encrustado no fundo vermelho. O Trono do Le�o, segundo os rumores. Bem, Rand poderia estar usando o trono at� como apoio para os p�s e Min n�o teria se importado. Ele parecia cansado. Ah, e era t�o bonito que ela sentia um aperto no peito. Via imagens dan�ando ao redor dele, sem parar. Quando aquela enxurrada acontecia com as Aes Sedai e os Guardi�es, ela sempre tentava sair de perto � n�o sabia o que significavam as vis�es, n�o mais do que saberia se fosse outra pessoa qualquer, mas as vis�es estavam <emphasis>sempre</emphasis> l�. Com Rand, Min precisava se concentrar para v�-las, sen�o ficaria apenas encarando o rosto dele. Uma das imagens ela j� conhecia, pois a vira toda vez que esteve diante dele: milhares de luzes cintilantes, como estrelas ou pirilampos, investiam contra uma massa escura enorme, querendo preench�-la, mas acabavam engolidas. Parecia que tinha mais luzes do que nunca, mas a escurid�o tamb�m absorvia os pontos brilhantes mais depressa. E tinha algo mais, algo novo: uma aura amarela, marrom e roxa que fez seu est�mago se retesar.</p><p>Tentou examinar as imagens dos nobres parados diante de Rand � s� podiam ser nobres, com aqueles casacos bordados e ricos vestidos de seda �, mas n�o havia o que ver � e era quase sempre assim, com quase todos; quando ela de fato via algo, era quase certo que n�o teria ideia do que a imagem predizia. Ainda assim, estreitou os olhos e tentou. Se conseguisse identificar uma imagem, uma aura que fosse, talvez pudesse ajudar Rand. Pelas hist�rias que ouvira desde que chegara a Andor, Rand parecia precisar de toda a ajuda que pudesse ter.</p><p>Suspirando pesadamente, ela enfim desistiu. Estreitar os olhos e for�ar a vista s� faria diferen�a se houvesse o que ver.</p><p>Foi quando notou que os nobres estavam se retirando. Rand se levantou e Enaila gesticulou para que ela entrasse. Rand estava sorrindo, e Min achou que o cora��o fosse sair pela boca. Ent�o era assim que se sentiam aquelas mulheres de quem ela tanto rira ao v�-las se jogando aos p�s de algum homem. N�o. <emphasis>Ela</emphasis> n�o era fr�vola. Era mais velha que Rand, dera seu primeiro beijo quando, para ele, pastorear ovelhas ainda era a coisa mais divertida do mundo, tinha� <emphasis>Luz, por favor, que meus joelhos n�o cedam.</emphasis></p><empty-line/><p>Rand largou o Cetro do Drag�o na poltrona em que estivera sentado, saltou do estrado de um pulo s� e atravessou correndo o Grande Sal�o. Assim que alcan�ou Min, agarrou-a em um abra�o e a rodopiou no ar v�rias vezes, sem nem esperar Dyelin e os outros sa�rem. Alguns nobres ficaram olhando. Que olhassem � vontade: Rand n�o estava nem a�.</p><p>� Luz, Min, mas como � bom ver seu rosto!</p><p>Ele riu. Era um rosto consideravelmente melhor que as fei��es p�treas de Dyelin ou de Ellorien. E teria ficado feliz em v�-la mesmo que Aemlyn, Arathelle, Pelivar, Luan e todos os outros parecessem felizes com a not�cia de que Elayne estava a caminho de Caemyln, em vez de simplesmente o encararem cheios de d�vida, parecendo achar que ele estava mentindo.</p><p>Quando ele a botou de volta no ch�o, Min se deixou cair contra seu peito, abra�ando-o com for�a, ofegante.</p><p>� Ah, me desculpe � pediu Rand. � N�o queria deixar voc� tonta. � que estou mesmo feliz em v�-la.</p><p>� Bem, e voc� realmente me deixou tonta, seu pastorzinho cabe�a de l� � balbuciou ela contra seu peito. Min se afastou e, de cara feia, ergueu os olhos de c�lios compridos para ele. � A cavalgada foi bem longa, cheguei praticamente no meio da noite, e voc� me joga de um lado e para o outro feito uma saca de aveia. N�o lhe ensinaram a ter modos?</p><p>� Cabe�a de l�! � Ele riu baixinho. � Min, pode me chamar de mentiroso, se quiser, mas juro que senti saudade de ouvir voc� me chamar assim.</p><p>Ela n�o respondeu, s� ergueu os olhos para ele, j� sem fazer cara feia. Seus c�lios de fato pareciam mais compridos do que ele se recordava.</p><p>Rand se lembrou de onde estavam, ent�o segurou sua m�o e a puxou atr�s de si. O sal�o do trono n�o era lugar para reencontrar velhos amigos.</p><p>� Vamos, Min. Podemos tomar um ponche gelado na sala de estar. Somara, vou para meus aposentos. Pode mandar todo mundo embora.</p><p>Somara n�o pareceu muito feliz com aquilo, mas dispensou todas as Donzelas, restando apenas ela mesma e Enaila. Ambas pareciam um pouco emburradas, o que Rand n�o compreendeu. Ele s� permitira que Somara mantivesse tantos Aiel dentro do pal�cio porque Dyelin e os outros tinham ido visit�-lo. E Bashere estava fora, no acampamento dos cavaleiros dele ao norte da cidade, pelo mesmo motivo. As Donzelas ficaram no pal�cio como lembrete, e Bashere fora mandado para longe porque talvez fosse lembrete demais. Esperava que aquelas duas n�o planejassem dar uma de m�e � achava que elas se revezavam mais do que deviam na guarda dele, mas Nandera era t�o irredut�vel quanto Sulin, quando ele tentava definir que donzela deveria fazer o qu�. Rand at� podia comandar as <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, mas n�o era uma Donzela, e aquilo n�o era da sua conta.</p><p>Enquanto conduzia Min pela m�o pelo corredor, viu que ela analisava as tape�arias, as mesas, os ba�s incrustados, as vasilhas douradas e os vasos compridos de porcelana do Povo do Mar arrumados em alguns nichos. A jovem examinou Enaila e Somara da cabe�a aos p�s tr�s vezes, mas mal olhou para ele e n�o disse uma palavra. Sua m�o envolvia toda a dela, e Rand podia sentir a pulsa��o de Min mais acelerada que cavalos a galope. Torcia para que ela n�o estivesse irritada de verdade por ele t�-la deixado tonta.</p><p>Para seu imenso al�vio, Somara e Enaila assumiram seus lugares uma de cada lado da porta. Ainda assim, elas apenas o encararam quando ele pediu ponche, e Rand precisou se repetir. Na sala de estar, ele tirou o casaco e o jogou sobre uma cadeira.</p><p>� Sente-se, Min. Sente-se. Fique � vontade. Algu�m j� deve estar trazendo o ponche. Agora me conte tudo. Por onde voc� andou, como chegou aqui, por que chegou no meio da noite. N�o � muito seguro viajar de noite, Min. E menos ainda nesses tempos. Vou botar voc� nos melhores aposentos do Pal�cio. Quer dizer, no segundo melhor, j� que estou ocupando os melhores. E vou destacar uma escolta Aiel para levar voc� aonde quiser. Qualquer encrenqueiro vai tirar o chap�u e abaixar a cabe�a na hora, isso se n�o sair correndo pelas ruas laterais de onde voc� estiver passando.</p><p>Rand achou que ela fosse rir, parada junto � porta, mas Min apenas respirou fundo e sacou uma carta do bolso.</p><p>� N�o posso contar de onde vim. Eu prometi, Rand. Mas Elayne est� l� e�</p><p>� Salidar � interrompeu ele, ent�o sorriu ao v�-la arregalar os olhos, surpresa. � Eu sei de algumas coisas, Min. Talvez mais do que acham que sei.</p><p>� Ʌ parece que sabe mesmo � retrucou ela, sem for�as. Ent�o empurrou a carta nas m�os dele e se afastou de volta. Com a voz mais firme, completou:� ��Jurei que lhe entregaria isto assim que o visse. Leia de uma vez.</p><p>Rand reconheceu o selo � um l�rio pressionado na cera amarela escura � ao lado de seu nome, escrito na caligrafia floreada de Elayne, e hesitou antes de abrir. Era melhor acabar tudo de uma vez, e Rand tomara o cuidado de acabar com tudo mesmo, mas n�o conseguiu se conter ao ver aquela carta em suas m�os. Leu, ent�o se sentou, sem reparar que estava em cima do casaco, e leu de novo. Era bem curta.</p><cite><p>Rand,</p><p>Deixei meus sentimentos bem claros, e saiba que nada mudou. Espero que voc� sinta por mim o mesmo que sinto por voc�. Min pode ajud�-lo, se voc� aceitar os conselhos dela. Eu a amo como a uma irm�, e espero que voc� a ame da mesma forma.</p><text-author>Elayne</text-author></cite><p>A tinta devia estar acabando, porque as �ltimas linhas sa�ram em um garrancho apressado, bem diferente da caligrafia elegante do restante da mensagem. Min passara aquele tempo todo inquieta, se remexendo e tentando ler a carta sem que ele reparasse, mas se afastou depressa quando ele se levantou para tirar o casaco de baixo do corpo � o <emphasis>angreal</emphasis> do homenzinho gordo estava no bolso, incomodando.</p><p>� Ser� que todas as mulheres fazem o poss�vel para enlouquecer os homens? � murmurou.</p><p>� O qu�?</p><p>Rand fitou a carta e murmurou, quase falando sozinho.</p><p>� Elayne � t�o linda que � dif�cil tirar os olhos dela, mas metade das vezes n�o sei se ela quer que eu a beije ou que eu me ajoelhe a seus p�s. E � verdade que algumas vezes eu quis mesmo me ajoelhar e� e idolatr�-la, a Luz que me ajude. Aqui ela diz que eu sei como ela se sente, mas recebi duas cartas antes desta; uma cheia de declara��es de amor e a outra dizendo que ela nunca mais queria me ver. Ah, quantas vezes n�o fiquei desejando que a primeira fosse verdade e a outra fosse alguma brincadeira, um engano ou� E tem Aviendha. Ela tamb�m � bem bonita, mas cada dia era uma batalha. Nada de me beijar, n�o mais, e n�o deixava nenhuma d�vida do que sente por mim. E acho que ela ficou mais feliz de poder se afastar de mim do que eu fiquei em v�-la partir. S� que continuo achando que vou v�-la sempre que me viro. E, quando n�o a vejo, � como se faltasse um peda�o de mim. At� sinto falta daquela luta constante, e algumas vezes me pego pensando: <emphasis>h� coisas pelas quais vale a pena lutar</emphasis>.</p><p>Algo no sil�ncio de Min o fez erguer os olhos. Ela o encarava, o rosto t�o inexpressivo quanto o de uma Aes Sedai.</p><p>� Ningu�m nunca lhe falou que n�o � educado falar de uma mulher para outra? � Sua voz estava completamente neutra. � E muito menos de <emphasis>duas</emphasis> outras?</p><p>� Min, voc� � minha amiga � protestou ele. � N�o vejo voc� como mulher.</p><p>Era a coisa errada a se dizer, e ele soube assim que as palavras sa�ram da boca.</p><p>� Ah, �?</p><p>Ela arrancou o casaco e plantou as m�os na cintura. N�o era aquela postura irritada t�o familiar, nada disso. Apoiara as m�os de forma que os dedos apontavam para cima, em vez de na dire��o do umbigo, e por algum motivo isso fazia toda a diferen�a. Al�m disso, ela ficou parada com um dos joelhos um pouco flexionado, e aquilo� Pela primeira vez, Rand a enxergou de verdade. N�o viu apenas sua amiga Min, tamb�m notou sua apar�ncia. Ela n�o usava o casaco marrom e comum e as cal�as de sempre, e sim um traje vermelho-claro com bordados. E n�o usava mais o cabelo cortado de qualquer jeito e mal cobrindo as orelhas, agora tinha cachos que chegavam at� o pesco�o.</p><p>� Eu por acaso pare�o um menino?</p><p>� Min, eu�</p><p>� Eu pare�o um homem? Um cavalo?</p><p>Em um �nico passo r�pido, a jovem cruzou a dist�ncia entre eles dois e se plantou em seu colo.</p><p>� Min � come�ou Rand, perplexo �, o que voc� est� fazendo?</p><p>� Convencendo voc� de que eu sou mulher, seu cabe�a de l�. Eu n�o pare�o uma mulher? N�o tenho cheiro de mulher? � Rand s� agora percebia o leve perfume de flores que emanava dela. � Meu toque n�o �? Bem, j� chega. Responda � pergunta, pastorzinho.</p><p>Rand teria ficado alarmado, mas o �pastorzinho� e o �cabe�a de l� o tranquilizaram. Na verdade, era bom senti-la sentada em seu colo. Mas aquela era Min, que o achava um campon�s com cabelo ainda cheio de feno e sem nenhum ju�zo.</p><p>� Luz, Min, eu sei que voc� � mulher. N�o falei por mal, mas voc� tamb�m � minha amiga. Eu me sinto � vontade com voc�, � isso. N�o me importo de fazer papel de bobo na sua frente. Posso lhe contar coisas que n�o diria a mais ningu�m, nem mesmo para Mat ou Perrin. Quando estou com voc�, eu relaxo e todo o peso em meus ombros parece desaparecer. Entende? Eu gosto de ficar perto de voc�. E senti saudades.</p><p>Cruzando os bra�os, Min olhou para ele de soslaio, franzindo o cenho. Ela sacudia a perna � se o p� encostasse no ch�o, ela estaria batendo o p�, ansiosa e impaciente.</p><p>� E toda aquela conversa sobre Elayne e essa� Aviendha. Quem � ela, ali�s? Parece que voc� ama as duas. Ah, pare de enrolar! Voc� me deve algumas respostas, depois de dizer que n�o sou� Bem, responda de uma vez: voc� ama as duas?</p><p>� Pode ser que sim � respondeu ele, hesitante. � Que a Luz me ajude, acho que amo, sim. Ah, Min, o que eu sou: um devasso, ou s� um idiota ganancioso? � Min abriu a boca, ent�o fechou e balan�ou a cabe�a, irritada, comprimindo os l�bios. Rand se apressou para explicar, antes que ela pudesse lhe dizer qual das duas combinava mais com ele. N�o queria ouvir aquilo vindo dela, n�o mesmo. � Ah, seja como for, isso n�o importa mais. Acabou. Mandei Aviendha embora e n�o vou deixar que ela volte. Nem vou me permitir ficar a uma milha que seja dela e de Elayne. Ou mesmo dez milhas, se puder impedir.</p><p>� Pela Luz�! Por qu�, Rand? O que lhe d� o direito de fazer uma escolha dessas por elas?</p><p>� Voc� n�o entende, Min? Eu sou um alvo. E qualquer mulher que eu ame tamb�m se torna um alvo. A flecha pode acertar essa mulher, mesmo que estejam mirando em mim. E poderia ser mirada nela. � Ele soltou um suspiro e se recostou, apoiando os cotovelos nos bra�os com entalhes de rosas da poltrona. Min se virou um pouco, examinando-o com a express�o mais s�ria que ele j� vira em seu rosto. Min estava sempre sorrindo, sempre parecia se divertir um pouco com tudo. Era bom ver que ela n�o parecia se divertir muito naquela situa��o; ele pr�prio estava seri�ssimo. � Lan me falou que pare�o com ele em muitas coisas, e � verdade. E disse que existem homens que irradiam morte. Como ele. E eu. Quando um homem desses se apaixona, o melhor presente que pode dar � mulher � se manter o mais longe poss�vel dela. Voc� entende?</p><p>� O que eu entendo� � Ela hesitou por um momento. � Olha s�, eu sou mesmo sua amiga, � verdade, e acho �timo que voc� saiba disso. Mas n�o v� pensando que vou desistir. Ainda vou convencer voc� de que eu n�o sou nem um homem nem um cavalo.</p><p>� Min, eu disse que�</p><p>� Ah, n�o, pastorzinho. Isso n�o basta. � Ela se contorceu em seu colo de um jeito que o fez pigarrear, ent�o cutucou seu peito, amea�adora. � Quero ver l�grimas nos seus olhos, quando voc� se convencer. Quero voc� babando e gaguejando. N�o pense que n�o vou fazer voc� pagar por isso.</p><p>Rand n�o conseguiu evitar uma gargalhada.</p><p>� Min, � t�o bom ter voc� aqui. Voc� s� me v� como um plebeu de Dois Rios, n�o �?</p><p>O temperamento dela mudou do nada, r�pido como um rel�mpago.</p><p>� Eu vejo voc�, Rand � rebateu ela, estranhamente calma. � Eu s� vejo voc�. � Min pigarreou e se ajeitou, toda empertigada, botando as m�os nos joelhos. Pelo menos o mais empertigada que dava para ficar sentada no colo dele. � Melhor eu continuar com o que vim fazer aqui. Parece que voc� j� sabe de Salidar. Garanto que isso vai surpreender muita gente. Mas o que voc� provavelmente n�o sabe � que n�o vim sozinha. Tem uma miss�o diplom�tica de Salidar aqui em Caemlyn, elas vieram ver voc�.</p><p>Lews Therin praguejou baixinho, como um trov�o ao longe. Desde Alanna e a cria��o do elo, qualquer men��o �s Aes Sedai sempre o despertava t�o facilmente quanto a presen�a de Taim.</p><p>Mesmo com os resmungos de Lews Therin, Rand quase sorriu. Suspeitara de que Salidar enviara algu�m assim que Min lhe entregou a carta de Elayne, e, bem, a confirma��o era mais uma prova de que estava certo em seu palpite de que as Aes Sedai de Salidar estavam apavoradas. E n�o poderiam estar de outro jeito, em rebeli�o aberta contra a Torre, vendo-se obrigadas a se esconder nos arredores das regi�es onde os Mantos-brancos eram mais influentes. E era muito prov�vel que tamb�m estivessem buscando descobrir um jeito de voltar para a Torre Branca, roendo as unhas enquanto pensavam em uma maneira de reconquistar a boa vontade de Elaida. Pelo que conhecia da Vermelha, achava que aquelas mulheres tinham uma chance muito pequena de conseguir voltar �s boas gra�as da Torre, e elas decerto sabiam disso melhor que ele. Se tinham enviado uma miss�o diplom�tica para o Drag�o Renascido, um homem capaz de canalizar, deviam estar quase prontas para aceitar sua prote��o � n�o eram como Elaida, que parecia achar que Rand poderia ser comprado e mantido preso em uma gaiola de vime como um pardal cantador. As promessas nebulosas de Egwene sobre Aes Sedai que o apoiavam estavam prestes a se cumprir.</p><p>� Quem veio com voc�? � indagou para Min. � Talvez eu a conhe�a.</p><p>N�o conhecia nenhuma Aes Sedai muito bem � tirando Moiraine, que j� estava morta �, mas j� se encontrara com algumas. Se fosse alguma conhecida, as coisas talvez ficassem um pouco mais dif�ceis. Quando Moiraine o conheceu, ele ainda era o campon�s de quem Min tanto falava, um fazendeiro que se encolhia todo quando alguma Aes Sedai sequer olhava em sua dire��o.</p><p>� Tem mais de uma, Rand. Na verdade, s�o nove. � Rand se sobressaltou, e ela acrescentou depressa: � � uma honra, Rand, um sinal de respeito. � tr�s vezes mais mulheres do que mandariam para um rei ou uma rainha. Quem est� no comando � Merana, uma Cinza. Ela vem aqui sozinha, hoje � tarde. Sempre que vierem falar com voc�, ser� uma Aes Sedai sozinha, sem nenhuma outra, a menos que voc� aceite ficar perto de mais de uma ao mesmo tempo. Elas est�o hospedadas na estalagem A Coroa de Rosas, na Cidade Nova. Ocuparam quase o lugar todo, com todos os Guardi�es e servi�ais que trouxeram. Merana me mandou vir aqui antes de todas porque j� nos conhecemos, para preparar o terreno. Elas n�o t�m a menor inten��o de lhe fazer mal. Tenho certeza.</p><p>� E essa certeza vem de uma vis�o ou � a sua opini�o? � perguntou Rand.</p><p>A princ�pio parecia estranho ter uma conversa s�ria com uma mulher sentada em seu colo, mas aquela era Min, o que mudava tudo. S� n�o podia parar de lembrar isso a si mesmo.</p><p>� � minha opini�o � admitiu ela, relutante. � Rand, passei todos os dias da longa jornada desde Salidar observando cada uma delas. Se essas mulheres quisessem lhe fazer algum mal, eu teria notado. Tenho certeza de que eu j� teria notado alguma vis�o suspeita, depois de todo esse tempo. � Ela se remexeu, mudando de posi��o, e o encarou com um olhar preocupado, que logo se transformou em uma express�o firme e determinada. � Melhor eu lhe contar logo essa outra coisa, enquanto ainda est� fresca na minha cabe�a: vi uma aura ao seu redor na sala do trono. Algumas Aes Sedai v�o lhe fazer mal, ou pelo menos algumas mulheres capazes de canalizar, enfim. Foi bem confuso. N�o tenho muita certeza sobre a parte das Aes Sedai. E ainda pode ser que aconte�a mais de uma vez, talvez fosse por isso que tudo parecia t�o embaralhado. � Rand a encarou, sem dizer nada, e ela sorriu. � Eu gosto disso em voc�, Rand. Voc� aceita o que eu posso interpretar e n�o reclama sobre o que n�o sei, n�o pergunta se tenho certeza ou quando � que algo vai acontecer. Voc� nunca pergunta mais do que eu sei.</p><p>� Bem, Min, uma coisa eu vou ter que perguntar. Voc� pode ter certeza de que essas Aes Sedai da sua vis�o n�o s�o as mesmas Aes Sedai com quem voc� veio para c�?</p><p>� N�o � respondeu ela, sem rodeios. E <emphasis>ele</emphasis> gostava disso: Min nunca tentava se esquivar de dizer a verdade.</p><p><emphasis>Preciso tomar cuidado</emphasis>, sussurrou Lews Therin, absorto. <emphasis>At� essas garotas destreinadas podem ser perigosas, se estiverem em nove. Preciso�</emphasis></p><p><emphasis>Eu � que preciso</emphasis>, retrucou Rand, firme. Lews Therin pareceu confuso por um instante, ent�o escapou de volta para os rec�nditos obscuros da mente. Era o que passara a fazer sempre que Rand falava com ele � o problema era que Lews Therin parecia estar vendo e ouvindo mais do mundo, al�m de planejando fazer algo a respeito do que percebia. N�o houvera nenhum outro incidente em que o homem tentara agarrar <emphasis>saidin</emphasis>, mas Rand agora tomava cuidado. Aquele louco queria sua mente e seu corpo para si, acreditava que fossem dele. Rand n�o podia garantir que conseguiria recuperar o controle se aquela voz em sua mente conseguisse assumir as r�deas uma s� vez que fosse. Lews Therin Telamon voltaria a andar pelo mundo, e Rand al�Thor n�o passaria de uma voz em sua cabe�a.</p><p>� Rand � come�ou Min, ansiosa �, n�o olhe assim para mim. Estou do seu lado, se � para eu me posicionar, e pode ser que eu precise me posicionar. Elas acham que eu vou contar tudo o que voc� me falar, mas n�o vou, Rand. Elas s� querem saber como lidar com voc�, o que esperar das reuni�es, mas n�o vou dizer uma �nica palavra sem a sua autoriza��o. E minto se voc� me pedir para mentir. Elas n�o sabem das minhas vis�es. Minhas vis�es s�o suas, Rand. Voc� sabe que n�o tenho problemas em ler quem quer que voc� me pe�a para ler, e isso inclui Merana e as outras.</p><p>Rand se obrigou a suavizar a express�o, acalmando os l�bios que se retesavam em um rosnado, e tentou deixar a voz agrad�vel antes de falar:</p><p>� Fique tranquila, Min. Sei que voc� est� do meu lado. � Era a mais pura verdade: suspeitar de Min seria como suspeitar de si mesmo. Lews Therin estava apaziguado, pelo menos por enquanto, ent�o era hora de lidar com essa Merana e sua miss�o diplom�tica. � Diga a elas para virem de tr�s em tr�s.</p><p>Fora o conselho de Lews Therin, quando ele recebeu as Aes Sedai em Cairhien: n�o mais que tr�s de uma vez. O homem parecia acreditar que conseguiria dar conta de tr�s Aes Sedai � inclusive, parecia desdenhar um pouco das mulheres que se intitulavam Aes Sedai, naqueles tempos. Mas agora as coisas eram diferentes: o n�mero, que em Cairhien fora um limite imposto, parecia mais uma concess�o ali. Merana queria que Rand fosse tranquilizado e os �nimos estivessem acalmados antes que qualquer �nica Aes Sedai se aproximasse dele. Bem, ela que ficasse tentando decifrar o convite para tr�s mulheres de uma vez.</p><p>� Al�m disso � continuou �, avise que nenhuma delas pode entrar na Cidade Interna sem minha permiss�o. E nada de tentar canalizar perto de mim. Diga isso a elas, Min. Vou saber no instante em que elas agarrarem a Fonte, e n�o vou ficar nada contente. Diga isso a elas.</p><p>� Elas tamb�m n�o v�o ficar muito contentes com isso, pastorzinho � rebateu a jovem, seca. � Mas vou dizer.</p><p>Um estrondo fez Rand virar a cabe�a.</p><p>Sulin estava de p� junto � porta, usando o vestido vermelho e branco. Seu rosto estava t�o corado que a cicatriz na bochecha parecia se sobressair, ainda mais p�lida que o habitual. O cabelo branco crescera bastante desde que ela come�ara a usar o uniforme de servi�al, mas ainda era mais curto que o comum para as mulheres que trabalhavam no castelo. A Senhora Harfor mandara arrumar as mechas em um emaranhado de cachos, e Sulin odiava o penteado. Uma bandeja de prata com a borda de entalhes de ouro estava a seus p�s, os c�lices dourados com detalhes em prata deitados de lado no ch�o. O c�ntaro de vinho bambeou uma �ltima vez e, como que por milagre, acabou parando de p�, mas parecia ter tanto ponche na bandeja e no tapete quanto talvez ainda restasse no c�ntaro.</p><p>Min j� estava se levantando, sem jeito, quando Rand agarrou sua cintura e a puxou de volta para o colo dele � j� fazia tempo mais que suficiente para que todas ali compreendessem que ele n�o queria mais nada com Aviendha, e Min n�o se importaria de ajudar a esclarecer aquilo. Tanto n�o se importaria que, depois de um instante de resist�ncia, ela se inclinou contra ele, apoiando a cabe�a em seu peito.</p><p>� Sulin, uma boa servi�al n�o fica jogando bandejas por a� � ralhou. � Agora trate de juntar tudo e fazer como se deve.</p><p>Sulin o encarou com um olhar sombrio, quase tremendo de raiva.</p><p>Em um golpe de genialidade, Rand tinha encontrado um jeito de permitir que Sulin cumprisse sua <emphasis>toh</emphasis> ao mesmo tempo que minimizava ao menos parte de sua obriga��o para com ela. Colocara a mulher para cuidar de seus aposentos, atendendo apenas aos pedidos dele de trazer e levar o que quer que fosse. Ela odiava, claro, sobretudo porque Rand a via naquela situa��o todos os dias, mas pelo menos n�o arrasava a coluna esfregando o ch�o do Pal�cio todo ou carregando uma quantidade infinita de pesados baldes de �gua para lavar roupa. Rand suspeitava de que a mulher preferiria que todos os Aiel que estavam do lado de c� da Muralha do Drag�o testemunhassem sua vergonha no lugar dele, mas o novo arranjo diminu�ra consideravelmente a carga de trabalho de Sulin, o que aliviara parte do peso que ele sentia na consci�ncia. E se trabalhar para ele a fazia decidir que sua <emphasis>toh</emphasis> seria cumprida mais r�pido� bem, melhor ainda. Sulin devia usar o <emphasis>cadin�sor</emphasis> e carregar lan�as, n�o ficar dobrando roupas de cama metida em uma libr� de servi�al.</p><p>Ela pegou a bandeja, atravessou o aposento �s pressas e a largou sem cuidado sobre uma mesa incrustada de marfim. Quando se virou para sair, Rand continuou:</p><p>� Sulin, esta aqui � Min. Ela � minha amiga e n�o conhece bem os modos dos Aiel. Eu n�o ficaria nada feliz se ela acabasse enfrentando dificuldades por isso. � Acabara de lhe ocorrer que as Donzelas tamb�m deviam ter uma opini�o em v�-lo mandar Aviendha embora s� para segurar outra mulher nos bra�os assim que ela virava as costas. Deviam ter mais que uma opini�o: poderiam at� ter uma maneira pr�pria de lidar com a situa��o. � Na verdade, se algum mal acontecer a ela, vou considerar um mal feito a mim.</p><p>� Por que algu�m al�m de Aviendha desejaria fazer mal a essa mulher? � questionou Sulin, irritada. � Ela desperdi�ou tempo demais sonhando com voc�, mas passou poucas horas ensinando o que voc� deveria saber. � Ela se recomp�s e disse, em um rosnado que Rand achou que era para ter sido um murm�rio: � Milorde Drag�o. � A mulher quase perdeu o equil�brio duas vezes ao fazer a mesura, antes de voltar a ficar ereta, e bateu a porta com for�a ao sair.</p><p>Min virou a cabe�a para encar�-lo.</p><p>� Acho que nunca tinha visto uma criada dessas� Se ela tivesse uma faca, teria cortado seu pesco�o.</p><p>� Ah, ela at� me chutaria, mas n�o chegaria a me esfaquear � gracejou Rand. � Sulin me tem como um irm�o que n�o via h� muito tempo.���O olhar de Min se tornou distante e confuso. Dava para ver centenas de perguntas que ela gostaria de fazer. � � uma longa hist�ria, eu conto melhor depois.</p><p>Contaria s� uma parte, claro. Ningu�m iria saber de tudo o que ele tinha que aguentar de Enaila, Somara e algumas das outras. Bem, todas as Donzelas j� sabiam, por�m mais ningu�m precisava ouvir aquilo.</p><p>Melaine entrou na sala daquele jeito dos Aiel. Ou seja, meteu a cabe�a porta adentro, deu uma espiada e s� ent�o entrou de vez no aposento. Rand nunca conseguira descobrir o que faria um Aiel recuar e esperar do lado de fora. Chefes, S�bias e Donzelas j� tinham entrado com ele s� de roupas de baixo, deitado ou tomando banho. A S�bia de cabelos dourados se aproximou com um tilintar dos braceletes, aninhou-se no tapete poucas passadas diante dele e de Min, mantendo as pernas cruzadas, e ajeitou as saias com todo o cuidado. Seus olhos verdes observavam Min com uma express�o neutra.</p><p>Dessa vez, Min n�o fez nem men��o de se levantar. Ali�s, pelo modo como a jovem estava se apoiando nele, com a cabe�a em seu peito, e pela respira��o cada vez mais lenta, Rand achava que ela talvez estivesse pegando no sono. Min n�o tinha dito que chegara no meio da noite, afinal? De repente, reparou na m�o que mantinha encaixada na curva da cintura dela e agarrou, determinado, o bra�o da cadeira. Min soltou um suspiro quase queixoso e se aconchegou mais a seu corpo. Com certeza estava quase dormindo.</p><p>� Tenho novidades � informou Melaine �, mas n�o sei bem qual � a mais importante. Egwene foi embora das tendas, est� a caminho de um lugar chamado Salidar, onde h� outras Aes Sedai. Essas s�o as Aes Sedai que talvez o apoiem, e n�o viemos falar delas antes porque Egwene nos pediu. Bem, agora venho lhe dizer que essas mulheres s�o teimosas, indisciplinadas, briguentas e convencidas al�m da conta. � A voz foi se acalorando conforme a S�bia falava, pontuando as palavras com um balan�ar enf�tico da cabe�a.</p><p>Ah, ent�o uma das Andarilhas dos Sonhos de Cairhien tinha entrado nos sonhos de Melaine e conversado com ela � era praticamente tudo o que sabia a respeito das capacidades das Andarilhas; uma habilidade que poderia lhe ser �til, mas era raro as S�bias se dispuserem a coloc�-la � disposi��o dele. A novidade era toda aquela irrita��o de Melaine. Os Aiel quase todos agiam como se achassem que as Aes Sedai fossem lhes dar uma surra a qualquer instante e ainda acreditavam que seria merecido, tendo toda a inten��o de suportar cada golpe sem nem vacilar. At� as S�bias falavam com respeito das Aes Sedai, isso quando falavam. Algumas coisas tinham mesmo mudado. Ainda assim, Rand respondeu com um simples:</p><p>� Eu sei. � Se Melaine tivesse qualquer inten��o de lhe contar por que pensava daquela forma, contaria sem que ele perguntasse. Se ela n�o quisesse contar, perguntar n�o traria nenhuma resposta. � E tamb�m sei sobre Egwene e sobre Salidar. Tem nove mulheres de Salidar aqui em Caemlyn. Esta aqui � Min, que veio com elas.</p><p>Min se remexeu contra seu peito e murmurou qualquer coisa. Lews Therin voltou a resmungar, mas baixo demais para que ele conseguisse entender, e Rand ficou feliz com a distra��o da sensa��o de Min em seu colo. T�-la ali era bem� agrad�vel. Min ficaria ofendid�ssima se soubesse � ou, considerando a promessa que ela fizera mais cedo, talvez fosse rir. Talvez. Ela �s vezes podia ser bem temperamental.</p><p>Melaine n�o demonstrou nenhuma surpresa por ele saber, nem sequer mexeu no xale. Desde que se casara com Bael, a mulher parecia estar mais� bem, �calma� n�o era bem o termo, uma palavra pl�cida demais para Melaine. Mas de fato ficara menos irritadi�a.</p><p>� Essa era a minha segunda not�cia. Voc� precisa tomar muito cuidado com elas, Rand al�Thor, e ter m�o firme. S� assim elas v�o respeit�-lo.</p><p>�, as coisas tinham mesmo mudado.</p><p>� Voc� vai ter duas filhas � murmurou Min.���G�meas id�nticas.</p><p>Melaine compensou toda a falta de surpresa de antes com o assombro em ouvir aquelas palavras de Min. Ela arregalou os olhos e quase pulou de susto.</p><p>� Como voc�? � come�ou, incr�dula, mas parou para se recompor. Quando prosseguiu, ainda parecia incr�dula. � Eu mesma s� fui ter certeza de que carregava uma crian�a hoje de manh�. Como voc� sabia?</p><p>Min enfim se levantou, lan�ando a Rand um olhar que ele conhecia muito bem � ela o culpava, sabia a Luz por que motivo. At� mesmo Min tinha l� seus defeitos, mesmo que pequenos. Ela come�ou a remexer no casaco, olhando para todos os lados, menos para Melaine. Quando seus olhos pousaram nele de novo, foi com uma varia��o do primeiro olhar. Rand a metera naquilo, ele � que devia tir�-la da enrascada.</p><p>� Est� tudo bem, Min � tranquilizou-a Rand. � Melaine � uma S�bia, imagino que ela saiba de coisas que a deixariam de cabelo em p�.���S� que o cabelo de Min j� estava um tanto para cima, bagun�ado depois de ela ter passado tanto tempo encostada nele. Mas continuava sedoso�. como as mulheres conseguiam? � Tenho certeza de que ela vai jurar guardar seu segredo, e voc� pode confiar na promessa dela.</p><p>Melaine quase atropelou as palavras, t�o r�pida foi ao jurar segredo.</p><p>N�o adiantou nada: Rand recebeu mais um olhar daqueles antes que Min se sentasse ao lado de Melaine. Tinha um toque de repreens�o. Como Min <emphasis>esperava</emphasis> que ele fosse conseguir tir�-la dessa enrascada? Melaine n�o deixaria o assunto de lado s� por um pedido seu, mas manteria a promessa e guardaria segredo. Pelo menos era muito boa em n�o contar nada para Rand.</p><p>Apesar de toda a relut�ncia, Min deu uma explica��o bem mais detalhada do que ele pr�prio j� ouvira � o que talvez tenha sido resultado das muitas perguntas de Melaine e tamb�m da sua mudan�a de atitude. Era como se a S�bia tivesse passado a pensar que a habilidade de Min fazia dela uma igual, n�o uma mera aguacenta.</p><p>� Impressionante � afirmou Melaine, por fim. � � como interpretar um sonho sem sonhar. G�meos, �? Duas garotas? Bael vai ficar t�o feliz� Dorindha lhe deu tr�s filhos, mas n�s duas sabemos que ele queria uma menina.</p><p>Min piscou, at�nita, e ficou sem entender. Claro. Como ela poderia saber daquela hist�ria de esposa-irm�?</p><p>Dali, as duas logo mudaram de assunto para os partos. Nenhuma delas nunca tivera filhos, mas ambas j� haviam auxiliado parteiras.</p><p>Rand pigarreou bem alto. N�o que algum daqueles detalhes o incomodasse, j� ajudara no parto de ovelhas, �guas e vacas. S� ficava irritado de as duas ficarem ali, sentadas, entre cochichos, como se ele tivesse deixado de existir. Min e Melaine s� o encararam quando ele pigarreou uma segunda vez, alto o bastante para cogitar se teria machucado a garganta.</p><p>Melaine se inclinou ainda mais para perto de Min e cochichou, mas em um tom que daria para ouvir da sala ao lado:</p><p>� Os homens sempre desmaiam.</p><p>� E sempre no pior momento poss�vel � concordou Min, no mesmo tom.</p><p>O que elas diriam se o vissem no celeiro do pai de Mat, coberto de sangue e de fluidos de parto at� os ombros, com tr�s costelas quebradas pelo coice que levara � era o primeiro parto da �gua, que estava apavorada. Ela n�o coiceou mais na segunda gesta��o. Mas, ah, que belo potro fora aquele.</p><p>� Bem, antes que eu desmaie � come�ou, sarc�stico, juntando-se �s duas no tapete �, talvez seja melhor uma de voc�s falar mais sobre as Aes Sedai?</p><p>Teria se levantado ou se sentado no ch�o com Melaine mais cedo, se n�o estivesse com o colo ocupado. Entre os Aiel, apenas os chefes de cl�s possu�am cadeiras, que s� eram usadas para passar julgamentos ou aceitar a submiss�o de um inimigo.</p><p>As duas mulheres assumiram uma express�o culpada � e era bom que tivessem mesmo entendido a reprimenda. Nenhuma falou nada, mas ajustaram respectivamente o xale e o casaco, sem necessidade, e n�o cruzaram o olhar com o dele. Tudo acabou assim que elas come�aram a falar. Min continuou a insistir que as Aes Sedai de Salidar n�o representavam perigo para Rand e que poderiam sim prestar aux�lio, se fossem tratadas direito � ou seja: com o m�ximo respeito em p�blico. Ela contaria a Rand sobre cada sussurro que escutasse, quando estivessem a s�s.</p><p>� Entenda que n�o estou traindo ningu�m, Melaine. Conheci Rand muito antes de encontrar qualquer Aes Sedai. Exceto Moiraine, � verdade, mas o fato � que ele conquistou minha lealdade muito antes de ela morrer.</p><p>Melaine n�o via Min como traidora, muito pelo contr�rio, e a jovem pareceu at� subir em seu conceito. As S�bias tinham sua pr�pria vers�o do que os Aiel entendiam como espi�es. Ainda assim, Melaine argumentava que, com algumas poucas exce��es, as Aes Sedai eram t�o dignas de confian�a quanto os Shaido � ou seja, s� seriam de confian�a depois de capturadas e transformadas em <emphasis>gai�shain</emphasis>. Ela n�o chegou a sugerir que as Aes Sedai fossem mantidas cativas na estalagem em que estavam, mas n�o ficou muito longe disso.</p><p>� Como voc� pode confiar nelas, Rand al�Thor? Na minha opini�o, essas mulheres n�o t�m honra. S� Egwene al�Vere, e ela� � Melaine mexeu outra vez no xale. � S� confiarei em uma Aes Sedai quando ela me demostrar tanta honra quanto Egwene demonstrou, mas n�o antes.</p><p>O pr�prio Rand mais ouviu que falou, e mesmo sem soltar mais que dez palavras aprendeu um bocado. Rebatendo as argumenta��es de Melaine, Min listou todas as integrantes da miss�o diplom�tica, contando o que cada mulher dissera sobre apoiar ou n�o Rand e acabando por admitir que nem tudo era um mar de rosas. Merana Ambrey e Kairen Stang, uma Azul, eram ambas andorianas e, mesmo com toda aquela hist�ria de que as Aes Sedai renunciavam a qualquer alian�a que n�o fosse com a Torre Branca � e talvez at� por terem se rebelado contra a Torre �, as duas se preocupavam em ver Rand ocupando Caemlyn, assim como se preocupavam com os rumores de que ele poderia ter assassinado Morgase. Rafela Cindal, tamb�m Azul, at� estava feliz com as mudan�as que Rand realizara em Tear, onde antes a canaliza��o era ilegal e uma garota que se descobrisse capaz de manejar o Poder era levada �s pressas para fora do pa�s, mas falou pouco e tamb�m estava preocupada com o desaparecimento de Morgase. Seonid Traighan, uma Verde, sempre ficava pensativa quando ouvia algum boato sobre Cairhien, onde nascera, e guardava suas opini�es s� para si. E Faeldrin Harella, a outra irm� Verde, �s vezes comparava as atrocidades que os Devotos do Drag�o tinham cometido em Altara e Murandy ao que estava acontecendo em Tarabon, recusando-se a reconhecer que a guerra civil j� devastara aquela terra antes mesmo de come�arem a surgir os primeiros Devotos do Drag�o por aquelas bandas. Bem, n�o importava quanto Melaine pressionasse: Min insistia que cada uma daquelas Aes Sedai reconhecia Rand como o Drag�o Renascido, alegando inclusive que, durante a jornada, todas tinham vindo perguntar � e com todo o respeito e a delicadeza � como ele era e qual seria a melhor forma de abord�-lo sem ofend�-lo nem o assustar.</p><p>Rand grunhiu alto ao ouvir como aquelas mulheres estavam com medo de assust�-lo. Melaine come�ou a insistir que, se a maioria das mulheres daquela miss�o diplom�tica tinha tantos motivos para estar contra Rand, ent�o n�o se poderia contar com o grupo nem para apanhar esterco para a fogueira. Min, tomando o cuidado de parar um momento e lan�ar um olhar arrependido para Rand, tratou de continuar seu relato. Arad Doman j� tinha tantos Devotos do Drag�o quanto Tarabon, e a guerra civil tamb�m j� chegara l�, mas Demira Eriff, da Ajah Marrom, s� parecia preocupada com dois assuntos: o encontro com Rand e o rumor de que ele abrira alguma escola em Cairhien � a seus olhos, nenhum homem que tivesse aberto uma escola podia ser assim t�o ruim. Berenicia Morsad, uma irm� Amarela de Shienar, ouvira de alguns conterr�neos que estavam por Salidar que Rand fora recebido em Fal Dara pelo grande capit�o Lorde Agelmar Jagad, uma honra que ela parecia considerar grandiosa, visto que Lorde Agelmar jamais teria recebido um canalha, um rufi�o ou um desmiolado � e isso tamb�m parecia pesar muito para Masuri Sokawa, uma Marrom de Arafel, que fazia fronteira com Shienar. E, por fim, Valinde Nathenos parecia muito �vida � o que Min considerava um comportamento at�pico para algu�m da Ajah Branca � para que Rand expulsasse Sammael de Illian. Segundo Min, caso Rand prometesse que faria isso, ou que ao menos tentaria, n�o seria nenhuma surpresa se Valinde acabasse jurando fidelidade a ele. Melaine deixou bem clara sua descren�a e chegou at� a revirar os olhos, alegando que nunca vira uma Aes Sedai com tanto bom senso. Para Rand, esse coment�rio foi mais que surpreendente: a S�bia gargalharia se ele lhe pedisse um juramento do tipo. Ainda assim, Min insistia que era tudo verdade, a despeito do que a Aiel dissesse.</p><p>� Vou dedicar o m�ximo de respeito poss�vel �s Aes Sedai sem me ajoelhar � declarou Rand, assim que Min concluiu seu relato. Ent�o acrescentou, para Melaine: � E n�o confiarei nem um pouco em nenhuma delas at� que me provem o contr�rio.</p><p>Achava que aquilo fosse agradar as duas, j� que, no fim das contas, cada uma tinha conseguido o que queria. Mas, a julgar pelos cenhos franzidos, nenhuma delas ficou muito satisfeita.</p><p>Depois de tanta discuss�o, Rand achou que as duas acabariam engalfinhadas, mas parecia que a gravidez de Melaine e a vis�o de Min tinham servido para criar um la�o entre elas. Quando todos enfim se levantaram, as mulheres eram s� sorrisos e abra�os, e Melaine ainda disse:</p><p>� Achei que eu n�o fosse gostar de voc�, Min, mas gosto. Nomearei uma de minhas filhas em sua homenagem, porque voc� foi a primeira pessoa a saber da exist�ncia dela. Tenho que ir contar a Bael, para ele n�o ficar com ci�mes de Rand al�Thor ter descoberto antes dele. Que voc� sempre encontre �gua e sombra, Min. � E, para Rand, acrescentou: � Fique de olho nessas Aes Sedai, Rand al�Thor, e ofere�a sua prote��o a Min sempre que ela precisar. Essas mulheres v�o tentar feri-la se souberem que ela � fiel a voc�. � Depois da advert�ncia, ela partiu com a mesma falta de cerim�nia da chegada, apenas meneando a cabe�a em despedida.</p><p>Rand ficou outra vez a s�s com Min. O que, por algum motivo, o deixou um pouco constrangido.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 42</p><p><image l:href="#17"/></p><p>A Torre Negra</p></title><p>Rand e Min ficaram ali parados, olhando um para o outro, at� que ele finalmente falou:</p><p>� Quer visitar a fazenda comigo?</p><p>Min se sobressaltou ao ouvi-lo falar t�o de repente.</p><p>� Que fazenda?</p><p>� Na verdade, � uma escola. Um lugar para os homens que vierem at� mim pela anistia.</p><p>Min ficou p�lida.</p><p>� N�o, acho que n�o� Merana deve estar esperando not�cias. E � melhor elas saberem logo das suas regras. Pode ser que acabem perambulando pela Cidade Interna sem saber, e voc� n�o iria gostar nada disso� Tenho mesmo que ir.</p><p>Rand n�o entendia. Min tinha medo daqueles alunos, daqueles homens capazes de canalizar ou que queriam aprender como, mesmo sem conhecer nenhum deles. Acharia bem compreens�vel se fosse qualquer outra pessoa, mas <emphasis>ele</emphasis> canalizava, e Min n�o parecia ver nenhum problema em bagun�ar seu cabelo, cutucar suas costelas ou lhe dizer algumas verdades.</p><p>� Quer uma escolta para voltar at� A Coroa de Rosas? Tem salteadores pela cidade, mesmo de dia. N�o s�o muitos, mas n�o quero que nada lhe aconte�a.</p><p>Min riu, uma risada um tanto hesitante. Ela estava mesmo incomodada com a fazenda.</p><p>� Eu j� me cuidava sozinha enquanto voc� estava atr�s das ovelhas, campon�s. � De repente, ela empunhou uma faca em cada m�o. Com um �nico floreio, mas sem a mesma fluidez de antes, as l�minas voltaram para o esconderijo das mangas do casaco. Ela ent�o prosseguiu, mais s�ria: � Voc� precisa se cuidar, Rand. Durma um pouco. Parece cansado. � Para sua surpresa, a jovem se ergueu na pontinha dos p�s e esticou o pesco�o, ro�ando os l�bios nos dele em um beijo r�pido. � Foi bom ver voc�, pastorzinho.</p><p>E com outra risada, agora muito satisfeita, ela saiu.</p><p>Resmungando sozinho, Rand vestiu o casaco e foi at� o quarto para pegar a espada atr�s do guarda-roupa, um m�vel grande e escuro com entalhes de rosas, alto e largo o suficiente para abrigar as roupas de quatro homens. Estava mesmo virando um bode sem-vergonha. Min estava s� se divertindo � custa dele. S� podia imaginar quanto tempo ela ficaria provocando, s� para se vingar de um coment�rio inocente.</p><p>Escondida sob as meias guardadas em uma c�moda encrustada de l�pis-laz�li estava uma bolsa de pano um tanto larga, e o conte�do retiniu quando ele a enfiou em um dos bolsos do casaco. Pegou outra bolsa de veludo, essa bem menor, e a deixou por cima do <emphasis>angreal</emphasis>. O prateiro que confeccionara os conte�dos da bolsa maior ficara mais do que feliz por servir ao Drag�o Renascido e tentara recusar o pagamento s� pela honra do trabalho. O ourives que fabricara a pe�a �nica na bolsa de veludo exigira quatro vezes o que Bashere dissera que o servi�o valia e ainda pedira que uma dupla de Donzelas o escoltasse at� ele acabar.</p><p>J� fazia um tempo que ele andava planejando essa ida at� a fazenda. N�o gostava de Taim, e Lews Therin sempre aparecia quando o sujeito estava por perto, mas n�o podia continuar evitando a escola. Ainda mais agora. At� onde sabia, Taim conseguira manter os alunos longe da cidade � pelo menos ele n�o ficara sabendo de nenhum incidente, e teria ouvido relatos �, mas as not�cias de Merana e a miss�o diplom�tica acabariam chegando � fazenda junto com as carro�as de suprimentos ou com os novos alunos. E, sabendo como eram os boatos, nove Aes Sedai logo se tornariam nove irm�s Vermelhas � ou noventa � ca�ando homens para serem amansados. Qualquer que fosse a rea��o diante da novidade, de alunos fugindo � noite a alunos vindo a Caemlyn para dar o primeiro golpe, ele tinha que se adiantar antes que os rumores provocassem p�nico.</p><p>J� corriam boatos demais sobre as Aes Sedai pelas ruas de Caemlyn, outro motivo para ir at� l�. Considerando o que se ouvia nas ruas, Alanna, Verin e as garotas de Dois Rios j� tinham virado quase meia Torre, e ainda havia uma infinidade de outras hist�rias de Aes Sedai chegando escondidas na cidade, esgueirando-se port�es adentro durante a noite. Havia um boato persistente de que uma Aes Sedai andava Curando gatos de rua, e o pr�prio Rand j� estava quase acreditando naquilo. Ainda assim, todos os esfor�os de Bashere para verificar a veracidade dos rumores o levavam a crer que a hist�ria era t�o ver�dica quanto o boato de que as mulheres que escoltavam o Drag�o Renascido por toda parte eram, na verdade, Aes Sedai disfar�adas.</p><p>Rand se virou, sem nem notar que o fazia, e ficou encarando uma parede listrada com relevos de le�es e rosas � na verdade, fitava algo al�m. Alanna n�o estava mais na estalagem O Sabujo de Culain. E estava tensa; se ela n�o fosse Aes Sedai, Rand poderia dizer que a mulher estava com os nervos � flor da pele. Rand acordara no meio da noite porque ela estava chorando, de t�o forte fora a sensa��o. �s vezes, quase se esquecia de que ela estava ali, at� que uma coisa dessas acontecia. Bem, pelo visto era poss�vel se acostumar a qualquer coisa. Naquela manh�, Alanna estava� ansiosa � �, essa parecia ser a palavra certa. Rand poderia apostar Caemlyn inteira que, se seguisse em linha reta at� Alanna, ele a encontraria na estalagem A Coroa de Rosas. E poderia apostar que Verin estava junto. N�o eram nove Aes Sedai. Eram onze.</p><p>Lews Therin murmurou, desconfort�vel. Um homem se perguntando se estava ou n�o encurralado. E Rand se perguntava o mesmo. Onze, e bastava treze para captur�-lo t�o f�cil quanto se apanhassem uma crian�a. Isso se ele lhes desse a chance. Lews Therin come�ou a rir baixinho, uma risada mesclada a um choro rouco. Ent�o foi para longe outra vez.</p><p>Rand refletiu um pouco sobre Somara e Enaila, ent�o abriu um port�o ali mesmo, em cima do tapete com estampas azuis e douradas do quarto. Carrancudas como estavam naquela manh�, uma das duas com certeza acabaria soltando alguma bronca antes que voltassem da fazenda. Al�m do mais, considerando as visitas anteriores, n�o queria os alunos preocupados, com medo de serem alvo das quase vinte Donzelas de sua escolta. Era o tipo de coisa que n�o ajudava muito a aumentar a autoconfian�a de seus homens, e eles precisariam de autoconfian�a para sobreviver.</p><p>Bem, em uma coisa concordava com Taim: agarrado a <emphasis>saidin</emphasis>, um homem sabia que estava vivo, e isso ia al�m dos sentidos agu�ados. Apesar da m�cula do Tenebroso, apesar daquela sensa��o oleosa de mat�ria em decomposi��o manchando os ossos, era quando o Poder tentava derreter seu corpo e congel�-lo at� estilhar, era quando um passo em falso ou um momento de fraqueza significava a morte� Luz, era ent�o que um homem sabia que estava vivo. Ainda assim, afastou-se da Fonte logo que adentrou o port�o, e n�o s� para se livrar da m�cula antes que o est�mago decidisse se esvaziar � ela agora parecia ainda pior, ainda mais vil, se � que era poss�vel. N�o, abandonara o Poder porque n�o se achava capaz de encarar Taim com <emphasis>saidin</emphasis> ainda pulsando no corpo enquanto Lews Therin ocupava sua mente.</p><p>A vegeta��o rasteira da clareira estava mais marrom do que ele se lembrava, com mais folhas estalando sob suas botas e menos ainda nas �rvores. Alguns pinheiros estavam amarelos, e v�rias folhas-de-couro pareciam mortas, os troncos cinzentos e desfolhados. Mas a mudan�a da clareira n�o era nada comparada com a fazenda, que fora alterada quase al�m do reconhec�vel.</p><p>A casa sede ficara muito melhor com a nova cobertura de sap�, e o celeiro decerto fora inteiramente reconstru�do, j� que estava bem maior e nem um pouco torto, com um enorme cercado cheio de cavalos na lateral, enquanto os currais de vacas e ovelhas tinham sido deslocados mais para longe. As cabras tamb�m estavam presas, e o galinheiro tinha fileiras de gaiolas organizadas. Tinham derrubado mais um tanto da floresta, que parecia mais distante, e havia uma fileira de mais de dez barracas brancas e compridas atr�s do celeiro. Ali perto tamb�m se viam os pilares de madeiras de duas constru��es bem maiores que a sede, com um grupo de mulheres sentadas do lado de fora, costurando e cuidando de algumas crian�as que jogavam bola, rolavam argolas e brincavam de boneca. Ainda assim, a maior mudan�a era nos alunos: a maioria agora usava casacos pretos justos de gola alta, e apenas poucos ainda suavam. Devia haver bem mais de cem, e de todas as idades. Rand n�o sabia que as viagens de recrutamento de Taim tinham sido t�o bem-sucedidas. <emphasis>Saidin</emphasis> parecia tomar o ar. Alguns homens praticavam tessituras, ateando fogo a cepos, espatifando rochas ou enredando uns aos outros em espirais de Ar; enquanto outros canalizavam para apanhar �gua � sustentando os baldes com Ar �, empurrar carro�as de esterco at� o celeiro ou empilhar lenha. Mas nem todos canalizavam. Henre Haslin mantinha o olhar atento a uma fileira de homens de peito nu, todos praticando as posturas com espadas de treino. Haslin, que tinha apenas uma leve penugem de cabelo branco e um nariz bulboso vermelho, suava mais que seus alunos, sem d�vida por conta da �nsia por vinho, mas ele os observava com aten��o, corrigindo as formas com tanto afinco quanto na �poca em que era Mestre Espadachim da Guarda da Rainha. Saeric, um Goshien �gua Vermelha de cabelo grisalho que n�o tinha mais m�o direita, encarava duas fileiras de homens sem camisa com aquele olhar de pedra. Os homens de uma fileira praticavam chutes no ar, alternando os p�s que erguiam bem acima da cabe�a enquanto o outro ficava plantado no ch�o. A outra fila praticava socos, golpeando o nada � sua frente com toda a velocidade que conseguiam. A situa��o mudara completamente desde sua �ltima visita � aquele n�o era mais o grupo deplor�vel de antes.</p><p>Um sujeito de casaco preto j� quase chegando � meia-idade parou diante dele. Tinha o nariz afilado e um sorriso sarc�stico.</p><p>� E quem � voc�? � inquiriu, com seu sotaque taraboniano. � Deve ter vindo aqui para a Torre Negra querendo aprender, sim? Devia ter esperado o carro��o que vem de Caemlyn. Assim teria aproveitado pelo menos mais um dia com esse seu belo casaco.</p><p>� Eu sou Rand al�Thor � rebateu Rand, tranquilo. Mantivera a voz tranquila para n�o deixar escapar o s�bito arroubo de raiva. N�o custava nada ser educado, e se aquele idiota n�o reparasse logo que era melhor ser gentil do que pagar o pre�o�</p><p>O desd�m apenas se acentuou.</p><p>� Ent�o voc� � ele, �? � O homem o encarava de cima a baixo, insolente.�� Mas voc� n�o parece t�o magn�nimo. Acho que eu mesmo poderia�</p><p>O fluxo de Ar s� se formou quase no instante em que o golpe acertou o sujeito, um sopapo bem no p� do ouvido. Ele caiu duro no ch�o.</p><p>� �s vezes precisamos de uma disciplina mais firme � comentou Taim, aproximando-se para examinar o homem ca�do. Sua voz saiu quase divertida, mas os olhos negros que o encaravam de vi�s lan�aram um olhar quase assassino ao homem que golpeara. � N�o d� para dizer a um homem que ele tem poder suficiente para fazer a terra tremer e depois esperar que ele seja humilde. � Os Drag�es que subiam pelas mangas do casaco preto reluziam � luz do sol. O dourado devia ser bordado com fios de ouro, mas o que fazia aquele drag�o azul brilhar tanto? Taim gritou de repente: � Kisman! Rochaid! Levem Torval daqui e joguem �gua na cara dele at� o infeliz acordar. E nada de usar a Cura. Uma dor de cabe�a talvez ensine a ele a segurar a l�ngua.</p><p>Dois sujeitos de casaco preto vieram correndo. Eram mais jovens que Rand. Os dois se curvaram sobre Torval, mas pararam de repente e olharam, meio culpados, para Taim. Um instante depois, Rand sentiu <emphasis>saidin</emphasis> preench�-los. Fluxos de Ar ergueram o corpo fl�cido de Torval, e a dupla saiu andando r�pido, levando o sujeito flutuando.</p><p><emphasis>Eu devia ter matado esse homem h� muito tempo,</emphasis> grunhiu Lews Therin. <emphasis>Devia� devia�</emphasis> Ele tentou alcan�ar a Fonte.</p><p><emphasis>N�o, que o queime!</emphasis>, pensou Rand. <emphasis>N�o, voc� n�o vai! Voc� n�o passa de uma droga de voz!</emphasis> Lews Therin fugiu, seu gemido se perdendo na dist�ncia.</p><p>Rand respirou fundo. Taim o encarava, ainda ostentando aquele meio sorriso.</p><p>� Voc� ensina os homens a Curar?</p><p>� A primeira coisa que aprendem � o pouco que sei. Isso antes at� de como n�o morrer de tanto suar, neste calor. Qualquer arma perde a utilidade se n�o pode mais ser usada logo na primeira ferida. At� o momento, um se matou agarrando demais da Fonte e tr�s acabaram por se exaurir, mas ningu�m morreu por conta de uma espada. � Ele conseguiu impor uma boa dose de desd�m � palavra �espada�.</p><p>� Entendi � respondeu Rand, sem rodeios. Um morto e tr�s exauridos. Ser� que as Aes Sedai perdiam tantas mulheres, na Torre? Bem, em todo caso, elas iam com mais calma, porque podiam se dar ao luxo. � O que � essa Torre Negra de que o sujeito estava falando? N�o gosto nada disso, Taim.</p><p>Lews Therin voltara a resmungar e a se lamuriar de novo, mas ainda n�o dava para distinguir nenhuma palavra.</p><p>O sujeito de nariz aquilino deu de ombros, examinando a fazenda e os alunos com o olhar orgulhoso de um dono.</p><p>� � s� um nome que os alunos deram. N�o dava para continuar chamando o lugar de �fazenda�. Eles n�o se sentiam bem com isso e queriam algo mais. Ent�o veio a Torre Negra, como contraponto � Torre Branca. � Taim inclinou a cabe�a, examinando Rand quase de soslaio. � Posso reprimir isso, se voc� quiser. � f�cil tirar uma palavra da boca dos homens.</p><p>Rand hesitou. Talvez fosse mesmo f�cil tirar uma palavra da boca daqueles homens, mas n�o das mentes. O lugar precisava mesmo de um nome, n�o tinha pensado nisso antes. E por que n�o Torre Negra? Se bem que, examinando a casa sede e a estrutura das novas constru��es � que eram maiores, mas ainda eram apenas madeira �, aquele nome at� o fazia abrir um sorriso.</p><p>� Deixe estar � retrucou.</p><p>Talvez, no come�o, a Torre Branca tamb�m fosse igualmente humilde. N�o que a Torre Negra fosse ter tempo de crescer e se transformar em algo que rivalizasse com a Branca � pensar nisso desfez o sorriso em seu rosto, e ele olhou com pesar para as crian�as que brincavam ali perto. Assim como elas, Rand estava brincando, fingindo que havia alguma chance de construir algo duradouro.</p><p>� Re�na os alunos, Taim. Tenho algumas coisas para falar com eles.</p><p>Rand tinha ido at� ali na expectativa de reunir os alunos, avaliar quantos eram, talvez falar de cima daquela velha carro�a bamba que j� parecia ter sido descartada. Mas Taim mandara fazer uma plataforma de pronunciamentos, um simples bloco de pedra preta lavrada e t�o bem polida que brilhava feito um espelho � luz do sol, com dois degraus talhados na parte de tr�s. Ficava em um descampado atr�s da casa sede, e o ch�o em volta era de terra batida, muito plano. As mulheres e crian�as ficaram meio de lado, assistindo e ouvindo.</p><p>Do alto do bloco, Rand conseguia ter uma no��o melhor de qu�o longe fora Taim com o seu recrutamento. Jahar Narishma, aquele jovem com a centelha de quem Taim lhe falara, tinha olhos escuros grandes como os de uma garota e um rosto p�lido cheio de confian�a; o rapaz usava o cabelo comprido em duas tran�as com sinos de prata nas pontas. Taim tinha dito que fora at� Arafel, mas Rand reconheceu a cabe�a raspada e o coque shienarano em outro homem, e mais duas pessoas usavam os v�us transparentes de Tarabon. Tamb�m notou olhos enviesados de Saldaea e homens baixos e de pele clara, um tipo t�o comum em Cairhien. Um sujeito mais velho tinha a barba oleada e de corte pontiagudo, imitando um lorde taireno � coisa que sem d�vida n�o era, n�o com o rosto todo marcado de sol �, e pelo menos tr�s ostentavam barbas sem bigode. Rand torcia para que Taim n�o tivesse despertado o interesse de Sammael, quando fora recrutar em Illian. Estava esperando ver homens jovens, mas os rostos imberbes de Eben e Fedwin faziam frente a cabe�as grisalhas ou quase carecas, algumas com at� mais fios cinza que a de Damer. Ora, pensando bem, n�o havia mist�rio � era bem compreens�vel haver tanto av�s quanto garotos querendo aprender.</p><p>Rand n�o sabia fazer discursos, mas j� pensara bastante no que queria dizer �queles homens. S� n�o pensara nas primeiras not�cias, mas isso, com sorte, acabaria r�pido.</p><p>� Todos voc�s j� devem ter ouvido hist�rias de que a Torre� a Torre Branca� est� dividida. Bem, � verdade. Algumas Aes Sedai rebeldes podem decidir se juntar a mim, e elas enviaram emiss�rias. S�o nove, e est�o em Caemlyn neste exato momento, esperando que eu d� o ar da gra�a. Ent�o, quando ouvirem falar em Aes Sedai em Caemlyn, quero que n�o acreditem em qualquer boato. Voc�s sabem por que elas est�o l� e podem rir na cara do sujeito que vier contar hist�rias mirabolantes.</p><p>N�o houve rea��o. Eles s� ficaram ali, parados, encarando-o quase sem piscar. Taim tinha uma express�o sarc�stica, muito sarc�stica. Apalpando a sacola de pano maior no bolso do casaco, Rand prosseguiu com o discurso, entrando na parte que j� planejara melhor.</p><p>� Voc�s precisam de um nome. Na L�ngua Antiga, �Aes Sedai� significa �Servo ou Serva de Todos� ou algo bem pr�ximo. N�o � f�cil traduzir a L�ngua Antiga. � Ele pr�prio s� sabia umas poucas palavras, coisas que aprendera de Asmodean e de Moiraine, outras que tinham escapado de Lews Therin. Mas Bashere � que fornecera o que ele precisava. � Outra palavra na L�ngua Antiga � <emphasis>asha�man</emphasis>, que significa �guardi�o� ou �guardi�es�. Ou �defensor�, e talvez signifique mais que isso. Como j� disse, a L�ngua Antiga � muito flex�vel. Ainda assim, a melhor tradu��o parece ser �guardi�o�. S� que n�o � qualquer defensor ou guardi�o, a express�o <emphasis>asha�man</emphasis> n�o pode ser usada para definir um homem que defende uma causa injusta, nem nunca poderia ser usada para algu�m mau. Um <emphasis>asha�man</emphasis> era um homem que defendia a verdade, a justi�a e o que era certo para todos. Um guardi�o que n�o sucumbiria nem quando j� n�o restasse esperan�a. � S� a Luz sabia como toda a esperan�a acabaria quando chegasse Tarmon Gai�don, isso se n�o acabasse antes. � E voc�s est�o aqui para se tornar um desses defensores. Quando terminarem o treinamento, ser�o considerados Asha�man.</p><p>Ergueu-se uma onda de murm�rios, como folhas mexidas pela brisa, todas aquelas vozes repetindo a mesma palavra. Mas as vozes logo esmaeceram. Rostos atentos erguiam o olhar para ele, dava at� para ver cada rosto ansioso para ouvir as palavras seguintes. Pelo menos era um pouco melhor que a rea��o anterior. A sacola de pano tilintou de leve quando ele a retirou do bolso do casaco.</p><p>� Aes Sedai come�am como novi�as, depois viram Aceitas, e ent�o, por fim, s�o elevadas a Aes Sedai completas. Voc�s tamb�m ter�o n�veis, mas n�o como os delas. N�o haver� expuls�es ou dispensas. � Dispensas? Luz, faria tudo que estivesse a seu alcance para manter ali todo e qualquer homem capaz de canalizar. Tudo, menos amarr�-lo contra a vontade. � Quando um homem chegar � Torre Negra� � n�o gostava nada daquele nome � � ser� chamado de soldado, porque � isso que um homem se torna quando se junta a n�s, o que todos voc�s se tornaram: soldados na luta contra a Sombra. E n�o s� contra a Sombra, tamb�m contra qualquer um que se oponha � justi�a ou oprima os mais fracos. Quando um soldado atingir certo est�gio em suas habilidades, passar� a ser chamado de Dedicado, ent�o vai poder usar isto. � Ele tirou da bolsa um dos distintivos que o prateiro confeccionara, uma pequena espada de prata reluzente e perfeita com o punho comprido, o guarda-m�o inclinado e a l�mina um tanto curva. � Taim.</p><p>Taim andou a passos r�gidos at� o bloco de pedra, e Rand se curvou para prender a espada de prata no alto da gola de seu casaco. O broche parecia brilhar ainda mais forte sobre a l� negr�ssima. O rosto de Taim era t�o expressivo quanto a pedra logo abaixo das botas de Rand, que lhe entregou a bolsa com um sussurro:</p><p>� Entregue os broches para aqueles que voc� achar que est�o prontos. Mas tenha certeza de que est�o prontos.</p><p>Ele se endireitou outra vez, torcendo para que houvesse broches o bastante. N�o esperara ver tantos homens ali.</p><p>� Dedicados que avan�arem o bastante em suas habilidades ser�o chamados de Asha�man. Eles usar�o isto.</p><p>Rand tirou a bolsinha de veludo do bolso e pegou outro broche, erguendo-o para mostrar a todos. A luz do sol cintilava no ouro ricamente trabalhado e no belo esmalte vermelho da forma sinuosa id�ntica � que havia no estandarte do Drag�o. O broche tamb�m foi preso na gola de Taim, do lado oposto do anterior: uma espada e um Drag�o reluziam de cada lado da garganta dele.</p><p>� Bem, imagino que eu tenha sido o primeiro Asha�man � disse Rand para os alunos �, mas Mazrim Taim � o segundo. � O rosto de Taim poderia fazer uma pedra parecer macia. Qual era o problema com ele? � Espero que todos acabem se tornando Asha�man, mas, quer esse dia chegue, quer n�o, lembrem-se de que todos somos soldados. Ainda h� muitas batalhas por vir, talvez nem sempre as que esperamos. E, no fim de tudo, haver� a Grande Batalha. Queira a Luz que seja a �ltima. Se a Luz brilhar sobre n�s, vamos vencer. E vamos vencer porque n�o h� outra op��o que n�o a vit�ria.</p><p>Deveria ter havido algum viva qualquer quando ele terminou de falar. Rand n�o se achava o tipo de orador capaz de fazer a multid�o dar pulos e vivas, mas aqueles homens sabiam por que estavam ali. Dizer a eles que acabariam vencendo deveria ter gerado uma resposta, mesmo que fraca. Mas a resposta foi apenas sil�ncio.</p><p>Rand desceu do bloco de pedra e Taim se pronunciou:</p><p>� Dispensados para suas aulas e tarefas.</p><p>Os alunos � os soldados � tomaram seus rumos. Continuavam quase que no mesmo sil�ncio de antes, no m�ximo trocavam alguns sussurros. Taim saiu na dire��o da casa sede; segurava a bolsa com os broches de espada com tanta for�a que era de se espantar que n�o tivesse sido espetado atrav�s do pano.</p><p>� Milorde Drag�o por acaso tem tempo para uma ta�a de vinho?</p><p>Rand assentiu. Queria encerrar aquele assunto antes de voltar ao Pal�cio.</p><p>A sala de entrada da casa sede era exatamente o que se poderia esperar, com o ch�o simples muito bem varrido e poltronas de couro descombinadas dispostas diante de uma lareira de tijolinhos vermelhos t�o limpa que parecia imposs�vel que algum dia j� tivesse sido acesa. Um pano branco com flores bordadas recobria uma mesinha. Sora Grady entrou sem fazer barulho e pousou em cima do pano uma bandeja de madeira com um c�ntaro azul brilhoso cheio de vinho e duas canecas brancas vitrificadas. Rand achava que o olhar dela n�o o machucaria mais, depois de tanto tempo, mas a acusa��o em seus olhos o fez suspirar de al�vio quando ela saiu. Percebeu que ela estivera suando. Taim jogou a bolsa na bandeja e tratou de esvaziar uma caneca de vinho.</p><p>� Voc� n�o ensina aquele truque da concentra��o para as mulheres? � indagou Rand. � � crueldade deixar elas suando tanto enquanto seus maridos n�o transpiram uma s� gota.</p><p>� A maioria n�o quer se meter � respondeu Taim, sem paci�ncia. � Os maridos e os namoradinhos tentam ensinar, mas a maioria se recusa sequer a ouvir. Sabe, talvez tenha a ver com <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p>Rand espiou o vinho escuro na caneca. Precisava ir com calma. Nada de estragar as coisas s� porque ficara irritado.</p><p>� Fico feliz de ver o recrutamento indo t�o bem. Voc� disse que acabaria fazendo frente � Torre� � Torre Branca� � Torre Branca, Torre Negra. O que diriam nas hist�rias? Isso se houvesse um futuro para ter hist�rias. � � e que conseguiria isso em menos de um ano. Se mantiver esse ritmo, vai mesmo conseguir. N�o entendo como voc� encontra tantos homens.</p><p>� Se peneirar bastante areia, vai acabar encontrando alguns gr�os de ouro � rebateu Taim, firme. � J� comecei a delegar o recrutamento, tirando uma ou duas incurs�es que eu mesmo fa�o. Tenho Damer, Grady e mais uns dez homens em quem posso confiar para sa�rem sozinhos por um dia, homens com idade suficiente para n�o fazer nenhuma burrice. E tenho jovens fortes o suficiente para abrir um port�o, se n�o bem mais que isso, e eles acompanham os mais velhos que n�o s�o capazes de fazer essa tessitura. Em menos de um ano voc� ter� os mil que queria. E aqueles que eu mandei para Caemlyn? J� montou um ex�rcito com eles? J� tem os seus mil por l�, at� bem mais.</p><p>� Deixo isso a cargo de Bashere � afirmou Rand, sem se alterar.</p><p>Taim contorceu os l�bios em desd�m, e Rand pousou a caneca de volta na mesa antes que a quebrasse sem querer, tamanha a for�a com que a apertava. Pelo que sabia, Bashere estava em um acampamento em algum ponto a oeste da cidade, lidando com aqueles homens como podia, considerando que eram, como se dizia em Saldaea, um grupo de fazendeiros falidos, aprendizes fugitivos e artes�os sem sucesso que nunca tinham empunhado uma espada, montado um cavalo encilhado ou viajado para mais de cinco milhas al�m do local onde haviam nascido. Rand j� tinha muito com o que se preocupar, n�o daria import�ncia a esse tipo de coisa, e dissera a Bashere para que fizesse o que bem entendesse com os homens e que s� o perturbasse se alguns se amotinassem.</p><p>Encarando Taim, que n�o fazia o menor esfor�o para esconder o desd�m, botou as m�os para tr�s das costas e cerrou os punhos. L� longe, Lews Therin resmungava, um eco de sua pr�pria raiva.</p><p>� O que deu em voc�? Parece que tem um carrapicho nas cal�as desde que lhe entreguei os distintivos. Tem alguma coisa a ver com eles? Se for, ent�o n�o entendo. Aqueles homens v�o respeitar mais os distintivos por terem visto voc� receber os seus diretamente do Drag�o Renascido. Ali�s, eles v�o respeitar mais <emphasis>voc�</emphasis>. Talvez n�o precise mais sair dando pancadas na cabe�a de ningu�m para manter a disciplina. Ent�o, o que me diz?</p><p>Come�ara bem o bastante, em um tom calmo e controlado, ainda que n�o exatamente ameno � mesmo porque n�o queria soar ameno. Mas, enquanto falava, sua voz foi ficando mais alta e firme. N�o chegou a virar um grito, apesar de a �ltima pergunta ter estalado feito um chicote.</p><p>Taim sofreu uma transforma��o das mais not�veis, come�ando a tremer visivelmente � e Rand achava que era de raiva, n�o de medo �, mas, quando a tremedeira cessou, retomou � calma p�trea de antes. N�o era uma atitude amig�vel, n�o mesmo, e tinha um qu� de zombaria, mas Taim parecia muito relaxado e controlado.</p><p>� Como voc� deve saber, o que me preocupa s�o as Aes Sedai. E voc�, claro. Nove Aes Sedai chegaram em Caemlyn, onde j� h� mais duas, ent�o s�o onze. A�, pode ser que haja mais uma ou outra� Ainda n�o consegui encontrar nenhuma, mas�</p><p>� Eu falei para voc� ficar longe da cidade � declarou Rand, impass�vel.</p><p>� Encontrei homens que podem fazer perguntas por mim � retrucou Taim, em um tom seco como poeira. � Onde estamos agora foi o mais perto que cheguei da cidade desde que o salvei daquele Homem Cinza.</p><p>Rand deixou passar, mas por pouco. Quase n�o conseguiu. A voz em sua cabe�a estava baixa demais para ser compreendida, mas soava como um trov�o frio.</p><p>� Mais f�cil conseguirem agarrar fuma�a com os dedos do que ouvirem algum boato �til. � Aquelas palavras sa�ram com todo o desd�m que Rand sentia. Taim dissera que o <emphasis>salvara</emphasis>?</p><p>Taim pareceu inquieto � por fora, ainda mantinha a aparente tranquilidade, mas seus olhos reluziam como gemas escuras.</p><p>� E se elas se juntarem �s Vermelhas? � Sua voz estava serena e bem-humorada, mas aquele brilho em seus olhos� � Tem irm�s Vermelhas espalhadas pelo interior. V�rios grupos chegaram nos �ltimos dias, querendo interceptar os homens a caminho daqui.</p><p><emphasis>Vou matar esse homem</emphasis>, berrou Lews Therin, e Rand sentiu sua tentativa atrapalhada de alcan�ar <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p><emphasis>V� embora</emphasis>, mandou Rand, com firmeza. Ele continuou a tentar. Permaneceu gritando.</p><p><emphasis>Vou matar primeiro ele, depois os outros. Os outros s� podem servir a ele. � �bvio que os outros s� podem servir a ele.</emphasis></p><p><emphasis>V� embora</emphasis>, rebateu Rand, aos gritos, mas ainda em sil�ncio. <emphasis>Voc� </emphasis>� s�<emphasis> uma voz na minha cabe�a!</emphasis> Ele continuava tentando alcan�ar a Fonte.</p><p><emphasis>Ah, Luz, eu matei todos. Todos os que eu amava. Mas vai ser bom matar esse homem. Vou me redimir se eu finalmente conseguir matar esse maldito. N�o� nada pode redimir o que eu fiz. Mas posso mat�-lo mesmo assim. Vou matar todos. Tenho que matar, tenho.</emphasis></p><p><emphasis>N�o!</emphasis> gritou Rand, ainda na mente. <emphasis>Voc� est� morto, Lews Therin. Eu estou vivo. Que o queime, voc� est� morto! Voc� est� morto!</emphasis></p><p>Foi quando, de repente, percebeu que estava debru�ado sobre a mesa, os joelhos quase cedendo. E resmungava baixinho:</p><p>� Voc� est� morto! Eu estou vivo e voc� est� morto!</p><p>Mas n�o agarrara <emphasis>saidin</emphasis>. E nem Lews Therin. Estremecendo, ele olhou para Taim, surpreso de ver preocupa��o em seu semblante.</p><p>� Voc� precisa aguentar firme � disse Taim, baixinho. � Se puder se agarrar � sanidade, ent�o � isso que tem que fazer. O pre�o do fracasso � alto demais.</p><p>� N�o vou fracassar � afirmou Rand, endireitando-se. Lews Therin estava quieto. Parecia n�o haver nada em sua mente al�m dele mesmo. E da presen�a constante de Alanna, claro. Rand finalmente perguntou: � Essas Vermelhas pegaram algu�m?</p><p>� N�o que eu saiba. � Taim o examinava, receoso, como se esperasse outro arroubo. � Quase todos os alunos agora chegam por meio de port�es. E, mesmo assim, com tanta gente pelas estradas n�o deve ser f�cil identificar um homem vindo para c�. A menos que o sujeito saia gritando aos quatro ventos. ��Ele hesitou. � Em todo caso, posso dar um jeito nelas.</p><p>� N�o. � Lews Therin tinha mesmo sumido? Gostaria que sim, mas sabia que seria tolice acreditar nisso. � Terei que tomar alguma atitude se as Aes Sedai come�arem a capturar os homens. Mas, por ora, elas n�o representam nenhuma amea�a se ficarem no campo. E pode acreditar: nenhuma enviada de Elaida vai querer se juntar �s Aes Sedai na cidade. Mais f�cil essas mulheres aceitarem ter voc� entre elas do que aceitarem se unir �s rivais.</p><p>� E essas que n�o est�o no campo? N�o s�o onze? Alguns acidentes poderiam reduzir esse n�mero para algo bem mais seguro. Se n�o quiser sujar suas m�os, eu sempre posso�</p><p>� N�o! Quantas vezes tenho que dizer? Se sentir algum homem capaz de canalizar em Caemlyn, venho atr�s de voc� na hora, Taim. Juro pela Luz. E n�o pense que basta ficar longe do Pal�cio e isso vai me impedir de sentir qualquer coisa. Se qualquer uma dessas Aes Sedai cair morta sem motivo, vou saber muito bem de quem � a culpa. N�o duvide de mim!</p><p>� Voc� imp�e limites demais � reclamou Taim, seco. � Se Sammael ou Demandred decidirem provoc�-lo com algumas Aes Sedai mortas � sua porta, ent�o minhas veias acabar�o abertas?</p><p>� Eles ainda n�o fizeram isso, e � melhor torcer para que n�o comecem agora. Eu j� avisei.</p><p>� E eu j� ouvi, milorde Drag�o, e claro que vou obedecer. � O homem de nariz aquilino se curvou bem devagar em uma rever�ncia. � Ainda assim, repito que onze � um n�mero perigoso.</p><p>Rand riu, mesmo sem querer.</p><p>� Taim, tenho toda a inten��o de ensinar essas mulheres a dan�arem ao som da minha flauta.</p><p>Luz, fazia quanto tempo que n�o tocava flauta? E onde estava sua flauta? Bem ao longe, ouviu Lews Therin soltar uma risadinha.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 43</p><p><image l:href="#6"/></p><p>A Coroa de Rosas</p></title><p>A carruagem que Merana alugara sacolejava ao longo do lento trajeto pelas ruas cheias de gente at� a estalagem A Coroa de Rosas. Por fora, Merana estava calma: uma mulher de cabelos escuros e olhos mel tranquilos, os dedos magros cruzados por sobre as saias de seda cinza clara. Por dentro, n�o estava t�o serena. Trinta e oito anos antes, tivera por puro acaso a oportunidade de negociar um tratado entre Arad Doman e Tarabon � um tratado que, em teoria, colocaria um ponto final na disputa pela Plan�cie de Almoth. Domaneses e tarabonianos passaram o encontro todo tentando se esquivar e quase acabaram declarando tr�s guerras diferentes durante as negocia��es. Ela passara todo aquele tempo sorridente e com uma express�o de absoluta boa vontade. Quando as assinaturas enfim secaram no papel, Merana sentia como se tivesse sido enfiada dentro de um barril cheio de espetos e rolada ladeira abaixo por colinas acidentadas. Depois de tudo aquilo, o tratado acabou valendo menos que a cera das fitas para a feitura dos selos. Esperava que o que iniciara naquela tarde, no Pal�cio Real, terminasse melhor � tinha que terminar �, mas, por dentro, sentia como se tivesse acabado de sair de um segundo barril.</p><p>Min estava recostada no assento, de olhos fechados. A jovem sempre parecia cochilar quando n�o havia nenhuma Aes Sedai se dirigindo a ela. As outras duas irm�s na carruagem volta e meia olhavam para a garota; Seonid, serena e reservada em seu verde brocado, e Masuri, de corpo magro e olhar alegre, usando um vestido marrom com bainha bordada com vinhas florescentes. Todas tinham se vestido com formalidade, usando os xales e as cores das Ajahs.</p><p>Merana tinha certeza de que as outras pensavam o mesmo sempre que olhavam para Min. Seonid decerto compreendia a jovem, mas n�o dava para ter certeza � ela era met�dica e pr�tica demais no trato com os pr�prios Guardi�es, comportando-se um pouco como a dona de um par de lobos premiados pelos quais at� sentia certa afei��o. Bem, Masuri talvez compreendesse o cora��o da garota, j� que gostava tanto de dan�as e at� de flertes, apesar da propens�o a se esquecer do pobre coitado com quem estava sempre que ouvia qualquer rumor sobre algum manuscrito antigo escondido. A pr�pria Merana n�o se apaixonava desde bem antes daquele Quinto Tratado de Falme, mas se lembrava bem da sensa��o. Bastara ver como Min olhava para al�Thor para saber que a mulher perdera o ju�zo e resolvera que era uma �tima ideia pensar com o cora��o.</p><p>N�o que aquilo fosse prova de que Min ignorara todas as advert�ncias e quebrara a promessa que fizera, contando tudo para al�Thor, mas o fato � que o rapaz sabia de Salidar. E mais: ele sabia que Elayne estava l� e at� achara gra�a � gra�a! � em suas tentativas de se esquivar das perguntas. Bem, n�o importava muito se Min havia tra�do ou n�o a confian�a que tinham nela; s� por a menina estar apaixonada j� teriam que passar a tomar cuidado com o que diziam perto dela. De qualquer forma, a situa��o como um todo era assustadora � e Merana n�o estava acostumada com a sensa��o. Claro que j� sentira medo antes, e com alguma frequ�ncia, como no ano seguinte ao da morte de Basan � jamais criara um elo com outro Guardi�o depois dele, e ao menos parte dessa resist�ncia era por n�o querer passar por tudo aquilo de novo, embora a outra parte fosse estar ocupada demais para procurar o homem certo. Ainda assim, aquela tinha sido a �ltima vez em que sentira mais que apreens�o antes da Guerra dos Aiel. S� que agora estava com medo, e n�o gostava nada disso. Talvez tudo ainda fosse dar certo e nada desastroso tivesse ocorrido naquela reuni�o, afinal, mas o pr�prio al�Thor a deixava de pernas bambas.</p><p>A carruagem alugada deu um �ltimo solavanco e parou no est�bulo da estalagem. Cavalari�os usando colete com bordados de rosas se adiantaram para remover as r�deas dos animais e abrir as portas.</p><p>O sal�o da estalagem combinava bem com a constru��o de tr�s andares de pedra branca bem lavrada: tinha as paredes cobertas de pain�is de madeira escura polida e imensas lareiras revestidas de m�rmore branco. Uma das cornijas abrigava um rel�gio bem largo, com badalos marcando as horas e algumas douraduras delicadas. As servi�ais usavam vestidos azuis e aventais brancos com bordado de an�is de rosas. Todas sorriam, eram educadas e eficientes, e mesmo as que n�o eram bonitas tinham boa apar�ncia. A Coroa de Rosas era a estalagem favorita dos nobres que vinham do interior, mas que n�o possu�am mans�es em Caemlyn. Naquele momento, no entanto, havia apenas Guardi�es �s mesas, sem contar Alanna e Verin, sentadas l� no fundo. Se dependesse s� de Merana, elas estariam esperando nas cozinhas, junto das servi�ais. Todas as outras irm�s tinham sa�do. N�o havia tempo a perder.</p><p>� Se n�o se importa � pediu Min �, acho que vou dar uma volta. Queria ver um pouco de Caemlyn antes de anoitecer.</p><p>Merana concordou. A jovem saiu depressa, e ela trocou olhares com Seonid e Masuri, perguntando-se quanto tempo Min levaria para voltar ao Pal�cio.</p><p>A Senhora Cinchonine apareceu de repente, t�o redonda quanto qualquer estalajadeira que Merana j� vira, distribuindo mesura e esfregando as m�os rosadas no avental.</p><p>� Posso ajudar em alguma coisa, Aes Sedai? Deseja que eu providencie algo? � A mulher j� recebia Merana com frequ�ncia, e sempre muito bem, desde antes de descobrir que ela era Aes Sedai.</p><p>� Ch� de frutas vermelhas � pediu Merana, sorrindo. � Na sala privada l� de cima.</p><p>Manteve o sorriso no rosto at� a estalajadeira sair apressada, chamando uma das servi�ais. Acenou r�pido para Alanna e Verin, para que as duas a acompanhassem escada acima, e as cinco subiram em sil�ncio.</p><p>Quem quisesse olhar pelas janelas da sala de estar teria uma boa vista da rua, mas Merana n�o estava muito interessada. Tratou de fechar as janelas ainda abertas, diminuindo um pouco do barulho que entrava, e se virou para as outras. Seonid e Masuri j� estavam sentadas, mas Alanna e Verin permaneciam de p�, bem entre as outras. Mesmo bem-passado, o vestido de l� escura de Verin tinha um aspecto amarrotado, e a mancha de tinta na ponta do nariz n�o ajudava a complementar o visual, mas a Marrom tinha olhos de p�ssaro, agu�ados e vigilantes. Os olhos de Alanna tamb�m cintilavam, mas o mais prov�vel � que fosse de raiva � suas m�os volta e meia pareciam tremer de leve, e ela agarrava as saias do vestido de seda azul e corpete amarelo, t�o amarrotado que parecia que a mulher dormira naquela roupa. E at� havia desculpa, no caso dela. Havia mesmo, mas n�o era o suficiente.</p><p>� Ainda n�o sei se seus atos surtiram algum efeito negativo, Alanna � come�ou Merana, a voz firme. � Ele n�o mencionou o elo que voc� criou <emphasis>contra a vontade dele</emphasis>, mas foi contundente, muito contundente, e�</p><p>� Ele imp�s mais restri��es? � interrompeu Verin, inclinando a cabe�a de leve. � Me parece que tudo est� indo bem. Ele n�o fugiu quando ouviu a not�cia de que voc�s estavam por aqui e ainda recebeu tr�s irm�s de uma vez. E com alguma cortesia, ou voc�s estariam cuspindo marimbondos. O rapaz sente um pouco de medo, o que � bom, ou n�o estaria impondo limites. Mas, se ele n�o tiver imposto mais nenhuma restri��o, continuamos tendo tanta liberdade quanto antes, o que significa que ele n�o est� apavorado. O mais importante � n�o assust�-lo al�m da conta.</p><p>A maior dificuldade era que Verin e Alanna n�o faziam parte da delega��o de Merana, que, portanto, n�o tinha autoridade sobre elas. As duas haviam ouvido sobre a hist�ria de Logain e as Vermelhas e concordado que n�o se podia permitir que Elaida permanecesse no Trono de Amyrlin, mas aquilo n�o queria dizer nada. Alanna ainda n�o era um problema, mas poderia se tornar � ela e Merana tinham quase a mesma for�a, t�o pr�ximas que s� se poderia dizer qual vinha na frente se houvesse uma disputa direta, coisa de novi�as, pelo menos at� as novi�as serem pegas. Alanna passara seis anos como novi�a, e Merana ficara apenas cinco; o mais relevante, no entanto, era que Merana j� era Aes Sedai havia mais de trinta anos quando a parteira ajudou a trazer Alanna para o colo da m�e, e isso encerrava a quest�o e lhe dava preced�ncia. Ningu�m considerava aqueles termos at� que n�o houvesse jeito, mas ambas sabiam daquilo e ajustavam seu comportamento de acordo. N�o que Alanna fosse acatar suas ordens, mas sua defer�ncia instintiva a manteria sob algum n�vel de controle � isso e, claro, o que Alanna fizera.</p><p>O problema era Verin, e fora ela quem a fizera pensar nessa quest�o de for�a e preced�ncia. Merana se permitiu sentir outra vez a for�a da outra mulher com o Poder, mesmo j� tendo certeza do que encontraria: n�o havia como afirmar qual delas era mais forte. Cada uma passara cinco anos como novi�a e seis como Aceitas � o tipo de coisa que todas as Aes Sedai sabiam umas sobre as outras, mesmo que n�o soubessem mais nada al�m do nome. S� que Verin era mais velha � e talvez a diferen�a de idade fosse similar � dela para Alanna. O toque grisalho nos cabelos de Verin s� enfatizava isso. Se a Marrom fosse parte da miss�o diplom�tica, talvez n�o houvesse nenhuma dificuldade na quest�o. Mas n�o era, e mesmo assim Merana percebeu que a ouvia com aten��o e agia com defer�ncia mesmo sem pensar. J� precisara parar duas vezes s� naquela manh� para lembrar a mesma de que Verin <emphasis>n�o estava</emphasis> no comando. S� o que tornava a situa��o toler�vel era Verin provavelmente sentir que compartilhava parte da culpa de Alanna. Sem isso, a Marrom decerto teria se sentado em uma das cadeiras, agindo como igual, em vez de ficar de p� ao lado da Verde. Se houvesse ao menos algum jeito de faz�-la passar dia e noite no sal�o da estalagem onde estava, O Sabujo de Culain, para vigiar aquele maravilhoso tesouro que havia encontrado nas garotas de Dois Rios�</p><p>Escolhendo seu lugar para que ela, Seonid e Masuri cercassem a dupla, Merana se sentou e ajustou as saias e o xale com todo o cuidado. Sentia uma certa eleva��o moral por se ver sentada enquanto as outras permaneciam de p�. O que Alanna fizera era quase um estupro.</p><p>� Na verdade, ele imp�s uma nova restri��o. N�o h� o menor problema em voc�s duas terem descoberto onde fica essa <emphasis>escola</emphasis> dele, mas agora fa�o quest�o de sugerir que deixem de lado qualquer ideia que possam ter tido sobre fazer uma visita. Ele cobrou que� que fic�ssemos bem longe de seus� homens.</p><p>Ainda podia v�-lo se inclinando para a frente naquele trono monstruoso, o Trono do Le�o em destaque logo atr�s, sobre um pedestal, enquanto empunhava um peda�o de lan�a entalhado � sem d�vida um costume Aiel.</p><p><emphasis>� Ou�a bem, Merana Sedai � come�ou ele, em um tom firme e cordial. � Eu n�o quero problemas entre as Aes Sedai e os Asha�man. J� falei para os soldados ficarem longe de voc�s, mas n�o vou permitir que eles acabem virando presa das Aes Sedai. Se forem ca�ar na Torre Negra, podem acabar virando o jantar. E ambos queremos evitar isso.</emphasis></p><p>Merana j� era Aes Sedai havia tempo suficiente para n�o ficar aterrorizada sempre que sentia um calafrio, mas daquela vez foi por pouco. Asha�man. A Torre Negra. Mazrim Taim! Como isso podia ter ido t�o longe? E Alanna tinha certeza de que havia mais de cem homens, embora n�o tenha dado detalhes de como descobrira isso � claro: nenhuma irm� expunha seus olhos-e-ouvidos � toa. Bem, n�o importava como. J� dizia o velho ditado: mais vale um p�ssaro na m�o do que dois voando. E al�Thor era o p�ssaro mais importante do mundo, ent�o teriam que deixar outros de lado.</p><p>� Ele�? Ele ainda est� aqui ou j� foi? � Verin e Alanna pareciam encarar a aparente capacidade de Viajar de al�Thor com muita tranquilidade, enquanto pensar que <emphasis>ele </emphasis>redescobrira esse Talento s� deixava Merana enjoada. O que mais ele aprendera sozinho que as Aes Sedai j� tinham se esquecido? � Alanna? Alanna!</p><p>A irm� Verde esbelta levou um susto e s� ent�o despertou de seus pensamentos. Ela vinha se distraindo muito.</p><p>� Ele est� na cidade. Acho que est� no Pal�cio. � Ela ainda soava um tanto distante. � Foi� Ele est� machucado na lateral do corpo. � uma ferida antiga, mas ainda n�o terminou de cicatrizar. Tenho vontade de chorar sempre que me permito pensar nela. Como ele consegue viver com uma coisa dessas?</p><p>Seonid a encarou com um olhar de repreens�o. Toda mulher que j� estabelecera um elo com um Guardi�o j� sentira suas feridas, mas ela sabia o que Alanna estava enfrentando, t�o cedo depois de perder Owein. Quando Seonid falou, sua voz soou quase gentil e s� um pouco severa.</p><p>� Ora, Teryl e Furen sofreram les�es que quase me fizeram desmaiar, mesmo que a sensa��o para n�s seja sempre embotada. Mas eles nunca nem diminu�ram o passo. Nem uma �nica vez.</p><p>� Eu acho que estamos perdendo o fio da meada � comentou Masuri, com a voz tranquila. Ela sempre falava com a mesma tranquilidade, mas, ao contr�rio de muitas Marrons, era sempre bem direta.</p><p>Merana aquiesceu.</p><p>� � verdade. Considerei assumir o lugar de Moiraine ao lado dele�</p><p>Uma batida na porta anunciou uma mulher de avental branco com a bandeja, trazendo um bule de ch� de prata e x�caras de porcelana. A Coroa de Rosas estava habituada a atender � nobreza. O ch� foi servido e a servi�al saiu, e Alanna j� n�o parecia mais distante: seus olhos escuros cintilavam com todo aquele fogo que Merana sempre via neles. As Verdes tinham bastante ci�me de seus Guardi�es, e al�Thor agora pertencia a Alanna, n�o importava como o elo tinha sido estabelecido. Nessa quest�o, a defer�ncia ia por �gua abaixo. A Verde ficou ali, de p�, empertigada e pronta feito uma l�mina, s� esperando as pr�ximas palavras de Merana para decidir se iria mesmo golpear e cortar. Mas Merana esperou at� o ch� de mirtilo estar servido, com todas j� de volta a suas cadeiras, e chegou at� a dizer a Verin e Alanna que se sentassem. Aquela tonta merecia passar um pouco de desgosto, mesmo considerando o que estava sofrendo por Owein. O que ela fez talvez n�o fosse apenas <emphasis>quase</emphasis> um estupro.</p><p>� Considerei � continuou, finda a pausa �, mas rejeitei a ideia. Talvez tivesse seguido com a possibilidade se voc� n�o tivesse feito o que fez, Alanna, mas ele agora est� t�o desconfiado das Aes Sedai que talvez ria na minha cara se eu sugerir uma coisa dessas.</p><p>� Est� t�o arrogante quanto qualquer rei � opinou Seonid, sucinta.</p><p>� Ele � tudo o que Elayne e Nynaeve disseram e mais � acrescentou Masuri, balan�ando a cabe�a. � Alega saber quando uma mulher canaliza. Quase abracei <emphasis>saidar</emphasis> para mostrar que ele estava enganado, mas ele poderia ficar muito alarmado com qualquer demonstra��o que eu fizesse com o poder.</p><p>� E todos aqueles Aiel� � comentou Seonid, a voz bem tensa. Ela era cairhiena, afinal. � Tanto homens quanto mulheres. Acho que aqueles selvagens tentariam nos atacar com suas lan�as se pisc�ssemos r�pido demais. E tinha uma, aquela mulher de cabelo dourado, a �nica com a dec�ncia de usar saia, que n�o fazia o menor esfor�o para esconder o quanto estava descontente com nossa presen�a.</p><p>Merana �s vezes achava que Seonid n�o tinha muita no��o de que o pr�prio al�Thor poderia representar perigo.</p><p>Sem reparar no que fazia, Alanna mordiscava o l�bio inferior feito uma garotinha. Bom saber que a mulher tinha Verin para cuidar dela, j� que n�o parecia em condi��es de andar por a� sozinha. A Marrom s� bebericava o ch� e observava a conversa, assistindo a tudo com aqueles olhos t�o desconcertantes.</p><p>Merana acabou cedendo. Lembrava-se muito bem de como ficara fragilizada depois da morte de Baran, os nervos � flor da pele.</p><p>� Por sorte, parece que as suspeitas dele talvez tenham rendido bons frutos. Ele recebeu emiss�rias de Elaida, l� em Cairhien, e n�o fez quest�o de esconder o fato. Acredito que essa desconfian�a toda vai fazer com que ele mantenha dist�ncia delas.</p><p>Seonid pousou a x�cara no pires.</p><p>� Al�Thor acha que vai nos colocar umas contra as outras.</p><p>� E talvez consiga � ponderou Masuri, secamente. � Ao menos sabemos mais sobre ele do que Elaida jamais poderia saber. Acho que ela deve ter mandado as emiss�rias para encontrar um pastor, mesmo que um pastor de casaco de seda. E, bem, seja l� o que ele tenha se tornado, al�Thor j� n�o � mais isso. Parece que Moiraine o treinou bem.</p><p>� J� tinham nos avisado disso � concordou Merana. � E realmente acho muito prov�vel que elas tenham recebido o mesmo aviso.</p><p>Alanna piscou de modo surpreso, encarando as emiss�rias.</p><p>� Ent�o eu n�o estraguei tudo? � As tr�s assentiram, e ela enfim respirou fundo, alisando as saias de cenho franzido, como se tivesse acabado de notar o tecido amassado. � Eu talvez ainda consiga fazer com que ele me aceite. � Ela acalmou o rosto, perdendo a express�o de preocupa��o, a voz mais calma e confiante a cada palavra. � Quanto a essa anistia dele� bem, talvez tenhamos que suspender nossos planos, por enquanto, mas isso n�o significa que n�o podemos planejar nada. Esse tipo de perigo n�o pode ser ignorado.</p><p>Por um momento, Merana se arrependeu de ter cedido � depois de fazer aquilo a um homem, a �nica coisa que de fato preocupava a Verde era se sua atitude comprometera as chances de sucesso da Torre. Mas, relutante, acabou admitindo que, se aquilo servisse para garantir a obedi�ncia de al�Thor, ela taparia o nariz.</p><p>� Primeiro temos que tomar as r�deas de al�Thor, por assim dizer. E suspenderemos nossos planos pelo tempo que for preciso, Alanna.</p><p>A Verde estreitou a boca, mas enfim aquiesceu � ou ao menos pareceu aceitar ouvir.</p><p>� E como faremos para assumir as r�deas dele? � indagou Verin. � Al�Thor precisa ser tratado com delicadeza, ele � um lobo preso a uma correia da grossura de um barbante.</p><p>Merana hesitou. N�o era sua inten��o compartilhar tudo com aquelas duas, ainda mais porque ambas demonstravam uma lealdade muito t�nue para com o Sal�o de Salidar. Temia pelo que aconteceria se Verin tentasse assumir as r�deas � e ainda mais se ela tivesse �xito. Mas sabia manejar a situa��o, tinha sido escolhida justamente por ter vivido uma vida dedicada � media��o de disputas delicadas e � negocia��o de tratados entre partes que se odiavam. Era parte da natureza humana ver acordos quebrados e tratados violados, mas, nos seus oitenta anos de of�cio, seu �nico insucesso real foi o Quinto Tratado de Falme. Merana sabia bem disso tudo, mas ainda havia os instintos e as cautelas que aprendera ao longo dos anos, j� t�o enraizados.</p><p>� Estamos fazendo contato com alguns nobres. Por sorte, est�o todos em Caemlyn agora�</p><empty-line/><p>� Eu me preocupo � com Elayne � comentou Dyelin, com firmeza.</p><p>A mulher falava com ainda mais firmeza por estar sozinha com uma Aes Sedai na sala de estar � uma mulher da Torre podia fazer uma press�o forte quando a pessoa fraquejava por estar sozinha. Sobretudo quando ningu�m mais sabia desse encontro a s�s.</p><p>Kairen Sedai sorriu, mas nem o sorriso e nem os olhos azuis serenos revelavam qualquer coisa.</p><p>� � bem poss�vel que a Filha-herdeira acabe se sentando no Trono do Le�o. Obst�culos que podem parecer insuper�veis para outros raramente o s�o para as Aes Sedai.</p><p>� O Drag�o Renascido diz que�</p><p>� Os homens dizem muitas coisas, Lady Dyelin, mas voc� sabe que eu n�o minto.</p><empty-line/><p>Luan olhou para os lados, para o caso de algum criado entrar nas estrebarias, e deu um tapinha no pesco�o do garanh�o taireno cinzento. Mal conseguiu desviar da mordida daqueles dentes terr�veis. O Guardi�o de Rafela os alertaria caso algu�m se aproximasse, mas Luan n�o confiava em ningu�m, nos �ltimos tempos. Ainda mais com uma visita daquela.</p><p>� N�o sei bem se entendi direito � respondeu, sem rodeios.</p><p>� A unidade � melhor que a divis�o � respondeu Rafela �, a paz � melhor que a guerra, a paci�ncia � melhor que a morte. � Luan mexeu a cabe�a em contrariedade �queles chav�es, e a Aes Sedai de rosto redondo sorriu.�� N�o vai ser melhor para Andor se Rand al�Thor deixar a terra unida e em paz, Lorde Luan?</p><empty-line/><p>Segurando o robe fechado, Ellorien fitava a Aes Sedai que conseguira abord�-la durante o banho � e sem ser anunciada, talvez at� sem ser vista por mais ningu�m. A mulher de pele cor de cobre a encarava, sentada em um banquinho no outro lado da banheira de m�rmore cheia, agindo com toda a naturalidade.</p><p>� E quem ocuparia o Trono do Le�o, Demira Sedai? � perguntou, por fim.</p><p>� H� de ser o que a Roda tecer. � Foi a �nica resposta, e Ellorien sabia que n�o teria nenhuma outra.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 44</p><p><image l:href="#22"/></p><p>A cor da confian�a</p></title><p>T�o logo Vanin havia partido para dizer ao Bando que ficasse onde estava, Mat descobriu que n�o restava nenhuma estalagem em Salidar que n�o tivesse sido ocupada pelas Aes Sedai, e que at� os cinco est�bulos estavam completamente lotados. Por�m, quando deslizou uma moedinha de prata para um cavalari�o de rosto fino, o sujeito foi buscar sacas de aveia e fardos de feno em um p�tio rodeado por paredes de pedra que abrigaria seis cavalos. Tamb�m mostrou para Mat e os outros quatro homens do Bando lugares para dormir no dep�sito de feno, que era um pouco mais fresco que o lado de fora.</p><p>� N�o pe�am nada � advertiu Mat para seus homens enquanto dividia o restante das moedas entre eles. � Paguem por tudo e n�o aceitem presentes. O Bando n�o vai ficar devendo nada a ningu�m daqui.</p><p>Seu falso ar de confian�a se transmitiu aos demais, que nem hesitaram quando ele os mandou afixarem os estandartes junto � porta de entrada do dep�sito para que pendessem � frente do est�bulo, em carmesim e branco, o disco branco e preto e o Drag�o bem � vista de todos. Os olhos do cavalari�o se arregalaram e ele exigiu saber o que Mat estava fazendo.</p><p>Ele apenas sorriu e jogou um marco de ouro para o camarada de rosto fino.</p><p>� S� para que todos saibam quem est� aqui. � Mat queria que Egwene entendesse que ele n�o seria intimidado, e, algumas vezes, fazer as pessoas en xergarem isso significava ter que tomar algumas atitudes esquisitas.</p><p>O problema foi que os estandartes n�o surtiram efeito. Ah, todos que passavam por ali ficavam boquiabertos e apontavam para eles, e v�rias Aes Sedai vinham s� para dar uma olhada, os olhos frios e sem express�o, mas Mat estivera esperando um pedido indignado para que eles fossem removidos, o que nunca aconteceu. Quando ele voltou para a Pequena Torre, uma Aes Sedai, que � milagrosamente � conseguia ter cara de ameixa seca apesar das bochechas lisas e do rosto de idade indefinida, mexeu no xale de franjas marrons e disse a ele, irredut�vel, que o Trono de Amyrlin estava ocupado e que talvez pudesse receb�-lo dentro de um ou dois dias. Talvez. Elayne parecia ter desaparecido, assim como Aviendha, mas ningu�m pare cia ter tentado assassinar ningu�m ainda. Mat suspeitava de que a Aiel po de ria estar em algum lugar metida em um vestido branco. Para ele, n�o mudava nada, desde que a paz fosse mantida, j� que Mat n�o queria ter que contar a Rand que uma havia matado a outra. Ele chegou a avistar Nynaeve, mas a mulher se esgueirou por uma esquina e j� havia sumido quando Mat alcan�ou o lo cal.</p><p>Ele passou a maior parte da tarde � procura de Thom e Juilin. Tinha esperan�a de que um dos dois pudesse explicar melhor o que estava acontecendo e, al�m disso, Mat precisava se desculpar com Thom por seus coment�rios sobre aquela carta. Infelizmente, ningu�m tamb�m parecia saber onde os homens se encontravam. Bem antes do cair da noite, Mat chegou � conclus�o de que eles estavam sendo mantidos longe dele. Egwene queria mesmo desestabiliz�-lo, deix�-lo cozinhando, mas ele a faria perceber que n�o estava nem em fogo baixo. Para ajud�-lo com isso, Mat saiu para dan�ar.</p><p>A impress�o era de que as celebra��es por conta da nova Amyrlin deveriam prosseguir durante um m�s, e embora todos em Salidar parecessem atarefados ao longo do dia, fogueiras eram acesas em todas as esquinas assim que a noite ca�a, e surgiam rabecas, flautas e at� um ou dois salt�rios. M�sica e gargalhadas tomavam conta do ar, e os festejos reinavam at� a hora de ir para a cama. Mat via Aes Sedai dan�ando nas ruas com carroceiros e cavalari�os ainda trajando suas roupas pesadas de trabalho e Guardi�es dan�ando com servi�ais e cozinheiras que haviam deixado de lado os aventais. Nada de Egwene, no entanto. O maldito Trono de Amyrlin n�o ficaria saltitando e rodopiando pelas ruas. Nada tamb�m de Elayne ou Nynaeve, e nada de Thom ou Juilin. Thom n�o teria dispensado uma dan�a nem com as duas pernas quebradas, a menos que tivesse realmente sido impedido. Mat sossegou para poder se divertir, deixar que todos vissem que ele n�o dava a m�nima para qualquer outra coisa. Acabou n�o funcionando exatamente como ele queria.</p><p>Mat dan�ou um pouco com a mulher mais linda que j� tinha visto em toda a sua vida, magra e de seios fartos, que queria saber tudo sobre Mat Cauthon. A aten��o o deixara lisonjeado, especialmente quando ela perguntou se ele queria dar uma voltinha. Mas, depois de um tempo, Mat notou que Halima tinha um jeitinho de encostar nele, de se inclinar para olhar para alguma coisa, de um modo que n�o lhe dava escolha sen�o olhar seu decote. Era prov�vel que Mat tivesse gostado, o problema era que ela toda vez olhava para o rosto dele com um olhar penetrante e um sorriso divertido. N�o era uma boa dan�arina � para come�o de conversa, ficava tentando conduzi-lo �, at� que ele, por fim, pediu licen�a e foi embora.</p><p>N�o deveria ter sido um problema, mas, antes que Mat tivesse dado dez passos, a cabe�a de raposa pendurada em seu pesco�o ficou fria feito gelo. Ele se virou e, furioso, procurou pela culpada. O que viu foi Halima encarando-o � luz da fogueira. Apenas por um instante, at� que a mulher pegou um Guardi�o alto pelos bra�os e voltou a rodopiar e dan�ar, mas Mat tinha certeza de ter identificado uma express�o surpresa naquele lindo rosto.</p><p>As rabecas entoavam uma melodia conhecida. Uma das velhas lembran�as em sua mente a reconheceu, pelo menos, pois n�o havia mudado muito, considerando-se que j� se passara bem mais de mil anos. Os versos da can��o deviam ter mudado por completo, j� que as velhas palavras que ecoavam em sua mente jamais teriam sido aprovadas ali:</p><poem><stanza><v>Pode confiar em mim, disse a Aes Sedai. </v><v>Lembre: sem mim, o mundo inteiro cai. </v><v>Confie em mim, sempre fa�o o que � certo. </v><v>Cuidarei de tudo, ficarei aqui por perto. </v><v>Mas a confian�a � da cor das trevas brotando. </v><v>A confian�a � da cor do sangue pingando. </v><v>A confian�a � da cor do derradeiro corte. </v><v>A confian�a � da cor da morte.</v></stanza></poem><p>� Aes Sedai? � repetiu desdenhosamente uma jovem rechonchuda quando ele foi perguntar a respeito de Halima. Era bonita e, em outras circunst�ncias, Mat poderia ter investido em busca de uns beijinhos e de calor humano. � Halima � s� a secret�ria de Delana Sedai. Sempre provocando os homens, essa a�. Como uma criancinha com um brinquedo novo. Provoca s� para ver se consegue. J� teria ficado com �gua quente at� o pesco�o umas dez vezes, se Delana n�o a protegesse.</p><poem><stanza><v>Pode confiar em mim, disse a rainha,</v><v>lembre: carrego esse fardo sozinha.</v><v>Confie em mim para liderar, julgar e governar,</v><v>que voc� � um tolo, homem nenhum vai pensar.</v><v>Mas a confian�a � o som do mau auguro.</v><v>A confian�a � som do ardil no escuro.</v><v>A confian�a � o som do derradeiro corte.</v><v>A confian�a � o som da morte.</v></stanza></poem><p>Talvez ele tivesse se enganado. Talvez ela s� tivesse ficado chocada por ele ter ido embora. Poucos homens dispensariam uma mulher com aquela apar�ncia, pouco importando seu jeito de provocar ou dan�ar. Tinha que ser isso. Mas ainda restava a d�vida: ent�o quem e por qu�? Mat olhou em volta, para quem dan�ava e para as pessoas que observavam do limiar das sombras, onde esperavam sua vez. A Ca�adora da Trombeta de cabelos dourados que lhe parecera familiar saiu rodopiando com um sujeito de rosto particularmente encaro�ado, sua tran�a quase que se sobressaindo �s costas. Mat conseguia identificar Aes Sedai pelos seus rostos � na maioria dos casos, pelo menos �, mas n�o havia como saber qual delas tinha tentado� o que quer que tivesse tentado.</p><p>Ele saiu andando rua abaixo em dire��o � fogueira seguinte mais para escapar daquela can��o do que por qualquer outro motivo, antes que, em sua mente, a letra da m�sica passasse de �o rei no alto� e �a lady e o lorde� para �o amor da sua vida�. Naquela velha lembran�a, ele se recordava de ter escrito aquela can��o por conta do amor da sua vida. <emphasis>A confian�a tem o gosto da morte.</emphasis> Na outra esquina, um rabequista e uma mulher com uma flauta tocavam o que soava como �Afofem as Penas�, uma bela dan�a do interior.</p><p>At� onde ele podia confiar em Egwene? Ela agora era Aes Sedai. Devia mesmo ser, se agora era a Amyrlin, ainda que uma Amyrlin de meia-tigela numa aldeia de meia-tigela. Bem, o que quer que fosse, ela era Egwene, e ele n�o conseguia acreditar que ela o atacaria do nada daquele jeito. Claro que Nynaeve seria capaz, mesmo sem a inten��o real de machuc�-lo. Seu quadril, por�m, ainda do�a. O chute o deixara com um hematoma. E s� a Luz sabia do que uma mulher como Elayne seria capaz. Elas ainda estavam tentando for��-lo a ir embora, ele concluiu. Era prov�vel que houvesse outras tentativas. O melhor a fazer era ignor�-las. Mat quase torcia para que elas tentassem de novo. N�o podiam toc�-lo com o Poder e, quanto mais tentassem e fracassassem, ora, mais teriam que reconhecer que ele n�o seria manipulado.</p><p>Myrelle apareceu e ficou ao lado dele, observando o povo que dan�ava. Mat se lembrava dela vagamente. N�o achava que ela soubesse de algo perigoso a seu respeito. Pelo menos achava que n�o. N�o era t�o bela quanto Halima, claro, mas, ainda assim, era bem mais que apenas bonita. Sombras tremeluzentes dan�avam em seu rosto de modo que Mat quase poderia esquecer que ela era Aes Sedai.</p><p>� Noite quente � disse a mulher, sorrindo, e come�ou a fazer um discurso t�o descontra�do enquanto Mat se deleitava olhando para ela que ele precisou de um certo tempo para perceber aonde ela estava querendo chegar com aquela conversa.</p><p>� Acho que n�o � respondeu educadamente ele quando ela fez uma pausa. Era isso que dava esquecer. Aes Sedai eram Aes Sedai.</p><p>Ela apenas sorriu.</p><p>� Haveria muitas vantagens, e eu n�o tentaria prend�-lo �s minhas saias. Muitas vantagens. Voc� escolheu uma vida perigosa, ou a escolheram para voc�. Um Guardi�o deve ter mais chances de sobreviver.</p><p>� Eu realmente acho que n�o. Eu recuso, mas agrade�o a proposta.</p><p>� Pense um pouco, Mat. A menos que� A Amyrlin criou um elo com voc�?</p><p>� N�o. � Egwene n�o faria isso. Faria? Ela n�o poderia enquanto ele estivesse usando o medalh�o, mas ser� que faria se ele n�o o usasse? � Voc� me d� licen�a? � Mat fez uma curta rever�ncia e partiu na dire��o de uma bela jovem de olhos azuis que batia o p� no ritmo da m�sica. Ela tinha uma boca suculenta, perfeita para beijar, e ele queria se divertir, maldi��o. � Eu vi os seus olhos e n�o pude deixar de vir aqui. Quer dan�ar?</p><p>J� era tarde demais quando ele viu o anel da Grande Serpente na m�o direita da mulher, justo quando aquela boca suculenta se abriu e uma voz que ele reconheceu disse, seca:</p><p>� Uma vez eu perguntei, garoto, se voc� estaria presente quando a casa come�asse a pegar fogo, mas parece que voc� gosta de pular em fogueiras. Agora saia daqui e encontre algu�m que queira dan�ar com voc�.</p><p>Siuan Sanche! Ela tinha sido estancada e morta! Mas ali estava ela, fitando-o com o rosto que roubara de alguma jovem, fosse ela o que fosse, e usando um anel de Aes Sedai! Ele tinha tirado <emphasis>Siuan Sanche</emphasis> para dan�ar!</p><p>Enquanto Mat ainda tinha os olhos fixos nela, uma domanesa jovem e esbelta veio rodopiando com um vestido verde-claro transparente o bastante para que a luz da fogueira delineasse toda a sua silhueta. Lan�ando um olhar g�lido na dire��o de Siuan, que o devolveu com interesse, a domanesa praticamente arrastou Mat para o meio das pessoas dan�ando. Era t�o alta quanto uma Aiel, os olhos escuros at� um pouco mais altos que os dele.</p><p>� Meu nome � Leane, ali�s � disse a mulher com uma voz que parecia uma car�cia a�ucarada �, caso voc� n�o tenha me reconhecido. � Sua risadinha baixa tamb�m era quase uma car�cia.</p><p>Mat deu um pulo e quase se atrapalhou todo no primeiro giro. Ela tamb�m usava o anel. Ele concluiu o passo apenas por instinto. Alta ou n�o, Leane era como uma pluma nas m�os dele, graciosa como um cisne, mas com certeza nada disso era suficiente para abafar a pergunta que continuava a explodir na cabe�a dele feito os fogos de artificio de um Iluminador: Como? Como, sob a Luz? Para completar, quando a dan�a acabou, ela disse:</p><p>� Voc� dan�a muito bem � disse naquela voz sedutora, e ent�o o beijou com uma intensidade com que Mat jamais havia sido beijado. Ele ficou t�o chocado que nem tentou se afastar. Suspirando, ela lhe deu um tapinha na bochecha. � Dan�a muito bem mesmo. Na pr�xima vez, pense nisso como uma dan�a e voc� vai se sair bem melhor. � E l� foi ela embora gargalhando, de volta para dan�ar com algum sujeito que tirou do meio dos espectadores.</p><p>Mat decidiu que j� passara pelo m�ximo que um homem poderia suportar em uma �nica noite. Voltou ao est�bulo e caiu no sono usando a pr�pria sela como travesseiro. Seus sonhos teriam sido agrad�veis, se n�o tivessem envolvido Myrelle, Siuan, Leane e Halima. Em se tratando de sonhos, um homem simplesmente n�o tinha bom senso suficiente nem para tirar uma pedra da pr�pria bota.</p><p>O dia seguinte s� poderia ser melhor, pensou ele, em especial quando a alvorada chegou revelando Vanin no dep�sito, dormindo em sua sela. Ele contou que Talmanes tinha recebido a mensagem e ficaria onde estava. Guardi�es haviam sido vistos observando os preparativos do Bando, sem d�vida porque se permitiram ser vistos, mas nenhum deles se aproximara dos homens de Mat. Uma surpresa menos agrad�vel foi deparar com o cavalo cinza de Olver no p�tio atr�s do est�bulo, e o pr�prio Olver todo enrolado nos len��is em um canto.</p><p>� Voc� precisa de algu�m na retaguarda � justificou-se o menino, sombrio, quando Mat perguntou o que ele estava fazendo ali. � N�o pode confiar nela. � N�o precisou citar o nome de Aviendha.</p><p>Olver n�o mostrou interesse em brincar com as crian�as da aldeia, e Mat teve que suportar olhares e sorrisos conforme o garoto o seguia por toda Salidar, fazendo seu melhor para imitar o andar fluido de um Guardi�o e olhando em nove dire��es ao mesmo tempo � procura de Aviendha. E Mat continuava sem v�-la em lugar algum, assim como Elayne e Nynaeve. E a �Amyrlin� ainda estava ocupada. Thom e Juilin tamb�m estavam �ocupados�. Vanin conseguiu ouvir algumas coisas, mas nada que deixasse Mat feliz. Se Nynaeve realmente tivesse Curado Siuan e Leane, ela estaria pior do que nunca. Ela sempre se tivera em alta conta e, depois de conseguir fazer o que ningu�m julgara poss�vel, seu peito estaria mais estufado que o de um pombo. Mas essa n�o era a pior parte. A hist�ria sobre Logain e a Ajah Vermelha deram calafrios em Mat. Aquilo soava como o tipo de coisa que nenhuma Aes Sedai perdoaria. Se Gareth Bryne era o l�der do ex�rcito delas, n�o se tratava de um amontoado de fazendeiros e varredores de rua com alguns Guardi�es para dar mais corpo. Considerando-se tudo isso e as provis�es que Vanin viu serem empacotadas ou acondicionadas em barris para viagem, a �nica conclus�o era que haveria problemas. O pior tipo de problema que Mat poderia imaginar, pouco melhor do que dar de cara com um dos Abandonados na mesa ao lado e mais uma d�zia de Trollocs entrando pela porta. Nada daquilo as tornava menos tolas, apenas tolas muito perigosas. Thom e seu �ajud�-las a fazer o que elas querem�. Se o menestrel sa�sse da toca algum dia, talvez pudesse tirar um �como� daquelas suas hist�rias.</p><p>� noite, Myrelle voltou a conversar com Mat a respeito de ele se tornar um Guardi�o, e seus olhos se estreitaram em desagrado quando Mat lhe disse que a proposta dela era a quinta que ele dispensava desde o nascer do sol. Ele n�o teve certeza se ela acreditou, j� que a mulher foi embora com o andar mais exasperado que ele j� vira em uma Aes Sedai. Por�m, era verdade. A primeir�ssima, quando ele ainda tentava tomar o caf� da manh�, fora da mesma Delana para quem Halima trabalhava, uma mulher corpulenta de cabelo claro e olhos azuis que chegou perto de tentar intimid�-lo a aceitar. Naquela noite, ele se manteve longe da dan�a e foi dormir com as m�sicas e gargalhadas em seus ouvidos. Desta vez, soavam amargas.</p><p>Foi no meio da tarde do segundo dia inteiro de Mat em Salidar que uma garota de vestido branco, bonita, sardenta e se esfor�ando bastante para demonstrar uma dignidade g�lida � e quase sendo bem-sucedida �, abordou-o com uma convoca��o exatamente assim:</p><p>� Voc� vai se apresentar imediatamente perante o Trono de Amyrlin. � Ponto final, e mais nenhuma palavra.</p><p>Mat sinalizou para que ela fosse na frente. Pareceu adequado, e ela pareceu gostar.</p><p>Estavam todas elas naquele aposento da Pequena Torre, Egwene, Nynaeve, Elayne e Aviendha, embora Mat tenha precisado olhar duas vezes para reconhecer a Aiel em um vestido azul de l� cara, com gola e punhos rendados. Pelo menos nem Aviendha nem Elayne estavam tentando estrangular uma a outra, mas ambas tinham uma express�o p�trea. Assim como Egwene e Nynaeve, ali�s. Os rostos estavam todos indecifr�veis, e todos os olhos voltaram-se para ele. Conseguiu segurar a l�ngua enquanto Egwene exp�s as alternativas de Mat, na opini�o dela, sempre sentada por detr�s da mesa e com aquela estola listrada sobre os ombros.</p><p>� Caso voc� ache que n�o � capaz de fazer nenhuma das duas coisas � concluiu ela �, lembre-se de que eu posso amarrar voc� no seu cavalo e mand�-lo de volta para esse seu Bando da M�o. Em Salidar, n�o h� lugar para pregui�osos e gente que faz corpo mole. Eu n�o vou permitir uma coisa dessas. Voc� tem duas escolhas, Mat: ou vai para Ebou Dar com Elayne e Nynaeve ou vai embora para ver quem voc� consegue impressionar com bandeiras e estandartes.</p><p>O que o deixava sem escolha, claro. Quando ele apontou isso, nenhuma express�o se alterou. Se muito, Nynaeve se mostrou ainda mais severa. E Egwene disse apenas:</p><p>� Fico feliz que tudo esteja resolvido, Mat. Agora tenho mil coisas para fazer. Vou tentar v�-lo antes de voc� ir. � Dispensado feito um cavalari�o. A Amyrlin estava ocupada. O m�nimo que poderia ter feito era lhe jogar uma moeda de cobre.</p><p>Foi por isso que na terceira manh� de Mat em Salidar ele foi at� a entrada do lugar, na �rea descampada entre a aldeia e a floresta.</p><p>� Pode ser que elas continuem aqui at� eu voltar � disse Mat para Talmanes, olhando por cima do ombro em dire��o �s casas. Elas viriam logo, e Mat n�o queria que nada daquilo chegasse aos ouvidos de Egwene. Se pudesse, ela tentaria p�r um fim nos seus planos. � Bem, � o que eu espero. Se elas se des locarem, siga-as aonde quer que seja, mas nunca t�o de perto a ponto de assust�-las. E se uma jovem chamada Egwene aparecer, n�o fa�a perguntas, trate apenas de captur�-la e lev�-la para Caemlyn, mesmo que seja preciso passar por cima de Gareth Bryne. � Claro que eles poderiam estar pretendendo ir a Caemlyn. Havia essa chance. Mas Mat temia que o alvo delas fosse Tar Valon. Tar Valon e o machado do carrasco. � E leve Nerim com voc�.</p><p>Talmanes balan�ou a cabe�a.</p><p>� Se Nalesean estiver indo com voc�, vou ficar ofendido se voc� n�o permitir que eu envie um dos meus homens para cuidar das suas coisas. � Mat gostaria que Talmanes sorrisse de vez em quando. Ajudaria a saber quando ele estava falando s�rio. Ele certamente soava s�rio.</p><p>Nerim estava parado de p� ali perto, com Pips, e sua pr�pria �gua marrom roli�a, al�m de dois burros de carga com cestos de vime atulhados at� a boca. O homem de Nalesean, um sujeito robusto chamado Lopin, conduzia apenas um animal de carga, al�m do seu cap�o com focinho em formato de martelo e do imenso garanh�o negro de Nalesean.</p><p>A comitiva n�o acabava a�. Ningu�m parecia querer dizer a Mat mais do que o ponto de encontro e quando ele deveria estar l�, mas, durante outra conversa tentando convenc�-lo a se tornar Guardi�o, Myrelle deixara escapar que j� n�o havia mais problema se ele se comunicasse com o Bando, desde que n�o tentasse traz�-los para mais perto de Salidar. Ele nem tinha cogitado uma coisa dessas. Vanin estava ali naquela manh� porque suas habilidades como batedor seriam �teis, assim como cerca de dez soldados do Bando, selecionados por conta dos ombros pesados e por terem se mostrado capazes de manter a ordem enquanto ainda eram Bra�os Vermelhos em Maerone. Pelo que Nalesean dissera, clavas e punhos ligeiros deveriam dar conta de qualquer confus�o em que Nynaeve e Elayne se metessem, ao menos por tempo suficiente para lev�-las embora na surdina. L� no final vinha Olver, montado no cavalo cinza que batizara de Vento, um nome que o animal de pernas compridas at� poderia merecer. Claro que ele levaria Olver junto. O Bando poderia muito bem se meter em problemas se acabasse tendo que acompanhar aquele monte de malucas. Talvez n�o problemas com Bryne, mas havia grandes chances de os nobres ficarem eri�ados ao verem dois ex�rcitos cruzando suas terras e resolverem atacar os cavalos � noite e atirarem flechas matagal sim, matagal n�o. Para um garoto, qualquer cidade havia de ser mais segura que isso.</p><p>Ainda n�o havia qualquer sinal de nenhuma Aes Sedai, e o sol j� come�ava a ass�-los por sobre as copas das �rvores.</p><p>Num gesto irritado, Mat puxou o chap�u para baixo.</p><p>� Nalesean conhece Ebou Dar, Talmanes. � O taireno deu um risinho em meio ao suor e assentiu. A express�o de Talmanes n�o se alterou. � Ah, est� bem. Nerim vem com a gente. � Talmanes inclinou a cabe�a. Talvez tivesse falado s�rio.</p><p>Por fim, houve uma movimenta��o na aldeia, um grupo de mulheres conduzindo cavalos. Elayne e Nynaeve estavam acompanhadas, embora Mat n�o estivesse esperando mais ningu�m. Aviendha trajava um vestido de cavalgada cinza, mas olhava para a sua �gua parda esguia com um ar mais que duvidoso. Aquela Ca�adora da tran�a dourada demonstrava mais confian�a com um cap�o de ancas pesadas da cor de um camundongo, e parecia estar tentando convencer Aviendha de algo em rela��o � sua �gua. O que aquelas duas estavam fazendo ali? Tamb�m havia duas Aes Sedai � outras duas Aes Sedai al�m de Nynaeve e Elayne, melhor dizendo �, mulheres esbeltas com cabelos brancos que Mat ainda n�o tinha visto em Aes Sedai. Um sujeito de certa idade, magro, por�m musculoso, e quase careca � os poucos fios que ainda restavam eram grisalhos � vinha atr�s delas com um animal de carga, al�m da sua pr�pria montaria. Mat levou um tempo para perceber que se tratava de um Guardi�o, com um daqueles mantos furta-cor lhe pendendo �s costas. Essa era a vida de um Guardi�o. As Aes Sedai faziam o sujeito trabalhar at� ele perder os cabelos, e ent�o, depois que o pobre coitado morresse, provavelmente ainda encontrariam serventia para os seus ossos.</p><p>Thom e Juilin vinham n�o muito atr�s, e tamb�m traziam um burro de carga. As mulheres pararam a umas cinquenta passadas � esquerda junto do Guardi�o idoso, mal olhando para Mat e seus homens. O menestrel deu uma olhada furtiva na dire��o de Nynaeve e as demais e, a seguir, falou com Juilin, e ambos conduziram seus cavalos na dire��o de Mat, parando um pouco antes dele como se n�o tivessem certeza de que eram bem-vindos. Mat se aproximou.</p><p>� Tenho que lhe pedir desculpas, Mat � disse Thom, apertando o bigode. � Elayne foi bem enf�tica ao me proibir de continuar conversando com voc�. S� mudou de ideia hoje de manh�. Num momento de fraqueza h� alguns meses, prometi obedecer �s ordens dela, e ela joga isso na minha cara nas situa��es mais esquisitas. Ela n�o ficou muito feliz por eu ter lhe dito o que disse.</p><p>� Nynaeve amea�ou me dar um soco no olho se eu chegasse perto de voc� � revelou Juilin em tom tristonho, apoiando-se em seu cajado de bambu. Estava usando um chap�u taraboniano vermelho que n�o oferecia tanta prote��o contra o sol, e at� o chap�u parecia triste.</p><p>Mat desviou o olhar na dire��o das mulheres. Nynaeve o espiava por cima da pr�pria sela, mas, quando percebeu que ele estava olhando, agachou-se atr�s do animal, uma �gua marrom atarracada. Ele n�o teria pensado que nem Nynaeve seria capaz de mandar em Juilin, mas o apanhador de ladr�es de pele escura estava bem longe de ser o homem com quem Mat convivera um pouco em Tear. Aque le Juilin se mostrara pronto para tudo. Este Juilin, com a testa franzida, parecia sempre preocupado com alguma coisa.</p><p>� N�s vamos ensinar para elas um pouco de boas maneiras durante esta viagem, Juilin. Thom, eu � que tenho que pedir desculpas. Aquilo que eu disse sobre a carta� Foi o calor que me fez falar sem pensar, e eu estava preocupado com certas mulheres idiotas. Espero que as not�cias tenham sido boas. � Foi tarde demais quando ele se recordou do que Thom dissera. O homem abandonara � morte a mulher que tinha escrito aquela carta.</p><p>Thom, por�m, s� deu de ombros. Mat n�o sabia o que pensar dele sem o manto de menestrel.</p><p>� Not�cias boas? Eu ainda nem decifrei aquela carta. � comum n�o se saber se uma mulher � amiga, inimiga ou amante at� j� ser tarde demais. �s vezes, ela � os tr�s. � Mat esperava uma gargalhada, mas Thom franziu a testa e suspirou. � As mulheres parecem gostar de se passar por misteriosas, Mat. Posso dar um exemplo. Voc� se lembra de Aludra?</p><p>Mat precisou pensar.</p><p>� A Iluminadora que salvamos em Aringill?</p><p>� A pr�pria. Juilin e eu a encontramos durante as nossas viagens e ela n�o sabia quem eu era. N�o que ela n�o tenha me reconhec ido, j� que � normal conversar com companheiros de viagem desconhecidos para poder conhec�-los melhor. Aludra n�o quis me conhecer, e mesmo sem eu saber por qu�, n�o vi raz�o para impor nada. Encontrei-a como uma estranha e a deixei como uma estranha. E a�, voc� a veria como uma amiga ou uma inimiga?</p><p>� Talvez como amante � respondeu Mat, seco. Ele n�o se importaria em encontrar Aludra de novo. Ela lhe dera alguns fogos de artif�cio que se provaram bem �teis. � Se voc� quiser saber sobre mulheres, pergunte para Perrin, n�o para mim. N�o entendo nada desse assunto. Eu costumava achar que Rand en tendia, mas Perrin com certeza entende. � Elayne estava conversando com as duas Aes Sedai de cabelo branco sob o olhar atento da Ca�adora. Uma das Aes Sedai mais velhas deu uma olhada inquisitiva na dire��o de Mat. Agiam como Elayne, serenas como uma rainha em seu maldito trono. � Bem, com sorte, n�o vou precisar aturar essas malucas por muito tempo � resmungou Mat con sigo mesmo. � Com sorte, o que quer que elas estejam indo fazer l� n�o vai demorar muito e em cinco ou dez dias estaremos de volta. � Com sorte, ele poderia estar de volta antes que o Bando precisasse come�ar a seguir aquelas loucas. Seguir n�o apenas um ex�rcito, mas dois, seria f�cil como roubar tortas, claro, mas Mat n�o queria passar nem um dia a mais que o necess�rio na companhia de Elayne.</p><p>� Dez dias? � indagou Thom. � Mesmo com esse tal de �port�o�, Mat, vamos precisar de cinco ou seis dias s� para chegar a Ebou Dar. � melhor que uns vinte, mas�</p><p>Mat parou de prestar aten��o. Cada gota de irrita��o que ele vinha acumulando desde a primeira vez em que tornou a pousar os olhos em Egwene transbordou de uma s� vez. Ele apanhou o chap�u e foi andando decidido at� Elayne e as outras. Deix�-lo sem saber nada j� era ruim o bastante � como ele poderia mant�-las longe de confus�o se elas n�o lhe contavam nada? �, mas aquilo era rid�culo. Nynaeve o viu se aproximando e, por algum motivo, escondeu-se tr�s de sua �gua.</p><p>� Vai ser interessante viajar com um <emphasis>ta�veren </emphasis>� comentou uma das Aes Sedai de cabelo branco. Mesmo de perto, ele ainda n�o conseguia dizer quantos anos a mulher tinha, mas, de alguma forma, algo em seu rosto transmitia certa idade. Devia ser o cabelo. A outra Aes Sedai parecia um reflexo da primeira. Talvez elas realmente fossem irm�s. � Meu nome � Vandene Namelle.</p><p>Mat n�o estava no clima para falar sobre ser um <emphasis>ta�veren</emphasis> . Nunca sentia vontade de fazer isso, mas menos ainda naquele momento.</p><p>� Que hist�ria � essa de que a gente vai levar cinco ou seis dias para chegar a Ebou Dar? � O velho Guardi�o se endireitou, encarando-o com severidade, e Mat tamb�m o reavaliou. Podia ser magro, mas era duro feito ra�zes velhas. Mas isso n�o bastou para faz�-lo moderar o tom de voz. � Voc�s podem abrir um port�o na frente de Ebou Dar. N�o somos nenhum maldito ex�rcito que v� assustar algu�m, e, quanto a aparecer do nada, voc�s s�o Aes Sedai. As pessoas j� esperam que voc�s apare�am do nada e atravessem paredes.</p><p>� Receio que voc� esteja falando com a Aes Sedai errada � disse Vandene. Mat olhou para a outra mulher de cabelo branco, que balan�ou a cabe�a enquanto Vandene disse: � N�o, n�o Adeleas. Parece que n�o somos fortes o bastante para algumas das novidades.</p><p>Mat hesitou, ent�o afundou o chap�u na cabe�a e se virou para Elayne.</p><p>A mulher empinou o nariz imediatamente.</p><p>� Parece que voc� sabe ainda menos do que pensa, Mestre Cauthon � afirmou ela com frieza. N�o estava suando, ele percebeu, n�o mais que as duas� as outras duas� Aes Sedai. A Ca�adora olhava para ele de modo desafiador. Por acaso ele tinha enfiado uma abelha no seu ouvido para ela ficar olhando-o com aquela cara? � H� aldeias e fazendas num entorno de cem milhas de Ebou Dar � prosseguiu Elayne, como se tentasse explicar o �bvio para algu�m n�o muito inteligente. � Port�es s�o perigosos. N�o quero matar as ovelhas e vacas de um pobre coitado qualquer, e muito menos o pr�prio pobre coitado.</p><p>N�o era s� aquele tom de voz que Mat odiava. Elayne estava certa, e ele tamb�m odiava isso. Mas n�o estava a ponto de admitir, n�o para ela, e, buscando uma maneira de se retirar, avistou Egwene saindo da aldeia acompanhada por vinte ou mais Aes Sedai, a maioria delas usando os xales com as franjas coloridas. Ou melhor, ela vinha, e as mulheres a seguiam. Cabe�a bem erguida, Egwene olhava para a frente, aquela estola listrada sobre os ombros. As outras vinham caminhando logo atr�s em pequenos grupos. Sheriam, trajando a estola azul da Curadora, conversava com Myrelle e uma Aes Sedai de rosto austero que conseguia ter uma express�o maternal. Exceto por Delana, ele n�o reconheceu nenhuma das demais � uma tinha o cabelo grisalho preso num coque, e ele se perguntou quantos anos uma Aes Sedai precisava ter para que seu cabelo ficasse completamente grisalho ou branco �, mas todas conversavam entre si, ignorando a mulher que haviam elevado a Amyrlin. Egwene poderia muito bem estar sozinha. Parecia sozinha. Mat a conhecia bem, e sabia que ela provavelmente estava fazendo tudo a seu alcance para se tornar quem aquelas mulheres queriam que ela fosse, e ainda assim elas a deixavam caminhar sozinha daquela forma e ficavam apenas olhando.</p><p><emphasis>Elas que v�o para o Po�o da Perdi��o se acham que podem tratar desse jeito uma mulher de Dois Rios</emphasis> , pensou Mat, irritado.</p><p>Apertou o passo para alcan�ar Egwene, ent�o tirou o chap�u e fez uma rever�ncia, executando o melhor movimento de perna que conseguiu � Mat sabia que era capaz de fazer alguns floreios quando precisava.</p><p>� Bom dia, M�e, e que a Luz brilhe sobre voc� � cumprimentou, alto o bastante para ser ouvido at� na aldeia. Mat se ajoelhou, tomou a m�o direita de Egwene e beijou o anel da Grande Serpente. Sabendo que Egwene impedia seu rosto de ser visto pelas mulheres atr�s dela, ele lan�ou um r�pido olhar de reprova��o para Talmanes e os outros, que se ajoelharam aos trancos e barrancos e bradaram �Que a Luz a ilumine, M�e� ou algo do tipo. At� Thom e Juilin os imitaram.</p><p>De in�cio, Egwene pareceu assustada, embora logo tenha escondido isso. Ent�o, sorriu e, com delicadeza, disse:</p><p>� Obrigada, Mat.</p><p>Por um momento, ele apenas ficou olhando para a amiga, ent�o pigarreou e se levantou, esfregando os joelhos. Sheriam e todas as outras atr�s de Egwene o observavam.</p><p>� Eu n�o esperava ver voc�s aqui � afirmou ele, em voz baixa �, mas, pelo visto, parece que h� muitas coisas que eu n�o esperava. A Amyrlin sempre se despede das pessoas que v�o viajar? Voc� n�o quer mesmo me contar do que se trata tudo isso?</p><p>Por um instante, Mat achou que ela fosse contar, mas a boca de Egwene se comprimiu e ela balan�ou de leve a cabe�a.</p><p>� Eu sempre me despe�o dos meus amigos, Mat. Eu teria falado com voc� antes de hoje se n�o andasse t�o ocupada. Tente n�o se meter em problemas em Ebou Dar, Mat.</p><p>Ele apenas a olhou, indignado. Mat tinha se ajoelhado e beijado o seu anel de Aes Sedai, e agora ela vinha dizer para <emphasis>ele</emphasis> ficar longe de confus�o, quando tudo o que queria era evitar que arrancassem a pele de Elayne e Nynaeve.</p><p>� Vou tentar, M�e � retrucou, sarc�stico, mas n�o muito. Sheriam e algumas das demais poderiam estar perto o bastante para ouvir. � Se me d� licen�a, preciso ir cuidar dos meus homens.</p><p>Outra rever�ncia, e ele recuou alguns passos ainda virado para ela antes de sair caminhando at� onde Talmanes e os outros continuavam ajoelhados.</p><p>� Voc�s pretendem ficar assim at� criar ra�zes? � resmungou ele. � Montem. � Mat obedeceu � pr�pria ordem e todos, menos Talmanes, subiram em suas selas o mais r�pido poss�vel.</p><p>Egwene foi se despedir de Elayne e Nynaeve enquanto Vandene e Adeleas conversavam com Sheriam, e ent�o logo chegou a hora, depois de dias de tanta enrola��o. Mat at� esperava algum tipo de cerim�nia, com Egwene ali presente com a estola de Amyrlin, mas ela e as demais s� se afastaram um pouco. Elayne se afastou e, de repente, um rasgo de luz surgiu � sua frente e se ampliou at� virar um buraco com vista para o que parecia ser o topo de uma colina baixa coberta por uma vegeta��o marrom, que girou at� parar. Exatamente como o de Rand fez.</p><p>� Desmontem � ordenou Mat. Elayne demonstrava estar bem satisfeita consigo mesma. Quem visse aquele sorriso de pura alegria, que pedia que Nynaeve e Aviendha sorrissem com ela, nunca suspeitaria de como ela era uma mulher intrag�vel. Mas, contente ou n�o, o port�o n�o era t�o grande quanto o que Rand abrira para o Bando. Claro que o grupo atual era bem menor, mas o m�nimo que ela poderia ter feito era abrir um port�o com altura suficiente para que o atravessassem a cavalo.</p><p>Do outro lado, Mat via colinas suaves com grama seca at� onde a vista alcan�ava, mesmo quando tornou a montar em Pips, embora uma massa escura ao sul parecesse sugerir uma floresta. Colinas secas e com muita poeira.</p><p>� Melhor n�o for�armos muito os cavalos � sugeriu Adeleas, montando com extrema facilidade em sua �gua baia t�o logo o port�o desapareceu. O animal rechonchudo provavelmente se sairia muito melhor em um celeiro.</p><p>� Ah, n�o mesmo � concordou Vandene. A montaria da mulher era um cap�o negro de flancos quadrados e passos leves. As duas partiram rumo ao sul, sinalizando para que todos as seguissem. O velho Guardi�o as seguia de perto.</p><p>Nynaeve e Elayne trocaram olhares irritados, e ent�o esporaram suas �guas para alcan�ar as mulheres mais velhas, levantando poeira at� emparelharem. A Ca�adora da tran�a dourada as acompanhava da mesma maneira que o Guardi�o seguia a outra dupla.</p><p>Com um suspiro, Mat desatou o len�o preto em seu pesco�o e o amarrou por cima do nariz e da boca. Mesmo que adorasse ver as Aes Sedai mais velhas ensinarem aquelas duas a se comportarem direito, o que ele queria mesmo era uma cavalgada tranquila, uma estadia curta em Ebou Dar, e estar de volta a Salidar o mais r�pido poss�vel, antes que Egwene fizesse algo est�pido e irremedi�vel. As mulheres sempre lhe criavam problemas. Ele n�o compreendia por qu�.</p><empty-line/><p>Quando o port�o se apagou, Egwene soltou um suspiro. Talvez Elayne e Nynaeve, juntas, conseguissem evitar que Mat se metesse em confus�es demais. Mant�-lo completamente longe de problemas era pedir muito. Ela sentia uma pontada de arrependimento por us�-lo, mas ele poderia vir a ser �til em Ebou Dar e precisava ser afastado do Bando. Al�m disso, Mat merecia. Talvez Elayne <emphasis>fosse</emphasis> ensinar-lhe algumas boas maneiras.</p><p>Virando-se para as demais, o Sal�o, Sheriam e seu c�rculo, disse:</p><p>� Vamos? J� est� na hora.</p><p>Todos os olhos se voltaram para o cairhieno de manto escuro que s� �quela altura montava em seu cavalo junto �s �rvores. Egwene achava que Mat dissera que o nome do homem era Talmanes. Ela n�o ousara fazer muitas perguntas. Ele examinou-as por um momento e balan�ou a cabe�a antes de cavalgar de volta para a floresta.</p><p>� Aquele ali tem cara de quem vai criar problemas � afirmou Romanda.</p><p>Lelaine aquiesceu.</p><p>� Vai ser muito bom ter algumas milhas entre n�s e aqueles homens.</p><p>Egwene n�o se permitiu sorrir. O Bando de Mat havia servido ao seu primeiro prop�sito, mas muita coisa dependia exatamente de que ordens ele deixara com esse tal de Talmanes. Egwene achava que podia contar com Mat. Siuan dissera que aquele tal de Vanin desencavara certas coisas antes que ela pudesse coloc�-las debaixo do nariz dele. E se fosse para ela �escutar a voz da raz�o� e correr atr�s do Bando em busca de prote��o, ent�o o Bando teria que estar perto dela.</p><p>� Vamos buscar os cavalos? � perguntou. � Se partirmos agora, devemos alcan�ar Lorde Bryne bem antes do p�r do sol.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 45</p><p><image l:href="#10"/></p><p>Um pensamento amargo</p></title><p>Vilnar estava perdido em pensamentos, cogitando fazer a barba enquanto conduzia a patrulha montada pelas ruas da Cidade Nova, n�o muito longe da imensa muralha externa, cujas pedras cinzentas reluziam em listras brancas e prateadas ao sol do meio-dia. Alguns dos outros homens j� estavam de rosto liso. Mesmo que todos dissessem que aquele calor n�o era normal, com certeza devia estar mais fresco em Saldaea.</p><p>Ali era seguro o suficiente para ele deixar os pensamentos vagarem. Conseguia conduzir o cavalo at� de olhos fechados, e s� um ladr�ozinho muito tolo para tentar exercer seu of�cio t�o perto de dez saldaeanos. A patrulha cavalgava sem roteiro certo, para que os sujeitos nunca soubessem onde era seguro operar. Ali�s, era mais comum os bandidos se entregarem do que eles terem que ir atr�s de foragidos. O valent�o mais dur�o de Caemlyn preferiria correr para os bra�os de um saldaeano do que deixar que um Aiel o prendesse. Por isso, Vilnar mantinha s� metade da aten��o na rua, deixando a mente viajar. Pensava na garota que o esperava em Melar, sua terra natal. O pai dela era mercador, e sua vontade de ter um filho soldado talvez s� fosse maior que a vontade de Teryane de se casar com um. Pensou no jogo que aquelas Aiel tinham sugerido � �O Beijo da Donzela� parecia uma brincadeira inocente, mas viu um brilho suspeito nos olhos delas quando deram a sugest�o. No entanto, pensava principalmente nas Aes Se dai.</p><p>Vilnar sempre quis ver uma Aes Sedai de perto, e com certeza n�o havia lugar melhor para realizar seu desejo do que ali em Caemlyn, a menos que algum dia viajasse para Tar Valon. Parecia que havia Aes Sedai por toda Caemlyn � fora visitar a estalagem O Sabujo de Culain, onde os rumores diziam que havia cem, mas n�o teve coragem de entrar . Era bem valente com uma espada na m�o, um cavalo entre as pernas e homens ou Trollocs � frente, mas ficava t�mido s� de pensar nas Aes Sedai. E aquela estalagem n�o teria acomodado cem mulheres, ali�s. E nenhuma das garotas que vira poderia ser Aes Sedai, sem chance. Tamb�m fora visitar A Coroa de Rosas, que ficara observando do outro lado da rua, mas n�o deu para ter certeza se alguma das mulheres que avistara era uma Aes Sedai, o que s� poderia significar que n�o eram.</p><p>Olhou desconfiado para uma mulher magra de nariz grande que saiu de uma casa imponente que devia pertencer a algum mercador. A mulher ficou um tempo parada, encarando a rua de cenho franzido, antes de finalmente enfiar um chap�u de palha de aba larga na cabe�a e ir embora apressada. Vilnar balan�ou a cabe�a. N�o sabia afirmar a idade dela, mas isso s� n�o bastava. Sabia reconhecer uma Aes Sedai. Jidar podia continuar dizendo que eram mulheres t�o bonitas que podiam matar qualquer homem s� com um sorriso; e Rissen podia insistir que todas eram um p� mais altas que qualquer homem � Vilnar sabia que era pelo rosto que se sabia se a mulher era ou n�o Aes Sedai, aquele rosto sem idade definida, o rosto de uma imortal. Era algo imposs�vel de confundir.</p><p>Vilnar se esqueceu de vez das Aes Sedai quando a patrulha parou diante do enorme arco abobadado do Port�o da Ponte Branca. Do outro lado, uma das feiras se estendia ao longo da estrada, com grandes barrac�es de pedra cobertos com telhas vermelhas ou roxas; currais repletos de bezerros, porcos e carneiros, galinhas, patos e gansos; e barracas que vendiam de tudo, de feij�es a nabos. O normal nessas feiras era uma cacofonia de mercadores oferecendo seus produtos, mas n�o se ouviam as vozes humanas, restando apenas o som dos animais conforme a marcha silenciosa avan�ava mercado adentro at� o port�o, uma das prociss�es mais estranhas que ele j� vira.</p><p>Quatro fileiras de feirantes formavam uma longa coluna, quase todos a cavalo, e parecia haver carro��es logo atr�s � s� podiam ser os fazendeiros, considerando seus casacos grosseiros, mas Vilnar notou que cada homem trazia a tiracolo o maior arco que ele j� vira, al�m de uma aljava cheia pendurada de um lado do corpo e uma faca comprida ou espada curta do outro. � frente da prociss�o havia um estandarte branco com bordas vermelhas e uma cabe�a de lobo vermelha, e quem encabe�ava a prociss�o era um grupo t�o inusitado quanto a pr�pria coluna: tr�s Aiel � todos a p�, claro , sendo duas Donzelas �, junto com um sujeito cujo casaco vistoso de listras verdes e as cal�as de um tom amarelo berrante indicavam ser um Latoeiro, mas que s� podia ser outra coisa, considerando a espada que levava �s costas. O homem de roupas berrantes conduzia um cavalo de tra��o de Nashun com uma sela apropriada para um gigante. O l�der parecia um sujeito de cabelo desgrenhado, com ombros largos e barba curta, levando no cinto um machado pavoroso. A seu lado vinha uma saldaeana com saias divididas estreitas e escuras, e a mulher n�o parava de lan�ar olhares afetuosos ao sujeito�</p><p>Vilnar se endireitou mais para a frente na sela. Reconhecia a saldaeana e pensou em Lorde Bashere, que estava no Pal�cio Real. E mais: pensou em Lady Deira, e isso fez seu sangue gelar � ela tamb�m estava no Pal�cio. Vilnar acharia uma maravilha se alguma Aes Sedai sacudisse os bra�os e transformasse toda aquela coluna em Trollocs. Talvez aquele fosse o pre�o de sonhar acordado. Se tivesse ele mantido a mente concentrada no dever, a patrulha j� estaria bem longe dali e ele n�o teria que lidar com aquilo. Ainda assim, tinha ordens a cumprir.</p><p>Posicionou os homens diante do port�o, cogitando se Lady Deira mandaria cortarem a sua cabe�a.</p><empty-line/><p>Perrin deixou o garanh�o castanho seguir a um passo lento, s� puxando as r�deas a menos de dez passadas do port�o da cidade. Galope tamb�m ficou feliz em parar, pois n�o gostava nada do calor. A julgar pelos narizes pronunciados e pelos olhos enviesados, os homens a cavalo que bloqueavam o port�o s� podiam ser saldaeanos. Alguns ostentavam lustrosas barbas negras, outros usavam bigodes grossos, mas havia alguns de rosto limpo. Todos, menos um, estavam com a m�o pousada no punho da espada. Mesmo sem brisa, o ar parecia se agitar ao redor deles, e n�o havia cheiro de medo. Olhou para Faile, que estava curvada por cima do pesco�o arqueado de Andorinha, muito concentrada em tatear a r�dea da �gua negra. Ela cheirava a sab�o de ervas e ansiedade, mas era um cheiro t�nue. Tinham ouvido sobre os saldaeanos em Caemlyn nas �ltimas duzentas milhas ou mais de viagem. As tropas supostamente eram comandadas pelo pai de Faile. Aquilo n�o pareceu preocup�-la, mas a menina tinha certeza de que a m�e tamb�m estaria em Caemlyn � e dizia que aquilo tamb�m n�o a preocupava.</p><p>� Nem precisamos dos arqueiros � opinou Aram, baixinho, passando a m�o no punho da espada despontando por cima do ombro. Seus olhos escuros denotavam certa ansiedade, e ele de fato cheirava a ansiedade. � S� s�o dez. Eu e voc� sozinhos dar�amos conta de passar por cima deles.</p><p>Gaul j� velara o rosto, e Perrin estava quase certo de que Bain e Chiad, do outro lado de Faile, tinham feito o mesmo.</p><p>� Nada de arqueiros, e nada de passar por cima de ningu�m � retrucou Perrin. � E nada de lan�as, Gaul.</p><p>N�o falou nada com Bain ou Chiad � as duas s� davam ouvidos para Faile, em todo caso, e ela n�o parecia disposta a erguer os olhos ou dizer uma palavra que fosse, n�o t�o cedo. Gaul simplesmente deu de ombros e baixou o v�u. Aram franziu o cenho, desapontado.</p><p>Perrin manteve o rosto tranquilo enquanto se virava para os saldaeanos. Seus olhos amarelos �s vezes deixavam os homens nervosos.</p><p>� Eu sou Perrin Aybara. Acho que Rand al�Thor vai querer me receber.</p><p>O sujeito barbado, o �nico que n�o encostara na espada, fez uma pequena rever�ncia do alto da sela.</p><p>� Lorde Aybara, eu sou Vilnar Barada, subtenente jurado pela espada ao Lorde Davram Bashere. � O homem falou bem alto. Perrin reparou que ele tamb�m evitava olhar para Faile. Sua esposa suspirou com a men��o ao pai e fez uma careta para Barada; seu olhar ficou ainda mais feio quando o homem continuou a ignor�-la. � Pelas ordens de Lorde Bashere � continuou, ent�o completou, como se s� ent�o tivesse se lembrado �, e do Lorde Drag�o, nenhum nobre pode ter permiss�o de entrar em Caemlyn com mais de vinte homens armados ou cinquenta servi�ais.</p><p>Aram ficou inquieto, ainda montado. Ele ficava ainda mais irritado com ataques � suposta honra de Perrin do que Faile, que j� o defendia com unhas e dentes. Gra�as � Luz ele n�o desembainharia a espada contra as ordens que recebera.</p><p>Perrin virou para tr�s e falou, por cima do ombro:</p><p>� Dannil, leve todo mundo de volta para aquela campina, umas tr�s milhas atr�s, e monte acampamento. Se algum fazendeiro aparecer para reclamar, d� um pouco de ouro e trate de acalmar o sujeito. Deixe bem claro que ele vai receber compensa��o por qualquer preju�zo. Aram, v� com eles.</p><p>Dannil Lewin, um sujeito magro feito um cani�o com um bigode grosso que quase escondia a boca, levou a m�o � testa, mesmo Perrin tendo dito tantas vezes que bastava um simples �tudo bem�. Ele na mesma hora come�ou a dar as ordens de meia-volta. Claro que Aram se enrijeceu todo � ele nunca gostava de ficar longe de Perrin �, mas tamb�m claro que ele n�o protestou. �s vezes, Perrin achava que o antigo Latoeiro era na verdade um c�o de ca�a. N�o era bom que homem nenhum se comportasse daquela maneira, mas n�o sabia o que fazer a respeito.</p><p>Achava que Faile fosse reclamar bastante da ordem para que todos voltassem, e ficou esperando ela mencionar os direitos da suposta posi��o que ele ocupava e insistir em levar os vinte homens que Barada permitiria, junto com o mais pr�ximo dos cinquenta servos que conseguissem arranjar. Mas Faile estava inclinada para fora da sela, cochichando com Bain e Chiad. Perrin fez quest�o de n�o ouvir, mas conseguiu entender algumas partes. Algo sobre homens, e com um ar divertido. As mulheres sempre pareciam ou divertidas ou irritadas quando falavam sobre homens. Era por causa de Faile que tinha toda aquela gente atr�s dele � e isso sem falar no estandarte, mesmo Perrin ainda n�o tendo entendido de onde ela tirara aquilo. E havia <emphasis>servi�ais</emphasis> nos carro��es l� atr�s, homens e mulheres usando <emphasis>libr�</emphasis> com uma cabe�a de lobo bordada no ombro. Nem mesmo a gente de Dois Rios reclamava, e todos pareciam t�o orgulhos os daquilo quanto qualquer um dos refugiados.</p><p>� Satisfeito? � perguntou a Barada. � Voc� pode nos escoltar at� Rand, se n�o quiser que a gente fique � solta por a�.</p><p>� Acho que� � Os olhos escuros de Barada encontraram os de Faile, mas voltaram depressa. � Acho que seria melhor.</p><p>Faile se endireitou, e Bain e Chiad trotaram at� a linha de cavaleiros, passando pelo meio como se nem houvesse gente ali. Os saldaeanos n�o pareceram surpresos � deviam estar acostumados com os Aiel, todos os boatos mencionavam que Caemlyn j� estava repleta deles.</p><p>� Preciso encontrar meus irm�os-de-lan�a � anunciou Gaul, de repente. � Que voc� sempre encontre �gua e sombra, Perrin Aybara. � E l� se foi atr�s das mulheres. Faile escondeu um sorriso divertido com a m�o enluvada.</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a. Gaul queria que Chiad se casasse com ele, mas era ela quem precisava pedir, de acordo com os costumes Aiel. Segundo Faile, a mulher at� estava disposta a se tornar amante dele, mas n�o abriria m�o da lan�a para se casar. Gaul parecia t�o ofendido quanto uma garota de Dois Rios ficaria em seu lugar. E Bain tamb�m parecia fazer parte daquilo, mas Perrin n�o entendia como. Faile afirmou que n�o sabia, mesmo tendo mudado de assunto depressa demais, e Gaul ficava meio mal-humorado sempre que ele perguntava. Os Aiel eram mesmo um povo estranho.</p><p>Os saldaeanos foram abrindo caminho pela multid�o , mas Perrin prestou pouca aten��o �s pessoas ou � cidade. J� vira Caemlyn antes, ao menos em parte, e j� n�o gostava tanto de cidades grandes. Era raro os lobos se aproximarem da �rea urbana, e j� fazia dois dias que ele n�o sentia nenhum de seus irm�os. Em vez disso, se ocupou de analisar a esposa com olhares discretos, tentando n�o ser surpreendido. Bem, n�o teria feito diferen�a se a tivesse encarado abertamente: Faile sempre cavalgava ereta, mas estava rija sobre a sela, os olhos cravados nas costas de Barada � que, por sua vez, estava curvado como se conseguisse sentir o peso do olhar de Faile. Nem um falc�o cravava um olhar t�o intenso quanto ela.</p><p>Perrin achava que Faile estava preocupada com a mesma coisa que ele, embora talvez n�o exatamente da mesma forma: a rea��o do pai dela. Sua esposa talvez tivesse que dar algumas explica��es, afinal, fugira para se tornar uma Ca�adora da Trombeta, mas Perrin � que teria que encarar Lorde Bashere, Tyr e Sidona para anunciar que um ferreiro se casara com sua filha e herdeira � e n�o estava muito ansioso para isso. Perrin n�o se achava l� muito corajoso, nem julgava que fosse bravura simplesmente fazer o que precisava ser feito, mas nunca pensara em si como um covarde. At� aquele momento. Ficava com a boca seca s� de pensar no pai de Faile. Talvez fosse melhor acompanhar a montagem do acampamento, poderia enviar uma carta explicando tudo a Lorde Bashere. Deveria levar dois ou tr�s dias para escrever uma boa carta, talvez at� mais, j� que n�o era muito bom com as palavras.</p><p>Bastou um vislumbre do estandarte carmesim que tremulava pregui�osamente acima do Pal�cio Real para que se recompusesse. J� ouvira rumores sobre aquele s�mbolo e sabia que n�o era o estandarte do Drag�o, a despeito do que diziam os boatos � os boatos eram dos mais loucos, havia at� quem afirmasse que o s�mbolo indicava que as Aes Sedai estavam servindo a Rand, enquanto outros alegavam que era o Drag�o quem servia �s mulheres da Torre. Perrin ficou se perguntando por que o amigo n�o estendera o pr�prio estandarte sobre o Pal�cio. Pensou em Rand. Ainda conseguia senti-lo puxando, um <emphasis>ta�veren</emphasis> maior atraindo um menor � aquilo n�o servia para indicar a posi��o exata do amigo, n�o era aquele tipo de pux�o. Perrin deixara Dois Rios pensando em cavalgar at� Tear, ou para onde s� a Luz sabia, mas acabara chegando ali depois da enxurrada de rumores e hist�rias que atravessavam Andor. Hist�rias e rumores perturbadores. N�o, o que sentia era mais uma necessidade de estar perto de Rand � ou quem sabe a necessidade que Rand tinha de sua presen�a �, tudo isso se traduzindo em um comich�o entre os ombros, em um ponto onde ele n�o dava conta de co�ar. Agora sentia como se quase estivesse alcan�ando o ponto exato da coceira, mas chegava a desejar que n�o estivesse. Tinha um sonho. Faile, que gostava tanto de se meter em aventuras, daria risada se soubesse. Sonhava em morar com ela em uma casinha em algum lugar do interior, longe de cidades e de confus�o. Sempre havia confus�o perto de Rand. Mas o amigo precisava de Perrin, ent�o ele faria o que precisava ser feito.</p><p>Quando chegaram a um belo p�tio ladeado por colunas e cercado por varandas de m�rmore e pin�culos pontiagudos, Perrin largou o cinto sobre a sela � era um al�vio estar livre do peso daquele machado, ao menos por um tempo. Um homem e uma mulher de robe branco vieram buscar Galope e Andorinha. Depois de trocarem algumas palavras, Barada deixou ele e Faile com alguns Aiel de olhar frio, muitos usando len�os escarlate com aquele disco branco e preto. Os Aiel os levaram para dentro e, com ainda menos palavras do que a troca de antes, deixaram-nos a cargo de Donzelas, todas t�o frias quanto qualquer Aiel. Perrin n�o reconheceu nenhuma delas da Pedra, e seus esfor�os para iniciar alguma conversa foram recebidos com olhares inexpressivos. Elas gesticulavam na linguagem de sinais das Donzelas, e uma delas, uma mulher magra de cabelo cor de areia que parecia ter mais ou menos a idade de Faile, foi escolhida para conduzir os dois Pal�cio adentro. A mulher se apresentou como Lerian, e foi s� aquilo que falou, al�m das advert�ncias para que n�o perambulassem por ali. Perrin queria que Bain ou Chiad estivessem por l�. Seria bom ver um rosto familiar. Faile deslizava pelos corredores como a lady que era, mesmo olhando depressa para os lados a cada cruzamento � ela obviamente n�o queria ser surpreendida pelo pai.</p><p>Enfim chegaram diante de portas duplas, cada qual com um le�o entalhado. Duas Donzelas que estavam agachadas ali montando guarda se levantaram e come�aram a conversar com Lerian naquela l�ngua de sinais, at� que a Donzela de cabelo cor de areia entrou sem bater.</p><p>Perrin ficou se perguntando se dali em diante seria sempre daquele jeito quando estivesse perto de Rand: um monte de guardas Aiel, todas caladas. De repente, as portas se escancaram e l� estava Rand, em camisa de manga.</p><p>� Perrin! Faile! Que a Luz brilhe sobre seu casamento � cumprimentou ele, risonho, e cumprimentou Faile com um leve beijo na bochecha. � Queria ter estado l�.</p><p>Faile parecia t�o confusa quanto Perrin se sentia.</p><p>� Como voc� soube? � perguntou ele para o amigo, e Rand riu outra vez, dando-lhe um tapa amig�vel no ombro.</p><p>� Bo est� bem aqui, Perrin. Bo, Jancy e todas elas. Quer dizer, est�o em Caemlyn, no caso. Verin e Alanna trouxeram todas para c� antes de ficarem sabendo do que aconteceu na Torre. � Ele parecia cansado, os olhos vermelhos, mas sua risada soava animada. � Luz, Perrin, me falaram de tanta coisa que voc� andou aprontando� Lorde Perrin de Dois Rios, �? O que a Senhora Luhhan acha disso?</p><p>� Ela me chama de Lorde Perrin � respondeu, ir�nico. Quando ainda era crian�a, levava mais palmadas de Alsbet Luhhan do que da pr�pria m�e. � Ela faz at� mesuras, Rand! N�o estou brincando.</p><p>Faile olhou para ele de soslaio. A mulher sempre dizia que Perrin deixava as pessoas constrangidas quando tentava faz�-las parar com todas aquelas mesuras e rever�ncias, e explicava que o constrangimento que ele sentia quando os outros agiam assim era apenas parte do pre�o a se pagar.</p><p>A Donzela que entrara antes deles passou por Rand, saindo, e ele levou um susto.</p><p>� Luz, deixei voc�s na porta! Entrem, entrem. Lerian, avise a Sulin que preciso de mais ponche. De mel�o, agora. E diga para ela ser r�pida. � Inexplicavelmente, as tr�s Donzelas riram como se Rand tivesse feito alguma piada.</p><p>Depois de dar um �nico passo para dentro do aposento, Perrin n�o precisou nem olhar para o ambiente para saber que havia uma mulher ali dentro � sentiu logo um aroma floral no ar. Quando a viu, ficou encarando.</p><p>� Min? � O cabelo estava diferente, arrumado em cachos, e as cal�as e o casaco azul bordado n�o eram nada como ele se lembrava, mas o rosto era o mesmo. � Min, � voc�! � Ele a ergueu num abra�o apertado, rindo. � Ah, pelo visto � uma reuni�o. Faile, esta aqui � Min. Eu j� falei dela.</p><p>Foi a� que Perrin reparou no cheiro que emanava da esposa, ent�o tratou de p�r Min de volta no ch�o enquanto a amiga ainda estava sorrindo. De repente, teve total consci�ncia de como aquelas cal�as justas delineavam o contorno das pernas de Min. Faile era uma mulher de poucos defeitos, mas de fato tinha uma tend�ncia a sofrer de ci�mes. N�o era para ele saber que a mulher perseguira Calle Coplin com um peda�o de pau por meia milha � como se ele fosse olhar para qualquer outra mulher, agora que tinha aquela a seu lado.</p><p>� Faile � cumprimentou Min, estendendo a m�o. � Qualquer mulher capaz de aguentar este cabeludo idiota e se casar com ele tem minha admira��o. Talvez ele at� possa render um bom marido, depois que voc� o treinar.</p><p>Faile tomou as m�os de Min com um sorriso, mas aquele aroma pungente era arrepiante.</p><p>� Ainda n�o consegui trein�-lo, Min, mas vou insistir at� pelo menos ele aprender o m�nimo.</p><p>� A Senhora Luhhan faz rever�ncias quando v� voc�? � Rand balan�ava a cabe�a, incr�dulo. � S� acredito vendo ! E Loial? Veio? Voc�s n�o deixaram ele l� fora, n�o �?</p><p>� Mais ou menos � respondeu Perrin, tentando ficar de olho em Faile sem parecer muito �bvio. � Ele ficou pelo caminho, disse que n�o conseguia vir por enquanto. Ele falou que estava cansado, que precisava encontrar um <emphasis>pouso</emphasis> , ent�o mandei ele para um que eu conhecia, um lugar abandonado ao norte da estrada que sai de Ponte Branca. Ele foi logo andando para l�, dizendo que conseguiria sentir o local exato quando estivesse a menos de dez milhas.</p><p>� Voc� deve conhecer Rand e Perrin muito bem � deduziu Faile.</p><p>Min deu uma olhadinha para Rand.</p><p>� Faz um tempinho. Conheci os dois logo depois que eles sa�ram de Dois Rios pela primeira vez. Quando ainda achavam que Baerlon era uma cidade enorme.</p><p>� A p�? � perguntou Rand.</p><p>� Isso � confirmou Perrin, hesitante. O cheiro de Faile estava mudando, o ci�me esmaecendo. Mas por qu�? � Ele preferiu ir do jeito dele, entende? E ainda apostou uma coroa de ouro que estaria aqui em Caemlyn menos de dez dias depois da gente. � As duas mulheres se olhavam, Faile sorrindo e Min corando de leve. Pelo cheiro, Min estava um tanto constrangida, e Faile parecia contente. Contente e surpresa, embora sua express�o disfar�asse isso. � N�o quis tomar o dinheiro dele, j� que ele precisou se afastar cinquenta milhas ou mais do caminho, mas Loial insistiu. Queria apostar cinco dias.</p><p>� Loial sempre disse que conseguia correr mais r�pido que qualquer cavalo � comentou Rand, com uma risadinha, que morreu logo. � Espero que ele chegue bem � afirmou, mais s�rio.</p><p>Rand <emphasis>estava mesmo</emphasis> cansado, e tamb�m estava diferente. O Rand que Perrin vira em Tear n�o parecera fraco, longe disso, mas aquele ali fazia o de Tear parecer um moleque inocente do interior. O amigo mal piscava, como se s� de piscar pudesse deixar de ver alguma coisa importante. E Perrin reconhecia alguma coisa naquele olhar, vira o mesmo nos semblantes dos homens de Dois Rios, depois de ataques de Trollocs � depois do quinto, do d�cimo, quando parecia que n�o havia mais esperan�a, mas todos continuavam lutando, porque o pre�o de desistir era alto demais.</p><p>� Milorde Drag�o � come�ou Faile. Perrin levou um susto: ela sempre o chamara de Rand, mas j� ouviam o t�tulo desde Ponte Branca. �, se voc� me perdoa, quero dar uma palavrinha com meu marido, mas depois deixo voc�s dois conversarem.</p><p>Faile mal esperou Rand assentir, surpreso, para se aproximar de Perrin e vir�-lo, ficando de costas para Rand.</p><p>� Estarei logo ali, meu cora��o. Min e eu vamos conversar sobre assuntos que provavelmente o deixariam entediado. � Ent�o, ajeitando as lapelas do casaco dele, a mulher come�ou a falar bem r�pido e baixinho, em uma voz t�o delicada que s� ele conseguia ouvir sem precisar se esfor�ar muito. �s vezes, Faile se lembrava de sua audi��o agu�ada. � N�o esque�a que ele n�o � mais o seu amigo de inf�ncia, Perrin. Ao menos, n�o � mais s� isso. Ele � o Drag�o Renascido, o Lorde Drag�o. E voc� � o Lorde de Dois Rios. Sei que vai defender a si mesmo e � sua terra. � Ela abriu um sorriso cheio de amor e confian�a, e Perrin quis beij�-la ali mesmo. � Pronto � anunciou, j� em um tom normal. � J� arrumei. � Faile j� n�o exalava o menor cheiro de ci�me.</p><p>A mulher fez uma mesura graciosa a Rand, murmurando um �Milorde Drag�o�, e estendeu a m�o para Min, chamando-a.</p><p>Min tinha bem menos pr�tica em fazer mesuras, e Rand se sobressaltou ao v�-la se curvar.</p><p>Antes que as duas chegassem � sa�da, uma das portas se abriu com um estrondo, e uma mulher alta e uniformizada entrou com uma bandeja com c�lices e um c�ntaro que exalava aroma de vinho e suco de mel�o doce. Perrin teve que se conter para n�o ficar encarando a mulher. Apesar do vestido vermelho e branco, ela poderia ser m�e de Chiad � ou talvez a av�, com aquele cabelo branco curto e cacheado. Franzindo a testa para as mulheres que sa�am, ela avan�ou a passos largos at� a mesa mais pr�xima e deixou a bandeja l�. Seu semblante era uma m�scara de docilidade que parecia congelada no rosto.</p><p>� Disseram quatro pessoas, milorde Drag�o � comentou ela, em um tom esquisito, como se estivesse tentando demonstrar respeito e humildade, mas com algo entalado na garganta �, ent�o trouxe quatro x�caras .</p><p>A mesura dela fazia a de Min parecer elegante, e a mulher bateu a porta ao sair.</p><p>Perrin olhou para Rand.</p><p>� �s vezes voc� n�o acha que as mulheres s�o� estranhas?</p><p>� Por que est� me perguntando isso? Voc� � que � casado. � Rand encheu um c�lice chanfrado em prata e o entregou a Perrin. � Se <emphasis>voc�</emphasis> n�o sabe, vai ter que perguntar para o Mat. Entendo menos de mulheres a cada dia que passa.</p><p>� Eu tamb�m � retrucou Perrin, com um suspiro. O ponche era mesmo refrescante. Rand n�o parecia nem estar suando. � Ali�s, cad� o Mat? Se eu tiver que tentar adivinhar, diria que est� na taverna mais pr�xima, com um copo com dados na m�o ou com uma garota no colo.</p><p>� Espero que voc� esteja muito errado � retrucou Rand, sarc�stico, pousando o c�lice sem nem tocar no ponche. � Ele est� incumbido de trazer Elayne para c�, para ser coroada. E espero que traga Egwene e Nynaeve tamb�m. Luz, tenho tantas coisas para fazer antes de ela chegar� � Ele olhou de um lado a outro, feito um urso acuado, ent�o fixou o olhar em Perrin. � Voc� iria a Tear para mim?</p><p>� Tear! Rand, faz mais de dois meses que estou na estrada, meu traseiro j� ficou com o formato da sela.</p><p>� Com minha ajuda, voc� poderia chegar l� hoje � noite. Hoje mesmo. E a� pode dormir numa tenda de general e ficar bem longe de selas pelo tempo que quiser.</p><p>Perrin o encarou. Rand parecia s�rio. Foi quando se perguntou como andaria a sanidade do amigo. Luz, ele precisava se manter s�o , pelo menos at� Tarmon Gai�don. Tomou um gole demorado de ponche, tirando aquele pensamento amargo da boca. Uma p�ssima coisa a se pensar a respeito de um amigo.</p><p>� Rand, mesmo que voc� pudesse me fazer chegar na Pedra de Tear neste exato momento, eu ainda diria n�o. Tenho assuntos a tratar com uma pessoa que est� aqui em Caemlyn. E tamb�m queria ver Bo e as outras.</p><p>Rand n�o parecia estar ouvindo. Ele se jogou em uma das poltronas com douraduras e fitou Perrin, o olhar vazio.</p><p>� Voc� se lembra de como Thom fazia malabarismos com todas aquelas bolas e ainda fazia parecer f�cil? Bem, eu estou fazendo malabarismos , tentando com todas as minhas for�as, e n�o � f�cil. Sammael est� em Illian, e s� a Luz sabe onde est�o os outros Abandonados� �s vezes, acho que eles nem s�o a pior parte. Ainda tem os rebeldes, que acham que eu sou um falso Drag�o. E os Devotos do Drag�o, que acham que podem incendiar aldeias em meu nome� J � ouviu falar no Profeta, Perrin? Bem, n�o importa. Ele n�o � pior que o resto. Tenho aliados que se odeiam, e o melhor general que eu poderia nomear para enfrentar Illian s� quer saber de atacar e acabar sendo morto. Com sorte, Elayne chega aqui em um m�s e meio, talvez, mas pode ser que uma rebeli�o acabe caindo no meu colo antes disso. Luz, quero entregar uma Andor unida. Pensei em ir busc�-la eu mesmo, mas � a pior coisa que eu poderia fazer� � Ele esfregou o rosto com as m�os, ent�o enfatizou, por entre os dedos: � A pior.</p><p>� E o que Moiraine diz disso tudo?</p><p>Rand baixou as m�os apenas o suficiente para encar�-lo por cima dos dedos.</p><p>� Moiraine morreu, Perrin. Ela matou Lanfear e morreu.</p><p>Perrin se sentou. Moiraine? Imposs�vel.</p><p>� Se Alanna e Verin est�o aqui� � Ele girava o c�lice entre as palmas das m�os. N�o conseguia se convencer de que podia confiar em nenhuma das duas. � Voc� pediu o conselho delas?</p><p>� N�o! � Rand fez um gesto brusco com a m�o, como se cortasse alguma coisa. � Elas t�m que ficar longe de mim, Perrin. Deixei isso bem claro para as duas.</p><p>Perrin decidiu pedir a Faile que falasse com Alanna ou Verin e descobrisse o que tinha acontecido. Aquelas duas sempre o deixavam um tanto desconfort�vel, mas Faile parecia se dar bem com elas.</p><p>� Rand, n�s dois sabemos muito bem como � perigoso irritar uma Aes Sedai. Moiraine veio atr�s da gente� ou melhor, de voc�, mas algumas vezes achei que ela fosse matar <emphasis>n�s tr�s</emphasis> . � Rand n�o respondeu, mas ao menos parecia ouvir, a cabe�a inclinada. � Se um d�cimo das hist�rias que venho escutando desde Baerlon forem s� meias verdades, esta talvez seja a pior �poca para ter Aes Sedai irritadas com voc�. N�o vou dizer que sei o que est� acontecendo na Torre, mas�</p><p>Rand se recomp�s e chegou mais perto.</p><p>� A Torre est� dividida, Perrin. Metade acha que sou um porco que pode ser comprado num mercado, a outra metade� N�o sei bem o que elas acham. Passei tr�s dias seguidos me encontrando com a miss�o diplom�tica que elas enviaram, e deve ter outra hoje � tarde, mas ainda n�o sei dizer. Elas perguntam bem mais do que respondem e n�o parecem muito felizes em n�o ter mais respostas do que me d�o. Pelo menos Elaida, que � a nova Amyrlin, caso voc� n�o tenha ouvido falar� pelo menos o pessoal dela fala alguma coisa, mesmo parecendo achar que vou ficar t�o impressionado em ver Aes Sedai fazendo mesuras para mim que n�o vou nem querer saber o que elas querem.</p><p>� Luz� � Perrin suspirou. � Luz! Est� dizendo que tem mesmo uma rebeli�o entre as Aes Sedai e que voc� acabou se enfiando exatamente entre a Torre e as rebeldes? S�o dois ursos prontos para brigar, e voc� colhendo amoras-silvestres entre os dois! Nunca pensou que as Aes Sedai talvez j� lhe trouxessem problemas suficientes sem isso? Olha, Rand, vou ser bem sincero: Siuan Sanche fazia meus dedos se encolherem todos dentro das botas, mas, com ela, pelo menos dava para saber onde se estava pisando. A mulher me fazia sentir como se eu fosse um cavalo e ela estivesse tentando decidir se eu serviria para uma cavalgada longa, mas pelo menos deixava claro que n�o era ela que iria me encilhar.</p><p>Rand riu, uma risada rouca demais para parecer alegre.</p><p>� Acha mesmo que as Aes Sedai me deixariam em paz s� porque as deixei em paz? Eu, sendo quem sou? Para mim, a Torre se dividir foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Elas est�o ocupadas demais umas com as outras para concentrar toda a aten��o em mim. Sem isso, haveria vinte Aes Sedai para qualquer lugar que eu me virasse. Cinquenta. Pelo menos tenho Tear e Cairhien comigo, al�m de ter um ponto de apoio aqui. Sem essa divis�o, a cada vez que eu abrisse a boca teria algu�m dizendo: ��, mas segundo as Aes Sedai�� Perrin, Moiraine fez o que p�de para amarrar cordas em mim, at� eu obrig�-la a parar. E, verdade seja dita, n�o tenho tanta certeza de que ela tenha mesmo parado. Quando uma Aes Sedai fala que vai aconselhar voc� e deix�-lo decidir, na verdade est� dizendo que sabe muito bem o que voc� deveria fazer e que, se puder, vai obrig�-lo a fazer o que ela acha melhor. � Ele ergueu o c�lice e bebeu com sofreguid�o. Quando o baixou, parecia mais calmo. � Se a Torre estivesse unida, eu teria tantas cordas amarradas a mim que j� n�o conseguiria mover um dedo sem pedir permiss�o para seis Aes Sedai.</p><p>Perrin tamb�m quase deu risada � e uma t�o sem alegria quanto a de Rand.</p><p>� Ent�o acha que � melhor fazer o qu�, colocar as Aes Sedai rebeldes contra a Torre? �Tor�a para o touro ou tor�a para o urso. Torcendo para os dois, vai acabar pisoteado e jantado.�</p><p>� N�o � t�o simples assim, Perrin, mas elas n�o sabem disso � afirmou Rand muito convencido, balan�ando a cabe�a. � Tem um terceiro lado, um lado pronto para se ajoelhar aos meus p�s. Isso se conseguirem fazer contato outra vez. Luz! N�o � assim que dever�amos estar passando nossa primeira hora juntos depois de tanto tempo, falando sobre Aes Sedai. E Campo de Emond, Perrin? � Sua express�o se suavizou, quase voltando a ser o Rand de que Perrin se lembrava, ent�o abriu um sorriso ansioso. � Passei pouqu�ssimo tempo com Bo e as outras, mas elas falaram de todo tipo de mudan�as. Me conte o que mudou, Perrin. Me conte o que est� igual.</p><p>Os dois passaram um bom tempo falando sobre os refugiados e todas as coisas novas que aquelas pessoas tinham trazido, como novos tipos de feij�es e ab�boras, novas variedades de peras e ma��s, a fia��o de belos tecidos e talvez tapetes, a confec��o de tijolos e telhas, trabalhos em pedra e madeira mais ornamentados que qualquer coisa que chegava a Dois Rios havia muito tempo, se era que algum dia chegara. Perrin acabara se acostumando com a grande quantidade de pessoas que tinham cruzado as Montanhas da N�voa, mas isso foi uma surpresa para Rand. Falaram bastante sobre as vantagens e desvantagens da muralha que alguns queriam erguer em torno de Campo de Emond e das outras aldeias, assim como da diferen�a entre muralhas de pedra ou de troncos. Rand �s vezes soava como seu velho amigo, rindo de como todas as mulheres come�aram criticando os vestidos tarabonianos e domaneses, mas que depois se dividiram entre as que n�o usariam nada que n�o fossem os bons e resistentes vestidos de Dois Rios e as que tinham transformado todos os antigos vestidos em retalhos. Ou de como v�rios homens mais jovens estavam cultivando bigodes como os dos tarabonianos ou domaneses, vez ou outra com direito a um cavanhaque de Plan�cie de Almoth, e os mais desajuizados pareciam ter um bichinho peludo preso bem debaixo dos narizes. Perrin n�o se deu ao trabalho de acrescentar que barbas como a dele estavam ainda mais populares.</p><p>Mas foi um choque quando Rand deixou claro que n�o tinha inten��o de visitar o acampamento, apesar de v�rios conhecidos seus estarem por l�.</p><p>� N�o posso proteger voc� nem Mat � explicou, em voz baixa �, mas posso proteger essas pessoas.</p><p>A conversa foi morrendo aos poucos, at� Rand enfim reparar que ele � que dera o golpe final. Ele ent�o se levantou, suspirando e esfregando as m�os no cabelo, olhando para os lados com certa insatisfa��o.</p><p>� Voc� deve querer se lavar e descansar, Perrin. N�o vou mais prender voc� aqui. Vou mandar preparar quartos para voc�. � Ent�o, levando Perrin at� a porta, acrescentou: � Voc� vai pensar a respeito de Tear? Preciso de voc� l�. N�o tem nenhum perigo. Vou contar o plano todo, caso voc� decida ir. E voc� seria apenas o quarto homem a conhecer o verdadeiro plano. � O semblante de Rand se endureceu. � E precisa guardar isso s� para voc�, Perrin. N�o conte nem para Faile.</p><p>� Eu consigo segurar a l�ngua � retrucou Perrin, r�gido. E um pouco triste. O novo Rand estava de volta. � E vou pensar sobre Tear.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 46</p><p><image l:href="#18"/></p><p>Al�m do Port�o</p></title><p>Perrin mal prestou aten��o �s instru��es que Rand deu a uma Donzela.</p><p>� Mande Sulin preparar quartos para Perrin e Faile e diga que � para obedecer aos dois como obedeceria a mim. � Considerando o modo como gargalharam, chegando at� a bater nas pr�prias coxas de tanto rir, as duas Aiel nunca tinham ouvido piada mais engra�ada.</p><p>Perrin nem deu aten��o, estava concentrado em um sujeito esguio um pouco mais � frente no corredor repleto de tape�arias. N�o tinha a menor d�vida de que aquele era Davram Bashere. N�o achava isso s� porque o sujeito era saldaeano � afinal, ele n�o era nada parecido com Faile, com aquele bigode espesso cheio de fios grisalhos e curvos que quase escondia a boca. Tamb�m n�o era alto como Faile, talvez fosse at� um pouco mais baixo. A quest�o era o modo como ele se portava, os bra�os cruzados, o rosto feito o de um falc�o com os olhos cravados em um galinheiro. Era aquilo que fizera Perrin ter certeza. E o homem sabia, disso Perrin tamb�m tinha certeza.</p><p>Perrin terminou de se despedir de Rand, respirou fundo e saiu pelo corredor. Chegou at� a desejar que estivesse com o machado, j� que o homem portava uma espada.</p><p>� Lorde Bashere? � Ele at� fez uma rever�ncia, que n�o foi correspondida. Uma f�ria g�lida emanava daquele homem. � Eu sou Perrin Aybara.</p><p>� N�s vamos conversar � respondeu Bashere, sem rodeios, ent�o deu meia-volta e saiu andando. Perrin n�o teve op��o sen�o ir atr�s. E mesmo tendo as pernas mais longas que as do sogro, precisou apressar o passo.</p><p>Depois de virarem em dois corredores, Bashere o conduziu a uma salinha de estar e fechou a porta. Janelas altas deixavam entrar bastante luz e at� mais calor do que o p�-direito alto conseguia aliviar. Havia duas cadeiras almofadadas de espaldar alto com volutas entalhadas, uma de frente para a outra, e um jarro de prata de gargalo comprido com duas ta�as tamb�m de prata repousavam em uma mesa incrustada de l�pis-laz�li. N�o era ponche � pelo cheiro, devia ser algum vinho encorpado.</p><p>Bashere encheu as ta�as e estendeu uma para Perrin, ent�o gesticulou para uma das cadeiras, como se o mandasse se sentar. Ele parecia sorrir por tr�s do bigode, mas os olhos e o sorriso podiam muito bem vir de dois rostos distintos. Aquele olhar era t�o duro que poderia servir para martelar pregos.</p><p>� Eu imagino que Zarine tenha lhe falado sobre minhas propriedades antes de voc� se casar com ela. Tenha contado tudo sobre a Coroa Partida. Ela sempre foi bem tagarela.</p><p>O homem permaneceu de p�, ent�o Perrin n�o se sentou. Que coroa partida? Faile nunca tinha mencionado nenhuma coroa, muito menos partida.</p><p>� Ela come�ou dizendo que o senhor era comerciante de peles. Ou talvez primeiro tenha sido comerciante de madeira, s� depois de peles. E o senhor tamb�m j� vendeu pimentas-de-gelo. � Bashere parecia incr�dulo, murmurando �Comerciante de peles?� Perrin tratou de continuar: � A hist�ria sempre mudava, mas aqui e ali ela comentava alguma coisa que o senhor tinha dito sobre como um general deveria se comportar, e decidi perguntar de uma vez. � Olhou para o vinho, ent�o se for�ou a encarar os olhos do homem. � Quase desisti do casamento quando descobri quem o senhor era, mas Faile j� tinha decidido. E, quando Faile mete alguma coisa na cabe�a, � mais f�cil lidar com uma parelha de mulas que decidiram empacar todas de uma vez. E eu a amava. Amo.</p><p>� Faile? � indagou Bashere. � Pelo Po�o da Perdi��o, quem � Faile? Estamos falando � da minha filha, Zarine, e do que voc� fez com ela!</p><p>� Faile � o nome que ela adotou quando se tornou Ca�adora da Trombeta � explicou Perrin, muito paciente. Precisava causar uma boa impress�o. Viver em conflito com o sogro era quase t�o ruim quanto viver em conflito com a sogra. � Isso foi antes de ela me conhecer.</p><p>� Se tornou Ca�adora? � O orgulho era evidente na voz do homem, e o s�bito sorriso tamb�m se fazia notar. O cheiro de raiva quase sumiu. � Essa danadinha nunca me falou disso. �, tenho que admitir: Faile combina mais com ela do que Zarine. O nome foi ideia da m�e, e eu� � Ele se recomp�s, de repente, e encarou Perrin com suspeita. O cheiro de raiva voltou a emanar. � N�o tente mudar de assunto, garoto. Estamos tratando � de voc�, da minha filha e desse suposto casamento.</p><p>� Suposto? � Perrin sempre fora muito bom em controlar o temperamento. A Senhora Luhhan at� dizia que ele nem parecia se irritar nunca. Quando a pessoa era maior e mais forte que os outros garotos e podia acabar machucando algu�m sem querer, logo aprendia a controlar o temperamento. Mas, naquele momento, manter o controle estava sendo um tanto complicado. � Nossa Sabedoria realizou a cerim�nia, a mesma com a qual todos se casam em Dois Rios desde sempre.</p><p>� Garoto, n�o faria a menor diferen�a nem se a cerim�nia tivesse sido oficializada por um Anci�o Ogier com seis Aes Sedai como testemunhas. Zarine ainda n�o tem idade para se casar sem a permiss�o da m�e, coisa que ela n�o solicitou e muito menos recebeu. Ela est� com Deira agora. Se a menina n�o convencer a m�e de que j� tem idade para casar, vai voltar para o acampamento, provavelmente para trabalhar como ajudante da m�e. E voc� � Bashere acariciou o punho da espada, parecendo nem reparar que o fazia. Ent�o completou, em um tom quase alegre: � Voc� eu mesmo mato.</p><p>� Faile � minha � grunhiu Perrin. Sentiu vinho escorrer pelo pulso e, surpreso, baixou o olhar para a caneca: estava amassada em seu punho. Com todo o cuidado, depositou o monte de prata retorcida na mesa, ao lado do jarro. S� n�o conseguiu fazer nada para conter a voz. � Ningu�m pode tirar ela de mim. Ningu�m! Se voc� tentar lev�-la de volta para o seu acampamento ou qualquer lugar que seja, eu vou atr�s dela!</p><p>� Tenho nove mil homens sob meu comando � rebateu o general, em um tom surpreendentemente ameno.</p><p>� E algum deles � mais dif�cil de matar que um Trolloc? Nem tente levar Faile para longe de mim! Ou n�s vamos descobrir!</p><p>Perrin percebeu que tremia, as m�os estavam cerradas em punho com tanta for�a que at� do�am. Ficou chocado. Fazia tanto tempo que n�o sentia raiva, que n�o ficava zangado de verdade, que j� nem lembrava como era.</p><p>Bashere o encarou de alto a baixo e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Seria uma pena matar voc�. Precisamos de sangue novo. A Casa est� se enfraquecendo. Meu av� sempre dizia que est�vamos ficando mais moles, e ele at� tinha raz�o. Sou metade do homem que ele foi, e, mesmo que me envergonhe admitir, Zarine � terrivelmente mole. N�o � fraqueza, entenda� � Ele franziu o cenho, mas aquiesceu ao notar que Perrin n�o interviria alegando que Faile era fraca. � � mas ela � mole, o que d� no mesmo.</p><p>Aquilo deixou Perrin t�o chocado que ele teve que se sentar � n�o tinha nem reparado que andara at� a cadeira. Quase se esqueceu da raiva. Aquele homem era louco, mudando de ideia daquela maneira? E Faile era mole? Bem, ela �s vezes era macia e suave, verdade, mas qualquer homem que a achasse mole daquele jeito que Bashere sugeria acabaria sofrendo as consequ�ncias terr�veis da ira de Faile. Inclusive Perrin.</p><p>Bashere pegou a caneca amassada e a analisou, ent�o recolocou-a na mesa e se sentou na outra cadeira.</p><p>� Zarine me falou muito a seu respeito antes de ir se encontrar com a m�e, contou tudo sobre o Lorde Perrin de Dois Rios, Assassino de Trollocs. Essa parte � boa. Gosto de homens capazes de ficar frente a frente com um Trolloc sem recuar. Mas quero saber que tipo de homem voc� �. � Dito isso, ele come�ou a bebericar o vinho e ficou esperando resposta.</p><p>Perrin queria ainda ter um pouco daquele ponche de mel�o que bebera com Rand, ou talvez at� a caneca de vinho ainda intacta. Sentiu a garganta secar. Queria causar uma boa impress�o, mas teve que come�ar pela verdade:</p><p>� A verdade dos fatos � que eu n�o sou nenhum lorde. Sou um ferreiro. Veja bem, quando os Trollocs apareceram� � Ele parou de falar porque Bashere gargalhava tanto que teve at� que secar as l�grimas.</p><p>� Garoto, as Casas n�o foram feitas pelo Criador. H� quem se esque�a disso, mas, voltando no tempo, toda Casa come�ou com um plebeu que demostrou uma coragem incomum ou que manteve a calma e assumiu o comando quando todos corriam de um lado para o outro feito gansos depenados. E repare que muitos tamb�m gostam de esquecer que o caminho ladeira abaixo tamb�m pode come�ar assim de repente. Tenho duas criadas em Tyr que seriam ladies se, duzentos anos atr�s, seus antepassados n�o tivessem sido t�o tolos que nem mesmo um tolo os seguiria. E conhe�o um lenhador em Sidona que afirma que seus ancestrais de antes de Artur Asa-de-gavi�o eram reis e rainhas. Ele pode estar falando a verdade, j� que � um bom lenhador. H� tantas subidas quanto descidas, e o caminho ladeira abaixo � t�o escorregadio quanto qualquer outro. � Bashere bufou t�o forte que o bigode se mexeu. � O tolo fica se lamuriando quando a sorte o coloca para baixo, mas s� um verdadeiro tolo lamenta quando a sorte o faz subir. N�o quero saber o que voc� era, nem estou t�o interessado no que voc� � agora, estou querendo que voc� me conte como � por dentro. Se minha esposa n�o arrancar o couro de Zarine e se voc� sair vivo daqui� bem, voc� sabe como tratar uma esposa?</p><p>Ainda tentando causar uma boa impress�o, Perrin decidiu n�o explicar que acharia muito melhor voltar a ser ferreiro.</p><p>� Trato Faile t�o bem quanto sei tratar algu�m � respondeu, hesitante.</p><p>Bashere bufou.</p><p>� T�o bem quanto sabe tratar algu�m. � A voz neutra j� virara um rosnado. � Melhor saber bem, ou eu vou� Escute aqui: uma esposa n�o � nenhum subordinado, para sair correndo depois de uns gritos. D� para dizer que as mulheres s�o mais como pombas: � preciso segurar com metade da for�a que voc� acha necess�ria, ou pode acabar machucando a coitada. E voc� n�o quer machucar Zarine. Est� me entendendo? � Ele de repente abriu um sorriso desconcertante, a voz assumindo um tom quase amig�vel. � Voc� pode servir bem como genro, Aybara, mas, se deixar minha menina triste� � Ele tateou o punho da espada outra vez.</p><p>� Vou tentar fazer Faile feliz � afirmou Perrin, muito s�rio. � A �ltima coisa que quero � machucar minha esposa.</p><p>� E acho bom, porque seria a �ltima coisa que voc� faria, garoto. � Aquilo tamb�m foi dito com um sorriso, mas n�o havia d�vidas de que Bashere faria valer cada palavra. � Acho que est� na hora de irmos falar com Deira. Se ela e Zarine ainda n�o tiverem acabado a discuss�o, � melhor a gente se meter antes que acabem se matando. Elas sempre ficam com os �nimos um pouco exaltados sempre que discutem, e Zarine j� est� grande demais para Deira encerrar o assunto com umas bofetadas. � Bashere pousou a ta�a na mesa e continuou falando enquanto o conduzia at� a porta. � Olha, voc� precisa entender que as mulheres, quando dizem que acreditam em alguma coisa, n�o est�o necessariamente falando a verdade. Podem at� acreditar, mas a coisa n�o vira necessariamente verdade s� porque uma mulher acredita que seja. Nunca se esque�a disso.</p><p>� N�o vou esquecer. � Perrin achou que tinha entendido. Faile e a verdade muitas vezes pareciam apenas meras conhecidas. Nunca quando se tratava de algo importante, ou pelo menos que ela considerasse importante, mas, quando a mulher prometia que faria algo que n�o queria fazer, sempre dava um jeito de deixar uma frestinha aberta por onde poderia escapar ainda mantendo a promessa, mesmo fazendo exatamente o que queria. S� n�o conseguia entender o que aquilo poderia ter a ver com o encontro que teria com a sogra.</p><p>Foi uma longa caminhada pelo Pal�cio, passando por corredores com colunatas e subindo v�rios lances de escada. N�o parecia haver muitos saldaeanos por ali, mas havia um bom n�mero de Aiel, incluindo Donzelas e v�rios servi�ais uniformizados que se curvavam ou faziam rever�ncias, al�m de homens e mulheres usando robes brancos iguais aos das pessoas que tinham pegado os cavalos quando ele chegou. Esses de branco zanzavam apressados, carregando bandejas ou pilhas de toalhas, mantendo os olhos baixos e parecendo n�o notar a presen�a de ningu�m. Notou, surpreso, que v�rios usavam o mesmo pano escarlate preso � testa que muitos Aiel � tamb�m deviam ser do Deserto. E ainda notou mais um detalhe: tanto mulheres quanto homens de branco usavam o len�o escarlate, assim como muitos homens de cal�a e casaco pardos, mas nenhuma Donzela, ao menos n�o que ele tenha visto. Gaul j� lhe falara um pouco sobre os Aiel, mas nunca mencionara aqueles len�os.</p><p>Quando ele e Bashere entraram em um aposento com mesinhas e poltronas incrustadas de marfim dispostas sobre um tapete com padr�es vermelhos, dourados e verdes, seus ouvidos captaram vozes femininas abafadas, cada vez mais elevadas, discutindo em um aposento interno pr�ximo. N�o conseguiu compreender as palavras que captava atrav�s da porta de madeira grossa, mas conseguia reconhecer a voz de Faile. De repente, ouviu uma bofetada, logo seguida de outra. Perrin se retraiu. S� um perfeito cabe�a de l� se metia entre a sogra e a esposa durante uma discuss�o � nos poucos eventos em que presenciara algo assim, ambas acabaram se voltando contra o pobre infeliz. Al�m disso, sabia muito bem que, em circunst�ncias normais, Faile era mais que capaz de se defender sozinha. Em todo caso, j� vira mulheres fortes, muitas m�es e at� av�s, se permitirem ser tratadas como crian�as pelas pr�prias m�es.</p><p>Perrin estufou o peito e foi at� a porta, mas Bashere chegou primeiro, batendo tranquilamente, como se tivessem todo o tempo do mundo. Claro que o homem n�o escutava o que os ouvidos de Perrin captavam com tanta clareza quanto um sujeito normal ouviria dois gatos se digladiando dentro de uma sacola. E gatos molhados.</p><p>As batidas de Bashere interromperam a briga, cortando a discuss�o como uma faca afiada.</p><p>� Pode entrar � autorizou uma voz serena, em alto e bom som.</p><p>Perrin teve que fazer o maior esfor�o do mundo para n�o empurrar Bashere para o lado. Assim que entrou, seus olhos ansiosos logo buscaram Faile: estava sentada em uma poltrona de bra�os largos, posicionada no ponto exato em que a luz que vinha das janelas parecia iluminar menos. Ali o tapete era quase todo vermelho-escuro, um tom que lembrava sangue, e uma das tape�arias estampava uma mulher a cavalo matando um leopardo com uma lan�a, enquanto outra ilustrava uma batalha furiosa sob um estandarte do Le�o Branco. O cheiro que ela emanava era uma mistura de emo��es que Perrin n�o conseguia discernir, e a bochecha esquerda tinha a marca vermelha de uma m�o. Mas ela sorriu, ainda que fosse um sorriso t�nue.</p><p>Perrin ficou surpreso quando finalmente p�s os olhos na m�e de Faile. Estava esperando uma mulher fr�gil, com toda aquela conversa de Bashere sobre pombas, mas Lady Deira era algumas polegadas mais alta que o marido e tinha um porte� escultural. N�o era grande como a Senhora Luhhan, que tamb�m era bem roli�a, nem como Daise Congar, que parecia forte o bastante para manejar um martelo de ferreiro. Lady Deira tinha seios fartos � coisa que homem nenhum devia reparar a respeito da sogra � e, olhando para ela, ficava bem claro de onde vinha a beleza de Faile. O rosto de sua esposa era igual ao da m�e, mas sem a faixa branca no cabelo, saindo das t�mporas. Se era assim que Faile ficaria naquela idade, Perrin era um homem de muita sorte. Por outro lado, quando os olhos enviesados da sogra se cravaram nele, aquele nariz pronunciado a fez parecer uma �guia � uma �guia de olhar ardente, pronta para enfiar as garras bem fundo naquele coelho particularmente insolente. A mulher cheirava a f�ria e desprezo. Ainda assim, a verdadeira surpresa foi a marca vermelha de uma m�o em sua bochecha.</p><p>� Ah, papai, est�vamos falando de voc� � comentou Faile, com um sorriso amoroso, deslizando at� Bashere e tomando suas m�os. Beijou as bochechas do pai, e Perrin sentiu uma s�bita estocada de desapontamento. Pai nenhum merecia toda aquela aten��o quando o marido estava de p� logo ali, depois de receber apenas um breve sorriso.</p><p>� Opa, � melhor eu sair correndo e me esconder, Zarine? � gracejou Bashere, dando uma risadinha. Ah, e que risadinha animada� ele nem pareceu notar que a esposa e a filha tinham se agredido!</p><p>� Ela agora prefere Faile, Davram � retrucou Lady Deira, em um tom bem distra�do. Cruzando os bra�os sob aquele busto farto, ela encarou Perrin de cima a baixo, sem fazer o menor esfor�o para disfar�ar.</p><p>Perrin ouviu quando Faile sussurrou para o pai, bem baixinho.</p><p>� Agora s� depende dele.</p><p>Bem, e devia depender, mesmo, se ela e a m�e tinham mesmo chegado a se agredir. Estufando o peito, ele se preparou para dizer � sogra que trataria Faile com a mesma delicadeza que usaria para lidar com uma gatinha e que ele pr�prio seria d�cil como uma ovelha. Essa �ltima parte era mentira, claro, j� que Faile faria picadinho de qualquer homem muito d�cil, mas a paz precisava ser mantida. Al�m do qu�, para falar a verdade, <emphasis>tentava</emphasis> ser gentil com a esposa. Talvez fosse por causa de Lady Deira que Bashere falara tanto em gentileza, j� que homem nenhum teria coragem de tratar aquela mulher de outra forma.</p><p>Antes que pudesse abrir a boca, a m�e de Faile se adiantou.</p><p>� Os olhos amarelos sozinhos n�o fazem o lobo. Voc� � forte o bastante para dar conta da minha filha, garoto? Pelo que ela me disse, voc� � um mariquinhas que cede a todos os caprichos e deixa a menina fazer gato e sapato de voc�.</p><p>Perrin encarou a sogra. Bashere se sentara na poltrona que Faile ocupava quando eles chegaram, concentrado em examinar as botas com complac�ncia, as pernas cruzadas e os p�s apoiados um sobre o outro. Faile, sentada no bra�o largo da poltrona, encarou a m�e de cenho franzido, indignada, ent�o sorriu para Perrin com toda a confian�a que demonstrara quando disse que ele deveria enfrentar Rand.</p><p>� Eu n�o acho � retrucou, hesitante. Faile at� que tentava, mas Perrin n�o achava que tivesse deixado isso acontecer. Talvez vez ou outra, s� para agrad�-la.</p><p>Lady Deira fungou de um jeito desdenhoso que j� transmitia tudo o que queria dizer.</p><p>� Os fracotes nunca acham. As mulheres precisam de homens fortes, pelo menos mais fortes que elas. Uma for�a que vem daqui. � Dizendo isso, cutucou o peito de Perrin com tanta for�a que ele chegou a grunhir. � Nunca vou me esquecer da primeira vez que Davram me agarrou pela nuca e me mostrou que era o mais forte de n�s dois. Foi magn�fico! � Perrin ficou sem rea��o. Aquela imagem mental n�o parecia apropriada. � Se a mulher for mais forte que o homem, vai acabar desprezando o marido, pois suas duas op��es v�o ser tiraniz�-lo ou se diminuir para n�o diminu�-lo. Mas, se o marido for forte� � ela o cutucou outra vez com ainda mais for�a �, a mulher pode ser t�o forte quanto ele, t�o forte quanto puder ser. E voc� vai ter que provar para Faile que � mesmo forte. � Outra cutucada, ainda mais forte. � As mulheres da minha fam�lia s�o leopardos. Se voc� n�o puder trein�-la para ca�ar sob seu comando, Faile vai pintar e bordar com voc�, e vai ser merecido. Voc� � forte? � Desta vez, o cutuc�o o fez recuar um passo.</p><p>� Pode parar com isso? � grunhiu Perrin. Conseguiu se conter e n�o esfregar o peito. Faile n�o estava ajudando em nada, s� ficava com aquele sorriso de encorajamento. Bashere o encarava, erguendo uma das sobrancelhas. � Se eu �s vezes fa�o as vontades dela, � porque quero. Gosto de ver Faile sorrir. Se espera que eu v� atropel�-la, ent�o pode esquecer. � Talvez, com aquilo, tivesse perdido. A sogra o encarou com uma express�o inusitada, e seu cheiro era um emaranhado que ele n�o conseguia discernir, embora a raiva ainda estivesse presente, junto com um desd�m g�lido. Bem, passando uma boa impress�o ou n�o, estava farto de tentar dizer o que Bashere e a esposa queriam ouvir. � Eu amo Faile, e ela me ama. At� onde eu sei, � isso que importa.</p><p>� Ele disse � come�ou Bashere, devagar � que, se voc� levar nossa filha embora, vai l� busc�-la de volta. E parece achar que nove mil saldaeanos a cavalo n�o s�o p�reo para algumas centenas de arqueiros de Dois Rios.</p><p>Lady Deira encarou Perrin com um olhar pensativo. Ent�o se recomp�s, endireitando a postura e erguendo a cabe�a.</p><p>� E parece tudo �timo, mas qualquer homem consegue manejar uma espada. O que eu quero saber � se voc� pode domar uma mulher obstinada, cabe�a-dura, desobediente�</p><p>� J� chega, Deira � interrompeu Bashere, com toda a delicadeza. � J� que ficou �bvio que voc� decidiu que Zarine� ou melhor, Faile n�o � mais crian�a, acho que o rapaz vai se sair bem.</p><p>Para a surpresa de Perrin, a sogra curvou a cabe�a, d�cil.</p><p>� Como quiser, meu cora��o. � Ent�o encarou Perrin com uma olhada nada d�cil, como se dissesse que era assim que um homem devia tratar uma mulher.</p><p>Bashere murmurou alguma coisa sobre netos e sobre voltar a fortalecer o sangue. E Faile? Ela abriu um sorriso que Perrin nunca tinha visto em seu rosto, uma express�o que o deixava decididamente desconfort�vel. Com as m�os entrela�adas, os tornozelos cruzados e a cabe�a enviesada para um dos lados, ela parecia� submissa. Faile, submissa! Talvez tivesse entrado para uma fam�lia de malucos.</p><empty-line/><p>Rand fechou a porta quando Perrin saiu, terminou de beber a ta�a de ponche e foi se esparramar em uma poltrona, pensativo. Torcia para que Perrin se desse bem com Bashere, mas se os dois acabassem trocando farpas, o amigo poderia passar a ver a ida a Tear com bons olhos. Precisava de Perrin ou Mat por l� para convencer Sammael de que aquele era o verdadeiro ataque. O pensamento lhe trouxe uma risada fraca e amarga. Luz, que coisa a se pensar sobre um amigo. Lews Therin dava risadinhas e resmungava coisas indistintas sobre amigos e trai��o. Ah, Rand queria poder passar um ano dormindo.</p><p>Min entrou sem bater ou ser anunciada, claro. As Donzelas �s vezes olhavam estranho para ela, mas, depois do que quer que Sulin ou talvez Melaine tivesse dito, Min fora inclu�da na pequena lista dos que podiam entrar n�o importava o que ele estivesse fazendo. E a jovem j� tirava proveito disso. Em uma das vezes, insistira em se sentar no banquinho ao lado da banheira e ficar conversando enquanto ele tomava banho como se aquilo fosse muito normal. Depois de entrar, a jovem s� se deteve para encher um c�lice de ponche, ent�o se acomodou no colo dele, se remexendo um pouquinho. Seu rosto estava coberto de uma leve camada reluzente de suor. Min nem quisera tentar aprender o truque para ignorar o calor, s� dava risada e dizia que n�o era Aes Sedai e nem tinha planos de se tornar uma. Rand agora era seu assento favorito para aqueles encontros, mas tinha certeza de que, se fingisse n�o notar, Min logo desistiria daquele jogo. Por isso que se escondera o m�ximo que p�de na �gua da banheira, em vez de vendar os olhos dela com Ar. Se ela soubesse que o estava afetando, nunca pararia com aquilo. Al�m disso, ainda que se envergonhasse de admitir, ter uma garota no seu colo o fazia se sentir bem. Ele n�o era feito de pedra, afinal.</p><p>� A conversa com Faile foi boa?</p><p>� N�o durou muito. O pai dela apareceu e a chamou, e ela estava ocupada demais pendurada no pesco�o dele para notar minha presen�a. A� fui dar uma voltinha.</p><p>� N�o gostou dela? � indagou Rand, e Min esbugalhou os olhos, os c�lios longos fazendo-os parecer ainda maiores. As mulheres nunca esperavam que um homem percebesse ou compreendesse algo que n�o queriam que ele notasse.</p><p>� N�o � que eu desgoste dela, n�o exatamente� � come�ou Min, for�ando as palavras. � � que� Bem, ela quer o que quer e na hora que quer e n�o aceita n�o como resposta. Tenho pena do coitado do Perrin, casado com ela. Sabe o que Faile queria comigo? Se assegurar de que eu n�o tinha nenhuma inten��o de me aproximar demais de seu precioso marido. Voc� n�o deve ter notado, os homens nunca notam essas coisas� � Ela parou e ergueu os olhos para Rand, encarando-o cheia de suspeita por tr�s daqueles c�lios compridos. Ele j� demonstrara ser capaz de notar certas coisas, afinal. Assim que ficou satisfeita em ver que ele n�o parecia prestes a rir ou fazer algum gracejo, prosseguiu: � S� com aquele encontro r�pido, vi que Perrin est� enfeiti�ado por ela, coitado. E ela por ele, se � que isso � bom. Acho que ele nem sequer olharia para qualquer outra mulher, mas Faile n�o acredita. Pelo menos n�o se essa outra mulher olhar primeiro. Enfim, ele encontrou o falc�o, e eu n�o me surpreenderia se ela o matar quando o gavi�o aparecer. � Min fez uma pausa para respirar, ent�o ergueu os olhos para Rand outra vez e tratou de beber o ponche.</p><p>Min explicaria aquela coisa de falc�o e gavi�o, se ele perguntasse � at� onde Rand lembrava, a mulher nunca revelava nada sobre suas vis�es que n�o dissesse respeito � pessoa que perguntava, mas algo fizera Min mudar em rela��o a ele nos �ltimos tempos. Passara a tentar ter vis�es de qualquer pessoa que ele pedisse, contando tudo o que visse. S� que fazer aquilo a deixava desconfort�vel.</p><p><emphasis>Cale-se!</emphasis> , gritou para Lews Therin, em sua cabe�a. <emphasis>V� embora! Voc� est� morto!</emphasis> N�o adiantou. J� fazia um tempo que parara de funcionar. A voz continuou balbuciando alguma coisa, talvez sobre ser tra�do por amigos, talvez sobre tra�-los.</p><p>� Voc� viu algo que tenha a ver comigo? � perguntou.</p><p>Com um sorriso agradecido, Min se aninhou em seu peito com uma intimidade de amigos de longa data � ao menos era o que ela provavelmente pretendia que fosse� se bem que, pensando melhor, talvez n�o � e come�ou a falar entre um gole de ponche e outro.</p><p>� Quando voc�s dois estavam juntos, vi aqueles vagalumes e a escurid�o mais fortes do que nunca. Hum� Eu gosto de ponche de mel�o. Mas, com os dois no mesmo ambiente, os vagalumes pareciam resistir, em vez de serem engolidos mais r�pido do que conseguiam se juntar, que � o que acontece quando voc� est� sozinho. E vi uma outra coisa quando voc�s estavam juntos: haver� duas ocasi�es em que Perrin dever� estar presente, ou voc� � Ela encarou o c�lice, sem querer ver o rosto de Rand. � Se ele n�o estiver, algo ruim vai acontecer com voc�. � A voz soava diminuta e assustada. � Algo muito ruim.</p><p>Mesmo querendo saber mais � como por exemplo o qu�, onde e quando �, Rand n�o fez perguntas. Min teria contado, se soubesse.</p><p>� Ent�o s� preciso manter Perrin por perto � ponderou, no tom mais animado que conseguiu. N�o gostava de ver Min assustada.</p><p>� N�o sei se isso basta � murmurou ela, para o ponche. � <emphasis>Vai</emphasis> acontecer se ele n�o estiver presente, mas n�o vi nada que indicasse que n�o aconteceria se ele estivesse. E vai ser bem ruim, Rand. S� de pensar naquela vis�o, eu fico�</p><p>Rand ergueu o rosto dela e se surpreendeu ao ver l�grimas.</p><p>� Eu n�o sabia que essas vis�es podiam machucar tanto voc�, Min � comentou ele, com a voz suave. � Me desculpe.</p><p>� Voc� n�o sabe de um mont�o de coisas, pastorzinho � resmungou ela, arrancando um len�o com bordas rendadas da manga e secando os olhos. � Entrou um cisco, s� isso. Voc� devia mandar Sulin limpar este lugar com mais frequ�ncia. � O len�o voltou para o lugar com um floreio. � Melhor eu voltar para A Coroa de Rosas. S� precisava contar o que vi a respeito de Perrin.</p><p>� Tenha cuidado, Min. Talvez n�o seja bom voc� vir tanto aqui. N�o acho que Merana a deixaria impune se descobrisse o que voc� anda fazendo.</p><p>Ela abriu um sorriso que lembrava muito o da antiga Min, e seus olhos pareciam alegres, mesmo ainda brilhando com as l�grimas.</p><p>� Pode deixar que eu me preocupo com isso, pastorzinho. Elas acham que estou toda abobalhada com o que vejo em Caemlyn, como qualquer outra jeca de interior. Se eu n�o viesse aqui todo dia, como voc� ficaria sabendo que elas est�o se reunindo com os nobres?</p><p>A caminho do Pal�cio, no dia anterior, Min por acaso vira Merana despontando na janela de uma mans�o que ela descobrira pertencer a Lorde Pelivar. As chances de que Pelivar e seus convidados fossem os �nicos presentes eram as mesmas de que Merana tivesse ido at� l� para limpar os ralos.</p><p>� Tenha cuidado � insistiu Rand, com firmeza. � N�o quero que voc� se machuque, Min.</p><p>Ela o analisou por um instante, muda, ent�o se ergueu s� o suficiente para o beijar bem de leve nos l�bios. Ao menos� Bem, foi de leve, mas aquilo acabara se tornando uma esp�cie de costume sempre que ela ia embora, e Rand achava que aqueles beijos estavam ficando um pouco menos leves a cada dia.</p><p>� Preferia que voc� n�o fizesse isso � comentou, apesar de todas as promessas que fizera a si mesmo. Deixar que ela se sentasse em seu colo era uma coisa, mas aqueles beijos j� estavam indo longe demais.</p><p>� Sem choro, fazendeiro. � Ela sorriu. � E sem gaguejar. � Min afagou seu cabelo como se Rand ainda tivesse dez anos e foi andando at� a porta. S� que ela o fez em um balan�ar gracioso que podia n�o produzir l�grimas nem deix�-lo gaguejando, mas que com certeza tornavam dif�cil desviar os olhos, n�o importava quanto tentasse evitar. Quando Min se virou, Rand tratou de levar os olhos depressa para o rosto dela. � Ora, como voc� est� corado, pastorzinho. Achei que o calor n�o incomodasse mais voc�. Bem, n�o importa. S� queria dizer que vou tomar cuidado. Nos vemos amanh�. N�o se esque�a de cal�ar meias limpas.</p><p>Assim que a porta se fechou com firmeza atr�s dela, Rand deixou escapar um longo suspiro. Meias limpas? Ora, botava roupas limpas todos os dias! S� lhe restavam duas alternativas: poderia continuar fingindo que Min n�o estava causando nenhum impacto at� que ela desistisse ou poderia se resignar e gaguejar, como ela queria � ou talvez implorar. Se implorasse, ela talvez parasse, mas a� poderia espezinh�-lo com isso para o resto da vida, e como ela gostava de provocar� A �nica outra op��o, que era manter seus encontros sempre curtos e agir com muita frieza, tamb�m estava fora de quest�o. Min era sua amiga. Seria como tentar ser frio com� s� conseguia pensar em Aviendha e Elayne, mas elas n�o se encaixavam na situa��o. Seria como ser frio com Mat e Perrin. S� n�o entendia por que ainda se sentia t�o confort�vel perto de Min. N�o deveria, com ela provocando-o daquele jeito, mas era assim que se sentia.</p><p>Os murm�rios de Lews Therin tinham come�ado a se intensificar no instante em que Min mencionou as Aes Sedai, e ele j� falava com toda a clareza. <emphasis>Se elas est�o tramando algo com os nobres, tenho que tomar uma provid�ncia.</emphasis></p><p><emphasis>V� embora</emphasis>, ordenou Rand.</p><p><emphasis>Em nove, elas s�o perigosas, mesmo destreinadas. Muito perigosas. N�o posso permitir. N�o. Ah, n�o�</emphasis></p><p><emphasis>V� embora, Lews Therin!</emphasis></p><p><emphasis>Eu n�o estou morto!,</emphasis> ganiu a voz. <emphasis>Eu mere�o morrer, mas estou vivo! Vivo! Vivo!</emphasis></p><p><emphasis>Voc� est� morto!</emphasis>, rebateu Rand gritando dentro da pr�pria mente. <emphasis>Voc� est� morto, Lews Therin!</emphasis></p><p>A voz foi definhando, ainda uivando �<emphasis>Vivo!�</emphasis> at� desaparecer.</p><p>Tr�mulo, Rand se levantou e encheu o c�lice outra vez, bebendo tudo de um gole s�. Seu rosto pingava de suor, a camisa estava colada ao corpo. Retomar a concentra��o demandava esfor�o. Lews Therin estava cada vez mais persistente. Uma coisa era certa: se Merana estivesse tramando algo com os nobres, sobretudo com os nobres que estavam a ponto de declarar rebeli�o caso ele n�o apresentasse Elayne r�pido o bastante, ent�o precisava mesmo tomar uma provid�ncia. Infelizmente, n�o tinha ideia de qual.</p><p><emphasis>Mate as mulheres</emphasis>, sussurrou Lews Therin. <emphasis>Em nove, elas s�o perigosas demais. Mas se eu matar algumas, se expulsar as outras daqui� � s� matar� deix�-las com medo de mim� A� n�o vou morrer de novo�</emphasis></p><p><emphasis>Eu mere�o morrer, mas quero viver�</emphasis> Ele come�ou a chorar, mas continuou sussurrando.</p><p>Rand encheu o c�lice outra vez e tentou n�o ouvir.</p><empty-line/><p>Quando viu o Port�o Origan, a entrada para a Cidade Interna, Demira Eriff diminuiu o passo. V�rios homens na multid�o a olhavam com admira��o conforme se espremiam para passar, e, no que talvez fosse a mil�sima vez, ela considerou que talvez devesse parar de usar os vestidos de sua terra natal, Arad Doman � e, tamb�m pelo que devia ser a mil�sima vez, desconsiderou imediatamente. Vestidos n�o faziam tanta diferen�a, j� fazia anos que apenas mandava fazer c�pias dos mesmos seis modelos, e se algum homem n�o notasse que ela era Aes Sedai e ficasse um pouco mais atrevido, n�o era dif�cil faz�-lo entender com quem estava se metendo. Aquilo sempre os fazia largar de seu p� bem depressa, quase sempre t�o r�pido quanto conseguiam correr.</p><p>Naquele instante, s� tinha olhos para o Port�o Origan, um grande arco de m�rmore branco cravado na muralha branca e cintilante, e para o fluxo de gente, carro�as e carro��es que o cruzavam sob os olhares dos dez Aiel � suspeitava de que eles n�o estivessem t�o desatentos e relaxados quanto pareciam, e talvez pudessem reconhecer uma Aes Sedai s� de olhar. Era surpreendente, mas algumas pessoas tinham essa capacidade. Al�m disso, fora seguida desde A Coroa de Rosas � aqueles casacos e cal�as feitos para se camuflar na paisagem de rochas e arvoredos chamavam muita aten��o nas ruas da cidade. Ent�o, mesmo que ela quisesse entrar na Cidade Nova, mesmo que estivesse disposta a correr o risco de irritar Merana, entrando sem a permiss�o de al�Thor, n�o conseguiria. Ah, como aquilo a irritava! Aes Sedai precisando da <emphasis>permiss�o</emphasis> de um homem. S� queria ver Milam Harnder, o Segundo Bibliotec�rio do Pal�cio Real, seu agente havia quase trinta anos.</p><p>A biblioteca do Pal�cio n�o se comparava � da Torre Branca, ou mesmo � Biblioteca Real de Cairhien, ou � Biblioteca Terhana, em Bandar Eban, mas conseguir acesso a qualquer uma dessas seria t�o f�cil quanto criar asas e voar. Bem, se Milam tivesse recebido sua mensagem, j� teria come�ado a procurar os livros de que ela precisava. A biblioteca do Pal�cio poderia muito bem ter informa��es sobre os selos da pris�o do Tenebroso, quem sabe at� algumas fontes catalogadas � mas talvez isso j� fosse esperar demais. A maioria das bibliotecas possu�a alguns volumes largados, livros que j� deveriam ter sido registrados havia muito, mas que permaneceram esquecidos por cem ou quinhentos anos, �s vezes at� mais. Quase todas as bibliotecas guardavam segredos de que nem os bibliotec�rios suspeitavam.</p><p>Ficou esperando, com toda a paci�ncia, deixando a multid�o fluir ao redor, atenta apenas �s pessoas que sa�am pelo port�o, mas n�o avistou a cabe�a calva e o rosto redondo de Milam. Por fim, suspirou. Ele n�o recebera a mensagem, ou teria inventado alguma desculpa para estar ali na hora marcada. Teria que esperar pela sua vez de acompanhar Merana at� o Pal�cio e torcer para que o jovem al�Thor lhe desse permiss�o � <emphasis>permiss�o!</emphasis> � para procurar na biblioteca.</p><p>Desviou os olhos da multid�o, sem querer cruzando olhar com o de um sujeito alto de rosto magro com colete de carroceiro que a fitava com admira��o excessiva. Quando seus olhos se encontraram, ele deu uma piscadela!</p><p>Ah, n�o aguentaria aquilo durante todo o caminho de volta at� a estalagem. <emphasis>Eu n�o posso me esquecer de mandar fazer uns vestidos mais comuns</emphasis> , pensou, perguntando-se por que ainda n�o tomara essa provid�ncia. Por sorte, j� visitara Caemlyn antes, alguns anos atr�s. Stevan estaria esperando na estalagem A Coroa de Rosas � o homem poderia ser um bom sinalizador para acrescentar �quelas caminhadas, se houvesse necessidade. Deslizou para a penumbra de uma abertura estreita entre a oficina de um cuteleiro e uma taverna.</p><p>Da �ltima vez que visitara a cidade, as vielas estreitas de Caemlyn estavam enlameadas. Agora, mesmo secas, quanto mais ela avan�ava, pior era o cheiro. As paredes eram lisas, sem janelas, e era raro ver uma porta estreita ou um port�o apertado, e os que ela via pareciam n�o ser abertos havia muito tempo. Gatos raqu�ticos espiavam em sil�ncio do alto de barris e de paredes, e c�es de rua com costelas pronunciadas voltavam as orelhas para tr�s, por vezes rosnando antes de escaparem, sorrateiros, por alguma passagem transversal, que era como chamavam essas vielas naquela regi�o. N�o tinha nenhum medo de ser arranhada ou mordida. Os gatos sempre pareciam sentir algo nas Aes Sedai, e nunca ouvira falar de uma que tivesse sido arranhada nem mesmo pelo gato mais feroz. Verdade que os c�es sempre se mostravam hostis, praticamente como se pensassem que as Aes Sedai <emphasis>fossem</emphasis> gatos, mas quase sempre sa�am de fininho depois de rosnar um pouco.</p><p>Havia bem mais c�es e gatos nas passagens do que ela se lembrava, todos magrelos, mas tinha bem menos gente. N�o vira uma alma sequer at� dobrar uma �ltima esquina e dar de cara com cinco ou seis Aiel que vinham em sua dire��o, todos rindo e conversando. Pareceram assustados em v�-la.</p><p>� Perd�o, Aes Sedai � murmurou um deles, e todos se apertaram contra uma das laterais da passagem, mesmo j� havendo espa�o o bastante para passar.</p><p>Demira se perguntou se seriam os mesmos que a haviam seguido mais cedo, j� que um daqueles rostos parecia um tanto familiar � era um sujeitinho atarracado com olhos vilanescos. Ainda assim, assentiu e agradeceu baixinho enquanto passava.</p><p>O choque foi t�o grande ao sentir a lan�a penetrando a lateral do corpo que Demira nem gritou. Buscou <emphasis>saidar</emphasis>, desesperada, mas sentiu outra pontada trespassando pelo lado do corpo, ent�o caiu na poeira. Aquele rosto familiar estava colado ao seu, os olhos negros com um brilho zombeteiro, rosnando palavras que ela n�o ouvia enquanto tentava abra�ar <emphasis>saidar</emphasis> , tentava� Ent�o veio a escurid�o.</p><empty-line/><p>Quando Perrin e Faile finalmente se viram livres daquela entrevista intermin�vel com os pais dela, Sulin, aquela servi�al esquisita, j� estava esperando no corredor. Perrin estava ensopado de suor, que deixara manchas escuras em seu casaco, e sentia como se tivesse corrido dez milhas sendo a�oitado a cada passada. Faile tinha um sorriso estampado no rosto e andava quase saltitando. Estava radiante, bonita, e parecia t�o orgulhosa de si mesma quanto na ocasi�o em que chegara com os homens de Colina da Vig�lia no exato instante em que os Trollocs estavam prestes a quebrar o cerco de Emond. Sulin fazia uma mesura toda vez que um dos dois olhava para ela, sempre t�o desajeitada que ficava a ponto de cair. Seu rosto cori�ceo com a cicatriz descendo pela bochecha estava congelado em um sorriso prestativo, mas que parecia pronto para se espatifar com uma �nica respira��o. Donzelas transitavam pelos corredores, gesticulando umas para as outras com as m�os, e Sulin tamb�m fazia rever�ncias para elas, ainda que rangesse os dentes alto o bastante para Perrin ouvir com clareza. At� Faile come�ou a olhar para ela com cautela.</p><p>Depois que a mulher os conduziu a seus aposentos � uma sala de estar e um quarto com uma cama de dossel grande o bastante para dez pessoas, al�m de uma varanda de m�rmore comprida que dava para um p�tio com uma fonte �, ela insistiu em explicar e mostrar tudo, at� o que j� conseguiam ver. Os cavalos haviam sido esfregados e levados para a estrebaria. Os alforjes tinham sido retirados da bagagem e dependurados no guarda-roupa, junto com a cinta do machado de Perrin, e quase todos os seus escassos pertences estavam guardados em perfeita ordem em um gaveteiro. O machado de Perrin estava escorado ao lado da lareira de m�rmore cinza, como se tivesse sido feito para cortar gravetos. Dois jarros de prata reluzentes por conta da condensa��o continham ch� gelado de menta e ponche de ameixa. Sulin fez quest�o de apontar os dois espelhos de moldura dourada, mesmo que fossem t�o evidentes que nem um cego teria deixado de ver; um estava apoiado sobre uma mesa de cabeceira, sobre a qual tamb�m estavam a escova e o pente de marfim de Faile; o outro era um espelho grande de p� com suportes entalhados.</p><p>Enquanto Sulin explicava que estavam trazendo a �gua para o banho e mostrava as banheiras de cobre, Perrin enfiou uma coroa de ouro em sua palma calejada.</p><p>� Obrigado � agradeceu �, mas se voc� n�o se incomodar, pode ir� � Por um momento, achou que a mulher fosse atirar a moeda em cima dele, mas ela simplesmente fez outra rever�ncia tr�mula e bateu a porta ao sair.</p><p>� Ora, acho que quem treina as criadas n�o entende muito do assunto � opinou Faile. � Uma solu��o �tima, ali�s. Voc� foi educado, mas firme. Se ao menos fosse assim com os <emphasis>nossos</emphasis> servi�ais. � Quando ela virou as costas magras, baixou a voz a um murm�rio: � Desabotoa o vestido para mim?</p><p>Perrin sempre sentia que tinha dedos muito grossos e desajeitados quando precisava lidar com os bot�ezinhos min�sculos das roupas de Faile, e sempre ficava com receio de arranc�-los ou de rasgar o vestido. Por outro lado, gostava de despir a esposa. Ela em geral pedia ajuda a uma criada, e Perrin tinha certeza de que era por causa dos muitos bot�es que j� perdera.</p><p>� Aquelas bobagens para a sua m�e� alguma coisa daquilo era a s�rio?</p><p>� Ora, meu marido, voc� n�o me domou? � retrucou Faile, sem nem se virar para olh�-lo. � N�o me ensinou que devo me empoleirar em seu pulso ao menor chamado? Eu n�o corro para fazer suas vontades? N�o obede�o at� seus menores caprichos?</p><p>Faile estava com um cheiro quase debochado, e sua voz com certeza soava divertida. O problema era que tamb�m parecia estar falando s�rio, com o mesmo tom e �nfase que falara aquelas mesmas palavras para a m�e, mantendo a cabe�a erguida e imbuindo a voz com o m�ximo de orgulho que podia sentir. As mulheres eram mesmo estranhas, n�o havia o que fazer. E a m�e dela�! Ali�s, at� o pai�!</p><p>Talvez fosse melhor mudar de assunto. O que era mesmo aquele neg�cio que Bashere mencionara?</p><p>� Faile, o que � uma coroa partida? � Tinha certeza de que era aquele o nome.</p><p>Ela soltou um muxoxo irritado e come�ou a cheirar meio incomodada.</p><p>� Rand est� fora do Pal�cio, Perrin.</p><p>� E qual � o problema? � Ele se curvou para encarar um bot�ozinho de madrep�rola min�sculo de perto e franziu o cenho �s costas dela. � Como � que voc� sabe?</p><p>� As Donzelas. Bain e Chiad me ensinaram um pouco daquela linguagem de sinais. N�o conte para ningu�m, Perrin. Pela cara que fizeram quando ficaram sabendo que tinha Aiel aqui na cidade, acho que n�o deviam ter me ensinado. Bem, talvez seja bom entender as conversas sem que elas saibam. Ficam tantas perto de Rand� � Ela se virou, encarando-o com um olhar malicioso e passando a m�o em sua barba. � Aquelas primeiras Donzelas que encontramos acharam que voc� tem ombros bonitos, mas n�o acharam isso aqui muito charmoso. As Aiel n�o sabem apreciar uma bela barba.</p><p>Balan�ando a cabe�a, Perrin esperou Faile dar as costas de novo para guardar no bolso, sorrateiro, o bot�o que ca�ra quando ela virou de repente. Talvez ela n�o notasse. Ele mesmo passara uma semana sem um dos bot�es do casaco, s� reparou quando Faile comentou. Quanto � quest�o da barba, a julgar pelo que Gaul lhe contara, os Aiel sempre se mantinham de rosto liso. Bain e Chiad tinham feito brincadeirinhas estranhas sobre a barba espessa de Perrin � naquele calor, ele mais de uma vez chegara a considerar rasp�-la, mas Faile gostava mesmo da barba.</p><p>� E Rand? Por que est� me contando que ele saiu do Pal�cio?</p><p>� S� porque voc� deveria saber o que seu amigo anda fazendo pelas suas costas. �bvio que voc� n�o sabia que ele ia sair. N�o se esque�a de que ele � o Drag�o Renascido. � quase como um rei, um rei dos reis, e os reis �s vezes usam at� os pr�prios amigos, tanto por acaso quanto de prop�sito.</p><p>� Rand n�o faria uma coisa dessas. O que voc� est� sugerindo, afinal? Que eu fique espionando meu amigo?</p><p>Tinha sugerido aquilo de brincadeira, mas Faile respondeu:</p><p>� Voc� n�o, meu amor. Essa � uma miss�o para uma esposa.</p><p>� Faile! � Perrin se endireitou t�o depressa que quase arrancou outro bot�o, ent�o segurou-a pelos ombros e virou-a de frente para ele. � Voc� n�o vai espionar Rand, est� me ouvindo? � Ela o encarou com um olhar obstinado, abrindo a boca para retrucar e estreitando os olhos. A mulher estava praticamente fedendo a teimosia, mas Perrin tamb�m sabia ser teimoso. � Faile, quero ver um pouco daquela obedi�ncia de que voc� estava se gabando mais cedo. � Faile sempre s� fazia o que ele pedia quando queria. Do contr�rio, ela simplesmente n�o obedecia e nem levava em conta se ele estava ou n�o certo em pedir o que fosse. � Estou falando s�rio, Faile. Quero que me prometa que n�o vai fazer isso. Eu n�o vou participar de�</p><p>� Eu prometo, meu cora��o � interrompeu ela, tocando de leve a boca de Perrin com os dedos. � Prometo que n�o vou espionar Rand. Viu? Eu obede�o ao meu marido. Voc� ainda se lembra de quantos netos minha m�e falou que quer?</p><p>Perrin piscou, pego de surpresa pela s�bita mudan�a de assunto. Bem, ao menos ela prometera, e isso � que importava.</p><p>� Seis, eu acho. Perdi a conta quando ela come�ou a falar de quantos meninos e meninas.</p><p>Lady Deira os fizera ouvir alguns conselhos assustadoramente francos a respeito de como poderiam atingir logo a quantidade ideal de netos de cada sexo, e Perrin por sorte n�o prestara aten��o � estava mais ocupado se perguntando se era mesmo para ficar ali na sala at� ela terminar. Faile apenas assentira, como se fosse a coisa mais natural do mundo falar daquilo com o marido e o pai presentes.</p><p>� Pelo menos seis � corrigiu ela, com um sorriso realmente perverso. � Perrin, minha m�e s� vai nos deixar em paz quando eu puder dizer que o primeiro j� vem logo, ent�o pensei que se algum dia voc� conseguisse abrir o resto dos meus bot�es� � Ela ainda ruborizava, mesmo depois de meses de casamento, mas aquele sorriso malicioso permaneceu. � Ver uma cama de verdade depois de tantas semanas me deixa atrevida feito uma fazendeira na �poca da colheita.</p><p>Perrin �s vezes ficava pensando nessas garotas de fazenda saldaeanas de que Faile sempre falava. Enrubescendo ou n�o, se fossem t�o atrevidas quanto a esposa era quando ficavam a s�s, aquele pa�s nunca devia ver uma safra colhida. Arrebentou outros dois bot�es enquanto tirava o vestido de Faile, que n�o se importou nem um pouco e at� deu um jeito de rasgar sua camisa.</p><empty-line/><p>Demira ficou surpresa ao abrir os olhos, chocada por se ver deitada na cama do pr�prio quarto na estalagem A Coroa de Rosas. Deveria estar morta, n�o nua e metida entre len��is de linho. Stevan estava sentado em um banco ao p� da cama. Conseguia parecer aliviado, preocupado e irritado ao mesmo tempo. O esbelto Guardi�o cairhieno era uma cabe�a mais baixo que ela e quase vinte anos mais jovem, mesmo com todos os fios grisalhos nas t�mporas, mas, �s vezes, tentava se comportar como um pai e praticamente afirmava que ela n�o conseguiria dar conta de si mesma sem ele para conduzi-la pela m�o. Demira s� temia que esse epis�dio fosse lhe dar cr�dito nas disputas intermin�veis que os dois teriam, durante os meses por vir. Merana estava ao lado da cama, solene, e Berenicia estava do outro lado. A irm� Amarela e rechonchuda sempre tinha um ar um tanto solene, mas dessa vez estava ainda pior.</p><p>� Como? � perguntou com dificuldade.</p><p>Luz, estava fraca. Era efeito da Cura. Precisou de um esfor�o enorme para tirar os bra�os de sob o len�ol. Devia ter chegado muito perto da morte. A Cura n�o deixava cicatrizes, mas a mem�ria da dor e a fraqueza j� eram mais que suficientes.</p><p>� Um homem veio beber no sal�o da estalagem � explicou Stevan. � Pediu um pouco de cerveja. E disse que tinha visto alguns Aiel seguindo uma Aes Sedai. Ele descreveu voc� toda, dos p�s � cabe�a, e falou que os Aiel tinham a inten��o de matar a mulher. Assim que ele falou, eu senti�</p><p>O rosto do guardi�o ficou sombrio.</p><p>� Stevan me pediu para ir junto � contou Berenicia. � S� faltou me arrastar, e n�o paramos de correr nem um segundo. Para ser sincera, eu n�o sabia se t�nhamos chegado a tempo at� ver voc� abrir os olhos, agora.</p><p>� Claro que foi tudo parte da mesma armadilha, do mesmo aviso � ponderou Merana, a voz neutra. � Os Aiel e aquele homem. Uma pena termos deixado ele escapar, mas est�vamos t�o preocupadas com voc� que ele conseguiu escapulir antes que algu�m sequer pensasse em det�-lo.</p><p>Demira estava pensando em Milam e em como aquilo afetaria a busca na biblioteca, em quanto tempo precisaria para Stevan se acalmar. S� as �ltimas palavras de Merana lhe chamaram a aten��o.</p><p>� Det�-lo? Aviso? Do que voc� est� falando?</p><p>Berenicia resmungou sobre Demira s� entender se a explica��o estivesse escrita em um livro. A Amarela �s vezes tinha uma l�ngua bem �cida.</p><p>� Viu algu�m entrar no sal�o da estalagem e pedir uma bebida desde que chegamos aqui, Demira? � perguntou Merana, muito paciente.</p><p>Verdade, ningu�m ia l�. Uma ou duas Aes Sedai n�o afetavam muito a clientela de uma estalagem em Caemlyn, mas, quando eram nove, a conversa mudava. Nos �ltimos dias, a Senhora Cinchonine parecia fazer quest�o de ressaltar isso.</p><p>� Ent�o o objetivo era que voc�s soubessem que aqueles Aiel tinham me matado. Ou talvez era para eu ser encontrada antes de morrer� � Ent�o se lembrou dos grunhidos daquele sujeito de rosto vilanesco. � Me mandaram avisar a voc�s que � para ficar longe de al�Thor. As palavras foram: �Avise �s outras bruxas para ficarem longe do Drag�o Renascido.� Bem, eu n�o tinha como dar o recado morta, n�o � mesmo? As feridas foram onde?</p><p>Stevan se remexeu no banco, encarando-a com olhar sofrido.</p><p>� Foram dois cortes, nenhum atingiu qualquer �rg�o que pudesse t�-la matado na hora, mas a quantidade de sangue que voc� perdeu�</p><p>� E o que vamos fazer? � perguntou Demira para Merana. N�o queria dar chance para Stevan apontar como fora tola por se deixar apanhar daquele jeito.</p><p>� Acho que dever�amos encontrar os Aiel respons�veis e us�-los para dar o exemplo � respondeu Berenicia, com firmeza. Ela era da �rea onde havia disputas territoriais, as Marcas de Shienar, e ataques Aiel tinham sido uma constante em sua juventude. � Seonid concorda comigo.</p><p>� Ah, n�o! � protestou Demira. � N�o vou deixar arruinarem minha primeira chance de estudar os Aiel. Eles mal nos dirigem duas palavras do jeito que est� agora. E foi o meu sangue, afinal. Al�m do qu�, a menos que o homem que tenha dado o aviso tamb�m fosse Aiel, acho bem �bvio que eles agiram sob ordens de algu�m. E s� h� um homem em Caemlyn que pode dar ordens para os Aiel.</p><p>� Eu e as outras concordamos com voc�, Demira � interveio Merana, encarando Berenicia com firmeza. � N�o quero mais ouvir falar em perder tempo e energia para encontrar uma matilha de c�es em meio a centenas quando o homem que os manda sair para ca�ar anda por a� com um sorriso no rosto.</p><p>Berenicia pareceu um pouco irritada antes de baixar a cabe�a e assentir, mas isso j� era comum.</p><p>� Temos que pelo menos mostrar a al�Thor que ele n�o pode tratar nenhuma Aes Sedai desse jeito � concluiu Berenicia, contundente. Uma olhadela de Merana a fez moderar o tom, mas ela ainda n�o soava muito satisfeita ao continuar: � Mas n�o com tanta firmeza a ponto de arruinar os nossos planos, claro.</p><p>Demira tocou os l�bios com as pontas dos dedos e suspirou. Estava mesmo fraca.</p><p>� Bem, mas ainda temos uma quest�o: se o acusarmos abertamente, claro que ele vai negar, e n�o temos provas para jogar na cara dele. E n�o s� isso: pode ser mais inteligente deixar todos saberem que ele se sente livre para ca�ar Aes Sedai como coelhos. � Merana e Berenicia se entreolharam e aquiesceram, ainda com firmeza. O pobre Stevan franziu o cenho, irritad�ssimo. Nunca deixara ningu�m que a machucara sair impune. � Ser� que n�o � melhor simplesmente n�o dizer nada? Isso com certeza vai faz�-lo queimar um pouco os miolos. Vai ficar se perguntando por que n�o dissemos nada, querendo saber o que vamos fazer� N�o sei medir quanto somos capazes de abalar a confian�a dele, mas podemos pelo menos deix�-lo um tanto inquieto.</p><p>� Um argumento v�lido � comentou Verin, junto � porta. � Al�Thor precisa respeitar as Aes Sedai, ou n�o teremos como trabalhar com ele. � Ela gesticulou para que Stevan sa�sse. O Guardi�o esperou o meneio de Demira, claro, mas saiu. A Marrom se sentou no banco que ele ocupara. � Pensei que, como voc� � que foi o alvo� � Ent�o parou e fez cara feia para Merana e Berenicia. � Voc�s n�o v�o se sentar? N�o quero ficar com torcicolo de ter que olhar para cima. � Verin prosseguiu enquanto as duas ainda traziam a �nica cadeira do quarto e um segundo banquinho ao lado da cama. � Como voc� foi o alvo, Demira, seria bom nos ajudar a decidir como Mestre al�Thor deve aprender essa li��o. E parece que voc� j� come�ou a pensar nisso.</p><p>� O que eu acho� � come�ou Merana, mas Verin a cortou.</p><p>� S� um momento, Merana. Demira tem direito de fazer a primeira sugest�o.</p><p>Demira prendeu a respira��o, esperando pelo rompante de Merana. Ela sempre parecia querer que suas decis�es fossem aprovadas por Verin � o que era at� natural, dadas as circunst�ncias, embora um tanto constrangedor �, mas era a primeira vez que Verin simplesmente assumia o controle. Ao menos na frente de outras. Ainda assim, Merana apenas encarou a Marrom rechonchuda por um momento, comprimindo os l�bios, ent�o baixou a cabe�a. Demira ficou se perguntando se aquilo significava que Merana estava abrindo m�o da miss�o diplom�tica em favor de Verin, j� que n�o parecia haver outra coisa que pudesse fazer. Todas se voltaram para Demira, esperando. O olhar de Verin era particularmente penetrante.</p><p>� Se quisermos deixar o rapaz preocupado com o que vamos fazer, sugiro que ningu�m v� ao Pal�cio hoje. Talvez sem nenhuma explica��o, ou, caso achem isso um pouco extremo demais, ao menos com uma explica��o que o deixe apreensivo. � Merana assentiu. Ent�o, o que parecia mais importante, a julgar por como a situa��o estava se desenrolando, Verin tamb�m assentiu. Demira decidiu se aventurar um pouco mais. � Talvez seja bom passar v�rios dias sem mandar ningu�m, deix�-lo pensando no que pode ter acontecido. Com certeza o comportamento de Min vai nos indicar o momento em que ele estiver mais agitado e�</p><p>N�o importava o que elas decidissem fazer, queria estar envolvida. O sangue derramado fora <emphasis>dela</emphasis> , afinal, e s� a Luz sabia por quanto tempo teria que postergar suas pesquisas na biblioteca � isso por si s� j� era quase uma raz�o t�o boa para ensinar uma bela li��o a al�Thor quanto ele ter se esquecido de como se comportar diante das Aes Sedai.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 47</p><p><image l:href="#21"/></p><p>A Mulher Errante</p></title><p>Mat desejara uma cavalgada tranquila at� Ebou Dar, e, de certa forma, seu desejo foi atendido. Mas, por viajar com seis mulheres, quatro delas Aes Sedai, aborrecimentos n�o lhe faltaram.</p><p>Eles chegaram � floresta distante no primeiro dia, com o sol ainda relativamente alto no c�u, e cavalgaram por v�rias horas debaixo de copas de �rvores com ramos praticamente desfolhados. Os cascos dos cavalos faziam estalar os galhos secos e as folhas mortas no ch�o durante a passagem do grupo, at� pararem pouco antes do p�r do sol para montar acampamento pr�ximo de um t�mido c�rrego. Harnan, com sua mand�bula fina e um falc�o tatuado na bochecha, encabe�ava a fileira e logo tratou de cuidar para que os homens do Bando se instalassem, os cavalos fossem esfregados e coxeados, as sentinelas se posicionassem e as fogueiras fossem acesas. Nerim e Lopin andavam de um lado para o outro se lamuriando por n�o terem levado tendas. Como um homem poderia adivinhar que passaria v�rias noites dormindo no ch�o sem que seu mestre lhe dissesse nada?, choramingavam. Ali�s, se esse mestre acabasse morto, a culpa n�o seria deles. Um era magricelo e o outro, robusto, mas os dois conseguiam soar como ecos. Vanin cuidou de si mesmo, claro, apesar de ter ficado de olho em Olver e at� esfregado as partes de Vento que o garoto n�o conseguia alcan�ar nem se usasse sua sela como banco. Todos sempre cuidavam de Olver.</p><p>Tecnicamente, as mulheres ficaram no mesmo acampamento, mas, de certa forma, o seu lado ficava t�o � parte que era como se estivesse a cinquenta passadas de dist�ncia. Uma linha invis�vel parecia dividir o acampamento ao meio, com algum aviso impl�cito advertindo os homens do Bando para que n�o atravessassem. Nynaeve, Elayne e as duas mulheres de cabelo branco se reuniram em torno da pr�pria fogueira junto com Aviendha e a Ca�adora de cabelo dourado, e era raro que at� mesmo olhassem na dire��o em que Mat e seus homens estendiam seus cobertores. Conversavam em murm�rios que Mat mal conseguia escutar, e o pouco que foi capaz de identificar tinha a ver com a preocupa��o de Vandene e Adeleas de que Aviendha pretendesse arrastar seu cavalo at� Ebou Dar, em vez de mont�-lo. Thom tentou trocar umas palavras com Elayne e acabou recebendo um tapinha amig�vel na bochecha antes de ela mand�-lo voltar a se sentar com Juilin e Jaem, o Guardi�o idoso e magro � embora musculoso � que pertencia a Vandene e que parecia passar todo o seu tempo afiando a espada.</p><p>Mat n�o se opunha �s mulheres ficarem separadas. Pairava sobre elas uma tens�o que ele n�o conseguia compreender. Pelo menos era assim com Nynaeve e Elayne, e a Ca�adora tamb�m parecia contaminada. �s vezes, ficavam olhando para as Aes Sedai � as <emphasis>outras</emphasis> Aes Sedai, e ele n�o tinha certeza se algum dia conseguiria se acostumar a pensar em Nynaeve e Elayne como tal � com certo excesso de concentra��o, apesar de Vandene e Adeleas parecerem t�o distra�das quanto Aviendha. Fosse qual fosse o motivo, Mat n�o queria parte naquilo. Uma discuss�o parecia estar se armando e, independentemente do desfecho, um homem s�bio passaria longe de discuss�es entre mulheres. Com ou sem medalh�o de raposa, um homem s�bio passaria ainda mais longe se essas mulheres fossem Aes Sedai.</p><p>Tratava-se apenas de um pequeno aborrecimento, assim como o seguinte, que no caso era culpa dele mesmo: a comida. N�o demorou muito para sentirem cheiro de carneiro e de algum tipo de sopa, vindo da fogueira das Aes Sedai. Esperando uma viagem curta e r�pida at� Ebou Dar, ele n�o mencionara nada sobre comida para Vanin e os demais, o que significava que os homens traziam nos alforjes um pouco de carne-seca e peda�os duros de p�o �zimo. Mat mal vira um p�ssaro ou um esquilo, muito menos qualquer sinal de um veado, de forma que ca�ar estava fora de quest�o. Quando Nerim montou uma mesinha dobr�vel e um banquinho para Mat � Lopin estava montando outro para Nalesean �, Mat mandou que ele dividisse entre o grupo o que ele havia enfiado nos cestos dos burros de carga. O resultado n�o foi t�o bom quanto ele esperava.</p><p>Nerim ficou por perto da mesa de Mat, servindo �gua com um jarro de prata como se fosse o vinho mais fino e observando com ar pesaroso as iguarias desaparecerem nas goelas dos homens do Bando.</p><p>� Ovos de codorna na salmoura, milorde � anunciava ele em tom f�nebre. � Teriam ca�do muito bem no caf� de manh� de milorde em Ebou Dar. E a melhor l�ngua defumada, milorde. Se milorde fizesse ideia do que eu precisei passar para encontrar l�ngua defumada com mel naquela aldeia horrorosa, correndo contra o tempo, pois tudo o que havia de melhor j� tinha sido tomado pelas Aes Sedai. � Na realidade, a maior queixa do homem parecia ser o fato de Lopin ter encontrado cotovias em conserva para Nalesean. Toda vez que este dava uma mordida em seu jantar, o sorriso convencido de Lopin aumentava, assim como a careta infeliz de Nerim. Mas ficava claro, pelo modo como alguns homens farejavam o ar, que eles prefeririam ter comido um peda�o de carneiro ou uma tigela de sopa do que todo o estoque de Mat de l�ngua defumada com mel ou de pat� de f�gado de ganso. Olver olhava para a fogueira das mulheres com olhar abertamente desejoso.</p><p>� Quer ir comer com elas? � Mat perguntou para o menino. � Se quiser, n�o tem problema.</p><p>� Eu adoro enguia curada � respondeu Olver com determina��o. Em um tom mais sombrio, acrescentou: � De qualquer forma, ela pode colocar alguma coisa dentro. � Seus olhos acompanhavam Aviendha sempre que ela se movia, e o garoto aparentava ter come�ado a implicar tamb�m com a Ca�adora, talvez por ela passar boa parte do tempo conversando amigavelmente com a Aiel. Aviendha devia ter sentido o olhar do menino, j� que o encarou de volta com o cenho franzido.</p><p>Mat esfregava o queixo e observava a fogueira das Aes Sedai � pensando bem, ele pr�prio tamb�m preferiria ter comido carneiro e tomado sopa � quando se deu conta de que Jaem n�o estava � vista. Vanin se irritou por ter sido mandado sondar o terreno de novo, mas Mat o enviou pelo mesmo motivo que designara o homem para ir como batedor � frente durante o dia, apesar do fato de Jaem tamb�m t�-lo feito. N�o queria depender do que as Aes Sedai escolhiam lhe contar. Poderia ter confiado em Nynaeve � n�o achava que ela fosse mentir para ele, j� que, enquanto Sabedoria, Nynaeve sempre fora implac�vel com mentirosos �, mas ela continuava espreitando-o por cima do ombro de Adeleas de um modo muito suspeito.</p><p>Para a surpresa dele, Elayne se levantou assim que Mat terminou de comer e, como que deslizando pelo ch�o, atravessou aquela linha invis�vel. Algumas mulheres tinham um andar t�o elegante que pareciam mal tocar o ch�o.</p><p>� Quer dar uma volta comigo, Mestre Cauthon? � indagou em tom frio. N�o exatamente educada, mas tamb�m n�o exatamente rude.</p><p>Mat gesticulou para que Elayne fosse na frente, e ela saiu flutuando em dire��o �s �rvores sombreadas pelo luar, logo depois das sentinelas. Aquela cabeleira dourada se lhe ca�a pelos ombros, emoldurando um rosto que atrairia o olhar de qualquer homem. O luar atenuava seu ar arrogante. Fosse ela qualquer coisa diferente do que era� E Mat n�o se referia apenas a ser Aes Sedai, nem mesmo ao fato de ela pertencer a Rand. Ali�s, Rand parecia estar se envolvendo com o pior tipo de mulher, considerando que sempre tivera jeito com elas. Foi ent�o que Elayne come�ou a falar, e Mat se esqueceu de todo o resto.</p><p>� Voc� tem um <emphasis>ter�angreal </emphasis>� afirmou, sem pre�mbulos e sem sequer olhar para ele. Apenas seguia deslizando, farfalhando as folhas no solo como que esperando que ele seguisse em seu encal�o feito um c�o de ca�a. � H� quem afirme que todos os <emphasis>ter�angreal</emphasis> pertencem �s Aes Sedai, mas n�o vou exigir que voc� se desfa�a dele. Ningu�m vai tir�-lo de voc�. S� que esses objetos precisam ser estudados. Por esse motivo, quero que voc� me entregue o <emphasis>ter�angreal</emphasis> toda noite, quando pararmos. Eu vou devolv�-lo todas as manh�s antes de sairmos.</p><p>Mat olhou para ela de soslaio. Estava falando s�rio, n�o havia d�vida.</p><p>� Muito gentil da sua parte me deixar ficar com o que � meu. Mas n�o sei por que voc� acha que eu estou com um desses� como foi que voc� disse? Ter�alguma coisa?</p><p>Ah, aquilo a fez se enrijecer e tamb�m dirigir o olhar a Mat. Ele ficou surpreso por n�o ver nenhum fogo saltar dos olhos dela para iluminar a noite. Sua voz, por outro lado, era o mais puro cristal de gelo.</p><p>� Voc� sabe <emphasis>muito bem</emphasis> o que � um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, Mestre Cauthon. Eu ouvi quando Moiraine lhe falou a respeito deles na Pedra de Tear.</p><p>� Na Pedra? � estranhou ele, desinteressado. � Sim, eu me lembro da Pedra. Foram dias �timos os que todos n�s passamos por l�. Voc� se lembra de algo na Pedra que lhe d� o direito de me exigir alguma coisa? Eu n�o. S� estou aqui para evitar que ningu�m arranque o seu couro e o de Nynaeve em Ebou Dar. Voc� pode perguntar para Rand sobre o <emphasis>ter�angreal</emphasis> depois que eu entregar voc� para ele.</p><p>Por um longo momento, ela ficou encarando-o como se pretendesse venc�-lo s� com a for�a do pensamento, e ent�o deu uma volta sem dizer mais uma palavra. Ele a acompanhou de volta ao acampamento e se surpreendeu ao v�-la caminhar ao longo da fileira de cavalos coxeados. Ela examinou as fogueiras e o modo como os cobertores estavam dispostos, fazendo uma pausa para balan�ar a cabe�a com pesar ao ver os restos da refei��o dos homens do Bando. Mat n�o fez ideia do que Elayne pensava at� ela se virar para ele com o nariz empinado.</p><p>� Seus homens se sa�ram muito bem, Mestre Cauthon � disse, alto o bastante para que todos ouvissem. � De modo geral, estou mais que satisfeita. Mas se voc� tivesse planejado tudo antes de maneira adequada, eles n�o precisariam ter se empanturrado de comidas que v�o deix�-los sem dormir direito. Ainda assim, no geral, voc� se saiu bem. Tenho certeza de que voc� vai se planejar melhor no futuro. � Completamente tranquila, foi andando de volta para a pr�pria fogueira antes que Mat pudesse pronunciar uma �nica palavra.</p><p>Por�m, se aquilo fosse tudo, se os problemas se resumissem � maldita Filha-herdeira achar que ele era um dos s�ditos dela, e a tanto ela quanto Nynaeve ficarem sempre de cara feia perto de Vandene e Adeleas� Se aquilo fosse tudo, ele teria dan�ado uma giga. Logo depois da �inspe��o� de Elayne, antes mesmo que ele conseguisse deitar nos seus cobertores, a cabe�a de raposa ficou gelada.</p><p>O choque foi t�o grande que Mat s� ficou ali parado, olhando para o pr�prio peito, sem nem pensar em olhar em dire��o � fogueira das Aes Sedai. Quando finalmente fez isso, ele as viu de p� lado a lado ao longo daquela linha invis�vel que os dividia. Aviendha estava com elas. Elayne murmurou algo que ele n�o conseguiu ouvir e as duas Aes Sedai de cabelo branco assentiram, Adeleas o tempo todo mergulhando apressada a ponta de uma caneta num frasco de tinta dentro de uma esp�cie de bainha em sua cintura e fazendo anota��es em um livreto. Nynaeve puxava sua tran�a e resmungava sozinha.</p><p>Tudo isso s� durou alguns instantes. Em seguida, a cabe�a de raposa voltou � temperatura normal e todas retornaram � fogueira conversando em voz baixa. De vez em quando, uma delas olhava de soslaio na dire��o de Mat, at� que ele, por fim, foi se deitar.</p><p>No segundo dia, eles chegaram a uma estrada e Jaem tirou seu manto de Guardi�o. Era um trecho largo de terra batida onde, em alguns lugares, uma ponta de um velho paralelep�pedo ainda se fazia ver, mas a via n�o tornou a viagem t�o mais r�pida. Para come�ar, ia serpenteando pelo meio de uma floresta cada vez mais acidentada. Algumas daquelas colinas mereciam ser chamadas pelo menos de pequenas montanhas, forma��es pontudas com picos escarpados e pin�culos pedregosos erguendo-se em meio �s �rvores. Al�m disso, um fluxo constante de pessoas, ainda que t�mido, seguia em ambas as dire��es, em sua maioria amontoados de gente encardida com semblantes distantes que mal pareciam ter o bom senso de sair do meio do caminho da carro�a de roda grande puxada pelos bois de um fazendeiro, e muito menos do comboio de um mercador, com seus carro��es cobertos de lona viajando a toda por detr�s das parelhas de seis ou oito cavalos. Algumas fazendas com casas e celeiros de pedra clara pareciam presas por um fio nas encostas das colinas, e, na metade do terceiro dia, foi avistada a primeira aldeia de constru��es de reboco branco com telhados achatados cobertos por telhas claras avermelhadas.</p><p>Os aborrecimentos, por�m, continuavam. Elayne seguia com suas inspe��es noturnas. Quando, no acampamento da segunda noite, ao lado da estrada, Mat lhe disse de forma sarc�stica que estava contente por ela estar satisfeita, Elayne abriu um daqueles seus sorrisos majestosos e deliberados.</p><p>� Voc� deveria estar mesmo, Mestre Cauthon � disse ela, soando como se cada palavra dele tivesse sido sincera.</p><p>Quando eles passaram a parar em estalagens, ela come�ou a inspecionar os cavalos nos est�bulos <emphasis>e</emphasis> o local de dormir dos homens do Bando nos dep�sitos de feno. Quando pediu a ela que n�o fizesse isso, recebeu como resposta apenas uma sobrancelha arqueada. Quando mandou, n�o recebeu nem o arquear da sobrancelha. Ela simplesmente o ignorou. Elayne o mandava fazer coisas que ele j� decidira fazer, tais como verificar as ferraduras de todos os cavalos na primeira estalagem que tivesse um ferrador, e, mais irritante ainda, coisas que ele j� teria resolvido se tivesse ficado sabendo delas antes de Elayne. Como ela descobriu que Tad Kandel estava tentando esconder um fur�nculo no traseiro, Mat n�o fazia ideia, nem como ela ficara sabendo que Lawdrin Mendair tinha nada menos que cinco cantis de conhaque escondidos em seus alforjes. Irrita��o n�o come�ava nem a descrever o que significava fazer algo que ela mandara, mas o fur�nculo de Kandel precisava ser lancetado � alguns membros do Bando haviam adotado a resist�ncia de Mat com rela��o a serem Curados � e o conhaque de Mendair precisou ser jogado fora, al�m de diversas outras coisas pequenas.</p><p>Mat quase queria que ela o mandasse fazer, uma �nica vez, algo que n�o precisava ser feito, s� para poder responder que n�o faria. Definitivamente, n�o! Se ela tivesse pedido o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de novo teria sido perfeito, mas ela jamais voltou a mencion�-lo. Mat explicou para os homens do Bando que eles n�o tinham obriga��o de obedecer a ela, e ele nunca chegara a ver nenhum deles obedecendo, mas os homens come�aram a dar sorrisinhos satisfeitos sempre que Elayne fazia elogios a respeito de qu�o bem eles cuidavam dos cavalos, e estufavam o peito quando ela dizia que, aos olhos dela, eles pareciam bons soldados. Quando viu Vanin levar a m�o � testa e murmurar um �Obrigado, milady� para Elayne sem um pingo de ironia, Mat quase morreu de desgosto.</p><p>Ele tentava ser agrad�vel, mas nenhuma das mulheres lhe dava abertura, n�o s� Elayne. Aviendha lhe disse que ele n�o tinha honra e que se ele n�o fosse capaz de demonstrar mais respeito por Elayne, ela pr�pria o ensinaria a ser respeitoso. Logo Aviendha! A mulher que Mat ainda suspeitava de que estava s� esperando uma chance para cortar a goela de Elayne! Ela passara a chamar Elayne de sua quase-irm�! Vandene e Adeleas o olhavam como se ele fosse um inseto esquisito pregado numa t�bua. Mat se ofereceu para atirar flechas com a Ca�adora por algumas moedas ou s� por divers�o � o arco que ela carregava devia ter ati�ado a imagina��o f�rtil da mulher, j� que seu nome de Ca�adora era Birgitte �, mas ela s� fez lan�ar um olhar muito esquisito para Mat e recusou a oferta. Ali�s, manteve-se bem longe dele depois disso. Ficava grudada em Elayne, exceto quando a Filha-herdeira se aproximava dele. E Nynaeve�</p><p>Por todo o caminho desde Salidar, ela o evitou como se ele estivesse cheirando mal. Na terceira noite de viagem, a primeira em uma estalagem, um lugarzinho chamado A Faca de Casamento, Mat a encontrou no est�bulo coberto por telhas dando uma cenoura murcha para a �gua roli�a que montava, e decidiu que, independentemente de qualquer outra coisa que estivesse acontecendo, ele poderia ao menos conversar com ela sobre Bo. N�o era todo dia que a irm� de um homem ia embora para se tornar uma Aes Sedai, e Nynaeve saberia o que Bo tinha pela frente.</p><p>� Nynaeve � chamou Mat, aproximando-se dela �, eu quero falar com voc� � N�o conseguiu nem terminar a frase.</p><p>A mulher praticamente pulou tr�s palmos com o susto e j� desceu balan�ando o punho para ele, apesar de logo t�-lo escondido em uma das pregas da saia.</p><p>� Me deixe em paz, Mat Cauthon � quase gritou. � Est� me ouvindo? Me deixe em paz! � E foi saindo apressada, passando por ele meio de lado e t�o eri�ada que ele esperava ver a tran�a dela erguida feito o rabo de um gato. Depois daquilo, Mat n�o s� cheirava mal, como tamb�m devia ter alguma doen�a repugnante e contagiosa. Se tentasse at� mesmo se aproximar de Nynaeve, ela se escondia atr�s de Elayne e ficava encarando-o por cima do ombro da outra mulher, parecendo que estava prestes a lhe mostrar a l�ngua. As mulheres eram completamente malucas. N�o havia outra explica��o.</p><p>Ao menos Thom e Juilin se mostravam dispostos a cavalgar ao lado dele durante o dia, sempre que Elayne n�o exigia a aten��o dos dois. Ela �s vezes o fazia s� para mant�-los longe de Mat, ele tinha certeza, embora n�o conseguisse entender o porqu�. T�o logo o grupo passou a se hospedar em estalagens, os dois ficaram mais do que felizes em tomar uma caneca de cerveja ou de ponche com ele e Nalesean � noite. Eram estalagens de interior, com sal�es tranquilos e paredes de alvenaria, onde a divers�o era ficar observando o gato malhado local e nas quais a pr�pria estalajadeira servia as mesas, sempre uma mulher cujos quadris davam a impress�o de que, caso algu�m se arriscasse a dar um belisc�o, acabaria com os dedos quebrados. A conversa girava principalmente em torno de Ebou Dar, lugar do qual Thom sabia bastante, mesmo sem nunca ter estado l�. Sempre que lhe faziam perguntas, Nalesean se mostrava mais que disposto a relembrar sua �nica visita ao local, apesar de preferir se concentrar nos duelos que presenciara e nas apostas em corridas de cavalos. Juilin sabia de hist�rias de homens que conheciam sujeitos que haviam estado l�, isso quando o relato n�o tinha fontes ainda mais distantes, que pareciam imposs�veis de se acreditar at� Thom ou Nalesean as confirmarem. Em Ebou Dar, homens travavam duelos por mulheres, <emphasis>mulheres</emphasis> duelavam <emphasis>por homens</emphasis>, e, em ambos os casos, o pr�mio � era a palavra que se usava � concordava em ficar com o ganhador. No dia do casamento, os homens davam uma faca de presente para as mulheres e pediam que elas a utilizassem para mat�-los caso eles as desagradassem � as <emphasis>desagradassem</emphasis>! �, e o assassinato de um homem por uma mulher era considerado justific�vel, a menos que se provasse o contr�rio. Em Ebou Dar, os homens pisavam em ovos perto das mulheres e se for�avam a sorrir diante de ofensas que teriam sido motivo para matarem outro homem. Elayne iria adorar aquele lugar. Nynaeve tamb�m.</p><p>Algo mais surgiu daquelas conversas. Parecia que Mat n�o havia imaginado o desprazer de Nynaeve e Elayne com rela��o a Vandene e Adeleas, por mais que elas tivessem tentado esconder esse fato. Nynaeve aparentava se contentar em ficar encarando as outras duas e murmurando coisas para si mesma. Elayne n�o fazia cara feia nem murmurava nada, mas tentava assumir o controle o tempo todo e parecia pensar que j� era a Rainha de Andor. A despeito da quantidade de anos que aqueles rostos de Aes Sedai escondiam, Vandene e Adeleas tinham que ter idade suficiente para serem m�es das duas mais jovens, se n�o av�s. Mat n�o se surpreenderia se descobrisse que elas j� eram Aes Sedai quando Nynaeve e Elayne eram beb�s. Nem Thom era capaz de compreender tanta tens�o, e parecia que, para quem n�o passava de um simples menestrel, o homem de fato entendia de uma por��o de assuntos. Quando Thom tentou fazer um delicado protesto, Elayne quase arrancou o nariz dele e lhe <emphasis>disse</emphasis> que ele n�o entendia, nem podia entender. Parecia que as duas Aes Sedai mais velhas eram extremamente tolerantes. Quando Elayne dava ordens, Adeleas agia como se nem tivesse reparado, e tanto ela quanto Vandene pareciam ficar surpresas quando acabavam se dando conta.</p><p>� Vandene falou para ela: �Bem, crian�a, se voc� faz quest�o, claro que podemos� � murmurou Juilin antes de tomar um gole de cerveja ao rememorar um incidente. � Seria de se imaginar que algu�m que n�o passava de uma Aceita h� poucos dias ficaria contente. Mas os olhos de Elayne me pareceram uma tempestade de inverno. Nynaeve rangeu os dentes com tanta for�a que eu achei que eles fossem rachar.</p><p>Eles estavam no sal�o da estalagem A Faca de Casamento. Vanin, Harnan e os demais ocupavam bancos nas outras mesas, junto com v�rios locais. Os homens trajavam coletes compridos, alguns coloridos o suficiente para um Latoeiro, a maioria sem camisa por baixo, e as mulheres usavam vestidos claros com decotes profundos, as saias levantadas at� um dos joelhos, deixando � mostra an�guas t�o coloridas que acabavam por fazer os coletes empalidecerem. Muitos dos homens e todas as mulheres ostentavam grandes brincos de argola e costumavam trazer nas m�os tr�s ou quatro an�is que reluziam com vidros coloridos. Tanto homens quanto mulheres corriam os dedos por longas facas curvadas enfiadas em seus cintos e lan�avam olhares sombrios para os forasteiros. Havia dois comboios de mercadores de Amad�cia hospedados ali, mas os mercadores tinham jantado em seus quartos e os condutores permaneciam nos carro��es. Elayne, Nynaeve e o restante das mulheres tamb�m se encontravam no andar de cima.</p><p>� As mulheres s�o� diferentes � afirmou Nalesean �s gargalhadas em resposta a Juilin, embora, cofiando a ponta da barba, dirigisse as palavras a Mat. N�o costumava ser t�o formal com plebeus, mas Juilin era um plebeu taireno, e isso parecia fazer certa diferen�a, especialmente porque Juilin o olhava nos olhos quando Nalesean falava com ele. � H� um ditado campon�s em Tear: �Uma Aes Sedai � dez mulheres numa �nica pele.� Os camponeses t�m uma boa dose de sabedoria, �s vezes, e que minha alma queime se n�o � verdade.</p><p>� Pelo menos ningu�m fez nada, digamos, dr�stico � ponderou Thom �, apesar de eu ter achado que chegou perto quando Elayne deixou escapar que tinha transformado Birgitte na primeira Guardi� dela.</p><p>� A Ca�adora?! � exclamou Mat. V�rios locais lhe lan�aram olhares firmes, e ele baixou a voz. � Ela tamb�m � Guardi�? Guardi� de Elayne? � Aquilo com certeza explicava algumas coisas.</p><p>Thom e Juilin se entreolharam por cima da borda das canecas.</p><p>� Ela vai ficar feliz por saber que voc� achou que ela era uma Ca�adora da Trombeta � afirmou Thom, limpando a cerveja do bigode. � Ela � Guardi�, sim, e foi isso que quase causou um bate-boca. Jaem passou a encar�-la como uma irm� mais nova, mas Vandene e Adeleas� � O menestrel soltou um suspiro profundo. � Nenhuma das duas ficou muito contente por Elayne j� ter escolhido uma Guardi�. Aparentemente, a maioria das Aes Sedai passa anos sozinha antes de formar um elo. E n�o ficaram contentes por ela ainda por cima ter escolhido uma mulher. E o fato de elas n�o estarem contentes deixou Elayne ainda mais zangada.</p><p>� Elas n�o parecem gostar de fazer coisas que ainda n�o foram feitas � acrescentou Juilin.</p><p>� Uma Guardi� mulher � resmungou Nalesean. � Eu sabia que tudo iria mudar com o Drag�o Renascido, mas uma Guardi� mulher?</p><p>Mat deu de ombros.</p><p>� Eu creio que ela vai dar conta, desde que saiba mesmo atirar com aquele arco. Desceu pelo buraco errado? � perguntou para Juilin, que come�ara a se engasgar com a cerveja. � Troco uma espada por um bom arco em qualquer situa��o. O melhor � um cajado, mas um arco tamb�m serve. S� espero que ela n�o tente se meter no meu caminho quando chegar a hora de levar Elayne para Rand.</p><p>� Acho que ela sabe. � Thom inclinou-se por cima da mesa para dar um tapinha nas costas de Juilin. � Acho que ela sabe, Mat.</p><p>Mas se Nynaeve e as demais estavam prestes a puxar os cabelos umas das outras � e Mat n�o iria querer ficar a menos de dez milhas delas se algo assim acontecesse, com ou sem o amuleto de raposa �, n�o demonstravam nada disso. Tudo o que ele via era uma frente s�lida, e mais tentativas de canalizar nele, come�ando enquanto ele encilhava Pips na manh� seguinte � primeira tentativa. Por sorte, ele estava ocupado tentando dispensar Nerim, que achava que encilhar o cavalo de Mat era tarefa sua e insinuava que era capaz de fazer aquilo melhor que ele, mas, como o lampejo frio s� durou um instante, Mat n�o deu sinal de que chegara a perceber algo. Aquela, ele determinou, seria a sua resposta. Nada de encarar, nada de fazer cara feia, nada de acusar. Ele as ignoraria e as deixaria cozinhar em seu pr�prio caldo.</p><p>Mat teve diversas oportunidades para ignor�-las. O medalh�o de prata se resfriou mais duas vezes antes que eles encontrassem a estrada, e v�rias vezes mais durante o dia, naquela noite, e em todos os dias e noites subsequentes. �s vezes, o frio vinha e sumia em um piscar de olhos, e �s vezes ele tinha certeza de que perdurava por uma hora. N�o era poss�vel dizer qual delas era a respons�vel, claro. Ou normalmente n�o era poss�vel. Uma vez, quando o calor o presenteara com uma assadura nas costas e o cachecol em torno do pesco�o pareceu a ponto de lhe decapitar como uma serra, ele flagrou Nynaeve olhando para ele no momento em que o medalh�o foi esfriando. A mulher fazia uma careta t�o feia que um fazendeiro que passava ali perto, cutucando seu boi com um peda�o de pau para tentar fazer o animal andar mais r�pido, espiou-a por cima do ombro como se estivesse com medo de que aquele olhar pudesse se voltar para ele a qualquer momento, talvez matando o boi preso �s traves da carro�a. Foi s� quando Mat devolveu a careta que se sobressaltou e quase caiu da sela, e o frio cessou. Quanto �s demais ocasi�es, ele simplesmente n�o conseguia saber. Algumas vezes, podia ver duas ou tr�s delas observando-o, inclusive Aviendha, que continuava a p� puxando sua �gua. Outras, no momento em que ele se virava para olh�-las, estavam conversando entre si ou observando uma �guia a voar pelo c�u l�mpido, ou um grande urso negro, com uma vez e meia a altura de um homem, ficar de p� em meio �s �rvores numa encosta �ngreme � vista da estrada. A �nica coisa boa em tudo isso era que Mat tinha a impress�o de que Elayne estava descontente. Ele n�o sabia por qu�, e n�o se importava. Como ela ousava. Inspecionava os seus homens. Elogiava-o com tapinhas nas costas. Fosse ele o tipo de homem capaz deste tipo de coisa, teria dado um pontap� nela.</p><p>Na realidade, contudo, ele come�ou a ficar um pouco presun�oso. O que quer que aquelas mulheres estivessem fazendo, n�o surtia nenhum efeito nele que um dedo de uma das pomadas de Nerim n�o pudesse curar. Nerim lhe garantiu que n�o se tratava de uma ulcera��o. Mat se sentiu presun�oso at� a quarta tarde. Estava voltando depois de guardar Pips no est�bulo da estalagem � O Arco do Sul era uma constru��o imunda de dois andares de tijolos com reboco branco em So Tehar, uma aldeia imunda de tijolos com reboco branco e muitas moscas � quando algo macio o acertou em cheio entre os ombros. Com as narinas impregnadas do cheiro de esterco de cavalo, ele se virou, pronto para torcer o pesco�o de algum jovem cavalari�o ou de um dos grosseir�es taciturnos de So Tehar, sem nem ligar se o sujeito tinha ou n�o uma faca. N�o havia nenhum jovem cavalari�o e nenhum grosseir�o. S� Adeleas, rascunhando compenetrada em seu livreto e assentindo para si mesma. Suas m�os estavam bem limpas.</p><p>Mat entrou, pediu um ponche para a estalajadeira, e ent�o mudou de ideia e a fez lhe servir, em vez disso, um conhaque, um l�quido turvo que a mulher magricela jurava ser feito de ameixa, mas cujo sabor era de algo que talvez servisse para remover ferrugem. Juilin se contentou em apenas fungar, e Thom n�o fez nem isso. At� Nalesean s� fez dar um golinho antes de pedir um ponche, e Nalesean bebia qualquer coisa. Mat perdeu a conta de quantos min�sculos copinhos de estanho esvaziou, mas, independentemente de quantos tenham sido, foram necess�rios Nerim e Lopin juntos para lev�-lo para a cama. Ele nunca se permitira pensar muito sobre se a cabe�a de raposa tinha algum limite. J� tivera provas mais que suficientes de que ela deteria <emphasis>saidar</emphasis>, mas se tudo o que elas precisassem fazer fosse usar o Poder para apanhar algum objeto e arremess�-lo nele� <emphasis>Melhor que nada</emphasis>, ficava repetindo para si mesmo, deitado em seu colch�o encaro�ado e observando as sombras do luar cruzarem o teto devagar. <emphasis>Bem melhor que nada.</emphasis> Mas, se tivesse sido capaz de levantar sozinho, teria voltado l� para baixo para tomar mais conhaque.</p><p>E era por isso que ele estava de p�ssimo humor, com a l�ngua parecendo estar revestida de penas e a cabe�a tomada por tocadores de tambor a martel�-los, al�m do suor lhe escorrendo pelo corpo por conta do sol a pino, quando, no quinto dia, a estrada chegou ao topo de uma eleva��o que revelou Ebou Dar ali abaixo, estendendo-se no amplo Rio Eldar com uma grande ba�a repleta de navios mais al�m.</p><p>Sua primeira impress�o da cidade foi o branco. Constru��es brancas, pal�cios brancos, pin�culos e torres brancas. Nas c�pulas parecidas com nabos ou peras brancas afiadas, viam-se com frequ�ncia an�is carmesins, azuis ou dourados, mas a cidade era, principalmente, branca, e refletia a luz do sol at� quase doer nos olhos. O port�o para onde a estrada conduzia dava num arco largo, alto e pontiagudo numa parede de reboco branco t�o grossa que Mat cavalgou � sombra por vinte passadas antes de tornar a emergir para o sol. Parecia ser uma cidade de pra�as, canais e pontes, pra�as grandes cheias de gente, com fontes e est�tuas no centro, canais largos e canais estreitos com homens prendendo barca�as a estacas ao longo de seus cursos, pontes de todos os tamanhos, umas baixas, outras arqueando l� em cima, algumas t�o grandes que at� lojas se enfileiravam em suas laterais. Pal�cios com grossos p�rticos colunados ficavam lado a lado com lojas que ofertavam tapetes e tecidos. Casas de quatro andares com imensas janelas em arco escondidas por detr�s de venezianas horizontais ladeavam est�bulos, cuteleiros e peixeiros.</p><p>Foi numa dessas pra�as que Vandene puxou as r�deas para discutir algo com Adeleas, enquanto Nynaeve franzia o cenho para as duas e Elayne observava tudo como se seus olhos fossem transform�-las em gelo. A pedido de Elayne, Aviendha montara em seu baio magricelo para a entrada na cidade, mas, �quela altura, j� tinha descido com a mesma falta de habilidade com que subira na sela. Olhava para tudo quase com a mesma curiosidade de Olver, cujos olhos haviam se arregalado desde o primeiro momento em que a cidade surgiu. Birgitte dava a impress�o de estar tentando se manter no encal�o de Elayne numa imita��o de Jaem com Vandene.</p><p>Mat aproveitou a oportunidade para se abanar com o chap�u e dar uma olhada no entorno.</p><p>O maior pal�cio que ele j� tinha visto ocupava um lado inteiro da pra�a, repleto de c�pulas, pin�culos e colunatas tr�s ou quatro andares acima do ch�o. Nos outros tr�s lados, casar�es se misturavam a estalagens e lojas, cada qual t�o branca quanto a outra. Uma est�tua de mulher com as vestes ao vento, mais alta que um Ogier, ficava num pedestal ainda mais alto bem no meio da pra�a, um dos bra�os erguido para apontar para o sul, na dire��o do mar. S� havia umas poucas pessoas andando pelos paralelep�pedos claros, o que, naquele calor, n�o era de se surpreender. Algumas faziam sua refei��o do meio-dia no primeiro degrau do pedestal, e pombos e gaivotas revoavam aqui e ali lutando por restos de comida. Era uma cena de pura tranquilidade. Mat n�o entendeu por que, de repente, sentiu os dados rolando em sua cabe�a.</p><p>Conhecia muito bem aquela sensa��o. �s vezes, sentia-a na jogatina quando sua sorte estava � toda. Ela sempre aparecia quando uma batalha se aproximava. E a sensa��o tamb�m parecia surgir quando havia alguma decis�o vital a ser tomada, do tipo em que a escolha errada poderia muito bem ser fatal.</p><p>� Agora vamos entrar por um dos port�es menores � anunciou Vandene. Adeleas estava assentindo com a cabe�a. � Merilille vai cuidar para que nos deem quartos para descansar.</p><p>Aquilo devia significar que aquele era o Pal�cio Tarasin, onde Tylin Quintara, da Casa Mitsobar, ocupava o Trono dos Ventos e, na pr�tica, governava talvez at� cem milhas em torno de Ebou Dar. Uma das poucas coisas que Mat conseguira descobrir a respeito dos objetivos da viagem era que elas iriam se encontrar com outra Aes Sedai no pal�cio, e com Tylin, claro. As Aes Sedai teriam um encontro com a Rainha. Mat olhou para aquela imensid�o de m�rmore reluzente e pedra com reboco branco e pensou em como seria ficar naquele local. Costumava apreciar pal�cios. Gostava, pelo menos, de qualquer lugar com servi�ais e ouro, e uma cama de penas cairia bem. Mas um Pal�cio Real significava avistar nobres sempre que se virasse a cabe�a para o lado. Mat preferia nobres em doses moderadas � at� Nalesean podia ser irritante. Um pal�cio daquele tamanho ou o faria se perguntar o tempo inteiro onde Nynaeve e Elayne estariam ou talvez ficar o tempo todo de olho nelas. Mat n�o tinha certeza se seria pior se elas permitissem que ele as acompanhasse at� l� como um guarda-costas ou se recusassem. Ele quase era capaz de escutar Elayne dizendo com aquela voz calma: �Encontrem por gentileza acomoda��es para Mestre Cauthon e para os meus homens. Cuidem para que eles sejam alimentados e tenham �gua.� Ah, ela com certeza faria isso. Apareceria de supet�o para as suas inspe��es e para mand�-lo fazer alguma coisa que ele j� estava a ponto de fazer. Ainda assim, se havia algum local onde ela e Nynaeve estariam seguras, esse local era dentro do pal�cio de uma rainha. Al�m disso, o que Mat queria era algum lugar onde pudesse colocar os p�s para cima e tomar ponche com uma garota em seu colo para lhe acalmar os �nimos. Toalhas �midas tamb�m cairiam bem. Sua cabe�a do�a. O serm�o afetado que Elayne dera naquela manh� sobre os males da bebida e sobre dar exemplo para os outros homens ainda ecoava em seus ouvidos. Era mais uma raz�o pela qual ele precisava bater o p�. Estivera fraco demais para retrucar, tendo acabado de sair da cama e j� se perguntando se conseguiria se lan�ar sobre o dorso de Pips, e ela j� tinha ido longe demais muitas vezes. Se ele n�o botasse logo um ponto final naquilo, Elayne acabaria fazendo com que <emphasis>ele</emphasis> a saudasse com a m�o na testa.</p><p>Tudo aquilo lhe passou pela cabe�a no intervalo de tempo necess�rio para Vandene virar seu cap�o baio na dire��o do pal�cio.</p><p>� Vou providenciar quartos em uma destas estalagens para os meus homens � disse ele bem alto. � Se voc� ou Elayne quiserem sair para a rua, Nynaeve, podem mandar me avisar, e eu trato de trazer alguns homens para acompanh�-las por a�. � Provavelmente n�o iriam querer, j� que quando uma mulher achava que sabia cuidar de si, ningu�m poderia convenc�-la do contr�rio, mesmo se ela estivesse querendo pular numa fossa com ursos para lutar com as pr�prias m�os, mas Mat podia apostar que Vanin conseguiria dar um jeito de descobrir sempre que elas sa�ssem. E, se n�o, havia Juilin. Um ca�ador de ladr�es deveria ser capaz disso. � Pode ser aquela ali. � Escolhendo aleatoriamente, Mat apontou para uma constru��o larga no outro lado da pra�a. Uma placa que ele n�o conseguia identificar balan�ava em cima da entrada em arco.</p><p>Vandene olhou para Adeleas. Elayne olhou para Nynaeve. Aviendha franziu a testa para ele.</p><p>Mat, por�m, n�o deu chance para que nenhuma delas dissesse nada.</p><p>� Thom, Juilin, que tal umas canecas de ponche? � Talvez �gua fosse melhor. Nunca em sua vida ele havia bebido tanto assim.</p><p>Thom balan�ou a cabe�a.</p><p>� Quem sabe mais tarde, Mat. Melhor eu ficar por perto, caso Elayne precise de mim. � O sorriso quase paternal que o homem dirigiu a ela sumiu quando ele a viu encarando Mat com uma express�o pasma. Juilin n�o sorriu, o que j� quase n�o fazia nos �ltimos tempos, mas tamb�m respondeu que deveria ficar por perto e que, mais tarde, talvez.</p><p>� Como quiserem � respondeu Mat, recolocando o chap�u. � Vanin. Vanin! � O gordo tomou um susto e desfez o olhar de venera��o que dirigia a Elayne. Chegou at� a enrubescer! Luz, aquela mulher era m� influ�ncia.</p><p>Enquanto Mat girava Pips, a voz de Elayne o alcan�ou pelas costas, ainda mais afetada que naquela manh�:</p><p>� Voc� n�o pode deixar que eles bebam em excesso, Mestre Cauthon. Alguns homens n�o sabem a hora de parar. Voc� com certeza n�o deveria permitir que um garotinho veja marmanjos bebendo al�m da conta.</p><p>Mat trincou os dentes e cruzou a pra�a a cavalo sem olhar para tr�s. Olver estava olhando para ele. Mat teria de alertar os homens quanto a ficarem b�bados na frente do garoto, Mendair em especial. Luz, mas como Mat odiava que ela lhe dissesse o que ele deveria fazer!</p><p>A estalagem acabou por se chamar A Mulher Errante, mas a placa acima da porta e o sal�o prometiam tudo o que Mat queria. O aposento de p�-direito alto por certo era mais fresco que a rua, com suas janelas largas em arco escondidas por detr�s de venezianas de madeira entalhadas em forma de arabesco. Parecia haver mais buracos que madeira, mas elas ensombreciam o ambiente. Forasteiros misturavam-se aos locais, um murandiano magricelo com bigode curvo, um kandoriano robusto com duas correntes de prata a lhe perpassarem o peitoral do casaco, e outros que Mat n�o reconheceu logo de cara. Uma n�voa sutil de fuma�a de cachimbo preenchia o ar, e duas mulheres tocando flautas estridentes e um sujeito com um tambor entre os joelhos ofereciam um tipo estranho de m�sica. O melhor de tudo: as atendentes eram bonitas e homens jogavam dados em quatro mesas. O mercador kandoriano estava jogando cartas.</p><p>A imponente estalajadeira se apresentou como Setalle Anan, embora seus olhos cor de mel n�o fossem de Ebou Dar.</p><p>� Bem, milordes� � Grandes argolas de ouro em suas orelhas se sacudiram quando ela curvou a cabe�a tanto para Mat quanto para Nalesean. � A Mulher Errante poderia lhes oferecer suas humildes acomoda��es?</p><p>Apesar de alguns fios grisalhos, a mulher era bonita, mas Mat observou seus olhos. Setalle usava uma faca de casamento que pendia de uma gola justa, o cabo cravejado de pedras vermelhas e brancas aninhando-se em seu decote generoso, e ela tamb�m carregava na cintura uma daquelas facas curvas. Mesmo assim, ele n�o p�de deixar de sorrir.</p><p>� Senhora Anan, eu j� me sinto em casa.</p><p>O estranho era que os dados haviam parado de rolar em sua cabe�a.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 48</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Apoiadas na faca</p></title><p>Nynaeve saiu da grande banheira de cobre, uma toalha branca enrolada na cabe�a, e se secou bem devagar. A servi�al roli�a de cabelos grisalhos tentou ajudar a vesti-la, mas Nynaeve a mandou embora, ignorando seus protestos e olhares assustados, e botou as roupas sozinha, examinando no espelho o vestido verde-escuro de saias estreitas e gola larga de renda de Merada clara. O pesado anel de ouro de Lan repousava em sua bolsinha � melhor nem pensar nele � ao lado de um dos an�is <emphasis>ter�angreal</emphasis> retorcidos, enquanto a Grande Serpente reluzia no terceiro dedo da m�o direita. M�o direita. Melhor tamb�m n�o pensar naquilo.</p><p>Havia uma pintura bonita no teto alto, um c�u azul com nuvens brancas, e, apesar de toda a mob�lia estar elevada e amparada por patas de le�o douradas estranhamente grandes e os suportes da cama, p�s das cadeiras e qualquer arm�rio ou mesinha ter caneluras e douraduras demais para seu gosto, ainda era um quarto mais confort�vel do que qualquer um em que estivera em muito tempo. Um aposento agrad�vel, fresco e ameno. Todas essas observa��es eram porque Nynaeve estava tentando se acalmar.</p><p>N�o funcionou, claro. Sentira <emphasis>saidar</emphasis> sendo tecida e, assim que saiu do quarto, viu o selo de prote��o que Elayne confeccionara e atara ao redor da sala de estar. Birgitte e Aviendha tamb�m j� estavam l�, todas asseadas e vestidas.</p><p>Quatro quartos davam para uma �nica sala de estar, o que Birgitte afirmou se tratar de um arranjo at� bem comum na regi�o. A sala tamb�m tinha o teto alto com pinturas de c�u e nuvens, e quatro janelas altas em arco se abriam para uma comprida varanda envolvida por uma grade de ferro pintado de branco e forjado em padr�o t�o intrincado que uma pessoa ali, parada, conseguiria espiar a Pra�a Mol Hara l� embaixo sem ser vista por quem estivesse andando pela frente do Pal�cio. Uma brisa t�nue entrava pelas janelas, trazendo cheiro de maresia, e � o que era incr�vel � deixando o ambiente at� um pouco fresco. A raiva interferia na concentra��o, e Nynaeve estava morrendo de calor desde que tinham chegado ao Pal�cio Tarasin.</p><p>Thom e Juilin haviam sido alojados em um quarto em algum lugar nas profundezas dos alojamentos dos servi�ais, o que pareceu irritar mais Elayne do que qualquer um dos dois. Thom at� riu. Em todo caso, <emphasis>ele</emphasis> podia se dar ao luxo de rir dessas coisas.</p><p>� Tome um pouco deste ch�, Nynaeve, est� delicioso � recomendou Elayne, cobrindo as saias azuis com um guardanapo branco.</p><p>Assim como tudo na sala de estar, a cadeira larga em que a jovem estava acomodada tinha aquelas mesmas bolas douradas nos p�s, al�m de outras no topo do imenso espaldar acima de sua cabe�a. Aviendha estava sentada ao lado dela, mas no ch�o, mantendo as pernas cruzadas sob a saia de um vestido de gola alta que por pouco n�o tinha o tom exato do ladrilho verde-claro abaixo. O intrincado colar de prata ca�a muito bem com a roupa. Nynaeve achava que nunca vira a Aiel sentada em uma cadeira � ela havia recebido alguns olhares estranhos nas duas estalagens em que tinham se hospedado.</p><p>� � de menta e amoras-silvestres � acrescentou Birgitte, enchendo outra delicada x�cara de porcelana dourada, sem esperar que ela concordasse em beber.</p><p>Birgitte usava cal�as folgadas de um tom cinza e um casaquinho curto azul. Vez ou outra a mulher at� usava vestidos, mas Nynaeve nunca ficava muito feliz com a escolha dos modelos. Ah, estavam todas as tr�s vestidas e enfeitadas, mas ningu�m as queria.</p><p>O c�ntaro de prata reluzia com a condensa��o, e o ch� estava gelado e refrescante. Nynaeve admirou o rosto de Elayne, calmo e seco � ela pr�pria j� se sentia meio suada de novo, apesar da brisa.</p><p>� Devo dizer que esperava uma recep��o diferente � resmungou.</p><p>� Esperava mesmo? � indagou Elayne. � Depois da forma como Vandene e Adeleas nos trataram?</p><p>Nynaeve suspirou.</p><p>� Tudo bem, tudo bem: <emphasis>torcia</emphasis> por uma recep��o diferente. Finalmente virei Aes Sedai, uma Aes Sedai de verdade, e ningu�m parece acreditar. Estava mesmo torcendo para ver alguma diferen�a depois de sair de Salidar.</p><p>O encontro delas com Merilille Caendevin n�o tinha ido bem. A apresenta��o delas para a mulher, melhor dizendo. Vandene as apresentara com palavras quase superficiais, ent�o foram dispensadas para que as <emphasis>verdadeiras</emphasis> Aes Sedai pudessem conversar. Merilille apenas dissera que elas com certeza gostariam de se refrescar um pouco, mas tinha sido uma dispensa, e lhes restara apenas a op��o de sa�rem da sala como Aceitas obedientes ou de se recusarem feito crian�as mimadas. S� de lembrar, Nynaeve falhava em todas as tentativas de se acalmar e o suor voltava a escorrer por seu rosto.</p><p>Serem dispensadas n�o foi a pior parte, na verdade. Merilille era uma cairhiena esbelta, com a pele de uma palidez elegante, cabelo preto lustroso e olhos grandes e l�mpidos. A mulher era uma Cinza que parecia n�o se surpreender com nada � nem nunca ter se surpreendido na vida, ali�s �, mas arregalara os olhos escuros quando ouviu que Nynaeve e Elayne eram Aes Sedai, e mais ainda ao ficar sabendo que Egwene fora elevada a Trono de Amyrlin. E tamb�m ficou ainda mais pasma ao saber que Birgitte era Guardi�, apesar de �quela altura j� ter conseguido se recuperar a ponto de conter a rea��o a uma simples encarada e uma breve contra��o dos l�bios. Aviendha foi a que escapou mais f�cil; Merilille s� murmurou alguma coisa sobre como a Aiel iria adorar ser novi�a. Ent�o veio a dispensa, junto com uma sugest�o � uma sugest�o que mais soara uma ordem � para que passassem v�rios dias se <emphasis>recuperando</emphasis> dos <emphasis>rigores</emphasis> da viagem.</p><p>Nynaeve tirou o len�o da manga e abanou o rosto com o quadrado rendado. Claro que n�o adiantou de muita coisa.</p><p>� Ainda acho que elas est�o escondendo alguma coisa.</p><p>� S�rio, Nynaeve? � Elayne balan�ou a cabe�a. � Eu tamb�m n�o gosto nada de como estamos sendo tratadas, mas voc� est� fazendo tempestade num copo d��gua. Se Vandene e Adeleas quiserem procurar fugitivas, deixe procurarem. Preferiria que estivessem tentando assumir o controle da busca pela tigela?</p><p>Fora exatamente o medo de ter as duas mais velhas assumindo o comando da busca que as levara a quase n�o mencionarem o <emphasis>ter�angreal</emphasis> durante a viagem.</p><p>Tivessem aqueles temores se concretizado ou n�o, Nynaeve ainda achava que aquelas duas estavam escondendo algo. Elayne s� n�o queria admitir. Adeleas n�o percebeu quando Nynaeve a ouviu comentar que buscariam fugitivas assim que elas chegassem a Ebou Dar, e quando perguntou se as duas achavam mesmo que encontrariam alguma, Vandene respondeu depressa demais, alegando que sempre se mantinham alertas para jovens que tivessem fugido da Torre. E aquilo n�o fazia sentido. Ningu�m fugira de Salidar, apesar de algumas novi�as de fato fugirem da Torre Branca, volta e meia � a vida dura l� n�o era f�cil, e teriam anos de obedi�ncia pela frente, antes de poderem se dar ao luxo de come�ar a agir de acordo com a pr�pria vontade �, e at� algumas Aceitas mais desesperadas com a perspectiva de o dia de usar o xale nunca chegar, mas at� Nynaeve sabia que poucas conseguiam sair da ilha de Tar Valon e quase todas acabavam arrastadas de volta. Claro que a pessoa poderia ser expulsa, fosse pela falta de for�a com o Poder, por n�o passar ou at� se recusar a fazer o teste para Aceita ou para Aes Sedai � teste do qual ela e Elayne tinham se livrado, ali�s. Mas ir embora da Torre nunca era uma decis�o pessoal, a menos que a pessoa j� usasse o xale.</p><p>Ent�o, se era t�o raro haver fugitivas bem-sucedidas, por que Vandene e Adeleas achavam que encontrariam alguma em Ebou Dar? E por que tinham ficado t�o quietas quando ela perguntou? Bem, de todo modo, achava que sabia a resposta da �ltima pergunta e teve que se controlar muito para n�o puxar a tran�a. Achava que estava ficando melhor naquela coisa de autocontrole.</p><p>� Pelo menos Mat finalmente sabe que somos Aes Sedai � grunhiu. Ah, pelo menos agora podia dar conta dele. Mat que tentasse alguma coisa, a� veria como era ser alvo de tudo o que ela conseguisse jogar nele com fluxos de Ar. � J� n�o era sem tempo.</p><p>� Por isso que voc� o evita feito uma cheltana fugindo do coletor de impostos? � indagou Birgitte, abrindo um sorriso, e Nynaeve sentiu o rosto enrubescer. Estivera convencida de que tinha conseguido disfar�ar seus sentimentos.</p><p>� Ele � muito irritante, at� para um homem � murmurou Aviendha. � Voc� deve ter viajado muito, Birgitte. Sempre comenta de lugares de que eu nunca ouvi falar. Um dia, queria viajar pelas terras aguacentas e ver todos esses lugares estranhos. Onde fica essa� Cheltan? Chelta?</p><p>A pergunta tirou aquele sorriso irritante da cara de Birgitte. Fosse onde fosse, aquele lugar j� devia estar morto havia mil anos, talvez at� datasse de uma Era mais antiga. Ah, ela sempre falava de lugares e objetos antigos. Nynaeve queria ter estado l� para v�-la admitir para Egwene o que esta j� sabia � a jovem adquirira uma for�a impressionante durante o tempo que viveu com os Aiel, e passara a tolerar poucas coisas que considerasse bobagem. Birgitte voltara da conversa com cara de quem levara uma boa bronca.</p><p>Ainda assim, gostava bem mais de Birgitte que de Aviendha � a Aiel �s vezes a deixava muito desconfort�vel, com aqueles olhares firmes e a sua sede de sangue. E n�o importava qu�o irritante Birgitte pudesse ser: Nynaeve prometera que a ajudaria a guardar seu segredo.</p><p>� Mat� me amea�ou � afirmou, mais do que depressa. Foi o primeiro assunto que lhe veio � cabe�a para distrair Aviendha, mas era a �ltima coisa que gostaria que algu�m mais soubesse. Sentiu as bochechas esquentarem outra vez. Elayne at� chegou a sorrir, embora tenha tido a delicadeza de esconder o rosto com a x�cara. � N�o desse jeito que voc�s est�o pensando � acrescentou, quando Aviendha franziu o cenho e levou a m�o � faca do cinto. A Aiel parecia pensar que tudo se resolvia com viol�ncia. � Foi s� � Aviendha e Birgitte a encararam, todas ouvidos. � Ele s� disse�</p><p>Elayne a acudiu, como ela fizera com Birgitte.</p><p>� Acho que chega de falar sobre Mestre Cauthon � opinou a Filha-herdeira, com firmeza. � Ele s� est� aqui para que n�o fique amolando Egwene, e posso descobrir como lidar com aquele <emphasis>ter�angreal</emphasis> mais tarde. � Ela comprimiu os l�bios por um momento. N�o ficara nada feliz quando Vandene e Adeleas come�aram a canalizar em Mat sem nem se consultar com ela, e menos ainda quando o rapaz escapou para aquela estalagem. Claro que n�o havia o que fazer. Elayne alegava que, ao mand�-lo fazer o que ele j� teria que fazer de qualquer jeito, poderia faz�-lo criar o h�bito de obedecer-lhe. Bem, boa sorte para ela. Elayne concluiu o pensamento com uma voz ainda mais firme: � Ele � o que menos importa nesta viagem.</p><p>� � mesmo. � Nynaeve quase n�o conseguiu disfar�ar o al�vio na voz. � �, o que importa � a tigela.</p><p>� Acho que � melhor eu primeiro fazer um reconhecimento do lugar � ponderou Birgitte. � Ebou Dar me parece mais turbulenta do que me lembro, e o distrito que voc� descreveu pode ser ainda pior que� � Ela tentou disfar�ar quando olhou para Aviendha. � Que o resto da cidade � concluiu, com um suspiro.</p><p>� Se temos que fazer algum reconhecimento � intrometeu-se a Aiel, ansiosa �, quero estar envolvida. Ainda tenho um <emphasis>cadin�sor</emphasis>.</p><p>� Um bom batedor sempre precisa se misturar � retrucou Elayne, com toda a delicadeza. � Acho melhor encontrarmos vestidos t�picos daqui para <emphasis>todas</emphasis> n�s, a� poderemos ir procurar juntas, e assim ningu�m vai chamar aten��o. Se bem que vai ser muito mais f�cil para Nynaeve � acrescentou, sorrindo para Birgitte e Aviendha.</p><p>At� onde tinham visto, as locais tinham cabelo escuro, e a maioria parecia ter olhos quase negros.</p><p>Aviendha soltou um suspiro desalentado, e Nynaeve quase a imitou, pensando naqueles decotes reveladores. Eram profundos demais, mesmo que fossem estreitos. Birgitte at� sorriu � a mulher n�o tinha o menor pudor.</p><p>Antes que a conversa progredisse, uma mulher de cabelo preto e curto trajando o uniforme da Casa Mitsobar entrou sem bater, o que Nynaeve considerava falta de educa��o, n�o importava quanto Elayne insistisse que se tratava de um comportamento adequado para servi�ais. A mulher usava um vestido branco cuja saia aberta na altura do joelho esquerdo deixava � mostra a an�gua verde, com um corpete apertado com o bras�o da �ncora e da Espada bordado em verde no seio esquerdo. At� o decote estreito do uniforme era t�o baixo quanto qualquer vestido local, pelo que Nynaeve se lembrava. A mulher rechonchuda, j� em algum ponto da meia-idade, hesitou ao entrar, ent�o fez uma rever�ncia e se dirigiu a todas:</p><p>� A Rainha Tylin deseja ver as tr�s Aes Sedai, caso seja poss�vel.</p><p>Nynaeve trocou olhares inquisitivos com Elayne e as outras.</p><p>� Somos apenas duas Aes Sedai � respondeu Elayne, depois de um instante. � Ser� que n�o era com Merilille que voc� deveria ter ido falar?</p><p>� Fui orientada at� aqui� Aes Sedai. � A pausa foi t�o curta que mal se podia notar, mas o t�tulo foi acompanhado de um leve tom indagativo.</p><p>Elayne se levantou, alisando as saias. Nenhum estranho suspeitaria de que aquele rosto calmo escondia alguma raiva, mas havia um qu� de tens�o nos cantos dos olhos e da boca.</p><p>� Vamos, ent�o? Nynaeve? Aviendha? Birgitte?</p><p>� Eu n�o sou Aes Sedai, Elayne � retrucou Aviendha.</p><p>A servi�al logo ressaltou:</p><p>� Apenas as Aes Sedai, foi o que me disseram.</p><p>� Aviendha e eu podemos dar uma olhada na cidade enquanto voc�s conversam com a Rainha � sugeriu Birgitte, antes que Elayne pudesse abrir a boca.</p><p>A Aiel pareceu se animar. Elayne lan�ou um olhar penetrante para as duas, mas acabou acrescentando, com um suspiro:</p><p>� Bem, ao menos tomem cuidado. Nynaeve, voc� vem ou tamb�m quer ir dar uma olhada na cidade? � A �ltima frase saiu meio seca, com mais uma olhadela para Birgitte.</p><p>� Ah, eu n�o perderia isso por nada � rebateu Nynaeve. � Vai ser bom finalmente conversar com algu�m que� � N�o podia terminar a frase com a criada ali, ent�o apenas disse: � Melhor n�o deixarmos a Rainha esperando.</p><p>� Ah, n�o � concordou a servi�al. � Melhor n�o arriscar, j� que o pre�o � alto.</p><p>N�o importava qual fosse o pre�o, ainda levaram um tempo atravessando os corredores. Como se para compensar todo o branco l� fora, o Pal�cio era cheio de cor. Um dos corredores tinha o teto pintado de verde e as paredes de azul, e outro tinha paredes amarelas e o teto rosa-claro. Os ladrilhos do piso eram em forma de diamantes, alguns em variados tons de vermelho, outros de uma combina��o em branco e preto, outros em azul e amarelo e em quase qualquer combina��o e tom. Havia pouqu�ssimas tape�arias, e em geral de cenas marinhas, mas uma boa quantidade de compridos vasos de porcelana dourada do Povo do Mar repousava em nichos arqueados, junto com grandes peda�os de cristal entalhado, estatuetas, vasos e vasilhas � tudo aquilo saltava aos olhos de Nynaeve e tamb�m de Elayne.</p><p>Claro que havia servi�ais apressados por toda parte, e a vers�o masculina do uniforme era composta de cal�as brancas e um colete verde bem longo por cima de uma camisa branca com mangas pregueadas e folgadas. Antes que avan�assem muito, Nynaeve avistou uma pessoa vindo na dire��o delas e agarrou o bra�o de Elayne. Era Jaichim Carridin. Quando ele passou, Nynaeve n�o conseguiu tirar os olhos do sujeito alto e grisalho, com aqueles olhos profundos e cru�is que sequer se viraram para as duas, o manto branco esparramando-se atr�s dele. O rosto estava coberto de suor, mas ele ignorava as got�culas com a mesma �nfase que as ignorou.</p><p>� O que ele est� fazendo aqui? � indagou Nynaeve.</p><p>Aquele homem fora respons�vel por uma carnificina em Tanchico, e s� a Luz sabia por onde mais a matan�a se espalhara.</p><p>A servi�al a encarou, questionadora.</p><p>� Ora, os Filhos da Luz tamb�m enviaram uma miss�o diplom�tica, meses atr�s. A Rainha� Aes Sedai? � Outra vez aquela hesita��o ao usar o t�tulo.</p><p>Elayne conseguiu aquiescer com toda a gra�a e delicadeza do mundo, mas Nynaeve n�o conseguiu disfar�ar a aspereza na pr�pria voz:</p><p>� Bem, melhor n�o a deixar esperando.</p><p>Merilille deixara escapar que a tal de Tylin se tratava de uma mulher muito meticulosa e formal. Mas, se tamb�m come�asse a duvidar de que as duas eram Aes Sedai� bem, Nynaeve estava com o humor certo para provar seu t�tulo.</p><p>A servi�al as conduziu at� um grande aposento de teto azul-claro e paredes amarelas, e uma sucess�o de imensas janelas de arcos triplos dava para uma comprida varanda de ferro, por onde entrava uma brisa marinha bastante agrad�vel. Ao se ver diante da Rainha, Nynaeve e Elayne fizeram suas mesuras, ambas apropriadas a uma Aes Sedai diante de um governante: uma inclina��o sutil, acompanhada de uma discreta mesura com a cabe�a.</p><p>Tylin era uma mulher das mais imponentes. Da altura de Nynaeve, portava-se com tamanha majestade que Elayne precisaria se esfor�ar muito para fazer frente a ela, mesmo em seus melhores dias. A mulher deveria ter respondido com uma mesura id�ntica, mas n�o o fez. Em vez disso, seus grandes olhos negros as examinaram com uma intensidade imperial.</p><p>Nynaeve retribuiu o olhar o melhor que p�de. Ondas de cabelo negro lustroso, j� grisalho nas t�mporas, pendiam at� bem abaixo dos ombros de Tylin, emoldurando o rosto bonito, ainda que com rugas. Para sua surpresa, viu duas cicatrizes nas bochechas da Rainha, ambas muito finas e t�o antigas que j� tinham quase desaparecido. Claro que ela usava uma daquelas facas curvas enfiada em um cinto de ouro tran�ado, o punho e a bainha com gemas t�o grandes incrustadas que Nynaeve teve certeza de que eram puro exibicionismo. O vestido de seda azul de Tylin n�o era nada que algu�m fosse trajar para um duelo, com babados de renda brancos como a neve que ficavam a ponto de esconder os dedos caso ela abaixasse as m�os. A frente da saia acabava logo acima dos joelhos, expondo camadas de an�guas de seda verde e branca, mas atr�s se esparramavam por uma passada ou mais. O corpete, enfeitado com a mesma renda, era t�o apertado que Nynaeve n�o sabia se devia ser mais desconfort�vel ficar sentada ou de p� com aquilo. Uma gargantilha de ouro tran�ado sobre a gola alta do vestido, com ainda mais renda acumulando sob o queixo, sustentava uma faca de casamento, com o cabo para baixo, pendendo sobre a fenda oval do decote � um decote t�o profundo que rivalizava com qualquer um que ela j� vira.</p><p>� Voc�s duas devem ser Elayne e Nynaeve. � Tylin ocupou uma cadeira entalhada para imitar bambu, ainda que coberta de douraduras, e arrumou as saias com cuidado, sem tirar os olhos das duas. Tinha uma voz profunda, melodiosa e impositiva. � Soube tamb�m de uma terceira� Aviendha?</p><p>Nynaeve e Elayne se entreolharam. N�o houvera nenhum convite para que se sentassem, nem mesmo uma olhada na dire��o de alguma cadeira.</p><p>� Ela n�o � Aes Sedai � come�ou Elayne, com toda a calma.</p><p>Antes que a jovem pudesse dizer qualquer outra coisa, Tylin se adiantou:</p><p>� E voc�s s�o? Voc� viveu no m�ximo dezoito invernos, Elayne. E voc�, Nynaeve, me encarando feito um gato com o rabo preso, viveu quantos? Vinte e dois? Vinte e tr�s, talvez? Ah, que me espetem o f�gado! J� visitei Tar Valon, fui � Torre Branca. Duvido que alguma mulher da idade de voc�s j� tenha usado esse anel de serpente na m�o direita.</p><p>� Vinte e seis! � retrucou Nynaeve. Depois de viver com boa parte do C�rculo das Mulheres de Campo de Emond a achando jovem demais para ser Sabedoria, tinha adquirido o h�bito de se vangloriar de todos os dias do nome que pudesse reivindicar para si. � Tenho vinte e seis e sou uma Aes Sedai da Ajah Amarela. � Ainda sentia uma pontada de orgulho ao dizer aquilo. � Elayne at� pode ter dezoito, mas tamb�m � Aes Sedai, e da Ajah Verde. Acha que Merilille ou Vandene nos deixariam usar estes an�is de brincadeira? Muita coisa mudou, Tylin. O Trono de Amyrlin, Egwene al�Vere, tem a mesma idade de Elayne.</p><p>� Tem, �? � retrucou a Rainha, com a voz neutra. � N�o me disseram. Primeiro a Aes Sedai que esteve ao meu lado desde que assumi o trono, e que, antes de mim, aconselhava meu pai, volta para a Torre de repente e sem nenhuma explica��o, s� depois descubro que os boatos sobre a Torre dividida s�o verdadeiros� Depois os Devotos do Drag�o parecem brotar do ch�o, ent�o uma Amyrlin � escolhida para se opor a Elaida, e as dissidentes re�nem um ex�rcito comandado por um dos grandes capit�es, dentro de Altara sem eu nem ficar sabendo� Bem, com tudo isso acontecendo, n�o se pode esperar que eu v� morrer de amores com essas surpresas.</p><p>Nynaeve torcia para que seu rosto n�o transmitisse o enjoo que sentia. Por que n�o aprendia a controlar a l�ngua? De repente, percebeu que n�o conseguia mais sentir a Fonte Verdadeira � a raiva e a vergonha n�o conviviam muito bem. Bom, talvez fosse melhor assim. Se pudesse canalizar, talvez fizesse ainda mais papel de tola.</p><p>Sem nem hesitar, Elayne tomou a iniciativa de p�r panos quentes:</p><p>� Sei que j� ouviu isto antes, mas me permita acrescentar minhas desculpas �s de Merilille e as outras. Foi um erro reunir um ex�rcito dentro de suas fronteiras sem sua permiss�o. S� o que posso lhe oferecer como atenuante � que tudo aconteceu muito r�pido e que n�s, em Salidar, tamb�m acabamos pegas de surpresa com a magnitude de tudo. N�o que isso seja desculpa. Posso jurar que n�o h� inten��o de fazer nenhum mal a Altara e que nunca tivemos a menor inten��o de insultar o Trono dos Ventos. Agora mesmo, enquanto conversamos, Gareth Bryne est� conduzindo o ex�rcito para o norte, para fora de Altara.</p><p>Tylin a encarou sem nem piscar.</p><p>� N�o ouvi nenhuma palavra de desculpas ou de arrependimento antes das suas. Bem, qualquer governante de Altara deve aprender a engolir insultos de for�as mais poderosas, e sem um copo d��gua para ajud�-los a descer. � Ela respirou fundo e indicou a cadeira, as rendas das mangas balan�ando. � Sentem-se, as duas. Apoiem-se nas facas e soltem a l�ngua. � O pequeno sorriso que ela abriu parecia prestes a se alargar. � N�o sei como dizem isso em Andor. Fiquem � vontade e podem falar o que vier � cabe�a.</p><p>Nynaeve achou �timo ver os olhos azuis de Elayne se arregalarem de surpresa, j� que ela pr�pria arfou bem alto. Era aquela a mulher que Merilille afirmara exigir cerim�nia entalhada em m�rmore polido? Ficou mais que satisfeita em se sentar. Considerando todas as correntes que se escondiam entre as Aes Sedai de Salidar, ficou se perguntando se Tylin estaria tentando� bem, tentando o qu�? J� passara a esperar que todos que n�o fossem amigos bem pr�ximos tentassem manipul�-la. Elayne se sentou bem na pontinha da cadeira, muito rija.</p><p>� Eu estou falando s�rio � insistiu Tylin. � N�o importa o que as duas disserem, prometo n�o me ofender.</p><p>Ainda assim, a julgar pelo modo como ela tamborilava no punho incrustado da faca presa � cintura, o sil�ncio poderia ser considerado uma ofensa.</p><p>� N�o sei bem por onde come�ar � disse Nynaeve por fim, um tanto hesitante. Preferia que Elayne n�o tivesse aquiescido ao ouvi-la falar aquilo. Ela � que devia saber como lidar com reis e rainhas. Por que a menina n�o come�ava logo a falar?</p><p>� Bem, comece contando o porqu� � rebateu a Rainha, impaciente. � Por que mais quatro Aes Sedai vieram de Salidar aqui para Ebou Dar? N�o pode ser para diminuir a influ�ncia da miss�o diplom�tica de Elaida, j� que Teslyn nem se atreve a se chamar disso, e s� vieram ela e Joline� Ah, voc�s n�o sabiam? � Jogando o corpo para tr�s, na cadeira, a Rainha come�ou a rir, apertando a m�os contra os l�bios. � Voc�s pelo menos sabem dos Mantos-brancos, n�o sabem? � Ela sacudiu a m�o livre, como se cortasse o ar diante de si. O arroubo de divertimento foi se amainando aos poucos. � Mas que ousadia dos Manto-brancos! Mas, bem, preciso ouvir a todos que me cortejam, tanto o Lorde Inquisidor Carridin quanto os outros.</p><p>� Mas por qu�? � indagou Nynaeve. � Fico feliz que voc� n�o goste dos Mantos-brancos, mas, nesse caso, por que precisa escutar Carridin? Aquele homem � um carniceiro!</p><p>Na mesma hora, soube que cometera outro erro. Soube disso assim que viu o modo como Elayne de repente passou a analisar a enorme lareira branca, com a larga cornija entalhada em ondas alt�ssimas � a certeza veio antes mesmo que o �ltimo vest�gio da risada de Tylin se apagasse feito uma vela.</p><p>� Bem, voc�s de fato me levaram ao p� da letra � afirmou a Rainha, tranquila. � Ora, eu disse para voc�s soltarem a l�ngua, ent�o� � Aqueles olhos escuros se voltaram para os ladrilhos do piso, e ela pareceu se recompor.</p><p>Em busca de alguma pista do que fizera de errado � ou melhor, de como consertar as coisas �, Nynaeve olhou para Elayne, que apenas a encarou de soslaio e balan�ou a cabe�a bem de leve, antes de voltar a analisar as ondas de m�rmore. Ser� que tamb�m deveria evitar olhar para Tylin? Mas a Rainha, ainda encarando o ch�o, fez algo que lhe chamou a aten��o: com uma das m�os, alisou o punho da adaga curva enquanto, com a outra, correu os dedos pelo punho da arma menor, aninhada entre os seios.</p><p>A faca de casamento dizia muito sobre Tylin. Vandene e Adeleas tinham se mostrado mais que dispostas a explicar algumas coisas sobre Ebou Dar, em geral os aspectos que faziam a cidade parecer pouco segura para qualquer um que n�o andasse cercado por dez guardas em armaduras. A bainha branca indicava que a Rainha ficara vi�va e n�o pretendia voltar a se casar, enquanto as quatro p�rolas e a gota de fogo incrustada no punho da arma, envolto em ouro, indicavam que ela dera � luz quatro filhos e uma filha. Por sua vez, o esmalte branco que amparava a gota de fogo e o esmalte vermelho em tr�s das p�rolas salientavam que apenas um dos filhos sobrevivera � e todos tinham pelo menos dezesseis anos quando morreram em algum duelo, ou as joias estariam amparadas em esmalte preto. Como seria carregar aquela lembran�a o tempo todo? Vandene dissera que as mulheres viam o esmalte vermelho e o branco como motivo de orgulho, fossem para amparar p�rolas, gotas de fogo ou vidro colorido. Vandene ainda dissera que muitas mulheres removiam as pedras dos filhos com mais de dezesseis anos que se recusavam a duelar e nunca mais sequer dirigiam a palavra a eles.</p><p>Depois de um bom tempo, Tylin ergueu a cabe�a. Estava com o rosto tranquilo, e a m�o soltou a adaga no cinto. Ainda assim, ela n�o parou de dedilhar a faca de casamento, distra�da.</p><p>� Quero que meu filho me suceda no Trono dos Ventos � comentou, em tom ameno. � Beslan tem a sua idade, Elayne. Esse seria o curso normal das coisas em Andor, embora ele tivesse que ser mulher� � Ela abriu um sorriso sincero, parecendo achar aquilo divertido. � E seria assim em qualquer outra terra, exceto Murandy, onde as quest�es s�o bem parecidas com Altara. Nos mil anos que se passaram desde o reinado de Artur Asa-de-gavi�o, apenas uma Casa ocupou o trono por cinco gera��es, e a queda de Anarina foi t�o abrupta que, at� hoje, a Casa Todande lambe as botas de qualquer um que deixe. Nenhuma outra Casa jamais teve mais do que dois governantes em sequ�ncia.</p><p>�Quando o meu pai assumiu o trono, havia Casas com mais posses pela cidade do que os Mitsobar. Se ele sa�sse deste pal�cio sem guardas, seria amarrado numa saca cheia de pedras e jogado no rio. Quando ele morreu, deixou para mim tudo o que tenho hoje. � pouco, em compara��o com outros governantes. Um homem com cavalos descansados conseguiria atingir os limites de meus dom�nios em apenas um dia de cavalgada intensa. Bem, mas n�o fiquei aqui parada sem fazer nada. Quando chegaram as not�cias sobre o Drag�o Renascido, tive certeza de que poderia entregar o dobro do que possuo a Beslan e deixar ainda mais aliados para ele. A Pedra de Tear e <emphasis>Callandor</emphasis> mudaram tudo. Agora, agrade�o a Pedron Niall quando ele faz algum acordo para que Illian tome apenas uma faixa de cem milhas do territ�rio de Altara, em vez de nos invadir de vez. Recebo Jaichim Carridin sem cuspir na cara dele, a despeito dos muitos altaranos que morreram na Guerra dos Mantos-brancos. Escuto Carridin, Teslyn e Merilille e rezo para que com isso ainda me reste algo para passar ao meu filho, em vez de acabar afogada na banheira do meu quarto no mesmo dia em que Beslan sofrer um acidente fatal durante uma ca�ada.�</p><p>Tylin respirou fundo. Seu rosto permanecia calmo, mas a voz sa�a cortante.</p><p>� Chega. J� me expus como se estivesse com os seios nus no mercado de peixe. Agora me respondam: por que essa honra de receber mais quatro Aes Sedai?</p><p>� Estamos aqui atr�s de um <emphasis>ter�angreal</emphasis> � respondeu Elayne. Nynaeve a encarou, perplexa, mas a jovem contou tudo, desde <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> at� os detalhes sobre a poeira que cobria a sala onde estava a tigela.</p><p>� Ah, acertar o clima seria uma b�n��o, um milagre � divagou Tylin, hesitante. � Mas parece que voc�s est�o descrevendo o bairro Rahad, do outro lado do rio. At� a Guarda Civil pisa em ovos por l�. Me perdoem, entendo que voc�s sejam Aes Sedai, mas, se forem ao Rahad, podem acabar com uma faca enterrada nas costas em um piscar de olhos. E, se as suas roupas forem de boa qualidade, eles v�o usar uma l�mina bem estreita para n�o sangrar muito. Talvez seja melhor deixar essa busca a cargo de Vandene e Adeleas. Acho que elas j� viveram alguns anos a mais, j� andaram por lugares desse tipo.</p><p>� Elas falaram alguma coisa sobre a tigela?! � questionou Nynaeve, franzindo o cenho, mas a Rainha fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� S� disseram que estavam aqui procurando alguma coisa. As Aes Sedai nunca dizem mais que o estritamente necess�rio. � Mais uma vez aquele sorriso. Ela parecia feliz, embora o sorriso deixasse suas cicatrizes mais evidentes, linhas finas lhe cortando as bochechas. � Isso era o que eu pensava antes de conhecer voc�s duas. Que os anos n�o as transformem tanto assim. Sempre me pego pensando em como seria bom se Cavandra n�o tivesse voltado para a Torre, a gente conseguia ter essas conversas bem francas. � Ela se levantou, mas gesticulou para que as duas permanecessem sentadas, ent�o foi at� o outro lado da sala, golpeando um gongo de prata com um martelo de marfim. O badalar foi bem alto para um cilindro t�o pequeno. � Vou mandar trazer ch� de menta fresco, a� podemos conversar. E voc�s v�o me dizer como posso ajudar. Se eu enviar soldados para o Rahad, vai ser pior que os Motins do Vinho. E quem sabe voc�s at� possam me explicar por que a ba�a est� cheia de navios do Povo do Mar, mas eles nunca atracam nem fazem com�rcio�</p><p>As tr�s passaram um bom tempo entre ch� e conversas, principalmente sobre os perigos em Rahad e o que Tylin n�o poderia fazer por elas. Acabaram convocando Beslan, um jovem tranquilo que se curvou respeitosamente e as encarou com seus belos olhos negros. O garoto at� pareceu aliviado quando a m�e disse que ele podia sair. Beslan n�o duvidou nem por um momento de que elas fossem Aes Sedai. Depois de um tempo, as duas atravessaram outra vez os corredores coloridos no caminho de volta para seus aposentos.</p><p>� Ent�o elas tamb�m querem assumir a busca � murmurou Nynaeve, olhando de um lado para o outro, querendo se certificar de que n�o havia servi�ais perto o bastante para ouvir. Tylin ficara sabendo de muito e bem r�pido. E n�o importava quanto sorrisse: estava contrariada com a presen�a das Aes Sedai em Salidar. � Elayne, acha que foi mesmo inteligente contar tudo para ela? Talvez ela ache que a melhor maneira de garantir que o garoto assuma o trono � nos deixar encontrar a tigela e depois contar para Teslyn.</p><p>Ainda se lembrava um pouco de Teslyn, uma Vermelha muito desagrad�vel.</p><p>� Eu sei como a minha m�e se sentia a respeito das Aes Sedai viajando por Andor sem avisar ou falar o que estavam fazendo. E sei como eu me sentiria. Al�m do qu�, finalmente me lembrei do que aprendi sobre aquela frase de se apoiar na faca e tudo mais. A �nica maneira de insultar quem lhe disse aquilo � contar uma mentira. � Ela empinou o nariz de leve. � Quanto a Vandene e Adeleas� bem, elas acham que assumiram o controle. Rahad pode at� ser um lugar perigoso, mas n�o consigo pensar em nada pior que Tanchico, e n�o teremos que nos preocupar com a Ajah Negra aqui. Aposto que j� teremos a tigela daqui a dez dias, e que tamb�m j� vou saber o que permite que o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de Mat fa�a o imposs�vel e que j� estaremos voltando para Egwene com ele levando a m�o � testa t�o r�pido quanto Mestre Vanin. E Vandene e Adeleas ainda v�o estar aqui com Merilille <emphasis>e</emphasis> Teslyn tentando descobrir o que aconteceu.</p><p>Nynaeve n�o conseguiu conter a gargalhada. Um servi�al magrelo que endireitava um vaso imenso de porcelana dourada a encarou, e ela mostrou a l�ngua para o sujeito. O homem quase deixou o vaso cair.</p><p>� N�o entro nessa aposta, tirando a parte de Mat. Dez dias, ent�o.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 49</p><p><image l:href="#4"/></p><p>O espelho de brumas</p></title><p>Rand, muito satisfeito, baforava o cachimbo, sentado sem o casaco, apoiado em uma das colunas brancas e delgadas que rodeavam o pequeno p�tio oval enquanto assistia � �gua que borrifava na fonte de m�rmore � frente, as gotas cintilando feito gemas � luz do sol. Como era de manh�, ainda havia uma sombra agrad�vel naquele trecho do p�tio. At� Lews Therin estava quieto.</p><p>� Tem certeza de que n�o vai reconsiderar a ida para Tear?</p><p>Sentado contra a coluna ao lado e tamb�m sem casaco, Perrin soprou dois an�is de fuma�a e encheu outra vez o cachimbo, um trambolho muito ornamentado entalhado com cabe�as de lobo.</p><p>� E as vis�es de Min?</p><p>Rand tentou fazer seu pr�prio anel de fuma�a, mas se atrapalhou dando um grunhido amargo, o que resultou em uma mera baforada. Min n�o tinha o direito de mencionar aquilo onde Perrin poderia ouvir.</p><p>� Quer mesmo ficar amarrado no meu cinto, Perrin?</p><p>� O que eu quero n�o parece contar muito desde que conhecemos Moiraine, l� em Campo de Emond � retrucou o amigo, seco. Ele suspirou. � Voc� � quem �, Rand. Se voc� cair, tudo vem abaixo.</p><p>Ele se inclinou para a frente e franziu o cenho, encarando uma porta larga atr�s das colunas, � esquerda dos dois.</p><p>Um longo instante depois, Rand ouviu passos naquela dire��o � passos pesados demais para serem de algum humano. A figura corpulenta que se agachou ao passar pela porta e veio caminhando a passos largos at� o p�tio tinha mais que o dobro da altura da servi�al que quase corria para acompanhar as pernas compridas do Ogier.</p><p>� Loial! � exclamou Rand, levantando-se de um pulo. Ele e Perrin chegaram ao Ogier ao mesmo tempo. O sorriso na boca larga de Loial quase dividia o enorme rosto em dois. O casaco comprido que chegava a cobrir o topo das botas de abas dobradas que iam at� o joelho ainda estava empoeirado da viagem. Os bolsos enormes tamb�m estavam salientes, cheios de formas quadradas. Loial nunca ficava longe dos livros. � Tudo bem com voc�?</p><p>� Voc� parece cansado � comentou Perrin, conduzindo o Ogier at� a fonte. � Sente-se a� na beirada.</p><p>Loial se deixou levar, mas as longas sobrancelhas que pendiam do rosto e as orelhas cheias de tufos tremeram, meio atrapalhadas, enquanto ele olhou de um para o outro. Sentado, era t�o alto quanto Perrin de p�.</p><p>� Tudo bem? Cansado? � A sua voz era um estrondo. � Claro que estou bem. E, se estou cansado, � porque andei bastante. Preciso admitir que voltar a andar com meus pr�prios p�s foi �timo. Sempre d� para saber aonde nossos p�s est�o nos levando; com um cavalo, nunca d� para ter certeza. Bem, seja como for: meus p�s s�o mais r�pidos. � De repente, ele deixou escapar uma gargalhada ensurdecedora. � Ah, Perrin, voc� me deve uma coroa de ouro, Perrin. Voc� e seus dez dias! Aposto outra coroa que voc� n�o chegou aqui mais do que cinco dias antes de mim.</p><p>� Voc� vai ganhar a sua coroa � respondeu Perrin, com uma risada. Ent�o, se virou para Rand: � Gaul o corrompeu. Loial agora joga dados e aposta em corridas de cavalo, mesmo mal conseguindo diferenciar um bicho do outro.</p><p>O coment�rio deixou as orelhas de Loial vibrando de indigna��o. Rand sorriu. Loial sempre vira os cavalos sob uma luz meio duvidosa � o que n�o era de se surpreender, j� que tinha pernas mais compridas que as de qualquer equino.</p><p>� Tem certeza de que est� tudo bem, Loial?</p><p>� Encontrou o <emphasis>pouso</emphasis> abandonado? � indagou Perrin, com o cachimbo na boca.</p><p>� Ficou l� por tempo o bastante?</p><p>� Do que voc�s dois est�o falando? � Loial franziu o cenho de um jeito que fazia as extremidades das sobrancelhas descerem at� as bochechas. � S� queria voltar a ver um <emphasis>pouso</emphasis>, sentir um� J� estou pronto para mais dez anos.</p><p>� N�o � o que a sua m�e diz � contestou Rand, s�rio.</p><p>Loial se levantou antes mesmo de Rand terminar a frase, olhando para todos os lados, as orelhas apontadas para tr�s, tremelicando.</p><p>� Minha m�e? Aqui? Ela est� aqui?</p><p>� N�o, n�o est� � tranquilizou-o Perrin. As orelhas de Loial ficaram fl�cidas de al�vio. � Mas parece que ela est� em Dois Rios. Ou pelo menos estava, um m�s atr�s. Rand fez um truque dele para viajar por a�, levando sua m�e e o Anci�o Haman� Qual � o problema?</p><p>Quando ouviu o nome do Anci�o Haman, Loial, que j� estava tornando a se sentar, ficou paralisado, os joelhos ainda meio dobrados. De olhos fechados, ele se abaixou o que restava at� a beira da fonte, bem devagar.</p><p>� O Anci�o Haman � murmurou, esfregando o rosto com a m�o de dedos grossos. � O Anci�o Haman e minha m�e� � Ele olhou para Perrin. Ent�o para Rand. Baixou a voz, ou ao menos o fez para os padr�es Ogier. Ainda soava como um zang�o gigante zumbindo dentro de um garraf�o quando perguntou, em um tom falsamente despreocupado: � Tinha mais algu�m com eles?</p><p>� Sim, uma jovem Ogier chamada Erith � respondeu Rand. � Voc� � Mas foi tudo o que ele conseguiu dizer.</p><p>Com um gemido, Loial se levantou de um salto. Os servi�ais enfiaram as cabe�as para dentro das portas e janelas, querendo descobrir a origem daquele barulho t�o alto, mas desapareceram de volta quando viram Rand. Loial come�ou a andar de um lado a outro, as orelhas e sobrancelhas t�o ca�das que ele parecia estar derretendo.</p><p>� Uma esposa� � balbuciou. � N�o pode ser outra coisa, n�o com mam�e e o Anci�o Haman. Uma esposa! Sou jovem demais para me casar! � Rand escondeu um sorriso atr�s de uma das m�os. Loial podia at� ser jovem para um Ogier, mas isso significava que tinha pelo menos mais de noventa anos. � Ela vai me arrastar de volta para o Pouso Shangtai. Sei que n�o vai me deixar viajar com voc�s, e ainda estou longe de juntar anota��es suficientes para meu livro. Ah, Perrin, pode rir. Faile faz tudo o que voc� manda. � Perrin se engasgou com a fuma�a do cachimbo e resfolegou at� Rand dar um tapa em suas costas. � Mas � diferente com o meu povo � explicou Loial. � N�o fazer o que a esposa manda � considerado rude, <emphasis>muito</emphasis> rude. Sei que ela vai me fazer trabalhar em algo mais seguro e respeit�vel, como cantar para as �rvores ou� � Ele franziu o cenho e parou de andar. � Voc� disse Erith? � Rand assentiu. Perrin parecia estar recuperando o f�lego, mas encarava Loial com uma esp�cie de prazer mal�volo. � Erith, filha de Iva, filha de Alar? � Rand assentiu outra vez, e Loial tornou a se sentar na fonte. � Mas eu a conhe�o. Voc� se lembra dela, Rand. N�s a conhecemos no Pouso Tsofu.</p><p>� Isso era o que eu estava tentando lhe dizer � respondeu Rand, com toda a paci�ncia e uma boa dose de bom humor. � Foi aquela que falou que voc� era bonito. E que lhe deu uma flor, se me lembro bem.</p><p>� Ah, pode ter falado. � murmurou Loial, na defensiva. � Pode ter falado, mas n�o me lembro. � Mesmo alegando aquilo, a m�o foi inconscientemente tatear um bolso do casaco cheio de livros, e Rand podia apostar que ele guardara a flor entre alguma daquelas p�ginas. O Ogier pigarreou, produzindo um estrondo profundo. � Erith � muito bonita. Nunca vi ningu�m t�o linda. E inteligente. Ela ficou escutando com toda a aten��o quando expliquei a teoria de Serden. Serden, filho de Kolom, filho de Radlin� ele escreveu sua teoria h� cerca de seiscentos anos. E, quando expliquei a teoria de como os Caminhos� � Ele parou de falar, como se tivesse acabado de notar os sorrisos largos dos dois. � Bem, ela ouviu. Com aten��o. Estava muito interessada.</p><p>� Com certeza estava � concordou Rand, evasivo.</p><p>Aquela men��o aos Caminhos o fez pensar: quase todos os Portais dos Caminhos ficavam perto de <emphasis>pousos</emphasis>, e se o que a m�e de Loial e o Anci�o Haman diziam fosse verdade, Loial precisava estar em um <emphasis>pouso</emphasis> � bem, Rand n�o poderia lev�-lo para dentro de um por meio de um port�o, j� que, assim como n�o se podia canalizar dentro de um <emphasis>pouso</emphasis>, tamb�m n�o dava para chegar l� canalizando.</p><p>� Escute, Loial. Quero colocar guardas em todos os Portais dos Caminhos. Para isso, preciso de algu�m que possa encontr�-los, mas que tamb�m seja capaz de conversar com os Anci�es e conseguir a permiss�o deles.</p><p>� Luz � grunhiu Perrin, desanimado. Deu tapinhas para esvaziar o cachimbo e, com o calcanhar da bota, amassou o resto de tabaco no paralelep�pedo do p�tio. � Luz! Voc� manda Mat ir atr�s das Aes Sedai, quer me enfiar no meio de uma guerra de Sammael com algumas centenas de homens de Dois Rios, alguns inclusive conhecidos seus, e agora quer mandar Loial embora, sendo que ele acabou de chegar? Que o queime, Rand! Olhe s� para ele! Loial precisa descansar. Tem algu�m que voc� n�o v� usar? N�o quer que Faile v� ca�ar Moghedien ou Semirhage? Luz!</p><p>A raiva brotou dentro de Rand, uma tempestade que o fez tremer. Aqueles olhos amarelos o encaravam, carrancudos, mas ele rebateu feito um trov�o:</p><p>� Vou usar quem for preciso. Voc� mesmo falou: eu sou o que sou. E estou me usando, Perrin, porque � preciso. Estou me usando assim como vou usar qualquer um que for preciso. N�o tenho mais escolha. Ningu�m tem: nem eu, nem voc�, nem ningu�m!</p><p>� Rand, Perrin � murmurou Loial, preocupado. � Fiquem calmos. N�o briguem. N�o quero voc�s brigando. � A m�o do tamanho de um pernil de porco deu um tapinha desajeitado no ombro de cada um. � Voc�s dois deveriam ir descansar em um <emphasis>pouso</emphasis>. S�o lugares muito tranquilos, muito relaxantes.</p><p>Rand encarou Perrin, que o encarava de volta. Ainda sentia a raiva, os lampejos e rel�mpagos numa tempestade que n�o se dissiparia. Ao longe, os resmungos de Lews Therin de vez em quando ribombavam.</p><p>� Me desculpem � pediu, baixinho.</p><p>Perrin gesticulou, talvez sinalizando que n�o havia nada pelo que se desculpar, talvez aceitando, mas n�o ofereceu um pedido de desculpas. Em vez disso, virou a cabe�a de volta para as colunas, na dire��o da porta por onde Loial entrara. Mais uma vez passaram-se alguns momentos antes que Rand ouvisse algu�m se aproximando.</p><p>Min adentrou o p�tio em uma carreira desabalada. Ignorando Loial e Perrin, ela tomou Rand pelos bra�os.</p><p>� Elas est�o vindo � ofegou. � J� est�o a caminho.</p><p>� Calma, Min � falou Rand. � Acalme-se. Eu estava come�ando a achar que todas estavam de cama que nem� como foi que voc� disse que ela se chamava? Demira?</p><p>Na verdade, sentia um al�vio consider�vel com a vinda das mulheres, embora os queixumes e as risadas de Lews Therin tivessem aumentado com a simples men��o das Aes Sedai. Merana passara tr�s dias indo ao castelo, t�o regular quanto a arte dos melhores relojoeiros e sempre acompanhada de duas irm�s, mas as visitas tinham cessado cinco dias antes sem nenhuma explica��o. Min n�o fazia ideia de por qu�. Rand andara preocupado que elas tivessem se ofendido com suas ordens e planejassem ir embora.</p><p>Mas Min ainda o fitava, parecendo angustiada. Percebeu que ela estava tremendo.</p><p>� Me escute! S�o sete, n�o tr�s, e n�o me mandaram vir pedir permiss�o ou informar voc� ou nada disso. Escapei de l� antes delas e vim a galope com Rosa. Elas querem entrar no Pal�cio antes que voc� perceba que est�o aqui. Ouvi Merana falando com Demira quando n�o sabiam que eu estava por preto. Pretendem chegar ao Grande Sal�o primeiro, para que voc� tenha que ir ao encontro delas.</p><p>� Acha que pode ser a sua vis�o? � conjecturou, ainda calmo.</p><p>Min tinha dito que mulheres capazes de canalizar iam feri-lo. <emphasis>S</emphasis>�o s<emphasis>ete!</emphasis>, sussurrou Lews Therin, rouco. <emphasis>N�o! N�o! N�o!</emphasis> Rand o ignorou. N�o havia muito mais que pudesse fazer.</p><p>� N�o sei � respondeu Min, aflita. Rand ficou surpreso em perceber que o brilho em seus olhos escuros era resultado de l�grimas contidas. � Acha que eu n�o diria se soubesse? S� sei que elas est�o vindo e que�</p><p>� E que n�o h� nada a temer � interrompeu Rand, com firmeza.</p><p>As Aes Sedai deviam ter mesmo a assustado, para ela estar a ponto de chorar. <emphasis>Sete</emphasis>, gemeu Lews Therin. <emphasis>N�o consigo enfrentar sete, n�o de uma vez. Sete, n�o</emphasis>. Rand pensou no <emphasis>angreal</emphasis> do homenzinho gordo, e a voz esmaeceu at� os murm�rios, mas ainda parecia incomodada. Pelo menos Alanna n�o era uma delas. Rand podia senti-la a alguma dist�ncia, parada � ou pelo menos sem avan�ar em sua dire��o. N�o tinha certeza se ousaria ficar cara a cara com ela outra vez.</p><p>� Mas tamb�m n�o temos tempo a perder � completou. � Jalani?</p><p>A jovem Donzela de bochechas rechonchudas surgiu t�o de repente de tr�s de uma coluna que Loial ficou de orelha em p�. Min pareceu finalmente se dar conta da presen�a do Ogier e de Perrin. E tamb�m se assustou.</p><p>� Jalani, diga a Nandera que estou indo para o Grande Sal�o, onde espero as Aes Sedai daqui a pouco.</p><p>A mulher tentou manter uma express�o tranquila, mas o sorriso satisfeito fez suas bochechas parecerem ainda mais cheias.</p><p>� Beralna j� foi informar Nandera, <emphasis>Car�a�carn</emphasis>.</p><p>Ao ouvir o t�tulo, as orelhas de Loial tremeluziram de surpresa.</p><p>� Ent�o poderia ir dizer para Sulin me encontrar nos quartos de vestir atr�s do Grande Sal�o e levar meu casaco? E o Cetro do Drag�o.</p><p>Jalani abriu um largo sorriso.</p><p>� Sulin j� saiu correndo com o vestido de aguacenta, indo mais r�pido que uma �gua de focinho cinza que se sentou em espinhos de <emphasis>segade</emphasis>.</p><p>� Nesse caso, pode levar meu cavalo para o Grande Sal�o.</p><p>A jovem Donzela ficou boquiaberta, ainda mais quando Perrin e Loial se curvaram de tanto rir.</p><p>Min socou suas costelas, fazendo-o soltar um grunhido.</p><p>� Isso n�o � motivo para brincadeiras, seu fazendeiro cabe�a dura! Merana e as outras estavam se enrolando nos xales como se estivessem vestindo armaduras. Agora preste aten��o: vou ficar de lado, atr�s das colunas, de modo que voc� possa me ver e elas n�o. A�, se eu vir alguma coisa, fa�o um sinal.</p><p>� Voc� vai ficar aqui com Perrin e Loial � retrucou ele. � N�o sei que tipo de sinal voc� poderia fazer que eu entendesse, e se elas a virem, v�o saber que voc� me avisou. � Min olhou feio para ele com as m�os nos quadris, aquela postura t�pica das mulheres irritadas. � Min?</p><p>Para sua surpresa, ela suspirou e respondeu:</p><p>� Est� bem, Rand � disse, com voz mansa.</p><p>Vinda dela, aquela obedi�ncia o deixava t�o desconfiado quanto se tivesse vindo de Elayne ou Aviendha, mas, se quisesse estar no Grande Sal�o antes de Merana, n�o tinha tempo de ficar conjecturando. Aquiescendo, esperou n�o aparentar toda a inseguran�a que sentia.</p><p>Enquanto se perguntava se n�o deveria ter pedido a Perrin e Loial que a mantivessem ali � Min teria adorado �, Rand foi depressa at� os quartos de vestir atr�s do Grande Sal�o, com Jalani em seus calcanhares, ainda resmungando querendo saber se o cavalo fora ou n�o brincadeira. Sulin j� estava l�, estendendo um casaco vermelho com bordados em ouro e o Cetro do Drag�o. A ponta de lan�a gerou um grunhido de aprova��o, embora ela sem d�vida a teria achado mais aceit�vel sem as borlas verdes e brancas, com uma haste de tamanho apropriado e sem entalhes. Rand tateou para se assegurar que o <emphasis>angreal</emphasis> estava no bolso. Estava. Enfim respirou com mais tranquilidade, apesar de Lews Therin ainda ofegar de ansiedade.</p><p>Rand atravessou correndo o quarto de vestir com pain�is de le�es e adentrou o Grande Sal�o, s� para descobrir que todos tinham sido t�o r�pidos quanto Sulin. Bael, de bra�os cruzados, se assomava ao lado do estrado do trono, e Melaine estava de p� no outro lado, ajustando o xale escuro com toda a calma. Agachadas sobre um dos joelhos e sob o olhar vigilante de Nandera, cem ou mais Donzelas no traje completo, com as lan�as, os broqu�is, arcos de chifre cobertos �s costas e aljavas cheias nas cinturas, formavam filas a partir de todas as portas. S� os olhos despontavam acima dos v�us negros. Jalani correu para se juntar a uma das filas. Por tr�s delas, mais Aiel atulhavam-se em meio �s espessas colunas, tanto homens quanto Donzelas, apesar de nenhum parecer estar armado com mais que as facas de l�minas pesadas. Ainda assim, havia v�rios rostos soturnos � n�o deviam estar vendo com bons olhos a ideia de um confronto com as Aes Sedai, e n�o por medo do Poder. N�o importava o que Melaine e as S�bias dissessem a respeito das mulheres da Torre, quase todos os Aiel ainda tinham o antigo fracasso de seu povo muito vivo na mem�ria.</p><p>Bashere n�o estava presente, claro � ele e a esposa estavam em um dos campos de treinamento �, assim como nenhum dos nobres andorianos que andavam em grupos pelo Pal�cio. Rand tinha certeza de que Naean, Elenia, Lir e todo aquele pessoal tinham ficado a par daquela assembleia assim que os preparativos come�aram � eles nunca perdiam uma audi�ncia do trono, a menos que Rand os mandasse embora. Sua aus�ncia s� poderia indicar que, enquanto estavam a caminho do Grande Sal�o, tamb�m tinham descoberto o motivo. O que significava que as Aes Sedai j� estavam no Pal�cio.</p><p>De fato, assim que Rand se sentou no Trono do Drag�o com o Cetro em seus joelhos, a Senhora Harfor entrou �s pressas, nervosa, o que era bastante incomum para ela. Encarando Rand e todos os Aiel com a mesma perplexidade, anunciou:</p><p>� Mandei servi�ais para todos os lados atr�s de voc�. Tem Aes Sedai� � Foi tudo o que ela conseguiu dizer antes que sete Aes Sedai surgissem diante das enormes portas duplas.</p><p>Rand sentiu Lews Therin tentando buscar <emphasis>saidin</emphasis> e tocar o <emphasis>angreal</emphasis>, mas assumiu o controle da situa��o, agarrando a torrente furiosa de fogo e gelo, imund�cie e do�ura, com tanta for�a quanto segurava o peda�o de lan�a Seanchan.</p><p><emphasis>Sete,</emphasis> balbuciou Lews Therin, sombrio. <emphasis>Eu mandei virem s� tr�s, e vieram sete. Preciso ser cauteloso. Sim. Cauteloso</emphasis>.</p><p><emphasis>Quem mandou vir tr�s foi</emphasis> eu<emphasis>, Lews Therin</emphasis>, retrucou Rand. <emphasis>Eu! Rand al�Thor!</emphasis> A voz ficou em sil�ncio, mas os resmungos distantes n�o tardaram a recome�ar.</p><p>Alternando o olhar entre Rand e as sete mulheres nos xales com franjas, a Senhora Harfor pareceu decidir que ali no meio n�o era lugar para se estar. As Aes Sedai receberam a primeira rever�ncia, e Rand ficou com a segunda, ent�o, em uma excelente demonstra��o de calma, a mulher caminhou at� uma das laterais da porta. Por�m, quando as Aes Sedai entraram e se alinharam uma ao lado da outra, a Senhora Harfor acabou deslizando para fora com um leve qu� de pressa.</p><p>Em cada uma das suas tr�s visitas, Merana trouxera Aes Sedai diferentes, e Rand reconheceu todas � menos uma �, de Faeldrin Harella, na extrema direita, com o cabelo escuro preso em uma profus�o de trancinhas finas trabalhadas com contas de cores brilhantes, � robusta Valinde Nathenos, na extrema esquerda, usando o xale de franjas brancas e o vestido tamb�m branco. Todas usavam as cores das suas Ajahs. Rand sabia quem devia ser a �nica que n�o reconheceu: a mulher bela e graciosa de pele morena e vestido de seda bronze s� podia ser Demira Eriff, a irm� Marrom que Min dissera estar de cama. Mas ela estava de p� bem no centro da fila, um passo � frente das outras, enquanto Merana se punha entre Faeldrin e a rechonchuda Rafela Cindal, com seu rosto redondo, que parecia ainda mais s�ria do que durante o encontro em que viera com Merana, seis dias antes. Todas pareciam muito s�rias.</p><p>Elas hesitaram um momento e o encararam, impass�veis, ignorando os Aiel. Ent�o deslizaram para a frente, primeiro Demira, depois Seonid e Rafela, ent�o Merana e Masuri � uma ponta de flecha apontada diretamente para Rand. N�o precisou do formigamento na pele para saber que tinham abra�ado <emphasis>saidar</emphasis>. A cada passo, elas pareciam mais altas.</p><p><emphasis>Ent�o elas acham que v�o me impressionar com o Espelho de Brumas?</emphasis> A risada incr�dula de Lews Therin foi se dissipando at� minguar em risinhos ensandecidos. Rand n�o precisava de explica��o: j� vira Moiraine fazer algo parecido, e Asmodean tamb�m chamara aquilo de Espelho de Brumas � assim como de Ilus�o.</p><p>Melaine mexeu no xale, irritada, e fungou alto com desd�m, mas Bael parecia prestes a enfrentar sozinho uma investida de centenas. Pela sua express�o, n�o pretendia recuar, mas tamb�m n�o esperava nenhum resultado positivo. Ali�s, algumas Donzelas se agitaram, at� que Nandera as olhou feio por cima do v�u. Isso n�o fez cessar o discreto ru�do de p�s Aiel se movendo inquietos em meio �s colunas.</p><p>Demira Eriff come�ou a falar, e ficou bem claro que aquilo tamb�m envolvia canaliza��o. Ela n�o gritou, mas sua voz preencheu o Grande Sal�o, parecendo vir de todos os lados.</p><p>� Dadas as circunst�ncias, chegamos ao consenso de que eu deveria falar por todas. Hoje n�o viemos com a inten��o de lhe fazer mal algum, mas as restri��es que aceitamos antes para que voc� se sentisse seguro agora ser�o refutadas. Voc� obviamente n�o aprendeu a ter o devido respeito pelas Aes Sedai, mas agora precisa aprender. Daqui em diante, passaremos a ir e vir conforme nossa vontade, mas ainda o manteremos informado com certa anteced�ncia, se nos aprouver, quando quisermos falar com voc�. Os vigias Aiel posicionados em volta de nossa estalagem ser�o removidos, e ningu�m deve nos vigiar nem seguir. Qualquer futuro insulto � nossa dignidade ser� punido, embora devemos considerar aqueles a quem devemos punir como crian�as, sendo voc� o respons�vel pela dor que sofrerem. � assim que deve ser; � assim que ser�. Saiba que somos Aes Sedai.</p><p>Quando aquela longa ponta de flecha parou diante do trono, Rand notou que Melaine o encarava de cenho franzido, sem d�vida se perguntando se ele estaria impressionado. E, se n�o tivesse alguma no��o do que estava acontecendo, ele com certeza estaria, e mesmo assim n�o podia afirmar com certeza que n�o estava um pouco impressionado, no fim das contas. As sete Aes Sedai pareciam duas vezes mais altas que Loial, talvez at� mais, as cabe�as a quase meio caminho do teto abobadado, com suas janelas de vitrais coloridos. Fria e impass�vel, Demira o encarava como se pensasse se o agarrava ou n�o com uma das m�os, que parecia grande o bastante.</p><p>Rand se for�ou a continuar reclinado, em uma postura muito tranquila e casual, estreitando os l�bios ao perceber que aquilo lhe demandava certo esfor�o, ainda que nada t�o grande. Lews Therin ainda se mantinha distante, mas gritava algo sobre n�o esperar, sobre atacar ali mesmo. Demira enfatizara algumas palavras, como se ele devesse compreender seu significado. Dadas quais circunst�ncias? Elas tinham aceitado as restri��es antes, por que aquilo de repente virara uma falta de respeito? Por que as Aes Sedai tinham decidido de uma hora para a outra que, em vez de precisar fazer com que ele se sentisse seguro, podiam amea��-lo?</p><p>� As emiss�rias da Torre em Cairhien aceitam essas mesmas restri��es e n�o parecem ofendidas. � Bem, pelo menos n�o muito. � E, em vez de amea�as vagas, me oferecem presentes.</p><p>� N�o somos elas. Elas n�o est�o aqui. N�s n�o vamos compr�-lo.</p><p>O desd�m na voz de Demira foi como um tapa. As articula��es dos dedos de Rand do�am pela for�a com que ele agarrava o Cetro do Drag�o. A raiva que sentia era um eco da de Lews Therin, e ele de repente notou que o homem voltava a tentar agarrar a Fonte.</p><p><emphasis>Que o queime!</emphasis>, pensou Rand. Pensou em criar uma blindagem sobre elas, mas Lews Therin se pronunciou, ofegante e quase em p�nico.</p><p><emphasis>N�o h� for�a o bastante. Mesmo com o </emphasis>angreal<emphasis>, talvez n�o haja for�a o bastante. </emphasis>N�o para deter sete delas. Seu tolo! Voc� esperou tempo demais! � perigoso demais!</p><p>Criar uma blindagem de fato exigia uma boa dose de for�a. Com o <emphasis>angreal</emphasis>, Rand estava convencido de que conseguiria lidar com as sete, mesmo j� abra�adas a <emphasis>saidar</emphasis>. Mas se ao menos uma delas conseguisse quebrar a blindagem� Ou mais de uma. Queria impression�-las com sua for�a, n�o oferecer uma chance de super�-lo. Bem, havia outra maneira: tecendo Esp�rito, Fogo e Terra com todo o cuidado, investiu quase como se fosse de fato criar uma barreira.</p><p>O Espelho de Brumas das Aes Sedai se estilha�ou. De repente, tudo o que havia diante dele eram sete mulheres normais e estupefatas. Mas o choque logo se dissipou por detr�s da fachada de tranquilidade Aes Sedai.</p><p>� Voc� ouviu nossas exig�ncias � afirmou Demira, com a voz normal, mas ainda impositiva, como se nada tivesse acontecido. � Esperamos que sejam cumpridas.</p><p>Rand as encarou, surpreso. O que precisava fazer para mostrar que n�o seria intimidado? <emphasis>Saidin</emphasis> rugia dentro dele, uma f�ria em ebuli��o. N�o ousava solt�-lo. Lews Therin gritava feito um man�aco, tentando se agarrar � Fonte, tir�-la de suas m�os. Rand fazia de tudo para continuar firme. Ent�o se levantou, bem devagar. Com a altura adicional do estrado, erguia-se acima delas. Sete rostos de Aes Sedai inabal�veis levantaram os olhos para ele.</p><p>� As restri��es est�o mantidas � avisou, tranquilo. � E tenho mais outra exig�ncia: de agora em diante eu � que espero ver o respeito que mere�o. Eu sou o Drag�o Renascido. Est�o dispensadas. Esta audi�ncia acabou.</p><p>Durante o tempo de quase dez batidas do cora��o, as mulheres permaneceram ali, sem nem piscar, como se quisessem demonstrar que n�o dariam um �nico passo para lhe obedecer. Ent�o Demira assentiu, em um movimento min�sculo, e se virou. Quando passou por Seonid e Rafela, as duas a seguiram, e as outras tamb�m, uma de cada vez, todas deslizando suavemente e sem pressa, percorrendo os ladrilhos vermelhos e brancos at� sa�rem do Grande Sal�o.</p><p>Rand desceu do estrado enquanto as mulheres ainda desapareciam corredor adentro.</p><p>� O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> lidou bem com elas � opinou Melaine, alto o bastante para ser ouvida de todos os cantos. � � preciso ser duro com as Aes Sedai para elas aprenderem o que � honra, mesmo que isso as fa�a chorar.</p><p>Bael n�o conseguia esconder o desconforto por ouvir falarem daquele jeito sobre Aes Sedai.</p><p>� Ser� que tamb�m n�o � assim que se deve lidar com as S�bias? � indagou Rand, abrindo um sorriso.</p><p>Melaine baixou a voz e mexeu no xale, irritada.</p><p>� N�o seja tolo, Rand al�Thor.</p><p>Bael deu uma risadinha, o que fez a esposa cravar os olhos nele. Bem, pelo menos Rand conseguira arrancar uma risada. Ainda assim, n�o achou muita gra�a na pr�pria piada, e n�o s� por causa da prote��o do Vazio. Quase queria ter deixado Min comparecer. Havia muitas jogadas ocultas por ali, muito que ele n�o conseguia compreender, e temia que houvesse ainda outras que ele sequer percebia. O que aquelas mulheres queriam de verdade?</p><empty-line/><p>Min fechou a pequena porta do quarto de vestir, recostou-se em um painel de parede escuro com um le�o entalhado e respirou bem fundo. Faile fora buscar Perrin para tratar de alguma coisa, e apesar de Loial ter protestado, alegando que Rand queria que ela ficasse ali, o Ogier acabara sucumbindo a seu argumento de que Rand n�o tinha o direito de obrig�-la a fazer o que fosse. Era �bvio que, se Loial tivesse alguma no��o do que ela pretendia fazer, talvez tivesse tentado segur�-la � com toda a gentileza, claro � e ficado no p�tio lendo para ela.</p><p>A quest�o era que, mesmo tendo ouvido tudo, n�o vira muita coisa al�m das Aes Sedai se agigantando diante do trono e do estrado. Deviam estar canalizando, o que em geral obscurecia as imagens e auras, mas Min ficara t�o pasma que sequer teria percebido se houvesse alguma imagem para ver. Quando enfim se recomp�s, as Aes Sedai j� estavam menores, e a voz de Demira n�o vinha mais de todas as dire��es.</p><p>Min come�ou a pensar, desesperada, mordiscando o l�bio inferior. At� onde via, tinha dois problemas, e o primeiro era Rand e suas exig�ncias de respeito, o que quer que ele quisesse dizer com aquilo. Se esperava que Merana fosse fazer mesuras at� enterrar a cabe�a no ch�o, teria que esperar sentado. Depois do que ele fizera, elas decerto estariam zangadas. Devia haver alguma maneira de p�r panos quentes, s� precisava saber como. O segundo problema eram as Aes Sedai. Rand parecia achar que aquilo era alguma esp�cie de rompante que ele conseguiria aplacar caso se posicionasse com firmeza, mas Min n�o achava que as Aes Sedai tinham rompantes. E, se tivessem, estava convencida de que aquilo era mais s�rio. Ainda assim, s� conseguiria descobrir do que se tratava de volta na estalagem.</p><p>Depois de pegar Rosa no est�bulo, foi trotando com a �gua baia de volta para a estalagem, onde a deixou com um cavalari�o orelhudo, pedindo que o animal fosse esfregado e alimentado com um pouco de aveia. A �gua galopara com presteza at� o Pal�cio, ent�o merecia uma recompensa por ter ajudado a frustrar o plano de Merana e das outras. Considerando a f�ria g�lida na voz de Rand, Min n�o sabia dizer o que teria acontecido caso ele acabasse descobrindo tarde demais, e de surpresa, que sete Aes Sedai o esperavam no Grande Sal�o.</p><p>O sal�o da estalagem parecia quase o mesmo de quando ela zanzara apressada pelas cozinhas, mais cedo. Havia Guardi�es �s mesas, alguns jogando domin� ou pedras, outros lan�ando dados. Quase como se fossem um, todos ergueram o olhar quando ela entrou; ent�o, reconhecendo-a, retomaram o que estavam fazendo. A Senhora Cinchonine estava de p� diante da adega � nada de barris de cerveja e vinho empilhados ao longo da parede do sal�o, n�o naquela estalagem �, de bra�os cruzados e uma express�o amarga no rosto. Os Guardi�es eram os �nicos clientes e, via de regra, bebiam pouco e muito raramente. Uma boa quantidade de canecas e copos de estanho repousava sobre as mesas, mas, pelo que viu, estavam intocados. E tamb�m viu um homem que poderia estar disposto a lhe contar certas coisas.</p><p>Mahiro Shukosa estava sentado, sozinho, tentando decifrar alguns quebra-cabe�as de taverna. As duas espadas que costumava usar �s costas ainda estavam � m�o, apoiadas na parede. Com os cabelos j� meio grisalhos nas t�mporas e um nariz nobre, Mahiro tinha uma beleza meio grosseira, e s� uma mulher apaixonada diria que ele era bonito. Um lorde de Kandor, j� tinha visitado as cortes de quase todas as terras e viajava sempre com uma pequena biblioteca. Mahiro ganhava e perdia jogatinas com o mesmo sorriso f�cil, mas sabia recitar poesia e tocar harpa, al�m de dan�ar como um sonho. Em suma: exceto por ser Guardi�o de Rafela, era exatamente o tipo de homem de quem Min gostava antes de conhecer Rand � e ainda gostava, na verdade, quando conseguia olhar para quem fosse sem pensar em Rand. Para sua sorte � ou seu azar �, Mahiro a via de um jeito que Min suspeitava de que fosse peculiar de Kandor: uma esp�cie de irm� mais nova que, vez ou outra, precisava de algu�m para conversar e lhe dar conselhos de forma a n�o acabar quebrando o pesco�o enquanto fazia suas maluquices. Mahiro dizia que ela tinha pernas bonitas, mas que jamais pensaria em toc�-las e que quebraria o pesco�o de quem pensasse em fazer isso sem a permiss�o dela.</p><p>Deslizando as intrincadas pe�as de ferro com toda a destreza de volta para os lugares, Mahiro deixou o quebra-cabe�as na pilha dos que j� solucionara e pegou um da outra pilha enquanto Min se sentava � sua frente.</p><p>� E a�, repolhinha � cumprimentou ele, abrindo um sorriso. � Vejo que voltou com o pesco�o intacto, n�o foi sequestrada e ainda est� solteira.</p><p>Algum dia ainda ia perguntar o que significava aquela frase que ele sempre repetia.</p><p>� Aconteceu alguma coisa depois que eu sa�, Mahiro?</p><p>� Fora as irm�s voltando do Pal�cio parecendo uma tempestade nas montanhas?</p><p>Como era de se esperar, o quebra-cabe�as foi solucionado como se ele tivesse canalizado.</p><p>� Por que ficaram t�o irritadas?</p><p>� Imagino que tenha alguma coisa a ver com al�Thor. � O quebra-cabe�as voltou � posi��o inicial com a mesma rapidez, ent�o foi jogado na pilha de descartes. O seguinte da pilha de ainda n�o solucionados tamb�m passou direto para a segunda. � J� resolvi esse h� uns anos � explicou.</p><p>� Mas como, Mahiro? O que aconteceu?</p><p>Os olhos escuros a encararam. Se os leopardos tivessem olhos quase negros, seriam como os de Mahiro.</p><p>� Min, um potro que enfia o focinho na toca errada pode acabar perdendo as orelhas.</p><p>Min se retraiu. Era verdade. Ah, as tolices que uma mulher fazia por amor�</p><p>� � o que eu quero evitar, Mahiro. S� estou aqui para levar mensagens entre Merana e o Pal�cio, mas sempre entro l� sem a menor ideia de em que estou me metendo. N�o sei por que as irm�s pararam de encontrar com ele todos os dias, nem por que voltaram e nem por que v�rias foram l� hoje, em vez de apenas tr�s. Se eu n�o souber, posso acabar sem mais que as orelhas. E Merana n�o vai contar, ela nunca me fala nada que n�o seja �v� l� e fa�a isso�. S� uma dica, Mahiro. Por favor.</p><p>O homem analisou o quebra-cabe�as em suas m�os, mas Min soube que ele estava pensando em outra coisa s� de ver que as pe�as interligadas se moveram entre seus dedos compridos, mas nada se soltou.</p><p>Uma movimenta��o nos fundos do sal�o chamou sua aten��o, e Min come�ou a virar a cabe�a � at� que congelou. Duas Aes Sedai voltavam do banho, a julgar pelo aspecto de quem acabara de se lavar. Fazia meses que n�o via aquelas duas, desde que tinham deixado Salidar com base no palpite de Sheriam de que Rand estava em algum lugar do Deserto Aiel. Bera Harkin e Kiruna Nachiman tinham ido para o Deserto, n�o para Caemlyn.</p><p>N�o fosse o rosto de idade indefinida, Bera pareceria uma mulher de fazendeiro qualquer, com seu cabelo castanho curto emoldurando o rosto quadrado. Mas, naquele momento, aquele rosto estava determinado e carrancudo. Kiruna, sempre elegante e muito escultural, parecia exatamente quem era: irm� do Rei de Arafel, uma lady poderosa por direito. Seus enormes olhos escuros reluziam como se ela estivesse prestes a ordenar uma execu��o com todo o prazer. Imagens e auras piscavam ao redor das duas, como sempre acontecia com Aes Sedai e Guardi�es. Uma em especial chamou a aten��o de Min, piscando em volta das duas mulheres ao mesmo tempo, tudo em um tom amarelo amarronzado somado a um p�rpura intenso. As cores em si n�o significavam nada, mas aquela aura fez Min perder o f�lego.</p><p>A mesa n�o ficava longe do p� da escada, mas as duas nem olharam para Min quando se viraram para subir. Nenhuma nem mesmo olhara para ela com aten��o, quando estavam em Salidar, e agora estavam absortas em sua pr�pria conversa.</p><p>� Alanna j� deveria ter botado ele em seu lugar faz tempo. � Kiruna falava baixo, mas a raiva em sua voz era quase expl�cita. � Era o que eu teria feito. Quando ela chegar, vou falar o que penso, e que o Tenebroso carregue a formalidade.</p><p>� Deveriam amarrar logo uma r�dea nele � concordou Bera, em um tom neutro �, antes que ele possa fazer mais mal a Andor. � Ela era andoriana, afinal. � E quanto antes, melhor.</p><p>Conforme as duas foram subindo os degraus, Min percebeu o olhar de Mahiro fixo nela.</p><p>� Como elas vieram parar aqui? � perguntou, surpresa por como a voz parecia perfeitamente normal.</p><p>Com Kiruna e Bera, j� eram treze. Treze Aes Sedai. E aquela aura.</p><p>� Elas seguiram as not�cias de al�Thor. Estavam na metade do caminho para Cairhien quando ouviram que ele estava aqui. Eu ficaria longe delas, Min. Os Gaidin das duas disseram que elas est�o de mau humor.</p><p>Kiruna tinha quatro Guardi�es, e Bera, tr�s.</p><p>Min conseguiu abrir um sorriso. Queria dar no p� da estalagem, mas isso levantaria suspeitas at� em Mahiro.</p><p>� Acho que � um bom conselho. E a minha dica?</p><p>O sujeito hesitou por mais um momento, ent�o pousou o quebra-cabe�as na mesa.</p><p>� N�o vou dizer o que � nem o que n�o �, mas, para bom entendedor� Talvez al�Thor esteja irritado. Talvez seja bom pensar em perguntar se outra pessoa n�o pode entregar as mensagens, quem sabe um de n�s. � Ele estava falando dos Guardi�es. � Talvez as irm�s tenham decidido ensinar a ele uma li��o sobre humildade. E isso, repolhinha, talvez seja um pouco mais do que eu deveria ter dito. E ent�o, vai pensar a respeito?</p><p>Min n�o sabia se a �pequena li��o� era o que acontecera no Pal�cio ou se era algo que ainda estava para acontecer, mas tudo se encaixava. E aquela aura�</p><p>� Tamb�m me parece um bom conselho. Mahiro, se Merana vier me procurar para levar alguma mensagem, pode dizer que eu vou passar os pr�ximos dias visitando a Cidade Interna?</p><p>� Uma longa jornada. � Ele deu uma risadinha zombeteira, mas gentil. � Se n�o tomar cuidado, vai acabar sequestrando um marido.</p><p>O mo�o orelhudo da estrebaria olhou surpreso quando Min insistiu para que ele tirasse Rosa da cocheira e a encilhasse outra vez. Deixou o p�tio do est�bulo a um passo tranquilo, mas, logo que a primeira curva fez A Coroa de Rosas sumir de vista, enfiou os calcanhares na �gua, fazendo a multid�o pular para sair do caminho quando partiu a galope direto para o Pal�cio, correndo o m�ximo que Rosa podia.</p><empty-line/><p>� Treze � repetiu Rand, em um tom neutro.</p><p>Foi o suficiente para Lews Therin tentar tomar outra vez o controle de <emphasis>saidin</emphasis>. Rand entrou em uma luta muda contra aquela fera, que rosnava e mostrava os dentes. Assim que Min falou que, na verdade, havia treze Aes Sedai em Caemlyn, Rand mal conseguiu agarrar o Poder antes de Lews Therin se lan�ar para cima da Fonte. O suor escorria por seu rosto, e manchas escuras se espalhavam pelo casaco � s� conseguia se concentrar em manter <emphasis>saidin</emphasis> fora do alcance de Lews Therin. Um m�sculo da bochecha pulsava com o esfor�o. A m�o direita tremia.</p><p>Min parou de andar a passos r�pidos de um lado para o outro, cruzando o tapete da sala quase pulando de ansiedade.</p><p>� N�o � s� isso, Rand � alertou, desesperada. � � a aura. Sangue, morte, o Poder �nico, aquelas mulheres e voc� tudo ao mesmo tempo e no mesmo lugar. � Estava outra vez com os olhos brilhando, mas agora as l�grimas escorriam livremente pelas bochechas. � Kiruna e Bera n�o gostam de voc�, nem um pouco! Lembra-se daquela vis�o que tive sobre voc�? Mulheres capazes de canalizar lhe fazendo mal. As auras, e as treze, e tudo� Rand, � coisa demais!</p><p>Min sempre dizia que suas vis�es todas as vezes se tornavam realidade, mas nunca podia afirmar se isso aconteceria dali a um dia, um ano ou dez � e, se permanecesse ali em Caemlyn, Rand achava que seria quest�o de dias. Mesmo que a voz se limitasse a um rosnado em sua cabe�a, sabia que Lews Therin queria atacar Merana e as outras antes que elas tivessem qualquer chance de atac�-lo. Ali�s, aquela ideia lhe parecia t�o atraente que chegava a ser desconfort�vel. Talvez fosse apenas obra do acaso, algo como sua distor��o de <emphasis>ta�veren</emphasis> se voltando contra ele, mas n�o dava para negar os fatos: Merana decidira desafi�-lo no mesm�ssimo dia em que passou a haver treze Aes Sedai na cidade.</p><p>Ele se levantou e foi at� o quarto, mas s� para pegar a espada guardada atr�s do arm�rio, j� presa ao cintur�o com fivela em forma de Drag�o.</p><p>� Voc� vem comigo, Min � anunciou, pegando o Cetro do Drag�o e indo at� a porta.</p><p>� Para onde? � indagou a jovem, secando as bochechas com um len�o.</p><p>Apesar da pergunta, Rand j� estava no corredor, e ela acabou indo atr�s. Jalani se levantou com um pinote um tantinho mais ligeiro que o de Beralna, uma ruiva magrela de olhos azuis e sorriso ferino.</p><p>Quando havia apenas Donzelas por perto, Beralna sempre o encarava como se estivesse considerando fazer ou n�o o grande favor de atender a seus pedidos. Daquela vez, Rand tratou de encar�-la primeiro. O Vazio deixava sua voz fria e distante. Lews Therin estava contido, choramingando baixinho, mas Rand n�o ousava relaxar � n�o em Caemlyn, n�o <emphasis>perto</emphasis> de Caemlyn.</p><p>� Beralna, v� atr�s de Nandera e diga para ela me encontrar nos aposentos de Perrin com quantas Donzelas quiser levar. � N�o podia deixar Perrin para tr�s, e n�o por conta daquela vis�o de Min. Quando Merana tivesse not�cia de sua partida, poderia muito bem mandar uma das Aes Sedai criar um elo com Perrin, assim como Alanna fizera com ele. � Pode ser que eu n�o volte mais para c�. Se algu�m vir Perrin, Faile ou Loial, diga a eles para tamb�m me encontrarem por l�. Jalani, v� falar com a Senhora Harfor. Avise a ela que preciso de caneta, tinta e papel. � Tinha que escrever algumas cartas antes de partir. Sentiu que as m�os voltaram a tremer, ent�o acrescentou: � Bastante papel. O que est�o esperando? V�o logo! V�o!</p><p>As duas trocaram um �nico olhar e sa�ram correndo. Rand seguiu na dire��o oposta, com Min quase trotando para conseguir acompanh�-lo.</p><p>� Para onde estamos indo, Rand?</p><p>� Cairhien. � Com o Vazio envolvendo-o, a resposta saiu com a frieza de uma bofetada na cara. � Min, confie em mim. N�o vou machucar voc�. Seria mais f�cil cortar meu bra�o fora do que machucar voc�.</p><p>A jovem ficou quieta, at� que Rand enfim baixou os olhos. Min o encarava com um semblante esquisito.</p><p>� Muito bom ouvir isso, pastorzinho. � A voz estava t�o estranha quanto o rosto. Devia ter ficado mesmo apavorada com a ideia de treze Aes Sedai atr�s dele. O que n�o era de se espantar, claro.</p><p>� Min, se eu tiver que enfrentar essas mulheres, prometo dar um jeito de manter voc� longe do perigo.</p><p>Como um homem conseguiria enfrentar treze delas? S� de pensar naquilo, Lews Therin explodiu outra vez, aos berros.</p><p>Para a surpresa de Rand, Min tirou as conhecidas facas das mangas com um floreio, ent�o guardou tudo de volta com a mesma delicadeza � devia estar treinando.</p><p>� Voc� pode me puxar pela orelha daqui at� Cairhien ou qualquer outro lugar, mas acho bom voc� pensar duas vezes se pretende me mandar para onde for, pastorzinho.</p><p>Rand n�o sabia por qu�, mas tinha certeza de que n�o era aquilo que ela pretendia dizer quando come�ou a falar. Foi apenas o que acabou saindo.</p><p>Quando chegaram aos aposentos de Perrin, Rand deu de cara com uma multid�o. De um dos lados da sala de estar estavam Perrin e Loial, ambos sem nem terem vestido o casaco, sentados de pernas cruzadas sobre o tapete azul enquanto fumavam seus cachimbos com Gaul, um C�o de Pedra que Rand se lembrava de ter visto na queda da Pedra de Tear. Faile estava sentada do outro lado do aposento, igualmente no ch�o, junto de Bain e Chiad, que tamb�m tinham estado presentes na Pedra. Pela porta aberta que dava para o aposento anexo, Rand viu Sulin trocando as roupas de cama, jogando-as de qualquer jeito como se preferisse rasg�-las em pedacinhos. Todos ergueram os olhos quando ele e Min entraram, e Sulin veio at� a porta.</p><p>Houve uma boa dose de confus�o quando Rand explicou sobre as treze Aes Sedai e o que Min ouvira. Mas nada sobre as vis�es. Alguns ali sabiam, mas alguns poderiam n�o saber, e ele n�o contaria aquilo para ningu�m � n�o sem que Min decidisse contar, o que n�o era o caso. E tamb�m n�o falou nada de Lews Therin, claro. N�o que tivesse medo do que poderia lhe acontecer em uma cidade com treze Aes Sedai, mesmo que elas n�o fizessem nada. Aquelas mulheres que pensassem que ele estava com medo, se quisessem � e ele pr�prio n�o podia afirmar que n�o estava. Lews Therin se mantivera calado, mas Rand ainda podia senti-lo, olhos intensos observando-o durante a noite. Raiva e medo e talvez at� p�nico se arrastavam pela parede externa do Vazio feito aranhas enormes.</p><p>Perrin e Faile come�aram a arrumar a bagagem na mesma hora, e Bain e Chiad conversaram naquela linguagem de sinais antes de anunciar que iriam acompanhar Faile, ao que Gaul anunciou que acompanharia Perrin. Rand n�o entendia o que estava se passando ali, mas tinha algo a ver com Gaul n�o olhar para Bain ou Chiad e as duas n�o olharem para ele. Loial saiu correndo, resmungando sozinho sobre quanto Cairhien era bem mais longe de Dois Rios do que Caemlyn e sobre a fama da m�e de conseguir andar bastante. Quando ele voltou, carregava uma trouxa mal amarrada debaixo do bra�o e alforjes imensos por cima do ombro, com camisas saindo pelos bolsos e pelas aberturas. Loial estava pronto para partir imediatamente. Sulin tamb�m sumiu e voltou trazendo uma trouxa de vestidos vermelhos e brancos. Com a express�o congelada naquela express�o servil incongruente, ela grunhiu alguma coisa sobre ter recebido ordens de servir a <emphasis>ele</emphasis>, <emphasis>a Perrin e a Faile</emphasis>, e s� um lagarto com insola��o acharia isso poss�vel com ela em Caemlyn enquanto todos estavam em Cairhien. At� acrescentou um �Milorde Drag�o� no final, que soou mais como um xingamento, e uma mesura. Surpreendentemente, daquela vez ela n�o perdeu o equil�brio em nenhum momento, o que pareceu deix�-la t�o impressionada quanto Rand.</p><p>Nandera chegou quase junto com a Senhora Harfor, que trazia um estojo com v�rias canetas de ponta de a�o, al�m de papel, tinta e cera de selagem suficientes para cinquenta cartas, o que acabou por vir a calhar.</p><p>Perrin quis escrever para Dannil Lewin, mandando-o seguir viagem com os outros homens de Dois Rios � n�o parecia ter a menor inten��o de deix�-los para as Aes Sedai �, e s� n�o pediu para que levassem Bo e as outras garotas quando Rand e Faile salientaram que, para come�o de conversa, as Aes Sedai n�o as deixariam ir e que, al�m de tudo, era pouco prov�vel que elas quisessem acompanh�-los. Faile fora com ele � estalagem, mais de uma vez, e at� mesmo Perrin teve que admitir que as garotas pareciam impacientes para se tornarem logo Aes Sedai.</p><p>A pr�pria Faile tinha duas cartas r�pidas para escrever, tanto para a m�e quanto para o pai, para que eles n�o se preocupassem. Rand n�o sabia qual carta era para quem, mas as duas pareciam ter sido escritas em tons muito diferentes. A primeira, Faile recome�ou v�rias vezes para ent�o rasgar o pergaminho, e cada palavra a deixava de cenho franzido; a outra foi escrita �s pressas, em meio a sorrisos e risadinhas � Rand achou que devia ser a da m�e. Min escreveu para um amigo chamado Mahiro, tamb�m hospedado com as Aes Sedai. Por algum motivo, ela fez quest�o de dizer a Rand que se tratava de um homem mais velho, mesmo corando ao mencionar a idade do sujeito. At� Loial pegou papel e caneta, depois de alguma hesita��o. Teve que usar sua pr�pria pena, j� que as canetas humanas seriam engolidas naquelas m�os enormes. Ele selou o bilhete e o entregou � Senhora Harfor com um pedido acanhado para que, se houvesse oportunidade, ela o entregasse pessoalmente. O polegar do tamanho de uma salsicha gorda cobria quase todo o nome do destinat�rio, escrito tanto no alfabeto humano quanto nas letras dos Ogier, mas, com o Poder �nico agu�ando a vis�o, Rand identificou o nome de Erith. Ainda assim, Loial n�o demonstrava querer esperar e entregar ele mesmo a mensagem.</p><p>Suas cartas foram t�o dif�ceis de escrever quanto a primeira mensagem de Faile, mas por motivos distintos. O suor que gotejava do rosto fazia a tinta se espalhar, e sua m�o tremia tanto que ele precisou recome�ar mais de uma vez depois de tanto manchar e borrar o papel. Ainda assim, Rand sabia muito bem o que queria dizer. Para Taim, enviou um alerta sobre as treze Aes Sedai e uma reitera��o das ordens de se manter longe das mulheres. Para Merana mandou um tipo diferente de alerta, junto com uma esp�cie de convite. Era in�til que tentasse se esconder, j� que Alanna poderia encontr�-lo em qualquer lugar do mundo, mas o encontro seria em seus termos, se ele pudesse garantir isso.</p><p>Passou um tempo encarando a Senhora Harfor quando ela lhe entregou um selo de pedra-verde com um Drag�o entalhado, mas a mulher respondeu com um olhar neutro inabal�vel. Quando enfim selou as cartas, Rand se virou para Nandera.</p><p>� J� reuniu suas vinte Donzelas?</p><p>Nandera ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Vinte? Seu recado foi para eu trazer quantas quisesse e que talvez voc� n�o fosse voltar. Tenho quinhentas, e teria trazido mais se n�o tivesse decidido eu pr�pria estabelecer um limite.</p><p>Rand apenas assentiu. Sua cabe�a estava quieta, apenas com os pr�prios pensamentos, mas <emphasis>sentia</emphasis> Lews Therin ali, junto com ele no Vazio, aguardando feito uma mola tensionada. S� depois de passar todos pelo port�o que dava para a c�mara em Cairhien e deixar a passagem se fechar, diminuindo a percep��o de Alanna para uma vaga impress�o de que ela estava em algum ponto a oeste; s� ent�o Lews Therin pareceu se afastar. Foi como se, exaurido pela luta por controle, o homem tivesse ca�do no sono. Por fim, Rand afastou <emphasis>saidin</emphasis>, s� ent�o reparando em quanto estava desgastado por conta do embate. Loial teve que o carregar at� seus aposentos no Pal�cio do Sol.</p><empty-line/><p>Merana estava sentada, bem quieta, junto � janela da sala de estar, de costas para a rua, com a carta de Rand al�Thor no colo. J� sabia o conte�do de cor.</p><p>Come�ava com �Merana�. N�o com �Merana Aes Sedai�, nem mesmo �Merana Sedai�.</p><cite><p>Merana,</p><p>Certa vez, um amigo me disse que, na maioria dos jogos de dados, o n�mero treze � considerado quase t�o azarado quanto lan�ar os Olhos do Tenebroso. Tamb�m acho que treze � um n�mero azarado. Estou indo para Cairhien. Pode me seguir como puder, sem levar mais que cinco outras irm�s. Assim, estar� em p� de igualdade com as emiss�rias da Torre Branca. Ficarei muito descontente se voc� tentar levar mais mulheres. N�o me pressione mais. Me resta pouca confian�a para depositar em quem quer que seja.</p><text-author>Rand al�Thor, o Drag�o Renascido</text-author></cite><p>A parte final fora escrita com tanta for�a que a caneta quase rasgara o papel. Em compara��o com o restante da carta, aquelas duas �ltimas linhas quase pareciam ter sido escritas por outra m�o.</p><p>Merana estava sentada bastante quieta. N�o estava sozinha. As outras mulheres da miss�o diplom�tica � se ainda podia ser chamada assim � haviam se acomodado em cadeiras ao longo das paredes, em v�rios estados. O que mais a irritava era que apenas Berenicia se encontrava sentada com a mesma quietude e humildade que ela, as m�os gorduchas entrela�adas sobre o colo, a cabe�a meio baixa, os olhos s�rios e bem atentos. N�o dizia uma palavra, a menos que se dirigissem a ela. Faeldrin, por sua vez, ostentava uma postura bem orgulhosa e falava quando queria, assim como Masuri e Rafela. Seonid estava quase como elas, sentada bem na beira da cadeira e volta e meia abrindo um sorriso obstinado. As outras agiam mais como Valinde: quase calmas. Todas estavam presentes, exceto Verin e Alanna, e um Gaidin fora enviado para encontr�-las. Kiruna e Bera, paradas de p� no meio da sala, faziam notar sua presen�a.</p><p>� Tenho nojo s� de pensar que existe algu�m capaz de enviar uma carta dessas para uma Aes Sedai. � Kiruna n�o falava alto, e sua voz soava ao mesmo tempo serena, calma e en�rgica. Mas seus olhos escuros relampejavam. � Demira, seu informante pode confirmar se al�Thor foi mesmo para Cairhien?</p><p>� Ele Viajou � murmurou Bera, incr�dula. � E pensar que justo ele redescobriu esse Talento�</p><p>As contas brilhantes nas tran�as de Faeldrin tilintaram quando ela assentiu.</p><p>� � imposs�vel cogitar outra possibilidade. Talvez ele seja mais poderoso at� do que Logain ou Mazrim Taim, sim?</p><p>� N�o podemos fazer nada a respeito de Taim? � O rosto redondo de Rafela, sempre calmo e apraz�vel, estava severo, e a voz, em geral doce, soava impass�vel. � Tem pelo menos cem homens capazes de canalizar, cem! E a menos de vinte milhas daqui.</p><p>Kairen aquiesceu, resoluta, mas n�o se pronunciou.</p><p>� Eles v�o ter que esperar � retrucou Kiruna, com firmeza. � Luz e honra, n�o sei quantas irm�s vamos precisar para dar conta de tantos. Al�Thor � que importa, e desse n�s damos conta. Demira?</p><p>Demira tinha esperado as outras terminarem, claro. Baixando a cabe�a bem de leve, respondeu:</p><p>� S� sei que ele foi embora, ao que parece levando um grande n�mero de Aiel, e � bem poss�vel que tamb�m tenha levado Perrin Aybara.</p><p>Verin, que tinha entrado sem fazer alarde logo que Demira come�ou a falar, acrescentou:</p><p>� N�o podemos ter d�vidas quanto ao paradeiro de Perrin. Mandei Tomas verificar o acampamento do pessoal de Dois Rios. Parece que enviaram dois homens ao Pal�cio para apanhar os cavalos de Perrin e da esposa, e os outros j� largaram os carro��es e servi�ais e est�o cavalgando para o leste o mais depressa poss�vel. Marcham com a cabe�a de lobo de Perrin e a �guia Vermelha de Manetheren.</p><p>Um sorriso fraco curvou de leve os l�bios de Verin, como se ela achasse aquilo divertido. Kairen deixava bem claro que n�o era da mesma opini�o, soltando um murm�rio de surpresa e comprimindo os l�bios logo em seguida, formando uma linha estreita.</p><p>Merana tamb�m n�o achou aquilo nada engra�ado, mas era um detalhe t�o �nfimo em compara��o com o todo� Um cheirinho t�nue de coisa estragada quando j� estavam sentadas sobre um monte de dejetos; um cachorro rosnando para algu�m j� com as saias abocanhadas por lobos. E pensar que se preocupara demais com Verin, se esfor�ara tanto� A verdade era que a Marrom mal conseguira botar os planos em pr�tica, exceto por levar Demira a sugerir aquele confronto infeliz. Tudo tinha sido conduzido com muita habilidade, e Merana achava que ningu�m que n�o fosse da Ajah Cinza teria percebido. No entanto, ela pr�pria concordara com o curso de a��o: bater de frente com al�Thor � ou pelo menos tentar � era o m�nimo que poderiam ter feito. Tinha se preocupado com Verin, ent�o Kiruna e Bera apareceram. Nenhuma das duas respondia � sua autoridade e ambas eram pelo menos t�o fortes quanto Masuri, Faeldrin ou Rafela.</p><p>� Isso, sim, � jogar um nabo estragado no cozido � resmungou Bera, emburrada.</p><p>Kairen e v�rias outras assentiram.</p><p>� Mas � um nabinho de nada � rebateu Kiruna, o tom bem seco. Quase todas assentiram, tirando Merana e Verin. Merana apenas suspirou baixinho, e Verin ficou examinando Kiruna com aquele olhar de p�ssaro, a cabe�a enviesada. � Por que Alanna est� demorando? � indagou a mulher, perguntando para ningu�m em particular. � N�o quero ter que me repetir.</p><p>Bem, Merana achava que talvez ela mesma tivesse come�ado com aquilo tudo, abstendo-se da disputa de poder com Verin. Ainda era a l�der da delega��o e todas seguiam suas ordens, inclusive Masuri, Rafela e Faeldrin, mas todas tinham notado a mudan�a de poder. E n�o tinha certeza se Kiruna ou Bera agora estavam no comando � e nem fazia diferen�a, no que dizia respeito � posi��o entre as Aes Sedai, que uma tivesse nascido na fazenda e a outra, em um pal�cio. Bem, sua �nica certeza era de que sua miss�o diplom�tica estava desmoronando ao seu redor, o tipo de coisa que jamais teria acontecido quando a Torre Branca era inteira, quando uma embaixadora contava com todo o poder da Torre e do Trono de Amyrlin, pouco importando se levara trinta anos para ascender ao xale e mal tivesse for�a para ter sido aceita. �quela altura, elas n�o passavam de um punhado de Aes Sedai que adotavam para suas posi��es na cadeia de poder geral sem nem fazer uma pausa para pensar.</p><p>Como se tivesse ouvido tocarem em seu nome, Alanna apareceu na sala assim que Bera abria a boca � ela e Kiruna atacaram a rec�m-chegada:</p><p>� Al�Thor afirma que foi para Cairhien � come�ou Bera, sem rodeios. � Voc� tem algo a acrescentar?</p><p>Alanna encarou as duas com orgulho e um brilho perigoso nos olhos escuros. Estavam falando de seu Guardi�o, afinal.</p><p>� Ele est� em algum lugar a leste, � tudo o que eu sei. Pode ser Cairhien.</p><p>� Se ia criar um elo sem primeiro falar com ele � come�ou Kiruna, o tom bem impositivo �, por que, pela Luz mais sagrada, n�o usou esse elo para faz�-lo se curvar � sua vontade? Em compara��o com o que voc� fez antes, isso � s� um tapa no pulso.</p><p>Alanna ainda mantinha pouco controle sobre as pr�prias emo��es. As bochechas ficaram coradas, em parte pela raiva, a julgar pelo lampejo em seus olhos, e, com toda a certeza, em parte pela vergonha.</p><p>� Ningu�m falou para voc�s? � indagou a Verde, alegre demais. � Bem, imagino que ningu�m queira pensar no assunto, mesmo. Eu, com certeza, n�o quero. � Faeldrin e Seonid encaravam o ch�o, e n�o eram as �nicas. � Tentei compelir al�Thor logo que estabeleci o elo � explicou, como se n�o tivesse notado o constrangimento no ambiente. � J� tentou arrancar um carvalho do ch�o s� com as m�os, Kiruna? Foi igualzinho.</p><p>Kiruna foi arregalando os olhos e soltando um suspiro lento. Bera murmurou:</p><p>� Isso � imposs�vel. Imposs�vel.</p><p>Alanna jogou a cabe�a para tr�s e gargalhou. As m�os na cintura deram um ar de desd�m � risada, fazendo Bera comprimir os l�bios e deixando os olhos de Kiruna com um brilho frio. Verin as encarava, e Merana achou, com certo desconforto, que parecia o olhar de um pintarroxo observando minhocas. Verin sempre parecia deferir sem deferir, embora Merana n�o conseguisse entender como.</p><p>� Ningu�m nunca criou um elo com um homem capaz de canalizar � afirmou Alanna, quando parou de rir. � Pode ser que seja isso.</p><p>� Bem, seja como for � rebateu Bera, com a voz e o olhar muito firmes. � Seja como for. Voc� ainda consegue localiz�-lo.</p><p>� Isso mesmo � concordou Kiruna. � Voc� vir� conosco, Alanna.</p><p>A Verde piscou, como se recobrasse a consci�ncia. Ent�o baixou um tanto a cabe�a, aquiescendo.</p><p>Merana decidiu que aquela era a hora. Se quisesse manter a delega��o unida, aquela era sua �ltima chance. Ela se levantou, dobrando a carta de al�Thor para ocupar as m�os.</p><p>� Quando eu trouxe esta miss�o diplom�tica at� Caemlyn � come�ou, lembrando a todas que era a l�der. Gra�as � Luz, conseguiu falar com uma voz est�vel �, recebi ordens muito flex�veis, ainda que o objetivo da miss�o parecesse �bvio. Ent�o n�s � escolheu o pronome para lembr�-las de que todas compunham a delega��o � nos dedicamos � quest�o com uma expectativa justa de sucesso. Al�Thor deveria ser incitado a sair de Caemlyn para trazermos Elayne de volta e v�-la coroada, deixando Andor a nosso lado. Aos pouquinhos, al�Thor se convenceria de que �ramos dignas de confian�a, pois n�o lhe far�amos mal. E ele tamb�m seria levado a nos demonstrar o devido respeito. Duas ou tr�s, escolhidas com todo o cuidado, assumiriam o lugar de Moiraine, aconselhando-o e guiando-o. Alanna inclusive, claro.</p><p>� Como voc� sabe se n�o foi ele quem matou Moiraine � interrompeu Bera �, j� que dizem que ele matou Morgase?</p><p>� Temos ouvido boatos de todo tipo a respeito da morte dela � acrescentou Kiruna. � Alguns at� dizem que ela morreu lutando contra Lanfear. A maioria, no entanto, afirma que ela estava sozinha com al�Thor quando morreu.</p><p>Merana precisou se esfor�ar um pouco para n�o responder. Se permitisse uma s� palavra a seus instintos t�o enraizados, eles acabariam assumindo o controle de todas elas.</p><p>� Isso tudo estava sendo tratado quando voc�s duas chegaram � continuou. � Sei que s� nos encontraram aqui por acaso, e apenas obedecendo �s instru��es que receberam de encontr�-lo, mas voc�s elevaram o n�mero de Aes Sedai a treze. Que homem da estirpe de al�Thor n�o fugiria o mais r�pido poss�vel ao ouvir que h� treze Aes Sedai reunidas? Bem, o fato, puro e simples, � que qualquer preju�zo causado aos nossos planos deve ser atribu�do a voc�, Kiruna, e a voc�, Bera. � Depois daquilo, s� lhe restava esperar. Se tivesse conseguido elevar um pouco a pr�pria moral�</p><p>� Voc� j� acabou? � perguntou Bera, fria.</p><p>Kiruna foi ainda mais direta. Apenas se virou para as outras e falou:</p><p>� Faeldrin, voc� pode vir conosco para Cairhien, se quiser. E voc�s tamb�m, Masuri e Rafela.</p><p>Merana estremeceu, amassando a carta dobrada no punho.</p><p>� Voc�s n�o entendem? � berrou. � Voc�s falam como se pud�ssemos continuar como antes, como se nada tivesse mudado. Tem uma miss�o diplom�tica de Elaida em Cairhien, uma miss�o da Torre Branca. � isso que al�Thor deve estar pensando. Precisamos mais dele do que ele precisa de n�s, e meu medo � que ele saiba disso!</p><p>Por um momento, todos os rostos pareceram chocados � todos, menos o de Verin, que s� assentiu, pensativa, abrindo um sorrisinho dissimulado. Por um momento, todos os outros rostos eram s� olhos esbugalhados, estupefatos. Aquelas palavras pareciam reverberar no ar. <emphasis>Precisamos mais dele do que ele precisa de n�s.</emphasis> N�o precisavam dos Tr�s Juramentos para saber que era verdade.</p><p>Ent�o Bera disse, com toda a firmeza:</p><p>� Sente-se, Merana, e se acalme.</p><p>Sem nem reparar que obedecia, Merana j� estava sentada. Ainda tr�mula, ainda querendo gritar, mas sentada, apertando a missiva de al�Thor com toda a for�a.</p><p>Kiruna se virou de costas deliberadamente.</p><p>� Seonid, voc� vem, claro. Dois Gaidin a mais s�o sempre �teis. E Verin, eu acho. � Verin assentiu, como se aquilo fosse um pedido. � Demira � prosseguiu Kiruna �, sei que voc� tem certa prioridade nas queixas sobre o garoto, mas n�o queremos deixar al�Thor em p�nico outra vez, e algu�m precisa levar aquela cole��o extraordin�ria de garotas de Dois Rios at� Salidar. Voc�, Valinde, junto com Kairen e Berenicia, v�o auxiliar Merana nisso.</p><p>As outras quatro murmuraram, acatando as ordens sem a menor hesita��o. Merana sentiu um calafrio. A delega��o n�o estava desmoronando, estava virando p�.</p><p>� Eu� � Ela parou de falar quando os olhares de Bera e de Kiruna se voltaram para ela. E tamb�m os de Masuri, Faeldrin e Rafela. Virado p�, levando junto toda a sua autoridade. � Voc�s com certeza conseguiriam encontrar serventia para uma Cinza � ponderou, em um fio de voz. � Com certeza haver� negocia��es, e� � As palavras continuavam a tra�-la. Isso <emphasis>nunca</emphasis> teria acontecido quando a Torre ainda estava inteira.</p><p>� Muito bem � cedeu Bera, por fim, em um tom que fez com que Merana usasse todo o seu autocontrole para evitar que as bochechas ficassem vermelhas de vergonha.</p><p>� Demira, voc� leva as garotas para Salidar � ordenou Kiruna.</p><p>Sentada, Merana nem se mexia. Rezava para que, �quela altura, o Sal�o j� tivesse escolhido uma Amyrlin. Algu�m muito forte no Poder e no cora��o. Precisariam de uma nova Deane ou outra Rashima, para voltar a fazer delas o que j� tinham sido. Rezava para que Alanna as conduzisse a al�Thor antes que ele decidisse aceitar a miss�o de Elaida. Do contr�rio, nem mesmo uma nova Rashima as salvaria.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 50</p><p><image l:href="#10"/></p><p>Espinhos</p></title><p>Rand passou o restante do dia em seus aposentos no Pal�cio do Sol, deitado naquela cama imensa com quatro pilares quadrados de madeira negra polidos e lustrosos mais grossos que sua perna e p�s de marfim marchetado. Como se escolhida para contrastar com todo o ouro da antessala e sala de estar, a mob�lia do quarto era toda de madeira negra e marfim, mas t�o cheia de linhas retas quanto qualquer decora��o do pal�cio.</p><p>Sulin entrava e sa�a, afofando as plumas dos travesseiros e ajeitando o len�ol de linho por cima dele, resmungando que era mais saud�vel dormir no ch�o, trazendo ch� de menta que ele n�o pedira e ponche que ele n�o queria, at� que Rand a mandou parar.</p><p>� Como milorde Drag�o ordenar � rosnou a mulher, com um sorriso doce. Fez sua segunda mesura perfeita, mas saiu pisando duro e com tanta determina��o que parecia que nem se daria ao trabalho de abrir a porta, atravessando-a direto.</p><p>Min tamb�m ficou ali com Rand, sentada no colch�o, segurando a m�o dele com cara de preocupa��o. Rand at� come�ou a suspeitar de que Min achava que ele estava morrendo. Por fim, tamb�m a botou para fora, ao menos por tempo suficiente para vestir um robe de seda cinza que sempre ficava naquele guarda-roupas. E encontrou outra coisa, bem no fundo do arm�rio: um estojo de madeira estreito e liso com uma flauta, presente de Thom Merrilin em uma �poca que parecia de outra vida. Sentou-se junto de uma das janelas compridas e estreitas e tentou tocar. Depois de tanto tempo, no come�o s� sa�ram guinchos e sopros silenciosos do que qualquer coisa. E foram os barulhos estranhos que trouxeram Min de volta.</p><p>� Toque para mim � pediu ela, com uma risada satisfeita. Satisfeita ou surpresa, n�o dava para saber.</p><p>Claro que ela se sentou no colo de Rand enquanto ele tentava, com pouco sucesso, produzir qualquer coisa que lembrasse uma nota musical reconhec�vel. E foi exatamente assim que as S�bias surpreenderam os dois. Amys, Bair, Sorilea e mais quase dez daquelas Aiel de xales entraram, e Min se levantou bem r�pido, sem jeito, com as bochechas vermelhas e ajeitando o casaco de um jeito que parecia que os dois estavam lutando.</p><p>Bair e Sorilea pararam ao lado de Rand antes que ele pudesse sequer dizer uma palavra.</p><p>� Olhe para a esquerda � ordenou Sorilea, erguendo sua p�lpebra com o polegar e enfiando aquela cara enrugada diante da dele. � Olhe para a direita.</p><p>� Seu pulso est� r�pido demais � murmurou Bair, com os dedos ossudos pressionando a lateral do pesco�o de Rand com firmeza.</p><p>Ao que parecia, Nandera mandara uma Donzela atr�s das S�bias assim que os joelhos dele falharam. E Sorilea selecionara aquela horda dentre o pequeno ex�rcito de S�bias que tinham se voluntariado para ir ao pal�cio. E, ao que tudo indicava, com ou sem Sorilea para cont�-las, todas queriam sua vez com o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Depois que ela e Bair terminaram, vieram Amys e Colinda, uma mulher esguia com olhos cinza penetrantes que ainda n�o parecia ter chegado � meia-idade, mas com uma presen�a quase t�o forte quanto Sorilea � coisa que Amys tamb�m tinha, claro, bem como tantas outras. Rand era cutucado, aguilhoado, encarado e chamado de teimoso quando se recusava a ficar pulando. Elas pareciam ter certeza de que ele obedeceria.</p><p>Min n�o foi ignorada enquanto as S�bias se revezavam para ficar com ele: as que ficavam de fora a rodeavam e a enchiam de perguntas, todas sobre suas vis�es. Aquilo a deixou de olhos arregalados, para dizer o m�nimo, olhando das S�bias para Rand como se perguntasse se estavam todos lendo seus pensamentos. Amys e Bair explicaram como sabiam � Melaine n�o conseguira fazer segredo da not�cia sobre as filhas �, e os olhos de Min quase saltaram das �rbitas, de t�o arregalados. At� Sorilea parecia concordar com Melaine que a habilidade de Min a deixava quase em p� de igualdade com as S�bias. Ainda assim, as S�bias j� estavam t�o acostumadas a fazer as coisas � sua pr�pria maneira e ter tudo como queriam � igualzinho �s Aes Sedai � que obrigaram Min a repetir tudo para cada uma delas � e ocasionalmente repetir mais de uma vez, j� que estavam t�o ocupadas se preocupando com Rand que �s vezes perdiam uma ou outra palavra, e queriam se certificar de que compreendiam tudo.</p><p>Sorilea e as outras enfim conclu�ram, ainda que muito relutantes, que Rand s� precisava descansar um pouco. Depois que foram embora, deixando a ordem de que ele fosse repousar de uma vez, Min voltou para o seu colo.</p><p>� Elas conversam nos<emphasis> sonhos</emphasis>? � perguntou, balan�ando a cabe�a. � N�o parece poss�vel, parece coisa das lendas. � Estava com o cenho franzido. � Quantos anos voc� acha que Sorilea tem? E aquela Colinda. Eu vi� n�o. N�o, n�o tem nada a ver com voc�. Talvez seja o calor me afetando. Quando eu sei, eu <emphasis>sempre</emphasis> sei. Deve ser o calor. � Um brilho malicioso surgiu nos olhos dela, e Min foi se aproximando mais, bem devagar, fazendo um biquinho como se fosse beij�-lo. � Se deixar eles assim � murmurou, quando sua boca j� quase tocava a dele �, pode ser que ajude. O �ltimo peda�o que voc� tocou at� lembrava um pouco �O Galo na Gomeira�.</p><p>Ele levou um instante para entender a piada, com aqueles olhos preenchendo seu campo de vis�o. Quando finalmente compreendeu o que estava se passando, deve ter feito uma cara muito engra�ada. Min desabou, gargalhando com a cabe�a apoiada em seu peito.</p><p>Pouco depois chegou um bilhete de Coiren inquirindo sobre sua sa�de, fazendo votos de que n�o estivesse doente e perguntando se ela poderia visit�-lo com duas de suas irm�s � estava oferecendo Cura, caso ele desejasse. Lews Therin se remexeu enquanto Rand lia, como se acordasse de seu sono, mas o murm�rio vago e ranzinza n�o chegava nem perto da ira de Caemlyn, e ele voltou a dormir assim que Rand deixou a carta de lado.</p><p>Era um forte contraste em rela��o ao comportamento de Merana, assim como um lembrete de que nada acontecia no Pal�cio do Sol que Coiren n�o ficasse sabendo antes do p�r do sol do mesmo dia, sen�o mais cedo. Respondeu com um agradecimento e uma recusa educada. Fora da cama ou n�o, ainda se sentia cansado. Queria estar em perfeito ju�zo quando desse de cara com alguma Aes Sedai. Aquilo era apenas parte do motivo para responder.</p><p>No mesmo bilhete, Rand tamb�m pediu que Gawyn o visitasse. S� encontrara o irm�o de Elayne uma vez, mas gostava do rapaz. No entanto, Gawyn n�o foi v�-lo nem respondeu � carta. Com pesar, Rand concluiu que o rapaz acreditava nos boatos que circulavam sobre como se dera a morte de sua m�e. N�o era bem o tipo de coisa que ele poderia pedir que a pessoa parasse de acreditar. Ficava com o humor t�o azedo toda vez que pensava naquilo que Min pareceu desistir de tentar anim�-lo. Nem Perrin nem Loial conseguiam ficar por perto de Rand quando ele se encontrava naquele estado de esp�rito.</p><p>Tr�s dias depois, veio outra solicita��o de Coiren, ainda no mesmo tom cort�s, e uma terceira ap�s mais tr�s dias, mas Rand inventou desculpas educadas para todas essas. Em parte por causa de Alanna � a sensa��o ainda era vaga e distante, mas ela se aproximava mais a cada dia. Aquilo n�o era surpresa: Rand tinha certeza de que Merana escolheria Alanna como uma das seis que a acompanhariam. N�o tinha a menor inten��o de deixar que a Verde chegasse a menos de uma milha dele, pelo menos n�o se pudesse v�-la, mas tinha dito que as deixaria em p� de igualdade com Coiren, e era isso que pretendia fazer, de forma que Coiren teria que esperar mais um pouco, e com paci�ncia. Al�m do mais, estava mesmo ocupado.</p><p>Foi fazer uma r�pida visita � escola, no antigo pal�cio de Barthanes, mas acabou se demorando bastante. Idrien Tarsin o aguardava outra vez diante da porta para mostrar diversas inven��es e descobertas, quase todas incompreens�veis, al�m das lojas onde agora se fabricavam arados, ancinhos e segadoras de modelos variados para a venda. O problema, no entanto, era Herid Fel. Ou talvez Min. Fel devaneou como de costume, e o homem se esqueceu de que Min estava l� � esqueceu v�rias vezes. Quando Rand finalmente conseguia fazer Fel falar mais que duas frases sobre um assunto espec�fico, o sujeito reparava na presen�a dela, levava um baita susto e perdia o fio da meada mais uma vez. Ele ficava se desculpando pelo cachimbo meio fumado que nunca se lembrava de acender, removendo cinzas de cima do barrig�o opulento e alisando os finos cabelos grisalhos. Min parecia gostar, embora Rand n�o entendesse por que algu�m apreciaria um sujeito que se esquecia de sua presen�a. Ela at� beijou o cocuruto de Fel ao se levantar para ir embora com Rand, o que deixou o sujeito absolutamente chocado. N�o foi de muita ajuda para saber o que Fel descobrira sobre os Selos na pris�o do Tenebroso ou a �ltima Batalha.</p><p>No dia seguinte, Rand recebeu um bilhete escrito em um peda�o de pergaminho rasgado.</p><cite><p>Cren�a e ordem fornecem for�a. � preciso limpar o cascalho antes de come�ar a construir. Explicarei da pr�xima vez que nos virmos. N�o traga a garota. Bonita demais.</p><text-author>Fel</text-author></cite><p>Era um garrancho escrito �s pressas, a assinatura espremida quase no ponto em que o papel fora rasgado, e nada daquilo fazia o menor sentido para Rand. Quando tentou ir outra vez falar com Fel, descobriu que o homem dissera a Idrien que se sentia jovem outra vez e fora pescar. No meio de uma seca. Rand se perguntou se o velho enfim teria perdido o ju�zo. Min achou o bilhete engra�ado e perguntou se podia guard�-lo, e Rand a viu relendo-o diversas vezes, sempre rindo.</p><p>Tendo Fel perdido o ju�zo ou n�o, Rand decidiu que n�o levaria Min na pr�xima vez � bem, a verdade era que estava cada vez mais dif�cil mant�-la por perto quando queria que ela estivesse ali. A mulher parecia passar mais tempo com as S�bias do que com ele. N�o entendia por que isso o irritava tanto, mas percebeu que tendia a ser rude com os outros quando Min estava nas tendas. Era bom que a mulher n�o passasse tempo demais com ele. As pessoas logo perceberiam, ent�o falariam e pensariam coisas inapropriadas. Em Cairhien, onde os servi�ais jogavam sua pr�pria vers�o do Jogo das Casas, podia ser perigoso ter gente achando que Min era importante. Era bom ela ficar longe. Rand tentava n�o ser rude.</p><p>Claro que precisava de Min por perto para saber as auras dos nobres que come�avam a visit�-lo, um de cada vez, sempre perguntando sobre sua sa�de � a fraqueza nos joelhos decerto tinha provocado rumores �, e sempre sorrindo e inquirindo por quanto tempo ele pretendia ficar em Cairhien e quais eram seus planos, se ele n�o se incomodava se perguntassem. E sorrindo cada vez mais, sempre sorrindo. O �nico que n�o abria um sorriso t�o intenso era Dobraine, ainda com a frente da cabe�a raspada � moda dos soldados e as listras do casaco pu�das pela placa peitoral que nunca usava no pal�cio. E Dobraine fez aquelas mesm�ssimas perguntas em um tom t�o l�gubre que Rand ficou quase t�o feliz quando ele saiu quanto ficava ao se ver livre dos demais nobres.</p><p>Min sempre dava um jeito de comparecer a essas audi�ncias, espremendo-as no meio daquelas visitas misteriosas �s S�bias � Rand n�o iria perguntar o que se passava entre elas. O problema era escond�-la dos nobres.</p><p>� Posso fingir ser sua concubina � sugeriu Min, rindo. � Posso me enroscar em seu pesco�o e dar uvas na sua boca. Quer dizer, passas� faz tempo que n�o vejo uma uva. E voc� pode me chamar de l�bios de mel. Da� ningu�m questionaria o motivo da minha presen�a.</p><p>� N�o � retrucou ele, mais que depressa, e Min pareceu bem s�ria.</p><p>� Acha mesmo que os Abandonados viriam atr�s de mim s� por isso?</p><p>� Pode ser � respondeu ele, no mesmo tom s�rio. � Um Amigo das Trevas como Padan Fain viria, se ele ainda estiver vivo. Eu n�o arriscaria, Min. De todo modo, n�o permitirei que esses cairhienos imundos fiquem pensando essas coisas de voc�. E nem os tairenos.</p><p>Os Aiel eram outra hist�ria. Eles achariam a brincadeira muito engra�ada, muito divertida.</p><p>Min era mesmo vol�vel. Passou de s�ria a radiante sem meio-termo e ficou toda sorrisos. Ao menos at� as audi�ncias come�arem.</p><p>Fracassaram com o biombo de madeira ornamentada com douraduras montado no canto da antessala. Os olhos escuros e cintilantes de Maringil evitavam tanto aquele ponto do aposento que Rand sabia que o homem reviraria o Pal�cio do Sol de cima a baixo para descobrir quem ou o que estava escondido ali. Tiveram mais sucesso com as reuni�es na sala de estar, com Min espiando pelas frestas das portas para a antessala, mas nem todos os nobres exibiam imagens ou auras durante as audi�ncias, e o pouco que ela via quando circulavam pelos corredores n�o levava a nada. Maringil, de cabelos brancos, magro feito uma l�mina e frio como gelo, morreria envenenado. Colavaere, que mantivera o rosto mais que belo muito calmo e contido depois de descobrir que Aviendha n�o estava ali, morreria enforcada. Meilan, com a barba pontuda e voz mel�flua, morreria com uma facada. O futuro trazia uma conta pesada para os Gr�o-Lordes de Tear. Segundo Min, Aracome, Maraconn e Gueyam tamb�m enfrentariam mortes sangrentas, talvez em batalhas. Ela comentou que nunca vira tantas mortes em um s� grupo de pessoas.</p><p>Assim que viu sangue cobrindo o largo rosto de Gueyam, no quinto dia em que estavam em Cairhien, ela se sentiu t�o mal que Rand a obrigou a se deitar e mandou que Sulin trouxesse panos �midos para molhar sua testa. Foi ele quem ficou sentado segurando a m�o dela dessa vez. Min apertava sua m�o de volta com bastante for�a.</p><p>Mas mesmo assim ela n�o parou com as provoca��es. Ele sempre podia contar com sua presen�a quando praticava com a espada, treinando as formas com quatro ou cinco dos melhores soldados tairenos e cairhienos, e quando ele e Rhuarc ou Gaul se engalfinhavam tentando acertar a cabe�a um do outro. Ela sempre passava o dedo pelo peito nu de Rand e fazia alguma piada sobre pastores n�o suarem muito por conta do costume de vestir a l� grossa das ovelhas, ou coisa do tipo. Min �s vezes tocava a cicatriz na lateral de seu corpo, aquela ferida que nunca cicatrizara direito, o c�rculo de pele rosada. Mas era um toque diferente, mais suave, e ela nunca fazia piadas sobre o ferimento. Ent�o ela beliscava seu traseiro, o que o deixava no m�nimo espantado quando havia gente por perto. As Donzelas e S�bias quase rolavam de tanto rir sempre que ele dava um pulo, e Sulin parecia que ia explodir tentando conter o riso. E Min tamb�m se aninhava em seu colo e o beijava sempre que podia, e at� amea�ou ir esfregar suas costas no banho, alguma noite. Quando Rand fingiu chorar e gaguejar, Min riu e disse que n�o era bom o bastante.</p><p>Ela sempre parava quando alguma Donzela enfiava a cabe�a para anunciar uma visita, sobretudo Loial � o Ogier nunca ficava muito e passava o tempo todo falando da Biblioteca Real �, ou Perrin, que passava ainda menos tempo e parecia cada vez mais cansado. Min pulava para longe ainda mais depressa se Faile estivesse com algum dos dois. Nas duas vezes em que isso aconteceu, a jovem logo escolheu um livro entre os que Rand guardava no dormit�rio e se sentou, fingindo ler, abrindo o livro em algum ponto no meio, como se j� tivesse se dedicado a ele por algum tempo. Rand n�o entendia os olhares frios que as duas trocavam. N�o pareciam haver bem uma animosidade ou inimizade entre elas, mas Rand suspeitava de que, se qualquer das duas fizesse uma lista das pessoas com as quais preferia n�o se encontrar, o nome da outra estaria logo no in�cio.</p><p>O mais engra�ado foi que, na segunda vez, ela escolheu o primeiro volume, encadernado em couro, dos <emphasis>Ensaios sobre a Raz�o,</emphasis> de Daria Gahand � livro que Rand considerara de dif�cil compreens�o e que pretendia enviar de volta � Biblioteca da vez seguinte que Loial aparecesse. Min de fato prosseguiu com a leitura por um tempo depois que Faile foi embora e, apesar das carrancas e dos resmungos, levou o livro para os pr�prios aposentos na ala de h�spedes, naquela noite.</p><p>Reinava um frio desinteresse entre Min e Faile, mas entre Min e Berelain os sentimentos beiravam a hostilidade. Quando Somara anunciou a chegada da Primeira de Mayene, na tarde do segundo dia, Rand vestiu o casaco e foi para a antessala a passos firmes, ocupando a cadeira comprida e dourada sobre o palanque antes de mandar Somara traz�-la. Min demorou para chegar ao sal�o. Quando Berelain entrou, deslumbrante como sempre em um vestido azul muito decotado, e deitou os olhos em Min, de casaco rosa-claro e cal�as� Por longos instantes, foi como se Rand n�o existisse. Berelain avaliou Min de cima a baixo, sem disfar�ar, e Min pareceu se esquecer de que ainda estava no quarto de Rand. Ela p�s as m�os na cintura e permaneceu ali, com um joelho dobrado, analisando Berelain com a mesma franqueza. As duas trocaram sorrisos � Rand chegou a sentir os pelos da nuca se eri�ando com aquela cena; s� conseguia pensar em duas gatas que acabavam de descobrir terem sido trancadas no mesmo quartinho. Parecendo decidir que n�o havia sentido em se esconder, Min foi andando � ou, melhor dizendo, foi rebolando; conseguiu fazer o caminhar de Berelain parecer o de um menino! � e se sentou, cruzando as pernas, ainda sorrindo. Luz, como aquelas mulheres sorriam.</p><p>Berelain enfim virou-se para Rand, abrindo bem as saias e inclinando-se em uma mesura profunda. Ele ouviu Lews Therin em sua cabe�a, apreciando a vis�o daquela mulher bel�ssima e mais do que generosa em exibir seus atrativos. Rand tamb�m apreciou o que viu, apesar de se perguntar se deveria desviar o olhar pelo menos at� que Berelain se levantasse outra vez, mas havia um motivo para ter optado pelo palanque. Ele tentou soar sensato e firme.</p><p>� Rhuarc deixou escapar que voc� vem negligenciando suas obriga��es, Berelain. Parece que voc� andou se escondendo nos seus aposentos durante dias, depois da minha �ltima visita. Soube que ele teve que ralhar com voc� para que sa�sse de l�. � Rhuarc n�o tinha dito exatamente isso, mas dera essa impress�o. As bochechas dela coraram, sugerindo que Rand acertara. � Voc� sabe que est� no comando, n�o ele. Deve escutar os conselhos de Rhuarc, n�o deixar tudo a cargo dele. N�o preciso de uma rebeli�o dos cairhienos por pensarem que voc� colocou um Aiel para govern�-los.</p><p>� Eu estava� preocupada, milorde Drag�o. � Apesar da hesita��o e do rosto corado, a voz dela saiu serena. � Desde a chegada das Aes Sedai, os rumores v�m crescendo feito ervas daninhas. Se me permite a pergunta, quem � que o senhor pretende colocar no governo deste lugar?</p><p>� Elayne Trakand, a Filha-herdeira de Andor. Agora Rainha de Andor. � Ao menos seria, em breve. � N�o sei de que rumores voc� est� falando, mas preocupe-se em deixar Cairhien nos eixos, eu me preocupo com as Aes Sedai. Elayne ficar� grata pelo que est� fazendo aqui.</p><p>Por algum motivo, Min fungou com desd�m.</p><p>� � uma boa escolha � comentou Berelain, pensativa. � Eu acho que os cairhienos v�o aceit�-la, talvez at� os rebeldes das colinas. � Era bom ouvir aquilo. Berelain era boa em avaliar correntes pol�ticas, talvez tanto quanto qualquer cairhieno. Ela respirou fundo, fazendo pausar a voz de Lews Therin. � Quanto �s Aes Sedai� os boatos dizem que elas vieram para escolt�-lo at� a Torre Branca.</p><p>� E <emphasis>eu</emphasis> j� disse para deixar as Aes Sedai comigo.</p><p>N�o que desconfiasse de Berelain. Confiava nela para governar Cairhien at� que Elayne assumisse o Trono do Sol, e at� confiava que ela pr�pria n�o almejasse o trono. Mas tamb�m sabia que, quanto menos gente soubesse que ele tinha qualquer plano em rela��o �s Aes Sedai, menor a chance de Coiren descobrir que ele visava algo al�m de seu ouro e suas joias.</p><p>Min fungou outra vez assim que as portas se fecharam atr�s de Berelain. Na verdade, foi mais uma bufada.</p><p>� N�o sei por que ela se d� ao trabalho de usar roupas. Bem, cedo ou tarde ainda vai aprender uma li��o. N�o vi nada de �til a voc�, s� que um homem de branco vai deix�-la de quatro. Ah, certas mulheres n�o t�m vergonha!</p><p>Naquela mesma manh�, Min pediu algumas moedas para contratar costureiras, posto que chegara a Caemlyn apenas com a roupa do corpo. As mulheres come�aram a produzir casacos, cal�as e blusas de seda e brocados de todas as cores. Algumas blusas pareciam ter decotes mais reveladores, mesmo por baixo dos casacos, e Rand n�o fazia ideia de como a mulher conseguia entrar em algumas das cal�as. Min tamb�m praticava arremesso de facas todos os dias de manh�, e ele at� viu Nandera e Enaila ensinando a ela a lutar com as m�os e os p�s, uma forma de luta bem diferente da masculina. As Donzelas n�o gostaram de t�-lo como plateia e se recusaram a continuar at� que ele sa�sse. Talvez Perrin tivesse entendido alguma coisa, mas Rand concluiu, pela mil�sima vez, que n�o compreendia as mulheres e jamais compreenderia.</p><p>Rhuarc ia v�-lo todos os dias, ou ent�o Rand ia ao gabinete que o Aiel dividia com Berelain. Ficava satisfeito em v�-la trabalhando arduamente, debru�ada sobre relat�rios de carregamentos de gr�os, reassentamentos de refugiados e reparos aos danos causados pelo que alguns cairhienos j� chamavam de Segunda Guerra dos Aiel, apesar de todos os esfor�os para denomin�-la Guerra dos Shaido. Rhuarc alegava ter decidido ignorar o que chamava de brincadeiras cairhienas em rela��o ao <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, embora ainda resmungasse sempre que via uma cairhiena com uma espada ou jovens rapazes e mo�as vestidos de branco. Os rebeldes ainda pareciam esperar nas colinas, cada vez em maior n�mero, mas isso tamb�m n�o o preocupava. Estava apreensivo era com os Shaido e com quantas lan�as ainda rumavam para o sul a cada dia, em dire��o a Tear. Os batedores que voltavam relatavam que os Shaido na Adaga do Fratricida pareciam inquietos. N�o havia ind�cio da dire��o para onde o grupo pretendia seguir, e nem quando. Rhuarc at� mencionou os Aiel que ainda se entregavam � Desola��o e abriam m�o da lan�a, ou se recusavam a parar de usar o branco dos <emphasis>gai�shain</emphasis> mesmo depois de terminado o tempo da obriga��o, e se referiu tamb�m aos poucos que ainda rumavam para o norte, a fim de se juntar aos Shaido. Era uma medida da inquieta��o que sentia. Rand descobriu, para sua surpresa, que Sevanna fora �s tendas e at� visitara a cidade, mas que tinha ido embora no dia seguinte � chegada de Rand. Rhuarc s� mencionou aquilo de passagem.</p><p>� N�o seria melhor ter prendido a mulher? � perguntou Rand. � Rhuarc, sei que ela se apresenta como S�bia, mas, pelo que entendi do processo, isso n�o pode ser verdade. Eu n�o me surpreenderia se os Shaido passassem a ter sensatez, sem ela.</p><p>� Duvido � respondeu Rhuarc, em um tom seco. Estava sentado em uma almofada, encostado na parede do gabinete, fumando seu cachimbo. � Amys e as outras ainda se entreolham pelas costas de Sevanna, mas a acolhem como S�bia. Se as S�bias dizem que Sevanna � uma delas, ent�o ela �. J� vi chefes a quem n�o daria uma bolsa d��gua, mesmo que estivesse entre dez lagos, mas eles mesmo assim eram chefes.</p><p>Suspirando, Rand analisou o mapa aberto sobre a mesa. Rhuarc de fato n�o parecia precisar dele; mesmo sem olhar, sabia dizer qualquer caracter�stica do terreno retratado. Berelain permanecia sentada na poltrona de espaldar alto, do lado oposto da mesa, os p�s enroscados sob o corpo e uma pilha de pap�is no colo. Segurava uma pena na m�o, e um frasco de tinta jazia sobre a mesinha ao lado da poltrona. Ela de vez em quando olhava em sua dire��o, mas baixava a cabe�a de volta para os informes sempre que via Rhuarc olhando. E este, por alguma raz�o, fechava a cara sempre que olhava para ela, que, por sua vez, corava e cerrava os dentes, demonstrando teimosia. Rhuarc �s vezes exibia um olhar de desaprova��o, o que n�o fazia o menor sentido, j� que Berelain voltara a cuidar de suas obriga��es.</p><p>� Voc� vai ter que parar de mandar lan�as para o sul � declarou Rand, por fim. N�o gostava nada daquilo. Era de suma import�ncia que Sammael visse o maior martelo do mundo avan�ando para cima dele, mas n�o ao custo de ter que arrancar os Shaido de Cairhien outra vez. � N�o vejo outra sa�da.</p><p>Os dias passaram e Rand continuou ocupado. Teve que receber lordes e ladies que trocavam tantos sorrisos e cordialidades que s� podiam estar tramando uns contra os outros por baixo dos panos. As S�bias vinham aconselh�-lo sobre como lidar com as Aes Sedai, fossem as da Torre ou as de Salidar. As sugest�es de Amys e Bair faziam Melaine parecer meiga, e Sorilea fazia seu sangue gelar. Jovens cairhienos se rebelavam nas ruas contra a proibi��o dos duelos que Rhuarc estabelecera, e o Aiel respondia dando um gostinho do que de fato era se tornar <emphasis>gai�shain</emphasis>: botava os rebeldes para passarem o dia sentados, nus, debaixo de sol, muito bem vigiados. Aquilo saciou um pouco o furor, mas o Aiel n�o iria t�o longe contra os pr�prios costumes, colocando aguacentos vestidos de branco, visto que os capturados pelos Escudos Vermelhos come�aram a se vangloriar da situa��o. Rand entreouviu Selande dizer a outra jovem, tamb�m portando espada e com os cabelos cortados bem curtos, em um tom bastante presun�oso, que a mulher s� compreenderia o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> quando fosse capturada pelos Aiel. Alegava que era uma experi�ncia edificante, fosse l� o que estivesse querendo dizer com aquilo.</p><p>Por�m, apesar dos Shaido, dos nobres, das S�bias e dos protestos, apesar da d�vida se Fel algum dia voltaria daquela pescaria, os dias foram� agrad�veis. Revigorantes, at�. Talvez fosse s� porque ele chegara t�o cansado na cidade. E talvez de fato fosse s� em compara��o com aquelas �ltimas horas em Caemlyn, mas Lews Therin parecia mesmo mais quieto. Rand at� se pegou apreciando as brincadeirinhas de Min, e uma ou duas vezes teve que lembrar a si mesmo de que tudo n�o passava de uma provoca��o. Por volta do d�cimo dia em Cairhien, come�ou a pensar que n�o seria um jeito t�o ruim de passar o resto da vida. Claro que aquilo n�o poderia durar.</p><empty-line/><p>Para Perrin aqueles dez dias n�o foram nada agrad�veis. Ele tratou de buscar a companhia de Loial, mas o Ogier encontrara seu para�so na Biblioteca Real, onde passava a maior parte dos dias. Perrin gostava de ler, e talvez tivesse apreciado aquelas salas imensas cheias de livros at� os tetos abobadados alt�ssimos, mas sempre havia uma Aes Sedai rondando aquelas salas � uma mulher magra e de cabelos negros que nunca piscava. Ela n�o parecia notar sua presen�a, mas Perrin n�o confiava muito naquelas mulheres, mesmo antes dos eventos em Caemlyn. Sem a possibilidade da companhia de Loial, Perrin sa�a bastante para ca�ar com Gaul, e algumas vezes com Rhuarc, que conhecera na Pedra. O problema de Perrin era Faile. Ou talvez fosse Berelain. Ou ambas. Se Rand n�o estivesse t�o ocupado, Perrin teria ido se aconselhar com ele. Rand em geral entendia bem de mulheres, mas tinha coisas que homem nenhum simplesmente sa�a falando por a�.</p><p>Come�ou logo no primeiro dia, e s� estivera em Cairhien por tempo suficiente para ser conduzido a seus aposentos do Pal�cio do Sol. Faile tinha sa�do com Bain e Chiad para explorar, e Perrin estava se lavando, sem camisa, quando sentiu um perfume no ar. N�o era um cheiro forte, mas seu olfato era apurado. Uma voz c�lida atr�s dele comentou:</p><p>� Sempre imaginei que voc� tivesse costas lindas, Perrin.</p><p>Ele se virou t�o depressa que quase bateu no lavat�rio.</p><p>� Ouvi dizer que voc� veio com� uma esposa? � Berelain estava parada diante da porta da sala de estar, sorrindo.</p><p>Sim, tinha mesmo. Uma esposa que n�o ficaria nada satisfeita em encontr�-lo sozinho e sem camisa com qualquer pessoa que usasse vestido, sobretudo a Primeira de Mayene. Enfiando uma camisa de qualquer jeito, tratou de dizer a Berelain que Faile tinha sa�do e que ele n�o sabia quando ela estaria de volta para receber visitas, ent�o escoltou-a at� o corredor o mais r�pido que p�de sem toc�-la nem a jogar para fora. Achou que aquilo encerraria a quest�o. Berelain foi embora, e ele tinha conseguido chamar Faile de esposa em todas as seis frases que dissera, refor�ando, por duas vezes, quanto a amava. Berelain sabia que ele era casado e sabia que ele amava a esposa. Aquilo n�o se repetiria.</p><p>Quando Faile voltou, algum tempo depois, deu dois passos para dentro do quarto e come�ou a exalar odores de ci�mes e raiva, muito pungentes � uma mistura que poderia ter feito o nariz de Perrin sangrar. Ele n�o entendeu o motivo. Ainda podia sentir o perfume de Berelain, mas seu olfato era quase t�o agu�ado quanto o de um lobo, coisa que o de Faile decerto n�o era. Foi tudo muito estranho. Faile sorriu, e nenhuma palavra ind�cil saiu de sua boca. Ela estava amorosa como sempre e at� mais fogosa do que de costume. Chegou a arranhar seus ombros � coisa que jamais fizera.</p><p>Depois, enquanto examinava os cortes sangrentos � luz do lampi�o, ela mordiscou sua orelha e riu.</p><p>� Em Saldaea � murmurou �, fazemos um talho nas orelhas dos cavalos. Mas acho que isso basta para marcar voc�. � Ela ainda exalava aquele cheiro forte de ci�mes e raiva.</p><p>Se tivesse sido s� aquilo, estaria tudo resolvido. O ci�me de Faile podia at� arder feito fogo de forja crepitando ao vento forte, mas sempre morria t�o r�pido quanto se inflamava, bastava que ela percebesse que n�o havia motivo para tanto. Por�m, na manh� seguinte, Perrin a viu conversando com Berelain no corredor, ambas sorrindo como se falassem com uma amiga querida. Conseguiu ouvir a �ltima frase de Berelain, antes que ela virasse as costas.</p><p>� Eu sempre cumpro as minhas promessas. � Era um estranho lembrete, e aquilo fez o cheiro acre e ciumento voltar a emanar de Faile.</p><p>At� perguntou � esposa que promessa era aquela da qual Berelain estava falando, mas talvez aquilo tivesse sido um erro. Faile piscou, surpresa � �s vezes se esquecia de como ele ouvia bem �, e respondeu:</p><p>� Eu realmente n�o me lembro. Ela � o tipo de mulher que faz muitas promessas que n�o � capaz de cumprir.</p><p>Os ombros dele ganharam um <emphasis>segundo</emphasis> conjunto de arranh�es, e n�o estavam nem no meio da manh�!</p><p>Berelain passou a persegui-lo pelo castelo. No come�o aquilo n�o ficava t�o aparente. A mulher at� flertara com ele certa vez, na Pedra de Tear, um flerte sutil e n�o muito incisivo, e ela sabia que Perrin agora era casado. A princ�pio, eram s� alguns encontros acidentais pelos corredores, Perrin tinha certeza, com umas poucas palavras inofensivas trocadas de passagem. Mas, depois de um tempo, teve certeza de que ou a sua energia de <emphasis>ta�veren</emphasis> estava influenciando o acaso ou Berelain estava planejando aqueles encontros, por mais improv�vel que parecesse. Tentou dizer a si mesmo que aquilo era rid�culo, que deveria estar se achando t�o bonit�o quanto Wil al�Seen. Wil era o �nico homem que ele j� vira ser disputado por mulheres, e ningu�m nunca correra atr�s de Perrin Aybara. Ainda assim, aqueles �encontros acidentais� j� estavam frequentes demais.</p><p>E Berelain sempre o tocava. N�o era nenhum toque �bvio e ostensivo, apenas um ro�ar de dedos em sua m�o por um instante ou no bra�o ou no ombro. Mal se notava. No terceiro, Perrin se lembrou de algo que lhe deu calafrios: para domar um cavalo nunca antes montado, era preciso come�ar com toques leves, at� que o animal reconhecesse que n�o seria maltratado e ficasse quieto ao ser tocado. Depois disso vinha o teliz, e ent�o a sela. A r�dea sempre vinha por �ltimo.</p><p>Come�ou a ter pavor do perfume de Berelain sempre que o sentia por perto. Come�ou a dar meia-volta e fugir assim que sentia um leve ind�cio daquele cheiro, s� que n�o podia dedicar todos os momentos preocupado em detectar a presen�a dela. Primeiro porque parecia haver um grande n�mero de jovens cairhienos meio tontos e muito cheios de si entrando e saindo do pal�cio, a maioria mulheres � mulheres com espadas! Sempre contornava qualquer grupo de jovens que se colocavam deliberadamente em seu caminho, mas por duas vezes teve que derrubar algum idiota que ficava dan�ando de um lado a outro diante dele, impedindo sua passagem. At� se sentiu meio mal por aquilo � os cairhienos eram todos muito menores que ele �, mas n�o dava para jogar com a sorte diante de um homem com a m�o no punho da espada. Certa vez, uma mo�a tentou o mesmo, mas fez um escarc�u at� Perrin lhe devolver a espada que tomou sem a menor dificuldade � o que pareceu deix�-la chocada. Ela o seguiu aos berros, gritando que ele n�o tinha honra, at� que algumas Donzelas a levaram, ralhando com ela em um tom bem firme.</p><p>E as pessoas ali do pal�cio sabiam que ele era amigo do Drag�o Renascido. Mesmo se n�o tivesse chegado a Cairhien com aquele port�o de Rand, alguns Aiel e tairenos ainda se lembravam dele da Pedra, e as not�cias correram r�pido. Lordes e ladies que ele nunca vira na vida vinham se apresentar nos corredores, e Gr�o-lordes tairenos que o encaravam com arrog�ncia na Pedra dirigiam-se a ele feito velhos amigos, agora que estavam em Cairhien. A maioria cheirava a medo e mais um odor que ele n�o sabia definir. E reparou que todos pareciam querer a mesma coisa.</p><p>� Receio que o Lorde Drag�o nem sempre me fa�a confid�ncias, milady �respondeu, com toda a educa��o, a uma mulher de olhar frio chamada Colavaere. � E, quando faz, a senhora n�o pode pensar que eu quebraria essa confian�a.</p><p>A mulher tinha um sorrisinho cheio de superioridade e um ar de quem se perguntava se o couro de Perrin serviria como cobertor de colo. Ela exalava um cheiro estranho, ao mesmo tempo duro e suave e, de alguma maneira� cheio de soberba.</p><p>� N�o sei muito bem o que Rand pretende fazer � disse ele a Meilan. O homem ainda tinha o mesmo olhar de superioridade de antes, apesar de ter passado a sorrir quase tanto quanto Colavaere. E exalava o mesmo cheiro, com a mesma intensidade. � Talvez o senhor deva perguntar a ele.</p><p>� Se eu soubesse mesmo disso, n�o sairia espalhando pela cidade � respondeu a Maringil, um sujeito matreiro de cabelos brancos com dentes demais no sorriso. J� estava se cansando de tantas tentativas de descobrir o que ele sabia. Maringil tamb�m exalava o mesmo cheiro, e com a mesma intensidade dos outros dois.</p><p>Nos tr�s, a for�a daquele odor era muito maior do que qualquer outro nobre. Sabia, em seu �ntimo, que era um cheiro t�o perigoso quanto o cume de uma montanha logo antes de uma avalanche.</p><p>Dividido entre se manter atento aos jovens idiotas e aquele cheiro estranho e t�o arriscado, s� conseguiu notar o perfume de Berelain no ar quando ela j� estava perto o suficiente para dar o bote. Bem, a verdade era que a mulher andava pelos corredores com passadas l�nguidas, um cisne nadando em um lago pl�cido, mas ainda assim ele sentia como se levasse um bote.</p><p>Perdeu a conta de quantas vezes mencionou Faile. N�o importava: Berelain parecia n�o ouvir. Pediu que ela parasse com aquilo, mas a mulher perguntou do que ele estava falando. Mandou que ela o deixasse em paz, mas Berelain riu, deu um tapinha em seu rosto e perguntou o que � que ela tinha que parar de fazer. Aquilo, naturalmente, ocorreu no instante exato em que Faile irrompia no cruzamento daquele corredor com outro, no exato instante antes de Perrin se afastar com um pulo. �bvio que Faile acabou com a impress�o de que ele s� se afastara porque a vira. Sem hesitar por nenhum segundo, a mulher deu meia-volta. Ela nem sequer diminuiu ou apressou o passo.</p><p>Perrin correu atr�s da esposa, alcan�ou-a e foi andando a seu lado, envolvido naquele sil�ncio doloroso. Era dif�cil dizer o que precisava ser dito rodeado de toda aquela gente. Faile abriu um sorriso satisfeito que sustentou por todo o trajeto at� o quarto, mas como era �cido e espinhoso o cheiro que exalava. Muito espinhoso.</p><p>� N�o era o que parecia � anunciou, assim que a porta se fechou. Faile n�o disse uma s� palavra, apenas ergueu as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa. � Bom, at� que foi� Berelain me deu um tapinha no rosto� � Ela ainda sorria, mas com as sobrancelhas erguidas de um jeito um tanto mais sombrio, com uma raiva pungente entre aquele cheiro terr�vel. � Mas ela simplesmente bateu� Eu n�o dei nenhuma abertura, Faile. Ela simplesmente� � Queria que ela dissesse alguma coisa, mas a mulher apenas o encarava. Achou que ela estivesse esperando alguma coisa, mas o qu�? Sentiu um lampejo de genialidade e disse: � Faile, me desculpe.</p><p>A raiva ficou cortante como uma navalha.</p><p>� Entendi � declarou ela, e saiu do quarto deslizando em um passo elegante.</p><p>Bem, tinha mesmo trocado os p�s pelas m�os, e ainda se atrapalhara todo no processo, embora n�o conseguisse entender direito no que errara. Tinha pedido desculpas, e nem sequer fizera qualquer coisa pela qual devesse se desculpar.</p><p>Naquela mesma tarde, entreouviu Bain e Chiad debatendo se deveriam ajudar Faile a dar uma surra nele. Que atrevimento! N�o havia como dizer se fora por sugest�o de Faile � ela era mesmo feroz, mas ser� que �quele ponto? Ainda assim, suspeitou de que a dupla quisesse que ele ouvisse a conversa, o que s� o deixou irritado. Estava claro que a esposa andava conversando sobre suas quest�es conjugais com aquelas duas, e eram assuntos que deveriam permanecer entre marido e mulher. Aquilo s� o deixou ainda mais irritado. Sobre que outras partes da vida �ntima dos dois ela conversava durante um chazinho? Aquela noite, ficou olhando, estupefato, quando Faile vestiu uma camisola grossa de l�, a despeito do calor. Quando tentou dar um beijo quase casto em seu rosto, ela resmungou que estava muito cansada e rolou para o lado, ficando de costas. A mulher cheirava a f�ria, um cheiro t�o pungente que parecia empestear o quarto.</p><p>Perrin n�o conseguia dormir com aquele fedor, e, quanto mais tempo continuava ali, deitado ao lado dela, encarando o teto em meio � escurid�o, mais irritado ficava. Por que Faile estava fazendo aquilo? A mulher n�o via que era a �nica que ele amava? Ele j� n�o demonstrara, vezes sem fim, que seu maior desejo era abra��-la para sempre? Era culpa sua uma mulher idiota estar querendo flertar? O que precisava fazer era vir�-la de cabe�a para baixo e espalmar as m�os em seu traseiro at� Faile recobrar o ju�zo. S� que j� testara aquilo, quando Faile achou que tinha o direito de soc�-lo toda vez que quisesse defender seu ponto de vista. A longo prazo, a atitude o ferira muito mais do que a ela. N�o gostava nem de pensar em Faile se machucando. Queria estar em paz com ela � e s� com ela.</p><p>Foi por isso que, ali, deitado, tomou uma decis�o enquanto via as primeiras luzes cinzentas despontando pela janela. J� era o sexto dia em Cairhien. Quando estava na Pedra, soubera de Berelain flertando com v�rios homens. Fosse l� o motivo que a levara a escolh�-lo como presa, a mulher logo escolheria outro, se ele sumisse de vista por um tempo. E, quando Berelain escolhesse outra v�tima, Faile recobraria o bom senso. Parecia simples.</p><p>Portanto, jogou umas roupas no corpo assim que pareceu sensato se levantar e foi encontrar Loial para o caf� da manh�, depois o acompanhou at� a Biblioteca Real. Quando avistou aquela Aes Sedai esguia e ouviu de Loial que a mulher ia l� todos os dias � o Ogier ficava acanhado perto de Aes Sedai, mas n�o se incomodaria de ter vinte � sua volta �, farejou Gaul e foi cham�-lo para ca�ar. N�o havia muitos cervos ou coelhos nas colinas pr�ximas, claro, e os poucos que viram pareciam sofrer tanto com a seca quanto o povo local. Bem, se estivessem mesmo atr�s de carne, o olfato de Perrin poderia lev�-los a tantas presas quanto fosse preciso. N�o chegou a encaixar nenhuma flecha no arco, mas insistiu em ficar por l� at� Gaul come�ar a perguntar se ele estava querendo ca�ar morcegos ao luar. Perrin �s vezes esquecia que os outros n�o conseguiam ver t�o bem � noite quanto ele. No dia seguinte, tamb�m ficou ca�ando at� de noite, assim como em todos os dias que se seguiram.</p><p>O problema foi que aquele plano simples come�ou a desandar. Na primeira noite, quando voltou ao Pal�cio do Sol com o arco no ombro, cansado de tanto caminhar, uma sutil remexida do ar trouxe o perfume de Berelain bem a tempo de impedir que ele entrasse pela porta principal. Gesticulando um pedido mudo de sil�ncio aos guardas Aiel, Perrin fugiu, sorrateiro, at� a porta dos servi�ais, e teve que socar a madeira at� que um sujeito sonolento o deixasse entrar. Na noite seguinte, Berelain aguardava no corredor logo ao lado dos aposentos de Perrin, e ele teve que passar quase metade da noite escondido em um canto, at� ela desistir. Cada noite, a mulher esperava em um ponto diferente, como se fosse for�ar um encontro fortuito quando todos, exceto uns poucos servi�ais, estivessem dormindo. Era loucura, por que ela n�o resolvia perseguir outro? Al�m do mais, quando ele enfim conseguia entrar no quarto, sorrateiro, com as botas nas m�os, Faile estava dormindo com aquela maldita camisola de l� grossa. Muito antes da sexta noite seguida sem dormir, j� tinha admitido que a ideia fora uma burrice, embora ainda n�o conseguisse entender por qu�. Ah, mas parecera t�o f�cil� S� queria uma palavra de Faile, uma dica do que dizer ou fazer, mas ouvia apenas seus pr�prios dentes rangendo na escurid�o.</p><empty-line/><p>No d�cimo dia, Rand recebeu mais um pedido de Coiren para uma audi�ncia. A carta veio no mesmo tom cordial dos tr�s primeiros. Ele ficou um tempo sentado, pensativo, esfregando o espesso pergaminho cor de creme entre o polegar e o indicador. De fato, n�o tinha como dizer exatamente a que dist�ncia estava Alanna, ainda que a sentisse. Bem, comparando a for�a do primeiro dia com a daquele momento, achava que ela estava a meio caminho de Cairhien. Se fosse aquilo mesmo, Merana n�o estava perdendo tempo. O que era bom � queria que ela ficasse mesmo ansiosa. E um pouquinho de remorso tamb�m ajudaria, por�m era mais f�cil desejar a lua � a mulher era Aes Sedai, afinal. Mais dez dias at� que chegassem a Cairhien, se mantivessem o ritmo, e era prov�vel que mantivessem. Tempo suficiente para mais dois encontros com Coiren, de modo que teria concedido tr�s audi�ncias a cada grupo. Que Merana pensasse nisso quando chegasse. Nenhuma vantagem para ela, a Torre Branca do outro lado, e nenhuma necessidade de que ela soubesse que preferia enfiar a m�o em um ninho de vespas do que chegar perto da Torre, ainda mais com Elaida como Amyrlin. Mais dez dias, e comeria as pr�prias botas se dez mais se passassem antes que Merana concordasse em dar a ele o apoio de Salidar, sem nenhuma daquela bobajada de querer liderar ou mostrar o caminho. Ent�o, por fim, poderia voltar toda a aten��o a Sammael.</p><p>Quando se sentou para escrever para Coiren dizendo que ela poderia trazer duas de suas irm�s ao Pal�cio do Sol no dia seguinte de manh�, Lews Therin come�ou a resmungar audivelmente. <emphasis>Sim. Sammael. Dessa vez ele morre. Demandred e Sammael e todos eles, desta vez. Sim, vou mat�-los.</emphasis></p><p>Rand nem percebeu.</p><image l:href="#1"/></section><section><title><p>CAP�TULO 51</p><p><image l:href="#13"/></p><p>A captura</p></title><p>Rand deixou Sulin ajud�-lo com o casaco s� porque para impedi-la teria sido necess�rio arrancar a pe�a das m�os dela. Como de costume, a Aiel tentou enfiar a roupa nele sem a menor considera��o para detalhes m�nimos como, por exemplo o ponto em que de fato ficavam os bra�os. Claro que, com isso, acabaram envolvidos em uma dancinha pelo quarto. Lews Therin tagarelava sem parar, gargalhando com uma alegria insana, alto o bastante para se fazer ouvir. <emphasis>Sammael, ah, sim! Mas Demandred primeiro. Antes de tudo, eu me livro dele. Depois de Sammael. Ah, sim� </emphasis>Se aquela voz tivesse um corpo e m�os, n�o pararia de esfreg�-las, todo satisfeito. Rand o ignorou.</p><p>� Aja com respeito � resmungou Sulin, entre dentes. � Voc� n�o demonstrou o devido respeito �quelas Aes Sedai de Caemlyn e viu o que aconteceu. As S�bias� ouvi as S�bias falarem umas coisas� voc� tem que agir com o devido respeito. Milorde Drag�o � acrescentou, como se s� ent�o tivesse se lembrado.</p><p>Rand conseguiu terminar de botar o casaco, aos trancos.</p><p>� Min j� chegou?</p><p>� Ela por acaso est� aqui? Milorde Drag�o. � Sulin puxou um fio imagin�rio da seda vermelha, ent�o come�ou a fechar os bot�es. Era mais f�cil nem tentar impedi-la. � Min vir� quando vier, se vier. Sorilea vai encerrar a li��o dela nas tendas quando for a hora. � Ela o encarou com um olhar penetrante. � O que � que voc� quer com a menina? Duvido que queira uns belisc�es no traseiro na frente das Aes Sedai. � Ela nem tentou esconder o sorriso. � Milorde Drag�o.</p><p>Foi muito dif�cil n�o fechar a cara. Tudo estava indo t�o bem, mas agora isso� Sorilea sabia que ele precisava de Min mais do que em qualquer audi�ncia que j� acontecera, n�o podiam passar a chance de ela ter alguma vis�o em rela��o a Coiren e duas outras emiss�rias de Elaida. Sorilea prometera que a devolveria a tempo. Rand se afastou outra vez, mas Sulin foi atr�s, ainda fechando os bot�es.</p><p>� Sulin, quero que voc� v� � tenda de Sorilea. Encontre Min e traga ela aqui. Sem perguntas, Sulin. S� obede�a.</p><p>A mulher tentou sorrir e ranger os dentes ao mesmo tempo, em uma cena memor�vel.</p><p>� Como milorde Drag�o ordenar.</p><p>Com uma mesura suave, ela abriu as saias vermelhas e brancas e baixou o rosto quase at� o ch�o.</p><p>� At� quando? � perguntou Rand, quando ela se virou para ir. N�o precisava explicar a pergunta, e a hesita��o de Sulin deixou claro que ela compreendera.</p><p>A Aiel enfim respondeu, com calma e firmeza, sem murm�rios.</p><p>� At� minha vergonha se igualar � delas. � Ela o encarou bem nos olhos e, por um instante, voltou a ser a antiga Sulin, mesmo com os cabelos mais compridos. Mas a m�scara logo voltou. � Se milorde Drag�o me der licen�a, preciso correr para lhe obedecer.</p><p>E ela correu: erguendo as saias at� os joelhos, Sulin saiu em disparada. Rand balan�ou a cabe�a e fechou os �ltimos bot�es sozinho.</p><p>A verdade era que at� se sentia bem. Exceto por Min, claro. Sorilea lhe prometera� Min lhe prometera. Assim que se esquivasse das inevit�veis perguntas de Coiren sobre ir ou n�o para Tar Valon, ele se sentaria com Min e� n�o tinha certeza do que viria depois. Mas Alanna estava cada dia mais perto. Depois de dar alguma aten��o a Coiren, treinaria com a espada por uma hora.</p><p><emphasis>Demandred</emphasis>, rosnou Lews Therin. <emphasis>Ele queria Ilyena!</emphasis> Como de costume, a lembran�a de Ilyena o fez voltar ao choro e �s lam�rias. <emphasis>Ilyena! Ah, Luz, Ilyena!</emphasis></p><p>Rand pegou o Cetro do Drag�o e foi at� a antessala. Ponderando quem Coiren levaria daquela vez, sentou-se na cadeira de espaldar alto sobre o palanque, para n�o ficar andando de l� para c� � e n�o seria por conta das Aes Sedai, mas sim de Min. A mulher sabia quanto Rand precisava dela. Sabia.</p><p>At� que uma das portas se entreabriu para deixar passar uma mulher� era Chiad, n�o Min.</p><p>� As Aes Sedai est�o aqui, <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. � O t�tulo saiu em um tom r�gido, como se ela ainda n�o conseguisse aceitar que um aguacento era o chefe dos chefes ou que ele de fato fosse o filho de uma Donzela.</p><p>Rand assentiu, levantando-se e apoiando a ponta do Cetro do Drag�o no joelho.</p><p>� Mande elas entrarem.</p><p>Teria uma conversa s�ria com Min sobre essa coisa de dedicar todo o tempo �s S�bias.</p><p>Coiren adentrou, deslizando como um cisne roli�o e presun�oso, logo seguida de Galina e outra mulher de olhos duros, cabelos negros feito as penas de um corvo e aquela express�o de Aes Sedai. Estavam todas de cinza, e Rand suspeitou de que a cor tinha sido escolhida para disfar�ar a poeira. Para sua surpresa, mais uma vez servi�ais com sobrecapas leves vieram atr�s das Aes Sedai � quase dez, carregando dois pesados ba�s trabalhados em lat�o, nenhum dos dois pequeno. Algumas das jovens o encaravam, mas a maioria mantinha a cabe�a baixa, talvez por medo, talvez por estarem concentradas no esfor�o da tarefa em quest�o.</p><p>Rand quase fez uma careta, mas conseguiu se conter. Aquelas mulheres achavam mesmo que podiam compr�-lo.</p><p>� Uma pena que sua irm� <emphasis>Verde</emphasis> n�o esteja aqui hoje � comentou Galina.</p><p>Os olhos de Rand se desviaram das servi�ais e se voltaram para ela na hora. As tr�s Aes Sedai o encaravam atentamente. Como poderiam saber a respeito de Alanna?</p><p>Por�m, n�o havia tempo para questionamentos. Quase no mesmo instante, ele sentiu a pele come�ar a se arrepiar.</p><p>Foi tomado pela f�ria, e Lews Therin tamb�m se abalou. Os dois agarraram <emphasis>saidin</emphasis> quase no mesmo instante. Somada ao desprezo, a ira branca e incandescente se revolvia nos limites do Vazio, enquanto ele cravava os olhos em Coiren, Galina e fosse l� quem fosse a terceira. O rosto suave e redondo de Coiren era pura determina��o, e as outras duas chegavam a exibir um sorriso �vido e nem um pouco agrad�vel. Eram t�o idiotas quanto Merana e aquelas outras.</p><p>Uma barreira deslizou entre ele e a Fonte Verdadeira, como o fechamento de uma comporta. O fluxo de <emphasis>saidin</emphasis> desapareceu, deixando apenas o res�duo imundo da m�cula. O choque foi t�o grande que quase n�o sentiu o ar que parecia se solidificar � volta dele, dos p�s � cabe�a. Aquele escudo o deixou de olhos arregalados � era imposs�vel. Tr�s mulheres sozinhas n�o conseguiriam apart�-lo da Fonte depois que ele tomava o controle de <emphasis>saidin</emphasis>, a menos que fossem fortes como Semirhage, Mesaana, ou� tentou tocar a Fonte, esmurrou aquela muralha de pedras invis�vel com mais for�a, mais for�a� Lews Therin rosnava feito uma besta fren�tica, esmurrando, atacando. Um deles tinha que conseguir tocar <emphasis>saidin</emphasis>; derrubar aquela barreira erguida por apenas tr�s.</p><p>O bloqueio s� estava erguido havia poucos instantes quando uma das servi�ais deu um passo � frente, parando ao lado de Galina, e Rand sentiu o rosto empalidecer. Quatro pares de olhos o encaravam em quatro rostos de idade indefinida.</p><p>� � mesmo uma pena que tenhamos chegado a este ponto. � Coiren falava em um tom sereno e claro, mais parecendo se dirigir a um grupo do que a um s� homem. � Queria muito que voc� viesse a Tar Valon por vontade pr�pria, mas ficou �bvio que sua �nica inten��o era protelar at� desistirmos. Bem, imagino que voc� tenha entrado em contato com aquelas pobres coitadas que fugiram depois que Sanche foi estancada. Achava mesmo que elas poderiam lhe oferecer alguma coisa melhor do que conseguiria com a Torre Branca? � A mulher de fato parecia decepcionada com ele.</p><p>Rand s� conseguia mexer os olhos. Encarou as servi�ais ocupadas com um dos ba�s que jazia aberto. As mulheres tiraram uma bandeja rasa de l� de dentro. Alguns daqueles rostos pareciam jovens, mas outros� eram todas Aes Sedai, tinha certeza. As cinco mais mo�as ainda n�o tinham o rosto de idade indefinida. Eram as cinco que haviam olhado para ele, diminuindo suas suspeitas, enquanto o restante permanecera de rosto escondido. Quinze Aes Sedai: treze para se unirem e tecerem um escudo que homem nenhum poderia quebrar, e duas para at�-lo. Treze para� Lews Therin fugiu aos berros.</p><p>Galina arrancou o Cetro do Drag�o da m�o de Rand, balan�ando a cabe�a.</p><p>� Agora eu assumo, Coiren. � Ela nem o olhou. Rand poderia muito bem ser uma parte da cadeira. � Segundo o acordo, caso cheg�ssemos a este ponto, a Ajah Vermelha assumiria o comando. � Ent�o mandou, entregando o Cetro do Drag�o � outra mulher de cabelos negros e de roupa cinza: � Ponha isto em algum lugar, Katerine. Pode ser um bom suvenir para a Amyrlin.</p><p>A Ajah Vermelha. Rand sentia o suor brotar de seu rosto. Se ao menos as Donzelas l� fora entrassem. Ou as S�bias, Sulin� qualquer pessoa que pudesse gritar por ajuda, despertar o Pal�cio. Treze Aes Sedai, e a Ajah Vermelha no comando. Se pudesse abrir a boca, teria gritado.</p><empty-line/><p>Quando as portas se abriram, Bain ficou surpresa. Rand al�Thor acabara de receber as Aes Sedai. Mas seu olhar automaticamente se desviou ao ver as servi�ais carregando os ba�s para fora. Uma Aes Sedai de cabelos negros plantou-se diante dela, e Bain tratou de se levantar. Mal sabia o que pensar da hist�ria que as outras Donzelas tinham contado em Caemlyn, coisas das quais apenas os chefes e as S�bias tinham conhecimento, mas os olhos negros daquela mulher pareciam saber tudo sobre o fracasso dos Aiel, tanto tempo antes. Aqueles olhos se fixaram nos de Bain at� que ela tomasse apenas vaga ci�ncia da outra Aes Sedai de cabelos negros que confrontava Chiad, e da outra, cheia de pompa, que conduzia as mulheres com os ba�s para longe. Bain se perguntou se a Aes Sedai que a encarava pretendia mat�-la pelo fracasso dos Aiel. Bem, elas decerto j� teriam come�ado a matan�a, se fosse essa a inten��o, j� que decerto sabiam de tudo. Ainda assim, aqueles olhos escuros cintilavam com uma dureza que trazia o press�gio claro da morte. Bain n�o tinha medo de morrer, s� queria tempo para se velar antes.</p><p>� Parece que o jovem Mestre al�Thor est� acostumado a ir e vir de Cairhien a hora que bem entende � comentou a Aes Sedai, a voz dura como pedra. � N�o estamos acostumadas a ter algu�m virando as costas para n�s de maneira t�o rude. Se ele voltar ao Pal�cio nos pr�ximos dias, ent�o tamb�m voltaremos. Sen�o� nossa paci�ncia n�o � infinita.</p><p>Ela foi embora, desfilando ao lado da outra, indo atr�s das mulheres com os ba�s.</p><p>Bain e Chiad trocaram olhares apressados e correram at� os aposentos de Rand al�Thor.</p><empty-line/><p>� Como assim, ele sumiu? � inquiriu Perrin.</p><p>As orelhas de Loial tremelicaram na dire��o dele, mas o Ogier manteve o olhar fixo no tabuleiro de pedras, assim como Faile. Ela cheirava� Perrin n�o conseguia distinguir nada no amontoado de aromas que vinha dela � aquela combina��o de odores o deixava desesperado.</p><p>Nandera simplesmente deu de ombros.</p><p>� Ele faz isso �s vezes. � Parecia bastante calma, os bra�os cruzados e o rosto impass�vel, mas cheirava a irrita��o, aquele fedor que remetia a pequenos espinhos. � Ele foge das Donzelas e �s vezes passa o dia todo fora. E acha que a gente n�o sabe. Pensei que voc� pudesse saber aonde ele foi. � Algo em sua voz dava a entender que, se ela descobrisse o paradeiro de Rand, pretendia ir atr�s.</p><p>� N�o � respondeu, com um suspiro. � N�o fa�o ideia.</p><p>� Preste aten��o no jogo, Loial � resmungou Faile. � Claro que voc� n�o pretendia p�r uma pedra a�.</p><p>Perrin suspirou outra vez. Tinha decidido passar o tempo inteiro ao lado de Faile. Cedo ou tarde a mulher teria que falar com ele, e Berelain decerto o deixaria quieto se ele estivesse com a esposa. Bem, ao menos Berelain o deixara em paz. Assim que Faile percebeu que ele n�o sairia para ca�ar, la�ou Loial antes que o Ogier pudesse correr para a Biblioteca, e os dois estavam engatando uma partida de jogo de pedras atr�s da outra. E praticamente sem falar. Perrin queria estar onde quer que Rand estivesse.</p><empty-line/><p>Deitado de costas na cama, Rand encarava as grossas vigas do por�o, mas n�o olhava para elas de fato. A cama n�o era grande, mas os dois colch�es com travesseiros de penas de ganso e os bons len��is de linho proporcionavam conforto. No quarto tamb�m havia uma cadeira robusta e uma mesa pequena e simples, por�m muito bem-feita. Ainda sentia dor nos m�sculos por conta do transporte at� ali dentro de um dos ba�s. Com o Poder, foi f�cil dobrar seu corpo, enfiando a cabe�a entre os joelhos, e cordas simples bastaram para transform�-lo em um embrulho.</p><p>O som de metal contra metal o fez virar a cabe�a. Galina usara uma grande chave para destrancar uma portinhola na jaula de ferro que circundava a cama, a mesa e a cadeira. Uma mulher grisalha de rosto enrugado estendeu os bra�os jaula adentro apenas o suficiente para botar uma bandeja coberta por um pano na mesa, ent�o se afastou quase com um salto.</p><p>� Pretendo levar voc� at� a Torre com a sa�de razo�vel � declarou Galina, com frieza, enquanto trancava a portinhola. � Coma, ou ser� for�ado a comer.</p><p>Rand voltou a encarar as vigas. Seis Aes Sedai estavam sentadas em cadeiras ao redor da jaula, sustentando a blindagem. Manteve o Vazio, para caso as mulheres vacilassem, mas n�o investiu contra a barreira. Quando elas o empurraram, tr�pego, para dentro da jaula, ele tentou derrubar aquele muro invis�vel. Algumas riram, ao menos as que perceberam. Em vez disso, decidiu avan�ar com cautela em dire��o � f�ria de <emphasis>saidin</emphasis>, uma tempestade de fogo e gelo logo fora de seu campo de vis�o. Alcan�ou-a, sentiu a muralha invis�vel que o apartava da Fonte, deslizou ao longo dela como se tentasse encontrar uma aresta. O que encontrou foi um local onde a muralha parecia se dividir em seis pontos � serviam para barr�-lo t�o bem quanto a parede, mas eram seis, n�o um, e definitivamente eram pontos distintos.</p><p>Fazia quanto tempo que estava ali? Uma desola��o se abatera sobre ele, embotando a passagem do tempo, mergulhando-o em um estado de letargia. Estava ali havia tempo suficiente para sentir fome, mas o Vazio deixava a sensa��o distante, e nem mesmo o cheiro de cozido quente e p�o fresco vindo da bandeja suscitava algum interesse. Levantar-se requeria esfor�o demais. At� ent�o, doze Aes Sedai se revezavam ao redor da jaula, nenhuma com um rosto que ele conhecera antes de chegar naquele por�o. Quantas estariam naquela casa? Isso talvez fosse importante mais tarde. Onde ficava aquela casa, afinal? N�o fazia ideia da dist�ncia que percorrera dentro do ba�, sacolejando em alguma carruagem ou carro��o. Por que se esquecera do conselho de Moiraine? N�o podia confiar em nenhuma Aes Sedai, nem um pouquinho, nem por um instante. Seis Aes Sedai usando o poder para sustentar aquela blindagem deveria ser detect�vel para qualquer mulher capaz de canalizar que estivesse l� fora. S� precisava que Amys, Bair ou alguma outra passasse na rua e desconfiasse. Elas deviam estar achando que ele desaparecera logo que Coiren deixou o pal�cio. Bem, isso se houvesse uma rua l� fora. S� precisava�</p><p>Tateou outra vez a blindagem, bem lentamente, para que elas n�o percebessem. Seis pontos. Seis pontos que poderiam ser descritos como <emphasis>macios</emphasis>. Aquilo s� podia significar alguma coisa. Desejou que Lews Therin voltasse a falar, mas o �nico som em sua cabe�a eram seus pr�prios pensamentos vagando pelo Vazio. Seis pontos.</p><empty-line/><p>Avan�ando depressa pela rua que passava junto � grande casa de pedra onde estavam as Aes Sedai, Sorilea mal sentia que as mulheres ainda canalizavam l� dentro. Sentia pouco porque s� podia canalizar bem pouco, mas n�o foi por isso que ignorou o que se passava ali. Aquelas mulheres estavam canalizando dia e noite desde que haviam chegado, e mais nenhuma das S�bias continuava perdendo tempo se perguntando o porqu�. Sorilea decerto tinha quest�es mais importantes em que pensar. No pal�cio do Assassino da �rvore, as Donzelas j� come�avam a ficar irritadas com Rand al�Thor, resmungando que o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> teria que dar algumas explica��es quando voltasse. Sorilea j� vivera um bom tempo a mais que qualquer uma daquelas Donzelas, um bom tempo a mais que qualquer S�bia, fosse fraca no Poder ou n�o, e estava apreensiva. Como quase todo homem, Rand al�Thor sa�a e voltava quando queria, indo sempre para onde queria � nesse aspecto, os homens eram como os gatos �, mas desta vez ele sumira ao mesmo tempo que Min desaparecera, em algum ponto do caminho entre as tendas e o Pal�cio. Sorilea n�o gostava de coincid�ncias, n�o importava quanto elas fossem frequentes quando o assunto era o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Apertando o xale contra o corpo para amenizar aquele s�bito frio na espinha, rumou depressa de volta para as tendas.</p></section><section><title><p>CAP�TULO 52</p><p><image l:href="#21"/></p><p>Tessituras do poder</p></title><p>Os homens sentados em torno da mesa do sal�o da estalagem A Mulher Errante eram, em sua maioria, locais. Os que trajavam o colete comprido t�pico da regi�o ostentavam a pe�a em seda brilhante, em geral brocada, sobre camisas claras com mangas largas. Pedras preciosas ou p�rolas adornavam os an�is, os brincos de argola eram de ouro, n�o apenas folheados, e pedras-da-lua e safiras cintilavam nos pomos das facas curvas enfiadas nos cintur�es. V�rios deles estavam com os coletes de seda jogados por sobre os ombros, com uma corrente de prata ou ouro presa entre as estreitas lapelas bordadas com flores ou animais. Os casacos pareciam realmente estranhos � eram pequenos demais para serem vestidos, sem nenhuma outra finalidade que n�o a de uma capa �, mas seus portadores carregavam espadas finas e compridas, bem como a adaga curva, e pareciam estar muito dispostos a usar qualquer uma das duas, fosse por ouvir um desaforo, receber um olhar atravessado ou por simplesmente sentirem vontade.</p><p>Ou seja, era um p�blico bem variado. Dois mercadores murandianos com bigodes enrolados e aquelas barbichas rid�culas na ponta do queixo, um doman�s de bigode fino e cabelo abaixo dos ombros que usava um bracelete de ouro, um colar tamb�m de ouro bem justo e uma p�rola bem grande na orelha esquerda. Um Atha�an Miere de pele escura com um casaco verde brilhoso, as m�os tatuadas e duas facas presas por uma faixa vermelha, um taraboniano com um v�u transparente cobrindo o bigode grosso que quase lhe escondia a boca, al�m de v�rios forasteiros que poderiam ser de qualquer lugar. Mas todos tinham � sua frente uma pilha de moedas, ainda que de variados tamanhos. T�o perto do Pal�cio Tarasin, A Mulher Errante atra�a clientes com ouro para gastar.</p><p>Mat girou os cinco dados no copo de couro e os lan�ou sobre a mesa. Quando pararam, havia duas coroas, duas estrelas e uma ta�a. Um bom lan�amento, nada mais que isso. Sua sorte vinha em ondas, e, �quela altura, a mar� parecia baixa, o que significava que ele havia ganhado n�o mais que metade dos lances. At� aquele momento, Mat conseguira perder dez seguidas, sequ�ncia incomum para ele em qualquer situa��o. Os dados passaram para um forasteiro de olhos azuis, um homem de rosto duro e fino que parecia ter moedas de sobra para jogar, apesar do casaco marrom bem simples.</p><p>Vanin se curvou para cochichar no ouvido de Mat:</p><p>� Sa�ram de novo. Thom diz que ainda n�o sabe como. � Mat olhou para o homem gorducho com uma cara t�o feia que o fez se endireitar mais r�pido do que seria de se esperar de algu�m do seu tamanho.</p><p>Mat engoliu metade do ponche de mel�o da sua ta�a de prata e franziu o cenho para a mesa. De novo! O lan�amento do homem de olhos azuis rolou por toda a mesa e os dados pararam mostrando tr�s coroas, uma rosa e uma barra. Os homens ao redor da mesa sussurraram uns para os outros quando ele ganhou.</p><p>� Sangue e cinzas � resmungou Mat. � S� falta a Filha das Nove Luas entrar aqui e me pegar. � O sujeito de olhos azuis se engasgou com a bebida. � Voc� reconhece esse nome? � perguntou Mat.</p><p>� Meu ponche desceu pelo lugar errado � respondeu o homem com um sotaque discreto e arrastado que Mat n�o reconheceu. � Que nome voc� disse?</p><p>Mat fez um gesto para que o homem deixasse o assunto para l�. J� vira brigas come�arem por muito menos. Arrastando o ouro e a prata de volta para dentro da bolsa, enfiou-a no bolso do casaco ao se levantar.</p><p>� Para mim j� chega. Que a Luz aben�oe a todos aqui. � A mesa inteira repetiu a b�n��o, inclusive os forasteiros. As pessoas eram bastante educadas em Ebou Dar.</p><p>Mesmo que ainda n�o estivesse nem no meio da manh�, o sal�o estava relativamente cheio, e uma nova partida de dados contribuiu com sua cota de gargalhadas e lam�rias. Dois dos filhos mais novos da Senhora Anan estavam ajudando as atendentes a servir o caf� da manh� dos que haviam levantado tarde. A pr�pria estalajadeira se encontrava sentada nos fundos do aposento, perto da escada de pedra branca sem corrim�o, de olho em tudo, ao lado de uma bela jovem em cujos grandes olhos negros se via um cintilar de alegria, como se ela conhecesse uma piada que ningu�m mais conhecia. Seu rosto tinha um formato oval perfeito, emoldurado pelo cabelo preto brilhoso, e a gola cavada do vestido cinza com cinto vermelho proporcionava uma vis�o tentadora. O divertimento em seus olhos se intensificou quando ela sorriu para Mat.</p><p>� Com a sorte que voc� tem, Lorde Cauthon � disse a Senhora Anan �, meu marido deveria lhe perguntar para onde mandar os barcos de pesca dele. � Por algum motivo, seu tom de voz foi bastante seco.</p><p>Mat aceitou o t�tulo sem pestanejar. Em Ebou Dar, poucos que n�o fossem lordes desafiariam um outro lorde. Para ele, era um simples c�lculo de riscos. Havia bem menos lordes que plebeus, o que significava menos chances de que algu�m fosse tentar lhe enfiar uma faca. Ainda assim, Mat tivera que rachar tr�s cabe�as nos �ltimos dez dias.</p><p>� Receio que minha sorte n�o se estenda a esse tipo de coisa, senhora.</p><p>Olver pareceu surgir do nada ao lado dele.</p><p>� Podemos ir para a corrida de cavalos, Mat? � quis saber ele, impaciente.</p><p>Frielle, a filha do meio da Senhora Anan, chegou correndo e pegou o garoto pelos ombros.</p><p>� Me perdoe, Lorde Cauthon � desculpou-se, ansiosa. � Ele escapou de mim agora mesmo. Juro pela Luz, ele escapou. � Prestes a se casar, com a gargantilha de prata bem justa para a faca de casamento j� envolvendo o pesco�o esbelto, ela se oferecera para cuidar de Olver, rindo ao dizer que queria ter seis filhos homens. Mat suspeitava de que a garota estivesse come�ando a torcer para s� ter filhas.</p><p>Foi Nalesean, descendo a escada, que atraiu o olhar de Mat, contundente o bastante para deixar o taireno paralisado. Era Nalesean quem havia inscrito Vento em duas corridas, e botado Olver para cavalgar � ali, eram os garotos que cavalgavam �, e sem Mat saber de nada at� tudo j� estar feito. Que Vento tivesse se provado t�o r�pido quanto seu nome n�o ajudava em nada. Duas vit�rias ati�aram o paladar de Olver para outras mais.</p><p>� N�o � culpa sua, senhorita � disse Mat para Frielle. � Pode enfi�-lo num barril se precisar. Tem a minha b�n��o.</p><p>Olver lhe dirigiu um olhar acusat�rio, mas, logo depois, virou-se de repente para Frielle para lhe abrir um sorriso insolente que havia aprendido em algum lugar. Com suas orelhonas e aquela boca grande, pareceu estranho. Ele jamais se tornaria um rapaz bonito.</p><p>� Vou ficar sentado bem quietinho se puder ficar olhando para esses seus olhos. Eles s�o lindos.</p><p>Frielle tinha muito da m�e, e n�o s� na apar�ncia. Ela riu com do�ura e lhe fez um carinho debaixo do queixo, deixando-o enrubescido. Sua m�e e a jovem de olhos grandes sorriram diante da cena.</p><p>Balan�ando a cabe�a, Mat come�ou a subir a escada. Precisava ter uma conversa com o garoto. Ele n�o podia sorrir daquele jeito para todas as mulheres que visse. E ainda dizer para uma mulher que ela tinha olhos bonitos! Com aquela idade! Mat n�o sabia de onde Olver tirara aquilo.</p><p>Quando se p�s lado a lado com Nalesean, o homem disse:</p><p>� Escaparam de novo, n�o �. � N�o foi uma pergunta, e, quando Mat assentiu, ele deu um pux�o na barba pontuda e soltou um palavr�o. � Vou reunir os homens, Mat.</p><p>Nerim estava irrequieto no quarto de Mat, esfregando a mesa com um pano como se as criadas j� n�o a tivessem limpado naquela manh�. Ele dividia com Olver um quarto menor bem ao lado e raramente sa�a da estalagem. Segundo ele, Ebou Dar era libertina e pouco civilizada.</p><p>� Milorde vai sair? � indagou Nerim num tom l�gubre quando Mat apanhou seu chap�u. � Com esse casaco? Receio que haja uma mancha de vinho de ontem � noite no ombro. Eu a teria removido se Milorde n�o tivesse se vestido com tanta pressa hoje de manh�, e tamb�m tem um rasgo na manga, feito por uma faca, acredito, que eu teria remendado.</p><p>Mat permitiu que o homem trouxesse um casaco cinza com volutas prateadas bordadas nos punhos e na gola alta e entregou a ele o verde bordado em ouro.</p><p>� Espero que milorde pelo menos tente n�o o sujar de sangue hoje. Manchas de sangue s�o muito dif�ceis de remover.</p><p>Os dois haviam chegado a um acordo. Mat aguentava o semblante sombrio e as observa��es melanc�licas de Nerim, al�m de deixar o homem apanhar, limpar e lhe entregar objetos que ele pr�prio poderia pegar facilmente, e, em troca, Nerim concordara, com relut�ncia, em n�o tentar vesti-lo.</p><p>Mat verificou as facas acomodadas em suas mangas, debaixo do casaco e nas abas viradas para baixo das botas, deixou a lan�a encostada em um canto, junto com o arco sem corda, e desceu para a frente da estalagem. Aquela lan�a parecia atrair idiotas a fim de briga tanto quanto o mel atra�a moscas.</p><p>Apesar do chap�u, o suor formou got�culas em seu rosto t�o logo ele saiu da sombra e do relativo frescor da estalagem. O sol daquela manh� equivalia ao do meio-dia de dias normais em pleno ver�o, mas a Pra�a Mol Hara estava apinhada de gente. De in�cio, Mat s� ficou ali de p�, o cenho franzido para o Pal�cio Tarasin. Com Thom e Juilin vigiando l� dentro e Vanin do lado de fora, como elas estavam conseguindo sair sem ser vistas? Vinham saindo quase todos os dias. Depois da terceira vez, Mat designara homens para ficar de olho em cada porta de sa�da daquela montanha abobadada de pedra branca e gesso, e eles assumiam seus postos antes do amanhecer. Com mais Nalesean e ele, estavam em quantidade suficiente. Ningu�m avistara um vest�gio sequer, mas, pouco antes do meio-dia, Thom veio dizer que as mulheres tinham dado um jeito de escapulir. O velho menestrel dava a impress�o de ter perdido a paci�ncia e parecia prestes a arrancar os cabelos do bigode. Mat sabia muito bem o que estava acontecendo. Elas vinham fazendo aquilo s� por despeito, para atazanar o ju�zo dele.</p><p>Nalesean e os demais estavam aguardando, formando um grupo de homens suados e desanimados. Nalesean corria os dedos pelo punho da espada como se torcesse para ter uma oportunidade de us�-la.</p><p>� Hoje vamos dar uma olhada no outro lado do rio � afirmou Mat. V�rios Bra�os Vermelhos se entreolharam desconfortavelmente. J� tinham ouvido as hist�rias.</p><p>Vanin balan�ou a cabe�a, inquieto.</p><p>� � uma perda de tempo � disse ele, sem rodeios. � Lady Elayne jamais iria se meter num lugar desses. A Aiel talvez, ou Birgitte, mas n�o Lady Elayne.</p><p>Mat fechou os olhos por um instante. Como Elayne fora capaz de arruinar um homem t�o bom em t�o pouco tempo? Ele continuava torcendo para que um tempo longe da influ�ncia negativa dela endireitasse Vanin, mas estava come�ando a perder as esperan�as. Luz, como ele detestava as mulheres nobres.</p><p>� Bem, se n�o as virmos por l� hoje, podemos esquecer o Rahad, j� que, naquele lugar, elas v�o chamar a aten��o feito cotovias coloridas em meio a uma revoada de melros, mas minha inten��o � encontr�-las mesmo que estejam escondidas debaixo de uma cama no Po�o da Perdi��o. Procurem em duplas, como de costume, e protejam uns aos outros. Agora vamos tratar de encontrar barqueiros que nos atravessem at� l�. Que me queime, eu s� espero que n�o estejam todos vendendo frutas para os navios do Povo do Mar.</p><empty-line/><p>Para Elayne, a rua parecia como em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, constru��es de alvenaria de cinco e seis andares cobertas de maneira desigual por gesso branco, erguendo-se coladas uma � outra por sobre um cal�amento irregular. S� �quela hora do dia, com o sol dourado ardendo acima da cabe�a, era que as sombras desapareciam por completo daquelas vielas estreitas. Moscas zumbiam por toda parte. As �nicas diferen�as em rela��o ao Mundo dos Sonhos eram as roupas lavadas dependuradas nas janelas, as pessoas � n�o havia muitas pela rua naquele hor�rio, claro � e o cheiro, um miasma pungente e podre que a obrigava a tentar n�o respirar muito fundo. Infelizmente, todas as ruas pareciam iguais no Rahad.</p><p>Ela p�s uma das m�os no bra�o de Birgitte para det�-la e divisou um escabroso amontoado de tijolos com roupas lavadas encardidas balan�ando em metade das janelas. A fraca lam�ria de um beb� chorando ecoava de algum lugar ali dentro. O n�mero de andares era correto: seis. Ela tinha certeza de que eram seis. Nynaeve insistia em cinco.</p><p>� Acho que n�o dever�amos ficar aqui olhando � opinou Birgitte com delicadeza. � As pessoas est�o atentas.</p><p>N�o era bem verdade, apenas Birgitte preocupando-se com ela. Homens sem camisa com coletes em geral esfarrapados andavam pomposos pela rua, a luz do sol refletindo nos brincos de argola de lat�o e nos an�is tamb�m de lat�o com vidros coloridos incrustados, ou se esgueiravam feito vira-latas que tanto poderiam rosnar quanto morder. As mulheres tamb�m, ali�s, com seus vestidos costumeiramente desgastados e suas pr�prias joias de lat�o e vidro. Todos carregavam uma faca curva presa ao cinto e, com frequ�ncia, uma faca simples de trabalho tamb�m.</p><p>Na verdade, ningu�m olhava duas vezes para ela ou para Birgitte, embora o semblante do rosto envelhecido de Birgitte costumasse ser desafiador e ela pr�pria fosse alta para uma eboudariana. Suas apar�ncias tinham sido transformadas por tessituras n�o t�o simples de Ar e Fogo que Elayne invertera e amarrara. Quando olhava para Birgitte, o que ela via era uma mulher com rugas sutis nos cantos dos olhos negros e um cabelo preto com toques de grisalho. Os disfarces eram mais f�ceis quando se mantinham parecidos com os tra�os originais, de forma que o cabelo que descia pelas costas de Birgitte, amarrado em quatro pontos com uma fita verde maltrapilha, era consideravelmente mais comprido que o cabelo das eboudarianas, mas, em todo caso, Elayne tamb�m n�o havia cortado o seu cabelo e ningu�m parecia ligar. Era um disfarce perfeito. Ela s� gostaria que tamb�m n�o precisasse suar. Al�m dessa havia a bem mais complexa tessitura de Esp�rito que mascarava a habilidade de uma mulher de canalizar, e gra�as � qual Elayne tinha passado sem problemas por Merilille ao sair do pal�cio naquela manh�. Ela ainda estava usando-a, j� que elas haviam avistado Vandene e Adeleas mais de uma vez naquele lado do rio.</p><p>As vestimentas n�o faziam parte das tessituras, claro, e eram vestidos de l� surrados com bordados pu�dos nas mangas e em volta dos decotes profundos. As an�guas e meias tamb�m eram de l�, e as de Elayne, pelo menos, pinicavam. Tylin fornecera a indument�ria, al�m de v�rios pequenos conselhos e das facas de casamento com bainhas brancas. Parecia que mulheres casadas tinham menos probabilidade de ser desafiadas do que as solteiras, e vi�vas que rejeitaram outro casamento, menos ainda. A idade tamb�m ajudava. Ningu�m desafiava uma av� de cabelos grisalhos, embora mulheres mais velhas pudessem muito bem desafiar algu�m.</p><p>� Acho que dever�amos entrar � afirmou Elayne, e Birgitte se colocou � frente dela, uma das m�os na faca que trazia no cinto pouco elegante de l� marrom, para empurrar e abrir a porta sem pintura. L� dentro havia um corredor � meia-luz com uma sucess�o de portas r�sticas e, nos fundos, uma escadinha apertada e �ngreme de tijolo lascado. Elayne chegou bem perto de soltar um suspiro de al�vio.</p><p>Com ou sem bainhas brancas, entrar em um edif�cio onde n�o se morava era uma boa maneira de acabar se metendo em uma briga de facas. Assim como fazer perguntas ou se mostrar curiosa demais. Tylin dera conselhos a respeito disso, mas, no primeiro dia, elas haviam visitado estalagens, identificadas apenas pelas portas azuis, planejando dizer que estavam querendo comprar objetos de antigos armaz�ns para reformar e vender. Ela formara uma dupla com Birgitte e juntara Nynaeve com Aviendha para que pudessem cobrir uma �rea maior. Os sal�es eram escuros e sujos e, nas duas estalagens onde pararam, Birgitte sa�ra com ela �s pressas, ambas com as adagas em punho, antes de uma confus�o mais s�ria acontecer. Na segunda, Elayne precisou canalizar rapidamente para derrubar duas mulheres que foram at� a rua atr�s delas, e, ainda assim, Birgitte estivera convencida de que algu�m passara o resto do dia seguindo-as. Nynaeve e Aviendha enfrentaram o mesmo tipo de dificuldade, tirando a parte de serem seguidas. Nynaeve chegara at� a bater numa mulher com um banquinho. Assim, mesmo as perguntas mais in�cuas pararam de ser feitas, e elas torciam para que, ao cruzar uma porta, n�o dessem de cara com uma faca.</p><p>Birgitte subiu os degraus �ngremes � sua frente, apesar de n�o parar de olhar por cima do ombro, atenta � retaguarda. Os cheiros de comida sendo feita e a fedentina t�pica do Rahad formavam uma mistura repugnante. O beb� parou de chorar, mas, em algum ponto do edif�cio, uma mulher come�ou a gritar. No terceiro andar, um homem de ombros largos sem camisa nem colete abriu uma porta no exato instante em que elas subiam. Birgitte fez cara feia e ele levantou as duas m�os, as palmas voltadas para elas, e saiu do corredor, fechando a porta com um chute. No �ltimo andar, onde deveria ficar o armaz�m caso aquele fosse o edif�cio correto, uma mulher sombria trajando uma camisola �spera de linho estava sentada em um banco junto da porta, onde pegava toda e qualquer brisa que soprasse enquanto afiava sua adaga. A cabe�a da mulher se virou na dire��o delas, e a l�mina parou de percorrer a pedra de amolar. Ela n�o tirou o olho das duas quando elas recuaram devagar e desceram os degraus, o som do metal raspando na pedra s� recome�ando quando elas chegaram ao p� do lance de escadas. Foi s� a� que Elayne deixou escapar um suspiro de al�vio.</p><p>Ela ficou mais do que feliz por Nynaeve n�o ter topado a aposta. Dez dias. Seu otimismo fora uma tolice. Estavam no d�cimo primeiro dia desde que ela contara com o ovo dentro da galinha, cantando vit�rias que ainda n�o tinha alcan�ado, onze dias em que, �s vezes, sentia como se � noite estivesse na mesma rua onde j� haviam procurado de manh�, onze dias sem nenhuma pista da tigela. Por vezes, elas haviam permanecido no pal�cio s� para esfriar a cabe�a. Aquela busca era muito frustrante. Pelo menos, Vandene e Adeleas tampouco vinham tendo sorte. At� onde Elayne tinha visto, ningu�m no Rahad diria nem duas palavras de bom grado para Aes Sedai. As pessoas sumiam assim que percebiam o que elas eram. Elayne j� tinha visto duas mulheres tentarem esfaquear Adeleas, sem d�vida para roubar a tola que andava pelo Rahad com um vestido de seda, e no momento em que a irm� Marrom levantou ambas com fluxos de Ar e as atravessou por uma janela dois andares acima, j� n�o se via mais vivalma na rua. Bem, ela n�o iria permitir que aquelas duas encontrassem a sua tigela e a tomassem de debaixo do seu nariz.</p><p>Assim que voltou � rua, Elayne teve mais um lembrete de que havia coisas piores no Rahad do que a frustra��o. Bem � sua frente, um homem esbelto com o peito todo sujo de sangue e uma faca na m�o saltou por uma porta e girou imediatamente para enfrentar outro homem que o seguia, esse segundo mais alto, mais pesado e com a lateral do rosto sangrando. Os dois se rodearam, os olhos cravados um no outro, as l�minas estendidas brilhando enquanto os homens ensaiavam estocadas. Como se brotasse do ch�o, uma pequena multid�o se reuniu para assistir. Nenhuma pessoa veio correndo, mas ningu�m ignorou a cena.</p><p>Elayne e Birgitte se afastaram para a lateral da rua, mas n�o foram embora. No Rahad, sair chamaria a aten��o, a �ltima coisa que elas queriam. Misturar-se significava ficar assistindo, mas Elayne deu um jeito de manter a concentra��o al�m dos dois homens, enxergando-os como meros borr�es se movendo depressa, at� que, de repente, os movimentos ficaram lentos. Ela piscou e se for�ou a olhar. O homem com o peito sujo de sangue pavoneava-se, sorrindo e gesticulando com uma l�mina da qual escorria o mesmo l�quido vermelho. O homem mais corpulento estava deitado de cara no ch�o, tossindo de forma �spera e debilitada, a menos de vinte passadas dela.</p><p>Instintivamente, Elayne se aproximou � sua �nfima habilidade com a Cura era melhor que nada quando um homem estava sangrando at� a morte, e que o que qualquer um ali pensasse das Aes Sedai fosse parar no Po�o da Perdi��o �, mas, antes que desse um segundo passo, uma outra mulher j� se punha ajoelhada ao lado do homem. Talvez um pouco mais velha que Nynaeve, usava um vestido azul com cinto vermelho num estado de conserva��o um tanto melhor que o da maioria dos vestidos do Rahad. De in�cio, Elayne achou que ela fosse a amada do homem agonizante, em especial quando o vencedor do duelo retomou a sobriedade. Ningu�m movia um m�sculo para ir embora, todos observando em sil�ncio enquanto a mulher virava o homem de barriga para cima.</p><p>Elayne tomou um susto quando, em vez de enxugar com ternura o sangue dos l�bios dele, a mulher tirou da bolsa o que pareceu ser um punhado de ervas e enfiou algumas delas �s pressas na boca do homem. Antes que sua m�o se afastasse do rosto dele, o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> a envolveu e ela come�ou a tecer fluxos de Cura com mais destreza do que Elayne poderia ter feito. O homem arquejou com intensidade suficiente para expelir a maior parte das folhas, estremeceu� e permaneceu deitado, os olhos entreabertos fitando o sol.</p><p>� Tarde demais, ao que parece. � A mulher se levantou e encarou o sujeito esguio. � Voc� tem que ir contar para a esposa de Masic que matou o marido dela, Baris.</p><p>� Sim, Asra � respondeu Baris, submisso.</p><p>Asra se virou sem voltar a olhar para nenhum dos dois homens e a pequena multid�o foi se abrindo diante dela. Quando ela passou perto de Elayne e Birgitte, Elayne notou dois detalhes a respeito da mulher. O primeiro foi sua for�a, que Elayne avaliou de prop�sito. Esperava sentir uma for�a consider�vel, mas o prov�vel era que jamais se permitisse que Asra fizesse o teste para Aceita. A Cura devia ser seu Talento mais forte � talvez o �nico, j� que ela devia ser uma bravia �, e muito bem lapidado com o uso. Talvez at� acreditasse que aquelas ervas eram necess�rias. A segunda coisa que Elayne percebeu foi o rosto da mulher. N�o era bronzeado, como ela supunha de in�cio. Era quase certo que Asra fosse domanesa. O que, sob a Luz, uma bravia domanesa estava fazendo no Rahad?</p><p>Elayne poderia ter seguido a mulher, n�o fosse o fato de Birgitte t�-la puxado para a dire��o oposta.</p><p>� Eu reconhe�o essa express�o no seu olhar, Elayne. � Os olhos de Birgitte sondaram a rua como se ela presumisse que algum transeunte estivesse ouvindo as duas �s escondidas. � N�o sei por que voc� quer ir atr�s daquela mulher, mas ela parece ser respeitada. Abord�-la pode nos trazer mais l�minas do que eu e voc� juntas damos conta.</p><p>Era a pura verdade, assim como o fato de que bravias domanesas n�o eram o que ela tinha ido procurar em Ebou Dar.</p><p>Tocando no bra�o de Birgitte, ela meneou a cabe�a para dois homens que viravam a esquina logo � frente. Com seu casaco azul com listras de cetim, Nalesean tinha toda a pinta de um lorde taireno. A indument�ria acolchoada o cobria at� o pesco�o, e seu rosto suado reluzia quase tanto quanto a barba oleosa. Encarava qualquer pessoa que lhe desse qualquer olhadela com uma express�o que, �quela altura, com certeza j� teria arranjado briga, exceto por estar acariciando o punho da espada como se aceitasse uma de bom grado. Mat, por outro lado, n�o fazia nenhuma careta. Pavoneava-se ao lado dele e, n�o fosse por um ar de descontentamento, poderia at� estar se divertindo. Com o casaco desabotoado, o chap�u puxado para baixo e aquele cachecol enrolado no pesco�o, parecia ter passado a noite de taverna em taverna, o que podia muito bem ser o caso. Para a sua surpresa, Elayne percebeu que passara v�rios dias sem pensar nele. Suas m�os co�avam para analisar aquele <emphasis>ter�angreal</emphasis> dele, mas a tigela era infinitamente mais importante.</p><p>� Eu nunca tinha pensado nisso � murmurou Birgitte �, mas acho que Mat � o mais perigoso daqueles dois. Um N�Shar em Mameris. Fico me perguntando o que eles est�o fazendo neste lado do Eldar.</p><p>Elayne ficou olhando para ela. Um o qu�, onde?</p><p>� Provavelmente j� beberam todo o vinho do outro lado. � s�rio, Birgitte, eu gostaria muito que voc� se concentrasse no que viemos fazer. � Desta vez, ela <emphasis>n�o</emphasis> iria pedir uma explica��o sobre os termos estranhos.</p><p>Quando Mat e Nalesean passaram por elas, Elayne tratou de esquec�-los no mesmo instante e come�ou a examinar a rua. Seria maravilhoso encontrar a tigela logo naquele dia. Em especial porque ela formaria dupla com Aviendha na vez seguinte em que sa�ssem. Elayne estava come�ando a gostar da mulher, apesar de suas ideias <emphasis>extremamente</emphasis> peculiares a respeito de Rand e delas, mas ela de fato tinha uma tend�ncia a encorajar mulheres que pareciam prontas para sacar uma faca. Aviendha chegava a parecer desapontada pelos homens baixarem o olhar quando ela os encarava, em vez de sacarem uma l�mina como as mulheres fariam!</p><p>� Aquele ali � disse Elayne, apontando. Nynaeve estava enganada sobre a constru��o ter cinco andares. Ou ser� que n�o? Elayne torcia muito para que Egwene tivesse encontrado uma solu��o.</p><empty-line/><p>Egwene esperava pacientemente enquanto Logain bebia um pouco mais de �gua. A tenda dele n�o era t�o espa�osa quanto haviam sido os alojamentos em Salidar, mas ainda era maior que a maioria das demais no acampamento. Tinha de haver espa�o para as seis irm�s, sentadas em banquinhos, blindando-o noite e dia. A sugest�o de Egwene para que a blindagem fosse amarrada fora encarada com algo pr�ximo ao choque e n�o muito distante do desd�m. Nenhuma das irm�s estava disposta a acatar a sugest�o, em particular naquele momento, t�o pouco tempo depois de ela ter elevado quatro mulheres a Aes Sedai sem fazerem o teste ou proferirem os votos com o Bast�o dos Juramentos, e talvez nunca. Siuan dissera que elas n�o iriam. O costume mandava que fossem seis, embora, caso ele estivesse t�o enfraquecido quanto Siuan e Leane, quaisquer tr�s irm�s no acampamento certamente poderiam ter dado conta de prend�-lo, e o costume dizia que a blindagem em um homem devia ser mantida por mulheres canalizando, e n�o amarrada. Uma �nica lamparina provia uma ilumina��o fraca. Ela e Logain estavam sentados em len��is dispostos como se fossem tapetes.</p><p>� Deixe-me entender � disse Logain ao baixar o copo de estanho. � Voc� quer saber o que <emphasis>eu</emphasis> acho da anistia de al�Thor? � Algumas irm�s se agitaram em seus banquinhos, talvez por ele n�o a ter chamado de �M�e�, embora mais provavelmente por ficarem incomodadas com aquele assunto.</p><p>� Quero saber o que voc� pensa, sim. Voc� com certeza deve ter uma opini�o. Se estivesse em Caemlyn ao lado dele, � muito prov�vel que voc� j� tivesse recebido um lugar de honra. Aqui, voc� pode ser amansado a qualquer momento. Outra coisa, voc� diz que conseguiu evitar a loucura por seis anos. Qual � a chance, na sua opini�o, de que quaisquer homens que forem at� ele possam fazer o mesmo?</p><p>� Elas realmente pretendem me amansar de novo? � Sua voz estava calma, mas o tom de voz era ferido e raivoso. � Eu me coloquei inteiramente do lado de voc�s e fiz tudo o que me pediram. Me ofereci para prestar qualquer juramento que voc�s mandassem.</p><p>� O Sal�o vai decidir em breve. Algumas prefeririam que, convenientemente, voc� morresse. Se as Aes Sedai recontarem a sua hist�ria� Bem, todos sabem que as Aes Sedai n�o podem mentir. Mas eu n�o acredito que voc� precise ficar com medo disso. Voc� nos serviu bem demais para eu permitir que lhe fa�am mal. E, aconte�a o que acontecer, voc� ainda pode servir e ver a Ajah Vermelha ser punida, como deseja.</p><p>Logain se p�s de joelhos, rosnando de modo amea�ador, mas Egwene abra�ou <emphasis>saidar</emphasis> e, em um piscar de olhos, envolveu-o com seguran�a em fluxos de Ar. As irm�s que mantinham a blindagem estavam com toda a sua for�a voltada s� para isso � outro costume, segundo o qual se devia usar toda a for�a dispon�vel para manter um homem blindado �, mas v�rias eram capazes de dividir suas tessituras e, caso elas achassem que Logain fosse machuc�-la, uma delas poderia ter desviado uma parte para ele. Mas Egwene n�o queria correr o risco de que o ferissem.</p><p>Os fluxos o mantiveram ali de joelhos, mas ele parecia ignor�-los.</p><p>� Voc�s querem saber o que eu penso sobre a anistia de al�Thor? Eu queria estar com ele agora! Que queimem todas voc�s! Eu fiz tudo o que voc�s pediram! Que a Luz queime todas voc�s!</p><p>� Fique calmo, Mestre Logain. � Egwene se surpreendeu por sua voz ter sa�do com tanta sobriedade. O cora��o estava acelerado, embora n�o por medo dele, claro. � Uma coisa eu juro: nunca vou machuc�-lo e, caso esteja ao meu alcance, n�o vou permitir que qualquer pessoa que me siga lhe fa�a mal, a n�o ser que voc� se volte contra n�s. � A f�ria desaparecera do seu rosto, substitu�da por firmeza. Ser� que ele estava ouvindo? � Mas o Sal�o vai fazer o que decidir. Est� calmo agora? � Logain assentiu de modo cansado, e Egwene soltou os fluxos. Ele tornou a afundar no ch�o, sem olhar para ela. � Vou conversar com voc� sobre a anistia quando voc� estiver mais calmo. Talvez amanh� ou depois. � Logain voltou a fazer que sim com a cabe�a, seco e ainda sem encar�-la.</p><p>Quando ela se abaixou e saiu da tenda, os dois Guardi�es que montavam guarda do lado de fora fizeram uma rever�ncia. Ao menos os Gaidin n�o se importavam por ela ter dezoito anos, uma Aceita elevada a Aes Sedai s� por ter sido elevada a Amyrlin. Para os Guardi�es, uma Aes Sedai era uma Aes Sedai, e a Amyrlin era a Amyrlin. Ainda assim, ela s� se permitiu soltar a respira��o quando j� estava longe o bastante para que os dois n�o escutassem.</p><p>O acampamento era bem grande, tendas para centenas de Aes Sedai espalhadas pela floresta, para Aceitas, novi�as e servi�ais, carro�as, carro��es e cavalos por toda parte. O cheiro de comida da refei��o noturna estava forte no ar. Ao redor, estendiam-se as fogueiras do ex�rcito de Gareth Bryne, e a maior parte dos homens estava dormindo no ch�o, n�o em tendas. O Bando da M�o Vermelha encontrava-se acampado a n�o mais que dez milhas ao sul. Por mais de duzentas milhas, Talmanes n�o havia permitido que essa dist�ncia variasse mais que cerca de uma milha para qualquer dire��o, de dia ou de noite. Eles continuavam a desempenhar seu papel no plano de Egwene, conforme sugerido por Siuan e Leane.</p><p>As for�as de Gareth Bryne haviam crescido nos dezesseis dias desde a partida de Salidar. Dois ex�rcitos marchando devagar rumo ao norte pelo meio de Altara, claramente hostis um ao outro, chamavam aten��o. Nobres e suas tropas se adiantavam para se aliarem ao mais forte entre os dois. � verdade que nenhum daqueles lordes e ladies teria feito os juramentos que fez se soubesse que n�o haveria nenhuma grande batalha em suas terras. � verdade que, se pudessem escolher, todos teriam dado no p� assim que perceberam que o alvo de Egwene era Tar Valon, n�o um ex�rcito de Devotos do Drag�o. Mas eles haviam feito os juramentos, ao menos para <emphasis>uma</emphasis> Amyrlin, perante Aes Sedai que se intitulavam o Sal�o da Torre, com centenas de outras pessoas assistindo. Quebrar esse tipo de voto acabaria trazendo s�rias consequ�ncias. Al�m disso, mesmo que a cabe�a de Egwene terminasse enfiada numa estaca na Torre Branca, nenhum deles acreditava que Elaida esqueceria o pacto que eles tinham feito. Apesar de se verem presos a uma alian�a e a uma fidelidade que n�o tinham pretendido jurar, estariam entre os seus partid�rios mais fervorosos. A �nica sa�da que tinham dessa situa��o dif�cil era ver Egwene usando a estola em Tar Valon.</p><p>Siuan e Leane estavam bastante decididas quanto �quilo. Egwene n�o tinha certeza de como se sentia. Se tivesse havido algum jeito de remover Elaida sem derramar uma �nica gota de sangue, ela teria aceitado na hora. No entanto, achava que n�o havia.</p><p>Ap�s um pequeno jantar com carne de cabra, nabo e algo que ela n�o investigou muito de perto para ver o que era, Egwene se retirou para a sua tenda. N�o era a maior do acampamento, mas com certeza a maior ocupada por uma �nica pessoa. Chesa estava l� esperando para ajud�-la a se despir, radiante por ter adquirido da criada de uma lady altarana um peda�o do melhor linho que se poderia imaginar, um material transl�cido que renderia camisolas frescas. Egwene costumava deixar Chesa dormir na tenda com ela para lhe fazer companhia, ainda que uma pilha de len��is n�o chegasse aos p�s da cama dobr�vel da criada. Naquela noite, Egwene mandou a mulher sair assim que ficou pronta para ir para a cama. Ser a Amyrlin implicava em ter alguns privil�gios. Tais como uma tenda exclusiva para a sua criada ou poder dormir sozinha em noites em que isso era necess�rio.</p><p>Ela ainda n�o estava suficientemente cansada para ir dormir, o que n�o era problema. Conseguir pegar no sono era uma miss�o simples para quem fora treinada por Andarilhas dos Sonhos Aiel. Egwene adentrou <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>�</p><p>� e se viu de p� no aposento que fora seu gabinete na Pequena Torre durante um per�odo bem curto. A mesa e as cadeiras permaneciam l�, claro. Mob�lia n�o era algo que se levasse quando se viajava com um ex�rcito. Qualquer lugar parecia vazio no Mundo dos Sonhos, mas a impress�o era ainda mais forte nos lugares de fato desabitados. A Pequena Torre j� parecia� oca.</p><p>De repente, Egwene percebeu que a estola da Amyrlin estava sobre seus ombros. Ela a fez desaparecer bem a tempo. No instante seguinte, Nynaeve e Elayne estavam l�, Nynaeve t�o s�lida quanto ela, Elayne, enevoada. Siuan se mostrara relutante em abrir m�o do anel <emphasis>ter�angreal</emphasis> original, e uma ordem firme de Egwene havia sido necess�ria para faz�-la obedecer. Elayne trajava um vestido verde com rendas que se derramavam sobre as suas m�os e delineavam um decote estreito, ainda que assustadoramente cavado, que revelava uma faquinha que pendia de uma gargantilha de ouro bem justa, o punho aninhado entre seus seios compondo uma massa de p�rolas e gotas de fogo. Aonde quer que fosse, Elayne sempre parecia aderir imediatamente � moda local. Nynaeve, como esperado, usava uma l� pesada de Dois Rios, escura e simples.</p><p>� J� encontraram? � indagou Egwene, esperan�osa.</p><p>� Ainda n�o, mas vamos encontrar. � Elayne pareceu t�o otimista que Egwene quase ficou desconcertada. Era claro seu esfor�o para soar daquele jeito.</p><p>� Estou certa de que n�o vai demorar muito � garantiu Nynaeve, soando ainda mais positiva.</p><p>As duas deviam estar empacadas. Egwene suspirou.</p><p>� Talvez voc�s devessem se juntar a mim de novo. Tenho certeza de que voc�s poderiam encontrar a tigela daqui a mais alguns dias, mas fico preocupada com todas aquelas hist�rias. � Elas eram capazes de se cuidar. Egwene sabia disso, e seriam �timas palavras para se gravar nos t�mulos das duas. Siuan disse que <emphasis>nenhuma</emphasis> das hist�rias que elas haviam contado era exagerada.</p><p>� Ah, n�o, Egwene � protestou Nynaeve. � A tigela � importante demais. Voc� sabe que �. Se n�o encontrarmos, as consequ�ncias ser�o terr�veis.</p><p>� Al�m disso � acrescentou Elayne �, em que tipo de confus�o podemos nos meter? Passamos todas as noites no Pal�cio Tarasin, caso voc� tenha se esquecido, e Tylin pode at� n�o nos dar um beijo de boa-noite, mas chega perto disso. � O vestido dela estava diferente. O corte permanecia inalterado, mas o material ficara �spero e desgastado. Nynaeve trajava quase uma c�pia dele, exceto por sua faca n�o conter mais do que nove ou dez contas de vidro no punho. N�o pareciam roupas para pal�cio nenhum. Pior, ela estava tentando parecer inocente. Nynaeve n�o tinha nenhuma pr�tica naquilo.</p><p>Egwene deixou passar. A tigela <emphasis>era</emphasis> importante, as duas <emphasis>eram </emphasis>perfeitamente capazes de cuidar de si mesmas, e ela sabia muito bem que as amigas n�o estavam procurando no Pal�cio Tarasin. Ela quase deixou passar, na verdade.</p><p>� Voc�s est�o usando Mat, n�o est�o?</p><p>� N�s� � De repente, Elayne reparou no vestido e se assustou. Por algum motivo, por�m, pareceu que foi a faquinha que realmente a assustou. Com os olhos se esbugalhando, ela apertou o punho, um monte de contas de vidro vermelhas e brancas bem grandes, e seu rosto se ruborizou por completo. No instante seguinte, j� trajava um vestido andoriano de gola alta de seda verde.</p><p>O engra�ado foi Nynaeve ter percebido o que estava usando s� um piscar de olhos depois de Elayne e ter reagido exatamente da mesma maneira. Igualzinho. A exce��o talvez tenha sido que, se Elayne ficou da cor de um p�r do sol, Nynaeve ficou da cor de dois. Antes at� de Elayne ter se trocado, ela j� estava de novo com suas l�s de Dois Rios.</p><p>Elayne pigarreou e, com a voz ofegante, disse:</p><p>� Mat � bastante �til, eu tenho certeza, mas n�o podemos deixar que ele nos atrapalhe, Egwene. Voc� sabe como ele �. Mas voc� pode ter certeza de que, se formos fazer algo perigoso, estaremos com ele e todos os soldados dele um do lado do outro ao nosso redor. � Nynaeve se manteve em sil�ncio e com uma cara azeda. Talvez estivesse se lembrando das amea�as de Mat.</p><p>� Nynaeve, voc� n�o vai pegar muito pesado com Mat, vai?</p><p>Elayne gargalhou.</p><p>� Ela n�o est� nem falando com ele, Egwene.</p><p>� � a pura verdade � tratou de acrescentar Nynaeve. � Eu n�o discuti com ele nenhuma vez desde que chegamos a Ebou Dar.</p><p>Em d�vida, Egwene assentiu com a cabe�a. Ela poderia resolver aquela quest�o, mas seria preciso� Deu uma olhadinha para baixo para se certificar de que a estola n�o havia reaparecido e s� a viu surgir e sumir t�o r�pido que nem ela teria sido capaz de reconhec�-la.</p><p>� Egwene � disse Elayne �, voc� j� conseguiu falar com as Andarilhas dos Sonhos?</p><p>� � � acrescentou Nynaeve. � Elas sabem qual � o problema?</p><p>� J� falei � suspirou Egwene. � N�o sabem, n�o.</p><p>Tinha sido uma reuni�o estranha, apenas alguns dias antes, cujo in�cio se dera quando Egwene achou os sonhos de Bair. Melaine e Bair foram encontr�-la na Pedra de Tear. Amys dissera que n�o a ensinaria mais, e, portanto, n�o foi. No come�o, Egwene se sentiu pouco � vontade. N�o conseguia reunir for�as para contar para aquelas mulheres que era Aes Sedai, e menos ainda a Amyrlin, por medo de que elas fossem pensar que se tratava de mais uma mentira. Com certeza n�o precisara se preocupar com a estola aparecer de repente. E tamb�m havia a <emphasis>toh</emphasis> dela em rela��o a Melaine. Egwene tocou no assunto, pensando o tempo todo em quantas milhas teria que passar em cima de uma sela no dia seguinte, mas Melaine estava t�o satisfeita porque teria filhas � a mulher contou, felic�ssima, sobre a vis�o de Min � que n�o s� foi logo anunciando que Egwene n�o tinha nenhuma <emphasis>toh</emphasis> em rela��o a ela, como disse que daria a uma das filhas o nome de Egwene. Aquele fora um pequeno momento de prazer numa noite cheia de perda de tempo e irrita��o.</p><p>� O que elas disseram � prosseguiu ela � foi que nunca tinham ouvido falar de ningu�m tentando encontrar de novo uma coisa por necessidade depois de j� t�-la encontrado. Bair achou que talvez fosse parecido com tentar comer a mesma� ma�� duas vezes. � A mesma <emphasis>motai</emphasis>, fora a express�o que Bair tinha usado. Uma <emphasis>motai</emphasis> era uma esp�cie de larva encontrada no Deserto. Bem doce e crocante, at� Egwene descobrir o que estava comendo.</p><p>� Voc� est� dizendo que n�s <emphasis>n�o podemos</emphasis> encontrar um jeito de voltar para o armaz�m? � suspirou Elayne. � Eu estava torcendo para que estiv�ssemos fazendo alguma coisa errada. Ah, pois bem. N�s vamos encontrar mesmo assim. � Elayne hesitou, e seu vestido tornou a mudar, embora ela n�o tivesse percebido. Ainda era andoriano, mas vermelho, com os Le�es Brancos de Andor subindo pelas mangas e por todo o corpete. Um vestido de rainha, mesmo sem a Coroa de Rosas repousando em seus cachos louros levemente avermelhados. Mas era um vestido de rainha com corpete bem justo que talvez tivesse um decote maior do que uma rainha andoriana usaria. � Elas falaram alguma coisa sobre Rand, Egwene?</p><p>� Ele est� em Cairhien, refestelando-se l� pelo Pal�cio do Sol, pelo que entendi. � Egwene conseguiu n�o se encolher toda. Nem Bair nem Melaine haviam revelado muito, mas Melaine chegara a resmungar alguma coisa sobre Aes Sedai enquanto Bair dizia que todas elas mereciam uma boa surra e que, independentemente do que Sorilea dissesse, uma surra comum devia adiantar. Egwene tinha muito medo de que Merana, de alguma forma, tivesse metido os p�s pelas m�os. Pelo menos ele estava se esquivando das emiss�rias de Elaida. Ela n�o achava nem de longe que ele soubesse lidar t�o bem com elas quanto achava que sabia. � Perrin est� com ele. E a esposa de Perrin! Ele se casou com Faile! � Aquilo gerou exclama��es. Nynaeve disse que Faile era boa demais para ele, mas o coment�rio foi acompanhado de um largo sorriso. Elayne falou que torcia para que os dois fossem felizes, mas, por algum motivo, soou como quem duvidava daquilo. � Loial tamb�m est� l�. E Min. S� falta Mat e n�s tr�s.</p><p>Elayne mordiscou o l�bio inferior.</p><p>� Egwene, voc� daria� um recado para Min pelas S�bias? Diga a ela� � Ela hesitou, mordiscando o l�bio enquanto pensava. � Diga a Min que eu tor�o para que ela venha a gostar de Aviendha tanto quanto gosta de mim. Eu sei que parece estranho. � Ela riu. � � um assunto particular nosso. � Nynaeve olhou para Elayne de um jeito t�o esquisito quanto a pr�pria Egwene devia estar olhando.</p><p>� Dou, sim, claro. Mas n�o pretendo falar com elas de novo por um bom tempo. � N�o havia muita raz�o para tal quando elas se mostravam t�o relutantes em compartilhar informa��es sobre Rand. E t�o hostis em rela��o �s Aes Sedai.</p><p>� Ah, tudo bem � disse Elayne depressa. � N�o � t�o importante assim. Bem, se n�o podemos apelar para a necessidade, vamos ter que apelar para a mobilidade, e, em Ebou Dar, os meus p�s est�o doendo neste exato momento. Se voc�s n�o se importam, vou voltar para o meu corpo e dormir de verdade um pouco.</p><p>� Pode ir � disse Nynaeve. � Vou ficar s� mais um pouco. � Quando Elayne desapareceu, ela se virou para Egwene. Seu vestido tamb�m mudou, e Egwene achou que sabia muito bem por qu�. Virou um azul delicado, decotado. Havia flores no cabelo, e fitas por toda a tran�a, como haveria caso ela se casasse em Dois Rios. O cora��o de Egwene ficou apertado por ela. � Voc� ouviu alguma coisa sobre Lan? � perguntou Nynaeve calmamente.</p><p>� N�o, Nynaeve, n�o ouvi. Eu lamento muito. Gostaria de poder lhe dizer mais que isso. Sei que ele ainda est� vivo, Nynaeve. E sei que ele ama voc� tanto quanto voc� o ama.</p><p>� Claro que ele est� vivo � rebateu Nynaeve com firmeza. � N�o vou permitir nada diferente disso. Quero que ele seja meu. Ele � meu, e eu n�o vou deixar que o matem.</p><p>Quando Egwene acordou, Siuan estava sentada ao lado da cama dobr�vel, pouco vis�vel na escurid�o.</p><p>� J�? � perguntou Egwene.</p><p>O brilho envolveu Siuan � medida que ela teceu um pequeno selo de prote��o contra bisbilhotagem em torno das duas.</p><p>� Das seis irm�s em servi�o a partir da meia-noite, s� tr�s t�m Guardi�es, e esses Gaidin v�o montar guarda do lado de fora. Algu�m vai trazer ch� de menta para elas, com um pequeno ingrediente a mais cujo gosto elas n�o devem sentir.</p><p>Egwene fechou os olhos por um instante.</p><p>� Eu estou agindo certo?</p><p>� Voc� pergunta para <emphasis>mim</emphasis>? � Siuan se engasgou. � Eu fiz o que mandou, M�e. No que dependesse de mim, eu preferiria pular no meio de um cardume de l�cios famintos do que ajudar aquele homem a escapar.</p><p>� Elas v�o amans�-lo, Siuan. � Egwene debatera esse assunto com ela, mas precisava repassar tudo de novo sozinha para convencer a si mesma de que n�o estava cometendo um erro. � Nem mesmo Sheriam d� mais ouvidos a Carlinya, e Lelaine e Romanda est�o pressionando. Ou � isso ou algu�m vai realmente fazer o que Delana tem insinuado. Eu n�o vou permitir assassinatos! Se n�o pudermos julgar um homem e execut�-lo, n�o temos o direito de <emphasis>dar um jeitinho</emphasis> de fazer com que ele morra �acidentalmente�. Eu n�o vou deixar que o assassinem, e n�o posso permitir que ele seja amansado. Se Merana realmente deixou Rand irritado por algum motivo, isso vai jogar ainda mais lenha na fogueira. Eu s� gostaria de ter certeza de que ele vai atr�s de Rand para se juntar a ele, em vez de fugir para sabe l� a Luz onde, para fazer sabe l� a Luz o qu�. Assim, pelo menos, poderia haver algum jeito de controlar o que ele faz. � Ela escutou Siuan se mexendo na escurid�o.</p><p>� Eu sempre pensei que a estola pesasse mais ou menos o mesmo que tr�s homens de bom tamanho � ponderou Siuan, tranquila. � A Amyrlin tem poucas decis�es f�ceis para tomar, e mais raras ainda s�o as decis�es das quais est� completamente certa. Fa�a o que deve e, se errar, assuma as consequ�ncias. �s vezes, � preciso enfrentar consequ�ncias mesmo quando se acerta.</p><p>Egwene riu baixinho.</p><p>� Tenho a impress�o de j� ter ouvido isso antes. � Depois de um tempinho, sua alegria se dissipou. � N�o deixe ele machucar ningu�m durante a fuga, Siuan.</p><p>� Como ordenar, M�e.</p><empty-line/><p>� Isso � terr�vel � resmungou Nisao. � Se ficarem sabendo, a condena��o vai ser suficiente para mand�-la para o ex�lio, Myrelle. E eu vou junto. Quatrocentos anos atr�s, poderia at� ter sido corriqueiro, mas ningu�m vai pensar isso nos dias de hoje. Alguns v�o dizer que � um crime.</p><p>Myrelle ficou contente pela lua j� estar baixa. Isso escondia sua careta. Ela era capaz de manejar a Cura sozinha, mas Nisao vinha estudando como tratar enfermidades da mente, algo que o Poder n�o podia tocar. Myrelle n�o estava muito convencida de que aquilo contava como uma enfermidade, mas tentaria qualquer ferramenta que pudesse dar certo. Nisao podia estar reclamando, mas Myrelle sabia que a outra preferiria cortar a pr�pria m�o a deixar passar aquela chance de aprofundar seus estudos.</p><p>Ela conseguia senti-lo l� fora na noite, aproximando-se. Estavam bem longe das tendas, bem al�m dos soldados, s� com �rvores esparsas rodeando-as. Sentira-o desde o momento em que seu elo passou para ela, o crime que tanto preocupava Nisao. Um elo com um Guardi�o passado de uma Aes Sedai para outra sem o consentimento dele. Nisao tinha raz�o em um ponto: teriam que guardar aquele segredo pelo m�ximo de tempo poss�vel. Myrelle conseguia sentir os ferimentos dele, alguns quase curados, outros recentes. Alguns gravemente infectados. Ele n�o teria procurado brigas. Ele tinha que vir atr�s dela, t�o certo quanto um pedregulho empurrado do alto de uma montanha tinha que rolar at� a base. Mas ele tamb�m n�o teria nem tentado fugir de uma batalha. Ela sentira a jornada dele � dist�ncia e no sangue. O sangue dele. Por toda Cairhien e Andor, Murandy e, �quela altura, Altara, por terras infestadas de rebeldes e canalhas, bandidos e Devotos do Drag�o, concentrado nela feito uma flecha voando em dire��o ao alvo, abrindo caminho pelo meio de quaisquer homens armados que se interpusessem em seu trajeto. Nem ele conseguiria fazer aquilo sem se ferir. Em sua mente, ela foi somando todas as les�es dele e se admirou por ele ainda estar vivo.</p><p>Primeiro, ela ouviu o ru�do das patas de um cavalo, uma cad�ncia regular, e s� ent�o foi capaz de divisar na noite o imenso cavalo de guerra negro. O cavaleiro tamb�m parecia ser a pr�pria noite. S� podia estar trajando seu manto. O cavalo parou a uma boa dist�ncia, a umas cinquenta passadas dela.</p><p>� Voc� n�o deveria ter mandado Nuhel e Croi irem me encontrar � afirmou o cavaleiro indistinto com uma voz r�spida. � Eu quase matei os dois antes de ver quem eram. Avar, j� pode sair de tr�s da �rvore. � Mais � direita, a noite pareceu se mover. Avar tamb�m usava seu manto e n�o esperaria ter sido visto.</p><p>� Isto � uma loucura � murmurou Nisao.</p><p>� Fique quieta � murmurou Myrelle. Falando mais alto, ela intimou: � Venha at� mim. � O cavalo n�o se moveu. Um c�o de ca�a de luto por sua senhora morta n�o iria at� uma nova senhora com tanta boa vontade. Com delicadeza, ela teceu Esp�rito e tocou a parte dele que continha o elo com ela. Tinha de ser com delicadeza, ou ele ficaria sabendo, e s� o Criador sabia que tipo de explos�o poderia resultar daquilo. � Venha at� mim.</p><p>Dessa vez, o cavalo se aproximou e o homem girou e desceu para, a passos largos, percorrer as �ltimas passadas; um homem alto, as sombras do luar fazendo com que seu rosto anguloso desse a impress�o de ter sido entalhado em pedra. Ali estava ele diante dela, olhando-a de cima, e, ao fitar os olhos frios de Lan Mandragoran, ela viu a morte. Que a Luz a ajudasse. Como ela conseguiria mant�-lo vivo por tempo suficiente?</p></section><section><title><p>CAP�TULO 53</p><p><image l:href="#4"/></p><p>O Festival das Luzes</p></title><p>Perrin j� estava ficando irritado com o povo dan�ando nas ruas de Cairhien, t�o cheias que era quase imposs�vel abrir caminho pela multid�o. Uma fileira de pessoas passou por ele, serpenteando atr�s de um sujeito narigudo e sem camisa tocando flauta. A �ltima da fila era uma mulherzinha redonda e saltitante, gargalhando feliz, que soltou uma das m�os agarrada � cintura do homem � sua frente e tentou puxar Perrin para a fileira. Ele balan�ou a cabe�a em negativa, e ou os olhos amarelos assustaram a mulher ou seu mau humor era vis�vel, pois ela engoliu o sorriso e seguiu adiante, sem parar de olh�-lo por cima do ombro at� sumir na multid�o. Uma mulher grisalha e ainda vistosa, ostentando listras coloridas at� a cintura no vestido de seda escura, agarrou o pesco�o de Perrin com os bra�os esguios e foi com a boca �vida em dire��o � dele. Acabou levando um susto quando Perrin a agarrou com toda a delicadeza por debaixo dos bra�os e a tirou do caminho. Um grupo de homens e mulheres mais ou menos da sua idade que andava cabriolando ao som de tambores trombou com ele, rindo alegremente e puxando seu casaco. Eles ignoraram o balan�ar negativo da cabe�a, at� que Perrin empurrou um dos homens para longe com for�a e soltou um rosnado para os outros. Por um instante, o riso deu lugar a olhares embasbacados, mas o grupo logo voltou a berrar, tentando imitar o rosnado, antes de sair galhofando pela multid�o.</p><p>Era o primeiro dia do Festival das Luzes, o dia mais curto e o �ltimo do ano, e a cidade celebrava de formas que Perrin jamais teria imaginado. Claro que o povo de Dois Rios gostava de dan�ar durante os festejos, mas aquilo era�! Os cairhienos pareciam determinados a compensar o ano inteiro de reserva e seriedade naqueles dois dias de festa. O decoro fora posto de lado, assim como todas as barreiras entre nobres e plebeus, ao menos publicamente. Mulheres transpirando sob a l� �spera e simples agarravam homens suados em roupas de seda escura com listras coloridas, puxando-os para a dan�a; homens usando casacos de condutor e coletes de cavalari�o rodopiavam mulheres cujos vestidos exibiam listras coloridas �s vezes at� a cintura. Homens de torso desnudo derrubavam vinho no pr�prio corpo e em quem mais estivesse por perto. Ao que parecia, qualquer homem podia beijar qualquer mulher, e qualquer mulher podia beijar qualquer homem. E, em cada canto onde Perrin olhava, todos pareciam fazer exatamente aquilo. Tentava n�o ficar olhando muito tempo para uma s� cena. Algumas das nobres que usavam os cabelos em torres de cachos elaboradas estavam nuas at� a cintura, usando apenas capas leves, que faziam pouco esfor�o para manter fechadas. Entre os plebeus, poucas mulheres que tinham tirado as blusas se davam ao trabalho de usar qualquer cobertura al�m dos pr�prios cabelos, que eram quase sempre curtos demais para dar conta do recado � elas tamb�m jogavam vinho por cima do corpo, ali�s, e espalhavam bebidas em todos por perto, no mesmo descontrole dos homens. Gargalhadas sonoras disputavam espa�o com mil notas musicais diferentes, vindas de flautas, tambores, cornetas, c�taras, sabiolas e salt�rios.</p><p>O C�rculo das Mulheres de Campo de Emond teria tido um ataque com aquilo, e o Conselho da Aldeia tamb�m teria ficado sem palavras, mas aquela deprava��o era s� mais um detalhe para se somar � irrita��o de Perrin. Quando Nandera foi procur�-lo, disse que Rand provavelmente sumiria por umas poucas horas, mas j� tinham se passado seis dias desde seu desaparecimento. E ou Min tinha ido com ele ou estava com os Aiel, s� que ningu�m parecia saber de nada. Fora aquela tal de Sorilea, as S�bias eram t�o evasivas quanto as Aes Sedai � isso quando Perrin conseguia botar alguma contra a parede. Sorilea mandou, sem rodeios, que cuidasse da pr�pria esposa e mantivesse o bedelho fora de assuntos que n�o diziam respeito aos aguacentos. Perrin n�o fazia ideia de como Sorilea sabia do problema entre ele e Faile, mas n�o queria nem saber. Sentia o pux�o de Rand feito uma comich�o por sob toda a pele, e estava mais forte a cada dia. Estava voltando da escola, onde fora em uma �ltima tentativa de encontr�-lo, mas todos por l� estavam ocupados com bebedeiras, dan�a e devassid�o, feito o restante de Cairhien. Uma mulher chamada Idrien foi apontada como diretora da escola, mas quando ele enfim conseguiu � com alguma dificuldade e muito constrangimento � tir�-la dos beijos que dava em um rapaz com idade para ser filho dela por tempo suficiente para perguntar o que queria, a mulher s� conseguiu responder que talvez um sujeito chamado Fel soubesse de alguma coisa. Bem, acabou que o tal Fel estava dan�ando com tr�s jovens que poderiam ser suas netas. E com as tr�s ao mesmo tempo! Fel mal conseguia lembrar o pr�prio nome � o que talvez, dadas as circunst�ncias, n�o fosse muito surpreendente. Ah, que a Luz queimasse Rand! Tinha ido embora sem uma palavra, mesmo sabendo sobre a vis�o de Min, mesmo sabendo que precisaria de Perrin. Ao que parecia, at� as Aes Sedai tinham ficado chocadas com aquilo. Naquela mesma manh�, Perrin ficara sabendo que elas tinham partido de volta para Tar Valon havia tr�s dias, depois de afirmarem que n�o havia mais sentido em permanecer por ali. O que Rand estaria aprontando? Aquela comich�o estava deixando Perrin desesperado.</p><p>Quando chegou ao Pal�cio do Sol, encontrou todas as lamparinas acesas e velas queimando em todos os cantos poss�veis, fazendo os corredores brilharem feito pedras preciosas sob o sol. Em Dois Rios, todas as casas tamb�m estariam iluminadas com todos os lampi�es e velas dispon�veis pelos dois dias seguintes, at� o amanhecer. A maioria dos servi�ais do pal�cio estava pelas ruas, e os poucos que permaneciam l� dentro dan�avam, cantavam e gargalhavam quase tanto quanto trabalhavam. Mesmo ali, viam-se mulheres nuas at� a cintura, tanto garotas que mal teriam idade para tran�ar os cabelos em Dois Rios quanto av�s de cabe�a branca. Os Aiel nos corredores pareciam incomodados quando reparavam nas comemora��es, embora na maioria das vezes n�o esbo�assem rea��o. As Donzelas em particular pareciam furiosas, embora Perrin suspeitasse de que aquela raiva n�o tivesse a ver com o despudor das cairhienas � desde o sumi�o de Rand, as Donzelas ficavam mais parecidas com gatas irritadas.</p><p>Ali dentro, pelo menos Perrin conseguiu avan�ar a passos largos pelos corredores. Quase desejou que Berelain o atacasse. Na imagem que lampejou em sua mente, cravava os dentes na nuca da mulher e a sacudia at� que ela sa�sse correndo com o rabo entre as pernas. Talvez tenha sido a sorte que o fez chegar a seus aposentos sem avistar sequer um fio de cabelo dela.</p><p>Teve certeza de que Faile quase desviou os olhos do tabuleiro de pedras quando ele entrou. A mulher ainda exalava aquele cheiro de ci�mes, mas n�o era o mais forte no momento; a raiva estava mais agu�ada, ainda que n�o estivesse no auge. Em vez disso, o odor mais poderoso era um cheiro ins�pido e embotado que ele identificou como decep��o. Por que a mulher estava decepcionada com ele? Por que n�o queria conversar? Bastava uma palavra, uma s� dica de que tudo voltaria a ser como era, que Perrin cairia de joelhos e aceitaria a culpa por qualquer coisa que Faile quisesse despejar sobre ele. Mas ela apenas moveu uma pedra preta e murmurou:</p><p>� � a sua vez, Loial. Loial?</p><p>As orelhas do Ogier se remexeram, incomodadas, e as compridas sobrancelhas desabaram. Loial podia ter um p�ssimo olfato � bem, t�o ruim quanto o de Faile, por exemplo �, mas podia perceber mudan�as de humor que nenhum humano percebia. Quando Perrin e Faile estavam no mesmo ambiente, o Ogier sempre parecia com vontade de chorar. Ele apenas suspirou, um som que pareceu uma ventania em uma caverna, e depositou uma pedra branca em um ponto em que prenderia grande parte das pedras de Faile, se ela n�o reparasse e tomasse uma provid�ncia. E Faile decerto faria algo a respeito. Ela e Loial eram oponentes do mesmo n�vel, jogadores muito melhores do que Perrin.</p><p>Sulin saiu do dormit�rio com um travesseiro nos bra�os, franzindo o cenho para Faile e Perrin. Seu cheiro remetia a uma loba que aguentara quanto pudera enquanto um sem-n�mero de lobinhos puxavam seu rabo em brincadeiras. Tamb�m cheirava a preocupa��o. E, estranhamente, a medo � bem, Perrin n�o sabia dizer por que era estranho encontrar uma servi�al de cabelos brancos cheirando a medo, por mais que fosse uma de cara curtida e cheia de cicatrizes como Sulin.</p><p>Ele pegou um livro de capa de couro trabalhada com douraduras, afundou em uma poltrona e abriu o exemplar. S� que n�o leu, nem sequer olhou para o livro direito para saber qual volume tinha em m�os. Inspirou profundamente, deixando tudo de fora, menos Faile. Decep��o, raiva, ci�mes, e por baixo de tudo aquilo, ainda mais sutil que o suave aroma herb�reo de sab�o, estava ela. Sorveu-a com sofreguid�o. Uma palavra, era s� o que ela precisava dizer.</p><p>Bateram � porta e Sulin saiu do quarto pisando duro, balan�ando as saias de tecido vermelho e branco e cravando os olhos em Perrin, Faile e Loial como se perguntasse por que nenhum deles atendera. Quando viu Dobraine ali, parado, Sulin chegou at� a rosnar � coisa que vinha fazendo com bastante frequ�ncia desde o sumi�o de Rand �, ent�o respirou fundo, como se reunisse for�as, e se obrigou a assumir uma postura servil. A mesura profunda poderia ter saudado um rei que fizesse as vezes de carrasco, e a mulher permaneceu naquela posi��o, com o rosto quase colado ao ch�o. De repente, come�ou a tremer. O cheiro de ira se dissolveu, e at� a preocupa��o foi sobrepujada por um cheiro como milhares de estilha�os, todos finos como fios de cabelo e afiados feito a ponta de uma agulha. Perrin j� farejara vergonha na Aiel, mas daquela vez ela parecia prestes a morrer daquilo. Sentiu o cheiro agridoce que as mulheres exalavam quando choravam de emo��o.</p><p>Dobraine, naturalmente, sequer se virou para ela � seus olhos fundos analisaram Perrin, com o rosto s�rio e at� meio sombrio por sob a testa raspada e empoada. Dobraine n�o cheirava nem de leve a bebida, e tamb�m n�o parecia ter dan�ado recentemente. Da �nica vez em que Perrin o vira, achou que o homem cheirava a cautela � n�o era medo, era mais como se ele atravessasse uma mata densa cheia de cobras venenosas. Aquele cheiro estava dez vezes mais forte.</p><p>� Que a gra�a o favore�a, Lorde Aybara � cumprimentou Dobraine, inclinando a cabe�a. � Podemos conversar em particular?</p><p>Perrin deitou o livro no ch�o ao lado da poltrona e apontou para o assento � sua frente.</p><p>� Que a Luz brilhe sobre o senhor, Lorde Dobraine. � Se o homem queria ser formal, Perrin podia ser formal. Mas havia limites. � Seja l� o que o senhor queira dizer, minha esposa pode ouvir. N�o guardo segredos dela. E Loial � meu amigo.</p><p>Sentia o olhar de Faile fixo nele, e o cheiro s�bito <emphasis>dela </emphasis>quase o arrebatou. Por alguma raz�o, associava aquele cheiro ao amor que Faile sentia por ele, pois costumava surgir em seus momentos mais carinhosos ou quando ela o beijava com mais ardor. Pensou em pedir que Dobraine se retirasse, assim como a Loial e Sulin � se Faile estava exalando aquele odor, ele sem d�vida poderia dar um jeito de acertar as coisas �, mas o cairhieno logo foi se sentando.</p><p>� Um homem que tem uma esposa de confian�a, Lorde Aybara, tem uma gra�a maior que a riqueza. � Ainda assim, Dobraine encarou Faile por um instante antes de prosseguir. � Hoje, Cairhien sofreu dois infort�nios. Esta manh�, Lorde Maringil foi encontrado morto em sua cama. Foi envenenado, ao que tudo indica. E, pouqu�ssimo tempo depois, o Gr�o-lorde Meilan foi v�tima da facada de um salteador em plena rua. O que � algo muito incomum durante o Festival das Luzes.</p><p>� Por que est� me contando isso? � perguntou Perrin, hesitante.</p><p>Dobraine espalmou as m�os.</p><p>� O senhor � amigo do Lorde Drag�o, e ele n�o est� aqui. � O homem hesitou e, quando prosseguiu, parecia for�ar as palavras a sa�rem. � Ontem � noite, Colavaere jantou com convidados de algumas das Casas menores. Daganred, Chuliandred, Annallin, Osiellin, dentre outros. S�o Casas pequenas, por�m numerosas. O assunto foi a alian�a com a Casa Saighan e o apoio a Colavaere em sua reivindica��o ao Trono do Sol. A mulher fez pouco esfor�o para manter a reuni�o em segredo. � Dobraine fez outra pausa, avaliando Perrin com o olhar. Fosse l� o que o sujeito tinha visto, parecia pensar que a situa��o exigia mais explica��es. � Isso � muito estranho, porque tanto Maringil quanto Meilan almejavam o trono, e os dois teriam sufocado Colavaere com o pr�prio travesseiro se ficassem sabendo do acontecido.</p><p>Perrin enfim compreendeu a situa��o, embora ainda n�o entendesse por que o homem tinha feito tantos rodeios. Desejou que Faile se pronunciasse � a mulher tinha muito mais talento do que ele para aquele tipo de coisa. Podia v�-la com rabo de olho, a cabe�a inclinada por cima do tabuleiro de pedras, observando-o de esguelha.</p><p>� Se acredita que Colavaere cometeu um crime, Lorde Dobraine, o senhor deveria ir� at� Rhuarc.</p><p>Evitou dizer o nome de Berelain, mas mesmo assim o fio t�nue do ci�me se intensificou de leve em Faile.</p><p>� O Aiel selvagem? � bufou Dobraine. � � melhor ir a Berelain, se tanto. Admito que aquela ali at� sabe comandar uma cidade, mas ela acha que todos os dias s�o o Festival das Luzes. Colavaere vai mandar fatiar e cozinhar a mulher com pimentas. O senhor � amigo do Drag�o Renascido. Colavaere� � Ele parou, depois de enfim perceber que Berelain entrara sem bater, trazendo nos bra�os algo comprido e delgado envolto em um cobertor.</p><p>Perrin tinha ouvido o clique da fechadura da porta, mas ao ver a mayenense ali, com metade dos seios expostos, a f�ria quase varreu todos os seus outros pensamentos. A mulher fora <emphasis>at� ali</emphasis> para continuar com aquele flerte, na frente de sua <emphasis>esposa</emphasis>? A ira o fez se levantar, e ele uniu as m�os espalmadas com um estr�pito.</p><p>� Fora! Fora, mulher! Fora, agora! Saia, ou eu mesmo vou jog�-la para fora, e com tanta for�a que vai quicar no ch�o!</p><p>Berelain levou um susto t�o grande logo no primeiro berro que deixou cair o que segurava e deu um passo atr�s, arregalando os olhos, mas n�o se retirou. Quando Perrin terminou de gritar, percebeu que todos o encaravam. Dobraine parecia impass�vel, mas seu odor era de assombro. As orelhas de Loial estavam r�gidas e eretas, o queixo batendo no peito. E Faile estava com um sorriso frio� Perrin n�o conseguia entender. J� estava esperando as ondas de ci�me, com Berelain bem ali, mas por que ela tamb�m tinha aquele cheiro t�o forte de m�goa?</p><p>Foi quando Perrin viu o que Berelain deixara cair. O cobertor se abrira, revelando a espada de Rand e o cinto com a fivela do Drag�o. Rand tinha deixado aquilo para tr�s? Perrin gostava de pensar antes de agir � caso se precipitasse, podia acabar magoando os outros sem inten��o �, mas aquela espada ca�da no ch�o foi como o golpe de um raio. No trabalho da forja, era burrice e desleixo agir com pressa, mas, ali, Perrin sentiu os pelos da nuca se arrepiarem, e um rosnado ressoou fundo em sua garganta.</p><p>� Ele foi levado! � gritou Sulin, de repente, para surpresa de Perrin. Jogando a cabe�a para tr�s e fechando os olhos com for�a, ela soltou um gemido para o teto, em um tom que fez Perrin estremecer. � As Aes Sedai levaram meu irm�o-primeiro! � Seu rosto estava molhado de l�grimas.</p><p>� Acalme-se, minha boa mulher � retrucou Berelain, com firmeza. � V� at� o quarto ao lado e acalme-se. � Para Perrin e Dobraine, acrescentou: � N�o podemos permitir que ela espalhe isso�</p><p>Sulin tratou de interromp�-la, irada:</p><p>� Voc� n�o est� me reconhecendo com este vestido e o cabelo mais comprido. Se falar outra vez de mim como se eu n�o estivesse aqui, farei o que ouvi dizer que Rhuarc fez com voc� na Pedra de Tear, coisa que eu j� devia ter feito h� tempos.</p><p>Perrin trocou olhares confusos com Dobraine, Loial e at� Faile, antes de a mulher desviar os olhos. Berelain, por outro lado, alternava-se entre o rubor e a palidez. Seu cheiro era pura mortifica��o, um odor tr�mulo e encolhido.</p><p>Sulin avan�ou at� a porta em passos firmes e abriu-a com vigor antes que qualquer um dos outros pudesse se mover � Dobraine at� fez men��o de impedi-la, mas n�o foi r�pido o suficiente. Uma Donzela jovem e loura que passava a viu e escancarou um sorriso bem-humorado.</p><p>� Tire esse sorriso da cara, Luaine � vociferou a Aiel, o corpo bloqueando o movimento que fazia com as m�os. O sorriso escancarado de Luaine de fato sumiu no mesmo instante. � Diga a Nandera que venha aqui agora mesmo. E Rhuarc. E traga meu <emphasis>cadin�sor</emphasis> e tesouras para que eu corte o cabelo direito. Corra, mulher! Voc� � <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> ou <emphasis>Shae�en M�taal</emphasis>?</p><p>A Donzela saiu em disparada e Sulin voltou para o sal�o assentindo com a cabe�a, satisfeita, e bateu a porta. Faile estava de queixo ca�do.</p><p>� A gra�a est� conosco � disse Dobraine, aliviado. � Ela n�o disse nada � Aiel, a mulher deve estar louca. Podemos decidir o que contar a eles depois de prend�-la e amorda��-la.</p><p>Ele avan�ou para fazer justamente aquilo, j� puxando um len�o verde-escuro do bolso do casaco, mas Perrin agarrou seu bra�o.</p><p>� Ela � Aiel, Dobraine � avisou Berelain. � � uma Donzela da Lan�a. S� n�o entendi o uniforme�</p><p>Para surpresa de Perrin, Berelain foi alvo de um olhar de advert�ncia de Sulin.</p><p>Perrin soltou um suspiro lento. E pensar que tentara proteger aquela velha grisalha de Dobraine. O cairhieno o encarou com um olhar inquisitivo, erguendo um pouco a m�o que segurava o len�o � ao que parecia, ele ainda era a favor de at�-la e amorda��-la. Perrin postou-se entre os dois e apanhou a espada de Rand.</p><p>� Quero ter certeza. � De s�bito, percebeu que se aproximara bastante de Berelain. A mulher olhou para Sulin, aflita, e aproximou-se ainda mais dele, como se buscasse prote��o. Mas ela exalava um odor de determina��o, n�o de quem estava aflita. Era o cheiro de uma ca�adora. � N�o quero tirar conclus�es precipitadas � continuou ele, caminhando para perto da cadeira de Faile. Sem se afoitar, apenas um homem indo postar-se ao lado da esposa. � Esta espada por si s� n�o � prova de nada.</p><p>Faile levantou-se e contornou a mesa, com muita eleg�ncia, observando o tabuleiro por tr�s do ombro de Loial � ou melhor, por tr�s do cotovelo. Berelain tamb�m avan�ou, indo em dire��o a Perrin. Ela ainda lan�ava olhares temerosos a Sulin, mas n�o exalava o menor cheiro de medo. A mayenense ergueu a m�o como se fosse tomar o bra�o de Perrin, que foi atr�s de Faile, tentando parecer displicente.</p><p>� Rand disse que tr�s Aes Sedai n�o poderiam lhe fazer mal algum, se ele tomasse cuidado � continuou. Faile deslizou pelo outro lado da mesa, de volta at� a cadeira. � Duvido muito que ele tenha deixado mais de tr�s se aproximarem. � Berelain o seguiu, lan�ando olhares comoventes para ele e claramente temerosos na dire��o de Sulin. � Fui informado de que apenas tr�s estiveram aqui, no dia em que ele sumiu.</p><p>Perrin foi atr�s de Faile, um pouco mais depressa. A mulher se levantou da cadeira de um pulo, voltando para o lado de Loial. O Ogier gemia, apoiando a cabe�a nas m�os � um gemido que era baixo para um Ogier. Berelain seguiu Perrin outra vez, arregalando os olhos j� grandes, a personifica��o de uma mulher buscando prote��o. Luz, ela cheirava a determina��o!</p><p>Perrin virou-se para encar�-la, cravando o indicador no peito dela, o que bastou para faz�-la guinchar de susto.</p><p>� Pare a� mesmo! � mandou. Ent�o percebeu onde o dedo estava aninhado e recolheu a m�o, como se o contato tivesse queimado a pele. Ainda assim, conseguiu manter a voz dura. � Fique a�!</p><p>Afastou-se da mayenense, cravando os olhos com for�a suficiente para rachar uma muralha de pedras. Entendia por que o ci�me de Faile preenchia suas narinas, mas por que ela cheirava ainda mais a m�goa do que antes?</p><p>� Poucos homens conseguem minha obedi�ncia � comentou Berelain, com uma risadinha �, mas acho que voc� � um deles. � O rosto, o tom de voz e, mais importante, o odor assumiram um ar de seriedade. � Fui dar uma busca nos aposentos do Lorde Drag�o porque estava com medo. Todos sabiam que as Aes Sedai tinham vindo para escolt�-lo at� Tar Valon, e eu n�o estava entendendo por que elas de repente pareciam ter desistido. Eu mesma recebi pelo menos dez visitas de v�rias irm�s para me aconselhar a respeito do que eu deveria fazer quando ele voltasse � Torre. Pareciam todas muito confiantes de que era isso que ele faria. � Ela hesitou, e, embora a mulher n�o olhasse para Faile, Perrin teve a impress�o de que estava avaliando se deveria dizer algo na frente dela. E na frente de Dobraine, mas o problema maior parecia ser Faile. O cheiro de ca�adora voltou. � Dessas conversas, acabei com a forte impress�o de que queriam que eu voltasse a Mayene, por bem ou por mal.</p><p>Sulin resmungou entredentes, mas as orelhas de Perrin ouviram com clareza.</p><p>� Rhuarc � um idiota. Se ela fosse mesmo filha dele, o homem n�o teria tempo de fazer nada al�m de dar umas surras nela.</p><p>� Dez? � perguntou Dobraine. � Eu s� recebi uma visita. Acho que a mulher ficou bem decepcionada quando deixei claro que havia jurado lealdade ao Lorde Drag�o. Mas, sejam dez ou uma, Colavaere � a chave. Ela sabe tanto quanto qualquer um que o Lorde Drag�o pretende entregar o Trono do Sol a Elayne Trakand. � O homem fez uma careta. � Deveria ser Elayne Damodred. Taringail deveria ter insistido para que Morgase adotasse o Damodred dele, em vez de ter ele adotado o sobrenome Trakand. E ela teria concordado, porque precisava dele demais. Bom, Elayne Trakand ou Elayne Damodred, ela tem tanto direito ao trono quanto qualquer um, e de longe mais direito do que Colavaere. Ainda assim, estou convencido de que Colavaere mandou matar Maringil e Meilan para assegurar o direito ao trono. Ela jamais teria ousado fazer isso se pensasse que o Lorde Drag�o fosse retornar.</p><p>� Ent�o � por isso. � Berelain franziu o cenho de leve, deixando transparecer uma leve irrita��o. � Tenho provas de que ela mandou um servi�al envenenar o vinho de Maringil. Ela foi descuidada, e eu trouxe dois bons ca�adores de ladr�es� Mas n�o sabia o motivo. � Ela inclinou a cabe�a um tantinho, reconhecendo o olhar de admira��o de Dobraine. � Ela ser� enforcada por isso. Se houver alguma forma de trazer o Lorde Drag�o de volta. Se n�o houver, temo que seja melhor descobrirmos uma maneira de preservar nossas pr�prias vidas.</p><p>Perrin apertou a bainha de couro de javali.</p><p>� Eu vou resgatar Rand � declarou, com um rosnado. Dannil e os outros homens de Dois Rios ainda deviam estar na metade do caminho at� Cairhien, com o peso dos carro��es. Mas ele tinha os lobos. � Nem que eu tenha que ir sozinho, vou traz�-lo de volta.</p><p>� Sozinho, n�o � retrucou Loial, a voz dura e inflex�vel feito uma pedreira. � Voc� nunca ficar� sozinho enquanto eu estiver aqui, Perrin. � Ele remexeu as orelhas, constrangido. Sempre ficava envergonhado quando testemunhavam sua bravura. � Afinal de contas, meu livro n�o vai acabar bem se Rand for aprisionado na Torre. E eu n�o vou poder escrever sobre o resgate se n�o estiver presente.</p><p>� Voc� n�o vai sozinho, Ogier � acrescentou Dobraine. � Posso arranjar quinhentos homens de confian�a at� amanh�. Bem, n�o sei o que poderemos fazer contra seis Aes Sedai, mas mantenho minha palavra. � Olhando para Sulin, ele dedilhou o len�o ainda em sua m�o. � Mas at� onde podemos confiar nos selvagens?</p><p>� At� onde podemos confiar nos Assassinos da �rvore? � inquiriu Sorilea, com uma voz t�o r�gida e curtida quanto ela pr�pria, entrando sem bater e avan�ando a um passo firme.</p><p>Rhuarc vinha a seu lado, com um cheiro soturno, acompanhado de Amys, com o rosto suspeitamente jovem emoldurado por aqueles cabelos brancos e uma express�o t�o fria quanto a de qualquer Aes Sedai, e tamb�m de Nandera, que exalava um forte odor de f�ria e carregava um embrulho cinza, marrom e verde.</p><p>� Voc�s sabem? � perguntou Perrin, incr�dulo.</p><p>Nandera atirou o embrulho para Sulin.</p><p>� J� passa da hora de ver que sua <emphasis>toh</emphasis> foi satisfeita. Quase quatro semanas e meia, um m�s inteiro mais metade. At� os <emphasis>gai�shain</emphasis> dizem que voc� � orgulhosa demais.</p><p>Ela e Sulin desapareceram dormit�rio adentro.</p><p>Uma rajada daquele cheiro de irrita��o irrompeu de Faile assim que ela ouviu a pergunta de Perrin.</p><p>� A linguagem de sinais das Donzelas � murmurou a mulher, baixinho demais para qualquer ouvido al�m do dele.</p><p>Perrin olhou para a esposa, agradecido, mas ela parecia concentrada no tabuleiro de pedras. Por que n�o estava participando da discuss�o? Ela dava bons conselhos, e Perrin ficaria muito grato com qualquer sugest�o que ela estivesse disposta a oferecer. Faile posicionou uma pedra e olhou feio para Loial, que estava atento a Perrin e aos outros.</p><p>Tentando n�o suspirar, Perrin disse, simplesmente:</p><p>� N�o me interessa quem confia em quem. Rhuarc, est� disposto a enviar seus Aiel contra as Aes Sedai? S�o seis delas. Acho que cem mil Aiel dariam a elas o que pensar�</p><p>Aquele n�mero o fez refletir: dez mil homens j� n�o era pouco para um ex�rcito, mas Rand falara em cem mil, e, pelo que vira no acampamento Aiel das colinas, Perrin acreditava que houvesse mesmo cem mil. Para sua surpresa, Rhuarc exalou um odor de hesita��o.</p><p>� N�o conseguir�amos um n�mero t�o alto � respondeu o chefe de cl�, hesitante, ent�o fez uma pausa antes de prosseguir: � Chegaram batedores hoje de manh� e informaram que um grande n�mero dos Shaido est� se deslocando para o sul, sa�dos da Adaga do Fratricida, em dire��o ao cora��o de Cairhien. Eu talvez tenha homens o suficiente para impedir o avan�o, j� que parece que n�o s�o todos que est�o a caminho. Mas, se eu retirar tantas lan�as desta terra, tudo o que j� fizemos ter� que ser refeito. Na melhor das hip�teses, os Shaido ter�o terminado de pilhar a cidade muito antes de voltarmos. Ningu�m pode afirmar quanto eles ter�o avan�ado, at� mesmo para dentro de outras terras, e quantos ser�o levados se dizendo <emphasis>gai�shain</emphasis>. � Um forte odor de desprezo emanou dele com essa �ltima frase, mas Perrin n�o entendeu. De que interessava quanta terra teriam que reconquistar, ou mesmo quanta gente morreria? Se bem que essa �ltima parte do racioc�nio vinha cheia de sofrimento e relut�ncia. Mas a verdade era que n�o sabia como poderiam comparar aquilo � magnitude de ver Rand, o Drag�o Renascido, sendo levado como prisioneiro de Tar Valon.</p><p>Sorilea estava encarando Perrin havia algum tempo. Os olhos das S�bias eram como os das Aes Sedai e sempre o faziam se sentir medido e avaliado nos menores detalhes. Sorilea era um caso � parte e o fazia sentir-se desmantelado feito um arado quebrado, cada pino erguido e examinado para ver se deveria ser consertado ou substitu�do.</p><p>� Conte tudo a ele, Rhuarc � mandou a mulher, r�spida.</p><p>Amys apoiou a m�o no ombro de Rhuarc.</p><p>� Ele tem o direito de saber, sombra do meu cora��o. � quase-irm�o de Rand al�Thor. � A voz dela era mansa, mas o cheiro era bem firme.</p><p>Rhuarc lan�ou um olhar duro �s S�bias e encarou Dobraine com uma express�o de desd�m. Ent�o empertigou-se o m�ximo que p�de.</p><p>� S� posso levar Donzelas e <emphasis>siswai�aman</emphasis>. � Pelo tom e cheiro, ele preferia perder um bra�o a proferir aquelas palavras. � Muitos dos outros n�o v�o dan�ar as lan�as contra nenhuma Aes Sedai.</p><p>Os l�bios de Dobraine se curvaram em uma express�o de desprezo.</p><p>� Quantos cairhienos aceitam lutar contra Aes Sedai? � perguntou Perrin, baixinho. � Seis Aes Sedai, e n�s s� temos a�o.</p><p>Quantas dessas Donzelas e sis-alguma-coisa Rhuarc conseguiria reunir? N�o importava, sempre havia os lobos. Mas quantos lobos morreriam?</p><p>Dobraine desfez a carranca.</p><p>� Eu lutarei, Lorde Aybara � declarou, r�gido. � Eu e meus quinhentos, mesmo que sejam sessenta Aes Sedai.</p><p>At� a risada de Sorilea soava cori�cea.</p><p>� N�o tema as Aes Sedai, Assassino da �rvore.</p><p>De repente, para surpresa de Perrin, uma chama diminuta dan�ou no ar diante dela. A mulher podia canalizar!</p><p>Sorilea deixou a chama se esvair enquanto come�avam os planejamentos, mas a imagem n�o saiu da cabe�a de Perrin � era uma chama, tremeluzindo fraquinha, mas era uma declara��o de guerra mais forte que trompetes, o princ�pio de um combate mortal.</p><empty-line/><p>� Se voc� cooperar � come�ou Galina, em um tom casual �, sua vida ser� mais agrad�vel.</p><p>A garota a encarou de volta, taciturna, e se remexeu no banquinho, ainda um pouco dolorida. Suava bastante, mesmo sem estar com o casaco. A tenda devia estar bem quente. Galina �s vezes se esquecia completamente da temperatura. Mais uma vez, sentiu-se curiosa a respeito daquela Min � ou Elmindreda ou qualquer que fosse seu nome de verdade. Da primeira vez que a vira, a garota usava roupas de homem e acompanhava Nynaeve al�Meara e Egwene al�Vere. E Elayne Trakand, mas eram as outras duas que estavam ligadas a al�Thor. Da segunda vez, Elmindreda revelou ser o tipo de mulher que Galina odiava: toda suspirante e cheia de babados, sob prote��o pessoal de Siuan Sanche. N�o conseguia imaginar como Elaida pudera ser tola o bastante para sequer permitir que ela sa�sse da Torre. Que conhecimentos aquela garota guardava? Bem, talvez Elaida n�o precisasse ter a menina t�o cedo � se bem usada, a garota talvez a ajudasse a capturar Elaida em sua rede feito uma andorinha. Apesar de Alviarin, Elaida se tornara uma daquelas Amyrlins fortes e capazes que tomavam as r�deas nas pr�prias m�os firmes � era por isso que aprision�-la decerto enfraqueceria Alviarin. Ah, se bem usada, a garota�</p><p>Uma mudan�a nos fluxos que estava sentindo fez Galina se endireitar na cadeira.</p><p>� Conversaremos mais depois que voc� tiver um tempo para pensar, Min. Pense muito bem sobre quantas l�grimas um homem vale. � Ent�o, saindo, vociferou para o Guardi�o de ombros largos que estava de vigia: � Trate de vigiar direito desta vez.</p><p>Carilo n�o estivera montando guarda durante o incidente da noite anterior, mas os Gaidin eram mimados demais por suas Aes Sedai. J� que precisavam daqueles homens, melhor trat�-los como meros soldados e nada mais.</p><p>Ignorando a mesura do Guardi�o, ela se afastou e foi procurar Gawyn. O rapaz andava muito recluso desde a captura de al�Thor, e quieto demais. N�o estava disposta a ter tudo arruinado por conta de um garoto que tentava vingar a m�e. Mas, quando o encontrou, Gawyn estava na orla do campo, sentado em seu cavalo, conversando com um bando daqueles garotos que se denominavam Jovem Guarda.</p><p>Tinham parado cedo por necessidade, e o sol da tarde projetava sombras compridas das tendas e dos carro��es que ladeavam a estrada. Morros suaves e colinas baixas circundavam o acampamento, com apenas alguns arbustos esparsos � vista, a maioria escassos e pequenos. Trinta e tr�s Aes Sedai somavam-se �s seis originais, junto com os servi�ais e Guardi�es � nove eram Verdes, apenas treze Vermelhas, e as demais eram Brancas, da antiga Ajah de Alviarin �, formando um grupo not�vel mesmo sem contar com Gawyn e seus soldados. O foco da aten��o eram sete Aes Sedai, seis das quais estavam sentadas em banquinhos ao redor de um ba� com bordas de lat�o, posicionado de modo a pegar todos os raios de sol que ainda restavam. A s�tima era Erian � a mulher n�o se afastara do ba� desde que al�Thor fora colocado de volta l�, na noite anterior. O rapaz tivera permiss�o de sair assim que se afastaram de Cairhien, mas Galina suspeitou de que Erian fosse querer que ele passasse o restante da viagem dentro do ba�.</p><p>Assim que se aproximou, a Verde virou-se para ela. Erian sempre fora muito bonita, com o rosto claro, refinado e oval, mas suas bochechas estavam vermelhas desde a noite anterior, e os encantadores olhos escuros estavam injetados.</p><p>� Ele tentou vencer a blindagem outra vez, Galina. � A ira se mesclava ao desprezo pela insensatez do homem, tornando sua voz dura e �spera. � Ele deve ser punido de novo, no caso. Quero cuidar disso eu mesma.</p><p>Galina hesitou. Seria melhor punir Min � aquilo sim deixaria al�Thor quietinho. Ele ficara furioso ao v�-la ser punida na noite anterior � puni��o essa que, por sua vez, fora suscitada pela atitude da jovem ao v�-lo sendo punido. O incidente todo se dera logo depois que al�Thor descobriu que Min estava no acampamento, quando um dos Guardi�es tivera o descuido de deix�-la sair andando noite adentro, em vez de mant�-la confinada na tenda. Quem teria imaginado que al�Thor, blindado e cercado, ficaria transtornado daquele jeito? Al�m de tentar destruir a blindagem, ele matara um Guardi�o com as pr�prias m�os e ferira outro com a espada do morto � um ferimento t�o grave que o homem acabou morrendo durante a Cura. E isso tudo durante os poucos instantes que as irm�s levaram para se recuperar do choque e refre�-lo com o Poder.</p><p>Se dependesse de Galina, j� teria reunido as outras Vermelhas e amansado al�Thor dias antes. Como aquilo estava proibido, melhor entreg�-lo � Torre ileso � desde que ele demonstrasse o m�nimo de educa��o, claro. Mesmo naquela situa��o, Galina prezava pela efic�cia, e o mais eficaz seria levar Min at� ali e deixar que al�Thor a ouvisse chorar e solu�ar, sabendo que era o respons�vel pela dor que a mulher sofria. Por�m, por acaso, os dois Guardi�es mortos eram de Erian. A maioria das irm�s consideraria a puni��o direito dela, e a pr�pria Galina queria que a Verde, uma illianense com cara de boneca, extravasasse a ira de uma vez. Seria muito melhor percorrer o restante do trajeto podendo admirar aquele rostinho de porcelana com uma express�o serena.</p><p>Galina assentiu.</p><empty-line/><p>Rand piscou com a claridade quando a luz inundou o ba� de repente. Tamb�m foi inevit�vel se encolher � ele sabia o que estava por vir. Lews Therin jazia no Vazio, im�vel e silencioso � era por pouco que ele ainda sustentava o Vazio, mas tinha plena consci�ncia dos pr�prios m�sculos, que urraram em c�imbras quando ele foi posto de p�. Travou a mand�bula e tentou n�o estreitar os olhos para se proteger do que parecia o brilho do meio-dia. O ar estava fresco e maravilhoso, e a camisa ensopada grudou no corpo, empapado de suor. Nenhuma corda o prendia, mas n�o podia dar um passo sequer, nem que fosse para salvar a pr�pria vida. Se n�o estivesse sendo sustentado pelo Poder, teria desabado no ch�o. S� percebeu quanto tempo passara preso quando notou como o sol estava baixo no c�u � todo aquele tempo preso com a cabe�a entre os joelhos, banhado em uma po�a de seu pr�prio suor.</p><p>Ainda assim, mal prestou aten��o ao sol. Seus olhos se voltaram para Erian antes mesmo que a Aes Sedai se posicionasse diante dele. A mulher pequena e esguia ergueu a cabe�a para encar�-lo, os olhos escuros cheios de f�ria, e ele quase se encolheu outra vez. Ao contr�rio da noite anterior, ela n�o falou. Simplesmente come�ou.</p><p>O primeiro golpe invis�vel o atingiu entre os ombros; o segundo, no peito; e o terceiro bateu atr�s das coxas. O Vazio se despeda�ou. Ar. Era apenas Ar. Pensando assim, parecia menos dolorido. S� que cada golpe era uma chibatada desferida por um bra�o mais forte que o de qualquer homem. J� estava com hematomas por conta da �ltima surra, manchas roxas que iam dos ombros aos joelhos. Tinha consci�ncia daquelas marcas no corpo � e mais consci�ncia do que gostaria; sentira vontade de chorar mesmo dentro do Vazio. Quando o Vazio se foi, ele quis berrar.</p><p>Mas, em vez disso, cerrou o maxilar. �s vezes um grunhido escapava entre os dentes e Erian redobrava os esfor�os quando isso acontecia, como se quisesse mais. Rand se recusava a dar o que ela queria. N�o podia impedir os tremores a cada golpe daquela chibata invis�vel, por�m n�o lhe daria mais do que isso. Encarava-a nos olhos, recusando-se a desviar o olhar e a piscar.</p><p><emphasis>Eu matei minha Ilyena</emphasis>, gemia Lews Therin a cada golpe.</p><p>Rand tinha sua pr�pria ladainha. A dor lhe fustigava o peito. <emphasis>Isso � por confiar nas Aes Sedai.</emphasis> O fogo assolava as costas. <emphasis>Nunca mais, nem um pouquinho, nem por um instante. </emphasis>Era como a l�mina de uma navalha. <emphasis>Isso � por confiar nas Aes Sedai.</emphasis></p><p>Elas achavam que podiam subjug�-lo. Achavam que podiam faz�-lo rastejar at� Elaida! Obrigou-se a fazer a coisa mais dif�cil que j� fizera na vida: sorriu. Claro que o sorriso n�o chegava aos olhos, mas encarou Erian e sorriu. A mulher arregalou os olhos e sibilou. As chibatadas come�aram a vir de todos os lugares ao mesmo tempo.</p><p>O mundo era dor e fogo. Rand n�o conseguia ver, apenas sentir. Por algum motivo, tinha ci�ncia das m�os tremendo incontrolavelmente dentro das algemas invis�veis, mas concentrava-se em manter os dentes cerrados. <emphasis>Isso � por � N�o vou gritar! N�o vou grit � Nunca mais, nem um pouqu � Nem um pouquinho, nem por um instante! Nunca ma � Eu n�o vou! Nunca ma � Nunca! Nunca! NUNCA!</emphasis></p><p>A primeira coisa que reparou foi que respirava. Ar, tragado avidamente pelas narinas. Seu corpo latejava, era uma chama pulsante, mas as pancadas tinham cessado. Reparar nisso foi quase um choque. O cessar de algo que uma parte dele se convencera de que jamais chegaria ao fim. Sentiu gosto de sangue e percebeu que a mand�bula do�a quase tanto quanto o resto do corpo. Bom. N�o tinha gritado. Os m�sculos do rosto estavam travados em uma c�imbra dolorosa e seria um esfor�o abrir a boca, mesmo se quisesse muito.</p><p>A vis�o foi a �ltima a voltar, e ent�o ele se perguntou se estava alucinando por conta da dor. Viu um grupo de S�bias entre as Aes Sedai, todas remexendo os xales e encarando as mulheres com a maior arrog�ncia poss�vel. Quando concluiu que a vis�o era real � a menos que Galina estivesse conversando com um produto da imagina��o de Rand �, seu primeiro pensamento foi de que estava sendo resgatado. De algum jeito, as S�bias tinham� era imposs�vel, mas elas� ent�o reconheceu a mulher que conversava com Galina.</p><p>Sevanna andou at� ele com um sorriso nos l�bios carnudos e vorazes. Os olhos verde-claros daquele rosto lindo emoldurado por cachos dourados o perscrutaram. Rand preferia estar diante de um lobo raivoso. Havia uma estranheza na postura da mulher, que avan�ava meio inclinada para a frente, os ombros para tr�s. Por mais ferido que estivesse, de repente teve vontade de rir � e teria rido, se tivesse certeza do som que produziria caso abrisse a boca. L� estava ele, prisioneiro, apanhando quase at� a morte, as pancadas ainda ardendo e o suor aguilhoando, e aquela mulher que o odiava � tinha certeza disso � e que provavelmente o culpava pela morte do homem que ela amava estava achando que ele olharia seu decote!</p><p>A mulher passou a unha lentamente por sua garganta � na verdade, ela envolveu seu pesco�o o mais que p�de com as pontas das garras �, como se imaginasse sua decapita��o. O que seria apropriado, considerando o fim de Couladin.</p><p>� Pronto, j� o vi � declarou a mulher, com um suspiro satisfeito e um pequeno arrepio de prazer. � Voc� honrou sua parte no acordo, e eu honrei a minha.</p><p>A Aes Sedai ent�o o obrigou a se dobrar de volta e o enfiou de novo no ba�, a cabe�a mais uma vez entre os joelhos, agachado naquela pequena po�a de suor. A tampa se fechou, e a escurid�o o envolveu.</p><p>Ele s� ent�o remexeu o maxilar at� conseguir abrir a boca e soltou um suspiro longo e tr�mulo. N�o tinha certeza se, mesmo agora, conseguiria emitir qualquer som. Luz, estava pegando fogo!</p><p>O que Sevanna estava fazendo ali? Que acordo? N�o. Muito bem, tinha descoberto que havia algum acordo entre a Torre e os Shaido, mas depois se preocuparia com aquilo. Tinha que se concentrar em Min. Precisava escapar. Aquelas mulheres tinham machucado Min � um pensamento t�o terr�vel que quase abafava a dor. Quase.</p><p>Erguer outra vez o Vazio foi como cruzar um p�ntano de agonia, mas enfim viu-se rodeado daquele nada, tentando tocar <emphasis>saidin</emphasis>� apenas para encontrar Lews Therin na mesma prontid�o, dois pares de m�os tentando agarrar uma luz que apenas um deles conseguiria segurar.</p><p><emphasis>Que o queime!</emphasis>, rosnou Rand, na pr�pria cabe�a. <emphasis>Que o queime! Se pelo menos voc� trabalhasse ao meu lado uma vez na vida, em vez de ficar contra mim!</emphasis></p><p><emphasis>Trabalhe voc� comigo!</emphasis>, vociferou Lews Therin, em resposta.</p><p>Rand quase perdeu o Vazio, de t�o chocado. Era ineg�vel: Lews Therin tinha ouvido e respondido. <emphasis>Podemos trabalhar juntos, Lews Therin.</emphasis> N�o queria trabalhar junto com ele, queria que o homem sa�sse de sua cabe�a � mas precisava pensar em Min. E sabe-se l� quantos dias ainda teriam at� Tar Valon. Tinha a certeza de que, se elas conseguissem bot�-lo dentro da Torre, n�o haveria mais chances. Nunca mais.</p><p>A resposta veio na forma de uma risada apreensiva e indecisa. <emphasis>Juntos?</emphasis> Outra risada, completamente transtornada. <emphasis>Juntos. Seja l� quem voc� for.</emphasis> E a voz e a presen�a desapareceram.</p><p>Rand estremeceu. Ajoelhado ali, acrescentando suor � po�a onde sua cabe�a repousava, ele estremeceu.</p><p>Tentou tocar <emphasis>saidin</emphasis> outra vez, aos poucos� e deu de cara com a blindagem, claro. Bem, era ela que estava procurando, afinal. Bem devagar, com toda a delicadeza, tateou toda a extens�o daquela barreira invis�vel, at� onde o plano r�gido se transformava em pontos macios.</p><p><emphasis>Macios</emphasis>, declarou Lews Therin, ofegante. <emphasis>Porque elas ainda est�o aqui, sustentando a tessitura. Fica mais r�gido quando elas amarram os fluxos. N�o h� o que fazer quando os pontos ainda est�o assim, macios, mas consigo desfazer o n� se elas atarem os fluxos. Com algum tempo. </emphasis>A voz ficou em sil�ncio por tanto tempo que Rand achou que tivesse ido embora outra vez. <emphasis>Voc� � real?</emphasis>, sussurrou por fim. Ent�o foi embora de vez.</p><p>Aos poucos, com todo o cuidado, Rand foi tateando pela blindagem at� chegar aos pontos macios. As seis Aes Sedai. Com algum tempo? Isso se atassem os fluxos, o que ainda n�o acontecera em� o qu�? Seis dias? Sete? Oito? N�o importava. N�o podia se dar ao luxo de esperar tanto. Chegava mais perto de Tar Valon a cada dia. No dia seguinte tentaria romper a blindagem outra vez � tinha sido como esmurrar um bloco de pedra, mas esmurrara com toda a for�a. No dia seguinte, quando Erian o a�oitasse � tinha certeza de que seria ela �, abriria outro sorriso. Ent�o, quando a dor aumentasse, ele se permitiria gritar. No outro dia, n�o faria mais do que triscar a barreira, talvez com for�a suficiente para elas sentirem, por�m n�o mais que isso, e s� repetiria a tentativa depois de ver se seria ou n�o punido. Talvez implorasse por �gua. Tinha bebido um pouco ao anoitecer, mas estava com sede outra vez. Mesmo que o deixassem beber mais de uma vez ao dia, implorar seria adequado. Se ainda estivesse no ba�, talvez implorasse tamb�m para ser solto. Achava que estaria � n�o eram grandes as chances de que o libertassem por muito tempo sem ter certeza de que ele aprendera a li��o. Seus m�sculos se contorciam em c�imbras diante da ideia de mais dois ou tr�s dias enfiado ali. N�o havia espa�o para se mexer, mas o corpo tentava. Mais dois ou tr�s dias, e as Aes Sedai teriam certeza de que ele fora subjugado. Pareceria assustado e evitaria olhar as pessoas nos olhos, como um pobre coitado que poderia ficar fora do ba� sem oferecer riscos. Mais importante: um pobre coitado que elas n�o precisariam vigiar t�o de perto. Ent�o, talvez, elas decidissem que n�o precisavam de seis para manter a blindagem, ou que podiam simplesmente atar a trama ou� qualquer coisa. Precisava de alguma brecha. Qualquer coisa!</p><p>Era um plano desesperado. Percebeu que ria � ria e n�o conseguia parar. Tamb�m n�o conseguia parar de tatear a barreira, feito um cego desesperado deslizando os dedos por um peda�o de vidro liso.</p><empty-line/><p>Galina franziu o cenho depois que as Aiel foram embora, avan�ando at� o topo de uma montanha e desaparecendo do outro lado do cume. Cada uma daquelas mulheres, tirando a pr�pria Sevanna, conseguia canalizar, e muitas tinham for�a consider�vel. Sevanna decerto se sentira mais segura rodeada por aquela dezena de bravias � que engra�ado. Aquele bando de selvagens n�o era nada confi�vel. Dentro de poucos dias teria mais alguma serventia para elas, na segunda parte do �acordo� com Sevanna. A triste morte de Gawyn Trakand e a melhor parte da Jovem Guarda.</p><p>De volta ao centro do acampamento, encontrou Erian ainda vigiando o ba� de al�Thor.</p><p>� No caso, Galina, ele est� mesmo chorando � comentou a mulher, a voz feroz. � Est� ouvindo? Ele est� sim� � De repente, l�grimas come�aram a correr pelo rosto de Erian. Ela ficou ali, parada, solu�ando baixinho, agarrando as saias com os punhos cerrados.</p><p>� Vamos para a minha tenda � chamou Galina, em um tom tranquilizador. � Tenho um bom ch� de mirtilo e posso colocar um pano gelado e �mido na sua testa.</p><p>Erian sorriu em meio �s l�grimas.</p><p>� Obrigada, Galina, mas � melhor eu ir. Rashan e Bartol est�o me esperando. Eles est�o sofrendo mais do que eu, no caso. Al�m de sentirem meu sofrimento, eles sofrem porque sabem que eu sofro. Preciso consolar os dois. � Apertando a m�o de Galina de leve, agradecida, a Verde foi embora.</p><p>Galina franziu o cenho, encarando o ba�. Al�Thor de fato parecia chorar � ou isso, ou estava rindo, o que ela duvidava bastante. Olhou para Erian, que desaparecia no interior da tenda de seus Guardi�es. Ah, al�Thor ia chorar. Tinham pelo menos mais duas semanas at� Tar Valon e a entrada triunfal que Elaida planejara. Sim, pelo menos mais vinte dias. Dali para a frente, Rand seria punido todos os dias, ao amanhecer e ao anoitecer, n�o importava se Erian quisesse participar ou n�o. Quando o conduzisse at� a Torre Branca, Rand beijaria o anel de Elaida, s� falaria quando se dirigissem a ele e, quando n�o fosse requisitado, ficaria ajoelhado a um canto. Com o olhar firme, foi beber o ch� de mirtilo sozinha.</p><empty-line/><p>Quando entraram no bosque imenso, Sevanna virou-se para as outras, pensando em como era impressionante que agora encarasse as �rvores com tanta indiferen�a. Nunca tinha visto tantas �rvores juntas, e t�o grandes, antes de cruzar a Muralha do Drag�o.</p><p>� Voc�s viram todas os meios que elas usaram para prend�-lo? � perguntou, fazendo soar como se dissesse �todos�, em vez de �todas�.</p><p>Therava encarou as outras, que assentiram.</p><p>� Sabemos tecer tudo o que elas fizeram � anunciou a mulher.</p><p>Assentindo, Sevanna correu os dedos pelo cubinho de pedra com entalhes intrincados em seu bolso � o estranho aguacento que lhe dera aquilo a orientara a us�-lo quando al�Thor estivesse preso. E ela de fato pretendera usar, at� que viu al�Thor preso. Naquele momento, decidira jogar o cubo fora. Era vi�va de um chefe que fora a Rhuidean e de um homem que fora chamado de chefe sem ter feito essa visita. Agora seria a esposa do pr�prio <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Cada lan�a dos Aiel estaria presa a ela. Ainda sentia no dedo o pesco�o de al�Thor, onde tra�ara a linha da coleira que poria nele.</p><p>� Est� na hora, Desaine � anunciou.</p><p>Claro que Desaine apenas piscou, surpresa, e s� conseguiu gritar de susto antes que as outras iniciassem o trabalho. A mulher n�o parava de reclamar a respeito da posi��o de Sevanna, que decidira que poderia empregar melhor seu tempo do que ter que lidar com a mulher. Exceto por Desaine, todas as outras presentes a seguiam, e outras mais estavam a seu lado.</p><p>Sevanna ficou olhando o que as outras S�bias faziam. O Poder �nico a fascinava. Tantos feitos milagrosos realizados sem qualquer esfor�o� E era muito importante que ficasse claro que Desaine fora liquidada com o Poder. Ah, era t�o espantoso que um corpo humano pudesse ser despeda�ado espirrando t�o pouco sangue�</p></section><section><title><p>CAP�TULO 54</p><p><image l:href="#10"/></p><p>O chamado</p></title><p>O sol ainda era um brilho t�nue sobre a linha do horizonte, mas as ruas de Cairhien j� estavam apinhadas de gente comemorando o segundo dia do Festival das Luzes. A bem da verdade, as pessoas sequer tinham se recolhido � noite. A celebra��o deixava a multid�o em uma esp�cie de frenesi, e pouca gente dispensava mais que uma olhadela ao homem de barba crespa e rosto soturno, com o machado preso na cintura enquanto cavalgava um baio alto pelas ruas retas at� o rio. Mas alguns at� fizeram uma pausa para olhar seus companheiros de viagem. Ver Aiel andando por a� j� se tornara corriqueiro, por mais que o povo do Deserto mal tivesse posto o p� nas ruas desde o come�o das celebra��es, mas n�o era todo dia que se via um Ogier � a criatura mais alta que o homem a cavalo ainda por cima estava carregando um machado apoiado no ombro, o cabo quase de sua altura. A express�o do Ogier fazia o homem barbado parecer alegre.</p><p>Os navios no Alguenya estavam com as lanternas todas acesas, inclusive a embarca��o do Povo do Mar que gerara tamanho falat�rio � tanto por simplesmente estar ali em Cairhien quanto por permanecer todo aquele tempo ancorada quase sem contato com a costa. Segundo os rumores que Perrin tinha ouvido, o Povo do Mar via os acontecimentos recentes da cidade com ainda mais desaprova��o que os Aiel, e ele tinha achado que Gaul morreria de choque em ver tantos homens e mulheres se beijando. O fato de as mulheres estarem ou n�o vestidas incomodava muito menos Gaul do que ver todos se beijando no meio da rua, � vista de todos � aquilo para ele era uma indec�ncia.</p><p>Os embarcadouros compridos avan�avam sobre o rio, flanqueados por pared�es altos, com barcos de todos os tipos e tamanhos � incluindo balsas que conseguiriam levar at� cinquenta cavalos � amarrados ao longo dos p�eres de madeira, mas Perrin n�o viu nenhum com mais de um homem. Parou o baio ao chegar a uma embarca��o grande e sem mastro com seis ou sete bra�as de comprimento presa a uma das estacas de pedra. Um sujeito grisalho e corpulento, sem camisa, estava ali no deque, sentado em um barril, com uma mulher grisalha ostentando mais de cinco listras coloridas no decote do vestido escuro empoleirada em seus joelhos.</p><p>� Queremos cruzar o rio � anunciou Perrin, bem alto, tentando olhar apenas por tempo o suficiente para verificar se o casal parava de se agarrar. N�o pararam. Jogou uma coroa andoriana dentro da balsa, e o som da moeda pesada quicando no conv�s fez o sujeito erguer a cabe�a. � Queremos cruzar o rio � repetiu, mostrando uma segunda coroa de ouro na palma da m�o. Depois de um instante, acrescentou outra.</p><p>O balseiro umedeceu os l�bios.</p><p>� Vou ter que achar remadores � resmungou, encarando as moedas.</p><p>Com um suspiro, Perrin pegou mais duas coroas da bolsa � havia um tempo em que seus olhos teriam saltado das �rbitas s� de ver uma daquelas.</p><p>O balseiro deu um salto, e a mulher caiu sentada no ch�o com um baque surdo. Ele subiu a rampa correndo, ofegante, gritando que levaria s� um minutinho, milorde, s� um minutinho. A mulher encarou Perrin com um olhar cheio de reprova��o e saiu desfilando pelo embarcadouro � at� tentou ostentar uma postura digna enquanto avan�ava, mas o fato de ela ainda estar esfregando o ponto dolorido em que o traseiro batera no ch�o atrapalhou um pouco. A nobre n�o avan�ou muito antes de desistir, erguer as saias e sair correndo para se juntar a um grupo de dan�arinos que cabriolavam perto da margem. Perrin ouviu sua risada de longe.</p><p>Levou mais que um minutinho, mas a promessa de ouro parecia ter sido suficiente: em pouco tempo o balseiro tinha reunido homens suficientes para operar quase todos os remos compridos. Perrin foi afagando o nariz do baio enquanto a embarca��o sacolejava rio adentro. Ainda n�o decidira o nome do cavalo, que pegara no est�bulo do Pal�cio do Sol � a ferradura era boa e fora bem colocada, e o bicho de patas dianteiras brancas parecia tenaz, mas nem de longe tanto quanto Galope.</p><p>O arco de Dois Rios, desencordoado, estava enfiado de um dos lados da cilha da sela, e a aljava cheia pendia logo � frente da sela de patilha alta, sustentando um embrulho comprido, estreito e muito bem embalado � a espada de Rand. Faile fizera quest�o de embalar o fardo ela mesma e lhe entregara sem uma palavra. Ela s� se pronunciou depois que Perrin lhe deu as costas para ir, ao perceber que n�o ganharia um beijo de despedida.</p><p><emphasis>�Se voc� cair�, sussurrou ela, �vou assumir sua espada�.</emphasis></p><p>Ainda n�o sabia ao certo se ela pretendera ou n�o que ele ouvisse. O odor que Faile exalava era uma mix�rdia t�o intensa que Perrin n�o conseguiu distinguir nada.</p><p>Sabia que deveria estar concentrado no que estava prestes a fazer, mas Faile sempre dava um jeito de voltar a seus pensamentos. Em determinado ponto, teve certeza de que ela anunciaria que iria junto, e seu cora��o se apertou. Se Faile tivesse decidido ir, achava que n�o poderia ter se for�ado a recusar � afinal, n�o conseguiria negar nada a Faile, depois de tudo o que a fizera sofrer. Mas estavam indo ao encontro de seis Aes Sedai, e o conflito traria sangue e morte. Se Faile morresse, Perrin sabia que enlouqueceria. Achou que ela diria que ia junto quando Berelain anunciou que lideraria a Guarda Alada de Mayene no resgate. Por sorte, a ideia da Primeira fora posta de lado, ainda que de modo estranho.</p><p><emphasis>�Quantos rumores surgir�o se voc� deixar a cidade onde Rand al�Thor a colocou para fazer valer a vontade dele?�, perguntou Rhuarc, baixinho. �Quantos rumores n�o v�o surgir se enviar todas as suas lan�as? E o que pode nascer dessas hist�rias?�</emphasis></p><p><emphasis>Aquilo soava como um conselho, mas ao mesmo tempo, n�o � algo na voz do chefe de cl� conferia muito mais for�a �quelas simples perguntas.</emphasis></p><p><emphasis>Berelain encarou Rhuarc de cabe�a erguida, cheirando a teimosia. Mas o odor de teimosia aos poucos se esvaiu, e ela murmurou para si mesma:</emphasis></p><p><emphasis>��s vezes acho que tem homens demais que conseguem�� S� Perrin conseguiu ouvir. Sorrindo, ela declarou, com a voz bem alta e um tom bastante majestoso: �Esse � um conselho sensato, Rhuarc. Acho que vou segui-lo.�</emphasis></p><p>O mais not�vel, entretanto, fora a forma como os odores dela e do Aiel se mesclavam. Para Perrin lembravam um lobo macho e um filhote quase crescido, um pai indulgente e terno lidando com a filha amada, embora �s vezes ainda fossem necess�rios alguns pux�es de orelha para que a jovem se comportasse de maneira adequada. O mais importante, no entanto, foi ver a inten��o de se pronunciar desaparecer dos olhos de Faile. O que ele podia fazer? Se vivesse para ver a esposa outra vez, o que poderia fazer?</p><p>No come�o da travessia, os remadores, todos com roupas muito simples e alguns at� sem camisa, entoavam piadas grosseiras em tom quase amistoso sobre como ouro nenhum poderia comprar o que estavam perdendo. Eles riam enquanto andavam pelo conv�s a passadas largas, remando, todos alegando que estavam dan�ando ou trocando beijos com uma nobre quando foram interrompidos. Um sujeito magricela e de queixo pontudo at� afirmou que estava com uma nobre <emphasis>tairena</emphasis> no colo quando saiu para atender ao chamado de Manal, o balseiro, mas ningu�m acreditou � muito menos Perrin. Quando os tairenos viram o que estava acontecendo, a divis�o foi bem clara: os homens mergulharam de cabe�a na folia, mas as mulheres tinham se trancado nos quartos e botado guardas nas portas.</p><p>As piadas e brincadeiras n�o duraram muito. Gaul ficou o mais no centro do barco que podia, os olhos meio perturbados e fixos na costa ao longe, empoleirado nas pontas dos p�s como se estivesse pronto para saltar. Era toda aquela �gua, claro, mas os balseiros n�o tinham como saber daquilo. E Loial, apoiado na arma que encontrara no Pal�cio do Sol, um machado de cabo longo e com a cabe�a imensa toda ornamentada, mais parecia uma est�tua, o rosto largo dando a impress�o de ter sido esculpido em granito. Os balseiros fecharam o bico e remaram com toda a for�a, sem nem se atrever a olhar para os passageiros. Quando a balsa enfim atracou em um cais de pedra na margem oeste do Alguenya, Perrin deu ao dono da balsa � ao menos esperava que o homem fosse o dono da balsa � o restante do ouro e um punhado de prata para que repassasse aos remadores, para tentar compens�-los pelo medo que sentiram de Loial e Gaul. O homem gordo pegou as moedas tentando tocar nele o m�nimo poss�vel e fez uma mesura t�o profunda, apesar do tamanho da barriga, que a cabe�a quase encostou nos joelhos. Talvez n�o fossem s� as caras de Gaul e Loial que metiam medo.</p><p>Constru��es enormes, todas sem janelas, estavam envolvidas por andaimes de madeira, a pedra escurecida e avariada em v�rios pontos. Os celeiros tinham sido incendiados em motins, algum tempo antes, e s� agora estavam sendo reformados, mas n�o havia vivalma nas ruas cheias de celeiros, est�bulos, armaz�ns e p�tios de carro��es. Todos os trabalhadores dali encontravam-se na cidade. N�o havia ningu�m � vista, at� que, vindos de uma rua lateral, chegaram dois sujeitos a cavalo.</p><p>� Estamos prontos, Lorde Aybara � anunciou Havien Nurelle, entusiasmado.</p><p>O jovem de rosto corado, consideravelmente mais alto que seu companheiro, era bem espalhafatoso, com a placa peitoral e o capacete pintados de vermelho, al�m de uma �nica pluma vermelha bem fina no topo do elmo. Ele at� cheirava a empolga��o � empolga��o e juventude.</p><p>� J� estava achando que n�o viriam � resmungou Dobraine. O nobre estava sem capacete, usando manoplas com dorso de a�o e uma placa peitoral surrada, ainda com resqu�cios da antiga ornamenta��o dourada. Ele olhou para Perrin e acrescentou: � Pela Luz, Lorde Aybara, n�o foi minha inten��o lhe faltar com o respeito.</p><p>� Temos um longo caminho a percorrer � respondeu Perrin, virando o baio. Talvez Tenaz fosse um bom nome. E o que ele faria em rela��o a Faile? Sentia o pux�o de Rand, fazendo a pele formigar. � Elas j� t�m quatro dias de vantagem.</p><p>Cravou os calcanhares bem de leve e incitou Tenaz a um trote firme. Seria uma longa ca�ada, ent�o era melhor tomar cuidado para n�o dar aguamento nos cascos dos cavalos. Loial e Gaul n�o teriam a menor dificuldade de acompanhar o passo.</p><p>A maior das ruas retas virava a Estrada de Tar Valon � bem, era a Estrada de Tar Valon de Cairhien, mas havia outras �, uma larga faixa de terra batida que avan�ava para noroeste por entre colinas cobertas de florestas, mais baixas que as eleva��es onde Cairhien se assentava. Depois de avan�arem uma milha pela estrada, agora j� cercada de floresta, duzentos homens da Guarda Alada de Mayene e quinhentas cabe�as do ex�rcito da Casa Taborwin se juntaram a eles, todos montados nos melhores animais que conseguiram encontrar.</p><p>Os mayenenses usavam placas peitorais vermelhas e capacetes que pareciam ca�arolas, com abas que cobriam a nuca, e as lan�as ostentavam bandeirolas vermelhas. Muitos pareciam quase t�o �vidos quanto Nurelle. Os cairhienos, mais baixos, usavam placas peitorais lisas e capacetes feito sinos cortados, deixando � mostra os rostos severos, e a maioria de seus capacetes e placas estava amassada. As lan�as n�o ostentavam adornos, embora aqui e ali saltasse aos olhos o <emphasis>con</emphasis> de Dobraine � um quadrado pequeno e r�gido preso em um bast�ozinho azul com dois diamantes brancos, identificando os oficiais ou lordes menores da Casa Taborwin. Nenhum parecia �vido para lutar, apenas taciturno. J� tinham visto muitas batalhas. Em Cairhien, a express�o era �j� ter visto o lobo�.</p><p>Quando ficou sabendo da express�o, Perrin riu. Ainda n�o chegara a hora dos lobos.</p><p>Perto do meio-dia, um pequeno grupo de Aiel emergiu das �rvores e desceu correndo a colina at� a estrada. Duas Donzelas avan�aram para junto de Rhuarc. Eram Nandera e Sulin, que Perrin s� reconheceu depois de um tempo � a Aiel estava muito diferente no <emphasis>cadin�sor</emphasis>, com os cabelos brancos cortados rentes exceto pelo rabo de cavalo despontando da nuca. Parecia mais� � vontade, algo que jamais parecera no uniforme de servi�al. Amys e Sorilea vinham junto, os xales enrolados nos bra�os e os colares e braceletes de ouro e marfim tilintando. Embora erguessem as saias pesadas quando corriam colina acima, acompanhavam o passo das outras sem dificuldade.</p><p>Perrin desceu do cavalo para caminhar com eles, � frente de todos os outros.</p><p>� Quantos? � Foi sua �nica pergunta.</p><p>Rhuarc olhou para Gaul e Loial, que caminhavam ao lado de Dobraine e Nurelle, na dianteira da marcha. Mesmo que tivessem a audi��o de Perrin, estavam longe demais para ouvi-los, considerando o barulho dos cascos, o tilintar das r�deas e o chiado das selas, mas Rhuarc manteve a voz baixa.</p><p>� Cinco mil homens de sociedades diferentes, talvez um pouco mais. N�o consegui trazer muitos. Timolan j� ficou bastante desconfiado por eu n�o ter ido com ele enfrentar os Shaido. Se souberem que as Aes Sedai est�o mantendo o <emphasis>Car�a�carn </emphasis>prisioneiro, acho que a Desola��o vai engolir todos n�s. � Nandera e Sulin tossiram alto e cravaram os olhos uma na outra, mas Sulin logo desviou o olhar, enrubescida. Rhuarc, que cheirava a exaspera��o, apenas olhou r�pido para elas e murmurou: � Tamb�m tenho quase mil Donzelas. Se eu n�o tivesse mantido o pulso firme, teriam vindo todas correndo atr�s de mim, carregando uma tocha para gritar ao mundo que Rand al�Thor est� correndo perigo. � Ele endureceu a voz. � Qualquer Donzela que vier atr�s de n�s vai aprender como eu falo s�rio.</p><p>Sulin e Nandera coraram, algo dif�cil naqueles rostos queimados de sol.</p><p>� Eu� � come�aram as duas, no mesmo instante.</p><p>Trocaram olhares outra vez, e Sulin desviou o olhar de novo, o rosto ainda mais vermelho. Perrin n�o se lembrava de ver Bain e Chiad � as duas �nicas Donzelas que realmente conhecia � corando tanto.</p><p>� Eu prometi � retrucou Nandera, em um tom r�gido �, e <emphasis>todas</emphasis> as Donzelas entraram no juramento. Ser� como o chefe ordenou.</p><p>Perrin se absteve de perguntar o que era aquela tal de Desola��o, e tamb�m n�o quis saber como Rhuarc fizera os Aiel atravessarem o Alguenya sem balsas, considerando que uma grande barreira de �gua era a �nica coisa capaz de conter um Aiel. Teria gostado de saber, mas aquelas respostas n�o tinham muita import�ncia. Seis mil Aiel, quinhentos soldados do ex�rcito de Dobraine e duzentos homens da Guarda Alada. Isso tudo contra seis Aes Sedai, seus Guardi�es e cerca de quinhentos guardas � parecia ser o bastante. S� que as Aes Sedai estavam com Rand. Se o amea�assem com uma faca no pesco�o, quem ousaria erguer um bra�o?</p><p>� Tamb�m temos noventa e quatro S�bias � anunciou Amys. � S�o as mais fortes com o Poder �nico dentre as que est�o pr�ximas � cidade. � A frase saiu com relut�ncia, mas ela firmou a voz. Perrin achou que as Aiel n�o gostassem de admitir que tinham a capacidade de canalizar. � N�o ter�amos trazido tantas, mas todas quiseram vir. � Sorilea pigarreou, e foi a vez de Amys corar. Teria que perguntar sobre aquilo a Gaul. Os Aiel eram t�o diferentes de qualquer povo que j� conhecera� talvez come�assem a corar com a idade. � Sorilea est� na lideran�a � acrescentou a S�bia, e a mulher mais velha bufou, parecendo muito satisfeita. Sem d�vida exalava um cheiro muito satisfeito.</p><p>Perrin teve que evitar balan�ar a cabe�a. O que sabia sobre o Poder �nico cabia em um dedal, com espa�o de sobra para mais um polegar gorducho, mas viajara com Moiraine e vira o que Verin e Alanna eram capazes de fazer. Aquela chama de Sorilea� Se ela era uma das S�bias mais fortes com o Poder, n�o duvidava de que seis Aes Sedai conseguiriam embrulhar todas as noventa e quatro em uma trouxinha. Bem, �quela altura n�o podia dispensar nem um grupo de camundongos.</p><p>� Elas devem estar setenta ou oitenta milhas � frente � anunciou. � Talvez at� cem, se estiverem for�ando os carro��es. Temos que ir o mais r�pido poss�vel.</p><p>Enquanto montava de volta na sela, Rhuarc e os outros Aiel j� trotavam de volta colina acima. Perrin ergueu uma das m�os e Dobraine sinalizou para que os cavaleiros avan�assem. Nem lhe ocorreu cogitar por que homens com idade para ser seu pai e mulheres com idade para ser sua m�e, al�m de homens e mulheres acostumados a comandar, estavam seguindo seu comando.</p><p>Estava era preocupado com o deslocamento. Sabia que os Aiel de <emphasis>cadin�sor</emphasis> conseguiam acompanhar o ritmo dos cavalos, mas no come�o ficara apreensivo com as S�bias de saia, algumas talvez da idade de Sorilea. Bem, com ou sem saias, de cabelos brancos ou n�o, as S�bias avan�avam no mesmo passo r�pido que todos os outros, acompanhando os cavalos enquanto conversavam baixinho.</p><p>A estrada � frente estava vazia. Ningu�m viajava durante o Festival das Luzes, e mesmo nos dias que antecediam os festejos poucos pegavam a estrada, a menos que o assunto fosse t�o urgente quanto o dele. O sol subia, as colinas desciam, e, fim do dia, quando o grupo ergueu acampamento, Perrin estimou que deveriam ter avan�ado trinta e cinco milhas. Um bom dia de viagem, excelente para um grupo t�o grande � o dobro do que as Aes Sedai poderiam dar conta, a n�o ser que estivessem querendo matar as parelhas � frente dos carro��es. J� n�o se preocupava em alcan��-las antes de chegarem a Tar Valon, e sim com o que faria quando esse momento chegasse.</p><p>Deitado nos cobertores, a cabe�a acomodada na sela, Perrin sorriu para a lua crescente no c�u limpo. Se houvesse uma s� nuvem, a noite j� n�o seria t�o clara. Aquela era uma boa noite para a ca�a. Uma boa noite para os lobos.</p><p>Uma imagem se formou em sua mente: um jovem touro selvagem de pelo encrespado, imponente, com chifres lustrosos feito metal polido ao resplendor da manh�. Correu o polegar pelo machado que jazia a seu lado, com a l�mina curva mortal e a ponteira afiada. Os chifres de a�o do Jovem Touro � era como os lobos o chamavam.</p><p>Deixou a mente divagar, enviando a imagem noite adentro. Haveria lobos, e eles saberiam quem era o Jovem Touro. A not�cia de um humano capaz de falar com lobos correria pela terra t�o r�pido quanto o vento. Perrin conhecera apenas dois humanos como ele � um era seu amigo, o outro era um pobre coitado que n�o tinha conseguido preservar a humanidade. Ouvira relatos dos refugiados que chegavam em Dois Rios, contando hist�rias antigas de homens que viravam lobos, narrativas em que poucos acreditavam e que s� serviam para entreter crian�as. Tr�s deles, no entanto, afirmavam ter conhecido homens que se transformaram em lobos descontrolados, e, por mais que Perrin considerasse os detalhes estranhos, o desconforto com que dois deles evitavam seus olhos amarelos era quase uma confirma��o. Esses dois, uma mulher de Tarabon e um homem da Plan�cie de Almoth, n�o sa�am � noite. E n�o paravam de presente�-lo com comidas feitas com alho, que ele comia com grande prazer. Perrin j� n�o tentava encontrar outros como ele.</p><p>Sentiu lobos, e seus nomes come�aram a vir: Duas Luas, Fogo Selvagem, Velho Cervo e outros tantos vieram � sua mente em cascata. N�o eram bem nomes, e sim imagens e sensa��es. Jovem Touro era uma imagem bastante simples para denominar um lobo. Duas Luas era um pequeno lago refletindo o c�u da noite, a superf�cie lisa feito gelo instantes antes de a brisa soprar seu forte odor de outono, com uma lua cheia no alto e outra refletida t�o perfeitamente na �gua que era dif�cil dizer qual era a verdadeira. Essa era a imagem mais concisa poss�vel.</p><p>Durante um tempo houve apenas troca de nomes e odores. Ent�o Perrin pensou: <emphasis>Procuro gente mais � frente de mim. Aes Sedai e homens com cavalos e carro��es.</emphasis> N�o foi exatamente isso o que pensou, claro, assim como Duas Luas n�o era apenas a imagem de duas luas. As pessoas eram �duas-pernas�, e os cavalos foram definidos como �quatro-pernas de p�s-duros�. Aes Sedai eram �f�meas de duas-pernas que tocam o vento que move o sol e chama o fogo�. Os lobos n�o gostavam de fogo, e eram ainda mais cautelosos com as Aes Sedai do que com os outros humanos � achavam impressionante que ele n�o fosse capaz de distinguir facilmente uma Aes Sedai de uma mulher comum, e Perrin s� descobrira aquela capacidade dos lobos por acaso. Para eles, era uma habilidade t�o corriqueira quanto ele achava f�cil distinguir um cavalo branco entre uma tropa de pretos: nada que valesse men��o ou que pudesse ser explicado com clareza.</p><p>O c�u noturno parecia rodopiar em sua mente, de s�bito coroando um acampamento de carro��es, tendas e fogueiras. A imagem era um pouco distorcida � os lobos n�o ligavam muito para nada humano, ent�o os carro��es e as tendas eram vultos indistintos, enquanto as fogueiras pareciam rugir perigosamente e os cavalos tinham um ar bem apetitoso. Ainda por cima, a mensagem foi passando de lobo a lobo, at� chegar a ele. O acampamento era maior do que Perrin esperava, mas Fogo Selvagem n�o tinha d�vidas; sua matilha inclusive vinha margeando os arredores de onde estavam as �f�meas de duas-pernas que tocam o vento que move o sol e chama o fogo�. Perrin tentou perguntar quantas eram, mas os lobos n�o dominavam os n�meros � contavam quantas coisas havia mostrando quantas tinham visto, e Fogo Selvagem e sua matilha desistiram de se aproximar mais assim que notaram a presen�a de Aes Sedai.</p><p><emphasis>Longe quanto?</emphasis> Aquela resposta foi mais clara, ainda que precisasse pensar um pouco para decifr�-la. E tinha sido outra vez passada de lobo a lobo. Fogo Selvagem disse que conseguiria andar at� a colina onde estava um macho azedo chamado Meio Rabo, alimentando sua matilha com um cervo, no tempo em que a lua avan�ava determinado ponto no c�u. Meio Rabo anunciou que alcan�aria Fu�a de Coelho � um macho aparentemente jovem e muito feroz � enquanto a lua seguia o mesmo tanto, mas de um ponto a outro. E assim foi, at� que chegou a mensagem de Duas Luas, que sempre mantinha um sil�ncio digno, adequado a um macho velho com mais branco que preto no focinho. Ele e a matilha estavam a pouco mais de uma milha de dist�ncia de Perrin, e seria um insulto sugerir que Perrin n�o sabia exatamente onde estavam.</p><p>Calculando o melhor que p�de, Perrin chegou a um total de sessenta ou setenta milhas. No dia seguinte conseguiria dizer melhor a rapidez com que estava se aproximando. As Aes Sedai sem d�vida n�o estavam se deslocando t�o depressa quanto ele, n�o com os carro��es.</p><p><emphasis>Por qu�?</emphasis> A pergunta veio de Meio Rabo, trazendo seu odor marcante mesmo depois de passar por tantos lobos.</p><p>Perrin hesitou antes de responder. Era a parte que temia. Sentia o mesmo pelos lobos que pelo povo de Dois Rios. <emphasis>Elas enjaularam o Matador de Sombras</emphasis>, pensou, por fim. Era como os lobos chamavam Rand, mas n�o tinha ideia se consideravam Rand importante ou n�o.</p><p>O choque que assomou sua mente valeu como resposta, por�m a noite foi tomada de uivos, pr�ximos e distantes � uivos cheios de raiva e de medo. No acampamento, os cavalos relincharam, temerosos, batendo os cascos, encolhendo-se e repuxando as cordas das estacas. Alguns homens correram para acalm�-los, enquanto outros foram perscrutar a escurid�o, como se estivessem esperando o ataque de uma imensa matilha descendo das colinas.</p><p><emphasis>Estamos indo</emphasis>, anunciou Meio Rabo, por fim. S� isso. Ent�o outros responderam, matilhas com as quais Perrin j� conversara naquela noite e matilhas que tinham ouvido em sil�ncio, admirando o duas-pernas que sabia falar como os lobos. <emphasis>Estamos indo.</emphasis> Nada mais.</p><p>Perrin rolou de lado e dormiu. Sonhou que era um lobo percorrendo colinas intermin�veis. Na manh� seguinte, n�o havia nem sinal dos lobos, e nem mesmo os Aiel tinham visto algum. Mas Perrin podia senti-los, v�rias centenas deles e ainda mais a caminho.</p><p>O terreno foi se aplainando durante os quatro dias seguintes, at� que os aclives mais altos das colinas suaves sequer faziam jus ao nome �colina�, se comparados aos das cercanias do Alguenya. A floresta foi minguando at� se esvair em pastos marrons e ressequidos, com moitas cada vez mais espa�adas. Os rios e os c�rregos que agora cruzavam mal molharam os cascos dos cavalos, e j� eram pequenos antes daquela seca que os encolhera at� virarem rastros de �gua espremidos por entre ribanceiras de pedra e lama ressequida pelo sol. Todas as noites, os lobos contavam a Perrin a que dist�ncia as Aes Sedai estavam, que n�o era muita. A matilha de Fogo Selvagem as seguia, mas um pouco afastada. Uma coisa ficou bem clara: o grupo de Perrin sempre percorria a mesma dist�ncia do primeiro dia e a cada dia a diferen�a entre eles e as Aes Sedai diminu�a em cerca de dez milhas. Mas e quando as alcan�assem, o que fariam?</p><p>Todas as noites, antes de falar com os lobos, Perrin sentava-se com Loial, e os dois fumavam cachimbo e conversavam em voz baixa. Era sobre o �e ent�o� que Perrin queria conversar. Dobraine parecia ser a favor de atacar e morrer dando o melhor de si. Rhuarc dizia apenas que precisavam aguardar para ver como seria o dia de amanh� e que uma hora os homens deviam acordar do sonho, o que n�o era t�o diferente de Dobraine. Loial podia ser um Ogier jovem, mas tinha l� seus noventa e tantos � Perrin suspeitava de que Loial lera mais livros do que ele j� vira em toda a vida, e o Ogier sempre revelava conhecimentos surpreendentes em rela��o �s Aes Sedai.</p><p>� Existem muitos livros sobre a conduta das Aes Sedai em rela��o aos homens capazes de canalizar. � Loial franziu o cenho, a boca no cachimbo. O fornilho entalhado com folhas era do tamanho dos dois punhos de Perrin. � Elora, filha de Amar, filha de Coura, escreveu <emphasis>Homens de fogo e mulheres de ar</emphasis> logo no in�cio do reinado de Artur Asa-de-gavi�o. E Ledar, filho de Shandin, filho de Koimal, escreveu <emphasis>Um estudo sobre homens, mulheres e o Poder �nico entre humanos</emphasis> faz s� trezentos anos. Esses s�o os dois melhores, na minha opini�o. O de Elora em particular, j� que ela escrevia em um estilo de� n�o. Serei breve. � Perrin duvidava daquilo. A brevidade n�o estava nem de longe entre as virtudes de Loial quando o assunto era livros. O Ogier pigarreou. � Pela lei das Aes Sedai, o homem deve ser levado � Torre Branca para ser julgado antes de poder ser amansado. � As orelhas de Loial tremelicaram com for�a, e as sobrancelhas compridas desabaram, desanimadas, mas isso s� durou um instante: ele deu um tapinha no ombro de Perrin, em um esfor�o para consol�-lo. � N�o acho que seja essa a inten��o delas, Perrin. Ouvi dizer que essas Aes Sedai falaram que iam honr�-lo, e ele � o Drag�o Renascido. Elas sabem disso.</p><p>� Honrar? � perguntou Perrin, baixinho. � Talvez estejam botando Rand para dormir em len��is de seda, mas um prisioneiro � um prisioneiro.</p><p>� Tenho certeza de que o est�o tratando bem, Perrin. Tenho certeza. � O Ogier n�o parecia confiante, e seu suspiro saiu feito uma ventania retumbante. � E Rand est� seguro at� de fato chegar em Tar Valon. O que eu n�o entendo � como elas conseguiram captur�-lo. � Ele balan�ou a imensa cabe�a, claramente intrigado. � Perrin, tanto Elora quanto Ledar dizem que, quando as Aes Sedai encontram um homem muito poderoso, sempre re�nem treze para venc�-lo. Ah, elas recontam hist�rias de quatro ou cinco, e ambas mencionam Caraighan, que levou um homem at� a Torre sozinha, percorrendo mais de duas mil milhas, depois que ele matou seus dois Guardi�es. Mas� Perrin, eles escreveram sobre Yurian Arco-de-pedra e Guaire Amalasan; sobre Raolin Algoz-as-trevas e at� sobre Davian, mas s�o os dois primeiros que me preocupam. � Ele acabara de citar quatro dos homens mais poderosos dentre os que tinham afirmado ser o Drag�o Renascido, todos havia muito tempo, antes do imp�rio de Artur Asa-de-gavi�o. � Seis Aes Sedai tentaram capturar Arco-de-pedra, mas ele matou tr�s e capturou as outras. Seis tentaram derrotar Amalasan: ele matou uma e estancou mais duas. Rand sem d�vida � mais forte que Arco-de-pedra e Amalasan, ent�o ser� que s�o apenas seis, mais adiante? Isso explicaria muita coisa.</p><p>Talvez explicasse, mas n�o trazia nenhum consolo. Treze Aes Sedai conseguiriam derrotar, sozinhas, sem Guardi�es e guardas, qualquer ataque que Perrin preparasse. Treze Aes Sedai podiam amea�ar amansar Rand, caso Perrin atacasse. Claro que n�o amansariam � elas sabiam que Rand era o Drag�o Renascido, sabiam que ele precisava estar presente na �ltima Batalha �, mas Perrin n�o sabia se seria capaz de arriscar, com ou sem a lei da Torre. Ah, e quem conhecia os motivos por tr�s das atitudes das Aes Sedai? Nunca conseguira se for�ar a confiar nem mesmo em Aes Sedai que se mostravam amistosas � aquelas mulheres sempre guardavam segredos. Como um homem poderia ter certeza de qualquer coisa se as sentia tramando por suas costas, por mais que sorrissem na cara dele? Quem podia dizer o que as Aes Sedai fariam?</p><p>A bem da verdade, Loial n�o sabia de muita coisa que pudesse ajudar quando o dia chegasse e estava muito mais interessado em falar sobre Erith. Perrin sabia que ele deixara duas cartas com Faile, uma endere�ada � m�e e outra a Erith, para serem entregues assim que poss�vel, caso algo lhe acontecesse. O que Loial se desdobrou para garantir que n�o aconteceria � o Ogier sempre se preocupava muito em n�o alarmar os outros. Perrin escrevera sua pr�pria carta para Faile e Amys a levara para deixar com as S�bias no acampamento dos Aiel.</p><p>� Ela � t�o bonita � murmurou Loial, encarando a noite como se a visse diante de si. � Tem um rosto t�o delicado, mas ao mesmo tempo forte� Quando vi aqueles olhos dela, n�o consegui ver mais nada. E as orelhas! � As orelhas dele vibraram, e Loial engasgou no cachimbo. � Por favor � pediu, ofegante �, esque�a que eu mencionei� eu n�o devia ter falado das� voc� sabe que eu n�o sou um grosseir�o, Perrin.</p><p>� J� esqueci � respondeu Perrin, sem for�as. As <emphasis>orelhas</emphasis>?</p><p>Loial queria saber como era ser casado. N�o que tivesse qualquer inten��o de se casar t�o cedo, apressou-se em esclarecer. Ainda era muito jovem, tinha seu livro para terminar. N�o estava pronto para sossegar e nunca mais deixar o <emphasis>pouso</emphasis>, a n�o ser se fosse para visitar outro, como com certeza seria a vontade de uma esposa. S� estava curioso, s� isso. Mais nada.</p><p>Ent�o Perrin falou da vida com Faile, de como ela o arrancara de suas ra�zes sem ele nem perceber. Dois Rios j� tinha sido sua casa, mas sua casa agora era onde Faile estivesse. Pensar que ela o esperava quando voltasse o fazia apressar o passo. Sua presen�a iluminava o ambiente e seu sorriso apagava qualquer preocupa��o. Naturalmente, ele n�o podia falar sobre o sangue que fervia quando pensava nela, nem sobre o cora��o que disparava s� de olh�-la � n�o seria decente �, e sem d�vida n�o tinha inten��o de mencionar a preocupa��o que ela lhe trazia nos �ltimos tempos. O que ia fazer? Estava mesmo disposto a ajoelhar-se diante dela, mas sua teimosia ferrenha exigia que a mulher primeiro falasse com ele. Se pelo menos ela dissesse que queria que as coisas voltassem a ser como antes�</p><p>� E o ci�me dela? � perguntou Loial. Foi a vez de Perrin engasgar. � Todas as esposas s�o assim?</p><p>� Ci�me? � retrucou Perrin, tentando n�o se abalar. � Faile n�o � ciumenta. De onde voc� tirou isso? Ela � perfeita.</p><p>� Claro que sim � murmurou Loial, espiando o fornilho do cachimbo. � Voc� tem mais tabaco de Dois Rios? Depois deste aqui eu s� tenho uma folha cairhiena azeda.</p><p>Se tudo tivesse corrido daquele jeito, a jornada teria sido razoavelmente tranquila � ou t�o tranquila quanto era poss�vel tratando-se de uma ca�ada daquele porte. A terra passava sem vivalma � vista. O sol brilhava feito ouro fundido, verdade, o que deixava o ar um forno, mas muitos falc�es circundavam o c�u azul sem nuvens e os lobos, sem quererem humanos por perto, conduziam cervos para a estrada, muito mais do que um grupo grande precisaria para viver, e n�o era incomum avistarem machos imponentes de galhadas altas e cheias, junto com as f�meas e alguns filhotes, parados � plena vista. Mas havia um antigo ditado: �S� vive em paz quem n�o tem umbigo.�</p><p>Claro que os cairhienos n�o eram nada simp�ticos com os Aiel, sempre olhando de cara feia ou com desprezo escancarado. Mais de uma vez, Dobraine reclamou sobre eles estarem em n�mero doze vezes maior � o lorde respeitava as habilidades de luta daquele povo do Deserto, mas apenas como algu�m respeitaria o car�ter perigoso de uma horda de leopardos raivosos. Os Aiel n�o olhavam de cara feia e nem com desprezo, apenas deixavam claro que os cairhienos n�o eram nem dignos de nota. Perrin n�o ficaria surpreso se visse um Aiel tentando passar por cima de um cairhieno s� por se recusar a admitir que o sujeito existia. Rhuarc dizia que n�o haveria problemas entre os dois grupos, mas que isso dependia apenas dos Assassinos da �rvore. Dobraine dizia que n�o haveria problemas, mas que isso dependia apenas de os selvagens n�o se meterem em seu caminho. Perrin queria ter certeza de que os grupos n�o come�ariam a matar uns aos outros antes mesmo de chegarem �s Aes Sedai que estavam com Rand.</p><p>Nutria certa esperan�a de que os mayenenses pudessem servir de ponte entre os dois grupos, mas algumas vezes se arrependia de pensar assim. Os homens com placas peitorais vermelhas se davam bem com os mais baixos, de armadura lisa � Mayene e Cairhien nunca tinham declarado guerra entre si �, e tamb�m se entendiam com os Aiel � fora a Guerra dos Aiel, os mayenenses nunca tinham enfrentado o povo do Deserto. Dobraine era bem amistoso com Nurelle, com frequ�ncia partilhando a refei��o noturna, e Nurelle se habituara a ir fumar cachimbo com muitos dos Aiel, sobretudo Gaul. Era da� que vinha o arrependimento.</p><p>� Andei conversando com Gaul � comentou Nurelle, em um tom acanhado.</p><p>Era o quarto dia na estrada, e o sujeito se afastara do grupo de mayenenses para cavalgar ao lado de Perrin, na dianteira. Perrin escutava sem muita aten��o � Fogo Selvagem permitira que um dos machos mais jovens da matilha fosse espreitar as Aes Sedai, depois que o grupo come�ara as movimenta��es da manh�, e o lobo n�o conseguira farejar Rand. Ao que parecia, todos os lobos conheciam o cheiro do Matador de Sombras. Ainda assim, apesar de toda a incerteza do que Nuvens da Manh� vira, apenas um dos carro��es do grupo das Aes Sedai n�o parecia levar barris cobertos por lonas. Rand decerto estava dentro de algum carro��o, muito mais confort�vel e protegido do sol � Perrin j� estava pingando de suor.</p><p>� Ele estava me contando sobre a Batalha de Campo de Emond � prosseguiu Nurelle � e de sua campanha de Dois Rios. Lorde Aybara, eu ficaria muito honrado em ouvi-lo falar pessoalmente sobre suas batalhas.</p><p>Perrin de repente se empertigou na sela, encarando o garoto � n�o, n�o era um garoto, apesar das bochechas rosadas e da franqueza no rosto. Nurelle decerto tinha mais ou menos a sua idade. Mas o cheiro do homem, um cheiro vivaz e meio tr�mulo� Perrin quase ganiu. Sentira aquele mesmo odor nos garotos de casa, mas ser idolatrado como her�i por um homem de sua idade era quase mais do que ele podia tolerar.</p><p>Ainda assim, n�o teria se incomodado se aquilo tivesse sido o pior. J� esperava que os Aiel e os cairhienos n�o se dessem bem. J� esperava que um rapaz que nunca presenciara uma batalha fosse admirar algu�m que j� lutara contra Trollocs. O que esgotava seus nervos eram as coisas que ele n�o podia prever � o imprevis�vel podia agarr�-lo pelo p� quando menos se esperasse e quando voc� menos pudesse se dar ao luxo de se distrair.</p><p>Exceto por Gaul e Rhuarc, todos os Aiel usavam uma tira de tecido vermelho amarrado na testa, com o disco branco e preto logo acima das sobrancelhas. Perrin j� vira aquela tira em Cairhien e em Caemlyn, mas, quando perguntou a Gaul e depois a Rhuarc se era aquilo que os marcava como os tais <emphasis>siswai�aman</emphasis> de quem o chefe de cl� havia falado, ambos tentaram fingir que n�o sabiam do que se tratava, como se n�o conseguissem ver cinco mil homens com faixas vermelhas na testa. Perrin perguntou at� ao sujeito que parecia abaixo de Rhuarc no comando � Urien, um Reyn Duas Torres que ele j� conhecera muito tempo antes. Mas Urien tamb�m se fez de desentendido. Bem, Rhuarc tinha dito que s� poderia levar <emphasis>siswai�aman</emphasis>, ent�o era assim que Perrin os via, mesmo sem saber o que o nome significava.</p><p>O que de fato sabia era que poderia haver algum desentendimento entre os <emphasis>siswai�aman</emphasis> e as Donzelas. Perrin sempre farejava uma lufada de inveja quando alguns daqueles homens olhavam para as Donzelas. J� o odor de algumas das Donzelas olhando para os <emphasis>siswai�aman</emphasis> lembrava um lobo acocorado por sobre a carca�a de um cervo, sem querer que mais ningu�m da matilha desse uma mordida, nem que morresse engasgado por engolir tudo de uma vez. Perrin nem conseguia come�ar a decifrar o motivo, mas o cheiro l� estava e era bem forte.</p><p>Aquilo talvez fosse importante algum outro dia. Havia assuntos mais relevantes no momento. Durante os primeiros dois dias depois de sair da cidade, Sulin e Nandera se adiantavam toda vez que Rhuarc dizia qualquer coisa em rela��o �s Donzelas � e era sempre Sulin quem cedia, corando muito, mas ela sempre voltava a tentar tomar a dianteira na oportunidade seguinte. Na segunda noite, quando o grupo montou acampamento, as duas tentaram se matar com as pr�prias m�os.</p><p>Pelo menos, foi o que lhe pareceu. As duas se chutavam, socavam e se derrubavam no ch�o, e Perrin teve certeza de que algu�m acabaria com um bra�o quebrado� at� que a mulher em desvantagem conseguia se desvencilhar com um giro ou um golpe. Rhuarc o deteve quando ele tentou interferir, at� parecendo um pouco surpreso por ele querer se meter. Um bom n�mero de cairhienos e mayenenses se reuniu ao redor das duas para assistir e fazer apostas, mas nenhum Aiel sequer olhou para a luta, nem mesmo as S�bias.</p><p>Sulin enfim imobilizou Nandera de cara para baixo, um bra�o dobrado dolorosamente atr�s do corpo, ent�o agarrou-a pelos cabelos e bateu sua cabe�a no ch�o at� a mulher desabar, o corpo inerte. Sulin ficou um bom tempo olhando para baixo, encarando a mulher que acabara de vencer, ent�o jogou uma Nandera inconsciente por cima dos ombros e saiu cambaleante.</p><p>Perrin concluiu que Sulin tomaria a frente das conversas a partir de ent�o, mas n�o foi o caso. A mulher ainda estava sempre presente, mas era Nandera, cheia de hematomas, que respondia �s perguntas de Rhuarc e seguia suas ordens, enquanto Sulin, igualmente machucada, permanecia em sil�ncio e acatava qualquer comando da outra sem nem hesitar. Perrin s� co�ava a cabe�a e se perguntava se os olhos estavam mesmo certos: ser� que tinha se enganado a respeito de como a briga terminara?</p><p>As S�bias sempre avan�avam em grupos, todos variando em tamanho e com as integrantes sempre mudando. Ao fim do primeiro dia, Perrin percebeu que toda a movimenta��o na verdade se centrava em torno de duas mulheres: Sorilea e Amys. Ao fim do segundo dia, teve certeza de que as duas instigavam dois pontos de vista bastante diferentes, e havia muitas carrancas e olhares atravessados. De vez em quando Perrin as ouvia mencionarem as Aes Sedai, pescando fragmentos sobre �costume� e �batalha�, mas nunca entendia bem. Amys come�ou a recuar menos nas discuss�es, corando bem menos. �s vezes Rhuarc exalava um fraco odor de ansiedade ao olhar para a esposa, mas aquele era o �nico ind�cio de que estava ciente do que se passava. No terceiro acampamento montado fora da cidade, Perrin quase esperava que as duas S�bias fizessem uma reinterpreta��o da briga entre Sulin e Nandera.</p><p>Em vez disso, as duas apanharam um cantil e se afastaram um pouco, sentando-se sozinhas no ch�o e retirando os len�os da cabe�a, soltando os longos cabelos. Ficou olhando as duas sob a escurid�o, iluminadas apenas pelo fraco luar, mantendo dist�ncia suficiente para n�o bisbilhotar, nem que fosse por acidente, at� a hora de se deitar. Mas as duas apenas beberam �gua e conversaram. Na manh� seguinte, as S�bias ainda pareciam divididas em dois grupos, mas, antes que a comprida fileira completasse tr�s milhas de marcha, Perrin notou que tudo passara a se centrar em torno de Sorilea. De vez em quando ela e Amys se afastavam at� um canto da estrada para conversar, mas n�o se viam mais olhares atravessados. Se as duas fossem lobos, Perrin diria que algu�m desafiara o l�der da matilha e fora derrotado, mas, pelos odores que exalavam, Sorilea agora aceitara Amys quase como igual � coisa que nada condizia com os lobos.</p><p>No s�timo dia da partida de Cairhien, enquanto cavalgava sob o escaldante sol da manh�, Perrin se preocupava com qual seria a surpresa seguinte dos Aiel. Ser� que eles e os cairhienos passariam mais um dia sem se matarem? O que ele faria quando encontrasse as Aes Sedai, dali a mais dois ou tr�s dias?</p><p>Tudo isso sumiu de sua mente com um chamado de Meio Rabo. Um grande grupo de homens � e talvez de mulheres, mas os lobos tinham certa dificuldade em distinguir humanos machos de f�meas � estava a apenas algumas milhas a oeste, cavalgando depressa na mesma dire��o para onde Perrin seguia. Mas foi a silhueta dos dois estandartes erguidos acima da fileira em marcha que lhe chamou a aten��o.</p><p>N�o demorou a reunir Dobraine, Nurelle, Rhuarc, Urien, Nandera, Sulin, Sorilea e Amys.</p><p>� Sigam em frente � disse ao grupo, virando Tenaz para oeste. � Talvez alguns amigos venham se juntar a n�s, mas n�o queremos perder tempo.</p><p>O grupo de fato seguiu em frente enquanto ele se afastava, mas n�o o deixou sozinho. Perrin n�o cobrira nem um quarto de milha quando viu em seu rastro quase dez homens da Guarda Alada, o mesmo n�mero de cairhienos, pelo menos vinte Donzelas lideradas por Sulin e um n�mero igual de <emphasis>siswai�aman</emphasis> atr�s de um homem grisalho de olhos verdes e rosto p�treo. Perrin s� ficou surpreso por n�o ver uma ou duas S�bias.</p><p>� Amigos � resmungou Sulin, baixinho, trotando junto ao estribo dele. � Amigos que aparecem de repente, sem aviso, e ele do nada sabe que est�o chegando. � Ela ergueu os olhos para Perrin e falou, mais alto. � Prefiro n�o ver voc� repetir um feito como o de trope�ar nos len��is e cair de cara no ch�o.</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a, imaginando o que mais ela teria arranjado contra ele enquanto usava o disfarce de servi�al. Os Aiel eram estranhos.</p><p>Cavalgou por quase uma hora sob o sol, guiado pelos lobos, sem desviar do caminho. Ao chegar no topo de um aclive suave, n�o ficou surpreso com o que viu talvez duas milhas adiante: uma longa fileira encabe�ada por dois cavaleiros. Homens de Dois Rios trazendo � frente seu pr�prio estandarte da Cabe�a de Lobo Vermelha que oscilava sob a brisa leve. O que o surpreendeu foi que de fato havia mulheres no grupo � nove, pelo que contou �, al�m de alguns homens que Perrin tinha certeza de que n�o eram de Dois Rios. Mas o que o fez cerrar a mand�bula foi o segundo estandarte: a �guia Vermelha de Manetheren. Perdera a conta de quantas vezes orientara o grupo a n�o levar nenhum daqueles s�mbolos para fora de Dois Rios � uma das poucas coisas que n�o conseguira impedir apenas pela for�a de sua presen�a fora o hasteamento daquela bandeira. Ainda assim, a imagem imprecisa enviada pelos lobos mostrando os estandartes j� o preparara.</p><p>A fileira n�o demorou a ver Perrin e seus companheiros, claro; havia bons olhos naquele grupo. Os homens se aprumaram, � espera, e alguns at� tiraram os arcos das costas � os grandes arcos de Dois Rios, capazes de matar um homem a mais de trezentas passadas de dist�ncia.</p><p>� Ningu�m entra na minha frente � ordenou Perrin. � Eles n�o v�o atirar se me reconhecerem.</p><p>� Parece que esses olhos amarelos enxergam longe � comentou Sulin, em um tom inexpressivo. Alguns entre os outros o encaravam com uma express�o estranha.</p><p>� Fiquem atr�s de mim e pronto � retrucou Perrin, com um suspiro.</p><p>Enquanto se aproximava, na lideran�a daquele estranho grupo, os arcos que haviam sido erguidos foram baixados, e as flechas, desencaixadas. Ficou feliz em ver que Galope vinha com eles, mas sentiu um leve receio ao notar Andorinha � Faile n�o o perdoaria se ele deixasse a �gua preta se machucar. Seria bom voltar a montar o garanh�o castanho, mas talvez tamb�m ficasse com Tenaz. Um lorde podia se dar ao luxo de ter dois cavalos, mesmo um lorde com talvez menos de quatro dias de vida pela frente.</p><p>Dannil saiu cavalgando da fileira de Dois Rios, esfregando o bigode grosso, junto com Aram e as mulheres que vinham com eles. Perrin reconheceu os rostos de idade indefinida de Aes Sedai mesmo antes de distinguir Verin e Alanna, cavalgando na retaguarda. N�o conhecia nenhuma das outras, mas tinha certeza de quem eram, por mais que n�o soubesse como tinham chegado at� ali. Nove. Nove Aes Sedai poderiam ser de grande utilidade dali a tr�s ou quatro dias, mas at� onde podia confiar nelas? Eram nove, e Rand dissera a elas que s� poderiam enviar seis para Cairhien. Ele se perguntou qual delas seria Merana, a l�der.</p><p>Uma Aes Sedai de rosto quadrado com aspecto de fazendeira, apesar do rosto de idade indefinida, pronunciou-se antes que Dannil pudesse fazer isso. Ela montava uma �gua marrom lisa.</p><p>� Ent�o o senhor � Perrin Aybara. Lorde Perrin, devo dizer. Ouvimos falar muito do senhor.</p><p>� � uma surpresa encontrar o senhor aqui � completou uma mulher arrogante, por�m bela, com uma voz fria � com tantas companhias t�o singulares. � Ela cavalgava um cap�o escuro de olhar feroz, e Perrin podia apostar que o animal fora treinado como cavalo de batalha. � D�vamos por certo que o senhor ainda estaria adiante.</p><p>Ignorando as duas � uma devia ser Merana, e ainda n�o sabia ao certo o que responder �, Perrin olhou para Dannil.</p><p>� N�o que eu n�o esteja feliz em ver voc�s, mas como foi que chegaram at� aqui?</p><p>Dannil olhou de relance as Aes Sedai e afagou o bigode, ansioso.</p><p>� Partimos como o senhor disse, Lorde Perrin, e o mais r�pido poss�vel. Quer dizer, deixamos os carro��es e tudo, j� que parecia haver alguma raz�o para que o senhor tivesse sa�do t�o depressa. Ent�o Kiruna Sedai, Bera Sedai e as outras nos alcan�aram e disseram que Alanna conseguia encontrar Rand� quer dizer, o Lorde Drag�o� E, j� que o senhor estava com ele, achei que encontrar�amos o senhor onde ele estivesse, e n�o havia meio de saber se o senhor tinha sa�do de Cairhien, e� � Ele respirou fundo. � De todo modo, parece que elas estavam certas, n�o � mesmo, Lorde Perrin?</p><p>Perrin franziu o cenho, perguntando-se como Alanna podia encontrar Rand. Bem, devia mesmo poder, sen�o Dannil e os outros n�o estariam ali. Ela e Verin continuavam na retaguarda, junto de uma mulher esguia de olhos cor de mel que suspirava bastante.</p><p>� Eu sou Bera Harkin � anunciou a mulher de rosto quadrado �, e esta � Kiruna Nachiman. � Ela apontou para a companheira altiva. Ao que parecia, as outras ainda n�o careciam de apresenta��es. � Pode nos dizer por que est� aqui enquanto o jovem al�Thor� o Lorde Drag�o� est� a v�rios dias de dist�ncia a norte?</p><p>N�o precisava ponderar muito. N�o havia muito o que pudesse fazer para impedir aquelas nove de se juntarem �s Aes Sedai mais adiante, se era o que pretendiam. Mas ter nove Aes Sedai a seu lado�</p><p>� Ele foi capturado. Uma Aes Sedai chamada Coiren e pelo menos cinco outras est�o levando Rand para Tar Valon. Pelo menos � o que pretendem. Eu pretendo impedir isso. � Aquilo deixou todos chocados. Dannil arregalou os olhos, e as Aes Sedai come�aram a falar, todas ao mesmo tempo. Aram era o �nico que n�o parecia afetado, mas, por outro lado, parecia n�o ligar para qualquer coisa que n�o fosse Perrin e sua espada. Apesar das express�es tranquilas, as Aes Sedai exalavam cheiro de medo e ultraje.</p><p>� Precisamos impedi-las, Bera � disse uma mulher de cabelos enfeitados com tran�as e contas tarabonianas.</p><p>� N�o podemos permitir que ele caia nas m�os de Elaida, Bera � decidiu, ao mesmo tempo, uma cairhiena p�lida, montada em uma �gua baia e magricela.</p><p>� Seis? � perguntou a mulher de olhos cor de mel, incr�dula. � N�o teria como apenas seis o levarem. Tenho certeza.</p><p>� Eu falei que ele estava ferido � interveio Alanna, meio chorosa. Perrin conhecia aquele cheiro bem o bastante: era dor. � Eu falei.</p><p>Verin permaneceu em sil�ncio, mas cheirava a f�ria� e a medo.</p><p>Kiruna encarou o grupo de Perrin com um olhar sombrio e desdenhoso.</p><p>� E o senhor pretende impedir as Aes Sedai com isso, meu jovem? Verin n�o nos contou que o senhor era um tolo.</p><p>� Tem um pouco mais ainda avan�ando pela Estrada de Tar Valon � retrucou Perrin, em um tom seco.</p><p>� Ent�o voc�s podem se juntar a n�s � respondeu Kiruna, como se fizesse uma concess�o. � Isso ser� bom, Bera, n�o ser�? � A outra assentiu.</p><p>N�o conseguia entender por que a atitude de Kiruna o irritava tanto, mas n�o era hora de tentar descobrir.</p><p>� Tamb�m tenho trezentos arqueiros de Dois Rios que pretendo levar comigo. � Como Alanna podia saber se Rand estava ferido? � Voc�s Aes Sedai s�o bem-vindas a nos acompanhar.</p><p>As mulheres n�o gostaram nada de ouvir aquilo. Elas se afastaram um tanto para debater � nem mesmo Perrin conseguia ouvir, deviam estar usando o Poder �, e ele achou que seguiriam cavalgando sozinhas.</p><p>No fim das contas, as mulheres se juntaram a ele. Bera e Kiruna foram o caminho todo at� a estrada junto dele, uma de cada lado, alternando-se em repetir que a situa��o era perigosa e delicada demais e que ele n�o devia fazer nada que colocasse al�Thor em perigo. Bera, pelo menos, lembrou-se de chamar Rand de Drag�o Renascido algumas vezes. Bem, as duas deixaram uma coisa bem clara: Perrin n�o deveria dar um passo sequer sem consult�-las. Bera come�ou a demonstrar certa irrita��o por ele n�o repetir tudo o que ela dizia, mas Kiruna parecia achar que ele j� repetira. Perrin come�ou a se perguntar se cham�-las para ir junto tinha sido um erro.</p><p>Se as Aes Sedai ficaram impressionadas com o grupo de Aiel, mayenenses e cairhienos que avan�avam pela estrada, n�o deram sinais, nem no olhar e nem no odor. Ainda assim, acrescentaram seu bocadinho de borbulhas ao caldeir�o. Os mayenenses e os cairhienos pareciam bastante encorajados com a chagada de nove Aes Sedai e dezesseis Guardi�es e se curvavam em rever�ncias quase at� o ch�o sempre que uma das mulheres se aproximava. Donzelas e <emphasis>siswai�aman</emphasis> olhavam as mulheres como se esperassem ser pisoteados por elas, mas as S�bias, por mais que tivessem a express�o t�o pl�cida quanto as das Aes Sedai, exalavam ondas de pura f�ria. No come�o, as Aes Sedai ignoraram as S�bias por completo, exceto por uma Marrom chamada Masuri. Mas, depois de Masuri ser rejeitada pelo menos duas dezenas de vezes nos poucos dias seguintes � ela era persistente, mas as S�bias eram t�o r�pidas em evitar as Aes Sedai que Perrin achava que j� virara instintivo �, Bera, Kiruna e as outras passaram a encarar as S�bias e conversar entre si por detr�s de alguma barreira invis�vel e inacess�vel a seus ouvidos de lobo.</p><p>Teria bisbilhotado, se pudesse, j� que as mulheres tinham mais segredos do que sua conversa sobre as Aiel. Para come�ar, Alanna recusava-se a revelar como sabia onde Rand estava e sequer admitia ter afirmado que ele estava ferido. �Alguns conhecimentos acabariam com a mente de qualquer pessoa que n�o seja Aes Sedai�, retrucara, fria e misteriosa, mas exalando um cheiro forte e pungente de dor e ansiedade. Verin mal dirigia a palavra a ele, limitando-se a observar tudo com aqueles escuros olhos de ave e um sorrisinho misterioso, embora exalasse ondas de raiva e frustra��o. Pelo cheiro, achava que a l�der do grupo era Bera ou Kiruna � Bera, talvez, embora fosse por um triz e �s vezes a outra parecia assumir o controle por um tempo. Todos os dias, uma ou a outra vinha cavalgar do lado dele durante cerca de uma hora, repetindo varia��es dos �conselhos� originais e basicamente pressupondo que estavam no comando. Nurelle parecia concordar, seguindo as ordens delas sem sequer olhar para Perrin, e Dobraine s� se dava ao trabalho de olh�-lo antes de aquiescer. Perrin passou um dia e meio achando que Merana tinha permanecido em Caemlyn, e foi um choque ouvir quando chamaram a mulher esguia de olhos cor de mel daquele nome. Rand tinha dito que ela estava � frente da miss�o diplom�tica de Salidar, mas Perrin a identificou como o lobo de mais baixo status da matilha � por mais que as Aes Sedai parecessem iguais a quem olhasse de fora. Ela cheirava a ansiedade, resigna��o e desilus�o. N�o era surpresa que as Aes Sedai guardassem segredos, claro, mas pretendia resgatar Rand das m�os de Coiren e do bando mais � frente. E gostaria de poder saber se tamb�m precisaria resgat�-lo das m�os de Kiruna e suas companheiras.</p><p>Pelo menos era bom estar de volta com Dannil e os outros, ainda que eles fossem quase t�o servis em rela��o �s Aes Sedai quanto os mayenenses e os cairhienos. Os homens de Dois Rios ficaram t�o felizes em v�-lo que poucos resmungaram quando ele os mandou baixar a �guia Vermelha � seria erguida de novo, Perrin tinha certeza. Ainda assim, Tell, irm�o quase id�ntico de Dannil, exceto pelo nariz adunco e o bigode comprido � moda domanesa, dobrou o estandarte com todo o cuidado e o guardou nos alforjes. Naturalmente, o grupo ainda ostentava fl�mulas. Primeiro ia a Cabe�a de Lobo Vermelha dele � os homens teriam apenas ignorado se ele os mandasse guard�-la, e o olhar frio e desdenhoso de Kiruna o fazia querer exibir seu estandarte. Dobraine e Nurelle tamb�m estenderam seus estandartes, posto que j� havia um � mostra. N�o era o Sol Nascente de Cairhien nem o Gavi�o Dourado em voo de Mayene: cada um trouxera um par dos emblemas de Rand � o Drag�o vermelho e dourado no fundo branco e o disco branco e preto no fundo carmesim. Os Aiel n�o pareciam se importar, fosse como fosse. As Aes Sedai encararam aquilo com bastante frieza, mas as ins�gnias pareciam apropriadas a Perrin.</p><p>No d�cimo dia, com o sol j� quase a meio caminho do meio do c�u, Perrin sentia-se taciturno, a despeito dos estandartes, dos homens de Dois Rios e da garupa de Galope. O grupo alcan�aria os carro��es das Aes Sedai logo depois do meio-dia, mas ele ainda n�o sabia o que faria. Foi quando veio o chamado dos lobos. <emphasis>Venha agora. Muitos duas-pernas. Muitos, muitos, muitos! Venha agora!</emphasis></p></section><section><title><p>CAP�TULO 55</p><p><image l:href="#15"/></p><p>Po�os de Dumai</p></title><p>Cavalgando � frente da coluna, Gawyn tentava se concentrar na paisagem. Com seus amontoados de �rvores esparsas, aquele tipo de terreno com colinas suaves era plano o bastante para fazer qualquer um pensar que era capaz de enxergar a uma dist�ncia bem longa, quando, na verdade, alguns daqueles morros baixos e espinha�os longos n�o eram assim t�o baixos quanto pareciam. Naquele dia, o vento vinha levantando ondas de poeira, e a poeira tamb�m podia esconder muita coisa. Os Po�os de Dumai se localizavam � direita dele junto da estrada, tr�s po�os de pedra num pequeno bosque. Os barris de �gua precisavam ser enchidos, e faltavam ao menos quatro dias para verem �gua de novo, isso se a Fonte Alianelle n�o tivesse secado, mas Galina dera ordens para que n�o parassem. Gawyn tentava manter a aten��o onde deveria, mas n�o conseguia.</p><p>De tempos em tempos, ele se virava na sela, olhando para tr�s para aquela longa fila de carro��es serpenteando a estrada, com Aes Sedai e Guardi�es cavalgando lado a lado, e servi�ais que n�o estavam nos carro��es vindo a p�. A maior parte da Jovem Guarda estava no fim da fila, onde Galina ordenara que ficassem. Gawyn n�o conseguia ver o �nico carro��o descoberto no centro da coluna, sempre acompanhado de perto por seis Aes Sedai a cavalo. Se pudesse, Gawyn teria matado al�Thor, mas o que aquelas mulheres vinham fazendo o enojava. At� Erian se recusara a participar depois do segundo dia, e a Luz sabia que ela tinha seus motivos para odiar al�Thor. Galina, por�m, estava irredut�vel.</p><p>Ele firmou o olhar � frente e tocou na carta de Egwene no bolso do casaco, onde ela se encontrava cuidadosamente envolta em camadas e camadas de seda. S� umas poucas palavras para dizer que o amava, mas que precisava partir de repente. Nada mais. Ele a lia cinco ou seis vezes por dia. Ela n�o citou a promessa dele. Bem, Gawyn nunca levantara a m�o contra al�Thor. Ele ficara em choque ao descobrir que o homem estava preso e que j� estava aprisionado havia v�rios dias quando ficou sabendo. Ele precisaria dar um jeito de fazer Egwene entender. Havia lhe prometido que n�o tocaria em um fio de cabelo do homem, e pretendia manter a promessa mesmo se isso lhe custasse a vida, mas tampouco moveria uma palha para ajud�-lo. Egwene tinha que entender. Luz, esperava que ela entendesse.</p><p>O suor escorria pelo seu rosto, e ele enxugou os olhos com a manga da roupa. No que se referia a Egwene, ele ainda n�o podia fazer nada al�m de rezar. Quanto a Min, podia. Precisava dar um jeito de ajud�-la. Ela n�o merecia ser levada para a Torre como uma prisioneira. Ele n�o conseguia acreditar no que estava acontecendo. Se os Guardi�es pelo menos afrouxassem o cerco, ele poderia� De repente, Gawyn notou um cavalo galopando de volta pela estrada em meio a ondas de poeira em dire��o aos carro��es, aparentemente sem ningu�m montado.</p><p>� Jisao � ordenou ele �, mande os condutores dos carro��es pararem. Hal, fale para Rajar deixar a Jovem Guarda a postos. � Sem dizer nada, os dois deram meia-volta em seus cavalos e sa�ram galopando. Gawyn ficou esperando.</p><p>Aquele era o cap�o cinza de Benji Dalfor, e, � medida que o animal foi se aproximando, Gawyn p�de ver Benji, curvado e agarrado � crina do cavalo. O cap�o quase passou por Gawyn antes que ele conseguisse tomar as r�deas.</p><p>Benji virou a cabe�a sem se endireitar e, com olhos vidrados, olhou para Gawyn. Havia sangue ao redor da boca e um dos bra�os apertava o peito como se o homem estivesse tentando se manter inteiro.</p><p>� Aiel � murmurou ele. � Milhares. Por todos os lados, eu acho. � De repente, ele sorriu. � Frio hoje, n�o� � Sua boca jorrou sangue, e ele tombou na estrada, os olhos fixos, sem piscar, no sol.</p><p>Gawyn deu meia-volta em seu garanh�o e galopou at� os carro��es. Mais tarde haveria tempo para enterrar Benji, se algum deles sobrevivesse.</p><p>Galina cavalgou ao seu encontro, a sobrecapa de linho drapejando atr�s dela, os olhos escuros ardendo em f�ria naquele rosto sereno. Ela estava permanentemente furiosa desde o dia seguinte ao que al�Thor tentou escapar.</p><p>� Quem voc� pensa que �, dando ordens para os carro��es pararem? � indagou ela.</p><p>� H� milhares de Aiel se aproximando de n�s, Aes Sedai. � Ele conseguiu manter um tom de voz educado. Pelo menos os carro��es foram contidos e a Jovem Guarda estava entrando em forma��o, mas os condutores corriam os dedos pelas r�deas de modo impaciente, os servi�ais espiavam tudo enquanto se abanavam e as Aes Sedai conversavam com os Guardi�es.</p><p>Os l�bios de Galina se retorceram de desd�m.</p><p>� Seu tolo. S�o s� os Shaido. Sevanna disse que nos traria uma escolta. Mas, se voc� duvida, pegue a sua Jovem Guarda e v� ver voc� mesmo. Estes carro��es v�o continuar seguindo em dire��o a Tar Valon. J� passou da hora de voc� entender que sou eu quem d� as ordens aqui, n�o�</p><p>� E se n�o forem os seus Aiel mansinhos? � N�o era a primeira vez nos �ltimos dias que ela sugeria que ele pr�prio encabe�asse um grupo de batedores. Gawyn suspeitava que, se o fizesse, encontraria Aiel, e nada mansos. � Quem quer que sejam, eles mataram um dos meus homens. � Pelo menos um, j� que ainda havia seis batedores investigando o terreno. � Talvez voc� devesse considerar a possibilidade de que sejam os Aiel de al�Thor vindo resgat�-lo. Quando come�arem o ataque, j� vai ser tarde demais.</p><p>Foi s� ent�o que ele se deu conta de que estava gritando, mas a raiva de Galina acabou desaparecendo. Ela deu uma olhada para o ponto da estrada em que Benji estava ca�do e, em seguida, assentiu devagar.</p><p>� Talvez n�o seja insensato ter cautela desta vez.</p><empty-line/><p>Rand lutava para respirar. O ar dentro do ba� lhe parecia denso e quente. Por sorte, ele j� n�o conseguia mais sentir o fedor. Jogavam um balde d��gua fria nele todas as noites, mas aquilo n�o chegava a ser um banho e, por um tempo, depois que fechavam a tampa em cima dele a cada manh� e o trancavam l� dentro, o mau cheiro de mais um dia exposto ao sol quente lhe feria o nariz. Manter-se no Vazio demandava esfor�o. Seu corpo estava coberto pelas marcas do chicote dos ombros aos joelhos, e elas j� ardiam antes mesmo de o suor come�ar a escorrer, como dez mil chamas tremeluzindo no limiar do Vazio, tentando consumi-lo. � dist�ncia, a ferida n�o cicatrizada na lateral do corpo latejava, mas a vacuidade ao seu redor amea�ava desaparecer a cada pontada. Alanna. Ele conseguia sentir Alanna. Perto. N�o. N�o podia perder tempo pensando nela. Mesmo que ela o tivesse seguido, seis Aes Sedai n�o seriam capazes de libert�-lo. Isso se n�o decidissem se unir a Galina. N�o podia confiar nela. Nunca mais confiaria em uma Aes Sedai. De todo modo, talvez ele estivesse imaginando coisas. �s vezes, preso ali dentro, ele imaginava coisas, brisas frescas, caminhadas. �s vezes, seu pensamento se perdia de tudo e, tendo alucina��es, ele andava em liberdade. Apenas andava. Horas desperdi�adas. Rand lutava para respirar e come�ou a examinar a blindagem escorregadia como gelo que o apartava da Fonte. Apalpava repetidamente aqueles seis pontos macios. Macios. Ele n�o conseguia parar. Era importante continuar examinando.</p><p><emphasis>Escuro</emphasis>, lamuriou-se Lews Therin nas profundezas da mente de Rand. <emphasis>Chega de escurid�o. J� chega.</emphasis> Repetidas vezes. Mas sem incomodar tanto. Desta vez, Rand s� o ignorou.</p><p>De repente, Rand perdeu o f�lego. Sentiu o ba� se mover, rangendo alto ao escorregar pelo carro��o. J� era noite? A carne a�oitada se encolheu de maneira involunt�ria. Haveria outra surra antes que ele fosse alimentado, depois viria o balde d��gua e ele ent�o seria amarrado para dormir do jeito que conseguisse. Mas ele estaria fora da caixa. A escurid�o em torno dele n�o era total, estava mais para um cinza profundo. A min�scula fresta ao redor da tampa permitia a entrada da mais t�nue nesga de luz, embora ele n�o pudesse ver nada com a cabe�a enfiada entre os joelhos, ademais de seus olhos a cada dia demorarem tanto para enxergar qualquer coisa al�m da escurid�o quanto seu nariz demorava para se acostumar ao mau cheiro. Ainda assim, devia ser noite.</p><p>Rand n�o p�de deixar de soltar um gemido quando o ba� virou. N�o havia espa�o para deslizar, mas ele se mexeu, for�ando m�sculos j� doloridos al�m da conta. Sua diminuta pris�o chocou-se com for�a contra o ch�o. A tampa n�o demoraria a se abrir. Quantos dias sob o sol escaldante? Quantas noites? Perdera a conta. Esta vez seria qual? Rostos giravam em sua mente. Ele gravara o rosto de cada mulher que se revezou para a�oit�-lo. �quela altura, eram uma confus�o s�. Lembrar-se de qual delas veio antes ou depois parecia al�m das suas capacidades. Mas ele sabia que Galina, Erian e Katerine tinham sido as mais frequentes, as �nicas que vieram mais de uma vez. Seus rostos reluziam na mente dele com uma luz selvagem. Com que frequ�ncia queriam ouvir seus gritos?</p><p>Foi de repente que Rand se deu conta de que, �quela altura, o ba� j� deveria ter sido aberto. Ser� que elas pretendiam deix�-lo ali a noite inteira e depois sob o sol do dia seguinte e� M�sculos doloridos e extenuados demais para se mover deram um jeito de se impulsionar freneticamente.</p><p>� Me tirem daqui! � berrou ele, a voz rouca. Cheios de dor, os dedos arranharam o ba� �s suas costas sem qualquer efeito. � Me tirem daqui! � gritou. Pensou ter ouvido a risada de uma mulher.</p><p>Durante um tempo, chorou, mas suas l�grimas logo secaram para, como uma fornalha, se transformar em f�ria. <emphasis>Me ajude,</emphasis> rosnou ele para Lews Therin.</p><p><emphasis>Me ajude,</emphasis> gemeu o homem. <emphasis>Que a Luz me ajude.</emphasis></p><p>Resmungando de modo sombrio, Rand voltou a sentir �s cegas aquela �rea plana e lisa at� os seis pontos macios. Mais cedo ou mais tarde, elas o deixariam sair. Mais cedo ou mais tarde, arrefeceriam a guarda em cima dele. E quando o fizessem� Ele nem percebeu quando come�ou a soltar uma gargalhada rouca.</p><empty-line/><p>Rastejando pelo aclive, Perrin espiou por cima do pico e viu uma cena digna dos sonhos do Tenebroso. Os lobos haviam lhe dado certa no��o do que esperar, mas no��es empalideciam diante da realidade. A talvez uma milha de onde ele se encontrava deitado sob o sol do meio-dia, uma imensa montanha de Shaido cercava inteiramente o que parecia ser um c�rculo de carro��es e homens reunidos em um pequeno grupo de �rvores n�o muito longe da estrada. V�rios carro��es j� tinham sido incendiados, as chamas dan�ando ao longe. Bolas de fogo, algumas pequenas como um punho e outras grandes como pedregulhos, alvejavam os Aiel e explodiam em bolhas de fogo, transformando dezenas deles em tochas vivas de uma s� vez. Rel�mpagos irrompiam de um c�u sem nuvens, fazendo voar terra e figuras indistintas trajando o <emphasis>cadin�sor</emphasis>. Entretanto, os raios prateados dos rel�mpagos tamb�m atingiam os carro��es, e os Aiel tamb�m atiravam suas bolas de fogo. Boa parte das chamas se dissipava de repente ou explodia antes de atingir o alvo, muitos dos raios se interrompiam de repente, mas, embora a batalha parecesse pender ligeiramente a favor das Aes Sedai, a mera quantidade de Shaido acabaria se provando devastadora.</p><p>� Deve haver umas duzentas ou trezentas mulheres canalizando ali embaixo, se n�o mais. � Kiruna, deitada ao lado dele, soava impressionada. Sorilea, ao lado da irm� Verde, com certeza parecia estar. A S�bia cheirava a preocupa��o. N�o medo, mas uma esp�cie de apreens�o. � Nunca vi tantas tessituras juntas � prosseguiu a Aes Sedai. � Acho que h� pelo menos trinta irm�s no acampamento. Voc� nos trouxe para um caldeir�o fervendo, jovem Aybara.</p><p>� Quarenta mil Shaido � resmungou um emburrado Rhuarc do outro lado de Perrin. Tinha at� cheiro de emburrado. � Pelo menos quarenta mil, o que explica, tarde demais, por que eles n�o mandaram mais para o sul.</p><p>� O Lorde Drag�o est� l� embaixo? � perguntou Dobraine, olhando por cima de Rhuarc. Perrin assentiu. � E voc� pretende ir at� l� e traz�-lo para c�? � Perrin tornou a fazer que sim com a cabe�a, e Dobraine suspirou. Cheirava a resigna��o, n�o medo. � N�s vamos entrar na batalha, Lorde Aybara, mas n�o acredito que vamos sair. � Rhuarc aquiesceu ao ouvir o coment�rio.</p><p>Kiruna olhou para os homens.</p><p>� Voc�s est�o vendo que n�o estamos em n�mero suficiente. Nove. Mesmo que suas S�bias sejam capazes de canalizar alguma coisa, n�o somos o bastante para fazer frente �quilo. � Sorilea bufou alto com desd�m, mas Kiruna manteve os olhos onde estavam.</p><p>� Ent�o d� meia-volta e cavalgue para o sul � disse-lhe Perrin. � N�o vou deixar Rand cair nas garras de Elaida.</p><p>� �timo � retrucou Kiruna, sorrindo. � Porque eu tamb�m n�o vou. � Perrin gostaria que o sorriso dela n�o lhe desse arrepios. Claro que, tivesse ela visto o olhar mal�volo que Sorilea direcionou �s suas costas, ela pr�pria tamb�m poderia ter ficado arrepiada.</p><p>Perrin apontou para as pessoas que se encontravam na base do espinha�o, e Sorilea e a Verde escorregaram colina abaixo at� que pudessem voltar a se levantar, para dispararem em dire��es opostas.</p><p>O que eles tinham n�o era bem um plano. Em resumo, a ideia era dar um jeito de alcan�ar Rand, libert�-lo de alguma forma e depois torcer para que ele n�o estivesse ferido demais para abrir um port�o para quem pudesse escapar com ele antes que os Shaido e as Aes Sedai no acampamento conseguissem mat�-los. Sem d�vida, n�o passavam de pequenos obst�culos para o her�i de uma hist�ria ou um caso contado por um menestrel, mas Perrin gostaria de ter tido tempo para um plano de verdade, n�o s� o que ele, Dobraine e Rhuarc haviam formulado com o chefe de cl� correndo o mais r�pido que podia em meio aos cavalos dos tr�s. Entretanto, tempo era uma das muitas coisas que eles n�o tinham. N�o havia como afirmar se as Aes Sedai da Torre seriam capazes de conter os Shaido nem mesmo por mais uma hora.</p><p>Divididos em duas companhias, os primeiros a se deslocar foram os homens de Dois Rios e a Guarda Alada, uns cercando a p� as S�bias, e os outros, as Aes Sedai e os Guardi�es a cavalo. Atravessaram o espinha�o pela direita e pela esquerda. Dannil permitiu que voltassem a carregar o estandarte da �guia Vermelha, al�m da Cabe�a de Lobo Vermelha. Rhuarc nem olhava na dire��o em que Amys caminhava n�o muito longe do cap�o escuro de Kiruna, mas Perrin escutou o homem murmurar �Que possamos ver o sol nascer juntos, sombra do meu cora��o�.</p><p>Os homens de Dois Rios e os mayenenses dariam cobertura �s S�bias e �s Aes Sedai caso batessem em retirada, ou talvez fosse o contr�rio. Em todo caso, Bera e Kiruna n�o pareceram gostar do plano e queriam muito estar junto de Rand.</p><p>� Tem certeza de que n�o vai a cavalo, Lorde Aybara? � perguntou Dobraine do alto de sua sela. Para ele, o pensamento de lutar a p� era quase ofensivo.</p><p>Perrin deu um tapinha no machado pendurado em sua cintura.</p><p>� Isto aqui n�o tem muita serventia em cima de um cavalo. � Tinha, na verdade, mas ele n�o queria expor nem Galope nem Tenaz ao que vinha pela frente. Homens podiam escolher se queriam ou n�o se lan�ar no meio de armas e da morte e, como era ele que decidia pelos seus cavalos, naquele dia escolheu n�o os expor ao perigo. � Quem sabe voc� n�o me empresta um estribo quando chegar a hora. � Como cairhienos faziam pouco uso de infantaria, Dobraine ficou chocado, mas logo pareceu entender e fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Est� na hora de os flautistas tocarem � avisou Rhuarc, levantando o v�u negro, embora ali n�o fosse haver nenhum flautista tocando, o que desagradou alguns dos Aiel. Muitas das Donzelas n�o gostavam das tiras de pano que foram obrigadas a amarrar em torno do bra�o para que os aguacentos as distinguissem das Donzelas Shaido. Elas pareciam achar que qualquer pessoa deveria saber s� de olhar.</p><p>Formando uma coluna compacta, <emphasis>siswai�aman</emphasis> e Donzelas com v�us negros come�aram a correr encosta acima, e Perrin desceu com Dobraine para onde Loial j� se encontrava de p� � frente dos cairhienos, as duas m�os agarradas com firmeza ao machado e as orelhas apontadas para tr�s. Aram tamb�m estava l�, a p� e armado com a espada. O antigo Latoeiro exibia um sorriso ansioso. Por detr�s dos estandartes g�meos de Rand, Dobraine acenou com os bra�os para que eles avan�assem, e as selas rangeram quando uma pequena floresta de quinhentas lan�as foi escalando ao lado dos Aiel.</p><p>Nada mudara na batalha, o que foi uma surpresa para Perrin, at� ele se dar conta de que s� alguns momentos haviam se passado desde a vez anterior que a observara. O intervalo parecera bem maior. A grande massa de Shaido ainda pressionava as for�as encurraladas, carro��es ainda eram queimados, talvez mais do que antes, os rel�mpagos continuavam caindo do c�u, e o fogo voava em bolas e vagalh�es.</p><p>Os homens de Dois Rios estavam quase em posi��o, com os mayenenses, as Aes Sedai e as S�bias, deslocando-se praticamente sem pressa pela plan�cie de colinas suaves. Perrin os teria mantido mais para tr�s para dar a eles mais chance de escaparem quando chegasse a hora, mas Dannil continuou insistindo que eles precisavam se aproximar e se posicionar a pelo menos trezentas passadas para que seus arcos fossem eficazes, e Nurelle se mostrara igualmente ansioso para n�o ficar para tr�s. At� as Aes Sedai, que Perrin estava convencido de que s� precisavam estar perto o bastante para enxergar com clareza, haviam insistido em se aproximar mais. Nenhum dos Shaido notara a presen�a deles. Ou pelo menos ningu�m apontava para a amea�a que se aproximava devagar por tr�s deles. Ningu�m virara o corpo para encar�-los. Todos pareciam concentrados em investir contra o c�rculo de carro��es, recuando momentaneamente diante do fogo e dos rel�mpagos, mas logo voltando a atacar. Bastaria que um deles olhasse para tr�s, mas o inferno � frente prendia a aten��o deles.</p><p>Oitocentas passadas. Setecentas. Os homens de Dois Rios desmontaram e empunharam os arcos. Seiscentas. Quinhentas. Quatrocentas.</p><p>Dobraine sacou sua espada e ergueu-a bem alto.</p><p>� Ao Lorde Drag�o, a Taborwin e � vit�ria! � bradou, e o grito ecoou de quinhentas gargantas no momento em que as lan�as se posicionaram.</p><p>Perrin s� teve tempo de agarrar o estribo de Dobraine antes que o cairhieno avan�asse com toda a f�ria. As longas pernas de Loial acompanhavam os cavalos passada a passada. Deixando o cavalo pux�-lo com passos e saltos compridos, Perrin enviou a mensagem mental. <emphasis>Venham</emphasis>.</p><p>Um solo coberto com vegeta��o marrom, � primeira vista vazio, de repente revelou cerca de mil lobos, grande parte deles esguios lobos marrons da plan�cie, mas tamb�m seus primos mais escuros e mais pesados da floresta, correndo rente ao ch�o para, com os dentes arreganhados, pular nas costas dos Shaido assim que as primeiras flechas compridas de Dois Rios come�aram a chover sobre os inimigos mais adiante. Uma segunda leva logo j� se arqueava bem alto. Mais rel�mpagos ca�am junto com as flechas, e novas bolas de fogo surgiram. Os Shaido velados que se viravam para enfrentar os lobos s� tiveram alguns instantes para perceber que os animais n�o eram a �nica amea�a antes que uma lan�a Aiel robusta e o machado dos lanceiros cairhienos lhes perfurassem.</p><p>Sacando seu machado, Perrin investiu contra um Shaido que vinha em sua dire��o e, enquanto o homem ca�a, saltou por cima dele. Eles tinham que alcan�ar Rand. Tudo dependia daquilo. Ao lado de Perrin, o grande machado de Loial se ergueu, desceu e girou, abrindo caminho com viol�ncia. Aram parecia dan�ar com sua espada, gargalhando ao sair cortando todos os que se punham � sua frente. N�o havia tempo para pensar em mais ningu�m. Perrin manejava o machado de forma met�dica, e era como se derrubasse madeira, n�o carne. Ele tentava n�o ver o sangue que jorrava, mesmo quando seu rosto ficou molhado pelos respingos resultantes de seus golpes. Precisava alcan�ar Rand. Ele estava abrindo um caminho entre arbustos espinhosos, s� isso.</p><p>Perrin s� pensava no pr�ximo homem � sua frente. Escolhia sempre pensar neles como homens mesmo quando a altura indicava que podia se tratar de uma Donzela. N�o estava convencido de que poderia girar aquela l�mina em meia-lua que gotejava em vermelho caso se permitisse pensar que estava atacando uma mulher. Apesar do esfor�o para n�o ver al�m, outras coisas acabavam chamando a aten��o enquanto ele abria caminho � frente. O golpe prateado de um rel�mpago lan�ou vultos de <emphasis>cadin�sor</emphasis> pelos ares, alguns usando o len�o escarlate, outros n�o. Um outro raio arremessou Dobraine de cima do cavalo. O cairhieno se p�s de p� com dificuldade, golpeando com a espada em todas as dire��es. O fogo envolveu um grupo de cairhienos e Aiel, homens e cavalos transformados em tochas a berrar, no caso dos que ainda conseguiam faz�-lo.</p><p>Tudo isso se passava diante dos olhos de Perrin, mas ele n�o se permitia ver nada. Diante dele s� havia os homens, os arbustos que deveriam ser podados com os machados dele e de Loial e com a espada de Aram. Foi quando ele avistou algo que lhe tirou a concentra��o: um cavalo empinando e um cavaleiro caindo, sendo puxado da sela enquanto lan�as Aiel o perfuravam. Um cavaleiro com uma armadura peitoral vermelha. E havia mais um das Guardas Aladas, al�m de um punhado deles, investindo suas lan�as, com a pluma de Nurelle tremulando acima do elmo. No momento seguinte, ele viu Kiruna, o rosto sereno e despreocupado, andando feito uma rainha das batalhas por um caminho aberto para ela por tr�s Guardi�es e pelos fogos que lhe saltavam das pr�prias m�os. E l� estava Bera e, um pouco mais al�m, Faeldrin, Masuri e� O que, sob a Luz, todas elas estavam fazendo ali? O que qualquer uma delas fazia ali? Elas deviam estar com as S�bias!</p><p>De algum lugar � frente ouviu-se o reverberar de uma explos�o, como o estampido de um trov�o rasgando o alarido de gritos e berros. Logo depois, um feixe de luz apareceu a menos de vinte passadas dele, fatiando v�rios homens e um cavalo feito uma imensa navalha que foi se alargando at� virar um port�o. Um homem de casaco preto empunhando uma espada saltou de dentro dele e caiu no ch�o com uma lan�a Shaido atravessada no peito, mas, no momento seguinte, mais oito ou nove e, armados com espadas, brotaram l� de dentro enquanto o port�o se dissipava, formando um c�rculo ao redor do homem morto. Com mais do que espadas, na verdade. Alguns dos Shaido que vinham em disparada at� eles sucumbiam diante das l�minas, mas outros explodiam em chamas. Cabe�as estouravam feito mel�es arremessados de certa altura contra uma pedra. A talvez cem passadas � frente, Perrin achou ter visto um outro c�rculo de homens de casaco preto cercados por fogo e morte, mas n�o teve tempo de investigar. Shaido tamb�m j� o cercavam.</p><p>Colocando-se costas com costas com Loial e Aram, ele retalhava e golpeava desesperadamente. �quela altura, n�o havia como avan�ar. Tudo o que ele podia fazer era permanecer ali de p� onde estava. O sangue pulsava em seus ouvidos, e ele era capaz de escutar a si mesmo lutando para respirar. Tamb�m conseguia escutar Loial, que resfolegava feito um imenso fole. Com seu machado, Perrin tratou de desviar para o lado a investida de uma lan�a, rasgou um outro Aiel com o cravo quando girou o machado de volta, segurou a ponta de uma lan�a com a m�o sem nem se preocupar com o corte sangrento que ela abriu, e partiu um rosto coberto pelo v�u negro. Achava que eles n�o iriam resistir por tanto tempo. Cada polegada do seu corpo s� se concentrava em permanecer vivo por mais um piscar de olhos. Praticamente cada polegada. Um cantinho da sua mente guardava uma imagem de Faile e o pensamento triste de que ele n�o seria capaz de se desculpar por n�o voltar para ela.</p><empty-line/><p>Curvado dolorosamente dentro do ba�, Rand tateava, ofegante, a blindagem entre ele e a Fonte. Gemidos flutuavam pelo Vazio, uma f�ria sinistra e um medo pulsante deslizando por seu limiar. Ele j� n�o tinha mais certeza absoluta do que era dele e o que era de Lews Therin. De repente, sua respira��o congelou. Seis pontos, mas um deles tinha ficado r�gido. N�o macio. R�gido. E, a seguir, um segundo. E um terceiro. Uma gargalhada �spera lhe preencheu os ouvidos. Era dele, percebeu ap�s alguns momentos. Um quarto n� se enrijeceu. Ele esperou, tentando conter o que soava desconfortavelmente como uma risadinha demente. Os dois �ltimos pontos permaneceram macios. A gargalhada abafada desapareceu.</p><p><emphasis>Elas v�o sentir</emphasis>, gemeu Lews Therin, desesperado. <emphasis>Elas v�o sentir e chamar as outras de volta.</emphasis></p><p>Rand percorreu os l�bios rachados com a l�ngua quase igualmente seca. Toda a �gua em seu corpo parecia ter ido para o suor que deslizava pelo seu corpo e fazia arder as marcas do a�oite. Se ele falhasse, n�o haveria uma segunda chance. Ele n�o podia esperar. Talvez nem houvesse uma segunda chance, afinal.</p><p>Com toda a cautela, ele tateou �s cegas os quatro pontos r�gidos. N�o havia nada concreto ali, assim como a pr�pria blindagem n�o era algo que ele pudesse sentir ou enxergar, mas, de alguma forma, ele foi capaz de sentir <emphasis>o contorno</emphasis> daquele nada, sentir sua forma. Como se fossem n�s. Em um n�, independentemente de qu�o apertado ele estivesse, sempre havia espa�o entre as cordas, espa�os mais finos que um fio de cabelo por onde apenas o ar poderia passar. Devagar, muit�ssimo devagar, e meio desajeitado, ele tateou um daqueles espa�os e se espremeu pelas frestas infinitesimais entre o que nem parecia estar ali. Devagar. Faltava quanto tempo para as outras voltarem? Se elas come�assem tudo de novo antes que ele encontrasse uma maneira de escapar por aquele labirinto tortuoso� Devagar. E, de repente, Rand foi capaz de sentir a Fonte, como se a ro�asse com a unha, a pontinha da unha. <emphasis>Saidin</emphasis> ainda estava al�m dele � a blindagem ainda estava l�, aquela barreira invis�vel �, mas ele conseguia sentir Lews Therin se enchendo de esperan�a. Esperan�a e trepida��es. Duas Aes Sedai continuavam segurando suas partes da blindagem, ainda conscientes do que prendiam ali.</p><p>Rand n�o teria sido capaz de explicar o que fez em seguida, embora Lews Therin tivesse dado uma explica��o enquanto emergia por alguns instantes das suas pr�prias fantasias loucas, entre imensos rompantes de f�ria e as lam�rias por sua Ilyena perdida, entre as algaravias de que merecia morrer e os gritos de que n�o permitiria que o apartassem da Fonte. Era como se ele flexionasse o que tinha estendido por dentro do n�, flexionasse o m�ximo que pudesse. O n� resistiu. Tremeu. E ent�o, explodiu. S� havia cinco. A blindagem se afinou. Ele conseguia senti-la diminuir. Uma parede invis�vel de apenas cinco tijolos, n�o seis. As duas Aes Sedai tamb�m deviam ter sentido, apesar de talvez n�o terem entendido bem o que aconteceu, ou como. Por favor, Luz, n�o agora. Ainda n�o.</p><p>Bem depressa, de modo quase fren�tico, ele foi atacando um dos n�s restantes de cada vez. O segundo se dissipou e a blindagem se enfraqueceu. �quela altura, o processo ficava mais r�pido a cada n�, como se ele estivesse pegando o jeito, embora esse jeito fosse diferente a cada n�. O terceiro se foi. E um terceiro ponto macio apareceu. Talvez as Aes Sedai n�o soubessem o que ele estava fazendo, mas n�o ficariam de bra�os cruzados enquanto a blindagem se enfraquecia. Em um ritmo verdadeiramente fren�tico, Rand se p�s a desatar o quarto n�. Precisava desat�-lo antes que uma quarta irm� viesse ajudar na blindagem. Quatro poderiam dar conta de mant�-la, n�o importando o que ele fizesse. Quase aos prantos, ele se esfor�ou para vencer as curvas complexas enquanto deslizava entre o nada. Enlouquecido, flexionou-se e arrebentou o n�. A blindagem ainda resistia, mas era mantida apenas por tr�s pontos. Se ele conseguisse se mover r�pido o bastante�</p><p>Quando Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis>, a barreira invis�vel ainda estava l�, mas j� n�o parecia feita de pedra ou tijolo. A blindagem foi cedendo � medida que ele for�ou, curvando-se com a press�o dele, curvando-se, curvando-se. De repente, rompeu-se diante dele feito tecido apodrecido. O Poder o preencheu e, enquanto fazia isso, ele agarrou aqueles tr�s pontos macios e os estra�alhou sem piedade com punhos de Esp�rito. Com exce��o daquilo, ele continuava sendo capaz de canalizar s� onde enxergava, e tudo o que conseguia enxergar, e mal, era o interior do ba�, e s� o que ele conseguia ver dele com a cabe�a presa entre os joelhos. Antes mesmo que terminasse de usar os punhos de Esp�rito, canalizou Ar. O ba� explodiu para longe dele com um ruidoso estrondo.</p><p><emphasis>Livre,</emphasis> Lews Therin suspirou aliviado em um eco do pensamento de Rand. <emphasis>Livre</emphasis>. Ou talvez fosse ao contr�rio.</p><p><emphasis>Elas v�o me pagar,</emphasis> grunhiu Lews Therin. <emphasis>Eu sou o Senhor da Manh�.</emphasis></p><p>Rand sabia que precisava se mover ainda mais r�pido, mais r�pido e com mais viol�ncia, por�m, de in�cio, nem conseguiu se mexer. M�sculos surrados duas vezes por dia por sabia-se l� quanto tempo, e presos dentro de um ba� todos os dias, eram m�sculos que gritavam quando ele rangeu os dentes e, bem devagar, se ergueu at� se apoiar nas m�os e nos joelhos. Era um grito distante, o corpo de uma outra pessoa doendo, mas ele n�o era capaz de fazer aquele corpo se mover mais depressa independentemente de qu�o mais forte <emphasis>saidin</emphasis> o fazia se sentir. A vaziez embotava a emo��o, mas algo pr�ximo do p�nico tentava se espalhar pelo Vazio como trepadeiras.</p><p>Ele se viu num grande amontoado de �rvores esparsas, com fachos largos de luz do sol passando por entre galhos quase desfolhados, e ficou chocado ao ver que ainda estava claro, e talvez fosse at� meio-dia. Ele precisava se mexer. Mais Aes Sedai estariam a caminho. Duas encontravam-se ca�das no solo perto dele, aparentemente inconscientes, uma delas com um corte s�rio na testa. A terceira, uma mulher magra, estava ajoelhada olhando para o nada, agarrando a cabe�a com as m�os e gritando a plenos pulm�es. Parecia ter escapado ilesa dos estilha�os e dos peda�os do ba�. Rand n�o reconheceu nenhuma das tr�s. Um instante de arrependimento por n�o ter sido nem Galina nem Erian que ele estancara � n�o tinha certeza de que tivera a inten��o de fazer aquilo, j� que Lews Therin falara em detalhes a respeito de como pretendia apartar permanentemente cada uma das que o haviam aprisionado. Rand esperava que tivesse sido ideia dele mesmo, ainda que precipitada � apenas um instante, e ele avistou um outro vulto estirado no ch�o, coberto por peda�os do ba�. Trajava cal�as e casaco cor-de-rosa.</p><p>A mulher magra n�o olhou para ele e n�o parou de soltar seu grito esgani�ado nem quando Rand, por acidente, empurrou-a por cima da borda baixa de pedra de um po�o ao passar rastejando por ela. Desesperado, ficou se perguntando por que ningu�m atendia aos gritos dela. Na metade do caminho at� Min, ele reparou nos rel�mpagos vindos do c�u e nas bolas de fogo explodindo l� no alto. Conseguia sentir o cheiro da madeira queimando, ouvir os homens berrando, o ru�do do metal, a cacofonia da batalha. N�o se importava se j� era Tarmon Gai�don. Se tivesse matado Min� Ele a virou com gentileza.</p><p>Grandes olhos escuros fitaram-no.</p><p>� Rand. � Ela suspirou. � Voc� est� vivo. Eu estava com medo de olhar. Ouvi um barulho horroroso, vi peda�os de madeira voando por toda parte, ent�o reconheci uma parte do ba� e� � L�grimas come�aram a escorrer por suas bochechas. � Pensei que elas tinham� Fiquei com medo de que voc� � Ela esfregou o rosto com as m�os atadas e respirou fundo. Os tornozelos tamb�m estavam amarrados. � N�o vai me desamarrar, pastor de ovelhas, e abrir um dos seus port�es para bem longe daqui? Ali�s, n�o precisa perder tempo me desamarrando. S� me jogue por cima do seu ombro e vamos embora daqui.</p><p>Com destreza, Rand manejou Fogo e consumiu as cordas que a prendiam.</p><p>� N�o � t�o simples assim, Min. � Aquele local n�o era familiar. Um port�o aberto ali poderia dar em qualquer lugar, isso caso se abrisse. Se ele conseguisse abrir um. A dor e a fadiga flutuavam nas extremidades do Vazio. Rand n�o tinha certeza de quanto Poder seria capaz de canalizar. De repente, notou que conseguia sentir <emphasis>saidin</emphasis> sendo canalizado em todas as dire��es. Por entre as �rvores, depois dos carro��es em chamas, podia ver os Aiel lutando contra Guardi�es e os soldados de casaco verde de Gawyn, sendo empurrados para tr�s pelo fogo e pelos rel�mpagos das Aes Sedai, mas, ainda assim, tornando a investir. De algum modo, Taim o encontrara e trouxera soldados Asha�man e Aiel. � Ainda n�o posso ir. Acho que alguns amigos vieram atr�s de mim. N�o se preocupe. Eu vou proteger voc�.</p><p>Uma labareda prateada pontuda rachou uma �rvore ao meio no limiar do bosque, perto o bastante para fazer o cabelo de Rand balan�ar. Min tomou um susto.</p><p>� Amigos � murmurou ela, esfregando os pulsos.</p><p>Ele gesticulou para que ela permanecesse onde estava � exceto por aquele �nico raio perdido, o matagal parecia intacto �, mas, quando deu um jeito de se p�r de p�, l� estava ela, segurando-o pela lateral do corpo. Cambaleando at� a linha de �rvores esparsas, ele ficou grato pelo apoio dado por Min, mas obrigou-se a se endireitar e parou de se escorar nela. Como ela poderia acreditar que ele a protegeria se precisava dela para n�o cair de cara no ch�o? Apoiar a m�o no tronco destro�ado da �rvore atingida pelo rel�mpago ajudou. Filetes de fuma�a subiam do local, que, mesmo assim, n�o se incendiara.</p><p>Os carro��es formavam um grande c�rculo em torno das �rvores. Alguns dos servi�ais pareciam estar tentando manter os cavalos juntos � todas as parelhas ainda permaneciam atreladas �, mas a maior parte se escondia onde podia na esperan�a de evitar toda aquela f�ria caindo do c�u. Na verdade, tirando aquele �nico raio, parecia que todos os ataques visavam os carro��es e os homens em batalha. Talvez as Aes Sedai tamb�m. Elas se mantinham sentadas em seus respectivos cavalos, um pouco afastadas da confus�o de lan�as, espadas e chamas, mas n�o t�o longe assim, e, por vezes, se punham de p� nos estribos para enxergar melhor.</p><p>Rand logo identificou Erian, uma figura esguia e de cabelos escuros montada em uma �gua cinza-claro. Lews Therin soltou um rosnado e Rand atacou quase sem pensar. Enquanto fazia isso, sentiu o desapontamento do outro homem. Esp�rito para blind�-la, com uma t�nue resist�ncia que indicava que sua liga��o com <emphasis>saidar</emphasis> fora cortada, e, mesmo depois de amarrar os fluxos que manteriam a blindagem, formou um porrete de Ar para derrub�-la da sela e deix�-la inconsciente. Se ele decidisse estanc�-la, queria que ela soubesse quem estava fazendo aquilo e por qu�. Uma das Aes Sedai gritou para algu�m ajudar Erian, mas ningu�m olhou na dire��o das �rvores. Nenhuma delas conseguia sentir <emphasis>saidin</emphasis>. Todas achavam que ela havia sido derrubada por algo vindo de fora dos carro��es.</p><p>Os olhos de Rand fizeram uma varredura entre as outras mulheres a cavalo e se detiveram em Katerine, virando seu cap�o baio de pernas compridas para um lado e para o outro, o fogo ardendo entre os Aiel para onde quer que ela olhasse. Esp�rito e Ar, e, desacordada, ela desabou, um dos p�s preso no estribo.</p><p><emphasis>Isso</emphasis>, gargalhou Lews Therin. <emphasis>E agora Galina. Eu quero ela, em especial.</emphasis></p><p>Rand fechou os olhos com for�a. O que estava fazendo? Era Lews Therin quem queria tanto aquelas tr�s que n�o conseguia pensar em outra coisa. Rand queria vingan�a pelo que tinham feito com ele, mas uma batalha estava acontecendo, homens morriam enquanto ele perdia tempo ca�ando Aes Sedai espec�ficas. Donzelas morriam tamb�m, sem d�vida.</p><p>Ele capturou a Aes Sedai seguinte, vinte passadas � esquerda de Katerine, com Esp�rito e Ar, e ent�o foi para tr�s de outra �rvore e derrubou Sarene Nemdahl, inconsciente e blindada. A passos lentos, ele cambaleou pela linha das �rvores, atacando aqui e ali como um ladr�o furtivo. Min parou de tentar apoi�-lo, ainda que o perseguisse de m�os erguidas, prontas para agarr�-lo caso ele vacilasse.</p><p>� Elas v�o ver a gente � murmurou Min. � Uma delas vai olhar em volta e reparar na gente.</p><p><emphasis>Galina</emphasis>, grunhiu Lews Therin. <emphasis>Onde ela est�?</emphasis></p><p>Rand o ignorou, bem como Min. Coiren tombou, al�m de duas outras cujos nomes ele n�o sabia. Ele ia ajudar como pudesse.</p><p>As Aes Sedai n�o tinham como saber o que estava acontecendo. Ao longo de todo o c�rculo de carro��es, irm�s desabavam subitamente de cima dos seus cavalos. As que permaneciam acordadas se espalharam ainda mais, tentando cobrir todo o per�metro, passando a cavalgar com certa ansiedade, redobrando a f�ria com que o fogo inflamava os Aiel e com que os rel�mpagos irrompiam no c�u. S� podia ser algo externo, mas as Aes Sedai sucumbiam sem saber como nem por qu�.</p><p>Seus contingentes diminu�am, e os efeitos come�avam a ficar evidentes. Menos clar�es cortavam o ar, e mais rel�mpagos desabavam em meio aos Guardi�es e soldados. Menos bolas de fogo explodiam ou desapareciam de repente antes de alcan�ar os carro��es. Aiel amea�avam passar entre os carro��es, e alguns deles chegaram a ser virados. Poucos momentos depois, havia Aiel de v�us negros por toda parte, e o caos reinava. Rand observava a cena, pasmo.</p><p>Guardi�es e soldados de casaco verde lutavam em grupos contra os Aiel, e Aes Sedai se cercavam de chuvas de fogo. Mas tamb�m havia Aiel enfrentando Aiel, homens com o len�o escarlate dos <emphasis>siswai�aman</emphasis> e Donzelas com faixas vermelhas amarradas nos bra�os se defrontavam com Aiel no <emphasis>cadin�sor</emphasis> habitual. E lanceiros cairhienos com seus elmos em forma de sino e mayenenses com armaduras peitorais vermelhas tamb�m surgiram subitamente em meio aos carro��es, investindo contra Aiel e tamb�m contra Guardi�es. Ser� que ele acabara enlouquecendo, no fim das contas? Mas Rand sentia Min, pressionada contra as costas dele, tremendo. Ela era real. O que ele estava vendo devia ser real.</p><p>Cerca de uma dezena de Aiel, cada qual t�o ou mais alto que Rand, disparou na dire��o dele. N�o usavam nada vermelho. Rand os observou com curiosidade at� que, a menos de uma passada, um deles ergueu uma lan�a ao contr�rio como se fosse uma clava. Rand canalizou, e o fogo envolveu todos os Aiel que se aproximavam. Corpos carbonizados e retorcidos tombaram aos p�s dele.</p><p>De s�bito, Gawyn apareceu puxando as r�deas de um garanh�o baio a menos de dez passos � frente dele, espada na m�o e vinte ou mais homens de casaco verde cavalgando logo atr�s. Por um instante, os dois se encararam, e Rand rezou para que n�o precisasse ferir o irm�o de Elayne.</p><p>� Min � disse Gawyn com uma voz �spera �, eu posso tirar voc� daqui.</p><p>Ela se espichou por cima do ombro de Rand para fazer que n�o com a cabe�a. Segurava-o com tanta for�a que ele achou que n�o teria conseguido solt�-la nem mesmo se quisesse.</p><p>� Eu vou ficar com ele, Gawyn. Gawyn, Elayne ama Rand.</p><p>Gra�as ao Poder, Rand conseguiu ver as juntas dos dedos do homem embranquecerem no punho da espada.</p><p>� Jisao � chamou ele em um tom de voz neutro. � Re�na a Jovem Guarda. Vamos abrir caminho e sair daqui. � Se antes sua voz soara neutra, �quela altura estava ainda mais despida de emo��o. � Al�Thor, eu ainda vou ver voc� morrer. � Gawyn enfiou as esporas no cavalo e saiu galopando, ele e todos os demais gritando �Jovem Guarda!� a plenos pulm�es, com mais homens de casaco verde abrindo caminho para se juntar a eles.</p><p>Um homem de casaco preto disparou � frente de Rand, os olhos cravados em Gawyn, e o solo irrompeu em uma bolha de fogo e terra que fez tombar meia d�zia de cavalos que iam alcan�ando os carro��es. Rand viu Gawyn balan�ar no alto da sela no instante em que derrubou o homem de casaco preto no ch�o com um golpe de Ar. Ele n�o conhecia o jovem de rosto severo que rosnou para ele, mas o sujeito usava tanto a espada quanto o Drag�o no colarinho alto, e <emphasis>saidin</emphasis> o preenchia.</p><p>Taim apareceu de repente, Drag�es azuis e dourados enroscados em volta das mangas do casaco preto, o olhar baixo na dire��o do jovem. Seu colarinho n�o exibia broche algum.</p><p>� Voc� n�o atacaria o Drag�o Renascido, Gedwyn � disse Taim, delicado e duro ao mesmo tempo, e o homem de express�o severa se levantou com dificuldade, saudando-o com o punho sobre o peito.</p><p>Rand olhou na dire��o onde Gawyn estivera, mas tudo o que conseguiu enxergar foi um grupo grande de homens com um estandarte de Javali Branco abrindo caminho cada vez mais entre os Aiel que os circundavam, com mais homens de casaco verde lutando para se juntar a eles.</p><p>Taim se voltou para Rand, seus l�bios com aquele quase sorriso.</p><p>� Dadas as circunst�ncias, estou confiante de que voc� n�o vai me repreender por ter desobedecido � sua ordem quanto a enfrentar as Aes Sedai. Eu tinha motivos para ir v�-lo em Cairhien e� � Ele deu de ombros. � Voc� est� com uma cara p�ssima. Quer que eu� � Seus l�bios discretamente torcidos se endireitaram assim que Rand deu um passo para tr�s a fim de evitar sua m�o estendida, puxando Min consigo. Ela se agarrava a ele com mais firmeza do que nunca.</p><p>Lews Therin come�ara a vociferar seu �mpeto de mat�-lo como sempre fazia quando Taim aparecia, divagando feito um louco a respeito de Abandonados e de matar todo mundo, mas Rand parou de ouvir e isolou o homem at� transform�-lo no zumbido de uma mosca. Tratava-se de um truque que ele aprendera dentro do ba�, quando n�o havia nada para fazer al�m de tatear a blindagem e escutar uma voz em sua cabe�a que soava insana com alguma frequ�ncia. No entanto, mesmo sem Lews Therin, ele n�o queria ser Curado pelo homem. Achava que, se Taim algum dia encostasse nele com o Poder, ainda que por um motivo inocente, acabaria matando-o.</p><p>� Como quiser � rebateu com ironia o homem de nariz aquilino. � Acredito que dominamos o acampamento.</p><p>Aquilo pareceu suficientemente verdadeiro. Corpos estavam espalhados pelo ch�o, mas, dentro do c�rculo de carro��es, poucos homens ainda lutavam. De repente, uma redoma de Ar cobriu todo o acampamento, a fuma�a dos carro��es incendiados escapando por um buraco deixado no topo. N�o era uma tessitura s�lida de <emphasis>saidin</emphasis>. Rand conseguia identificar onde as tessituras individuais se emendavam umas nas outras para criar aquela prote��o. Achou que podia haver cerca de duzentos homens de casaco preto sob a redoma. Uma chuva de rel�mpagos e fogo atingiu a barreira e explodiu sem causar danos. O pr�prio c�u dava a impress�o de crepitar e se incendiar, e seu clamor alto se fazia ouvir por toda a parte. Donzelas com tiras vermelhas pendendo dos bra�os e <emphasis>siswai�aman</emphasis> se punham de p� ao longo da parede que n�o eram capazes de ver, misturados a mayenenses e cairhienos, muitos tamb�m a p�. Do outro lado, uma massa compacta de Shaido fitava a barricada invis�vel que os mantinha isolados dos seus inimigos, por vezes golpeando-a com lan�as ou atirando seus pr�prios corpos contra ela. As lan�as paravam no meio do caminho e os corpos batiam e voltavam.</p><p>Dentro da redoma, o �ltimo confronto se encerrou. Sob o olhar de um pequeno punhado de Donzelas e homens identificados com a cor vermelha, Shaido desarmados removiam as roupas com semblantes estoicos. Capturados em batalha, usariam o branco dos <emphasis>gai�shain</emphasis> por um ano e um dia mesmo que os Shaido, de alguma forma, acabassem conseguindo invadir o acampamento. Em n�mero quase igual ao de prisioneiros, cairhienos e mayenenses funcionavam como guardas de um grande grupo de integrantes da Jovem Guarda e Guardi�es enfurecidos misturados com servi�ais temerosos. Uma d�zia de Aes Sedai estava sendo blindada por um n�mero igual de Asha�man usando a espada e o Drag�o. As Aes Sedai tinham um aspecto combalido e amedrontado. Rand reconheceu tr�s, embora Nesune fosse a �nica de cujo nome ele se lembrava. N�o reconheceu nenhum dos captores Asha�man. V�rias das mulheres que Rand blindara e deixara inconscientes estavam entre as prisioneiras, algumas delas come�ando a acordar, enquanto soldados de casaco preto e Dedicados com a espada prateada nos colarinhos usavam <emphasis>saidin</emphasis> para arrastar outras pelo ch�o e junt�-las � fileira. Alguns deles estavam trazendo as duas Aes Sedai inconscientes e a mulher magra do bosque. Ela ainda gritava. Quando foram levadas para perto do grupo, algumas das Aes Sedai vomitaram.</p><p>Havia outras Aes Sedai presentes, essas cercadas por Guardi�es e vigiadas por homens de casaco preto, ainda que n�o blindadas, e elas observavam os Asha�man com o mesmo desconforto com que o faziam as mulheres j� presas. Tamb�m fitavam Rand e, n�o fosse pelos Asha�man, claramente teriam ido at� ele. Rand as encarava de volta. Alanna estava entre elas. Ele n�o estivera alucinando. Rand n�o reconheceu todas as que a acompanhavam, mas um n�mero suficiente delas. Eram nove no total. Nove. Uma f�ria s�bita arremeteu contra o Vazio, e o zumbido de mosca de Lews Therin foi ficando mais intenso.</p><p>�quela altura, Rand mal ficou surpreso ao ver Perrin se levantar cambaleante, o rosto e a barba ensanguentados, seguido por um Loial mancando com seu enorme machado e por um sujeito de olhos brilhantes que, com seu casaco de listras vermelhas, aparentava ser um Latoeiro, apesar da espada que carregava, a l�mina completamente ensanguentada. Rand quase olhou em volta para ver se Mat, de alguma forma, tamb�m n�o estaria ali. Avistou Dobraine, a p� com uma espada numa m�o e o mastro do estandarte carmesim de Rand na outra. Nandera se juntou a Perrin, deixando seu v�u cair, al�m de uma outra Donzela que Rand, de in�cio, quase n�o reconheceu. Foi bom ver Sulin usando o <emphasis>cadin�sor</emphasis> outra vez.</p><p>� Rand � disse Perrin, sem f�lego �, gra�as � Luz voc� ainda est� vivo. Nossa ideia era voc� abrir um port�o para escaparmos daqui, mas n�o podemos. Rhuarc e a maioria dos Aiel ainda est�o entre os Shaido, a maior parte dos mayenenses e cairhienos tamb�m, e eu n�o sei o que aconteceu com o pessoal de Dois Rios nem com as S�bias. As Aes Sedai deveriam ter ficado com eles, mas� � Ele colocou a cunha do machado no solo e, com uma careta de dor, se apoiou no cabo. Dava a impress�o de que, sem aquele suporte, poderia desabar no ch�o.</p><p>Ao longo da barreira, surgiam homens a cavalo, bem como Aiel com len�os vermelhos e Donzelas tamb�m com tiras vermelhas amarradas nos bra�os. A barreira tamb�m os isolava. Onde quer que aparecessem, os Shaido os atacavam feito um enxame e os engoliam.</p><p>� Desfa�am essa redoma � ordenou Rand.</p><p>Surpreendentemente, Perrin suspirou aliviado. Ser� que ele tinha achado que Rand deixaria seu pr�prio povo ser trucidado? Mas Loial tamb�m suspirou. Luz, o que eles pensavam a respeito dele? Min come�ou a lhe esfregar as costas, murmurando baixinho em um tom tranquilizador. Por alguma raz�o, Perrin dirigiu a ela um olhar bastante surpreso.</p><p>Taim poderia estar surpreso, mas com certeza n�o estava aliviado.</p><p>� Milorde Drag�o � disse ele com a voz tensa �, eu diria que ainda h� v�rias centenas de mulheres Shaido l� fora, algumas, ao que parece, nada fracas no Poder. E isso sem falar nos milhares de Shaido com suas lan�as. A menos que voc� realmente queira descobrir se � imortal, sugiro esperar algumas horas at� conhecermos este lugar bem o bastante para abrir port�es com relativa certeza de onde eles v�o dar, e ent�o irmos embora. Batalhas geram baixas. Perdi v�rios soldados hoje, nove homens que v�o ser mais dif�ceis de serem substitu�dos do que qualquer quantidade de renegados Aiel. Quem quer que morra a� fora est� morrendo pelo Drag�o Renascido. � Se o homem estivesse prestando a m�nima aten��o a Nandera e Sulin, poderia ter moderado seu tom de voz e escolhido as palavras com mais cuidado. R�pidos gestos na linguagem de sinais foram trocados entre as duas, que pareciam prontas para mat�-lo ali mesmo.</p><p>Perrin for�ou-se a se endireitar, os olhos amarelos cravados em Rand, firmes e ansiosos ao mesmo tempo.</p><p>� Rand, mesmo que Dannil e as S�bias tenham ficado para tr�s conforme o plano, eles n�o v�o embora enquanto virem isto. � Ele gesticulou para a redoma acima deles, onde o fogo e os rel�mpagos criavam uma explos�o de luz constante. � Se ficarmos horas e horas aqui parados, os Shaido, mais cedo ou mais tarde, v�o atr�s deles, isso se j� n�o tiverem ido. Luz, Rand! Dannil, Ban, Wil, Tell� Amys est� l�, e Sorilea, e�! Que o queime, Rand, mais gente j� morreu por voc� do que imagina! � Perrin respirou fundo. � Pelo menos me deixe sair. Se eu conseguir chegar at� l�, vou poder contar que voc� est� vivo e eles v�o poder bater em retirada antes de serem mortos.</p><p>� Dois de n�s podem escapulir � opinou Loial com calma, erguendo aquele machado imenso. � Se formos n�s dois, teremos mais chances de conseguir. � O Latoeiro apenas sorriu, mas parecia mal poder esperar pela batalha.</p><p>� Eu vou abrir um buraco na barreira � come�ou a dizer Taim, mas Rand o interrompeu com contund�ncia.</p><p>� N�o! � N�o pelo povo de Dois Rios. Ele n�o podia parecer se preocupar nem um pouco a mais com eles que com as S�bias. Verdade seja dita, tinha que parecer se preocupar ainda menos. Amys estava l�? As S�bias nunca participavam de confrontos, permaneciam intocadas em meio a batalhas e rixas de sangue. Vindo atr�s dele, elas haviam quebrado os costumes ou at� mesmo as leis. Seria mais f�cil deixar Perrin voltar para aquele banho de sangue do que abandon�-las. Mas n�o podia ser pelas S�bias nem pelo povo de Dois Rios. � Sevanna quer a minha cabe�a, Taim. Ao que parece, ela achava que podia conseguir isso hoje. � O tom distante que o Vazio conferia � voz dele era apropriado. Por�m, aquilo pareceu preocupar Min, que lhe esfregava as costas como que para acalm�-lo. � Quero que ela se d� conta do erro que cometeu. Eu falei para voc� criar armas, Taim. Mostre para mim como elas s�o mortais. Disperse os Shaido. Acabe com eles.</p><p>� Como ordenar. � Se antes Taim estivera r�gido, agora virara uma pedra.</p><p>� Ponham meu estandarte no alto de modo que eles consigam enxergar � ordenou Rand. Pelo menos isso mostraria para todos l� fora quem comandava o acampamento. Talvez as S�bias e o povo de Dois Rios recuassem quando o vissem.</p><p>As orelhas de Loial se contorceram em desconforto, e Perrin agarrou o bra�o de Rand quando Taim foi embora.</p><p>� Eu vi o que eles fazem, Rand. Ʌ � Apesar do rosto e do machado ensanguentados, ele soava enojado.</p><p>� O que voc� quer que eu fa�a? � perguntou Rand. � O que mais eu posso fazer?</p><p>A m�o de Perrin o soltou, e o amigo suspirou.</p><p>� N�o sei. Mas n�o sou obrigado a gostar disso.</p><p>� Grady, erga o Estandarte da Luz! � mandou Taim, com o Poder transformando sua voz num estrondo.</p><p>Usando fluxos de Ar, Jur Grady tirou o estandarte carmesim da m�o de Dobraine, que ficou chocado, e ergueu-o at� faz�-lo passar pelo topo vazado da redoma. O fogo rebentou em torno dele e rel�mpagos piscaram conforme o vermelho brilhante se ergueu em meio � fuma�a que se elevava dos carro��es em chamas. Rand reconheceu v�rios homens de casaco preto, mas s� conhecia os nomes de uns poucos al�m de Jur: Damer, Fedwin e Eben, Jahar e Torval. Desses, s� Torval trazia o Drag�o no colarinho.</p><p>� Asha�man, formem a linha de batalha! � disse Taim, a voz ampliada pelo Poder.</p><p>Homens de casaco preto correram para se posicionar entre a redoma e os demais, todos menos Jur e aqueles que vigiavam as Aes Sedai. Excetuando-se Nesune, que espiava tudo com aten��o, o grupo da Torre afundara apaticamente de joelhos, sem nem olhar para os homens que as blindavam, e mesmo Nesune ainda parecia prestes a passar mal. O grupo de Salidar observava com frieza os Asha�man que as vigiavam, embora, aqui e ali, voltassem aqueles olhos g�lidos para Rand. Alanna s� tinha olhos para ele. Rand notou que sua pele formigava ligeiramente. Para ele estar sentindo, mesmo com toda aquela dist�ncia, todas as nove deviam estar abra�ando <emphasis>saidar</emphasis>. Ele esperava que elas tivessem ju�zo suficiente para n�o canalizar. Os homens de express�o p�trea que as encaravam abra�avam <emphasis>saidin</emphasis> a ponto de quase explodir, e tinham uma apar�ncia t�o tensa quanto a dos Guardi�es que corriam os dedos por suas espadas.</p><p>� Asha�man, levantem a barricada duas bra�as! � Ao comando de Taim, as extremidades da redoma se levantaram em toda a sua circunfer�ncia. Shaido surpresos, que vinham empurrando o que n�o conseguiam ver, deram um trope��o para a frente. Recuperaram-se de imediato, uma massa de v�us negros em ofensiva, mas s� tiveram tempo para um passo antes do grito seguinte de Taim: � Asha�man, matem!</p><p>A vanguarda dos Shaido explodiu. N�o havia outra maneira de descrever a cena. Figuras de <emphasis>cadin�sor</emphasis> despeda�aram-se em jorros de sangue e carne. Fluxos de <emphasis>saidin</emphasis> penetraram por aquela bruma densa, disparando de Aiel em Aiel num piscar de olhos. A fileira seguinte de Shaido sucumbiu, depois outra e mais outra, como se eles estivessem correndo para dentro de um enorme moedor de carne. Observando a carnificina, Rand engoliu em seco. Perrin se curvou para esvaziar o est�mago, o que Rand compreendeu perfeitamente. Outra fileira morta. Nandera cobriu os olhos com a m�o e Sulin deu as costas para a cena. Os restos ensanguentados de seres humanos come�aram a formar uma muralha.</p><p>Ningu�m era capaz de fazer frente �quilo. Entre uma explos�o de morte e a seguinte, os Shaido da frente de repente come�aram a tentar ir no sentido contr�rio, for�ando-se a recuar para o meio da massa que lutava para avan�ar. Esse pr�prio n� humano logo explodiu, e ent�o todos come�aram a recuar. N�o, a correr. A chuva de fogo e rel�mpagos que se abatia contra a redoma fraquejou.</p><p>� Asha�man � ecoou a voz de Taim �, anel de Terra e Fogo!</p><p>Sob os p�s dos Shaido mais pr�ximos aos carro��es, o solo irrompeu de repente em fontes de chamas e terra, lan�ando homens em todas as dire��es. Enquanto os corpos ainda voavam pelo ar, mais bolhas de fogo jorraram do solo, depois mais, em um anel que se expandiu em torno dos carro��es, perseguindo os Shaido por cinquenta passadas, cem, duzentas. �quela altura, a �nica coisa que havia ali fora era p�nico e morte. Lan�as e broqu�is foram abandonados. A redoma l� no alto agora estava transparente, exceto pela fuma�a que subia dos carro��es em chamas.</p><p>� Pare! � O estrondo das explos�es engoliu o berro de Rand da mesma maneira como engolia com os gritos dos homens. Ele teceu os fluxos que Taim havia usado. � J� chega, Taim! � Sua voz crepitou como um trov�o por sobre todo o local.</p><p>Mais um anel de erup��es, ent�o Taim ordenou:</p><p>� Asha�man, descansem!</p><p>Por um momento, um sil�ncio ensurdecedor pareceu preencher o ar. Os ouvidos de Rand zumbiam. Ent�o ele conseguiu escutar gritos e gemidos. Feridos levantavam-se em meio �s pilhas de mortos. E, mais � frente deles, Shaido corriam, deixando para tr�s grupos isolados de <emphasis>siswai�aman</emphasis> e Donzelas com panos vermelhos nos bra�os, cairhienos e mayenenses, alguns ainda em seus cavalos. Quase hesitantes, esses �ltimos come�aram a se deslocar em dire��o aos carro��es, alguns Aiel baixando os v�us. Com o Poder aperfei�oando a sua vis�o, ele conseguiu identificar Rhuarc, mancando, um dos bra�os inerte ao lado do corpo, mas de p�. E, bem al�m dele, um grupo grande de mulheres trajando saias escuras volumosas e blusas claras, com uma escolta de homens com casacos de Dois Rios carregando arcos compridos. Estavam longe demais para que ele pudesse discernir os rostos, mas, pelo modo como os homens de Dois Rios encaravam os Shaido que fugiam, estavam t�o estupefatos quanto qualquer outra pessoa.</p><p>Uma enorme sensa��o de al�vio brotou em Rand, ainda que n�o o bastante para sossegar a agita��o distante em seu est�mago. Min pressionava o rosto na camisa dele. Estava chorando. Ele passou uma das m�os pelo cabelo dela.</p><p>� Asha�man � Rand nunca ficara t�o contente pelo Vazio apagar as emo��es da sua voz �, voc�s se sa�ram bem. Eu o sa�do, Taim. � Ele virou de costas para que n�o fosse obrigado a continuar olhando os efeitos da carnificina e mal escutou os brados de �Lorde Drag�o!� e �Asha�man!� que os homens de casaco preto faziam retumbar.</p><p>Quando se virou, deu de cara com as Aes Sedai. Merana estava bem l� atr�s, mas Alanna estava quase cara a cara com ele, ladeada por duas Aes Sedai que Rand n�o reconheceu.</p><p>� Voc� se saiu bem � disse uma das duas, uma mulher de rosto quadrado. Uma fazendeira, com rosto de idade indefinida e olhos que por pouco mantinham a serenidade, ignorando os Asha�man ao seu redor. Obviamente ignorando-os. � Sou Bera Harkin e esta � Kiruna Nachiman. Viemos para resgat�-lo� com o aux�lio de Alanna. � Um �bvio adendo, e apenas por causa do s�bito cenho franzido de Alanna. � Apesar de me parecer que voc� n�o precisa muito de n�s. Ainda assim, as inten��es continuam valendo, e�</p><p>� O lugar de voc�s � com elas � afirmou Rand, apontando para as Aes Sedai blindadas. Vinte e tr�s, ele contou, e Galina n�o estava entre elas. O zumbido de Lews Therin se avolumou, mas ele se recusou a dar ouvidos. N�o era hora para rompantes insanos.</p><p>Cheia de orgulho, Kiruna se empertigou. O que quer que fosse, com certeza n�o era uma reles fazendeira.</p><p>� Voc� se esquece de quem somos. Elas podem at� ter lhe tratado mal, mas n�s�</p><p>� N�o me esque�o de nada, Aes Sedai � cortou Rand com frieza. � Eu disse que poderiam vir seis, mas estou contando nove. Disse que voc�s estariam em p� de igualdade com as emiss�rias da Torre, e, por terem desobedecido, v�o estar mesmo. Elas est�o de joelhos, Aes Sedai. Ajoelhem-se!</p><p>Rostos friamente serenos encaravam-no de volta. Rand sentiu os Asha�man preparando barreiras de Esp�rito. Um ar de desafio foi tomando o semblante de Kiruna, Bera e das outras. Duas dezenas de homens de casaco preto formaram um c�rculo em torno de Rand e das Aes Sedai.</p><p>Rand nunca vira Taim sorrir, mas o homem chegou bem perto.</p><p>� Ajoelhem-se e jurem fidelidade ao Lorde Drag�o � ordenou ele em voz baixa � ou ser�o postas de joelhos. Podem escolher.</p><p>Como acontece com as hist�rias, o caso se espalhou por toda Cairhien, pelo norte e pelo sul com os comboios de mercadores, os mascates solit�rios e por meio das fofocas de estalagens. Como acontece com as hist�rias, a cada conto aumentava-se um ponto. Os Aiel haviam se voltado contra o Drag�o Renascido e o matado, nos Po�os de Dumai ou algum outro lugar. N�o, as Aes Sedai tinham salvado Rand al�Thor. Foram as Aes Sedai que o haviam matado� n�o, amansado� n�o, tinham-no levado a Tar Valon � for�a, onde ele apodreceu em uma masmorra da Torre Branca. Ou onde o pr�prio Trono de Amyrlin ficou de joelhos diante dele. Excepcionalmente, em se tratando de hist�rias, algo muito pr�ximo da verdade era no que se acreditava com mais frequ�ncia.</p><p>Em um dia de fogo e de sangue, um estandarte esfarrapado se agitou acima dos Po�os de Dumai, exibindo o antigo s�mbolo das Aes Sedai.</p><p>Em um dia de fogo, de sangue e do Poder �nico, conforme a profecia sugerira, a torre imaculada, dividida, ajoelhou-se perante o s�mbolo esquecido.</p><p>As primeiras nove Aes Sedai juraram fidelidade ao Drag�o Renascido, e o mundo mudou para sempre.</p></section><section><title><p>EP�LOGO </p><p><image l:href="#1"/></p><p>A resposta</p></title><p>O homem s� parou por tempo suficiente para repousar a m�o na porta da liteira e, assim que Falion pegou o bilhete entre seus dedos, afastou-se. A pancada seca da mulher colocou os dois carregadores em movimento antes mesmo que o sujeito trajando o uniforme do Pal�cio Tarasin sumisse em meio � multid�o na pra�a.</p><p>S� havia uma palavra no quadradinho de papel: <emphasis>Sumiram</emphasis>. Ela o amassou no punho. De algum modo, elas tinham escapado de novo sem que o seu pessoal l� dentro visse. Meses de buscas infrut�feras haviam-na convencido de que n�o existia nenhum <emphasis>angreal </emphasis>escondido, a despeito do que Moghedien acreditasse. Ela chegara at� a considerar interrogar uma ou duas Mulheres S�bias. Uma delas talvez soubesse seu paradeiro, se o tal <emphasis>angreal </emphasis>existisse. Era o mesmo que esperar que cavalos voassem. Entretanto, ela se mantinha naquela cidade deplor�vel porque quando um dos Escolhidos dava uma ordem, obedecia-se at� que essa ordem fosse modificada. Qualquer outra atitude era um caminho bem curto para uma morte dolorosa. Mas se Elayne e Nynaeve estavam ali� Elas haviam arruinado os planos sobre Tanchico. Fossem elas ou n�o irm�s completas de fato � por mais imposs�vel que tal coisa parecesse �, Falion n�o encararia a presen�a delas como mera coincid�ncia. Talvez existisse mesmo um esconderijo. Era a primeira vez que ela ficava contente por Moghedien t�-la ignorado desde que dera suas ordens tantos meses antes em Amad�cia. O que fora sentido como um abandono ainda poderia se mostrar uma chance de subir no conceito da Escolhida. Aquelas duas talvez ainda a conduzissem ao esconderijo, e, mesmo se n�o existisse esconderijo nenhum� Moghedien parecera demonstrar interesse em Elayne e Nynaeve. Entreg�-las � Escolhida com certeza seria melhor do que um <emphasis>angreal</emphasis> que nem existia.</p><p>Ela se recostou no assento e deixou o balan�o da cadeira relax�-la. Odiava mesmo aquela cidade � em seus tempos de novi�a, chegara at� ali como fugitiva �, mas podia ser que aquela visita, afinal, terminasse de forma agrad�vel.</p><empty-line/><p>Sentado em seu gabinete, Herid espiava dentro do cachimbo e se perguntava se tinha em m�os os meios para acend�-lo quando o <emphasis>gholam</emphasis> se espremeu por baixo da porta. Claro que, mesmo que Fel estivesse prestando aten��o, n�o teria acreditado, e, depois que o <emphasis>gholam</emphasis> entrou no aposento, poucos homens teriam tido alguma chance.</p><p>Quando Idrien mais tarde foi ao gabinete de Fel, ficou olhando para algo empilhado de maneira nada organizada no ch�o, ao lado da mesa. Ela levou uns instantes para compreender o que era e, quando o fez, desmaiou antes de conseguir gritar. Embora j� tivesse ouvido falar de esquartejamentos, era muito diferente ver os resultados de um diante de si.</p><empty-line/><p>No topo da colina, o homem deu meia-volta com seu cavalo para uma �ltima olhada em Ebou Dar, branca sob o sol brilhante. Uma bela cidade para se pilhar, e, pelo que ele aprenderia sobre o povo local, as pessoas resistiriam, de forma que o Sangue permitiria pilhagens. Elas iriam resistir, mas ele torcia para que os outros olhos estivessem trazendo relatos da desuni�o que ele testemunhara. A resist�ncia n�o duraria muito num local em que uma suposta rainha governava um peda�o diminuto de ch�o, e isso sugeria as melhores possibilidades. Ele cavalgou para o oeste. N�o havia como saber. Talvez o coment�rio daquele sujeito tivesse sido prof�tico. Talvez o Retorno n�o tardasse, e, com ele, viria a Filha das Nove Luas. Aquele seria, certamente, o maior press�gio de uma vit�ria.</p><empty-line/><p>Deitada para dormir, Moghedien olhava para o teto da min�scula tenda que tinham lhe permitido como uma das criadas da Amyrlin. De tempos em tempos, seus dentes rilhavam, mas, t�o logo se dava conta disso, ela tornava a se acalmar, bastante consciente do colar do <emphasis>a�dam</emphasis> em torno do pesco�o. A tal Egwene al�Vere era mais dura do que Elayne e Nynaeve. Tolerava menos e exigia mais. E quando passava o bracelete para Siuan ou Leane, especialmente Siuan� Moghedien estremeceu. Se Birgitte pudesse usar o bracelete, deveria ser igual.</p><p>A aba da tenda se moveu para o lado, deixando a luz do luar penetrar s� o suficiente para ela identificar uma mulher se agachando para entrar.</p><p>� Quem � voc�? � perguntou Moghedien com aspereza. Quando mandavam ir busc�-la � noite, quem quer que viesse sempre trazia uma lanterna.</p><p>� Me chame de Aran�gar, Moghedien � respondeu uma voz bem-humorada, e uma luzinha se fez dentro da tenda.</p><p>Ouvir o pr�prio nome fez a l�ngua de Moghedien grudar no c�u da boca. Ali, aquele nome significava morte. Ela estava com dificuldades para falar, para dizer que seu nome era Marigan, quando, de repente, reparou na luz. Uma pequena bola branca cintilante, p�lida, pairando no ar pr�xima da cabe�a dela. Estando com o <emphasis>a�dam</emphasis>, n�o podia fazer mais do que pensar em <emphasis>saidar</emphasis> sem permiss�o, mas ainda era capaz de senti-la sendo canalizada, de ver os fluxos sendo tecidos. Desta vez, n�o sentiu nada, n�o viu nada. S� uma min�scula bolinha de pura luz.</p><p>Ela ficou encarando a mulher que se apresentara como Aran�gar, finalmente a reconhecendo. Halima, ela achava. Secret�ria de uma das Votantes, talvez. Com certeza, contudo, uma mulher, ainda que uma que parecesse ter sido desenhada por um homem. Uma mulher. Mas aquela bola de luz tinha que ser resultado de <emphasis>saidin</emphasis>!</p><p>� Quem � voc�? � Sua voz estava apenas um pouco tr�mula, e ela se surpreendeu por soar t�o firme.</p><p>A mulher sorriu � um sorriso bastante divertido � enquanto se colocou ao lado do catre.</p><p>� J� falei, Moghedien. Eu me chamo Aran�gar. Voc� vai aprender esse nome no futuro, se tiver sorte. Agora me escute bem e n�o pergunte mais nada. Eu vou lhe dizer o que voc� precisa saber. Daqui a pouco, vou tirar esse seu lindo colar. Em seguida, voc� vai desaparecer com a mesma rapidez e discri��o de Logain. Se n�o me obedecer, vai morrer aqui mesmo. E isso seria uma pena, porque voc� foi convocada at� Shayol Ghul nesta mesm�ssima noite.</p><p>Moghedien umedeceu os l�bios. Convocada at� Shayol Ghul. Isso poderia significar a eternidade no Po�o da Perdi��o, a imortalidade governando o mundo, ou qualquer coisa entre os dois extremos. Havia pouca chance de ela ser nomeada Nae�blis, n�o se o Grande Senhor soubesse o suficiente a respeito de como ela havia passado os meses anteriores a ponto de mandar algu�m vir libert�-la. Ainda assim, tratava-se de uma convoca��o que ela n�o podia ignorar. E, pelo menos, estaria livre do <emphasis>a�dam</emphasis>.</p><p>� Sim. Tire. Eu vou imediatamente. � De todo modo, n�o havia motivos para protelar. Ela era mais forte que qualquer mulher naquele acampamento, mas n�o pretendia dar a um c�rculo de treze mulheres nenhuma chance de enfrent�-la.</p><p>� Eu achava que voc� fosse dizer isso. � Halima, ou Aran�gar, riu com gosto. Devagar, ela tocou no colar, encolhendo-se de dor, e Moghedien tornou a se espantar com uma mulher que parecia capaz de canalizar <emphasis>saidin</emphasis> e se feria, ainda que muito pouco, por tocar no que s� deveria ferir um homem capaz de canalizar. Em seguida, o colar se soltou e foi guardado depressa na algibeira da mulher. � V�, Moghedien. V� agora.</p><empty-line/><p>Quando Egwene chegou � tenda e colocou a cabe�a e a lanterna l� dentro, encontrou apenas len��is amarrotados. Devagar, ela recuou.</p><p>� M�e � alvoro�ou-se Chesa atr�s dela �, voc� n�o deveria sair no sereno. O ar da noite faz mal. Se queria falar com Marigan, eu poderia ter vindo busc�-la.</p><p>Egwene olhou em volta. Sentira o <emphasis>a�dam</emphasis> se soltar e sentira o lampejo de dor que indicava que um homem capaz de canalizar tocara o colar. A maior parte das pessoas j� dormia, mas umas poucas ainda estavam sentadas fora das suas tendas em torno do fogo baixo, algumas n�o muito longe. Talvez fosse poss�vel descobrir qual homem tinha ido � tenda de �Marigan�.</p><p>� Acho que ela fugiu, Chesa � afirmou Egwene. Os resmungos zangados de Chesa sobre mulheres que abandonavam suas senhoras a seguiram por todo o caminho de volta at� sua tenda. N�o poderia ter sido Logain, poderia? Ele n�o poderia ter voltado, n�o poderia saber a verdade. Poderia?</p><empty-line/><p>Demandred ajoelhou-se no Po�o da Perdi��o e, desta vez, n�o se importou que Shaidar Haran estivesse observando sua tremedeira com aquele semblante impass�vel, sem olhos.</p><p>� N�o me sa� bem, Grande Senhor?</p><p>A gargalhada do Grande Senhor ressoou dentro de sua cabe�a.</p><image l:href="#1"/></section><section><cite><poem><stanza><v>A torre imaculada se divide e se ajoelha perante o s�mbolo esquecido.</v><v>Os mares seguem em tormenta e nuvens de tempestade se armam inc�gnitas.</v><v>Al�m do horizonte, chamas escondidas se avolumam e serpentes se aninham em seu seio.</v><v>O que foi exaltado � recha�ado, o que foi recha�ado � elevado.</v><v>A ordem queima para abrir caminho para ele.</v></stanza></poem><text-author>� fragmento de <emphasis>As Profecias do Drag�o</emphasis>, tradu��o de Jeorad Manyard, Governador da Prov�ncia de Andor sob o Gr�o-Rei Artur Paendrag Tanreall.</text-author></cite><cite><p>Fim</p><p>do Sexto Livro</p><p>de <emphasis>A Roda do Tempo</emphasis></p></cite><p><image l:href="#1"/></p></section><section><title><p>Gloss�rio</p></title><p><image l:href="#1"/></p><p><strong>Uma nota sobre datas neste gloss�rio.</strong> O Calend�rio Tomano (elaborado por Toma dur Ahmid) foi adotado aproximadamente dois s�culos ap�s a morte do �ltimo homem Aes Sedai e registrou os anos Depois da Ruptura do Mundo (DR). Muitos registros foram destru�dos nas Guerras dos Trollocs, tanto que, ao fim das guerras, havia controv�rsia sobre o ano exato de acordo com o antigo sistema. Um novo calend�rio foi proposto por Tiam de Gazar, comemorando a liberta��o da amea�a dos Trollocs e registrando cada ano como um Ano Livre (AL). O Calend�rio Gazarano ganhou ampla aceita��o nos vinte anos seguintes ao fim das guerras. Artur Asa-de-gavi�o tentou estabelecer um novo calend�rio com base na funda��o de seu imp�rio (DF, Desde a Funda��o), mas apenas historiadores o conhecem. Ap�s a destrui��o e as mortes provocadas pela Guerra dos Cem Anos, um terceiro calend�rio foi desenvolvido por Uren din Jubai Gaivota-Voadora, acad�mico do Povo do Mar, e promulgado pela Panarca Farede de Tarabon. O Calend�rio de Farede, que definiu arbitrariamente uma data para o fim da Guerra dos Cem Anos e registra os anos da Nova Era (NE), encontra-se atualmente em uso.</p><empty-line/><p><emphasis>a�dam</emphasis>: Dispositivo para controlar uma mulher capaz de canalizar, s� utiliz�vel ou por uma mulher capaz de canalizar ou por uma mulher a quem se pode ensinar a canalizar, e que n�o tem efeito em mulheres que n�o s�o capazes de canalizar. O dispositivo une as duas mulheres no Poder. A vers�o Seanchan consiste em uma coleira � chamada de colar � e um bracelete ligados por uma correia, tudo feito de metal prateado. Se um homem capaz de canalizar for unido a uma mulher por um <emphasis>a�dam</emphasis>, a prov�vel consequ�ncia � a morte de ambos. Quando o <emphasis>a�dam</emphasis> estiver sendo usado por uma mulher capaz de canalizar, o simples toque no dispositivo por parte de um homem tamb�m capaz de canalizar pode resultar em dor. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> uni�o; Seanchan.</p><p>Abandonados, os: Nome dado a treze dos mais poderosos Aes Sedai da Era das Lendas, o que os classifica entre os mais poderosos de todos os tempos. Aes Sedai que passaram para o lado do Tenebroso durante a Guerra da Sombra diante da promessa de imortalidade. Entre si, intitulavam-se �os Escolhidos�. De acordo com as lendas e os fragmentos de registros, foram aprisionados com o Tenebroso quando a pris�o foi resselada. Seus nomes ainda s�o usados para assustar crian�as. Eles s�o: Aginor, Asmodean, Balthamel, Be�lal, Demandred, Graendal, Ishamael, Lanfear, Mesaana, Moghedien, Rahvin, Sammael e Semirhage.</p><p>Aceitas: Jovens mulheres em treinamento para se tornarem Aes Sedai que alcan�aram certo n�vel de poder e passaram por determinados testes. Em geral, s�o necess�rios de cinco a dez anos para que uma novi�a seja elevada a Aceita. Um pouco menos limitadas �s regras do que as novi�as, as Aceitas podem escolher as pr�prias �reas de estudo, dentro de alguns limites. Uma Aceita usa o anel da Grande Serpente, no terceiro dedo da m�o esquerda. Quando uma Aceita � elevada a Aes Sedai, escolhe a pr�pria Ajah, adquire o direito a usar o xale e pode passar a usar o anel em qualquer dedo, ou n�o o usar, se as circunst�ncias assim justificarem. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aes Sedai.</p><p>Aes Sedai: Pessoas capazes de canalizar o Poder �nico. Desde o Tempo da Loucura, sobreviveram apenas as Aes Sedai mulheres. Respeitadas e reverenciadas por muitos, mas tamb�m alvo de desconfian�a, medo e at� mesmo �dio. N�o s�o poucos os que as culpam pela Ruptura do Mundo e as acusam de interferirem nos assuntos das na��es. Ao mesmo tempo, poucos governantes optam por n�o ter uma conselheira Aes Sedai, mesmo nas terras em que a exist�ncia desse aconselhamento precisa ser mantida em segredo. Parece que depois de alguns anos canalizando o Poder �nico, as Aes Sedai adquirem uma caracter�stica de idade indefinida, de forma que uma mulher com idade suficiente para ser av� pode n�o exibir os sinais do passar dos anos, exce��o feita a talvez alguns cabelos grisalhos. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Ajah; Ruptura do Mundo; Trono de Amyrlin.</p><p>Aiel: Povo do Deserto Aiel. Ferozes e destemidos, cobrem o rosto com um v�u negro antes de matar. Guerreiros mort�feros com armas ou punhos, jamais tocam em espadas ou montam a cavalo, a menos que obrigados. Os Aiel chamam a luta de �a dan�a� e �a Dan�a das Lan�as�. S�o divididos em doze cl�s: os Chareen, os Codarra, os Daryne, os Goshien, os Miagoma, os Nakai, os Reyn, os Shaarad, os Shaido, os Shiande, os Taardad e os Tomanelle. Cada cl� � dividido em ramos. �s vezes, falam de um d�cimo terceiro cl�, o Cl� Que N�o Era, os Jenn, que constru�ram Rhuidean. Todos sabem que os Aiel falharam com as Aes Sedai e acabaram banidos para o Deserto Aiel por conta disso, e que ser�o destru�dos caso algum dia isso volte a acontecer. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Deserto Aiel; Rhuidean; <emphasis>gai�shain</emphasis>; Sociedades guerreiras dos Aiel; Desola��o.</p><p>Ajah: Sociedades internas das Aes Sedai, �s quais todas as Aes Sedai, exceto o Trono de Amyrlin, pertencem. Sete no total, s�o designadas por cores: Azul, Vermelha, Branca, Verde, Marrom, Amarela e Cinza. Cada uma segue uma filosofia espec�fica quanto ao uso do Poder �nico e aos prop�sitos das Aes Sedai. A Ajah Vermelha, por exemplo, dedica-se a encontrar homens capazes de canalizar o Poder e amans�-los. A Ajah Marrom se dedica � busca por conhecimento, enquanto a Ajah Branca, amplamente abst�mia do mundo e dos valores da sabedoria mundana, dedica-se �s quest�es filos�ficas e � busca da verdade. A Ajah Verde (chamada de Ajah Guerreira durante as Guerras dos Trollocs) mant�m-se a postos para Tarmon Gai�don, a Amarela se concentra no estudo da Cura, e as irm�s Azuis se envolvem com certas causas e com a justi�a. As Cinzas s�o mediadoras, buscando a harmonia e o consenso. Os rumores sobre uma Ajah Negra, dedicada a servir ao Tenebroso, s�o negados oficialmente.</p><p>Altara: Na��o no Mar das Tempestades que, na verdade, se mant�m unida por pouca coisa al�m do nome. Em Altara, as pessoas se veem primeiro como habitantes de uma aldeia ou cidadezinha, ou como o povo daquele senhor ou daquela senhora, e s� ent�o, e quando o fazem, como altaranas. Poucos nobres pagam impostos para a coroa ou oferecem uma vassalagem apenas em nome, se tanto. O governante de Altara (por ora, a Rainha Tylin Quintara, da Casa Mitsobar) raramente � algo mais que a nobre mais poderosa da na��o, e, por vezes, n�o chega nem a isso. O Trono dos Ventos det�m t�o pouco poder que muitos nobres poderosos o desprezaram quando podiam t�-lo assumido.</p><p>amansamento: Ato, realizado por Aes Sedai, de extinguir a capacidade de um homem de canalizar o Poder �nico. � necess�rio, pois os homens que aprendem a canalizar enlouquecem por causa da m�cula de <emphasis>saidin</emphasis> e, em sua loucura, acabam fazendo coisas horr�veis com o Poder antes que a m�cula os mate. Um homem amansado ainda � capaz de sentir a Fonte Verdadeira, mas n�o consegue toc�-la. Qualquer loucura que tenha se desenvolvido antes do amansamento � detida, mas n�o curada, e pode-se evitar a morte caso o procedimento seja feito suficientemente cedo. No entanto, um homem que � amansado acaba desistindo de querer viver, e aqueles que n�o conseguem cometer suic�dio costumam morrer de um jeito ou de outro em um ou dois anos. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> estancamento; Poder �nico.</p><p>Amigos das Trevas: Os que seguem o Tenebroso e acreditam que ganhar�o poder, grandes recompensas e at� a imortalidade quando ele for libertado. Entre si, �s vezes usam o antigo nome de Amigos da Escurid�o.</p><p>Amys: S�bia do Forte das Pedras Frias e Andarilha dos Sonhos. Aiel do ramo dos Nove Vales dos Aiel Taardad, esposa de Rhuarc e esposa-irm� de Lian, que � a senhora do teto do Forte das Pedras Frias. Amys � irm�-da-m�e de Aviendha.</p><p>Andarilha dos Sonhos: Nome Aiel para uma mulher capaz de adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, interpretar sonhos e conversar com as outras pessoas em seus sonhos. As Aes Sedai tamb�m usam o termo, ainda que raramente, em refer�ncia �s Sonhadoras. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Talentos; <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p><emphasis>angreal</emphasis>: Objetos remanescentes da Era das Lendas que permitem a qualquer um capaz de canalizar o Poder �nico manejar uma quantidade maior do Poder do que seria poss�vel ou seguro sem ajuda. Alguns foram fabricados para uso de mulheres, outros, de homens. Os rumores de <emphasis>angreal</emphasis> us�veis tanto por homens quanto por mulheres nunca foram confirmados. N�o se sabe mais como fabric�-los e restam poucos no mundo. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> canalizar; <emphasis>sa�angreal</emphasis>; <emphasis>ter�angreal</emphasis>.</p><p>Arad Doman: Na��o no Oceano de Aryth. Atualmente devastada pela guerra civil e por guerras simult�neas contra aqueles que se declararam a favor do Drag�o Renascido e contra Tarabon. As domanesas s�o famosas � ou infames � por serem belas, sedutoras e usarem roupas escandalosas.</p><p>Artur Asa-de-gavi�o: Rei lend�rio, Artur Paendrag Tanreall governou entre 943-994 AL e unificou todas as terras a oeste da Espinha do Mundo. Chegou a enviar ex�rcitos para o outro lado do Oceano de Aryth (992 AL), mas ningu�m teve not�cias dessas tropas depois de sua morte, que deu in�cio � Guerra dos Cem Anos. Seu s�mbolo era um gavi�o dourado em pleno voo. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerra dos Cem Anos.</p><p>Atha�an Miere: <emphasis>Ver</emphasis> Povo do Mar.</p><p><emphasis>Avendoraldera</emphasis>: Uma �rvore que cresceu na cidade de Cairhien a partir de um ramo de <emphasis>Avendesora</emphasis>, um presente dos Aiel em 566 NE, apesar de nenhum registro escrito revelar qualquer liga��o entre os Aiel e a lend�ria �rvore da Vida<emphasis>.</emphasis></p><p>Bair: S�bia do ramo Haido dos Aiel Shaarad e Andarilha dos Sonhos. N�o � capaz de canalizar. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Andarilha dos Sonhos.</p><p>Berelain sur Paendrag: Primeira de Mayene, Aben�oada da Luz, Defensora das Ondas, Gr�o-trono da Casa Paeron. Jovem, bonita e obstinada, � uma governante habilidosa. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Mayene.</p><p>Birgitte: Hero�na de lendas e hist�rias, famosa tanto pela beleza quanto pela bravura e destreza no arco e flecha. Diz-se que carregava um arco de prata e flechas tamb�m de prata, com os quais jamais errava o alvo. Ela � uma entre os her�is convocados de volta sempre que a Trombeta de Valere � tocada. Sempre relacionada ao her�i-espadachim Gaidal Cain. Exceto por sua beleza e destreza com o arco, tem pouco a ver com o que se fala dela nas hist�rias. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Trombeta de Valere.</p><p>bravia: Mulher que aprende sozinha a canalizar o Poder �nico. Apenas uma em cada quatro sobrevive � crise gerada por esse aprendizado. Tais mulheres costumam criar bloqueios para se impedirem de dar conta do que est�o fazendo, mas, quando essas barreiras s�o transpostas, as bravias revelam-se entre as mais poderosas capazes de canalizar. O termo costuma ser usado de forma pejorativa.</p><p>Bryne, Gareth: Antigo Capit�o-general da Guarda da Rainha em Andor. Exilado pela Rainha Morgase. Considerado um dos maiores generais vivos. O selo da Casa Bryne � um touro selvagem com a Coroa de Rosas de Andor em torno do pesco�o. Tem como s�mbolo pessoal tr�s estrelas douradas, cada uma com cinco raios.</p><p><emphasis>cadin�sor</emphasis>: Indument�ria dos guerreiros Aiel, composta de casaco e cal�as marrom e cinza que se camuflam junto �s pedras e sombras, bem como botas macias at� os joelhos, presas com cadar�os. Na L�ngua Antiga, �roupas de trabalho�, embora essa seja, obviamente, uma tradu��o imprecisa.</p><p>Cairhien: Nome de uma na��o nos limites da Espinha do Mundo cuja capital recebe o mesmo nome. A cidade foi incendiada e saqueada durante a Guerra dos Aiel, assim como muitas outras cidades e aldeias. O consequente abandono das lavouras pr�ximas da Espinha do Mundo tornou necess�ria a importa��o de gr�os. O assassinato do Rei Galldrian (998 NE) resultou em uma guerra civil pela sucess�o do Trono do Sol, na interrup��o dos carregamentos de gr�os e na fome. A cidade foi sitiada pelos Shaido no epis�dio a que alguns se referem como Segunda Guerra dos Aiel, num cerco derrotado por outros Aiel sob o comando de Rand al�Thor. Cairhien tem como estandarte um sol nascente com muitos raios em um fundo de c�u azul. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerra dos Aiel.</p><p>calend�rio: H� 10 dias na semana, 28 dias no m�s e 13 meses no ano. V�rios dias festivos n�o fazem parte de nenhum m�s, incluindo o domingo (o dia mais longo do ano), a festividade de A��o de Gra�as (de quatro em quatro anos no equin�cio de primavera), e a festividade da Salva��o de Todas as Almas, tamb�m chamada de Dia de Todas as Almas (de dez em dez anos no equin�cio de outono).</p><p>Callandor: A Espada Que N�o � Espada, a Espada Que N�o Pode Ser Tocada. Uma espada de cristal que, no passado, ficou guardada na Pedra de Tear. Poderoso <emphasis>sa�angreal</emphasis> masculino, sua retirada da c�mara conhecida como Cora��o da Pedra foi, junto com a queda da Pedra, um sinal importante do Renascimento do Drag�o e da aproxima��o de Tarmon Gai�don. Recolocada no Cora��o e reinserida na pedra por Rand al�Thor. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o Renascido; Pedra de Tear; <emphasis>sa�angreal</emphasis>.</p><p>canalizar: Controlar o fluxo do Poder �nico. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Poder �nico.</p><p><emphasis>Car�a�carn</emphasis>: Na L�ngua Antiga, �o chefe dos chefes�. De acordo com a profecia Aiel, um homem que viria de Rhuidean na alvorada, marcado com dois Drag�es, e os lideraria at� o outro lado da Muralha do Drag�o. Segundo a Profecia de Rhuidean, ele vai unir os Aiel e depois destru�-los, e sobreviver� apenas o restante de um restante. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aiel; Rhuidean.</p><p>Caraighan Maconar: Irm� Verde lend�ria (212-373 DR), � a hero�na de centenas de aventuras a que se atribui fa�anhas que at� algumas Aes Sedai considerariam improv�veis, apesar de sua presen�a nos registros da Torre Branca, tais como debelar sozinha uma rebeli�o em Mosadorin e p�r um fim aos Motins de Comaidin, em um per�odo em que n�o contava com nenhum Guardi�o. Um s�mbolo da Ajah Verde e um modelo para todas as irm�s dessa cor. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aes Sedai, Ajah.</p><p>Carridin, Jaichim: Inquisidor da M�o da Luz, alto oficial dos Filhos da Luz e Amigo das Trevas.</p><p>Cauthon, Abell: Fazendeiro de Dois Rios. Pai de Mat Cauthon. Marido de Natti e pai de outras duas filhas, Eldrin e Bodewhin, cujo apelido � Bo.</p><p>Chama de Tar Valon: S�mbolo de Tar Valon, do Trono de Amyrlin e das Aes Sedai. � uma representa��o estilizada de uma chama, uma l�grima branca com a ponta para cima.</p><p>Cinco Poderes, os: O Poder �nico tem fios, batizados conforme o elemento que afetam � Terra, Ar (�s vezes chamado de Vento), Fogo, �gua e Esp�rito � e que recebem o nome de Cinco Poderes. Qualquer um que use o Poder �nico ser� mais forte em um ou talvez dois, mas raramente mais que isso, e ser� mais fraco com os demais. Na Era das Lendas, enquanto Esp�rito era encontrado igualmente em homens e mulheres, uma grande habilidade com Terra ou Fogo era muito mais frequente em homens, e com �gua ou Ar, em mulheres. Havia exce��es, mas o fen�meno era t�o prevalente que Terra e Fogo passaram a ser considerados Poderes masculinos, e Ar e �gua, femininos.</p><p>comprimento, unidades de: 10 polegadas = 1 p�; 3 p�s = 1 passada; 2 passadas = 1 bra�a; 1.000 bra�as = 1 milha; 4 milhas = 1 l�gua.</p><p>Deane Aryman: Trono de Amyrlin que salvou a Torre Branca dos danos causados por Bonwhin em sua tentativa de controlar Artur Asa-de-gavi�o. Nascida em cerca de 920 AL na aldeia de Salidar, em Shiota, foi elevada a Amyrlin a partir da Ajah Azul em 992 AL. Ela convenceu Souran Maravaile a suspender o cerco a Tar Valon (que se iniciara em 975 AL) ap�s a morte de Artur Asa-de-gavi�o. Deane restabeleceu o prest�gio da Torre, e acredita-se que � �poca da sua morte, em 1084 AL, ao cair de um cavalo, ela estava a ponto de convencer os nobres que guerreavam pelo que restara do imp�rio de Asa-de-gavi�o a aceitarem a lideran�a da Torre Branca como forma de restaurar a unidade da regi�o. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Artur Asa-de-gavi�o; Trono de Amyrlin.</p><p>Deserto Aiel: Terra in�spita, severa e praticamente desprovida de �gua que fica a leste da Espinha do Mundo. Chamada pelos Aiel de Terra da Trindade. Poucos forasteiros se aventuram na regi�o porque os Aiel se consideram em guerra com todos os povos, e estrangeiros n�o s�o bem-vindos. Apenas mascates, menestr�is e Tuatha�an t�m entrada permitida em seguran�a, ainda que os Aiel evitem qualquer contato com os Tuatha�an, a quem chamam de �Perdidos�. N�o se sabe da exist�ncia de qualquer mapa do Deserto.</p><p>Desola��o: Nome dado pelos Aiel para os efeitos apresentados por muitos deles ao descobrirem que, em vez de sempre terem sido ferozes guerreiros, seus ancestrais eram pacifistas radicais que foram for�ados a se defender durante a Ruptura do Mundo e nos anos subsequentes. Muitos creem ter sido essa a falha dos Aiel com as Aes Sedai. Alguns Aiel abandonam suas lan�as e fogem, enquanto outros se recusam a deixar de usar o branco dos g<emphasis>ai�shain</emphasis> mesmo ap�s cumprirem o per�odo de um ano e um dia. H� ainda os que negam que isso seja verdade e, com isso, obrigatoriamente n�o reconhe�am que Rand al�Thor seja de fato o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Para esses, h� duas alternativas: voltar para o Deserto Aiel ou aliar-se aos Shaido que se op�em a ele. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aiel; <emphasis>Car�a�carn</emphasis>; Deserto Aiel; <emphasis>gai�shain</emphasis>.</p><p>Drag�o Renascido: De acordo com as Profecias do Drag�o, diz-se do homem que � o Renascimento de Lews Therin, o Fratricida. A maioria das pessoas, mas n�o todas, reconhece Rand al�Thor como o Drag�o Renascido. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, falso; Drag�o, o; Drag�o, Profecias do.</p><p>Drag�o, falso: Nome dado aos v�rios homens que afirmaram ser o Drag�o Renascido. Alguns desencadearam guerras que envolveram diversas na��es. Ao longo dos s�culos, a maioria era incapaz de canalizar, mas alguns podiam fazer isso. Todos, por�m, desapareceram, foram capturados ou mortos sem cumprir nenhuma das Profecias do Drag�o. Entre os capazes de canalizar, os mais poderosos foram Raolin Algoz-das-trevas (335-36 DR), Yurian Arco-de-pedra (cerca de 1300-1308 DR), Davian (351 AL), Guaire Amalasan (939-43 AL), Logain (997 NE) e Mazrim Taim (998 NE). <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o Renascido.</p><p>Drag�o, o: Nome pelo qual Lews Therin Telamon era conhecido durante a Guerra da Sombra, h� uns tr�s mil anos, ou mais. Sofrendo da loucura que se abateu sobre todos os Aes Sedai do sexo masculino, Lews Therin matou todas as pessoas de seu sangue e todos que amava, recebendo ent�o a alcunha de Fratricida. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o Renascido; Drag�o, Profecias do.</p><p>Drag�o, Profecias do: Pouco conhecidas, exceto entre os bem instru�dos, e raramente comentadas, as Profecias registradas em O Ciclo de Karaethon predizem que o Tenebroso ser� libertado mais uma vez, e que Lews Therin Telamon, o Drag�o, Renascer� para lutar em Tarmon Gai�don, a �ltima Batalha contra a Sombra. Segundo as Profecias, ele vai salvar o mundo e ent�o causar uma nova Ruptura. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, o.</p><p>Elaida do Avriny a�Roihan: Aes Sedai que era da Ajah Vermelha e que foi elevada ao Trono de Amyrlin. Antiga conselheira da Rainha Morgase, de Andor. �s vezes Profetiza.</p><p>Era das Lendas: A Era que terminou com a Guerra da Sombra e a Ruptura do Mundo. Uma �poca em que Aes Sedai realizavam maravilhas com as quais atualmente s� se pode sonhar. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerra da Sombra; Ruptura do Mundo.</p><p>Espinha do Mundo: Cadeia de alt�ssimas montanhas com poucos pontos de travessia que separa o Deserto Aiel das terras a oeste. Tamb�m chamada de Muralha do Drag�o.</p><p>esposa-irm�: Termo de parentesco Aiel. Mulheres Aiel que s�o quase-irm�s ou irm�s-primeiras e que descobrem que amam o mesmo homem, ou que simplesmente n�o querem a presen�a de um homem entre as duas, acabam casando-se com ele, tornando-se assim esposas-irm�s. �s vezes, mulheres que amam o mesmo homem tentam descobrir se podem se tornar quase-irm�s e irm�s-primeiras adotadas, um primeiro passo para se tornarem esposas-irm�s.</p><p>estancamento: Ato realizado pelas Aes Sedai que consiste em isolar definitivamente do Poder �nico uma mulher capaz de canalizar. Uma mulher que tenha sido estancada pode sentir a Fonte Verdadeira, mas n�o consegue toc�-la. Oficialmente, resulta do julgamento e da senten�a por um crime. Novi�as da Torre Branca s�o obrigadas a aprender os nomes e os crimes de todas as mulheres que foram estancadas. Quando ocorre acidentalmente, � chamado de exaurimento, mas, na pr�tica, o termo � usado em ambos os casos. Acontecendo de um jeito ou de outro, mulheres que foram estancadas costumam n�o viver muito e parecem simplesmente desistir e morrer, a menos que encontrem algo que substitua o vazio deixado pelo Poder �nico.</p><p>Fain, Padan: Um mascate que fazia com�rcio em Dois Rios e Amigo das Trevas, foi transformado em Shayol Ghul n�o s� para adquirir a capacidade de rastrear o jovem que se tornaria o Drag�o Renascido tal qual um c�o de ca�a, mas tamb�m para implantar nele a necessidade constante de rastre�-lo. A dor desse processo incutiu em Fain um �dio tanto pelo Tenebroso quanto por Rand al�Thor. Enquanto seguia al�Thor, deparou-se com a alma aprisionada de Mordeth em Shadar Logoth, alma que tentou tomar seu corpo. Por�m, por conta do que havia sido feito a Fain, o resultado foi um am�lgama que, em grande parte, manteve a ess�ncia do pr�prio Fain, mas com habilidades al�m das que os dois homens possu�am antes da fus�o, embora Fain ainda n�o as compreenda completamente. A maior parte dos homens teme o olhar sem olhos de um Myrddraal, mas os Myrddraal temem o olhar de Fain.</p><p><emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>: Na L�ngua Antiga, literalmente �Donzelas da Lan�a�. Sociedade guerreira dos Aiel que, ao contr�rio de todas as demais, admite mulheres, e apenas mulheres. Uma Donzela n�o pode se casar e permanecer na sociedade, nem lutar enquanto estiver gr�vida. Qualquer crian�a nascida de uma Donzela � entregue a outra mulher para que esta a crie, de modo que ningu�m saiba quem era a m�e da crian�a. (�Voc� n�o pode pertencer a nenhum homem, nem homem algum pode lhe pertencer, nem qualquer crian�a. A lan�a � sua amante, sua filha e sua vida.�) <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aiel; Sociedades guerreiras dos Aiel.</p><p>Filha-herdeira: T�tulo da herdeira do Trono do Le�o de Andor. Sem filhas vivas, o trono passa � parente consangu�nea mais pr�xima da Rainha. Diverg�ncias quanto a quem era exatamente a parente consangu�nea mais pr�xima j� levaram a diversas disputas pelo poder na regi�o, a �ltima sendo �a Sucess�o�, chamada assim em Andor, ou �a Terceira Guerra pela Sucess�o Andoriana� em outros lugares, acontecimento que entronou Morgase, da Casa Trakand.</p><p>Filhos da Luz: Sociedade de cren�as estritamente asc�ticas que n�o deve lealdade a nenhuma na��o, dedicada a derrotar o Tenebroso e a destruir todos os Amigos das Trevas. Foi fundada durante a Guerra dos Cem Anos com o objetivo de pregar contra o crescente n�mero de Amigos das Trevas, mas evoluiu no decorrer da guerra at� se tornar uma organiza��o militar. Extremamente r�gidos em suas cren�as e convencidos de que s�o os �nicos que conhecem a verdade e sabem o que � certo. Consideram as Aes Sedai e qualquer um que as apoie Amigos das Trevas. Chamados pejorativamente de Mantos-brancos. T�m como s�mbolo um sol dourado em um fundo branco. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Questionadores.</p><p>Fonte Verdadeira: For�a motriz do universo que faz girar a Roda do Tempo. Divide-se em uma metade masculina, <emphasis>saidin</emphasis>, e outra feminina, <emphasis>saidar</emphasis>, que trabalham ao mesmo tempo com e contra a outra. Apenas homens podem recorrer a <emphasis>saidin</emphasis>, e apenas mulheres, a <emphasis>saidar</emphasis>. H� mais de tr�s mil anos, <emphasis>saidin</emphasis> est� maculado pelo toque do Tenebroso. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Poder �nico.</p><p><emphasis>gai�shain</emphasis>: Na L�ngua Antiga, �Comprometido com a Paz nas Batalhas�. Por conta do <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, exige-se de um Aiel feito prisioneiro por outro Aiel durante uma incurs�o ou uma batalha que sirva ao seu captor com humildade e obedi�ncia durante um ano e um dia, sem tocar em armas ou protagonizar nenhum ato de viol�ncia. S�bias, ferreiros, crian�as e mulheres com filhos menores de dez anos n�o podem ser feitos <emphasis>gai�shain</emphasis>. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> vazio, o.</p><p><emphasis>Gaidin</emphasis>: Na L�ngua Antiga, �Irm�o nas Batalhas�. T�tulo usado pelas Aes Sedai para os Guardi�es. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guardi�o.</p><p>Galad: Lorde Galadedrid Damodred, chamado de Galad. Meio-irm�o de Elayne e Gawyn, com quem compartilha o mesmo pai, Taringail Damodred. Tem como s�mbolo uma espada de prata alada com a ponta para baixo.</p><p>Gawyn da Casa Trakand: Filho da Rainha Morgase e irm�o de Elayne, ser� o Primeiro Pr�ncipe da Espada quando Elayne subir ao trono. Meio-irm�o de Galad. Tem como s�mbolo um javali branco.</p><p>Grande Praga, a: Regi�o no extremo norte inteiramente corrompida pelo Tenebroso. Local onde vivem Trollocs, Myrddraal e outras criaturas da Sombra.</p><p>Grande Senhor das Trevas: Nome pelo qual os Amigos das Trevas se referem ao Tenebroso, alegando que usar seu nome verdadeiro � uma blasf�mia.</p><p>Grande Serpente: S�mbolo do tempo e da eternidade que j� era antigo antes do in�cio da Era das Lendas, consiste em uma serpente mordendo a pr�pria cauda. Um anel na forma da Grande Serpente � dado �s mulheres elevadas a Aceitas entre as Aes Sedai.</p><p>Gr�o-lordes de Tear: Com atua��o semelhante � de um conselho, os gr�o-lordes s�o, historicamente, os governantes da na��o de Tear, onde n�o h� rei ou rainha. Seu n�mero n�o � fixo, varia ao longo dos anos, pode ser t�o alto quanto vinte ou t�o baixo quanto seis. N�o devem ser confundidos com os Senhores da Terra, que s�o lordes tairenos menores.</p><p>Guardi�o: Guerreiro que tem um elo com uma Aes Sedai. O elo � feito com o Poder �nico e concede d�divas como Cura acelerada, capacidade de ficar longos per�odos sem comida, �gua ou descanso, e a habilidade de sentir a m�cula do Tenebroso � dist�ncia. Enquanto o Guardi�o permanece vivo, a Aes Sedai com quem ele tem o elo sabe que ele est� vivo, por mais distante que esteja, da mesma forma que, quando ele morre, ela sabe o momento e a forma como seu Guardi�o morreu. Enquanto a maioria das Ajahs acredita que � natural uma Aes Sedai ter um elo com apenas um Guardi�o de cada vez, a Ajah Vermelha se recusa a estabelec�-los e a Ajah Verde cr� que seja poss�vel estabelecer elos com quantos Guardi�es a Aes Sedai quiser. Por �tica, � preciso que o Guardi�o aceite o elo, mas h� casos em que este foi feito involuntariamente. O que a Aes Sedai ganha com o elo � um segredo muito bem guardado. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aes Sedai.</p><p>Guerra da Sombra: Tamb�m conhecida como Guerra do Poder, encerrou a Era das Lendas. Come�ou pouco depois da tentativa de libertar o Tenebroso e logo envolveu o mundo inteiro. Em um mundo em que mesmo as lembran�as do que era a guerra haviam sido esquecidas, todas as facetas foram redescobertas, muitas vezes distorcidas pelo toque do Tenebroso no mundo, e o Poder �nico foi usado como arma. A guerra terminou com a renova��o do selo da pris�o do Tenebroso, em um ataque liderado por Lews Therin Telamon, o Drag�o, e uma centena de Aes Sedai do sexo masculino chamados de Cem Companheiros. O contra-ataque do Tenebroso maculou <emphasis>saidin</emphasis> e enlouqueceu Lews Therin e os Cem Companheiros, dando in�cio ao Tempo da Loucura e � Ruptura do Mundo. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, o; Poder �nico.</p><p>Guerra do Poder: <emphasis>Ver</emphasis> Guerra da Sombra.</p><p>Guerra dos Aiel (976-978 NE): Quando o Rei Laman de Cairhien cortou <emphasis>Avendoraldera</emphasis>, quatro cl�s dos Aiel cruzaram a Espinha do Mundo. Eles saquearam e incendiaram a capital de Cairhien e muitas outras cidades e vilarejos, e o conflito se estendeu at� Andor e Tear. A opini�o geral � de que os Aiel foram finalmente derrotados na Batalha das Muralhas Reluzentes, diante de Tar Valon, mas a verdade � que Laman foi morto naquela batalha, e, tendo cumprido seu objetivo, os Aiel cruzaram a Espinha de volta. <emphasis>Ver tamb�m Avendoraldera</emphasis>; Cairhien; Espinha do Mundo.</p><p>Guerra dos Cem Anos (994-117 AL): S�rie de guerras concomitantes entre alian�as que mudavam constantemente, iniciada pela morte de Artur Asa-de-gavi�o e a subsequente disputa por seu imp�rio. O conflito deixou grande parte das terras entre o Oceano de Aryth e o Deserto Aiel quase desabitadas, do Mar das Tempestades � Grande Praga. A destrui��o foi tanta que restam apenas alguns registros da �poca. Com as guerras, o imp�rio de Artur Asa-de-gavi�o se fragmentou e as na��es dos dias atuais se formaram. <emphasis>Ver tamb�m </emphasis>Artur Asa-de-gavi�o.</p><p>Guerras dos Trollocs: S�rie de guerras iniciadas em torno de 1000 DR que duraram mais de trezentos anos, ao longo dos quais, sob o comando de Myrddraal e Senhores do Medo, ex�rcitos de Trollocs arrasaram o mundo. Com o tempo, os Trollocs foram mortos ou for�ados a voltar � Grande Praga, mas algumas na��es desapareceram, enquanto outras ficaram quase desabitadas. Todos os registros da �poca s�o fragmentados. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Myrddraal; Senhores do Medo; Trollocs.</p><p>Homem Cinza: Homem ou mulher que entregou voluntariamente sua alma ao Tenebroso com o intuito de se tornar um assassino a servi�o da Sombra. Homens Cinza possuem uma apar�ncia t�o comum que os olhos podem percorr�-los sem se darem conta do que veem. A grande maioria dos Homens Cinza � de fato homem, mas h� um n�mero pequeno de mulheres. Tamb�m chamados de Desalmados.</p><p>Illian: Grande porto no Mar das Tempestades, capital da na��o de mesmo nome.</p><p>irm�-primeira, irm�o-primeiro: Termo de parentesco Aiel que significa ter a mesma m�e. Entre os Aiel, isso indica uma rela��o mais pr�xima do que ter o mesmo pai.</p><p>Jogo das Casas: Nome dado �s articula��es, arma��es, tramas e manipula��es feitas pelas Casas Nobres na busca de poder. Nele, d�-se grande valor � dissimula��o, a buscar um objetivo enquanto parece-se estar buscando outro, e ao alcance de suas metas com o menor esfor�o vis�vel. Tamb�m conhecido como Grande Jogo e, �s vezes, por seu nome na L�ngua Antiga: <emphasis>Daes Dae�mar</emphasis>.</p><p>Juilin Sandar: Ca�ador de ladr�es de Tear.</p><p>Juramentos, Tr�s: Juramentos feitos por uma Aceita ao ser elevada a Aes Sedai. S�o proferidos enquanto ela segura o Bast�o dos Juramentos, um <emphasis>ter�angreal</emphasis> que confirma seu compromisso com os votos. S�o eles: (1) N�o dizer palavra que n�o seja verdadeira. (2) N�o criar arma com a qual um homem possa matar outro. (3) Nunca usar o Poder como arma, exceto contra Crias da Sombra ou, em casos extremos, em defesa da pr�pria vida, da vida de seu Guardi�o ou de outra Aes Sedai. O segundo juramento foi o primeiro a ser adotado, em rea��o � Guerra da Sombra. O primeiro juramento, embora levado ao p� da letra, em geral pode ser contornado escolhendo-se bem as palavras. Acredita-se que os dois �ltimos sejam inviol�veis.</p><p>Kerenmosa, Rashima: Conhecida como a Amyrlin Soldada. Nascida por volta de 1150 DR e elevada a Amyrlin a partir da Ajah Verde em 1251 DR. Liderando pessoalmente os ex�rcitos da Torre, obteve in�meras vit�rias, com destaque para a Passagem Kaisin, o Passo Soralle, Larapelle, Tel Norwin e Maighande, onde morreu em 1301 DR. Seu corpo foi descoberto ap�s a batalha cercado por seus cinco Guardi�es e uma enorme parede de Trollocs e Myrddraal que continha os cad�veres de n�o menos que nove Senhores do Medo. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aes Sedai; Ajah; Guardi�es; Senhores do Medo; Trono de Amyrlin.</p><p>Lan; al�Lan Mandragoran: Rei N�o Coroado de Malkier, uma terra engolida pela Praga no ano do seu nascimento (953 NE), Dai Shan e �ltimo sobrevivente dos lordes malkieris. Aos 16 anos, iniciou uma guerra solit�ria contra a Praga e a Sombra, o que continuou at� ele se unir a Moiraine como seu Guardi�o em 979 NE. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guardi�o; Moiraine.</p><p>Latoeiros: Mais precisamente, os Tuatha�an, tamb�m chamados de Povo Errante. Um povo n�made que vive em carro��es muito coloridos e que segue uma filosofia pacifista chamada Caminho da Folha. Est�o entre os poucos que conseguem atravessar o Deserto Aiel sem serem atacados, j� que os Aiel evitam contato com eles. Pouqu�ssimas pessoas sequer suspeitam da origem comum dos Tuatha�an e dos Aiel, que se separaram durante a Ruptura do Mundo numa tentativa de encontrar um modo de retornar aos tempos de paz. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aiel.</p><p>Lews Therin Telamon; Lews Therin Fratricida: <emphasis>Ver</emphasis> Drag�o, o.</p><p>L�ngua Antiga: A l�ngua falada durante a Era das Lendas. Espera-se que os nobres e os cultos saibam fal�-la, mas a maioria conhece apenas algumas poucas palavras. Traduzi-la costuma ser dif�cil, j� que se trata de uma l�ngua com muitos significados diferentes e sutis. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Era das Lendas.</p><p>Lini: Bab� de Lady Elayne e, antes, da m�e dela, Morgase, e tamb�m da av� de Elayne. Mulher de fibra, muito observadora e dona de um arsenal de ditados.</p><p>Logain: Homem que afirmava ser o Drag�o Renascido. Capturado depois de deflagrar guerras por Ghealdan, Altara e Murandy, foi levado � Torre Branca e amansado, vindo a escapar posteriormente durante a confus�o que se sucedeu � deposi��o de Siuan Sanche. Um homem que ainda h� de viver dias de gl�ria.</p><p>Manetheren: Uma das dez na��es que formaram o Segundo Pacto. Tamb�m � o nome de sua capital. Tanto a cidade quanto a na��o foram destru�das nas Guerras dos Trollocs. O s�mbolo de Manetheren era uma �guia Vermelha em pleno voo. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerras dos Trollocs.</p><p>Mantos-brancos: <emphasis>Ver</emphasis> Filhos da Luz.</p><p>massa, unidades de: 10 on�as = 1 libra; 10 libras = 1 pedra; 10 pedras = 1 cem-pesos; 10 cem-pesos = 1 tonelada.</p><p>Mayene: Cidade-estado no Mar das Tempestades, circundada e historicamente oprimida por Tear. A governante de Mayene � denominada �Primeira�, que adv�m do antigo termo Primeiro Lorde ou Primeira Lady. As Primeiras alegam ser descendentes de Artur Asa-da-gavi�o. O t�tulo de Segundo (a), que j� foi exclusivo de um �nico lorde ou lady, chegou a ser usado, nos �ltimos quatrocentos anos, por at� nove pessoas ao mesmo tempo. Seu estandarte � um gavi�o dourado em pleno voo em um fundo azul.</p><p>Melaine: S�bia do ramo Jhirad dos Aiel Goshien e Andarilha dos Sonhos. Tem for�a moderada com o Poder �nico. Casada com Bael, chefe de cl� dos Goshien. Esposa-irm� de Dorindha, senhora do teto do Forte das Fontes de Fuma�a. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Andarilha dos Sonhos.</p><p>menestr�is: Viajantes contadores de hist�rias, m�sicos, malabaristas, acrobatas e mestres do entretenimento. Conhecidos por sua marca registrada, os mantos de retalhos multicoloridos, apresentam-se principalmente em aldeias e cidades pequenas.</p><p>Moiraine Damodred: Aes Sedai da Ajah Azul. Nascida em Cairhien, na Casa Damodrehd. Nasceu em 956 NE no Pal�cio Real de Cairhien. Ap�s chegar � Torre Branca como novi�a em 972 NE, sua ascens�o foi mete�rica, com eleva��o a Aceita em apenas tr�s anos e a Aes Sedai em s� mais outros tr�s, ao final da Guerra dos Aiel. Foi ent�o que ela iniciou a busca pelo jovem que, de acordo com Gitara Moroso, Aes Sedai com o Talento da Previs�o, nascera nas encostas do Monte do Drag�o durante a Batalha das Muralhas Reluzentes e que seria o Drag�o Renascido. Foi ela que levou Rand al�Thor, Mat Cauthon, Perrin Aybara e Egwene al�Vere embora de Dois Rios. Desapareceu ao entrar num <emphasis>ter�angreal</emphasis> em Cairhien enquanto lutava contra Lanfear, aparentemente matando tanto a si mesma quanto a Abandonada.</p><p>Morgase: Pela Gra�a da Luz, Rainha de Andor, Defensora do Reino, Protetora do Povo, Gr�o-trono da Casa Trakand. No momento, em ex�lio e tida como morta, assassinada pelo Drag�o Renascido, como muitos pensam. Seu s�mbolo s�o tr�s chaves douradas. O s�mbolo da Casa Trakand � uma pedra angular prateada.</p><p>Myrddraal: Criaturas do Tenebroso, comandantes dos Trollocs. Crias distorcidas de Trollocs nas quais o material humano para cri�-los ressurge, mas maculado pelo mal que originou os Trollocs. N�o t�m olhos, mas enxergam como �guias, tanto na luz quanto no escuro. T�m certos poderes que v�m do Tenebroso, inclusive a habilidade de causar um medo paralisante com uma encarada e de sumir onde quer que haja sombras. Uma das poucas fraquezas conhecidas � a relut�ncia em cruzar �gua corrente. Espelhos os refletem de maneira enevoada. Em terras diferentes, s�o conhecidos por diversos nomes, entre os quais Meios-homens, Sem-olhos, Homens das Sombras, Espreitadores, Espectros e Desvanecidos.</p><p>Ogier: (1) Ra�a n�o humana, caracterizada por altura elevada (um adulto do sexo masculino tem cerca de dez p�s de altura, em m�dia), porte largo, narizes muito parecidos com focinhos e orelhas longas e peludas. Vivem em �reas chamadas de <emphasis>pousos</emphasis>, das quais saem muito pouco, e costumam ter pouco contato com humanos. O conhecimento sobre eles entre os humanos � escasso, e muitos creem que Ogier s�o apenas lendas, embora eles sejam ex�mios construtores e tenham constru�do a maior parte das grandes cidades erguidas depois da Ruptura. Apesar de serem considerados um povo pac�fico e extremamente dif�cil de ser irritado, algumas hist�rias antigas contam que eles lutaram ao lado dos humanos nas Guerras dos Trollocs, e que s�o inimigos implac�veis. Em geral, apreciam o conhecimento e, n�o raro, seus livros e suas hist�rias cont�m informa��es perdidas para os humanos. A expectativa de vida t�pica de um Ogier � pelo menos o triplo ou o qu�druplo da de um humano. (2) Qualquer indiv�duo pertencente a essa ra�a n�o humana. <emphasis>Ver tamb�m pouso</emphasis>; Ruptura do Mundo.</p><p>Padr�o de uma Era: A Roda do Tempo tece os fios das vidas humanas no Padr�o de uma Era, muitas vezes chamado simplesmente de Padr�o, que forma a subst�ncia da realidade para aquela Era. <emphasis>Vertamb�m ta�veren</emphasis>.</p><p>Pedra de Tear: Grande fortaleza na cidade de Tear que dizem ter sido constru�da por meio do Poder �nico logo ap�s a Ruptura do Mundo. Sitiada e atacada sem sucesso incont�veis vezes, caiu numa �nica noite pelas m�os do Drag�o Renascido e de algumas centenas de Aiel, tornando realidade duas partes das Profecias do Drag�o. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, Profecias do.</p><p>Poder �nico: O poder retirado da Fonte Verdadeira. A grande maioria das pessoas � incapaz de aprender a canaliz�-lo. Pouqu�ssimos podem vir a aprender, e uma parcela ainda menor nasce com essa centelha. Para esses poucos, n�o h� necessidade de aprendizado, pois acabar�o canalizando o Poder independentemente da sua vontade, e talvez sem nem perceber. Essa habilidade inata costuma se manifestar no fim da adolesc�ncia ou no in�cio da idade adulta. Caso n�o aprendam a controlar, com ajuda ou por si mesmos (algo bem dif�cil, com uma taxa de sucesso de apenas um em cada quatro), a morte � certa. Desde o Tempo da Loucura, homem algum � capaz de canalizar sem enlouquecer de forma terr�vel e ent�o, mesmo se tiver adquirido certo controle, acabar morrendo de uma esp�cie de doen�a degenerativa que faz com que o portador apodre�a ainda vivo. Assim como a loucura, essa doen�a � causada pela m�cula do Tenebroso em <emphasis>saidin</emphasis>. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aes Sedai; canalizar; Cinco Poderes; Fonte Verdadeira; Ruptura do Mundo.</p><p><emphasis>pouso</emphasis>: Terras dos Ogier. Muitos <emphasis>pousos</emphasis> foram abandonados desde a Ruptura do Mundo. T�m alguma forma de prote��o que impede Aes Sedai de canalizar o Poder �nico ou mesmo sentir a Fonte Verdadeira em seu interior, embora o conhecimento a respeito de como ou por que isso ocorre tenha se perdido. Mesmo tentativas de usar o Poder �nico fora de um <emphasis>pouso</emphasis> n�o ter�o qualquer efeito em seu interior. A menos que seja obrigado, nenhum Trolloc entra em um <emphasis>pouso</emphasis>, e mesmo um Myrddraal s� far� isso em caso de extrema necessidade e com grande relut�ncia. At� os Amigos das Trevas, quando muito dedicados, sentem-se desconfort�veis dentro de um <emphasis>pouso</emphasis>.</p><p>Povo do Mar: Seu nome mais adequado � Atha�an Miere. Um povo misterioso. Habitantes das ilhas do Oceano de Aryth e do Mar das Tempestades, passam pouco tempo em terra firme, levando grande parte de suas vidas nos navios. A maior parte do com�rcio mar�timo � feita nos navios do Povo do Mar.</p><p>Praga: <emphasis>Ver</emphasis> Grande Praga, a.</p><p>quase-irm�, quase-irm�o: Termos de parentesco Aiel para indicar amigos quase t�o pr�ximos quanto irm�s-primeiras e irm�os-primeiros. Quase-irm�s costumam se adotar formalmente como irm�s-primeiras, mas quase-irm�os raramente o fazem.</p><p>Questionadores, os: Ordem dentro dos Filhos da Luz cujos objetivos s�o descobrir a verdade, quando controversa, e revelar Amigos das Trevas. Em sua busca pela verdade e pela Luz, o m�todo usual de interrogat�rio � a tortura. Costumam agir como se j� soubessem a verdade e precisassem apenas de uma confiss�o. Os Questionadores referem-se a si mesmos como a M�o da Luz, a M�o que desenterra a verdade, e por vezes agem como se fossem completamente independentes dos Filhos e do Conselho dos Ungidos, que os comanda. O l�der dos Questionadores � o Gr�o-inquisidor, que ocupa uma cadeira no Conselho dos Ungidos. T�m como s�mbolo o cajado vermelho-sangue de um pastor. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Filhos da Luz.</p><p>Rhuidean: Uma grande cidade, a �nica no Deserto Aiel, e totalmente desconhecida para o mundo exterior. Abandonada por quase tr�s mil anos. No passado, s� se permitia que um homem Aiel entrasse em Rhuidean uma �nica vez para que, dentro de um grande <emphasis>ter�angreal</emphasis>, ele passasse pelo teste de chefe de cl� (apenas um de cada tr�s sobrevivia a essa prova). Mulheres Aiel entravam na cidade apenas duas vezes: primeiro para serem testadas no mesmo <emphasis>ter�angreal</emphasis> e depois para se tornarem S�bias, mas com uma taxa de sobreviv�ncia consideravelmente maior. Atualmente, a cidade voltou a ser habitada pelos Aiel. Um grande lago alimentado por um oceano subterr�neo de �gua doce ocupa uma das extremidades do vale de Rhuidean, e esse lago, por sua vez, alimenta o �nico rio no Deserto. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aiel.</p><p>Roda do Tempo, a: O tempo � uma roda com sete bra�os, cada um uma Era. Conforme a Roda gira, as Eras v�m e v�o, deixando lembran�as que desvanecem e se tornam lendas, que desvanecem e se tornam mitos, e que j� est�o h� muito esquecidos quando a Era que lhes deu origem retorna. O Padr�o de uma Era � um pouco diferente a cada vez que ela retorna, e a cada vez est� sujeito a mudan�as maiores.</p><p>Ruptura do Mundo: Durante o Tempo da Loucura, Aes Sedai do sexo masculino tomados pela loucura transformaram o mundo, arrasando antigas cadeias de montanhas e construindo novas, erguendo terra onde havia mar e fazendo o mar invadir a terra. Muitas partes do mundo ficaram completamente despovoadas, e os sobreviventes se dispersaram como poeira ao vento. Essa destrui��o � lembrada em contos, lendas e na hist�ria como a Ruptura do Mundo.</p><p><emphasis>sa�angreal</emphasis>: Objetos remanescentes da Era das Lendas que permitem a canaliza��o de muito mais Poder �nico do que seria poss�vel ou seguro de outra forma. Um <emphasis>sa�angreal</emphasis> � semelhante a um <emphasis>angreal</emphasis>, por�m mais poderoso. O volume de Poder que pode ser canalizado com um <emphasis>sa�angreal</emphasis> est� para o que se canaliza com um <emphasis>angreal</emphasis> como o que se canaliza com um <emphasis>angreal</emphasis> est� para o que se canaliza sem ajuda. N�o se sabe mais como fabric�-los. Assim como ocorre com os <emphasis>angreal</emphasis>, existem <emphasis>sa�angreal</emphasis> de uso masculino e de uso feminino. Restam apenas alguns, muito mais raros que os <emphasis>angreal</emphasis>.</p><p>Sabedoria: Nas aldeias, � a mulher escolhida pelo C�rculo das Mulheres por seu conhecimento em �reas como a cura e a previs�o do tempo, assim como seu bom senso. Geralmente, � considerada equivalente ao Prefeito, e em algumas aldeias � sua superior. O cargo de Sabedoria � vital�cio, e � raro uma deixar o of�cio antes de morrer. Dependendo da regi�o, o t�tulo pode ser outro, como Guia, Curandeira, S�bia ou Buscadora.</p><p>S�bia: Entre os Aiel, as S�bias s�o mulheres escolhidas por outras S�bias e treinadas para a cura, uso de ervas e outras habilidades, de forma muito similar �s Sabedorias. S�o detentoras de grande autoridade e responsabilidade, bem como de forte influ�ncia entre os chefes dos ramos e cl�s, embora esses homens com frequ�ncia as acusem de se intrometerem em seus assuntos. Boa parte das S�bias � capaz de canalizar pelo menos um pouco. Elas encontram todas as Aiel nascidas com a centelha e a maior parte das que s�o capazes de aprender. Por costume, n�o se fala entre os Aiel sobre as S�bias serem capazes de canalizar. Tamb�m por costume, e mais at� que os outros Aiel, as S�bias evitam qualquer tipo de contato com as Aes Sedai. S�bias ficam de fora de todas as rixas e batalhas, e, de acordo com o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, n�o podem ser feridas ou capturadas. Uma S�bia que tomasse parte em uma batalha estaria incorrendo em uma grande viola��o dos costumes e das tradi��es. Tr�s S�bias ainda em vida s�o Andarilhas dos Sonhos, podendo adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> e, entre outras coisas, conversar com pessoas que estejam sonhando. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Andarilha dos Sonhos; <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p><emphasis>saidar; saidin</emphasis>: <emphasis>Ver</emphasis> Fonte Verdadeira.</p><p>Seanchan: (1) Descendentes dos ex�rcitos que Artur Asa-de-gavi�o enviou para o outro lado do Oceano de Aryth e que, l�, conquistaram terras. Acreditam que qualquer mulher capaz de canalizar deva ser controlada para a seguran�a de todos, e que, pelo mesmo motivo, qualquer homem capaz de canalizar deva ser morto. (2) A terra onde vivem esses descendentes.</p><p>Senhores do Medo: Homens e mulheres capazes de canalizar que passaram para o lado da Sombra durante as Guerras dos Trollocs, atuando como generais das for�as dos Trollocs e dos Amigos das Trevas. �s vezes, os menos instru�dos os confundem com os Abandonados.</p><p>Shayol Ghul: Montanha nas Terras Devastadas, al�m da Grande Praga. Local da pris�o do Tenebroso.</p><p>Sociedades guerreiras dos Aiel: Todos os guerreiros Aiel s�o membros de uma das doze sociedades guerreiras, que s�o os Andarilhos do Trov�o (<emphasis>Sha�mad Conde</emphasis>), os Buscadores das �guas (<emphasis>Duadhe Mahdi�in</emphasis>), os C�es de Pedra (<emphasis>Shae�en M�taal</emphasis>), os Dan�arinos da Montanha (<emphasis>Hama N�dore</emphasis>), as Donzelas da Lan�a (<emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>), os Escudos Vermelhos (<emphasis>Aethan Dor</emphasis>), os Irm�os da �guia (<emphasis>Far Aldazar Din</emphasis>), os Lan�as Noturnas (<emphasis>Cor Darei</emphasis>), os Mensageiros da Aurora (<emphasis>Rahien Sorei</emphasis>), os M�os de Faca (<emphasis>Sovin Nai</emphasis>), os Olhos Negros (<emphasis>Seia Doon</emphasis>) e os Sangues Verdadeiros (<emphasis>Tain Shari</emphasis>). Cada sociedade tem seus pr�prios costumes e, �s vezes, deveres espec�ficos. Por exemplo, os Escudos Vermelhos agem como pol�cia, os C�es de Pedra muitas vezes s�o usados para cuidar da retaguarda durante a retirada de um grupo de investida, enquanto as Donzelas assumem com frequ�ncia a fun��o de batedoras. � comum os cl�s invadirem o territ�rio uns dos outros e lutarem entre si, mas membros da mesma sociedade n�o se enfrentam, ainda que os cl�s o fa�am. Dessa forma, h� sempre alguma esp�cie de relacionamento entre cl�s, mesmo quando em guerra declarada. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aiel; Deserto Aiel; <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>.</p><p>Sonhador: <emphasis>Ver</emphasis> Talentos.</p><p>Sorilea: S�bia do Forte Shende, uma Aiel Jarra Chareen. Quase incapaz de canalizar, � a S�bia mais velha, embora a diferen�a de idade para a segunda n�o seja t�o grande quanto muitos pensam.</p><p><emphasis>ta�veren</emphasis>: Pessoa em torno da qual a Roda do Tempo tece todos os fios de vidas pr�ximas, talvez todos os fios de todas as vidas. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Padr�o de uma Era.</p><p>Taim, Mazrim: Falso Drag�o que, at� ser derrotado e capturado, causou um tumulto em Saldaea. � muito forte no Poder. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, falso.</p><p>Talentos: Habilidades relativas ao uso do Poder �nico em �reas espec�ficas. A aptid�o em v�rios Talentos varia bastante de indiv�duo a indiv�duo e raramente tem a ver com a for�a da capacidade desse indiv�duo de canalizar. H� Talentos maiores, e o mais conhecido e disseminado entre eles � a Cura. Outros exemplos s�o a Dan�a das Nuvens (controle do clima) e o Canto da Terra (que envolve o controle de movimentos da terra, como a preven��o ou a indu��o de terremotos e avalanches). Tamb�m h� Talentos menores que raramente recebem nomes, como a capacidade de enxergar <emphasis>ta�veren</emphasis> ou de duplicar o efeito de um <emphasis>ta�veren</emphasis> de influenciar o acaso, ainda que numa �rea bem pequena e restrita que dificilmente cobre mais que alguns p�s quadrados. Alguns Talentos, como o de Viajar (habilidade de ir de um lugar a outro sem cruzar o espa�o f�sico), s� agora est�o sendo redescobertos. Outros, como o da Profecia (capacidade de predizer eventos futuros, mas de forma geral) e o do Detec��o (localiza��o de min�rios e sua poss�vel retirada do solo), s�o muito raros. Outro Talento que havia muito se pensava n�o mais existir � o de Sonhar, que envolve a interpreta��o dos sonhos do Sonhador para prever eventos futuros de maneira mais espec�fica do que as Profecias o fazem. Alguns Sonhadores t�m a capacidade de adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, o Mundo dos Sonhos, e (� o que se diz) at� mesmo os sonhos de outras pessoas. A �ltima Sonhadora de que se tinha not�cia era Corianin Nedeal, que morreu em 526 NE, mas agora h� outra. Ver tamb�m <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p>Tallanvor, Martyn: Tenente da Guarda da Rainha que ama sua rainha mais do que sua honra ou a pr�pria vida.</p><p>Tam al�Thor: Fazendeiro e pastor de Dois Rios. Ainda jovem, deixou o local para se tornar soldado e retornou com uma esposa, Kari, j� falecida, e um filho, Rand.</p><p>Tarabon: Na��o no Oceano de Aryth cuja capital � Tanchico. Outrora local de grandes negocia��es, fonte de tapetes, tintas e fogos de artif�cio, entre outros produtos confeccionados pela Guilda de Iluminadores. Poucas not�cias chegaram de Tarabon desde que a na��o passou a ser assolada pela anarquia e pela guerra civil, al�m das guerras simult�neas contra Arad Doman e os Devotos do Drag�o, pessoas que juraram seguir o Drag�o Renascido.</p><p>Tarmon Gai�don: A �ltima Batalha. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, Profecias do; Trombeta de Valere.</p><p>Tear: Na��o no Mar das Tempestades cuja capital, de mesmo nome, � uma grande cidade portu�ria. O estandarte de Tear exibe tr�s luas crescentes brancas que se inclinam em um fundo metade vermelho, metade dourado. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Pedra de Tear.</p><p>Telamon, Lews Therin: <emphasis>Ver</emphasis> Drag�o, o.</p><p><emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>: Na L�ngua Antiga, �Mundo Invis�vel� ou �Mundo dos Sonhos�. Um mundo ou lugar vislumbrado em sonhos que os antigos acreditavam permear e circundar todos os outros mundos poss�veis. Muitos podem tocar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> por alguns momentos em seus sonhos, mas s�o poucos os que j� tiveram a capacidade de adentr�-lo de acordo com sua vontade, embora alguns <emphasis>ter�angreal</emphasis> concedam essa capacidade. Ao contr�rio dos outros sonhos, o que acontece �s criaturas vivas no Mundo dos Sonhos � real: uma ferida sofrida l� ainda existir� ao despertar, e quem l� morre n�o acorda jamais. Tirando esses dois casos, por�m, nada do que acontece por l� afeta de modo algum o mundo desperto. <emphasis>Ver tamb�m ter�angreal</emphasis>.</p><p>Tenebroso: Nome mais comum, usado em todas as terras, para Shai�tan. A fonte de todo mal, ant�tese do Criador. Aprisionado em Shayol Ghul pelo Criador no momento da Cria��o. Uma tentativa de libert�-lo causou a Guerra da Sombra, a m�cula de <emphasis>saidin</emphasis>, a Ruptura do Mundo e o fim da Era das Lendas. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, Profecias do.</p><p><emphasis>ter�angreal</emphasis>: Objetos remanescentes da Era das Lendas que utilizam o Poder �nico. Diferente dos <emphasis>angreal</emphasis> e <emphasis>sa�angreal</emphasis>, cada <emphasis>ter�angreal</emphasis> foi feito para determinado objetivo. Alguns s�o usados pelas Aes Sedai, mas seu prop�sito original �, em grande medida, desconhecido. Alguns requerem canaliza��o, ao passo que outros podem ser usados por qualquer pessoa. Alguns matar�o qualquer mulher que os use ou destruir�o sua habilidade de canalizar. Assim como com os <emphasis>angreal</emphasis> e <emphasis>sa�angreal</emphasis>, os conhecimentos de como fabric�-los se perdeu com a Ruptura do Mundo. Ver tamb�m <emphasis>angreal</emphasis>; <emphasis>sa�angreal</emphasis>.</p><p>Terras da Fronteira: As na��es que fazem fronteira com a Grande Praga: Saldaea, Arafel, Kandor e Shienar. Sua hist�ria � de ataques e guerras infinitas contra Trollocs e Myrddraal. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Grande Praga.</p><p>Thom Merrilin: Um menestrel e viajante nada comum. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Jogo das Casas; menestr�is.</p><p>Torre Branca: Centro e n�cleo do poder das Aes Sedai, localizada no cora��o da grande cidade-ilha de Tar Valon.</p><p>Trollocs: Criaturas do Tenebroso cuja origem remonta � Guerra da Sombra. De imensa estatura, s�o uma mistura distorcida entre animais e humanos. Malignos por natureza, matam por puro prazer. Trai�oeiros ao extremo, s� s�o confi�veis quando coagidos pelo medo. Comem qualquer coisa, ou qualquer um. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerras dos Trollocs.</p><p>Trombeta de Valere: Objeto lend�rio da Grande Ca�ada � Trombeta. Dizem poder convocar os her�is mortos para lutar contra a Sombra. Uma nova Ca�ada � Trombeta foi convocada, e Ca�adores da Trombeta declarados podem ser encontrados em muitas na��es.</p><p>Trono de Amyrlin: (1) T�tulo da l�der das Aes Sedai. O Sal�o da Torre, formado por tr�s representantes de cada uma das Ajahs � chamadas de as Votantes �, elege uma mulher para esse cargo vital�cio. O Trono de Amyrlin tem, ao menos em teoria, autoridade quase suprema entre as Aes Sedai, e seu status equivale ao de um rei ou uma rainha. Uma forma de tratamento um pouco menos formal � apenas �Amyrlin�. (2) O trono no qual se senta a l�der das Aes Sedai.</p><p>uni�o: Capacidade das mulheres que canalizam de combinarem seus fluxos do Poder �nico. Ainda que o fluxo combinado n�o seja t�o poderoso quanto a soma total dos fluxos individuais, ele � direcionado pela mulher que lidera a conex�o e pode ser utilizado com muito mais precis�o e com um efeito muito maior do que os fluxos individuais o poderiam. Homens n�o s�o capazes de se unir sem a presen�a de uma mulher ou de mulheres no c�rculo. At� 13 mulheres podem se unir sem a presen�a de um homem. Com a inclus�o de um, o c�rculo pode se expandir para 26 mulheres. Dois homens podem levar o c�rculo a ter 34 mulheres, e assim por diante, at� que se atinja o limite de 6 homens e 66 mulheres. H� c�rculos que contam com mais homens e menos mulheres, mas, exceto quando se unem um homem e uma mulher, uma mulher e dois homens, ou, � claro, dois homens e duas mulheres, sempre deve haver no c�rculo pelo menos uma mulher a mais do que h� homens. Na maioria dos casos, ou um homem ou uma mulher podem controlar a liga��o, mas um homem deve necessariamente ter esse controle no c�rculo de 72 pessoas ou nos c�rculos mistos de menos de 13 pessoas. Apesar de os homens, em geral, serem mais fortes com o Poder �nico do que as mulheres, os c�rculos mais poderosos s�o os que cont�m o m�ximo poss�vel de igualdade no n�mero de homens e mulheres. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Aes Sedai.</p></section></body><binary id="cover" 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