<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>prose_history</genre><author><first-name>&#x42D;&#x43D;&#x442;&#x43E;&#x43D;&#x438;</first-name><last-name>&#x41A;&#x430;&#x43F;&#x435;&#x43B;&#x43B;&#x430;</last-name><id>16622</id></author><book-title>A Rainha dos Gelados</book-title><annotation><p>J� ouvi o amor ser comparado a um fogo, mas essa compara��o est� errada. O amor � como o gelo. Penetra no nosso corpo de forma furtiva. Quando vi Louise, o mundo parou. Amava-a, e nunca a poderia ter. Sabia que outro a amava tamb�m. Mas ele era rei e eu n�o. Ele podia t�-la e eu n�o. O gelo acabaria por deixar o seu cora��o, mas ficaria para sempre no meu.   1670. No pal�cio de Versalhes, que alberga a corte mais elegante do mundo, o jovem Carlo Demirco � famoso pela sua arte de fazer gelados. As suas t�cnicas trouxeram-lhe riqueza, os favores de Lu�s XIV e a admira��o de todas as mulheres. Todas excepto a que ama: Louise, a dama de companhia de Henrietta, irm� do rei de Inglaterra. Quando Henrietta morre, Louise e Carlo s�o enviados para Londres como presente para o rei em sofrimento. Chegados a um pa�s de costumes pouco refinados, cujo rei rapidamente se disp�e a seduzir Louise custe o que custar, torna-se claro para ambos que as suas �nicas armas ser�o uma boa dose de diplomacia e quantidades extravagantes de gelo.</p></annotation><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><src-lang>en</src-lang></title-info><document-info><author><first-name>Anthony</first-name><last-name>Capella</last-name></author><program-used>calibre 6.13.0, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>25.11.2023</date><id>eb4fb08f-c7ff-47c2-950d-dae6db519f8c</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><book-name>A Rainha dos Gelados</book-name><publisher>ASA</publisher><isbn>9789892312088</isbn></publish-info><custom-info info-type="librusec-id">760964</custom-info></description><body><section><empty-line/><p><strong>Ficha T�cnica</strong></p><p>T�tulo original: THE EMPRESS OF ICE CREAM</p><p>T�tulo: A Rainha dos Gelados</p><p>Autor: Anthony Capella</p><p>Traduzido do ingl�s por Elsa T. S. Vieira</p><p>Capa: Maria Manuel Lacerda</p><p>Imagem da capa: Ashley Lebedev/Trevillion Images</p><p>ISBN: 978-989-23-1049-7</p><p>Edi��es ASA II, S.A.</p><p>� uma editora do Grupo LeYa</p><p>R. Cidade de C�rdova, n.� 2</p><p>2160-038 Alfragide � Portugal</p><p>Tel.: (+351) 214 272 200</p><p>Fax: (+351) 214 272 201</p><p>� 2010, Anthony Capella</p><p>Todos os direitos reservados de acordo com a legisla��o em vigor</p><p><a l:href="http://www.asa.leya.com">www.asa.leya.com</a></p><p><a l:href="http://www.leya.pt">www.leya.pt</a></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p>�Neste romance gastron�mico, Anthony Capella explora a ardente hist�ria do gelado.�</p><p><emphasis>The Independent</emphasis></p><empty-line/><empty-line/><p>�Maravilhosamente escrito, com personagens sumptuosas e condimentado com receitas de fazer crescer �gua na boca� � fic��o hist�rica no seu melhor.�</p><p><emphasis>Candis</emphasis></p><empty-line/><empty-line/><p>�Um romance envolvente na melhor tradi��o de <emphasis>O Perfume</emphasis>; delicioso, irresist�vel e arrebatadoramente gelado.�</p><p><emphasis>The Daily Mail</emphasis></p><empty-line/><empty-line/><p>�Uma hist�ria de amor onde se cruzam salpicos de Hist�ria e maravilhosas descri��es de comida. Os f�s de Capella n�o ir�o ficar desapontados.�</p><p><emphasis>Wisbech Standard</emphasis></p><empty-line/><empty-line/><p>�Delicioso.�</p><p><emphasis>Star Magazine</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Que a realidade ponha fim �s apar�ncias. O �nico imperador � o imperador dos gelados.</emphasis></p><p>Wallace Stevens, �The Emperor of Ice Cream�</p><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Para Louise Denne</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>NOTA DO EDITOR</emphasis></p><p>Durante muitas d�cadas, o conjunto de documentos do s�culo dezassete descobertos na Grande Biblioteca de Ditchley Park, que ficaram posteriormente conhecidos como o Pacote Ditchley, foi em grande medida ignorado pelos estudiosos. Tal como muitos textos desse per�odo turbulento, estavam escritos em c�digo, um c�digo aparentemente ainda mais impenetr�vel do que o utilizado por Samuel Pepys. S� depois da venda do Pacote � Am�rica, juntamente com dezenas de outros manuscritos antigos, em finais dos anos noventa, � que um arquivista � na verdade, um jovem e inteligente estagi�rio de Wellesley � se perguntou o que aconteceria se o texto original estivesse escrito, n�o em ingl�s, mas em franc�s, e o at� en�t�o di�rio privado de Louise de Keroualle, amante do rei Carlos II, foi revelado ao mundo.</p><p>Parece que a determinada altura, durante o tempo que esteve em Inglaterra, Louise come�ou a escrever na sua l�ngua m�e um relato encriptado da vida na corte inglesa. Se o fez para aliviar as saudades de casa, como ap�lice de seguro caso fosse presa, ou, como foi sugerido mais recentemente, como uma esp�cie de substituto para a confiss�o que j� n�o podia fazer a um padre � uma vez que estava agora, claro, num estado de pecado mortal impenitente � n�o sabemos. Estas especula��es tamb�m n�o derivam naturalmente do manuscrito em si mesmo que, em certas partes, parece mais um documento moderno de estrat�gia pol�tica ou um manifesto por uma Europa unida do que um livro de mem�rias; e que, apesar da aparente posi��o que ela detinha na casa real, cont�m na verdade muito menos em termos de detalhes libertinos do que, por exemplo, o di�rio de Pepys. Ao fazer estes extractos, concentrei-me nas experi�ncias pessoais de Louise na corte e no seu c�rculo, e n�o no envolvimento que teve nas grandiosas intrigas e conspira��es que preocupavam grande parte da Europa na �poca e que j� est�o habilmente descritas noutros lados.</p><p>O tratado de Carlo Demirco � se n�o se considerar a palavra �tratado� demasiado grandiosa para o pref�cio de um livro de receitas pr�ticas � requer muito menos apresenta��es. Os historiadores alimentares h� muito que est�o fascinados pela hist�ria do gelado e, em particular, pelo facto de a primeira men��o registada do mesmo, em todo o mundo, surgir em Inglaterra, na ementa de um banquete de cerim�nia oferecido pelo rei Carlos II aos Cavaleiros da Ordem da Jarreteira em 1671 � o mesmo ano, a prop�sito, em que Louise se tornou sua amante. Carlo Demirco n�o � o �nico que pode reclamar ser o progenitor do gelado � � preciso levar tamb�m em considera��o relatos rivais como <emphasis>La Maison R�gl�e</emphasis>, de Lucian Audiger, publicado em Paris em 1692 � mas � o �nico que explica todas as circunst�ncias conhecidas, como o facto de, no Banquete da Ordem da Jarreteira, o confeiteiro real ter servido apenas uma ta�a de gelado, unicamente para a mesa do rei; e o �nico que tem receitas para apoiar as suas afirma��es, muitas dos quais, ali�s, s�o usadas ainda hoje.</p><p>O livro de Demirco � impresso pela primeira vez em 1678, traduzido para cinco l�nguas antes do final desse s�culo, republicado durante a grande loucura dos gelados da era Jorgiana como <emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis>, e que s� caiu no esquecimento quando os m�todos modernos de refrigera��o tornaram finalmente as suas t�cnicas desactualizadas � pode parecer um estranho companheiro para as mem�rias secretas e encriptadas de uma cortes� real, em particular uma t�o pouco popular em geral como Louise, que tanto o p�blico do seu tempo como os historiadores modernos t�m tend�ncia a encarar como uma representante sem princ�pios de uma era particularmente avara. Talvez a publica��o, finalmente, destas partes do seu di�rio, possa contribuir de alguma forma para a apresentar sob outra luz. De forma intrigante, h� evid�ncias de que os dois documentos � as receitas e o di�rio � estiveram em tempos lado a lado, juntos, no Pacote, durante a sua longa estada no arm�rio da biblioteca: as manchas de cozinha que adornam as p�ginas de <emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis> sugerem que, a dada altura nos trezentos anos interm�dios, o Pacote foi descoberto e dele retirado apenas o volume de Demirco, colocado ent�o a uso de uma forma que o seu autor teria certamente aprovado.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>PARTE UM</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para refrescar vinho: use um bloco de gelo ou neve bem compacta; divida-o e rache-o e fa�a-o em p�, t�o fino quanto desejar; coloque-o num balde de prata e empurre a garrafa bem para o fundo.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>� costume, em obras como aquela que inicio agora, come�ar por descrever as circunst�ncias do nascimento do autor e, assim, estabelecer a autoridade que pode reivindicar para se dirigir ao leitor (a sua posi��o na vida, aquilo que alcan�ou e por a� fora, tudo naturalmente determinado pelo seu lugar na sociedade).</p><p>Infelizmente, n�o posso fazer tais reivindica��es, pois o meu nascimento foi humilde e o meu crescimento miser�vel.</p><p>Creio que n�o teria mais de sete ou oito anos quando o persa, Ahmad, me levou da minha fam�lia. Tudo o que recordo agora da ilha onde os meus pais viviam � que as amendoeiras ficavam brancas na Primavera, como neve no cume do grande vulc�o que se erguia sobre elas, e como era verde o mar onde o meu pai pescava. Esse mesmo mar trazia-nos barcos como aquele em que Ahmad chegou, � procura de um rapaz para ser seu aprendiz. Quando me viu a remendar as redes com o meu pai, falou com os meus pais da grande vida que eu levaria, do esplendor de Floren�a e da corte maravilhosa onde seria colocado. Desse dia em diante, dei por mim ao servi�o de um mestre cruel e caprichoso. N�o Ahmad � embora ele fosse severo, n�o era pior do que muitos outros. N�o, o mestre que me tratou t�o duramente foi o pr�prio gelo.</p><p>Depois de chegarmos a Floren�a, uma das minhas primeiras tarefas foi transportar os pesados blocos, da casa de gelo nos Jardins Boboli para as cozinhas do pal�cio. Da primeira vez que o fiz, a curiosidade de brincar com as placas congeladas � v�-las deslizar para longe de mim como enguias, sentar-me em cima delas e mont�-las como se fossem carrinhos pela encosta relvada, ou atir�-las contra a parede da cozinha de certa dist�ncia e v�-las despeda�arem-se em dezenas de fragmentos cintilantes como j�ias � encantou-me de tal forma que, num estado de entusiasmo infantil, negligenciei os meus outros deveres.</p><p>Quando Ahmad me encontrou no p�tio, rodeado por dezenas de blocos de gelo cintilantes e destru�dos, n�o mostrou inicialmente o desagrado que o meu mau comportamento mereceria.</p><p>� Vem comigo � disse. Levou-me para a casa de gelo, fez-me entrar e trancou a porta.</p><p>L� dentro, em contraste com o calor de Floren�a, estava frio como a temperatura na qual a �gua se transforma em gelo. Eu vestia apenas uns cal��es finos e uma camisa por baixo do avental azul que todos os aprendizes usavam. Passados alguns minutos, comecei a tremer. O frio parecia uma chama, ou uma faca a deslizar sobre a minha pele. Meia hora depois, tremia com tanta viol�ncia que mordi a l�ngua at� fazer sangue.</p><p>Pouco depois disso, senti os tremores pararem. Finalmente estou a ficar habituado, pensei. Um grande cansa�o come�ou a invadir-me. Apercebi-me de que estava prestes a adormecer. Ainda sentia o frio cortante, mas o meu corpo j� n�o conseguia combat�-lo. Senti as minhas defesas desmoronarem-se; senti-o penetrar nos recantos mais profundos da minha carne. N�o era tanto exaust�o que sentia, mais um entorpecimento interior, como se os meus membros estivessem eles pr�prios a enrijecer, um a um, transformando-me numa est�tua, t�o fria e sem vida como o <emphasis>David</emphasis> de Floren�a. Tentei gritar, mas o meu grito tamb�m estava, de alguma forma, congelado dentro de mim, e descobri que nem sequer conseguia abrir a boca.</p><p>A pr�xima coisa de que me lembro � de estar a ser levado para as cozinhas. Acordei e vi os olhos escuros do meu mestre, antes de o persa me largar sem cerim�nias sobre o ch�o.</p><p>� N�o voltar�s a fazer aquilo � disse. Virou-se e saiu.</p><p>Nunca mais brinquei com o gelo. Contudo, outra coisa tinha tamb�m mudado. N�o era apenas o facto de eu j� n�o confiar no meu mestre. O frio que sentira nunca mais pareceu abandonar-me completamente o corpo, de tal forma que havia sempre um estilha�o ou dois de gelo cravados profundamente nos meus ossos e � talvez � at� na minha alma.</p><p>Poucos dias depois da minha encarcera��o na casa de gelo, o dedo do meio da minha m�o direita come�ou a ficar negro. Ahmad inspeccionou-o sem coment�rios e chamou dois dos seus irm�os para me segurarem o bra�o em cima de um bloco de gelo enquanto amputava o dedo pela articula��o com um cutelo. O sangue quente espirrou para o gelo, transformando-se em cristais cor-de-rosa � medida que congelava.</p><p>� N�o afectar� o teu trabalho � disse ele quando parei de gritar.</p><p>Todas as noites, cansado como um c�o e meio morto de frio, eu arrastava-me at� � cozinha do pal�cio para dormir ao lado de uma das grandes lareiras onde se assava carne <emphasis>alla brace</emphasis>, sobre as brasas. Os trabalhadores da cozinha acostumaram-se a mim e j� n�o me enxotavam com vassouras e facas. Comecei a observar os cozinheiros enquanto trabalhavam; observava como eles reduziam as frutas a pur� para intensificar os seus sabores; como extra�am o perfume de violetas e flores de laranjeira para aromatizar cremes e licores; como faziam agra�o de uvas e marmelos para dar consist�ncia aos frutos mais leves. Por�m, quando tentei sugerir a Ahmad que estas t�cnicas poderiam ser �teis no nosso trabalho, o meu mestre foi desdenhoso.</p><p>� Somos engenheiros, n�o cozinheiros � gostava ele de dizer. � Cozinhar � para mulheres. N�s conhecemos os segredos do gelo.</p><p>Na verdade, eram segredos antigos, um conhecimento que fora passado de pai para filho entre apenas algumas fam�lias persas, os fornecedores de sorvetes de frutas � corte de Shah �Abbas em Ishfahan. Algum deste conhecimento estava contido em livros de apontamentos encadernados a cabedal e manchados, cujas p�ginas estavam cobertas de diagramas e de caligrafia �rabe sinuosa. A maior parte, por�m, existia apenas na cabe�a de Ahmad, um conjunto de regras e m�ximas que ele seguia t�o cegamente como qualquer padre de prov�ncia ignorante recita uma liturgia em latim que n�o compreende verdadeiramente.</p><p>� Para cinco medidas de gelo esmagado, adicionar tr�s medidas de salitre � entoava ele.</p><p>� Porqu�? � perguntava eu.</p><p>� Porqu� o qu�?</p><p>� Porque � que o gelo tem de ser esmagado? E que diferen�a faz o salitre?</p><p>� Que importa? Agora mexe no sentido dos ponteiros do rel�gio, vinte e sete vezes.</p><p>� Talvez o humor do salitre seja quente, e o humor do gelo � frio, e assim ao juntarmos um ao outro isso significa que�</p><p>� E talvez eu te d� uma tareia com a p�, se n�o a usares para mexer o gelo.</p><p>Eu j� trabalhava para o persa h� quase dois anos quando me atrevi a perguntar a que sabiam os gelos que faz�amos.</p><p>� A que sabem? Que te importa a ti o sabor, rapaz? � perguntou Ahmad em tom trocista.</p><p>Eu sabia que tinha de ter cuidado com a resposta se queria evitar outra tareia.</p><p>� Senhor, vi como os cozinheiros provam os seus pratos en�quanto os fazem. Penso que compreenderia melhor como fazer estes gelos se soubesse ao que devem saber.</p><p>Est�vamos a fazer um gelo aromatizado com um xarope feito das pequenas laranjas doces a que alguns chamam laranjas da China, e outros chamam mandarinas. O xarope era engrossado com polpa de laranja e perfumado com os �leos arom�ticos extra�dos da casca, antes de ser despejado sobre uma pilha de gelo ralado.</p><p>� Muito bem � disse Ahmad, apontando para o pote com um encolher de ombros. � Prova um bocadinho, se � isso que queres. � Antes que ele pudesse mudar de ideias, peguei numa colher, tirei um pouco do doce e levei-o aos l�bios.</p><p>Os cristais de gelo estalaram e esmagaram-se entre os meus dentes. Senti-os dissolverem-se na minha l�ngua � uma sensa��o fria e efervescente, enquanto encolhiam at� desaparecerem � e depois o xarope escorreu-me pela garganta, frio e espesso e a�ucarado. O sa�bor intensificou-se na minha boca como o amadurecer s�bito da laranja propriamente dita. Sustive a respira��o com o prazer: depois, um instante mais tarde, uma dor terr�vel atravessou-me a cabe�a quando o frio se apoderou da minha garganta, sufocando-me, e cuspi.</p><p>Ahmad sorriu, divertido.</p><p>� Talvez agora compreendas que n�o � um prato para crian�as. Nem para a popula�a em geral, uma vez que n�o fornece qualquer sustento. Estamos aqui para entreter, rapaz, n�o para alimentar. Somos como cantores, actores ou pintores, criadores de bugigangas belas e sem utilidade, para os ricos e os poderosos: ou seja, reis, cortes�os, cardeais e as suas cortes�s. Ningu�m, al�m deles, poder� alguma vez desperdi�ar tanta riqueza em algo que se derrete em nada nos seus l�bios ainda mais depressa do que uma can��o se derrete no ar da noite.</p><p>No entanto, depois de ultrapassar a estranheza inicial, descobri que o sabor era inesquec�vel. N�o apenas o sabor extraordin�rio de laranjas doces e concentradas; era o pr�prio gelo, a sua textura fria, congelada, que chamava por mim. Da� em diante, sem que Ahmad soubesse, fiz quest�o de provar todas as iguarias que faz�amos. E nun�ca mais cuspi quando senti o frio apertar-me a garganta.</p><p>Uma noite, encontrei a cozinha repleta de um cheiro escuro e pungente, como se estivessem a cozinhar f�gados num molho de vinho licoroso; mas este cheiro possu�a uma riqueza que era diferente de quaisquer miudezas que eu conhecesse. Vinha de uma pequena frigideira no fog�o, onde algo espesso e castanho borbulhava como lava quente enquanto o cozinheiro mexia com uma colher de pau.</p><p>� <emphasis>Xocolatl</emphasis> � disse o cozinheiro, enquanto despejava o conte�do da frigideira num pequeno copo, para o gr�o-duque beber antes de se deitar; depois, ao ver a minha incompreens�o, ofereceu-me a ponta da colher para eu provar.</p><p>Essa � mais uma mem�ria que nunca esqueci, embora de outro g�nero: um calor que me encheu a boca e cobriu o palato, deixando-o repleto do mesmo sabor rico durante horas depois de o provar; amargo e espesso e, ao mesmo tempo, estranhamente quente, como o oposto total do gelo.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer um sorvete de damasco: descaroce e escalde doze damascos maduros e passe-os por um coador: adicione cento e setenta gramas de a��car mascavado mole e bata a mistura com um pouco de creme de limonada. Ferva em lume brando e depois coloque no pote de congelamento e trabalhe-o at� ficar muito fino.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Tive a grande sorte de haver entre as princesas M�dicis, nesta altura, uma dama chamada Cosima de M�dicis que nunca se casou. Em vez disso, dedicou a sua vida e parte consider�vel da fortuna dos M�dicis que herdou a obras de caridade, uma das quais foi fundar uma esp�cie de escola para meninos de rua, �rf�os e filhos dos seus criados, sob a tutela de dois ou tr�s homens de grande erudi��o. Tive a sorte de me juntar a este grupo, j� que o meu mestre temia demasiado pela sua pr�pria posi��o para ter outra reac��o a n�o ser fingir-se encantado com o plano. N�o consigo imaginar o que aqueles pensadores e eruditos eminentes pensariam por ter de ensinar os rudimentos do saber a uma colec��o de <emphasis>ragazzi</emphasis> como n�s, mas o poder da riqueza � tanto que, tr�s vezes por semana, todos entr�vamos na grande biblioteca por cima do Claustro dos C�nones e estud�vamos as nossas primeiras letras pelos manuscritos preciosos que nela se encontravam. A princesa Cosima era criticada por este esquema, creio eu, particularmente pelo clero, pois dizia-se que espalhar o conhecimento al�m da Igreja s� poderia ter maus resultados, e que confundiria pobres crian�as ignorantes como n�s quanto ao nosso lugar na ordem natural das coisas. Por�m, a minha educa��o n�o foi ben�fica para mim apenas em termos de conhecimentos. N�o fiz de prop�sito para estudar os que me rodeavam e tentar copiar os seus modos, mas, tal como uma crian�a falar� a l�ngua dos seus pais simplesmente por a ouvir, da mesma forma ao crescer naquela corte eu adquiri, sem me aperceber disso, alguns dos modos e o comportamento agrad�vel de um cavalheiro. Creio tamb�m que o facto de ser ensinado em latim desde t�o novo foi respons�vel pela minha flu�ncia em l�nguas � uma capacidade que me tem sido quase t�o �til como a minha per�cia com o gelo.</p><p>� medida que os anos passavam, comecei, gradualmente, a desprezar o meu mestre. Apesar de se esfor�ar ao m�ximo para garantir que eu vivia num temor mortal dele, era ele pr�prio um homem com medo; e aquilo que temia, acima de tudo, era que algu�m lhe roubasse os segredos. Contava muitas vezes a hist�ria do famoso cozinheiro, <emphasis>chef d��quipe</emphasis> de um grande nobre, que estava t�o orgulhoso das suas cria��es que decidiu escrever as receitas e public�-las num livro. O livro foi um grande sucesso, amplamente copiado e republicado (sem, naturalmente, qualquer pagamento ao autor); entretanto, outros cozinheiros apoderaram-se das receitas e melhoraram-nas, ou simplesmente serviam os pratos como se fossem de sua autoria. O resultado foi que o cozinheiro foi despedido, o seu lugar ocupado por um rival mais novo, e morreu famoso mas na mis�ria. Ahmad dizia que esta hist�ria demonstrava a loucura de procurar elogios em vez de riquezas neste mundo.</p><p>Por vezes, eu perguntava-me por que motivo Ahmad parecia t�o disposto a partilhar o seu conhecimento comigo; mas rapidamente conclu� que, para ele, eu era apenas uma besta de carga, uma criatura incapaz de pensar. Ensinava-me o que sabia, n�o por querer partilhar os seus segredos, mas porque queria partilhar o trabalho. E assim aprendi a diferen�a entre os quatro tipos de gelos que se podem fazer; <emphasis>cordiale</emphasis> ou licores, aos quais se juntava neve esmagada para os refrescar; <emphasis>granite</emphasis>, aparas de �gua gelada sobre as quais se derramavam xaropes feitos de �gua de rosas ou de laranjas; <emphasis>sorbetti</emphasis>, gelos de �gua mais complexos em que eram os pr�prios xaropes que se congelavam, a mistura mexida enquanto endurecia de modo a que os fragmentos ficassem no pote como um monte de safiras cintilantes; e finalmente sorvetes, os mais dif�ceis de todos, feitos com leite aromatizado com m�stique ou cardamomo, de forma a parecer neve que voltara a congelar durante a noite. Aprendi a construir obeliscos de geleia congelada; a usar moldes de ourives para fazer fant�sticos pratos e ta�as congelados, e a esculpir o gelo em decora��es extravagantes para a mesa. Dominei os talentos espectaculares do grande engenheiro Buotalenti, que constru�ra fontes, mesas e at� grutas de gelo. No entanto, sabia que se dissesse uma palavra sobre estas t�cnicas a algu�m Ahmad me mandaria cegar e arrancar a l�ngua com um daqueles ferros em brasa que us�vamos para fazer as esculturas de gelo. Deu tamb�m a entender que ainda havia segredos que eu n�o conhecia: ingredientes especiais e gomas descritos nos seus livros que estava a guardar para si, de modo a garantir que eu soubesse sempre menos do que ele.</p><p>Contudo, reparei que a aprendizagem era s� num sentido. Tal como j� disse, observava muitas vezes os cozinheiros � nossa volta enquanto trabalhavam e, �s vezes, parecia-me que as suas confec��es dariam bons xaropes para aromatizar os nossos gelos. Um <emphasis>dolci</emphasis> de espuma de lim�o e vinho doce, por exemplo, ou fatias de meloa, cuja do�ura natural era contrabalan�ada com uns pozinhos de gengibre mo�do � certamente que estes eram sabores que nos proporcionariam uma variedade bem-vinda. Contudo, se eu sugerisse que tent�ssemos tal coisa, mesmo como experi�ncia apenas, Ahmad olharia para mim como se fosse louco.</p><p>� N�o � um dos quatro sabores. Se n�o acreditas em mim, vai ver ao livro.</p><p>Estava a provocar-me, claro: sabia que eu n�o conseguia ler �rabe, a l�ngua em que estavam escritos os seus livros. Nem precisava de os ler para conhecer os poucos sabores � �gua de rosas, laranja, m�stique e cardamomo � que as antigas p�ginas permitiam.</p><p>Tamb�m me parecia que, se os nossos gelos tinham um inconveniente, era aquela pontada de dor que me apertara a garganta ao esmagar os cristais com sabor a laranja entre os dentes. Parecia derivar da ac��o de morder o gelo e era, assim, presumivelmente imposs�vel de erradicar. Tent�vamos fazer os cristais de gelo t�o pequenos quanto poss�vel, raspando o gelo dos blocos com uma esp�cie de luva de malha met�lica at� serem t�o pequenos como gr�os de sal ou a��car: no entanto, se ultrapass�ssemos um determinado tamanho, o gelo derretia e transformava-se em �gua, e a �nica coisa que ficava na ta�a ou no copo depois disso era uma esp�cie de lama com sabor a laranja ou a �gua de rosas. Eu ansiava por conseguir fazer um gelo que fosse t�o suave, espesso e liso como aquele chocolate que o cozinheiro me dera a provar; um gelo que contivesse o frio do gelo, sem a sua aspereza.</p><p>Um dia, Ahmad ausentou-se das cozinhas, com dor de dentes. Deixou-me com instru��es rigorosas sobre como ocupar o meu tempo, mas evidentemente que o arrancar do dente fora mais doloroso do que ele esperava, pois n�o voltou quando disse que voltaria. Por fim, vi a minha oportunidade.</p><p>Era a esta��o dos damascos. Os cozinheiros serviam-nos aos M�dicis descascados e partidos em quartos, com sumo de mel�o e um pouco de natas. Peguei numa ta�a que j� fora preparada para a mesa do gr�o-duque, esmaguei o conte�do, despejei a mistura na <emphasis>sabotiere</emphasis>, o pote de congelamento, e esperei ansiosamente que congelasse, mexendo-a da forma habitual.</p><p>N�o foi um sucesso. A mistura congelou, sem d�vida, mas as v�rias partes tinham congelado de forma diferente � ou seja, havia peda�os de damasco duros como pedra e cristais de sumo de mel�o congelado, mas as natas tinham ficado esfiapadas, como ovo talhado, e, longe de se combinarem, os v�rios elementos pareciam ter-se separado ainda mais. Quando tentei comer uma colherada desta mistura granulosa, as v�rias partes nem sequer derreteram da mesma forma na minha l�ngua, pelo que era como mastigar gravilha congelada. Apesar disso, havia algo na frescura da fruta e na do�ura do sumo de mel�o que constitu�a uma mudan�a refrescante em rela��o aos sabores fortemente perfumados em que Ahmad insistia.</p><p>Apercebi-me de que uma solu��o melhor seria fazer um simples cordial ou xarope de damasco e depois congel�-lo � um <emphasis>sorbetto</emphasis>, na verdade. A suavidade teria de ficar para outra vez: o que era importante aqui era o sabor da fruta. Quando fui buscar outro prato de damascos, assisti a uma violenta alterca��o entre o cozinheiro que preparara o anterior e um criado que ele estava a acusar de o ter roubado. N�o era a melhor altura para tentar subtrair outro. Al�m disso, Ahmad podia voltar a qualquer momento e eu tinha de limpar todos os utens�lios antes que ele percebesse o que eu andara a fazer.</p><p>Assim come�ou um per�odo em que eu vivia uma vida dupla. Com Ahmad, durante o dia, era um criado, que seguia as suas instru��es obedientemente e sem queixume. � noite, por�m, era uma esp�cie de alquimista, com a cozinha como laborat�rio, enquanto fazia experi�ncias com diferentes combina��es de sabores e ingredientes. Nada era extravagante ou rid�culo de mais para eu experimentar. Congelei queijos moles, <emphasis>digestifs</emphasis>, sumos de legumes e at� sopas. Fiz gelos de vinho, de <emphasis>pesto Genovese</emphasis>, de leite de am�ndoas, de funcho esmagado e de todos os tipos diferentes de creme. Fiz experi�ncias loucas, cegas, sem m�todo nem objectivo, na esperan�a de trope�ar em algo, por sorte � algum m�todo, alguma chave � que estava certo de que existia, algures: alguma coisa que conseguisse desvendar os segredos mais profundos e congelados do gelo. Era como se o pr�prio gelo me chamasse, me incentivasse: e, embora n�o possa afirmar ter conseguido descobrir aquilo que resultaria ou n�o, tal como um pintor ao praticar com a sua palete ganha um entendimento de quais as cores que deve misturar para alcan�ar um determinado efeito, assim eu me fui tornando aos poucos mais fluente na linguagem dos sabores. Estou certo de que Ahmad reparou na minha confian�a crescente, mas certamente que a atribuiu ao facto de eu estar a ficar mais velho.</p><p>Houve tamb�m outras mudan�as. Eu estava consciente de estar a tornar-me um homem, pelo fogo que me incendiava as veias; e um homem razoavelmente bem-parecido, a julgar pelos olhares de admira��o que recebia das raparigas que trabalhavam nas cozinhas, para n�o mencionar os coment�rios indecentes das suas colegas mais velhas e casadas. E depois havia Emilia Grandinetti� Tal como eu, ela tinha quinze anos. Era aprendiz de uma das costureiras que fazia vestidos para a corte e a coisa mais doce que eu alguma vez vira. A sua pele era da cor de manteiga quando � aquecida numa frigideira: os seus dentes e o branco dos seus olhos eram claros e brilhantes como neve, naquele rosto escuro e sorridente. Em breve os olhares entre n�s os dois se transformaram em sorrisos; os namoricos em conversas; os risos em amor. <emphasis>Sou o pr�ncipe mais sortudo de toda a Floren�a</emphasis>, pensava eu, orgulhosamente. Pass�vamos horas roubadas sentados no telhado do pal�cio, onde ningu�m podia ver-nos, tontos de amor, de m�os dadas, a falar sobre os nossos sonhos.</p><p>� Eu vou ser o maior confeiteiro do mundo � disse-lhe.</p><p>� Sim? E como � que vais fazer isso? � provocou-me ela.</p><p>� Vou fazer gelos de mil sabores. Os gelos mais suaves e suculentos que alguma vez foram feitos.</p><p>No entanto, quando lhe disse que faria um gelo especialmente para ela e o roubaria da cozinha, ela abanou a cabe�a.</p><p>� N�o quero que arranjes problemas.</p><p>Perguntava-lhe tamb�m sobre as suas esperan�as para o futuro, mas tinham todas a ver comigo: queria que fic�ssemos juntos, que constitu�ssemos fam�lia; talvez, se tiv�ssemos muita sorte, pud�ssemos ver um dia os nossos filhos tornarem-se tamb�m criados dos M�dicis.</p><p>*</p><p>O casamento era proibido aos aprendizes, mas aqueles que tinham a permiss�o dos seus mestres podiam ficar noivos, e o noivado de um aprendiz era considerado quase a mesma coisa do que um casamento, se n�o propriamente aos olhos de Deus, pelo menos aos olhos dos que estavam imediatamente abaixo Dele. Assim, esperei pelo momento mais auspicioso e abordei o assunto com Ahmad.</p><p>Est�vamos a trabalhar numa magn�fica escultura de gelo de uma �guia em voo, a pe�a central de uma mesa de geleias congeladas. Era eu que fazia agora a maior parte do trabalho, com as m�os enroladas em trapos para as proteger do frio. N�o s� o meu toque era mais seguro do que o do meu mestre e a minha vis�o melhor, como aguentava o trabalho durante mais tempo � quase como se o frio que reclamara o meu dedo tivesse, ao mesmo tempo, entorpecido o resto de mim contra os seus efeitos. Ou talvez, pensei, enquanto polia o gelo at� a escultura parecer brilhar a partir do interior, o meu mestre estivesse apenas a ficar velho e pregui�oso. Sabia que nesta ocasi�o, pelo menos, Ahmad estava satisfeito com o meu trabalho: quando acabei, o persa acenou e resmungou, de m� vontade:</p><p>� Nada mau.</p><p>� Mestre, tenho estado a pensar� � comecei.</p><p>� Sim? O que foi?</p><p>� H� uma rapariga de quem me aproximei. Estava a pensar se me daria a sua permiss�o para ficar noivo dela.</p><p>Ahmad estava atarefado a limpar a mesa onde t�nhamos estado a trabalhar.</p><p>� O que te leva a pensar que a minha permiss�o far� alguma diferen�a?</p><p>� S�o as regras dos aprendizes, senhor � recordei-lhe. � N�o posso casar sem o consentimento do meu mestre.</p><p>Ahmad lan�ou-me um olhar divertido.</p><p>� Consideras-te meu aprendiz, �?</p><p>� Claro � respondi, surpreendido. � Que outra coisa poderia ser? � Por um momento delirante pensei que ele estava prestes a dizer-me que n�o me considerava um aprendiz, mas sim um igual; talvez at�, um dia, seu s�cio.</p><p>� O lugar de aprendiz compra-se � disse ele, em tom seco. � Os teus pais eram pobres.</p><p>� N�o compreendo. T�o pobres que n�o podiam comprar-me o lugar de aprendiz?</p><p>� Ainda mais pobres do que isso. T�o pobres que ficaram felizes por te vender. N�o �s nenhum aprendiz, rapaz, e nunca ser�s. �s minha propriedade e n�o ter�s liberdade em toda a tua vida para ficares noivo de rapariga nenhuma, muito menos casar. � Atirou os trapos ensopados para o lado. � Agora leva isto l� para fora e lava-os.</p><p>Foi o estilha�o de gelo no meu cora��o que me salvou. Se n�o fosse isso, talvez tivesse matado o persa ali mesmo, e para o diabo com as consequ�ncias.</p><p>N�o casar. Isso j� era suficientemente mau, mas se eu n�o tinha liberdade para casar isso significava tamb�m que n�o tinha liberdade para me tornar um art�fice por direito pr�prio. Seria propriedade de Ahmad at� ao dia em que morresse. Nunca teria oportunidade de criar nada por mim pr�prio: iria para a campa ainda a produzir os quatro sabores dos seus malditos livros. A minha vida seria desperdi�ada, a minha carne e sangue derreteriam na sepultura, tal como um bloco de gelo esquecido em cima de uma mesa derrete at� ser �gua. Ao pensar nisso, uma f�ria surda e terr�vel palpitava-me nas veias. Apesar disso, como um bolbo debaixo do solo congelado, esperei, contendo a minha raiva, por uma oportunidade.</p><p>A oportunidade foi um franc�s chamado Lucian Audiger. Nunca soube como ele me encontrou: presumivelmente subornou algu�m para obter informa��o sobre os fazedores de gelos persas e falaram-lhe num jovem italiano que talvez fosse um elo mais fraco. Na verdade, reunir informa��o era a grande capacidade de Audiger, embora ele pr�prio acreditasse ser movido apenas por um desejo ardente de se tornar um grande confeiteiro. Era por isso que viajara � primeiro para Espanha, onde aprendera a arte de fazer �gua de sementes como pinh�es, coentros, pist�cio e anis; depois para a Holanda, onde estudara a destila��o, tanto de flores como de frutos; e da� para a Alemanha, onde aprendera a dominar a arte de fazer xaropes. Era inevit�vel que chegasse eventualmente a It�lia, onde tanto os Habsburgos em N�poles como os M�dicis em Floren�a eram famosos por misturarem neve e gelo nos seus vinhos e sobremesas.</p><p>Veio ter comigo a meio da noite e sacudiu-me para me acordar. A pessoa que o trouxera atrav�s do labirinto de salas de servi�o desapareceu, sem ser vista, e quando eu acordei completamente Audiger j� estava a falar de Paris, da corte gloriosa que o jovem Lu�s XIV estava a construir, dos pal�cios novos em Marly e Versalhes; riquezas muito superiores at� � dos M�dicis, e uma cidade repleta de homens e mulheres elegantes, �vidos por novas del�cias. Havia casas de caf� e chocolate a abrir por toda a cidade de Paris: uma pessoa capaz de fazer bebidas geladas e confec��es frescas nunca passaria fome, e, juntos � dois homens jovens que, entre ambos, conseguiriam criar todo o tipo de confec��es ou novidades � certamente que chegariam ao servi�o do pr�prio rei� Nesta altura eu j� quase n�o estava a ouvir. Ouvira tudo o que precisava. Se queria fugir da corte dos M�dicis com os segredos do neg�cio de um persa na cabe�a, precisava apenas de duas coisas: um protector de poder pelo menos equivalente ao dos M�dicis, para que n�o pudessem simplesmente exigir o meu regresso, e ir para um s�tio muito, muito longe do alcance de um punhal persa.</p><p>� Tenho duas condi��es � disse, quando Audiger finalmente parou para respirar.</p><p>� Quais?</p><p>� Nunca chamar mestre a ningu�m. E vinte e quatro horas para tentar convencer a Emilia a vir tamb�m.</p><p>� Feito � disse Audiger, estendendo a m�o. � Encontramo-nos junto da Porta San Miniato � meia-noite de amanh�.</p><p>*</p><p>T�o cedo quanto achei decente, na manh� seguinte, fui ter com Emilia � sala das costureiras. Puxei-a � parte e contei-lhe o meu plano.</p><p>� Mas� � disse ela. A sua voz fraquejou. � Se fugires, ser�s apanhado. E depois ir�s para a pris�o. Podes at� ser enforcado.</p><p>� � a �nica op��o, agora. N�o percebes? N�o h� nada para n�s aqui. Se partirmos, pelo menos teremos uma oportunidade.</p><p>Ela olhou em volta.</p><p>� N�o posso falar agora. A minha mestra�</p><p>� Emilia! � sussurrei. � Tenho de saber. Vens ou n�o?</p><p>� Eu� eu� � gaguejou, lan�ando um olhar nervoso � porta, e nesse momento compreendi que ela tinha demasiado medo.</p><p>Desesperado, disse:</p><p>� Ouve, eu compreendo, <emphasis>cara</emphasis>. Amavas-me porque pensavas que era permitido. Agora que achas que isso pode arranjar-te problemas, est�s assustada. Mas � a �nica oportunidade que qualquer um de n�s ter�. Tenho de a aproveitar. A quest�o �, vens ou n�o vens?</p><p>� Hei-de amar-te sempre � murmurou ela.</p><p>Senti um grande peso abater-se sobre mim.</p><p>� Isso quer dizer n�o.</p><p>� Por favor, Carlo. � demasiado arriscado.</p><p>Nessa noite, eu estava � espera junto da Porta San Miniato muito antes de os sinos da igreja tocarem a meia-noite. Ao meu lado, tinha uma arca com um saque consider�vel do equipamento de fazer gelo de Ahmad.</p><p>Mand�mos parar a <emphasis>diligence</emphasis>, a carruagem r�pida do correio, puxada por seis cavalos, que ia de Roma a Paris em longas etapas ininterruptas. Normalmente n�o levava passageiros; mais uma vez, Audiger parecia ter a confian�a e o dinheiro necess�rios para nos comprar um lugar.</p><p>Enquanto viaj�vamos para norte, olhei pela janela. Nunca tinha estado mais longe do que Pisa e comecei a pensar, com um aperto no cora��o, que cada quil�metro que faz�amos me levava para mais longe de Emilia.</p><p>� Estive a pensar � disse Audiger.</p><p>Com esfor�o, pus de lado os meus pensamentos e virei-me para ele.</p><p>� Sim?</p><p>� Antes de chegarmos a Paris temos de te arranjar roupas decentes. � O franc�s apontou para a sua indument�ria elegante. � � im�portante que n�o nos pare�amos com mercadores. Na corte francesa, as apar�ncias s�o tudo.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� Est� bem.</p><p>� E temos de pensar qual ser� a melhor maneira de abordar o rei. Conhe�o um dos seus criados particulares: podemos suborn�-lo para conseguirmos chegar � presen�a real, mas ser� apenas um desperd�cio de tempo a menos que possamos oferecer um presente ao rei� algo especial, algo que o fa�a falar de n�s a todos os homens e mulheres da sua corte.</p><p>� Muito bem. � Bocejei. Agora que a tens�o da fuga ficara para tr�s, estava exausto. � Podemos fazer-lhe um gelo.</p><p>Audiger abanou a cabe�a.</p><p>� Ainda mais especial do que isso.</p><p>� Vou pensar no assunto. � Esta capacidade que Audiger tinha de se preocupar n�o s� com as pr�ximas vinte e quatro horas, mas com eventos que n�o aconteceriam nos pr�ximos dias ou semanas, espantava-me.</p><p>� H� mais uma coisa. � Audiger hesitou. � Disseste que n�o chamarias mestre a homem nenhum. � justo. Mas acho, apesar disso, que devias tratar-me por mestre quando estivermos na presen�a de outras pessoas.</p><p>Agora eu estava bem acordado.</p><p>� Porqu�?</p><p>� Simplesmente porque sou mais velho do que tu. As pessoas esperam que eu seja superior. Al�m disso, j� tenho uma certa reputa��o em Paris. Pareceria estranho que aparecesse com um maltrapilho italiano a reboque e o tratasse de igual para igual. N�o que sejas um maltrapilho, claro � acrescentou rapidamente. � Mas � assim que as pessoas nos podem ver.</p><p>Mais uma vez, foi apenas o estilha�o de gelo no meu cora��o que me fez conter a raiva.</p><p>� Eu disse que n�o teria nenhum mestre.</p><p>� E n�o ter�s. Dividiremos os lucros entre os dois, isso est� perfeitamente estabelecido. Eu n�o <emphasis>serei</emphasis> o teu mestre; simplesmente me <emphasis>chamar�s</emphasis> mestre. Compreendes a distin��o, n�o compreendes?</p><p>Com alguma relut�ncia, assenti.</p><p>� Est� bem.</p><p>� �ptimo. � Audiger olhou para a janela. � Mas o que dar ao rei? � disse, quase com os seus bot�es. � <emphasis>Isso</emphasis> � que � uma preocupa��o.</p><p>Enquanto adormecia, ocorreu-me que Audiger devia ter percebido mal o que eu dissera em Floren�a. Pensara que eu tinha dito que n�o queria ter nenhum mestre; mas o que eu dissera na realidade fora que n�o queria <emphasis>chamar</emphasis> mestre a nenhum homem, tinha quase a certeza disso. No entanto, aqui estava eu, a concordar em faz�-lo. Talvez Audiger se tivesse esquecido das palavras exactas do nosso acordo.</p><p>� Seria poss�vel fazer um gelo de ervilhas?</p><p>Despertei, sobressaltado. A <emphasis>diligence</emphasis> tinha parado, mas apenas para os condutores se aliviarem. Audiger estava de p� � beira da estrada, junto da porta aberta, a urinar nos campos.</p><p>� O qu�?</p><p>� Perguntei se era poss�vel fazer um gelo de ervilhas � repetiu Audiger por cima do ombro. � V�, estou a regar ervilhas neste preciso momento.</p><p>Olhei para fora da carruagem. Sob a luz brilhante da lua cheia vi um campo de ervilhas, as vagens verdes e gordas a oscilarem sob a brisa. O aroma a legumes frescos era, felizmente, mais forte do que o da urina do meu companheiro.</p><p>� O rei tem uma estranha paix�o por todo o tipo de vegetais � disse Audiger. � Especialmente ervilhas. Todos os anos os seus cortes�os competem entre si para ver quem lhe traz a primeira colheita das suas propriedades� � o tipo de concurso que ele aprecia. E estas est�o semanas adiantadas em rela��o �s ervilhas em Fran�a. Estava a pensar se seria poss�vel fazer um gelo com elas.</p><p>� Se queres dar ervilhas ao rei, porque n�o simplesmente colher algumas?</p><p>� Estar�o murchas muito antes de chegarmos a Paris. Mesmo a <emphasis>diligence</emphasis> demora duas semanas.</p><p>� Mas pod�amos congel�-las.</p><p>Audiger espreitou por detr�s da porta da carruagem.</p><p>� O qu�?</p><p>� Congel�-las � repeti. � Conserv�-las em gelo.</p><p>Audiger olhou para mim.</p><p>� Isso � poss�vel?</p><p>� N�o s� � poss�vel, como � simples. Os persas h� muito que sabem que o gelo conserva as frutas e as protege da decomposi��o. Com certeza que as ervilhas n�o ser�o diferentes.</p><p>� Sim? Brilhante! Do que precisas? De gelo? � Audiger olhou para o campo iluminado pelo luar. � Mas, claro, n�o temos gelo � disse, desanimado. � Dois fazedores de gelo, sem gelo.</p><p>� Audiger� estamos a caminho de onde?</p><p>O franc�s pareceu perplexo.</p><p>� De Paris?</p><p>� Passando pelos Alpes � recordei-lhe. � E, embora nunca tenha l� estado, at� eu sei que os Alpes est�o�</p><p>� Cheios de gelo! Carregados de gelo! Gelo e neve para onde quer que nos viremos! Sim! � Audiger atirou o chap�u ao ar e apanhou-o de novo. � Mas primeiro temos de levar as nossas ervilhas at� aos Alpes � disse, em tom mais sombrio.</p><p>� Quanto tempo demora a carruagem a l� chegar?</p><p>� Dois dias, talvez tr�s.</p><p>� A minha arca de equipamento ainda deve estar fria; os baldes de estanho e as outras coisas vieram directamente da casa de gelo de Boboli. Se pusermos as ervilhas l� dentro�</p><p>� Sim! Sim! � Audiger arremessou novamente o chap�u. � Claro! Com a minha vis�o, Demirco, e a tua per�cia, seremos os confeiteiros do rei em menos de nada!</p><p>Dois dias depois, numa estalagem no desfiladeiro da montanha que levava a Fran�a, Audiger viu-me preparar as ervilhas.</p><p>� A neve prensada � ainda mais fria do que gelo e dura mais tempo � expliquei. � N�o sei porqu�. Mas tenciono descobrir, um dia.</p><p>Audiger estava a olhar para a <emphasis>sabotiere</emphasis> como um homem que espera ver um truque de prestidigita��o. Muito bem, pensei: vou mostrar-te magia.</p><p>� Agora junto salitre � neve. Isso torna-a muito, muito mais fria. Tamb�m n�o sei exactamente porqu�.</p><p>� Continua � sussurrou Audiger.</p><p>� Depois ponho as ervilhas no pote interior, assim. � Despejei as ervilhas e coloquei a tampa.</p><p>� E agora?</p><p>� Agora deixamo-las. N�o � diferente de p�r um bolo no forno� se abrirmos a porta para verificar a cozedura demasiadas vezes, o calor sai e o bolo nunca mais coze. No nosso caso, � o frio que temos de conservar.</p><p>Audiger abriu o seu rel�gio de bolso.</p><p>� Quanto tempo?</p><p>� O per�odo de tempo entre as matinas e a missa, segundo os sinos de Santa Maria.</p><p>� O qu�?</p><p>� Aproximadamente meia hora.</p><p>Audiger passou os trinta minutos seguintes a andar de um lado para o outro. Quando finalmente abrimos a <emphasis>sabotiere</emphasis>, espreitou l� para dentro e susteve a respira��o.</p><p>As ervilhas tinham-se unido numa bola, um cacho verde e prateado, salpicado de gelo. Audiger pegou-lhes e tirou-as do pote.</p><p>� Espantoso! � murmurou.</p><p>� Cuidado � avisei. � As tuas m�os v�o aquec�-las e n�o saber�o tanto a frescas se tiverem de ser congeladas uma segunda vez.</p><p>� Est�o coladas! � Os dedos de Audiger estavam cobertos de ervilhas, agarradas � sua pele como cardos a luvas de l�. Tentou sacudi-las, mas n�o se mexeram.</p><p>� Espera. � Tirei as ervilhas congeladas uma a uma. Reparei que n�o ficavam coladas aos meus dedos como aos de Audiger. � Dev�amos guard�-las. E temos de levar uma arca de neve prensada connosco na carruagem, para as podermos manter assim.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer uma ratafia de nozes verdes: parta as nozes, ainda n�o completamente maduras, em quartos, com cascas e tudo, e depois macere-as durante um m�s em cinco litros de aguardente, com um lim�o e umas folhas de �rvore de lima doce. Este cordial, em Fran�a, � conhecido como <emphasis>liqueur de noix</emphasis>, e congela bastante bem, embora n�o fique duro.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Em Paris, tivemos de nos mover rapidamente para conseguirmos uma audi�ncia com o rei antes de as nossas ervilhas descongelarem. Felizmente, <emphasis>monsieur</emphasis> Bontemps, o criado particular do rei, revelou-se t�o corrupt�vel como Audiger previra e, poucos dias depois, fomos levados � presen�a de Lu�s XIV, do seu irm�o e de v�rios outros nobres. Audiger estava t�o maravilhado que quase n�o conseguia falar. Felizmente, o nosso presente n�o precisava de grandes introdu��es e a orat�ria balbuciante de Audiger rapidamente foi ignorada enquanto os aristocratas se reuniam � volta da caixa de ervilhas, provando-as.</p><p>O rei pediu ao criado para levar as que restavam ao administrador dos alimentos para as dividir: uma parte para a rainha, outra para a rainha-m�e, outra para o cardeal e a �ltima para si pr�prio.</p><p>� Quanto a estes intr�pidos cavalheiros, Bontemps � disse, gesticulando na nossa direc��o �, por favor recompense-os pelo seu trabalho.</p><p>Olhei para Audiger. Era neste momento que, segundo o nosso plano, dev�amos ter pronunciado o discurso que t�nhamos preparado. Contudo, o meu companheiro, invulgarmente, parecia estar mudo e fitava o rei com olhos arregalados e uma express�o de adora��o.</p><p>� Com a licen�a de Vossa Majestade � disse eu, com uma v�nia �, n�o desejamos qualquer recompensa, excepto o privil�gio de poder fazer gelos e outras confec��es frescas para o prazer real.</p><p>Lu�s ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Gelos?</p><p>Audiger encontrou finalmente a sua voz.</p><p>� O meu assistente, senhor, trabalhou at� h� pouco tempo na corte dos M�dicis e � ex�mio nesta arte.</p><p>O rei estudou o meu rosto.</p><p>� Como se chama, <emphasis>signor</emphasis>?</p><p>� Demirco, senhor.</p><p>� E quantos anos tem?</p><p>� Dezoito � menti.</p><p>� Hum� Uma boa idade� a mesma idade que eu tinha quando assumi o governo de Fran�a. Aguardarei ansiosamente para provar as vossas confec��es. O cardeal Mazarin h� muito que tem ao seu servi�o um <emphasis>limonadier</emphasis> italiano e por v�rias ocasi�es tive motivos para admirar o seu trabalho. Chama-se Morelli� talvez o conhe�a?</p><p>Abanei a cabe�a.</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� � um homem muito inventivo. Mas talvez� � senti o rei inspeccionar-me ainda mais atentamente � �venha a provar igual valor. Espero bem que sim. Dar-me-ia grande prazer superar o cardeal � mesa.</p><p>Tive ent�o um vislumbre da personalidade deste rei. Rivalidade � era isso que o movia. Tudo o que fazia, ou tinha, ou patrocinava, tinha de ser o melhor, e qualquer cortes�o ou estadista que lhe oferecesse algo � mesmo algo t�o insubstancial como uma guloseima de gelo aromatizado � estava apenas a alimentar o apetite insaci�vel de Lu�s para o superar.</p><p>Curvei-me de novo numa v�nia.</p><p>� Darei o meu melhor, Vossa Majestade.</p><p>Ao meu lado, Audiger acrescentou:</p><p>� Uma tarefa, senhor, que seria certamente mais f�cil se pud�ssemos estabelecer uma corpora��o� uma corpora��o de confeiteiros� com uma patente real, um conselho e o direito de atribuir o cargo de mestre�</p><p>� Sim, sim. Fa�am um gelo e mandem-mo esta noite � hora de jantar. Se o achar aceit�vel, essa honra ser� vossa. � O rei saiu, seguido pelos restantes.</p><p>Audiger olhou para a porta e depois agarrou-me na manga.</p><p>� Esta noite! � sussurrou. � Temos de lhe mandar um gelo esta noite!</p><p>� N�o h� problema � disse-lhe, em tom confiante. � Traz-me nozes verdes do mercado, procura uma loja de cordiais e compra-me <emphasis>liqueur de noix</emphasis>. O licoreiro j� ter� feito a maior parte do trabalho duro por n�s. � N�o tinha a m�nima inten��o, agora que chegara finalmente a Fran�a, de alguma vez me voltar a limitar aos quatro sabores de Ahmad.</p><p>Foi o princ�pio de uma fase not�vel. Em Floren�a eu fora me�nos do que um criado: aqui, em Paris, era quase um cortes�o. Audiger tratou de me vestir ao estilo de um professor de dan�a ou pintor de retratos, com uma casaca resplandecente com vinte e quatro bot�es que nunca eram usados, umas cal�as brancas suficientemente apertadas para exibir a barriga da perna, um chap�u com tr�s bicos, uma cabeleira � a primeira que alguma vez usara � comprida e liberalmente empoada com giz. Esta �ltima causava uma comich�o insuport�vel. Depois de a usar durante uma semana, apercebi-me de que teria de rapar a cabe�a, como Audiger fazia, ou livrar-me da cabeleira. Livrei-me da cabeleira. No entanto, estou certo de que o resto das minhas roupas me ficava bastante bem e, quando vislumbrava o meu reflexo num dos espelhos de corpo inteiro que apainelavam os novos sal�es do rei, n�o podia deixar de ficar impressionado.</p><p>Foi-nos dada uma cave na resid�ncia de campo do rei, em Marly, e em Paris arranj�mos resid�ncia em Saint-Germain-des-Pr�s, convenientemente perto do Louvre. O trabalho que eu era obrigado a fazer em Floren�a, arrastar blocos de gelo desde a casa de gelo at� ao pal�cio, era aqui feito por outros � Paris j� tinha um com�rcio florescente de gelo e neve prensada para refrescar os vinhos da nobreza, e era poss�vel obter material de boa qualidade durante todo o ano. At� o trabalho de partir e ralar era feito por aprendizes, e Audiger tinha sempre pelo menos quatro ao seu servi�o.</p><p>No entanto, era no novo pal�cio do rei, em Versalhes, que pass�vamos a maior parte do tempo. Audiger n�o mentira quando falara da sua magnific�ncia. Embora o trabalho de constru��o n�o estivesse de forma alguma terminado � na verdade, nunca ficou conclu�do ao longo de todo o tempo que l� estive; assim que um projecto terminava, Lu�s lan�ava-se imediatamente noutro, as suas ambi��es ultrapassando sempre as capacidades dos arquitectos para as realizarem � a velha casa j� estava envolvida por uma grande e nova <emphasis>fa�ade</emphasis>, com janelas sim�tricas colocadas a intervalos regulares, mais fabulosas do que tudo o que eu vira em Floren�a, que nesse tempo era considerada a cidade mais bela do mundo. Versalhes � ou �o novo pal�cio�, como nos refer�amos geralmente a ele � tinha as propor��es elegantes do Uffizi ou do Pitti, mas estava rodeado por terreno aberto, como uma mans�o de campo; era do tamanho de um castelo, mas totalmente desprovido de qualquer tipo de fortifica��es, numa demonstra��o de confian�a suprema; cumpria as fun��es de uma corte, mas n�o tinha pequenos gabinetes nem aposentos para funcion�rios, apenas sal�es deslumbrantes e galerias sumptuosas. Em suma, era um tipo de pal�cio completamente novo, e nele Lu�s exercia um tipo de governo completamente novo � em que n�o havia distin��o entre quest�es de Estado e quest�es de moda; onde os ministros eram respeitados pela urbanidade do seu discurso ou pela eleg�ncia das suas roupas, tanto como pela sabedoria dos seus conselhos; e onde tudo, desde o comprimento de uma unha �s quest�es de guerra, girava � volta da impec�vel pessoa do pr�prio rei: o seu estado de esp�rito, os seus modos e, acima de tudo, os seus gostos.</p><p>Pois Lu�s era um <emphasis>gourmet</emphasis> � havia at� quem dissesse um glut�o. Trabalhavam mais de trezentas pessoas nas suas cozinhas, que ocupavam um edif�cio inteiro adjacente ao pal�cio, e sessenta dessas pessoas n�o preparavam mais nada a n�o ser sobremesas. Havia uma equipa de nove pessoas que fazia <emphasis>macaroons</emphasis>, biscoitos arredondados, de consist�ncia semelhante a merengue, recheados com pastas coloridas de pist�cio, alca�uz, groselha negra ou am�ndoa. Havia confeiteiros especializados nas subtilezas do a��car caramelizado, ou que faziam rebu�ados de sementes a�ucaradas, ou que preparavam orchata, uma pasta de am�ndoas escaldadas, flor de laranjeira e coentros, da qual o rei gostava particularmente. Eu fazia quest�o de passar tempo nas cozinhas com estes especialistas, com a desculpa de aquecer as m�os frias por causa de trabalhar o gelo, mas na realidade para ver como eles trabalhavam. Em breve, para grande satisfa��o do rei, eu estava a produzir gelos de esp�cies que nunca tinham sido feitas antes � cordiais gelados aromatizados com orchata, ou gelos de leite ensanduichados entre camadas de merengue que pareciam <emphasis>macaroons</emphasis>, ou <emphasis>sorbetti</emphasis> que podiam ser segurados com a m�o, dentro de uma pequena ta�a entran�ada feita de fios de a��car caramelizado, de modo a n�o pingarem as belas roupas da corte enquanto derretiam.</p><p>Agora n�o havia ningu�m para me dizer o que eu n�o podia fazer: na verdade, rapidamente ficou evidente que a novidade era uma parte essencial do servi�o que Audiger e eu fornec�amos. De cada vez que o rei dava um jantar ou um piquenique, uma das mesas era reservada para as nossas iguarias. Em torno de um centro de mesa de gelo esculpido, coloc�vamos um <emphasis>tableau</emphasis> de geleias, sorvetes, licores gelados, �guas perfumadas, frutas envoltas em gelo e outras del�cias geladas. E depois � talvez algumas horas mais tarde, talvez na semana seguinte, conforme os caprichos da corte, ou seja, os caprichos de Sua Majestade Crist� � volt�vamos a fazer tudo de novo, <emphasis>sem que pud�ssemos repetir uma �nica receita ou sabor</emphasis>. Se um gelo de flores cristalizadas era um dos pratos oferecidos na ter�a-feira, tinham de passar pelo menos duas semanas antes que pudesse surgir novamente na mesa do rei. Se fatias de p�ssego cortadas como raios de sol e aromatizadas com galanga deslumbravam a corte numa quarta-feira, tinha de passar pelo menos outra quarta-feira antes que pudessem brilhar de novo. Uma <emphasis>eau glac�e</emphasis> de cubebas e pimenta de Caiena, ou um sorvete de cordial de meloa intensificado com c�ssia podia divertir os cortes�os e as suas damas hoje, mas amanh� j� n�o seria novidade, e depois de amanh� apenas os enfadaria.</p><p>Depois de estar na corte h� alguns meses, fui chamado � presen�a do rei. Primeiro, presumi que ele queria que lhe levasse um gelo; mas quando perguntei quantos convidados tinha consigo, disseram-me que era apenas um e que, desta vez, n�o era preciso levar nenhum gelo. Conclu� de imediato que a minha �ltima produ��o � um sorvete de leite aromatizado com gr�os do para�so � fora, de alguma forma, inaceit�vel. Com o cora��o aos saltos, certo de que estava prestes a cair em desgra�a, segui o lacaio pelos corredores intermin�veis at� � sala de audi�ncias.</p><p>Encontrei o rei em conversa com um homem cujo casaco estava sujo de musgo, as meias brancas e as presilhas de linho dos sapatos salpicadas de lama. Contudo, o rei estava a conversar com ele com tanta afabilidade como com qualquer outro cortes�o.</p><p>� Ah, Demirco! � exclamou Lu�s. Vi que ele tinha na m�o uma pequena faca de fruta e uma p�ra. � J� conhece monsieur la Quintinie?</p><p>Eu j� ouvira falar dele. Era um advogado de forma��o, que su�pervisionava as hortas do rei, mas nunca o conhecera pessoalmente. Curv�mo-nos ambos numa v�nia.</p><p>� Cheire isto � ordenou o rei, passando-me uma fatia de p�ra da sua pr�pria m�o. � Vamos� cheire!</p><p>Inalei profundamente, permitindo que o aroma da p�ra me invadisse as narinas. Era muito agrad�vel, com um perfume fresco e floral que me fez lembrar uvas moscatel. A fatia em forma de crescente que o rei cortara da fruta revelava que a casca era �spera, quase verrugosa, e tingida com uma sombra vermelha, como uma ma��; mas a polpa era branca e fresca, como um bloco de m�rmore antes de ser esculpido.</p><p>� Agora prove � disse-me ele.</p><p>Enfiei a fatia de p�ra na boca. A fragr�ncia tornou-se l�quida, inundando-me o palato: esmaguei a polpa com os dentes, libertando mais dos seus sucos maravilhosos.</p><p>� Senhor, � magn�fica � disse, com sinceridade, depois de engolir.</p><p>Ele acenou.</p><p>� Uma variedade nova. Os jardineiros de monsieur la Quintinie est�o a cultiv�-la h� tr�s anos e esta � a primeira vez que deu fruto. � Ficou em sil�ncio por um momento. � Em boa verdade, Deus � o maior de todos os cozinheiros, e s� podemos prestar homenagem �s suas receitas com toda a nossa humildade.</p><p>� � verdade, senhor � disse, sem perceber bem onde � que ele queria chegar.</p><p>� A perfei��o � simplicidade, Demirco.</p><p>Inclinei a cabe�a, em sinal de concord�ncia.</p><p>� Sei que gosta muito de p�s e especiarias e por a� fora, e isso � tudo muito bonito. Mas as produ��es da horta, simples e sem adornos, ensinam-nos a gl�ria de Deus. Conseguir� captar estes sabores em gelo?</p><p>� Creio que sim, majestade � respondi, cautelosamente. � N�o estou certo de conseguir reter o aroma que esta p�ra tem, por exemplo. Mas seria uma honra tentar.</p><p>O rei abriu as m�os para nos abranger a ambos.</p><p>� La Quintinie e Demirco. Falem um com o outro. Estou ansioso por provar os frutos da vossa poliniza��o.</p><p>*</p><p>E assim aprendi as virtudes da simplicidade e enviei ao rei <emphasis>sorbetti</emphasis> gelados da fruta mais recente da esta��o, adornados apenas com um pouco de a��car. Descobri que, embora o processo de congelamento pudesse de facto roubar algum do aroma da fruta, tinha tamb�m o efeito de concentrar o sabor, capturando a sua ess�ncia em alguns cristais doces na ponta de uma colher. Isto foi antes de la Quintinie ter completado a vasta <emphasis>potager du roi</emphasis>, a maior da Europa, que o pr�prio Lu�s considerava a parte mais bela da sua propriedade. Mas os pomares, hortas e estufas que j� tinha ao seu dispor produziam resultados extraordin�rios. Lu�s adorava p�ras, por exemplo, mais do que qualquer outro fruto, e assim la Quintinie dedicou-se a cultivar as melhores variedades de Fran�a, al�m de criar variedades novas para agradar ao rei. Globulares, redondas, pendentes, esguias; verdes, amarelas, acastanhadas, vermelhas; de casca �spera ou lisa; com nomes extravagantes como Bom Chretien d�Hiver, Petit Blanquet, Sucr�e Verte, ou a preferida do rei entre todas, a doce e perfumada Rousselet de Reims � ele cultivava-as a todas e dava-me os preciosos frutos para fazer com eles o que muito bem entendesse. Uma vez, enviei ao rei uma simples t�bua de madeira contendo apenas meia d�zia de sorvetes, cada um feito de uma variedade diferente de p�ra, culminando numa p�ra <emphasis>sanguinello</emphasis>, ou de sangue, de um rosa vivo, que fora suavemente assada apenas para caramelizar a casca; ele ficou t�o encantado que p�s de lado os assuntos da corte e convocou Audiger e eu � sala de audi�ncias, onde toda a corte nos recebeu com uma ova��o pelas nossas proezas. Noutra ocasi�o, fiz-lhe uma ta�a de cerejas que, quando examinadas atentamente, eram vinte gelados de creme de cereja individuais que eu congelara um a um, num molde; enquanto os meus sorvetes de mandarina � servidos dentro da casca de uma mandarina rec�m-colhida, com a casca aparentemente intacta, como um barco de brinquedo dentro de uma garrafa � eram uma maravilha que a corte discutiu durante dias.</p><p>Por vezes, o rei organizava grandes <emphasis>divertissements</emphasis>, alguns para mil convidados, em que eram constru�dos de <emphasis>papier m�ch�</emphasis> teatros e grutas quase t�o grandes como o pr�prio pal�cio, para a estreia de pantomimas e <emphasis>com�dies-ballets</emphasis> especialmente encomendados para a ocasi�o. O facto de estes edif�cios elaborados serem para destruir depois de uma �nica noite de entretenimento era apenas outro aspecto da sua magnific�ncia. Nestas ocasi�es, cri�vamos gelos que nunca mais eram repetidos em honra de um convidado especial, da mesma forma que um cozinheiro pode dar a um molho novo o nome do cliente que o inspirou. Audiger levava muito a s�rio a ordem impl�cita do rei para superar o <emphasis>limonadier</emphasis> do cardeal Mazarin, e at� subornava criados nas casas dos outros grandes nobres para nos contarem o que andavam a fazer os seus confeiteiros. Foi, de facto, um dia feliz, quando ouvimos dizer que o famoso Signor Morelli se vira reduzido a copiar a nossa ideia de um sorvete de groselha amarga, servido numa colher de prata reluzente que, quando colocada na boca, revelava ser feita de a��car.</p><p>No entanto, para Audiger, o nosso sucesso estava sempre misturado com frustra��o. A funda��o da corpora��o � o seu grande sonho � estava atolada em burocracia e, a cada passo, exigia mais um suborno para avan�ar. O intendente do rei, monsieur le Tellier, n�o previa quaisquer dificuldades, mas levou o assunto ao Conselho Privado. O Conselho n�o podia considerar a cria��o da corpora��o sem um relat�rio do escriv�o principal. O escriv�o principal levou o assunto ao chanceler. O chanceler s� se envolveria se a medida tivesse o apoio de um nobre. O nobre que Audiger escolheu, infelizmente, andava a dormir com uma dama que n�o era a sua esposa: n�o se tratava propriamente de uma ocorr�ncia invulgar, mas a esposa era, por azar, neta do chanceler� E por a� fora, sempre �s voltas, sem que ningu�m mostrasse grande vontade de conceder a patente que criaria a corpora��o, enquanto cada oportunidade de lucro, progresso, intriga e corrup��o n�o estivesse devidamente esgotada.</p><p>� Mas porqu� tanto interesse? � perguntei por fim, quando Audiger estava novamente furioso por causa do mais recente rev�s. � Porque � uma corpora��o t�o importante, se estamos a fazer os gelos que queremos?</p><p>� N�o compreendeste nada? � inquiriu Audiger. Aproximou-se abruptamente de mim, enquanto eu despejava leite perfumado com cravo-da-�ndia num molde de estanho. � Quem � que pensas que paga por este equipamento? � perguntou, furioso. � Pelas tuas roupas? Pelo teu belo chap�u? Por estas instala��es? Quem � que d� de comer aos nossos aprendizes? Quem paga os nossos subornos? Quem compra estes ingredientes caros que usas de forma t�o liberal? � Enfiou os dedos numa caixa de cravos-da-�ndia e atirou um punhado ao ar. � Nunca fizeste essas perguntas a ti pr�prio?</p><p>Olhei para ele, estupefacto, enquanto os cravos-da-�ndia ca�am no ch�o. O que ele dissera era absolutamente verdade. Eu nunca pensara sequer vagamente no aspecto financeiro daquilo que faz�amos. � a �nica liberdade que o escravo partilha com o cavalheiro; n�o se preocupar com dinheiro.</p><p>� Mas� o rei n�o nos recompensa?</p><p>Audiger soltou uma risada trocista.</p><p>� �s vezes. Mas nunca a tempo e horas, e nunca o suficiente. Sabe que a moeda em que nos paga � a sua protec��o, n�o ouro. J� gastei quase mil <emphasis>livres</emphasis> neste empreendimento� tudo o que tinha. E, a menos que consigamos a corpora��o� a menos que tenhamos outros homens a pagarem-nos para se juntarem a ela� a menos que possamos cobrar �s pessoas para aceitarmos os seus filhos como aprendizes e depois lhes vendermos o direito de se tornarem por sua vez mestres� estarei na bancarrota dentro de seis meses.</p><p>� Audiger, lamento muito. N�o fazia ideia. Tens toda a raz�o� tenho sido negligente.</p><p>� Bom � disse Audiger, o mau humor evaporando-se t�o depressa como aparecera �, n�o importa. Deixei que te concentrasses nos gelos e n�o no neg�cio, uma vez que � essa a tua verdadeira voca��o. Por�m, se de vez em quando me achares um pouco irasc�vel, j� sabes porqu�. Se falharmos, perderei tudo.</p><p>Foi uma pequena discuss�o, rapidamente esquecida, mas teve uma consequ�ncia importante. Da� em diante, eu comecei a interessar-me pelo aspecto financeiro da nossa actividade. Comecei a compreender a curiosa economia da nossa profiss�o, na qual n�o eram os ingredientes que custavam muito dinheiro, nem o pr�prio gelo, mas os aprestos que os acompanhavam: as nossas roupas de corte, os nossos empregados de uniforme, as belas ta�as e colheres de ouro para que um rei ou um nobre pudesse apreciar o nosso trabalho. Ahmad tivera raz�o em rela��o a isto, pelo menos: era a nossa <emphasis>mestria</emphasis> que nos fazia valer as somas exorbitantes que cobr�vamos, tal como um cantor � pago pela beleza da sua voz, ou um pintor pela sua habilidade e n�o pelo custo das tintas. E era por isso, claro, que t�nhamos de manter sempre o nosso conhecimento secreto: assim que fosse partilhado por outros, deixaria de ter valor. Com isto em mente, persuadi Audiger de que dev�amos cobrar ainda mais pelas nossas cria��es. O rei encorajava a extravag�ncia nos seus cortes�os: se Lu�s elogiava um sorvete, ou um gelo feito com algum ingrediente novo e elegante como jasmim, amora ou hortel�, mais cedo ou mais tarde todos os cortes�os dignos desse nome teriam de cerrar os dentes e pagar valores exorbitantes para poderem ter o prazer, mais cedo ou mais tarde, de concordar com o rei que sim, era realmente delicioso. Seguindo este plano, fomos acumulando lentamente riqueza, al�m de privil�gio, os nossos casacos foram ficando mais ricos, os nossos bot�es passaram a ser feitos de p�rolas em vez de osso � embora isso n�o tenha impedido Audiger de continuar, ainda assim, a suspirar pela sua corpora��o.</p><p>Por�m, se Audiger tinha a sua frustra��o privada, eu tamb�m tinha a minha. Em Floren�a sempre imaginara que, assim que tivesse liberdade para combinar os sabores e texturas que desejasse, acabaria por encontrar uma subst�ncia que, depois de congelada, teria a riqueza suave de natas ou de chocolate derretido, para que as minhas confec��es se dissolvessem doce e rapidamente na l�ngua, como creme de <emphasis>chantilly</emphasis> ou a pasta no centro de um <emphasis>macaroon</emphasis>, sem o rangido denunciador de gelo. Contudo, embora tivesse tentado congelar cada uma destas misturas e uma dezena de outras, a resposta continuava a escapar-me. N�o parecia, pura e simplesmente, haver forma de produzir um gelo verdadeiramente suave.</p><p>Havia contudo uma coisa na qual me tornei mais eficiente. Enquanto os M�dicis tinham uma tend�ncia para a rigidez em quest�es morais, como convinha aos banqueiros da Europa, a corte de Lu�s XIV era mais sofisticada. A nobreza de Fran�a casava por motivos pol�ticos e financeiros: o seu ardor era reservado para as aventuras extraconjugais. Mesmo aos n�veis mais baixos da corte, ningu�m via motivos para n�o se entregar a <emphasis>liaisons</emphasis>. Um jovem italiano talentoso � que, mod�stia � parte, ficava bastante elegante num chap�u de tr�s bicos � n�o podia continuar a ser ignorado muito mais tempo.</p><p>Um dia, estava a preparar cordiais gelados para os convidados do rei quando uma dama da corte parou para me ver trabalhar.</p><p>� O senhor � o tal que � meu conterr�neo � disse, em italiano.</p><p>Ergui os olhos, surpreendido por ouvir a minha l�ngua m�e. Ela era baixa, de rosto redondo e olhos escuros, e tinha no olhar uma express�o de mal�cia indolente.</p><p>� Cresci em Roma � explicou. � O meu tio trouxe-me para Paris para arranjar marido.</p><p>� E arranjou? � perguntei, ousado.</p><p>Ela acenou.</p><p>� V�rios, na verdade. Um meu, e alguns que j� pertenciam a outras. � Olhou para o rei, rodeado por um grupo de cortes�os.</p><p>Percebi ent�o com quem estava a conversar. At� eu j� ouvira falar de Olympe de Soissons, a beleza italiana que contava o pr�prio rei entre as suas conquistas. Ela e as suas quatro irm�s eram conhecidas como as Mazarinettes, por causa do nome do tio, o poderoso cardeal Mazarin.</p><p>� O que est� a fazer? � perguntou-me, enquanto me via coar o l�quido atrav�s de uma musselina.</p><p>� Um cordial. P�ras moscatel e gengibre, com um pouco de�</p><p>� Fa�a um para mim � interrompeu. � Mas esse n�o. Nunca gosto de comer o mesmo que as outras pessoas. � Afastou-se para se juntar aos outros mas, ao faz�-lo, lan�ou-me um breve olhar atrevido por cima do ombro.</p><p>Depois de distribuir os cordiais de gengibre, fiz algo diferente e levei-lho.</p><p>� O que �? � perguntou ela delicadamente.</p><p>� Uma tisana gelada de folhas de ch� verde da China, com ess�ncia de lima e algumas sementes � respondi com uma v�nia.</p><p>Ela acenou e bebeu um gole. Era uma receita que eu andava a trabalhar h� alguns dias, um pouco fora do comum, usando os ingredientes mais recentes e na moda. O sabor come�ava por um golpe forte e fresco de lima, a que se seguia um pequeno jacto de folhas de ch� verde. Depois havia uma sugest�o de jasmim e um travo leve e quente de cardamomo picante.</p><p>� Interessante � foi tudo o que ela disse. E depois, enquanto eu me afastava: � E surpreendentemente refrescante. Obrigada.</p><p>No dia seguinte recebi ordens para preparar os ingredientes para vinte litros de cordial.</p><p>� Vinte litros? � repeti ao lacaio que trouxe a ordem. � Tem a certeza? Isso seria suficiente para toda a corte.</p><p>� � apenas para <emphasis>madame la comptesse</emphasis>. Ela deseja aquele que lhe fez ontem. Leve os ingredientes directamente aos aposentos dela.</p><p>Era f�cil perder-me no pal�cio enorme e por v�rias vezes tive de pedir indica��es a um dos criados de peruca que estavam de servi�o nos corredores intermin�veis. Por fim, encontrei a porta certa. Foi-me aberta por uma criada, que me convidou a entrar. Mesmo pelos padr�es de Versalhes, o apartamento era sumptuoso. Papel de parede de seda vermelha estava por sua vez coberto com obras de arte, sendo a pe�a central uma pintura da pr�pria Olympe, vestida com pouco mais do que umas cortinas de veludo.</p><p>A criada introduziu-me numa antec�mara onde havia uma banheira e uma fila de jarros fumegantes. N�o vi mais nada a n�o ser um biombo de seda bordada, uma cadeira e uma <emphasis>chaise-longue</emphasis> estofada a veludo vermelho, sobre a qual fora colocada uma pilha de grossas toalhas de linho.</p><p>� <emphasis>Madame</emphasis>, o confeiteiro chegou � disse a criada, fazendo uma rever�ncia na sala vazia.</p><p>� Obrigada, Cecile.</p><p>A cabe�a de Olympe apareceu por cima do biombo. Estava a soltar o cabelo com uma m�o, libertando os carac�is elaborados.</p><p>� O seu cordial estava t�o delicioso que decidi que gostaria de me banhar nele � disse, simplesmente. � Importa-se de o preparar para mim, por favor?</p><p>Fiz o que ela me pediu. Em vez de encher a banheira com folhas de ch� e rodelas de lima, coloquei os sacos de musselina que continham os ingredientes directamente na �gua e deixei-os macerar. A �gua estava bastante quente � se soubesse, teria alterado ligeiramente as propor��es; o calor ia real�ar mais o sabor das folhas de ch�, enquanto o gelo favorecia a lima�</p><p>� Est� pronto? � perguntou ela.</p><p>� Devia estar mais algum tempo de infus�o.</p><p>� Nesse caso, eu ficarei de infus�o com ele. � Olympe saiu de tr�s do biombo. Vestia o seu <emphasis>d�shabill�</emphasis> � uma pe�a de renda fina como gaze, fechada � frente, que mal lhe cobria os joelhos. Se reparou na minha reac��o, n�o deu quaisquer sinais disso.</p><p>� <emphasis>Madame</emphasis> � disse, inclinando a cabe�a e preparando-me para sair.</p><p>� Espere � ordenou ela em tom imperioso, enfiando uma perna na banheira para testar a temperatura. � Posso querer alterar as quantidades e, al�m disso, gosto de falar italiano enquanto tomo banho. Sente-se na cadeira e fale comigo.</p><p>Dirigi-me � cadeira e sentei-me, um pouco atrapalhado. O biom�bo, percebia agora, estava posicionado de modo a que, de onde eu estava sentado, ocultava um pouco � muito pouco � a banheira; embora n�o conseguisse ocultar, descobri, as costas nuas de Olympe quando se despiu e se instalou na �gua com um suspiro.</p><p>� Como se chama? � perguntou em italiano.</p><p>� Demirco, <emphasis>madame</emphasis>.</p><p>� Eu sei disso. Refiro-me ao seu outro nome.</p><p>� Carlo.</p><p>Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual ouvi o chapinhar suave da �gua enquanto Olympe a derramava sobre o corpo com as m�os em concha. O aroma de lima, ch� verde e jasmim chegou at� mim. Permaneci muito quieto.</p><p>Por fim, ela disse:</p><p>� Afinal n�o quero falar, Carlo. Hoje parece que tenho a l�ngua t�o presa como a sua. Pode juntar-se a mim.</p><p>� <emphasis>Madame?</emphasis></p><p>� Junte-se a mim � repetiu ela. � Na banheira.</p><p>Mais tarde, ela disse:</p><p>� Ent�o, foi t�o agrad�vel como esperavas?</p><p>� Sem d�vida. Mas precisas de mais lima.</p><p>� Preciso � de mais amor. � Espregui�ou-se voluptuosamente como um gato, t�o � vontade sob o meu olhar como se ainda estiv�ssemos ambos completamente vestidos. Est�vamos agora na <emphasis>chaise-longue</emphasis>: eu rapidamente percebera que, tal como a banheira e o biombo, n�o fora ali colocada por acaso.</p><p>Estendi a m�o para ela.</p><p>� Espera � disse, pousando a m�o no meu peito. � Foi bastante bom, para a primeira tentativa. No entanto, para a pr�xima, tens de ser mais lento. E um bocadinho mais inventivo.</p><p>� Inventivo! � exclamei, ferido no meu orgulho.</p><p>Ela riu-se.</p><p>� N�o fiques ofendido. Simplesmente j� fiz isto muito mais vezes do que tu e, como qualquer outra compet�ncia, � algo que � preciso praticar. Al�m do mais, h� modas para fazer amor, como para tudo o resto, e especialidades nacionais tamb�m. Os Franceses s�o bastante bons; quase t�o bons como a fazerem past�is e sobremesas.</p><p>� O que pode um franc�s saber que um italiano n�o saiba? � perguntei, secamente.</p><p>Ela sorriu.</p><p>� � isso que te vou mostrar agora.</p><p>Quando acabou de me mostrar e eu estava finalmente a preparar-me para sair, acrescentou:</p><p>� Para a pr�xima, quando vieres, tens de trazer uns gelos e eu mostrar-te-ei uma utiliza��o para eles que talvez nunca te tenha ocorrido.</p><p>Audiger ficou furioso.</p><p>� Foste visto a sair do apartamento dela. Queres que sejamos ambos banidos da corte?</p><p>� Todos o fazem � respondi. � Porque n�o posso eu fazer o mesmo?</p><p>Audiger ergueu as m�os.</p><p>� Porque as posi��es deles est�o seguras e a nossa n�o.</p><p>� N�o me importo � disse. � N�o vou deixar de a visitar apenas porque algu�m pode n�o gostar. N�o consigo viver assim.</p><p>� Nesse caso, �s um idiota � disse Audiger num tom seco. � A cor�te n�o � lugar para um homem se apaixonar.</p><p>� Quem � que falou em apaixonar-se? � Disse-o sem pensar, como qualquer jovem poderia dizer, mas sabia tamb�m que era verdade; o estilha�o de gelo estava cravado demasiado profundamente para isso acontecer.</p><p>� Muito bem � disse Audiger, com relut�ncia. � Mas tem cuidado para n�o perderes o cora��o. Ou ent�o, podes acabar por perder outra parte tamb�m� a cabe�a, que, ao contr�rio desse outro �rg�o, n�o tem como sarar.</p><p>Acenei. Sabia que Audiger n�o me podia proibir isto. O equil�brio entre n�s mudara durante esses anos na corte. Eu tinha agora tudo o que sempre quisera � riquezas, posi��o, os meus apetites carnais saciados por uma das maiores amantes da �poca e a protec��o do rei mais poderoso da Europa.</p><p>Da pr�xima vez que visitei Olympe, entrei com confian�a no seu apartamento, levando um tabuleiro no qual estavam dispostas quatro ta�as de vidro com sorvetes. Cada um era de uma cor e de um sabor diferente: di�spiro, pist�cio, p�ssego branco e mel dourado. N�o levava colheres.</p><p>Levantei a m�o para bater mas, quando o fiz, um lacaio materializou-se do nada e colocou-se entre mim e a porta.</p><p>� <emphasis>Madame la comptesse</emphasis> n�o quer ser incomodada.</p><p>Apontei para os gelos.</p><p>� Trouxe-lhe estes gelos.</p><p>� E eu tratarei de que ela os receba � disse ele, retirando-me habilmente a bandeja da m�o. N�o protestei. Reconhecia agora o homem: era um dos criados pessoais do rei. Enquanto me afastava, ouvi a porta abrir-se para ele entrar com os gelos.</p><p>Esperei por perto. Tal como calculara, cerca de meia hora depois vi o rei sair dos aposentos de Olympe e descer a grande escadaria que levava aos seus aposentos. Ia a puxar o punho da camisa, como se tivesse acabado de a vestir.</p><p>Voltei para tr�s para ir buscar a bandeja. Olympe estava na banheira mas a criada disse que ela me receberia.</p><p>� O rei ficou muito impressionado com os teus gelos � disse Olympe sem pre�mbulos, quando me viu. � Na verdade, era mesmo o retemperador de que ele estava a precisar. Hoje em dia, s�o raras as vezes em que consegue fazer amor comigo duas vezes; ficou muito satisfeito consigo pr�prio, o que significa que est� satisfeito comigo. Obrigada.</p><p>Olhei para ela, estupefacto com o tom casual.</p><p>� Ainda �s amante dele? Mas pensei�</p><p>� Que ele se deitava nos bra�os de madame de la Valliere? E deita� a maioria das vezes. Mas h� alturas em que ela est� indisposta, ou que lhe apetece alguma variedade. Outras vezes, namorisca com uma nova dama de companhia e � rejeitado: nesses casos, traz-me a sua vaidade ferida para eu a restaurar. H� muitas raz�es para um homem escolher deitar-se com uma mulher, e nem todas s�o simples. Neste momento, o rei sente alguma nostalgia da minha companhia.</p><p>� Ent�o� n�o queres que volte? � perguntei, um pouco ferido na minha pr�pria vaidade.</p><p>Olympe riu-se.</p><p>� Nada disso. Contigo, Carlo, as coisas s�o completamente simples, e � esse o seu encanto. Hoje estou cansada, e espero que o rei possa voltar a procurar-me amanh�, mas volta dentro de alguns dias e veremos como est�o as coisas � disse, lan�ando-me um olhar malicioso. � Seja como for, n�o � justo que eu te queira a�ambarcar s� para mim.</p><p>� Como assim?</p><p>� Quero simplesmente dizer que te falta experi�ncia. N�o, n�o fiques triste� todos estivemos no mesmo barco em tempos e, al�m disso, para uma pessoa como tu, esse problema � f�cil de resolver. O pal�cio est� cheio de mulheres que teriam todo o prazer em ser tuas professoras nesta mat�ria.</p><p>� Sim? � perguntei, espantado.</p><p>� Claro que sim. Porque pensas que madame de Corneil man�da vir os teus cordiais todas as noites? Porque pensas que madame Roussoulet est� sempre a convidar-te para jogar �s cartas? E porque pensas que fiz quest�o de te seduzir antes de qualquer uma delas?</p><p>� Quer dizer� que estavas a provar alguma coisa?</p><p>Olympe sorriu.</p><p>� Entre outras raz�es. � Com as m�os, deitou �gua sobre o corpo.</p><p>� E n�o terias ci�mes se eu dormisse com outras mulheres?</p><p>� O ci�me � para a gente vulgar � disse ela, em tom indiferente. � Pessoas cujas migalhas de prazer s�o t�o poucas e raras que t�m de lutar por elas como mendigos por uma c�dea de p�o. Aqui na corte, onde somos empanturrados com a possibilidade de sensa��es agrad�veis, podemos dar-nos ao luxo de sermos mais exigentes. � Olhou para mim, divertida. � No entanto, se fores sensato, deixar�s que seja eu a guiar-te nesta mat�ria. Tal como a escolha de uma col�nia ou o gosto por uma <emphasis>sarabande</emphasis> diz muito sobre se algu�m � um verdadeiro conhecedor, da mesma forma a escolha de amantes indica a quem nos rodeia se somos pessoas de gostos refinados ou impostores.</p><p>� Impostores? � repeti, algo atrapalhado. Suponho que ainda estava um pouco receoso de poder trair as minhas origens humildes com um passo em falso.</p><p>Ela acenou.</p><p>� Por exemplo, ningu�m a n�o ser um bruto seduziria alguma vez uma criada. Deitar-se com algu�m grosseiro, por mais disposta a isso que a pessoa esteja, � correr o risco de nos tornarmos tamb�m grosseiros. E, aconte�a o que acontecer, nunca deves permitir deixar-te levar. O amor � muito bonito, contudo, tal como a fome n�o desculpa a falta de maneiras � mesa, a paix�o n�o desculpa o comportamento de um labrego na cama. Excesso de emo��o numa aventura amorosa � t�o feio como excesso de rosmaninho num prato, ou excesso de viol�ncia numa m�sica. � poss�vel� na verdade, � necess�rio� mostrar eleg�ncia nos nossos <emphasis>amours</emphasis>, tal como no resto dos assuntos.</p><p>Disse tudo isto numa voz ligeira e indolente, como se o tema fosse algo em que reflectira j� tantas vezes que n�o havia nada mais a dizer sobre o assunto. Era o modo como falavam na corte, particularmente as mulheres: eu j� o ouvira ser descrito como <emphasis>pr�ciosit�</emphasis>, e as mulheres que o cultivavam nos sal�es e salas da Paris elegante eram conhecidas como <emphasis>les pr�cieuses</emphasis>. Mas o brilho de mal�cia nos seus olhos indicava que este era um projecto que ela na realidade levava muito a s�rio.</p><p>Curvei-me ironicamente.</p><p>� Ficaria muito grato por toda a instru��o que puder dar-me nesta quest�o, <emphasis>madame</emphasis>.</p><p>� �ptimo � disse ela. � Assim sendo, est� combinado. Traz-me um gelo dentro de dois dias e, entretanto, vou pensar em quem dever� ser a tua pr�xima conquista.</p><p>E assim come�ou a pr�xima fase da minha educa��o. Tal como em Floren�a eu fizera experi�ncias com v�rios sabores e t�cnicas de gelo, assim aqui em Versalhes provei os diferentes sabores e gostos do amor. Olympe tinha raz�o: rapidamente descobri que havia muitas mulheres na corte felizes por serem minhas acompanhantes. Descobri tamb�m outra coisa: eu gostava de mulheres e elas, regra geral, gostavam tamb�m de mim. Pode parecer uma afirma��o curiosa, mas n�o era de forma alguma evidente por si mesma: muitos dos mais famosos amantes da corte pareciam quase cansados das suas aventuras, como se apaixonarem-se fosse um dever t�o �rduo e inevit�vel como assistir a mais um baile. De vez em quando, Olympe tinha de me prevenir contra o excesso de entusiasmo � �Se andares sempre com um sorriso desses na cara, as pessoas pensar�o que �s um simpl�rio� � mas, de uma maneira geral, tratava-me com uma indulg�ncia divertida; pela minha parte, aprendi rapidamente a apresentar ao mundo aquele ar de cinismo divertido e altivo que era a grande moda da �poca.</p><p>Descobri tamb�m que, se uma mulher tivesse de ser cortejada, eu tinha ao meu dispor o meio perfeito de o fazer. Parecia que n�o havia nada t�o persuasivo como anunciar que estava a tentar aperfei�oar um novo sabor ou combina��o de gelos, que ningu�m saboreara at� agora, e que precisava da ajuda da dama em quest�o para provar o meu trabalho e me dar a sua opini�o. Havia uma certa habilidade, e prazer tamb�m, em fazer condizer o sorvete com a mulher: as mais jovens e inocentes � n�o que existisse algo como verdadeira inoc�ncia naquela corte � podiam ser tentadas com sabores mais sofisticados, enquanto as mulheres mais velhas preferiam a inoc�ncia e juventude dos sabores simples.</p><p>� medida que me fui tornando mais ex�mio, tornei-me ainda mais inventivo, tanto nos gelos que fazia para o rei como nos que produzia para as minhas amantes. Continuava a fazer os sorvetes de um s� fruto de que o rei tanto gostava, claro. No entanto, depois de ter colhido todos os frutos existentes na Natureza, comecei a criar pomares novos e imagin�rios e as minhas pr�prias hortas, onde cresciam extravag�ncias como uma �rvore que era metade lim�o, metade lima, ou um arbusto que dava p�o de centeio, ou uma planta cujo p�len era as ovas do esturj�o da Aquit�nia. At� os canteiros de flores trocavam os seus bot�es por sorvetes de perfumadas folhas de ger�nio ou alfazema, ou emprestavam os seus aromas a <emphasis>granites</emphasis> perfumados de erva-cidreira, violeta ou rosa. O facto de estes sabores poderem sequer existir, quanto mais estarem presos nos cristais gelados das minhas <emphasis>eaux glac�es</emphasis>, nunca deixava de espantar os convidados do rei: a minha estrela subiu cada vez mais e o meu nome tornou-se conhecido at� fora dos limites da corte.</p><p>E depois, um dia, levei um prato de gelo de morango aromatizado com pimenta branca ao rei e, embora n�o me tenha apercebido de imediato, a minha vida mudou completamente.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer um gelo de morango: escolha trinta morangos suculentos com bastante aroma, parta-os e pique-os e passe-os por um coador; adicione uma ch�vena de a��car e meio litro de leite de vaca gordo; misture bem e mexa enquanto congela. N�o precisa de mais nada, mas pode aromatiz�-lo com um pouco de hortel� ou pimenta branca, a gosto.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O gelo n�o ficava s�lido e o rei estava � espera.</p><p>Apesar do frio na copa subterr�nea, eu estava a transpirar. Segurei o balde de madeira entre os joelhos e despejei de novo a mistura de a��car, natas e morangos esmagados para a <emphasis>sabotiere</emphasis>, o recipiente interior feito de estanho, e comecei a trabalhar novamente com a p�.</p><p>Ao meu lado, Audiger estava a ficar aflito.</p><p>� Talvez tenhas de mexer mais devagar. Mas despacha-te, despacha-te!</p><p>N�o me dei ao trabalho de lhe dizer que era dif�cil fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.</p><p>� O gelo n�o est� suficientemente frio. Preciso de mais salitre.</p><p>� Com certeza que gelo � gelo. S� tem uma temperatura, a temperatura de congelamento. Isso foi determinado por muitas autoridades. Galeno diz�</p><p>� Est� ali � interrompi. � Duas medidas.</p><p>Audiger aproximou-se das arcas onde guard�vamos os nossos mantimentos, encheu uma concha de cristais amarelados e trouxe-ma.</p><p>� Aqui tens.</p><p>Parei de mexer para ele os adicionar � mistura. Cuidadosamente, Audiger despejou o salitre na parte exterior do balde. Enquanto o fazia, um lacaio com a libr� real enfiou a cabe�a na porta da copa.</p><p>� As sobremesas para o rei � pediu.</p><p>Audiger virou-se para ele.</p><p>� Dois minutos! � exclamou. � S� mais dois minutos! Sua Majestade sugeriu que hoje gostaria de comer um gelo de morango e � um gelo de morango que vai comer. � Por h�bito, manteve-se entre o lacaio e os nossos aparelhos, bloqueando a vis�o do homem.</p><p>Entre as pernas, senti o balde � finalmente! � come�ar a arrefecer enquanto o salitre fazia o seu trabalho. A p� come�ou a encontrar mais resist�ncia e a mover-se mais devagar. Abrandei tamb�m o meu ritmo. Era trabalho duro, esta era a parte mais dif�cil, no entanto, era tal o meu al�vio que senti a dor nos meus ombros diminuir.</p><p><emphasis>Se fores demasiado impaciente, a pr�pria p� pode aquecer a mistura</emphasis>, ouvi a voz de Ahmad dizer na minha cabe�a. <emphasis>Presta aten��o � tua m�o, n�o aos teus olhos. Quando te parecer que est�s a mexer areia, � porque est� quase pronto.</emphasis></p><p>� Est� pronto � disse. Hoje, n�o havia tempo para delicadezas. Quando o rei exprimia um desejo s�bito por um sabor em particular, at� do gelo se esperava que cumprisse as suas ordens.</p><p>� Finalmente. � Audiger ajeitou a cabeleira e sacudiu o p� da cave das suas roupas de corte. Enfiou um par de luvas brancas e olhou em volta. � Onde est� a bandeja?</p><p>Fiz um gesto com a cabe�a.</p><p>� Na prateleira.</p><p>A bandeja era tamb�m feita de gelo, feita com um molde e polida at� parecer cristal. J� estava coberta de mais gelo mo�do, � espera.</p><p>Inspeccionei pela �ltima vez o conte�do do meu balde. A mistura estava agora densa e granulosa como mel em bruto. Co�gulos e veias de morango esmagado espalhavam-se pelas natas. Enfiei o dedo para provar.</p><p>� O que est�s a fazer? � gritou Audiger. � J� � pouco para os convidados do rei!</p><p>N�o respondi. Provava todos os gelos que fazia, mas Audiger n�o precisava de saber disso. Saboreei, depois acenei.</p><p>� Est� bom.</p><p>Peguei numa colher que fora afiada de um dos lados e coloquei uma colherada de gelo rosa p�lido na travessa. Depois acrescentei outra, e outra. Pouco depois o prato parecia um mar gelado, as curvas e rolos de aparas de gelo ajudando a disfar�ar o facto de ser, na realidade, muito pouco.</p><p>� Vai � disse.</p><p>� Um bocadinho de canela? � sugeriu Audiger, ansioso. � Folha de ouro? Noz-moscada?</p><p>� Talvez um bocadinho de pimenta branca.</p><p>� Pimenta? Nos morangos? Est�s maluco?</p><p>� S� uma pitada. Confia em mim.</p><p>Audiger suspirou.</p><p>� Pimenta, ent�o. E a�afr�o. Sua Majestade Crist� n�o estar� � espera de menos. � Antes que eu pudesse det�-lo, atirou uma m�o cheia de fios de a�afr�o para o prato.</p><p>� Gostar� ainda mais se souber ao que devia saber � murmurei. Sob o pretexto de o adornar com algumas folhas de hortel� congeladas, consegui sacudir a maior parte do precioso a�afr�o com as costas da m�o. � Vai � repeti, estendendo-lhe o prato.</p><p>Audiger subiu os degraus da copa com a bandeja cerimoniosamente estendida � sua frente, as costas direitas como uma vara, como se j� estivesse na presen�a do rei. Segui-o. L� fora, o sol e o calor da tarde eram como uma pancada, depois da humidade fria da copa. Vi aparecer sobre o gelo de morango uma leve camada de orvalho prateado por causa do ar quente e lembrei-me do sabor � aquela breve amostra na ponta do dedo: a��car, leite e morangos, concentrados pelo mecanismo do gelo numa pequena flor de sabor.</p><p>Sim, pensei. � bom. Um prato digno de um rei.</p><p>Era isto que Audiger nunca compreenderia: os gelos n�o eram simplesmente uma novidade, uma forma de demonstrar o dom�nio engenhoso do homem sobre a ordem natural das coisas. Eram uma forma completamente nova de combinar sabores e aromas, os quais eram apenas t�o bons como as receitas que cri�ssemos para eles.</p><p>O lacaio que nos tinha ido chamar estendeu as m�os para a bandeja. Audiger ignorou-o. Por um momento, os olhares de ambos cruzaram-se, depois o lacaio virou-se simplesmente e caminhou � frente de Audiger. Um segundo lacaio seguiu-nos, e outro atr�s dele, enquanto um quarto e um quinto abriam sombrinhas elaboradas para proteger o gelo do sol. No comando deste pelot�o ia um <emphasis>ma�tre d�h�tel</emphasis> de rosto sulcado e cabeleira, que segurava um comprido bast�o de prata como sinal da sua antiguidade. Bateu uma ordem com ele e, juntos, come�aram a atravessar os jardins de rosas com passo r�pido.</p><p>Com o esfor�o para manterem o passo certo, a prociss�o de lacaios, apesar de irem todos quase a correr, ia pouco mais depressa do que eu, que caminhava atr�s deles. De qualquer maneira, sabia para onde iam. Na orla do jardim de rosas, onde as sebes abriam e davam para um lago ornamental, trinta ou quarenta cortes�os e as suas damas passeavam-se com as suas melhores roupas. Havia mesas postas � sombra de um grande cedro. Por tr�s destas, em filas de quatro, aguardava um pequeno ex�rcito de criados, a suar debaixo das cabeleiras curtas. De um dos lados, um grupo de m�sicos toca�va. No meio, onde a multid�o de cortes�os era mais densa, distingui a cabeleira escura e luxuriante do pr�prio rei.</p><p>Os criados seguiram os caminhos em ziguezague at� aos jardins formais. Eu limitei-me a cortar caminho pelo relvado e juntei-me de novo a eles � beira do lago. A prociss�o abrandou para um passo mais digno ao penetrar nos c�rculos exteriores da festa e alguns cortes�os viraram-se com curiosidade para inspeccionar a travessa � medida que passava. Muitos, sabia eu, ainda n�o tinham tido oportunidade de provar pessoalmente esta paix�o do monarca. Tendo em conta a reduzida quantidade da iguaria e o tamanho do grupo, a maioria ainda n�o teria essa possibilidade hoje. Lu�s j� devia ter escolhido aqueles que seriam honrados com uma pequena amostra.</p><p>Quando nos aproxim�mos, o rei virou-se.</p><p>� Ah! O meu gelo de morango! � exclamou.</p><p>Audiger parou e caiu sobre um joelho � n�o muito graciosamente, por causa da bandeja que tinha nas m�os. Lu�s fez-lhe sinal para avan�ar.</p><p>� Ver� se n�o tenho raz�o, senhor duque. � uma confec��o admir�vel. � As palavras eram dirigidas ao homem ao seu lado. Estava vestido de forma algo semelhante aos criados, mas eu sabia que era na realidade um ingl�s, um visitante importante, que viera negociar um tratado entre os dois pa�ses. Lu�s achava divertido vestir os criados com as modas usadas nas cortes estrangeiras. Era uma maneira de lembrar aos visitantes que a sua corte era mais rica e magnificente do que a deles.</p><p>Do outro lado do visitante estava Madame, como era simplesmente tratada: Henrietta d�Angleterre, a irm� do rei ingl�s. Era casada com o irm�o de Lu�s mas � dizia-se � era tamb�m uma das favoritas do pr�prio rei.</p><p>� Sim, George, talvez lhe d� for�as suficientes para aceitar juntar-se a n�s num jogo de <emphasis>paille maille</emphasis> � estava ela a dizer. � Sei que conhece as regras: ouvi dizer que o meu irm�o introduziu o jogo no vosso pa�s e que a corte joga todos os dias.</p><p>� � verdade � disse o lorde ingl�s com um sorriso descontra�do. � Tal como tantas modas francesas, � a loucura do momento em Londres. Sua Majestade estabeleceu um campo de jogos atr�s de Whitehall, ao qual as pessoas j� chamam Pall Mall. � Inspeccionou o prato de gelo de morango, com ar ligeiramente desconfiado. � Ele tamb�m construiu uma casa de gelo no Parque de St. James� mais uma ideia que levou do seu ex�lio aqui, creio, embora os seus cozinheiros ainda n�o se tenham lembrado de p�r gelo nas sobremesas.</p><p>� Isto � muito mais do que uma sobremesa gelada � disse Lu�s. � Prove e ver� o que quero dizer. � O rei estendeu a m�o. Por um momento vi o p�nico nos olhos de Audiger quando se apercebeu de que, n�o s� n�o trouxera ta�as nem colheres, como, com ambas as m�os a segurarem a bandeja, n�o conseguia servir o rei. Eu, por�m, adiantara-me a ele. Ao passar pelas mesas ao fundo tirara meia d�zia de ta�as de porcelana azul e branca e tratei de encher uma com gelo de morango e de a apresentar ao rei com uma v�nia.</p><p>� Aqui o Demirco � de Floren�a � disse o rei, aceitando a ta�a. � � um de apenas um punhado de homens em toda a Europa que sabe preparar esta confec��o. O que nos traz desta vez, <emphasis>signor</emphasis>?</p><p>� Um sorvete de morangos, senhor, conforme requisitado, com um pouco de nata e pimenta branca.</p><p>Vi o maxilar de Audiger contrair-se. Uma vez que era ele que estava a segurar na bandeja enquanto eu servia, j� para n�o mencionar que era eu que estava a discutir as receitas com o rei, parecia aos olhos do mundo que era Audiger o ex-aprendiz e eu o mestre.</p><p>� Majestade? � Era o novo m�dico do rei, um homem chamado F�lix, que se aproximou.</p><p>� O que �, F�lix?</p><p>O m�dico tossiu.</p><p>� O dia est� particularmente quente, senhor, e as damas� mesmo aquelas que n�o t�m j� de si uma disposi��o mais delicada aqueceram bastante com o jogo de <emphasis>paille maille</emphasis>. Dadas as circunst�ncias, n�o o aconselho.</p><p>� O gelo? � O rei parecia surpreendido.</p><p>F�lix acenou com firmeza.</p><p>� As autoridades m�dicas est�o de acordo nesta quest�o particular. O consumo de gelo num dia t�o quente pode desencadear v�rias maleitas. At� mesmo convuls�es. O cavalheiro ingl�s, talvez, mas as senhoras e Vossa Majestade�</p><p>� Quer dizer que n�o faz mal matar o nosso distinto convidado, o duque de Buckingham, desde que n�s escapemos? � exclamou o rei. � Meu Deus, F�lix, ainda faremos de si um diplomata. � Os que o rodeavam riram-se, mas reparei que ningu�m tocou no gelo. Um sil�ncio embara�ado abateu-se sobre a corte ali reunida.</p><p>Era um impasse. As aparas de gelo j� estavam a derreter sob o sol. Eu sabia que era in�til discutir com este m�dico idiota: s� serviria para embara�ar o rei em frente do seu convidado. Senti algo quente na boca e percebi que mordera a bochecha com o esfor�o de manter o sorriso no rosto.</p><p>Nesse momento uma voz � uma voz fresca e feminina � disse atr�s do rei:</p><p>� Talvez eu possa prov�-lo antes de Vossa Majestade.</p><p>Fora uma mulher que falara � uma rapariga, na verdade, pois era ainda mais jovem do que Madame; teria talvez dezoito ou dezanove anos e trazia um vestido que parecia um dos trajes postos de lado por Madame, o que a fazia parecer ainda mais nova. Havia tamb�m algo infantil nas suas fei��es: era bonita, mas com os l�bios grandes e as sardas que lhe salpicavam as bochechas, era a beleza severa e ainda imatura da adolesc�ncia. Os carac�is negros que lhe tombavam sobre os ombros, <emphasis>au naturel</emphasis>, pareciam mais a cabeleira de um homem do que os penteados elaborados que as outras damas usavam, e a sua pele era invulgarmente p�lida, t�o branca como gelo de leite. No entanto, eram os seus olhos que mais chamavam a aten��o: eram verdes, e um deles era ligeiramente mais lento, como se tivesse de pensar por uma frac��o de segundo antes de seguir o outro.</p><p>Virou-se para o m�dico.</p><p>� � essa a base do Novo M�todo, n�o �? Hip�tese, investiga��o e s� depois dedu��o?</p><p>O m�dico acenou, com alguma relut�ncia.</p><p>� Nesse caso � disse ela �, eu serei a sua investiga��o e, se morrer, pode fazer as suas dedu��es de acordo com isso.</p><p>� Bravo, <emphasis>la belle Bretone</emphasis>! � exclamou o rei. � Mas� e se tiver um ataque, minha querida? Os seus pais nunca me perdoariam.</p><p>� � uma honra correr esse risco pelo rei, senhor. � Havia uma nota sard�nica na sua voz, como se quisesse dizer, <emphasis>Mas isto n�o passa de um disparate e ambos o sabemos</emphasis>. � Al�m do mais � acrescentou, tirando rapidamente a ta�a das m�os de Madame �, � t�o poucochinho. Assim certifico-me de que, apesar da minha posi��o inferior, consigo provar esta maravilha da qual ouvi falar tanto. � Levou a colher aos l�bios.</p><p>Este era um momento que eu apreciava sempre � o momento em que algu�m provava pela primeira vez um dos meus gelos. Era melhor se n�o fizessem ideia do que iam comer, claro, para que fosse uma surpresa total, mas descobri que, at� mesmo quando as pessoas pensavam que sabiam o que esperar, nunca conseguiam imaginar antecipadamente qual seria a sensa��o. �s vezes, uma pessoa menos sensata provava e largava a tigela; as senhoras, em particular, soltavam um gritinho de alarme e levavam a m�o � boca, como se tivessem medo de solu�ar ou de cuspir. Depois, ap�s um instante, o choque transformava-se em espanto e o espanto em prazer, quando a primeira colherada derretia nas suas bocas e o sabor doce e intenso � se eu tivesse feito devidamente o meu trabalho � as levava a comer de imediato outra colherada, e outra, at� a acumula��o de tanto frio adormecer o palato e pontadas de dor gelada trespassarem a cabe�a; ent�o soltavam exclama��es de outro g�nero, sorvendo o ar quente para afastar o gelo que lhes apertava agora a garganta. Mas tamb�m isso durava apenas alguns segundos; depois vinha a contenda final entre cautela e avidez, enquanto o desejo de comer mais se debatia com a vontade de evitar outro arrepio, at� a tigela estar vazia e todos os cristais doces de gelo lambidos da colher com que fora servido.</p><p>A rapariga n�o gritou nem cuspiu. Por�m, abriu muito os olhos e fez, por um instante, uma express�o sobressaltada antes de se recompor.</p><p>� Ent�o? � quis saber o rei.</p><p>Ela tinha um pouco de gelado esbranqui�ado no l�bio superior e lambeu-o com a l�ngua. Dirigiu-se ao rei mas os seus olhos � mes�mo o que n�o era lento � permaneceram fixos em mim uma frac��o mais do que deviam e, apenas por um instante, vi algo neles � uma centelha de qualquer coisa, instantaneamente reprimida � que reconheci.</p><p>J� vira essa express�o no rosto de uma mulher duas vezes: uma vez no de Emilia e outra no de Olympe.</p><p>� Eu diria � observou ela �, que � t�o fresco e doce como o beijo de um amante num dia quente de Ver�o� excepto claro, pelo facto de uma rapariga como eu n�o fazer ideia de como ser� tal coisa.</p><p>Algumas pessoas riram-se do atrevimento da sua resposta. O rei bateu palmas.</p><p>� F�lix, a� tem a sua resposta� est� a ser excessivamente cauteloso, como de costume. E <emphasis>la belle Bretone</emphasis> apoderou-se da sua dose de gelo de morango, portanto ficou sem ele.</p><p>� Tamb�m n�o queria, senhor � disse o m�dico com azedume. � Fraco m�dico seria se n�o seguisse pelo menos os meus pr�prios conselhos.</p><p>As damas e cavalheiros da corte estavam agora a juntar-se em volta de Audiger e de mim, a sua avidez ainda maior por saberem que n�o chegaria para todos. Poucos momentos depois o gelo de morango desaparecera. Risos e exclama��es de espanto encheram o ar. As mulheres estavam im�veis, estupefactas, com a boca cheia daquela primeira colherada surpreendente; os homens riam-se das suas damas e depois faziam eles pr�prios caretas n�o menos perplexas. Alguns estavam a tentar fingir que isto n�o era nada de muito especial ou novo para eles � levavam as colheradas de gelo � boca com ar indiferente e um sorrisinho c�nico nos l�bios; mas estes, claro, eram precisamente aqueles cujas gargantas gelavam mais rapidamente e que eram portanto acometidos pelas pontadas na cabe�a. Vi um cortes�o muito fino encolher-se como se tivesse levado um tiro na barriga, de olhos esbugalhados. O sorriso sofisticado na cara de outro transformou-se num riso de alegria infantil, enquanto um terceiro estava mesmo a cantar de espanto.</p><p>� Ent�o? O que vos parece? � estava o rei a perguntar-lhes ansiosamente, e todos se acotovelavam na sua pressa de lhe dizer que era a coisa mais admir�vel que alguma vez tinham provado, que certamente nenhuma outra corte era t�o aben�oada com maravilhas como a corte de Fran�a. Ele acenou, satisfeito; depois, apontando para Audiger e para mim, gritou: � O Grande Demirco! Audiger! Mestres confeiteiros de Fran�a! � A corte aplaudiu com as m�os enluvadas; n�s os dois agradecemos os elogios com v�nias graciosas � esquerda e � direita.</p><p>Eram assim os piqueniques na corte de Lu�s XIV.</p><p>� E <emphasis>milord</emphasis> Buckingham? � disse o rei, virando-se para o ingl�s. � O que lhe parece?</p><p>� Muito refrescante � respondeu o visitante, pousando a colher na ta�a vazia. � Estou certo de que o meu rei ficaria muito grato de saber como � feito.</p><p>� Infelizmente, isso � imposs�vel. Demirco e os seus colegas s�o muito cuidadosos na protec��o dos segredos da sua arte. E h� certas coisas que nem um monarca pode ordenar.</p><p>� Estou certo de que Vossa Majestade pode ordenar tudo o que desejar � respondeu o ingl�s secamente.</p><p>� Estamos a falar ainda do gelo de morango� ou do porto de Dieppe? � Risos. Tive a sensa��o de que at� as partes desta conversa que eu julgava compreender faziam na realidade parte de outra conversa inteiramente diferente, como um jogo de <emphasis>paille maille</emphasis> em que os arcos mais importantes eram os que se erguiam dois metros e meio acima do solo.</p><p>� Al�m disso, voc�s, Ingleses, t�m um gosto algo peculiar em termos de sobremesas. Parece-me que apreciam demasiadamente panquecas � estava o rei a dizer, causando mais risos. Isto, pelo menos, eu conseguia perceber: as panquecas eram um prato holand�s e era contra os Holandeses que os Franceses estavam agora a maquinar, a segunda maior pot�ncia da Europa avan�ando contra a maior, decididos a roubar as terras que os Holandeses tinham roubado ao mar. Ou algo do g�nero. Eu ouvia as conversas pol�ticas que rodopiavam pelo labirinto de cozinhas e copas sob o pal�cio de Versalhes, mas prestava-lhes pouca aten��o.</p><p>� O que me diz, ent�o, Demirco? � Para minha surpresa, o rei estava a olhar directamente para mim. � Fazemos ao rei Carlos de Inglaterra um gelo, algo t�o delicioso que o afastar� das panquecas para sempre? Um prato, talvez, que o recorde de Fran�a e dos muitos anos que esteve exilado aqui, a gozar a nossa hospitalidade, para que n�o se esque�a dos velhos amigos no entusiasmo de se banquetear de novo com tartes e sopas inglesas? � Disse �tartes e sopas� com um sotaque engra�ado e, mais uma vez, os cortes�os riram e bateram palmas.</p><p>� Com certeza, senhor � respondi, sem ter a certeza se Lu�s estava a brincar ou n�o. � Se for esse o desejo de Vossa Majestade. Mas n�o derreteria muito antes de ele poder prov�-lo?</p><p>� Talvez � disse o rei, encolhendo os ombros, e perguntei a mim pr�prio se teria dito alguma coisa errada.</p><p>De s�bito, Audiger encontrou a sua voz.</p><p>� Senhor, seria uma honra fazer um gelo digno de Vossa Majestade apresentar ao rei ingl�s.</p><p>Olhei para ele, perplexo. O que queria dizer? Com certeza n�o pensava que conseguiria criar um gelo melhor do que os meus? Mas era evidente que sim, pelo olhar frio que me lan�ou. Parecia que seria a sua vingan�a contra mim por ter monopolizado a aten��o do rei.</p><p>� Ah! Signor Demirco, parece-me que foi desafiado! � exclamou Lu�s, encantado. � Aceita o desafio?</p><p>Curvei-me.</p><p>� Claro que sim.</p><p>� �ptimo! E teremos tamb�m o Proc�pio e� oh, como se chama o outro confeiteiro? Signor Morelli. Cada um de v�s far� o vosso melhor trabalho e, <emphasis>milord</emphasis> Buckingham, talvez nos d� a honra de ser juiz do nosso pequeno concurso antes de partir?</p><p>� Com todo o gosto. Mas qual ser� o pr�mio?</p><p>Lu�s pensou por um momento.</p><p>� Estes art�fices est�o sempre a pressionar-me para criarem a sua pr�pria corpora��o. Digamos que aquele que criar o melhor gelo ficar� com a presid�ncia da mesma.</p><p>Pelo canto do olho, vi Audiger ficar tenso. Se n�o estiv�ssemos na presen�a real, eu teria certamente suspirado. Nada de bom podia resultar disto.</p><p>� Ent�o � assim que me pagas � sussurrou Audiger enquanto regress�vamos ao pal�cio.</p><p>� O que queres dizer?</p><p>� A tua condescend�ncia para comigo em frente do rei. Quanto � rapariga bret� a ordin�ria, deve ter planeado tudo aquilo.</p><p>� A de cabelo escuro? Mas com certeza que nos fez um favor, n�o? Se n�o fosse ela, ningu�m teria comido o gelo.</p><p>� Ela estava a seguir as ordens de Madame, podes estar certo disso.</p><p>� Porqu�? Quem � ela?</p><p>Audiger agitou a m�o com ar impaciente.</p><p>� Uma das damas de companhia de Madame. Tirando isso, n�o tem grande import�ncia. Contudo, se eu n�o estivesse ali para salvar a honra do rei e aceitar o desafio�</p><p>� O qu�?!</p><p>� Se <emphasis>eu</emphasis> n�o estivesse ali � repetiu Audiger �, o rei teria ficado embara�ado em frente do seu convidado ingl�s. Estou certo de que, s� por isso, ele me declarar� o vencedor.</p><p>� O que lhe vais fazer?</p><p>Audiger fez uma express�o desdenhosa.</p><p>� Ainda n�o sei e n�o te direi quando souber. Algo magnificente. Talvez algo que simbolize o brilho do sol.</p><p>Claro, pensei, com um suspiro: o sol. Era a resposta de todos os cortes�os. Pessoalmente, se eu fosse o rei, j� estaria farto de caixas de rap� com imagens gravadas do sol, espelhos decorados com s�is, j�ias em forma de sol, pinturas embelezadas com o sol, mob�lias com s�is� Mas Lu�s n�o parecia importar-se. Talvez exista algum valor em ter um s�mbolo simples associado a um nome, tal como em Floren�a as tr�s bolas dos M�dicis estavam em todos os pal�cios e igrejas.</p><p>� Talvez possas servir-lhe um gelo que j� tenha derretido � sugeri. � Sabes, para simbolizar o brilho estonteante e quente do sol de Sua Majestade.</p><p>� Um dia � retorquiu Audiger com ar grave �, essa tua l�ngua vai arranjar-te problemas. E desconfio que esse dia chegar� mais depressa do que julgas.</p><p>Veio a revelar-se que, nesse aspecto, ele estava bem enganado. N�o foi a minha l�ngua que me arranjou problemas nesse dia, mas sim os meus olhos, quando pousaram numa certa dama de companhia de cabelo escuro e olhos verdes. Mas n�o voltei a falar dela a Audiger. N�o adiantaria de nada alert�-lo para o meu interesse.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>� preciso mexer o sorvete com um garfo enquanto gela, para suavizar os cristais e soltar o gelo.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Alguns dias mais tarde, dei por mim a caminhar pelo jardim de rosas, imerso em pensamentos. Estava a pensar na competi��o do rei e no que havia de inventar para ela, mas estava tamb�m a pensar no meu futuro.</p><p>Parecia que a minha sociedade com Audiger, que h� j� algum tempo se havia tornado complicada, ia finalmente transformar-se em rivalidade, com a presid�ncia da corpora��o em jogo. Tinha pena � se Audiger n�o me tivesse salvado da corte dos M�dicis, quem sabe quanto tempo teria l� ficado � mas ningu�m pode ser grato para sempre. E, para ser honesto, eu estava chocado por o franc�s achar que me conseguiria vencer na cria��o de um gelo. Sempre partira do princ�pio � n�o, sempre <emphasis>soubera</emphasis> � que, em rela��o a esta parte do nosso trabalho, a minha supremacia era evidente.</p><p>As palavras de Lu�s para o ingl�s tinham indicado que s� via necessidade de ter um fazedor de gelados: tinha simplesmente de me certificar de que seria eu. N�o havia alternativa. Era imperioso que vencesse essa competi��o e que Audiger cedesse perante mim.</p><p>Havia um s�tio para onde ia, �s vezes, quando queria estar sozinho, quando queria escapar � mar� constante de pessoas na corte: um pequeno bosque de nespereiras onde os ramos baixos formavam uma esp�cie de banco escondido. Foi para a� que dirigi os meus passos mas, quando l� cheguei, descobri que, afinal de contas, n�o estava sozinho. Estava uma mulher sentada, a ler, precisamente no lugar onde eu tencionava sentar-me.</p><p>S� quando me aproximei mais percebi quem era. Era a rapariga de olhos verdes, a que provara o meu gelo. Fiquei contente: n�o esperara ter oportunidade de falar com ela t�o cedo.</p><p>� <emphasis>Madame</emphasis> � disse, com uma v�nia �, bom-dia.</p><p>� <emphasis>Mademoiselle</emphasis> � corrigiu-me ela, erguendo brevemente os olhos. � O meu nome � mademoiselle Louise de Keroualle.</p><p>� As minhas desculpas, <emphasis>mademoiselle</emphasis>. E eu sou�</p><p>� O Grande Demirco, fazedor de gelos � interrompeu ela laconicamente. � Sim, eu sei.</p><p>Curvei-me de novo e esperei que dissesse mais qualquer coisa, mas ela j� voltara � sua leitura.</p><p>� Devia agradecer-lhe, <emphasis>mademoiselle</emphasis>, por ter provado o meu gelo no outro dia � disse, por fim. � Se n�o o tivesse feito, estou certo de que aquele m�dico idiota teria persuadido o rei a n�o o comer.</p><p>� Bom, ainda n�o sofri nenhum ataque � disse ela. Virou outra p�gina. � Embora a sua confec��o tivesse de facto alguns efeitos secund�rios indesej�veis.</p><p>� Como assim?</p><p>� Apenas o facto de toda a corte n�o falar de outra coisa sen�o de gelos desde ent�o. Tem sido praticamente imposs�vel fazer seja o que for. Tive de vir para aqui para fugir de si e ler o meu livro em paz. No entanto, aqui est� o senhor, em pessoa.</p><p>Tudo isto foi dito em tom muito casual e, por um momento, perguntei-me se a minha presen�a seria realmente assim t�o indesej�vel para ela. Mas depois lembrei-me da avidez com que devorara o meu gelo de morango e resolvi continuar.</p><p>� E o que faz aqui na corte, <emphasis>mademoiselle</emphasis>? N�o � geralmente um s�tio onde as pessoas leiam livros.</p><p>� Se tem mesmo de saber, estou � espera � disse ela, ap�s uma breve pausa.</p><p>� De quem?</p><p>� Do meu marido.</p><p>� E j� est� � espera h� muito tempo?</p><p>� Mais ou menos tr�s anos. Sabe, � que n�o tenho marido.</p><p>Ligeiramente confuso com esta contradi��o, disse:</p><p>� Seria de pensar que uma jovem t�o bela n�o teria falta de pretendentes.</p><p>Ela n�o reagiu a este dito espirituoso de nenhuma das duas formas que eu esperava; quer isto dizer que n�o corou, como eu esperaria que ela fizesse se lhe agradasse o meu interesse; mas tamb�m n�o ergueu o nariz, como poderia fazer para mostrar que n�o estava receptiva. Em vez disso, limitou-se a suspirar, como se esta fosse uma conversa que j� tivera muitas vezes antes.</p><p>� Tenciona namoriscar comigo? Por favor, n�o o fa�a, signor Demirco. N�o lhe disseram? Sou demasiado pobre para ser digna de tais aten��es.</p><p>� O que quer dizer?</p><p>� Apenas que ningu�m disse aos meus pais que o pre�o de um bom marido nos dias que correm �oh, quase uma d�zia de belos vestidos, uma casa na cidade e uma casa no campo, todas as contas regularizadas com os comerciantes e todas as d�vidas de jogo pagas a tempo e horas. � Falou em tom ligeiro mas pareceu-me que havia agora um brilho de f�ria nos seus olhos. � Assim, hipotecaram as poucas terras que lhes restavam e compraram � filha mais velha um lugar na corte, na esperan�a de que a excel�ncia do seu esp�rito fizesse com que algum cortes�o abastado esquecesse a pobreza da sua fam�lia, e nem se aperceberam do erro que estavam a cometer.</p><p>� Lamento muito.</p><p>� N�o tenha pena de mim, <emphasis>signor</emphasis>. Seja como for, o meu tempo aqui n�o foi, de forma alguma, desperdi�ado. Enquanto estou � espera, posso ser dama de companhia de madame Henrietta.</p><p>Sem ter a certeza de que se tratava de mais ironia, n�o respondi.</p><p>� Oh, Madame � uma pessoa fant�stica � disse ela com s�bita paix�o. � N�o � uma dessas belezas da corte afectadas, que se d�o por felizes em passar os dias a bordar almofadas e a combinar encontros amorosos. � Fechara o livro, apesar de ter deixado o polegar a marcar a p�gina. Olhei para baixo e tive outra surpresa: n�o era um romance que ela estava a ler, mas sim <emphasis>Os Princ�pios da Filosofia</emphasis> de Descartes. � Ela est� a trabalhar por um grande pr�mio diplom�tico� uma alian�a entre o seu irm�o, o rei de Inglaterra, e o seu� � Hesitou. � O seu protector, o rei de Fran�a. Como p�de testemunhar por si pr�prio ontem.</p><p>Abanei a cabe�a.</p><p>� Vi apenas alguns cortes�os sem fazer nada, um jogo de <emphasis>paille maille</emphasis> e algumas dan�as.</p><p>� A dan�a � diplomacia, nesta corte. E atirar poeira para os olhos dos Ingleses, embora seja divertido, nem sempre � t�o f�cil como Madame faz com que pare�a.</p><p>� Poeira?</p><p>� Perdoe-me � disse ela, de s�bito. � Estou a abordar assuntos que n�o devia. � Levantou-se. � Far-me-ia um grande favor, <emphasis>signor</emphasis>, se esquecesse que alguma vez tivemos esta conversa.</p><p>� Esquecer o qu�? � perguntei, confuso. � N�o me disse nada� nada importante, quero eu dizer.</p><p>Ela j� estava a afastar-se, mas fez uma pausa. Mais uma vez, o olho pregui�oso pareceu demorar-se em mim mais um instante do que o outro.</p><p>� Ainda bem que pensa assim � disse, em tom trocista. � Pela minha parte, pensava que estava a revelar-lhe os segredos mais profundos da minha alma.</p><p>Enquanto ela se dirigia ao jardim de rosas, gritei-lhe, por impulso:</p><p>� Talvez nos voltemos a encontrar.</p><p>Ela n�o parou, mas a sua voz flutuou at� mim.</p><p>� Se ambos continuarmos � procura de s�tios para estarmos sozinhos, signor Demirco, pode ter a certeza disso.</p><p>�Esque�a�, dissera ela, mas � para minha surpresa � descobri que n�o conseguia. N�o era a sua apar�ncia, ou pelo menos n�o era apenas isso. A corte francesa estava repleta de mulheres bonitas; na verdade, pelos padr�es da corte, dificilmente se podia dizer que ela <emphasis>fosse</emphasis> uma beleza. Aquele olho pregui�oso, quase vesgo, certamente que devia ser um ponto contra ela, nesse aspecto. N�o, era outra coisa qualquer, algo nos seus modos.</p><p>Em italiano h� uma palavra, <emphasis>stizzoso</emphasis>, que significa uma pessoa melindrosa, insatisfeita, at� mesmo irritadi�a; como um porco-espinho. Entre estas mulheres refinadas e l�nguidas da corte de Versalhes eu encontrara muito poucos porcos-espinhos. Mas Louise de Keroualle era um.</p><p>�Talvez nos voltemos a encontrar�� Que abordagem desajeitada, mas ela n�o me rejeitara completamente. �Pode ter a certeza disso��</p><p>Bom, eu voltara � nespereira meia d�zia de vezes desde ent�o, mas ela n�o estava l�.</p><p>Olympe esperou que acab�ssemos de fazer amor e que estiv�ssemos os dois deitados, cabe�a com p�s, na grande cama nos seus aposentos, antes de dizer:</p><p>� Hoje estavas distra�do.</p><p>Virei-me e beijei-lhe a barriga da perna.</p><p>� Nunca.</p><p>� Quem � ela?</p><p>� O que queres dizer? N�o h� ningu�m al�m de ti.</p><p>� Mentiroso. � Olympe empurrou-me com os p�s e soergueu-se sobre o cotovelo. � Diz-me. Para dizer a verdade, prefiro muito mais intrigas a elogios. Talvez possa ajudar-te a seduzi-la, quem quer que ela seja.</p><p>� H� uma rapariga� � comecei, com alguma relut�ncia.</p><p>� Bom, claro. Quem? Vamos, diz-me.</p><p>� Louise de Keroualle. N�o sei porqu�, mas acho-a muito intrigante.</p><p>� Oh, <emphasis>ela</emphasis>. � Olympe deitou-se de novo. � Esquece-a. N�o a podes ter. Ningu�m pode.</p><p>� Porque n�o?</p><p>� Porque n�o � casada, claro. � Ao ver a minha express�o de incompreens�o, explicou: � A infidelidade numa esposa ou numa amante � toler�vel� na verdade, at� � de esperar, num s�tio destes. Mas uma potencial noiva� particularmente sendo t�o pobre como a pobre Louise de Keroualle� s� tem a seu favor a virgindade. Infelizmente, ela � <emphasis>demasiado</emphasis> pobre para que algum homem nesta corte pense sequer em casar com ela. Assim, ser� virgem para sempre, a menos que os pais se apercebam do seu erro e a coloquem num mercado menos exigente.</p><p>� Falas como se ela fosse uma mercadoria.</p><p>� Claro que sim. N�s, mulheres, somos todas mercadorias. Simplesmente algumas de n�s preferem tratar pessoalmente das negocia��es. Ou emprestar a nossa pessoa de vez em quando. � Espregui�ou-se voluptuosamente. � Seja como for, ela n�o � a rapariga certa para ti. Desaprova que as pessoas se divirtam.</p><p>� Queres dizer que te desaprova a ti?</p><p>� Imagina s� � disse Olympe, sem me responder directamente �, como seria uma mulher dessas na cama? O �nico interesse seria ver se a conseguirias l� deitar. Depois disso� � encolheu os ombros � �t�dio.</p><p>� Provavelmente pensa que a cama serve apenas para dormir e ler.</p><p>Olympe riu-se.</p><p>� Encontrei um livro que gostaria muito que n�s l�ssemos � disse, em tom de provoca��o. � <emphasis>Posturas</emphasis>, de Aretino. A corte anda maluca com ele. Mostra vinte e sete varia��es de posi��o e h� pelo menos quatro que ainda n�o experiment�mos.</p><p>Olhei para o seu corpo nu.</p><p>� Quando voltarei a ver-te?</p><p>� Assim? Depende se tencionas ou n�o fazer alguma coisa em rela��o � rapariga de Keroualle.</p><p>� Disseste que n�o podia t�-la.</p><p>� E n�o podes. � Levantou-se da cama e dirigiu-se � antec�mara, onde o banho a aguardava. � Mas n�o acredito que isso te v� impedir de tentar, pois n�o?</p><p>N�o voltei a ver Louise de Keroualle durante quase uma semana. Os dias estavam agora ainda mais quentes e as damas e cavalheiros da corte inundavam-nos com pedidos constantes de cordiais gelados e licores refrescantes, para n�o mencionar o facto de ter de pensar na competi��o do rei� N�o a vi, mas dei por mim a pensar muito nela e, em resultado, a competi��o do rei recebeu muito menos aten��o do que devia.</p><p>Estava na copa do gelo, a supervisionar o fabrico de um sorvete, quando uma voz de mulher disse:</p><p>� Com licen�a�</p><p>Era ela. Trazia um vestido simples de manga curta, de linho castanho. Vi o frio da copa arrepiar-lhe os bra�os e a pele delicada do pesco�o e, de s�bito, consegui imaginar exactamente como seria aproximar-me, segurar aqueles bra�os aveludados entre as minhas m�os e esfreg�-los at� os aquecer�</p><p>� Mademoiselle de Keroualle � cumprimentei. � A que devo este prazer?</p><p>Talvez tenha falado com algum excesso de entusiasmo; fosse por que motivo fosse, pareceu-me que ela me fitava com ar desconfiado.</p><p>� Se � realmente um prazer, <emphasis>signor</emphasis>, talvez seja uma pessoa demasiado f�cil de agradar.</p><p>Eu n�o ia deixar-me dissuadir pelo eri�ar dos seus espinhos.</p><p>� Se est� a dissecar um cumprimento t�o inocente, talvez seja uma pessoa demasiado f�cil de ofender.</p><p>� Talvez � disse ela, com um suspiro. � Seja como for, foi Madame que me enviou. Ela gostaria de um copo de �gua de chic�ria gelada.</p><p>� Com certeza� eu pr�prio o prepararei. Vai demorar alguns minutos.</p><p>� Posso esperar. � Encostou-se a uma das prateleiras de pedra que cobriam a parede, cruzando os bra�os sobre o peito para n�o arrefecer, enquanto eu come�ava a reunir as coisas de que precisava. De vez em quando olhava para ela, na esperan�a de que os meus sorrisos a encorajassem a fazer o mesmo, mas ela limitava-se a olhar em volta, como se estivesse curiosa sobre aquilo que a rodeava.</p><p>Ao fundo da copa estava uma grande pilha de blocos de gelo, prontos para serem esmagados, esculpidos ou mo�dos.</p><p>� Como s�o belos � disse ela, baixinho.</p><p>� Belos? � Nunca tinha pensado neles dessa maneira. Para mim eram simplesmente tijolos, mat�ria-prima � espera de ser usada, mas <emphasis>eram</emphasis> realmente belos, de certa forma, percebi agora, cada placa t�o �nica como p�rfiro ou m�rmore; algumas l�mpidas como cristal, outras opacas, algumas contendo no seu centro redemoinhos suspensos de brancura gelada, como a �gua que fica turva quando � mexida. A pilha era da altura e comprimento de uma mesa e, � luz fraca da copa, emitia uma esp�cie de brilho frio e prateado.</p><p>� T�o puros � disse ela. � E espantosos, aqui, no pino do Ver�o.</p><p>� Estes vieram directamente das caves do pr�prio rei em Besan�on. N�o h� gelo melhor em Paris. � Olhei para os bra�os dela e vi que os p�los finos estavam de novo arrepiados. � Est� com frio. Deixe-me esfregar�</p><p>� Obrigada � disse ela rapidamente, afastando-se. � Mas n�o � preciso, sinceramente. Tal como o senhor, tamb�m estou habituada ao frio.</p><p>� Sim? Porqu�? � Calcei uma luva de cabedal grosso coberta por uma rede de cota de malha e comecei a raspar gelo para dentro de uma ta�a com movimentos fortes e ritmados.</p><p>� De onde eu venho� a ba�a de Brest� os Invernos s�o muito rigorosos. � Ficou um instante em sil�ncio, como se estivesse a recordar. � At� o mar se enche de gelo. Por vezes, um nevoeiro vem do Mar Alem�o e congela tudo, cada �rvore e folha de relva, tudo fica coberto de cristais min�sculos, como p�los brancos.</p><p>Acenei.</p><p>� J� ouvi falar disso, mas nunca vi nada assim.</p><p>� Para quem est� agasalhado, ou � rico, ou jovem, � muito bonito � disse ela, com uma express�o distante nos olhos enquanto seguia o movimento r�tmico da minha m�o sobre o gelo. � Mas para quem � pobre, ou tem frio, ou fome, pode ser aterrorizador. Todos os anos, quando conseguimos voltar a cavar a terra, enterramos dezenas de pessoas mortas pelo tempo mau. A minha fam�lia estava melhor do que muitas, claro. Sempre tivemos o suficiente para manter a lareira acesa no sal�o grande� um lume de lenha, n�o de carv�o do mar. Mas na sala das crian�as, nos quartos, n�o havia aquecimento nenhum. Costum�vamos desejar a chegada da neve, porque significava que o tempo estava a ficar mais quente. Quando acord�vamos e a grelha estava cheia de neve, vest�amo-nos e corr�amos para a rua, para dan�ar e fazer bonecos de neve. � A express�o dos seus olhos suavizou-se com a mem�ria. � Ou atirar bolas de neve aos irm�os, claro. Mas isso foi antes de eu ser enviada para a corte.</p><p>De s�bito, tive uma imagem desta jovem orgulhosa a dan�ar na neve, a rodopiar e a rir, o cabelo escuro enfeitado com grandes flocos brancos que se transformavam em lantejoulas � medida que derretiam.</p><p>� Em Floren�a, raramente nevava � disse-lhe. � Uma ou duas vezes por ano, talvez. � O gelo estava pronto a usar. Hesitei. � Tenho de lhe pedir que se vire. Esta parte do processo � secreta.</p><p>Ela ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Teme que roube os seus m�todos e me lance sozinha como confeiteira?</p><p>� Claro que n�o. Mas, infelizmente, n�o pode haver excep��es. O pr�prio rei insiste nisso.</p><p>Ela encolheu os ombros e virou costas. Juntei uma colher de salitre ao gelo e depois peguei numa garrafa de gargalo comprido, uma <emphasis>cantimplora</emphasis>, dentro da qual deitei a �gua do cordial. Depois empurrei a garrafa para o meio da mistura de gelo e rodei-a, arrefecendo o conte�do quase at� ao ponto de congelar.</p><p>� Suponho que o mist�rio faz parte do espect�culo � comentou ela, para a parede. � Tal como um ilusionista, tem de fazer com que pare�a mais dif�cil do que � na realidade.</p><p>Por um momento deixei os olhos pousarem nas costas dela � a curva da sua coluna, as suas ancas, a sua postura; parecia um pouco embara�ada, mais um potro do que um cavalo.</p><p>� Pelo contr�rio. S� protegemos aquilo que � necess�rio.</p><p>Coloquei o resto do gelo dentro de uma ta�a e servi o cordial gelado sobre ele. Tinha uma bela cor, pensei, enquanto o erguia contra a luz para o admirar: castanho-claro, quase dourado, com o gelo a cintilar nas suas profundezas.</p><p>� J� pode virar-se.</p><p>Ela assim fez.</p><p>� N�o h� mais? � perguntou.</p><p>� Este n�o � suficiente?</p><p>� Ela vai querer saber se o provei.</p><p>� Porqu�?</p><p>� Tem medo de ser envenenada.</p><p>� Envenenada!</p><p>Mais uma vez, o seu olhar demorou-se no meu rosto, como se estivesse a tentar decidir quanto devia dizer-me. Por fim disse, com ar s�rio:</p><p>� N�o se riria se soubesse os riscos que ela corre. O seu pr�prio marido� � estremeceu. � Bom, n�o importa. Mas ela vai de certeza perguntar se eu provei isto.</p><p>Ainda havia um pouco de cordial na garrafa e despejei-o para outro copo.</p><p>� <emphasis>Prego</emphasis> � disse, entregando-lho. Ocorreu-me um pensamento s�bito. � Foi por isso que comeu o gelo de morango dela? Ent�o n�o foi para me agradar, nem para embara�ar aquele m�dico idiota. Estava a certificar-se de que Madame n�o era envenenada.</p><p>Ela engoliu o cordial de um s� trago, sem tirar os olhos dos meus.</p><p>� Muito bom � disse, devolvendo o copo vazio, e n�o tive a certeza se estava a referir-se ao cordial ou ao meu racioc�nio. Pegou no outro copo e colocou-o numa bandeja.</p><p>� E quando disse que era delicioso como o beijo de um amante num dia quente de Ver�o�</p><p>Ela sorriu.</p><p>� � o tipo de disparate que a corte gosta de ouvir, n�o acha?</p><p>Resmunguei entre dentes.</p><p>� Oh, n�o fique ofendido � disse ela. � Por acaso, o gelo estava bastante agrad�vel. Ambos temos os nossos segredos, <emphasis>signor</emphasis>. Simplesmente os meus s�o um pouco mais s�rios.</p><p>� Como podem os segredos de uma mulher ser s�rios! Os segredos de que modista usar ou de quem ganhou a quem no jogo de cartas!</p><p>� Estou certa de que tem raz�o. � Dirigiu-se � porta, segurando o tabuleiro com ambas as m�os, e parou. � E agora vejo que sou um exemplo t�o fr�gil do meu g�nero que nem sequer consigo abrir esta porta pesada sem usar as m�os.</p><p>Com um suspiro, aproximei-me e abri-lhe a porta.</p><p>� Muito agradecida � disse ela com uma delicadeza trocista. � J� agora, <emphasis>signor</emphasis>, foi um prazer falar consigo. E saiba que eu, ao contr�rio de certas pessoas, n�o sou f�cil de agradar.</p><p>N�o podia falar com Audiger. Portanto procurei Olympe.</p><p>� Sei que me disseste para n�o voltar enquanto estivesse interessado nela � disse, entrando no seu apartamento. � Mas preciso dos teus conselhos.</p><p>Quando lhe contei o que acontecera, apercebi-me de como parecia rid�culo � alguns olhares, uns coment�rios melindrosos, uma conversa sobre uma luta de bolas de neve com os irm�os. Mas Olympe ouviu-me, assentindo de vez em quando.</p><p>� Bom, isso � interessante � disse, quando eu acabei.</p><p>� Ent�o achas que ela gosta de mim? � perguntei, ansioso.</p><p>� Oh, n�o estava a falar da tua grande paix�o, por mais divertida que seja. N�o, referia-me ao namoro de madame Henrietta d�Angleterre com a grande pol�tica. Que � de facto, como Louise observou e bem, um assunto muito s�rio.</p><p>� O que queres dizer?</p><p>Ela suspirou.</p><p>� O teu problema, Carlo, � que pensas que a corte existe apenas para comer os teus gelos. Na verdade, � uma m�quina de guerra, a maior da Europa, e um len�o que caia ao ch�o aqui pode levar � destrui��o de cidades inteiras em Espanha ou na Flandres.</p><p>� Mas o que � que isso tem a ver com Louise de Keroualle?</p><p>� O rei quer que os Ingleses sejam seus aliados numa guerra contra a Holanda � disse Olympe, como se estivesse a falar com um idiota. � Os Ingleses, por si s�, n�o t�m grande peso, claro, mas o seu pa�s tem uma grande costa e essa tem de ser negada aos nossos inimigos.</p><p>� Eu sei. � por isso que o visitante ingl�s est� c�. Para redigir um tratado.</p><p>Olympe abanou a cabe�a.</p><p>� O verdadeiro tratado foi assinado em segredo h� tr�s semanas.</p><p>� N�o compreendo. Como?</p><p>� Quando madame Henrietta foi visitar Carlos a Dover, para celebrar o anivers�rio dele, levou consigo um tratado redigido por ela e assinado por Lu�s� que, por acaso, � tamb�m seu amante � explicou. � Ser� que ele a seduziu apenas para assegurar a sua ajuda? � O encolher de ombros de Olympe sugeria que era bem poss�vel. � Seja como for, o tratado diz que Carlos comprometer� a Inglaterra na guerra contra os Holandeses, em troca de uma pens�o de Lu�s� uma pens�o t�o generosa que Carlos j� n�o ter� de dobrar o joelho perante o parlamento ingl�s que o restaurou no seu cargo.</p><p>� Mas isso n�o � propriamente absurdo, pois n�o? Um parlamento n�o deve ter o direito de interferir nos assuntos de um rei.</p><p>� Claro. Mas ouvi dizer que o tratado obriga tamb�m Carlos a converter-se ao catolicismo. E, se o rei ingl�s for cat�lico, o seu pa�s tamb�m tem de o ser. Na pr�tica, � um tratado que, caso fosse conhecido, comprometeria Carlos a um conflito com o seu pr�prio povo. Da� a necessidade de redigir outra vers�o, mais adequada ao consumo p�blico, sem qualquer refer�ncia a pens�es ou religi�o.</p><p>� Ent�o o duque ingl�s�</p><p>� Est� aqui, para grande divertimento de Lu�s, para negociar condi��es que, na realidade, j� foram decididas. Claro que ele n�o pode ter a m�nima suspeita de tal coisa� tem de acreditar que, gra�as ao seu charme e capacidades de negocia��o, conseguiu garantir exactamente aquilo que lhe disseram para esperar. Levar� o <emphasis>trait� simul�</emphasis> para Inglaterra; o parlamento ratific�-lo-� e ningu�m saber� de mais nada. Era <emphasis>isso</emphasis> que Louise queria dizer quando deixou escapar aquela observa��o sobre atirar poeira aos olhos dos Ingleses.</p><p>Assenti, embora me parecessem extraordin�rias as complexas mentiras dentro de mentiras de que era feita a diplomacia francesa.</p><p>� � bem sabido que este plano tem sido a grande preocupa��o de madame Henrietta desde que o irm�o recuperou o trono � prosseguiu Olympe. � Mas houve v�rios obst�culos� e um dos mais importantes da parte daqueles na nossa corte que se op�em a uma alian�a com protestantes e regicidas. Madame j� sofreu de ataques inexplicados antes e os m�dicos acreditam que foram causados por veneno.</p><p>� N�o fazia ideia.</p><p>� Claro que n�o. Trata-se de quest�es subtis e secretas. � Olympe inclinou-se para a frente, com os olhos a brilharem. � Mas se a pequena Louise de Keroualle, na sua tenra idade, se tornou a agente confidencial de Madame, deve ser muito mais do que a crian�a simples que julguei.</p><p>Recordei aquela voz sard�nica; o olhar inteligente e pregui�oso.</p><p>� N�o h� d�vidas de que n�o � nenhuma simpl�ria.</p><p>Olympe acenou.</p><p>� O que, por sua vez, pode ser um problema para <emphasis>mim</emphasis>.</p><p>� Para ti? Porqu�?</p><p>� Porque espero que o rei regresse um dia � minha cama de forma mais permanente, claro � respondeu ela, simplesmente. � Ele escolheu a sua amante actual entre as damas de companhia de Madame e tenho de ter cuidado para que n�o o fa�a de novo. Talvez esteja na altura de a bonita e esperta mademoiselle de Keroualle regressar � Bretanha. � Olhou para mim. � Quanto ao teu pequeno problema, � f�cil de resolver.</p><p>� �?</p><p>Olympe levantou-se e dirigiu-se ao quarto.</p><p>� Bem sei que disse que n�o far�amos isto por enquanto, mas acho as intrigas estranhamente excitantes. Vem: a tua cura aguarda-te.</p><p>Depois, ela disse:</p><p>� Ent�o� achas que a tua virgenzinha poderia alguma vez ter sido assim t�o divertida?</p><p>Ri-me.</p><p>� Tens toda a raz�o, como sempre. Ela � demasiado mon�tona para mim. N�o perderei mais tempo a pensar nela.</p><p>� N�o sejas t�o precipitado � aconselhou Olympe.</p><p>Algo no seu tom de voz alertou-me.</p><p>� Olympe, o que est�s a maquinar agora?</p><p>� Tive uma ideia � admitiu ela. � Bastante deliciosa� as mi�nhas melhores ideias surgem quando fa�o amor. � muito simples. Em vez de a seduzires, porque n�o casas com ela?</p><p>� Casar com a Louise!</p><p>� Sim. � perfeito, n�o �? Afinal de contas, tens de casar algum dia, e deve ser com algu�m que promova os teus interesses. Tens dinheiro� dinheiro novo, sim, mas uma rapariga na posi��o dela n�o pode ser demasiado esquisita e o tempo est� a esgotar-se; ela j� deve ter pelo menos vinte anos. � de uma boa fam�lia e � evidente que o rei gosta dela. Se a tomasses como esposa, consolidarias a tua pr�pria posi��o.</p><p>Fiquei em sil�ncio durante um momento.</p><p>� E depois?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Assim que a engravidares, instala-la numa casa num local adequadamente remoto. N�o precisa de afectar as tuas outras rela��es. � Pousou a m�o no meu bra�o e acariciou-me distraidamente. � At� pode facilitar as coisas. H� muitas mulheres que preferem ter um caso com um homem casado do que com um solteiro. Terias o melhor dos dois mundos.</p><p>� E serve tamb�m os teus interesses, ao afastar Louise de Keroualle da corte.</p><p>� Claro � foi a resposta dela. � Nunca o teria sugerido de outra forma.</p><p>Pensei no assunto. Era verdade que eu devia casar em breve: era tamb�m verdade que a minha fortuna e o patroc�nio real significavam que podia ter esperan�a de casar com algu�m com boas rela��es. J� subira mais alto do que alguma vez julgara poss�vel mas, com a mulher certa e, esperava eu, a presid�ncia da corpora��o, n�o havia motivos para n�o subir mais ainda.</p><p>� Bom, vou pensar nessa possibilidade � disse. Olympe limitou-se a sorrir enigmaticamente.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer neve: junte meio gal�o de natas espessas e as claras de oito ovos, e bata tudo com uma colher. Depois, pegue num pau e corte a ponta, abrindo-o em quatro varas: perfume a mistura com ess�ncia de bergamota ou �gua de rosas e bata com vigor at� subir.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Em Floren�a, Ahmad contava por vezes hist�rias enquanto trabalh�vamos. Eram sobre muitas coisas, mas sempre, de alguma forma, sobre gelo.</p><p>Uma das hist�rias era sobre os nossos patr�es e um homem que trabalhara para eles cento e cinquenta anos antes. Rezava a hist�ria que, um Inverno, nevara em Floren�a. Os filhos de Piero de M�dicis tentaram fazer um boneco de neve mas, sendo crian�as e sem experi�ncia, os seus esfor�os n�o foram bem-sucedidos. Assim, Piero chamou um dos artistas do seu falecido pai e ordenou-lhe que esculpisse um boneco de neve.</p><p>O jovem tentou explicar que trabalhar com neve n�o era um uso adequado para o seu talento, mas Piero de M�dicis disse-lhe que esperava a obra terminada de manh�.</p><p>Durante toda essa noite gelada, � luz do luar, o artista esculpiu a neve como se fosse um bloco do melhor m�rmore de Carrara, com as m�os enroladas em trapos ensopados e gelados para se proteger do frio.</p><p>De manh�, os pr�ncipes M�dicis correram para o p�tio para ver o que ele fizera. Era, escreveu um contempor�neo, sem d�vida o mais belo boneco de neve que algu�m j� tinha visto. Mas o tempo durante o dia aqueceu e com o tempo mais quente veio a chuva. Em breve n�o restava nada da primeira escultura de Miguel �ngelo a n�o ser uma estalagmite atrofiada, como um dente podre, a �nica coisa branca ainda no p�tio.</p><p>Neste ponto da hist�ria, Ahmad fazia sempre uma pausa.</p><p>� H� pessoas que usam esta hist�ria para ilustrar a efemeridade da beleza e a tirania do tempo, rapaz. Eu encontro nela outro significado. Duas coisas, na verdade. Primeira, quando um M�dicis nos manda saltar, perguntamos a que altura. E segunda� � Os seus olhos pousavam sobre mim com ar pensativo. � E a segunda coisa �, mant�m sempre o teu gelo longe da chuva.</p><p>Fiz um boneco de neve para Louise de Keroualle.</p><p>Provavelmente n�o estava t�o espectacular como o de Miguel �n�gelo, mas, por outro lado, o de Miguel �ngelo n�o era comest�vel.</p><p>Primeiro tinha de fazer a neve. Leite e a��car, aromatizados com �gua de rosas, misturados com claras de ovo e batidos com um batedor. S� depois de a espuma estar t�o leve que flutuava ao cair do batedor � que a gelei, transformando-a em flocos da neve mais pura e delicada.</p><p>Desta, fiz duas bolas para o corpo e a cabe�a, adicionando um chap�u de caramelo duro e um sorriso de laranja cristalizada. Os olhos eram passas secas, o nariz uma cereja conservada em licor. Numa das m�os, o boneco de neve tinha uma vassoura feita de rosmaninho e no peito uma fatia de morango cristalizado, no lugar do cora��o.</p><p>E, finalmente, fiz nevar.</p><p>Esta era uma proeza supostamente inventada pelo grande Buontalenti, que mesmo Ahmad apenas raramente arriscava. Quando uma fina neblina de �gua de rosas era pulverizada sobre uma mistura de gelo e salitre, as got�culas transformavam-se em cristais t�o leves que n�o subiam nem desciam, flutuando no ar como part�culas de folha de ouro cintilante.</p><p>Louise n�o demorou muito a visitar-me � agora, todos os dias havia mais um pedido de �gua de chic�ria gelada para ajudar a digest�o de Madame, e Louise ou uma das outras damas de companhia vinham busc�-la. Esperei at� ela aparecer com o pedido habitual e disse, bruscamente:</p><p>� J� est� preparada.</p><p>Ela ergueu as sobrancelhas e olhou em volta.</p><p>� N�o a vejo.</p><p>� Ali dentro. � Indiquei uma porta com a cabe�a.</p><p>Ela pareceu desconfiada, mas n�o disse nada e entrou. Ouvi-a soltar uma exclama��o abafada e depois sil�ncio.</p><p>Fiquei onde estava. Apercebi-me, de s�bito, de que n�o fazia ideia se ela ia gostar ou n�o.</p><p>Depois algo frio e molhado atingiu-me na cabe�a. Girei sobre mim pr�prio. Apanhei um vislumbre de olhos risonhos antes de uma segunda bola de neve, lan�ada com a outra m�o, me acertar no pesco�o.</p><p>� Signor Demirco� vem ou n�o? � desafiou ela. � N�o posso entrar numa luta de bolas de neve sozinha.</p><p>Segui-a. A desloca��o de ar quando entrei na segunda copa fez a neve ondular � minha volta, cintilando sob a luz de uma vela.</p><p>Ela virou-se, com as m�os j� carregadas, e arremessou outra bola de neve, mas f�-lo cedo de mais e a bola desintegrou-se, inofensiva, no meu casaco. Depois � n�o consegui evitar � dei dois passos e tomei-a nos bra�os; e os seus l�bios � os seus l�bios frescos e p�lidos � sabiam a �gua de rosas e a��car, salpicados com flocos de gelo como se fosse um p�len suave e perfumado.</p><p>Por um longo momento beijei-a e ela retribuiu o beijo � tinha a certeza disso � com a boca quente contra a minha. E depois, com um arquejo repentino, afastou-se de mim com express�o horrorizada.</p><p>� O que est� a fazer? � gritou.</p><p>� Espere � disse. � Louise, deixe-me explicar. Quero�</p><p>Mas ela j� desaparecera. Senti o ar quente entrar pela porta aberta, como �gua do mar a deslizar sobre um banco de areia, e vi a neve a derreter � minha volta, como ouro dos tolos.</p><p>Tentei escrever-lhe uma carta mas a folha de papel era um campo de neve pura que eu apenas arruinei ao cobri-lo com as marcas da minha pena. Assim, em vez disso, mandei-lhe o boneco de neve, numa bandeja transportada por dois lacaios, dirigida a Louise de Keroualle no apartamento de madame Henrietta, duquesa de Orle�es.</p><p>Foi-me devolvido uma hora depois, meio derretido devido � viagem pelo pal�cio.</p><p>Fui v�-la, mas n�o me foi permitida a entrada. Assim, esperei no jardim, perto do pomar de nespereiras, na esperan�a de um vislumbre.</p><p>Por fim vi-a a dirigir-se ao pomar. Tinha algo nas m�os � um xaile, ao que parecia.</p><p>� Louise! � chamei.</p><p>Por um momento ela virou a cabe�a e pareceu-me que hesitava, mas depois apressou o passo e continuou a andar. Perdi-a de vista atr�s de uma sebe e corri para a apanhar. Os jardins nesta parte de Versalhes eram como um labirinto; uma s�rie de p�tios e relvados interligados, todos escondidos uns dos outros. Ela n�o estava no jardim seguinte mas, atrav�s de uma abertura na sebe, vi uma ponta do seu vestido.</p><p>Por fim, quando contornei uma fonte, vi-a.</p><p>� Louise! � chamei de novo, mas percebi ent�o que ela estava a juntar-se a um pequeno grupo. Entre as pessoas ali reunidas estava a sua senhora, madame Henrietta, sentada num banco de pedra. Mesmo a esta dist�ncia, vi como ela parecia fr�gil e curvada. Ao seu lado estava o rei, bem como Buckingham e dois dos ministros do rei.</p><p>� A s�rio, n�o � nada � disse Madame em voz fraca quando Louise lhe p�s o xaile sobre os ombros. � Apenas uma tontura, Vossa Majestade.</p><p>� O ar est� fresco � disse Buckingham. � Talvez prefira que nos retiremos para o interior?</p><p>O rei vira-me.</p><p>� Signor Demirco. Quem procura?</p><p>Apercebi-me de que estava parado a olhar para eles como um idiota.</p><p>� Vossa Majestade� quer dizer, pensei que talvez <emphasis>madame la comptesse</emphasis> gostasse de um cordial. Sei que toma chic�ria gelada, por vezes, para a digest�o.</p><p>Lu�s lan�ou um olhar interrogativo a Madame.</p><p>� Talvez mais tarde � disse ela debilmente. � Pode envi�-lo para os meus aposentos.</p><p>� Signor Demirco? � chamou o rei enquanto eu me retirava.</p><p>� Vossa Majestade?</p><p>� Como vai o gelo para o rei ingl�s? Estamos � espera de algo maravilhoso, como sabe.</p><p>Curvei-me de novo.</p><p>� Ainda n�o pensei em nada adequado, senhor.</p><p>Uma express�o levemente surpreendida surgiu no rosto do rei.</p><p>� Bom, n�o espere demasiado tempo.</p><p>Virou-se para os outros e, enquanto me afastava, com as orelhas a arder, apanhei as palavras:</p><p>� Italiano� n�o � de fiar� mas muito inventivo: ver�, <emphasis>milord</emphasis> duque, ver�.</p><p>Esperei at� os ver regressar ao pal�cio. O rei ia a apontar para os lados, sem d�vida a explicar ao ingl�s os seus planos para alargar ainda mais os magn�ficos jardins. Louise caminhava um pouco mais atr�s. Aproveitando a oportunidade, aproximei-me dela.</p><p>� Preciso de falar consigo.</p><p>Ela desviou os olhos para o rei.</p><p>� N�o acha que j� o ofendeu o suficiente por um dia?</p><p>Olhei para o rei, que tra�ava com a m�o fontes imagin�rias no ar.</p><p>� Disse-lhe apenas que ainda n�o tinha feito o gelo. Como � que isso � ofensivo?</p><p>� Deu a entender, em frente de um visitante estrangeiro, que andar atr�s de uma dama de companhia assume preced�ncia sobre uma ordem real. Pode ser uma ofensa ligeira, mas garanto-lhe que ele n�o a esquecer� se assim o entender.</p><p>� N�o andava atr�s de si.</p><p>� Fico contente por saber disso. Obviamente devia ter outro motivo urgente para correr na minha direc��o.</p><p>� Vim dizer-lhe que a amo.</p><p>Ela estacou abruptamente. Depois, de rosto tenso, recome�ou a andar na direc��o do pal�cio.</p><p>� N�o fa�a pouco de mim.</p><p>� Louise, n�o estou a brincar. Os meus sentimentos s�o totalmente genu�nos.</p><p>� Ent�o a Olympe de Soissons expulsou-o da sua cama? � Viu a minha express�o de surpresa. � Oh, julgava que ningu�m sabia disso? Estamos na corte, <emphasis>signor</emphasis>. Os segredos s�o tudo o que as pessoas t�m para falar.</p><p>Fiz um gesto.</p><p>� Ela n�o significa nada para mim. Uma divers�o, apenas isso.</p><p>� Enquanto eu, claro, seria muito mais. � Disse-o em tom sard�nico mas abrandou um pouco o passo. � Por favor, compreenda: n�o pretendo ser indelicada em rela��o aos seus sentimentos. Por�m, quando vim para a corte, cometi um erro idiota. Deixei que o meu nome fosse associado ao de um homem� um homem de nascimento nobre, na realidade, mas que esteve envolvido em alguns esc�ndalos. Ningu�m o criticou a <emphasis>ele</emphasis> por isso, claro; mas viram-me com ele e presumiram que eu estava a comportar-me como essas outras mulheres e a minha reputa��o ficou manchada. Se n�o fosse Madame, teria ca�do em desgra�a e ver-me-ia for�ada a deixar a corte. N�o voltarei a cometer o mesmo erro.</p><p>� Nem eu o desejaria. Pretendo casar consigo, Louise.</p><p>Ela parou de novo, de olhos muito abertos.</p><p>� Tenho o favor do rei; a minha posi��o est� segura � prossegui rapidamente. � E t�-la ao meu lado seria uma vantagem para mim: compreende os meandros da corte� � Calei-me, silenciado pela express�o nos olhos dela.</p><p>� <emphasis>O qu�?</emphasis> � perguntou, incr�dula.</p><p>� Quero casar consigo � repeti.</p><p>Por um momento, ela fitou-me como se estivesse louco.</p><p>� Eu sou Louise Renee de Penac�et, dama de Keroualle, a filha mais velha da fam�lia mais antiga da Bretanha � disse, em tom lento e deliberado. � A nossa linhagem remonta �s Cruzadas.</p><p>� E ent�o? Disse-me que os seus pais a tinham enviado para a corte para arranjar um marido�</p><p>� Mandaram-me para a corte para arranjar um <emphasis>duque</emphasis>. Ou, no m�nimo, o irm�o mais novo de um duque. � Abanou a cabe�a, como se n�o quisesse acreditar que isto estava a acontecer. � Por favor, compreenda uma coisa, <emphasis>signor</emphasis>: n�o tenho nada contra si, pessoalmente. Se fosse de fam�lia nobre, estou certa de que o meu pai fecharia os olhos ao facto de o senhor ser um libertino italiano fr�volo e hedonista, que n�o tem actividade mais digna para passar o tempo do que produzir guloseimas para cortes�os glut�es� quando n�o est� a seduzir damas de companhia, claro est�. Mas, a menos que seja um M�dicis ou um Mazarin, receio que dificilmente ele ter� uma vis�o t�o condescendente.</p><p>Agora furioso, disse-lhe:</p><p>� N�o sei quem eram os meus pais. Apenas que eram pobres e me deixaram para tra�ar o meu pr�prio caminho neste mundo.</p><p>Ela suspirou e pareceu-me que falava em tom um pouco menos mordaz.</p><p>� Bom, lamento muito. Mas sabe, ter liberdade de tra�ar o seu pr�prio caminho pode ser uma b�n��o.</p><p>Percebi o que ela queria dizer.</p><p>� Ent�o n�o quer na realidade casar com um nobre�</p><p>� N�o tenho escolha � interrompeu ela. � N�o partilho ne�cessariamente a obsess�o dos meus pais com linhagem e nobreza. Mas s�o os meus pais e tenho de aceder aos seus desejos. � o meu dever.</p><p>� Ent�o, nada de casamento � disse, obstinadamente. � Muito bem. Mas isso n�o significa�</p><p>� Oh, n�o � cortou-me ela a palavra. � N�o pense nem por um momento que sou como a sua amiga Olympe.</p><p>� N�o pretendia sugerir que fosse � murmurei.</p><p>Mas Louise estava a olhar para mim como se lhe tivesse ocorrido subitamente uma ideia.</p><p>� Foi <emphasis>ela</emphasis> que o convenceu a fazer isto?</p><p>A resposta devia estar escrita no meu rosto, porque ela n�o esperou que eu abrisse a boca para acrescentar:</p><p>� Claro. Maravilhoso. Isto � a ideia que ela faz de uma piada, n�o �?</p><p>� N�o � protestei.</p><p>� N�o? Provocar-me em rela��o � minha situa��o delicada � precisamente o tipo de coisa que ela acharia divertida. � Sorriu, tristemente. � Suponho que estou a pagar por aquilo que penso dela e de outras como ela. Bom, pode congratular-se, <emphasis>signor</emphasis>. Logo � noite, esta sua partida j� ser� a divers�o de toda a corte.</p><p>� Espere � chamei, enquanto ela virava costas. � Espere. Louise� eu n�o estava a brincar. Quer dizer, a ideia pode ter sido da Olympe, mas�</p><p>Era tarde de mais. Louise desapareceu dentro de casa. Mas n�o antes de eu ver l�grimas naqueles olhos verdes.</p><p>*</p><p>Voltei ao pal�cio onde, quase de imediato, encontrei Olympe. Era evidente que estivera a observar de uma das janelas que davam para os jardins.</p><p>� Ent�o? � perguntou.</p><p>� Ela recusou � respondi, secamente.</p><p>� A s�rio? � O rosto de Olympe era o retrato da inoc�ncia. � Por algum motivo em particular?</p><p>� Disse que casar com um confeiteiro italiano sem ber�o nobre era impens�vel.</p><p>Olympe acenou com express�o s�ria, mas havia um brilho divertido nos seus olhos.</p><p>� Ela por acaso mencionou a sua linhagem nobre? A fam�lia mais antiga da Bretanha? Falou� � arregalou muito os olhos � �nas Cruzadas?</p><p>� Sim � confirmei. � Tamb�m perguntou se foste tu que me convenceste a fazer isto. Ao que parece, a nossa associa��o � bem conhecida.</p><p>Olympe fechou os olhos e os seus ombros tremeram.</p><p>� Impag�vel! � conseguiu arquejar. � Impag�vel!</p><p>� Ainda bem que achaste gra�a.</p><p>� Oh, Carlo, n�o fiques assim � disse ela, limpando os olhos. � Tens de ver o lado engra�ado� ela deve ter ficado <emphasis>furiosa</emphasis>; � bem feita, por ser uma <emphasis>prudefemme</emphasis> t�o virtuosa.</p><p>Ri-me, mas sem grande vontade; embora n�o houvesse d�vida de que Louise de Keroualle se revelara excessivamente orgulhosa e totalmente desprovida da frivolidade que tanto animava a nossa vida na corte, n�o pude deixar de sentir que n�o sa�ra deste epis�dio com muito boa imagem.</p><p>� Parece que me enganaste bem � disse-lhe.</p><p>Olympe sorriu.</p><p>� Tu � que te enganaste a ti pr�prio. <emphasis>Eu</emphasis> fiz-te um favor. Corrias o perigo de deixares as tuas emo��es atrapalharem os teus prazeres. �s vezes, � preciso recuar um pouco.</p><p>� Claro � disse. � Obrigado.</p><p>N�o valia a pena discutir mais com Olympe, e ela estava certa, claro: eu <emphasis>tinha</emphasis> permitido que os meus sentimentos me toldassem o julgamento. Mas n�o podia deixar de pensar em como me sentiria diferente neste momento se a resposta de Louise ao meu pedido tivesse sido �sim�.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Naquele dia fat�dico, atrasei-me um pouco a voltar ao apartamento de Madame. Houvera um incidente com um dos confeiteiros do rei, um assunto de pouca consequ�ncia por si s� mas algo perturbador, como essas coisas podem ser por vezes. O mais aborrecido, contudo, foi que me atrasou e, enquanto subia apressadamente os degraus para o apartamento de Madame, percebi que estava sem f�lego.</p><p>Depois, quando entrei, vi aquela nobre dama a chorar e todos os pensamentos sobre o confeiteiro se evaporaram da minha mente.</p><p>� O que se passa, Madame? � perguntei.</p><p>Ela ficou sobressaltada ao ver-me.</p><p>� Apenas uma carta abjecta. � Por um momento, pensei que n�o diria mais nada, mas depois acrescentou: � Do meu marido.</p><p>Mantive a voz nivelada.</p><p>� Espero que <emphasis>monsieur le compte</emphasis> esteja bem.</p><p>Madame sorriu tristemente.</p><p>� Suficientemente bem para me dizer que sou uma traidora e uma meretriz; que lhe chegaram aos ouvidos mais rumores sobre mim e uma certa pessoa da corte e que devo deix�-la imediatamente e ir ter com ele a Mil�o, para que possa mais uma vez tentar colocar um herdeiro em mim. � Falou em tom ligeiro, mas claro que percebi a afli��o na sua voz.</p><p>Devo agora descrever este modelo de perfei��o, essencialmente pelo prazer de o fazer e n�o por qualquer necessidade de a fixar na minha mente (pois o seu retrato � t�o bem conhecido aqui em Inglaterra como em Fran�a e, seja como for, n�o se passa um dia em que n�o pense nela). Era de constitui��o delicada � t�o delicada que as roupas quase lhe ca�am do corpo. Apenas eu e algumas outras sabiam a quantidade de enchimento que colocava sob os seus vestidos da corte, ou como a sua pele era t�o branca que, em certos s�tios, se conseguiam ver as veias azuis muito abaixo da superf�cie. No entanto, quando olh�vamos para ela, n�o repar�vamos na sua fragilidade, t�o radiante era a sua express�o, t�o intensa a bondade dos seus olhos; e quando falava da sua grande preocupa��o � o plano para unir os seus dois mais queridos amigos, o seu irm�o Carlos e o seu protector Lu�s, numa alian�a pol�tica que formaria a base para um grande imp�rio europeu de paz e prosperidade � os seus olhos pareciam arder com convic��o; uma convic��o que, juntamente com as suas muitas qualidades agrad�veis e o seu charme, fora essencial no sucesso consider�vel da sua diplomacia at� ent�o. No entanto, n�o estava certamente em condi��es de dar um herdeiro a ningu�m, mesmo que o marido conseguisse deixar de sodomizar os seus amantes do sexo masculino o tempo suficiente para a engravidar.</p><p>� E tenciona ir? � perguntei.</p><p>� Como posso? O <emphasis>trait� simul�</emphasis> ainda n�o foi assinado. Enquan�to isso n�o acontecer, o <emphasis>trait� secrete</emphasis> n�o est� seguro, nem, com ele, o trono do meu irm�o. � Pegou noutro envelope. � Recebi tamb�m uma carta dele.</p><p>� Do rei Carlos? Posso ver?</p><p>� Claro. � Madame sorriu do meu entusiasmo. � Na verdade, pode l�-la em voz alta. Um trago de cordial doce para limpar o gosto amargo das palavras do meu marido. � Estendeu-me a carta.</p><p>Consciente de que o meu ingl�s n�o era t�o puro como o de Madame, li lentamente:</p><p>� �Minha querida Minette��</p><p>� Minette! Ele ainda pensa que sou uma crian�a � comentou Madame com um sorriso no rosto.</p><p>� �Primeiro tenho de a repreender, pois na sua �ltima carta dirigiu-se novamente a mim como Vossa Majestade, n�o apenas uma, mas uma d�zia de vezes. N�o me trate com tanta cerim�nia, nem se dirija a mim com tantos majestades, j� que entre n�s os dois n�o devia haver outra coisa a n�o ser afecto�� � Fiz uma pausa. � As palavras dele s�o t�o bondosas.</p><p>� � o homem mais bondoso do mundo � disse Madame, simplesmente.</p><p>� Fiquei sem d�vida com essa impress�o o m�s passado, em Dover. � A assinatura do tratado, o <emphasis>trait� secrete</emphasis> como era chamado, fora feita sob o pretexto de celebrar o anivers�rio de Carlos. Durante duas semanas, o cortejo real, do qual tive a honra de fazer parte, velejara, fizera piqueniques, assistira a pe�as e participara em bailes. Quando o navio de Madame finalmente nos trouxe de l�, Carlos ordenou ao seu pr�prio iate que nos seguisse quase at� � costa de Fran�a, para poder abra�ar a irm� uma �ltima vez, com os olhos cheios de l�grimas.</p><p>Madame sorriu perante a mem�ria.</p><p>� Creio que foram as semanas mais felizes da minha vida.</p><p>� Como s�o diferentes as duas cartas � comentei, em tom neutro.</p><p>� � dif�cil, para o meu marido � disse Madame. N�o conseguia falar mal de ningu�m durante muito tempo, nem mesmo dele. Levou a m�o � barriga e fez uma careta.</p><p>� Sente-se bem? � perguntei.</p><p>� Um bocadinho indisposta. Importa-se de me ir buscar uma chic�ria gelada? O abade Bossuet chegar� em breve e temo que se demore. Quer discutir os preparativos para a convers�o do meu irm�o.</p><p>� Pensei que a altura ainda n�o tinha sido decidida.</p><p>Madame sorriu.</p><p>� O meu irm�o � um homem bondoso e encantador, mas est� t�o frequentemente rodeado por pessoas que o cobrem de exig�ncias que tem tend�ncia para adiar as coisas. Receio que, se n�o o obrigar a cumprir a sua promessa imediatamente, acabe por se esquecer dela. � Esta observa��o, a prop�sito, era t�pica dela. Tinha uma grande capacidade para acreditar no melhor das pessoas, mas tamb�m para ver claramente as suas fraquezas e fazer disposi��es levando isso em conta.</p><p>� Claro. E gostaria que redigisse o rascunho de uma resposta para o seu marido? Algo delicado, que n�o a comprometa com nada?</p><p>� Obrigada.</p><p>Dirigi-me � pequena divis�o que Madame usava como escrit�rio e encontrei material de escrita. Mandei uma criada buscar a chic�ria. Seria melhor, decidi, manter-me afastada do confeiteiro italiano, pelo menos durante uns dias, at� esta sua paixoneta passar. N�o era a primeira vez que um homem me declarava o seu amor e supunha que n�o seria a �ltima, mas j� tinha reparado que, apesar de todo o sofrimento que juravam estar a sentir, regra geral, encontravam algu�m para os consolar uma ou duas semanas depois. Por vezes tinha pena destes homens, se fossem sinceros; ou ficava furiosa, se n�o fossem; mas raramente experimentava algum sentimento de culpa pessoal, uma vez que h� muito tempo que chegara � conclus�o de que eram o meu rosto e a minha figura, esses acidentes de nascimento, a causa destas declara��es ardentes, e n�o algo que eu pr�pria pudesse ter feito � tal como n�o passava de um acidente de nascimento o facto de eu ter nascido numa fam�lia em tempos importante mas agora na mis�ria, o que parecia ter-me condenado a uma vida de celibato. N�o que tivesse grande vontade de me colocar �s ordens de um marido, claro, mas enquanto n�o casasse n�o possu�a qualquer estatuto, era alvo de rid�culo na corte e toda a minha vida dependia dos caprichos de terceiros.</p><p>Assim, resolvi n�o pensar mais no signor Demirco. Apesar disso, n�o consegui deixar de estar atenta � janela, � espera de o ver trazer a �gua de chic�ria gelada a Madame. Dei por mim surpreendida, e um pouco desapontada, quando foi entregue por um dos lacaios do pal�cio.</p><p>Havia tantas cartas para escrever � cartas de agradecimento ao embaixador franc�s em Inglaterra; cartas para nobres que tinham sido nossos anfitri�es nos v�rios castelos em volta de Dover; tudo o que fosse poss�vel para deixar uma impress�o favor�vel da nossa visita, de modo a que uma alian�a com Fran�a � o Grande Neg�cio, como lhe cham�vamos � reunisse, assim que fosse finalmente tornada p�blica, o apoio de que necessitava. Ouvi murm�rios de vozes quando o abade chegou, mas n�o me juntei a eles. Madame chamaria se precisasse de mim e a correspond�ncia era mais urgente.</p><p>Mais murm�rios, quando outros a visitaram. Olhei para o pequeno rel�gio na secret�ria, um presente do rei ingl�s para a sua irm�. Era quase hora do jogo de cartas, o �nico v�cio de Madame.</p><p>De s�bito uma voz de homem gritou � um grito de horror. Ouvi um estrondo e o que me pareceu mob�lia a ser arrastada. Corri para o sal�o.</p><p>O abade estava a deitar Madame num div� cujas almofadas tinham sido apressadamente desviadas. As cartas de jogar estavam espalhadas pelo ch�o e a mesinha de jogo ca�da de lado. V�rias senhoras da corte estavam de p� no meio da sala, como ovelhas assustadas.</p><p>Ao ver-me, o abade gritou:</p><p>� V� buscar um m�dico, rapariga. Depressa. Pode ser veneno ou um ataque� ela bebeu aquele cordial mesmo antes de desfalecer.</p><p>Os meus olhos voaram para a garrafa de �gua de chic�ria gelada.</p><p>� Veneno? � repeti, estupidamente.</p><p>� Um m�dico, depressa � repetiu ele. � Ela tem de ser purgada.</p><p>� Vou mandar um lacaio. Ser� mais r�pido. � Dirigi-me � porta e ordenei ao homem que estava do outro lado que fosse buscar o m�dico. Depois virei-me para a sala. O abade estava a rezar sobre o corpo de Madame.</p><p>� Temos de alargar as suas roupas � disse, interrompendo-o. � Ajude-me a levant�-la.</p><p>As mulheres reunidas no meio da sala soltaram mais exclama��es abafadas quando erguemos o corpo inerte de Madame para eu abrir o seu espartilho. Assim que o alarguei ela tossiu, expelindo um co�gulo de mat�ria acastanhada para o colo, e gritou de dor. Parecia que estava a tentar encolher as pernas. A sua respira��o era superficial e a pele do seu pesco�o estava suada e peganhenta. Vi, tamb�m, que tinha o ventre estranhamente inchado, quase como se estivesse gr�vida, embora eu fosse capaz de jurar que n�o estava t�o proeminente poucas horas antes. Estava claramente a sofrer. Se o m�dico lhe desse um purgante, o esfor�o de vomitar iria com certeza mat�-la.</p><p>Ouvi uma das mulheres repetir:</p><p>� Veneno! Pod�amos ter morrido todos.</p><p>Outra disse:</p><p>� O m�dico avisou-nos para n�o bebermos bebidas geladas�</p><p>Peguei na �gua de chic�ria.</p><p>� Ela n�o foi envenenada. Nem isto podia ter sido causado por um bocadinho de gelo. Vejam. � Sem pensar nas poss�veis consequ�ncias, levei o copo aos l�bios e bebi. As mulheres sustiveram a respira��o em un�ssono, algo que teria sido c�mico se n�o fossem as circunst�ncias.</p><p>Pousei o copo vazio.</p><p>� Se eu desfalecer, podem purgar-nos a ambas. Caso contr�rio, � porque se trata de outra coisa.</p><p>O m�dico entrou apressadamente na sala.</p><p>� Onde est� ela?</p><p>Mostrei-lhe. Ele ajoelhou-se ao lado de Madame, avaliando a situa��o, e depois carregou levemente na sua barriga. Madame gritou � um som hediondo de cortar o cora��o.</p><p>� Ela est� doente h� meses � disse-lhe eu �, com v�mitos e febres. Bebeu um pouco de �gua de chic�ria mas estou certa de que o fez porque j� sentia a aproxima��o do ataque� diz que lhe alivia as dores.</p><p>O m�dico levantou-se.</p><p>� Dev�amos p�-la confort�vel � disse, pouco � vontade.</p><p>� Como assim, confort�vel? O que vai fazer? � inquiri.</p><p>� N�o h� nada que eu possa fazer. � O m�dico olhou para o abade, com ar impotente. � Padre, as suas ora��es ser�o agora mais �teis do que a minha medicina.</p><p>O abade caiu de joelhos ao lado do div�.</p><p>� Acredita em Deus? � perguntou baixinho a Madame. Eram as primeiras palavras do <emphasis>viaticum</emphasis>, a extrema-un��o.</p><p>Madame abriu os olhos.</p><p>� Com todo o cora��o � murmurou.</p><p>� Esperem! � gritei, desesperada. � Deve haver alguma coisa que possa fazer.</p><p>� Louise. � Era Madame, a murmurar o meu nome com esfor�o. Tamb�m eu ca� de joelhos ao lado dela.</p><p>� Ser� � Madame fechou os olhos quando uma s�rie de espasmos violentos lhe agitou o corpo fr�gil. � Estou preparada. Mas tem de se certificar� de que o meu irm�o�</p><p>Toquei-lhe levemente no pulso, que estava tamb�m h�mido e frio.</p><p>� Eu garantirei o tratado. Prometo.</p><p>� Certifique-se de que ele morre cat�lico. � Abriu novamente os olhos, por breves instantes, e fixou-os em mim com express�o urgente, como que para garantir que eu compreendia que isso era o mais importante. � Certifique-se.</p><p>Foram as �ltimas palavras que pronunciou.</p><p>Morreu uma intermin�vel hora depois, em agonia � tamanha agonia. Tal como era costume, toda a corte se reuniu para a ver morrer. Enquanto os que estavam mais perto dela choravam, os que se encontravam mais ao fundo da sala � principalmente os homossexuais preferidos do seu marido, que nunca tinham gostado dela � continuaram a trocar mexericos e a fazer intrigas, t�o naturalmente como se estivessem a assistir a um bailado. S� quando o pr�prio rei apareceu e se veio ajoelhar � cabeceira da cunhada � que a atmosfera se tornou mais digna. Os mesmos cortes�os que minutos antes trocavam piadas e riam, competiam agora entre si para chorarem com tanta tristeza como o seu monarca.</p><p>Depois de o corpo dela ser levado, Lu�s, de olhos sombrios, chamou-me aos seus aposentos privados.</p><p>� Foi veneno? � quis saber.</p><p>� Vossa Majestade, creio que n�o. Eu pr�pria bebi do copo de �gua de chic�ria dela, depois, e n�o sofri quaisquer efeitos nocivos.</p><p>� Bom, talvez os m�dicos possam dizer-nos mais amanh�. � Suspirou. � Obrigado, Louise.</p><p>Apesar do que eu dissera, os rumores recusaram-se a desaparecer. Era do conhecimento comum que Madame temia ser envenenada e que estava em conflito com o marido. Aqueles que sabiam que ela estivera envolvida em trabalho diplom�tico contra os Holandeses estavam ainda mais inclinados para acreditar em crime.</p><p>Pela minha parte, a morte dela deixou-me devastada. N�o s� perdera a mulher que idolatrava � a pessoa mais bondosa, inteligente e doce do mundo � como perdera tamb�m a minha patroa, a minha protectora e o meu lugar na corte. O projecto para o qual tanto trabalh�ramos estava tamb�m arruinado, pois os rumores rapidamente chegaram � corte inglesa: as not�cias da dor terr�vel de Carlos e das suas pr�prias suspeitas chegaram at� n�s pelos mesmos meios. Tamb�m n�o ajudou nada quando o abade Bossuet, que pregou na sua cerim�nia f�nebre, disse que ela fora �assassinada�.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer um sorvete de p�ras: use doze p�ras, descascadas e partidas, t�o maduras que as fatias escorreguem nas suas m�os. Fa�a uma polpa e passe-a por um coador fino; ferva em lume brando com o sumo de um lim�o e uma ch�vena de a��car, depois congele, mexendo da forma habitual. Se adicionar <emphasis>cr�me anglaise</emphasis>, ter� um gelo de creme em vez de um <emphasis>sorbetto</emphasis>.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Depois do epis�dio com Louise, isolei-me durante uns dias. Por algum motivo, sentia-me um pouco consumido por aquele marasmo obstinado da alma a que os m�dicos chamam melancolia.</p><p>Passei esse tempo atarefado com a incumb�ncia, h� muito adiada, de fazer um gelo para o visitante ingl�s. Eu negligenciara este processo de forma escandalosa. Dizia-se que a delega��o inglesa partiria dentro de uma semana: o rei podia exigir que o concurso fosse julgado a qualquer momento.</p><p>Desinteressadamente, comecei a reunir ingredientes. O que era preciso? Algo extravagante, claro; algo que demonstrasse o meu dom�nio da arte e o esplendor da corte francesa.</p><p>Os corredores de Versalhes estavam decorados com pinturas elaboradas: cada candelabro era sustentado por querubins dourados. Comecei a esculpir um querubim de gelo, com uma travessa congelada na m�o onde colocaria � o qu�? Uma cornuc�pia, talvez, a derramar frutos. No meu tempo na corte j� fizera moldes de madeira que me permitiam construir gelos em forma de cerejas, p�ras e ma��s. Agora adicionei uma meloa, um p�ssego perfeitamente cor-de-rosa e um cacho de uvas douradas e transl�cidas, salpicadas com a��car de confeiteiro em p� para representar o p�len fino e p�lido da vinha. Decorei tudo com folhas de parra feitas de biscoito e a��car trabalhado.</p><p>Quando terminei, olhei para o meu trabalho e odiei-o.</p><p>Era magnificente e n�o significava nada � uma travessa de pompa in�til, um exemplo perfeito de exibi��o oca e grandiloqu�ncia que eu seria capaz de ter feito de olhos fechados. At� Audiger conseguiria faz�-lo.</p><p>Ouvi a voz de Louise de Keroualle na cabe�a. <emphasis>Um libertino fr�volo e hedonista, que n�o tem actividade mais digna para passar o tempo do que produzir guloseimas para cortes�os glut�es�</emphasis></p><p>N�o era verdade, e ia prov�-lo.</p><p>Peguei no querubim e na sua bandeja e arremessei-os ao ch�o. O gelo despeda�ou-se em volta dos meus p�s; frutos de imita��o rebolaram at� aos extremos mais distantes da copa. Pisei com as botas aqueles que estavam ao meu alcance, esmagando-os, e pontapeei os peda�os. Depois comecei a andar de um lado para o outro.</p><p>Passei um dia e uma noite inteiros a pensar, a pegar em ingredientes apenas para os arrumar de novo. Sabia aquilo que n�o queria fazer: quanto ao que <emphasis>queria</emphasis> fazer, era mais complicado.</p><p>Olhei para os meus blocos de gelo. <emphasis>Como s�o belos.</emphasis> N�o, pensei: n�o s�o belos, s�o implac�veis. N�o perdoam nada.</p><p>Qual era o gelo mais simples, mais ridiculamente b�sico que podia fazer para agradar ao rei?</p><p>P�ras. Lu�s adorava p�ras.</p><p>Portanto � faria um gelo de p�ra. Mas seria o melhor gelo de p�ra que alguma vez fora feito, por mim ou por qualquer outra pessoa.</p><p>Usei apenas Rousselet de Reims, a variedade preferida do rei, perfeitamente amadurecidas esse m�s. Primeiro assei-as com um pouco de tomilho e vinho doce, muito suavemente, para ado�ar a polpa. Depois fi-las em pur�, juntamente com raspa de um lim�o e uma pequena dose de agra�o.</p><p>Juntei tamb�m algum sal. Sal, lim�o, agra�o � eram elementos que n�o se notariam no gelo terminado, mas que eu sabia que intensificariam o sabor das p�ras quando explodisse da colher para a boca. Tinha o meu sorvete � pelo menos, os princ�pios.</p><p>Depois, num momento de inspira��o, acrescentei um pouco de <emphasis>cr�me anglaise</emphasis>.</p><p>Inicialmente, estava a pensar apenas em como este o tornaria mais ingl�s, claro. No entanto, assim que o provei, percebi que a riqueza suave e quente do creme, salpicado com sementinhas de baunilha preta, era o acompanhamento perfeito para a acidez perfumada da fruta.</p><p>Recuei, estupefacto. Vi imediatamente o que fizera: criara uma <emphasis>combination</emphasis>, uma alian�a de sabores, em que o todo era maior do que a soma das partes. Juntos, a p�ra francesa e o creme ingl�s eram um prato, melhor do que qualquer uma das coisas por si s�. Congelados juntos, numa esp�cie de gelo de creme, simbolizariam a rela��o especial entre os dois pa�ses, unidos num todo indivis�vel. E � o melhor de tudo � era simples; t�o simples que at� um idiota como eu n�o poderia deixar de perceber a mensagem.</p><p>Impaciente, esperei que a mistura congelasse, mexendo-a de meia em meia hora, como de costume. De cada vez que tirava a tampa da <emphasis>sabotiere</emphasis> e rodava a p� � volta do balde de estanho, reparava como eram finos e claros os flocos de gelo. E a sensa��o era diferente, tamb�m. Em vez da sensa��o granulosa e arenosa de gelo esmagado, havia apenas uma firmeza suave e luxuriante, como se estivesse a mexer uma pasta rica e pesada.</p><p>Por fim, ficou pronto. Na minha impaci�ncia, nem sequer o pus numa ta�a e provei-o directamente do balde.</p><p>Era extraordin�rio. N�o s� o sabor, mas a textura. De alguma forma, eu conseguira fazer um gelo t�o espesso, t�o cremoso e suave que era como se um <emphasis>macaroon</emphasis> se dissolvesse na minha boca. N�o tinha gr�nulos de gelo, nenhuma aspereza: apenas a viscosidade oleosa e suave do creme a cobrir-me a l�ngua enquanto derretia, deixando para tr�s a acidez doce da p�ra e a riqueza quente do <emphasis>cr�me anglaise</emphasis>.</p><p>Finalmente, fizera um gelo como o qual Ahmad podia apenas sonhar.</p><p>A �nica coisa que me estava a confundir era n�o ter percebido, de imediato, o que fizera para tornar este gelo t�o diferente. N�o importava: podia estudar esse assunto mais tarde. Para j�, queria apenas testar o meu gelo em algu�m. Precisava de um cen�rio digno, claro: tinha estado a guardar uma preciosa ta�a de vidro veneziano, com centelhas douradas embebidas no vidro, precisamente para uma ocasi�o destas. Estendi a m�o para lhe pegar � mas depois hesitei. Mais uma vez, a chave para tornar este gelo especial era a simplicidade, n�o a extravag�ncia.</p><p>Fiz duas pequenas coroas reais, de biscoito, e enchi-as com o meu gelo cremoso de p�ra e <emphasis>cr�me anglaise</emphasis>.</p><p>Depois levei-o para fora. Ao princ�pio, pareceu-me que n�o andava ningu�m por ali, mas depois ouvi o som de vozes de cortes�os provenientes dos jardins. Talvez, pensei, Lu�s estivesse com eles.</p><p>Corri na direc��o do som e contornei uma sebe. Tinha sorte: ali estava o rei.</p><p>� Vossa Majestade � chamei.</p><p>Enquanto caminhava na direc��o de Lu�s, apercebi-me de que as pessoas estavam a virar-se para olhar para mim. Os murm�rios cessaram. Tarde de mais percebi que, hoje, todos os seus adornos � os chap�us, as bengalas e as casacas, at� as plumas dos seus chap�us � eram negras, negras como breu. Algu�m tinha morrido. Mas quem?</p><p>Era tarde de mais para parar, tarde de mais para voltar para tr�s, mas os meus passos abrandaram. E depois o pr�prio rei virou-se, de olhos assombrados, e viu-me aproximar dele com um prato de gelado na m�o.</p><p>� Vossa Majestade � disse, de novo, com uma v�nia �, fiz o gelo que Vossa Majestade me pediu, e � maravilhoso.</p><p>O rei recuara um passo e os cortes�os de ambos os lados estavam tamb�m a recuar.</p><p>� Gelo! � ouvi algu�m dizer. E ali estava outra vez o m�dico, o idiota que avisara o rei do perigo de comer gelos. Estava a falar em tom urgente com um dos lacaios e a apontar para mim ao mesmo tempo.</p><p>� Vossa Majestade n�o gostaria de provar um pouco? � perguntei, confuso. E depois dois sargentos da guarda avan�aram e dei por mim a ser arrastado para longe.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>�O que vai fazer agora, crian�a? � perguntou o rei, em tom meigo.</p><p>Mantive a cabe�a baixa e as m�os cruzadas no colo.</p><p>� O que Vossa Majestade ordenar.</p><p>O rei olhou para o seu principal ministro, Lionne. A presen�a deste na discuss�o era o que me estava a intrigar e a perturbar. Que o rei desejasse falar comigo sobre o meu futuro, n�o era de forma alguma inesperado. Eu sabia que n�o tinha lugar na corte, agora que Madame fora enterrada. Havia apenas tr�s op��es, que eu visse: seria enviada de novo para a Bretanha, para suportar a desilus�o dos meus pais; seria oferecida a uma outra dama bem colocada na corte � possivelmente at� algu�m como Olympe de Soissons, embora Deus soubesse que os meus pais tamb�m considerariam isso uma ofensa; ou, se tivesse muita, muita sorte, o rei podia escolher-me ele pr�prio um marido, num gesto de homenagem aos desejos de Madame.</p><p>Das tr�s, nenhuma me agradava particularmente. Nem mesmo a terceira, embora fosse essa a �nica raz�o pela qual eu fora sequer enviada para a corte.</p><p>� Imagino que deve querer ir para casa, para junto da fam�lia � sugeriu o rei. � Os seus pais devem ter saudades suas.</p><p>Mantive a voz nivelada.</p><p>� Os meus pais, senhor, mais do que ningu�m, est�o conscientes da grande distin��o que Vossa Majestade lhes faz ao manter-me na corte.</p><p>� Sim. � O rei pigarreou. � Certos aspectos desta vida condizem consigo, ao que parece. Madame falou-me v�rias vezes do seu perspicaz entendimento de quest�es diplom�ticas.</p><p>Lionne acrescentou:</p><p>� As liga��es de Madame no estrangeiro eram de grande import�ncia para n�s. Como sabe, ela correspondia-se com o irm�o.</p><p>� Sim, senhor � respondi, modestamente. � Ajudei Madame a redigir algumas das cartas. � Mais uma vez, os dois homens trocaram olhares.</p><p>Eu suspeitava agora de que a minha primeira avalia��o desta conversa talvez tivesse sido precipitada. Se iam de facto mandar-me para casa, j� o teriam dito. Na verdade, come�ava a ter a sensa��o de que eles pr�prios tinham iniciado a conversa sem uma ideia clara de qual seria o seu desfecho � que estavam, na verdade, a sondar-me, e que havia algum esquema ou intriga que tinham em mente e para o qual eu podia ser adequada, mas sobre o qual n�o estavam ainda certos.</p><p>O rei disse, pensativamente:</p><p>� E se houvesse alguma forma de continuar o trabalho dela� de promover a causa da alian�a entre n�s e a Inglaterra� gostaria de estar envolvida nisso?</p><p>Ao ouvir estas palavras, o meu cora��o deu um salto � pois, naturalmente, n�o havia nada que eu desejasse mais.</p><p>� Com certeza, senhor.</p><p>� Mesmo que isso significasse adiar� temporariamente, claro� a perspectiva de casamento? � Sorriu. � Estou certo de que uma jovem t�o bonita n�o deve ter falta de pretendentes. Importar-se-ia de lhes pedir que esperassem� o qu�? Um ano? Talvez ano e meio?</p><p>Ent�o, talvez fosse esta a explica��o para a sua hesita��o � a natureza necessariamente delicada deste acordo. O rei estava a oferecer-se � � sua maneira subtil e el�ptica � para me arranjar um marido dentro de um ano ou pouco mais, se, entretanto, eu me dedicasse a continuar o trabalho de Madame. Bom, claro que era uma proposta que estava ansiosa por aceitar. Curvei a cabe�a.</p><p>� Sou uma humilde serva de Vossa Majestade.</p><p>� �ptimo. � O rei levantou-se. � Deixarei Lionne explicar-lhe todos os detalhes. Mas lembre-se disto, minha querida: o trabalho que fizer para n�s nos pr�ximos meses ser� mais valioso para Fran�a do que mil navios de guerra.</p><p>Na altura, pareceu-me que era uma sugest�o extraordin�ria para um rei fazer a uma mera dama de companhia e, durante algum tempo, nem quis acreditar na minha sorte. S� muitos meses, at� anos depois, � que compreendi o qu�o cuidadosamente me tinham usado.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>PARTE DOIS</emphasis></p><empty-line/><empty-line/><p>�Teremos de abandonar o Grande Neg�cio? � de temer que a dor do rei de Inglaterra, que � mais profunda do que se possa imaginar, e as conversas mal�volas e rumores dos nossos advers�rios, possam estragar tudo.�</p><p><emphasis>Colbert de Croissy, embaixador franc�s em Londres, para</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
      Lionne, secret�rio de Estado franc�s, Julho de 1670</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Um simples creme de lim�o � o mais nobre dos gelos, e pode ser facilmente confeccionado quando os outros n�o s�o certos.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Era esta, ent�o, a terra para a qual fora exilado: um banco baixo de lama cinzenta que, gradualmente, se dividiu e transformou nos dois lados de um estu�rio. Nos loda�ais prateados, salpicados pelas marcas deixadas pelas patas das gaivotas, erguiam-se no horizonte algumas quintas degradadas. � excep��o de uns porcos escanzelados, pareciam abandonadas. As pessoas deviam estar debaixo de tecto, protegidas da chuva g�lida: eu teria feito o mesmo, mas o barco tinha sido usado recentemente para transportar estrume e o meu palato acostumado � corte ainda era demasiado refinado para suportar o fedor do por�o. Al�m disso, estava fascinado por este pa�s � fascinado e tamb�m aterrado: pela sua pobreza pesada, a sua monotonia, a forma como se erguia relutantemente da �gua cinzenta, aos poucos, t�o diferente das escarpas deslumbrantes e dos portos acolhedores de It�lia ou Fran�a.</p><p>Por fim, o estu�rio estreitou e tornou-se a foz de um rio, onde havia algum tipo de constru��es, docas. Protegi os olhos com a m�o. Os edif�cios eram do mesmo castanho ba�o que a lama, os telhados cobertos por uma esp�cie qualquer de palha escura. <emphasis>Vim para um pa�s sem cores</emphasis>, pensei, e n�o foi apenas o frio que me fez estremecer.</p><p>Recordei a ocasi�o em que recebera as minhas ordens; do grande Lionne, pessoalmente, no seu grande gabinete no Louvre.</p><p>� Estamos presentemente envolvidos numa opera��o diplom�tica de grande delicadeza, que pode afectar todo o rumo da nossa campanha militar. Fico satisfeito por poder dizer-lhe que, apesar da sua vergonha recente, se encontra na feliz posi��o de poder ser �til a Sua Majestade Crist� nesta quest�o�</p><p>N�o me estava a ser dada uma escolha, isso era claro. Sob a superf�cie, havia sempre a amea�a impl�cita. A morte de Madame continuava a ser um mist�rio, apesar de todos os esfor�os dos m�dicos, e ainda corriam pela corte rumores de veneno ou incompet�ncia m�dica.</p><p>� Consta que o monarca ingl�s, o rei Carlos, est� prostrado com a dor. Quando recebeu a not�cia da morte da irm� fechou-se nos seus aposentos. Durante tr�s dias ningu�m teve permiss�o para entrar, nem mesmo os m�dicos.</p><p>Lionne fez uma pausa.</p><p>� O nosso rei, claro, tamb�m est� a sofrer. Mas de forma apropriada. Lu�s nunca se deixaria ficar t�o descontrolado.</p><p>Eu acenara em sinal de assentimento, sem perceber o rumo da conversa. Se pelo menos tivesse prestado mais aten��o quando os que me rodeavam discutiam os aspectos mais delicados destas quest�es pol�ticas�</p><p>Lionne contornou a secret�ria e come�ou a andar de um lado para o outro, entre a janela e o centro da sala.</p><p>� No caso do rei ingl�s, parece que o sofrimento afectou o seu ju�zo. Este pr�ncipe, que at� aqui era af�vel e gostava de Fran�a, meteu de alguma forma na cabe�a que a sua adorada irm� foi assassinada pelo marido e que n�s lhe estamos a esconder a verdade. Despediu o alfaiate, escorra�ou a amante e mergulhou toda a corte num luto profundo. Em vez de festas e cortejos, dedica-se agora unicamente ao governo e aos interesses do seu pa�s. Em vez de permitir que os seus generais se preparem para as gl�rias da guerra, disparata e fala de economia. Caminha longas dist�ncias pelos campos, sozinho, e mete conversa com os seus s�bditos, que lhe dizem francamente que n�o est�o contentes com as suas pol�ticas at� � data: em vez de os repreender pela sua presun��o, mostra sinais de concord�ncia.</p><p>Lionne encolheu os ombros de forma eloquente perante a loucura dos reis estrangeiros.</p><p>� Assim o alegre monarca se tornou soberano das tristezas. E � Fran�a, de todos os pa�ses, que mais sofre com isso.</p><p>Voltou para tr�s da sua secret�ria e olhou para mim por cima das m�os unidas.</p><p>� Portanto, Sua Majestade Crist� decidiu oferecer um presente ao seu primo ingl�s. Algo que restaure o esp�rito real, como prova da estima que dedica � continua��o da alian�a entre ambos.</p><p>Ah, sim, a alian�a. Se Lu�s queria persuadir Carlos de que o tratado tinha de sobreviver � morte de Madame, este presente teria de ser realmente algo muito especial.</p><p>� Sua Majestade Crist� decidiu oferecer ao rei Carlos� um gelo. � Um sorriso frio tocou os olhos de Lionne. � � a� que entra a sua pessoa, claro.</p><p>Com alguma hesita��o, disse:</p><p>� Naturalmente que seria uma honra para mim auxiliar Sua Majestade neste projecto. Mas os segredos da minha profiss�o est�o rigidamente protegidos. Se permitisse que fossem fornecidos a um cozinheiro ingl�s, os outros confeiteiros n�o me acusariam de trai��o?</p><p>� Parece que j� o podem fazer. Pelo que sei, h� um mestre confeiteiro em Floren�a que acredita ter sido tra�do por um rapaz seu criado. � Lionne pegou num documento que tinha em cima da mesa e lan�ou-me um olhar interrogativo. N�o respondi, mas o meu cora��o afundou-se. Sabia que, de alguma forma, Audiger tivera m�o nisto.</p><p>� Seja como for, n�o estamos a sugerir que ceda os seus conhecimentos. Longe disso. � precisamente o facto de estes m�todos permanecerem secretos que torna o presente de Sua Majestade t�o generoso.</p><p>O ministro fitou-me com olhar altivo.</p><p>� Para oferecer o gelo ao rei Carlos, temos de lhe oferecer o fazedor de gelos. Compreende?</p><p>Olhei para ele. Mesmo nos meus momentos de maior desespero, nunca imaginara nada como isto.</p><p>� Est�o a mandar-me embora? Vou ser banido?</p><p>� Emprestado, digamos assim. Sua Majestade Crist� encontra-se na afortunada posi��o de ter dois ex�mios confeiteiros. � mui�to razo�vel que ofere�a um deles ao seu aliado do outro lado do Canal.</p><p>� Mas� quanto tempo terei de estar ausente?</p><p>Lionne encolheu os ombros.</p><p>� A sua tarefa � deixar o rei de Inglaterra novamente alegre. Quando estiver alegre, ser� de novo amigo de Fran�a.</p><p>Porque precisar� do vosso ouro para pagar os seus prazeres, pensei, recordando o que Olympe dissera.</p><p>� Declarar� guerra aos Holandeses e n�s avan�aremos. A guerra propriamente dita ser� vencida rapidamente e ent�o poder� regressar a Versalhes.</p><p>N�o respondi. At� eu via que havia poucas probabilidades de que fosse tudo t�o simples como isso. Mesmo que fosse, quando eu voltasse Audiger estaria bem estabelecido em Paris como presidente da Corpora��o de Confeiteiros.</p><p>Lionne acrescentou, em tom casual:</p><p>� E, de tempos a tempos, pode haver outros deveres� Mensagens da rapariga bret�, que voc� nos transmitir�. Deveres de observa��o dela, ou do rei, ou de outros membros da corte inglesa que lhe indicaremos.</p><p>� A rapariga bret�?</p><p>� N�o o mencionei ainda? Foi sugerido ao rei Carlos que talvez aliviasse a sua dor se empregasse, como gesto de caridade, uma das damas de companhia da irm� para servir a sua rainha. Essa honra coube � rapariga bret�, de Keroualle. Sim? O que �? � O olhar arguto do ministro estava a perscrutar-me o rosto.</p><p>Suspirei.</p><p>� Nada.</p><p>Satisfeito, ele prosseguiu:</p><p>� Deve ser bastante f�cil. Mover-se-� entre eles, escondido em plena vista, fornecedor de prazeres e guloseimas. O que poderia ser mais natural?</p><p>O pequeno barco estava agora a subir o rio, navegando na �ltima vaga da mar�. O conv�s, apesar da chuva constante, estava agora bastante apinhado. Tinham embarcado mais passageiros em Gravesend, e at� aqueles que vinham de Fran�a tinham subido do por�o, ansiosos por um vislumbre de marcos familiares, tagarelando excitadamente naquela linguagem gutural que me fazia sempre lembrar c�es a uivar.</p><p>Louise n�o estava a bordo. T�nhamos viajado juntos at� Dieppe numa carruagem emprestada e num sil�ncio tenso. A dada altura, perguntei-lhe o que se passava, e ela virou para mim o rosto molhado das l�grimas com express�o incr�dula.</p><p>� A minha senhora morreu, estou a ser enviada para o pa�s mais b�rbaro e herege da Europa, tudo aquilo para que trabalhei ao longo dos �ltimos dois anos est� preso por um fio e pergunta-me o que se passa?</p><p>Depois disso calei-me e mantive o sil�ncio e, quando cheg�mos a Dieppe, afastei-me para ir comprar as provis�es de que necessitava. Fora uma sorte encontrar este navio: a maioria dos capit�es com quem falei limitaram-se a cuspir laconicamente assim que ouviam falar em Inglaterra.</p><p>Agora, enquanto o conv�s se enchia de pessoas, dei por mim de p� ao lado de um homem que dizia ser mercador de l�s mas que tinha a postura de um soldado, com a m�o pousada na anca, onde devia habitualmente ter a espada. No entanto, era bastante simp�tico e decidira mostrar-me as vistas � medida que pass�vamos.</p><p>� A Ilha dos C�es. � Apontou para mais uma extens�o de p�ntano. � E, ali, o pal�cio de Greenwich. � Distingui uma s�rie de edif�cios arruinados entre as �rvores. � N�o parece grande coisa agora � admitiu ele. � Tal como todos os pal�cios reais, sofreu muito durante a� quero dizer, nos �ltimos tempos.</p><p>� Durante a rep�blica, � o que quer dizer?</p><p>O homem olhou para mim de lado.</p><p>� Sim.</p><p>� E o que � aquilo? � perguntei, apontando para uns postes altos e brancos, como mastros de navios, enfeitados com fitas coloridas.</p><p>� S�o mastros de Maio, reintroduzidos por ordem do rei, para que as pessoas comuns possam juntar-se �s festividades.</p><p>� N�o vejo ningu�m a festejar.</p><p>Ele encolheu os ombros.</p><p>� Alguns dos seus s�bditos ainda n�o se reconciliaram com o regresso do rei do ex�lio. Acabar�o por cair em si.</p><p>Surgiu ent�o � nossa vista, do lado direito, um edif�cio que calculei que seria a Torre de Londres, um castelo baixo e branco rodeado por fortifica��es e apinhado de soldados armados. Mas a minha aten��o foi atra�da pelo que se encontrava para al�m do edif�cio: um vasto prado de destrui��o, com mais de um quil�metro e meio de comprimento e oitocentos metros de largura, coberto de escombros e cinzas e ervas daninhas. Estavam a ser constru�dos edif�cios novos, mas estes erguiam-se lado a lado com os esqueletos enegrecidos dos anteriores, destru�dos pelo fogo. O meu companheiro olhou com curiosidade e fez alguns coment�rios sobre pequenas altera��es aqui e ali, mas nada mais al�m disso. N�o era, evidentemente, novidade nenhuma para ele.</p><p>Lembrei-me das palavras de outro dos que me tinham transmitido instru��es, um espi�o menor a quem Lionne me passara depois de estar despachado comigo. <emphasis>Claro que foram castigados pelas suas heresias: castigados por Deus, com guerra civil, peste e fogo. Talvez j� tenham aprendido a sua li��o.</emphasis> O homem agitara a m�o com indiferen�a. <emphasis>Oh, vai ach�-los bastante trabalhadores� acreditam em trabalho duro, estes protestantes, quase religiosamente, poder-se-ia mesmo dizer, embora ainda esteja para se ver que gl�ria pode alguma vez advir, para Deus ou seja para quem for, da reconstru��o daquela po�a de lama infestada de peste�</emphasis></p><p><emphasis>Infestada de peste.</emphasis> Eu n�o tinha medo do fogo, mas a famosa pestil�ncia de Londres era outra coisa. Benzi-me automaticamente e depois desejei n�o o ter feito. O meu companheiro olhou para o meu peito, seguindo o meu gesto, e, embora n�o tenha dito nada, ficou subitamente pensativo. Oh, enfim: dificilmente poderia ser segredo que um italiano, vindo de Fran�a, seria cat�lico. Ou talvez o homem tivesse reparado na falta do meu dedo. No entanto, pareceu-me que da� para a frente me observou com mais desconfian�a.</p><p>A Grande Ponte estava agora � nossa frente. Feita de pedra e coberta de constru��es, era maior do que qualquer ponte em Paris ou Floren�a. O rio, limitado de ambos os lados por rodas de moinho gigantescas, jorrava pelo arco central como por um cano gigante e, embora alguns botes vindos de montante navegassem descontraidamente os r�pidos, acompanhados pelos gritos dos seus passageiros, era obviamente imposs�vel o nosso barco avan�ar mais.</p><p>Enquanto a tripula��o o prendia a um pont�o pr�ximo, o meu companheiro deu-me uma cotovelada e apontou para cima.</p><p>� Est� a ver aquilo?</p><p>Numa das extremidades da ponte, uma casa de necessidades projectava-se sobre a �gua. Semicerrando os olhos para ver atrav�s da chuva, vi uma fila de meia d�zia de assentos de retrete de madeira nos quais se encontravam, como ovos num suporte, um par de n�degas masculinas e dois pares de n�degas femininas. Mas n�o era a essa exibi��o indecente que o homem se referia. Por cima de um dos arcos havia uma fila de espig�es de ferro, encimados com o que pareciam ser couves podres. Apenas algumas madeixas de cabelo e um leve brilho de dentes brancos numa delas mostravam que n�o eram, decididamente, couves.</p><p>� Papistas � disse o homem em tom contundente.</p><p>Bom, talvez fosse verdade, embora me tivessem dito em Paris que uma das cabe�as em exibi��o era a do pr�prio Cromwell, o Grande Usurpador, decepada p�s-morte do corpo desenterrado. Os outros, pensei, n�o deviam ter tido tanta sorte. Talvez em consequ�ncia dos recentes problemas, a pena para trai��o ou heresia aqui em Inglaterra era muito pior do que a mera execu��o. Conseguia imaginar demasiado bem � n�o a dor, pois essa seria literalmente inimagin�vel, mas o horror: ver as nossas pr�prias entranhas serem-nos arrancadas da barriga como sedas da bolsa de um saltimbanco, depois casualmente queimadas perante os nossos olhos, com a chuva a crepitar e a fumegar ao cair sobre elas, a nossa �ltima refei��o a derramar-se e a ser novamente cozinhada enquanto os intestinos se rompiam sobre a braseira. E isso antes de come�arem a serrar-nos aos peda�os�</p><p>Desta vez consegui conter-me para n�o me benzer, embora a minha m�o direita tenha estremecido involuntariamente. O meu companheiro reparou e riu-se. No entanto, percebi que n�o era um riso maldoso: depois de me ter causado este desconforto, estava a rir para mostrar que fora uma brincadeira. Eu tinha sido avisado do estranho sentido de humor dos Ingleses.</p><p>� Para onde vai, amigo? � perguntou o homem, dando-me uma palmada no ombro enquanto sub�amos a estreita prancha de desembarque.</p><p>� Ficarei alojado em Vauxhall e tenho de me apresentar na corte.</p><p>� Na corte, h�? � disse ele, claramente impressionado. � J� tinha pensado se seria isso. Temos c� alguns como voc�. � Acenou. � Nes�se caso, podemos partilhar o transporte. Eu tamb�m vou para Vauxhall.</p><p>� Obrigado � respondi, educadamente. � Mas tenho de esperar pela minha bagagem. � Est�vamos agora em terra seca e eu sentia as pernas um bocadinho bambas depois da travessia. N�o que <emphasis>fosse</emphasis> muito seca, esta terra: o barro peganhento, da cor dos dejectos, misturava-se com a chuva para criar uma porcaria gordurenta debaixo dos nossos p�s.</p><p>� N�o faz mal. Eu espero consigo. A chuva � capaz de abrandar.</p><p>S� uns bons vinte minutos depois trouxeram as minhas arcas do por�o. Quando a �ltima foi colocada no cais, o homem tocou-me no bra�o.</p><p>� Tem de os fazer pagar por isso. Estes imbecis ensoparam a sua bagagem.</p><p>� N�o tem import�ncia � respondi, rapidamente.</p><p>� N�o tem import�ncia? Olhe para isto! � Era verdade: a �gua escorria de um dos cantos da arca. � Devia verificar o conte�do � insistiu o homem. Chamou um carregador. � Tu a�! Abre esta arca.</p><p>� A s�rio, n�o h� problema. Al�m disso, est� fechada � chave.</p><p>� Porqu�? O que � que tem l� dentro, que tem de estar fechado � chave mas n�o se estraga com a �gua? � inquiriu. A sua franqueza era enervante, quase ofensiva. No entanto, como eu estava a aprender rapidamente, essa era outra das caracter�sticas deste povo.</p><p>Hesitei.</p><p>� Cont�m os meus instrumentos de trabalho. Mas s�o quase todos feitos de estanho, portanto um pouco de �gua n�o � motivo de preocupa��o. � Paguei um dinheiro aos marinheiros para levarem as arcas at� � estrada. � Agora tenho de encontrar uma carro�a.</p><p>Mais uma vez, vi o homem � o soldado, como estava agora quase certo de que era � olhar para mim com curiosidade. Talvez estivesse a perguntar a si pr�prio como � que um estrangeiro sabia que uma carro�a seria mais r�pida do que um barco. Contudo, as minhas ordens eram para estar o m�nimo de tempo poss�vel na ponte.</p><p>Carreg�mos as arcas numa carro�a e partimos. Onde o inc�ndio n�o chegara, as ruas eram estreitas, quase demasiado estreitas para a carro�a passar entre os edif�cios. Cada andar era maior do que o inferior, e o pouco espa�o que existia ao n�vel do solo j� desaparecera no terceiro ou quarto piso, quase transformando as ruas em t�neis. Agora, dei gra�as pela chuva; pelo menos matinha os dejectos, tanto dos cavalos como humanos, a correrem pela sarjeta no meio de cada rua � isto, claro, onde ela n�o se encontrava bloqueada. Tirei um len�o da manga, salpiquei-o com umas gotas de �gua de rosas e levei-o ao nariz. Vi o meu companheiro sorrir, mas ele n�o disse nada.</p><p>Enquanto avan��vamos lentamente pelas ruas, pass�mos por v�rios grupos de homens vestidos com roupas escuras que, quando se cumprimentavam, pegavam na m�o uns dos outros e a seguravam entre as suas. Era como se estivessem a trocar um sinal secreto, no entanto estava a ser feito abertamente, em p�blico.</p><p>� Chama-se apertar a m�o � disse o meu companheiro, quando me viu virar a cabe�a para olhar. � � o costume entre os dissidentes mais convictos, quando se encontram. Recusam-se a curvar-se perante qualquer homem, uma vez que dizem que todos fomos criados iguais.</p><p>� Em Fran�a, isso seria considerado conversa sediciosa.</p><p>� Aqui � diferente. A rep�blica veio abalar tudo. As coisas voltar�o ao que eram, mas vai demorar algum tempo. � De s�bito, o homem parecia divertido. � Houve um dissidente que se recusou a tirar o chap�u perante o rei. Sabe o que aconteceu? � Abanei a ca�be�a e ele continuou: � Sua Majestade tirou o seu pr�prio chap�u.</p><p>� Porqu�?</p><p>� Como ele disse ao dissidente, o costume ditava que um dos dois estivesse de cabe�a nua, portanto assim o costume estava cumprido. O bom do velho Rowley�</p><p>� Rowley?</p><p>� Oh, � o nome do garanh�o do rei, mas tamb�m o que as pessoas chamam ao pr�prio rei.</p><p>� Porqu�?</p><p>� � um nome afectuoso. Uma alcunha. � Riu-se. � Suponho que � por ele ser parecido com o cavalo, percebe, pelo menos em certos aspectos.</p><p>Eu estava perplexo. Ent�o, homens que tinham morrido na sua cama eram desenterrados e decapitados, mas coment�rios grosseiros e trai�oeiros sobre o rei eram fonte de divers�o. E o pr�prio rei, ao que parecia, era obrigado a ignorar uma impertin�ncia que, em Fran�a ou It�lia, enviaria um homem para o cadafalso.</p><p><emphasis>Um pa�s b�rbaro e atrasado</emphasis>, conclu�ra o espi�o de Lionne com um encolher de ombros. <emphasis>Literalmente: nem sequer conseguem reger-se pelo mesmo calend�rio do resto da Cristandade. E apesar de no seu calend�rio, como vir� a descobrir, estarem apenas dez dias atrasados em rela��o a n�s, em todos os outros aspectos parecer-lhe-� antes d�cadas.</emphasis></p><p>Finalmente, livrei-me do meu companheiro na estalagem onde estava instalado. Os olhos do ingl�s seguiram a �ltima arca en�quanto era levada para dentro, ainda a pingar, mas n�o disse nada excepto um �Adeus� breve antes de acenar com a cabe�a e seguir o seu caminho. Eu vinha a compor mentalmente um discurso de agradecimento pela sua ajuda, elaborado mas pouco sincero, como a cortesia exigia; mais uma vez, fiquei sem perceber se esta brusquid�o era um insulto ou simplesmente outro costume estranho.</p><p>No entanto, os meus aposentos eram adequados, as paredes cobertas com pain�is de madeira que n�o pareciam esconder quaisquer orif�cios de espionagem. Tranquilizado, virei a minha aten��o para os ba�s. Aquele que vinha a pingar estava frio ao toque � mau sinal. Tirei as mantas da cama e enrolei-o o melhor que pude. N�o me atrevi a abri-lo � o quarto estava quente e s� ia piorar o problema. Virei-me para o outro ba�, abri-o e recuei um passo, consternado.</p><p>Quando o selara, continha cristais amarelados. Agora vi apenas um monte de p� coagulado. Toquei-lhe com o dedo. H�mido. O outro ba�, o que estava a pingar, devia ter ficado por cima deste no por�o do barco. N�o fazia ideia se o salitre podia ser seco e os cristais extra�dos novamente: desconfiava que n�o.</p><p>Bom, n�o devia ser um problema irresol�vel. Presumivelmente, em Londres, tal como em Paris e Floren�a, devia haver homens dos despejos que recolhiam o conte�do dos bacios das pessoas todas as manh�s para extrair o precioso salitre. Vira um botic�rio um pouco mais abaixo, na rua da estalagem: l� deviam saber onde � que eu podia adquirir mais. Lavei-me com �gua quente trazida pelo criado, desci e disse ao estalajadeiro que ia sair.</p><p>Enquanto caminhava na direc��o da loja, um grupo de homens ainda jovens chamou-me a aten��o. Caminhavam altivamente pela rua lado a lado, uma forma��o que, a juntar ao facto de cambalearem de um lado para o outro, significava que ocupavam a maioria do espa�o dispon�vel. Em contraste com os outros que vira nas ruas, estes homens estavam vestidos de uma forma que teria parecido ostentosa at� em Fran�a, com cal��es folgados, ornamentados com metros de renda e desca�dos nas ancas, abafos no cinto da espada, camisas de linho que ondulavam por baixo de gib�es elegantes, mais linho a espreitar das braguilhas abertas e coletes pespontados a fio de ouro e prata. Estavam obviamente embriagados: um deles p�s o bra�o sobre os ombros do outro, mas a ac��o desequilibrou-os a ambos e f�-los cambalear de encontro a uma parede.</p><p>Ao mesmo tempo, apareceu atr�s deles uma cadeirinha, transportada pela lama por dois criados, evidentemente de uma pessoa de posi��o elevada. Quem quer que fosse, estava com pressa, e a cadeira rapidamente ultrapassou o grupo de jovens janotas, os criados passando simplesmente entre eles sem olhar para a esquerda ou para a direita. Depois um dos jovens soltou um rugido � parecia �Hipop�tamo!� � e os companheiros responderam com gritos. Como um s�, correram sobre a cadeirinha e viraram-na, fazendo a pessoa dentro dela cair desamparada na lama. Era, como eu calculara, um cavalheiro de meia-idade, bastante gordo, e o seu grito de ultraje enquanto rebolava sobre a lama e imund�cie teria, estou certo disso, sido consideravelmente mais alto se a queda n�o o tivesse deixado sem f�lego; por seu lado, os jovens estavam a rir tanto que quase n�o se tinham de p�.</p><p>� Imbecis � balbuciou o homem, ainda deitado de costas; instantaneamente, um dos jovens desembainhou a espada e aproximou-se dele com ar amea�ador.</p><p>� Sim? � provocou. � � insol�ncia aquilo que oi�o?</p><p>Fiquei surpreendido com isto, tanto porque tinham sido obviamente os jovens quem agira mal, como por n�o fazerem qualquer esfor�o para se dirigirem ao homem mais velho que, como j� disse, era uma pessoa de ar respeit�vel, com a delicadeza devida a algu�m da sua posi��o. E fiquei ainda mais surpreendido pela reac��o do homem mais velho. Apanhou a cabeleira da lama e disse em tom humilde:</p><p>� As minhas desculpas, Vossa Gra�a. Falei no calor do momento.</p><p>O libertino que desembainhara a espada deu v�rios golpes no ar, como se estivesse desapontado por o outro homem n�o lhe dar motivos para discutir mais. Depois virou-se, embainhou a espada e cambaleou atr�s dos seus amigos.</p><p>Que pa�s curioso, pensei, enquanto via o homem subir novamente para a cadeirinha sob o olhar impass�vel dos criados. Era como se ningu�m soubesse qual era a sua posi��o � ou talvez, no rescaldo de uma guerra civil, o soubessem demasiado bem. Como forasteiro, era evidente que teria de ter muito cuidado.</p><p>Entrei na loja e fechei a porta atr�s de mim.</p><p>� Sim? Posso ajudar? � disse o botic�rio, erguendo os olhos da balan�a onde estava a pesar um peda�o de �mbar cinzento.</p><p>� Queria comprar salitre. Mais ou menos um quilo.</p><p>O homem pestanejou.</p><p>� N�o � coisa que tenhamos em tanta quantidade. Posso perguntar no arsenal em Woolwich, se quiser. Mas ser� caro.</p><p>� Compreendo. Mas tenho mesmo de o adquirir. Estarei instalado no Red Lion, pode mandar recado para l�. � Dirigi-me de novo � porta. Os jovens pareciam ter desaparecido, por isso sa�. No outro extremo da rua havia um mercado. N�o tinha mais nada para fazer, e pensei que podia ir ver que frutas estavam na �poca aqui, se � que havia alguma.</p><p>S� regressei � estalagem mais de uma hora depois. O mercado, na verdade, fora uma agrad�vel surpresa. Apesar do adiantado do m�s, havia uma abund�ncia de pequenos damascos doces, am�ndoas e pist�cios da Turquia, bem como umas avel�s grandes e gordas que eu nunca vira antes. Havia tamb�m uma boa variedade de queijos, e tantas especiarias e ervas que nem eu as reconheci a todas. Os Ingleses, ao que parecia, compensavam em per�cia comercial aquilo que lhes faltava em recursos naturais.</p><p>Pareceu-me haver um n�mero surpreendente de pessoas na estalagem quando entrei, com um cesto de ameixas debaixo do bra�o. Algumas estavam a olhar para mim daquela forma directa dos Ingleses, mas havia tamb�m algo mais, uma certa dissimula��o nos seus olhos. Sentindo-me um pouco desconfort�vel, dirigi-me �s escadas.</p><p>� � ele!</p><p>De s�bito, um grupo de homens desceu as escadas ao meu encontro, de armas na m�o. Quando dei por mim, tinha pontas de espada e canos de mosquete quase encostados � cara. Surpreendido, deixei cair as ameixas e quase ca� para tr�s; nesse momento apercebi-me de que havia mais homens armados por baixo de mim e s� com grande esfor�o consegui evitar cair sobre as suas l�minas. Por tr�s deles, vi o rosto ansioso do botic�rio.</p><p>� Salitre � estava ele a gritar para quem vinha ver o que se passava. � O suficiente para fazer explodir uma casa, queria ele. E � um estrangeiro. Vestido como o Guido Fawkes.</p><p>� Fizeste muito bem, Isaiah Wentworth � disse outro homem. � De certeza que puseste fim a uma maquina��o papista.</p><p>� Ele tem ba�s no quarto � acrescentou o estalajadeiro. � Ba�s com armas. Ouvi-as chocalhar quando os lev�mos para cima.</p><p>Eu estava t�o estupefacto que nem sabia o que havia de responder, e o medo fez-me esquecer o meu ingl�s.</p><p>� N�o s�o armas � disse, erguendo as m�os para mostrar que estava desarmado. � N�o � maquina��o.</p><p>O homem que dera os parab�ns ao botic�rio avan�ou.</p><p>� Dev�amos revistar-lhe o quarto.</p><p>Fui empurrado para cima e obrigado a abrir os ba�s. � medida que abria cada um deles, uma d�zia de cabe�as inclinava-se para examinar o conte�do. As minhas roupas de corte foram retiradas e espalhadas pelo ch�o � vi os meus belos len�os franceses desaparecerem no bolso de um dos homens quando ningu�m estava a olhar. Ao verem os meus moldes, houve um momento de sil�ncio confuso at� que algu�m sugeriu que deviam servir para fazer explosivos.</p><p>� E aqui est� outro � gritou uma voz, ao descobrir o �ltimo ba� embrulhado nas cobertas da cama. � Escondido. Deve ser a p�lvora do papista.</p><p>� Tem cuidado, Obadiah. Pode ser perigoso.</p><p>Quando o homem chamado Obadiah pousou as m�os na tampa, retirou-as bruscamente.</p><p>� Raios, est� frio � exclamou.</p><p>� Frio?</p><p>� Como gelo.</p><p>Cuidadosamente, levantou a tampa. Alguns recuaram. Outros aproximaram-se para ver melhor.</p><p>Aninhados no ba�, dentro de um robusto revestimento de madeira de cedro, estavam seis blocos prateados, cada um do tamanho de uma B�blia. Num dos lados havia um compartimento cheio de lim�es de casca grossa; no outro, uma quantidade semelhante de groselhas negras, com a pele escura manchada por orvalho congelado. Um dos homens enfiou a m�o no ba� e depois tirou-a como se tivesse sido mordido.</p><p>� O que �? � perguntou o estalajadeiro, confuso.</p><p>� Tesouro? Feiti�aria?</p><p>Uma voz disse, da porta:</p><p>� Ambas as coisas, de certa forma. � gelo.</p><p>Todos se viraram, incluindo eu. � porta, perfeitamente calmo, estava o homem que eu conhecera no barco.</p><p>Ele entrou no quarto.</p><p>� Este homem n�o � nenhum Guido Fawkes. N�o veio rebentar convosco; veio para fazer um pudim para o rei. Mais ainda, est� aqui sob a autoridade pessoal de lorde Arlington. A menos que algum de voc�s queira provocar o desagrado do meu mestre, sugiro que fechem esse ba� antes que derreta. � Acenou na minha direc��o. � Creio que ainda n�o fomos formalmente apresentados. Capit�o Robert Cassell, senhor, muito prazer em conhec�-lo. Vou colocar um guarda � sua porta para que os seus bens n�o voltem a ser transtornados, e depois o meu mestre gostaria de lhe dar uma palavra.</p><p>Pouco depois, Cassell escoltou-me at� um edif�cio de estrutura de madeira na orla da plan�cie carbonizada pelo fogo. Era uma esp�cie de gabinete de expedi��o: homens entravam e sa�am apressadamente, com cartas e sacos de documentos. Fomos conduzidos a uma pequena sala onde estava um homem vestido de preto, sentado atr�s de uma secret�ria. Ao seu lado estava outro homem � um cortes�o, a julgar pelo comprimento da sua cabeleira. Sobre a cana do nariz, de forma algo incongruente, tinha um penso de cabedal, como os que os soldados usam para cobrir feridas que demoram a sarar.</p><p>� Signor Demirco, bem-vindo. O meu nome � Sir Joseph Walsingham, e este � lorde Arlington � disse o homem de preto em tom cort�s. A minha incompreens�o devia ser �bvia, porque ele ergueu as sobrancelhas. � Vejo que os nossos nomes n�o lhe s�o familiares. � evidente que est� ainda menos preparado do que imagin�vamos. Se me permite, � um espi�o bastante pat�tico.</p><p>� N�o sou nenhum espi�o � disse eu, assustado.</p><p>� Claro que �, e ainda bem � disse ele com �-vontade. � Onde estar�amos n�s, mestres de espi�es, se n�o fossem os nossos espi�es? Contudo, tenho de confessar� estou curioso em rela��o ao motivo pelo qual o Lionne o escolheu para esta tarefa em particular. Essas suas confec��es em gelo devem de facto ser extraordin�rias.</p><p>� Os meus servi�os s�o apenas uma prova da grande estima�</p><p>� Sim, sim. Podemos esquecer tudo isso: tenho de estar em Whitehall dentro de quarenta minutos. � Fora Arlington que falara. A sua voz era aguda e aflautada e pronunciava cada palavra com uma clareza deliberada. � Compreenda uma coisa, Demirco: na quest�o da rapariga bret�, os nossos interesses e os interesses de Fran�a s�o coincidentes. Aqueles de n�s que lutaram na �ltima guerra civil n�o t�m qualquer desejo de ver essa escurid�o envolver-nos de novo.</p><p>� N�o compreendo � disse. � O que � que uma dama de companhia e um confeiteiro t�m a ver com guerras civis?</p><p>Os dois ingleses trocaram um olhar.</p><p>� A rapariga bret� n�o � nenhuma dama de companhia � disse Arlington abruptamente. � �, se Deus quiser, a pr�xima amante do rei e futura chanceler da sua alcova. � atrav�s dela que governaremos um monarca de vontade fraca e, atrav�s dele, uma na��o ainda mais fraca.</p><p>A surpresa deve ter sido evidente no meu rosto porque vi que ambos me fitavam com curiosidade.</p><p>� Creio que est�o enganados � ouvi-me dizer. � Eu conhe�o essa jovem. � famosa pela sua virtude. A fam�lia espera que ela fa�a um bom casamento, numa fam�lia nobre�</p><p>Arlington afastou os meus protestos com um gesto.</p><p>� Ela far� o seu dever. Todas o fazem, no fim. Muito bem, senhor: de que precisa para fazer uma sobremesa gelada?</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><p>�O duque de Buckingham levou consigo mademoiselle de Keroualle, que era muito ligada a Sua Alteza falecida; � uma jovem muito bela e pensa-se que o plano � fazer dela amante do rei da Gr�-Bretanha; pois diz-se que as senhoras t�m grande influ�ncia na mente do rei de Inglaterra��</p><p><emphasis>Marqu�s de Saint-Maurice, embaixador de Savoy, para o duque Carlos Emanuel II, 19 de Setembro de 1670</emphasis></p><empty-line/><p>Fora um choque, inicialmente, descobrir que o rei me ia mandar para Inglaterra. No entanto, quando pensei melhor no assunto, comecei a perceber o racioc�nio por tr�s deste gesto. Se quer�amos obrigar o rei Carlos a cumprir os termos do tratado, fazia todo o sentido introduzir na corte inglesa algu�m cuja presen�a lhe recordaria as suas obriga��es.</p><p>Foi outra observa��o de Lionne que me deixou mais confusa.</p><p>� Afinal de contas, j� estamos a par da considera��o que o rei ingl�s tem por si, gra�as � quest�o da caixa de j�ias � disse ele distraidamente.</p><p>� A caixa de j�ias, senhor?</p><p>� Sim. N�o sabia? Aparentemente, em Dover, quando Carlos pediu � irm� um presente como recorda��o, ela mandou-a ir buscar a caixa de j�ias dela. Lembra-se disso? � Acenei afirmativamente. Era costume deles trocarem pedras preciosas como recorda��o. � Mais tarde, quando estavam sozinhos, Carlos disse-lhe que a j�ia que mais admirara fora a que tinha ido buscar a caixa.</p><p>Fiquei um pouco desconcertada com esta observa��o, em parte porque Madame nunca me mencionara esta conversa quando fal�vamos do seu adorado irm�o, e em parte por causa da franqueza do sorriso de Lionne.</p><p>� Estou certa de que Sua Majestade pretendeu apenas ser galante � disse-lhe. � Depois de eu estar na comitiva da rainha, ser� sem d�vida mais reservado com as suas galanterias.</p><p>� Sem d�vida. � Lionne consultou um calend�rio em cima da secret�ria. � Bom, seja como for, parte amanh�.</p><p>� Amanh�!</p><p>� Viajar� com o confeiteiro at� Dieppe, onde o duque de Buckingham tem o seu iate. O duque ir� ao seu encontro e acompanh�-la-� na travessia do Canal. N�o h� tempo a perder. Temos de ter a declara��o de guerra do rei contra os Holandeses antes de avan�armos, e cada semana de atraso custa-nos dinheiro.</p><p>Deixei Paris na manh� seguinte, depois de passar a noite a fazer as malas. Tinha poucos vestidos meus, mas fora-me dito que tirasse aquilo de que precisasse do guarda-roupa de Madame. Ao princ�pio, senti-me estranha por estar a experimentar roupas que ainda h� t�o pouco tempo a vira usar, mas n�o era a primeira vez que usava os vestidos que ela punha de lado e sabia que, se n�o os levasse, iriam para as outras damas de companhia. N�o havia tempo para visitar os meus queridos pais; escrevi para Brest a explicar o que acontecera, tranquilizando-os com a certeza de que, se tudo corresse bem, estaria de volta a Fran�a dentro de um ano, e que esperava entretanto ter conquistado a gratid�o do rei.</p><p>Por�m, em Dieppe, n�o havia sinais de Buckingham. O seu iate estava no porto, mas a tripula��o n�o sabia quando esperar o seu mestre. Felizmente, tinha dinheiro suficiente para um quarto numa estalagem.</p><p>Dois dias passaram a tr�s, depois quatro. Passei o tempo a caminhar � beira-mar, sentindo o ar salgado no rosto, tal como costumava fazer antes de vir para a corte.</p><p>Depois, no quinto dia, recebi um bilhete. <emphasis>O duque de Buckingham requisita o prazer da sua companhia.</emphasis></p><p>Encontrei o ingl�s refastelado numa poltrona ao lado da lareira, nos seus aposentos. Fiz uma rever�ncia.</p><p>� Meu senhor � disse, em ingl�s. � � um prazer.</p><p>J� decidira que recrimina��es ou censuras cortantes n�o adiantariam de nada; era melhor ignorar o facto de que ele me deixara ali � espera, sem uma palavra, do que fazer um inimigo.</p><p>� Trate-me por George � disse ele, descontraidamente. � Afinal de contas, estamos prestes a conhecer-nos melhor.</p><p>O criado colocou os pratos do jantar na mesa e desapareceu. Ainda nem t�nhamos come�ado a comer quando Buckingham veio por tr�s de mim e�</p><p>Uma vez que estou a escrever isto apenas para mim, vou diz�-lo sem rodeios: enfiou as m�os debaixo do meu vestido.</p><p>Levantei-me de um salto.</p><p>� Meu senhor, o que est� a fazer?</p><p>Imperturbado, ele riu-se de mim.</p><p>� N�o posso afian�ar a qualidade de uma �gua se n�o a tiver montado pessoalmente. Tal como assumiu a responsabilidade de provar a comida de Madame, eu tenho o papel de provar as mulheres do rei.</p><p>Tentei manter a voz nivelada, apesar de n�o ter a certeza de ter sido bem-sucedida.</p><p>� N�o acredito que fosse capaz de insultar uma das suas conterr�neas desta maneira.</p><p>� Insultar? � Ele aproximou-se mais e vi que tinha os olhos vidrados da bebida. � Eu � que fui insultado, sua meretriz francesa.</p><p>� N�o compreendo.</p><p>� Este suposto tratado que fui enviado aqui para negociar� O Tratado de Paris� ou deveria antes dizer o Tratado de Dover?</p><p><emphasis>Ent�o ele sabia.</emphasis> Isto era de facto uma m� not�cia.</p><p>� Sou ignorante em rela��o a esses assuntos. Era apenas dama de companhia de Madame�</p><p>Ele torceu o l�bio num esgar desdenhoso.</p><p>� N�o se ponha com esses jogos comigo. Foi enviada para o seduzir. As mulheres s�o a fraqueza dele, toda a gente sabe disso.</p><p>Abanei a cabe�a, incapaz de falar.</p><p>� Bom, n�o importa. Mesmo que tivesse chegado � corte, n�o duraria muito tempo. Ele gosta das mulheres com um bocadinho mais de fogo entre as pernas. Toda a gente v� que voc� � uma cabra fria.</p><p>Disse-o t�o calmamente que era dif�cil acreditar no que estava a ouvir.</p><p>� Quando terminar com este ultraje� � comecei.</p><p>� Oh, j� acabei � interrompeu ele bruscamente. � Pode ir. Volte para o bordel franc�s onde o Lionne a encontrou. N�o vou lev�-la para Inglaterra. J� temos l� putas que cheguem.</p><p>Por um momento, olh�mos um para o outro � eu horrorizada, ele desdenhoso. O que podia eu fazer? Nada apagaria as coisas que ele dissera, nenhum pedido de perd�o desculparia o seu comportamento. Com toda a dignidade que consegui reunir, virei-me e sa� apressadamente.</p><p><emphasis>Foi enviada para o seduzir.</emphasis> Era um disparate, claro, mas� poderia haver nisso algum gr�o de verdade? Teria Lionne, ou mesmo Lu�s, pensado que Carlos engra�aria comigo? Parecia incr�vel. De qualquer forma, quem � que ganharia com isso? Mesmo que eu fosse mulher para encorajar esse comportamento, a ideia de que um rei mudaria as suas pol�ticas apenas por causa de uma mulher era absurda. At� um rei t�o absoluto como Lu�s estava rodeado de ministros, conselhos, peticion�rios. Mal lhes dava ouvidos a eles; quanto a dar ouvidos �s suas amantes, por aquilo que eu ouvira, era mais ao contr�rio. E Carlos II de Inglaterra tinha o parlamento com que se preocupar.</p><p>Na manh� seguinte, j� me convencera a mim pr�pria de que Buckingham estava simplesmente b�bado e tentara enganar-me para me levar � sua cama. Esperaria que ele se desculpasse, aceitaria graciosamente e n�o se falaria mais no assunto.</p><p>Contudo, quando fui � janela, o seu iate j� partira.</p><p>Passei o dia desesperada. J� falhara e n�o fora por culpa minha. Claro, podia voltar a Paris e explicar o que acontecera, mas a verdade era que agora Lu�s teria ainda menos raz�es para me manter na corte. Seria mais r�pido, e mais simples, apanhar um barco de pesca e seguir directamente para Brest.</p><p>Ao pensar em voltar para junto dos meus pais sem cumprir a minha miss�o, o meu cora��o afundou-se.</p><p>Havia outra coisa que podia tentar. Peguei numa caneta e papel e escrevi uma carta para Ralph Montagu, o enviado de Carlos II � corte francesa e visita frequente dos aposentos de Madame em Versalhes.</p><p>Cinco dias depois, o estalajadeiro anunciou que tinha uma visita. Fiquei lisonjeada ao ver que era o pr�prio Montagu.</p><p>� Mademoiselle de Keroualle � disse ele, curvando-se sobre a minha m�o. � Vim assim que recebi a sua carta.</p><p>� N�o sabia a quem mais escrever�</p><p>� Fez a coisa certa � garantiu-me ele. � O pr�prio rei Carlos foi avisado da sua chegada iminente e aguarda-a ansiosamente. Tenciona receb�-la em Whitehall com todo o respeito devido � filha de uma das fam�lias mais antigas de Fran�a. � Acentuou ligeiramente a palavra �respeito�, como se quisesse dizer que compreendia demasiado bem aquilo de que um homem como Buckingham podia ter-me acusado.</p><p>� Compreendo � respondi, aliviada. � Tenho de admitir que estava bastante receosa de que o duque de Buckingham tivesse insinuado algo diferente.</p><p>� Por favor, n�o julgue todos os meus conterr�neos pelo comportamento dele � Montagu apontou para o porto. � Lorde Arlington, um dos principais ministros de Carlos, vai enviar o seu barco para a levar. Quando chegar a Londres, convida-a a ficar instalada em sua casa, onde a esposa lhe far� companhia at� serem preparados alojamentos adequados na corte.</p><p>� Nesse caso, estou muito grata a lorde Arlington pelo convite.</p><p>� Lorde Arlington pediu-me que vos deixasse bem claro que � um prazer ter esta oportunidade de vos ajudar. Deseja apenas que o mencione ao seu rei, se tiver oportunidade.</p><p>Isto fazia mais sentido. Pela primeira vez � falarei novamente com franqueza � senti o poder embriagante derivado de estar associada ao maior pa�s do mundo, uma sensa��o que me � agora t�o habitual que mal reparo nela, mas cuja falta, se me � retirada por algum motivo, como um fracasso tempor�rio da minha diplomacia, sinto como se me tivessem tirado um bra�o.</p><p>� Com todo o prazer. Mas temo que a correspond�ncia com Versalhes possa ser complicada em Londres.</p><p>� De todo. J� foram feitas disposi��es. O confeiteiro conseguir� transmitir as suas mensagens.</p><p>� Posso perguntar como sabe tudo isto? � inquiri, surpreendida.</p><p>� Os nossos pa�ses s�o agora aliados. � simplesmente conveniente que trabalhemos juntos. � O sorriso n�o fraquejou, mas os seus olhos ficaram mais s�rios. � Al�m disso, alguns de n�s, em Inglaterra, t�m muito em comum com Fran�a. � Tocou no peito, logo abaixo do cora��o, e compreendi o que queria dizer. Era onde estaria um crucifixo.</p><p>� Lorde Arlington � um de n�s � continuou ele. � Embora lhe custasse a sua posi��o se o admitisse abertamente. Buckingham, claro, � protestante. Estou certo de que � esse na realidade o motivo por tr�s da sua mudan�a de opini�o. Algu�m lhe chamou a aten��o para o facto de que trazer outra cat�lica para o� � hesitou por um instante � �c�rculo �ntimo do rei dificilmente ajudaria a causa deles.</p><p><emphasis>Rodas dentro de rodas.</emphasis></p><p>� Fico-lhe muito grata por me dizer tanto sobre a situa��o pol�tica em Inglaterra. � Era evidente que teria de ter cuidado para n�o me deixar envolver nas suas rivalidades mesquinhas; s� havia um rei cuja protec��o me interessava, e esse residia em Versalhes, n�o em Whitehall.</p><p>Houve um momento embara�oso antes de nos separarmos, quando me vi obrigada a pedir a Montagu que pagasse a minha conta na estalagem.</p><p>� Sua Majestade Crist� n�o lhe deu dinheiro para a viagem? � perguntou ele, claramente surpreendido.</p><p>Abanei a cabe�a.</p><p>� Deve ter presumido que o duque de Buckingham cobriria as minhas despesas. � E eu fora demasiado t�mida para tocar no assunto.</p><p>� Compreendo. � Por um momento pareceu pensativo, mas depois o sorriso de cortes�o regressou-lhe ao rosto. � Bom, fico feliz por poder ajudar. E estou certo de que Carlos conseguir� combinar qualquer coisa com o embaixador franc�s em Londres. Por favor, n�o pense mais nesse assunto.</p><p>Uma semana depois, estava em Londres. Depois de toda esta espera, subitamente n�o havia tempo para nada. Um pa�s novo, uma cidade nova, uma corte nova � os pap�is dos que rodeavam o rei eram facilmente identific�veis como iguais, mudando apenas os t�tulos e as pessoas, como se fosse uma terra reflectida num espelho.</p><p>A minha apresenta��o ao rei foi t�o cuidadosamente preparada como a entrada de um actor no palco. Haveria um baile em casa de Arlington, para o qual o rei fora convidado. Lorde Arlington entregou-me aos cuidados da sua esposa, Elizabeth, uma holandesa simp�tica que me mandou tirar as medidas para espartilhos e sapatos de dan�a.</p><p>� Este � o primeiro convite que o rei aceita desde a morte da irm� � explicou lady Arlington. � O Bennet� o meu marido� falou-lhe da sua chegada e sugeriu que talvez quisesse dar-lhe as boas vindas pessoalmente. Mas n�o � muito prov�vel que ele queira dan�ar, portanto arranj�mos-lhe outro par. Um bom dan�arino e t�o alto como a Louise, mas claro que n�o deve prestar-lhe muita aten��o. Tem de atrair o olhar do rei�</p><p>� Como hei-de fazer isso, se estiver a dan�ar?</p><p>� O Bennet dir� ao rei quem �. N�o precisa de fazer absolutamente nada. Se o rei decidir aproximar-se e conversar consigo, o Bennet far� um sinal. Mas ser� melhor n�o falar demasiado tempo com Sua Majestade. Diga que se sente cansada da viagem.</p><p>� N�o compreendo� porqu�?</p><p>� Se parecer demasiado f�cil, ele perder� certamente o interesse.</p><p>� Se o qu� parecer demasiado f�cil? � perguntei, subitamente alerta.</p><p>Lady Arlington sorriu.</p><p>� A sua miss�o aqui requer delicadeza. Se parecer demasiado ansiosa, receio que o rei sinta que est� a ser for�ado a honrar as suas obriga��es de acordo com o tratado� e, acredite, ele pode ser muito teimoso nestas coisas, quando quer. Ser� melhor que pense que � ele que est� a convid�-la para o c�rculo da sua confian�a, e n�o o contr�rio.</p><p>� E se n�o o fizer?</p><p>� Uma rapariga encantadora como a Louise? E com um sotaque franc�s t�o delicioso? � Abanou a cabe�a. � Se h� alguma coisa que pode elevar o esp�rito do rei, ser� certamente a sua presen�a.</p><p>A noite do baile chegou. Foi uma ocasi�o resplandecente, mas � estando bem habituada a ocasi�es resplandecentes � reparei quantos dos belos quadros e tape�arias francesas que proclamavam o gosto requintado dos Arlington tinham sido trazidas apenas na v�spera, por empr�stimo de comerciantes e negociantes.</p><p>Pela minha parte, rejeitei o vestido que lady Arlington preparara para mim, preferindo um dos que trouxera de Fran�a, um vestido de veludo cinzento orlado com arminho preto e discretamente salpicado com pequenas p�rolas. O que ela me oferecera era um pouco garrido de mais para o meu gosto.</p><p>O plano era que eu fizesse uma entrada discreta, mas assim que pus os p�s na sala vi as cabe�as virarem-se na minha direc��o. Porque estavam a olhar assim para mim? Ouvi um murm�rio em tom de admira��o: <emphasis>Esperta</emphasis>. Estariam a falar de mim? Foi um al�vio quando o jovem escolhido para dan�ar comigo avan�ou e pude concentrar-me no movimento f�sico da <emphasis>galliard</emphasis>.</p><p><emphasis>N�o precisa de fazer absolutamente nada</emphasis>, dissera lady Arlington. Bom, se esta ia ser a minha �nica dan�a da noite, mais valia apreci�-la; embora tivesse ficado um pouco chocada ao descobrir que os Ingleses dan�avam � moda da prov�ncia, cada homem emparelhado com uma mulher, com o bra�o dele � volta da cintura dela, e dois compassos de beijos na face inclu�dos na dan�a. Era muito diferente da formalidade discreta das dan�as de Versalhes.</p><p>Depois vi os que nos rodeavam hesitarem. O meu parceiro recuou.</p><p>� O que� � comecei, antes de ver que ele estava a olhar por cima do meu ombro e a fazer uma v�nia, juntamente com o resto da corte. Virei-me.</p><p>J� conhecera Carlos antes, claro, nos festejos em Dover, e o seu retrato estivera muito tempo pendurado no gabinete de Madame. Mas o homem que caminhava agora na minha direc��o parecia muito diferente. O sofrimento gravara sulcos profundos no seu rosto, de tal forma que o bigode era emoldurado por um arco que ia do nariz ao queixo, de ambos os lados. Tamb�m os seus olhos pareciam assombrados e o corpo alto, vestido de negro profundo, estava magro.</p><p>Atr�s dele, lorde Arlington aproximou-se rapidamente.</p><p>� Senhor, posso�</p><p>� Conhe�o esse vestido � disse Carlos com voz rouca. � Oh, c�us, conhe�o esse vestido.</p><p>Vi l�grimas nos seus olhos e, horrorizada, percebi que fora eu que as causara.</p><p>� Ela usou-o em Dover. Ainda nem h� tr�s meses, no meu anivers�rio. Quando a vi a dan�ar, pensei� � a voz falhou-lhe.</p><p>Arlington tamb�m se calara a meio da frase, sem saber o que fazer. Os m�sicos tinham chegado ao fim da pe�a mas ningu�m aplaudiu. O sil�ncio prolongou-se.</p><p>� Senhor � disse, desesperada �, sou Louise de Keroualle, dama de companhia da vossa irm�. Sua Majestade Crist�, o rei de Fran�a, deu-me este vestido dela antes de eu deixar Versalhes. Foi irreflectido da minha parte vesti-lo hoje. Por favor, aceitai as mi�nhas desculpas.</p><p>Carlos limitou-se a olhar para mim, de olhos vazios.</p><p>� Se Vossa Majestade permitir, vou mudar de roupa � acrescentei.</p><p>� Por favor, n�o � disse ele. � Lembro-me bem de si, <emphasis>mademoiselle</emphasis>. E � uma alegria v�-la aqui. � Havia pouca alegria na sua express�o. � Deve considerar-me um pobre idiota, por a receber de forma t�o deselegante.</p><p>A etiqueta exigia que eu respondesse a esta amabilidade com outra, uma frase de circunst�ncia desprovida de significado que disfar�asse a minha gafe e a sua manifesta��o de emo��es. Mas algo me fez dizer, baixinho:</p><p>� Pelo contr�rio, senhor. N�o desejaria que f�sseis t�o desumano. Amava a vossa irm� mais do que qualquer outra pessoa em Fran�a, e n�o se passa um �nico dia em que eu pr�pria n�o chore por ela.</p><p>Os olhos dele perscrutaram-me o rosto e disse, t�o baixo que s� eu o consegui ouvir:</p><p>� Nesse caso, choraremos juntos, numa altura mais apropria�da, e partilharemos as nossas mem�rias dessa mulher maravilhosa. � Depois olhou em volta e disse, em voz mais alta: � Esta noite tenho assuntos a tratar, mas divirta-se, e amanh� ouvirei as suas aventuras.</p><p>Dirigiu-se � porta, acenando brevemente aos m�sicos para que recome�assem a tocar. Instantaneamente, um grupo de cortes�os reuniu-se atr�s dele, todos ansiosos por seguir na sua peugada. Vi como ele caminhava mais depressa, erguendo os ombros com ar impaciente, como se quisesse fisicamente sacudi-los.</p><p>� Ent�o � disse lady Arlington, aproximando-se de mim. Para minha surpresa, n�o parecia t�o horrorizada como eu estava pelo meu <emphasis>faux pas</emphasis>. � Suponho que sabia que o vestido fora da irm�. Vejo que tem a sua pr�pria estrat�gia.</p><p>� Sabia, mas nem pensei � respondi, desolada. Como pudera ter sido t�o est�pida? Eu, de todas as pessoas, que tanto me orgulhava da minha perspic�cia e sentido de decoro. � E asseguro-lhe que n�o h� qualquer estrat�gia.</p><p>Contudo, enquanto falava, recordei que fora o pr�prio Lu�s que me pressionara a trazer aqueles vestidos de Madame. Teria ele, ou algum dos seus conselheiros, esperado que isto acontecesse? Estaria Lionne, ou outra mente oculta, a planear neste preciso momento o desenrolar dos eventos, a manipular-me de formas que eu n�o conseguia sequer come�ar a compreender, a dirigir os acontecimentos dos seus escrit�rios no Louvre?</p><p>Do outro lado da sala, um homem estava a olhar para mim. Era muito baixo, quase corcunda, e apoiava-se em duas bengalas. Percebi de imediato porqu�. Tinha as pernas deformadas, uma virada para dentro e outra para fora. Apesar da sua estatura baixa, a cabeleira loira do aleijado chegava-lhe quase � cintura � uma afecta��o, ou possivelmente um sinal de vaidade, que juntamente com a figura disforme o fazia parecer levemente rid�culo.</p><p>Ao ver que o observava, curvou a cabe�a de forma cort�s. Inclinei a minha em resposta.</p><p>� Quem � aquele? � perguntei.</p><p>Lady Arlington olhou.</p><p>� Lorde Shaftsbury, o parlamentar. Imagino que veio para a ver. Tal como a maioria das pessoas.</p><p>� Com certeza que n�o veio para dan�ar.</p><p>� N�o me parece � concordou lady Arlington. � Embora, em certos aspectos, apesar daquelas bengalas, ele seja o mais �gil de todos n�s.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Fa�a uma infus�o da casca de quatro ou cinco lim�es, cortada muito fina, com o sumo; adicione um litro de leite de vaca gordo, e trezentas e quarenta gramas de a��car; leve a ferver em lume brando, coe por um guardanapo, congele, e est� feito.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Depois da grandiosidade de Versalhes, o labirinto que era o pal�cio de Whitehall de Carlos II foi uma surpresa. Algumas partes pareciam quase abandonadas; outras continham est�tuas e rel�gios de sol admiravelmente executados, mas colocados aparentemente sem reflex�o ou cuidado. A dada altura, pass�mos por uma antiga casa de campo, de madeira, que parecia embutida no pr�prio pal�cio, como se este, ao crescer, tivesse simplesmente engolido as estruturas que o rodeavam.</p><p>� Est�o sempre a dizer que v�o demolir este castelo velho � disse Cassell enquanto me conduzia pelo labirinto. � Carlos quer construir a sua pr�pria Versalhes, em Windsor, mas o parlamento considera que lhe est� a dar dinheiro para pol�tica externa, n�o para pal�cios estrangeiros. Por aqui.</p><p>O capit�o, que estava obviamente familiarizado com o caminho, abriu uma porta e entr�mos numa vacaria fria, com ch�o de pedra. Quatro vacas castanhas olharam para n�s com olhos tristes. Por baixo das suas barrigas, as criadas puxavam-lhes as tetas com movimentos experientes e fluidos. O cheiro a leite quente e a comida ruminada enchia o ar. Cassell atravessou a sala sem uma pausa e abriu outra porta.</p><p>Uma passagem estreita e depois um port�o. Dava para um claustro onde vi um pequeno campo de tiro ao arco. Um grupo de mulheres disparava contra um alvo de palha.</p><p>� A rainha � murmurou Cassell, indicando uma figura esguia com um aceno. � Pratica todos os dias, pobrezinha. � a �nica coisa que tem para se ocupar.</p><p>Mais uma porta. Agora, sem aviso, est�vamos num grande sal�o, com as paredes cobertas de frescos. Numa cadeira ornamentada estava sentado um cortes�o, com uma mulher ao colo, virada para ele, o vestido aberto at� � cintura. A mulher lan�ou-nos um olhar indiferente quando pass�mos; o homem nem ergueu os olhos. Cassell ignorou-os a ambos.</p><p>Antes de abrir as portas seguintes, parou.</p><p>� Dinheiro � disse, estalando os dedos. Procurei a primeira das tr�s bolsas que trouxera comigo.</p><p>� D� c�, eu seguro nisso. � Cassell tirou-me a caixa de gelo das m�os.</p><p>� N�o a abra � pedi, ansiosamente.</p><p>� N�o se preocupe, sei quais s�o as minhas ordens. Encontrou a bolsa?</p><p>Peguei na bolsa de cabedal apertada dentro da qual tilintavam as moedas.</p><p>� Sim.</p><p>� D�-a ao criado.</p><p>Bateu � porta. O lacaio que a abriu enfiou o dinheiro no bolso sem uma palavra.</p><p>Subimos alguns degraus e sa�mos numa varanda, atr�s de um grupo de pessoas que pareciam, pela indument�ria, gente comum. Estavam a olhar para baixo, para um enorme sal�o de banquetes, onde havia uma d�zia de cortes�os sentados a uma mesa que tinha espa�o para quarenta.</p><p>� O rei � disse Cassell, acenando com a cabe�a na direc��o da mesa. � Est� pronto?</p><p>� Acho que sim.</p><p>� D�-me as outras bolsas, ent�o.</p><p>Enquanto eu abria a caixa de madeira, Cassell colocou as duas �ltimas bolsas na m�o de outro criado. Depois virou-se e chamou-me com um gesto.</p><p>Tirei a bandeja de prata de dentro da caixa. Embora o monte de gelo tivesse amolecido ligeiramente durante a viagem desde Vauxhall, ainda estava intacto e apenas uma certa suavidade nas curvas indicava que n�o estava t�o gelado como j� fora. O cheiro a lim�es � limpo e fresco � ergueu-se do conte�do.</p><p>� Depressa � disse Cassell, impaciente. � Assim que ele acabar de comer n�o se demorar� muito.</p><p>� Come sempre em p�blico, o rei? � perguntei, enquanto desc�amos outras escadas.</p><p>� S� ao meio-dia. As refei��es da noite s�o privadas. Por aqui. Boa sorte.</p><p>Cassell abriu uma �ltima porta e recuou para me deixar passar. Enquanto avan�ava na direc��o da mesa senti olhares sobre mim � n�o apenas os do homem moreno e alto no centro da mesa, que depenicava um prato de fruta, mas tamb�m os dos criados que o rodeavam, dos guardas de servi�o � porta e do p�blico l� em cima, na galeria.</p><p>Por fim, estava suficientemente perto para fazer uma v�nia. Fi-lo � maneira italiana, com um p� para a frente, o outro joelho dobrado, o bra�o esquerdo erguido num floreado atr�s de mim.</p><p>� Vossa Majestade � comecei, formalmente �, venho da corte de Sua Majestade Crist� o rei Lu�s Catorze, pela gra�a de Deus rei de Fran�a e Navarra, e por ordens dele trago-vos uma confec��o extraordin�ria. � Estendi o prato e, por fim, ergui a cabe�a para olhar para ele.</p><p>Pelas descri��es que me tinham sido feitas por Lionne e Arlington, estava � espera de um peralvilho de queixo e olhos fracos. Mas o rosto do rei era de fei��es agrad�veis e a sua express�o, apesar da magreza das faces, era inteligente.</p><p>� Raios � disse ele com um suspiro. � Bom, suponho que deve ser bom, se Lu�s assim o diz. Como lhe chamam?</p><p>Eu ia dizer gelo mas, no meu nervosismo, baralhei as palavras em ingl�s.</p><p>� Gelado, senhor.</p><p>� Muito bem. � Mandou-me avan�ar com um gesto.</p><p>Olhei em volta, � procura do criado que provaria a comida do rei. Quando n�o vi ningu�m, hesitei por um instante.</p><p>� Oh, o rei n�o teme ser assassinado � disse uma voz ao fundo da mesa. Um cortes�o com a indument�ria elaborada de um d�ndi estava a observar a minha confus�o. � Se algu�m o envenenasse, seria para p�r o irm�o dele no trono, e nem mesmo na detest�vel Inglaterra existe algu�m suficientemente est�pido para fazer uma coisa dessas.</p><p>O homem estava a enrolar as palavras, como se tivesse bebido de mais, mas os que o rodeavam soltaram gargalhadas. No entanto, reparei que o rei n�o se juntou a elas. Indicou-me com um gesto que pousasse o prato � frente dele.</p><p>� � franc�s? � perguntou-me o rei.</p><p>� Italiano de nascimento, senhor. Mas passei muitos anos em Fran�a.</p><p>� Nesse caso, temos algo em comum. A minha irm� � Fez uma pausa. De repente, os olhos escuros perderam a vivacidade. � A minha querida irm� que Deus tem tamb�m estava na corte de Fran�a.</p><p>� Sim, senhor. Cruzei-me com Madame em v�rias ocasi�es.</p><p>� Conhecia a Minette?!</p><p>� Apenas de vista. Mas percebia-se que ela era uma dama extremamente virtuosa e bondosa. O pr�prio rei ficou destro�ado com a morte dela.</p><p>� Foi mulher cuja morte foi mais lamentada em Inglaterra ou Fran�a � disse o cortes�o embriagado. � Desde ent�o, morrer tornou-se at� moda. � Desta vez ningu�m se riu, apesar de o cortes�o parecer n�o reparar; ou, se reparou, era-lhe indiferente.</p><p>� Servi-lhe um gelo como este, entre outros � disse eu, apontando para o prato. Queria apenas chamar a aten��o do rei para a mesa, incentiv�-lo a comer o gelo antes de derreter, mas vi o olhar dele endurecer. Claro que Carlos sabia das circunst�ncias da morte da irm� e dos rumores que a tinham rodeado. Perguntei a mim pr�prio se seria essa parte da raz�o pela qual eu fora enviado para Inglaterra; para mostrar ao rei, pessoalmente, que n�o tinham sido os meus gelos a mat�-la.</p><p>Ele pegou na colher.</p><p>Enquanto colocava a primeira colherada na boca o sil�ncio instalou-se. Eu sabia exactamente o que ele estava a saborear: a polpa de lim�es de Amalfi, a do�ura intensificada por um toque de gengibre; uns p�s de raspa da casca dos lim�es, ralada muito finamente; a restante colocada em infus�o em leite de vaca gordo, duas vezes gelado e mexido; o gelo resultante salpicado com pedacinhos de casca de lim�o cristalizada.</p><p>Esperei por uma reac��o � qualquer reac��o. Ele parecia pensativo e julguei v�-lo franzir ligeiramente a testa. Mas era dif�cil ter a certeza.</p><p>Depois, ap�s uma �nica colherada, ele pousou a colher.</p><p>� Tem de me perdoar, <emphasis>signor</emphasis>. N�o tenho grande apetite, de momento.</p><p>Tentando n�o mostrar a minha desilus�o, fiz outra v�nia.</p><p>� Com certeza. Mas talvez possa trazer-vos outro, noutra ocasi�o? Seria uma honra para mim permanecer na corte at� Vossa Majestade estar mais bem-disposto.</p><p>� Muito bem. � Uma sombra cruzou-lhe o rosto. � Suponho que pretende ser pago?</p><p>Encolhi os ombros, educadamente.</p><p>� Bom, tratarei disso � disse ele em tom fatigado. � Fale com o Chiffinch. E entretanto, talvez� Sim: temos c� uma dama de companhia que tamb�m chegou recentemente de Fran�a. Mademoiselle de Keroualle.</p><p>� Oh, � esse o nome dela? � perguntou o cortes�o embriagado. � Pensava que se chamava mademoiselle de Quero-Mont�-lo.</p><p>� Conhe�o essa senhora � respondi, ignorando o b�bado.</p><p>� Tem de lhe mandar os seus gelos, da minha parte. Diga-lhe que � para a fazer sentir-se em casa.</p><p>� Diga-lhe � interveio o b�bado em voz alta �, que quando vier � corte pode provar tamb�m o falo real.</p><p>Alguma da minha estupefac��o com a ordinarice desta observa��o deve ter transparecido no meu rosto, porque o rei disse, calmamente:</p><p>� N�o d� aten��o a lorde Rochester. Quando est� s�brio, consegue ser bastante divertido, mas quando est� b�bado ningu�m lhe acha gra�a a n�o ser ele pr�prio.</p><p>Curiosamente, quando ele disse estas palavras, senti parte da revolta que me invadira pelo comportamento do b�bado dissolver-se. Onde os M�dicis eram austeros e Lu�s severo, Carlos de Inglaterra era encantador � t�o encantador que quase n�o parecia um rei.</p><p>Um c�ozinho saltara para a cadeira ao lado do rei e estava agora a esticar o pesco�o sorrateiramente para o prato de gelado.</p><p>� Senhor� � disse, para o avisar.</p><p>� O que �? Oh, <emphasis>Daisy</emphasis>, para o ch�o. � Carlos empurrou a cadelita com pouca convic��o. � Diga-me, <emphasis>signor</emphasis>, como se chama? � perguntou, olhando novamente para mim.</p><p>� Demirco, senhor.</p><p>� Sabe alguma coisa de casas de gelo, Demirco? Como s�o feitas, e essas coisas?</p><p>� Claro que sim.</p><p>� Constru� uma casa de gelo no Parque de St. James. O gelo que cont�m ser� colocado ao seu dispor.</p><p>� Obrigado, senhor.</p><p>� Mas os meus homens n�o conseguem p�-la a funcionar e o raio do gelo est� sempre a derreter.</p><p>Fiz uma v�nia.</p><p>� Terei todo o prazer em verificar se h� algo que eu possa fazer para melhorar a situa��o.</p><p>� Excelente. � Carlos empurrou a cadeira para tr�s. A audi�ncia estava obviamente a chegar ao fim. Fiz outra v�nia, com o bra�o esquerdo erguido atr�s de mim da maneira formal e correcta.</p><p>Rochester riu-se.</p><p>� C�us, parece que vai fazer aparecer uma pomba.</p><p>� Fale com o Chiffinch � disse-me o rei, enquanto um criado se aproximava e colocava uma capa negra sobre os ombros reais. � Obrigado, signor Demirco, e seja bem-vindo.</p><p>� Signor <emphasis>De hirto</emphasis> � disse Rochester em voz arrastada. � Bem-vindo, signor <emphasis>De hirto</emphasis>.</p><p>Chiffinch era, como vim a descobrir, o criado a quem Cassell entregara as duas �ltimas bolsas. Foi relativamente vago em rela��o ao valor e periodicidade dos meus pagamentos.</p><p>� Vou falar com o abastecedor. Ou talvez com o cozinheiro.</p><p>� Sou o confeiteiro do rei. N�o respondo perante cozinheiro nenhum.</p><p>Ele encolheu os ombros.</p><p>� Bom, o rei tratar� disso. � Tive a impress�o de que, a menos que houvesse subornos envolvidos, Chiffinch n�o estava muito preocupado ou interessado.</p><p>Cassell, contudo, estava satisfeito.</p><p>� Correu t�o bem como seria de esperar, dadas as circunst�ncias. Contudo, faria bem em ver o que se passa na casa de gelo.</p><p>� E tenho de mandar a mensagem dele � Louise.</p><p>� Quem? Oh, sim, claro. Mademoiselle Quero-Mont�-lo. � Estava a sorrir. � O Rochester � um imbecil, mas um imbecil perspicaz.</p><p>� Foi o que o rei me disse. Pessoalmente, ainda n�o vi evid�ncias disso � retorqui, em tom azedo.</p><p>Cassell fez uma cara s�ria mas tinha os cantos da boca a tremer. Supus que estaria a pensar na outra piadinha do peralvilho. Suspirei. Havia muitas coisas neste pa�s, percebi, �s quais nunca me habituaria.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Depois do baile, sou afastada da corte. Ningu�m me diz nada. Parecem estar � espera de algo, de algum sinal ou ordem. Ou talvez estejam simplesmente a tentar decidir qual a melhor forma de responder � reac��o do rei quando me viu com o vestido da irm�. Pressinto que h� conversa��es a decorrer por tr�s de portas fechadas; temas que s�o r�pida e habilmente abandonados quando eu entro na sala. Passo noites miser�veis a pensar se, afinal de contas, ir�o mesmo mandar-me de volta para casa.</p><p>Ao fim de tr�s dias assim, batem � porta da sala de refei��es, enquanto eu e os Arlington jantamos. As portas s�o abertas por dois criados de libr� que, por sua vez, se afastam para os lados para deixar passar um mordomo, que avan�a e anuncia:</p><p>� Sua Majestade pediu que fosse enviada a mademoiselle de Keroualle esta prova da sua estima.</p><p>� Ah � disse Arlington jovialmente, virando-se na cadeira. � O que � que eu lhe disse? � <emphasis>Absolutamente nada</emphasis>, tive vontade de responder. Arlington manda entrar o homem.</p><p>O mordomo pousa na mesa uma pequena caixa pintada com cerca de trinta cent�metros de largura. Num dos lados tem um bras�o pintado � algo absurdo e sem significado, o tipo de coisa inventada por aqueles que n�o compreendem verdadeiramente os c�digos subtis das fam�lias antigas.</p><p>Apesar disso, reconhe�o-o, mas n�o me lembro de onde.</p><p>O mordomo abre-a e tira um prato de vidro fino. Cont�m um monte de algo que parece neve, tingido de um roxo profundo.</p><p>Gelo.</p><p>Lady Arlington parece confusa.</p><p>� O que �? � pergunta ao mordomo.</p><p>� Madame, creio que se trata de alguma esp�cie de sobremesa gelada � responde o mordomo em tom desdenhoso.</p><p>� evidente pelas express�es dos meus anfitri�es, que, mesmo que eu quisesse, n�o h� qualquer esperan�a de ficar com este presente s� para mim. Depois de dividido, resta apenas o suficiente para duas colheradas a cada um.</p><p>Lorde Arlington inspecciona a sua parte com ar c�ptico, antes de o engolir como um rapaz a tomar um rem�dio. Lady Arlington toca no seu com a ponta da l�ngua, delicadamente. Eu enfio a colher na boca. Cristais de gelo adocicado, j� prestes a derreter, deslizam sobre a minha l�ngua enquanto se dissolvem.</p><p>O sabor a ameixas � subtil, maduro, os �ltimos frutos do Ver�o � enche-me a boca, misturado com <emphasis>cr�me fra�che</emphasis>; seguido, momentos depois, pelos agrad�veis gr�os estaladi�os de a��car mascavado.</p><p>Sei, nesse momento, que Carlo Demirco chegou a Londres.</p><p>Invade-me uma sensa��o de al�vio. Apesar de n�o nos termos separado nas melhores circunst�ncias, ser� �til ter um aliado nesta corte. S� espero que ele esteja a sair-se melhor na sua miss�o do que eu na minha.</p><p>Na manh� seguinte, acordo cedo. O dia j� nasceu e, sobre o parque que separa a casa dos Arlington de Whitehall, h� uma neblina fina e transl�cida. As �rvores, com os contornos indistintos sob camadas de musselina, est�o a adquirir uma tonalidade dourada, cor de p�ras. Abro a janela � o ar fresco � cortante e sente-se um leve aroma a fumo de lenha.</p><p>O Outono est� a chegar.</p><p>Terei de passar o Inverno em Londres, claro. Talvez o pr�ximo Inverno tamb�m. Pergunto-me se os Invernos aqui ser�o t�o frios como em Brest. Mais frios ainda, provavelmente.</p><p>Atrav�s da neblina no Parque de St. James vejo uma silhueta alta a caminhar. Ele deve ter frio � veste apenas um casaco preto curto, desabotoado, por baixo do qual ondula uma camisa branca. V�rios <emphasis>spaniels</emphasis> seguem-no como uma capa canina a arrastar pelo ch�o, enquanto ele caminha sobre o solo h�mido com grandes passadas.</p><p>O rei.</p><p>Est� completamente sozinho. Observo-o por um momento, depois percebo que ele se dirige � traseira da casa dos Arlington. Est� a vir para c�.</p><p>Lady Arlington entra no meu quarto sem bater.</p><p>� O rei vem a caminho. � Inspecciona o cen�rio com um olhar: eu de camisa de noite, a olhar pela janela aberta como uma menina de escola. � N�o h� tempo a perder. � Atr�s dela, uma criada entra a correr, com os bra�os cheios de escovas, �gua e ferros de enrolar. � Despache-se o mais depressa que conseguir e venha ter comigo � sala do pequeno-almo�o.</p><p>� Com certeza.</p><p>Lady Arlington acena e eu dirijo-me ao centro do quarto para que a criada possa come�ar o seu trabalho. A rapariga faz uma rever�ncia e eu levanto os bra�os para que ela possa despir-me a camisa de noite.</p><p>Lady Arlington n�o se mexe. Por um momento limita-se a olhar para mim, com express�o ileg�vel.</p><p>Depois acena outra vez � rapariga, como se eu tivesse passado na inspec��o.</p><p>� Cinco minutos, Susan � diz-lhe. Enquanto sai para o corredor, oi�o-a dar mais ordens em voz firme e calma.</p><p>*</p><p>� Pretendo falar a s�s com mademoiselle de Keroualle.</p><p>Lady Arlington levanta-se imediatamente, faz uma rever�ncia e sai sem uma palavra. N�o faz qualquer coment�rio sobre a falta de decoro. A mera sugest�o seria impugnar os motivos de um rei.</p><p>Apenas os criados, de p� de ambos os lados do aparador, ficam im�veis.</p><p>Estamos sentados frente a frente na grande mesa, agora vazia dos seus candelabros e copos. Carlos aponta para o meu prato.</p><p>� Caf�? Chocolate?</p><p>� Obrigada. Prefiro ch�.</p><p>� Claro. Pelo que sei, toda a gente em Paris bebe ch�, agora. At� a Minette. � Faz uma careta. � Quero dizer� a minha falecida irm�. Eu chamava-lhe Minette. Era a sua alcunha em crian�a.</p><p>� Eu sei. Ela lia-me as vossas cartas. Essas cartas eram aquilo que aguardava com mais ansiedade em todo o mundo.</p><p>Ele respira fundo.</p><p>� Conte-me como � que ela morreu.</p><p>Conto-lhe tudo o que sei e, enquanto falo, as l�grimas come�am a deslizar-lhe pelas faces. Pouco depois, est� a solu�ar abertamente, a limpar as l�grimas com as m�os com gestos impacientes. Hesito, pensando que talvez esteja a perturb�-lo demasiado, mas ele indica-me que continue com um gesto.</p><p>Nunca tinha visto um homem chorar t�o abertamente em frente de uma mulher. A dada altura, ele pega num guardanapo e limpa a cara com ele.</p><p>� E� diga-me� ela foi assassinada? � pergunta, depois de eu terminar. � Aquele bruto, ou um dos favoritos dele, mandou-a matar para poder dedicar-se aos seus v�cios sem impedimento?</p><p>Agora � a minha vez de parecer insegura. S� posso dar uma resposta, mas estou a tentar perceber qual a melhor forma de o convencer dela.</p><p>� Na verdade, ele j� podia dedicar-se a esses v�cios sem impedimento. E, embora eu n�o seja uma grande admiradora do marido de Madame, n�o vejo como poderia ter sido um homic�dio.</p><p>� Mas ela estava t�o bem, em Dover� Nunca a tinha visto t�o bela, ou t�o bem.</p><p>Abano a cabe�a.</p><p>� Sentia dores terr�veis. Simplesmente estava decidida a n�o deixar que Vossa Majestade o visse.</p><p>� Como somos bons em dissimula��o, n�s os Stuart � diz ele, quase para si pr�prio. � Como nos mostramos pouco �queles que mais nos amam.</p><p>� Ela amava-vos mais do que a qualquer outra pessoa viva.</p><p>� E eu a ela. � Fica um momento em sil�ncio, depois tira algo de dentro da camisa. � Trouxe as cartas que ela me escreveu. Im�porta-se de� � N�o consegue terminar a frase, mas eu compreendo o que ele quer.</p><p>� <emphasis>En fran�ais?</emphasis></p><p>� <emphasis>Oui. S�il vous pla�t.</emphasis></p><p>Abro a primeira carta e come�o a ler.</p><p>� <emphasis>Mon cher fr�re, votre Majest�</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Encontre uma sala fresca e limpa, livre de sujidade e de todo o tipo de distrac��es.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Por fim, Chiffinch arranjou-me um lugar na cozinha do pal�cio. Era muito parecida com aquilo que eu imaginava que o Inferno seria: uma sala enorme, cheia de fumo, onde quatro grandes fogos ardiam dia e noite e o fedor de carne queimada enchia o ar como um desagrad�vel nevoeiro. Os cozinheiros trabalhavam em mesas compridas, como costureiras, abatendo os seus cutelos sobre grandes carca�as de vaca, ou cortando nacos de animais t�o pequenos que, noutro lado qualquer, seriam postos de lado como n�o comest�veis. Pois os Ingleses, rapidamente me apercebi, eram obcecados com carne e n�o achavam nada estranho consumi-la quase diariamente. Contudo, esta sua carne de vaca, ou urso, ou porco, n�o era propriamente �cozinhada� no sentido que um franc�s ou italiano usaria a palavra; quer isto dizer que n�o era tornada mais saborosa pela per�cia de um cozinheiro engenhoso, com a adi��o inteligente de molhos, temperos, ervas e por a� fora, mas simplesmente cravada num espeto e assada at� ficar dura e desprovida de qualquer sabor. Vegetais e ervas eram, ao que parecia, quase desconhecidos, e embo�ra me dissessem que o rei, por vezes, comia fruta crua � francesa, os cozinheiros consideravam que isso era uma mania estrangeira e enviavam juntamente com a ta�a de fruta uma t�bua com sobremesas inglesas �a s�rio�, tais como tarte de ma��, pudim de sebo ou p�o de ameixas. Os pratos nem sequer eram servidos separadamente: ia tudo para a sala de banquetes numa vaga ca�tica de servi�o, cada cozinheiro transportando aquilo que fizera, sopas e assados e sobremesas, e era tudo empilhado para os convidados do rei se servirem. Chiffinch ficou bastante surpreendido quando lhe disse que, em Fran�a, os pratos eram servidos um de cada vez, como os actos de uma pe�a.</p><p>No entanto, o verdadeiro problema, para mim, era que n�o tinha s�tio adequado para trabalhar. Mesmo que me afastasse para o canto mais distante poss�vel da cozinha, seria imposs�vel fazer um gelo que n�o derretesse com o calor ambiente assim que eu o tirasse da <emphasis>sabotiere</emphasis>. E, claro, havia a necessidade adicional de manter o meu processo secreto. Ao fim do primeiro dia j� me tinha apercebido de que seria melhor arranjar local de trabalho noutro lado.</p><p>Pensei tamb�m em deixar os meus aposentos no Red Lion, onde a comida, em geral, era quase t�o m� como a que era servida ao rei. Contudo, havia uma excep��o a esta regra: todos os dias serviam uma tarte diferente e estes pratos simples eram, para minha surpresa, quase comest�veis � quero com isto dizer que geralmente continham um vegetal ou dois e, �s vezes, ervas como lig�stica, manjerona ou salva. Numa ocasi�o, numa tarte de peda�os de peixe cozidos em leite, o meu palato saudoso distinguira at� um murm�rio delicioso de estrag�o. Assim, decidi ficar, pelo menos por mais algum tempo, e perguntei ao estalajadeiro se poderia alugar-me uma cave ou c�mara fria para o meu trabalho. Agora que sabia que eu tinha protectores t�o poderosos, ele apressou-se a cumprir os meus desejos e foi buscar imediatamente a chave da cave.</p><p>Na verdade, a cave da estalagem revelou-se h�mida, bafienta e desprovida de janelas, enquanto a cozinha era quase t�o quente como a de Whitehall. Contudo, entre uma e outra, havia uma pequena copa situada numa curva das escadas, de tal forma que era quase subterr�nea e, portanto, bastante fresca, mas com uma fila de pequenas janelas altas que deixavam entrar muita luz. Ao longo de uma parede havia um parapeito de pedra e, a um lado, uma mesa com tampo de m�rmore. Ao fundo, tinha um recanto sem janelas onde eu podia p�r uma pilha de gelo. N�o vi sinais de humidade e toda a divis�o estava imaculada.</p><p>� Era a leitaria, quando faz�amos o nosso pr�prio queijo � explicou o estalajadeiro, que se chamava Titus Clarke. � Agora � onde a Hannah trabalha.</p><p>A ocupante actual da divis�o era, evidentemente, uma trabalhadora organizada: os instrumentos de cozinha, rolos da massa e por a� fora, estavam muito bem alinhados ao longo de uma parede e as tigelas empilhadas debaixo da mesa. Os tabuleiros de ovos estavam cobertos por uma rede mosquiteira e uma saca de farinha fora colocada dentro de um barril elevado para a proteger de eventual humidade ou ratos.</p><p>� Servir� muito bem � disse, olhando em volta. � Quanto quer pela renda?</p><p>O estalajadeiro pareceu um pouco ansioso.</p><p>� Para a partilharem? H� espa�o suficiente para os dois�</p><p>Abanei a cabe�a.</p><p>� Preciso de privacidade total.</p><p>� Bom, estou certo de que a Hannah compreender� � disse ele, nervoso. � Afinal de contas, o rei tem de ter os seus gelos. Falarei com ela esta tarde.</p><p>Mandei levar os meus ba�s para baixo, desembalei as minhas coisas e comecei imediatamente a trabalhar num gelo de marmelos. Acabara de chegar � fase em que estava a deitar gelo esmagado para a <emphasis>sabotiere</emphasis> quando a cortina que servia de porta se abriu e uma mulher de aproximadamente trinta anos, com um avental, entrou. Ao seu lado tinha o rapaz que tratava do cal�ado, Elias.</p><p>� O que est� a fazer? � perguntou ela.</p><p>Apressadamente, cobri a mistura com um pano.</p><p>� N�o � da sua conta.</p><p>� Na verdade, � � retorquiu ela �, uma vez que o Titus me informou de que, seja l� o que for, significa que tenho de deixar a minha copa.</p><p>� Sou o confeiteiro de Sua Majestade � disse-lhe, um pouco surpreendido pelo tom de voz dela. � O trabalho que fa�o aqui � confidencial.</p><p>� E o trabalho que <emphasis>eu</emphasis> fa�o aqui n�o pode ser feito noutro lado. Fazer massa exige um ambiente frio, como com certeza sabe, e a cozinha principal � demasiado quente.</p><p>Atr�s dela, o estalajadeiro encolheu-se para entrar, obviamente ansioso por evitar um confronto.</p><p>� Hannah, o cavalheiro alugou-me a divis�o a mim e ponto final.</p><p>� Muito bem � disse ela, encolhendo os ombros. � Nesse caso, � tamb�m o ponto final nas minhas tartes. Elias, vai-me buscar um saco. � Come�ou a tirar os rolos da massa dos suportes. O estalajadeiro lan�ou-me um olhar apolog�tico, como se quisesse dizer que lamentava a interrup��o mas felizmente j� estava tudo resolvido.</p><p>� Espere � disse eu � mulher. � � voc� que faz as tartes?</p><p>� Era eu � confirmou ela. � Mas j� n�o sou, ao que parece.</p><p>Dei por mim num dilema. Pois a verdade era que, como j� disse, as tartes do Lion eram uma das principais raz�es pelas quais decidira ficar aqui, e a perspectiva de me ver privado delas era decididamente desagrad�vel.</p><p>� Por quanto tempo precisa do espa�o? � perguntei.</p><p>� Uma ou duas horas por dia, bem cedo.</p><p>Tomei uma decis�o. Com certeza que n�o haveria qualquer perigo em deixar uma criada usar o espa�o de vez em quando.</p><p>� Muito bem. Pode continuar a fazer as suas tartes aqui.</p><p>Para minha surpresa, ela n�o me agradeceu, simplesmente cruzou os bra�os sobre o peito, como se estivesse � espera do �mas�.</p><p>� � tudo � acrescentei.</p><p>� N�o lhe vou pagar renda � disse ela. � O Titus j� tem lucro mais do que suficiente com as tartes.</p><p>� Nesse caso pode pagar-me com algum trabalho, limpando os meus recipientes, esse tipo de coisas. E tu � chamei o rapaz �, gostarias de ser meu assistente? Preciso de algu�m que rale os meus blocos de gelo todas as manh�s.</p><p>Ele arregalou os olhos.</p><p>� Posso usar um casaco bonito como o seu?</p><p>Ri-me.</p><p>� N�o, pois n�o ir�s � corte. Mas pago-te um dinheiro por semana.</p><p>Ele assentiu.</p><p>� Est� bem.</p><p>� Nesse caso, est� decidido. Mas ambos t�m de jurar solenemente que nunca revelar�o nada do que virem aqui. O processo � secreto e tenciono mant�-lo assim. Titus, pode emprestar-me uma B�blia?</p><p>Mais uma vez, fiquei surpreendido com as suas reac��es a um pedido t�o simples. Nenhum deles se mexeu e nos olhos da mulher havia � ou muito me enganava � uma express�o ardente de desafio.</p><p>� Para a jura � expliquei. � T�m de jurar sobre a B�blia que n�o contar�o a ningu�m como eu fa�o os meus gelos.</p><p>O estalajadeiro estava a torcer as m�os.</p><p>� Se me permite explicar, senhor, a posi��o da Hannah sobre o assunto�</p><p>� Sou perfeitamente capaz de me explicar sozinha � interrompeu a mulher. � N�s n�o fazemos juras.</p><p>Olhei para ela, estupefacto.</p><p>� N�o? Porqu�?</p><p>� Primeiro, porque n�o usamos Deus como uma esp�cie de talism� supersticioso ou um pap�o para assustar pessoas cr�dulas. Segundo, porque uma jura implica lealdade a uma autoridade superior � nossa pr�pria consci�ncia.</p><p>� Mas, se n�o jurar, n�o posso contrat�-la � ressalvei.</p><p>� Ent�o n�o me contrate � respondeu ela, simplesmente. � La�mento muito, mas � assim. Posso dizer-lhe que n�o trairei a sua confian�a; mas jurar, n�o juro.</p><p>� Compreendo. � Eu nunca me vira numa situa��o como esta. Mais uma vez me ocorreu que Fran�a e It�lia, apesar de separadas pelos Alpes, tinham muito mais em comum do que qualquer uma dessas na��es tinha com esta estranha ilha a apenas trinta quil�metros da costa de Fran�a.</p><p>Ela apontou para as paredes.</p><p>� Ent�o? Quer que retire as minhas coisas ou n�o?</p><p>� Deixe-as estar, por enquanto. Terei de pensar nisto. Entretanto, pode fazer algum trabalho para mim e veremos como se sai.</p><p>� Vou ficar � experi�ncia?</p><p>� Exactamente.</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Muito bem. � Disse-o como se estivesse a concordar com determinadas condi��es, e n�o a aceitar ordens de um patr�o. Perguntei-me se todos os criados dom�sticos em Inglaterra seriam t�o desprovidos de defer�ncia. Se assim fosse, era um espanto que se fizesse algum trabalho.</p><p>A pequena quantidade de gelo fresco que trouxera comigo de Fran�a rapidamente se esgotou. Mesmo que o rei n�o o tivesse sugerido, eu ver-me-ia obrigado a inspeccionar a sua casa de gelo.</p><p>O Parque de St. James era um espa�o bastante agrad�vel, embora, claro, n�o fosse nada em compara��o com Marly ou Versalhes. A meio, alinhado com as janelas dos aposentos do rei, havia um lago comprido e estreito, apenas um pouco mais largo do que um canal. Os terrenos eram salpicados por �rvores e vegeta��o rasteira, ao natural, e aqui e ali viam-se veados a pastar. No entanto, vi por todo o lado projectos abandonados ou por terminar. Um edif�cio ao estilo franc�s ainda n�o tinha telhado. Uma estrada, em direc��o a oeste, come�ava grandiosamente entre dois postes de pedra, mas desaparecia ao fim de cem metros. E o muro que rodeava o parque s� abrangia metade, pelo que qualquer pessoa que quisesse podia entrar sem impedimento.</p><p>A casa de gelo ficava no lado norte, perto de Picadilly Hall, numa ligeira inclina��o, sob algumas �rvores � a pior localiza��o poss�vel. Contudo, o caminho de tijolo sinuoso que levava � porta era bastante adequado e a porta de um tamanho sensato � pequena, baixa e virada para norte. No entanto, estava entreaberta.</p><p>Eu tomara a precau��o de trazer comigo algumas velas finas, para me dar luz, mas n�o precisava de me ter incomodado: entrava alguma luz do dia por baixo do beiral do telhado e j� havia uma vela acesa na parede. Contudo, apesar da luz, n�o olhei para baixo e, assim que dei um passo para o interior, vi-me mergulhado em �gua suja e gelada at� ao tornozelo. Tirei o p�, com uma impreca��o, e percebi que n�o estava s�.</p><p>� Precisamos de palha, John � estava uma voz a dizer do outro lado do gelo. � Palha em fardos, para colocar � volta. Mas a palha apodrecer� com esta humidade, portanto primeiro temos de escoar o ch�o.</p><p>� Ainda h� tr�s semanas o esco�mos � respondeu uma voz mais �spera. � E com certeza que a palha elevar� ainda mais a temperatura.</p><p>Ouvi passos a chapinharem na �gua em direc��o a mim. Ainda n�o conseguia ver ningu�m, pois a pilha de gelo bloqueava-me a vis�o para o outro lado da divis�o circular.</p><p>A primeira voz suspirou.</p><p>� A palha tem a propriedade de manter quente um s�tio quente, sim. Mas tamb�m manter� frio um s�tio frio.</p><p>� Ent�o, na pr�tica, mant�m o calor do lado de fora, n�o o frio do lado de dentro? � perguntou uma voz de mulher.</p><p>� Nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas sim� � basicamente isso, Elizabeth � respondeu o primeiro homem.</p><p>Ergui a voz e disse:</p><p>� A palha n�o vai resolver o vosso problema.</p><p>� Quem est� a�? � perguntou o homem de voz mais �spera. Uma lanterna ergueu-se e iluminou tr�s rostos. � O que faz aqui, senhor? Isto � propriedade do rei.</p><p>� E eu estou aqui por ordens dele. � Avancei. � Carlo Demirco, ao vosso servi�o.</p><p>� O confeiteiro?</p><p>� Ele mesmo.</p><p>O grupo que se aproximou de mim era formado por tr�s pessoas, envoltas em casacos grossos por causa do frio. O homem com a lanterna era, evidentemente, o que se chamava John. O outro, o que sugerira a palha, caminhava apoiado no bra�o de uma mulher e, na outra m�o, tinha uma bengala. Foi este homem que se dirigiu a mim em tom ansioso.</p><p>� Diga-nos, Demirco. <emphasis>Porque</emphasis> n�o � a palha suficiente?</p><p>� Nem toda a palha do mundo pode compensar uma concep��o deficiente.</p><p>� Aten��o � l�ngua � resmungou o homem mais rude. � Foi aqui o ilustre Robert Boyle que deu instru��es aos arquitectos, segundo os desenhos que Sir John Evelyn trouxe de It�lia.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� A constru��o � bastante boa. A localiza��o � que � fraca. E o escoadouro central est� bloqueado ou n�o � adequado.</p><p>� Um escoadouro central! � exclamou Boyle. � Claro! Como � que escoam estes locais em It�lia?</p><p>� Em Floren�a, colocam uma roda de carro�a sobre um cano central, para deixar sair toda a �gua derretida. O gelo aguenta-se mais tempo se estiver seco.</p><p>� Sim? � perguntou Boyle, interessado. � Agora que penso nisso, � poss�vel. A �gua � o elemento natural do gelo, portanto pode facilitar a transi��o dos corp�sculos de arrefecimento� Pod�amos confirm�-lo com uma simples experi�ncia. Venham.</p><p>Saiu apressadamente e dirigiu-se a um edif�cio imediatamente atr�s da casa de gelo. Todos o seguimos, a mulher porque ainda estava a apoiar-lhe o bra�o, eu e John apenas porque � pareceu-me � Boyle tinha um ar de comando natural.</p><p>� Cuidado, tio � disse a mulher, ansiosamente. � J� esteve vinte minutos ali ao frio e o doutor Sydenham disse�</p><p>� Se um homem adoecesse por causa do frio � interrompeu Boyle em tom jovial �, h� muito tempo que eu estaria morto. Aqui dentro, Demirco.</p><p>Abriu uma porta pesada e entr�mos numa divis�o iluminada e fria. Era, apercebi-me, uma esp�cie de oficina, com prateleiras cobertas de instrumentos qu�micos: alambiques, almofarizes, medidores e por a� fora.</p><p>� Que lugar � este? � perguntei, curioso.</p><p>Boyle estava j� a pesar alguns blocos de gelo pequenos e a apontar os pesos num bloco de notas.</p><p>� O meu laborat�rio. O meu segundo laborat�rio, melhor dizendo. Aqui, com a permiss�o do rei, levo a cabo as minhas investiga��es sobre o frio. � Olhou para mim. � Talvez ache estranho, senhor, que um qu�mico prefira trabalhar com gelo em vez de uma fornalha.</p><p>� De todo � respondi. � Passei a vida inteira a trabalhar com gelo e, apesar disso, estou convencido de que compreendo ainda muito mal as suas propriedades.</p><p>Ele acenou.</p><p>� Ent�o vamos pegar num pequeno peda�o de gelo e coloc�-lo em �gua, <emphasis>assim</emphasis>, e depois colocar outro igual assim, de forma a poder escoar. Qual derreter� mais depressa?</p><p>� � uma perda de tempo � disse eu, encolhendo os ombros. � J� sei a resposta.</p><p>� Talvez, senhor, mas eu n�o sei, e enquanto n�o a provar de for�ma satisfat�ria n�o a considerarei verdadeira. <emphasis>Nullius in verba</emphasis>, sim?</p><p>� � o lema da sociedade deles � explicou a mulher.</p><p>Veio-me � mente uma recorda��o vaga dos tempos de escola.</p><p>� �N�o existe verdade nas palavras, portanto n�o jurarei pela autoridade de qualquer mestre.� Hor�cio, n�o �?</p><p>� Muito bem � disse Boyle, com um aceno.</p><p>� Mas <emphasis>eu</emphasis> penso que os resultados desta experi�ncia podem ser exactamente opostos ao que o Signor Demirco descreveu � disse a mulher, com ar pensativo. � Porque o gelo numa bebida torna-a muito fria, enquanto o gelo no ar n�o arrefece a sala na mesma propor��o.</p><p>� Bom, veremos, veremos � disse Boyle alegremente. � Mas primeiro� � estava a remexer num monte de pap�is. � Aqui est�. Demirco, mostre-nos o que fizemos mal.</p><p>Abriu � minha frente os planos do arquitecto. Com eles tinha alguns esbo�os arrancados do bloco de notas de um viajante.</p><p>� O escoadouro fica aqui � disse eu, apontando. � Por�m, mesmo que acrescentem um escoadouro, ter�o o problema das �rvores. � melhor ter a casa de gelo afundada no solo, numa clareira aberta.</p><p>� Nesse caso, teremos de abater as �rvores e fazer taludes com a terra � disse Boyle. � O que me diz, John?</p><p>O outro homem suspirou.</p><p>� Se for necess�rio, assim faremos. Apesar de ainda n�o termos come�ado a trabalhar na ponte para a nova estrada do rei para Chelsea, nem nas gaiolas no passeio.</p><p>� As estradas podem esperar. O gelo derrete � disse Boyle. � Por falar nisso� � Virou-se para os blocos de gelo em cima da mesa.</p><p>� O que est� dentro de �gua parece realmente estar a encolher mais depressa � admitiu a sobrinha.</p><p>Boyle consultou um rel�gio de bolso.</p><p>� Gostava de me ter lembrado de adicionar uma terceira ta�a com sal. Seria interessante comprar at� que ponto isso acelera o processo.</p><p>� Quer dizer salitre � disse, e depois mordi a l�ngua. N�o devia estar a discutir os segredos da minha arte com nenhum ingl�s, muito menos com algu�m que era claramente capaz de os compreender.</p><p>Mas Boyle estava a abanar a cabe�a.</p><p>� Salitre? N�o, isso � muito antiquado. O salitre n�o faz mais do que o sal comum neste processo.</p><p>� Sal comum? � repeti. � Mas isso n�o� � parei, confuso.</p><p>Boyle lan�ou-me um olhar divertido.</p><p>� Garanto-lhe, senhor: se tem estado a usar salitre, tem andado a desperdi�ar muito dinheiro. Na realidade, � o sal no salitre que faz a tarefa que pretende. Os corp�sculos do sal s�o atra�dos pelos do gelo, libertando-os assim do seu estado s�lido.</p><p>� Pensava que nem todos os membros concordavam com a sua teoria dos corp�sculos, tio � murmurou a mulher.</p><p>Ele franziu a testa.</p><p>� N�o discordam. Alguns dos <emphasis>virtuosi</emphasis> precisam de mais provas, o que � uma quest�o completamente diferente.</p><p>� <emphasis>Virtuosi?</emphasis> � perguntei.</p><p>� O Col�gio Invis�vel � respondeu Boyle. � O Bando de Gresham.</p><p>� Ele refere-se � Real Sociedade de Londres para o Progresso do Conhecimento Natural � explicou Elizabeth. � Um grupo de fil�sofos naturais que investigam e debatem estas quest�es.</p><p>Boyle acenou afirmativamente.</p><p>� O frio � um dos nossos interesses particulares.</p><p>� Embora seja justo dizer � acrescentou ela �, que h� tantos outros fen�menos naturais abrangidos por essa designa��o que o frio dificilmente � �nico, nesse aspecto. Ou mesmo particular.</p><p>� Compreendo � disse. Depois ocorreu-me uma coisa. � As vossas� investiga��es filos�ficas conseguiriam dizer-me por que motivo certos l�quidos ficam mais espessos do que outros ao congelar?</p><p>� Prossiga � disse Boyle. � Pressinto um mist�rio interessante.</p><p>� Simplesmente� � Parei, sem saber bem como explicar. � Gostava de fazer um gelado verdadeiramente suave, que n�o rangesse entre os dentes, sem pedacinhos de �gua congelada l� dentro. Consegui uma vez, mas nunca mais fui capaz de descobrir o que fez com que resultasse.</p><p>� Um gelo que n�o contenha pedacinhos de gelo? � perguntou Boyle com um sorriso. � Bom, em compara��o com os planos da nova catedral ou a compreens�o do sistema circulat�rio, talvez n�o seja uma quest�o t�o urgente. No entanto, se bem conhe�o os meus colegas, � exactamente o tipo de problema capaz de captar a sua imagina��o. Pod�amos criar algumas experi�ncias, p�-lo no caminho certo e depois, se fosse bem-sucedido, publicar as nossas descobertas�</p><p>� Publicar? � interrompi rapidamente. � Como assim, publicar?</p><p>� Meu caro, n�o adianta de nada adquirir conhecimento se este n�o for tornado p�blico. � assim que a nossa sociedade funciona: cada experi�ncia � fielmente registada, debatida, verificada e posteriormente publicada, para benef�cio de todos.</p><p>� E � nessa altura � acrescentou Elizabeth �, que come�am geralmente as discuss�es.</p><p>� Ocasionalmente, h� algumas pequenas quest�es de preced�ncia ou originalidade a determinar � admitiu Boyle. � A quest�o � que nos debatemos por notoriedade experimental, n�o por vantagens comerciais.</p><p>� Talvez isto n�o seja muito boa ideia, afinal de contas � murmurei.</p><p>� Uma vez que a vantagem comercial � a sua <emphasis>raison d��tre</emphasis>? � Encolheu os ombros. � Muito bem, senhor, cabe-lhe a si decidi-lo. Como v�o os nossos blocos de gelo, Elizabeth?</p><p>� O que est� dentro de �gua est� quase derretido, enquanto o seco ficou simplesmente cil�ndrico � informou ela.</p><p>� Excelente! O que eu n�o daria por um termosc�pio preciso, para podermos medir as suas temperaturas relativas.</p><p>Vi Boyle fazer alguns apontamentos no seu bloco de notas, mais atingido pelo seu coment�rio anterior do que queria admitir.</p><p>� N�o se trata de vantagem comercial.</p><p>� O qu�?</p><p>� O motivo pelo qual fa�o isto. N�o � por dinheiro. Ou, pelo menos, apenas por dinheiro.</p><p>� Fico feliz por saber disso � disse Boyle em tom ligeiro. � Mas gostaria de lhe recordar o nosso lema: <emphasis>Nullius in verba.</emphasis> E embora as suas palavras lhe fa�am cr�dito, s� posso retirar as minhas conclus�es das suas ac��es.</p><p>� N�o posso revelar os meus segredos.</p><p>� Nesse caso, senhor, faria bem em n�o privar demasiado com cavalheiros como eu � disse Boyle �, j� que os segredos s�o, na nossa estimada opini�o, o inimigo ajuramentado da verdade. � Virou-se para a sua bancada de trabalho e compreendi que, apesar do tom cort�s, estava a ser dispensado.</p><p>Quando regressei ao Lion, mandei imediatamente que me entregassem sal. Elias trouxe-me um saleiro: algu�m na cozinha presumira que eu precisava de uma pitada de sal para temperar.</p><p>� Traz-me dois quilos de sal, o mais depressa que puderes � disse-lhe.</p><p>A crian�a pareceu confusa.</p><p>� N�o temos tanto.</p><p>� Ent�o vai comprar. De quanto dinheiro precisas? Um xelim? � Atirei-lhe uma moeda e vi-o arregalar os olhos. � Vai � disse. � E se houver um dinheiro de troco, podes ficar com ele, desde que estejas de volta em meia hora.</p><p>Quando ele voltou, eu j� estava preparado para efectuar a minha pr�pria experi�ncia. Ficara impressionado pela l�gica do teste de Boyle com o gelo, ao colocar os dois cubos de gelo lado a lado para ver qual derreteria mais depressa: tratei agora de fazer o mesmo, mas com misturas de gelo e sais. Numa <emphasis>sabotiere</emphasis> pus a minha mistura habitual de gelo e salitre � um cristal extra�do da urina de cavalos e humanos; e, como o botic�rio observara, um ingrediente essencial e caro da p�lvora; noutra, coloquei uma quantidade semelhante de gelo, � qual acrescentei sal de mesa comum.</p><p>Agora precisava de algo para gelar. N�o importava o qu�, por isso fui � cozinha e servi-me de um jarro do omnipresente leite-creme que eles faziam aos litros todos os dias, para as suas sobremesas.</p><p>Esperei vinte minutos e abri as tampas.</p><p>Dentro do primeiro recipiente estava uma massa densa e suave. Com uma colher, raspei uma apara de creme congelado. Abri o segundo pote e fiz o mesmo.</p><p>Depois sentei-me, a pensar.</p><p>Boyle tinha raz�o: afinal, o salitre n�o era necess�rio. Ahmad aceitara esta premissa com base numa f� cega, tal como fizera em rela��o a tantos outros aspectos deste processo. Agora que eu sabia a verdade, seria capaz de congelar uma mistura de gelo por quase nada � por meros tost�es.</p><p>Espantado, permiti-me uma breve impreca��o em italiano.</p><p>� O que �?</p><p>Virei-me. Hannah estava de p� atr�s de mim, a limpar as m�os a um pano. Sem pedir autoriza��o, pegou numa das tigelas de gelado e inspeccionou-o com curiosidade.</p><p>� Posso provar?</p><p>Rapidamente, tirei-lhe a tigela das m�os.</p><p>� N�o � para palatos vulgares.</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Bom, de qualquer maneira n�o preciso de provar. Tem falta de mais a��car.</p><p>� Fa�o estes pratos para cortes�os. N�o para quem despejaria a��car em qualquer prato, se pudesse.</p><p>� Queria apenas dizer � explicou ela, enquanto se afastava �, que mais a��car podia ajudar o leite-creme a solidificar melhor.</p><p>� A��car? Solidificar o leite-creme?</p><p>� Vejo que est� a aprender ingl�s pelo m�todo de repetir aquilo que ouve, <emphasis>signor</emphasis>.</p><p>� O que est� a fazer aqui, de qualquer maneira? � inquiri. � Esta copa deve ser privada enquanto eu estiver a trabalhar.</p><p>� Estava � procura do leite-creme que fiz de manh�. Mas vejo que foi transformado em gelado.</p><p>� Pode lev�-lo. Tome, ponha-o ao p� do lume e ficar� como antes. � Raspei a mistura congelada de novo para o jarro. Ao faz�-lo, provei-a, como era meu h�bito.</p><p>Era bom � surpreendentemente bom: e, apesar de eu n�o ter mexido o creme enquanto gelava, era cremoso e suave. Na verdade, quase t�o suave como o que eu fizera em Versalhes, aquele que me fizera ser banido da corte.</p><p>Embora precisasse de um pouco de a��car, para solidificar melhor.</p><p>Uma express�o entendida passou pelo rosto de Hannah.</p><p>� Ent�o?</p><p>Franzi a testa.</p><p>� Estes assuntos s�o secretos. Receitas que mais ningu�m tem, sen�o eu. N�o as discuto com ningu�m.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>�Temos de o tentar atrair para o prazer � diz lady Arlington. � Se conseguirmos arranc�-lo ao des�nimo, o resto seguir-se-� certamente.</p><p>A sua voz, com o forte sotaque holand�s, propaga-se at� � sala onde estou sentada. A voz do marido n�o penetra t�o facilmente � � um ribombar grave do qual apanho apenas algumas palavras.</p><p>� Mas o sofrimento � uma esp�cie de prazer � argumenta lady Arlington. � Pelo menos, uma forma de autocomplac�ncia. Hoje, Carlos est� a empanturrar-se de dor; amanh� ser� outro excesso diferente. Ambos derivam da mesma imodera��o de car�cter que sempre demonstrou.</p><p>Outro ribombar.</p><p>� Mas n�o temos de escolher � diz lady Arlington. � Pelo me�nos por enquanto ela pode ser ambas as coisas. Quanto ao resto� atravessaremos essa ponte quando l� chegarmos.</p><p>Ela vem ver-me, toda sorridente.</p><p>� Persuadi o Bennet a deixar-nos ir � corte, ver uma pe�a. Uma representa��o privada. O rei adora teatro, normalmente, mas desde a morte da irm� tem andado algo distra�do. Estamos com esperan�a de que esta divers�o possa despertar novamente o seu interesse.</p><p>� Parece maravilhoso � digo, obedientemente. Como h�spede, tenho pouco voto na mat�ria.</p><p>� E vou emprestar-lhe um vestido. Usar os da irm� do rei parece ter-lhe despertado o interesse, mas � melhor n�o o fazermos duas vezes. � Abre o meu roupeiro e estuda o que eu trouxe comigo. � No entanto, as roupas escuras ficam-lhe bem. Vou arranjar qualquer coisa em cinzento.</p><p>A pe�a, francamente, revela-se enfadonha. Somos apenas uns vinte na assist�ncia e a maioria dos espectadores parece ach�-la hilariante, embora, pessoalmente, eu me pergunte se estar�o a rir da gra�a da pe�a ou na esperan�a de fazer o rei rir tamb�m. � a hist�ria de um cortes�o que finge ser um plebeu para evitar casar com uma mulher de quem finge n�o gostar mas que, na realidade, pretende seduzir. Em vez de mostrar uma alegria que n�o sinto, adopto uma express�o de � espero eu � curiosidade delicada mas neutra.</p><p>A �nica outra pessoa que n�o se est� a rir � o rei. Enquanto os outros soltam risinhos e gargalhadas, ele est� silencioso. Ap�s algum tempo olho para ele e vejo que est� a olhar para mim. O seu olhar � desconcertante. Sinto-me corar e decido fixar apenas os actores.</p><p>No intervalo, s�o servidos gelos, mas embora lady Arlington os indique ao rei, este manda embora o criado com um aceno. Diz � pessoa ao seu lado, suficientemente alto para eu ouvir:</p><p>� O que acha da pe�a, lorde Clifford?</p><p>� Maravilhosamente divertida � garante-lhe lorde Clifford. � A melhor que ele j� fez.</p><p>� Eu acho-a for�ada.</p><p>� De facto, senhor. � um pouco for�ada.</p><p>� No entanto, est� a ach�-la hilariante.</p><p>� Divertida, senhor. Eu disse divertida. � divertida e for�ada.</p><p>� Ambos os actos foram longos de mais.</p><p>� Foram um pouco a dar para o longo � concorda lorde Clifford. � Mas isso n�o os tornou menos divertidos.</p><p>O rei est� agora a olhar para mim, n�o para o seu ministro, e pergunto-me se estar� a espica�ar o outro homem para meu benef�cio.</p><p>� � enfadonha e superficial.</p><p>� Digamos que compensa uma aten��o cuidada�</p><p>� As piadas eram ordin�rias e as personagens fracas. O que diz, <emphasis>mademoiselle</emphasis>? � De s�bito, est� a falar comigo.</p><p>� N�o consegui acompanhar tudo � respondo, cautelosamente. � De qualquer forma, prefiro as trag�dias. Aquilo a que Racine chama a sua tristeza majestosa. Se vou ser afectada, prefiro as l�grimas ao cinismo.</p><p>A boca dele estende-se num sorriso ir�nico.</p><p>� Nesse caso, veio ao s�tio certo, <emphasis>mademoiselle</emphasis>. Pois, em Inglaterra, a trag�dia � tudo o que conhecemos. � D� uma palmadinha na cadeira onde lorde Clifford est� sentado. � Venha sentar-se junto de mim. O meu franc�s sempre � melhor do que o de lorde Arlington. Posso traduzir-lhe as poucas piadas que sejam dignas disso.</p><p>Sinto os olhares que cruzam a sala enquanto me levanto e sento na cadeira que lorde Clifford deixou vaga, imediatamente e sem protesto � a indiferen�a calculada nos rostos de pessoas que n�o deixam passar nada e est�o instantaneamente a tentar adivinhar o que isto poder� significar.</p><p>Quando me sento, o rei murmura baixinho:</p><p>� Pelo menos, a sua presen�a tornar� este supl�cio toler�vel.</p><p>� Bem � diz lorde Arlington nessa noite, ao jantar, terrivelmente satisfeito. � Parece que � um sucesso, <emphasis>mademoiselle</emphasis>. O rei perguntou por si tr�s vezes, esta noite, depois de ter sa�do. � Prende um guardanapo na gola e pega no garfo. Orgulha-se dos seus modos continentais, embora, para dizer a verdade, eles fossem considerados afectados em Fran�a. � Quer saber quando pode visit�-la de novo. Claro que disse a Sua Majestade que ainda est� cansada da viagem.</p><p>� Foi muito atencioso da sua parte � respondo, educadamente. � No entanto, j� me sinto perfeitamente repousada.</p><p>� Ainda assim, n�o h� necessidade de apressar as coisas. � Crava o garfo alegremente na coxa gorda de uma galinha.</p><p>� Mas diga-me, lorde Arlington � insisto. � Se vou ser dama de companhia da rainha, n�o devia ser apresentada a Sua Alteza?</p><p>� A rainha raramente est� na corte � diz lady Arlington. � Desde o seu �ltimo aborto, tem estado muito mal de sa�de. Passou a maior parte do m�s passado na cama e os m�dicos est�o quase a desesperar.</p><p>� Lamento muito saber disso. Rezarei pela sua recupera��o.</p><p>� Neste pa�s, h� quem reze precisamente pelo contr�rio � diz Arlington calmamente. Come�a a falar em franc�s, presumivelmente para que os criados n�o compreendam o que est� a dizer. J� me apercebi de que isto significa uma conversa sobre religi�o ou pol�tica, ambos temas extraordinariamente perigosos por aqui. � Nada agradaria mais ao parlamento do que o rei ficar livre para casar com uma protestante. Escusado ser� dizer que isso seria um desastre, principalmente para Fran�a. Ser� que� � Lan�a-me um olhar pensativo.</p><p>� O que �, meu querido? � pergunta a mulher.</p><p>� Nada � responde ele em ingl�s. � Apenas um pensamento fugaz.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>N�o h� fruto t�o doce que n�o possa ser melhorado ao ser transformado num gelo. Tive a sorte de poder criar <emphasis>eaux glac�es</emphasis> dos frutos mais raros e posso dizer que congelam t�o bem, ou melhor, do que os frutos comuns do pomar.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Fui chamado para uma reuni�o com lorde Arlington � n�o em sua casa, onde Louise estava hospedada, mas no gabinete postal que j� visitara antes. Mais uma vez, fui acompanhado por Cassell.</p><p>� Ent�o � come�ou Arlington. � O rei recusa os seus gelos. N�o � o melhor dos come�os.</p><p>Encolhi os ombros. Dificilmente era culpa minha que o rei n�o comesse.</p><p>� Talvez ele aja de forma diferente se a irm� for invocada. � Fora Walsingham que falara.</p><p>Arlington semicerrou os olhos.</p><p>� Continue.</p><p>� Tal como esper�vamos, parece que ele est� bastante interessado em mademoiselle Carwell. Talvez�</p><p>� De Keroualle � interrompi, automaticamente.</p><p>Walsingham fez uma pausa.</p><p>� Desculpe?</p><p>� O nome dela pronuncia-se �De Keroualle�. N�o �Carwell�.</p><p>Walsingham acenou educadamente.</p><p>� Ele parece bastante interessado na rapariga. Talvez se ela lhe oferecesse um gelo e dissesse que era o preferido da irm�</p><p>� �ptima ideia. � Arlington virou-se para mim. � Qual era?</p><p>� Qual era o qu�?</p><p>Ele franziu a testa perante a minha lentid�o.</p><p>� O gelo preferido da irm� dele.</p><p>� Oh� � Encolhi novamente os ombros. � Ela n�o tinha nenhum preferido. Bebia apenas cordial de chic�ria para ajudar na digest�o.</p><p>� Ent�o invente um � disse Arlington, com um gesto indiferente. � Qualquer coisa serve. Afinal de contas, o gelo n�o � importante. � apenas um meio para atingir um fim.</p><p>� Mas que seja algo especial � sugeriu Walsingham. � � menos prov�vel que ele recuse se souber que � uma raridade.</p><p>� Um desses frutos extravagantes que Lu�s de Fran�a tanto admira � concordou Arlington.</p><p>Com alguma hesita��o, disse:</p><p>� Ter� de ser um anan�s.</p><p>Houve um breve sil�ncio.</p><p>� Anan�s! � exclamou Arlington. � Tem a no��o daquilo que est� a pedir?</p><p>� Tenho. No entanto, se querem algo verdadeiramente tentador, algo que o pr�prio rei de Fran�a consideraria precioso e admir�vel, nesta altura do ano, tem de ser anan�s.</p><p>Eu sabia, claro, que at� em Fran�a um �nico anan�s custava quase tanto como uma carruagem nova. Aqui, em Inglaterra, seriam sem d�vida ainda mais caros. Contudo, eram a ep�tome do luxo aristocrata. Os cortes�os de Lu�s constru�am estufas aquecidas para ananases nas suas propriedades de campo, onde o fruto � que era importado das col�nias ainda na �rvore, com raiz e tudo � podia ser replantado sob um vidro e acabar de amadurecer. As pessoas das classes menos elevadas alugavam ananases maduros ao dia, por quantias enormes, apenas para enfeitar as mesas e perfumar as suas salas de jantar, enquanto apenas os muito ricos podiam dar-se ao luxo de efectivamente comer um.</p><p>� O conde de Devon tem uma planta��o de ananases em Powderham Castle, da qual est� desmesuradamente orgulhoso � disse Walsingham com alguma hesita��o. � Creio que o ano passado se vangloriou de ter produzido quatro ou cinco frutos.</p><p>� Nesse caso, espero que fique desmesuradamente orgulhoso por ver os seus ananases transformados em gelo e oferecidos ao rei � disse Arlington. � Eu falarei com ele. � Levantou-se. Era evidente que a reuni�o chegara ao fim.</p><p>� H� ainda uma outra quest�o em rela��o � qual estou algo confuso � disse eu.</p><p>� Do que se trata? � perguntou Arlington.</p><p>� A rapariga� mademoiselle de Keroualle. Como sabem que ela representar� o seu papel?</p><p>� Oh, isso. � Arlington lan�ou-me um olhar divertido. � N�o somos completamente atrasados nessas quest�es por aqui, sabe. O assunto j� est� a ser tratado. A informa��o que nos deu sobre ela foi muito �til.</p><p>Eu n�o me lembrava de lhes ter dado qualquer informa��o sobre Louise que pudesse ter sido �til, al�m do facto de ela n�o ser o tipo de mulher que concordaria com o esquema deles. Mas os dois homens j� estavam a arrumar os seus pap�is e n�o tive oportunidade de fazer mais perguntas.</p><p>Voltei para Vauxhall ainda a pensar nas palavras de Arlington. Ent�o Louise, ao que parecia, concordara em agir de acordo com os planos deles. Todas aqueles declara��es solenes de virtude, em Fran�a, tinham sido t�o s�lidas como ar, postas de lado na sua ansiedade para se deitar com um rei.</p><p>Era como Olympe dissera: todas as mulheres s�o uma mercadoria. Isso, por si s�, n�o era uma descoberta particularmente chocante � na verdade, era �bvio. Ent�o porque me sentia eu quase <emphasis>desapontado</emphasis> com Louise de Keroualle? Afinal de contas, era vantajoso para mim que ela compreendesse aquilo que se pedia dela. Eu s� podia voltar para Fran�a depois de a nossa miss�o estar cumprida e, da maneira que as coisas estavam, era bastante prov�vel que viesse a ser ela, e n�o eu, o instrumento do nosso sucesso.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Nessa noite, quando j� estou deitada, lady Arlington vem ver-me. Est� de camisa de noite, como eu, com o cabelo solto.</p><p>� Tem tudo o que precisa? � pergunta com um sorriso, sentando-se na beira da cama.</p><p>� Tudo, obrigada. Tem sido muito hospitaleira.</p><p>� E a cama � confort�vel?</p><p>� Maravilhosa. � Bocejo. � Faz-me sentir ensonada.</p><p>� Esta foi a cama onde me deitei pela primeira vez com o Bennett, depois do nosso pequeno-almo�o de casamento � diz, pousando a m�o na colcha como que a indicar o local exacto. � � um dia feliz, quando uma rapariga se transforma em mulher.</p><p>� Quando se casa, � o que quer dizer.</p><p>Ela n�o me responde directamente. Em vez disso, estende a m�o e acaricia-me o cabelo.</p><p>� � uma jovem encantadora. Mas imagino que j� deve saber disso. E t�o charmosa! Quem sabe� talvez atraia os olhares de um marido adequado, enquanto estiver aqui em Inglaterra.</p><p>O meu rosto deve ter revelado surpresa, porque ela sorri.</p><p>� N�o tinha pensado nessa possibilidade?</p><p>� Os meus pais teriam uma palavra a dizer sobre esse assunto � respondo, cautelosamente.</p><p>� Claro. Mas dependeria muito da posi��o do seu potencial marido, n�o � verdade? A um certo n�vel, estas coisas fazem-se atrav�s de alian�as entre pa�ses. Eu pr�pria era Elizabeth van Nassau-Beverweet antes de me casar com lorde Arlington.</p><p>� N�o estou realmente a pensar em nada desse g�nero � protesto.</p><p>� Mas porque n�o? Al�m do mais, se aquilo que ouvi estiver correcto, n�o tem muitas op��es.</p><p>� O que quer dizer?</p><p>� Apenas que j� tentou encontrar um marido adequado em Fran�a, sem conseguir � responde ela. � E, se n�o tiver sucesso aqui em Inglaterra, n�o poder� regressar nunca mais a Versalhes. Ent�o, para quem estaria exactamente a guardar-se? � Sorri tristemente, para mostrar que n�o tem m�s inten��es, e d�-me uma palmadinha na perna por cima das cobertas. � Bom, deixo-a descansar. � Dirige-se � porta, parando apenas para apagar a vela em cima da c�moda. � Boa-noite, Louise. Bons sonhos.</p><p>Durante algum tempo fico ali, deitada na escurid�o, a pensar no que ela disse. � evidente que os Arlington t�m algum plano em mente � algum pretendente ou alian�a que desejam promover. Mas quem? E porque estar�o a ser t�o enigm�ticos? Tenho a desagrad�vel sensa��o de que estou a ser envolvida nalguma intriga nova e complicada, cujas ramifica��es ainda n�o consigo discernir completamente, muito menos controlar.</p><p>Ao pequeno-almo�o, eles regressam ao assunto. Por�m, � evidente que conversaram durante a noite: os seus argumentos agora s�o mais refinados, as suas frases menos obl�quas.</p><p>� Not�cias da corte � informa lorde Arlington, ao ler um bilhete trazido pelo mordomo. � Tenho aqui o �ltimo relat�rio do m�dico da rainha. Infelizmente, parece que os nossos piores receios se confirmam.</p><p>� Tenho de preparar as nossas roupas de luto e as sedas negras para a carruagem. Parece certo que precisaremos delas antes do fim do ano.</p><p>� � verdade. Pobre mulher.</p><p>� H� mais alguma not�cia � pergunta lady Arlington �, sobre quem o rei poder� desposar, depois de ela morrer? Paz � sua alma.</p><p>Arlington encolhe os ombros.</p><p>� T�m havido algumas discuss�es. Informais, claro. Como sabe, o rei tem a ideia rom�ntica de que gostaria de casar por amor. Mas esse � um luxo a que os reis raramente se podem dar.</p><p>� � verdade. E o parlamento querer� que ele case com uma protestante.</p><p>� Ah! � Lorde Arlington inclina-se para a frente. � Mas caber� essa escolha ao parlamento? � Paris, e n�o o parlamento, que se encontra neste momento em ascend�ncia. E Lu�s querer� algu�m que possa cimentar a grande alian�a.</p><p>� Uma cat�lica?</p><p>Ele acena afirmativamente.</p><p>� De prefer�ncia, estou certo, uma cat�lica de Fran�a.</p><p>Apanhada a levar um peda�o de torrada � boca, n�o compreen�do inicialmente o significado de tudo isto. Depois percebo. Se n�o estivesse a comer, acho que o queixo me teria ca�do.</p><p>Como me devem considerar est�pida por n�o ter percebido antes.</p><p>� Ent�o, se Carlos j� estivesse interessado numa pessoa assim� � est� lady Arlington a dizer.</p><p>� Exacto � responde o marido, com um aceno. � Toda a gente ficaria encantada.</p><p>N�o resiste a lan�ar-me um breve olhar de soslaio, para se certificar de que eu compreendi.</p><p>Caminho pelo jardim, pensando furiosamente.</p><p>Ent�o � este o plano de Arlington � promover um casamento entre mim e Carlos II! � primeira vista, parece uma proposi��o assombrosa. As mulheres dos reis s�o princesas de sangue real, n�o filhas de fam�lias empobrecidas. Trazem com elas vastos dotes, alian�as estrat�gicas, pretens�es a tronos distantes.</p><p>No entanto, se Lu�s e Carlos o quisessem ambos, um casamento destes seria poss�vel. Fran�a � t�o poderosa na Europa, neste mo�mento, que uma francesa de nascimento nobre podia ser considerada o equivalente a um membro da realeza de um pa�s inferior. E, do ponto de vista do meu pr�prio rei, uma francesa no trono de Inglaterra seria um sinal vis�vel de que o tratado � inquebr�vel. Uniria os nossos dois pa�ses por uma gera��o.</p><p>Penso no que os meus pais diriam, se eu me tornasse rainha de Inglaterra. Ou como Lu�s os recompensaria. As minhas irm�s mais novas estariam entre as jovens mais desej�veis de Versalhes. O meu pai teria novas terras; dinheiro para reconstruir a nossa casa em Brest� eu teria alcan�ado tudo aquilo que eles pretendiam quando me enviaram para Versalhes.</p><p>E os meus filhos � os <emphasis>nossos</emphasis> filhos: os filhos que Carlos e eu ter�amos juntos � seriam de sangue real. Teriam dentro deles aquela por��o de divindade de Deus que corre pelas veias de todos os membros da realeza. Eu seria a m�e de pr�ncipes. Nessa categoria, possuiria poder � um poder superior at� ao de Madame. Essa grande vis�o que ela tivera � a vis�o de uma Europa unida sob uma s� f� � estaria ao meu alcance.</p><p>Como poderia eu ter alguma vez sonhado, quando pensava que me iam enviar de Paris para casa, fracassada, que se me apresentaria esta oportunidade muito superior?</p><p>Abruptamente, sacudi a cabe�a, zangada comigo pr�pria. <emphasis>Espera. Pensa claramente.</emphasis> Se fosse realmente essa a inten��o de Lu�s quando me enviara para c�, com certeza que ele ou Lionne o teriam dito. N�o teriam deixado nas m�os do encantador mas, suspeito, algo interesseiro, lorde Arlington, a tarefa de me explicar a situa��o.</p><p>Portanto este esquema era de Arlington, n�o de Lu�s. De qualquer forma, n�o significava necessariamente que Lu�s desaprovasse, se as coisas corressem nesse sentido.</p><p>Se Carlos o desejasse, por outras palavras.</p><p>Reflicto, tentando ver a situa��o com clareza. Obviamente que, acima de tudo o resto, h� a pequena quest�o de a rainha actual ainda n�o estar morta, e at� discutir a morte de uma rainha � trai��o, quanto mais desej�-la. Claro que as pessoas falam dessas coisas � a sucess�o, em qualquer pa�s, � um assunto extremamente importante � mas falar disso da maneira errada, ou com a pessoa errada, � arriscar cair em desgra�a.</p><p>Depois, existe tamb�m algo quase demasiadamente perfeito quanto ao momento de tudo isto, a forma como tudo me foi estendido � frente, como uma m�o de cartas com o rei por cima, quase a pedir que lhe pegasse para jogar.</p><p>Recordo de novo as palavras embriagadas de Buckingham. <emphasis>Foi enviada para o seduzir.</emphasis> Entre essa acusa��o grosseira e as sugest�es mais agrad�veis dos Arlington, onde estaria a verdade?</p><p><emphasis>Ser rainha. Ser rainha.</emphasis> � como um murm�rio que anda �s voltas na minha cabe�a. Sem ter inten��o disso, dou por mim a caminhar com uma postura mais direita, um porte um pouco mais r�gio, enquanto me dirijo novamente a casa.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>A diferen�a entre um simples <emphasis>sorbetto</emphasis> e um gelado � t�o grande como a diferen�a entre giz e queijo.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Tinha pouco com que me ocupar enquanto aguardava a chegada do anan�s. Mandava geleias e cordiais gelados para a corte e passava o resto do tempo a fazer experi�ncias.</p><p>Na verdade, sabia que era t�o novato nisto como fora em tempos na feitura de gelos, e precisava desesperadamente da orienta��o de Boyle ou de outro fil�sofo natural. No entanto, Boyle deixara bem claro que n�o me ajudaria a menos que eu concordasse em tornar p�blicas as minhas descobertas, portanto, at� ver, estava por minha conta.</p><p>Determinado a prosseguir usando a mesma abordagem l�gica que um qu�mico como Boyle empregaria, comecei por regressar ao gelo de p�ra que fizera em Fran�a e tentei recri�-lo exactamente como antes. Mas o processo acabou por n�o se revelar simples. Parecia que a rela��o entre os v�rios ingredientes era quase impossivelmente complexa � reduzir a quantidade de a��car tornava a textura menos gelada, mas tamb�m tornava quase imposs�vel congelar a mistura: o <emphasis>cr�me anglaise</emphasis> por vezes congelava suave, mas outras vezes formava grumos, como ovo mexido, enquanto alterar as propor��es de p�ra e nata o transformavam de um gelo cremoso e suave numa porcaria l�quida e peganhenta.</p><p>Durante estas experi�ncias, Hannah lavava os meus pratos e Elias ralava o meu gelo. Com alguma surpresa, percebi que ambos eram bons trabalhadores, e n�o tinha quaisquer queixas da sua aplica��o. Lembrei-me das palavras do espi�o franc�s. <emphasis>Acreditam em trabalho duro, estes protestantes, quase religiosamente, poder-se-ia mesmo dizer.</emphasis> N�o voltara a repetir-se a atitude de desafio em rela��o �s juras e, pela minha parte, decidi n�o falar mais no assunto.</p><p>No entanto, era evidente que Hannah n�o era o tipo de criada a que eu me habituara em Fran�a.</p><p>� Porque � que um cordial gelado � melhor do que ao natural? � perguntou-me Elias, um dia.</p><p>� Porque refresca o palato dos cortes�os suficientemente afortunados para o provarem.</p><p>� Mas porque � que simplesmente n�o despem os casacos para refrescar?</p><p>Era tentador dizer-lhe que parasse com as perguntas; mas havia qualquer coisa no rapaz que me fazia lembrar a minha pr�pria curiosidade quando comecei a trabalhar para Ahmad.</p><p>� Porque um gelo cremoso � mais delicioso do que despir o casaco � respondi, pacientemente.</p><p>� Posso provar um bocadinho?</p><p>� N�o.</p><p>� Porqu�?</p><p>� N�o � para o gosto de crian�as.</p><p>� Ent�o porque � que os cortes�os gostam, se as crian�as n�o gostam?</p><p>� Porque os cortes�os s�o idiotas. � Era Hannah, a interromper sem que ningu�m lhe tivesse dirigido a palavra. Viu a minha express�o. � � apenas a verdade � disse, nada atrapalhada. � E mais vale que ele a saiba desde j�.</p><p>N�o lhe respondi directamente, mas falei com o rapaz.</p><p>� Os cortes�os est�o habituados a magnific�ncia. Conseguem apreciar coisas especiais, �s quais t�m direito em consequ�ncia da sua nobreza e dos seus servi�os ao rei.</p><p>Um som vindo da direc��o de Hannah indicou o seu desacordo.</p><p>� A corte � a origem de todos os nossos problemas.</p><p>� Sem a corte, n�o haveria governo � observei.</p><p>� Neste pa�s, temos a felicidade de ter um parlamento, que governou o pa�s perfeitamente bem enquanto o rei vivia no es�trangeiro.</p><p>� Quando o �ltimo rei foi sido assassinado <emphasis>pela popula�a</emphasis> � respondi, em tom cortante �, e o seu filho se viu obrigado a <emphasis>ir para o ex�lio</emphasis>, dizem-me que este pa�s ficou nas m�os de um ditador.</p><p>� O parlamento n�o � perfeito � admitiu ela. � Quanto ao rei Carlos� n�o h� d�vida de que, desde a morte da irm�, ele tentou livrar-se de alguns dos libertinos e sanguessugas que o rodeavam. Mas � tamb�m um fraco e, quando a sua dor passar, voltar� ao que era antes. Quer isto dizer � disse, lan�ando-me um olhar de soslaio �, aos seus costumes de cat�lico. Facilmente se deixa distrair por todo o tipo de prazeres e novidades, especialmente se tiverem o elegante selo de aprova��o de Fran�a.</p><p>Esta avalia��o era, claro, t�o id�ntica � das pessoas que me tinham enviado que, por um momento, n�o soube o que dizer.</p><p>� Bom, n�o ser� distra�do pelos meus gelos, pelo menos � disse, por fim. � S�o apenas �guas e cordiais gelados. N�o h� neles nada que possa mudar o car�cter de uma pessoa, quanto mais a sua religi�o.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Estou a ser exibida.</p><p>De cada vez que lady Arlington sugere um passeio no parque, ali est� o rei, tamb�m a passear com a sua corte. Paramos, trocamos cumprimentos e palavras de circunst�ncia. <emphasis>Como est� a dar-se por c�? Bem, obrigada, senhor. Suponho que tem saudades dos seus amigos? Senhor, estou a fazer tantos amigos novos aqui que ainda n�o tive tempo para pensar nisso.</emphasis></p><p>N�o falamos sobre a irm� dele, nestes encontros p�blicos. Mas o sofrimento � a dor com que ele se debate mesmo durante estas simples trocas de palavras � � demasiado evidente.</p><p>E depois, precisamente quando ele pigarreia e se prepara para me perguntar mais qualquer coisa, lady Arlington faz as suas despedidas. O mesmo acontece quando sa�mos a cavalo, ou quando jogamos <emphasis>paille maille</emphasis>.</p><p>Mesmo no rio, onde me levam para aprender a remar, os meus esfor�os desastrados atraem um olhar de uma janela aberta no pal�cio: ali est� o rei com uma pilha de pap�is, um grupo de conselheiros, assuntos de Estado, a olhar para baixo. Acena-me de forma cort�s; o aceno real, com uma m�o aberta, como um agricultor a espalhar sementes.</p><p>No entanto, uma vez que nunca tinha sido exibida, n�o acho a sensa��o completamente desagrad�vel. Quando me afasto dele sinto o seu olhar sobre mim, tal como conseguimos sentir o calor do sol sobre a pele mesmo se fecharmos os olhos. Por vezes, at� me permito um breve olhar para tr�s por cima do ombro, para ver se ele ainda est� a olhar para mim. Estarei a ser coquete? H� uma parte de mim estupefacta com o meu pr�prio comportamento, outra que acha esse pensamento divertido.</p><p>E uma parte que pensa: <emphasis>Tenho de me comportar como uma confidente preferida, nada mais.</emphasis> A acusa��o grosseira de Buckingham foi �til: serve-me de aviso. <emphasis>Ningu�m pode ter nada a censurar-me.</emphasis></p><p><emphasis>Ser rainha. Ser rainha.</emphasis></p><p>Agora o rei est� a jogar t�nis. Numa bancada encostada a um dos lados do edif�cio, os cortes�os assistem.</p><p>Ele joga bem, o corpo alto move-se com uma rapidez surpreendente enquanto salta de um lado para o outro do campo. Apesar disso, parece-me que o homem mais jovem com quem ele joga conseguiria ganhar, se quisesse. Sempre que conquista um ponto � poss�vel ver a sua hesita��o, como se receasse ter ido longe de mais.</p><p>O rei tamb�m o sabe. Assim que vence o outro homem, chama com impaci�ncia outro advers�rio.</p><p>� Jogamos por amor ou por pontos, senhor? � pergunta o pr�ximo jovem.</p><p>� Pontos � responde Carlos secamente. � O amor n�o tem lugar no campo de t�nis.</p><p>� Apenas na corte do rei? � diz o outro jogador. Ouvem-se risos e alguns olhares voltam-se para mim. Finjo n�o reparar, mas o meu cora��o bate um pouco mais depressa.</p><p>Este advers�rio � mais inteligente do que o anterior: acumula uma boa vantagem para que o rei sinta o desafio de ter de a ultrapassar. Ao meu lado, lady Arlington murmura-me ao ouvido:</p><p>� � bom sinal, h� meses que ele n�o jogava assim. N�o acha que joga bem? � um atleta, um homem muito atraente, al�m de monarca. Tamb�m sabe nadar, e muitas vezes vai a p� at� Hampton Court. Para n�o falar do seu desporto com as senhoras.</p><p>� �As senhoras�? � repito, abismada.</p><p>� Oh, o rei � um amante ex�mio � diz ela com um sorriso maldoso. � Al�m de todos os seus outros talentos.</p><p>Sinto-me corar.</p><p>� Lady Arlington�</p><p>� Pe�o desculpa. Estou a ser demasiado franca? Talvez viva h� tempo a mais em Inglaterra. Por aqui, s�o quase ridiculamente descontra�dos em rela��o a essas coisas. Por outro lado, <emphasis>mademoiselle</emphasis>, tamb�m j� n�o � nenhuma crian�a, pois n�o? Estou certa de que sabe do que estou a falar. � D�-me uma leve cotovelada. � Afinal de contas, por aquilo que tenho ouvido, Madame n�o era nenhuma santa.</p><p>N�o respondo. Nunca me tinha ocorrido que a inoc�ncia nestas quest�es pudesse ser considerada uma infantilidade.</p><p>Al�m do mais, h� verdade suficiente no que ela diz para me deixar desconcertada. Eu sabia que para Madame, delicada e enfermi�a, as aten��es do marido eram um dever cada vez mais desagrad�vel. Por�m, n�o podia esquecer aquela ocasi�o em que <emphasis>monsieur</emphasis> estava fora e eu entrara no escrit�rio dela � procura de penas para escrever. E ali estava Madame, deitada de costas no div�, com as pernas fr�geis enroladas � volta das ancas do rei enquanto o monarca se soerguia sobre ela, com a camisa comprida desabotoada, as pernas nuas e peludas� Eu recuara, chocada, e fechara rapidamente a porta. N�o conseguia encontrar sentido naquilo que vira. Madame nunca se deitaria com Lu�s para obter vantagens pessoais. Ent�o porqu�? Por amor? Eu n�o diria que existia paix�o entre eles, mas sim amizade; a compreens�o profunda daqueles que nasceram em posi��es semelhantes.</p><p><emphasis>N�o compreendo as rela��es sexuais</emphasis>, penso, e essa consci�ncia irrita-me. Ser inteligente e, ao mesmo tempo, t�o ignorante � saber tocar instrumentos, falar v�rias l�nguas e escrever cartas diplom�ticas, e contudo compreender t�o pouco deste desejo, aparentemente o mais fundamental dos desejos� era como ver um jogo de t�nis sem compreender as regras.</p><p>N�o que compreenda completamente tamb�m as regras do t�nis, penso, com um esfor�o para me concentrar no jogo. A competi��o entre o rei e o cortes�o est� agora mais intensa, como um duelo ou a luta de dois veados no cio. Carlos lan�a uma bola alta que cai por tr�s do seu advers�rio. O jovem consegue ainda tocar-lhe com a raquete mas, nesta altura, Carlos j� est� junto da rede. Golpeia a bola para o interior do campo. Sei o suficiente para perceber que esta � considerada a forma mais decisiva de vencer o ponto.</p><p>O rei agradece os aplausos dos espectadores com uma reviravolta da raquete. Depois, ainda ofegante, olha directamente para mim.</p><p>� Ele joga para si � diz lady Arlington entre dentes, aplaudindo furiosamente. � Sorria. Agora tem de jogar para ele.</p><p>Enquanto os jogadores bebem cordiais frescos, a corte dispersa. Reconhe�o uma figura de sobrecasaca francesa que se afasta com uma caixa de gelo nos bra�os.</p><p>� Signor Demirco � chamo.</p><p>Por um momento ele hesita � mas depois apressa o passo e vejo-me obrigada a correr atr�s dele.</p><p>� Espere � chamo. � Signor Demirco, espere!</p><p>Por fim, ele n�o tem outra alternativa sen�o parar.</p><p>� N�o me ouviu? � pergunto, espantada.</p><p>� Ouvi � responde ele secamente.</p><p>� Ent�o porque est� t�o zangado?</p><p>Parece-me que ele quase diz qualquer coisa, mas pensa duas vezes.</p><p>� Por nada � responde, por fim. � Como est�? Ouvi dizer que a sua diplomacia est� a ter grande sucesso.</p><p>Ser� imagina��o minha, ou h� uma sugest�o de esc�rnio na palavra �diplomacia�? Um pouco aborrecida, digo:</p><p>� E eu ouvi dizer que a sua nem por isso.</p><p>Ele encolhe os ombros.</p><p>� Julga-se que h� mais probabilidades de o rei aceitar os meus gelos se for a Louise a oferec�-los.</p><p>� E � por isso que est� t�o� carrancudo? Tem o orgulho ferido?</p><p>� N�o estou carrancudo, como diz � responde ele, ainda em tom seco. � Nem tem nada a ver com o meu orgulho. Pelo contr�rio, o seu sucesso ser� a minha passagem de regresso a Fran�a. Por falar nisso, como deve estar feliz agora por n�o ter aceitado o meu pedido de casamento em Versalhes!</p><p>� Nunca poderia ter aceitado, de uma maneira ou de outra � respondo, cuidadosamente �, tendo em conta o abismo entre as nossas origens. No entanto, uma vez que os nossos amigos m�tuos o informaram, evidentemente, da minha poss�vel sorte nesse aspec�to, direi que sim, ainda bem que n�o aceitei. Contudo, <emphasis>signor</emphasis>� talvez seja melhor que esse epis�dio em particular permane�a apenas entre n�s. Um pedido de casamento, mesmo recusado, pode ser visto como uma mancha no meu bom nome, e a minha reputa��o ser� agora mais importante do que nunca.</p><p>� A sua reputa��o? � murmura ele. � Oh, por favor. Poupe-me. Quer apenas dizer que agora tem coisas mais importantes em vista.</p><p>Zangada, digo:</p><p>� Estou a ajudar o rei a recuperar o �nimo� coisa que os seus gelos, ao que parece, s�o incapazes de fazer.</p><p>Ele curva-se numa v�nia.</p><p>� � verdade. Tem a minha gratid�o. � E afasta-se, com express�o tempestuosa.</p><p>Fico a olhar para ele, exasperada. Parece que os sentimentos do confeiteiro ainda est�o algo feridos. Claro que o lamento muito � apesar de isso me surpreender � mas n�o posso permitir que estas coisas me afastem da minha tarefa.</p><p>Nessa noite, Arlington e a mulher t�m uma conversa atr�s de portas fechadas. Mais tarde, lady Arlington vem ao meu quarto. Manda a criada embora e penteia-me ela pr�pria o cabelo, com exclama��es de admira��o pela espessura dos carac�is apertados que se soltam sob os seus dedos, indom�veis como sempre. Nunca consegui domin�-los completamente.</p><p>� De qualquer maneira, creio que ambas conhecemos algu�m que os admira � diz em tom de provoca��o, e eu coro. � Diga-me � continua, no mesmo tom de voz calmo. � Quando s�o as suas regras mensais?</p><p>Um pouco embara�ada, respondo:</p><p>� Tenho tudo o que preciso, obrigada.</p><p>� N�o estou a falar <emphasis>disso</emphasis> � diz ela, imperturb�vel. � Refiro-me ao rei. Para que possa procur�-lo na altura certa. � Sorri-me de forma tranquilizadora pelo espelho. � Quer que ele se apaixone por si, n�o quer? � A sua m�o no pente n�o hesita nem por um segundo, continuando a mover-se de forma t�o regular como a de um mo�o de estrebaria a escovar um cavalo.</p><p>� Eu� n�o sei � respondo, com hesita��o.</p><p>� Eu acho que sim � murmura ela. � S� pode querer. A maneira como ele a olha� Pretende mais de si do que consolo para a tristeza. Muito mais. Que sorte a sua!</p><p>� N�o! � exclamo. � N�o seria capaz disso. Nunca.</p><p>Ela separa-me o cabelo ao meio e puxa-o para o lado.</p><p>� J� pensou em us�-lo assim? � pergunta, mudando de assunto t�o naturalmente como se n�o estiv�ssemos a discutir nada mais importante do que uma nova <emphasis>coiffure</emphasis>.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>�nicos entre as sobremesas, os gelos despertam, em igual medida, curiosidade e assombro.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Poder-se-ia pensar, em resultado das minhas conversas com eles so�bre juras, cortes�os e outros assuntos, que os criados do Red Lion eram um grupo invulgarmente devoto. Na realidade, rapidamente me apercebi de que o local era pouco melhor do que um bordel.</p><p>No continente, um homem sabe que est� a visitar uma casa de m� reputa��o e que, depois de conclu�dos os seus assuntos, pode fechar a porta e esquecer tudo o que l� se passou. Em Inglaterra, a demarca��o entre estalagem e prost�bulo, criada e meretriz, era bastante menos definida � na verdade, eles t�m uma palavra, <emphasis>rameira</emphasis>, que descreve uma mulher que ocupa a posi��o mais baixa na hierarquia dos criados dom�sticos mas indica tamb�m que provavelmente estar� dispon�vel para tudo o que mais lhe possa ser pedido. Rapidamente se tornou evidente que, no Red Lion, havia v�rias rameiras que completavam os seus sal�rios desta forma. Estas jovens � Mary, Rose e mais duas ou tr�s � trabalhavam abertamente nas salas de refei��es � noite, indo de cliente em cliente com o pretexto de lhes levar cerveja, metendo-se com eles de forma sedutora e depois desaparecendo com eles para um dos quartos no s�t�o.</p><p>Inicialmente, fiquei um pouco aborrecido quando descobri o tipo de lugar onde me encontrava � n�o porque o v�cio propriamente dito me incomodasse, mas porque em Fran�a ou It�lia, ter a base do nosso neg�cio num bordel seria motivo para a retirada imediata do alvar� real. Em Inglaterra, contudo, era evidente que as coisas n�o eram t�o simples. Na verdade, quando falei nisso a Robert Cassell, ele pareceu quase divertido.</p><p>� Bom, claro que sim � disse. � O que esperava? � uma taberna londrina.</p><p>� As autoridades n�o se op�em?</p><p>� Em teoria, sim� mas na pr�tica t�m coisas mais importantes com que se preocupar.</p><p>As estalagens de Londres, explicou-me, tinham sido antros de dissid�ncia durante a Rep�blica, servindo muitas vezes de assento a reuni�es parlamentares informais de homens e mulheres trabalhadores. Algumas tinham at� as suas pr�prias prensas, nas quais produziam jornais e op�sculos revolucion�rios que a popula�a devorava avidamente. Depois da purga necess�ria ap�s a Restaura��o, decidira-se que a prostitui��o era o menor dos muitos males que era preciso resolver.</p><p>� N�o existe uma �nica criada de balc�o em Londres que n�o se possa comprar com meio xelim de prata � concluiu ele.</p><p>� Mas julgava que as pessoas aqui eram puritanas, antes da Restaura��o?</p><p>� Algumas, sim, mas havia muitos tipos de dissidentes e todos ti�nham opini�es diferentes sobre aquilo que era aceit�vel. Cavadores, Quakers, Oradores, Igualitaristas, a Fam�lia do Amor, Muggletonianos, Quintos Mon�rquicos� Foram todos proibidos entretanto, mas du�rante algum tempo a Inglaterra teve quase tantas seitas loucas como condados. Algumas, como os Oradores ou a Fam�lia do Amor, eram praticamente indistingu�veis de libertinos, excepto que no caso deles disfar�avam com uma data de disparates sobre Cristo em N�s e comunalismo e irmandade. Mas, fosse qual fosse a seita,</p><p>o que todas tinham em comum era a recusa total em aceitar outra autoridade que n�o a sua.</p><p>Pensei na atitude estranhamente desafiadora de Hannah � expuls�o da sua copa. Em Fran�a ou It�lia, uma criada teria obedecido sem debate, mas eu percebia agora que as pessoas aqui, depois de terem saboreado a revolu��o, podiam ter alguma dificuldade em livrar-se desse h�bito.</p><p>No entanto, nunca me passara pela cabe�a que Hannah estivesse entre essas criadas que, como Cassell me dissera, podiam ser compradas por meio xelim de prata, pelo que fiquei surpreendido quando assisti a uma alterca��o nesse sentido entre ela e um dos seus clientes. Os dois estavam escondidos atr�s de uma das s�lidas traves de carvalho escuro que sustentavam o tecto na sala de refei��es principal e a falar, apesar da raiva evidente, em voz baixa; provavelmente eu n�o teria sequer olhado para eles se n�o estivesse � espera que ela trouxesse a minha comida. Depois reparei em duas coisas. A primeira foi que o homem estava mais bem vestido do que a maioria dos clientes do Lion � quase t�o bem vestido como eu. A segunda foi que estava a apertar o bra�o de Hannah com for�a.</p><p>� N�o fales com os teus superiores dessa maneira � estava ele a dizer.</p><p>� Nenhum homem � superior a mim, nem nenhuma mulher � retorquiu ela. � O que o torna melhor do que eu, exactamente? A noite passada, eu estava disposta a aceitar o seu dinheiro e voc� estava disposto a oferec�-lo. A �nica diferen�a � que n�o voltarei a cometer esse erro.</p><p>A resposta dele foi dada em voz demasiado baixa para que eu a percebesse mas vi que estava a sacudi-la bruscamente enquanto falava, colocando em grande perigo a minha tarte, que quase caiu do prato que ela segurava na outra m�o.</p><p>� �para a pris�o, sua puta dissidente. N�o penses que n�o sou capaz.</p><p>Ela n�o respondeu a isto, mas vi que empalidecera. O homem soltou-a.</p><p>� Falaremos disto l� fora � disse, bruscamente, e virou-lhe costas.</p><p>Ela aproximou-se com a minha comida e tinha as m�os a tremer quando a pousou na mesa, embora a sua voz, quando me perguntou se precisava de mais cerveja, fosse seca e nivelada. Respondi que n�o e ela afastou-se sem mais uma palavra. Vi-a dirigir-se � porta por onde o homem sa�ra, que dava para o p�tio onde eram guardados os barris vazios.</p><p>Encolhi os ombros e dediquei a minha aten��o � tarte. Perguntara de que era antes de pedir; a resposta deixara-me na mesma, mas agora, ao perfurar a crosta com a faca, esta libertou uma baforada de calor fragrante, revelando v�rios peda�os macios e fumegantes de batata, algumas argolas p�lidas de alho-franc�s, lascas de frango num caldo cremoso, uma boa dose de tomilho e at� alguns peda�os de uma fruta escura que rapidamente descobri serem ameixas de conserva.</p><p>Contudo, havia algo a estragar o meu prazer, e era o conhecimento de que, enquanto eu comia a minha tarte, a mulher que a fizera estava l� fora, entregando-se a um homem que desejava claramente recusar. A culpa talvez fosse dela, mas eu n�o gostara do aspecto do tipo, nem da maneira como a sacudira pelo bra�o, e desconfiava de que ele n�o estaria certamente a ser mais meigo com ela neste momento.</p><p>Com um suspiro, afastei o prato, levantei-me e dirigi-me � porta do p�tio. L� fora estava escuro, mas ouvi um som proveniente de tr�s de uma pilha de barris � minha direita.</p><p>� Quem est� a�? � gritei. Uma mulher soltou uma exclama��o abafada, mas o som foi imediatamente cortado, como se ele lhe tivesse apertado a garganta. Gritei: � Eh, chamem a guarda! H� fornica��o nas ruas! � A frase surpreendeu-me, at� me lembrar de que eram as palavras gritadas pelos bed�is da noite quando percorriam as ruas de madrugada, � procura de il�citos. Devia t�-las ouvido uma d�zia de vezes sob a minha janela enquanto dormia.</p><p>De tr�s dos barris ouvi o tilintar do cinto de uma espada, uma impreca��o abafada e depois o som inconfund�vel de uma forte bofetada. Hannah gritou, passos afastaram-se a correr e eu fui investigar o que se passava atr�s dos barris.</p><p>Ela estava deitada no ch�o, para onde o golpe dele a atirara. Pela forma como tinha as saias indecentemente amontoadas � volta da cintura, percebi que chegara tarde de mais para impedir o acto que ambos tinham sa�do para executar; mas talvez, pelo menos, tivesse conseguido impedir que ela se magoasse mais.</p><p>� Obrigada � agradeceu Hannah.</p><p>Reparei na aus�ncia de um �senhor� no fim da frase. Mas talvez, na escurid�o, n�o me tivesse reconhecido. Depois ela estendeu a m�o. Isso tamb�m me surpreendeu: no continente, seria impens�vel uma criada estender a m�o a um cavalheiro. Mas era evidente que precisava de ajuda para se levantar, por isso peguei-lhe na m�o e puxei-a.</p><p>� Obrigada � repetiu ela, depois de estar em p�. Esfregou a face, onde o homem a esbofeteara. Percebi, pela forma como olhava para mim, que estava a perguntar-se o que eu lhe iria pedir em troca da minha ajuda.</p><p>� N�o me deve qualquer agradecimento � disse-lhe. � Nem qualquer outra coisa, na verdade. � Virei-me para voltar a entrar.</p><p>� Signor Demirco � chamou ela.</p><p>Parei.</p><p>� Se contar ao Titus Clarke aquilo que ouviu esta noite, serei despedida.</p><p>Apenas isso. N�o me fez qualquer pergunta nem me pediu nada. Limitou-se a fazer uma declara��o de facto e deixou nas minhas m�os a decis�o do que devia fazer.</p><p>Eu tinha na ponta da l�ngua as palavras �Devia ter pensado nisso antes.�</p><p>Contudo, n�o as disse. Simplesmente acenei e voltei para dentro. E, quando Titus me trouxe outra caneca de cerveja, descobri que n�o tinha a m�nima vontade de lhe contar o que acontecera entre Hannah e o homem. N�o era, pura e simplesmente, da minha conta, disse a mim pr�prio.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Enquanto o rei nada, lady Arlington caminha comigo pela Galeria de Pedra, o mais comprido e ornamentado dos claustros de Whitehall.</p><p>� Aqueles s�o os aposentos do rei � diz, apontando. � As casas do outro lado s�o para os cortes�os preferidos. E aqui � faz uma pausa carregada de significado �, est�o a ser preparados novos aposentos.</p><p>Abre umas portas de madeira. L� dentro, quatro homens de cabeleiras curtas, pintores da corte, est�o a trabalhar num fresco. Na parede oposta, homens em cima de escadotes est�o a pendurar uma tape�aria de estilo franc�s. Outro trabalhador, um marceneiro, est� a instalar uma estante embutida de nogueira e bordo, com a ajuda de um aprendiz. O ar cheira a serradura e tinta fresca. Quan�do entramos, os homens inclinam a cabe�a respeitosamente e regressam ao que estavam a fazer.</p><p>� Que quarto maravilhoso � digo, com sinceridade, aproximando-me da janela. Os vidros altos fazem-me lembrar Versalhes. Do outro lado fica um bonito jardim com um grande rel�gio de sol de vidro e o longo lago cintilante do Parque de St. James por tr�s.</p><p>� � para si.</p><p>Viro-me, espantada.</p><p>� Para mim?</p><p>� Ele mandou-o arranjar especialmente para si. E veja. � Aproxima-se de outra porta e abre-a. D� para uma escada. � Pode visit�-la directamente dos seus aposentos.</p><p>� Sem ningu�m saber, � o que quer dizer?</p><p>Lady Arlington acena afirmativamente.</p><p>� Pode haver alturas em que pretenda ser discreto. Pelo menos, ao princ�pio.</p><p>Olho para ela.</p><p>� Mas eu nunca permitiria que ele me visitasse dessa maneira a menos que fosse meu marido.</p><p>� N�o seja tola, Louise � diz ela baixinho. � Tem de fazer o que � necess�rio, como as jovens bonitas sempre fizeram com os reis. A �nica quest�o � o que poder� ganhar com isso. Vossa Majestade. � Baixa-se numa rever�ncia e, por um momento, penso que est� a tro�ar de mim. Depois viro-me e vejo que o rei entrou na sala.</p><p>� Informaram-me da sua presen�a � diz ele, impacientemente. � Aprova os seus aposentos? Estar�o terminados no final da semana. Talvez queira fazer-me a honra de se mudar para aqui.</p><p>� N�o posso� � come�o, mas lady Arlington � mais r�pida.</p><p>� � muito oportuno, senhor. Vamos come�ar algumas obras de reconstru��o para a semana, pelo que a Louise teria de nos deixar, de qualquer maneira.</p><p>� Senhor � digo �, n�o posso de forma alguma aceitar estes aposentos. S�o demasiado bons para uma dama de companhia.</p><p>� Pelo contr�rio. A Louise � que � boa de mais para eles. � Carlos fita-me com uma intensidade que acho desconcertante. � Caminhe comigo � diz, baixinho, com um olhar a lady Arlington. � Vamos conversar um pouco.</p><p>Leva-me para a Galeria de Pedra e lady Arlington segue-nos a quinze passos de dist�ncia, fingindo-se muito interessada nas est�tuas.</p><p>*</p><p>Contudo, durante algum tempo, n�o falamos muito. O rei limita-se a apontar-me onde vivem os v�rios cortes�os. Depois tira uma chave da roupa e abre uma pequena porta.</p><p>� Este � o meu jardim privado � diz, fechando a porta atr�s de si. Reparo que lady Arlington ficou do outro lado. � Para meu uso exclusivo.</p><p>� Vossa Majestade deve ter dificuldade em encontrar solid�o.</p><p>� Na verdade, nunca costumava procur�-la. S� desde a morte dela� � Olha para mim. � Diga-me, Louise. Contou-me que ela a deixava ler a nossa correspond�ncia.</p><p>� Sim.</p><p>Com um desinteresse estudado, ele pergunta:</p><p>� Nesse caso, o que sabe sobre Dover? Al�m do facto de a minha irm� j� estar muito doente nessa altura.</p><p>S�o terrenos perigosos, mas n�o vale a pena negar.</p><p>� Estou a par do tratado. Madame fez de mim sua confidente desde o princ�pio.</p><p>� Compreendo. � Ele toca no bigode. � Nesse caso, presumo que est� consciente de que se trata de um segredo conhecido apenas por um punhado de pessoas. Neste pa�s, s�o seis, al�m da minha pessoa. Sete, agora que est� aqui connosco. Se a noticia se espalhasse, podia afectar todo o rumo do meu reinado.</p><p>� Eu sei. E prometo que nunca trairei a confian�a de Madame.</p><p>Ele acena.</p><p>� O facto de ela ter confiado em si � suficiente para mim. Mas diga-me� � Hesita. � Foi� honrado?</p><p>� Senhor?</p><p>� Muitos dos meus s�bditos diriam� se, Deus n�o o permita, alguma vez soubessem� que quando eu assinei aquele papel e aceitei a pens�o de Lu�s, vendi a minha honra. Tenho andado a pensar muito nisso, nestes �ltimos meses. Gostaria de saber a sua opini�o.</p><p><emphasis>Est� a perguntar a minha opini�o.</emphasis> Tento imaginar Lu�s XIV a ter esta conversa e n�o consigo. � extraordin�rio, estarmos a conversar assim, quase como iguais.</p><p>Tenho de ter muito cuidado.</p><p>� Se um homem tivesse assinado aquele documento, talvez pudesse ser considerado uma desonra. Mas v�s n�o sois um homem. Sois o rei� sois Inglaterra. N�o podeis estar limitado pelas mesmas considera��es que os homens vulgares, tal como n�o podeis estar limitado pelos desejos do parlamento.</p><p>� Sim. � Ele come�a a andar e eu com ele, tentando acompanhar os seus passos largos. � Foi o que pensei, na altura. Mas desde a morte dela� Vejo o meu povo e est�o fartos de guerras e de divis�es religiosas. Talvez na minha cobi�a� na minha ansiedade por ser um governante independente� e no meu desejo de agradar � minha irm�, tenha colocado os meus interesses � frente dos interesses dos meus s�bditos.</p><p>� Mas Madame n�o tinha qualquer interesse pessoal nisto. Ela queria apenas o que era melhor para v�s.</p><p>� � verdade. Contudo, talvez tenha sido influenciada pelas suas pr�prias convic��es religiosas. Para n�o mencionar a sua� admira��o por Lu�s. � Olha para mim de soslaio e percebo que ele sabe, ou pelo menos suspeita, da rela��o entre a irm� e o rei. � Ela era como todos os Stuart � continua em tom apolog�tico. � O seu apetite pela vida era grande e, por vezes, permitia que isso influenciasse o seu discernimento. � Cala-se por um momento. � � bom conversar sobre isto. Desde que ela morreu, n�o tenho tido ningu�m com quem discutir o assunto.</p><p>Pressinto uma abertura.</p><p>� Podeis conversar comigo sempre que o desejardes, senhor. Na verdade, espero que o fa�ais.</p><p>Ele lan�a-me um olhar triste.</p><p>� N�o poderia impor-lhe esse fardo.</p><p>� N�o seria um fardo. E � apenas o que todos esperam.</p><p>� Sim? Porqu�?</p><p>Hesito e sinto-me corar.</p><p>� Alguns dos vossos ministros pensam que Vossa Majestade se interessar� por mim.</p><p>� Ah � diz ele, baixinho. � Claro. � Olha para mim de lado. � Compreendo porque pensariam tal coisa. Confesso que, no passado, mostrei frequentemente ter um fraco deplor�vel pela beleza feminina.</p><p>Coro ainda mais.</p><p>� Mas eu posso ajudar-vos com isso. Posso ser vossa confidente, tal como a vossa irm� era. Posso fazer chegar mensagens a Lu�s, posso torn�-lo consciente das press�es a que v�s estais sujeito. J� percebi que seria imposs�vel anunciardes agora a vossa convers�o. Farei com que isso chegue at� ele.</p><p>Carlos ergue as sobrancelhas.</p><p>� Intercederia junto do seu rei a meu favor?</p><p>� Poderia ser uma intermedi�ria, da confian�a de ambos. Tal como a vossa irm�.</p><p>� Ent�o, que sejam esses os termos do Tratado do Jardim de Rosas � diz ele, lac�nico. � Mas� apenas para que eu fique esclarecido� n�o iremos mais longe? Conversar� apenas comigo, e nada mais?</p><p>Volto a corar.</p><p>� Perd�o � diz ele. � Mais palavras francas. Mas prefiro choc�-la agora com a minha franqueza do que ofend�-la com uma sugest�o indesejada no futuro.</p><p>� Nesse caso, falarei tamb�m francamente. � Francamente, penso, mas com cautela. � Nunca permitiria que a minha conduta trouxesse vergonha � minha fam�lia.</p><p>Ele acena. Est� desapontado ou satisfeito? � imposs�vel ter a certeza. No entanto, � importante que saiba que eu n�o vou fazer aquilo que lady Arlington anda a insinuar que devo fazer.</p><p>Cheg�mos ao rel�gio de sol no centro do jardim, um aparelho elaborado com globos de vidro transparente embutidos com vitrais. Na base, est� gravada uma inscri��o:</p><p><emphasis>A cada dia esquece os dias anteriores:</emphasis></p><p><emphasis>N�o desperdices estas horas com arrependimentos.</emphasis></p><p>� <emphasis>Carpe diem</emphasis> � diz ele, quando repara que eu estou a ler. � Uma boa instru��o para ambos. Compreende que se formos vistos juntos, a falar, as pessoas podem tirar as suas pr�prias conclus�es? Estou certo de que a sua reputa��o n�o motivaria tal resposta, mas temo n�o ter sido sempre t�o bem-comportado.</p><p>� Ser� melhor que o fa�am � digo, francamente. � Ficar�o muito menos preocupadas do que se julgarem que estamos a discutir quest�es pol�ticas.</p><p>� Uma resposta astuta. E vejo, por cima do seu ombro, que lady Arlington est� a espiar-nos neste preciso momento da janela do seu apartamento. Deve estar a tentar adivinhar o tema da conversa.</p><p>� Talvez fosse melhor se d�ssemos a entender� � interrompo-me.</p><p>� Precisamente o que estava a pensar � concorda ele.</p><p>Pega-me na m�o, leva-a aos l�bios e beija-me o pulso. Depois, sem a largar, puxa-me facilmente para os seus bra�os. Por um momento, dou por mim a fit�-lo nos olhos. Ser� um brilho divertido � ou calculista, at� � que vejo nas suas profundezas escuras?</p><p>� Fui sincero no que disse h� pouco � diz ele suavemente. � N�o lhe farei quaisquer sugest�es, juro. Mas n�o posso negar que, se fosse outro tipo de mulher, o teria feito sem hesita��o.</p><p>� Ent�o? � pergunta lady Arlington. � O que � que ele disse?</p><p>� Disse� � N�o posso dizer-lhe o que ele disse. � Nada. Lisonjas e palavras de afecto e essas coisas.</p><p>Lady Arlington sorri.</p><p>� E suponho que a Louise lhe disse para guardar as lisonjas para si?</p><p>N�o respondo.</p><p>� N�o se preocupe. Eu estava a observar aqui de cima. Vi a forma como estavam juntos. Sabia que ficaria encantada com ele, Louise. H� qualquer coisa numa coroa que leva a melhor at� sobre os escr�pulos mais obstinados, n�o �?</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Tenha o cuidado de servir os seus gelos em pequenas quantidades, pois um excesso de qualquer prazer em breve cansa o palato.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�O jogo est� em curso � disse lorde Arlington com alguma satisfa��o. � O rei est� satisfeito.</p><p>� A rapariga fez o seu dever? � perguntou Walsingham.</p><p>Arlington abanou a cabe�a.</p><p>� Ainda n�o. Mas f�-lo-�: � apenas uma quest�o de tempo.</p><p>� Precisar� de mais encorajamento? � Era Cassell.</p><p>Arlington sorriu.</p><p>� � precisamente essa a quest�o� ela sabe que tem de o fazer mas, ao mesmo tempo, est� relutante. Isso d� ao rei a ilus�o de que tem de correr atr�s dela, e � isso que alimenta o seu interesse. N�o � muito divertido ca�ar um coelho num celeiro: � a lebre em fuga que torna a ca�a satisfat�ria. � Olhou para mim. � Signor Demirco, os seus gelos em breve ser�o requisitados. Certifique-se de que est� pronto.</p><p>� Tem o anan�s?</p><p>Ele acenou afirmativamente.</p><p>� Estar� nas suas m�os em breve. Use-o de forma sensata. Custou-me muito dinheiro.</p><p>� Conhe�o as minhas ordens � respondi, concisamente. � Farei a minha parte.</p><p>E depois partirei, pensei; e que alegria ser� ver-me livre de todos voc�s.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Dois dias depois, mudo-me para os meus aposentos. Sumptuosas e vastas, as salas ecoam quando eu caminho sobre os soalhos. Estou comovida por ver que Carlos tentou fazer com que me sentisse em casa: a estante que vi os marceneiros instalarem est� cheia de livros franceses. E � um pormenor atencioso � n�o s�o apenas romances, mas obras de filosofia, teatro, matem�tica. Um cravo novo foi colocado a um lado, com a caixa de m�sica abastecida com pe�as de Blancrocher e Chambonni�res. Ao seu lado, a escrivaninha j� tem em cima uma boa pilha de convites.</p><p>Enquanto os estudo, a porta do apartamento abre-se e en�tram duas mulheres bem vestidas. Quando me v�em, fazem uma rever�ncia.</p><p>� Ol�. � Fa�o um gesto largo com o bra�o, para indicar as salas vazias. � Se vieram visitar-me, receio que seja um pouco prematuro. Acabo de chegar tamb�m.</p><p>A mais velha das duas raparigas, uma morena, parece confusa.</p><p>� N�o a viemos visitar. Somos as suas damas de companhia. � Aponta para a companheira. � Esta � a ilustre Lucy Williamson, e eu sou lady Anne Berowne.</p><p>� Damas de companhia! � Fa�o um esfor�o por me recompor. � Perdoem-me, s�o muito bem-vindas. Simplesmente n�o estava � espera de ter ningu�m ao meu servi�o. Precisamente o contr�rio, na verdade. Por favor, sentem-se.</p><p>S�o ambas muito bonitas: presumivelmente, isto faz parte dos des�gnios dos Arlington. Haver� mais probabilidades de o rei me visitar se eu estiver rodeada de rostos atraentes.</p><p>Depois de uma hora, a conversa come�a a ficar parada, entre outras coisas porque estamos todas esfomeadas.</p><p>� Diga-me � pergunto a Lucy, que � p�lida e loira �, como � que se arranja qualquer coisa para comer por aqui?</p><p>Ela parece ainda mais confusa do que lady Anne.</p><p>� O seu cozinheiro n�o lhe vai trazer o almo�o?</p><p>� O meu cozinheiro?</p><p>� Na corte, todos t�m o seu pr�prio cozinheiro.</p><p>� Bom, ainda n�o me foi atribu�do um. E n�o sei bem como tratar de uma coisa dessas.</p><p>� Talvez possa pedir ao seu camareiro que lhe nomeie um cozinheiro? � sugere lady Anne em tom prest�vel.</p><p>� Talvez, mas tamb�m ainda n�o tenho um camareiro. Nem um mordomo, nem um lacaio, nem uma costureira, nem criadas. � Nem dinheiro para os pagar, se tivesse.</p><p>� Oh � diz Lucy, que come�o rapidamente a perceber ser a menos esperta das duas. � Isso significa que n�o vamos almo�ar?</p><p>Suspiro.</p><p>� Talvez o embaixador franc�s possa emprestar-nos algum pessoal. Vou escrever-lhe. � Paro. � Suponho que precisarei de um criado para levar a minha carta?</p><p>As raparigas acenam afirmativamente.</p><p>� Em Fran�a, as senhoras da corte prescindem muitas vezes do almo�o � digo, em tom decidido. E talvez at� � hora de jantar eu j� tenha resolvido o problema.</p><p>*</p><p>No entanto, muito antes da hora de jantar, um criado com a libr� real entra e sussurra algo a lady Anne. Esta gira sobre si pr�pria para olhar para mim.</p><p>� A rainha vem a�.</p><p>� Agora? Aqui?</p><p>Ela acena, com os olhos muito abertos.</p><p>� <emphasis>Mon Dieu</emphasis> � digo, aflita. � E lady Arlington?</p><p>� Tamb�m vem a caminho.</p><p>� J� � qualquer coisa, suponho. O que esperar� a rainha?</p><p>Lady Anne encolhe os ombros.</p><p>� Ela gosta de jogar �s cartas. E deve esperar alguma comida.</p><p>� Que comida?</p><p>� O jantar � responde ela, vagamente. � evidente que a educa��o de lady Anne n�o incluiu muitas horas de gest�o dom�stica.</p><p>� Para quantas pessoas?</p><p>� Deve trazer as suas damas de companhia. Talvez uma d�zia, no total. E, se ela vem visit�-la, outras pessoas podem fazer o mesmo.</p><p>Penso por um momento.</p><p>� Mandem uma mensagem ao signor Demirco, o confeiteiro. Pe�am-lhe que mande gelos para vinte pessoas. E digam-lhe que n�o h� tempo a perder.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Numa pressa, � poss�vel fazer um gelo simples de <emphasis>eggnog</emphasis>, ou leite-creme, ou fruta, ou qualquer mistura dos tr�s.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�Vinte! N�o consigo fazer vinte gelos at� � hora de jantar.</p><p>O homem que trouxe a mensagem encolhe os ombros.</p><p>� O pedido � esse.</p><p>Suspirei.</p><p>� Muito bem. Diga-lhe que verei o que posso fazer. E tenham uma carruagem aqui �s seis horas.</p><p>N�o � poss�vel fazer gelos de nata em pouco tempo, mas � poss�vel preparar uma boa quantidade de <emphasis>granite</emphasis> em alguns minutos, se tivermos um xarope para derramar sobre eles. Os cordiais tamb�m podem ser feitos rapidamente, desde que haja gelo para os arrefecer. E at� � poss�vel conseguir uma aproxima��o de creme gelado, se tivermos fruta conservada para dar sabor ao leite enquanto o mexemos. Em Paris, eu teria respondido ao pedido de Louise com um estalar de dedos, e os meus aprendizes teriam corrido a preparar tudo a tempo.</p><p>Mas aqui, em Londres, n�o tinha aprendizes. E ningu�m em quem pudesse confiar para n�o me roubar os meus segredos.</p><p>� Porque est� a gritar? � perguntou Elias.</p><p>� Estou a pronunciar profanidades em italiano � disse-lhe. � Mas agora vou pronunciar instru��es em ingl�s. Cal�a aquela luva e rala-me tanto gelo quanto conseguires.</p><p>� <emphasis>Si, signor</emphasis> � respondeu ele alegremente.</p><p>� Assim n�o, ou estaremos aqui a noite toda � disse, mostran�do-lhe como fazer. � E precisamos de p�r alguns xaropes a ferver. Quem � que pode ir ao mercado comprar-me algumas coisas?</p><p>� A Mary est� livre � disse ele, cal�ando a luva de ralar.</p><p>� Ent�o manda a Mary comprar laranjas. E mais a��car.</p><p>� O que se passa?</p><p>Era Hannah, que ouvira a agita��o.</p><p>� A rainha vai jantar com madame Carwell � disse-lhe Elias.</p><p>� Nunca conseguir� fazer xarope da laranja suficiente a tempo � concluiu Hannah, avaliando a situa��o. � Mande a Mary comprar laranjas, sim, mas ter� de as espremer e servir o sumo fresco com umas folhinhas de hortel� e um pouco de cardamomo.</p><p>Na altura, eu ainda n�o tinha ouvido a express�o inglesa �De�masiados cozinheiros estragam o caldo�, mas estava rapidamente a familiarizar-me com o sentimento por tr�s dela.</p><p>� N�o h� tempo para discuss�es. Tenho de servir gelos a Sua Majestade�</p><p>� Fiz <emphasis>posset</emphasis> � interrompeu Hannah. � Pode ficar com ela.</p><p>Isso fez-me parar.</p><p>� Quanto?</p><p>� Cinco litros. O suficiente para vinte pessoas, se a congelar.</p><p>� Fazer gelos n�o � t�o simples como isso.</p><p>Ela suspirou.</p><p>� N�o quis insinuar que fosse. No entanto, penso que a <emphasis>posset</emphasis> congelar� bem, tal como o leite-creme. Pense nisso como um atalho culin�rio.</p><p>Nesta altura, Mary, Rose e o estalajadeiro, Titus, tinham-se juntado a n�s. Eu precisava de tomar uma decis�o r�pida.</p><p>� Muito bem � disse. � Vou congelar a <emphasis>posset</emphasis>. Mas tragam-me laranjas na mesma. Podemos esprem�-las. E lim�es tamb�m� vamos fazer um xarope.</p><p>� N�o pagues mais de meio xelim pelas laranjas � disse Hannah a Mary. � Vai ao Robin Marchmont e diz-lhe que fui eu que te mandei. Rose, diz ao Peter que aque�a o fog�o. Eu vou buscar a <emphasis>posset</emphasis>.</p><p><emphasis>Posset</emphasis>, devo explicar, � uma bebida que os Ingleses apreciam particularmente, uma esp�cie de <emphasis>eggnog</emphasis> feito com leite quente, vinho e especiarias. Era frequentemente servida em tabernas, quer como bebida para aquecer, quer como sobremesa. Esta �ltima era aromatizada n�o s� com sumo de lim�o, vinho doce e noz-moscada, mas tamb�m com outro sabor que, ao princ�pio, eu n�o conseguira identificar.</p><p>� O que � isso? � perguntei. � Alguma esp�cie de erva?</p><p>Hannah acenou.</p><p>� Ceref�lio. S� uma pitada.</p><p>Pousei a colher.</p><p>� Bom, ter� de servir. Elias, como vai o gelo?</p><p>� J� ralei quase todo o bloco � informou ele, com as bochechas coradas do esfor�o.</p><p>� Vamos precisar pelo menos do dobro disso. � Peguei na p� e hesitei. Agora tinha de encher a <emphasis>sabotiere</emphasis> com gelo e sal para congelar a <emphasis>posset</emphasis>. Nesta fase, normalmente, pediria a todos os presentes que sa�ssem, mas hoje n�o podia dar-me ao luxo de os afastar das suas tarefas.</p><p>Tentando fazer o melhor que podia dadas as circunst�ncias, levei os v�rios ingredientes para um canto. Para confundir ainda mais algum bisbilhoteiro, pronunciei umas palavras em latim sobre o balde enquanto mexia.</p><p>� <emphasis>Dominus virtutum nobiscum</emphasis> � acrescentei, recordando as palavras de um salmo cat�lico.</p><p>E assim continu�mos nas duas horas seguintes, a fazer o cordial de laranja e a engrossar um xarope de lim�o para o <emphasis>granite</emphasis> enquanto eu me virava periodicamente para a <emphasis>sabotiere</emphasis> para mexer a mistura enquanto congelava. Hannah sugeriu que mand�ssemos comprar tamb�m algumas geleias, e Rose foi enviada para comprar geleia de marmelo � senhora Lamb, na esquina. Quando a carruagem chegou, j� quase t�nhamos reunido uma refei��o ligeira respeit�vel. No entanto, eu n�o estava com tanta pressa que n�o parasse para provar a <emphasis>posset</emphasis> gelada: para minha surpresa, possu�a uma textura macia e rica que eu s� conseguira por duas vezes antes, uma no dia do funeral de Madame e a outra quando congelara o leite-creme de Hannah.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>�Chegaram � diz Anna, que est� � janela. Junto-me a ela.</p><p>A prociss�o que se dirige a n�s pela Galeria de Pedra � uma vis�o algo estranha. A rainha � inconfund�vel � embora seja uma mulher muito pequena, veste um belo vestido espanhol e tem o porte que s� uma princesa pode ter. As suas damas de companhia, contudo, s�o outra quest�o. Trazem chap�us estranhos e altos, como freiras, e as suas saias t�m cosidas anquinhas arcadas que as fazem baloi�ar de um lado para o outro enquanto caminham.</p><p>� Valha-nos Deus � diz lady Arlington atr�s de mim. � Ela trouxe toda a frota portuguesa. Mal posso esperar para ver a express�o naqueles rostos morenos quando perceberem que foram usurpadas.</p><p>� f�cil acreditar que a rainha est� a morrer. Parece ainda mais fr�gil do que Madame nos meses que antecederam a sua morte, e as madeixas grisalhas do cabelo sugerem que j� sofre assim h� anos.</p><p>A rever�ncia que lady Arlington faz � t�o superficial que mais parece que est� apenas a desviar-se de algo que lhe atiraram � cabe�a.</p><p>� Vossa Alteza, permiti que vos apresente Louise de Keroualle. Creio que a dada altura estava previsto que fosse uma aia do vosso quarto � diz, com uma ligeira �nfase no �vosso�. � No entanto, o rei encontrou outro lugar para ela na corte.</p><p>Se a rainha repara na insinua��o, n�o o mostra.</p><p>� O rei � muito atencioso � diz-me. � Lembro-me de como foi am�vel comigo quando cheguei a este pa�s. Quando quero alguma coisa, basta-me pedir-lhe. � Pode parecer fraca, mas o significado � claro. <emphasis>N�o tente humilhar-me, ou tratarei de a afastar.</emphasis></p><p>Segue-se um sil�ncio desconfort�vel. Felizmente, os gelos chegam nesse momento.</p><p>� Esta � a �ltima moda em Fran�a, Vossa Alteza � digo, enquanto Lucy os coloca num aparador. � Significa que n�o � preciso interromper o jogo de cartas. Podemos simplesmente comer os gelos � mesa e ficaremos refrescadas.</p><p>Ela sorri.</p><p>� Parece muito agrad�vel.</p><p>O jogo, por outro lado, � um problema diferente. Eu sei jogar o jogo preferido da rainha, <emphasis>basset</emphasis> � tamb�m � popular em Fran�a � mas n�o tenho dinheiro para jogar.</p><p>� Eu empresto-lhe algum � sussurra lady Arlington entre dentes. � Afinal de contas, em breve dever� ter mais do que suficiente. � Em voz mais alta, diz: � Quereis que baralhe, Vossa Alteza? As damas est�o todas juntas.</p><p>N�o � preciso grande per�cia para jogar <emphasis>basset</emphasis>; � simplesmente um jogo de coragem e sorte. A carta vencedora ganha a quantia que tenha sido apostada nela. Mas se, em vez de recolhermos os ganhos, deixarmos a carta na mesa e esta voltar a vencer, a aposta � multiplicada por sete; � terceira vez, por quinze e depois por trinta. � poss�vel ganhar uma fortuna, mas as probabilidades v�o diminuindo progressivamente. Um quarto de hora depois, eu j� perdi cinquenta guin�us, a maioria deles para lady Arlington.</p><p>� Eu empresto-lhe mais � diz ela, imediatamente.</p><p>� N�o, obrigada. Vou ficar de fora um pouco, a assistir.</p><p>Vejo como lady Arlington, depois de passar a banca, fica corada de excita��o ao fazer <emphasis>le quinze</emphasis>, a aposta a multiplicar por quinze, apenas para perder tudo na jogada seguinte. Isso diz-me algo sobre ela, penso: n�o s� � uma jogadora, como � uma jogadora temer�ria.</p><p>� N�o joga? � murmura uma voz atr�s de mim.</p><p>Viro-me. O rei entrou, sem ningu�m reparar e sem cerim�nias. As outras come�am a levantar-se mas ele corta as formalidades com um gesto.</p><p>� Por favor, n�o quero interromper o vosso jogo. Vou sentar-me aqui a conversar com mademoiselle de Keroualle.</p><p>A rainha lan�a um olhar ansioso ao marido antes de voltar obedientemente ao jogo.</p><p>� Diga-me, porque parou de jogar? � pergunta ele baixinho. � N�o quero arrogar-me a vaidade de acreditar que foi na remota probabilidade de eu aparecer.</p><p>� N�o gosto muito de jogos de risco.</p><p>Ele ergue as sobrancelhas.</p><p>� Os planos que a minha irm� delineou eram bastante arriscados.</p><p>� Refiro-me ao risco apenas pelo risco. Na diplomacia, claro que se deve tentar arriscar o m�nimo poss�vel. No <emphasis>basset</emphasis>, arriscar ao m�ximo � o objectivo do jogo.</p><p>Ele acena.</p><p>� Pessoalmente, prefiro <emphasis>poque</emphasis>. Requer um certo talento para fazer <emphasis>bluff</emphasis>.</p><p>� Em Fran�a, o <emphasis>poque</emphasis> � conhecido como o jogo da batota � digo, com alguma mal�cia.</p><p>� Salvo a devida mod�stia, creio ter tamb�m algum talento nesse sentido � diz ele, com o fantasma de um sorriso nos olhos.</p><p>� Senhor, est� a afastar mademoiselle de Keroualle da mesa � chama lady Arlington. � E ela tem de jogar, se quer recuperar o que perdeu.</p><p>O rei lan�a-me um olhar interrogativo.</p><p>� Parece que ela quer afastar-me de v�s � explico, entre dentes. � Tem a ideia de que, quanto mais eu o mantiver � dist�ncia, mais ansiosamente procurareis a minha amizade.</p><p>� Nesse caso, � melhor ir ter com ela � murmura o rei. � Mas, enquanto elas jogam <emphasis>basset</emphasis>, n�s estaremos a jogar <emphasis>poque</emphasis>.</p><p>Quando me dirijo � mesa, ele segue-me.</p><p>� Quanto � que mademoiselle de Keroualle deve, lady Ar�lington?</p><p>� Cinquenta guin�us, senhor.</p><p>� Aqui tem cem. � Carlos atira uma bolsa para a mesa. � E se ela incorrer em mais alguma d�vida, espero que a minha palavra seja aval suficiente.</p><p>Lady Arlington abre tanto os olhos que quase lhe chegam ao cimo da cabe�a.</p><p>� Senhora, boa-noite � diz, curvando-se perante a rainha. � E para si tamb�m, lady Arlington. <emphasis>Mademoiselle</emphasis>. � Faz-me uma v�nia por �ltimo, como manda o protocolo, mas � em mim que os seus olhos se demoram, enquanto trocamos um olhar de cumplicidade.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer um sorvete de anan�s: junte duas ch�venas de a��car a duas ch�venas de soro de leite, ou mais, se o anan�s for muito �cido. Acrescente uma colher de hortel� fresca picada e o sumo de uma lima, e mexa enquanto congela. O princ�pio n�o � diferente do que para qualquer outro fruto.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>No dia seguinte, quando fui a Whitehall buscar as ta�as vazias, encontrei Louise no seu apartamento. Parecia um pouco � deriva no grande espa�o, perdida, como algu�m com um vestido de baile demasiado grande.</p><p>N�o tinha a m�nima vontade de falar com ela, mas curvei-me numa v�nia.</p><p>� N�o seja assim � disse ela em tom cortante.</p><p>� Assim como?</p><p>� Carlo�</p><p>Esperei.</p><p>� Fico-lhe muito grata pela sua ajuda de ontem � noite � disse ela. � Se n�o fossem os seus gelos, teria sido uma situa��o complicada. Mais complicada ainda, melhor dizendo.</p><p>� A Louise e a rainha? Compreendo que possa ter sido um pouco embara�oso.</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� � para isso que existe a etiqueta, n�o �? Para tornar suport�veis as situa��es embara�osas. Al�m do mais, suspeito que ela j� teve de passar por bem pior, neste pa�s terr�vel. � Fica em sil�ncio por um instante. � Estou a ser sincera, <emphasis>signor</emphasis>. Sei que somos parceiros relutantes nesta miss�o, mas fico grata por Lu�s ter enviado algu�m com quem sei que posso contar.</p><p>� Farei o meu dever. Nem mais, nem menos. E depois voltaremos a Fran�a e a nossa associa��o chegar� ao fim.</p><p>Ela pareceu surpreendida.</p><p>� <emphasis>Voltar�</emphasis> a Fran�a, � o que quer dizer.</p><p>� Tenciona ficar por c�?</p><p>Louise lan�ou-me um olhar cortante, como que espantada com a pergunta.</p><p>� Possivelmente. Veremos.</p><p>� O seu entusiasmo pela miss�o � ainda maior do que eu imaginara, ent�o � respondi em tom seco.</p><p>� Tenho uma oportunidade. Seria tola se n�o a aproveitasse.</p><p>� � verdade. � Curvei-me de novo. � Parceiros relutantes, ent�o.</p><p>Quando fechei a porta do apartamento dela atr�s de mim, vi um papel a esvoa�ar sobre a madeira. Algu�m o prendera � porta com uma faca de fruta. Continha dois versos:</p><p><emphasis>Aqui dentro foi colocada uma cama</emphasis></p><p><emphasis>Para uma cabra de Fran�a e um ungido de Deus.</emphasis></p><p>Voltei para tr�s e entreguei-lho.</p><p>� Enviaram-lhe um <emphasis>billet-doux</emphasis>.</p><p>Ela leu-o e ficou p�lida.</p><p>� B�rbaros. Como s�o capazes?</p><p>� Provavelmente foi um homem chamado Rochester. O rei, segundo creio, � tolerante para com esse tipo de comportamento.</p><p>� Odeiam-nos. Quer dizer, odeiam-me a mim. E s� me odiar�o mais ainda quando� � Ela abanou a cabe�a. � N�o importa. N�o significa nada. Se fui capaz de lidar com a corte de Fran�a, certamente que sou capaz de lidar com esta.</p><p>� E isto � disse eu, apontando para o bilhete �, � exactamente o tipo de divers�o que estamos aqui para encorajar, n�o �? Saberemos que fomos bem-sucedidos quando lorde Rochester for t�o c�lebre em Inglaterra como Moli�re ou Racine s�o em Fran�a.</p><p>Finalmente, o meu anan�s chegara e, durante algum tempo, consegui n�o pensar em Louise de Keroualle.</p><p>Apesar de ter falado com tanta naturalidade de ananases em frente de lorde Arlington, a verdade era que nunca antes conseguira usar um anan�s para fazer um gelo. Mesmo na corte de Lu�s XIV eles eram demasiado preciosos para isso. Assim, estava curioso e um pouco entusiasmado por conseguir deitar m�o a um desses frutos ex�ticos.</p><p>O anan�s chegou na sua pr�pria carruagem, puxada por quatro cavalos, vindo directamente da planta��o de lorde Devon. A arca foi transportada para dentro do Red Lion por dois dos seus lacaios, com um terceiro de guarda, de pistola em punho, para o caso de haver alguma tentativa de assalto. Entretanto, uma multid�o de curiosos reunira-se no p�tio para a ver fazer o trajecto entre a carruagem e a cozinha.</p><p>� � melhor p�r algu�m de guarda � disse Titus, nervoso. � N�o quero ser respons�vel se isso for roubado.</p><p>Na minha copa, eu j� mandara Hannah esfregar muito bem o parapeito de pedra que corria ao longo de uma das paredes. A arca foi pousada no ch�o e as fechaduras abertas. Algumas pessoas tinham conseguido segui-la at� ao interior da estalagem e estavam agora de pesco�o esticado, ansiosas para ver o conte�do.</p><p>L� dentro, sobre uma almofada de cetim vermelho, estava um fruto estranho: metade coroa, metade porco-espinho. A casca era escamosa e pintalgada, como a casca de uma tartaruga, e no cimo crescia um extravagante toucado de plumagem espinhosa. O aroma � que tinha um pouco da fragr�ncia perfumada dos morangos, e um pouco da frescura �cida das limas � escapou-se da arca onde estivera preso e encheu o ar � minha volta. Como um s�, os curiosos soltaram um �Aaaaah!�.</p><p>� E agora t�m de sair todos � ordenei, em tom firme. � Tenho trabalho a fazer.</p><p>Quando n�o estava mais ningu�m na copa a n�o ser eu, Hannah e Elias, tirei o anan�s da arca, com as pontas dos dedos para n�o me picar nos espinhos curvos que cresciam em cada escama. Pousei-o no parapeito e peguei num cutelo. Com alguma trepida��o � deve ser assim que um cirurgi�o se sente, pensei, no momento antes de cortar um paciente � decepei o topo, revelando o interior claro e perfumado. Cuidadosamente, pousei a coroa ao lado. Depois parti o anan�s em dois no sentido do comprimento e peguei numa faca mais pequena para retirar a casca grossa e o centro mais duro. Fi-lo sobre uma tigela: mesmo assim, algumas gotas do precioso sumo de anan�s deslizaram-me pelos dedos e perderam-se.</p><p>� Esse fruto � observou Hannah subitamente �, deve ter custado mais do que eu vou ganhar em toda a minha vida.</p><p>� E depois?</p><p>� Nada pode valer tanto dinheiro.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� Vale aquilo que os homens est�o dispostos a pagar.</p><p>� Mas nem sequer � assim t�o bom.</p><p>� Como sabe? � perguntei rapidamente, perguntando-me se ela teria tirado algum peda�o para provar, quando eu n�o estava a olhar.</p><p>� Pelo cheiro. � quase t�o azedo como um lim�o. N�o sente?</p><p>Era verdade � as minhas narinas tamb�m estavam a arder com a acidez do fruto. Experimentalmente, levantei a m�o e lambi o dedo, onde o sumo do anan�s escorrera. Era realmente muito �cido: quase amargo. Seria preciso muito a��car para o tornar comest�vel.</p><p>� N�o posso deixar de pensar � prosseguiu ela �, que estes ananases s�o como ouro, ou pedras preciosas� o seu valor adv�m principalmente do facto de serem raros.</p><p>� � bastante mais do que isso. � Hesitei. � O anan�s � conhecido por ser um afrodis�aco� por alimentar as paix�es do amor.</p><p>Para minha surpresa, ela soltou uma gargalhada sonora.</p><p>� Qual � a piada?</p><p>� Simplesmente acho estranho que nunca sejam ervas ou frutos comuns a ter essa fama. Se uma simples amora silvestre ou uma ma�� inglesa tivessem o azar de ter um aspecto t�o estranho e de serem t�o dif�ceis de encontrar, talvez tamb�m elas custassem fortunas e fossem consideradas fonte de pot�ncia.</p><p>� Ningu�m seria idiota o suficiente para pagar uma fortuna por uma amora silvestre � disse eu. O anan�s estava agora em oito peda�os na tigela, juntamente com o seu sumo. Dividi-o em duas partes e passei-lhe uma. � Corte-o o mais finamente que conseguir.</p><p>Ela acenou e come�ou a cortar o anan�s em cubos pouco maiores do que migalhas de p�o. Uma coisa posso dizer em rela��o a Hannah: a sua faca estava sempre afiada e ela manobrava-a com destreza e rapidez.</p><p>� As pessoas� melhor dizendo, os <emphasis>homens</emphasis>� d�o mais valor �quilo que n�o podem ter. � Lan�ou-me um olhar de soslaio. � Su�ponho que, para si, ainda bem que assim �.</p><p>� O que quer dizer?</p><p>� Apenas que os seus gelos s�o caros precisamente pelo mesmo motivo.</p><p>� Os meus gelos s�o muito procurados pela sua excel�ncia � disse. � Chega de tagarelice, mulher. Temos de cortar e peneirar o fruto muito bem.</p><p>� Consigo falar e trabalhar ao mesmo tempo.</p><p>Suspirei.</p><p>� Talvez, mas eu n�o. Este fruto �, como disse e muito bem, mais precioso do que ouro, e gostaria de dedicar � sua prepara��o a aten��o que merece.</p><p>*</p><p>Depois de acabarmos de peneirar o anan�s e de eu ter um monte de polpa fina e sumo, pensei no que fazer a seguir.</p><p>Estava a planear fazer um simples <emphasis>sorbetto</emphasis>, mas a acidez do fruto persuadira-me de que seria melhor tentar uma iguaria mais rica. Assim, mandei Hannah buscar soro de leite, o l�quido espesso e cremoso que sobra da confec��o da manteiga. Entretanto, preparei os outros ingredientes: folhas de hortel� esmagadas e um pouco de sumo de lima, para agir como base de sabor para o sorvete.</p><p>Quando Hannah voltou, juntei quantidades iguais de soro de leite e a��car e acrescentei a mistura ao anan�s e aos outros ingredientes. Depois despejei tudo na <emphasis>sabotiere</emphasis> � nesta altura, j� mandara Hannah sair da copa � e fui mexendo de meia em meia hora, primeiro com um batedor de ovos, e depois, � medida que a mistura se tornava mais pesada e parecida com neve, com um garfo, para separar os cristais.</p><p>T�o simples e t�o r�pido. Provei, apenas um pedacinho: no total, n�o conseguira mais de tr�s ch�venas. Tinha um sabor doce e delicado, como sol p�lido, a acidez equilibrada agora pelo a��car e pela riqueza do soro de leite. Era muito bom � contudo, se era melhor ou pior do que uma amora ou uma ma��, n�o sabia.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Agora ele vem visitar-me todos os dias. Se est� mais algu�m presente � o embaixador, lorde Arlington, um dos muitos exilados franceses que parecem partir do princ�pio de que os meus aposentos s�o o seu <emphasis>salon</emphasis> � cumprimenta-os com uns bons dias secos.</p><p>E depois�</p><p>Tudo o que fazemos � falar. Palavras e l�grimas.</p><p>Quer isto dizer que ele fala da irm�. Mas falamos tamb�m do Grande Neg�cio, deste plano para uma Europa unida, uma esp�cie de segundo Sacro Imp�rio Romano, que se estenderia da Irlanda � R�ssia. Um continente, unido sob uma s� f�. Um lugar sem guerras, quase sem fronteiras.</p><p>E, pouco a pouco, come�amos a falar de Lu�s. Como ele selou com a sua autoridade aquele que foi, em tempos, o reino mais dividido e desordeiro da Europa. Como reclamou lentamente as partes das suas terras na posse de pot�ncias estrangeiras. Como, mesmo agora, as suas fronteiras continuam a expandir-se � para a Holanda, para a Als�cia, para os Piren�us.</p><p>� evidente que Carlos est� fascinado com o seu primo franc�s � fascinado e um pouco invejoso.</p><p><emphasis>L��tat, c�est moi.</emphasis></p><p>Falo-lhe sobre as gl�rias da arte francesa, os m�sicos e fil�sofos e poetas que trazem tanto brilho � corte de Versalhes.</p><p>� Tamb�m tenho os meus poetas � diz ele, um pouco defensivamente. � Tenho os meus pintores e os meus s�bios.</p><p>� Claro que sim � respondo em tom tranquilizador.</p><p>� Ent�o? Ele j� fez amor consigo? � pergunta lady Arlington com um sorriso.</p><p>� Elizabeth! Que pergunta.</p><p>� Vou presumir que isso significa sim, est� bem?</p><p>N�o respondo.</p><p>� Voc�s, francesas, e os vossos pudores! � exclama ela. E depois acrescenta, mais baixinho: � Muito bem!</p><p>Porque n�o lhe digo a verdade? Afinal de contas, ela nunca se riu dos meus escr�pulos, apesar de ter deixado bem claro que os considera irrelevantes. Contudo sinto que, neste ponto, pode tornar-se muito insistente.</p><p>Tal como ele.</p><p>Pois est� a tornar-se cada vez mais evidente que o interesse do rei em mim, seja l� qual for, n�o � apenas por causa de Minette. O sofrimento deu lugar a algo mais. Quando olha para mim agora, nem sempre � com os olhos castos de um irm�o.</p><p>No entanto, mant�m a sua palavra. N�o faz qualquer sugest�o que possa embara�ar-me. Est� tudo apenas no espa�o entre as palavras: os olhares, a intensidade silenciosa dos seus olhos, os sorrisos s�bitos, os sil�ncios.</p><p>Ser� isto que eu quero? Que for�a estarei aqui a libertar? Ser� um monstro que consigo dominar, ou que acabar� por me destruir?</p><p>� Senhor, tenho um gelo para v�s.</p><p>Estendo-lhe a ta�a. Min�scula, requintada, foi feita especialmente para este momento: um anan�s do tamanho de um ovo, feito de ouro e vidro pintado, trabalhado como as escamas de um anan�s, com a borda enfeitada com folhas douradas.</p><p>� Isto �?�</p><p>Aceno afirmativamente.</p><p>� Anan�s, sim. Era o preferido da vossa irm�.</p><p>Ele pega na pequena ta�a e na colher ainda mais pequena, como algo que se usaria para servir sal. Leva a colher aos l�bios.</p><p>E, um momento depois, acena com ar aprovador.</p><p>� Espantoso � sussurra.</p><p>Estende-me a segunda colher de gelado. Ergo a m�o para a tirar dos seus dedos mas ele n�o a solta e os meus dedos fecham-se sobre os dele.</p><p>Os seus olhos fixam os meus, escuros e ileg�veis.</p><p>Guia as nossas m�os at� � minha boca. Chupo os cristais gelados da colher. O sabor � doce, �cido, fugidio.</p><p>� Maravilhoso � concordo.</p><p>Ele leva a colher novamente � ta�a. Desta vez eu guio as nossas m�os at� � boca dele. Obedientemente, ele abre-a, fecha-a.</p><p>Alternamos � uma para ele, uma para mim, as nossas m�os sempre juntas. Quando acabamos ele diz baixinho:</p><p>� Nunca tinha compreendido a admira��o, at� agora.</p><p>Est� a olhar para a minha boca. Sinto a garganta seca � quero engolir, inspirar uma golfada de ar. Vejo os l�bios dele entreabrirem-se e depois a sua cabe�a inclina-se ligeiramente para o lado e aproxima-se um pouco.</p><p>� De que est�vamos a falar? � pergunto rapidamente, levantando-me. � Eu ia procurar aquele livro de versos, n�o era?</p><p><emphasis>Irrepreens�vel.</emphasis></p><p>Uma tarde, ele pede-me que me sente ao seu lado na corte, na sala de audi�ncias. Fico pouco � vontade � parece-me demasiado p�blico, demasiado exposto, mas este � o objectivo por tr�s da minha presen�a aqui, incentiv�-lo a voltar � vida p�blica, portanto n�o posso recusar. Assim, sento-me ao seu lado, a ser exibida como uma rainha, enquanto ministros e peticion�rios se aproximam com os seus pedidos. Aqueles que sofrem de hidropisia ou sez�es at� pedem que ele lhes toque, para curar as suas doen�as. Como representante de Deus na Terra, tem alguns dos poderes de Deus. Ele aceita estas pessoas com cortesia e paci�ncia, mas por cima das suas cabe�as olha para mim e torce o nariz.</p><p>Um dos peticion�rios oferece-lhe um suborno � n�o um presente, como uma caixa de rap� ou um broche com pedras preciosas, mas dinheiro vivo. Ouve-se um murm�rio de revolta entre os cortes�os.</p><p>Carlos faz uma piada da situa��o.</p><p>� D� o dinheiro a outra pessoa � diz. � D�-o a� � Olha em volta. � � Louise. Ela est� sempre a perder ao <emphasis>basset</emphasis>.</p><p>O peticion�rio segue o olhar dele e traz-me a bolsa.</p><p>� N�o posso aceitar � digo, com firmeza.</p><p>� Por favor, <emphasis>madame</emphasis>? � diz o homem em voz fraca, consciente de que cometeu um erro terr�vel.</p><p>� Preferia cortar a garganta do que manchar a minha honra � digo-lhe.</p><p>� Bravo � murmura lorde Arlington. � Bem dito, Louise. � Aplaude delicadamente, incitando os restantes a fazer o mesmo.</p><p>De um dos lados, reparo numa mulher que est� a olhar para mim. Pequena, ruiva, bastante bonita, mas vestida com uma indument�ria extraordin�ria � o seu vestido � t�o garrido que mais parece um vestido de boneca. Na verdade, ela � t�o pequena que, por um instante, penso que � uma crian�a que veio � corte ver os crescidos. Ela fita-me fixamente, quase como se estivesse a estudar-me. Estranhamente, faz uma careta, depois inclina a cabe�a para o lado e franze os olhos. Olha de mim para Carlos e novamente para mim, confusa, como se estivesse a tentar perceber o que se passa. Depois vejo-a mover os l�bios, como se estivesse a murmurar qualquer coisa.</p><p>Tenho inten��o de perguntar a Carlos quem ela �, mais tarde, mas acabo por me esquecer completamente.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>As sebes inglesas fornecem muitas coisas boas para os gelos.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Finalmente, o rei estava a comer gelos. Mas apenas com Louise. Todos os dias eu enviava um diferente para os aposentos dela. Ameixas, rosa selvagem, p�ra, amora silvestre e as grandes avel�s doces a que chamam avel�s do Kent. As nozes e frutos semelhantes colocam os seus pr�prios desafios, claro � t�m de ser picadas e depois tostadas: eu ansiava por conseguir juntar a sua textura crocante ao creme aveludado que conseguira no meu gelado de p�ra, mas, embora tivesse tentado muitas vezes replicar essa textura suave, continuava a ser algo que parecia acontecer apenas por acaso. A dada altura, pensei que devia ter algo a ver com ovos, uma vez que tanto o <emphasis>cr�me anglaise</emphasis> como a <emphasis>posset</emphasis> e o leite-creme de Hannah tinham claras ou gemas de ovos, mas quando tentei juntar ovo batido ao meu xarope, consegui apenas uma omeleta com recheio de fruta.</p><p>Havia agora trabalho suficiente para eu ter Elias comigo todos os dias. Embora ele fosse novo, n�o era mais novo do que eu quando comecei a trabalhar para Ahmad, e, do ponto de vista do segredo, quanto mais novo, melhor, uma vez que dificilmente compreenderia o suficiente para explicar o processo a outra pessoa. Na verdade, ele revelou-se um aluno interessado, passando horas sem fim a raspar o gelo sem queixumes, e, embora fizesse muitas perguntas, eu tinha o cuidado de n�o lhe dizer demasiado.</p><p>No entanto, fiquei menos satisfeito quando um dia entrei na copa e o apanhei a enfiar os dedos na �ltima ta�a de sorvete de anan�s que me restava.</p><p>� O que vem a ser isto? � gritei, horrorizado.</p><p>Ele deu um salto para tr�s, com o rosto vermelho.</p><p>� Eu disse-te para nunca provares os gelos! � exclamei, furioso.</p><p>Ele baixou a cabe�a.</p><p>� Perd�o, mestre. Estava apenas curioso.</p><p>� Enfiaste os teus dedos sujos num prato guardado para o rei � disse-lhe. � Possivelmente, � trai��o. Mais ainda, desobedeceste ao teu mestre, o que � indubitavelmente trai��o. Agora vais ser espancado� e podes dar-te por feliz de ser apenas por mim e n�o pela guarda.</p><p>Peguei numa colher de madeira e comecei a bater-lhe. Ele gritou. Levantei a colher para lhe bater de novo e, de s�bito, senti-a presa por algu�m atr�s de mim. Virei-me. Era Hannah, a olhar para mim com ar furioso.</p><p>� O que est� a fazer? � perguntei, tentando libertar a colher da sua m�o. Contudo, ela era surpreendentemente forte e n�o consegui.</p><p>� Eu � que devia fazer essa pergunta � respondeu ela calmamente.</p><p>� N�o � evidente? Estou a bater-lhe por ser um ladr�o.</p><p>� O que quer que ele tenha feito, est� a bater-lhe com demasiada for�a.</p><p>� Sou o mestre dele, e bater-lhe-ei com a for�a que entender � retorqui.</p><p>� E eu sou a m�e dele e n�o o permitirei.</p><p>� A m�e dele! � Fiquei t�o surpreendido que abrandei a for�a com que estava a puxar a colher; ela, contudo, n�o fez o mesmo e a colher saiu-me da m�o. Nunca ningu�m me dissera que Hannah era m�e de Elias.</p><p>� Sim. � Hannah atirou a colher para o lado. � Porque parece t�o surpreendido?</p><p>� Mas, nesse caso� onde est� o pai dele?</p><p>Ela hesitou.</p><p>� O Elias n�o tem pai.</p><p>� N�o sabe quem ele �, � o que quer dizer � murmurei.</p><p>� � exactamente isso que quero dizer � respondeu ela em tom desafiador. � N�o sei quem ele �. E depois?</p><p>Passei a m�o pela testa.</p><p>� E depois? Senhora, eu tenho o alvar� real. No entanto, descubro que o meu assistente � o filho de uma meretriz. Em Fran�a ou It�lia, isso seria suficiente para eu ser banido da corte.</p><p>Por um momento, os olhos dela brilharam de f�ria.</p><p>� Nesse caso, as cortes de Fran�a e de It�lia devem ser muito diferentes da nossa � disse. Virou-se para Elias. � � verdade? Roubaste?</p><p>� Sim � respondeu ele muito baixinho. � Provei o gelo. O de anan�s.</p><p>Ela suspirou.</p><p>� Estou muito desiludida contigo. Primeiro, por tirares o que n�o te pertence, e segundo, por acreditares nestes disparates todos sobre gelos e ananases. N�o te eduquei para seres t�o idiota.</p><p>� Desculpe � disse Elias, com o l�bio a tremer.</p><p>� O teu castigo ser� trabalhar uma semana inteira sem receberes nada. Por�m, se ele te bater de novo, diz-me e deixar�s de trabalhar para ele.</p><p>Eu estava t�o estupefacto com esta interfer�ncia nunca antes vista na rela��o entre mestre e assistente que nem sabia como reagir; quando consegui recompor-me, ela j� tinha sa�do.</p><p>� Desculpe, mestre � disse Elias, com hesita��o. Nesta altura, a minha raiva j� se dissipara. Na verdade, a sua express�o compungida era quase engra�ada.</p><p>� Aprendeste a tua li��o? � perguntei, no tom mais severo que consegui.</p><p>� Aprendi.</p><p>� Voltar�s a comer os gelos do rei?</p><p>Ele abanou a cabe�a.</p><p>� E o que achaste, agora que provaste? � perguntei, curioso. Esperava que ele franzisse a cara e dissesse que, afinal de contas, n�o era grande coisa, mas para minha surpresa os seus olhos iluminaram-se.</p><p>� Oh! � maravilhoso! � exclamou.</p><p>Ergui as sobrancelhas.</p><p>� Bom, n�o te habitues. N�o te deixarei provar outro durante muito tempo.</p><p>� Porque est� t�o macamb�zio? � perguntou Cassell. O soldado aparecia mais ou menos uma vez por semana, para trazer cartas ou para me extrair informa��o sobre a corte. Hoje, contudo, apanhara-me de mau humor.</p><p>� Sempre sofri de melancolia � disse-lhe. � Particularmente nesta altura do ano.</p><p>� Voc�s, italianos, s�o reconhecidamente temperamentais. Deviam tentar montar a cavalo, ou praticar esgrima. � De s�bito, a sua express�o animou-se. � J� sei! Vou lev�-lo ao teatro. Vamos, eu insisto. � E assim, dei por mim num barco a caminho de Charing Cross, e depois a subir Drury Lane at� ao Teatro do Rei.</p><p>Esta era a maior das duas companhias teatrais de Londres, explicou-me ele enquanto faz�amos fila para nos sentarmos. A outra era a do Duque, que tinha o patroc�nio do irm�o do rei, o duque de Iorque. Era a primeira vez que eu visitava qualquer uma das casas. Para minha surpresa, homens e mulheres sentavam-se abertamente na plateia, lado a lado, enquanto na segunda plateia algumas das mulheres tinham m�scaras. Isto, disse-me Cassell, era sinal de que estavam ali para se divertirem e n�o se importavam de ser apalpadas. Entretanto, pequenas raparigas �rf�s corriam pelas coxias com cestos de laranjas; o cheiro dos frutos, quando eram descascados, misturado com o das velas de cera que iluminavam o palco, mitigava felizmente o fedor de tanta gente vulgar apinhada no mesmo espa�o.</p><p>Antes de a pe�a come�ar, dois trombeteiros anunciaram o rei e as pessoas levantaram-se com um respeito superficial enquanto o s�quito real se sentava num camarim ao lado do palco � mais uma vez, fiquei espantado com a aus�ncia de formalidade com que isto era feito, em compara��o com Fran�a ou It�lia. Louise estava ao lado do rei e trazia um chap�u franc�s elegante, o que queria dizer grande. Ouviram-se murm�rios entre a audi�ncia quando ela apareceu.</p><p>O papel feminino principal, nesse dia, era desempenhado por uma actriz identificada no programa como senhora Eleanor Gwynne, embora, tanto quanto percebi por aquilo que me disse Cassell, ela n�o fosse casada. O p�blico � que obviamente a adorava, ao ponto de chamar por ela durante a representa��o � tratava-a por �Nellie� ou �Nell�. O programa era duplo. Primeiro, uma pe�a s�ria sobre o mart�rio de Santa Catarina; achei-a bastante boa, embora os espectadores estivessem agitados, atirando cascas de laranja aos actores menos impressionantes � mas nunca a Nellie. S� aplaudiram a s�rio no momento em que, depois de a ac��o terminar, quando Nell jazia morta no palco e o cangalheiro se aproximava para a levar, ela se levantou subitamente e o deteve.</p><p><emphasis>�Alto! Est� louco? Seu maldito c�o rafeiro!</emphasis></p><p><emphasis>Tenho de me erguer e declamar o ep�logo!�</emphasis></p><p>O teatro quase veio abaixo com aplausos e risos, que se silenciaram apenas quando Nellie ergueu a m�o. Depois seguiu-se um discurso repleto de insinua��es libidinosas at� que, por fim, ela avan�ou at� � parte lateral do palco e se dirigiu ao pr�prio rei.</p><p><emphasis>�At� � vista, senhor, apressai-vos a regressar para mim:</emphasis></p><p><emphasis>Em breve terei de novo a vossa companhia.</emphasis></p><p><emphasis>Quanto ao meu epit�fio, quando eu morrer</emphasis></p><p><emphasis>N�o confio em nenhum poeta, serei eu a escrev�-lo:</emphasis></p><p><emphasis>�Aqui jaz Nellie, que, embora vivesse na m� vida,</emphasis></p><p><emphasis>Morreu uma princesa, a representar Santa Catarina.��</emphasis></p><p>Depois come�ou a dan�ar, levantando as saias e rodopiando de modo a que estas subissem cada vez mais, uma exibi��o que o p�blico encorajou com assobios e aplausos. Ela era bastante bonita, com pernas bem torneadas e um rosto que parecia repleto de piada e exuber�ncia; mas eu, pessoalmente, n�o via qual era o atractivo.</p><p>A segunda pe�a chamava-se <emphasis>A Conquista de Granada</emphasis>. Desta vez, a senhora Gwynne fez a sua entrada com uma indument�ria ex�tica, um chap�u do tamanho da roda de uma carruagem, uma grande cabeleira preta ca�da sobre os ombros e botas demasiado grandes nos p�s. O p�blico riu ruidosamente.</p><p>� Qual � a piada? � perguntei a Cassell. Ele tamb�m estava a rir, mas limitou-se a abanar a cabe�a.</p><p>Ainda com o chap�u enorme na cabe�a, a actriz avan�ou at� junto de um actor, com uma coroa de papel na cabe�a, que estava a remexer numa caixa de j�ias. Depois come�ou a falar. A sua voz mudara desde a pe�a anterior � agora falava numa esp�cie de ingl�s macarr�nico e arrastado. Mas havia qualquer coisa familiar naquele sotaque.</p><p>De s�bito, percebi o que estava a ver. O chap�u enorme era uma imita��o da moda francesa e o sotaque pretendia ser o de Louise � na verdade, <emphasis>era</emphasis> Louise: com uma precis�o inquietante, a actriz transformara-se, de alguma forma, na mulher francesa. A dada altura atravessou o palco, a estrutura delicada adoptando o passo �gil das pernas compridas de Louise; o leve toque de determina��o na postura de Louise estava agora comicamente exagerado, numa par�dia de uma coquete mandona, mimada e provocante.</p><p>� Mim n�o m� senhora! � ceceou Nellie, empurrando o actor. � Se mim pensar ser t�o m� senhora, mim cortar a garganta!</p><p>� Madame Cartwheel! N�o v� que eu a amo? � implorou o homem, caindo sobre um joelho e piscando o olho � audi�ncia, que estava agora perdida de riso. At� as vendedoras de laranjas estavam agarradas � barriga, com a mercadoria a tombar dos cestos.</p><p>� Oh, Vossa Majestade, mim n�o poder amar v�s. Pois mim ser grande dama de Fran�a.</p><p>O homem ofereceu-lhe algumas j�ias.</p><p>� Bom� talvez mim poder amar v�s s� um <emphasis>bocadinho</emphasis> � disse ela, enfiando as j�ias no decote. O p�blico estava descontrolado.</p><p>Olhei para o rei, que estava a tremer de riso. Ao lado dele, no camarote real, o rosto de Louise permanecia inexpressivo.</p><p>� J� estou farto � disse a Cassell.</p><p>Ele estava agarrado � barriga, como se lhe doesse.</p><p>� N�o� espere � disse. � A pe�a j� vai come�ar.</p><p>� J� vi palha�adas suficientes para um s� dia. � Zangado, abri caminho entre a multid�o at� ao exterior, empurrando homens e mulheres, com Cassell a seguir-me de m� vontade.</p><p>� Quis que eu visse isto � disse-lhe, quando nos vimos finalmente em Drury Lane.</p><p>Ele acenou, sem qualquer sinal de embara�o.</p><p>� Porqu�?</p><p>� Venha, vamos procurar uma taberna. � Come�ou a descer em direc��o ao Strand e eu acompanhei-o.</p><p>� Uma coisa � seduzir o rei � disse ele, calmamente. � Outra muito diferente ser� mant�-lo. Como acabou de ver, n�o h� falta de mulheres ansiosas por partilhar os despojos.</p><p>� A Nell Gwynne?</p><p>� Entre outras. A duquesa de Cleveland conquistou os seus t�tulos na cama dele, e ainda � bem capaz de acrescentar mais alguns � colec��o. A actriz Moll Davies tem uma bela casa em Pall Mall. A Peggy Clift tem uma pens�o de oitocentas libras por ano. E estas s�o apenas as que ele j� teve. H� neste preciso momento uma vintena de jovens na corte, todas elas ansiosas por ocuparem o lugar de madame Carwell. � Virou na direc��o de uma taberna com vista para o rio. � Ser� preciso mais do que mera aquiesc�ncia: ela vai precisar de todos os seus truques sujos franceses se quer�</p><p>Nunca terminou a frase. Rodei sobre mim pr�prio e dei-lhe um soco na cara. Senti os n�s dos dedos contra os dentes dele e depois dei por mim no ch�o, com a faca de Cassell encostada � garganta, a l�mina t�o firme como os olhos que se cravavam nos meus.</p><p>� Cuidado, <emphasis>signor</emphasis> � murmurou ele. � Ganhei simpatia por si, mas n�o aceitarei um insulto desses de homem nenhum.</p><p>� Nem eu � retorqui, devolvendo o olhar.</p><p>Passado algum tempo, ele afastou a faca.</p><p>� Por amor de Cristo � disse, incr�dulo. � Tamb�m tem um fraquinho por ela.</p><p>Levantei-me.</p><p>� N�o seja rid�culo. Simplesmente ofende-me a insinua��o de que sou, de alguma forma, o chulo de Louise. Se deseja falar com ela sobre o que deve ou n�o deve fazer, fa�a-o directamente.</p><p>Ele come�ou a sacudir-me a terra das costas, t�o calmo agora como se a nossa alterca��o nunca tivesse acontecido.</p><p>� Se o ofendi inadvertidamente, <emphasis>signor</emphasis>, por favor aceite as mi�nhas desculpas. � O seu tom era cort�s mas, apesar disso, a express�o dos seus olhos era pensativa.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Fico quase sem f�lego com a franqueza da pe�a. Estou habituada a <emphasis>bon mots</emphasis> maliciosas, a observa��es cortantes, aos apartes sorridentes mas corrosivos de Versalhes, mas a pura barbaridade descarada do ataque de Nell Gwynne � algo completamente diferente. S� com grande esfor�o me contenho para n�o gritar enquanto assisto.</p><p>E depois todos a aplaudem. Os risos, posso perdoar � qualquer pessoa pode rir-se e depois arrepender-se � mas aplaudir!</p><p>Mantenho propositadamente as m�os cruzadas no colo. Carlos repara e inclina-se para mim.</p><p>� Ao princ�pio, eles podem parecer muito rudes � diz, em tom apolog�tico. � Mas � apenas a maneira que t�m de lhe dar as boas-vindas.</p><p>� Mas porque � que ela me odeia tanto?</p><p>Ele olha para o palco, onde Eleanor Gwynne est� neste mo�mento a dan�ar outra vez, ao ritmo dos aplausos da multid�o.</p><p>� Ela n�o a odeia. � apenas a ideia de divers�o da Nelly. Por favor, n�o d� import�ncia a isto, Louise. A Nell gosta muito de se divertir.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para uma ocasi�o especial, nada � melhor do que um gelo.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�� um ataque a todos n�s � disse Arlington. � A Nell � uma criatura do Buckingham. Ele ainda n�o se esqueceu de como foi enganado com o tratado. Tem estado � espera de uma oportunidade.</p><p>� �, particularmente, um ataque a Fran�a � disse Colbert. O pequeno embaixador franc�s juntou-se desta vez � nossa reuni�o. � N�o podemos dar-nos ao luxo de o ignorar.</p><p>� N�o dev�amos fazer nada. � Era Walsingham. � A s�tira da Nell pode ter feito o rei rir, mas o seu �nico efeito pr�tico foi empurr�-lo ainda mais para os bra�os de madame Carwell. Ele n�o voltou a visitar Nell desde a morte da irm�. Nem qualquer outra das suas amantes habituais, na verdade. A duquesa de Cleveland est� reduzida a ter de satisfazer os seus apetites carnais com um artista da corda bamba.</p><p>Ningu�m lhe perguntou como sabia. Presumia-se que a informa��o de Walsingham era sempre correcta.</p><p>� <emphasis>Voc�s</emphasis> podem ignor�-lo � admitiu Colbert. � Mas eu n�o posso. � a reputa��o de Fran�a que est� em jogo.</p><p>� E o que pensa fazer? � perguntou Arlington em tom ir�nico. � Ripostar com uma pe�a sobre o Cerco de Orle�es?</p><p>� Um baile � disse o embaixador com firmeza. � Vou dar um baile. Afinal de contas, imp�e-se que celebremos o regresso da sa�de de Sua Majestade. E ser� uma oportunidade para mostrar aos vossos conterr�neos como se fazem estas coisas. N�o ser�o poupados esfor�os, nada! � Olhou directamente para mim. � Teremos gelos, <emphasis>signor</emphasis>. Gelos, para oitocentos convidados. Temos de recordar a toda a gente de onde v�m os prazeres do rei.</p><p>N�o era um pedido.</p><p>Por�m, na verdade, mesmo que o embaixador me tivesse dado a possibilidade de recusar, eu teria agarrado com unhas e dentes a oportunidade que este baile representava. Estava a ficar louco, aqui em Inglaterra, fechado nesta pequena corte, neste pequeno pa�s, a fazer gelos para um c�rculo t�o reduzido.</p><p>N�o era apenas o embaixador que queria mostrar-lhes como estas coisas se faziam em Versalhes.</p><p>Aos poucos, os planos foram surgindo. �amos apoderar-nos do Parque de St. James e transform�-lo numa r�plica dos jardins de Versalhes. Haveria um grande pal�cio de lona e <emphasis>papier m�ch�</emphasis>, erigido apenas por uma noite, como acontecia nos <emphasis>divertissements</emphasis> de Lu�s XIV. Uma orquestra de m�sicos franceses, trazida especialmente para a ocasi�o. Os pr�prios convidados nobres estariam todos mascarados, como num baile de m�scaras.</p><p>At� os gelos seriam particularmente not�veis. Colbert ia servir o vinho <emphasis>p�tillant blanc</emphasis> de Champagne que era um t�o forte s�mbolo da coopera��o anglo-francesa: o vinho era franc�s, mas as garrafas extra fortes que o tornavam poss�vel tinham sido inventadas por um membro da mesma Sociedade Real a que pertencia o ilustre Robert Boyle.</p><p>E eu � eu serviria sorvetes de champanhe.</p><p>Sabia muito bem que a inclus�o de �lcool dificultava muito a prepara��o dos gelos. O vinho era particularmente complicado; o vinho espumante ainda mais. No entanto, a crescente confian�a que tinha nas minhas pr�prias capacidades era suficiente para querer tentar.</p><p>N�o seria esse o �nico gelo na ementa, claro. Depois de muito reflectir, decidi-me por um sorvete de rom� com molho de champanhe; uma geleia de ma�� e cris�ntemo e um <emphasis>granite</emphasis> de leite de funcho. As cozinhas do embaixador produziriam o prato principal, uma refei��o leve de carnes francesas, mas as sobremesas seriam todas minhas: uma selec��o de sorvetes e � finalmente! � a primeira apari��o p�blica do meu gelo cremoso de p�ra e <emphasis>cr�me anglaise</emphasis>, essa nobre alian�a, servido numa dupla coroa de biscoito, para representar a feliz uni�o dos dois reis.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>O embaixador franc�s quer saber se o rei ir� ao baile.</p><p>� N�o fa�o ideia � digo. � Ainda est� de luto pela morte da irm�.</p><p>� Claro � murmura o embaixador. � Foi uma infelicidade, a morte dessa senhora� e contudo, n�o consigo lament�-la, porque a trouxe para c�, <emphasis>mademoiselle</emphasis>. Que fortuito que o rei tenha encontrado conforto na companhia de uma das nossas conterr�neas.</p><p>Todo o seu discurso � assim � ligeiro e empolado e pretensioso. Lan�a uma insinua��o e espera que eu a contradiga; se n�o o fa�o, pensa que confirmei o que ele est� a pensar, quando a verdade � que, pura e simplesmente, n�o � nada da conta dele.</p><p>� Encomendei gelos � diz ele, passado um momento. � Gelos, na esperan�a de que o rei nos honre com a sua companhia.</p><p>� Sim � digo. � Esperemos que o fa�a.</p><p>Dois dias antes do baile, chegam tr�s embrulhos, trazidos por lacaios de libr�. Com eles, vem um bilhete:</p><p><emphasis>Chega de luto � CR</emphasis></p><p><emphasis>Carolus Rex.</emphasis> Carlos o rei. Uma ordem real.</p><p>Dentro do primeiro embrulho, encontro uma m�scara na qual foram cosidos diamantes min�sculos. O segundo cont�m uma fantasia � cal�as de salteador da estrada, um casaco curto, como o de um conquistador, um tric�rnio, tudo a brilhar com fios de prata e feito de sedas reluzentes. No �ltimo embrulho est�o botas, um cinto, uma pistola prateada.</p><p>Prendo o meu cabelo rebelde num rabo-de-cavalo de homem e pinto os l�bios do mesmo vermelho-escuro da m�scara.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para um sorvete de champanhe: misture quatro ch�venas de champanhe, uma ch�vena de �gua e uma ch�vena de a��car numa panela, e leve a ferver com a raspa de um lim�o at� o a��car se dissolver. Deixe arrefecer e adicione o sumo do lim�o. Enquanto gela, v� soltando o sorvete com um garfo.</p><empty-line/><empty-line/><p>Geleia de cris�ntemo e ma��: ferva em lume brando cinco ou seis ma��s verdes e uma d�zia de flores de cris�ntemo, depois passe por um coador. Assim que arrefecer, adicione uma ch�vena de xarope de a��car e um pouco de goma. Deite em ta�as e refresque, mas sem gelar.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Ainda bem consciente da necessidade de segredo, contratei apenas o pessoal do Red Lion para meus assistentes. Havia muito a fazer e atirei-me ao trabalho, feliz por, para variar, poder pensar noutra coisa al�m de pol�tica. Durante duas semanas trabalh�mos, armazenando em gelo os sorvetes terminados para manterem a frescura.</p><p>Atrasei tanto quanto me atrevi a minha chegada ao baile � sabia que, ao final da noite, o calor seria imenso, e queria que os meus gelos ficassem frios tanto tempo quanto poss�vel. Assim, n�o fiquei surpreendido ao encontrar uma multid�o compacta em volta do parque. O que me surpreendeu, contudo, foi descobrir que, longe de estarem a apreciar o espect�culo, estas pessoas eram hostis.</p><p>� Porque est�o a gritar daquela maneira? � perguntei.</p><p>Hannah, que ia na caixa da carro�a com as arcas de gelo, disse calmamente:</p><p>� Pensam que Fran�a pretende convencer-nos a lutar contra os Holandeses e que depois, quando estivermos enfraquecidos, se virar� contra n�s.</p><p>�Guerra n�o� papa n�o� era o c�ntico da multid�o, bem como �V�o para casa� e �Cat�licos fora�. Enquanto tent�vamos entrar no parque, a carro�a foi empurrada de um lado para o outro e s� com grande esfor�o consegui manter as arcas de gelo seguras.</p><p>� Os soldados n�o podem manter a ordem? � perguntei, exasperado.</p><p>Um homem estendeu-me um panfleto.</p><p>� Veja as imagens, leia as rimas! A escandalosa sedu��o de madame Carwell, com gravuras. Veja o que o velho Rowley anda a fazer agora� � Empurrei-o com o p� e ele caiu na lama.</p><p>Dentro da tenda, em contraste, havia apenas decoro e eleg�ncia. Em cada esquina estavam lacaios de cabeleira, prontos para servirem o meu sorvete de champanhe em travessas de prata; havia m�sica francesa e conversas em franc�s e as dan�as lentas e majestosas de Versalhes. Vi que a luz dos quatro grandes candelabros se reflectia nas ta�as de vidro, fazendo com que os sorvetes brilhassem como diamantes. At� as garrafas de champanhe estavam a ser arrefecidas em urnas feitas de blocos de gelo reluzente.</p><p>Havia muito para fazer � os primeiros convidados j� estavam a chegar enquanto eu distribu�a as arcas de gelo, uma para cada dois criados.</p><p>� Mantenham os gelos t�o frescos quanto conseguirem � ordenei. � Quando a travessa estiver vazia, reabaste�am da arca, mas mantenham a tampa fechada, sen�o em breve ter�o apenas uma sopa fria. � Eles olharam para mim com express�es de incompreens�o: nunca tinham ouvido falar de gelos e, por mais do que uma vez, tive de explicar pacientemente por que motivo as bebidas que iam servir deviam ser mesmo assim t�o frias e porque n�o era boa ideia aquec�-las. A orquestra afinou os instrumentos e come�ou a tocar: os trombeteiros anunciaram as primeiras chegadas; o pr�prio embaixador pegou numa travessa de gelos e posicionou-se � entrada, para receber as pessoas e impingir a cada uma esta novidade de Fran�a.</p><p>Mesmo assim, n�o parei � andava de um lado para o outro, a tentar que os lacaios compreendessem que um sorvete, depois de derretido, j� n�o prestava. Alguns estavam a ficar sem sorvetes mais depressa do que os outros e as arcas de gelo tiveram de ser redistribu�das para garantir que todos tinham o suficiente.</p><p>E depois vi-a. Vi-a, e o mundo parou.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>As outras mulheres vieram mascaradas de pastoras, ninfas, figuras da mitologia romana e francesa. At� as dan�as s�o francesas � minuetes e portamentos e marchas. Todas as pessoas que t�m alguma import�ncia em Londres est�o presentes, bem como todos os nobres e cortes�os franceses que se encontram em Inglaterra. Um ataque a Fran�a � um ataque a todos eles, e agora toda a gente est� � espera para ver se o rei mostrar� o seu apoio a Fran�a ao comparecer na recep��o do embaixador franc�s.</p><p>Se ele n�o aparecer, ser� com certeza um sinal de que a alian�a est� quebrada.</p><p>E depois � finalmente! � uma figura alta e mascarada aparece ao cimo das escadas, acompanhada por um pequeno grupo de cortes�os privilegiados. O ru�do da multid�o diminui, como um animal que sust�m a respira��o para olhar, e depois recome�a, mais alto ainda do que antes.</p><p><emphasis>O rei. O rei est� aqui.</emphasis></p><p>E�</p><p>Ele j� n�o veste o preto de luto pela irm�, mas sim o tric�rnio de plumas, o casaco prateado e as botas enroladas de um mosqueteiro franc�s.</p><p><emphasis>O rei inclina-se perante Fran�a.</emphasis></p><p>� medida que ele se dirige a mim, as pessoas curvam-se numa grande onda, abandonando instantaneamente qualquer fingimento de que ele est� inc�gnito sob a m�scara � a for�a da sua passagem espalha as v�nias pela multid�o como uma foice a cortar o milho.</p><p>Curvam-se atr�s dele e ele ignora-os, continuando a avan�ar.</p><p>P�ra � minha frente.</p><p>Em vez de fazer uma rever�ncia, ergo a pistola e aponto para o peito dele. Para o seu cora��o. Ouve-se uma exclama��o colectiva e a sala silencia-se.</p><p>� Uma d�diva, por favor � digo, calmamente.</p><p>O rosto mascarado vira-se para mim.</p><p>� H� tr�s coisas que poderia dar-lhe, bonita salteadora. Consegue adivinhar quais s�o?</p><p>Os cortes�os riem-se, j� com a mente na alcova. Eu abano a cabe�a.</p><p>� Posso dar-lhe uma dan�a, posso dar-lhe um beijo ou posso dar-lhe o meu cora��o. Qual ser�?</p><p>Levanto a arma.</p><p>� Uma dan�a, ent�o.</p><p>� Muito bem. � Enquanto me escolta at� � pista, os m�sicos voltam ao princ�pio da pe�a, pelo que toda a gente se v� for�ada a recome�ar.</p><p>Quando chegamos ao fim do grupo ele coloca as m�os contra as minhas, palma com palma, e entrela�amos os dedos. Os seus olhos, escuros por tr�s da m�scara, trespassam-me.</p><p>Depois abre um pouco os bra�os, ainda com os dedos presos nos meus, e puxa-me para si. Mais uma vez, sinto a sala � nossa volta silenciar-se.</p><p>Ser� isto parte do nosso jogo? Ou algo mais?</p><p>O mais leve dos beijos, mesmo no canto da minha boca. O cheiro da sua col�nia, almiscarada e francesa. Os p�los do seu bigode. E depois os seus l�bios pressionam mais e envolvem os meus.</p><p>Involuntariamente, fico r�gida e ele recua.</p><p>Oi�o os murm�rios � nossa volta.</p><p>Ele encosta os l�bios ao meu ouvido.</p><p>� Por um beijo destes, travaria mil guerras.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer um sorvete de rom�: esprema rom�s suficientes para encher duas ch�venas de sumo. Adicione meia ch�vena de a��car para ado�ar, depois mexa e congele. Para servir, deite champanhe sobre o sorvete, decorando com sementes de rom� e pedacinhos de laranja cristalizada.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O fato de salteador ficava-lhe bem, real�ando a cintura fina, as ancas esguias, as costas longas, o pesco�o elegante. Mas era a sua postura que a distinguia das damas inglesas � sua volta. Bastaria observar o seu porte para perceber que era uma filha de boas fam�lias de Fran�a.</p><p>O rei dan�ou com ela. N�o consegui desviar os olhos. Nem eu, nem ningu�m: mas para mim era diferente.</p><p>Pela forma como as outras pessoas olhavam para ela, parecia que ela era uma galinha e eles uma matilha de lobos, prontos para a despeda�arem. Estava sozinha contra todos, mas nunca vacilou.</p><p>Olhei para ela e percebi que a amava.</p><p>Como podia t�-lo negado durante tanto tempo? Amava-a desde que a encontrara sob as nespereiras em Versalhes.</p><p><emphasis>Talvez nos voltemos a encontrar.</emphasis></p><p><emphasis>Se ambos continuarmos � procura de s�tios para estarmos sozinhos,</emphasis> signor<emphasis>, pode ter a certeza disso�</emphasis></p><p>A dan�a chegou ao fim. O tempo retomou a sua marcha inexor�vel. Apesar disso, continuei a olhar para ela, enquanto o rei a soltava. Ela voltou para o fundo da sala. N�o tinha ningu�m com quem ir ter, ningu�m com quem estar.</p><p>J� ouvi o amor ser comparado a um fogo, mas essa compara��o est� errada. Quando tocamos numa chama, afastamo-nos. A dor � r�pida e s�bita e depois desaparece.</p><p>O amor � como gelo. Apodera-se de n�s sorrateiramente, penetrando no nosso corpo de forma furtiva, desfazendo as nossas defesas, encontrando os recantos mais escondidos da nossa carne. N�o � como calor ou dor ou ardor, mas antes como um entorpecimento interior, como se o nosso cora��o estivesse a solidificar, a transformar-nos em pedra. O amor aperta-nos com uma for�a capaz de partir rochas ou estilha�ar o casco de barcos. O amor consegue levantar lajes do pavimento, desfazer m�rmore, fazer mirrar as folhas nas �rvores.</p><p>Eu amava-a, e nunca a poderia ter.</p><p>Depois algo chamou a minha aten��o e vi uma figura alta a observ�-la tamb�m, por cima das cabe�as dos seus cortes�os. As pessoas estavam a rir e a brincar mas ele n�o lhes prestava qualquer aten��o. Estava a olhar para Louise, im�vel como uma est�tua. T�o im�vel como eu.</p><p>O rei.</p><p>Vi que ele a amava, tal como eu.</p><p>Carlo e rei Carlos. Fruto da mesma �rvore. Reflexos num espelho. Rivais, sem o serem.</p><p>Pois ele era rei e eu n�o. Ele podia t�-la e eu n�o. O gelo acabaria por deixar o seu cora��o, mas ficaria para sempre no meu.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>As m�scaras n�o enganam ningu�m. No entanto, n�o reconhe�o a mulher de viseira xadrez que se coloca ao meu lado mais tarde, junto da mesa.</p><p>� Ent�o � a senhora a minha substituta.</p><p>Viro-me para ela. Alta, elegante, mais velha do que eu. Mas h� qualquer coisa no seu porte � confiante, forte, autorit�rio � que me p�e de sobreaviso.</p><p>� Oh, n�o se preocupe � diz ela. � Foi bom enquanto durou. Al�m disso, como sem d�vida j� deve ter descoberto, alguns dos� pecadilhos dele podem tornar-se bastante aborrecidos.</p><p>� Quem � a senhora?</p><p>� N�o sabe? � Ela parece divertida. � Bom, suponho que h�, de facto, muitas de n�s. Mas eu sou a �nica, at� agora, que ganhei um t�tulo. Bom, � verdade que tive de o deixar ver-me com tr�s dos seus guardas para ele fazer de mim duquesa.</p><p>O meu choque deve ser evidente, apesar da m�scara.</p><p>� Oh, ele ainda n�o lhe sugeriu isso? � murmura. � D�-lhe tempo, minha querida, d�-lhe tempo. Mas n�o se deixe enganar por aquelas maneiras impec�veis. Apesar de todo aquele charme, ele � t�o libertino como os outros todos.</p><p>Um lacaio avan�a com uma travessa carregada de lagostins. Espeta uma faca num e oferece-mo. Olho em volta. A outra mulher desapareceu.</p><p>� Onde fica a retrete? � pergunto ao lacaio. � Depressa� acho que vou vomitar.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p>PARTE TR�S</p><empty-line/><empty-line/><p>�O afecto do rei de Inglaterra por mademoiselle de Keroualle cresce de dia para dia, e o pequeno ataque de n�usea que ela teve ontem deixa-me esperan�oso de que a sua sorte continue, pelo menos durante o tempo restante da minha embaixada��</p><p><emphasis>Colbert de Croissy, embaixador franc�s em Inglaterra,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
      para Louvois, ministro da Guerra franc�s</emphasis></p><empty-line/><empty-line/><p>�O rei ficou surpreendido com o que me escreveu sobre mademoiselle de Keroualle, cuja conduta enquanto esteve aqui, e desde que est� em Inglaterra, n�o inspirava grande expectativa de que conseguisse obter tal sucesso t�o rapidamente. Sua Majestade aguarda ansioso por mais informa��es sobre a liga��o que o senhor julga existir entre o rei e ela��</p><p><emphasis>Louvois para Colbert</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Louise</emphasis></p><empty-line/><p>�Sua Majestade Crist� quer saber <emphasis>o qu�</emphasis>?</p><p>� Se existem, ah� not�cias felizes. Se o rei de Inglaterra ir� ser aben�oado, talvez, com um filho.</p><p>� Ter� de pergunt�-lo � rainha. N�o ouvi dizer nada a esse respeito, nem ser� prov�vel que oi�a.</p><p>� Na verdade, <emphasis>mademoiselle</emphasis>, eu n�o estava a referir-me � rainha.</p><p>� Ent�o a quem? De quem estava a falar, Excel�ncia?</p><p>O embaixador tem a dec�ncia de parecer embara�ado.</p><p>� Tinha formado a opini�o de que as suas excelentes rela��es com o rei poderiam, talvez, ser�</p><p>Olho para ele.</p><p>� Inteiramente respeit�veis. E assim permanecer�o.</p><p>� Compreendo. � O embaixador parece ter empalidecido um pouco. � Ent�o n�o h� nada que eu deva transmitir a Versalhes? O pr�prio rei pediu um� esclarecimento.</p><p>� Pode dizer a Sua Majestade Crist� que estou perfeitamente consciente do facto de que a honra de Fran�a depende da honra de cada um dos seus cidad�os. E que nunca, nunca, farei algo para causar descr�dito � reputa��o do nosso pa�s.</p><p>� Sim. Sim, com certeza.</p><p>� Eu sou Louise Renee de Penac�et, dama de Keroualle, a filha mais velha da fam�lia mais antiga da Bretanha. N�o uma florista vulgar.</p><p>Ele faz uma v�nia r�gida.</p><p>� Somos de facto afortunados por ter entre n�s algu�m de t�o distinta linhagem. E de moral t�o irrepreens�vel, claro.</p><p><emphasis>Bennet, lorde Arlington, para Ralph Montagu, enviado ingl�s:</emphasis></p><p>Colbert � um idiota: prometeu ao rei de Fran�a que o jogo estava quase no fim e agora tem a infeliz tarefa de lhe dizer que ainda mal come�ou. Contudo, Louvois parece ter as suas pr�prias fontes e sabe muito mais do que o seu embaixador sobre o que se passa realmente em Whitehall� certamente que sabe o que a rapariga em quest�o fez ou n�o fez e, a julgar pelas cartas que vimos, ele disse a Colbert, em termos muito claros, para confirmar os factos antes de enviar mexericos atrav�s do correio diplom�tico. Por�m, tudo isto teve como consequ�ncia que o embaixador est� agora embara�ado e deseja que n�s aceleremos as coisas. Naturalmente, deixei-lhe bem claro que pode contar com a nossa ajuda, mas que tamb�m est� na altura de o seu rei desempenhar o seu papel. Isto deixou-o ainda mais ansioso, pois claro que n�o pode dizer ao rei o que deve fazer, mas n�o seria embaixador se n�o fosse capaz de encontrar maneira de colocar a minha sugest�o de modo a que pare�a ser ideia do pr�prio Lu�s�</p><p><emphasis>Colbert para Sua Majestade Crist�, Lu�s XIV:</emphasis></p><p>Senhor: � certo que o rei de Inglaterra mostra um caloroso afecto por mademoiselle de Keroualle, e talvez tenhais tido conhecimento, por outras fontes, dos aposentos sumptuosos que lhe foram atribu�dos em Whitehall. Sua Majestade dirige-se ao apartamento dela todas as manh�s, �s nove horas, e nunca fica menos de uma hora, por vezes duas. Regressa depois de jantar, cobre todas as suas apostas na mesa de jogo e n�o deixa que lhe falte nada. Todos os ministros cortejam avidamente a amizade desta senhora e lorde Arlington disse-me recentemente que estava muito satisfeito por ver cada vez mais refor�ada a liga��o do rei a mademoiselle de Keroualle. Lorde Arlington disse-me tamb�m que Sua Majestade n�o � homem de partilhar assuntos de Estado com as senhoras; no entanto, j� que elas t�m sempre o poder de prejudicar quem n�o lhes agrada, � muito melhor para os bons servos do rei que Sua Majestade tenha inclina��o por esta senhora, que n�o � pessoa maliciosa e � uma fidalga, em vez de por actrizes e outras criaturas indignas do g�nero, que s�o sempre uma inc�gnita. Disse-me ainda lorde Arlington que era necess�rio aconselhar esta jovem a dedicar-se ao rei, de modo a que ele n�o encontre outra coisa junto dela sen�o prazer, paz e sossego. Acrescentou ainda que, se lady Arlington tivesse seguido as suas sugest�es, aconselharia esta jovem a ceder sem reservas aos desejos do rei e dir-lhe-ia que n�o havia alternativa para ela a n�o ser um convento em Fran�a, e que eu devia ser o primeiro a faz�-la compreender isto. Em tom jocoso, respondi-lhe que estou demasiado grato ao rei e n�o sou idiota o suficiente para dizer a mademoiselle para preferir a religi�o �s boas gra�as de Sua Majestade; que estava tamb�m convencido de que ela n�o estava � espera dos meus conselhos mas que, apesar disso, lhos daria, para mostrar o valor que lorde Arlington e eu damos � sua influ�ncia, e para a informar da obriga��o que ela tem perante o meu senhor�</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>O momento de servir um gelo � o ponto alto de qualquer reuni�o.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O baile foi um sucesso. Um grande sucesso: o rei Carlos era novamente o monarca alegre, o pr�ncipe do prazer. Todas as noites havia festas, bailes de m�scaras, jogos de cartas com apostas altas, brincadeiras e frivolidade e gra�a. E fora Fran�a que o conseguira. Mais uma vez, Fran�a era a ep�tome de tudo o que � elegante. Pe�as francesas eram representadas nos teatros reais; pratos franceses servidos em todas as mesas da aristocracia; gelos franceses � ou seja, os <emphasis>meus</emphasis> gelos � adornavam todos os jantares e bailes. A nobreza come�ou a construir febrilmente planta��es de ananases, pomares e casas de gelo nas suas propriedades, e as grandes casas de Inglaterra mandaram remodelar as <emphasis>fa�ades</emphasis> ao estilo dos <emphasis>ch�teaux</emphasis> franceses. Os tectos eram pintados como em Versalhes e todas as mulheres da alta sociedade exigiam uma <emphasis>salle des miroirs</emphasis> onde beberricarem as suas ch�venas de porcelana de <emphasis>th�</emphasis>.</p><p>Apenas as pessoas comuns estavam taciturnas e inquietas, sem saber onde isto iria acabar. Todos os mec�nicos ou criados sabiam dizer o que estava a acontecer na Europa: juntavam-se para comprar os jornais baratos vendidos em tabernas e caf�s e depois sentavam-se a discutir as not�cias, com express�es graves. Lu�s queria guerra, isso era evidente. Mas seria a Holanda ou a Espanha o primeiro pa�s a ser engolido? E, se a vit�ria era inevit�vel, seria melhor ser seu aliado ou seu inimigo? Ele j� fizera alian�as antes, para depois se virar contra os seus aliados quando mais lhe convinha.</p><p>O parlamento ratificou o Tratado de Paris, mas o Tratado de Dover continuava a ser um segredo conhecido apenas por muito poucos.</p><p>Agora mais ocupado, comprei uma cadeirinha para me deslocar mais depressa entre a multid�o. Vi os olhares desaprovadores de Hannah e pensei que fosse apenas por causa da extravag�ncia. Mas depois vi-a discutir com um dos brutamontes que eu contratara para transportar a cadeirinha, chamar-lhe um cepo in�til que estava sempre a estorv�-la, e perguntei-lhe qual era o problema.</p><p>� O problema � tratar ingleses como escravos e bestas de carga � respondeu ela, furiosa. � Esse tipo de cadeiras n�o se via em Inglaterra antes de o rei ter voltado.</p><p>� Nesse caso, com certeza que � um progresso, n�o?</p><p>� Trata-se apenas de homens a considerarem-se melhores do que outros homens.</p><p>� Se a minha sorte melhorou � observei �, a sua melhorou com ela. E a de Elias tamb�m. � Era verdade: eu estava a pagar-lhe mais um xelim por semana e Elias tinha agora um uniforme elegante para poder acompanhar-me � corte.</p><p>Ela limitou-se a resmungar qualquer coisa entre dentes, com maus modos, e voltou ao que estava a fazer.</p><p>Quanto a Louise, a sua estrela subira ainda mais do que a minha. Onde o rei estava, ela estava tamb�m, ajudando-o a descontrair em <emphasis>soir�es</emphasis> e festas, o seu riso l�mpido e franc�s a cortar atrav�s do zunzum de mexericos e do som dos instrumentos dos m�sicos, o seu sorriso atraindo todos os olhares.</p><p>Quem olhasse para ela poderia pensar que estava triunfante; que, depois de ter conseguido arrancar o rei ao seu luto, fizera o suficiente. Contudo, n�o era assim, e estava agora a ser mais pressionada do que nunca.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Recebo uma carta. Uma carta do pr�prio Lu�s XIV.</p><p>Leio-a sentada ao meu cravo, com o embaixador de p� ao meu lado. Ele tem um sorriso sofredor nos l�bios, como se fosse um professor de m�sica e eu uma aluna particularmente recalcitrante.</p><p>� Sabe o que aqui diz? � pergunto, depois de acabar de ler. Coloco a carta no suporte da m�sica, para que ele n�o perceba como a minha m�o treme.</p><p>� N�o tenho a presun��o de adivinhar os pensamentos do meu rei. � Reparo que n�o responde concretamente � minha pergunta. � Talvez ele tenha algum conselho paternal para lhe dar?...</p><p>� �O rei de Fran�a recomenda-lhe que agrade ao rei de Inglaterra.� O que sup�e que ele quer dizer com isto?</p><p>Colbert n�o responde.</p><p>� Embora, naturalmente, sendo eu uma s�bdita leal, ele tenha todo o prazer em me receber de volta a Fran�a quando eu desejar regressar. E, em considera��o pela estima que Madame tinha por mim, falou com a abadessa do convento de Marselha, que teve a generosidade de me oferecer um lugar como novi�a; isto, claro est�, se decidir que prefiro realmente virar costas � diplomacia e prosseguir, em vez disso, uma vida de virtude e reflex�o. Bom, o rei n�o falou realmente com ela, uma vez que a ordem em quest�o fez votos de sil�ncio, mas trocaram correspond�ncia. Ao que parece, as freiras desse convento est�o a fazer um trabalho admir�vel junto dos leprosos. � por isso que h� a certeza de uma vaga, uma vez que as irm�s s�o recompensadas pela sua virtude sendo chamadas para junto de Deus mais cedo do que a maioria das pessoas.</p><p>� Como sempre, os conselhos de Sua Majestade s�o muito generosos � murmura ele.</p><p>� Oh, sim� e h� umas terras em Brest, que pertenceram anteriormente � minha fam�lia e que reverteram agora para o rei. Ele est� a pensar o que h�-de fazer com elas. Ent�o, o que pretende que fa�a, Excel�ncia?</p><p>O sorriso de Colbert � inescrut�vel.</p><p>� Como assim?</p><p>� Sua Majestade termina sugerindo que eu procure o seu conselho� o seu e o dos Arlington. Bom, j� sei qual ser� o deles. Lady Arlington pensa que eu devo ceder ao rei, sem reservas. Foram essas as suas palavras, ainda esta manh�. �Ceder sem reservas.� O que me diz a isso?</p><p>Ele parece aflito.</p><p>� Aqui em Inglaterra t�m uma maneira de falar que, por vezes, � detestavelmente franca. Grosseira, mesmo.</p><p>� E contudo, uma coisa podemos dizer a seu favor: � tamb�m perfeitamente clara. Por exemplo, s� agora � que eu compreendo o total alcance dos des�gnios do meu rei. � Falo calmamente, mas s� com grande esfor�o n�o mostro a minha f�ria.</p><p>Ele consegue parecer ao mesmo tempo ignorante e inquisitivo, apenas com um erguer de sobrancelha.</p><p>� Oh, penso que ambos sabemos o que isso significa � digo. � Ou prefere que eu seja ainda mais grosseira do que lady Arlington?</p><p>� Ah, sim, compreendo. Bom, deve fazer aquilo que achar me�lhor.</p><p>� De facto. � Dobro a carta e entrego-lha. � � evidente para mim que Sua Majestade Crist� n�o foi informado da exist�ncia de outra possibilidade.</p><p>� Qual?</p><p>� Refiro-me � sugest�o de lorde Arlington de que eu poderei tornar-me rainha de Inglaterra, quando Catarina de Bragan�a falecer.</p><p>O embaixador empalidece. Os seus olhos desviam-se para a porta, como se quisesse confirmar que n�o h� ningu�m � escuta.</p><p>� <emphasis>Lorde Arlington</emphasis> fez essa proposta?</p><p>� Sim. N�o estava a par deste plano? O racioc�nio � simples. Uma francesa� uma cat�lica� no trono de Inglaterra significaria�</p><p>� N�o diga essas coisas! � sussurra ele. � Nem sequer as pense!</p><p>� Tinha presumido que sabia�</p><p>� N�o h� plano algum! � guincha ele. � E n�o acredito que lorde Arlington, de todas as pessoas, alguma vez tenha sugerido que havia.</p><p>� Ele disse� � come�o, mas depois calo-me. O que dissera Arlington, concretamente? Tento recordar. Com um aperto no est�mago apercebo-me de que, na verdade, ele n�o disse nada. Foram apenas insinua��es, sugest�es. Desenhos tra�ados no ar. � Ele disse que o estado de sa�de da rainha � muito grave.</p><p>Colbert acena afirmativamente.</p><p>� Isso � certo. Naturalmente, Fran�a espera que Sua Alteza recupere completamente.</p><p>� E disse que podia ser Lu�s, e n�o o parlamento ingl�s, a decidir a sua sucessora.</p><p>O embaixador olha para mim como se eu estivesse a dizer disparates sem sentido.</p><p>� Se houvesse uma sucessora, e se Sua Majestade Crist� fosse consultado, naturalmente que daria ao primo o benef�cio dos seus conselhos. No entanto, qualquer rainha sugerida seria de sangue real.</p><p>� Eu sou uma de Keroualle, e portanto descendente indirecta dos antigos reis da Bretanha pela parte da minha m�e�</p><p>� � uma dama de companhia! E na mis�ria, ainda por cima!</p><p>� A minha linhagem�</p><p>� Linhagem! Que conversa � esta sobre linhagem? Isso � para c�es, n�o para rainhas e princesas de sangue real. � Ele passa a m�o sobre o rosto. � As rainhas t�m <emphasis>dotes</emphasis>. Catarina de Bragan�a trouxe ao rei ingl�s T�nger e Bombaim. Sem ela, ele n�o teria nada. N�o poderia ter sido rei.</p><p>Olho para ele, aturdida e sem palavras. Todo este tempo, enquanto eu tenho estado a tentar Carlos, eles estavam a tentar-me a mim; a seduzir-me com a ilus�o de um futuro que n�o tinham a m�nima inten��o de ver concretizado.</p><p>� Mas se Carlos <emphasis>casasse</emphasis> comigo�</p><p>� Claro que o rei Carlos n�o casar� consigo. N�o pode. O parlamento nunca o permitiria. Os seus conselheiros n�o o permitiriam. Sua Majestade Crist� n�o o permitiria.</p><p>Estou quase a chorar. Sinto as l�grimas a arderem-me nos olhos.</p><p>� Se ele quiser casar por amor�</p><p>� O casamento n�o � o que os reis fazem quando amam � diz ele, calmamente.</p><p>Voltamos portanto a isso.</p><p>� Nesse caso, o que quer que eu fa�a? � pergunto, entorpecida.</p><p>Ele faz uma v�nia.</p><p>� � como dissemos. A senhora tem a sorte de ser alvo das aten��es de um rei, e assim encontra-se em posi��o de prestar um grande servi�o a Fran�a. Por�m, se sentir que esta� esta honra, � algo que a deixa pouco � vontade, tem uma alternativa. � Indica a carta com um aceno. � O convento. Portanto, agora, � duplamente afortunada. Poucas mulheres, na sua posi��o, t�m o luxo de poder escolher.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Um gelo demasiado doce ou pesado nunca congelar�.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�Enganada n�o � disse ela. � Iludida. Oh, foram t�o espertos. Espertos, espertos, <emphasis>espertos</emphasis>.</p><p>� Mas� � Olhei para a carta, com a cabe�a a andar � roda. � N�o compreendo. Isto significa que, afinal de contas, n�o � aman�te do rei?</p><p>� Claro que n�o � respondeu ela, em tom cortante. � Pensou mesmo que eu iria desonrar o nome da minha fam�lia assim t�o facilmente?</p><p>� N�o sabia o que pensar. � Mas o meu cora��o cantava ao ouvir as palavras dela. � Ent�o foi enganada? Nunca concordou com nada disto?</p><p>Ela assentiu, envergonhada.</p><p>� Eles sabiam como me levar, de modo a que eu agisse conforme os seus planos.</p><p>� A culpa foi minha. Desculpe, Louise� Eu disse-lhes que era virtuosa, que os seus pais a tinham mandado para Versalhes para fazer um bom casamento. Deve ter sido por isso que decidiram usar o casamento como isco�</p><p>� Dificilmente a culpa poder� ter sido sua. Afinal de contas, cinco minutos de conversa comigo teriam revelado o mesmo a qualquer pessoa. E eu n�o seria certamente a primeira rapariga a ficar t�o deslumbrada com a perspectiva de uma coroa ao ponto de esquecer a inconveniente necessidade de um casamento para a conseguir. � Suspirou. � Quase foram bem-sucedidos, ainda por cima. Se Carlos tivesse sido um pouco mais determinado, ou eu um pouco menos�</p><p>� Mas agora n�o � apenas com a determina��o de Carlos que tem de se debater.</p><p>� Pois n�o. � isso que mais me choca� o facto de Lu�s fazer parte de tudo isto. Desde que cheguei a Versalhes, ele foi como um pai para mim.</p><p>� E os pais n�o vendem as suas filhas a quem d� mais dinheiro? � retorqui, secamente. � Al�m disso, ningu�m sabe melhor do que Lu�s que um rei consegue por vezes triunfar onde outros falharam.</p><p>� � verdade. Mas n�o quero que se sinta mal, Carlo. Eu � que devia estar a pedir-lhe desculpa. Quando lhe disse, em Fran�a, que era demasiado vulgar para casar comigo� agora que estou do outro lado, compreendo como isso foi insultuoso. Comportei-me de forma abomin�vel.</p><p>� N�o importa, agora. � Ergui a carta. � N�o em compara��o com isto. O que vai fazer? Vai escolher a cama do rei ou o convento?</p><p>� Nem uma coisa, nem outra.</p><p>� Como?</p><p>Ela ergueu o queixo.</p><p>� Ainda sou Louise Renee de Penac�et, dama de Keroualle, a filha mais velha da fam�lia mais antiga da Bretanha. N�o sou concubina de homem nenhum, rei ou n�o. E nunca o seria porque um embaixador, que n�o passa de um mo�o de recados arrivista, me diz que devo ser.</p><p>� Nesse caso, com certeza que tem de se afastar, n�o?</p><p>� Talvez haja outra maneira. � Come�ou a percorrer o ch�o de madeira com passo nervoso. � Penso que Lu�s n�o quer realmente saber se eu sou amante do rei Carlos ou n�o� isso � simplesmente um meio para atingir um fim. E o fim � influ�ncia� quer isto dizer, levar Carlos a cumprir os termos do tratado.</p><p>� Guerra contra a Holanda.</p><p>� Exactamente. Se eu conseguir alcan�ar esse objectivo sem me entregar ao rei, at� Lu�s ter� de admitir que ser amante dele n�o � necess�rio.</p><p>� Mas como conseguir� faz�-lo?</p><p>� Carlos d�-me ouvidos. E confia em mim. J� falou comigo sobre o tratado e sobre as suas d�vidas em rela��o a ele. Parece-me que consigo defender a causa da guerra com igual facilidade, sem� sem todos estes disparates sobre ced�ncia e amantes. � Olhou para mim. � Ajudar-me-�?</p><p>� N�o estou a ver como.</p><p>� Eu tamb�m n�o, por enquanto. Mas sei que seremos n�s os dois contra todos eles. E sei que n�o posso faz�-lo sozinha.</p><p>� Nesse caso, farei o que puder.</p><p>Claro que sim: faria tudo para n�o a ver na cama do rei. Por�m, no fundo do cora��o, eu estava inquieto.</p><p>Pois quem melhor do que eu sabia que aquilo que os homens mais desejam � precisamente aquilo que lhes foi dito que n�o podem ter?</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Informo o embaixador da minha decis�o. Ele parece angustiado, mas n�o me ordena directamente que apanhe o pr�ximo barco para Fran�a. De momento, pelo menos, parece que eu ainda sou a sua melhor esperan�a.</p><p>� E como pretende conseguir isso? � quer saber. � Atrav�s da raz�o e de debate educado?</p><p>� Em parte. E, em parte, invocando os desejos da sua falecida irm�.</p><p>� N�o � apenas uma quest�o de persuadir o rei Carlos da necessidade de uma guerra. Ele ter� de desafiar o seu pr�prio parlamento, o que envolver� um risco consider�vel para a posi��o dele.</p><p>� Os parlamentos podem ser dissolvidos.</p><p>� <emphasis>Mon Dieu</emphasis>� tenha cuidado � diz ele, debilmente. � Foi assim que o pai dele ficou sem cabe�a.</p><p>� Subornados, ent�o. Por aquilo que vi de Inglaterra at� agora, todos t�m o seu pre�o.</p><p>� Tanto suborno, <emphasis>mademoiselle</emphasis>, apenas para salvar a sua honra? � diz ele, laconicamente.</p><p>� Tanto suborno para alcan�ar o nosso objectivo. Afinal de contas, n�o creio que a minha honra, s� por si, bastasse para persuadir o parlamento da necessidade de entrar em guerra, n�o lhe parece?</p><p>*</p><p>Depois de ele sair, aproximo-me da janela e tento acalmar-me.</p><p>Isto � novidade: encontrar-me com um embaixador e vergar a vontade dele � minha. Mais ainda, reformular uma sugest�o � quase uma ordem � do meu pr�prio rei. N�o desafiei Lu�s, exactamente � isso seria muito insensato � mas estou a deixar bem claro que eu, uma simples mulher, vou fazer isto � minha maneira.</p><p>Na melhor das hip�teses, ser-me-� permitido tentar. Se falhar, as consequ�ncias podem ser ainda mais desagrad�veis do que ser enclausurada num convento</p><p>Penso tamb�m noutra coisa: Madame n�o teria falado com um embaixador desta maneira. Madame confiava sempre nas pessoas, acreditava na sua bondade, fixava-as com a radi�ncia do seu olhar at� a pessoa com quem estava a falar ficar presa na for�a da sua convic��o.</p><p>Contudo, come�o a perceber que eu n�o sou assim.</p><p>Volto para junto do cravo. O banco � tamb�m uma arca para guardar as folhas de m�sica. Levanto a tampa estofada e procuro algo no fundo da pilha.</p><p><emphasis>As Posturas de Aretino: um relato verdadeiro dos M�todos libidinosos e das diversas Posi��es usadas por uma suposta Senhora, recentemente chegada de Fran�a.</emphasis></p><p>Pornografia, enfiada por baixo da minha porta. Nem sequer tentaram que a pessoa das imagens se parecesse comigo, mas � essa a sugest�o.</p><p>Porque ser�, pergunto-me, enquanto folheio as p�ginas, que h� tanto espalhafato por causa das maneiras como uma pessoa se deita para copular? Que import�ncia poder� ter se estamos � direita ou � esquerda, ou de p�, ou sentadas? E o que poderia convencer alguma mulher de que acocorar-se em cima de um homem, como se ele fosse um penico, � uma forma decente de se comportar? Estreme�o. Quanto �s �ltimas imagens, as que incluem mais de uma mulher, ou mais de um homem�</p><p>Contudo, por algum motivo, n�o consegui atirar o panfleto para as chamas. H� qualquer coisa nos desenhos, apesar de toda a sua grosseria, uma esp�cie de prazer vulgar, que fascina e repele ao mesmo tempo.</p><p>E inclui algumas instru��es.</p><p>Oi�o a voz de lady Arlington na minha cabe�a. <emphasis>O rei � um amante ex�mio.</emphasis> Talvez a c�pula seja, afinal de contas, como o t�nis; um jogo que tem de ser aprendido, como qualquer outro, inicialmente confuso mas bastante simples depois de dominarmos as regras.</p><p>E eu nunca encontrei um jogo no qual n�o consiga vencer.</p><p>Penso: ser� que quero mesmo casar � tornar-me a �gua de procria��o de algum nobre, obrigada a fazer <emphasis>isto</emphasis> sempre que ele quiser � quando podia, em vez disso, ser a confidente de um rei?</p><p>E ao pensar em como a parada neste jogo est� a subir � como o abismo de ambos os lados � cada vez mais profundo � fico surpreendida, e bastante curiosa, ao perceber que aquilo que sinto n�o � tanto medo, ou repugn�ncia, mas excita��o: a emo��o de algu�m que entra num campo de t�nis e sente o peso da raquete na m�o.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Carlos ouve-me tocar, refastelado numa cadeira ao meu lado, com as pernas compridas quase a tocar nas minhas. No seu colo, um <emphasis>spaniel</emphasis> co�a a orelha amarfanhada com a pata de tr�s, letargicamente.</p><p>� Haveis pensado na quest�o dos Holandeses? � pergunto, como se n�o fosse mais importante do que qualquer um dos outros temas que costumamos discutir.</p><p>Ele ergue os olhos para mim.</p><p>� Porqu�? O seu rei est� a ficar impaciente?</p><p>Toco outra frase.</p><p>� O <emphasis>meu</emphasis> rei? Agora tenho dois reis. � Sorrio-lhe. � Contudo, se vos referis a Lu�s, creio que ele est� sempre consciente da necessidade de se apressar.</p><p>Carlos resmunga.</p><p>� Ouvi dizer que, por vezes, � demasiado apressado.</p><p>� Como estadista?</p><p>� Em todos os aspectos. � Inclina-se para a frente. � Eu prefiro fazer as coisas com calma.</p><p>� Como estadista?</p><p>� Em todos os aspectos.</p><p>Em resposta, reduzo a velocidade com que toco, de forma c�mica, de <emphasis>andante</emphasis> para <emphasis>ad�gio</emphasis>.</p><p>� J� estive noutras guerras, sabe � diz ele. � Raramente s�o t�o gloriosas como as pessoas pensam. Quando era jovem� um rapaz, na verdade� lutei contra Cromwell, o meu ex�rcito contra o dele, lan�as contra espadas, ingl�s contra ingl�s� Isso deixou-me com uma avers�o vital�cia ao derramar de sangue humano. � Sorri tristemente. � N�o diga nada aos meus ministros, mas sempre preferi a negocia��o � conquista.</p><p>H� uma insinua��o neste �ltimo coment�rio: j� n�o estamos a falar unicamente de guerras.</p><p>� Gosto de a ver tocar � diz, distraidamente. � Sabia que levanta o queixo no come�o de cada compasso?</p><p>� Lu�s acredita que adiar s� tornar� a guerra mais penosa. Um ataque r�pido e decidido poupar� mais vidas do que as que custar�.</p><p>� Estou familiarizado com esse argumento � concorda ele. � Mas n�o explica por que motivo temos sequer de atacar.</p><p>� Para ter paz na Europa�</p><p>� � preciso haver guerra primeiro? Mas n�o haver� paz na Europa se houver uma guerra civil aqui em Inglaterra.</p><p>Sorrio e toco mais um pouco. Ambos sabemos que n�o me cabe a mim tecer coment�rios sobre a pol�tica de Fran�a.</p><p>� Aceita jantar a s�s comigo esta noite, <emphasis>mademoiselle</emphasis>? � pergunta, abruptamente.</p><p>Mantenho os olhos na folha de m�sica.</p><p>� Vossa Majestade sabe que n�o posso.</p><p>� Porqu�?</p><p>� As pessoas falar�o.</p><p>Ele faz um gesto impaciente.</p><p>� Deix�-las falar.</p><p>� Pensava que Vossa Majestade tinha sugerido ainda agora que n�o �, por natureza, pessoa de apressar as coisas? � digo, num tom que espero que seja de mal�cia sedutora.</p><p>� Contudo, j� acharia bem que me precipitasse para esta guer�ra. � De s�bito, fala em tom petulante. � A Louise n�o pode ser apressada, ao que parece, mas eu sim. A Louise tem de conservar a sua honra, mas eu devo abandonar a minha.</p><p>Toco sem dizer nada por um minuto. Estes acessos de irrita��o surgem-lhe de vez em quando e, geralmente, passam com igual rapidez.</p><p>Mas n�o desta vez.</p><p>� Por amor de Deus, mulher, como � que isto � justo? � troa ele. Do outro lado da sala, Anne e Lucy erguem os olhos da costura, espantadas. O <emphasis>spaniel</emphasis>, assustado, salta rapidamente para o ch�o quando Carlos se levanta sem aviso. � Quer que eu lute contra os Holandeses, mas consigo� consigo�</p><p>Continuo a tocar, ansiosa por n�o fazer uma cena ainda maior.</p><p>� Consigo tenho de ser um pau-mandado � diz ele, dando um pontap� ao c�o. � Jantarei noutro lado. Quanto � guerra� diga a Lu�s que vou tratar disso.</p><p>Mas n�o o faz.</p><p>� Ele � um homem habituado a manejar o poder � diz lady Arlington. � O desejo que sente por si � tanto, que � a Louise que det�m o poder neste momento, n�o ele. Nenhum homem gosta de estar nessa posi��o.</p><p>� O que hei-de fazer?</p><p>� Ceder, claro. Nada devolve t�o depressa a boa disposi��o a um homem como despir uma amante nova.</p><p>Mas eu n�o cederei. Nem o rei.</p><p>� J� o perdeu � diz lady Arlington. � Ouvi dizer que ele tem visitado a casa da Nell Gwynne em Pall Mall. Bem pode voltar para Fran�a.</p><p>Tenho de ter cuidado com a forma como lido com a situa��o. Vejo-o nos rostos deles � de Arlington, do embaixador: todos pensam que, para ele declarar a guerra, ter� de haver uma troca.</p><p>O meu corpo por um ex�rcito. � um neg�cio que quase todos os envolvidos considerariam uma pechincha.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Um gelo, devidamente guardado, aguentar� um m�s sem se estragar.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O esfor�o estava a custar-lhe, eu estava bem consciente disso. Nos bailes e bailados e jantares ela sorria e gracejava e ningu�m pensaria que havia alguma coisa errada � a menos que a vissem depois de todas as carruagens terem partido e de o riso ter abandonado os seus olhos, t�o abruptamente como uma vela a ser apagada.</p><p>� O que tenho de fazer para recuperar a boa vontade dele? � perguntou-me uma noite, fatigada, enquanto eu recolhia as ta�as do seu apartamento.</p><p>� Absolutamente nada.</p><p>� Pensa que � imposs�vel?</p><p>� Pelo contr�rio� quero apenas dizer que o melhor que tem a fazer � n�o fazer nada. Creio que Carlos est� dividido. H� uma parte dele que gostaria de parar de a desejar. Mas outra parte sabe que n�o conseguir�. Por isso est� zangado, n�o consigo por ser virtuosa, mas com ele pr�prio, por se importar tanto. � Evitei os olhos dela enquanto falava. � Mais cedo ou mais tarde, essa batalha terminar� e ele saber� ent�o aquilo que sente.</p><p>A voz dela, quando falou, era suave.</p><p>� E o que �, Carlo? O que sentir� ele? Ir� o rei amar-me, ou odiar-me?</p><p>Abanei a cabe�a.</p><p>� N�o a odiar�.</p><p>� Como gostava que n�o fosse uma coisa nem outra � murmurou. � Oh, como queria um mundo sem todo este amor.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Passam quase duas semanas at� ele voltar aos meus aposentos.</p><p>� Vossa Majestade � digo, com uma rever�ncia.</p><p>� Oh, est� a� � diz ele, como se eu tivesse estado fora; como se tivesse sido eu, e n�o ele, a evitar este momento. Estende o punho. � Tenho uma coisa para si.</p><p>� N�o preciso de presentes, senhor.</p><p>� �Senhor�, n�o. �Carlos�. A menos que estejamos acompanhados, o que, felizmente, n�o � o caso.</p><p>� Carlos. � A palavra sai-me dos l�bios com algum embara�o, devido � minha pron�ncia francesa.</p><p>Ele sorri.</p><p>� A minha irm� tamb�m nunca o pronunciava bem.</p><p>Tento de novo.</p><p>� N�o preciso de presentes� Carlos.</p><p>� Est� melhor. Mas ainda � mais bonito quando o pronuncia mal. � Levanta a m�o. � Aqui tem.</p><p>Mant�m a m�o fechada, pelo que sou obrigada a vir�-la e a abrir-lhe os dedos, afastando-os um a um do presente. Um rel�gio de bolso, o mais pequeno que j� vi, uma ostra de ouro reluzente.</p><p>� Abra-o.</p><p>Abro a tampa. � diferente de todos os rel�gios de bolso que j� vi. Tem tr�s ponteiros, um dos quais corre sobre o mostrador.</p><p>� Diz os segundos � explica ele, orgulhoso. � � uma mola dentro do mecanismo, mais apertada do que qualquer p�ndulo. E veja atr�s.</p><p>Viro-o. Tem uma inscri��o: <emphasis>N�o desperdices estas horas com arrependimentos.</emphasis> E uma data.</p><p>� o dia em que cheguei a Inglaterra.</p><p>� Foi o dia em que come�ou o meu calend�rio � diz ele, simplesmente.</p><p>Carlos quer mostrar-me o seu apartamento. Passamos pelo quarto real, onde ele nunca dorme, e entramos por uma porta quase escondida atr�s de uma cortina. Do outro lado est� uma sala de trabalho, n�o muito maior do que a de Madame, cheia de rel�gios. O barulho que fazem � como chuva, um aguaceiro ensurdecedor de tempo; segundos e minutos a tombarem em volta dos nossos ombros.</p><p>Ele vai buscar os seus preferidos � o rel�gio que diz as fases da Lua, o rel�gio de mesa que cont�m um carrossel de cavalos de prata min�sculos a perseguirem uma raposa. S�o feitos por um dos seus <emphasis>virtuosi</emphasis>, o seu bando de fil�sofos e eruditos. Tem muitos grupos, como come�o a perceber. Gosta de passar de um para outro, mudando de papel ao faz�-lo: aqui o libertino, aqui o fil�sofo, aqui o estadista, mas sempre �vido por entretenimento, por di�logo, por entusiasmo. Sempre como um menino.</p><p>Certamente que � dif�cil de acreditar que, entre o seu irm�o Jaime e ele, Carlos seja o mais velho. Ou que tem mais do dobro da minha idade. Contudo, um rei � jovem aos quarenta e dois anos, uma mulher � velha aos vinte.</p><p>� chamado para tratar de um assunto mas pede-me que espere. Quando chega a hora certa, uma d�zia de carrilh�es toca, o som saltando de rel�gio para rel�gio.</p><p>Curiosa e um pouco entediada, inspecciono o que me rodeia. H� uma porta que d� para uma latrina almofadada. Outra divis�o cont�m os seus qu�micos e m�quinas. E depois h� uma sala iluminada e quadrada, numa torre, forrada com pain�is de madeira do ch�o at� ao tecto.</p><p>Um dos pain�is est� entreaberto. Aproximo-me para ver me�lhor: tem dobradi�as, como a porta de um arm�rio.</p><p>Abro-o. Na parte de dentro, de modo a que ele possa escolher exibi-la ou n�o, est� uma pintura. Uma mulher, completamente nua, reclinada sobre uma cama de almofadas e veludos. A sua pele clara parece brilhar, como o luar, contra os tecidos escuros e pesados. � sua volta h� adere�os teatrais, um cen�rio pintado. Cabelo ruivo, um sorriso malicioso.</p><p>A actriz.</p><p>Ser� que ele manda pintar todas as suas mulheres assim, pergunto-me? Abro outro painel. Outro corpo nu, com rosto altivo. Reconhe�o a mulher que falou comigo no baile do embaixador franc�s. E outra � uma mulher com o vestido enrolado por baixo dos seios, a sorrir descaradamente. Abro outro, depois outro� os pain�is baloi�am e embatem suavemente uns contra os outros, como as p�ginas de um livro de madeira gigantesco.</p><p>Oi�o vozes na outra sala. Rapidamente, volto a fech�-los todos, um a um, terminando com Nelly. Novamente escondida atr�s dos lambrins, da madeira castanha e respeit�vel, para o prazer exclusivo do rei.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Ele dan�a comigo e sinto a urg�ncia do seu desejo. Beija-me durante a dan�a, como os outros pares, e os seus l�bios demoram-se um pouco mais do que deviam.</p><p>Quando tem de me soltar a m�o para eu poder rodar para outro parceiro, sinto a sua relut�ncia, os meus dedos a deslizarem entre os seus at� que, com um suspiro, se vira.</p><p>No entanto, mant�m a sua promessa. Nunca tenta fazer-me sentir como se n�o tivesse escolha.</p><p>Isso, mal ele o sabe, est� a ser feito por terceiros. Colbert re�corda-me quase diariamente que estou a abusar da paci�ncia n�o de um, mas de dois reis. Lady Arlington diz-me que tenho de agir, antes que Carlos se interesse por outra. Lorde Rochester fita-me com olhos c�nicos e embriagados e declara que estou a jogar um jogo de ast�cia.</p><p>� N�o sabia que as cadelas francesas eram c�es de ca�a t�o espertos � diz.</p><p>E Carlos trata-me com tanta cortesia que s� quando estou com ele � que n�o me sinto cercada.</p><p>Contudo, esta agita��o por causa do seu filho deu-lhe algo novo com que se preocupar. Tal como me deu a mim, talvez, uma nova maneira de cair nas suas boas gra�as.</p><p>*</p><p>Trata-se de lorde Monmouth � o seu filho mais velho, ileg�timo, claro: fruto de uma uni�o com uma mulher chamada Lucy Walters, durante os primeiros anos do seu ex�lio. Agora o rapaz tem vinte anos e � um estouvado.</p><p>No parlamento, recentemente, houve um debate sobre a angaria��o de dinheiro � h� sempre debates sobre a angaria��o de dinheiro, para pagar as d�vidas do rei. Algu�m prop�s que se podiam lan�ar impostos sobre os teatros. Um membro do partido da corte observou que os teatros davam muito prazer a Sua Majestade e deviam, portanto, estar isentos. A isto, um membro da fac��o parlamentar, um tal de John Coventry, respondeu com ar pensativo se seriam os teatros que davam grande prazer a Sua Majestade, ou aqueles que neles representavam � numa clara alus�o � prefer�ncia do rei por actrizes.</p><p>O sil�ncio que se seguiu a esta observa��o persuadiu-o de que era altura de se sentar, mas o mal estava feito: ao fim do dia, o seu gracejo estava a ser repetido em todas as tabernas e caf�s de Londres.</p><p>Estava tamb�m a ser falado em Whitehall, onde um dos mais escandalizados com a impertin�ncia de John Coventry era Jemmy Monmouth. Declarando que o pai fora insultado, interceptou Coventry no caminho para casa e cortou-lhe o nariz com uma espada.</p><p>Em resposta, o parlamento aprovou uma lei que declarava ser crime para qualquer pessoa tocar ou atacar um membro dessa assembleia. N�o podiam acusar Monmouth, claro, uma vez que o ataque tivera lugar antes da aprova��o da lei; mas estavam a dizer que, no futuro, teriam o direito de o fazer.</p><p>Isto, por sua vez, causou mais ultraje � a ideia de que as leis feitas no parlamento podiam ser aplicadas a pessoas de sangue real. Em vez de manter a discri��o, lorde Monmouth e os amigos decidiram fazer uma exibi��o p�blica da sua desobedi�ncia. Depois de uma noite de copos foram � procura de divers�o, que encontraram na pessoa de uma menina de dez anos que ia com o av�. A menina era bonita e decidiram abusar dela. O av� protestou e eles atiraram-no ao ch�o. Apareceu um bedel nocturno que tamb�m protestou; tanto pela juventude da menina, como pelo facto de a quererem tomar � for�a e pelo tratamento dispensado ao av�. Ent�o eles mataram o bedel ao pontap�.</p><p>Aqueles que defendiam Monmouth at� aqui deram por si numa posi��o complicada. Pois se ele podia cortar o nariz a um homem sem se submeter � lei, certamente que seria a mesma coisa agora que tentara violar uma crian�a e assassinara um funcion�rio p�blico de idade avan�ada?</p><p>Os ministros do rei est�o divididos. Aqueles que dizem que Monmouth deve ser castigado temem que o povo se revolte caso lhe permitam sair impune. Os que dizem que o parlamento n�o tem de ser aplacado afirmam que os motins podem sempre ser controlados com balas.</p><p>Carlos est� relutante em usar o ex�rcito. Ningu�m sabe melhor do que ele que os motins facilmente se transformam em revolu��es.</p><p>� Uma coisa � manter a coroa sobre a cabe�a � diz. � Outra, completamente diferente, � manter a cabe�a sobre os ombros.</p><p>Come�o a ver aqui uma oportunidade.</p><p>A quest�o � subtil. Monmouth, por mais que acredite estar ligado � fac��o do pai, � o aliado natural dos parlamentares. Como protestante e filho reconhecido do rei, podia ser a escolha popular para o trono se Carlos se convertesse ao catolicismo.</p><p>Assim, quanto menos popular Jemmy Monmouth for, melhor para os interesses de Fran�a.</p><p>E � mais importante ainda � se eu conseguir demonstrar a minha influ�ncia sobre Carlos numa quest�o menor como esta, talvez consiga conquistar alguma liberdade.</p><p>*</p><p>Por fim, Carlos encontra-se num impasse. Entre os conselheiros que dizem que tem de lidar com Monmouth e os que defendem que � preciso enfrentar o parlamento, est� preso num p�nico de indecis�o.</p><p>Enquanto caminho com ele nos seus jardins privados, digo, calmamente:</p><p>� Parece-me que o seu dilema � n�o conseguir decidir se deve castigar o Jemmy ou perdo�-lo.</p><p>� Sim � diz ele, com um suspiro. � � precisamente isso.</p><p>� Ent�o porque n�o fazer ambas as coisas? � sugiro. � Perdoar-lhe primeiro, para que n�o seja preso pelos tribunais, mas depois castig�-lo de outra forma qualquer, para que todos possam ver que o rei n�o est� disposto a tolerar este tipo de comportamento.</p><p>Ele pensa no que eu disse.</p><p>� Mas como o castigaria?</p><p>� Podia ser banido. Afinal de contas, ele � pouco mais do que um adorno da sua corte. E, assim, deixaria bem claro ao povo que o rei � uma autoridade superior � lei. � Hesito. � Na verdade, Carlos, sairia disto com a sua posi��o refor�ada.</p><p>� Louise, � um excelente conselho! � exclama ele. � Porque � que os meus ministros n�o se lembraram disso?</p><p>Encolho os ombros.</p><p>� �s vezes, quem est� de fora tem mais facilidade em dar conselhos. Diga-me, � verdade que o Grammont inventou uma dan�a nova e engra�ada?</p><p>No dia seguinte, os meus aposentos est�o cheios. Ministros que mal conhe�o aparecem para me cortejar. lorde Arlington exibe-me, correndo de um lado para o outro e mandando trazer mais cadeiras. Os jovens libertinos v�m namoriscar com as minhas damas de companhia; os mais velhos v�m tirar-me as medidas.</p><p>Sirvo-lhes gelos em ta�as de vidro min�sculas. Discuto teatro com o senhor Dryden e teologia com o bispo de Chester.</p><p>� a isto, penso, que sabe a influ�ncia.</p><p>Em breve ser� altura de falar novamente de guerra com Carlos. Por�m, desta vez, n�o o farei directamente. Aprendi a li��o. Tenho de ser mais subtil, de usar uma abordagem indirecta.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>As p�ras de cozer, tal como os marmelos, t�m de ser amaciadas antes de usar, e s�o melhores de ado�ar depois de cozinhadas ou com a adi��o de outra fruta.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O rei mandara-me chamar. Caminh�mos lado a lado no Parque de St. James, com os <emphasis>spaniels</emphasis> a correrem entre as nossas pernas. Sua Majestade estava com vontade de passear, hoje � <emphasis>deambular</emphasis>, como ouvira os cortes�os chamar-lhe, as longas pernas reais a cobrirem terreno sem esfor�o, mas sem nenhuma direc��o em particular.</p><p>Eu levara-lhe um gelo novo no qual estava a trabalhar, um cre�me com passas brancas e as duras p�ras de Inverno a que os Ingleses chamam �p�ras de cozer�.</p><p>� Isto est� muito bem feito � comentou ele, enquanto caminh�vamos.</p><p>� Obrigado, senhor.</p><p>Com a colher, apontou para o lado mais distante do parque.</p><p>� A minha casa de gelo est� a ser reconstru�da de acordo com as suas instru��es. Disse-lhes que dessem prioridade a esse trabalho.</p><p>Assenti.</p><p>� Tem de estar terminada antes da chegada das geadas, caso contr�rio a colheita deste ano estar� tamb�m arruinada.</p><p>Ele sorriu com a minha escolha de palavras.</p><p>� Penso que n�o est� familiarizado com os nossos Invernos ingleses.</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� O gelo � uma das poucas colheitas em que raramente passamos necessidades. � Estendeu-me a ta�a vazia. � Todos os meus ministros est�o a construir casas de gelo, sabia? O Arlington em Newmarket, o Clifford em Chudleigh. O senhor e eu come��mos uma moda, e agora todos querem superar-me.</p><p>� Ou talvez, senhor, queiram apenas superar-se uns aos outros, na �nsia de serem t�o parecidos convosco quanto poss�vel.</p><p>� Sim � disse ele com ar pensativo. � Sim, � exactamente isso. Bem dito.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� Os cortes�os s�o assim em todo o lado.</p><p>Ele virou para um caminho de gravilha.</p><p>� No pr�ximo ano, celebrarei um anivers�rio especial. Far� dez anos desde a minha coroa��o� da minha segunda coroa��o, claro, a restaura��o do meu trono. Tenciono que seja uma grande celebra��o: um Ver�o de esplendor e festas, come�ando por um grande banquete� um <emphasis>divertissement</emphasis>, como creio que Lu�s lhe chamaria. Para a Ordem da Jarreteira. Mais de mil convidados.</p><p>� Mil!</p><p>O rei acenou afirmativamente.</p><p>� Todos os homens e mulheres de nascimento nobre do meu reino. Vou mandar reconstruir o castelo de Windsor propositadamente para a ocasi�o. Ter� um Grande Sal�o novo, t�o grande como qualquer sal�o de Versalhes, onde ter� lugar a festa. E ser� tudo moderno� quer isto dizer, franc�s. Nada de grifos ou aves canoras ou <emphasis>rosbif</emphasis> seco para n�s, <emphasis>signor</emphasis>. Terei gelo� grandes recipientes de gelo, para refrescar os meus caranguejos, os meus morangos e espargos; banheiras de gelo para refrescar o meu champanhe� talvez at� algumas dessas fontes de gelo movidas a corda de que tenho ouvido falar.</p><p>� Eu n�o poderia� � comecei, mas depois calei-me. Ningu�m dizia que n�o, directamente, a um rei. � Seria preciso muito gelo, senhor� mais do que alguma vez foi usado neste pa�s.</p><p>� E, <emphasis>signor</emphasis>, quero que crie um prato especialmente para a ocasi�o � continuou ele, como se eu n�o tivesse falado. � Algo ainda mais espl�ndido do que os gelos que criou para o Rei Sol.</p><p>� Este gelo seria em honra de algum convidado em particular, senhor?</p><p>� Sim, seria. � Fez uma pausa, mas eu j� sabia o que ele ia dizer. � � para mademoiselle de Keroualle. Quero que fa�a algo para ela.</p><p>� E ser� para servir a toda a gente?</p><p>O rei abanou a cabe�a.</p><p>� Apenas para a mesa real. Ser� como esturj�o, ou golfinho, ou cisne� um prato reservado para mim e para aqueles que eu entender. Para ela e para mim, e para mais ningu�m.</p><p>Percebi, ent�o, as inten��es dele. Pois cada banquete, quer seja de Estado ou n�o, tem um tema. Cada refei��o exprime a vis�o que o seu anfitri�o tem de si pr�prio e do seu lugar no mundo. Desde o chefe da casa a trinchar a ave de domingo � mesa de fam�lia, a um c�rculo silencioso de puritanos a aben�oar o seu p�o di�rio, todas as refei��es, humildes ou elaboradas, falam uma linguagem de cerim�nia para aqueles que a conseguem descodificar.</p><p>Que melhor forma para Carlos expressar a sua submiss�o �s modas, �s pol�ticas e aos prazeres de Fran�a, do que atrav�s de uma exibi��o extravagante do alimento mais fino e elegante de Fran�a?</p><p>E que melhor forma de simbolizar o seu pr�prio estatuto do que ao servir como pe�a central da refei��o um prato que os seus pr�prios convidados estavam proibidos de comer?</p><p>Ele n�o estava apenas a mostrar os seus gostos continentais. Estava a fazer uma declara��o pol�tica. Ao dedicar este prato a Louise, estava a dizer que n�o lhe importava o que qualquer pessoa pensasse sobre o facto de dar abertamente prefer�ncia a Fran�a. Tal como Lu�s XIV era o governante incontestado e autocr�tico de Fran�a, assim o gelado de Carlos diria que este era o papel que ele tencionava assumir em Inglaterra � o de monarca absoluto e arbitr�rio.</p><p>Era tudo a que o parlamento o obrigara a renunciar quando o tinha restaurado no trono. E seria o meu trabalho fornec�-lo.</p><p>Curvei-me de novo.</p><p>� Esfor�ar-me-ei por criar algo digno da ocasi�o, senhor.</p><p>� Estou certo disso, <emphasis>signor</emphasis> � disse ele, com aquele sorriso charmoso. � Quero que este banquete mostre ao mundo aquilo de que somos capazes, o senhor e eu. Sei que n�o me desiludir�.</p><p>� � bom para n�s � disse lorde Arlington imediatamente. � Ele n�o tem dinheiro para isso.</p><p>� Ter� ent�o de se conter nos seus planos?</p><p>Arlington abanou a cabe�a.</p><p>� O rei considera-se acima das quest�es econ�micas. N�o� se ele se comprometer com a reconstru��o de Windsor e com um banquete para mil convidados, n�o ter� alternativa sen�o ir para a guerra. Sem a pens�o de Lu�s, estar� na bancarrota em menos de seis meses. Fa�a o que ele lhe pede, Demirco. E certifique-se de que n�o poupa despesas.</p><p>A �gua em Londres era notoriamente nauseabunda e o Tamisa estava negro com excrementos. Bem antes de os rios congelarem, comecei � procura de uma boa fonte de gelo fresco.</p><p>Encontrei-a por tr�s de Hampton Court. Uma s�rie de lagos alimentados pela sua pr�pria nascente. Solo nivelado, f�cil de percorrer com uma carro�a, e j� era propriedade do rei. Expliquei a um intendente perplexo aquilo de que precisava.</p><p>� Quer cortar o gelo? E guard�-lo?</p><p>� Exactamente. Vou precisar de trabalhadores� um bom n�mero deles. E ferramentas especiais que ter�o de ser feitas por um serralheiro. Vou fazer os esbo�os.</p><p>Ordenei a constru��o de um celeiro para guardar o gelo � medida que fosse retirado do lago e ele recusou directamente.</p><p>� N�o h� dinheiro para constru��es. O rei n�o paga ao seu pr�prio pessoal dom�stico h� tr�s meses.</p><p>� Pagar� por isto � respondi, confiante. � � necess�rio, se ele quer os seus gelos.</p><p>Disse a Elias que passar�amos o Inverno em Hampton e ele fez uma express�o desolada.</p><p>� O que �, rapaz?</p><p>Com alguma hesita��o, respondeu:</p><p>� � s� porque vamos perder o Natal.</p><p>� Elias! � exclamou a m�e, que estava a ouvir a conversa. � Natal? O que � isto que estou a ouvir?</p><p>Ele inclinou a cabe�a, envergonhado.</p><p>� Algumas das outras crian�as dizem que vai ser uma festa.</p><p>Sem me pedir permiss�o, ela agarrou nele e puxou-o para um canto. Pensei que estaria a repreend�-lo pela sua falta de entusiasmo pelo trabalho, at� me aperceber de que as objec��es dela eram outras. Estava a tentar falar em voz baixa, mas a irrita��o era muita.</p><p>� �j� � suficientemente mau trabalhares para um papista, mas n�o te admito que celebres tamb�m os festivais papistas. Agora desaparece e n�o quero ouvir falar mais de Natal.</p><p>Esperei at� o rapaz sair e Hannah estar a bater com as panelas, irritada, antes de falar. Para dizer a verdade, estava divertido: nunca me ocorrera que, enquanto eu estava preocupado com a dec�ncia de ter ao meu servi�o o filho de uma meretriz, a meretriz em quest�o estivesse preocupada com a dec�ncia de ele estar ao meu servi�o.</p><p>� Ent�o n�o celebram o Natal, presumo? � perguntei, em tom neutro.</p><p>� N�o.</p><p>� Posso perguntar porqu�?</p><p>� Sob o regime do lorde Protector, percebeu-se que n�o havia necessidade disso.</p><p>� Enquanto o anivers�rio do pr�prio lorde Protector, estou certo, era feriado p�blico.</p><p>Ela lan�ou-me um olhar furioso.</p><p>� Mostre-me onde � que diz nos Evangelhos que o dia vinte e cinco de Dezembro � o anivers�rio de Cristo, e serei a primeira a celebr�-lo. At� l�, o domingo � Dia do Senhor suficiente para n�s.</p><p>� Realmente parece ser mais do que suficiente � respondi. � Desde que aqui estou, ainda n�o vi um �nico dos criados desta estalagem ir � igreja, nem mesmo no domingo.</p><p>Ela respondeu de forma inexpressiva:</p><p>� Vamos quando temos de ir. Em Inglaterra, agora, � assim. Temos de ir � igreja quando nos mandam, ou seremos identificados como dissidentes.</p><p>� Nesse caso, parece-me que precisam de mais festivais, e n�o de menos.</p><p>� Porqu�? � perguntou ela, irritada. � Para ouvirmos serm�es de homens com vestes sagradas que afirmam ser os �nicos a conhecer a palavra de Cristo? Que murmuram as ora��es como se fossem feiti�os e falam do Esp�rito Santo e de Deus como se fossem magos invis�veis?</p><p>� Parece-me tamb�m � continuei, em tom ligeiro �, que embo�ra os vossos bispos pudessem chamar-me sem d�vida um papista iludido, n�o ficariam muito mais satisfeitos consigo.</p><p>� Bispos! � exclamou ela, com repugn�ncia.</p><p>� N�o podem ter uma igreja sem bispos.</p><p>Por um momento, pareceu-me que ela se estava a esfor�ar por n�o responder. Depois disse:</p><p>� Mas tivemos. Pelo menos, durante algum tempo.</p><p>� O qu�? Sem Natal e sem bispos?</p><p>� Est�vamos a construir o reino de Deus � disse ela, com uma esp�cie de orgulho estranho e desafiador. � Uma experi�ncia sagrada. Foi o que nos disseram. E consegu�amos ver a verdade nisso� <emphasis>senti-la</emphasis>, quando o Esp�rito se movia dentro do nosso peito. Um reino sem reis. Uma Igreja sem igrejas. Um pa�s onde n�o haver� v�nculos: nem de propriedade, nem de privil�gio, nem de nascimento. Um s�tio onde nenhum homem nascer� com estribos nas costas, para ser montado por outros homens. Onde cada homem poder� escolher a sua forma de venera��o; sim, e cada mulher tamb�m, e as �nicas leis a que deveremos obedi�ncia ser�o as que est�o escritas no nosso cora��o. � Disse tudo isto em tom mon�tono, como se fosse uma litania que j� recitara muitas vezes e que sabia que n�o devia estar a dizer agora. Fitou-me directamente nos olhos. � E ain�da acredito que um dia acontecer� de novo, aqui, quer eu esteja viva para o ver, quer n�o. O rei Carlos deixar-nos-� e o rei Jesus sentar-se-� no trono em seu lugar. N�o nos ajoelharemos perante qualquer homem e seremos todos livres.</p><p>� Basta � disse-lhe, subitamente assustado. � Isso � trai��o e heresia, mulher. Controle a l�ngua e n�o quero ouvir mais essa conversa.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Uma manh�, Carlos traz-me um presente. Outro presente, deveria dizer, pois houve v�rios nas �ltimas semanas. Contudo, nenhum como este.</p><p>Um colar. Rubis. Mais escuros do que groselhas, mais escuros do que sangue. Ele pr�prio mo prende na nuca e depois vira-me para um espelho.</p><p>Vejo-o acariciar o lado do meu pesco�o com a parte de tr�s do dedo, t�o suavemente que mal o sinto, tra�ando uma linha desde a minha orelha at� ao ponto onde o colar pousa no meu pesco�o.</p><p>� Precisa de uns brincos, ao estilo franc�s � diz ele, abruptamente. � Sou um idiota por n�o ter pensado nisso. Vou arranjar-lhe uns brincos.</p><p>� Vossa Majestade j� foi suficientemente generoso. A s�rio, n�o h� necessidade de j�ias.</p><p>� A Louise � uma grande dama de Fran�a � diz ele, em tom ir�nico. � De que outra forma hei-de fazer-lhe a corte, se n�o com j�ias?</p><p>� Vossa Majestade <emphasis>est�</emphasis> a fazer-me a corte?</p><p>Sil�ncio. No espelho, os seus olhos encontram os meus.</p><p>� Suponho que sim.</p><p>� Nesse caso, n�o posso aceitar este colar, porque nunca poderei cumprir a minha parte do acordo. � Tento tirar o colar, mas o fecho � complicado. � Pode ajudar-me, por favor?</p><p>Ele ergue a m�o como se fosse ajudar, mas depois coloca-a sobre as minhas, para as deter. Com o outro bra�o, envolve-me e pousa a m�o na minha barriga.</p><p>E eu sinto� sinto�</p><p>N�o consigo escrev�-lo. Quais s�o as palavras para isto, para esta explos�o de calor e trepida��o? Apercebo-me de uma sensa��o � uma esp�cie de moleza � algo desconhecido e inesperado. Unguentos a dissolverem-se dentro de mim, como uma vela derrete sob a chama.</p><p>Os l�bios dele ro�am no meu pesco�o � com hesita��o, como se soubesse que n�o devia faz�-lo mas n�o conseguisse conter-se.</p><p>Ergo o queixo. Sinto as costas arquearem, involuntariamente.</p><p>Ele aumenta a press�o da m�o, puxando-me contra si, e percebo que est� excitado. Sobressaltada, sustenho a respira��o.</p><p>� Fique com o colar � diz ele, soltando-me. � N�o h� acordo nenhum para manter ou quebrar. � um presente sem condi��es.</p><p>Uma vez, ele pede-me:</p><p>� Diga-me uma coisa.</p><p>� O qu�, Carlos?</p><p>� Se n�o fosse pela sua virtude� se o mundo fosse um s�tio diferente e se n�s os dois f�ssemos livres para fazer o que quis�ssemos� seria eu o tipo de homem que�</p><p>N�o � normal nele, esta hesita��o. Penso: em tempos, houve uma mulher que foi cruel para ele, e, apesar de todo o seu charme, ele nunca o ultrapassou.</p><p>� Carlos, � um homem muito atraente e bondoso. Qualquer mulher teria sorte por o ter como marido. Mas n�o posso responder � sua pergunta. A minha virtude faz parte de mim, tanto como as minhas m�os ou a minha cabe�a. Como poderia imaginar como seria se n�o a tivesse?</p><p>Bruscamente, ele diz:</p><p>� Ent�o fique com a sua virtude. Amo-a demasiado para lhe desejar outra coisa.</p><p>Vira-me costas, mas at� eu, habituada � corte, n�o consigo conter completamente a minha surpresa por o ouvir usar pela primeira vez essa palavra.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Recolha o gelo no Inverno, para poder ter o prazer dos gelos no calor do Ver�o.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�Uma colheita�, chamara eu � recolha de gelo na conversa com o rei; e era exactamente disso que se tratava. Ver as primeiras geadas no Parque de St. James era como ver os primeiros rebentos de uma safra h� muito aguardada. Todos os dias os rebentos ficavam um pouco mais fortes, um pouco maiores, alimentados pela escurid�o e pelo frio crescente. Os homens caminhavam apressadamente pelas ruas, envoltos agora em peles. Os cavalos batiam os cascos no ch�o, enquanto esperavam que as carro�as fossem descarregadas, e sopravam trompetas de h�lito quente enquanto se esfor�avam para percorrer as ruas irregulares.</p><p>Depois chegou a neve. Se as geadas eram os rebentos, isto era a flor. Grandes p�talas de neve pairavam sobre a cidade, pintando os telhados de branco; assentando um bocadinho mais fundo, um bocadinho mais de tempo, de cada vez que nevava.</p><p>Contudo, o gelo ainda n�o endurecera. O gelo era o fruto do Inverno e amadurecia lentamente. Primeiro uma camada fina de caramelo transparente na superf�cie de uma po�a. Depois um disco de vidro. E, finalmente, uma placa grossa e branca de porcelana, coberta de fendas onde as crian�as tinham tentado parti-la com os p�s, apenas para descobrir que n�o conseguiam.</p><p>� O gelo � disse a Elias �, at� mesmo o gelo que parece congelado, precisa de tempo. Solidifica lentamente, ao longo de uma semana ou mais. E quanto mais duro for o gelo, mais lentamente derreter�. Queremos ferro, n�o porcelana.</p><p>� Esperamos?</p><p>� Esperamos � confirmei.</p><p>Ao fim de uma semana, o gelo estava duro como ferro. Era altura de passar para Hampton. Onde, claro, o caos se instalara. O intendente negligenciara as minhas instru��es; os trabalhadores estavam parados; o celeiro que eu encomendara estava a ser usado para o gado. Apenas o gelo era perfeito, suficientemente espesso para suportar o peso de um cavalo, t�o duro e firme como o pr�prio solo gelado.</p><p>Invoquei o nome do rei e praguejei generosamente em italiano. Pouco a pouco, a minha colheita foi recolhida.</p><p>Certa manh�, acordei e vi que o pr�prio ar estava branco. Uma neblina mar�tima gelada aproximara-se de leste, trazendo consigo um frio t�o cortante que as folhas de azevinho se partiam em duas como biscoitos, e todos os ramos e galhos estavam cobertos de barbas de gelo.</p><p>Lembrei-me do que Louise me contara sobre Brest e perguntei-me o que estaria ela a fazer agora. Tentei afast�-la da mente. No entanto, �s vezes, atrav�s da neblina congelada, julgava vislumbrar uma figura, com um vestido pu�do, a dan�ar na neve.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Agora os canais e lagos no Parque de St. James est�o congelados. Carlos e o seu irm�o Jaime ensinam-me a deslizar no gelo � �patinar�, como lhe chamam. Aprenderam nos anos que passaram nos Pa�ses Baixos. Jaime � o melhor dos dois, algo que irrita Carlos, uma vez que em todos os outros desportos � muito superior ao irm�o mais novo.</p><p>�s vezes, Jaime patina ao meu lado para me segurar: uma m�o sobre o lado do meu corpo para me equilibrar, a outra esticada � minha volta para eu n�o cair, fazendo-me acelerar num grande arco, os dois impelidos apenas pelos movimentos das suas pernas compridas, enquanto eu me concentro em manter as pernas direitas e firmes para n�o cair.</p><p>� Raios, ele parece prestes a tom�-la nos bra�os � resmunga Carlos.</p><p>Est� com ci�mes. E n�o totalmente infundados: Jaime aperta-me um pouco mais do que precisaria, coloca as m�os um bocadinho mais abaixo ou mais acima do que seria necess�rio.</p><p>� um homem estranho. Fisicamente, � parecido com Carlos � quer isto dizer, atraente. Contudo, de alguma forma, aquilo que em Carlos se transformou em charme, em Jaime tornou-se frieza. Quest�es de f� e pol�tica perturbam-no. No rosto ostenta perpetuamente uma express�o de ansiedade ou arrependimento. No entanto, diz-se que � mais inteligente do que o irm�o e que faz a maior parte do meticuloso trabalho governamental quando Carlos perde a paci�ncia.</p><p>O seu gosto em amantes � uma anedota em Whitehall: diz-se que, numa esp�cie de penit�ncia, se certifica de que s�o sempre mais feias do que a mulher.</p><p>Contudo, � tamb�m almirante da Frota. Nessa qualidade, ningu�m � mais importante em termos de aconselhar Carlos a entrar ou n�o em guerra. Consta tamb�m que, secretamente, tem uma inclina��o para a F� Verdadeira. Se assim for, n�o ter� os mesmos escr�pulos que alguns dos ministros do rei sobre entrar em guerra com uma na��o protestante. Esta guerra pode at� ser vista como um teste. Decidir-se-� por salvar a pr�pria alma, ou por ajudar o irm�o a manter o trono? � um dilema dif�cil para um homem devoto.</p><p>E quem melhor para falar com ele sobre estas quest�es, do que uma dama cat�lica de grande virtude, recentemente chegada de Fran�a?</p><p>Passamos longas tardes a ler <emphasis>Lettres Provinciales</emphasis> e a discutir a opini�o de Pascal sobre a alma.</p><p>Carlos n�o acha muita gra�a.</p><p>� Porque passa tanto tempo a ler com o meu irm�o?</p><p>� Vossa Majestade � bem-vindo para se juntar a n�s.</p><p>� N�o imagino nada mais entediante do que discutir religi�o com o Jaime. Apesar de qualquer um de n�s ter pouco com que se ocupar neste momento. Se o solo n�o descongelar rapidamente, as corridas terminar�o antes mesmo de ter come�ado, este ano.</p><p>� Cuidado para n�o prolongar isto tempo de mais � avisa-me lady Arlington. � O rei fica irrit�vel quando o tempo est� assim. Na verdade, seria uma �poca perfeita para passar na cama. Uma lareira quente e uma manta de peles, e o apartamento dele seria o s�tio mais acolhedor do reino.</p><p>A minha t�ctica, quando ela fala assim, � parecer vaga.</p><p>� A minha lareira chega perfeitamente, obrigada. O carv�o marinho aqui em Londres � muito bom, n�o acha?</p><p>Nesse Inverno, um dos membros do parlamento p�e a circular um poema que come�a assim:</p><p><emphasis>Se tiv�ssemos tempo e mundo suficientes,</emphasis></p><p><emphasis>Este pudor, minha dama, n�o seria crime�</emphasis></p><p>Carlos envia-mo com um bilhete: <emphasis>Este homem � um dos meus inimigos e um panflet�rio infame, mas, de alguma forma, conseguiu exprimir os meus pensamentos de forma mais eloquente do que eu pr�prio.</emphasis></p><p>� noite, entretenimento. A grande moda, este Inverno, s�o os bailes de m�scaras. Na Casa de Banquetes, nas mans�es de Pall Mall, dan�amos e trocamos mexericos atr�s dos nossos disfarces. Tenho uma d�zia de m�scaras diferentes, feitas com renda, penas, folha de prata e cabedal trabalhado.</p><p>E uma que continuo a usar quando tiro as outras.</p><p>Tantas camadas de disfarces. J� vi o rei sem a sua m�scara, mas n�o sem a cabeleira. Ser� que a tira quando se deita com uma mulher, pergunto-me? Tenho uma imagem s�bita do rei, de camisa de noite, sem a cabeleira luxuriante na cabe�a, o cabelo verdadeiro cortado como o de um soldado. Rente e escuro. Devia ser c�mico, rid�culo, o monarca despido da sua dignidade � mas, em vez disso, sinto uma esp�cie de ternura.</p><p>Nos bailes, o rei e o irm�o identificam-se facilmente, tanto pela qualidade das suas roupas como pela sua altura acima da m�dia. No entanto, por vezes, � dif�cil distinguir um do outro. Apenas a postura do rei � a forma atl�tica como dan�a � os diferencia.</p><p>E isto: Jaime namorisca comigo, um pouco desajeitadamente. Tenta conversar comigo, captar o meu interesse com actualidades ou mexericos.</p><p>Carlos limita-se a olhar para mim por tr�s da m�scara, os olhos escuros e brilhantes mais eloquentes do que palavras.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Canela, jun�a, sassafr�s e cravo-da-�ndia s�o todas boas especiarias para gelos. Na verdade, o gelado de noz-moscada pode ombrear com o mais grandioso dos <emphasis>gelati</emphasis>, e � um excelente gelo de Inverno. Sirva-o com tarte de ma�� morna e um copo de cerveja quente com a��car e canela.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>A Inglaterra estava agora coberta de neve, submersa, empanturrada. Os meus trabalhadores entraram em desespero, empurrando carro�as carregadas de gelo atrav�s dos intermin�veis bancos de neve. Os cascos dos cavalos tinham de ser enrolados em peda�os de pele; apesar disso, alguns apanharam distomatose por andarem ao frio e na humidade e tiveram de ser libertados para se arranjarem sozinhos o melhor que pudessem. Por vezes, fic�vamos presos du�rante dias, por tempestades ululantes que nos queimavam a pele e empurravam neve para todas as fendas das nossas roupas. Noutras alturas, o c�u estava azul e brilhante e calmo, sobre um mundo pintado de branco, o ar parado a cintilar como a poeira da broca de um cortador de m�rmore; havia montes de neve em todas as casas e carro�as, como a crosta de uma tarte acabada de fazer.</p><p>Eu estava no meu elemento.</p><p>N�o era apenas de gelo para encher a casa de gelo do rei que eu precisava. Isso talvez fosse suficiente para a casa real, mas a corte, e o seu banquete, exigiam mais. Tal significava encontrar e encher grutas onde o ar pudesse ficar frio o ano todo, celeiros de gelo de onde pudesse reabastecer a copa de St. James.</p><p>As grutas raramente ficam perto de estradas boas, e mesmo as estradas boas estavam agora intransit�veis. As cernelhas dos cavalos em breve estavam indelevelmente esfoladas com as marcas dos nossos chicotes.</p><p>Quando eu e Elias regress�mos a Londres, � frente de uma caravana de carro�as, j� �amos a meio de Janeiro. Embora n�o passasse muito do meio-dia, a escurid�o j� estava a cair � havia poucas horas boas de luz nesses dias no pino do Inverno. Pass�mos por Ludgate e vimos o grande rio por baixo de n�s. Por um momento pensei que deviam ter acendido os famosos fogos que avisavam Londres das invas�es. Depois percebi que � e como era assombroso � as fogueiras estavam no pr�prio rio, mesmo em cima do gelo, uma linha de chamas que se estendia em direc��o a oeste at� onde a vista alcan�ava.</p><p>Era como a reuni�o de um circo ou o acampamento de um ex�rcito. Havia castelos feitos de lona; comedores de fogo e ursos dan�arinos; malabaristas e bobos; bal�es de fogo e as centelhas cintilantes de p�lvoras coloridas a iluminar os rostos da multid�o. Bandeiras esvoa�avam na brisa e o som de m�sica chegou at� n�s.</p><p>� � obra dos barqueiros � disse Elias, do seu lugar ao lado do carreteiro. � Quando j� n�o conseguem trabalhar nos seus barcos, declaram aberta a feira do gelo. Ningu�m tem jurisdi��o entre as margens do rio a n�o ser eles.</p><p>A estrada onde nos encontr�vamos levava at� ao rio. Pouco depois, senti o cheiro de castanhas assadas e o odor quente e almiscarado de cerveja quente.</p><p>� Quer parar? � perguntou o carreteiro, lambendo os l�bios.</p><p>� N�o � respondi secamente. � Temos de levar o gelo at� ao seu destino.</p><p>*</p><p>Quando finalmente cheg�mos ao Lion, exaustos depois de uma noite passada a descarregar as carro�as de gelo, encontrei o estabelecimento deserto, � excep��o de um solit�rio empregado de balc�o. Titus Clarke abrira uma tenda de bebidas na feira do gelo, explicou ele, e Hannah estava l� a vender as suas tartes.</p><p>Curioso, acompanhei Elias at� ao rio, onde uma carruagem puxada por seis cavalos levava os passageiros de uma margem para a outra. O condutor assegurou-me que era perfeitamente seguro, mas eu tinha demasiado respeito pelo gelo para brincar com os seus perigos e decidi ir a p�. Na tenda do Red Lion, Elias reuniu-se com a m�e: ela abra�ou-o e disse-lhe que devia ter crescido pelo menos trinta cent�metros. Ele pareceu um pouco embara�ado com esta manifesta��o de afecto. N�o crescera apenas por fora, pensei, divertido.</p><p>O sorriso de boas-vindas de Hannah para mim foi caloroso.</p><p>� Obrigada por cuidar dele � disse. Acenei e deixei-os a conversar.</p><p>Cada tenda tinha o letreiro de uma estalagem e, por acordo m�tuo, vendia apenas uma esp�cie de bebida. O Three Bells era uma tenda de araca; o Coach and Horses vendia absinto, enquanto o Red Lion servia uma variedade de cerveja a que chamavam �muda�.</p><p>� Porque se chama assim? � perguntei a Titus Clarke.</p><p>� Porque quem beber demasiado fica mudo � disse ele alegremente enquanto me estendia uma caneca cheia de espuma. � Tem o poder de nos roubar as palavras, como muitos homens j� descobriram �s suas pr�prias custas.</p><p>Provei um pouco: era uma cerveja quente com a��car, espumosa, aromatizada com sassafr�s e cravo-da-�ndia, agrad�vel, embora um pouco arom�tica de mais, de uma forma que me fazia lembrar um xarope para a tosse. � minha volta, homens e mulheres esvaziavam grandes canecas da bebida. Bebi a minha com alguma modera��o � em It�lia n�o temos tanta tend�ncia para a embriaguez como os Ingleses. Para minha surpresa, era bom estar de volta a Londres: n�o me tinha apercebido, no campo, do quanto sentia falta da sua energia perp�tua e rude. Caminhei lentamente. Vi v�rias lutas de touros com c�es e uma ou duas lutas de galos, que me divertiram durante algum tempo. As pessoas comiam tartes de ma�� e outras guloseimas e o ar estava repleto dos cheiros quentes de noz-moscada e canela.</p><p>Depois ouvi um grito: <emphasis>O rei</emphasis>. Ergui os olhos. Uma prociss�o de uma d�zia de carruagens estava a descer o gelo, proveniente da direc��o de Whitehall. Enquanto eu observava, pararam e a corte desembarcou, homens e mulheres que se espalharam sobre o gelo. Muitos cal�avam patins por baixo das belas roupas e, quando come�aram a deslizar, graciosos como dan�arinos, a multid�o aplaudiu. Vi Louise entre eles, a patinar de costas, num c�rculo, com o vestido de seda dourada a ondular. Depois o rei estendeu-lhe a m�o e os dois aceleraram juntos em direc��o � Grande Ponte, deixando todos os outros para tr�s, as pernas de ambos movendo-se em perfeita sintonia, o longo cabelo preto de Louise a esvoa�ar atr�s dela; como se fossem dois p�ssaros deslumbrantes, a voar rio abaixo.</p><p>Virei-me para a feira que, subitamente, me pareceu um pouco mais escura, um pouco mais fria, sem eles ali.</p><p>A pr�xima coisa de que me lembro � de acordar, em agonia, no meu quarto no Lion. Algu�m me despira: quem quer que fosse tinha dobrado as minhas roupas muito bem ao lado da cama e at� deixara as minhas botas do lado de fora do quarto para serem limpas. Sentei-me, alarmado, e rapidamente desejei n�o o ter feito: tinha uma dor de cabe�a insuport�vel, como uma rocha a ser aberta pelo martelo de um pedreiro. Parecia que, afinal de contas, tinha sucumbido ao v�cio dos Ingleses e bebera de mais.</p><p>Com um gemido, desci at� � sala de jantar. Percebi que as cozinhas estavam abertas � o cheiro a tartes pairava no ar, proveniente das traseiras da sala � mas n�o havia ningu�m por perto e eu n�o estava em condi��es de gritar. Por fim, Rose, a mais inferior das criadas, trouxe-me o pequeno-almo�o.</p><p>Demorei algum tempo a perceber que ela se sentara numa mesa pr�xima e estava a ver-me comer.</p><p>� Como se sente? � perguntou, com um sorriso que pretendia ser compreensivo.</p><p>Franzi a testa.</p><p>� D�i-me um pouco a cabe�a.</p><p>� N�o admira, se foi a primeira vez que experimentou a muda.</p><p>Ent�o ela vira-me na noite anterior.</p><p>� Presumo que fiquei mudo? Entorpecido pela bebida?</p><p>Ela atirou a cabe�a para tr�s e riu.</p><p>� O senhor? Mudo? N�o. Deu-lhe para o outro lado. Arengou como um padre.</p><p>Escusado ser� dizer que n�o me recordava de nada disto.</p><p>� E sobre o que � que eu estava a� arengar?</p><p>� N�o se lembra mesmo?</p><p>� Se me lembrasse � observei �, n�o precisaria de perguntar.</p><p>Ela acenou.</p><p>� Bem visto. Digamos apenas que a maior parte da conversa me passou ao lado. E da Mary tamb�m. Especialmente as partes em italiano. Bonito, e muito persuasivo, mas nada que se pudesse considerar compreens�vel.</p><p>Estranhei o uso da palavra �persuasivo�. Pelo menos, ao que parecia, eu n�o tinha revelado nenhum dos meus segredos. Mais um motivo para jurar nunca mais tocar na bebida, se o estado da minha cabe�a n�o me tivesse j� decidido por esse caminho.</p><p>O que quer que tenha acontecido nessa noite, teve outra consequ�ncia imprevis�vel. Longe de ficarem horrorizados com a minha falta de controlo, os habituais do Red Lion pareceram consider�-lo evid�ncia de que eu era agora, como diziam, �um dos seus�.</p><p>� Ao princ�pio, pens�mos que era um bocadinho snobe � confidenciou-me Mary, a outra criada. � Mas, afinal, � um bom tipo, n�o �?</p><p>Eu estava bastante dividido em rela��o a isso. Por um lado, sentia-me tentado a chamar a aten��o para o facto de que, sendo o confeiteiro de Sua Majestade, dificilmente poderia ser um deles; por outro lado, estava contente por estas pessoas j� n�o me considerarem um forasteiro, portanto decidi que o melhor a fazer seria aceitar a sua amizade no esp�rito em que me era oferecida.</p><p>Mary e Rose, em particular, adoravam trocar mexericos sobre a corte, e agora que eu � de alguma forma � lhes indicara que era mais acess�vel do que tinham tido motivos para acreditar at� ent�o, vinham frequentemente incomodar-me enquanto trabalhava.</p><p>� E lady Castlemaine? � t�o bonita como dizem?</p><p>� Ainda n�o tive o prazer de ver essa senhora.</p><p>� E o rei? Como � ele?</p><p>� Sua Majestade � muito gracioso. E alto. � a sua caracter�stica mais distintiva: a altura.</p><p>� � verdade que lady Arlington tem cem vestidos?</p><p>� N�o os contei pessoalmente. No entanto, em Versalhes, cem vestidos n�o seriam considerados demasiados para uma senhora verdadeiramente elegante.</p><p>Em particular, elas estavam fascinadas de forma inimagin�vel por Nell Gwynne � �a nossa Nell�, como lhe chamavam. Eu podia olh�-las de lado quando ouvia esse nome, e oferecer a opini�o de que a actriz era uma criatura grosseira e desinteressante, mas, para elas, isso era apenas parte do seu fasc�nio. O facto de Nell ter come�ado como uma meretriz vulgar � �uma puta dos carvoeiros�, chamava-lhe Mary � tendo ascendido ao palco, � fama e, da�, � cama real, parecia-lhes uma esp�cie de conto de fadas, ainda mais pela forma como as origens s�rdidas de Nell lhes faziam lembrar as suas pr�prias vidas.</p><p>� Eu fui uma menina das laranjas, como ela, mas no teatro do duque, n�o no do rei. Tinha onze anos quando um cavalheiro decidiu que queria descascar mais do que aquilo que pagara � disse Mary.</p><p>Mudei rapidamente de assunto, apesar de o desconforto ser todo da minha parte, n�o da dela.</p><p>Elas tinham ouvido falar de Louise de Keroualle, mas a impress�o que haviam formado dela tinha na base um preconceito diferente: que, como francesa, fora enviada para a corte inglesa com o �nico prop�sito de enfeiti�ar o seu rei. Todos os meus protestos de que isso n�o era verdade eram recebidos como uma descren�a educada mas inabal�vel. Uma das raparigas at� tinha um livro que reivindicava ser a biografia de Louise e, uma vez que n�o sabia ler, pedira-me para lhe descrever o conte�do. Era, claro, mais lixo, e depois de dar uma vista de olhos recusei-me terminantemente a faz�-lo.</p><p>Havia mais mexericos e conversas �s quais eu prestava pouca aten��o; contudo, para minha surpresa, quando Robert Cassell apareceu numa das suas visitas regulares, foi nestes mexericos da ta�berna, e n�o nos meus progressos na feitura de um gelo mais suave, que pareceu mais interessado.</p><p>� Mais alguma coisa? � perguntou, debru�ando-se sobre a mesa e fixando em mim o olhar vivo e militar. � E conversas sobre outras na��es, por exemplo?</p><p>� Bom, est�o bastante convencidos de que foram os Holandeses que atearam o Grande Inc�ndio.</p><p>� Est�o? � perguntou, com um leve sorriso.</p><p>� Eu disse-lhes que � muito mais prov�vel que Deus esteja a castigar o pa�s pelo regic�dio.</p><p>� Hum� � disse ele. � Penso que, por enquanto, talvez seja melhor guardar esse ponto de vista para si. Nos pr�ximos meses, as opini�es v�o tornar-se bastante acesas sobre temas como esse. Na verdade, por muitas raz�es, seria melhor que confidenciasse ter ouvido v�rias pessoas importantes na corte dizerem tamb�m que os Holandeses estiveram por tr�s do inc�ndio.</p><p>Uma pessoa que participava pouco nos mexericos era Hannah. Contudo, de forma talvez surpreendente, eu dava por mim a discutir com ela quase tanto como com as outras duas. Pois, se Rose e Mary eram demasiado cr�dulas, Hannah era demasiado desdenhosa.</p><p>� Hannah � chamavam-na elas quando ela passava �, anda ouvir. O signor Carlo est� a falar-nos sobre a vez em que serviu ta�as de neve misturada com uma conserva de �gua de rosas � condessa de Sedburgh, num baile.</p><p>� N�o conhe�o a condessa de Sedburgh � dizia Hannah, sem parar. � Por isso n�o estou muito interessada no que ela come.</p><p>� Mas ela � linda� � gritava Rose, mas era tarde de mais; Hannah j� estava fora do alcance da sua voz. Parecia-me que ela era ainda mais seca com todos n�s desde a noite da feira do gelo; por outro lado, o Inverno era a �poca mais movimentada do ano para as suas tartes, portanto podia simplesmente andar com pouco tempo.</p><p>Depois houve a ocasi�o em que eu estava a repetir alguns coment�rios que o rei fizera, relativamente ao banquete para os cavaleiros da Jarreteira em Windsor, e o meu papel central nessas festividades.</p><p>� Ent�o ele tem dinheiro suficiente para gastar em pal�cios e banquetes, mas n�o tem dinheiro para po�os ou hospitais � disse Hannah. � E cada um desses tost�es veio do dinheiro dos nossos impostos.</p><p>� Onde o rei gasta o tesouro p�blico � assunto apenas para Sua Majestade e para os seus conselheiros � observei, calmamente. � Como podemos n�s, com a nossa informa��o limitada, ter a presun��o de questionar as decis�es dos grandes homens?</p><p>Ela parou ent�o � estacou abruptamente, na verdade, algo suficientemente raro para eu reparar.</p><p>� E, diga-me, o que torna uma pessoa grande e outra n�o? � inquiriu.</p><p>� O nascimento, as maneiras e o sangue � respondi de imediato. � Pode nem sempre gostar daqueles que Deus colocou acima de si, mas com certeza que n�o pode duvidar de que Ele tem os meios para o fazer. Tal como o rei tem direito a parte do respeito que � devido a Deus, de quem � representante, da mesma forma os seus cortes�os t�m direito a parte do respeito que � devido aos anjos.</p><p>Talvez eu n�o me tivesse explicado muito bem, porque Hannah simplesmente atirou a cabe�a para tr�s e soltou uma gargalhada sarc�stica.</p><p>� E suponho que se inclui a si pr�prio nisso? � perguntou, quando acabou de rir. � Porque, se o senhor � um anjo, eu sou o rabo de um franc�s.</p><p>Olhei para ela, espantado com esta nova animosidade. Tinha a certeza de que ela n�o podia estar a referir-se ao meu nascimento humilde: esse era um segredo vergonhoso ao qual eu nunca aludira. A menos que tivesse, de alguma forma, tra�do as minhas origens quando estava b�bado� Observei-a, tentando encontrar alguma pista na sua express�o. Mas ela j� me virara costas e afastara-se.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para fazer um sorvete de n�speras: leve a ferver um quilo de polpa de n�spera com uma ch�vena de a��car e o sumo de um lim�o, mexendo sempre com uma colher ou vara. Ficar� melhor se adicionar um ou dois copos de cordial feito de bagas de espinheiro-negro ou dos abrunhos selvagens que crescem em climas setentrionais.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>De todas as �rvores do pomar, a nespereira deve ser a mais estranha. Na �rvore, os frutos s�o duros e amargos. Contudo, se os deixarmos no Inverno, as geadas quebram a polpa dura. S� quando a pele fica castanha � que a polpa est� suficientemente macia para se comer, com algo da sucul�ncia almiscarada de ca�a fumada, ou de queijo que foi envelhecido em caves h�midas. � um processo que sugere ao mesmo tempo amadurecimento e apodrecimento.</p><p>A primeira vez que eu falara com Louise fora numa pequena mata de nespereiras.</p><p>Fiz um gelo de n�speras e adocei-o com um licor fragrante, levemente medicinal, feito de bagas de espinheiro-negro. Coloquei-o numa cama de neve fresca do campo e levei-lho.</p><p>*</p><p>Nos aposentos dela havia grande actividade. Uma parede fora derrubada, abrindo o espa�o para as salas do lado. Os trabalhadores estavam a pintar as paredes com novos frescos e colunas <emphasis>trompe l�oeil</emphasis>. Outro pintor estava a fazer o retrato dela. E um bando de damas de companhia observava e coscuvilhava do outro lado da sala.</p><p>� Trouxe-lhe um gelo � disse, com uma v�nia.</p><p>� Signor Demirco. � Virou-se para o pintor e disse: � J� retomamos o trabalho. � Ele pareceu furioso, mas pousou o pincel com um aceno da cabe�a.</p><p>� Venha. � Conduziu-me para uma alcova privada.</p><p>� O que se passa? � perguntei, enquanto lhe entregava o gelo.</p><p>� Isto? Oh, est�o a remodelar os meus aposentos. Ao que pare�ce, tenho de ter um quarto do tamanho de um sal�o de baile, para a minha <emphasis>ruelle</emphasis> matinal, quando ele me visita com os amigos. E uma sala de baile para quando ele quer dan�ar. � <emphasis>Ele</emphasis>, reparei. J� n�o era <emphasis>o rei</emphasis>, nem sequer <emphasis>Carlos</emphasis>.</p><p>O vestido dela estava salpicado com centenas de p�rolas. Estava vestida para o pintor do retrato, claro, mas tamb�m mudara. J� n�o era uma rapariga, uma crian�a, mas sim uma senhora � uma grande dama de Fran�a, refinada e elegante.</p><p>Ou estariam estas diferen�as n�o nela, mas na forma como eu a via, por causa dos adere�os que a rodeavam � o vestido, as sedas, as damas de companhia, o pintor de retratos, os pr�prios aposentos sumptuosos?</p><p>� Como foi o seu Inverno? � perguntou ela. � Conseguiu o seu gelo?</p><p>Acenei afirmativamente.</p><p>� O suficiente para fornecer gelados � Europa inteira. E o seu? Como est�o as rela��es com Sua Majestade?</p><p>� Oh, Carlo � suspirou ela.</p><p>� O que se passa?</p><p>� O rei est� apaixonado por mim.</p><p>� E ent�o? J� estava apaixonado por si antes de eu me ir embora.</p><p>� Mas agora parece quase� <emphasis>tresloucado</emphasis>. Como se estivesse em sofrimento. Lidei mal com ele. Agora estamos ambos encurralados. Ele n�o pode casar comigo; n�o suporta deixar-me partir; e nenhum de n�s pode voltar para casa enquanto esta guerra n�o acontecer. O que hei-de fazer?</p><p>� O que desencadeou isto?</p><p>� A mulher do irm�o dele, Anne Hyde, morreu.</p><p>� Eu soube. � Dizia-se que, no leito de morte, ela recusara o padre, dizendo que preferia morrer sem absolvi��o na F� Verdadeira do que aben�oada numa f� falsa. As pessoas com quem eu falara, na prov�ncia, estavam mais convencidas do que nunca de que os Stuart eram cat�licos secretos.</p><p>� A quest�o �, com quem casar� Jaime a seguir? Uma mulher jovem, diz ele, bonita e, claro, cat�lica.</p><p>De s�bito, percebi.</p><p>� A Louise?</p><p>Ela acenou.</p><p>� Ele falou com Carlos sobre o assunto, pelo menos. Houve uma discuss�o t�o grande� Carlos pensou que eu o encorajara. N�o � verdade, claro. Estava apenas a tentar obter o apoio dele para a guerra.</p><p>� Ent�o o que aconteceu?</p><p>� Disse a ambos que nunca poderia aceitar.</p><p>Eu sabia o que isto devia ter significado para ela: recusar uma oferta de casamento do herdeiro do trono ingl�s.</p><p>� N�o tive escolha � acrescentou. � O Colbert e o Arlington deixaram-no perfeitamente claro. Serei amante de Carlos, ou nada.</p><p>� E a guerra?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Receio que, agora, esteja mais longe que nunca. Consegui influenci�-lo em pequenas coisas, sim. Mas n�o nisso.</p><p>Ela parecia t�o abatida, ali sentada, que tomei uma decis�o s�bita.</p><p>� Fuja comigo � disse-lhe. � Agora. Hoje mesmo. Apanharemos um barco para Espanha ou para a Sic�lia. Case comigo ou n�o, � consigo. Pod�amos estar em Dover ao nascer do dia. Em Madrid dentro de uma semana. Os meus gelados s�o os melhores da Europa; os espanh�is s�o grandes apreciadores, nunca passar�amos fome�</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>� N�o � disse, baixinho. � Carlo, n�o fa�a isso. O rei ama-me.</p><p>� E ama-o a ele?</p><p>Ela abanou novamente a cabe�a e percebei que n�o estava a responder-me, mas apenas a avisar-me para nunca mais lhe fazer essa pergunta.</p><p>Voltei ao Red Lion. Admito: parei noutra taberna pelo caminho, a primeira que encontrei, e bebi tr�s canecas de cerveja forte.</p><p>Depois entrei no Lion � procura de uma mulher.</p><p>Podia ter sido qualquer uma delas. Por acaso, foi Hannah que encontrei nas escadas.</p><p>� Venha � disse, abruptamente. � Preciso dos seus servi�os.</p><p>� Leite-creme para os seus gelos?</p><p>� Refiro-me aos seus outros servi�os. Os servi�os que presta a certos homens. Quanto cobra?</p><p>Ela fitou-me nos olhos por um momento. Estava sem d�vida a calcular que pre�o poderia levar-me.</p><p>� Um xelim � disse, por fim.</p><p>� Muito bem. Vamos para o meu quarto.</p><p>Ela seguiu-me pelas escadas sem uma palavra. Apontei para a cama e disse-lhe onde se colocar. E depois�</p><p>Oh, tenho vergonha de escrever isto. Mas jurei contar tudo, sem embelezamentos nem rodeios.</p><p>Tomei-a na cama, como uma besta de quinta, sem sequer tirar as botas.</p><p>Ela n�o soltou qualquer som enquanto eu o fazia e fiquei-lhe grato por isso. N�o teria aguentado se ela tivesse guinchado e gemi�do e elogiado, num fraco simulacro de prazer. N�o havia qualquer prazer naquela c�pula. Nem para ela, nem para mim. A �nica coisa que senti foi uma leve agonia de desejo a ser purgada do meu ventre, como se tivesse sangrado uma veia, deixando a dor no meu cora��o ainda mais clara.</p><p>Depois, fiquei deitado na cama a olhar para o tecto.</p><p>� Porque chora? � perguntou ela. Eram as primeiras palavras que pronunciava desde o princ�pio. Cuidadosamente, como se eu fosse um fogo que a pudesse queimar, pousou a m�o no meu rosto.</p><p>� N�o estou a chorar � respondi, virando a cara. Ela n�o disse mais nada e levantou-se.</p><p>� O dinheiro est� na minha bolsa, ao p� da janela � disse-lhe. Ouvi-a pegar-lhe, o tilintar de moedas, e depois fiquei sozinho.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>N�o h� qualquer abrandamento. Pelo contr�rio, mordem-me os calcanhares de todos os lados. Arlington, Lu�s, Louvois� At� as minhas damas de companhia foram subornadas para me sussurrarem ao ouvido enquanto me penteiam ou est�o de vigia junto �s janelas, na esperan�a de um vislumbre do rei. <emphasis>Como ele � belo,</emphasis> mademoiselle <emphasis>tem tanta sorte, lembro-me da minha primeira vez, � um prazer deitarmo-nos com um homem como este�</emphasis></p><p>Colbert visita-me todas as tardes. Hoje, por�m, tem algo delicado para me dizer. Espera at� estarmos a s�s.</p><p>� Sua Majestade honrou-me com a sua presen�a num pequeno jantar em minha casa, ontem � murmura.</p><p>� Espero que tenha sido uma noite agrad�vel.</p><p>� Sim, de facto. � Colbert parece n�o saber bem como continuar. � O rei Carlos ficou bastante relaxado com o progredir do ser�o.</p><p>� Relaxado?</p><p>� Quer isto dizer, que se aliviou.</p><p>� Falou sobre mim?</p><p>� N�o directamente. Uma das criadas que nos serviu o jantar era uma rapariga da Gasconha. Talvez j� a tenha visto? Uma jovem muito bonita.</p><p>Garanto-lhe que nunca reparei particularmente nas criadas do embaixador.</p><p>� Sua Majestade reparou nela. Na verdade, sentiu-se t�o� � vontade na minha companhia, que mais para o final da noite perguntou se a rapariga poderia juntar-se a n�s.</p><p>Ergo as sobrancelhas.</p><p>� Sua Majestade fez-me a honra de me mostrar que confia <emphasis>ao m�ximo</emphasis> em mim.</p><p>� Compreendo.</p><p>� O que se seguiu� Foi um deboche sem entraves � diz, debilmente. <emphasis>Une d�bauche tr�s libre.</emphasis></p><p>Na verdade, come�o a compreender, um pouco. As palavras da sua ex-amante mascarada ecoam-me nos ouvidos. <emphasis>Um libertino, como os outros.</emphasis></p><p>� Aguardo ansiosamente pelo dia em que o ardor de Sua Majestade possa ser temperado pela sua influ�ncia. Estou certo, Louise, de que seria uma for�a defensora da moralidade no meio de toda esta escurid�o. � Continua, com alguma hesita��o. � O problema � que parecemos ter chegado a um impasse.</p><p>� Como assim?</p><p>� Sua Majestade parece ter percebido que a Louise n�o � a �nica com argumentos para negociar.</p><p>� Ele quer <emphasis>negociar</emphasis>?</p><p>� Por assim dizer. Antes de deixar a minha resid�ncia, deixou bem clara a sua posi��o.</p><p>� Sim? O que tenciona ele oferecer-me, que julgue ser mais valioso para mim do que a minha honra?</p><p>Colbert parece agora positivamente atrapalhado.</p><p>� N�o � a si que ele faz a oferta, <emphasis>mademoiselle</emphasis>. � ao rei� a Sua Majestade Crist�. Carlos pediu-me para deixar bem claro a Versalhes que, enquanto n�o houver amante, n�o haver� alian�a. E vice-versa. Est� a fazer uma proposta bastante directa. Quando a Louise for receptiva �s s�plicas dele, ent�o pensar� no assunto da guerra com os Holandeses. Mas, at� l�, nada.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para meio litro de groselhas negras, junte quatro p�s de hortel�, picada, uma ch�vena de a��car e duas claras de ovo. Este gelo, um pouco �cido, � na minha opini�o ainda melhor do que a fruta do qual � feito.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Ela n�o o faria.</p><p>N�o se deixaria chantagear at� � cama dele, disse, tal como n�o se deixaria subornar com o mesmo fim.</p><p>Arlington disse:</p><p>� A culpa � toda dela. Inflamou-o al�m do que qualquer homem poderia suportar.</p><p>� Uma mulher tem o direito de n�o ser coagida.</p><p>� Porqu�? � retorquiu Arlington. � Se uma rapariga n�o pode escolher o seu marido, porque havia de ter o direito de escolher com quem se deitar�?</p><p>Deram-me uma carta para lhe levar.</p><p>� � a �ltima oportunidade que ela tem � disse-me Colbert. � E, mesmo assim, pode ser tarde de mais.</p><p>Olhei para o envelope de linho no qual estava a carta. O selo tinha a ins�gnia de um sol, rodeado por raios l�quidos � o bras�o pessoal do pr�prio Rei Sol, Lu�s XIV.</p><p>*</p><p>Ela leu-a, p�lida como a cal.</p><p>� O que diz?</p><p>Silenciosamente, estendeu-me a folha. Depois das cortesias habituais, o rei foi directo ao assunto, sem rodeios. A sua raiva era evidente, mesmo naquelas poucas linhas.</p><p><emphasis>Consideramos agora que n�o h� nada mais que possa fazer. Est� na altura de regressar a Fran�a. Parte na pr�xima semana, de Dover.</emphasis></p><p>� V�o enviar outra para o meu lugar � disse ela, com express�o carregada. � Outra mais receptiva. E, para mim, o convento ou pior.</p><p>� Pelo menos ficar� livre de tudo isto.</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>� Falhei. A minha promessa a Madame� o Grande Neg�cio� tudo. Falhei. Nunca estarei livre disso.</p><p>Parecia t�o desanimada que tive vontade de a tomar nos bra�os, mas n�o o fiz.</p><p>� Acabou. � Olhou em volta, para os aposentos sumptuosos, para os presentes do rei: os rel�gios, os livros, os quadros e tape�arias e mob�lias e os embutidos deslumbrantes. � Acabou, antes sequer de ter realmente come�ado.</p><p>Ouvi-me ent�o dizer as palavras que pensara que nunca pronunciaria.</p><p>� Talvez devesse ceder � vontade do rei.</p><p>� A sua virtude � mais do que a sua virgindade � disse-lhe, num tom meigo. � Bem como a de todas as mulheres. Est� no seu car�cter, no seu temperamento, em quem � e naquilo em que acredita. Esta � a escolha que tem de fazer: o que � mais importante para si, a sua virgindade ou a promessa que fez a Madame?</p><p>� N�o compreende, Carlo. A minha fam�lia� conquist�mos os nossos t�tulos no campo de batalha, a servir reis. A honra � o que nos diferencia de outros homens. Podemos ser pobres, mas ainda temos isso.</p><p>� Pode ser amante de um rei e conservar a sua honra.</p><p>� Terei perdido�</p><p>� N�o! � exclamei. � Ter� <emphasis>vencido</emphasis>. N�o compreende? Assim que for amante dele ter� poder� muito poder!... n�o s� sobre Carlos, mas sobre Lu�s tamb�m. Assim que for amante de Carlos, Lu�s nunca mais poder� ordenar-lhe que volte para Fran�a. Poder� fazer aquilo a que se prop�s. E aquilo que perdeu� aquilo de que se desfez� ter� realmente assim tanta import�ncia, em compara��o com isso?</p><p>Ela levantou os ombros, respirou fundo e, nesse momento, percebi que o faria. Vi, tamb�m, que eu era a �nica pessoa que poderia ter falado assim com ela; porque mais ningu�m a conhecia ou amava o suficiente para pensar na sua felicidade no meio de todas estas intrigas.</p><p>Ela era uma mulher para quem o amor tinha uma import�ncia secund�ria. Eu n�o a amava menos por isso, mas ajudava um bocadinho saber que n�o era por desejar o rei que ela faria isto, mas por um objectivo � um objectivo patri�tico � com o qual se comprometera muito tempo antes.</p><p>Convers�mos durante muito tempo � discutimos o assunto, pes�mos os pr�s e os contras. Era, ambos o sab�amos, um passo irrevoc�vel.</p><p>� Se eu o fizer � disse ela �, quero que saiba que o levarei �s �ltimas consequ�ncias. N�o serei sua amante de forma furtiva e escondida. Tem de ser reconhecido, �s claras, � maneira francesa, para que todos estejam conscientes da minha posi��o. Farei com que ele dependa de mim para cada julgamento e decis�o que tiver de tomar. N�o serei menos do que uma rainha, apesar de n�o ter o t�tulo.</p><p>� Eu sei.</p><p>Por um longo momento, nenhum de n�s falou. Depois ela disse, num tom diferente:</p><p>� Como hei-de dar a entender que mudei de ideias? � Soube ent�o que a decis�o estava tomada.</p><p>� Fale com o Arlington � aconselhei. � Ele que seja o intermedi�rio. Estar� mais do que disposto a colher os louros por isto.</p><p>No Red Lion, encontro Hannah a fazer tartes.</p><p>� Quando terminar� � digo, com voz rouca.</p><p>Ela percebe o que quero dizer com um �nico olhar para o meu rosto.</p><p>� Tenho de p�r estas tartes no forno. � Aponta para o tabuleiro.</p><p>� Bom, n�o as estrague por minha causa. Estarei l� em cima.</p><p>Quando ela entra no meu quarto, ainda traz o avental.</p><p>Era sempre igual: ela de gatas em cima da cama; as minhas ancas a movimentarem-se; o meu gemido de liberta��o. Nem uma palavra da parte dela. O tilintar de moedas � verifiquei: ela nunca tirava dinheiro a mais nem a menos.</p><p>A �nica diferen�a, desta vez, era um leve cheiro a tarte e um pouco de farinha no cabelo dela, como uma madeixa grisalha, onde o ajeitara distraidamente enquanto amassava.</p><p>Dei por mim a olhar para baixo enquanto copul�vamos. Estava a pensar num casal h� muito casado, um casal que fazia este acto por companheirismo, por amor, e n�o por sofrimento. Presumivelmente, haveria pessoas assim neste mundo.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Convido lady Arlington para jogar �s cartas. Agora � f�cil ganhar-lhe � ela joga sempre a mesma m�o, da mesma ma�neira. No entanto, pela mesma raz�o, � igualmente f�cil deix�-la ganhar.</p><p>As perguntas habituais sobre o rei. Ele ainda me visita todas as manh�s? E � noite?</p><p>� Claro que s� lhe permito que me visite durante o dia � digo. � A menos que f�ssemos casados, qualquer outra coisa seria indecorosa.</p><p>Ela emite um ru�do de desd�m.</p><p>� Mas n�o podem casar. N�o com a rainha ainda viva.</p><p>Distraidamente, enquanto jogo uma carta, digo:</p><p>� Sabe, �s vezes penso que � uma pena que um rei n�o possa ter duas rainhas. Isso resolveria tantos problemas, n�o era?</p><p>Jogo a dama de ouros e a dama de copas juntas, uma de cada lado do rei, como se os meus coment�rios fossem relativos apenas �s cartas.</p><p>Pelo canto do olho, vejo-a arregalar os olhos enquanto morde o isco.</p><p>*</p><p>Menos de um dia depois, o marido dela vem visitar-me.</p><p>� Tive uma ideia � diz ele, jovialmente. � Uma sugest�o, melhor dizendo.</p><p>� Estou certa de que tem muitas ideias, lorde Arlington. Todas elas excelentes.</p><p>� Tenho, de facto � concorda ele. � Muitas ideias. Mas� ah, apenas uma esposa.</p><p>� Uma � o n�mero habitual, n�o �?</p><p>� Para os homens vulgares, sim.</p><p>� Oh, n�o diga isso, lorde Arlington. O senhor � tudo menos um homem vulgar.</p><p>Ele aceita o elogio com uma inclina��o da cabe�a.</p><p>� Mas n�o sou um rei. N�o� � continua, quase como se estivesse a falar apenas com os seus bot�es � �se eu fosse como Sua Majestade� um governante absoluto, chefe da Igreja e representante ungido de Deus na terra� podia certamente ter uma segunda� <emphasis>consorte</emphasis> oficial, se assim o desejasse. � Olha para mim, muito satisfeito consigo pr�prio.</p><p>� Sim? Que interessante. � Passado um momento acrescento, quase como uma reflex�o posterior: � Espanta-me que os padres sancionassem uma coisa dessas� sei como eles podem ser dif�ceis nestas quest�es. Mas, naturalmente, confio na sua per�cia nestes assuntos.</p><p>� Padres! � exclama ele, arregalando os olhos. � evidente que n�o estava a contar que eu exigisse os padres.</p><p>� Uma cerim�nia dessa natureza certamente que exigiria um padre, n�o � assim? � pergunto, distraidamente. � Para ser oficial e reconhecida aos olhos de Deus? Bom, claro que n�o estou <emphasis>au fait</emphasis> com os costumes da vossa Igreja inglesa.</p><p>Uma ligeira pausa e depois ele v� a abertura que lhe estou a criar. � �bvio, quando pensamos bem: eles j� t�m uma religi�o inventada, com cerim�nias inventadas, os salmos e a liturgia e os rituais num estado de mudan�a cont�nua. Que diferen�a far� mais uma?</p><p>� Na verdade, n�o sei qual seria a cerim�nia exacta para uma ocasi�o t�o� invulgar � diz ele lentamente.</p><p>� Mas o senhor n�o � bispo.</p><p>� Pois n�o. � Outra pausa. � � uma quest�o teol�gica interessante. Terei de a colocar a um bispo meu conhecido. Sabe, n�o ficaria nada surpreendido por descobrir que afinal de contas essa cerim�nia existe mesmo.</p><p>� Nem eu � respondo. � Nada surpreendida.</p><p>E assim, atrav�s de insinua��es e sugest�es, chegamos a um acordo.</p><p>N�o um casamento, mas uma <emphasis>uni�o</emphasis>. N�o uma rainha, mas uma <emphasis>consorte</emphasis>. Haver� um casamento, mais ou menos. Haver� votos, ora��es, uma b�n��o. Haver� madrigais, um epital�mio especialmente composto em nossa honra, um baile de m�scaras. E depois seremos acompanhados � cama de forma ritual, como quaisquer outros noivos.</p><p>E Lu�s ter� a sua guerra.</p><p>Quanto ao local da cerim�nia, Arlington sugere o seu pal�cio de campo, Euston Hall, perto de Newmarket. H� uma capela � de estilo amb�guo, nem simplesmente protestante nem extravagantemente cat�lica � dentro da casa. Claro que sei por que motivo sugere este pal�cio: quer que isto aconte�a fora de Londres. Assim, se alguma vez se vier a saber, pode justificar tudo isto como uma brincadeira, uma farsa r�stica para entreter os seus convidados. Contudo, mesmo assim, quer que aconte�a sob os seus ausp�cios. Tenciona enriquecer �s custas disto. Almeja o cargo de chanceler, pelo menos, d�diva de um rei agradecido.</p><p>Encontra-se um bispo que jura que � tudo perfeitamente digno. Quer isso dizer que n�o � mais indigno do que a alternativa. Quer isso dizer que, j� que vai acontecer algo indigno, mais vale que seja � vista de Deus. Assim, � quase como se o rei estivesse a pedir o Seu perd�o e a Sua compreens�o. Esse perd�o �, de certa forma, uma esp�cie de b�n��o neste mundo de pecado.</p><p>Acredito que o bispo quer ser arcebispo, e em breve. Os seus argumentos s�o disparatados � at� uma crian�a conseguiria derrub�-los. Por�m, ningu�m opta por discordar. Muito menos Carlos. Ele n�o quer saber quantas regras � preciso dobrar para poder ter aquilo que quer.</p><p>O embaixador, Colbert, est� ainda mais impaciente do que o rei.</p><p>� Precisamos da guerra, j�. Porqu� esta demora?</p><p>� Neste preciso momento est�o a ser constru�dos trinta e dois navios de guerra nas docas de Chatham. A demora beneficia-o a si, n�o a mim.</p><p>� Mas porque n�o pode a ced�ncia acontecer primeiro e os navios virem depois?</p><p>Olho para ele.</p><p>� Pode saber muito de diplomacia, Excel�ncia, mas parece n�o saber muito sobre homens e mulheres. Para quem sup�e que esses navios est�o a ser constru�dos com tamanha urg�ncia? Para Lu�s ou para Louise?</p><p>Ele compreende o que quero dizer e inclina a cabe�a.</p><p>� Tenhamos ent�o esperan�a � diz, baixinho �, de que o rei Carlos nunca se venha a arrepender do elevado pre�o que pagou pela sua companhia, <emphasis>madame</emphasis>.</p><p>Reparo no uso de �<emphasis>madame</emphasis>�. E por essa ofensa, Excel�ncia, penso, e pelo pequeno tremor de desagrado com o qual condescende em olhar para mim, certificar-me-ei de que, assim que eu for amante dele, o senhor ser� recambiado para Fran�a.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Por mais picante que seja o ruibarbo, o sumo de um lim�o refor�ar� o seu sabor.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Mesmo a meio do Inverno, os Ingleses cultivam uma estranha colheita: metade vegetal, metade fruta. Parece-se um pouco com aipo, mas os caules s�o de um rosa vivo, uma curiosidade que ainda � mais estranha pelo facto de terem de os obrigar, como dizem, a crescer em baldes virados ao contr�rio e barrac�es escuros. A planta parece medrar no escuro e no frio: na verdade, ambas as coisas s�o necess�rias para o ruibarbo desenvolver o sabor picante, quase como o de um morango, que tanto apreciam.</p><p>Fiz-lhe um gelo da fruta do Inverno, o primeiro ruibarbo do ano, os rebentos amargos um lembrete de todas as colheitas ainda por vir.</p><p>Depois de a decis�o estar tomada, ela n�o perdeu tempo a lament�-la. Era tarde de mais para mudar de ideias e, al�m disso, qualquer sinal de indecis�o s� enfraqueceria a sua posi��o.</p><p>S� por uma vez a vi preocupada com a forma como poderia ser vista.</p><p>� Pode certificar-se de que isto chega � Bretanha?</p><p>Olhei para o envelope que ela me tinha dado. Estava dirigido ao conde e � condessa de Keroualle, em Brest.</p><p>� Sabe que ser� lida, de qualquer maneira? Se n�o for pelos espi�es ingleses, pelos franceses?</p><p>� Eu sei. Tentei ser circunspecta. N�o duvido de que eles receber�o a not�cia por terceiros muito em breve, mas queria que soubessem que, apesar de tudo, ainda sou sua filha.</p><p>Tirando essa ocasi�o, portou-se de forma muito terra-a-terra. At� que, um dia, disse:</p><p>� Carlo?</p><p>Esperei.</p><p>� Como � que� � Hesitou. � Como � que se comporta uma mulher apaixonada?</p><p>O seu tom de voz era pr�tico, como sempre, mas estava ligeiramente mais corada do que habitualmente.</p><p>� Com o homem por quem est� apaixonada, � isso que quer dizer?</p><p>Ela acenou afirmativamente.</p><p>� Na cama?</p><p>Novo aceno.</p><p>� Os seus romances e livros n�o explicam isso?</p><p>� Oh� esses. � Fez um gesto desdenhoso. � Pelos vistos, tenho de suspirar e desfalecer. Ou protestar estridentemente todos os minutos que ele n�o estiver comigo. Ou portar-me como uma megera ciumenta. Desconfio que nenhuma destas op��es me ajudaria a cativar Carlos.</p><p>� Nem pareceriam naturais em Louise de Keroualle � concordo. � No entanto, presumo pela sua pergunta que est� com receio de que ele perceba que n�o o ama, n�o � assim?</p><p>� Ele tem muito mais experi�ncia do que eu.</p><p>� Bom, n�o sou a melhor pessoa a quem perguntar, uma vez que n�o creio alguma vez ter sido amado por uma mulher da forma que descreve. Nem devia estar demasiado ansiosa por renegar a sua inoc�ncia, j� que, para muitos homens, � em si mesma uma esp�cie de afrodis�aco. Posso dizer-lhe o pouco que sei.</p><p>� Sim, por favor. � Ela est� agora muito vermelha.</p><p>Tentei recordar as rela��es do meu passado. Olympe n�o me amava, mas tinha um � vontade consigo pr�pria, uma confian�a, que fazia com que deitar-me com ela fosse uma esp�cie de banquete. Ela fazia-me sentir um homem do mundo, sofisticado, para quem o sexo era apenas mais um dos prazeres sensuais que uma pessoa educada devia apreciar.</p><p>Com Emilia n�o houvera c�pula, mas quando me lembrava da avidez e deleite dos seus beijos, da excita��o que ambos sent�amos, a alegria de descobrir que a pessoa amada sentia o mesmo por n�s do que n�s por ela, isso fora ainda mais doce do que a pele perfumada de Olympe.</p><p>Perguntei a mim pr�prio como teria sido com Louise, se o destino e a sorte tivessem sido diferentes.</p><p>� Tem de fazer com que ele sinta que ambos s�o continentes novos, � espera de serem explorados � disse-lhe. � Que, de cada vez que ele lhe toca, � como uma nova descoberta� como se, tal como com o microsc�pio de Hooke ou os telesc�pios de Newton, estivesse a ser revelada uma nova maravilha at� ent�o escondida. Tem de ser �vida, mas a sua avidez tem de parecer surpreend�-la a si pr�pria. Os seus beijos devem ser t�o excitantes para ele como o primeiro anan�s que os jardineiros alguma vez cultivaram, e, quando ele a beijar, tem de pensar na coisa mais surpreendente, mais encantadora e mais extraordin�ria que alguma vez viu ou fez.</p><p>� Nesse caso, pensarei na primeira vez em que provei um gelado.</p><p>� Mas n�o se engasgue, nem grite, nem leve as m�os � garganta e diga que est� dormente, como as pessoas fazem frequentemente quando provam os meus gelos.</p><p>Ela sorriu.</p><p>Mas eu n�o consegui.</p><p>� Assim? � perguntou, suavemente, beijando-me.</p><p>Ela beijou-me.</p><p>Ela beijou-me.</p><p>� N�o, assim n�o � disse-lhe, com voz rouca, quando finalmente nos afast�mos. � Foi demasiado meiga e demasiado triste. Se o beijar assim, ele vai pensar que tem pena dele.</p><p>Quando cheguei ao Lion, disse a Hannah:</p><p>� Para cima.</p><p>Silenciosamente, ela seguiu-me at� ao meu quarto.</p><p>Uma c�pula sem palavras, como os animais.</p><p>No entanto, desta vez, n�o consegui acabar. Um grande cansa�o abateu-se sobre mim. Parei, ca� sem for�as sobre a cama e fiquei im�vel.</p><p>� Pode ir � disse, de olhos postos no tecto.</p><p>Talvez ela estivesse com medo que eu n�o lhe pagasse este fracasso, ou que estivesse a ficar farto dela e em breve deixasse de a procurar. Fosse qual fosse a raz�o, ouvi-a dizer baixinho:</p><p>� Vou buscar-lhe um cordial.</p><p>Tinha na ponta da l�ngua a resposta torta de que eu pr�prio era criador de cordiais e n�o precisava de mais.</p><p>Contudo, n�o disse nada.</p><p>Mais tarde, ouvi a porta abrir-se quando ela regressou.</p><p>� Aqui tem. � Estendeu-me uma caneca. Cheirava a ervas arom�ticas, algo verde, como o sabor de trigo de Primavera quando arrancamos um caule branco e grosso do seu inv�lucro de folhas e esmagamos a sua sucul�ncia leitosa entre os dentes.</p><p>Algo amargo, tamb�m, um gosto que ficava na boca.</p><p>� Valeriana � disse ela, adivinhando os meus pensamentos. � Casca de salgueiro e hiperic�o e extracto de urtigas.</p><p>� Medicinal?</p><p>� De certa forma.</p><p>Resmunguei:</p><p>� Normalmente n�o me vou abaixo desta maneira.</p><p>� N�o � para� � Calou-se. � Beba, seja como for.</p><p>Engoli a bebida.</p><p>� Obrigado � agradeci, de m� vontade, devolvendo a caneca.</p><p>Quando me deitei, ouvi-a mexer na minha bolsa e o tilintar de moedas. Depois, surpreendentemente, mergulhei num sono profundo e sem sonhos.</p><p>Mais tarde, quando acordei, estava tudo silencioso. Desci. Hannah n�o estava l�. Fiquei contente por isso.</p><p>Em cima do balc�o da copa, algo me chamou a aten��o. Um livro.</p><p>Peguei-lhe. <emphasis>O Herb�rio Completo</emphasis>, de Nicholas Culpeper. Olhei para a prateleira onde ela guardava os seus livros de receitas. Havia um espa�o vazio onde o tirara, entre <emphasis>Excelentes Receitas de Culin�ria</emphasis> e <emphasis>O Companheiro da Criada</emphasis>.</p><p>Abri-o e folheei-o. Parecia ser tanto sobre astrologia como sobre ervas. <emphasis>Sabemos que Marte � quente e seco, e sabemos tamb�m que o Inverno � frio e h�mido; ent�o, podemos saber tamb�m o motivo pelo qual as urtigas, comidas na Primavera, consomem as superfluidades mucosas do corpo de um homem, que a frieza e a humidade do Inverno deixaram para tr�s�</emphasis></p><p>Passei as p�ginas at� encontrar uma refer�ncia ao hiperic�o. Estranhamente, Culpeper n�o parecia prescrev�-lo para a impot�ncia, mas sim para os males do cora��o.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>At� simples arroz branco faz um gelado surpreendentemente delicado.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�Precisa de alguma coisa? � perguntou-me Louise.</p><p>� Em que aspecto?</p><p>� Estou a fazer uma lista. Afinal de contas, agora posso pedir o que eu quiser. Vou trazer um s�quito de pintores e m�sicos� At� um tutor de filosofia. Se quiser alguma coisa, mais vale aproveitar.</p><p>� Bom, na verdade, h� uma coisa.</p><p>� Sim?</p><p>� H� um homem, aqui em Inglaterra, que percebe de gelo. Chama-se Boyle. � qu�mico e membro da Real Sociedade.</p><p>� E?</p><p>� Penso que ele pode ajudar-me a fazer um gelado para o banquete do rei. Um gelo verdadeiramente digno do seu destinat�rio.</p><p>Ela lan�ou-me um olhar de estranheza.</p><p>� E � mesmo isso que quer? Sabe que o seu papel foi muito importante em tudo isto� pode pedir o que quiser. Qualquer favor ou presente. At� mesmo � hesitou � o seu regresso a Fran�a.</p><p>N�o tinha sequer pensado nisso. Mas claro que n�o podia deix�-la agora.</p><p>� A ajuda do Boyle � tudo o que quero � disse-lhe. � Pelo menos, a �nica coisa que o rei Carlos tem poder para me dar.</p><p>� Eu estava errada, n�o estava? � disse ela baixinho. � Quando o acusei de ser apenas um libertino e um fazedor de guloseimas� Na altura, n�o me tinha apercebido de que um homem pode levar t�o a s�rio os prazeres que cria. Certificar-me-ei de que ter� o seu qu�mico.</p><p>Cumpriu a sua palavra. N�o sei que est�mulos ter�o sido necess�rios, mas alguns dias depois recebi uma mensagem de Boyle, a convidar-me para ir ao seu laborat�rio onde, prometia, me apresentaria dois outros homens de experimentalismo � Christopher Wren e Robert Hooke � que tinham concordado em nos ajudar nesta tarefa, todos sob condi��es da mais estrita confidencialidade.</p><p>Desse dia, e das experi�ncias que lev�mos a cabo, direi pouco. N�o por n�o ter conseguido compreender os m�todos dos <emphasis>virtuosi</emphasis>; pelo contr�rio, eram admiravelmente claros e s� diferiam do senso comum na sua grande dilig�ncia e meticulosidade. Nem existiu qualquer hierarquia ou distin��o entre n�s enquanto trabalh�vamos. Eu sabia que Boyle era filho do conde de Cork; Hooke, vim a saber, fora um �rf�o miser�vel; Kit Wren era filho de um mercador. No entanto, apesar de ambos cederem a Boyle em quest�es filos�ficas, creio que isso se devia apenas ao seu conhecimento superior; quando se tratava de matem�tica era para Wren que se viravam, enquanto Hooke era o mestre indiscut�vel em tudo o que fosse pr�tica ou experimental.</p><p>Fizemos mais de uma vintena de gelos diferentes; variando a quantidade de nata, pouco a pouco, e depois o a��car, e depois a temperatura, e por fim os ovos. Enquanto trabalh�vamos, disse-lhes o que sabia mas n�o conseguia necessariamente explicar, como por exemplo que um tacho de leite, deixado a macerar de um dia para o outro, fazia um gelo mais espesso do que leite fresco. A partir destes fragmentos de informa��o eles <emphasis>colocavam hip�teses</emphasis>, como Boyle dizia: cada hip�tese era ent�o passada a Hooke para que este criasse uma experi�ncia que a provasse ou refutasse. E�</p><p>N�o houve um grande momento de ilumina��o, como aprendemos na escola. Arquimedes pode ter, um dia, saltado nu da banheira, Isaac Newton (que n�o pertencia � companhia nessa ocasi�o, embora outros falassem com admira��o do seu trabalho com telesc�pios) podia ter visto uma ma�� a cair � embora Hooke afirmasse que isto era apenas uma f�bula criada pelo pr�prio Newton para esconder o facto de ter sido ele, Hooke, a descobrir as for�as que governavam a rota��o da Terra: os membros da Real Sociedade eram muito dados a discutir estas quest�es. Por�m, no meu caso, foi simplesmente um per�odo de descobertas tranquilas mas admir�veis, tal como o navegador que parte para novas terras n�o chega de repente ao seu destino, mas tem primeiro de o avistar no horizonte, depois esperar pacientemente que as v�rias caracter�sticas do terreno se tornem mais vis�veis, e s� ao fim de muitas horas pode procurar um s�tio adequado para desembarcar. Foi uma viagem, sem d�vida, que demorou mais de um dia a completar. Mesmo com os admir�veis poderes de concentra��o dos <emphasis>virtuosi</emphasis>, as experi�ncias no frio do laborat�rio de gelo tornaram-se insuport�veis para eles ao fim de algumas horas. Insistiram ent�o para que nos retir�ssemos para um caf� e levaram-me ao Garraway�s, onde interrogaram um capit�o de alto mar sobre o melhor m�todo de propagar palmeiras; depois ao Will�s, onde teve lugar um debate aceso sobre a possibilidade de os Holandeses abrirem as represas caso os Franceses os invadissem; e depois ao Scott�s, onde se juntaram a uma competi��o para criar uma nova roda de azenha para a Ponte de Londres. E em todo o lado onde �amos � n�o s� nos caf�s, mas nas ruas e nos s�tios entre elas � as pessoas abordavam os meus companheiros para inquirir sobre o progresso deste ou daquele projecto de constru��o, ou para perguntar sobre uma experi�ncia, ou para lhes transmitir uma observa��o. Comecei a perceber porque preferiam, geralmente, o caf� ou o vinho � cerveja, pois estes <emphasis>virtuosi</emphasis> moviam-se e falavam e pensavam habitualmente com uma impaci�ncia animada e bem-humorada que o caf� parecia apenas exacerbar, muito diferente do estupor que eu sentira com a cerveja da feira de gelo.</p><p>Ao fim de tr�s dias, t�nhamos feito tantos progressos que foi com alguma surpresa que olhei para tr�s e vi o quanto hav�amos avan�ado. Tornara-se evidente que os ovos eram, de certa forma, a resposta, pois consegu�amos agora produzir de forma consistente um creme gelado feito com ovos � ou test�culos de galinha, como Wren insistia em chamar-lhes � que era t�o suave e cremoso que parecia n�o conter um �nico cristal de gelo. Por�m, os meus amigos n�o estavam satisfeitos com esta solu��o: queriam saber o <emphasis>porqu�</emphasis> de os ovos produzirem este efeito e se poderia ser duplicado com outros ingredientes. Primeiro tent�mos substituir os ovos de galinha por ovos de ganso e de gaivota (os primeiros eram muito bons, os segundos nem por isso), depois separ�mos os ovos em claras e gemas para ver qual das partes do ovo era respons�vel; depois, aos poucos, fomos reduzindo os ovos e come��mos a trabalhar novamente com natas.</p><p>A inten��o declarada de Wren, como ge�metra, era encontrar uma f�rmula matem�tica para exprimir a solu��o.</p><p>� Pois s� pela matem�tica � disse �, podem as receitas ser recuperadas do caos e supersti��o dos cozinheiros. Quando vou ao Garraway�s, insisto para que o meu caf� seja feito com sessenta e oito gr�os; quando como um bife de vaca, exijo que esteja na grelha exactamente quatro minutos. O seu gelado, <emphasis>signor</emphasis>, pode ser mais complexo nos seus elementos constituintes, mas n�o � certamente mais resistente �s leis do mundo f�sico do que o movimento ou a luz.</p><p>Foi por causa deste cavalheiro que eu adquiri posteriormente o h�bito de registar exactamente as quantidades e m�todos que usava para fazer os meus gelados, permitindo-me assim duplicar cada um deles sem ter de depender apenas das minhas mem�rias.</p><p>Hooke, por outro lado, estava mais interessado em criar uma m�quina pr�tica para tornar o processo mais eficiente. Depois de me ver fazer a primeira dose, anunciou que estar�amos aqui o Inverno todo se tiv�ssemos de proceder sempre assim. Tirou-me a p� das m�os e fez-lhe meia d�zia de orif�cios grandes com uma broca, ignorando os meus protestos de que o instrumento em quest�o fora especialmente feito para mim em Paris.</p><p>� Experimente agora � disse, indicando a <emphasis>sabotiere</emphasis>.</p><p>Assim fiz e descobri imediatamente � claro! � que a mistura passava atrav�s dos orif�cios � medida que se tornava mais espessa, acelerando assim o movimento da p� e trabalhando o gelado de forma mais eficaz.</p><p>E n�o se ficou por a�. Enquanto Boyle, Wren e eu faz�amos a pr�xima s�rie de experi�ncias, Hooke retirou-se para a sua oficina �para experimentar uma coisa�, como disse. Voltou com uma tampa para a <emphasis>sabotiere</emphasis>, na qual inserira uma simples manivela. Girar a manivela fazia com que a p� rodasse no interior, facilitando muito o trabalho.</p><p>� N�o ser� de grande utilidade para si � observou �, uma vez que faz os seus gelos em quantidades �nfimas. Mas para n�s, j� que temos de fazer tantos para estas experi�ncias, servir� para tornar o trabalho mais r�pido.</p><p>Quando percebi que ele tencionava oferecer-me o aparelho, perguntei-lhe como poderia alguma vez pagar-lhe.</p><p>Ele encolheu os ombros.</p><p>� Se algu�m perguntar, diga que foi Hooke que o inventou. � tudo o que eu, ou qualquer outra pessoa, poderia pedir.</p><p>Qual foi, ent�o, o resultado de todas as nossas delibera��es? Veio a verificar-se que n�o era nenhuma f�rmula secreta, nenhum ingrediente m�gico ou feiti�o, mas simplesmente exactid�o e equil�brio. Descobrimos que o gelado � como um tri�ngulo com tr�s lados iguais: esses lados s�o a fruta, a mistura de a��car ou leite-creme, e o mexer. Quando os tr�s estavam em perfeita propor��o, o gelado era t�o suave e cremoso como manteiga acabada de bater.</p><p>Recordei as palavras de Hannah, sobre mais a��car para solidificar o leite-creme. Na verdade, ela tinha raz�o, embora s� pudesse ter sido um palpite de sorte, uma vez que nunca poderia compreender o processo como eu o compreendia agora.</p><p>� Termin�mos � disse Boyle por fim, pousando a colher. � Cavalheiros, para o Garraway�s. Ouvi dizer que h� not�cias interessantes sobre um tratado de paz no Reno.</p><p>Fomos ao Garraway�s, onde se juntaram a n�s um homem que inventara uma prensa de cidra mais eficiente e outro que fazia desenhos das perturba��es no c�u. A conversa virou-se ent�o para a alquimia, e se haveria alguma diferen�a fundamental entre esta e o Novo M�todo. Hooke e Boyle diferiam neste ponto. Boyle, esse homem bom e am�vel, era da opini�o de que Deus criara a Natureza deliberadamente misteriosa, enquanto Hooke � de quem eu n�o conseguia gostar, apesar da sua generosidade pessoal para comigo, pois era um indiv�duo dif�cil e irritadi�o � defendia que o universo n�o era mais do que um mecanismo, uma esp�cie de rel�gio gigante cujas engrenagens e objectivos est�vamos agora apenas a come�ar a descobrir. Contudo, o que mais me intrigou foi que eles se envolveram num debate furioso, em que nenhum cedeu, por mais de meia hora; embora ambos tivessem dado muitos murros na mesa, nenhum esmurrou o outro, e cinco minutos depois de concordarem finalmente que nenhum deles podia provar a sua hip�tese, estavam lado a lado a examinar um estranho escaravelho morto que algu�m trouxera de Epsom, novamente os melhores amigos do mundo.</p><p>Fizemos espa�o para a criada nos servir mais uma rodada de bebidas. A maioria estava a beber caf�, mas Boyle e eu beb�amos chocolate, por raz�es de sa�de.</p><p>� A� est� um belo e elegante sabor para os seus gelos, Demirco � disse Kit Wren, virando-se para mim. � Um prato de gelado com sabor a caf�.</p><p>� Na verdade, seria muito f�cil de preparar � respondi. � Os gr�os fazem uma excelente infus�o com �gua, portanto certamente que o fariam tamb�m com leite.</p><p>� Eu preferia chocolate � disse Boyle. � O caf� n�o me cai bem, quase tanto como aqui o Hooke. � Sorriu para mostrar a Hooke que n�o pretendia ofend�-lo. Menciono esta troca de palavras tanto para mostrar a boa vontade com que estes cavalheiros partilhavam as suas ideias, como a origem de duas das minhas receitas mais curiosas. Sei que o p�blico pensa que estas confec��es em particular provam que sou ligeiramente louco, e houve muitas piadas e coment�rios adversos quando elas se tornaram conhecidas; tudo o que posso dizer � que aqueles que desdenham da sua estranheza nunca as provaram, e que, al�m de serem requintadas, s�o extraordinariamente boas.</p><p>Em breve chegou a hora de eles partirem para uma reuni�o da sua Sociedade e, para meu grande prazer, perguntaram-me se queria acompanh�-los, como seu convidado. Tenho de dizer que n�o compreendi muito do que se discutiu nessa noite. Houve um debate sobre se o ar opaco ou nebuloso era mais pesado do que o ar limpo; Hooke mostrou-nos alguns desenhos muito belos de flocos de neve, que apanhara no feltro do seu chap�u novo e observara com o microsc�pio; Henshaw leu uma carta sobre a disseca��o de um test�culo de arganaz, e houve uma discuss�o prolongada sobre o porqu� de uma porta, que n�o empena no Ver�o, empenar por vezes no Inverno. Wren descreveu uma forma de fazer uma chamin� cheirar bem e debateram um trabalho em curso. Por fim, levaram a cabo uma experi�ncia, criada por Hooke, para soprar ar para os pulm�es de um peixe; para minha surpresa, o pr�prio rei esteve presente nesta parte do ser�o.</p><p>� Signor Demirco � disse, quando me viu. � N�o sabia que era fil�sofo.</p><p>� Senhor, alguns dos membros da vossa Sociedade t�m estado a ajudar-me a criar um gelado melhor.</p><p>Ele ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Presumo que se trata do prato para o meu banquete? O que ser� dedicado a mademoiselle de Keroualle?</p><p>Hesitei� e depois acenei afirmativamente.</p><p>� Na verdade, este ser� um prato bem indicado para dedicar a essa senhora. Pois � um prato, n�o apenas de um sabor, mas que pode ter muitos sabores, conforme o que escolhermos colocar nele. Um dia pode ser morangos, noutro p�ssegos e noutro nozes ou <emphasis>posset</emphasis> ou ch�. S� a textura � sempre a mesma: frio e duro na ta�a, mas derrete-se na l�ngua como o mais suave dos cremes�</p><p>� Um gelo que � duro na ta�a mas que se derrete na boca? � disse ele com um sorriso. � Na verdade, <emphasis>signor</emphasis>, parece muito apropriado. Estou ansioso por o provar.</p><p>Mais tarde, enquanto sa�amos, manifestei a Boyle a minha surpresa por ver o rei naquela companhia.</p><p>� Oh, ele vem com bastante frequ�ncia � garantiu-me Boyle. Estava agora acompanhado pela sobrinha; ela viera ao seu encontro, explicou, pois nos ser�es da Sociedade ele tinha tend�ncia a esquecer que estava enfermo e a passar a noite toda em debate filos�fico, a menos que ela o fosse buscar para ir para casa. � Todos os dias, independentemente dos assuntos de Estado com que tem de lidar, Sua Majestade executa pelo menos uma experi�ncia. Na verdade, � um qu�mico ex�mio.</p><p>A liberdade de discurso deu-me coragem para dizer algo em que andava a pensar muito, ultimamente.</p><p>� Antes de eu vir para este pa�s � disse �, disseram-me que Carlos era um governante efeminado e de vontade fraca. Eu pr�prio tenho visto como ele se rodeia de imbecis b�bados e ministros interesseiros. No entanto, parece-me ser um homem encantador e, na verdade, muito inteligente.</p><p>� O Rochester tem a liberdade de ser ofensivo, e o Harvey tem a liberdade de dissecar o c�rebro humano � disse Boyle. � Talvez, no fundo, sejam quase a mesma coisa. � Pareceu pensativo. � Co�nheci Galileu, uma vez. Eu era um jovem, andava a estudar pelas universidades da Europa, e ele estava em pris�o domicili�ria em Floren�a. Fui visit�-lo mas, nessa altura, ele j� tinha perdido o ju�zo, sem d�vida gra�as, em grande medida, � forma como fora tratado pelas autoridades. A Inglaterra tem muitos defeitos, mas isso, pelo menos, nunca poderia acontecer aqui. N�o me parece que seja coincid�ncia que tenhamos entre n�s eruditos como Halley, Harvey e outros que tais.</p><p>� Para n�o falar em Boyle � murmurou a sobrinha.</p><p>Ele fez um gesto impaciente.</p><p>� Podia ter feito algum trabalho �til, se n�o fosse a minha doen�a.</p><p>� � demasiado modesto, tio. A sua bomba de v�cuo�</p><p>� Um come�o, nada mais.</p><p>T�nhamos chegado junto da carruagem dele e o lacaio contornou-a para o ajudar a subir.</p><p>� Obrigado, Edwards � agradeceu ele, instalando-se com um suspiro. � N�o fui sempre assim t�o fr�gil � disse-me. � Um ataque apopl�ctico. Aquilo a que chamam uma car�cia da m�o de Deus. Embora eu sempre tivesse imaginado que a Sua car�cia seria mais meiga do que isto. Sempre quer os tais panfletos?</p><p>Demorei um instante a recordar de que panfletos estava ele a falar: no princ�pio da noite, oferecera-se para me dar uma c�pia das suas publica��es relativamente ao frio.</p><p>� Com certeza.</p><p>� Muito bem� eu mando entregar-lhe. Depois de os ler, talvez possamos retomar as nossas conversas.</p><p>� Gostaria muito � disse-lhe. � H� muita coisa que gostaria de compreender melhor sobre aquilo que fa�o. � bem poss�vel que seja preciso algu�m como o senhor, um fil�sofo natural, para as deslindar.</p><p>Ele acenou.</p><p>� No meu estado actual, � precisamente o tipo de investiga��o que devo empreender. Deixaremos os segredos do cosmos para outros durante alguns meses, talvez, e comeremos gelados. O que dizes, Elizabeth?</p><p>Elizabeth estava a abrir uma manta sobre os joelhos dele.</p><p>� N�o me parece que seja assim t�o insignificante andar a chapinhar em �gua gelada.</p><p>Recuou e reparei que a rapariga sorria de forma familiar ao lacaio, Edwards. Para minha surpresa, ele sorriu tamb�m, de forma igualmente familiar. Era evidente para mim que existia algum tipo de intimidade rom�ntica entre eles, algo que, noutra ocasi�o, me teria chocado. No entanto, ouvira e vira tantas coisas estranhas nessa noite que dei por mim a pensar, simplesmente: �Porque n�o?�</p><p>Depois de Boyle partir, caminhei de novo em direc��o ao rio, imerso em pensamentos � em grande medida, sobre aquilo que ele dissera. Pois era certamente verdade que havia algo que todas as pessoas neste pa�s tinham em comum, desde o ilustre Robert Boyle at� Hannah Crowe. N�o era exactamente orgulho, embora fosse algo de que eles se orgulhavam; n�o era teimosia, embora fossem certamente capazes de ser teimosos em rela��o a isso, quando queriam. Era antes uma preocupa��o feroz por chegar � verdade de cada quest�o; um amor pelo debate e uma recusa em aceitar o ponto de vista de outra pessoa sem primeiro o testar vigorosamente contra o seu, tal como uma moeda era mordida, dobrada e finalmente atirada ao ch�o para testar a sua qualidade, antes de ser aceite com um �Muito bem� resmungado. Para um povo t�o conflituoso e libert�rio, talvez um governo por debate n�o fosse, afinal de contas, t�o m� ideia quanto isso.</p><p>Eu tinha reparado, quando comecei a ler livros e jornais em ingl�s, que sempre que escreviam a palavra que indicava a pessoa que estava a dar a sua opini�o � eu, �I� � usavam habitualmente uma letra mai�scula, como que para salientar a sua import�ncia. Isto, claro, n�o era algo que um franc�s ou um italiano alguma vez fizesse com <emphasis>je</emphasis> ou <emphasis>me</emphasis>. Ao princ�pio, parecera-me apenas mais um exemplo, quase engra�ado, da presun��o das pessoas comuns, cada uma das quais considerava a sua opini�o t�o boa como a de qualquer outro.</p><p>Tinham-me dito que havia uma moda, entre eles, de escrever di�rios: n�o necessariamente para publica��o, mas apenas para dar forma duradoura aos seus pensamentos fugazes. Tamb�m isso me parecera c�mico. Contudo, talvez tivesse sido demasiado precipitado a tirar estas conclus�es. Talvez a opini�o de uma pessoa comum pudesse realmente ter tanto interesse como o parecer de grandes homens: talvez, na verdade, a �nica diferen�a entre os grandes homens e os outros fosse que os grandes homens se davam ao trabalho de formar estas opini�es� Percebi que tinha a cabe�a a zumbir, mas n�o sabia se era do efeito de tanto caf� ou de tantas ideias novas.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Gelado de morangos brancos: o sabor delicado destes frutos n�o precisa de adornos, excepto, talvez, uma pitada de pimenta branca.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O grande banquete de Carlos, o arranque do seu Ver�o de festividades, teria lugar no dia festivo de S�o Jorge, o santo patro�no de Inglaterra. A ironia, claro, n�o passou despercebida �queles que sabiam quem era realmente o patrono do rei, ou que pa�s estava na pr�tica a pagar as suas celebra��es.</p><p>Quase um m�s antes da festa, mudei-me para Windsor de modo a poder supervisionar os preparativos. Os construtores ainda estavam a trabalhar no Grande Sal�o novo, enquanto os carpinteiros faziam as �ltimas mesas �s quais se sentariam os convidados do rei. Os despenseiros estavam tamb�m ocupados, a desembrulhar milhares de pe�as de loi�a que n�o eram usadas desde a coroa��o. S� o candelabro precisava de uma equipa de oito pessoas e duas semanas para ser limpo.</p><p>N�o havia casas de gelo, mas requisitei uma cave e mandei trazer o gelo directamente das grutas onde o guardara. Primeiro, comecei o trabalho de fazer as esculturas de gelo e pus trabalhadores a preparar as grandes camas de gelo esmagado onde seria servida a comida fria.</p><p>Contudo, ainda n�o tinha decidido exactamente que gelado serviria na mesa do rei.</p><p>Nas semanas depois do meu encontro com os <emphasis>virtuosi</emphasis>, e de ter aperfei�oado a t�cnica de fazer um gelo perfeitamente suave, fizera experi�ncias com todos os sabores � face da Terra. Assim que um novo fruto ou vegetal aparecia nos mercados, eu congelava-o. Espargos, tupinambor, aipo vermelho, at� couves� Os rabanetes revelaram-se surpreendentemente bons, bem como espinafres de Primavera; as azedas tinham os seus m�ritos, tamb�m. Fui �s docas e comprei frutas estranhas aos barcos regressados das col�nias. Fiz gelados de pimentos, de mel�es, de mangas e de frutas t�o feias que nem sequer tinham nome.</p><p>Nenhum deles era o certo. N�o para um prato criado em honra dela.</p><p>Percorri os laranjais e planta��es de ananases das propriedades dos grandes nobres, com uma <emphasis>carte blanche</emphasis> do rei no bolso. Mais do que um anan�s foi arrancado da �rvore, partido, cheirado e posto de lado.</p><p>Elias disse-me:</p><p>� H� um homem em Sonning que, dizem, cultiva morangos brancos. S�o grandes como ovos de gaivota e absolutamente doces.</p><p>� N�o me parece que isso seja poss�vel.</p><p>� Ele � marinheiro. Trouxe as plantas da Am�rica.</p><p>N�o acreditei, mas viajei at� Sonning, de qualquer maneira, para verificar pessoalmente. E descobri que Elias tinha raz�o: havia um velho marinheiro, com as botas cobertas de lama, que cultivava morangueiros num canteiro elevado, aquecido pelos respiradouros de uma lareira. Enquanto sopesava os frutos nas m�os calejadas, murmurava a cada planta, acariciando-a e pedindo-lhe desculpa pela perda dos seus filhos. Era louco, mas os seus morangos eram extraordin�rios. Os frutos eram completamente desprovidos de cor: primeiro, pensei que n�o estavam maduros, mas depois ele deu-me um para provar e percebi que, n�o s� era doce, como era completamente diferente dos morangos normais � branco como nata, carregado de aroma e sem nenhuma da acidez habitual da maioria dos morangos. Cada baga estava aninhada debaixo de uma folha coberta de espinhos muito finos, como uma groselheira ou uma urtiga: picavam ligeiramente quando a manuse�vamos.</p><p>Recordei-me que havia um velho costume que ditava que todos os animais brancos ou albinos pertenciam ao rei. O cervo ou veado branco era o antigo s�mbolo dos reis; os cisnes eram reservados para a mesa real, enquanto uma carruagem puxada por cavalos brancos era sinal de que o ocupante estava ligado � fam�lia real.</p><p>Louise, tamb�m: aquela pele branca, t�o branca, reservada apenas para o rei.</p><p>Trouxe todos os morangos que o homem tinha e dividi-os em duas partes. Uma delas seria servida simples; com a outra, faria um gelado, com um pouco de pimenta branca, para prazer exclusivo do rei.</p><p>O dia do banquete chegou � ou melhor, o primeiro dia, uma vez que os festejos iriam durar quase uma semana. Bandeiras esvoa�avam em todas as esquinas e torre�es do castelo; tocavam-se fanfarras e, para onde quer que olh�ssemos, havia soldados em desfiles cerimoniais. Fizeram-se exibi��es de equita��o para entreter os convidados e havia uma est�tua que cantava. N�o era Versalhes � o castelo era demasiado castelo para ser completamente elegante e a atmosfera aproximava-se mais de uma feira rural do que das cerim�nias formais e coreografadas de Fran�a � mas a majestade da ocasi�o era indiscut�vel. Os frescos no tecto do Grande Sal�o podiam ainda n�o estar secos, mas esse tecto era vasto e estava pintado, e, � medida que os mil convidados nobres entravam pelas portas trabalhadas, olhavam para cima e admiravam-no.</p><p>E depois Louise fez a sua entrada.</p><p>O vestido que escolhera para esse dia era admir�vel. Assentava-lhe como uma luva e, na verdade, a sua cintura era t�o estreita que um par de m�os enluvadas quase a conseguiriam contornar. No tecido, estava bordado um padr�o delicado em forma de diamantes; a saia e o corpete eram separados, como era o novo estilo em Fran�a; a saia tinha uma racha de lado, de modo a que, quando ela caminhava, era poss�vel apanhar um vislumbre da sua perna esguia entre as pregas do tecido, que estava apanhado de um lado e preso com um broche. Apenas o seu cabelo � aquela cabeleira desobediente de carac�is escuros � n�o tinha nada de franc�s: n�o estava apanhado ao alto debaixo de um chap�u, mas simplesmente dividido ao meio. Era como se ela estivesse a dizer: <emphasis>De hoje em diante, serei eu o �rbitro por aqui. Copiarei o que quiser, e todos me copiar�o.</emphasis></p><p>O rei fez-lhe uma v�nia e conduziu-a � sua mesa, que estava separada das outras, num pequeno estrado elevado. A rainha n�o estava presente.</p><p>Pouco antes de eu come�ar a servir o gelado, um dos criados do rei aproximou-se.</p><p>� Isto deve ir dentro do gelo � disse. � Por ordens do rei. � Abriu uma pequena bolsa de veludo e sacudiu qualquer coisa para a palma da minha m�o.</p><p>Na ementa, colocada junto de cada convidado, estava escrito: <emphasis>Para prazer exclusivo do rei: um prato de morangos brancos e um prato de gelado.</emphasis></p><p>Mas n�o estava escrito como aconteceu: o som dos trompetes, o grito dos arautos, um sil�ncio s�bito: todos os olhos sobre mim enquanto eu caminhava, � frente de uma prociss�o solene de criados, na direc��o da mesa principal.</p><p>Creio que o meu olhar se cruzou com o dela, quando fiz uma v�nia profunda. Por�m, com aquele olho pregui�oso, era dif�cil ter a certeza.</p><p>Recuei. O rei estendeu a m�o para a travessa de gelo esmagado sobre o qual se encontrava a tigela de morangos e puxou a ponta de uma fina corrente. Puxou de novo, e desta vez ela libertou-se; carregada, a baloi�ar, pesada com pepitas cintilantes do que parecia ser gelo: gelo que se incendiou subitamente sob o brilho das velas.</p><p>Um colar de diamantes brancos, as pedras t�o grandes como morangos, a pingarem nos seus dedos enquanto os retirava daquele ventre gelado.</p><p>S� nesse momento reparei que ela n�o tinha nada ao pesco�o, em antecipa��o deste momento. Enquanto ele prendia o colar, murmurando algo que s� ela conseguiu ouvir, imaginei a pele dos seus ombros e garganta arrepiada pelo frio da j�ia; a textura suave, quase aveludada que a sua pele teria sob as m�os do rei.</p><p>Ela olhou para ele, com uma express�o adoradora mas t�mida, e depois virou-se para sorrir para toda a sala: uma inocente encantada, a rapariga mais feliz do mundo. Instintivamente, as pessoas come�aram a aplaudi-la, muitas levantando-se ao faz�-lo; e se houve alguns, como Rochester e Buckingham, cujos aplausos foram um pouco mais lentos, um pouco mais c�nicos, isso perdeu-se no momento geral de aprova��o.</p><p><emphasis>Para prazer exclusivo do rei.</emphasis></p><p>E at� eu � cortes�o, confeiteiro, c�mplice do meu pr�prio desgosto � at� eu juntei as m�os e soltei um grito de aprova��o que n�o sentia.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p>PARTE QUATRO</p><empty-line/><empty-line/><p>�Foi contado por todo o lado que a bela dama foi acompanhada � cama uma destas noites, e os rituais cumpridos como se fosse casada; reconhe�o que ela esteve quase sempre em trajes menores o dia todo, e que houve carinhos e brincadeiras com essa jovem libertina; disse-se que eu tinha estado presente na cerim�nia anterior; mas � completamente falso.�</p><p><emphasis>Di�rio de Sir John Evelyn, Setembro de 1671</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Est� feito. Estou deitada na cama real, molhada com a semente do rei. Ungida pelo ungido do Senhor. As minhas coxas ensanguentadas. A minha virgindade misturada com os fluxos do seu desejo.</p><p>O sangue de Louise, derramado para que Lu�s possa derramar o sangue holand�s nos Pa�ses Baixos.</p><p>Aturdida, na cama, com as palavras em turbilh�o na minha mente. Sou uma fortaleza em chamas, uma aldeia saqueada, terra queimada.</p><p>� Por favor, n�o chore, meu amor � murmura ele. � Meu amor, meu amor querido.</p><p>Por favor, Louise.</p><p>Estou acabada, desonrada, ca�da em desgra�a. Sou Eva, Madalena, a Meretriz da Babil�nia, a libertina <emphasis>dama rec�m-chegada de Fran�a</emphasis> que os panfleteiros sempre disseram que eu era. A minha preciosa honra roubada, manchada como os len��is. Estou, literalmente, despeda�ada.</p><p>Por�m, acima de tudo, o que eu penso �</p><p><emphasis>A s�rio?</emphasis></p><p>Este espalhafato todo, por isto? De certeza?</p><p>Oh, claro que doeu. Eu estava � espera que doesse. Mas a primeira vez acabou t�o depressa que mal tive tempo para dizer a mim pr�pria que n�o era t�o mau como eu esperava.</p><p>Talvez seja esta a natureza da sua famosa per�cia como amante? Talvez seja como ser um cirurgi�o � se conseguir serrar um bra�o em menos de um minuto, os pacientes n�o lhe largam a porta.</p><p>Fico ali deitada, incapaz de me mover, todos os meus membros serrados, espalhados pelo quarto, para onde ele os atirou. Carlos, o cirurgi�o, a limpar o suor da testa com as costas da m�o.</p><p>Sim, ele tira a cabeleira. Por baixo, o cabelo curto est� a ficar grisalho. N�o, n�o d� pontap�s aos c�es. Gra�as a Deus, os tr�s que ele trouxe para Newmarket s�o demasiado pequenos para conseguirem saltar para a cama. Toda a noite os ouvi a agitarem-se do outro lado das cortinas.</p><p>Carlos, o cirurgi�o, foi muito mais lento na segunda opera��o do que na primeira. Talvez esteja cansado. Os seus dedos em mim, frios da sua semente, a trabalharem entre as minhas pernas. Porque � que est� a fazer aquilo, l� dentro? Ser� para preparar o caminho, de alguma forma?</p><p>A serrar, a serrar, a serrar.</p><p>Penso em Aretino, todas aquelas imagens que estudei t�o atentamente em prepara��o para esta noite, para tentar compreender o que iria acontecer. At� tirei apontamentos. Mas agora n�o h� a m�nima hip�tese de eu fazer nada dessa natureza. Nem ele parece esper�-lo, felizmente. S� com grande esfor�o consigo ficar aqui deitada sem parecer exausta, quanto mais agachar-me ou ajoelhar-me ou qualquer outra dessas contor��es.</p><p>� Meu amor, meu amor � diz ele, colocando-se novamente em cima de mim. E outra vez. Esmaga-me. Penso, com s�bita inveja, no mecanismo de um rel�gio, frio e mec�nico e limpo.</p><p>Com um gemido, ele unge-me pela segunda vez. Um s�bito estremecimento nas suas pernas. Da primeira vez pensei que fosse algum tipo de ataque, que eu tinha matado o rei. Desta vez n�o me alarma tanto. Mas n�o � menos desagrad�vel.</p><p>Setecentos anos de servi�os leais a Fran�a. Para isto.</p><p>O polegar dele toca-me na face, numa car�cia.</p><p>� S�o l�grimas de alegria � murmuro.</p><p>Satisfeito, ele deixa-se cair sobre mim, um peso morto. Sinto o seu cora��o a bater contra os meus seios. Todo ele � t�o duro e s�lido como uma est�tua. Excepto a suavidade h�mida onde estamos unidos. Onde a est�tua derrete dentro de mim.</p><p>Da terceira vez, o dia est� a nascer. Acordo com ele ajoelhado sobre mim, o seu mastro erguido perante os meus olhos, grosso e aterrorizador. Os p�los nos seus ombros largos e no ventre s�o escuros como os de um macaco.</p><p>Viro a cabe�a para o lado e ele beija-me na face, lenta e deliberadamente, enquanto me penetra.</p><p>Como uma bandeira. Agora, sou territ�rio seu. Conquistada.</p><p>Desta vez o serrar � lento e sonoro.</p><p>Depois, ele pergunta:</p><p>� Como foi?</p><p>� como se estivesse a pedir a minha opini�o sobre uma pe�a.</p><p>Reflicto um pouco.</p><p>� N�o foi bem como eu esperava.</p><p>� N�o? Como assim?</p><p>� Foi mais como montar a cavalo ou jogar t�nis do que como poesia ou m�sica.</p><p>Ele franze a testa e lembro-me de onde estou. Com quem estou. E porqu�.</p><p>� Quero dizer, foi maravilhoso. Eu era a rapariga mais feliz do mundo; agora, sou a mulher mais feliz.</p><p>Apaziguado, ele afasta a cortina da cama do seu lado. Aparecem instantaneamente dois criados de quarto, um com uma bacia de �gua, outro com uma toalha.</p><p>O que segura a bacia, o mais novo, est� a olhar para a frente. Depois, como se n�o conseguisse evit�-lo, os seus olhos viram-se para onde eu estou, deitada, com os seios h�midos do suor do rei. Ontem, talvez o tivesse mandado chicotear pela sua ousadia. Hoje, sou uma mulher desgra�ada. Ele que olhe.</p><p>Carlos levanta-se. Vejo o membro real ser lavado, as roupas interiores reais levantadas para ele as enfiar. Nesta altura est� j� rodeado por uma boa multid�o, criados que o pulverizam e sacodem e ajeitam at� que, por fim, j� n�o � o homem que ali est�, mas o monarca, a puxar as mangas de renda da sua sobrecasaca.</p><p>Finalmente, a cabeleira.</p><p>Ele d� um passo em frente, na direc��o da porta, que se abre como que por magia.</p><p>M�sica. Aplausos.</p><p>Do meu lado da cama, a cortina � tamb�m afastada. Est�o ali duas criadas, de olhos baixos, � espera para fazerem o mesmo por mim. Oi�o os zunzuns de conversas vindos da divis�o cont�gua. Um grito:</p><p>� Para Newmarket, Vossa Majestade? Ou j� montastes o suficiente por hoje?</p><p>Os risos erguem-se, masculinos e ruidosos. Entram no quarto, grossos e h�midos. H� um c�ntico, can��es, uma d�zia de vozes �speras a gritarem o refr�o.</p><p>� Um grande viva para o velho Rowley!</p><p>Ponho os p�s no ch�o, r�gida e um pouco dorida. Lady Arlington est� ali, � espera.</p><p>� H� trabalho a fazer � diz ela, simplesmente.</p><p>Tenho de ficar com o meu <emphasis>d�shabill�</emphasis> a manh� toda, em sinal de que estou casada. Escovam-me o cabelo, mas n�o muito. Foi encomendado um retrato de n�s os dois, um presente do embaixador � ou melhor, dois retratos: as conveni�ncias sociais t�m de ser observadas. Eu ficarei com a m�o direita estendida, Carlos com a esquerda, na direc��o da moldura; n�o temos propriamente as m�os dadas mas, quando os quadros forem pendurados lado a lado, o simbolismo ser� evidente. Contudo, o pintor n�o ter� muita sorte em conseguir que o rei pose hoje. Uma hora, no m�ximo, e depois ele partir� para as corridas.</p><p>Lorde Arlington aparece ao meu lado.</p><p>� Est� tudo bem? � pergunta baixinho.</p><p>� Sim.</p><p>� Pe�a-lhe esta manh�. Antes que ele trate de outros assuntos.</p><p>� Como desejar.</p><p>Aproximo-me de Carlos. Ele vira-se para mim com um sorriso e os cortes�os que o rodeiam afastam-se.</p><p>� Lorde Arlington deseja que eu lhe pe�a um favor.</p><p>Ele ergue as sobrancelhas.</p><p>� O momento do pedido tamb�m � por solicita��o dele.</p><p>Carlos acena, reconhecendo que eu compreendi � como Arlington devia ter compreendido � que esta falta de subtileza n�o � apropriada ao esp�rito da ocasi�o.</p><p>� Ele deseja ser lorde Chanceler.</p><p>Carlos parece genuinamente chocado com o tamanho da exig�ncia de Arlington. Depois diz, com ar pensativo:</p><p>� Vejo que me transmite o pedido, Louise, sem me pedir que o conceda.</p><p>Encolho os ombros.</p><p>� O Arlington � um idiota � diz ele, calmamente. � Devia ter-lhe dito para mo pedir ontem. Ontem, eu ter-lhe-ia dado tudo o que quisesse.</p><p>� Eu sei � respondo. � Foi por isso que n�o o pedi ontem.</p><p>Carlos ri-se e alguns dos cortes�os erguem os olhos.</p><p>� Ent�o n�o quer que nomeie um idiota para o cargo mais elevado do pa�s?</p><p>� Nem por isso.</p><p>� Ele � o meu amigo mais antigo.</p><p>� E construiu o mais recente pal�cio do reino �s custas disso � digo, olhando em volta.</p><p>� Se n�o ele, ent�o quem?</p><p>� Para chanceler? O Shaftesbury.</p><p>� O Shaftesbury?!</p><p>� Se um parlamentar descobrir que nem sequer consegue equilibrar as contas, o parlamento n�o ter� outra op��o sen�o aprovar a atribui��o de mais fundos. E ser� dif�cil para Shaftesbury opor-se � guerra se o rei tiver de o encarregar disso. � Al�m do mais, a nomea��o de Shaftesbury irritar� lorde Arlington mais do que qualquer outra coisa em que eu consiga pensar.</p><p>Ele acena.</p><p>� E suponho que estava a pensar nisto, mesmo enquanto est�vamos na cama?</p><p>� Claro que n�o � minto. � Estava demasiado ocupada a pensar em si, meu amor adorado.</p><p>� Bom, vou tratar disso. J�?</p><p>Sorrio para o outro lado da sala, onde os Arlington fingem estar a conversar um com o outro.</p><p>� Oh, penso que podemos manter lorde Arlington na expectativa mais algum tempo, n�o acha? Hoje quero ir �s corridas e conhecer esse garanh�o de que tanto ouvi falar. Afinal de contas, j� tive oportunidade de conhecer bem aquele em honra de quem foi baptizado.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Gelado de framboesas: fa�a um litro de leite-creme; quando arrefecer, junte-lhe um litro de framboesas vermelhas maduras, esmague-as, passe o preparado por um coador, ferva e congele. Mas n�o adoce demasiado: o sabor das framboesas fica ainda melhor se estiver um pouco �cido.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Ela aguentou at� Setembro � um ano completo desde que chegara a Inglaterra. J� ouvi dizer que ela sempre teve inten��o de se deixar seduzir; que os seus escr�pulos eram apenas uma representa��o, a sua timidez um estratagema. Certamente que isso n�o explica que o homem mais determinado da Europa tenha levado doze meses para a deitar na sua cama.</p><p>Endureci o cora��o e tentei n�o pensar no que eles os dois faziam nela.</p><p>As consequ�ncias pol�ticas, contudo, foram imediatas. Encontrou-se um pretexto para a guerra: o pequeno iate real passou pela frota holandesa e n�o foi saudado com todas as solenidades devidas a um grande navio de guerra. Os Holandeses pediram desculpa pela sua falha, mas os Ingleses, apesar disso, anunciaram o in�cio das hostilidades. O governo interrompeu os pagamentos da sua d�vida, para que o dinheiro pudesse ser canalizado para a guerra. E Carlos aprovou pessoalmente uma lei a que chamou a Declara��o de Benevol�ncia. Todos os homens e mulheres passariam a ser livres no seu cora��o. Livres para terem a religi�o que quisessem, livres para pensarem o que quisessem, livres para dizerem o que quisessem.</p><p>Contudo, a julgar pelas consequ�ncias, seria de pensar que ele anunciara que, da� em diante, todos os beb�s ingleses seriam passados a fio de espada e todas as virgens inglesas violadas. O pa�s explodiu. Os aprendizes amotinaram-se e incendiaram os bord�is. As prostitutas marcharam e incendiaram as lojas. Os lojistas entaiparam as suas lojas; os padeiros n�o conseguiam vender o seu p�o; os padres denunciaram nos p�lpitos a licenciosidade do seu pr�prio rei. Dizia-se que o exercito estava prestes a revoltar-se, embora nunca tenha sido claro contra quem, ou porqu�.</p><p>� Mas com certeza que era isto que pretendia � disse eu a Hannah, exasperado. � Est� sempre a falar dos direitos dos Ingleses. Agora Carlos tornou-os lei.</p><p>� N�o percebe? O problema � precisamente esse. Temos esses direitos porque nascemos com eles. N�o est� no poder de Carlos conced�-los ou retir�-los. � Suspirou. � Al�m disso, toda a gente sabe que esta declara��o � suspeita, n�o por causa daquilo que diz, mas daquilo que n�o diz.</p><p>� Como assim?</p><p>� O rei pretende na realidade beneficiar os cat�licos, e n�o os dissidentes, com estas liberdades. Depois, quando a Inglaterra for novamente cat�lica, a Inquisi��o voltar� para torturar os dissidentes.</p><p>Comecei a ver pessoas nas ruas com fitas verdes na lapela. Era um sinal, explicou-me Cassell, de que eram partid�rios de Shaftesbury e dos parlamentares.</p><p>� S�o pouco melhores do que <emphasis>Whigs</emphasis>, alguns deles � disse Cassell, com uma fungadela desdenhosa.</p><p>� <emphasis>Whigs?</emphasis></p><p>� Ciganos. Amadores. � No entanto, parecia preocupado. � N�o via uma situa��o t�o grave como esta desde a Restaura��o � admitiu. � Com a maior parte do ex�rcito fora, em Fran�a, h� pouco que possa impedir uma revolta aqui. Se isso acontecer, o parlamento ficar� quase de certeza do lado da insurrei��o.</p><p>� Qual � a solu��o?</p><p>� Desconfio que o rei ter� de retirar a declara��o. A quest�o �, que mais lhe exigir� o parlamento? Depois de estarem na m� de cima, porque h�o-de ficar apenas pela revoga��o de uma lei pouco popular? � Lan�ou-me um olhar de soslaio. � Tem de tomar precau��es pela sua pr�pria seguran�a, <emphasis>signor</emphasis>. Desconfio que qualquer cat�lico poder� facilmente ser v�tima da popula�a, neste momento.</p><p>Na verdade, eu j� o fizera. As ruas em volta de Whitehall estavam muitas vezes bloqueadas por multid�es descontentes; quase n�o passava um dia em que n�o ouvisse uma ou outra pedra atingir a madeira da minha carruagem e, por mais do que uma vez, tivera de dar meia-volta e voltar para tr�s. Contratei dois criados corpulentos para viajarem do lado de fora, mas eram mais para as apar�ncias do que por uma quest�o de seguran�a. Eu sabia que, num confronto a s�rio, eles dificilmente salvariam a minha vida � custa da sua.</p><p>Seria portanto de pensar que a atmosfera na corte estava tensa. No entanto, passava-se o oposto. Era como se a declara��o tivesse introduzido um novo estado de esp�rito, de prazer e descontrac��o. Agora que finalmente tinha Louise, Carlos andava despreocupado; e, tal como ela sucumbira a ele, assim a corte sucumbia agora a ela. Todas as senhoras da alta sociedade usavam o cabelo <emphasis>au naturel</emphasis>, com risco ao meio; todos os vestidos foram modificados para terem uma racha de lado. Apareceram mais franceses em Londres. Le N�tre veio de Versalhes para remodelar o Parque de St. James e estremeceu ao ver o canal � holandesa. Um alfaiate chamado Sourceau chegou para vestir o rei, monsieur de Pontac estava a cargo dos vinhos, enquanto os vestidos de Louise eram feitos por uma modista chamada Desborde. At� ouvi algumas das damas de companhia mais novas a falarem com um falso sotaque, como se � como Louise � o ingl�s n�o fosse a sua l�ngua m�e. N�o gostavam dela; na verdade, acho que a odiavam e se ressentiam dela em igual medida, mas Louise tinha a protec��o do rei e isso era tudo o que importava.</p><p>E eu estava l�. Movia-me entre eles, distribuindo os meus cordiais e o meu <emphasis>granite</emphasis>, quase como se estivesse de novo em Versalhes. Estava presente nos bailes, nos jogos de cartas, nos jantares e nas representa��es e bailes de m�scaras privados. Estava l� � Deus me ajude � enquanto o rei e a sua nova amante se divertiam: at� estava no apartamento dela quando se deitavam juntos.</p><p>O rei era um homem f�sico: o exerc�cio causava-lhe calor e, quando tinha calor, gostava de pedir algo que o refrescasse. Todos os dias eu fazia, para os amantes, cordiais frescos de sabugueiro, alfazema, borragem ou goivo. Fazia-lhes infus�es doces de hortel�-pimenta e gengibre, derramadas sobre punhados de gelo esmagado. Fazia-lhes gelados de lim�o e alperce, de marmelo e de ma��, de amora silvestre e de baunilha e de figo. Levava-lhes ta�as de limonada feita com lim�es espremidos na hora, ado�ada com mel de dente-de-le�o e refrescada com neve prensada. Levava os meus gelos em travessas de prata at� ao quarto dela, com a sua cama francesa trabalhada; atr�s das cortinas fechadas, at� � pr�pria cama, at� aos len��is revolvidos. Sentia o cheiro dele nela; sentia o cheiro dela nele; servia-os a ambos, com um sorriso insond�vel, e ela agradecia-me com um sorriso igualmente dissimulado.</p><p>S� por uma vez, nessas primeiras semanas, consegui falar a s�s com ela. O rei fora chamado � na maior parte das vezes, recusava-se a ouvir os pedidos de aten��o aos assuntos de Estado dos seus ministros. Contudo, se fossem suficientemente persistentes, l� ia de mau humor ler apressadamente uma pilha de pap�is ou assistir a uma reuni�o do conselho, embora raramente ficasse at� ao fim. Desta vez, deixara a cama dela precisamente quando eu estava a chegar, ainda a tempo de tirar um copo de sumo de p�ssego gelado da bandeja que eu trazia e de lhe dizer por cima do ombro:</p><p>� Venho j� n�o saia da�. � Mal se deu ao trabalho de abotoar as roupas.</p><p>Por um momento, nenhum de n�s falou.</p><p>� Ent�o � disse eu, por fim. � � aquilo que esperava?</p><p>� Isto? � Ela encolheu os ombros. � Isto seria o meu dever de qualquer maneira, quer o fizesse como esposa ou como amante. Pelo menos fa�o-o com algu�m para quem <emphasis>eu</emphasis> n�o sou apenas um dever. Torna mais f�cil fingir.</p><p>� Fingir? Ent�o � s� isso que faz?</p><p>N�o devia ter perguntado � era como tocar numa ferida: n�o conseguimos evitar, apesar de sabermos que n�o � boa ideia.</p><p>� �s vezes sim � disse ela suavemente �, e �s vezes n�o.</p><p>� Mas ama-o, agora?</p><p>� N�o penso nisto como amor ou prazer � respondeu ela. � Sei apenas que estou em posi��o de alcan�ar aquilo que vim fazer a Inglaterra. Ser� amor? Ser� prazer? Seja o que for, estou-lhe grata por isso.</p><p>A minha pr�pria posi��o na corte, claro, subira novamente a par da dela. N�o havia nada mais franc�s do que gelos; logo, n�o havia nada mais na moda. Desde Newmarket, os meus servi�os tinham-se tornado t�o indispens�veis para qualquer grande reuni�o como a presen�a da pr�pria Louise de Keroualle.</p><p>Contudo, havia um prato que eu nunca fornecia. Servia cordiais, <emphasis>granite</emphasis>, sorvetes e at� gelos de leite; mas, a menos que o rei estivesse presente, n�o havia gelado. O gelado, conforme criado por mim pr�prio e pelos <emphasis>virtuosi</emphasis>, era o prato real; a menos que o pr�prio rei o oferecesse a um convidado, mais ningu�m podia com�-lo.</p><p>Houve muitos que tentaram. Perdi a conta ao n�mero de vezes que me pediram para preparar um pouco, �por curiosidade�; a minha resposta era sempre um franzir de sobrolho e a frase:</p><p>� Receio que tal n�o ser� poss�vel.</p><p>Alguns, claro, n�o admitiam ser envergonhados desta forma. Lorde Rochester entrou certa manh� no Red Lion e atirou uma bolsa para cima do balc�o da copa onde eu estava a trabalhar.</p><p>� Quero provar o gelado de framboesa que o rei comeu ontem � noite.</p><p>� Receio que tal n�o ser� poss�vel.</p><p>� Ele disse que foi a melhor coisa que j� provou.</p><p>� � verdade.</p><p>Apontou para a bolsa com um gesto impaciente.</p><p>� Tem a� vinte <emphasis>pistoles</emphasis>. Tire o que quiser.</p><p>Peguei na bolsa e devolvi-lha.</p><p>� J� tenho tudo o que preciso.</p><p>Ele fitou-me. Os seus olhos, posso acrescentar, eram como os olhos de um lagarto, totalmente desprovidos de humanidade, e mesmo �quela hora j� tresandava a vinho.</p><p>� Est� a desafiar-me, signor <emphasis>De hirto</emphasis>? � murmurou.</p><p>Devolvi o olhar, bastante calmo.</p><p>� Parece-me que talvez o senhor esteja a desafiar o rei.</p><p>Passado um momento ele assentiu.</p><p>� Pensa que porque a sua amiga francesa tem a aten��o do rei, pessoas como o senhor est�o protegidas de pessoas como eu. E, de certa forma, � verdade. Mas lembre-se de uma coisa: ela tem a aten��o do rei porque o tem preso pela braguilha. Quando ele se cansar disso, a aten��o tamb�m se acaba. E o que ser� ent�o do pobre signor <emphasis>De hirto</emphasis>?</p><p>Outros eram mais circunspectos. Vi Chiffinch, o intendente, pegar numa ta�a para a passar ao rei. No meio de floreados elaborados, o manuseamento de guardanapos e por a� fora, reparei que quando foi apresentada, momentos depois, a ta�a tinha significativamente menos gelado do que antes, apesar de o rosto de Chiffinch continuar impass�vel.</p><p>A famosa Barbara Villiers, duquesa de Cleveland, anterior amante de Carlos, mandou-me chamar a sua casa � ou melhor, ao seu pal�cio, pois Carlos dera-lhe Nonsuch, uma das melhores resid�ncias reais, como paga pelos seus servi�os. Ostensivamente, a nossa reuni�o era para discutir os cordiais que eu podia fornecer para um baile; mas rapidamente se tornou claro que aquilo que ela realmente queria era gelado e que, em troca, tencionava fornecer-me os mesmos favores de que o rei em tempos gozara. Quando deixei claro que n�o era t�o f�cil de comprar, ela perdeu a cabe�a � nunca tinha visto uma f�ria assim; parecia uma mulher possu�da, arremessando todos os objectos a que conseguiu deitar a m�o, com o belo rosto contorcido de raiva.</p><p>Foi isto � o facto de apenas Carlos e Louise comerem os meus gelados � que me deu uma ideia na qual, provavelmente, nunca devia ter pensado duas vezes.</p><p>Estava a trabalhar na minha copa ao final da tarde, quando n�o havia mais ningu�m por perto. Olhei para a alcova de Hannah e reparei que estava deserta.</p><p>Hesitei, depois dirigi-me � prateleira onde ela guardava os seus livros. Passei o dedo pelas lombadas. <emphasis>O Guia do Cozinheiro: Ou, Raras Receitas de Culin�ria� Medicina, Beleza e Culin�ria� Receitas Excelentes &amp; Aprovadas�</emphasis></p><p><emphasis>O Herb�rio Completo</emphasis>, de Nicholas Culpeper.</p><p>Tirei-o da prateleira e comecei a virar as p�ginas.</p><p>� O que est� a fazer?</p><p>Era Hannah, atr�s de mim.</p><p>� N�o foi com m� inten��o � assegurei-lhe. � Estou apenas � procura de alguma informa��o.</p><p>� Nesse caso, � melhor dizer-me o que precisa. Conhe�o esse livro de cor e n�o � objecto que deva andar por cima das mesas.</p><p>� A medicina de que preciso n�o � para mim. � para� � Hesitei. � Para um dos meus clientes nobres. Ele deseja evitar as paix�es do amor.</p><p>� <emphasis>Evit�-las?</emphasis></p><p>Assenti.</p><p>� Definitivamente. � um homem muito ocupado, com o seu tempo muito requisitado. N�o pretende ser perturbado por pensamentos de natureza libertina.</p><p>� Bom, n�o h� d�vida de que isso � invulgar � disse ela. � A maioria das pessoas pergunta se existe uma erva que consiga precisamente o oposto. Mas sim, por acaso h� v�rias infus�es que t�m o efeito que pretende.</p><p>� Que o meu cliente pretende � corrigi.</p><p>Ela fez um gesto impaciente, como que a dizer que era a mesma coisa, para ela.</p><p>� Presumo que estamos a falar do desejo, e n�o do desempenho?</p><p>� Ambas as coisas, se for poss�vel.</p><p>� Bom, deixe-me ver � disse ela, tirando-me o livro das m�os e folheando as p�ginas. � Sim� a camomila � boa para isso e� e a flor de sabugueiro, quando a lua est� cheia. Mas o tratamento mais eficaz seriam groselhas uva-crespa.</p><p>� Groselhas uva-crespa?</p><p>Ela assentiu e leu em voz alta.</p><p>� <emphasis>Por vezes chamadas groselhas verdes, estas bagas subjugam as paix�es, particularmente as paix�es de V�nus, sob cujo dom�nio se encontram. Uma infus�o das folhas arrefecer� mais ainda o sangue e acalmar� todas as formas de c�lera e imodera��o.</emphasis></p><p>� Tem essas bagas?</p><p>� Posso arranjar-lhe algumas em conserva, em frascos. No entanto, se as vai usar para gelado, � melhor deixar-me mostrar-lhe como fazer uma <emphasis>mousse</emphasis> de groselha verde. � demasiado tentador tentar disfar�ar a acidez das bagas com demasiado a��car e, se o fizer, o gelado nunca solidificar�.</p><p>Estranhei mais uma vez o conhecimento que ela parecia ter destas quest�es e a cautela fez-me hesitar. Com uma leve impaci�ncia, ela disse:</p><p>� Ainda acha mesmo que lhe vou roubar os segredos? Seja como for, ensin�-lo a fazer uma <emphasis>mousse</emphasis> de groselhas verdes � mais o contr�rio.</p><p>Ap�s um instante, acenei com a cabe�a em sinal de concord�ncia.</p><p>� Obrigado.</p><p>E assim ela ensinou-me o m�todo de fazer este simples prato ingl�s: cozeu as frutas em �gua, juntamente com duas cabe�as de flor de sabugueiro; depois esmagou, coou e ado�ou, e finalmente misturou o pur� com leite-creme e um pouco de noz-moscada ralada. Era t�o f�cil e t�o perfeito para um gelado que me espantava que os meus colegas confeiteiros na Europa ainda n�o o tivessem descoberto.</p><p>Como se adivinhasse os meus pensamentos, ela disse:</p><p>� Talvez um dia algu�m consiga congelar uma mistura destas.</p><p>� E destruir o meu meio de subsist�ncia, � isso que quer dizer?</p><p>� Os cozinheiros s�o pagos pelos seus segredos ou pela sua per�cia? N�o h� segredo nenhum para fazer tartes, e no entanto as minhas s�o mais procuradas do que quaisquer outras em Vauxhall. � Disse-o com naturalidade, sem falso orgulho mas tamb�m sem falsa mod�stia.</p><p>� Talvez seja por isso que n�o h� nenhum fazedor de tartes com o alvar� real � resmunguei.</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Talvez. Seja como for, deixo-o. Tenho de acabar o meu outro trabalho. E espero � hesitou �, espero que o seu amigo encontre al�vio dos seus anseios. Se as groselhas verdes n�o resultarem, diga-me, est� bem? H� v�rios outros rem�dios que ele pode tentar.</p><p>Fiz os meus gelados de groselha verde e enviei-os ao rei. Uma semana mais tarde, quando perguntei a Louise se o ardor dele diminu�ra, ela fitou-me com estranheza e perguntou porque queria eu saber. Tentei insinuar que estava apenas preocupado com o facto de as suas obriga��es continuarem a ser t�o desagrad�veis como antes.</p><p>� Bom, ele est� um pouco mais lento � disse ela. � � melhor, na verdade. Agora, �s vezes, preocupa-se realmente com o meu prazer.</p><p>Era um desfecho que eu n�o antecipara e, depois disso, n�o mandei mais groselhas verdes ao rei.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>� preciso saber lidar com ele, e estou a aprender a faz�-lo. Os neg�cios entediam-no � o processo do governo, o alinhamento cuidadoso de interesses, a busca de consenso. � um homem de golpes temer�rios, de decis�es s�bitas. Nesse aspecto, complementamo-nos um ao outro.</p><p>Odeia problemas. Deixa para outros a procura de solu��es � ou seja, para mim. <emphasis>Louise, porque � que mais ningu�m se lembrou disso?</emphasis> A isto, a resposta honesta, se eu fosse suficientemente tola para a dar, seria: <emphasis>Porque n�o lhes deu oportunidade.</emphasis></p><p>E depois, se o problema era realmente grande, h� um presente: um colar, por exemplo, ou uma pe�a de prata. Contratei um intendente, Hawton, para as vender discretamente.</p><p>As minhas despesas s�o enormes. Pois o rei, apercebi-me entretanto, n�o me quer apenas como amante. Nem sou bem uma rainha. Sou antes uma esp�cie de princesa, como Minette era � pr�diga, culta, encantadora, com os meus aposentos sempre cheios de arte e divers�o e boa comida francesa. Ele encoraja-me a encomendar tape�arias Gobelins, ta�as de vidro, sedas parisienses, perfumes de Grasse e vinhos de Champagne.</p><p>Os meus aposentos s�o a corte com a qual ele sempre sonhou. Quando est� comigo, � o rei que sempre quis ser � quer isto dizer que n�o � Carlos de Inglaterra, mas sim Lu�s de Fran�a, todo-poderoso no seu reino. J� n�o � rei por condi��o e consentimento do parlamento: � <emphasis>Carolus Rex</emphasis>, absoluto e arbitr�rio, o imperador de Inglaterra.</p><p>Esta � a mascarada final: poder fingir que as coisas n�o s�o como s�o. Penso que explica o seu amor pelo teatro: ele pr�prio � uma esp�cie de actor e, como actores que com ele contracenam, a nossa tarefa � simplesmente manter a pe�a em cena. O rei n�o quer as suas ilus�es perturbadas pela realidade inconveniente.</p><p>Contudo, � am�vel quando terceiros me tratam mal. Num baile, dou por mim junto de duas mulheres mais ou menos da minha idade. Uma delas � lady Sedburgh; a outra, Caroline de Vere. S�o inteligentes, est�o � vontade com os costumes da corte mas n�o fascinadas por eles, falam quatro l�nguas, tocam, dan�am e escrevem. Em suma, s�o precisamente o tipo de mulheres que eu poderia gostar de ter como amigas.</p><p>Quando dou um passo na direc��o delas, viram-se, fingindo estar imersas em conversa��o. Paro e depois continuo, como se estivesse apenas de passagem.</p><p>E penso: em tempos, eu teria feito o mesmo que elas.</p><p>Carlos pergunta-me porque estou distra�da. Como uma tola, digo-lhe: ele manda imediatamente chamar as duas mulheres � sua presen�a.</p><p>� Decidi que se juntar�o ao s�quito de madame Carwell � diz-lhes peremptoriamente. � De hoje em diante, estar�o entre as suas damas de companhia.</p><p>Vejo o desd�m nos rostos delas e penso: <emphasis>N�o � a melhor maneira.</emphasis> Sorrio de forma aprovadora, mas tenho o cora��o apertado.</p><p>� T�m alguma objec��o? � troa ele.</p><p>Docilmente, ambas abanam a cabe�a.</p><p>� Aquelas com quem me deito s�o companhia adequada para os maiores deste pa�s � diz ele, mal-humorado. � Podem ir.</p><p>Em resultado, claro, sou ainda mais odiada. N�o ajuda nada o facto de Arlington andar a chamar-me abertamente uma cabra ingrata. Ingrata! Lady Arlington passeia-se pela corte com um colar de diamantes que, ao que dizem, vale seis mil libras. Quando o elogio, diz simplesmente:</p><p>� Oh, foi um presente do seu rei, por a ter enfiado na cama de Carlos.</p><p>Sorrio com do�ura e digo:</p><p>� Nesse caso, tenho de lhe dar tamb�m um presente, Elizabeth, pois n�o imagino maior felicidade do que a que sinto. � N�o lhe darei nada, claro. Um colar de diamantes � recompensa mais do que suficiente pelo trabalho de dona de bordel.</p><p>E depois, rapidamente, tudo muda outra vez.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Gelado queimado: derreta o a��car numa frigideira sobre o lume at� queimar levemente: entretanto, prepare uma mistura de seis ovos, um decilitro e meio de xarope e meio litro de natas. Mexa tudo, passe por um coador e congele.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�Gr�vida? Tem a certeza?</p><p>Ela acenou com ar infeliz.</p><p>� J� vomitei duas vezes hoje.</p><p>� E isto vai alterar as coisas?</p><p>� Para mim? N�o sei. O embaixador parece achar que � uma boa not�cia.</p><p>� Mas a Louise n�o tem tanta certeza?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� O rei j� teve outros filhos bastardos: parece haver dezenas de crian�as a correr por aqui. Suspeito que pode significar que a minha posi��o ficar� consolidada e, portanto, mais dif�cil de mudar.</p><p>Percebi o que ela queria dizer.</p><p>� Ainda tem esperan�a de que ele a fa�a sua rainha.</p><p>� Se a Catarina morrer, sim. Porque n�o? � a �nica sa�da que me resta neste momento� a �nica maneira de a minha posi��o se tornar honrada. Mas acho que nem os Ingleses gostariam de ver uma francesa gr�vida e gorda a percorrer a coxia para casar com o seu rei.</p><p>� O que disse Carlos do beb�?</p><p>� Oh, ele est� encantado. Mais ainda, julgo eu, por provar a sua pot�ncia do que por querer realmente outro filho. � Hesitou. � H� mais uma coisa. Assim que lhe contei, o interesse dele por mim diminuiu.</p><p>� Acha que ele ficou aborrecido?</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>� Ainda me visita� mas para se sentar comigo, ou passear, ou conversar. Ningu�m diria que algo est� diferente pela atitude dele� continua atencioso como sempre� mas quando nos deitamos, s� me cobre uma vez. � Reparei no tom pr�tico com que ela o dizia: j� n�o havia rubores. As suas c�pulas eram quest�es pol�ticas e de estrat�gia, para serem analisadas da mesma maneira que qualquer outro assunto da corte. � � quase como se, agora que j� me emprenhou, sinta que cumpriu o seu dever, como qualquer marido que planta um herdeiro na esposa.</p><p>� Talvez seja isso. E � normal que o desejo de um homem acalme depois da lua-de-mel. � Talvez, pensei, as groselhas verdes de Culpeper tenham tido tamb�m algum efeito, afinal. � De qualquer forma, ele ter� de se abster completamente assim que a sua barriga crescer. Depois de um per�odo de abstin�ncia for�ada, voltar� para si ainda com mais vigor.</p><p>� Se estiver mesmo em abstin�ncia � disse ela secamente.</p><p>� Pensa que ele tem outras mulheres?</p><p>� Tenho a certeza � respondeu calmamente. � E n�o me impor�to nada, se reduzir as suas exig�ncias para comigo. Mas isto � diferente. N�o � apenas o Will Chinffinch a fazer entrar uma criadita qualquer pela escada das traseiras. Ele n�o tem jantado comigo.</p><p>� Est� com a rainha?</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>� Quando vai ter com ela, f�-lo publicamente, para que todos vejam. Temo que o Arlington tenha encontrado algu�m por quem tenciona substituir-me.</p><p>Cassell foi ainda mais directo.</p><p>� O rei cansou-se dela � disse, com franqueza. � N�o me admirava nada que a mandasse para Fran�a, para ter o seu bastardo l�.</p><p>� Ent�o quem � agora a sua preferida?</p><p>� Consta que voltou para a actriz.</p><p>� A actriz! Porqu� ela?</p><p>� Volta sempre para ela. A Nell diverte-o. Sua Majestade n�o � um homem de const�ncia.</p><p>� Nesse caso, ainda pode voltar para a Louise.</p><p>� Suponho que � poss�vel. Mas n�o as deixe lutar por ele. N�o h� nada de que o rei goste mais do que sossego, e j� tivemos mulheres a lutarem por ele antes.</p><p>� A Louise n�o se rebaixar� a esse ponto. Muito menos por causa de uma actriz.</p><p>� Oh, ela ter� certamente de lutar � disse Cassell. � Queria apenas dizer que tem de o fazer discretamente. A actriz j� se livrou de outras rivais e a sua madame Carwell faria bem em n�o a subestimar.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>No Parque de St. James, aproximo-me de um grupo de cortes�os, pensando que o rei est� entre eles, mas em vez disso encontro a actriz a andar de um lado para o outro, com o nariz empinado, a falar numa algaraviada com sotaque franc�s e a chamar-se a si pr�pria �Madame Zarolhabela�. Alguns dos que a rodeiam conseguem parar de rir quando eu me aproximo, mas a actriz vira-se para mim sem qualquer atrapalha��o.</p><p>� <emphasis>Oui? Bonjour?</emphasis> � diz. Mais risos. Reparo que ela tem a cabe�a inclinada para o lado, com um olho semicerrado, como se estivesse a espreitar por um telesc�pio. A tro�ar do meu olho pregui�oso.</p><p>� Estava � procura do rei � digo, calmamente. � Mas vejo que n�o est� aqui. Vou procurar noutro lado.</p><p>� Oh, Sua Majestade est� muito bem � diz ela, agora com a sua voz normal. � Na verdade, nunca o tinha visto em melhor forma do que como esteve comigo ontem � noite.</p><p>� Obrigada � agrade�o, em tom gelado. Quando me afasto, oi�o-os aplaudir a representa��o dela.</p><p>� <emphasis>Merci, merci</emphasis> � diz ela, com uma rever�ncia delicada. � Mas madame Zarolhabela prefere j�ias a aplausos.</p><p>*</p><p>Parece espantoso que ela tenha permiss�o para frequentar a corte, tendo em conta a sua grosseria. No entanto, ele instalou-a numa casa ao fundo de St. James, com um port�o que liga o jardim dela ao parque.</p><p>Lembro-me daquelas damas de companhia. Teria sido a repreens�o de Carlos para elas tamb�m um aviso codificado para mim? <emphasis>Aquelas com quem me deito s�o companhia adequada para os maiores deste pa�s.</emphasis> Terei de aceitar n�o s� partilhar a sua predilec��o, como que esse facto me seja esfregado na cara?</p><p>S� me resta um caminho poss�vel: ignor�-la e esperar que isto passe depois da minha gravidez.</p><p>Parece que � mais uma das situa��es em que tenho de me comportar como uma rainha.</p><p>Entretanto, � preciso lidar com Jemmy Monmouth, o primeiro bastardo do rei. Ele voltou do seu curto � demasiado curto � ex�lio e anda � procura de sarilhos.</p><p>Visita o rei quando ele est� comigo e pergunta, abruptamente, se podem falar a s�s.</p><p>� Jemmy � protesta Carlos �, n�o tenho segredos para a Louise.</p><p>� Ainda assim, deixo-vos a s�s � digo, graciosamente. E, para o espica�ar um pouco mais, acrescento: � Talvez nos voltemos a ver daqui a pouco, Carlos?</p><p>� Muito pouco, espero eu.</p><p>O olhar furioso de Monmouth segue-me enquanto saio da sala.</p><p>Claro que, depois, Carlos me conta o que ele queria. Agora que o ex�rcito est� em batalha, Monmouth quer que o rei o coloque no comando.</p><p>� Tentei dissuadi-lo � diz Carlos. � Mas, como todos os jovens, ele quer provar o seu valor no meio dos perigos da batalha.</p><p>Mais provavelmente, penso, quer provar que � digno da Coroa. Em voz alta, digo:</p><p>� Suponho que, do ponto de vista dele, � justo. Afinal de contas, o seu irm�o tem o comando da marinha. Porque n�o havia o seu filho de comandar o ex�rcito?</p><p>Uma sombra passa pelo rosto de Carlos.</p><p>� � muito diferente. O meu irm�o � filho leg�timo de um rei, e meu herdeiro.</p><p>� Pensa que, se o Jemmy comandasse o ex�rcito, isso transmitiria a impress�o errada? � pergunto, com ar pensativo. � Sim, n�o tinha pensado nisso.</p><p>� Eu tamb�m n�o, at� termos esta conversa. Mas agora estou decidido� ele n�o deve ir.</p><p>Isto � bom � mas pode ser ainda melhor.</p><p>� Talvez haja um meio-termo � sugiro. � Deixe-o ir combater para a Holanda, mas apenas com um cargo honor�rio. Assim pode provar a sua coragem sem que o rei sugira de qualquer forma que ele � mais do que apenas um s�bdito leal. Penso que seria um acto de bondade, deix�-lo redimir-se das coisas terr�veis que fez o ano passado.</p><p>� Louise, � muito boa para ele.</p><p>� Se sou boa para ele, � apenas porque sei como ele � importante para si � digo, com um sorriso.</p><p><emphasis>Os perigos da batalha.</emphasis> Gosto do som dessas palavras: um s�tio mais do que satisfat�rio para o bastardo mais velho do rei.</p><p>Buckingham tamb�m est� a candidatar-se ao cargo.</p><p>� Estou inclinado a fazer-lhe a vontade � diz Carlos com ar pensativo. � Apesar de isso tirar o Jemmy da corrida.</p><p>N�o esqueci o insulto que Buckingham me fez em Dieppe. <emphasis>Foi enviada para o seduzir.</emphasis> Na verdade, ele estava certo, mas a presun��o de que podia enfiar-me na sua pr�pria cama ainda me fere.</p><p>� O Buckingham? E ele � de confian�a?</p><p>� O George � imprudente, sim, e um pouco presun�oso, mas essas s�o qualidades �teis num soldado. Sim, penso que o cargo deve ser dele.</p><p>Fala como se a decis�o j� estivesse tomada. Penso rapidamente.</p><p>� Ele � protestante, n�o �?</p><p>� Sim. � Carlos encolhe os ombros. � Tal como eu.</p><p>� Por enquanto � observo. � Mas um protestante a liderar o ex�rcito contra os Holandeses� Lu�s n�o ver� isso como um sinal de que pretende adiar a sua convers�o?</p><p>� N�o � essa a minha inten��o. � Carlos parece inquieto. � sempre vago quando falamos sobre a altura exacta da sua convers�o. J� escreveu a Lu�s, sugerindo que pretende primeiro discutir com o papa certas quest�es que a convers�o pode levantar. Infelizmente, o papa encontra-se demasiado doente para poder viajar, neste momento.</p><p>� Se o Buckingham deixar Inglaterra, metade das senhoras da corte ficar�o de cora��o partido � digo, em tom de provoca��o. � Principalmente a pobre lady Shrewsbury.</p><p>A paixoneta desta dama por ele � lend�ria, apesar do facto � ou talvez por causa dele � de Buckingham ter matado o seu marido num duelo.</p><p>Carlos parece aliviado.</p><p>� Muito bem. Dir-lhe-ei que as damas de Inglaterra n�o podem ficar sem ele.</p><p>Buckingham fica furioso e chega ao ponto de acusar o rei, � minha frente, de se deixar influenciar por mim: o rei, igualmente furioso, diz-lhe que a decis�o � apenas dele.</p><p>� assim que as coisas funcionam, estou a descobrir: n�o podemos dizer a um homem o que deve pensar, mas apenas aquilo que ele pr�prio est� a pensar. Nove em cada dez vezes, ele percebe que est� de acordo.</p><p>Ent�o, se consigo lidar com Monmouth, Buckingham e Arlington, porque n�o Nell Gwynne? Ela afirma nunca ter lido um livro, muito menos uma pe�a � para decorar as suas falas, algu�m lhas l� em voz alta; a sua voz � estridente e vulgar, embora, quando quer imitar uma da grandes damas da corte, consiga ser extraordinariamente fiel. Quando a oi�o falar com a voz de Elizabeth Arlington � �N�o, Bennet, temos absolutamente de construir outra casa antes do Natal, caso contr�rio teremos de ficar no mesmo pal�cio dois meses seguidos!� � h� algo nos maneirismos, no sentido de oportunidade, que � ao mesmo tempo Elizabeth e, contudo, de alguma forma, ainda mais engra�ado do que Elizabeth. Suponho que a imita��o que faz de mim � igualmente fiel: embora eu n�o consiga v�-lo.</p><p>No entanto, se ela consegue falar como uma senhora quando quer, por que diabo n�o o faz sempre?</p><p>H� muitos meses que n�o choro. Nem por ela, nem por mim. Mas agora, com a chegada do beb� iminente, choro.</p><p>A minha honra � uma coisa invis�vel e, al�m disso, �s vezes � poss�vel esquecer que fui desonrada. Mas um beb� � uma crian�a � � algo tang�vel. Ser� ele conhecido para sempre como o bastardo de uma amante? Ou ser� o filho da rainha de Inglaterra?</p><p>O embaixador visita-me e, na minha confus�o, choro por causa de Carlos. O idiota afectado entende imediatamente que deve dar-me uma repreens�o.</p><p>� N�o � correcto � opina Colbert �, especular sobre a sa�de de Sua Alteza. Particularmente porque h� boas not�cias a esse respeito. Parece que o seu m�dico ter� sido precipitado. O doutor Frazer pensa agora que, afinal, n�o � de t�sica que ela sofre, ma sim de um excesso de susceptibilidade ao prazer.</p><p>N�o acredito no que oi�o.</p><p>� Um excesso de susceptibilidade?</p><p>Ele acena.</p><p>� Como deve saber, o rei � aben�oado com os meios para proporcionar �s senhoras uma satisfa��o excepcional. Parece que a rainha sofria de tais paroxismos de felicidade quando o rei se deitava com ela, que sangrava. Agora que se viu aliviada da necessidade de copular com ele, a sua sa�de melhorou muito.</p><p>� Mas tinha-me dito�</p><p>� A medicina n�o � uma ci�ncia exacta. Felizmente, neste caso.</p><p>� Ent�o ela n�o vai morrer � digo, entorpecida. � A rainha n�o vai morrer.</p><p>� Todos vamos morrer � diz ele, piedosamente. � Mas a rainha pode, ao que parece, gozar ainda de muitos anos de boa sa�de.</p><p>� Mentiram-me. O senhor e o Arlington mentiram-me. Disseram-me que ela morreria.</p><p>Ele franze a testa.</p><p>� Penso que lhe disse na altura que isso era irrelevante, j� que a senhora n�o � de forma alguma feita do mesmo pano de que s�o feitas as rainhas. O que quero dizer � que n�o lhe compete continuar a especular�</p><p>� N�o me compete? N�o me compete? � As minhas l�grimas d�o lugar � raiva. � H� anos que o senhor faz pouco mais sen�o especular sobre esses assuntos. N�o se atreva a dizer-me o que me compete ou n�o. Os membros da minha fam�lia j� eram cortes�os quando os seus ainda andavam a lavrar os campos, como animais. � Um pouco injusto, talvez, mas quero apenas mago�-lo.</p><p>� Deixo-a, senhora � diz ele com uma v�nia r�gida. � Vejo que est� perturbada e � bem sabido que as senhoras no seu estado precisam de manter a calma, pelo bem da crian�a. A prop�sito, Sua Majestade Crist� autorizou-me a transmitir as suas congratula��es pessoais por esta ocasi�o t�o afortunada.</p><p>Colbert. Estou mais determinada do que nunca a fazer com que seja demitido, mas ainda n�o: um inimigo de cada vez.</p><p>Tento uma abordagem diferente: fazer amizade com ela. O rei est� ausente, a inspeccionar a frota em Portsmouth, pelo que a corte est� sossegada. Enquanto passeio pelo parque com as outras senhoras, vejo que Nell traz um vestido novo.</p><p>� Que vestido t�o bonito, Miss Gwynne � digo, em tom agrad�vel.</p><p>N�o � verdade, claro: ela n�o tem qualquer gosto ou conten��o. N�o � capaz de ver uma fita cara ou um fio de prata sem que, como uma gralha, tenha de os usar aos metros.</p><p>Ela devolve o sorriso.</p><p>� Suficientemente bonito para uma dama, � o que quer dizer?</p><p>� Estava a perguntar-me quem seria a sua modista. Tem de me dar o nome dela.</p><p>� Porqu�? A senhora j� anda suficientemente bem arranjada para uma meretriz.</p><p>Mesmo na corte inglesa, s�o palavras fortes; oi�o algumas exclama��es abafadas, mas as damas que nos rodeiam parecem petrificadas. Nell olha em volta.</p><p>� Se ela � uma senhora de t�o alta sociedade, porque se rebaixa ao ponto de ser uma meretriz? � pergunta, despreocupadamente. � Devia morrer de vergonha. Quanto a mim, � a minha profiss�o; n�o finjo ser melhor do que aquilo que sou. E, mesmo assim, o rei ama-me tanto como a ela.</p><p>Sinto-me um pouco tonta, mas consigo dizer:</p><p>� E que belos sapatos. Acho que os vossos sapateiros ingleses s�o os melhores da Europa.</p><p>Fico com esta pequena vit�ria: o que quer que ela diga, independentemente daquilo que eu sou agora, n�o conseguir� provocar-me ao ponto de discutir com ela, como se fosse uma peixeira vulgar. � essa a minha honra, a minha educa��o, nos dias que correm. Enquanto tiver as minhas maneiras, n�o sou o que ela �.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para aromatizar leite-creme com baunilha, pegue na vagem de baunilha e raspe as sementes, adicionando-as depois ao leite-creme.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O orgulho de Inglaterra navegou com a sua frota, sob o coman�do do duque de Iorque, uma armada de sessenta navios e vinte mil homens. O plano era que se juntassem � frota francesa em Solebay, Suffolk, para, juntos, bloquearem os portos holandeses.</p><p>No entanto, os Holandeses, apesar de a sua marinha ser muito inferior, fizeram uma ofensiva. Enquanto a armada aliada ainda estava ancorada, os Holandeses apareceram no horizonte com o vento por tr�s. Os aliados separaram-se de imediato em dois, os navios franceses virando as velas e navegando para sul. Os Ingleses, entretanto, n�o tiveram alternativa a n�o ser ficar e lutar. Mais de mil canh�es pulverizaram-se uns aos outros durante quase um dia inteiro antes de os Holandeses recuarem.</p><p>Foi posto a circular que a aus�ncia dos Franceses da batalha fora apenas um simples erro, devido a sinaliza��o deficiente, mas a maioria dos ingleses preferia uma explica��o diferente: a Fran�a quisera que a Inglaterra apanhasse com o pior do embate. Era o que sempre tinham temido. A Inglaterra estava a ser atra�da para esta guerra com a inten��o deliberada de enfraquecer o pa�s, de preparar o caminho para uma invas�o cat�lica.</p><p>Os recrutadores percorriam agora as ruas, alistando � for�a para a marinha todos os jovens saud�veis que encontravam. Os impostos foram aumentados e a ordem s� era mantida gra�as a um acentuado aumento de flagela��es e enforcamentos p�blicos.</p><p>Eu fiz um gelado de espargos de Primavera, acondicionado num molde em forma de espargo, feito de modo a que uma ponta de cada talo fosse branca e a outra verde, como o legume verdadeiro. Carlos, que adorava tudo o que n�o era aquilo que parecia, declarou-o o melhor gelo que eu j� servira. Gostava de o servir aos seus convidados, para ver o espanto deles.</p><p>Louise, gr�vida, chamou-me com outro objectivo em mente.</p><p>� Pode fazer-me alguma coisa? Ando com desejos de pepinos doces e gelado cremoso.</p><p>Suspirei.</p><p>� � bem sabido que as mulheres, durante a gravidez, comem alimentos estranhos. Verei o que posso fazer.</p><p>Fiz-lhe um gelado de leite-creme fresco e cremoso, aromatizado com sementes de baunilha; a baunilha serviria para contrabalan�ar pelo menos a acidez dos pepinos. Mesmo assim, ela n�o ficou satisfeita.</p><p>� Quer deixar-me gorda � queixou-se, enquanto comia. � Gorda e deformada.</p><p>� � o beb� que est� a fazer isso. Perder� a gordura depois de ele nascer.</p><p>� Nenhum homem em Londres olhar� para mim, muito menos o rei. Pare�o uma porca prenha. Ele come�ou a chamar-me �Bucha�.</p><p>� Bucha?</p><p>� Ou �Buchinha�. Pelos vistos, tenho as bochechas gordas.</p><p>� Nesse caso, parece que a gravidez n�o diminuiu o afecto que ele sente por si.</p><p>� Belisca-me as bochechas, admira a minha barriga e depois desaparece e vai passar a noite com a actriz. O afecto n�o me serve de nada. O afecto n�o compensa a perf�dia da frota francesa. N�o preciso de afecto. Preciso de <emphasis>desejo</emphasis>. Preciso de <emphasis>paix�o</emphasis>.</p><p>� Pelo contr�rio. Qualquer homem pode estar apaixonado; se existe tamb�m afecto, isso sugere que os sentimentos ser�o duradouros. Tenha paci�ncia. Quando o beb� nascer, ele voltar� rapidamente para a sua cama.</p><p>Noutra ocasi�o ela disse:</p><p>� Tenho sido demasiado ing�nua. Se quero mant�-lo no futuro, tenho de aprender alguns truques.</p><p>� Truques? � perguntei, apesar de saber exactamente ao que ela se referia.</p><p>� Antes, confiei na minha inoc�ncia, como me sugeriu. Mas agora j� n�o posso ser inocente, tenho de ser astuta.</p><p>� E como tenciona aprender esses truques?</p><p>� O Carlo tem de me ensinar, claro. � Viu a minha express�o. � N�o <emphasis>assim</emphasis>. Tem de me explicar: onde devo ir, como devo deitar-me, o que devo dizer. J� sei o b�sico, ser� mais f�cil compreender o que est� a dizer.</p><p>Eu n�o podia recusar-lhe nada. Assim, subimos para a cama dela, com a porta fechada e o ferrolho corrido para nos protegermos de espi�es entre as suas damas de companhia, e ela ensaiou com esfor�o as v�rias posturas do amor, de acordo com as minhas instru��es. Est�vamos ambos completamente vestidos: ela estava pesa�da e gr�vida; naturalmente, n�o havia uma �nica centelha de paix�o na ocasi�o ou na atitude dela, at� que, por fim, eu n�o consegui deixar de acrescentar:</p><p>� Claro que, com ele, ter� de ser tamb�m afectuosa.</p><p>� Afectuosa?</p><p>� Sabe� ardente. Sorrisos. Palavras de carinho murmuradas.</p><p>� Isso tamb�m? � Ela parecia perplexa. � N�o basta fazer tudo isto? Tenho de fingir que estou a gostar?</p><p>� Claro. O seu ardor � o maior elogio que pode fazer-lhe. � Tirei um pepino da travessa. � Imagine que isto � o rei. � Mergulhei-o no prato de gelado. � Imagine que ele est� coberto do sabor que mais deseja� pense que o deseja mais do que qualquer outro alimento que desejou em toda a sua gravidez. � Passei-lhe o pepino. � Experimente.</p><p>Ela assim fez: deitou a l�ngua de fora e lambeu em volta da ponta do pepino, olhou para mim para ver se estava a fazer bem e, por um momento, os seus olhos verdes encheram-se de uma tal lux�ria inconfund�vel que eu n�o consegui respirar.</p><p>Depois, com a boca ainda cheia de gelado, desatou a rir. Encostou as costas da m�o � boca enquanto engolia. Quando conseguiu falar, disse:</p><p>� Portanto, a julgar pela sua cara, aquela era uma express�o adequada de desejo avassalador?</p><p>� Sim � respondi, com voz rouca. � Em que estava a pensar?</p><p>� Estava a pensar no gelado, que em breve desapareceria todo. E depois senti-me um bocadinho s�ria, revirei-o na boca e desapareceu <emphasis>mesmo</emphasis>.</p><p>� Fa�a isso � aconselhei, com um suspiro. � Fa�a precisamente isso e ele pensar� que o adora.</p><p>No Lion, chamei Hannah ao meu quarto.</p><p>� Suponho que sabe alguns truques? � perguntei, secamente.</p><p>� Truques?</p><p>� Adornos. Extras. Como fazem em Fran�a.</p><p>� Sei fazer um fricass�, se � a isso que se refere.</p><p>� Sabe muito bem que n�o �.</p><p>� Sim, sei. Mas queria ver se conseguia faz�-lo sorrir � disse ela, misteriosamente.</p><p>� Pago-lhe mais � resmunguei.</p><p>� � muito generoso, mas receio n�o poder ajud�-lo. Se quer truques franceses, ter� de encontrar uma francesa. � Hesitou. � Talvez j� a tenha encontrado.</p><p>Olhei para ela.</p><p>� O que quer dizer?</p><p>� Apenas que o que anda a fazer na corte, seja l� o que for, n�o parece deix�-lo muito feliz.</p><p>� N�o � nada da sua conta.</p><p>� Claro que n�o � disse ela, com express�o ileg�vel. � Nesse caso, � apenas o habitual, presumo?</p><p>� Sim. O habitual.</p><p>O habitual, levado a cabo no sil�ncio habitual. O tilintar de moedas habitual. As habituais l�grimas nas minhas faces, antes do esquecimento breve do sono.</p><p>Quando acordei descobri, para minha surpresa, que passava das tr�s horas. Aproximei-me da janela e fiquei ali sentado muito tempo, no parapeito, a olhar para as pessoas que tratavam da sua vida na rua l� em baixo.</p><p>Depois vi Hannah, a sair do p�tio da estalagem. Provavelmente n�o teria reparado nela � trazia uma capa escura, com capuz puxado sobre o cabelo � mas quando se virou para olhar para um lado e para o outro apanhei um vislumbre n�tido do seu perfil.</p><p>Na m�o, bem apertada, levava uma bolsa.</p><p>Alguma coisa, n�o sei dizer o qu�, despertou a minha curiosidade quanto ao que ela iria fazer. Enfiei um casaco e desci as escadas a correr. Tinha visto a direc��o que ela tomara e n�o tive dificuldade em apanh�-la, at� estar a caminhar dez passos atr�s dela.</p><p>Reparei na quantidade de pessoas que a cumprimentavam ao passar por ela, n�o de forma efusiva mas com um aceno ou um pequeno gesto de reconhecimento. E depois havia algumas que paravam e lhe apertavam a m�o.</p><p>Lembrei-me das palavras de Cassell. <emphasis>Recusam-se a curvar-se perante qualquer homem, uma vez que dizem que todos fomos criados iguais.</emphasis></p><p>Contudo, era evidente que Hannah estava com pressa e n�o se demorou muito a trocar palavras de circunst�ncia. Cerca de cinco minutos depois, virou para uma viela de pequenas lojas que vendiam livros e mapas. Ao fundo, entrou numa das mais pequenas. Parecia que seria esse estabelecimento o destino da sua viagem, pois demorou v�rios minutos a sair. Esperei at� ela ter virado a esquina e entrei na loja.</p><p>Era ainda mais pequena do que parecia do exterior. Quase todas as superf�cies estavam cobertas por livros. No entanto, no balc�o, desenrolado como se tivesse sido recentemente ali colocado, estava um mapa. Inclinei-me para o examinar. No cimo havia uma inscri��o.</p><p><emphasis>Um Mapa do Mundo Novo e Exacto. Desenhado segundo as descri��es mais fi�is, as �ltimas descobertas e as melhores observa��es feitas at� � data por ingleses ou estrangeiros.</emphasis></p><p>� � aquele de que andam todos � procura � disse o lojista, quando me viu a olhar. � � baseado nas projec��es do pr�prio John Speed. Veja, at� mostra a ilha.</p><p>� A ilha?</p><p>� Da Calif�rnia. � Apontou. � E aqui� se Sir William Penn conseguir o que quer, tudo isto ser� Nova Gales.</p><p>Olhei para o mapa, � procura de alguma pista sobre o motivo do poss�vel interesse de Hannah.</p><p>� Tem passagem marcada? � perguntou o livreiro. � Bom, quando estiver pronto para a comprar, venha ter comigo. Fazemos facilidades. Um sinal, e depois um pequeno pagamento todos os meses. O barco pertence ao meu cunhado; � o melhor de Bristol�</p><p>De s�bito, percebi o que estava a acontecer.</p><p>� A mulher que esteve aqui h� pouco, veio comprar um bilhete?</p><p>Ele abanou a cabe�a.</p><p>� J� comprou o dela h� um ano. Devia ter partido em Maio, mas atrasou-se nos pagamentos. Agora j� s� lhe faltam seis e� � Parou, subitamente consciente de que o meu interesse podia ser mais do que o de um cliente qualquer. � Est� � procura de alguma coisa em particular? � perguntou, enrolando o mapa com a delicadeza fria que � t�o natural aos Ingleses.</p><p>Ent�o Hannah ia emigrar para a Am�rica. N�o devia ter ficado surpreendido: era onde acabavam todos os descontentes e her�ticos. E tamb�m n�o era nada da minha conta se ela estava a pagar o bilhete prostituindo-se.</p><p>Apesar disso, fiquei inquieto. Agora que sabia para que precisava Hannah do dinheiro, sentia-me algo envergonhado do que ela tinha de fazer para o conseguir. E � para minha surpresa � descobri que estava tamb�m com alguma inveja dela: n�o do que tinha feito, mas de ter podido faz�-lo; de ter conseguido ver uma oportunidade e aproveit�-la, em vez de estar sempre �s ordens de ministros e reis.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Parece que Londres inteira fala da minha rivalidade com Nell. E n�o s� Londres: o embaixador deixa escapar que tamb�m em Paris observam, na expectativa.</p><p>Os homens podem travar duelos com espadas, ou raquetas de t�nis, ou competir por honrarias no campo de batalha. Mas eu tenho de combater com Nell apenas com sorrisos e palavras.</p><p>Infelizmente, as palavras s�o o forte dela. Mesmo na minha l�ngua m�e, n�o possuo o seu esp�rito vivaz. A �ltima hist�ria que se conta diz que ela descobriu que a sua casa em Pall Mal, que lhe foi oferecida por Carlos, estava apenas arrendada e que o arrendamento n�o era de mais que vinte anos. A implica��o � �bvia: enquanto o rei partilhar a sua cama, ela ser� mantida com esplendor, mas quando o caso terminar voltar� para a sarjeta. Por algum motivo, as pessoas de Londres adoptaram esta causa como sua e a Quest�o da Propriedade de Nell tem sido esmiu�ada em todos os jornais e peri�dicos de esc�ndalos.</p><p>Nell, diz-se, informou o rei de que se entregou a ele isenta de encargos e n�o por aluguer, e espera a mesma cortesia em troca. Ao que parece, Carlos achou tanta gra�a a isto que cedeu. Para celebrar, ela vai mandar construir uma <emphasis>salle des miroirs</emphasis> no seu quarto, bem como uma cama de prata trabalhada, com bustos esculpidos do rei e dela, e as iniciais de ambos entrela�adas! Com certeza que Carlos, cujo bom gosto � inatac�vel, se encolher� de horror perante tal exibi��o de mau gosto?</p><p>Digo-lhe que vou reconstruir os meus aposentos para se assemelharem mais aos de Minette em Versalhes. Claro que ele concorda. Mais tape�arias, mais carpetes, mais pratas, mas tudo da melhor qualidade � ou seja, franc�s. Quando ele finalmente tiver de escolher, as suas op��es t�m de ser bem claras: exibicionismo ou educa��o, grosseria ou requinte.</p><p>Parece que Nell encontrou o seu lacaio a lutar na rua: quando lhe perguntou porqu�, ele disse que estava a lutar com um homem que lhe chamara puta.</p><p>� Nesse caso, tem de encontrar outro motivo � disse ela. � Pois � o que eu sou.</p><p>Como � que posso combater algu�m que n�o se envergonha daquilo que �?</p><p>Se ela tem uma fraqueza, � a de n�o ver a diferen�a entre n�s. Para ela, meretriz e amante s�o uma e a mesma coisa; menina das laranjas e dama de companhia diferem apenas em grau.</p><p>Apesar de todo o seu despudor, tem pretens�es a um t�tulo e ser� isso, sem d�vida, a sua desgra�a. Se Carlos fizer dela duquesa, todas as fam�lias nobres de Inglaterra se sentir�o aviltadas.</p><p>A minha estrat�gia, assim, � recordar a Carlos a nobreza do meu ber�o. Surge uma oportunidade quando um meu familiar distante, o Chevalier de Rohan, morre. � verdade que foi executado por Lu�s por estar de conluio com os Holandeses, mas posso fazer luto por ele, de qualquer maneira, e descende dos antigos reis da Bretanha, o que significa que � tamb�m parente afastado de Carlos.</p><p>Carlos v�-me de preto e pergunta-me, em frente da corte, o que se passa.</p><p>� Estou de luto pelo nosso primo, o pr�ncipe de Rohan � explico.</p><p>Tenciono usar preto apenas uma semana, n�o mais � o per�odo de tempo apropriado para um familiar t�o afastado. Contudo, quando chego � corte no dia seguinte, Nell est� tamb�m vestida de negro. Enquanto o rei fala com alguns dos seus conselheiros, ouve o som de solu�os abafados provenientes da direc��o dela. Por fim, chama-a.</p><p>� Ent�o, Nell? A sua m�e morreu?</p><p>� N�o � responde ela. � N�o foi a minha m�e.</p><p>� Ent�o quem foi?</p><p>� O C� da Tart�ria � solu�a ela. � Est� morto. Oh, meu Deus, est� morto.</p><p>� Mas qual � a sua rela��o com o C� da Tart�ria? � pergunta ele, espantado.</p><p>� Exactamente a mesma � funga ela �, que a do Chevalier de Rohan com a Louise: ou seja, absolutamente nenhuma.</p><p>H� um momento de sil�ncio e depois as gargalhadas erguem-se na corte. Como um c�o que tivesse fugido das cozinhas com uma fiada de salsichas na boca, o riso salta de canto para canto, de grupo para grupo, e, embora eu o persiga furiosamente com os olhos, n�o consigo trav�-lo.</p><p>� Nesse caso � diz o rei, limpando os olhos �, talvez a Nell e a Louise possam dividir o mundo entre ambas, pois entre a Tart�ria e Rohan haver� uma grande quantidade de estranhos por quem ficarem de luto.</p><p>� J� o fizemos � responde ela com naturalidade. � A �nica coisa que n�o ficou decidida � qual de n�s ficar� com Inglaterra.</p><p>Agora todos se riem abertamente. Estou envergonhada: n�o me apercebera de que a minha abordagem era assim t�o �bvia. Contudo, o que ela n�o compreende � que, de cada vez que faz uma destas cenas ultrajantes, joga a meu favor. Podem rir-se com ela, mas v�em cada vez mais claramente que ela n�o � um deles; mais cedo ou mais tarde, ter�o de cerrar fileiras sobre ela e eu triunfarei.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Gelado de parmes�o: junte seis ovos, um quarto de litro de xarope e meio litro de natas. Coloque numa ca�arola e ferva at� engrossar, depois raspe cem gramas de queijo parmes�o, misture, passe no coador e congele. � um gelado rico e nutritivo, adequado para m�es a amamentar.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Louise s� recolheu para o seu retiro de maternidade no �ltimo momento poss�vel. N�o podia dar-se ao luxo de o fazer mais cedo: j� se riam o bastante na cara dela, mas nas suas costas ainda se riam mais.</p><p>� Diga-me, onde est� a Carwell? � perguntou-me Rochester um dia, com o rei a ouvir. � Ainda n�o pariu a cria? � Por isso, pelo menos, foi banido durante alguns dias, pois uma coisa era denegrir a amante do rei, outra muito diferente era incluir na piada o seu filho por nascer.</p><p>Entretanto, tal como Cassell previra, o parlamento estava a apertar o cerco. A Declara��o de Benevol�ncia foi revogada e substitu�da pela Lei da Profiss�o de F�, uma lei segundo a qual todos os ocupantes de cargos p�blicos tinham de jurar professar a f� protestante. Lorde Clifford, o Tesoureiro, foi um dos for�ados a abandonar a vida p�blica: suicidou-se na sua casa de campo. Lorde Arlington, que Louise sabia ser cat�lico, fez o juramento sem hesita��o. O duque de Iorque hesitou e depois demitiu-se do cargo de almirante da marinha, confirmando efectivamente ao pa�s que o pr�prio irm�o do rei era um converso.</p><p>Mais uma vez, eu tinha raz�es para estar grato por ningu�m, a n�o ser eu, possuir os segredos do gelado: isso significava que nenhum ingl�s poderia substituir-me e continuei a servir o rei e os seus preferidos como at� ent�o.</p><p>No entanto, se o parlamento tencionara com isto restringir a influ�ncia de Louise, enganara-se. O seu beb� nasceu em Julho; no Natal, ela estava de novo em alta, e de uma forma com a qual Nell nunca poderia sonhar rivalizar.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>O meu filho nasceu. Carlos. At� para lhe dar um nome, a pol�tica assume preced�ncia e o mundo tem de saber quem � o seu pai.</p><p>O parto, claro, � agonizante. Contudo, n�o � nada em compara��o com a dor de entregar o beb� a uma ama-de-leite para o amamentar como se fosse seu. Os meus seios, entumescidos, molham de leite os meus belos vestidos franceses. No entanto, este seria tamb�m o meu dever se fosse uma esposa: voltar � corte como se nada tivesse acontecido, como se ter filhos fosse t�o f�cil que n�o me afecta minimamente.</p><p>Carlos gosta de crian�as. � uma surpresa, uma vez que � ele pr�prio um homem t�o mimado, t�o facilmente distra�do. Mas gosta de se sentar com o beb� ao colo, brincando com os seus labiozinhos franzidos. Mas s� por pouco tempo, claro. Quando o beb� chora, devolve-o � ama.</p><p>� Que choro vigoroso � diz, suavemente. � � melhor lev�-lo. � N�o gosta de quem faz exig�ncias, muito menos t�o ruidosas.</p><p>� Diga-me � pergunta. � Em que religi�o ser� ele educado?</p><p>J� pensei nisso, claro. Para eu poder ser rainha de Inglaterra, os meus filhos teriam de ser protestantes. No entanto, se optar por esse caminho, estarei a dizer que n�o acredito que Carlos alguma vez honre a sua promessa de se converter.</p><p>� Ser� educado na F� Verdadeira � digo. � Talvez, um dia, o rei e o seu filho possam rezar juntos.</p><p>� Talvez � diz ele, de forma prudente.</p><p>Escrevo aos meus pais para lhes dar a not�cia e convido-os a virem conhecer o neto. Com orgulho discreto, descrevo os favores que o rei me concede, o tamanho dos meus aposentos, as j�ias que ele me deu. Deixo bem claro que eles n�o me viriam causar o m�nimo inc�modo.</p><p>Tenho esperan�a de, at� l�, j� me ter conseguido livrar de madame Gwynne. Isso � algo que preferia que os meus pais n�o vissem: a filha a ser chamada de meretriz por uma actriz inglesa.</p><p>Em termos pol�ticos, as intrigas neste momento giram � volta das eventuais noivas para o irm�o do rei. Os Ingleses puseram de parte a esperan�a de ele aceitar uma esposa protestante. Lu�s XIV ainda preferia a fecunda mas feia duquesa de Guise, mas Jaime, diz-me o rei, est� a guardar-se para uma bela virgem.</p><p>� J� tem algu�m em mente? � pergunto.</p><p>Carlos ergue as m�os.</p><p>� O problema � esse. Ele diz que est� abaixo da sua dignidade escolher a sua pr�pria esposa� mas depois rejeita todas as que lhe sugiro. At� agora, j� recusou a arquiduquesa de Innsbruck por causa da figura, a princesa de W�rttemberg por causa da m�e, a princesa Maria da Als�cia por causa do cabelo ruivo, e duas princesas alem�s por causa de serem alem�s. Os meus ministros est�o de cabe�a perdida. J� lhe disse que � um disparate casar por beleza. Numa semana, habituamo-nos de tal maneira a uma cara que, de qualquer maneira, deixa de nos agradar ou desagradar. � Hesita. � N�o a sua, claro.</p><p>Sorrio para mostrar que sei que n�o pretendeu insultar-me.</p><p>� Tenho uma jovem prima muito bela.</p><p>O rei ergue as sobrancelhas.</p><p>� De boas fam�lias?</p><p>� Fran�oise Marie � filha da duquesa d�Elboeuf e princesa da casa de Lorraine.</p><p>� Claro � murmura ele. � �s vezes esque�o-me de que est� ligada a todas as melhores fam�lias de Fran�a.</p><p>Estar� a provocar-me?</p><p>� Tenho o retrato dela nos meus aposentos. Talvez possa persuadir o seu irm�o a vir conhecer o novo sobrinho e o retrato lhe chame a aten��o?...</p><p>Carlos ri-se e d�-me uma palmadinha no joelho.</p><p>� Oh, como tive saudades suas, minha querida. Somos t�o parecidos.</p><p>� Claro que sim � respondo. � � a nossa educa��o.</p><p>Jaime visita-me e mostra-se profundamente intrigado pelo retrato de Fran�oise Marie. Poucas horas depois, Colbert, furioso, entra intempestivamente nos meus aposentos.</p><p>� Sua Majestade Crist� ordenou-me expressamente para trabalhar no sentido de conseguir o noivado com a vi�va de Guise � quase guincha.</p><p>� Estou certa que sim � respondo, calmamente. � Mas Jaime � um devasso e descobriu recentemente a religi�o; em resultado, quer casar com uma rapariga da idade das filhas. S� um tolo pensaria que ele vai casar com uma vi�va feia.</p><p>� Est� a chamar tolo a Lu�s XIV? � balbucia Colbert.</p><p>� Claro que n�o. Referia-me �queles que o aconselharam. Aqueles que, quando o plano de Guise for por �gua abaixo, Lu�s culpar� por certo.</p><p>Vejo Colbert pensar nisso. Se puder usar-me para mudar a mira de Lu�s para um alvo mais f�cil de atingir, pode colher os louros se resultar, e p�r as culpas em mim se falhar.</p><p>� Lu�s que encontre outra rapariga cat�lica � digo. � Mas tem de ser jovem, atraente e virgem. Depois n�s os dois podemos trabalhar juntos para garantir o casamento.</p><p>� Na verdade, h� outra candidata � diz ele, com alguma hesita��o.</p><p>� Quem?</p><p>� A princesa Maria de Modena. Treze anos de idade, e dizem que vai ser uma grande beleza. Mas ela manifestou o seu desejo de entrar para um convento em vez de casar com um homem muito mais velho.</p><p>� Uma jovem beleza devota? � digo. � Parece perfeita. Mande trazer o retrato dela de imediato.</p><p>Um m�s depois, est� tudo tratado. Casar�o no pr�ximo ano, assim que ela fizer catorze anos. Em troca, Jaime concordou em ter duas cerim�nias de casamento � uma privada, cat�lica, e uma p�blica, segundo os rituais anglicanos.</p><p>� Como � que consegue? � quer Carlos saber. � Comigo, ele � teimoso que nem uma mula. Mas parece que a Louise consegue fazer dele o que quer.</p><p>� Talvez ele tenha ci�mes de si.</p><p>� Ci�mes? � Carlos parece surpreendido.</p><p>� O seu irm�o ainda est� um bocadinho apaixonado por mim, sabe. � Encolho os ombros com mod�stia. � N�o sei porqu�.</p><p>� Sim, claro. � Carlos olha para mim e percebo que est� a ver-me atrav�s dos olhos do irm�o: desej�vel, um bom partido, mas acima de tudo inating�vel. � Jantar� comigo esta noite, senhora? � pergunta, abruptamente.</p><p>Sorrio.</p><p>� Com todo o prazer, Carlos.</p><p>Nessa noite, ele toma-me como se eu fosse outra vez virgem e ele um jovem garanh�o.</p><p>Depois, diz-me:</p><p>� Meu Deus, estava muito �vida hoje.</p><p>Beijo-lhe o peito.</p><p>� Carlos, � t�o delicioso. N�o consigo afastar a boca de si.</p><p>Ele recosta-se, satisfeito. Continuo a beij�-lo: o peito duro, as costelas que se destacam sob a pele como o casco de um navio. N�o sei se � por causa do beb�, ou de al�vio por estar de novo nas suas boas gra�as, ou outra coisa qualquer, mas sinto uma certa ternura por ele, um desejo que nunca senti antes. Viro-me sobre ele, beijando-lhe os mamilos, soltando exclama��es sobre o seu sabor delicioso, sobre a sensa��o e a for�a das suas m�os quando se cruzam sobre a minha cabe�a.</p><p>E assim, tudo est� novamente alinhado. Estou na cama de Carlos e nas boas gra�as de Lu�s. Fiz com que Colbert parecesse ineficaz e os meus aposentos s�o, mais uma vez, o verdadeiro parlamento de Inglaterra.</p><p>Carlos quer dar-me um colar. Os meus espi�es dizem-me que h� um que Nell anda a tentar obter: est� a ensinar o rei a pescar, na esperan�a de o conseguir. O colar custa mais de oito mil libras. Como seria bom conseguir arranc�-lo dos dedos dela!</p><p>Mas o meu jogo vai mais al�m.</p><p>� Meu amor? � digo.</p><p>� Hum?</p><p>Estamos deitados na cama, depois de fazer amor.</p><p>� N�o quero presentes caros.</p><p>� A s�rio? � Ele parece surpreendido.</p><p>� Ser amada por si � toda a recompensa de que preciso. No entanto, se quer realmente mostrar a sua boa vontade�</p><p>� Sim? � diz ele, e percebo que est� a preparar-se para alguma exig�ncia escandalosa: uma pens�o, talvez, ou o pagamento de uma d�vida de jogo.</p><p>� Como sabe, venho de uma fam�lia nobre e antiga.</p><p>� Sim.</p><p>� A minha av� materna era marquesa. Os de Keroualle s�o Seigneurs de Brest h� mais de setecentos anos. No entanto, creio que algumas pessoas na corte n�o est�o conscientes da minha linhagem. V�em apenas que sou sua amante e, como n�o possuo qualquer t�tulo ingl�s, consideram-me pouco melhor do que uma vulgar menina das laranjas.</p><p>Ele acena com ar pensativo.</p><p>� Quer um t�tulo ingl�s?</p><p>� Se fosse de sua vontade.</p><p>Ele reflecte sobre o pedido. �, aparentemente, um presente barato, mas Carlos sabe t�o bem como eu que, normalmente, os t�tulos v�m com pens�es ou outros rendimentos.</p><p>� Sou capaz de estar disposto a dar-lhe algo dessa natureza � diz, lentamente.</p><p>� Obrigada. � Beijo-lhe a face, a barba dura do final do dia. � Claro que, para isso, ter� de me fazer tamb�m cidad� inglesa. Caso contr�rio, n�o posso ser duquesa. Ou o que quer que decida fazer de mim. Na verdade, � completamente consigo.</p><p>Penso que come�o a compreender agora um pouco melhor o papel de amante. N�o � apenas ouvir, mas reflectir; n�o � apenas estar dispon�vel, mas agir como representante de todas as outras mulheres que n�o o est�o � as mulheres que ele teria tamb�m, se tivesse tempo e oportunidade. Ser a mulher que todos os homens desejam mas que apenas um pode ter.</p><p>Compreendo agora por que motivo Nell Gwynne mandou colocar a sua cama num Sal�o de Espelhos.</p><p>Estava enganada quando disse a Carlo que n�o sabia nenhum truque de alcova. Os truques mais subtis n�o s�o feitos com o corpo, nem podem ser aprendidos num livro de posi��es.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Ele quer mandar pintar o meu retrato.</p><p>� Agora que a sua figura elegante regressou � diz, em tom casual. � E antes que engravide outra vez.</p><p>� A minha figura ainda n�o regressou. Pare�o um elefante.</p><p>� Minha querida buchinha � murmura ele. � Gosto de si assim.</p><p>Pela refer�ncia � minha figura, percebo que n�o � apenas o meu rosto que ele deseja ver pintado.</p><p>� Quer que me pintem sem roupa?</p><p>� Porque n�o? � Olha para mim de lado. � Estava a pensar em Sir Peter Lely. Um cavalheiro muito discreto e um excelente pintor. Al�m disso, praticamente ningu�m o veria.</p><p><emphasis>Para prazer exclusivo do rei.</emphasis> Mas o prazer do rei, tenho vindo a perceber, encontra-se em parte naquilo que � apenas seu, e em parte em imaginar como os outros o ver�o.</p><p>� Em Fran�a, � considerado muito indecente uma mulher ser pintada sem roupa.</p><p>� Eu sei o extraordin�rio favor que estaria a conceder-me, Louise. Faria tudo por tudo para encontrar uma maneira extraordin�ria de a recompensar.</p><p>Um t�tulo?</p><p>� Imagine a vergonha, se a minha fam�lia soubesse.</p><p>Os meus protestos est�o a excit�-lo. Tem algo novo para perseguir, uma nova virgindade para tirar.</p><p>� Para actrizes ou meninas das laranjas n�o � nada, claro � acrescento. � Mas um rei pediria tal coisa a uma rainha? N�o me parece.</p><p>� A menos que a amasse muito � murmura ele.</p><p>Ambos sabemos como esta dan�a terminar�. N�o posso dar-me ao luxo de resistir por demasiado tempo. Pelo menos, enquanto ele tiver Nell Gwynne.</p><p>Por fim, concordamos numa camisa de seda, desabotoada. N�o tapa nada, mas significa que n�o estou, tecnicamente, nua. Reclino-me num div�, exposta ao olhar de Lely enquanto ele move o pincel sobre uma tela que n�o consigo ver.</p><p>Se baixo os olhos, nem que seja por um momento, ele murmura:</p><p>� Olhe para mim.</p><p>� que o meu olhar tem de encontrar o dos homens que virem o quadro. � t�o estranho pensar que, quando olho para Peter, para o seu ar impessoal de concentra��o, estou a olhar directamente para os olhos de todos os homens que olhar�o para mim. Podem ser dezenas, centenas, os que estar�o perante este quadro, alguns at� depois de eu morrer.</p><p>E cada um deles olhar� para mim e pensar� como eu sou desavergonhada por fazer isto para gratifica��o privada do rei.</p><p>Sem se aperceberem de que s�o eles, e n�o eu, que o fazem.</p><p>Carlos vem conversar. Estava com receio de que eu estivesse entediada, diz. Aproxima-se do pintor para olhar para o quadro. Peter afasta-se, t�o paciente quanto o rei � impaciente. De vez em quando, envolve o seu cliente em algum detalhe de desenho ou t�cnica. <emphasis>Aqui. A isto chama-se empaste. Prefere aqui o verde ou o verde-azulado?</emphasis></p><p>H� qualquer coisa neste processo que excita Carlos: os dois homens, completamente vestidos, a olharem para o meu corpo nu e a discutirem-no. Quase como se eu fosse um osso que Carlos larga da boca para deixar outro c�o cheirar.</p><p>Lembro-me das palavras de Colbert. Um deboche sem en�traves.</p><p>Lely sugere frutas, do lado esquerdo, para equilibrar a composi��o.</p><p>� Laranjas n�o � recuso, em tom firme.</p><p>Ele ergue um pouco as sobrancelhas.</p><p>� As laranjas fazem-me lembrar as meninas das laranjas.</p><p>Ele sorri ao ouvir isto. Foi ele, claro, que pintou Nell.</p><p>� J� sei � diz Carlos. � Gelado! Vamos p�r gelos na pintura.</p><p>� Derreteriam antes de o Peter os conseguir pintar � digo.</p><p>� Podiam ir sendo substitu�dos � diz o artista. Tamborila na tela com a ponta do pincel, de ar pensativo, para mostrar ao rei onde os colocaria. � Aqui, ao lado, podiam ir sendo substitu�dos sem perturbar a <emphasis>mise en sc�ne</emphasis>. Na verdade, seria interessante. As pessoas questionariam como foi feito. Um momento capturado. A ilus�o de instantaneidade, no meio do tempo congelado. � � o discurso mais longo que j� o ouvi fazer em cinco dias de pintura.</p><p>Outra mulher qualquer, reflicto friamente, talvez ficasse ofendida por ele estar muito mais excitado com o desafio t�cnico de pintar um gelado do que com o seu corpo nu.</p><p>� Boa ideia � sussurra Carlos. � Uma travessa de gelos. Tenciona pint�-los meio derretidos?</p><p>� Quando come�am a derreter, senhor. O gelo a ficar macio. Como uma fruta a amadurecer na ta�a, captada no preciso instante antes de apodrecer. Antecipar a inevit�vel corrup��o da carne. � Olha para mim e percebo que n�o � apenas o desafio t�cnico que lhe interessa. H� tamb�m aqui algum tipo de simbolismo.</p><p>Assim, mandam trazer gelos. <emphasis>Depressa. Diga-lhe que � para o rei. No est�dio de Lely.</emphasis> Carlo entra com a arca de gelo. N�o posso mexer-me, n�o posso avis�-lo. Estou fixa e im�vel no meu div�, como Daphne pregada ao ch�o enquanto se transforma em arbusto.</p><p>� Ah, Demirco. Ponha-os ali.</p><p>Ele estacou abruptamente e est� a olhar para mim.</p><p>� V� l�, homem. At� parece que nunca viu uma mulher nua.</p><p>Ele recupera rapidamente.</p><p>� Nenhuma t�o bela como esta, senhor.</p><p>� Sim. � Carlos acaricia o bigode, satisfeito. � � encantadora, n�o �?</p><p>Olha para Peter, depois para mim. Peter parou, com o pincel suspenso sobre a tela, surpreendido. Ambos fixam os olhos em mim.</p><p>Um rubor � profundo e escarlate, como uma folha de vinha no Outono � invadiu a minha pele branca, desde as pernas expostas at� � ponta das orelhas.</p><p>Nell, na corte.</p><p>� Oh, madame Carwell. Ouvi dizer que foi pintada recentemente apenas com uma camisa de seda.</p><p>� � verdade, Nell. O retrato de Sir Peter est� muito bonito.</p><p>� Talvez fiquemos penduradas lado a lado na galeria do rei. Para que os cavalheiros seus amigos possam comparar-nos. Como meretriz, claro, eu consideraria uma grande honra, ser comparada com uma dama t�o fina como a senhora.</p><p>N�o respondo.</p><p>� Diga-me, j� viu Carlos Terceiro esta manh�? � pergunta.</p><p>Sinto que � uma armadilha, mas mesmo assim caio nela.</p><p>� Porque lhe chama Carlos Terceiro? � Carlos Segundo.</p><p>Ela come�a a contar pelos dedos.</p><p>� O meu primeiro Carlos era Carlos Hart, o segundo Carlos Sackville, portanto Carlos Stuart � o meu Carlos Terceiro. Presumo, ent�o, que a senhora s� teve dois Carlos at� agora?</p><p>Quando ela come�a com estas coisas, n�o h� nada a fazer sen�o manter a calma. � como uma crian�a que se recusa a ir para a cama, cuja �nica maneira de falar com os adultos � chocar. Amavelmen�te, digo:</p><p>� Antes de conhecer o rei, Nell, eu nunca tinha tido outro ho�mem.</p><p>� Oh, enfim � diz ela, sacudindo a cabe�a. � Ainda h� tempo. Ele n�o se importa, sabe. A Barbara Villiers teve quatro de uma vez, e o rei s� disse que o que serve para um homem, tamb�m serve para outro.</p><p>Um insulto simples e �bvio, como tantos que ela faz. No entanto, deixa-me a pensar.</p><p>As j�ias da coroa est�o em exposi��o na Torre de Londres, onde qualquer homem as pode ver por um dinheiro. Quase foram roubadas alguns anos antes, mas Carlos n�o as guarda em lugar seguro, escondidas. Porque n�o?</p><p>Uma actriz. Uma mulher que representa muitos pap�is. Um rei que � for�ado a fazer o mesmo.</p><p>Uma meretriz. Uma mulher que teve muitos amantes e poucos deles por amor. Um rei que escolhe fazer o mesmo.</p><p>Colocar-me contra Nell Gwynne � poder� ser, de alguma forma, deliberado? Far� tudo parte da mesma caracter�stica?</p><p>Estou a aperceber-me de que existe em Carlos um cinismo muito profundo � quase uma escurid�o. Ao seu cepticismo natural, juntaram-se os efeitos das suas experi�ncias no ex�lio: vaguear de corte em corte, bem recebido para o caso de poder vir a revelar-se �til, tolerado apenas at� as considera��es politicas em constante muta��o tornarem os seus anfitri�es receosos de o receber.</p><p>Nell e eu temos isto em comum, compreendo sobressaltada, tanto uma com a outra, como com o pr�prio Carlos: sabemos o que � estar na mis�ria, sem qualquer poder e com frio.</p><p>Ser� por isso que ele mant�m homens como lorde Rochester por perto � encontrar� no seu sarcasmo amargo e trocista um eco do que se encontra na sua pr�pria mente?</p><p>E quando diz que eu e ele somos iguais � ser� mesmo isso que quer dizer? S� ser� verdadeiramente feliz depois de eu lhe dar a satisfa��o de provar que ele est� certo?</p><p>Ser� que precisa que lhe mostre que sou capaz de me rebaixar tanto como ele?</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Uvas-espins e bergamotas est�o entre as frutas que ficam melhor em gelos do que ao natural.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Lu�s XIV conduziu pessoalmente o avan�o sobre os Holandeses, cavalgando quase sem oposi��o � cabe�a de um grande ex�rcito franco-ingl�s atrav�s da Holanda espanhola. Os Holandeses, por�m, percebendo que n�o conseguiriam bat�-lo em guerra aberta, abriram os diques e inundaram uma grande �rea do pa�s que ele esperara conquistar. Frustrado, o Rei Sol foi for�ado a jogar o jogo da espera.</p><p>Os ex�rcitos s�o coisas dispendiosas, e os ex�rcitos que n�o est�o em movimento � que n�o v�o pilhando e saqueando pelo caminho � s�o ainda mais dispendiosos. Para Lu�s, claro, n�o era nada estalar os dedos e exigir outro imposto. Para o seu aliado Carlos, que tinha de levar em considera��o o parlamento, era diferente.</p><p>A Grande Paragem do Tesouro, quando o seu governo anunciara grandiosamente que n�o iria pagar capital nem juros sobre as suas d�vidas durante um per�odo de um ano, parecia agora um terr�vel erro de c�lculo. Pois que banqueiro emprestaria mais dinheiro a um rei que n�o cumpria os seus pagamentos? Que d�vida estava segura, se um rei podia subsequentemente alterar as suas condi��es conforme lhe agradava mais?</p><p>O seu �nico rendimento era agora a pens�o de Lu�s e aquilo que conseguia do parlamento. O parlamento deixou bem claro que n�o lhe atribuiria mais sem resultados. O rei estava � beira da bancarrota.</p><p>Foi nesse m�s que ele deu a Louise uma cadeirinha de transporte estofada a seda de prata, e dois lacaios negros para a transportarem; um colar no valor de tr�s mil libras, uma fiada de p�rolas no dobro desse valor e reconstruiu o seu apartamento para incluir um sal�o de espelhos. Foi nesse m�s que ele deu a Nell uma carruagem com seis cavalos brancos, para mostrar que ela era a amante da realeza, e uma mesa de prata para combinar com os seus pratos de prata. Foi nesse m�s que ele ordenou a constru��o de novos aposentos oficiais em Windsor e inundou o Parque de St. James para uma batalha aqu�tica simulada.</p><p>Foi um Ver�o de gelados � claro que foi. O rei estava muito entusiasmado com as suas novas estufas; os jardineiros tinham conseguido cultivar uma bela colheita de ananases, damascos e meloas, e ele deu ordens para que eu tivesse acesso a tudo o que desejasse. Fiz um gelado que parecia exactamente um anan�s, ado�ado com um pouco de a��car e sumo de uva. Rodeei-o com ananases a s�rio e cortei-o com um gesto floreado em frente do pr�prio rei, declarando que o acharia o fruto mais doce e maduro do seu reino. Este evento causou mais espanto na corte, creio, do que a capitula��o de Utrecht.</p><p>Dei por mim a ficar sem ideias. Depois de ter servido ao rei e aos seus convidados todas as frutas que existiam em Inglaterra, todos os cordiais da Europa, todas as �guas de sementes do mundo, o que restava?</p><p>�s vezes dava por mim a desejar ser mais como Hannah, que n�o servia mais de cinco ou seis tartes por m�s, consoante o que lhe chamara a aten��o no mercado.</p><p>� O que � isto? � perguntei-lhe na sala de jantar da estalagem um dia, enquanto levantava a crosta fumegante sobre algo suculento e de um vermelho escuro que n�o me era familiar.</p><p>� Tarte de mi�dos.</p><p>� Fiquei na mesma.</p><p>� V�sceras de veado. Cora��o, l�ngua, miolos e est�mago, com molho de cebola e tomilho. Todas as partes que as pessoas ricas n�o querem comer.</p><p>No entanto, reparei que mesmo as pessoas ricas mandavam agora os criados ao Red Lion para comprarem tartes para o seu jantar. A fama de Hannah estava a espalhar-se.</p><p>� E amanh�?</p><p>� Galinha e alho franc�s. Na quinta-feira, cerveja e rim. E na sexta-feira, queijo e cebola. Porqu�?</p><p>� Preciso de sabores novos para o rei � resmunguei.</p><p>� Mande-lhe uma tarte � disse ela, em tom de brincadeira.</p><p>N�o podia fazer isso, claro, mas da pr�xima vez que fui � copa tirei os livros de culin�ria dela da prateleira e folheei-os, � procura de ideias.</p><p>� O que est� a fazer? � perguntou Hannah, quando entrou.</p><p>� Estou a pensar em fazer uns sorvetes de ervas arom�ticas. Por exemplo, isto parece interessante. O Culpeper fala dos usos culin�rios das urtigas�</p><p>� Devia ter mais cuidado. J� lhe disse que esse livro n�o pode ficar de fora � interrompeu ela, calmamente.</p><p>Olhei para ela, perplexo.</p><p>� Pensava que queria dizer para n�o se sujar.</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>� Os livros do Culpeper foram banidos pela conservat�ria da propriedade liter�ria. Quando encontram algum, queimam o livro e prendem o seu dono. Se ele tiver sorte. �s vezes queimam ambos. Os herb�rios d�o boas fogueiras para as bruxas, dizem eles.</p><p>� Mas porqu�?</p><p>Ela tirou-me o livro das m�os e arrumou-o novamente na prateleira.</p><p>� O Culpeper era um quinto-mon�rquico� quer isto dizer, um daqueles que acreditavam que o tempo dos reis estava a chegar ao fim e o tempo dos homens nascidos livres estava a come�ar. Foi por isso, em parte, que publicou o seu conhecimento e em ingl�s simples� para que as pessoas vulgares pudessem ter a informa��o que m�dicos e botic�rios estavam a tentar guardar para eles, com o seu latim e as suas corpora��es. De muito lhe serviu. E �queles que o seguiam.</p><p>Lembrei-me das ervas que ela punha nas tartes � salva, azedas, uma deliciosa sugest�o de estrag�o, molho de cebola e tomilho�</p><p>� Era uma delas? Uma ervan�ria?</p><p>Ela acenou.</p><p>� Entre outras coisas.</p><p>� Nesse caso, pode ajudar-me a criar alguns gelos?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Suponho que sim. Porque n�o?</p><p>� �ptimo. Eu pago-lhe mais�</p><p>� N�o quero que me pague � interrompeu ela, baixinho. � O Culpeper deu o seu conhecimento de gra�a, na esperan�a de que as pessoas o usassem. N�o me cabe a mim lucrar com ele.</p><p>E assim come�ou outra fase da minha educa��o culin�ria. Pois embora tenhamos come�ado por fazer simples sorvetes de plantas � urtigas, salva, folha de figueira, pelarg�nio e erva-cidreira � rapidamente se tornou evidente que as ervas eram ainda melhores quando combinadas, quer umas com as outras, quer com outros sabores, e que ao us�-las desta maneira era poss�vel criar uma variedade quase infinita de sabores.</p><p>Na verdade, isto j� n�o era engenharia. Era culin�ria, pura e simples. Pois certos sabores combinavam, e outros n�o, e era preciso imagina��o e per�cia para visualizar como seria cada combina��o � se seria um casamento frutuoso ou est�ril. Quem diria, por exemplo, que gelado de ma��-reineta e p�talas de rosa seria t�o bom, a sucul�ncia doce das ma��s e o perfume voluptuoso das flores tornando o gelado quase ridiculamente sensual e embriagante na boca? Quem diria que aipo � o mais sensabor�o e aguado dos vegetais � teria o sabor limpo e penetrante que tinha quando as suas sementes eram torradas e combinadas com flores de hibisco? Quem teria juntado groselhas negras e hortel�, ou laranjas e manjeric�o, ou feito um cordial de avenca e pimenta preta?</p><p>Folhas de figueira e de louro, p�ssego e hissopo, nata talhada e alfazema, damasco e cardamomo � estes foram alguns dos gelados que fizemos nesse dia. Eram majestosos, fascinantes, at� extraordin�rios � e contudo, os ingredientes eram t�o simples como um jardim ingl�s de Ver�o.</p><p>N�o podia pedir a Hannah que n�o os provasse, claro; precisava da sua experi�ncia e do seu palato. E quando ela, por sua vez, quis pedir a opini�o de uma terceira pessoa, algu�m que n�o soubesse o que esperar, virou-se com naturalidade para Elias e deu-lhe uma colherada, e ele disse-nos o que achava.</p><p>� � maravilhoso! � exclamou de um gelado directamente inspirado em Culpeper, feito com pepinos e aipo.</p><p>� � mesmo, n�o �? � respondeu a m�e. E os dois dan�aram uma pequena dan�a pela copa.</p><p>� Pensava que seria contra estas coisas � disse eu, surpreendido.</p><p>� Porqu�? N�o nos opomos ao prazer, apenas ao privil�gio.</p><p>� No entanto, estes gelados s�o apenas para o rei � recordei-lhe. � Para o rei e para alguns dos seus preferidos.</p><p>� Sim � disse ela, um pouco desanimada. � Claro.</p><p>� Talvez n�o fosse t�o contra ele se o conhecesse. � um homem encantador.</p><p>� Talvez � disse ela, em tom inexpressivo, e n�o dan�ou mais.</p><p>Mais para o fim desse m�s, enquanto o rei comia um gelado de uvas-espins e erva-cidreira, disse-me com ar pensativo:</p><p>� O senhor � um homem que percebe de gelo, Demirco.</p><p>� De facto, senhor.</p><p>� O plano de Lu�s � esperar pelo Inverno. Afinal de contas, se conseguimos atravessar o Tamisa com carruagens, porque n�o conseguiria ele empurrar os seus canh�es pelas terras drenadas e geladas?</p><p>Hesitei e ele disse:</p><p>� Acha que n�o resultar�?</p><p>� A quest�o � a quantidade de sal � expliquei. � Tal como o Tamisa n�o congela por baixo da Grande Ponte, deixar entrar a �gua do mar faria com que esses terrenos descongelassem imediatamente. Tudo depende de at� que ponto os Holandeses est�o dispostos a ir para resistir � invas�o.</p><p>� Guilherme de Orange declarou que todos os Holandeses preferiam morrer afogados do que verem o seu pa�s cat�lico.</p><p>� Nesse caso, eu certamente que n�o confiaria apenas no gelo para vencer esta guerra.</p><p>Algumas semanas depois, Arlington e Buckingham foram en�viados � Holanda para tentar chegar a um acordo de paz independente. Os Franceses, furiosos, acusaram os Ingleses de trai��o. Por fim, n�o se conseguiu alcan�ar a paz e volt�mos para a guerra, com a complica��o acrescida de, agora, os pr�prios aliados de Carlos tamb�m n�o confiarem nele.</p><p>� Acha que alguma vez voltaremos para Fran�a? � perguntei um dia a Louise, quando lhe levei um gelo de junquilhos e lim�es.</p><p>� N�o sei � disse ela em tom fatigado. � Seja como for, para mim agora � diferente. Quem casaria comigo e aceitaria um bastardo real? Uma coisa � fechar os olhos a um passado escandaloso, outra bem diferente � ter esse passado a crescer em nossa casa.</p><p>� Talvez possa casar com algu�m de nascimento inferior � disse-lhe �, que a ame e ame tamb�m o seu filho. Talvez possam ser felizes juntos, sem t�tulos nem riqueza.</p><p>Ela olhou para mim e sorriu.</p><p>� Conhece algum homem assim?</p><p>� Ouvi rumores de que existem alguns.</p><p>� � demasiado leal, Carlo � disse ela, gentilmente. � N�o fiz nada para merecer essa adora��o.</p><p>� Pelo contr�rio. N�o a adoro, nem por sombras. Acho-a pr�tica de modo exasperante; de cabe�a dura, altiva, orgulhosa�</p><p>� Obrigada. N�o estava a pedir um cat�logo dos meus defeitos.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� � melhor admirar algu�m cujos defeitos conhecemos, do que um estranho.</p><p>� E o rei?</p><p>� O que tem?</p><p>� O facto de eu ser amante dele. Isso n�o muda os seus sentimentos?</p><p>� Porque havia de mudar? � Ocupei-me com os copos. � Sei que n�o o faz por amor.</p><p>Ela ficou um momento em sil�ncio.</p><p>� Costumava pensar que o amor era apenas uma fantasia. Mas agora percebo que � uma for�a quase t�o forte como um ex�rcito.</p><p>� Carlos ama-a.</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>� Gosta de mim e deseja-me e gosta de me ver feliz. Ama-me da mesma maneira que ama Windsor ou t�nis� sou necess�ria para o seu bem-estar e para a sua no��o do que � ser rei. E tamb�m sou �til, no sentido em que lhe dou bons conselhos. Ama a Nell Gwynne muito mais do que a mim.</p><p>� A Nell!</p><p>� Com certeza. Pelo menos, ela � a �nica mulher da qual ele nunca poderia desistir, apesar de saber que Lu�s, ou qualquer outro rei, ficaria chocado com a ideia de manter uma prostituta vulgar como amante. Portanto sim, penso que ele a ama.</p><p>� Enquanto ela, presumivelmente, pretende apenas o dinheiro dele.</p><p>� Oh, n�o� isso � compreend�-la mal. Pode ser uma actriz e uma meretriz, mas gosta verdadeiramente da liga��o entre ambos.</p><p>� E a Louise � disse �, que n�o � actriz nem meretriz�</p><p>� Tenho de representar um papel e deitar-me com um homem que n�o amo. Sim, essa ironia tamb�m me ocorreu.</p><p>� Consegue venc�-la?</p><p>� Talvez. Mas h� muito mais a fazer. Temos de encontrar uma forma de o manter nesta guerra. � preciso impedir o parlamento de o for�ar a pedir pela paz. O Jaime tem de casar antes que mude de ideias. Mais dinheiro. Mais batalhas.</p><p>Voltei para o Red Lion, nesse dia, um pouco melanc�lico. Hannah estava na copa, a fazer a massa para as suas tartes.</p><p>� Para onde est� a olhar? � perguntou.</p><p>� Para nada.</p><p>Ela mediu um frasco de farinha, partiu dois ovos l� para dentro e come�ou a mexer. Passado algum tempo, virou-se para mim.</p><p>� N�o consigo trabalhar se continuar a� parado a olhar fixamente para mim.</p><p>� N�o estou a olhar fixamente � expliquei. � Pelo menos, n�o para si. A Hannah est� simplesmente na direc��o geral do meu olhar, mais nada.</p><p>Ela suspirou e voltou-se novamente para a massa.</p><p>� Mas, j� que pergunta � acrescentei �, pod�amos ir ao meu quarto, mais tarde.</p><p>A voz dela, quando respondeu, era inexpressiva.</p><p>� Esteve na corte hoje, presumo?</p><p>� Sim.</p><p>� Com madame Carwell?</p><p>� O que � que isso tem a ver com o assunto?</p><p>� Apenas que reparei que � sempre depois de estar com ela que me convida a ir ao seu quarto.</p><p>Encolhi os ombros mas, uma vez que ela n�o estava a olhar para mim, n�o viu.</p><p>� Convido-a para o meu quarto porque o acordo nos conv�m a ambos. Pode vir ou n�o, como preferir. � consigo.</p><p>Pareceu-me que ela estava a debater consigo pr�pria se devia ou n�o dizer uma coisa.</p><p>� Diga-me � disse, por fim. � Quando chegou aqui, como soube o que eu era? Que eu iria consigo por dinheiro?</p><p>� Um conhecido disse-me como eram as criadas das estalagens inglesas. E depois encontrei-a com aquele homem. Ele sabia o que voc� era.</p><p>� Sim � admitiu ela. � Chamou-me puta. Mas isso foi uma maneira de dizer. Referia-se ao facto de eu ser uma dissidente da igreja.</p><p>� Amea�ou-a com a pris�o.</p><p>� Ele era um espi�o. Estava a tentar coagir-me para o espiar a si.</p><p>� A mim?! � exclamei, estupefacto.</p><p>� Queria que eu descobrisse como � que faz os seus gelados. Mas eu j� lhe tinha dado a minha palavra de que n�o contaria a ningu�m, por isso n�o contei.</p><p>� Mas� � Eu estava perplexo. � Quando lhe disse para vir ao meu quarto, daquela primeira, vez, a Hannah veio. Aceitou o meu dinheiro.</p><p>� Sim.</p><p>� Ent�o o Cassell tinha raz�o. � <emphasis>mesmo</emphasis> aquilo que ele disse que seria.</p><p>Ela olhou para a massa.</p><p>� Talvez. Mas decidi que no futuro, <emphasis>signor</emphasis>, ficaria agradecida se pedisse antes � Mary ou � Rose.</p><p>� Porqu�?</p><p>Ela n�o disse nada durante muito tempo, enquanto trabalhava o monte de massa com os dedos. Por fim, respondeu:</p><p>� N�o seria justo para o Elias, se ele descobrisse o que fazemos.</p><p>� Oh, compreendo.</p><p>� Ele admira-o muito. Podia� entender mal a nossa associa��o. Podia ver nela mais do que realmente �.</p><p>� Bom, nesse caso pode estar descansada, n�o lhe voltarei a pedir.</p><p>� Obrigada.</p><p>� Pedirei � Mary. Ou � Rose, conforme.</p><p>� Exactamente. � Pegou no rolo da massa e bateu com ele no monte de massa, com tanta for�a que levantou uma nuvem de farinha.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>O parlamento vai insistir na paz assim que se reunir; � um segredo que todos sabem. Todas as noites Carlos tem reuni�es com os seus ministros, para debater o que fazer. O seu objectivo � ganhar tempo: uma pol�tica que o irm�o, num raro acesso de gra�a, descreveu como sendo indistingu�vel de perder tempo.</p><p>A �nica solu��o � que a sess�o do parlamento seja interrompida � ou seja, suspensa pela autoridade do rei sem dissolu��o do mesmo. Contudo, desafiar desta maneira o mesmo parlamento ao qual deve a sua restaura��o pode desencadear uma rebeli�o armada. Os seus ministros � com um olho na sua pr�pria popularidade junto da popula�a � aconselham-lhe cautela.</p><p>N�o o conhecem t�o bem como eu. Os gestos imprudentes atraem-no. Prefere o rumo mais ousado, o jogo com as paradas mais elevadas. E o seu �dio pelo parlamento � muito profundo. Publicamente, tem de parecer grato por o terem restaurado no trono. Em privado, n�o se esquece de que o trono s� estava vago porque eles assassinaram o seu pai.</p><p>Eu penso que h� uma maneira. Mas primeiro tenho de ser t�o ousada como ele.</p><p>*</p><p>Dou uma festa, um jantar no meu apartamento, para o rei e quarenta dos seus amigos mais chegados. At� convido alguns dos libertinos fr�volos cuja influ�ncia sobre o rei � mais forte do que ele gosta de admitir.</p><p>Um festim de comida francesa, vinhos franceses, gelos franceses, pensamentos franceses expressos em franc�s. Excepto que o vinho corre de uma forma que n�o � bem francesa e a conversa rapidamente volta ao ingl�s e degenera � como acontece sempre neste pa�s � do sedutor para o obsceno. Em breve os cortes�os e as damas da corte se retiram para os cantos para encontros amorosos. O deboche torna-se a ordem da noite.</p><p>N�o, claro, para Carlos e para mim. Ele lan�a olhares para as sombras e sinto que, noutra ocasi�o, teria gostado de se juntar a eles, mas n�o pode ser visto a abandonar a minha companhia para esse fim na minha pr�pria festa.</p><p>De madrugada, exaustos ou envergonhados, saem quase todos: todos excepto as minhas damas de companhia, a ilustre Lucy Williamson e lady Anne Berowne. O rei boceja e diz que tem de ir tamb�m. � nessa altura que sugiro uma �ltima ronda de Perguntas e Ordens. Mas ningu�m tem dinheiro.</p><p>Quando o rei pergunta o que apostaremos, respondo:</p><p>� As nossas roupas.</p><p>As raparigas n�o parecem muito � vontade, mas n�o se atrevem a protestar.</p><p>De cada vez que um de n�s perde, despe qualquer coisa. Lucy � a primeira a ficar nua. No seu nervosismo, tenta cobrir-se com as m�os, com risinhos quase hist�ricos. O efeito � ser� intencional? � � chamar ainda mais a aten��o para a sua nudez.</p><p>Anne n�o vai muito atr�s. Eu sou a �ltima a ficar despida. Carlos, claro, teve sorte. Na verdade, como banqueiro, ganhou a maior parte das roupas de Lucy e tem o saiote dela vestido por cima da camisa.</p><p>� Venham. � Empurro a cadeira para tr�s, pego na m�o das duas raparigas e levanto-me. Elas n�o hesitam quando as conduzo � volta da mesa at� estarmos de p� em frente dele.</p><p>� Ent�o? � pergunto, em tom ligeiro. � Qual de n�s merece a ma��?</p><p>Claro que ele conhece a hist�ria e sabe por que motivo fa�o alus�o a ela. O Julgamento de Paris. Um concurso de beleza que levou a uma guerra.</p><p>� Uma decis�o dessas n�o pode ser tomada de �nimo leve � diz, com um sorriso esfomeado, enquanto se levanta.</p><p>Espero, como se fossemos uma escultura viva, que ele nos examine, o que faz, lentamente, com o olhar de conhecedor a deslizar devagar sobre a nossa pele nua. Anda � nossa volta: os seus dedos ro�am nas minhas costas, na curva da minha cintura, nas minhas ancas. Sinto a sua respira��o na nuca. A sua m�o apalpa-me a n�dega, compara-a com a outra�</p><p>Um dedo grosso toca-me <emphasis>ali</emphasis>. Ao meu lado, Anne sust�m a respira��o e sei que ele lhe fez o mesmo.</p><p>Ele ergue a m�o at� ao meu seio, deixa-a ficar um instante, antes de a retirar com um suspiro.</p><p>Vira-se para Lucy, que ainda est� a rir, nervosa. Do meu outro lado, Anne olha para ele com uma intensidade que me d� vontade de sorrir. N�o tenho d�vidas de que ela espera que esta exibi��o dos seus encantos possa levar a algo mais.</p><p>� A sua pergunta, Lucy � murmura ele.</p><p>Ela n�o sabe o que perguntar.</p><p>� Gostais do que vedes? � diz, por fim.</p><p>� Claro.</p><p>Ela cora.</p><p>� E desejais-me?</p><p>� Claro � diz ele de novo.</p><p>� Nesse caso, ordeno que fa�ais um brinde � minha beleza � diz ela, com um movimento coquete de cabe�a.</p><p>� Com todo o prazer � concorda ele, pegando num copo. � <emphasis>Ma�dame</emphasis>, encantou-me. Espero um dia poder retribuir o elogio. � Faz o brinde, bebe e depois vira-se para Anne. � E lady Anne? Qual � a sua pergunta?</p><p>Ela tamb�m hesita � mas, no seu caso, pressinto, apenas porque est� a tentar perceber como aproveitar ao m�ximo a situa��o.</p><p>� Quem desejais mais: a Lucy ou eu? � Uma pergunta inteligente, penso. Ela sabe que se tivesse inclu�do o meu nome ele se sentiria obrigado a escolher-me.</p><p>� N�o � pergunta a que um homem galante deva responder � objecta ele.</p><p>� O jogo chama-se Perguntas e Ordens � recorda-lhe ela. � Tendes de responder.</p><p>Ele acena.</p><p>� Muito bem. Desejo-as a ambas, mas � Lucy menos do que a si. � Atrav�s das nossas m�os dadas, sinto, mais do que oi�o, a exclama��o de protesto de Lucy. � Qual � a sua segunda pergunta?</p><p>� Quantas amantes tivestes este ano?</p><p>Ele sorri.</p><p>� A essa pergunta n�o posso mesmo responder, pois nunca as conto.</p><p>� Ent�o a minha ordem � que ainda tenhais outra � diz ela, e � imposs�vel n�o perceber o que quer dizer, apesar da minha presen�a.</p><p>Ele acena e bebe antes de se virar para mim.</p><p>� E a Louise, o que quer perguntar-me?</p><p>� Quem � o monarca mais feliz do mundo?</p><p>Ele parece surpreendido com a pergunta, mas responde:</p><p>� Lu�s, claro.</p><p>� Porque � ele feliz?</p><p>Carlos ainda n�o percebeu onde quero chegar.</p><p>� Porque tem o poder indisputado no seu reino.</p><p>� Ent�o esta � a minha ordem � digo. � Mande o parlamento para casa.</p><p>Ele pestaneja, embora eu n�o consiga dizer se est� chocado com a minha ousadia ou incomodado com o assunto. Sorrio e come�o a virar-me; de m�os dadas comigo, as outras duas t�m de rodar tamb�m, em torno do meu eixo, at� termos feito uma volta completa.</p><p>� Ordeno que fa�a apenas aquilo que quer fazer � digo, quando estamos de novo cara a cara.</p><p>� Porque s� existe um rei ungido de Inglaterra � acrescento, na segunda volta.</p><p>� E apenas num jogo como este � concluo, quando o encaro pela terceira vez �, � que algu�m neste pa�s poderia arrogar-se a pretens�o de lhe dizer o que fazer.</p><p>Sinto Lucy a tremer ao meu lado. Estava preparada para o deboche, mas a pol�tica aterroriza-a.</p><p>� Com mil raios � sussurra ele. � Assim farei. � D� um passo na minha direc��o. Ainda seguro as m�os das minhas damas de companhia. Ele fita-as com ar desesperado. � Louise�</p><p>Encolho ligeiramente os ombros. Vejo-o abrir as narinas, como se quisesse inalar o aroma da nossa pele. P�e as m�os na minha cintura.</p><p>� Senhoras, podem ir � digo, largando-lhes as m�os. � Tenham uma boa noite.</p><p>O parlamento re�ne-se nesse mesmo dia e ele manda-os imediatamente embora, de volta para os seus c�rculos eleitorais. O parlamento est� suspenso at� ordens em contr�rio. O pa�s sust�m a respira��o � mas n�o h� nenhuma rebeli�o armada. A jogada compensou.</p><p>Os Franceses continuam a lutar. Chegam as primeiras geadas mas os Holandeses rompem os diques e derretem o gelo dos terrenos. Lu�s vai avan�ando pelos que n�o derreteram, lentamente, com os seus canh�es e a sua cavalaria sobre o gelo. Do nada, aparecem regimentos holandeses que arrasam as suas fileiras � os Holandeses foram buscar os marinheiros aos navios de guerra presos pelo gelo, armaram-nos com mosquetes e cal�aram-lhes patins. Depois abrem buracos no gelo, afundando os canh�es sob os p�s dos artilheiros franceses. Os Franceses retiram � retiram! O ex�rcito franc�s n�o batia assim em retirada desde que h� mem�ria.</p><p>O Sol foi primeiro detido e depois obrigado a recuar. Os Holandeses s�o aplaudidos nas ruas de Londres por aqueles que, supostamente, s�o seus inimigos.</p><p>Entretanto, a noiva crian�a de Jaime chegou, trazida de barco pelo rio para n�o ouvir as vaias do povo. � � de forma algo infeliz � a Noite da P�lvora, a noite em que toda a Inglaterra queima ef�gies de papistas para celebrar o fracasso de uma conspira��o.</p><p>Este ano, al�m de Guido Fawkes, queimam tamb�m o papa, o rei franc�s e, pelo sim, pelo n�o, a minha pr�pria pessoa. As barrigas das ef�gies s�o enchidas com p�lvora e gatos vivos, que guincham de forma hedionda quando sentem as chamas. Uma destas ef�gies � queimada directamente em frente das minhas janelas, no parque real. Arlington avisa-me, com um sorriso, de que n�o devo sair do pal�cio sem um guarda armado.</p><p>� Raramente saio do pal�cio � informo. � Tudo o que preciso vem at� mim.</p><p>� � muito afortunada, senhora. � Os seus olhos lan�am facas quando me fita. Ainda acredita que fui eu que lhe roubei o cargo de chanceler.</p><p>A princesa sai do barco, d� tr�s passos em direc��o a mim e afunda-se numa rever�ncia graciosa.</p><p>� Vossa Alteza.</p><p>Ouve-se de imediato uma vaga de risos. A pobre rapariga parece confusa. Rapidamente, retribuo a rever�ncia.</p><p>� N�o sou a rainha, Alteza. Ela n�o est� na corte, hoje. Por�m, em seu nome, tenho o prazer de lhe dar as boas vindas. Venha, deixe-me apresentar-lhe alguns dos seus novos parentes.</p><p>Carlos, saindo do barco atr�s dela, v� que eu dei os passos necess�rios para evitar um incidente e acena com gratid�o. Jaime nem sequer repara. Diz-se que ele tem andado t�o dominado pela devo��o que ainda n�o falou com a sua noiva a s�s. No entanto, esta noite, vai deflor�-la. N�o admira que a pobre crian�a pare�a aterrorizada; n�o admira que me tenha confundido com a rainha. Com o pretexto de lhe mostrar a corte, aperto-lhe o bra�o de forma tranquilizadora.</p><p>Apesar disso, n�o posso deixar de pensar que nunca ningu�m confundiu Nell Gwynne com um membro da realeza.</p><p>Quando, um m�s mais tarde, a princesa Maria � finalmente apresentada � rainha, Catarina trata-a com desprezo. Parece uma forma demasiado dura de tratar uma crian�a.</p><p>Esta corte � um s�tio selvagem, muito mais brutal do que Versalhes. Pergunto-me se terei dificuldades em adaptar-me, quando voltar. Se voltar. � cada vez mais dif�cil ver o que ser� de mim se n�o for bem-sucedida em Inglaterra.</p><p>Estes pensamentos sombrios surgem numa altura estranha, pois a verdade � que n�o fui apenas bem-sucedida aqui � estou triunfante. Finalmente, Carlos fez de mim duquesa.</p><p>Serei a baronesa de Petersfield, condessa de Farham e duquesa de Pendennis. Depois, alguns dias mais tarde, ele acrescenta o t�tulo de duquesa de Portsmouth.</p><p>� Uma cidade naval � diz Nell Gwynne em voz alta, na minha presen�a. � Cheia de meretrizes. E muito perto de Fran�a. Que apropriado. � Mas ningu�m se ri. � evidente que ela est� fora de si de inveja. Por sua parte, Lu�s responde com uma honra equivalente: o feudo ducal de Aubigny. A mensagem � clara: eu sou uma ilustre protegida do rei franc�s, tal como sou a ilustre preferida do rei ingl�s.</p><p>Contudo, contudo� Se � poss�vel que um presente destes tenha uma desvantagem, � que Carlos n�o podia ter escolhido pior altura para o conceder. A guerra, por estar parada, n�o se torna menos cara. Os Franceses s�o cada vez mais detestados. � quase como se Carlos quisesse chamar a aten��o para a minha presen�a na corte.</p><p>Ter� sido aconselhado por algu�m a seguir este caminho? Nesse caso, por quem? Ter�o esperan�a de que o povo me atribua as culpas a mim, e n�o a ele?</p><p>Em teoria, as damas menos importantes da corte deviam agora cumprimentar-me com uma rever�ncia. Muitas n�o o fazem, ou tentam livrar-se da obriga��o com algo t�o superficial que mais parece um encolher de ombros. Deix�-las empinar o nariz. A minha fam�lia j� pertencia � nobreza quando a Inglaterra n�o era mais do que um posto avan�ado de b�rbaros celtas.</p><p>Escrevo aos meus pais para lhes dar a not�cia dos t�tulos. Eles ainda n�o responderam � minha carta anterior, onde os informava da chegada do seu neto. Talvez tivesse sido melhor esperar e amortecer o golpe com esta not�cia. N�o importa: em breve poderei fazer algo por eles, um gesto grandioso qualquer que deixe bem claro o quanto a sorte da nossa fam�lia se alterou.</p><p>Uma noite, uma figura de casaco escuro entra no meu apartamento. Um secret�rio qualquer. Educado, discreto, inescrut�vel. Reconhe�o-o vagamente: um homem do parlamento, do partido de Arlington.</p><p>� Pensei que talvez quisesse ver isto � diz, estendendo-me uma carta.</p><p>� um despacho, ou a c�pia de um despacho, de Colbert de Croissy para Versalhes. Assume a forma de uma diatribe contra uma certa mulher.</p><p><emphasis>Confesso que a encontro em todas as ocasi�es com tanta m� vontade para o servi�o do nosso rei, e t�o antagonista contra Fran�a (quer seja por se sentir desprezada l�, ou por mero capricho) que considero francamente que ela n�o merece a protec��o de Vossa Majestade. Por�m, como o rei de Inglaterra lhe mostra ter muito amor e gosta t�o visivelmente de lhe agradar, Vossa Majestade poder� decidir se ser� ou n�o melhor trat�-la de acordo com os seus m�ritos�</emphasis></p><p>� Porque me mostra isto? � pergunto. � Sei que � um homem do Arlington.</p><p>� Era � responde ele. � Agora ando � procura de um novo protector.</p><p>Ergo as sobrancelhas.</p><p>� Eu?</p><p>� Preciso de algu�m que esteja inclinado para distribuir riqueza, e n�o apenas para a acumular. E lorde Arlington n�o vai subir mais do que j� subiu.</p><p>� No entanto, isto n�o vale muito � digo, levantando a carta. � Uma diatribe precipitada, talvez, mas sem consequ�ncia a n�vel pol�tico.</p><p>� Sim � concorda ele. � Mas leia a �ltima parte.</p><p>Viro a folha de papel e continuo a ler. Demoro um instante a compreender as implica��es.</p><p><emphasis>Corremos o risco de ofender Arlington com a aproxima��o ao seu rival, Buckingham; e para qu�? N�o devemos imaginar que, com duzentas mil coroas, conseguiremos obrigar um corpo t�o grande como o parlamento a seguir um caminho que a mera raz�o devia ditar�</emphasis></p><p>� Buckingham abordou um intermedi�rio na corte francesa e ofereceu-se para vender os votos do seu partido a Lu�s � explica ele. � A sua inten��o era que Colbert n�o soubesse, mas, como pode ver, ele foi informado e n�o est� nada satisfeito.</p><p>� O que diz Lu�s?</p><p>� Nada, por enquanto. Mas mandou para Londres um homem chamado Ruvigny, um antigo soldado, como seu negociador.</p><p>Penso furiosamente. Se este esquema for em frente, Buckingham substituir� Arlington em termos de influ�ncia. No entanto, ter� igualmente tra�do o parlamento ao vender os votos do seu partido. Talvez seja poss�vel, mais tarde, destrui-lo com esta revela��o.</p><p>Como se estivesse a ler os meus pensamentos, o jovem educado diz:</p><p>� O Arlington ser� substitu�do pelo Buckingham. O Colbert ser� substitu�do pelo Ruvigny. A Fran�a chegar� a acordo com a Holanda. Assim que houver paz, talvez os Franceses deixem de ser t�o odiados em Inglaterra como s�o agora. Quanto ao Buckingham, quem sabe o que poder� acontecer-lhe?</p><p>Dobro a carta.</p><p>� O que sugere que eu fa�a, para desencadear essa feliz sequ�ncia de acontecimentos?</p><p>� Deixe bem claro a Lu�s que n�o apoia o Colbert. Sem ele, o Arlington afundar-se-�</p><p>� E o Buckingham subir�.</p><p>� O Buckingham subir� � admite ele. � Por agora.</p><p>A pol�tica inglesa � um carrossel constante de trai��o e contra-trai��o, de subornos e intrigas e ambi��o. Nada � fixo; tudo � poss�vel; todos os desfechos podem ser manipulados. As possibilidades dan�am em frente dos homens como fogos-f�tuos. Mas este jovem parece ter um dom para ver claramente atrav�s destas quimeras de acaso e favorecimento.</p><p>� Como se chama?</p><p>� Thomas Osborne, Vossa Gra�a. Ao seu servi�o. � Faz uma v�nia.</p><p>� Obrigada, Thomas. Escreverei a Sua Majestade Crist� imediatamente. E direi a Carlos o que o Buckingham est� a planear. Creio que ele ficar� muito interessado em saber.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Os gelos, como a vingan�a, devem ser servidos frios: mas, tal como na vingan�a, o excesso de frio embotar� o sabor.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Parecia que nada conseguiria impedir a conquista de Louise na corte. No final do ano, Arlington j� fora afastado do seu cargo. Em Janeiro foi a vez de Buckingham ser impugnado, julgado pelo mesmo parlamento que ele ajudara a ser t�o poderoso e cujos votos tentara vender a Fran�a. � �ltima hora, tentou cair nas boas gra�as dos seus acusadores, declarando que a culpa n�o era sua, mas do rei e do irm�o.</p><p>� Posso ca�ar a lebre francesa com uma matilha de c�es, mas n�o com uma bra�a de lagostas � disse-lhes. Uma observa��o tola, pois custou-lhe o apoio das duas �nicas pessoas que se erguiam agora entre ele e a Torre. Desesperado, anunciou ent�o ter compreendido os erros dos seus actos. Baniu para um convento a sua amante, lady Shrewsbury, reconciliou-se com a esposa, abandonou os luxos e adoptou a indument�ria e os h�bitos de um puritano. Conseguiu salvar a vida, mas n�o o orgulho, e da� em diante foi um homem sem qualquer influ�ncia.</p><p>Carlos assistiu, sem nada fazer para o ajudar.</p><p>Nell Gwynne convenceu um dos seus compinchas, o velho Tom Killigrew, a aparecer na presen�a do rei em traje de montar, incluindo a capa e o pingalim. Quando o rei lhe perguntou onde ia com tanta pressa, o homem gritou:</p><p>� Ao Inferno, buscar Mestre Cromwell para nos governar de novo, pois ele n�o faria pior do que isto.</p><p>Carlos olhou para ele com express�o impass�vel: para variar, o seu bom humor abandonou-o e disse em tom seco:</p><p>� A pol�tica n�o � o seu forte, Nell, tal como n�o era o forte do seu amigo George Buckingham. Faria melhor se deixasse esses assuntos para quem os compreende.</p><p>Agora apenas Louise podia aconselh�-lo, juntamente com Osborne e o novo embaixador, Ruvigny. O rei cobria-a de prendas � n�o simples j�ias, mas feudos, pens�es, rendas e terras. Ela era a senhora do seu pal�cio, o seu primeiro-ministro n�o oficial e a rainha n�o reconhecida: a mulher por quem tinham de passar todos os pedidos, cujas opini�es se tornavam pol�tica de Estado; a mulher que tomava as decis�es no lugar de um rei que preferia n�o ter de o fazer.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Para uma celebra��o: sorvetes, bandeiras, bolos e outros gelos extravagantes.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>�Tenciono organizar um baile � disse-me ela um dia, no princ�pio de Abril. � Algo especial. Algo de que se falar� ainda muito tempo depois de Nell Gwynne ter sido esquecida.</p><p>� O que tem em mente?</p><p>� Um festival de gelo � respondeu ela sem hesitar. � Uma feira do gelo� mas no Ver�o. Talvez no princ�pio de Junho, para celebrar o anivers�rio do rei. � poss�vel?</p><p>Pensei no assunto.</p><p>� Pode ser. Se pegarmos em todo o gelo que eu recolhi para o ano inteiro e o usarmos todo de uma vez.</p><p>� Consegue congelar o Tamisa?</p><p>Sorri.</p><p>� Isso est� para al�m at� mesmo dos meus recursos. Mas pod�amos colocar blocos de gelo sobre a relva, lado a lado, e sel�-los com �gua para fazer uma esp�cie de lago de patinagem.</p><p>� E um edif�cio? Um pal�cio de gelo?</p><p>� N�o vejo porque n�o. O Buontalenti fez uma vez uma gruta para os M�dicis em pleno Ver�o. Mandou os escultores fazerem animais de gelo, e �rvores entre as quais os colocar�</p><p>� Sim! Animais e �rvores tamb�m � interrompeu ela. � E um jardim de gelo, ao longo das margens do rio. O Arlington negou-me uma coroa��o: este baile tem de estar � altura disso.</p><p>� Talvez um arco triunfante de gelo, ent�o, sob o qual passaria com o rei�</p><p>Estava meio a brincar, mas ela assentiu.</p><p>� E mesas de gelo para comer�</p><p>� Fontes geladas�</p><p>� E fogueiras entre o gelo, e lanternas. Quanto � comida, que seja um festim de gelados, para aqueles que o rei e eu honrarmos com um convite.</p><p>� Custar� uma fortuna � avisei.</p><p>� Ele gosta de gastar dinheiro � respondeu ela, simplesmente. � F�-lo sentir-se como um rei.</p><p>Eu devia ter considerado extravagante, at� mesmo rid�culo, gastar o abastecimento de gelo de um ano inteiro numa �nica noite de prazer. No entanto, parte de mim estava encantada. A festa pretendia ser o triunfo dela; mas seria tamb�m o meu. Depois disto, o nome Demirco seria certamente t�o famoso em toda a Europa como o de Buontalenti ou de Varenne.</p><p>Um espect�culo desta natureza exigia um ex�rcito e, em nome do rei, consegui reunir um. Era exactamente o tipo de ilus�o ef�mera e fant�stica de que ele gostava. Inverno em pleno Ver�o, custos assombrosos, um presente da sua amante preferida, um evento que seria falado por toda a Europa � tinha todos os ingredientes certos. Recebi ordens para n�o poupar despesas nem pormenores. Se me faltasse o gelo, devia requisit�-lo aos nobres que j� tinham constru�do casas de gelo, ou mand�-lo vir de Fran�a. Se precisasse de mais alguma coisa, qualquer talento ou per�cia especial, devia falar directamente com o rei.</p><p>Creio que ele recordava sempre o dia da sua restaura��o: entrar em Londres � frente de vinte mil soldados; as pessoas a chorarem de alegria, as ruas pejadas de flores, os sinos das igrejas a tocarem e as fontes a jorrarem vinho.</p><p>Na escurid�o das caves frias, os homens come�aram a fazer as �rvores, animais, fontes e outras decora��es de gelo que eu pedira. Dryden e Marvell foram contratados para escrever as pantominas. Kit Wren suspendeu os planos da Catedral de S�o Paulo para poder desenhar um grande pavilh�o de gelo, uma catedral de prazer cuja fachada trabalhada e cintilante ultrapassaria qualquer maravilha que o pa�s j� vira. Hooke e Boyle, esses homens engenhosos, conceberam um sistema de canos que transportariam �gua do mar gelada por baixo da estrutura, de modo a que n�o derretesse. E o pr�prio Carlos escolheu o local � Barn Elms, a cinco quil�metros de Londres, onde uma curva do rio daria a impress�o de uma plan�cie congelada.</p><p>Era imposs�vel manter uma ideia destas em segredo: na verdade, Louise n�o queria que fosse segredo � esta festa era, como ela dissera, uma esp�cie de coroa��o, e acreditava que o �dio do povo por ela podia ser transformado em apoio.</p><p>� Ser� um circo � disse �, e a popula�a adora o circo.</p><p>Mandou que a semana fosse declarada de festa e que os mastros fossem enfeitados. O pr�prio Lu�s XIV enviou uma carruagem de vidro, para que Carlos e ela pudessem chegar com pompa e circunst�ncia.</p><p>� E fa�a-nos algo especial � disse-me ela. � Um gelado particular, em honra de Sua Majestade, tal como j� fez um para mim.</p><p>Olhando para tr�s agora, essa Primavera foi uma das �pocas mais felizes que vivi em Inglaterra. Estava com Louise quase todos os dias, a planear os detalhes do baile. Estava envolvido num grande empreendimento que sabia que consolidaria o meu nome. Dominara a arte de fazer gelados a tal ponto que, provavelmente, n�o tinha igual no mundo inteiro. Se a paz entre Fran�a e Holanda fosse negociada, havia mesmo a possibilidade de, um dia, ela e eu termos liberdade de regressar a Fran�a.</p><p>*</p><p>A not�cia de que Rochester fora banido da corte em nada perturbou o meu bom humor.</p><p>� Ele escreveu uma s�tira que foi longe de mais, at� para o rei � contou-me Louise.</p><p>� Qual era o assunto?</p><p>� A impot�ncia do rei.</p><p>� Percebo que o rei n�o quisesse deixar uma cal�nia dessas sem puni��o.</p><p>� Pelo contr�rio. � Olhou em volta para se certificar de que ningu�m nos ouvia e disse, baixinho: � O Rochester j� fez piadas parecidas antes e nunca foi banido. A diferen�a � que, desta vez, � verdade.</p><p>� O rei n�o consegue funcionar?</p><p>� S� raramente.</p><p>� Com certeza que isso deve facilitar as coisas para si, n�o?</p><p>� N�o exactamente. � Fez uma careta. � Ele n�o quer admiti-lo, por isso tenta� E quanto mais tenta, mais duro �. Ou n�o, na verdade.</p><p>� Mas � apenas consigo?</p><p>� Aparentemente, n�o. Espere aqui, vou buscar o poema. Deixaram uma c�pia debaixo da minha porta, como de costume. � Abriu o banquinho da m�sica e encontrou-o.</p><p>Era o lixo habitual, mas havia uma sec��o em particular que me fez suster a respira��o.</p><p><emphasis>Nisto acreditariam, se eu tivesse tempo para contar,</emphasis></p><p><emphasis>O muito que custa � pobre e esfor�ada Nelly,</emphasis></p><p><emphasis>Que usa m�os, dedos, boca e coxas,</emphasis></p><p><emphasis>Para conseguir erguer o membro de que tanto gosta.</emphasis></p><p>� At� o Rochester percebeu que, desta vez, fora longe de mais� n�o pretendia que o rei visse isto. Deu-lho por engano, juntamente com outro poema. Mas, claro, agora que foi banido da corte, as pessoas andam a dizer que deve ser verdade.</p><p>� Isso afectar� a sua posi��o?</p><p>� N�o vejo porqu�. Ele depende demasiado de mim para me dispensar agora.</p><p>� Estou certo de que o Arlington ter� dito o mesmo, em tempos � avisei. � E o Clifford, o Clarendon, o Buckingham e todos os outros ministros que ele dispensou ao longo dos anos.</p><p>� N�o se preocupe, sei o que estou a fazer.</p><p>Louise tinha raz�o, at� certo ponto: tinha agora as m�os firmemente fechadas sobre todas as alavancas do poder. No entanto, isso n�o impediu os seus inimigos de fazerem uma �ltima tentativa para a destronar. Enquanto plane�vamos a ocasi�o que celebraria a sua ascend�ncia, aqueles que ela derrubara estavam a conspirar. Sabiam que n�o conseguiriam venc�-la sozinhos; precisavam de um campe�o, e encontraram-no na encantadora pessoa da irm� de Olympe de Soisson, Hortense Mancini, duquesa de Mazarin.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p>�A duquesa de Mazarin � uma dessas belas romanas que n�o possuem qualquer beleza de boneca e em quem a natureza pura triunfa sobre todas as artes do coquetismo. Os pintores n�o conseguem dizer qual a cor dos seus olhos: n�o s�o azuis, nem cinzentos, nem pretos, nem castanhos, nem verdes. Nem s�o l�nguidos nem apaixonados, como se exigissem amor ou o demonstrassem. Parecem apenas que ela � iluminada pelo amor do sol. A sua tez � levemente tingida, e contudo quente e fresca. � t�o harmoniosa que, embora morena, parece de uma brancura deslumbrante. O seu cabelo negro ergue-se em ondas fortes sobre a testa, como se se orgulhasse de cobrir e adornar cabe�a t�o espl�ndida. Nunca usa perfumes.�</p><p>C�sar de Saint-R�al, <emphasis>Memories de la Duchesse Mazarin</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>� Nell quem me alerta primeiro, quando aparece na corte, um dia, toda vestida de preto. � espera de uma repeti��o da piada do C� da Tart�ria, n�o digo nada.</p><p>� Por quem est� de luto, Nell? � pergunta algu�m por fim, dando-lhe a deixa.</p><p>� Por ningu�m � diz ela, naquele seu sotaque nasal caracter�stico. � Estou de luto pelas ambi��es de madame Carwell, que morreram e foram enterradas, agora que a duquesa de Mazarin chegou.</p><p>Arrebito as orelhas ao ouvi-lo � n�o os disparates de Nell, mas o t�tulo. Mazarin� j� ouvi esse nome antes, um mexerico qualquer dos meus dias em Fran�a.</p><p>E depois lembro-me. Algo que Madame disse uma vez, quando falava sobre o irm�o.</p><p><emphasis>Ele apaixonou-se por uma beleza italiana chamada Hortense Mancini, mas foi nos dias do seu ex�lio e o tio dela, o cardeal, considerou que ele era um candidato demasiado fraco. Portanto agora est� casado com Catarina de Bragan�a e Hortense anda a escandalizar toda a Europa como duquesa Mazarin�</emphasis></p><p>Um amor que ele n�o conseguira alcan�ar. Uma velha paix�o. <emphasis>Muito inteligente</emphasis>, penso. Pergunto-me qual dos meus inimigos a ter� trazido para Inglaterra. Estou disposta a apostar todas as minhas consider�veis pens�es em como n�o aconteceu por acaso.</p><p>Claro que estou certa. Algumas perguntas discretas feitas pelas pessoas que est�o do meu lado, e rapidamente se torna evidente o que est� de facto a acontecer.</p><p>Mazarin deixou o marido e desbaratou todo o seu dinheiro. Desde ent�o, tem andado a viver � conta de v�rios amantes ricos � de ambos os sexos, dizem � em v�rias partes da Europa; agora, depois de Montagu lhe dizer que talvez haja uma vaga em Inglaterra para a posi��o de amante do rei, foi enviada para c� �s custas dele. Ela tem um grande �dio pela Fran�a: acha que Lu�s devia ter obrigado o marido a devolver-lhe o dote.</p><p>Sei tudo isto antes de a conhecer. Estou preparada para uma mulher astuta � sabendo que ela � irm� de Olympe de Soissons, suponho que estou � espera de uma coisinha roli�a, bonita e maliciosa.</p><p>C�us, como uma pessoa se pode enganar.</p><p>Vejo-a pela primeira vez a caminhar no Parque de St. James, ao nascer do dia, com Anne Fitzroy ao seu lado, a condessa de Sussex, de quinze anos de idade. Veste roupas de homem, mal-arranjadas: tem duas espadas casualmente presas debaixo do bra�o e na outra m�o leva m�scaras de esgrima. Quando se aproxima, vejo-a melhor e quase fico paralisada.</p><p>Ela � linda. Absoluta e perfeitamente bela.</p><p>H� uma claridade simples no seu rosto, uma intelig�ncia, que me faz querer gostar dela imediatamente. � alta, esguia, de pernas compridas como um homem, mas no seu passo h� uma graciosidade, uma flexibilidade, que � totalmente feminina.</p><p>Ao ver-me, ela p�ra tamb�m, � espera de ser apresentada. Sinto o sangue a latejar nos ouvidos.</p><p>� Ol�, Annie � digo, � rapariga ao lado dela.</p><p>� Ol� � responde ela. Uma breve pausa. � Posso apresentar-lhe a duquesa Mazarin? � acrescenta, um pouco amuada por ter de partilhar esta mulher que, obviamente, idolatra.</p><p>Hortense e eu trocamos rever�ncias, ao estilo franc�s.</p><p>� Vejo que esteve a praticar esgrima � digo, para quebrar o gelo, mas tudo o que quero � regalar os olhos nela, na frescura natural do seu rosto.</p><p>Os olhos dela iluminam-se e, de s�bito, fica ainda mais bela.</p><p>� Tamb�m pratica?</p><p>� Infelizmente, n�o�</p><p>� Temos estado a lutar pela minha honra � interv�m lady Anne.</p><p>� C�us, isso parece perigoso.</p><p>� Estou a ensin�-la a defender-se � diz Hortense com um sorriso. � Nunca se sabe quando poder� ser preciso.</p><p>A rapariga pega numa das espadas e faz alguns passes no ar. Hortense coloca-se instantaneamente na posi��o de <emphasis>en garde</emphasis>, graciosa como um gato, e defende os golpes amadores de Anne com tr�s gestos casuais da espada.</p><p>� Nunca aprendi esgrima � digo.</p><p>� Posso ensinar-lhe tamb�m, se quiser � diz Hortense, em tom franco, sem tirar os olhos da espada de Annie. � Depois podemos travar um duelo. Seria divertido, n�o seria?</p><p>Talvez esteja a tentar desarmar-me, mas n�o sinto qualquer maldade nela: sou apenas um obst�culo no seu caminho. Talvez nem sequer isso. Deve estar habituada ao facto de todos os homens que conhece se apaixonarem por ela. E as mulheres, tamb�m. As ou�tras mulheres � esposas, amantes � n�o s�o verdadeiramente rivais. Pode dar-se ao luxo de n�o ter de se esfor�ar, de n�o ter de lutar por aquilo que quer.</p><p>Claro que Carlos sucumbir�. Claro que dir� a si pr�prio que tem de possuir esta mulher extraordin�ria, tal como em tempos disse a si pr�prio que tinha de me possuir. A cura para a sua impot�ncia � o namoro: na batalha para a possuir, descobrir� o seu vigor perdido.</p><p>Tudo o que posso fazer � ser paciente e ter esperan�a de que, depois, volte � minha cama, em vez de ser impotente na cama dela.</p><p>Tenho a minha estrat�gia. Um jogo de espera. � a abordagem correcta, tenho a certeza disso. Contudo, nestas manh�s, quando me levanto da cama e me sento em frente do espelho para come�ar os trabalhos necess�rios no meu rosto, sinto um grande cansa�o, como se mal tivesse dormido. Como se o esfor�o de colocar os meus vestidos deslumbrantes, as minhas j�ias, os meus colares de p�rolas e os meus broches de safiras fosse mais do que consigo suportar.</p><p>No entanto, continuo a faz�-lo. N�o me deixei vencer pela odiosa e vulgar Nell Gwynne, e n�o serei vencida pela encantadora e educada Hortense Mancini.</p><p>Assim, pinto o meu rosto, penteio o cabelo, delineio os olhos. Para qu�? O rei raramente me procura, ultimamente. Quando a corte se muda para Newmarket, como de costume, para as corridas de Primavera, o seu mordomo nem sequer me atribui alojamento. Quando pergunto a Carlos, com um sorriso, se se esqueceu de mim, ele diz, genuinamente surpreendido:</p><p>� Pensei que preferisse ficar em Londres, querida buchinha, e governar o pa�s por mim enquanto estou fora.</p><p>Tornei-me uma esp�cie de segunda esposa, t�o esquecida como a rainha. Fico em Londres e governo o pa�s. Chega-me a not�cia de que, em Newmarket, Hortense Mancini acorda cedo todas as manh�s para montar os cavalos mais r�pidos e perigosos.</p><p>Ningu�m parece saber ao certo se ela e o rei j� s�o amantes. Anne Sussex tem os aposentos por cima dos do rei, onde Hortense a visita; diz-se que o rei a visita tamb�m, mas ningu�m sabe exactamente o que se passa l�. O embaixador acredita que a duquesa est� a ter um caso com lady Anne e que o rei est� a conter-se apenas por esse motivo. Outros pensam que � tudo um jogo, para incendiar o seu desejo.</p><p>Eu continuo a planear o meu baile. Talvez, nessa altura, ela j� c� n�o esteja.</p><p>Outro poema, enfiado por baixo da minha porta.</p><p><emphasis>Parece-me que a vejo, acabada de acordar</emphasis></p><p><emphasis>Da sua cama bordada, depois de mijar;</emphasis></p><p><emphasis>Com express�o estudada e muitas caretas</emphasis></p><p><emphasis>Colocar-se perante o espelho</emphasis></p><p><emphasis>Para apagar e alisar a beleza</emphasis></p><p><emphasis>Que desapareceu nos enlaces nocturnos.</emphasis></p><p>Rochester, claro; est� de volta � corte, odioso como sempre. Diz-se que, enquanto esteve banido da corte, escreveu uma pe�a chamada <emphasis>Sodoma</emphasis> que ultrapassa em torpeza tudo o que os pr�prios romanos escreveram. H� cenas que envolvem seis homens e seis mulheres, dildos, sodomia e o resto. Foi encenada uma representa��o privada para Carlos e um grupo seleccionado dos seus amigos libertinos. Um presente para excitar a virilidade minguante de um rei.</p><p>� A verdade � diz o embaixador �, � que estamos a entrar numa fase delicada.</p><p>Esfor�o-me por lhe prestar aten��o. Courtin, � o seu nome. Um homem pequeno, elegante, discreto. Ruvigny, ao que parece, pediu demiss�o. �Um tr�fico nojento�, foi como ele resumiu esta corte de Inglaterra.</p><p>A vis�o dos Franceses a distribu�rem subornos, dizem, repugnou-o ainda mais do que a vis�o dos Ingleses a aceitarem-nos.</p><p>� Delicada porqu�?</p><p>� Sua Majestade Crist� est� inclinado a procurar a paz. Como medida tempor�ria, compreende? Uma retirada estrat�gica. Os seus negociadores est�o a reunir-se em Nimeguen neste preciso momento.</p><p>� O que tem isso a ver com Hortense Mancini?</p><p>� O maior trunfo de Sua Majestade nas negocia��es ainda � a alian�a com Inglaterra. Se se soubesse l� fora que Carlos a p�s de lado e introduziu na sua cama uma inimiga de Fran�a�</p><p>� Ele n�o me por� de lado � digo. � A minha posi��o est� mais segura do que nunca. Em breve, toda a Europa falar� do meu baile. Do meu pal�cio de gelo. Da minha festa de anivers�rio para o rei.</p><p>Ele sorri friamente. Ambos sabemos que � agora muito mais do que uma festa de anivers�rio.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>De todos os gelos extravagantes, o <emphasis>gelato luminoso</emphasis>, um gelo em volta de uma fonte de fogo-de-artif�cio, � um dos mais espectaculares.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Eu j� a vira cansada antes, mas em todo o seu tempo em Inglaterra, nunca a vira deprimida. Havia agora nela uma esp�cie de tristeza, uma resigna��o calma � n�o por estar vencida, longe disso; mas talvez por se ter apercebido de que esta seria sempre a sua sorte: uma vida inteira a lutar contra rivais mais bonitas, ou mais novas, ou mais ex�ticas.</p><p>� J� � certo � disse-me, um dia, no princ�pio de Maio. � Carlos e a Mazarin s�o amantes. Lady Anne foi enviada para a prov�ncia, mas ele passa quase tanto tempo nos seus aposentos como antes.</p><p>� Tome, fiz-lhe um cordial � disse-lhe. � � de bagas de sabugueiro destiladas. Os botic�rios dizem que � revigorante.</p><p>� Obrigada. � Ela bebeu um pouco, mas percebi que mal estava a sabore�-lo.</p><p>� Pensa que ele voltar� para si?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Come�o a desconfiar de que sou agora apenas uma esp�cie de s�mbolo para ele. N�o me deseja, na verdade; quer apenas que toda a gente pense que sim. Sou a amante francesa, t�o necess�ria para ele como um alfaiate franc�s ou um cozinheiro franc�s, nada mais.</p><p>� Nesse caso, � um louco � respondi.</p><p>� Oh, tamb�m n�o ser� fiel � Mazarin. � t�o incapaz de estar ao lado de uma s� mulher como de cumprir um tratado.</p><p>� Ent�o � duplamente louco.</p><p>� Eu n�o devia importar-me, na realidade, pois n�o? Agora tenho influ�ncia sem ser preciso deitar-me na sua cama para a obter. Houve uma altura em que era tudo o que desejava. Al�m disso, significa� � Hesitou ligeiramente. � Significa que estou tamb�m livre de outras formas.</p><p>� O que quer dizer?</p><p>N�o me respondeu directamente, mas aproximou-se da janela e olhou para o parque.</p><p>� Lembra-se do que eu respondi, daquela vez em Versalhes, quando lhe disse que n�o podia casar consigo e me perguntou se n�o pod�amos amar-nos apesar disso?</p><p>� Claro. Disse-me que n�o era como a minha amiga Olympe.</p><p>� Sim. � Falou calmamente, mas sem tirar os olhos da janela. � Era t�o orgulhosa, nesse tempo� Mas agora sou como a Olympe, n�o sou? Sou exactamente igual a ela. Uma amante do rei posta de lado.</p><p>Olhei para ela.</p><p>� Est� a dizer�</p><p>� Agora que n�o tenho honra para proteger e ningu�m a quem tenha de ser fiel, posso arranjar um amante. Se quiser.</p><p>� E quer? � perguntei baixinho.</p><p>Ela corou um pouco.</p><p>� Pensei que, j� agora, podia ver qual o motivo de tanto espalhafato.</p><p>� Tem algu�m em mente?</p><p>� Pensei em p�r um an�ncio no <emphasis>London Register</emphasis>. �Meretriz da Babil�nia, a mulher mais odiada do pa�s, procura amante. Tem de saber fazer gelados.�</p><p>� S� h� uma pessoa neste pa�s capaz disso.</p><p>� Nesse caso, terei de esperar que seja ele a responder ao meu an�ncio.</p><p>N�o consegui falar, com o cora��o subitamente cheio de mais.</p><p>� Se ainda me quiser, claro est� � acrescentou. � Todas as outras pessoas parecem ter decidido que eu n�o valho o trabalho. Compreenderei se pensar da mesma maneira.</p><p>� Oh, Louise � disse. � Louise� � Aproximei-me dela e puxei-a para os meus bra�os. � Tem a certeza?</p><p>Ela estava a acenar e a arquejar e a rir ao mesmo tempo, mas n�o se esquecera da necessidade de cautela.</p><p>� Espere � protestou. � Aqui n�o, algu�m pode ver-nos. Mas sim, tenho a certeza. Nunca tive tanta certeza de nada. Teremos de ser discretos�</p><p>� Claro. N�o sonharia em p�r em risco a sua reputa��o.</p><p>� N�o tenho reputa��o, seu tolinho. Quero simplesmente evitar ser novamente alvo de mexericos.</p><p>� Quando devo procur�-la?</p><p>� Esta noite. N�o haver� ningu�m a ver.</p><p>� Virei � prometi. � Mas� porqu� agora? O que a fez mudar de ideias?</p><p>Ela encolheu os ombros e n�o queria responder, mas eu pressionei-a e, por fim, disse-me.</p><p>� Os meus pais est�o em Inglaterra.</p><p>� Os seus pais! Onde?</p><p>� Est�o em casa de Sir Richard Browne, no Hampshire. Um velho amigo do meu pai. Combateram juntos contra os Espanh�is.</p><p>� Quando vir�o � corte?</p><p>� N�o vir�o.</p><p>� Porque n�o? � perguntei, confuso.</p><p>� N�o respondem �s minhas cartas. Mas soube que eles n�o tencionam voltar a dirigir-me a palavra.</p><p>� O qu�? Como se atrevem�</p><p>� N�o, n�o faz mal. Eu compreendo: pensam que eu os desgracei. T�m uma vis�o muito antiquada do que � honroso, percebe. E nun�ca compreender�o que a culpa foi, em parte, deles. Pensavam que os duques e os lordes fariam fila para casar comigo, por causa do meu nome. N�o conseguiram compreender que, sem dinheiro, o seu precioso nome n�o vale nada. � Estava a chorar, o que me fez perceber que n�o a via chorar h� meses. � Bom, agora estou livre deles � disse, furiosa. � Cumpri o meu dever e vejam o que ganhei com isso. De hoje em diante, vou preocupar-me apenas comigo pr�pria.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Gelado de morango e pimenta branca; sorvete de amoras silvestres e nata; leite-creme de chocolate e baunilha� Independentemente de quantas combina��es novas inventarmos, os melhores gelos ser�o sempre os mais simples.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Caminhei pelos corredores escuros do pal�cio, com uma arca de gelo nos bra�os. Se algu�m perguntasse, ia levar um gelo � amante abandonada do rei, para a consolar. Qualquer pessoa que se desse ao trabalho de verificar encontraria dentro da arca um gelado de morangos vermelhos e pimenta branca, aninhado numa grinalda de folhas de morangueiro.</p><p>Ningu�m me deteve. Ningu�m fez perguntas. O rei estava fora. Os que tinham ficado para tr�s n�o eram importantes.</p><p>Os aposentos dela, geralmente t�o apinhados com cortes�os e ministros, estavam vazios.</p><p>� Mandei-os todos embora � disse, quando me viu olhar para as sombras. � N�o seremos incomodados.</p><p>Tinha o cabelo solto, torcido numa esp�cie de corda sobre um dos ombros do <emphasis>d�shabill�</emphasis>. Estava descal�a e retirara as j�ias do rei. Mas n�o era isso que a tornava t�o diferente hoje. Parecia mais nova, de alguma forma, como se parte do cansa�o tivesse sido retirada dos seus ombros juntamente com o peso dos rubis do rei.</p><p>� Est� feliz � disse-lhe, espantado. � Acho que nunca a tinha visto feliz.</p><p>Ela aproximou-se de mim. Sem os sapatos da corte, era mais baixa do que o habitual. Pousei as m�os nos ombros dela�</p><p>� Espere � disse baixinho, beijando-me e recuando. � Quero que esta noite dure para sempre.</p><p>� J� esper�mos tempo suficiente. � Peguei-lhe ao colo e levei-a em bra�os para o quarto.</p><p>A sua pele branca, t�o branca: da cor de velas, de morangos brancos, de gelado.</p><p>Coloquei uma colherada de gelo de morango na sua barriga e levei-lha at� aos l�bios com a boca. Pass�mos a do�ura de um para o outro, at� se ter derretido em nada nas nossas l�nguas.</p><p>Ela demorou mais tempo a derreter. O gelado em breve desaparecera, mas continuei a lamb�-lo da sua barriga. Da sua barriga e do prato suave e aveludado ao cimo de cada coxa, e da sua boca, fria e cremosa com beijos e gelo.</p><p>Esperara tantos anos. Podia esperar mais alguns minutos.</p><p>At� que, por fim, com um suspiro, ela puxou a minha cabe�a para a sua e me beijou com uma s�bita paix�o desesperada, e percebi que estava preparada para sentir o prazer.</p><p>Esta era uma nova Louise. O seu desejo nessa noite � a sua <emphasis>avidez</emphasis> � quase me apanhou de surpresa. Era como se estivesse esfomeada de sensa��es h� tanto tempo que agora tinha de se banquetear com elas sem limita��es.</p><p>No entanto� no entanto�</p><p>N�o lhe disse isto, mas enquanto est�vamos deitados, juntos, senti a presen�a de uma terceira pessoa no quarto � ou talvez seja mais correcto dizer que senti a aus�ncia dele. Quando ela virava a cabe�a, assim, era porque ele a beijara <emphasis>ali</emphasis>, na face; quando olhava para mim com aqueles olhos sonolentos e sorridentes, era porque ele gostava que olhasse assim para ele. Quando arquejava, era um arquejo que ele ouvira mil vezes.</p><p>E quando o paroxismo se apoderou dela, todos os m�sculos tensos enquanto aguardava o momento da liberta��o, murmurando impreca��es em franc�s demasiado depressa para eu compreender, foi quase como se nos tivesse deixado a ambos, levada pelo prazer para um s�tio onde nenhum de n�s a poderia seguir.</p><p>� bem sabido, claro, que no meio do �xtase do amor podemos sentir um momento de tristeza inesperada. Senti-a nessa noite. Conseguira aquilo que o meu cora��o desejava e n�o estava desapontado � longe disso � mas faltava alguma coisa, algo que eu n�o conseguia identificar ou nomear.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>P�ssegos brancos, perfeitamente maduros, com o perfume dos �ltimos dias de Ver�o. Chocolate, espesso e macio e rico com nata. Na verdade, n�o h� combina��o mais divina de gelos neste mundo.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>Lancei-me nos preparativos para o baile do gelo. Nada foi deixado ao acaso. Fiz uma miniatura do lago de patinagem, para me certificar de que funcionava, e um modelo � escala do pal�cio de gelo, no qual uma Louise e um Carlos de papel se sentavam em tronos min�sculos a receber uma fila de convidados de papel. Quanto aos gelados, fiz experi�ncias com sabores extraordin�rios. Fiz um gelado que fumegava, levemente, ao acender uma pequena pilha de folhas de tabaco por baixo de um <emphasis>frigidarium</emphasis> perfurado: � medida que as folhas se consumiam, o fumo fragrante atravessava a mistura, perfumando-a. Fiz um gelo envolto numa tarte quente de merengue e outro que continha no seu centro uma bola fervilhante de molho de caramelo. At� fiz um gelado com ma��s que come�avam a apodrecer: o sabor era perfeitamente decadente, rico com os sucos da mortalidade, e ao mesmo tempo doce como <emphasis>brandy</emphasis>.</p><p>No entanto, para o rei, criei um gelo que era simultaneamente simples e extraordin�rio. Na verdade, a ideia fora de Wren, naquele dia no Garraway�s, quando sugerira distraidamente que eu transformasse a nova bebida da moda, o chocolate, num gelo. Quando combinei ovos, xarope e nata com cacau em p� e uma d�zia de tabletes de chocolate, fiz um gelado t�o voluptuoso, t�o espesso e suave que nada mais poderia ser a atrac��o principal.</p><p>Lembrei-me da t�bua de sorvetes de p�ra que fizera para Lu�s XIV. Como me pareciam agora primitivos! Contudo, como Lu�s dissera, h� virtude na simplicidade. Fiz uma t�bua de gelos de chocolate � primeiro um gelado de chocolate simples; depois um de chocolate perfumado com rosmaninho; outro que combinava chocolate e hortel�, depois chocolate e laranja, chocolate e framboesa, chocolate e cerejas e, finalmente, um gelo escuro e pungente basea�do no <emphasis>sanguinaccio</emphasis> de Floren�a, chocolate com sangue e pinh�es.</p><p>De poucos em poucos dias, ia ver Louise, mostrar-lhe aquilo que fizera. E, sob o disfarce do secretismo � �Esta parte ser� surpresa: t�m de nos deixar a s�s� � as damas de companhia e os ministros de Estado e os pintores e os ociosos eram enxotados dos seus aposentos e lev�vamos ansiosamente os meus gelos para a cama dela.</p><p>Fiz um gelado de p�ssegos brancos e alm�scar � aquilo a que ela me sabia � e perfumei-o com uma ou duas gotas do perfume de �gua de rosas que ela usava.</p><p>Quando olhei para o meu modelo do pal�cio, achei que faltava alguma coisa. Fiz um boneco de neve e coloquei-o sobre um pedestal no �trio do pal�cio de gelo, logo atr�s do rei e da sua amante. Quando os foli�es entrassem no pavilh�o, cristais min�sculos de neve perfumada flutuariam e cintilariam sobre as suas cabe�as, enquanto o boneco de neve sorria o seu sorriso inescrut�vel e lhes dava as boas-vindas ao baile.</p><p>Hannah veio falar comigo.</p><p>� Venho dar o meu pr�-aviso � disse, sem pre�mbulos. � O meu navio parte de Bristol dentro de tr�s semanas.</p><p>Olhei para ela, surpreendido.</p><p>� Mas� e o baile de gelo?</p><p>� Terei de o perder. E lamento muito, pois parece que ser� uma ocasi�o memor�vel. Mas se n�o apanharmos este barco perderemos a nossa passagem para a Am�rica.</p><p>Reparei no plural.</p><p>� O Elias tamb�m vai?</p><p>� Sim. Ficar� muito triste de o deixar. Gostou do tempo que passou a trabalhar para si.</p><p>� Isto � muito inconveniente � queixei-me, irritado. � Estamos mais ocupados do que nunca. O pr�prio rei conta connosco�</p><p>� Lamento muito � interrompeu ela em tom paciente. � Mas h� anos que andamos a planear isto. Nunca me perguntou durante quanto tempo trabalhar�amos para si. Se o tivesse feito, j� saberia.</p><p>� Ent�o, se tem mesmo de ir, deixe ficar o rapaz � ouvi-me dizer.</p><p>� Deixar o Elias! Como poderia fazer uma coisa dessas?</p><p>� Eu era mais novo do que ele quando deixei os meus pais. Eles deixaram-me ir porque� � Fiz uma pausa. � Porque sabiam que eu teria um futuro melhor. Que me tornaria um homem da corte. Tal como o Elias. Ensinar-lhe-ei os meus segredos, Hannah, tal como o meu mestre me ensinou. Ele ser� um homem rico. Um favorito de reis e imperadores. Depois deste baile, a nossa fama chegar� ainda mais longe, estou certo disso. Lev�-lo-ei a Paris, a N�poles, a Espanha�</p><p>� Mas n�o � esse o futuro que eu escolho para ele � disse Hannah.</p><p>� Porque n�o? Que mais poderia desejar?</p><p>� Que mais poderia desejar? � repetiu ela, com um sorriso triste. � Um reino sem reis. Uma Igreja sem igrejas. Um pa�s onde n�o haver� v�nculos: nem de propriedade, nem de privil�gio, nem de nascimento. Um s�tio onde nenhum homem nascer� com estribos nas costas, para ser montado por outros homens. Onde cada homem poder� escolher a sua forma de venera��o; sim, e cada mulher tamb�m, e as �nicas leis a que deveremos obedi�ncia ser�o as que est�o escritas no nosso cora��o.</p><p>Suspirei.</p><p>� Nesse caso, o seu novo pa�s ser� uma matilha de animais. Sem leis nem l�deres, simplesmente lutar�o uns com os outros.</p><p>� Se precisarmos de l�deres, seremos n�s a escolh�-los. Se precisarmos de leis, n�s pr�prios as faremos. � Hesitou. � Talvez devesse vir tamb�m.</p><p>� Para a Am�rica?</p><p>� Porque n�o? H� muito gelo no Inverno e dizem que os Ver�es s�o quentes. As condi��es perfeitas para um vendedor de gelos, parece-me. � Encolheu os ombros. � Gelados e tartes. Quase que combinam, n�o �? Talvez pud�ssemos montar um neg�cio juntos, n�s os dois.</p><p>Olhei para ela.</p><p>� Os meus gelados s�o comprados por reis e cardeais. Nenhum dos quais, segundo sei, existe na Am�rica.</p><p>� Claro � disse ela calmamente. � Perdoe-me. Foi uma sugest�o est�pida.</p><p>Deu a volta � copa e arrumou as suas coisas em sil�ncio durante algum tempo. Depois, ao dirigir-se � porta, disse:</p><p>� Esta � a minha �ltima oportunidade de dizer isto, portanto vou diz�-lo. Aquilo que tem agora, com a Louise de Keroualle� � escravid�o, n�o � amor.</p><p>Rigidamente, respondi:</p><p>� N�o � da sua conta.</p><p>� Mas � � disse ela, com alguma tristeza. � Oh, � sim.</p><p>� Porqu�?</p><p>Mas ela n�o me respondeu directamente.</p><p>� Parece-me que h� dois tipos de amor � disse. � O amor que nos acontece e o amor que convidamos. O amor que nos acontece sem convite � uma coisa f�sica, como uma doen�a, e, como uma doen�a, deixa-nos fracos. � um amor que tem de doer, porque se baseia na necessidade de possuir algu�m e n�o em afecto ou respeito. Mas o amor que convidamos� aquele que duas pessoas escolhem ter juntas� esse cresce, todos os dias, de origens modestas. � como um fogo que pode ser mantido apenas com a temperatura suficiente para cozinhar e aquecer a casa, mas que n�o tem permiss�o para grassar enquanto n�o consumir toda a cidade, como o grande inc�ndio de Londres. Mas n�o podemos faz�-lo sozinhos. S�o precisas duas pessoas.</p><p>Irritado, perguntei-lhe:</p><p>� Que conversa louca � essa sobre fogos e cozinhados? V� para a Am�rica, mulher, com o seu bastardo. V� e o Diabo que a carregue. Acabar� como meretriz l�, tal como foi uma meretriz aqui em Inglaterra.</p><p>Lentamente, ela disse:</p><p>� Perguntou-me um dia porque fui ao seu quarto, daquela primeira vez. N�o lhe disse a verdadeira raz�o. Fi-lo porque gostava de si. E pensei que talvez conseguisse aliviar a sua melancolia. Mas acabei por compreender que nenhuma mulher conseguir� faz�-lo.</p><p>� Uma consegue � retorqui, secamente. � Na verdade, j� conseguiu.</p><p>� Ent�o n�o � o amor que o entristece, pois n�o est� menos melanc�lico do que antes � respondeu ela baixinho. � Devem ser os seus segredos. Enquanto n�o decidir abandon�-los, acho que nunca ser� livre.</p><p>Olhou para mim durante um momento e depois, sem mais uma palavra, deu meia-volta e saiu.</p><p>No dia seguinte partiu para Bristol, sem sequer se despedir.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>O rei, de volta de Newmarket, visita-me solicitamente. Mas apenas � tarde. � noite, est� noutros lados.</p><p>Uma tarde assistimos ao concerto dado por uns m�sicos visitantes. Estes convidam o rei a escolher uma can��o.</p><p>� Perguntem � buchinha � diz. � Ela conhece estas baladas francesas melhor do que eu.</p><p>� Cantem aquela que come�a por �Deixem-me morrer de dor, mas n�o de ci�me� � pe�o. Ele sorri, percebendo a piada.</p><p>Mais tarde, os m�sicos dedilham as suas guitarras.</p><p>� Dan�amos? � pergunta ele.</p><p>� N�o conseguiria dan�ar esta m�sica, senhor � respondo. � � demasiado mexida e fren�tica para dan�ar.</p><p>Ele vira-se para tr�s.</p><p>� Algu�m quer dan�ar?</p><p>� Eu � responde uma voz, e Hortense Mancini avan�a para o espa�o entre os m�sicos e as nossas cadeiras. Sem qualquer embara�o, adopta uma pose: uma perna dobrada, os bra�os erguidos acima da cabe�a.</p><p>Recordo-me da sua posi��o <emphasis>en garde</emphasis>: flex�vel, equilibrada, � espera.</p><p>Depois a m�sica come�a � r�pida e estonteante. Ela rodopia e bate os p�s e estala os dedos � h� uma parte de mim que quer dizer: <emphasis>Oh, veja, Carlos, ela dan�a como uma cigana napolitana.</emphasis> Mas as palavras ficam-me presas na garganta. A dan�a � cruamente sensual, pag�. Mas Hortense n�o dan�a apenas para o rei: � tamb�m para mim que vira o olhar penetrante, os olhos brilhantes. Mal consigo respirar. Olho de soslaio para o rei. Est� a olhar fixamente para ela.</p><p>Quando acaba e faz uma v�nia despreocupada para a corte que a aplaude, somos n�s, e n�o ela, que estamos ofegantes.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Gelado de chocolate: este n�o � um gelo f�cil de fazer, mas o resultado compensa o esfor�o. Misture meia ch�vena de chocolate em p� e meia ch�vena de a��car. Junte leite frio suficiente para formar uma pasta, depois duas ch�venas de leite quente. Ferva em lume muito brando, mexendo sempre, durante oito minutos. Depois tire do lume e misture cento e setenta gramas de chocolate em tablete, partido em bocadinhos muito pequenos. Numa tigela � parte, bata seis gemas de ovo com meia ch�vena de a��car at� formar um creme esbranqui�ado. Junte a mistura de chocolate, mexendo vigorosamente. Aque�a, mas sem deixar ferver; junte meia ch�vena de xarope de a��car; arrefe�a num banho de �gua fria e, finalmente, acrescente duas ch�venas de natas espessas antes de congelar.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>O rei pedira um gelo, o primeiro em muitos meses. Fiz um gelo de chocolate e passas e levei-o aos seus aposentos.</p><p>� Ele est� no laborat�rio � disse-me o lacaio. � Pode entrar.</p><p>Encontrei o laborat�rio cheio de um fumo malcheiroso e o rei a tossir.</p><p>� Ah, signor Demirco � disse, em tom animado. � Nunca misture enxofre e magn�sia.</p><p>� Com certeza, senhor.</p><p>Junto da janela, estava um grande prisma de vidro. Fora colocado de forma a captar a luz do sol, espalhando-a num arco-�ris de cores. N�o pude deixar de perguntar a mim pr�prio como seria alcan�ado aquele efeito, pois o vidro parecia ser simples e n�o tinha nada l� dentro.</p><p>Quando me viu a olhar, o rei acenou.</p><p>� Pode pegar-lhe.</p><p>Assim fiz, e espreitei para dentro do prisma, mas as cores desapareceram instantaneamente. S� quando o voltei a colocar ao sol � que o arco-�ris reapareceu.</p><p>� Foi um dos meus <emphasis>virtuosi</emphasis> que o fez � disse ele. � Mostra de que � feita a luz.</p><p>� Mas com certeza que a luz vem de Deus?</p><p>� � o que nos ensinam. Mas este homem atreveu-se a olhar para dentro da luz de Deus e descobriu que, como qualquer outra subst�ncia, tem a sua composi��o e as suas quantidades. E assim, mais uma ilus�o infantil � desfeita pelo cepticismo frio da ci�ncia. � Ficou um momento em sil�ncio. � Como est�o a correr os preparativos para o baile da duquesa de Portsmouth? Ela tem tudo aquilo de que precisa?</p><p>� Sim, obrigado, senhor.</p><p>� Gosto muito da duquesa, <emphasis>signor</emphasis>.</p><p>� Claro � respondi, sem saber bem o que dizer.</p><p>� Significa isto que n�o quero que ela tenha falta de nada que seja necess�rio para sua divers�o. � Virou-se de novo para a bancada. � Ou para o seu conforto.</p><p>Acenei, incapaz de falar, pois compreendi sobre o que est�vamos realmente a falar.</p><p>� N�o tenho podido estar tanto com Sua Gra�a, ultimamente, como desejaria. A press�o dos neg�cios�</p><p>Olhou para o gelado de chocolate em cima da mesa. Um dos seus c�es saltou para o banco, inclinou a cabe�a para o lado e enfiou a l�ngua na ta�a. Poucas lambidelas depois, o gelado desaparecera.</p><p>� N�o sou, por natureza, um homem ciumento � disse ele, baixinho. � Certifique-se de que tamb�m n�o o �, <emphasis>signor</emphasis>, e n�o teremos problemas. � Tocou no prisma de vidro, rodando-o e fazendo o arco-�ris girar pela sala. � �s vezes, n�o � bom analisar demasiado a natureza das coisas. �s vezes, pode haver demasiada luz.</p><p>Percorri as ruas de Londres imerso em pensamentos. Caminhei durante v�rias horas, at� estar escuro.</p><p>Depois virei na direc��o de Whitehall.</p><p>Fui aos aposentos de Louise. No entanto, apesar de ser j� muito tarde, o meu caminho foi bloqueado por dois lacaios que n�o me eram familiares.</p><p>� N�o pode entrar � disse um deles.</p><p>� Diga-lhe que �</p><p>� Ningu�m pode entrar. Nem mesmo n�s.</p><p>Recuei.</p><p>� Sou o confeiteiro dela. � Percebi como era d�bil esta desculpa. Nesse momento, a porta abriu-se e o embaixador franc�s saiu. Lan�ou-me um olhar matreiro e afastou-se.</p><p>Esperei. Poucos minutos depois, saiu Thomas Osborne � ou lorde Danby, como dev�amos chamar-lhe desde que fora nomeado lorde Tesoureiro. Tamb�m ele me lan�ou um olhar r�pido antes de se afastar.</p><p>Presumindo que a reuni�o, fosse l� qual fosse, terminara, avancei mais uma vez na direc��o da porta � apenas para descobrir que o caminho continuava barrado.</p><p>� Sua Majestade n�o deseja ser incomodado.</p><p>� Sua Majestade! � Olhei para a porta, tentando imaginar o que se estava a passar do outro lado. � Esperarei at� ele sair.</p><p>O lacaio encolheu os ombros, como se quisesse dizer que lhe era indiferente.</p><p>*</p><p>Sentei-me num banco junto de uma janela pr�xima e esperei. O dia estava a nascer quando a porta se abriu finalmente e uma figura familiar saiu.</p><p>N�o me mexi, mas a luz da janela devia estar a iluminar-me o rosto, porque ele se aproximou. L� em baixo, no Parque de St. James, um pequeno grupo de veados movia-se silenciosamente entre a neblina matinal.</p><p>� Mais um belo dia, <emphasis>signor</emphasis> � disse ele, olhando para fora. De�pois afastou-se, os passos largos a ecoarem pelo corredor, os lacaios a marcharem nos seus calcanhares.</p><p>Os aposentos dela tinham crescido tanto que demorava uma eternidade s� para chegar ao seu quarto. Todas as superf�cies estavam cobertas de quadros e tape�arias; todos os cantos continham um arm�rio franc�s trabalhado ou uma jarra preciosa. As velas ardiam em grandes candelabros de vidro por cima da minha cabe�a, candelabros que estremeciam e tilintavam suavemente quando eu passava por baixo deles.</p><p>Ela estava tamb�m de p� junto de uma janela, envolta apenas numa camisa de l� comprida, com o cabelo ca�do sobre um ombro, a olhar para a neblina que se confundia com a superf�cie do lago.</p><p>Quando entrei, virou-se. N�o parecia particularmente surpreendida por eu ali estar.</p><p>� Vim avis�-la � disse. � Dizer-lhe que o rei sabe sobre n�s. Parece que cheguei tarde de mais.</p><p>Ela assentiu.</p><p>� O que se passa? � perguntei.</p><p>� A noite passada, nestes aposentos, ele assinou um novo tratado com Fran�a.</p><p>� Um tratado secreto, presumo?</p><p>� Sim. Substitui o Tratado de Dover. Em troca de uma nova pens�o de Lu�s, Carlos suspender� o parlamento e comprometer� Inglaterra em mais uma guerra com os Holandeses.</p><p>� Outra! Mas o sangue derramado na �ltima ainda mal secou!</p><p>� Vai receber quatro milh�es de coroas de ouro. O suficiente para pagar por todas as amantes que alguma vez pudesse desejar. O suficiente para reconstruir o Castelo de Windsor. O suficiente para viver como um rei.</p><p>� <emphasis>Como</emphasis> um rei?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Daqui em diante, Fran�a tomar� todas as decis�es que tenham a ver com a pol�tica externa de Inglaterra. Aquilo que Carlos faz em casa, claro, n�o tem qualquer import�ncia.</p><p>� E a sua convers�o? A convers�o do pa�s? Todas as esperan�as que Madame tinha para a alma dele?</p><p>� Madame era pragm�tica nestes assuntos. No meu tratado, Carlos promete apenas nunca abandonar a rainha. O seu herdeiro ser�, assim, o seu irm�o Jaime, que j� � cat�lico. A Inglaterra tornar-se-� cat�lica depois de Carlos morrer.</p><p>� Mas as suas esperan�as de vir a ser rainha�</p><p>� Eram tamb�m impratic�veis � interrompeu ela. � J� devia ter aceitado isso h� mais tempo. J� tenho trabalho suficiente sendo apenas aquilo que sou.</p><p>� E o que �? � inquiri, embora inutilmente, pois os len��is revoltados j� me tinham respondido.</p><p>� Ele voltou para mim � disse ela, simplesmente. � Sou novamente a amante do rei.</p><p>� E� � assim? � perguntei, desesperado. � Ele entra e reivindica-a e eu sou posto de lado?</p><p>Ela lan�ou-me ent�o um olhar de s�bita pena � n�o por eu me sentir assim, mas por eu n�o ter compreendido.</p><p>E, com uma claridade repentina, compreendi.</p><p>� Isto n�o � coincid�ncia, pois n�o? � perguntei, lentamente.</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>� O rei tinha-se fartado de si. Precisava de uma forma de reacender o interesse dele. Um <emphasis>jogo</emphasis>. � Ocorreu-me outro pensamento. � H� orif�cios de vigil�ncia? � Olhei para os pain�is pintados por cima da cama, os espelhos artificiosamente colocados nos cantos do quarto. � Disse-lhe quando podia vir assistir? Quando eu estaria aqui? Onde se colocar, para melhor revigorar a vara do velho Rowley?</p><p>� N�o lhe disse nada � respondeu ela, em tom fatigado. � Nis�so, pelo menos, est� enganado.</p><p>� Mas permitiu que outros o fizessem.</p><p>� N�o tenho culpa que o pal�cio esteja cheio de espi�es. Carlo, devia estar satisfeito com este desfecho. Longe de se mostrar ciumento, o rei deixou bem claro que tem a b�n��o dele. Nem todos os homens seriam t�o compreensivos. � um sinal do quanto eu sou agora importante para ele.</p><p>� Ser� a mulher mais detestada de Inglaterra, se houver outra guerra.</p><p>� N�o estou aqui para ser popular. Al�m do mais, os meus filhos receber�o t�tulos. O pequeno Carlos ser� educado como protestante. Ser� um dia bar�o Settrington, conde de March e duque de Richmond. � Revirou os t�tulos ingleses na l�ngua, saboreando cada palavra. � Uma boa recompensa por um pouco de tro�a, n�o lhe parece?</p><p>� Diga-me uma coisa � pedi. � Quando nos deit�mos juntos� naquela cama� � Nem conseguia olhar para ela. � Alguma coisa foi real, ou foi apenas para excitar o rei?</p><p>� Oh, foi real. Tem de acreditar. Senti mais prazer do que algu�ma vez sentira.</p><p>� E? � pressionei. � Certamente que isso significa alguma coisa para si?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Prazer � prazer � disse, apenas. � N�o significa nada. N�o muda nada. � agrad�vel, sim, mas comparado com as coisas importantes� planear e alcan�ar e fazer toda a Europa marchar ao som de um s� tambor� em compara��o com mudar o mundo, n�o � nada.</p><p>� Ent�o n�o me ama.</p><p>� N�o como me ama a mim, n�o. E sabe uma coisa? Ainda bem. Odiaria ter o meu discernimento afectado por uma paix�o dessas. � como o t�nis� quando jogamos por amor, jogamos por nada. Portanto o amor, no fim, n�o significa nada.</p><p>Pousou a m�o no meu ombro.</p><p>� � melhor assim. Ver�, Carlo. Venha para a cama. Dev�amos celebrar.</p><p>Deixei-a nesse momento.</p><p>Virei-me e sa� dos aposentos dela, vendo que as salas exteriores j� estavam a encher-se de peticion�rios ansiosos por obter a melhor posi��o na sua <emphasis>ruelle</emphasis>. Sa� daquele pal�cio decr�pito e enorme, passando por libertinos ainda b�bados da noite anterior e por grandes damas que se apressavam a regressar a casa, com os seus vestidos de baile. Passei por cortes�s que sa�am em bicos de p�s dos aposentos de ministros e por lacaios ensonados que retiravam os cotos das velas dos candelabros de prata. � medida que a grande colmeia de cinismo e deboche acordava para mais um dia, deixei-a sem olhar para tr�s uma �nica vez.</p><p>Atravessei o Parque de St. James. Um dos veados levantou a cabe�a para olhar para mim: um macho, com a cabe�a coberta de chifres, a guardar as suas f�meas.</p><p>As cozinhas no Red Lion estavam silenciosas, agora que Hannah partira. N�o havia o cheiro a tartes a pairar na sala de jantar, nem o aroma de ervas frescas a macerar no fog�o.</p><p>Ela deixara o seu local de trabalho muito arrumado. Os bens perec�veis tinham sido dados a vizinhas ou amigas, as panelas e instrumentos vendidos no mercado por dinheiro vivo.</p><p>Sobre a mesa estava um livro. Peguei-lhe, pensando porque o teria deixado ficar para tr�s.</p><p>Culpeper. <emphasis>O Herb�rio Completo</emphasis>. Abri a capa. Na primeira p�gina, em branco, ela escrevera:</p><p>Signor,</p><p><emphasis>Este livro est� livremente acess�vel no lugar para onde vou. Portanto pode ficar com ele; eu comprarei outro. Mas, por favor, mantenha-o em seguran�a e n�o deixe que eles o queimem.</emphasis></p><p><emphasis>Da sua amiga, Hannah Crowe</emphasis></p><p>Folheei-o.</p><p>Meloas� Pepinos� Bardana�</p><p><emphasis>As urtigas s�o t�o bem conhecidas que n�o precisam de descri��o; podem ser encontradas, pelo tacto, at� na noite mais escura.</emphasis></p><p>Camomila� Hortel� Agri�o�</p><p>Mereceria um livro de plantas realmente ser queimado?</p><p>Estaria Carlos certo, quando me falara sobre o prisma? Haver� realmente conhecimento perigoso, ou secreto?</p><p>Peguei na minha carro�a e dirigi-me a Barn Elms. Os construtores, com luvas para se protegerem do frio, estavam a trabalhar, i�ando para os seus lugares os grandes blocos de gelo esculpido e moldado que formariam a fachada do pavilh�o. Ao seu lado, o lago de patinagem j� estava terminado, coberto com palha para se manter fresco.</p><p>Vagueei pelo local, inspeccionando os trabalhos. Mesmo agora, os raios de sol estavam a humedecer a superf�cie dos blocos de gelo. Quando estivesse conclu�do, o pal�cio de gelo duraria uns dias, duas semanas no m�ximo.</p><p>Seria um triunfo � claro que sim. Tudo o que ela fazia era um triunfo. As pessoas falariam desta extravag�ncia durante anos. Quanto aos sabores dos meus gelados, o que se diria sobre eles? Nada � pois como poderia algu�m falar sobre algo que t�o poucos tinham experimentado e que ningu�m conseguia imaginar?</p><p>Desapareceriam, como flocos de neve no Ver�o. Como o bone�co de neve de Miguel �ngelo, levado pela chuva.</p><p>Dois aprendizes estavam a brincar entre uma pilha de sobras de lascas de gelo. Enquanto atiravam um ao outro punhados de gelo, as lascas espalhavam-se e captavam o sol sobre as suas cabe�as, um arco-�ris cintilante e colorido. As crian�as gritaram e deram vivas, antes de o capataz os p�r na ordem com um grunhido.</p><p>Carreguei a carro�a com gelo e ferramentas. Para leste, estendia-se a estrada de regresso a Londres � a nova Estrada do Rei, ainda inacabada, mas que beneficiaria certamente em breve de algumas dessas <emphasis>livres</emphasis> francesas. Para oeste, estendia-se a grande estrada que levava � costa mais distante de Inglaterra: os portos de Plymouth, Bristol e Torquay.</p><p>Segui para oeste, na direc��o do sol poente.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>CARLO</emphasis></p><p>Poucos prazeres, na verdade, podem ser feitos de forma t�o pouco dispendiosa como um gelo.</p><p><emphasis>O Livro dos Gelos</emphasis></p><empty-line/><p>A seguir a Slough encontrei uma pequena feira de cavalos. N�o era nada de especial, o que a tornava precisamente mais especial: crian�as em p�neis mostravam a sua habilidade com pequenos obst�culos; havia malabaristas e vendedores de rendas, uma competi��o pela maior ab�bora e outra pela vaca com o leite mais r�pido. Nas bancas do mercado vendiam-se uvas-espins, groselhas negras, damascos e nozes.</p><p>Fiz um gelado de groselha negra e servi-o com as natas doces e ricas do leite.</p><p>Em Maidenhead fiz um gelo de creme de lim�o e hortel�, e vendi-o no dia do mercado por meio dinheiro o copo.</p><p>Em Newbury comprei uvas-espins e fiz uma mousse de gelado.</p><p>Em Hungerford quase causei um motim com um gelado de avel�s. Tinha preparado dez litros mas a procura foi tal que muitas pessoas tiveram de partilhar a sua dose. Vi raparigas e rapazes do campo a lamberem a mesma colher e, quando parti, havia dan�as em volta dos mastros enfeitados.</p><p>Em Castle Combe passei as noites a escrever as minhas receitas e a explicar como tornar o gelo mais frio com sal.</p><p>Na feira de Marlborough fiz uma demonstra��o � as pessoas acharam que era um truque e n�o paravam de perguntar umas �s outras como � que eu estava a engan�-las. Tive de dar o gelado de gra�a para que acreditassem em mim.</p><p>Em Bath, estacionei a carro�a em frente da Assembleia. Fiz um gelo de nectarinas e outro de pist�cios e vi os lordes e damas elegantes darem saltinhos de alegria como gente do campo.</p><p>Quando cheguei a Bristol, j� gastara todo o meu gelo, excepto um �ltimo meio litro. Pu-lo no quarto e, enquanto escrevia o meu livro de gelos, vi-o transformar-se em �gua � l�mpida e fresca e pura.</p><p>Bebi-a com algumas gotas de sumo de lim�o e um raminho de ceref�lio.</p><p>Bristol � uma cidade grande � a maior de Inglaterra, a seguir a Londres. Diz-se que � poss�vel obter aqui bom gelo, para uso da aristocracia. No entanto, por agora, tive a minha conta de gelos.</p><p>Encontrei um tal senhor Gregory, um vendedor de livros, que concordou em imprimir o livro. Parece um pouco surpreendido por eu n�o querer dinheiro. Tenho os meus instrumentos e a minha arte: � o suficiente, para mim.</p><p>Pergunto-me se encontrarei Hannah na Am�rica. Parece pouco prov�vel � mesmo segundo o mapa inacabado que comprei, � evidentemente um pa�s muito grande. Por�m, de alguma forma, n�o parece imposs�vel. De alguma forma, nada parece imposs�vel, num pa�s t�o novo e fresco que ainda nem sequer foi devidamente cartografado.</p><p>Um s�tio onde nenhum homem nasce com estribos nas costas, para ser montado por outros homens.</p><p><emphasis>Um mapa do mundo novo e exacto.</emphasis></p><p>Mesmo que n�o a encontre, encontrarei amor. Disso, estou certo. Sentirei o esp�rito da gra�a de Deus dentro de mim, tal como ela descreveu.</p><p>E enquanto estou aqui sentado nesta estalagem, a escrever, � espera do meu barco que s� chega dentro de duas semanas, bebo um gole de �gua e sinto, algures nas profundezas do meu peito, um estilha�o de algo duro e frio, algo que l� est� desde que me lembro, que come�a finalmente a derreter.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>LOUISE</emphasis></p><empty-line/><p>Claro que me odeiam. Como poderiam n�o me odiar?</p><p>� certo que sou agora a mulher mais odiada de Inglaterra. Agora que os rapazes ingleses est�o novamente a morrer com as balas dos mosquetes holandeses no peito, a afogarem-se com os canh�es holandeses a ecoarem-lhes nos ouvidos. Agora que Hortense Mancini, cansada das aten��es e tamb�m das hesita��es de Carlos, partiu para a Europa com o pr�ncipe do M�naco, levando consigo todos os presentes do rei.</p><p>Consta que Thomas Osborne, lorde Danby, partilha os meus afectos com o rei. N�o � verdade � ele tem uma esposa de mau g�nio e pareceu-me um bom passo pol�tico deix�-lo encantado � mas muitas pessoas acreditam nisso, incluindo o rei.</p><p>Danby e eu temos algo muito mais interessante em comum. Dividimos entre n�s a venda dos cargos de Estado menores. Ningu�m est� muito interessado em saber se � este ou aquele fidalgo que � nomeado xerife do Hampshire ou Guardador dos Patos Reais, portanto decidimos de acordo com os emolumentos que nos s�o oferecidos. Quem pode colocar objec��es a isso? Todos os membros do parlamento recebem subornos. Se algum deles causar problemas, pe�o simplesmente � embaixada francesa que me fa�culte os recibos.</p><p>Contudo, a ironia � que toda esta corrup��o acabou por se revelar um desperd�cio do ouro de Fran�a. As guerras contra a Holanda, que quase a levaram � bancarrota, n�o foram vencidas � e os poucos territ�rios que Fran�a conseguiu conquistar pertenciam � Espanha, n�o aos Holandeses. Foram os Ingleses que acabaram por conseguir o maior pr�mio: Nova Amesterd�o, agora chamada Nova Iorque.</p><p>Foi tamb�m a guerra holandesa que alertou os Ingleses para as extraordin�rias capacidades do sobrinho de Carlos, Guilherme de Orange. Se ele consegue defender a Holanda contra os Franceses, pensam as pessoas, n�o poderia fazer o mesmo pela Inglaterra? Assim, Danby arranjou um casamento secreto entre Guilherme e Anne, a filha mais velha do duque de Iorque, um noivado do qual estou a par h� muito tempo mas que � pelas minhas pr�prias raz�es � n�o levei � aten��o dos meus mestres em Fran�a.</p><p>Estou a dar uma no cravo e outra na ferradura, compreendem.</p><p>Por�m, nem mesmo essa alian�a trouxe paz. Buckingham e Arlington podem estar acabados, mas lorde Shaftesbury ainda continua a maquinar no lugar deles. Os seus <emphasis>Whigs</emphasis> est�o a fomentar conspira��es fant�sticas: j� perdi a conta aos livros, baladas, s�tiras e panfletos que me foram colocados debaixo da porta, as gravuras pornogr�ficas que afirmam mostrar a Meretriz da Bretanha a divertir-se com o seu regimento de amantes papistas.</p><p>Nell Gwynne gosta de contar a hist�ria de como foi atacada por uma multid�o enquanto ia pelas ruas na sua carruagem. Ao perceber, pelos gritos, que as pessoas tinham confundido a carruagem dela com a minha, debru�ou-se na janela e gritou:</p><p>� N�o, boa gente� eu sou a puta protestante! � Ao que o povo lhe deu tr�s vivas e a escoltou at� casa.</p><p>Se tivesse sido eu, como ela observa presumidamente, ao fim desse dia podia ter havido menos um cat�lico em Inglaterra.</p><p>Contudo, se me odeiam, fa�am a v�s pr�prios esta pergunta: que outra coisa poderia eu ter feito?</p><p>Podia ter casado com um nobre menor e produzido uma s�rie de herdeiros. Podia ter ido para um convento e chegar � suponho � a Madre Superiora. Podia ter sido a companhia de alguma grande dama, ajudando-a com a sua costura e as contas do lar.</p><p>Podia ter casado com um fazedor de gelados a quem n�o amava, e vivido uma vida burguesa confort�vel � sombra de uma corte, rodeada pelos nossos filhos.</p><p>Assim, existem rainhas que n�o possuem tanta influ�ncia como eu, e ministros que n�o t�m o meu alcance. Aconte�a o que acontecer neste pequeno estranho e b�rbaro pa�s � sejam quais forem as alian�as que estalem e se desfa�am sob os meus p�s � continuarei a avan�ar e a prosperar.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>NOTA HIST�RICA</emphasis></p><p>� uma heresia, segundo o credo de um verdadeiro amante, alguma vez forjar uma infidelidade. Mas quando a mera natureza � o motivo, � poss�vel um homem pensar de forma mais justa do que a opini�o comum, e argumentar que uma rival n�o tira nada sen�o o cora��o, e deixa tudo o resto.</p><p><emphasis>George Savile, marqu�s de Halifax, sobre Carlos II</emphasis></p><p>Na altura da morte de Carlos II, em 1685, Louise de Keroualle tinha trinta e quatro anos de idade. Voltou para Fran�a como uma mulher rica, retirando-se para o seu feudo ducal de Aubigny, onde viveu uma vida discreta at� � morte, aos oitenta e cinco anos de idade. Voltaire conheceu-a quando ela tinha setenta e descreveu-a como tendo �um rosto ainda nobre e agrad�vel, que os anos n�o destru�ram�. Nunca casou, dedicando-se em vez disso a obras de caridade e ao jogo de apostas elevadas.</p><p>A �bonita e espirituosa Nell�, como Pepys lhe chamava, morreu em 1687, aos trinta e sete anos de idade. Na altura da sua morte tinha acumulado d�vidas consider�veis.</p><p>O trono de Carlos foi herdado pelo seu irm�o, Jaime, mas o parlamento ingl�s revoltou-se, argumentando que ele abdicara em virtude da sua escolha de religi�o. O ex�rcito recusou-se a dar-lhe o seu apoio e ele n�o teve outra op��o sen�o fugir do pa�s. O parlamento convidou ent�o o protestante Guilherme de Orange para ser seu governante. Foi a primeira vez na Europa em que um corpo eleito nomeou efectivamente o seu pr�prio rei, um golpe quase sem sangue que se tornou conhecido como A Revolu��o Gloriosa. Um dos primeiros actos do novo parlamento foi aprovar uma lei que proibia o monarca ingl�s de ser cat�lico ou de casar com uma cat�lica � uma lei que consta ainda hoje dos c�digos.</p><p>A t�cnica persa de fazer sorvetes e gelados de �gua era conhecida em Floren�a na d�cada de 1660, embora o processo exacto fosse um segredo bem guardado. Um visitante franc�s, um tal L. Audiger, conseguiu de alguma forma lev�-lo para Paris por volta de 1665. Tornou-se <emphasis>limonadier</emphasis> de Lu�s XIV, tendo levado ao rei algumas ervilhas fora de �poca � laia de apresenta��o. N�o se sabe como a t�cnica chegou a Inglaterra e como se desenvolveu para o �gelado� a tempo da grande festa de Carlos II para a Ordem da Jarreteira em 1671, nem se sabe o nome do confeiteiro que, segundo a ementa escrita, serviu �Um prato de morangos brancos e um prato de gelado� apenas para a mesa do rei. Contudo, o nome Demirco h� muito que � atribu�do ao homem que decidiu n�o permitir que os gelados continuassem a ser um privil�gio real. Alguns relatos colocam-no ao servi�o de Carlos I, mas como n�o h� registos da sua presen�a na casa real nessa altura, e como o gelado ainda n�o tinha sido inventado, parece prov�vel que, ao longo dos s�culos, os dois Carlos tenham sido simplesmente confundidos.</p><p>Nas d�cadas que se seguiram � morte de Carlos II, o conhecimento de como fazer gelado espalhou-se lentamente pela Europa. Um dos primeiros livros de receitas foi um manuscrito an�nimo de oitenta e cinco p�ginas intitulado <emphasis>A Arte de Fazer Gelos</emphasis> que, atrav�s das marcas de �gua no papel, foi datado a um per�odo pouco depois de 1700. Inclui receitas de gelados de violetas, de rosas, de chocolate e de caramelo � sabores que teriam parecido t�o extraordin�rios na altura como algo concebido pelos gastr�nomos moleculares nos dias de hoje. Em 1718, uma mulher chamada Mary Eales, que afirmava ter sido confeiteira na corte inglesa, publicou uma receita de �creme gelado� simples ou ado�ado, ou com frutas.� H� tamb�m uma receita de gelado em <emphasis>A Arte da Culin�ria Simples e F�cil</emphasis> da inglesa Hannah Glace, em 1751, que � admiravelmente simples: �Para fazer gelado� coloque-o na tigela maior. Encha com gelo e um punhado de sal.�</p><p>Entretanto, os Quakers e outros n�o-conformistas tinham levado o fabrico dos gelados para a Am�rica. O primeiro registo que existe nesse pa�s encontra-se na Pensilv�nia em 1744: �Entre as raridades� estava um belo gelado, que, com os morangos e leite, sabia deliciosamente.� Tanto George Washington como Thomas Jefferson serviram gelados em jantares de Estado.</p><p>Madame Henrietta d�Angleterre, irm� de Carlos II, morreu realmente depois de beber um copo de �gua de chic�ria gelada. Apesar de se ter suspeitado de veneno, na altura, pensa-se agora que a sua morte foi resultado de uma peritonite causada por uma �lcera perfurada. O Tratado de Dover secreto para o qual ela tanto trabalhara e que foi assinado duas semanas antes da sua morte, era conhecido apenas de uma d�zia de pessoas em Inglaterra, entre elas Louise de Keroualle. Inclu�a a cl�usula: �O rei de Inglaterra far� uma profiss�o p�blica da f� cat�lica e receber� de Sua Majestade Crist�, no decurso dos pr�ximos seis meses, a soma de dois milh�es de coroas para o ajudar neste projecto. A data desta declara��o � deixada inteiramente � sua discri��o.� Talvez n�o seja surpreendente que Carlos tenha negado terminantemente a exist�ncia deste tratado ao parlamento, quando foi questionado sobre ele em 1675: �N�o existe qualquer outro tratado com Fran�a, antes ou depois, que n�o esteja j� impresso e dado a conhecer.� Uma c�pia do tratado foi finalmente encontrada e publicada em 1830.</p><p>Os registos do embaixador franc�s em Londres mostram que os Franceses gastaram muitos milh�es de coroas a subornar pol�ticos e ministros ingleses durante esta �poca. Parece prov�vel, embo�ra nunca tenha sido provado, que o derradeiro objectivo de Fran�a seria engolir a Holanda e depois invadir a Inglaterra, possivelmente usando o pretexto de salvar o cat�lico Carlos II do seu pr�prio parlamento. Isto deixaria a Alemanha isolada como o �nico grande pa�s protestante da Europa.</p><p>A Real Sociedade, tamb�m conhecida como Real Sociedade de Londres para o Progresso do Conhecimento Natural, foi fundada por Carlos II em 1660. Contava entre os seus membros e convidados Robert Boyle, Isaac Newton, Christopher Wren, Samuel Pepys, John Hooke, Gottfried Leibniz, Nicholas Mercator, John Locke e Edmond Halley, para mencionar apenas alguns. Boyle estava particularmente interessado na congela��o e o seu ensaio �Observa��es sobre o Frio� foi um dos primeiros textos a investigar cientificamente os m�todos de congela��o artificiais. Ele pode ter sido in�fluenciado pelo facto de a Europa, na altura, estar a passar pela �pequena idade do gelo�, que possibilitou a realiza��o das feiras do gelo no rio Tamisa. Os interesses dos outros membros iam desde o fabrico de garrafas de champanhe, �s leis da luz e do movimento. S�o geralmente considerados os primeiros pensadores do Iluminismo.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>AGRADECIMENTOS</emphasis></p><p>Estou, mais uma vez, profundamente agradecida aos meus leitores na AP Watt: Caradoc King, Elinor Cooper e Louise Lamont, e �s minhas editoras Rebecca Saunders, na Little, Brown, e Louise Davies. Todos eles me ajudaram a transformar um livro numa hist�ria.</p><p>Aqueles que quiserem fazer os gelados que descrevo devem comprar <emphasis>Ices: the Definitive Guide</emphasis> de Caroline Liddell e Robin Weir (tamb�m publicado como <emphasis>Frozen Deserts</emphasis> e <emphasis>The Ice Cream Book</emphasis>), que inclui muitas receitas de livros de culin�ria antigos. As receitas tradicionais est�o tamb�m dispon�veis em <a l:href="http://www.historicfood.com">www.historicfood.com</a>. A minha maior d�vida, contudo, � para com o livro que me deu pela primeira vez a ideia para este romance: <emphasis>Harvest of the Cold Months</emphasis>, de Elizabeth David, uma hist�ria dos gelos e gelados.</p><p>A biografia de Louise de Keroualle foi escrita originalmente por Henri Forneron sob o t�tulo <emphasis>The Court of Charles II</emphasis>. N�o � um relato particularmente simp�tico. �Durante quinze anos, Louise de Ke�roualle segurou a Gr�-Bretanha na sua m�ozinha delicada, e manipulou o seu rei e estadistas� como se estivesse a manejar o leque� � um coment�rio bastante t�pico desse relato. As cartas que uso na Parte Tr�s entre Colbert, Louvois e Lu�s XIV s�o retiradas directamente das suas tradu��es.</p><p>Charles Beauclerk, descendente de Nell Gwynne, escreveu uma biografia fascinante da sua antepassada, que descreve a rivalidade entre as amantes reais. A minha descri��o do jogo de Perguntas e Ordens, no qual Louise arranjou forma de ela e as suas damas de companhia ficarem nuas para levar Carlos a suspender o parlamento, � retirada desse livro, embora eu tenha adiantado a data um ano.</p><p>Embora muitos dos eventos em <emphasis>A Rainha dos Gelados</emphasis> tenham acontecido como descrevo, o pal�cio de gelo de Louise de Keroualle � baseado naquele que foi encomendado pela imperatriz Anna Ivanovna da R�ssia em 1740, descrito por Ivan Lazhechnkov no seu livro <emphasis>The Ice Palace</emphasis>.</p></section></body><binary id="cover" 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